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Dialética dos Grupos: contribuições de Sartre

à Compreensão dos Grupos


Carlos Rubini
SINOPSE

O presente estudo apresenta uma introdução às idéias de J.P.Sartre a respeito da gênese e


processo dialético dos grupos.
Discorre sobre os diferentes momentos do processo grupal, abordando conceitos de série e
serialidade (dispersão e solidão dos homens) e a superação da serialidade pela constituição do
grupo (grupo em fusão). Analisa o processo de sobrevivência do grupo ou petrificação
progressiva do mesmo através dos conceitos de juramento, organização, fraternidade-terror e
instituição, ressaltando a contribuição de Sartre para a compreensão da vida dos grupos.

ABSTRACT

This paper presents an introduction to J.P. Sartre's ideas concerning the genesis and the
dialectical process of groups.
It reasons on the different stages of the group process by means of series and seriation concepts
(man's dispersion and loneliness ) and seriation surmounting through group constitution ( the
group melting). It analyses the group survival process and / or the progressive group
petrification through the concepts of oath taking, organization, fraternity-terror and institution.
It also emphasizes the important contribution of Sartre's thought to the understanding of group
live.

UNITERMOS

Série e serialidade. Grupo em fusão. Juramento. Organização. Fraternidade-Terror. Instituição.

UNITERMS

Series and seriation. Group melting. Oath. Organization. Fraternity-Terror. Institution.

I - INTRODUÇÃO

Este texto pretende apresentar uma breve introdução teórica às idéias de J.P.Sartre a respeito dos
grupos. Baseia-se no estudo da obra "Crítica da Razão Dialética" onde é proposta não uma
"história real", mas uma "gênese ideal" buscando a inteligibilidade dos grupos e dos diferentes
momentos do processo grupal: série, grupo em fusão, organização e instituição mediados pelo
juramento e fraternidade-terror.

Para a compreensão dos grupos proposta por Sartre necessário se faz, antes de mais nada,
desvencilhar-se do modo de pensar determinista e racional, da lógica das coisas prontas e
acabadas. A inteligibilidade dos grupos passa pela dinâmica da troca e da reciprocidade,
dinâmica esta inscrita numa relação dialética. Dialética como o caminho do homem em
sua
relação com a natureza e a sociedade, a fim de transformá-las: é a lógica da ação "sempre
recomeçada", pois procede de contradições, de negações parciais, de dados jamais acabados e
sempre questionados. É a lógica do inacabado. E a dialética como lógica viva da ação não pode
aparecer à uma razão contemplativa. "Ela se descobre durante a praxis e como um momento
necessário desta, ou se se prefere, ela se cria de novo a cada ação e torna-se método teórico-
prático quando a ação que se desenvolve dá suas próprias luzes". (1 , p. 170 - Vol. I ).

O homem é mediado pelas coisas na mesma medida em que as coisas são mediadas pelo
homem. Este é um exemplo da circularidade do pensamento dialético. Representa um tipo de
raciocínio que deve ser feito para que o cenário humano seja inteligível. Inteligibilidade esta que
é fundamentalmente uma questão de compreender o meio pelo qual uma pluralidade é
constituída como um todo - seja todo sujeito ou todo objeto: "uma totalização é uma
organização unificadora de uma pluralidade e o cenário humano é uma pluralidade de tais
organizações". (1, p. 211-212 - Vol. I ).

Já a totalidade se define como um ser que, radicalmente distinto da soma de suas partes, se
reconhece todo inteiro - de uma forma ou de outra - em cada uma de suas partes e que entra em
contato consigo mesmo quer por sua relação com uma ou várias de suas partes, quer por sua
relação com as relações que todas ou várias de suas partes mantêm entre si. Mas esta realidade
por estar feita por hipótese (um quadro, uma sinfonia, etc.), só pode existir no imaginário, i.é.,
como correlativo de um ato de imaginação.

O grupo, portanto, não pode ser pensado como uma totalidade pronta, acabada, e sim como uma
totalização em processo. E a dialética dos grupos será o movimento sempre inacabado dos
grupos, que surgem e se mantém através da práxis.

Ao movimento dialético nos grupos opõe-se a anti-dialética. Segundo Sartre, existem grupos
esclerosados, reificados (coisificados). É a antidialética de um universo humano no qual os
objetos fabricados, as coisas oriundas da práxis humana transformam-se em ordem "prático-
inerte", vazios de qualquer sentido vivificante. "Grupos, sob a ação de determinadas
circunstâncias e em determinadas condições, morrem antes de se desagregarem. O que quer
dizer que se petrificam, se estratificam.." ( 1, p. 394 - Vol. I ). E o conceito fundamental que
descreve a reificação dos grupos é o conceito de série e serialidade.

II - SÉRIE E SERIALIDADE

O grupo encontra-se em luta constante contra a serialidade e a alienação.

Serialidade é o tipo de relação que se estabelece entre indivíduos que compõem uma série. Série
é uma forma de "coletivo" (conjunto humano) cuja unidade provém do exterior. Sartre dá o
exemplo de uma fila de pessoas diante de um ponto à espera do ônibus. Cada um sente-se em
frente ao outro em solidão, como se nada tivesse em comum com os demais. Essas pessoas - de
idade, sexo, classe e meios muito diferentes - realizam na banalidade do cotidiano a relação de
solidão, de reciprocidade e de unidade pelo exterior. Relação esta que caracteriza os cidadãos de
uma grande cidade.

A solidão é vivida como a "negação provisória por cada um das relações recíprocas com os
outros". Trata-se de uma pluralidade de solidões que expressa a contraparte negativa da
integração dos indivíduos. Cada um vive como reciprocidade no meio do social a negação
exteriorizada de toda interioridade. A intensidade da solidão, como relação de exterioridade,
expressa o "grau de massificação" do conjunto social. Neste nível, as solidões recíprocas como
negação da reciprocidade significam a integração dos indivíduos na mesma sociedade.

A série representa um tipo de relação que nega a reciprocidade. Coisifica o outro e expressa a
alienação do homem na serialidade. É um tipo de relação que tem as características do
"idêntico", onde todos são vistos como equivalentes aos demais. Cada um é apenas um número
substituível por outro. É apenas quantidade.

Os indivíduos na fila do ônibus negam recìprocamente qualquer elo entre seus mundos
interiores. É o ônibus, objeto material e exterior, que determina esta ordem serial. O ônibus,
como ser comum e exterior a cada um, produz a série, vinculando indivíduos numa série onde
cada um é um número qualquer do conjunto. E, segundo Sartre, existem modos seriais de
comportar-se, sentimentos seriais, pensamentos seriais. "A série é um modo de ser dos
indivíduos uns com relação com os outros e com relação ao ser comum e esse modo os
metamorfoseia em todas as estruturas". ( 1, p. 406 - Vol. I ).

III - A PRÁXIS GRUPAL

O grupo se constitui numa luta constante contra a serialidade e a alienação pela superação das
mesmas, o que gera uma unificação das liberdades e com ela a relação de reciprocidade. A
reciprocidade é a relação na qual cada um é para o outro como si mesmo.

Sartre procura determinar a gênese de um grupo, as estruturas de sua práxis ou a racionalidade


da ação coletiva. Para ele "o grupo é como paixão, isto é, enquanto luta interior contra a inércia
prática que o afeta". (1, p. 12 - Vol. II). E a práxis do grupo é o movimento que se institui na
luta contra a serialidade e a alienação. É um atuar com consciência da alienação para uma
transformação ativa. A práxis é o processo pelo qual o homem constantemente busca desalienar-
se, i.é., realizar-se como homem, modificando-se e modificando o meio. Ao modificar o meio
modifica-se também a si mesmo, o que implica em um "fazer" e um "compreender", pois ambos
são momentos distintos da práxis. ( 1, p. 216-232 - Vol. II ).

O grupo constitui-se contra a série, nasce na fusão da serialidade. A série é dispersão e o grupo é
totalização. Dessa maneira a vida do grupo, sua dinâmica, constitui-se numa permanente tensão
entre estes dois polos: serialização e totalização. O grupo mantém sua existência em função de
uma luta permanente contra um sempre possível retorno à dispersão.

A totalização que constitui o grupo é sempre buscada mas nunca conseguida de modo definitivo.
Totalização sempre inacabada, jamais constituindo-se como totalidade, um ser-do-grupo que
transcenda os próprios indivíduos agrupados. Grupo é movimento constante de desenvolvimento
sem jamais atingir uma totalidade estruturada. O grupo se trabalha, assim, constantemente. É
uma práxis comum, grupal, com seus componentes estabelecendo uns com os outros relações
que constituem o grupo. Nesse sentido Sartre define grupo como ato e não como ser. É a ação
do grupo sobre si mesmo.

IV - O PROCESSO GRUPAL

1. O Nascimento do grupo - A Fusão


Como ocorre a transformação de uma série ( indivíduos isolados ) em grupo?

A serialidade encontra-se na origem de todo grupo e este se constitui, num primeiro momento,
contra a serialidade. Ao constituir-se o grupo ocorre uma fusão das distintas serialidades de cada
um dos integrantes. Pode-se descrever essa ruptura do isolamento da série a partir da tensão
original da necessidade (escassez) ou de um perigo comum. "O grupo se constitui a partir de
uma necessidade ou de um perigo comum e se define pelo objetivo comum que determina sua
práxis comum..." ( 1, p. 14-15 - Vol. II ).

O momento da fusão (nascimento do grupo) acontece com a tomada de consciência de uma


tarefa comum (a partir da necessidade, escassez, perigo, etc.) onde cada um depende dos demais.
É o momento em que indivíduos isolados tomam consciência de sua interdependência, de seus
interesses comuns. Estabelece-se um "degelo" das comunicações.

A fusão é o momento fundamental da vida de um grupo. É o momento da superação da inércia


petrificante da série. Além da necessidade e da consciência da mesma é necessário, também,
querer mudar a situação. Surge novo tipo de relação: cada qual torna-se para si e para os outros
uma pessoa com a qual é necessário contar. Há uma transformação qualitativa nas relações entre
as pessoas e a "fusão" dos interesses comuns conduz à uma ação comum (práxis grupal), tirando
as pessoas da inércia, transformando a realidade.

Um traço essencial da fusão é que cada um é o grupo e o grupo está em cada um como uma
síntese volvente e sempre atual, em que cada um é, ao mesmo tempo, "mediador" e "mediado"-
ele próprio e o grupo. (1, p. 39 - Vol II). Ocorre uma unificação das liberdades estabelecendo-se,
deste modo, uma relação de reciprocidade. E na relação de reciprocidade cada um é para o outro
como si próprio. Cada um é o mesmo que o outro num sentido humano, e não de idêntico ou de
coisa. É a interiorização da reciprocidade, interiorização do outro como vínculo humano.

Para Sartre as relações recíprocas e ternárias fundamentam todas as relações entre os homens. E
no grupo as relações são ternárias e não binárias ( eu - tu) , pois entre o indivíduo e o grupo há
sempre um terceiro. E entre dois indivíduos do grupo também há um terceiro, através da
mediação. Na mediação tanto o grupo pode ser o terceiro como cada integrante pode funcionar
como terceiro no grupo. Todos os membros do grupo são "terceiras pessoas" ao mesmo tempo
em que se associam em pares de reciprocidade. Como terceira pessoa cada um totaliza as
reciprocidades de outrem. Essa é uma das mediações que constitui o grupo, pois cada terceira
pessoa revela o grupo para as outras terceiras pessoas, que são todas constituintes do grupo. (1,
pg. 39-46 - Vol. II).

O grupo em fusão está em toda parte. A unidade do grupo é ubiqüidade. Nesta ubiqüidade não é
aquilo que sou no outro - nesta práxis unida não existe outro. Na práxis do grupo em fusão a
práxis de cada um é realizada por cada qual como eu em toda parte. A circularidade do grupo
em fusão vem de toda parte e ao mesmo tempo, como atividade livre, real. A unidade do grupo
fundido encontra-se no interior de cada síntese. Cada ato de síntese está unido por interioridade
recíproca a todas as outras sínteses do mesmo grupo. E também é interioridade de cada uma das
outras sínteses. A unidade é a unificação vinda do interior da pluralidade das totalizações. A
unidade do grupo, segundo Sartre, é dada pela ação grupal, pela unidade das ações. A unidade
do grupo é prática. Não é ontológica, de um ser ou estado, mas de um ato em curso. (1, p. 66 -
Vol. II).
"A unidade grupal é vista como relação sintética que une os homens com um ato e para um ato".
(1, p.55 - Vol. II ). Tomando o exemplo das pessoas na fila de espera do ônibus, o número de
pessoas era a série, uma quantidade de indivíduos isolados. No grupo em fusão passa-se à ordem
da qualidade. Assim o décimo, por exemplo, no grupo em fusão é ao mesmo tempo todo mundo
do grupo de dez e ninguém, já que cada pessoa é necessária para se constituir um grupo de dez
pessoas. Cada um dos membros assume, idealmente, as dez posições já que este grupo não é
uma reunião inerte de dez pessoas. Trata-se, portanto, de uma relação sintética que realiza a
unidade do grupo pela ação, pela unidade (ubiqüidade) das ações dos componentes do grupo.

No grupo em fusão a relação sintética faz com que cada um seja em toda a parte o mesmo. Cada
um pode decidir por todos. Esse "nós" grupal é "prático e não substancial", "é o conjunto das
liberdades práticas reunidas na brusca ressurreição da liberdade que se levanta contra a prisão do
mundo prático-inerte". (1, p. 66 - Vol. II). Tal explosão, segundo Sartre, é a liquidação súbita
dessa prisão pela liberdade comum em oposição à necessidade.

Resumindo, o grupo em fusão é o inverso da serialidade. Contitui-se por meio e no interior da


dispersão que precede o grupo. E sua primeira característica é manter sua existência como uma
luta constante contra uma volta, sempre possível, à série, à dispersão, solidão e alienação. Uma
segunda característica é a totalização inacabada, que constitui o grupo, sem se constituir num
ser-grupal que transcenda os indivíduos agrupados. Caracteriza-se como práxis grupal, ação do
grupo sobre si mesmo, trabalhando-se incessantemente numa relação sintética, fundindo as
multiplicidades das sínteses seriais.

2. O Juramento

Uma vez constituído o grupo, há o risco constante de nova dispersão (volta à série). Surge então
o "juramento" cuja origem é o temor permanente da dispersão inicial, caracterizando-se como
compromisso: a liberdade de cada um comprometida com a permanência no grupo. "E quando a
liberdade torna-se práxis comum para construir a permanência no grupo produzindo por ela
mesma e na reciprocidade mediada sua própria inércia, este novo estatuto chama-se juramento".
(1, p. 84 - Vol II).

O juramento surge contra o risco de ruptura do grupo, contra o próprio risco da liberdade. Pode
ser visto como uma forma de "resistência do grupo" à ação da separação ou afastamento, como
garantia do futuro através da falta de mudança produzida no grupo pela liberdade. Pelo
juramento o grupo procura tornar-se seu próprio instrumento contra a serialidade que o ameaça
de dissolução.

Jurar-se-á contra toda força que possa afastar do grupo, contra todo risco de liberdade de cada
um na medida em que é atraído para outras partes. O juramento é a "ditadura do mesmo em cada
um". Para Sartre o juramento torna-se inteligível como ação comum do grupo sobre si mesmo.
No grupo juramentado nada de material une os seus componentes. O perigo não é real, é apenas
possível.

O juramento é um "poder difuso da jurisdição" no grupo. " É o poder de cada um sobre todos e
de todos sobre cada um". (1, p.104 - Vol. II ). Ele me garante contra minha própria liberdade e
institui meu controle sobre a liberdade do outro. É um tipo de fraternidade-terror que
fundamenta o grupo em sua permanência.
O juramento é a passagem de uma forma imediata do grupo com risco de dissolução à uma outra
forma permanente mais reflexiva.

Sartre distingue duas evoluções do grupo em fusão: o grupo de sobrevivência e o grupo


juramentado. A primeira diz respeito à uma fusão face à ameaça e perigo real, material, exterior.
E a segunda, no grupo juramentado não é algo material que une os membros, pois o perigo agora
não é real, é apenas possível. Assim a origem do juramento é a ansiedade ante uma possível
ameaça ou perigo. E uma vez desaparecida a ameaça exterior (pela fusão) há o temor produzido
pelo próprio grupo (grupo juramentado). É um temor reflexivo, interior.

A existência, portanto, do medo e do temor como condição de permanência no grupo é


necessária. O perigo remoto pode não ser suficiente para manter o grupo reunido. E no âmago
do juramento substitui-se o medo da pressão exterior por outra pressão interior. E "esse medo,
livre produto do grupo e ação corretiva da liberdade contra a dissolução da série é o Terror". ( 1,
p. 95 - 96 - Vol. II ).

O juramento revela o surgimento de um estatuto de permanência no grupo que faz surgir a


organização do grupo como objetivo imediato do grupo organizado.

3. A Organização

A organização se dá quando o grupo se toma como objetivo, a partir do juramento. Com o


estatuto de permanência produzido pelo juramento, a questão da organização torna-se o objetivo
imediato do grupo estabelecido.

O grupo se toma como objetivo e a "organização como ação do grupo estatutário" recai sobre si
mesmo e seus membros. Isso quer dizer que o grupo se trabalha: se faz grupo e só continua a ser
grupo na medida em que se faz continuamente. Significa uma auto-criação contínua. O grupo se
trabalha (se organiza) para poder lograr seus objetivos.

No estágio do grupo em fusão o indivíduo era o indivíduo orgânico, na medida em que


interiorizava a multiplicidade das terceiras pessoas, sendo ele próprio uma terceira pessoa não
juramentada, que vivia sua liberdade na práxis comum, na ubiqüidade da liberdade. E é esse
indivíduo orgânico que "se perde pelo juramento para que exista o indivíduo comum".

Já no estágio da organização o poder se define para cada um no quadro de distribuição de


tarefas. É a função. E no exercício da atividade organizada, a função é uma definição positiva
do indivíduo comum. É uma determinação da práxis individual. Nesse estágio o indivíduo
comum "pertence ao grupo na medida em que executa determinada tarefa, e apenas essa". ( 1,
p.115 - Vol. II)

Sartre usa o exemplo de uma equipe de futebol, onde "a função de goleiro, atacante, etc.,
apresenta-se como uma pré-determinação para o jogador que inicia sua carreira". O jogador é
significado por essa função. Cada um exige dele "pela equipe" que faça o seu dever no inteior do
quadro definido pela organização. A função é uma "tarefa a preencher". No momento do jogo os
atos particulares do jogador "não apresentam qualquer sentido a não ser em conjunto com todos
os atos dos demais jogadores de sua equipe". Isto é, "cada função supõe a organização de todas".
(1, p. 122-137- vol. II).
Assim o espírito de equipe é visto por Sartre como a "interdependência dos poderes em ligação
com o objetivo comum". A iniciativa individual não é eliminada, pois a função é "determinação
indeterminada" que deixa lugar à criatividade individual. É portanto ele, o indivíduo comum
definido pela função, que age com todos os outros no sentido dos objetivos, na totalização
dessas práxis. Já a práxis do grupo é a única ação específica do grupo organizado, i.é., a
organização e a reorganização constante ou sua ação sobre os seus membros. O grupo não
trabalha. Para Sartre ele se trabalha na medida em que se organiza.

O grupo só "age sobre o objeto na medida em que age sobre si mesmo". E sua ação sobre si - a
única que exerce enquanto grupo - se define a partir de sua práxis. Isso significa que "o grupo
define, dirige, controla e corrige sem cessar sua práxis comum..." E esse conjunto de operações
supõe a diferenciação, por exemplo: a divisão de tarefas supõe a criação de aparelhos
especializados no interior do grupo, tais como orgãos diretores, grupos encarregados de
coordenar, mediar, distribuir ou ajustar mudanças, serviços administrativos, etc. Este primeiro
momento da diferenciação é, fundamentalmente, uma ação do grupo sobre si mesmo. (1, p.113 -
Vol. II ).

A partir dessa ação organizada que recai sobre o próprio grupo surge o problema do poder
interno (hierarquia, funções ) que coloca em risco a soberania do grupo. Isso porque, no estágio
da organização, o poder se define para cada um no quadro de distribuição de tarefas. No grupo
organizado efetua-se uma divisão de tarefas, estabelece-se processos de trabalho e de decisão.
Há o reconhecimento implícito de normas comuns as quais devem ser cumpridas. O trabalho do
grupo é efetuar sua própria organização em função de sua finalidade, de si próprio como
objetivo.

O trabalho do grupo possui um duplo significado: a) o grupo se trabalha para conquistar, numa
contínua criação, a unidade ontológica que lhe falta e b) o trabalho em grupo (o grupo
trabalha) realiza uma unidade prática dos organismos que o compõem.

O grupo em ação organizada deve ser compreendido por duas espécies de atividades simultâneas
e das quais uma é função da outra : a) a atividade dialética como imanência ( interna - de auto-
diferenciação e reorganização da organização) e b) a atividade dialética como ultrapassagem
prática do estatuto comum no sentido da objetivação do grupo (externa - transformação do
campo, produção, luta, conquistas, etc.).

4. Fraternidade - Terror

Na luta permanente para evitar sua dissolução na série, o grupo tenta obcecadamente atingir sua
unidade, sem jamais consegui-la. Segundo Sartre, o grupo é uma "existência" sem "essência". E
o perigo constante de dissolução que existia no grupo em fusão também está presente no grupo
organizado. Tal conflito não se configura como paralização do grupo. Pelo contrário, como foi
visto, vai engendrar os estágios que possibilitaram a passagem da fusão à organização por
intermediação do juramento, que introduziu o estatuto de permanência no grupo.

As manifestações de fraternidade começam a surgir quando o grupo está em fase de


organização. Sua origem encontra-se no juramento no momento em que começam a surgir os
temores da eclosão do grupo pela desorganização.

"A fraternidade se apresenta no grupo como um conjunto de obrigações recíprocas e singulares,


definidas por todo grupo a partir das circunstâncias e seus objetivos...
A fraternidade é o laço real dos indivíduos comuns, pois cada um vive seu ser e do outro como
forma de obrigações recíprocas. A fraternidade é o direito de todos através de cada um sobre
cada um ..." (1, p.103 - 104 - Vol. II ).

Dessa maneira a fraternidade-terror possibilita o controle das possíveis fugas e não-participação.


Exerce a "depuração" dos opositores e traidores. O terror não se constitui numa ditadura da
minoria. É uma estrutura fundamental do grupo em sua totalidade que fundamenta um tipo de
relação. Cada um se sente solidário com todos na solidariedade prática do perigo vivido e na
violência comum. ( Exemplo do linchamento do traidor dado por Sartre).

A cólera e a violência são vividas, ao mesmo tempo, como terror exercido sobre o traidor e
como laço de amor entre os linchadores. Como o grupo tem sua origem na força das ameaças
exteriores (perigo), ao diminuir a intensidade da mesma (mesmo que o perigo não tenha
desaparecido) é substituído por um substituto inventado: o terror. "O invento do terror como
contraviolência engendrada pelo próprio grupo e aplicada pelos indivíduos comuns em cada
agente particular é a utilização da força comum, até então comprometida contra o adversário
(perigo), para a constituição do próprio grupo". (1, p.105 - Vol. II ).

A fraternidade - terror, como autêntica relação de interioridade entre os membros do grupo


funda sua violência e sua força coercitiva no mito do novo nascimento. Terror e juramento se
referem ambos ao temor fundamental de uma dissolução da unidade.

O grupo continua, assim, sua luta incessante em adquirir seu "estatuto ontológico", a unidade de
um organismo. Produz-se a si mesmo por meio de novas práticas, sob a forma de um grupo
institucionalizado, o que significa que os orgãos, as tarefas, as funções e o poder vão
transformar-se em instituição. O grupo"procurará conseguir um novo tipo de unidade
institucionalizando a soberania e o indivíduo comum em indivíduo institucional". (1, p.260 -
Vol. II ).

5. A Instituição

É na práxis e através da práxis que surge um novo estatuto da inércia no grupo, quando o grupo
organizado inicia sua auto-transformação tornando-se instituição. É o ressurgimento, mais uma
vez, da serialidade no âmago da unidade em outro nível. A organização torna-se instituição, o
indivíduo organizado torna-se indivíduo institucionalizado, as reciprocidades mediadas do grupo
organizado tornam-se elos seriais de terceiros. O que ocorre então, é a intensificação do
inorgânico dentro do grupo como luta contra o próprio inorgânico, contra a dissolução, a
dispersão e a morte. "Neste nível se define a instituição, onde certas práticas necessárias para a
organização recebem um estatuto ontológico novo institucionalizando-se". (1, p. 268 Vol. II ).
Esse "estatuto ontológico" não significa que o grupo chegou a atingir o objetivo que
persegue (adquirir a unidade de um organismo), mas que seu modo de ser foi radicalmente
modificado pela passagem dialética de organização à instituição.

A instituição não pode ser produzida como livre determinação da prática por si mesma. Mas se a
prática volta a tomar a cargo a instituição como defesa contra o terror, o faz na medida em que
esta petrificação de si mesma é uma metamorfose induzida, cuja origem está em outro lugar: sua
origem é, precisamente, o renascimento da serialidade. Nesse sentido, "a instituição possui
características distintas de ser uma práxis e uma coisa". (1, p. 269 - Vol. II ).
A instituição, como ressurgimento da serialidade e da impotência, necessita consagrar o poder
para garantir sua permanência pela lei. Impotência porque a instituição, como algo
fundamentalmente imutável, torna minha práxis no grupo institucionalizado como incapaz de
modificá-lo. Isso porque esta prática se isola, enquanto se produz no meio comum e é definida
por novas relações humanas. Relações estas baseadas na impotência serial. Assim essa
impotência fundamenta a existência do soberano, pois a autoridade repousa na inércia e na
serialidade.

A prática torna-se instituição quando o grupo, como unidade abalada pela alteridade, não
consegue mudá-la sem transformar-se inteiramente. Exemplos típicos de instituições temos,
segundo Sartre, no Exército, na Igreja, no Partido, etc. O grupo institucional surge através de
transformações, transformando a função (característica da organização) em obrigação. Exemplo:
obrigações militares, religiosas, familiares, etc. Surgem assim as estruturas de comando e
obediência, a estrutura do poder com a autoridade do comando. Mas, ao mesmo tempo, o grupo
regressa à serialidade original. E com isso as instituições perdem a ação vivificante dos grupos
em fusão e instala-se a rigidez das regras. Surge a burocracia, tornando as regras um fim em si,
adquirindo um caráter imperativo. As formalidades, procedimentos e obrigações são mais
valorizadas que os objetivos. As relações interpessoais empobrecem e cristalizam-se. O grupo
institucionalizado volta à inércia e seus componentes sujeitos isolados que se submetem às
regras da instituição. O grupo, após tanto lutar para evitar a dispersão da série, é um novo
conjunto de indivíduos dispersos que não se comunicam e sem consciência das regras que os
regem. Voltam à alienação da série.

V - CONCLUSÃO

É inegável a valiosa contribuição teórica que Sartre oferece para a inteligibilidade das relações
humanas e da vida dos grupos. Sua análise joga um facho luminoso sobre o intrigante problema
do relacionamento humano e suas diferentes formas de associação.

À luz de sua teoria pode-se observar e constatar a realidade da existência de relações


esclerosadas, cristalizadas, que se mantêm apenas pelo que já está ou foi instituído. Relações
que são maneiras seriais de ser, de sentir, etc. Pode-se verificar a existência de grupos, casais e
organizações regidas por uma rígida burocracia da rotina, do conformismo e alienação.
Outrossim, também é possível verificar como essas mesmas relações ou formas grupais de
convívio humano, no afã de livrar-se e afastar o risco de dissolução e desagregação possíveis,
procuram a garantia da permanência construindo estruturas e mecanismos de relação que tornam
inviável o próprio projeto de relação a que se propõem.

Por outro lado, a visão de que o grupo se faz continuamente e que permanentemente tem que se
fazer, coloca em questão o mito da eternidade e da maturidade das relações e grupos. O grupo é
ação e um permanente fazer e fazer-se. É devir. E esta é uma das grandes contribuições que
Sartre oferece aos que trabalham com grupos ao estudar o grupo social dialética e
existencialmente. Seu pensamento constitui-se um importante ponto de reflexão para a
psicologia dos grupos.

VI - BIBLIOGRAFIA
- SARTRE, J.P. Crítica de la Razon Dialéctica .(1960). 1a. ed. Vol. I e II.Buenos Aires,
Editorial Losada, S/A, 1979.

Este artigo foi originalmente publicado na revista Brasileira de Psicodrama Volume 7, número 2, ano
1999.

Psicólogo Carlos Rubini


Psicodramatista Mestre em Psicologia
Editor Responsável do Caderno de Psicodrama do Jornal Existencial On Line