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24/02/2015 A 

FUNÇÃO DO JUIZ VISUALIZADA A PARTIR DO JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES ­ Crítica do Direito

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JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES
Colaboradores
Entrevistas
Dossiê ­ Crise do PABLO MALHEIROS DA CUNHA FROTA [1]
Capitalismo
Resenhas
Sumário: 1. Breves considerações 2. Jurisdição. Poder. Razões de validade das ações e pontos
Notícias & Opinião
externos e internos de análise da decisão judicial 3. Sentido do direito e da jurisdição: argumentos
Eventos
para a superação do legalismo 4. Sentido atual da função judicial, da jurisdição e do juiz: modelos
Links de juridicidade e de jurisdição 5. Análise dos três modelos de jurisdição e preferência pelo
Expediente e Conselho jurisprudencialismo 6. Conclusão de António Castanheira Neves 7. Referências
Editorial
Normas de Publicação e
 
Linhas Editoriais
RESUMO
Quem somos
Contato O papel do juiz na contemporaneidade é um dos temas mais candentes de teoria e de filosofia do direito, porquanto, por meio desta
discussão, é que se afere a efetivação (ou não) de princípios democráticos, do constitucionalismo e da falada tripartição de poderes. O
Sitemap presente artigo procura descrever o pensamento de António Castanheira Neves, jusfilósofo de Coimbra, sobre o assunto, tendo como
referência três modelos de jurisdição elegidos pelo Professor Castanheira Neves: a) normativismo legalista; b) funcionalismo jurídico; c)
jurisprudencialismo, a fim de saber qual deles melhor responde ao problema ora enfrentado, pois ao fim e ao cabo busca­se uma decisão
0 justa para cada caso concreto. Este objetivo pode ser atingido a partir da efetivação da metodologia analítica e de conteúdo apresentada
pela ideia de jurisprudencialismo, que se encontra para além dos recortes epistemológicos das vertentes do jusnaturalismo e do
positivismo jurídico.

Palavras­chaves: decisão, papel, juiz, jurisprudencialismo, princípios.

ABSTRACT

The judge's role in contemporary society is one of the hottest topics of theory and philosophy of law, as it is through this discussion that
measures the effectiveness (or not) the principles of democracy, constitutionalism and the tripartite division of powers spoken. This article
seeks to describe the thought of Antonio Castanheira Neves, jusfilósofo of Coimbra, on the subject, with reference to three models of the
jurisdiction chosen by the teacher Castanheira Neves: a) normativism legalistic b) civil law, c) case law in order to know which one best
meets the problem now faced since the end of the day if you seek a fair decision for each case. This goal can be achieved from the
execution of the analytical methodology and content submitted by jurisprudencialismo idea, which is beyond the epistemological clippings
strands of natural law and legal positivism.

Key­words: decision paper, judge, jurisprudence, principles

1. BREVES CONSIDERAÇÕES

Objetiva­se com o presente artigo levantar a discussão sobre o papel e a importância do juiz na atualidade, a fim de suscitar uma aberta
discussão sobre o Direito que temos e o Direito que queremos.

Para tanto, utilizar­se­á somente um referencial: o trabalho do Professor António Castanheira Neves (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p.
229­268), por sintetizar o pensamento do jusfilósofo coimbrão sobre o tema “o papel da jurisdição e do juiz no Direito contemporâneo”. O
assunto será analisado segundo três modelos de jurisdição elegidos pelo Professor CASTANHEIRA NEVES: a) normativismo legalista; b)
funcionalismo jurídico; c) jurisprudencialismo, a fim de saber qual deles melhor responde ao problema ora enfrentado. Descrever­se­ão os
argumentos do professor coimbrão, sem que se faça juízo de valor sobre o seu pensamento.

A valoração realizada neste artigo circunscrever­se­á ao seguinte: o raciocínio do Professor Castanheira Neves poderá contribuir para a
efetivação de um Direito real e concreto, indagando sobre a autonomia do próprio Direito, sem que ele se torne um mero discurso
conformador e justificador do político, do financeiro/econômico e de outras searas do conhecimento, como visto nos últimos tempos.

2. JURISDIÇÃO. PODER. RAZÕES DE VALIDADE DAS AÇÕES E PONTOS EXTERNOS E INTERNOS DE ANÁLISE DA
DECISÃO JUDICIAL

A jurisdição, a função ou o poder judicial é um dos problemas do Direito, em razão da sua projeção na sociedade e da possibilidade que
este ramo do conhecimento possui de exorcizar o poder como poder e a força arbitrária, por meio da imposição das razões de validade às
ações interativas das pessoas. É importante atualmente conferir poderes ao juiz, indagando­se, porém, os pressupostos, as dimensões,
o sentido e as consequências de tal atribuição (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 229).

Há um paradoxo na análise da jurisdição, visto que se confrontam a necessidade de intervenção estatal e o descrédito da função judicial.
Avulta a importância de uma intervenção institucional dos tribunais constitucionais internos e europeus (Tribunal de Justiça da União
Europeia) em sua função interpretativo­integradora, conferindo conteúdo decisivo e vinculativo a essas decisões. Ao mesmo tempo,
há uma insatisfação quanto ao objeto em que se tornou a função judicial, que está normativamente inadequada “por não conferir
respostas às novas questões apresentadas” e institucionalmente ineficaz “por não conseguir absorver e responder aos conflitos
existentes”, haja vista a sua capacidade decisória e a sua estrutura funcional (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 230).

Pode­se falar em crise do juiz? CASTANHEIRA NEVES responde positivamente, porque a existência da “crise do juiz” consiste em saber o
sentido da jurisdição, já que crise, para ele, é uma circunstância negativa, uma quebra anômica que se lamenta e, mormente, o fim
histórico­cultural de um sistema. É que este perde o seu sentido contextual, esgotando­se o paradigma em vigor e tornando necessária a
construção de um novo paradigma. A estrutura organiza o funcionamento do paradigma sistêmico, “mas só o sentido funda e

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constitutivamente sustenta”. A superação da crise ocorre com a crítica e por intermédio de uma reflexão “refundadora de um novo
sentido” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 230­231).

A mencionada análise aponta para dois tipos de problemas: estruturais ou externos e interno ou intencional − o problema do
sentido. Os problemas estruturais ou externos ou político­constitucionais se dividem em: a) institucionais − organização de
governo; b) legitimação decisória; c) problema estatutário − garantia de independência e de controle das responsabilidades
disciplinares dos juízes; d) problema funcional ad doc − modo de funcionamento dos Tribunais esperado pelas pessoas. Todos esses
problemas são importantes, mas não revelam a substancial questão: “a intencionalidade material da própria jurisdição como jurisdição e
o sentido que ela assume e realiza. Dizem­nos do poder, da responsabilidade, do modo do fazer jurisdicional, mas não nos dizem o que é
esse fazer ou o que nele se faz” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 231­232).

Desse modo, o problema interno ou intencional − problema do sentido − é constitutivo e toca a essência do problema, e não a sua
forma ou a sua condição de possibilidade, caracterizada pelo problema externo. Tal essência depende da correta solução dos problemas
externos, que serão um correlato funcional “do que seja ou se pretenda que seja a jurisdição enquanto tal” (CASTANHEIRA NEVES,
2007, p. 232). Tais problemas, portanto, tornam­se diretrizes para pensar o Direito, a Jurisdição e o Juiz contemporaneamente.

3. SENTIDO DO DIREITO E DA JURISDIÇÃO: ARGUMENTOS PARA A SUPERAÇÃO DO LEGALISMO

A jurisdição realiza o Direito, cujo sentido influencia o sentido da jurisdição, não constituindo o legalismo a perspectiva exclusiva do
Direito contemporâneo, embora ainda seja um modelo de juridicidade alternativa ou concorrente e uma referência comum. Não se olvida
que o legalismo foi superado por fenômenos jurídicos, a repercutir nos papéis da função jurisdicional. CASTANHEIRA NEVES, revendo
criticamente o hodierno sentido do Direito, corrobora a assertiva de LENOBLE: “o positivismo jurídico está definitivamente morto; devemos
dar substância a uma razão jurídica alargada” (LENOBLE) (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 232).

CASTANHEIRA NEVES fundamenta a superação do legalismo com os seguintes argumentos:

α) A recuperação da autonomia normativo­intencional do direito perante a legalidade (a mera legalidade) através de uma renovada
distinção entre ius e lex, referida a dois pólos principais (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 232).

O primeiro polo é a separação dos direitos, especialmente os fundamentais, da lei, porque tais direitos preferem à lei, enquanto o
contratualismo moderno iluminista considerava os direitos fundamentais como “direitos naturais” – pressuposto e prius fundante deste
contratualismo. A Revolução Francesa de 1789 enuncia os direitos fundamentais para assegurar a participação política, mesmo com o
voto censitário, por meio da lei, sinônimo de direito à época, que convertia os direitos objetivamente. A lei transformava, reconhecia e
garantia tais direitos como direitos subjetivos (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 233).

Atualmente, os direitos fundamentais – presentes na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) e em várias outras
declarações posteriores – encontram­se “antes e acima da lei, em todas as constituições contemporâneas e no pensamento jurídico em
geral”, segundo CASTANHEIRA NEVES. Não é a lei que confere validade jurídica a direitos, como direitos subjetivos, mas são os direitos
fundamentais que condicionam a validade jurídica da lei, como se extrai da Constituição portuguesa, art. 18 (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 233) e da Constituição brasileira de 1988, art. 5º, § 1º.

O sentido atual dos direitos fundamentais abarca duas perspectivas contrárias: a) individualismo liberal (liberalismo) e b)
compreensão comunitária − direitos têm deveres correlatos de sentido. Esta concepção comunitária supera a ideia de indivíduo titular
de direitos, de sujeito que assume os direitos no quadro de cidadania vinculante e aponta para a concepção de pessoa, com uma
constitutiva e indefectível responsabilidade comunitária (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 233).

O segundo polo é o reconhecimento de princípios normativos transcendentes à lei, à legalidade, e que fundamentam normativamente a
juridicidade, nos quais as próprias leis devem respeitar os “princípios de justiça”. CASTANHEIRA NEVES afirma que os “princípios de justiça”
diferem dos princípios gerais de direito, porque estes são axiomas jurídico­racionais do positivismo normativo­sistemático. Os
“princípios de justiça” são “expressões normativas do direito em que o sistema jurídico positivo cobra seu sentido, e não apenas a sua
racionalidade”, a gerar uma vasta problemática no pensamento jurídico contemporâneo. Essa perspectiva translegal tem uma
intencionalidade concreta, e a sua normatividade é realizada na práxis histórico­social, “pois o seu sentido autêntico só se atinge
realizando­se e na sua realização” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 234).

O normativismo presente na legalidade é pensado doutrinariamente em uma juridicidade existente no próprio sistema dogmático­
normativo que a define. O sentido axiológico­normativo e material da juridicidade translegal exprime nos direitos e nos princípios uma
titularidade efetiva e real no contexto social – em uma projeção dominante na prática histórica – que expressa os compromissos
axiológico­normativos dos princípios de justiça. Os direitos só o são se efetivam condições de realização pessoal. Os princípios só o são
se constituírem a práxis e a determinarem normativamente, como referências axiológico­normativas da prática e como fundamento
normativo para o juízo (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 234).

CASTANHEIRA NEVES diferencia princípio e norma. A norma possui uma índole e uma estrutura lógico­formal representada por uma hipótese
prevista e definida por uma condição normativa “se, então”. Dessa maneira, a norma enuncia apofanicamente falsidade ou veracidade que
permite ao silogismo operar logicamente, cuja autonomia se basta em si. CASTANHEIRA NEVES aduz que tais características da norma a
tornam objeto do conhecimento: a) “já hermenêutico” (a “interpretação da lei”); b) já dogmático (que se manifesta no construtivismo
jurídico); c) já sistemático (o que obteve uma expressão acabada no sistematicismo da “teoria pura do direito”)” (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 234­235).

Os princípios não possuem hipóteses de previsão e referencial determinados porque têm por essência regular um compromisso
axiológico e prático, cuja normatividade se determina realizando­se, solicitando também uma compreensão prática, não restrita à
dogmática e à lógica. CASTANHEIRA NEVES afirma que essa “normatividade só é possível de se atingir assumindo a dialética entre o seu
regulativo, que convoca à realização, e a prática (de acção e judicativa) em que encarne e a manifeste realizada” (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 235).

As normas esperam aplicação e, por último, a visam, porém podem compreender­se e determinar­se sem a aplicação, devido à
substância abstrata que têm por essência. Os princípios possuem determinados os seus sentidos em concreto, a tornar responsável o
juízo decisório no momento da solução das controvérsias “práticas suscitadas pela invocação daqueles mesmos direitos e destes
princípios” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 235).

β) De consequência análoga, para o que sobretudo nos importa, são os limites normativo­jurídicos da lei, a abrirem um espaço que só a
jurisdição na sua realização concreta do direito, em necessária intenção normativamente constituenda, pode preencher. Desde logo,
limites normativos objectivos, de que damos conta quando reconhecemos que o direito legalmente positivado fica sempre aquém do
domínio histórico­socialmente problemático (na extensão e na índole concreta dos problemas) a que se terá de responder jurídico­
normativamente – isto é, quando reconhecemos, e a própria dinâmica social o torna evidente, que o sistema jurídico só pode ser
normativo­funcionalmente adequado a essa sua problemática social afirmando­se como um sistema aberto, que nenhuma legalidade pode
fechar (posto fosse essa a pretensão do legalismo sistematicamente axiomático), e concluímos assim pela necessidade, para além
mesmo da integração das lacunas no seu sentido tradicional, do autônomo desenvolvimento do direito através de sua própria realização
(através da sua jurisprudencial realização). Uma segunda categoria de limites normativos, agora intencionais, impuseram­se logo que a
realização do direito assumiu um sentido normativamente material (não apenas lógico­dedutivo formal). É que a realização do direito com
esse sentido, utilize embora como seu critério a norma legal, terá de mostrar­se concretamente adequada ao mérito problemático dos
casos decidendos e não menos normativamente justificada em referência aos fundamentos axiológico­normativos (valores e princípios)
que dão sentido normativo material ao próprio direito. Porquanto, não podendo deixar de ser essa normativo­problemática realização pelo
menos uma “concretização”, com o específico actus constituinte que esta exige, a insuficiência que já por isso sempre se verificará nos
disponíveis critérios jurídicos­formais que se utilizem obriga a ir normativamente para além deles, convocando os fundamentos
normativos que dêem sentido à juridicidade e possam assim orientar constitutivamente essa problemática concretização
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 235­236).

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24/02/2015 A FUNÇÃO DO JUIZ VISUALIZADA A PARTIR DO JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES ­ Crítica do Direito
O mencionado sistema aberto é composto por normas com cláusulas gerais, normas em branco, conceitos indeterminados e de valor,
etc. A interpretação leva todas essas categorias em conta para efetivar a sua função concretizadora – conectando­se a lex scripta e o ius
non scriptum (Esser). A citada realização do direito − monodinâmica constitutivo­integradora − não prescinde de elementos normativos
translegais e transpositivos, diferentemente do formal legalismo “e do seu unidimensional e predeterminado normativismo”
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 236).

CASTANHEIRA NEVES alude à realização material do Direito, a indicar a dupla transcendência das normas legais em relação às situações
objetivas que pretende regular, tendo em vista o caráter constitutivo referencial dos princípios fundantes do Direito enquanto tal, “do
normativamente integral sistema do direito”, e ao concretum problemático dessa realização. É que o direito legalmente realizado consiste
num continuum constituendo. Isso porque os princípios normativo­jurídicos articulam­se dialeticamente com o mérito jurídico do problema
concreto, por intermédio da mediação entre os princípios normativo­jurídicos, a lei e a realidade jurídica normativamente intencionada
(Normbereich, de F. MÜLLER), agregando­se outros limites normativos para a normatividade legal, como os limites temporais
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 236).    

O legalismo normativista opera atemporalmente, e seu fim ocorreria pela revogação formal. Ressalte­se, porém, que os princípios
normativos e a realidade concorrem com a lei, e as historicidades dos dois primeiros alteram, evoluem e modificam a lei, demonstrando
que o seu objetivo intencional não mais corresponde ao problema decidendo, a gerar a obsolescência da norma ou a caducidade
normativa da norma, “por alteração decisiva dos princípios fundamentais do sistema” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 237).

A obsolescência da norma demonstra a modificação do seu objeto, “pelo que deverá corrigir­se em conformidade, ou deixa sequer de
ter objecto ou deixará mesmo de ter sentido a sua aplicação”. A caducidade normativa da norma gera a alteração ou a subtração do
sentido de juridicidade da norma, devendo corrigir­se ou se tornar sem fundamento – “hipóteses que sempre justificarão um decidir contra
legem, invocando uma crítica intenção secundum ius (cfr. Jörg NEUNER, Die Rechtsfindung contra legem, 1992). É este o resultado
da dimensão histórica do direito e do seu sistema normativo relativamente a elementos que neles têm uma subsistência formal – como é
o caso das normas formalmente prescritas e, portanto, da lei” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 237).

A manifestação da historicidade normativa translegal e transpositiva também revela o sentido axiológico normativo, possibilitando uma
“consciência jurídica geral” dos seus valores, dos seus princípios e dos critérios normativos decisivos, já que tal consciência é uma
pressuposição – “simultaneamente um resultado constituído pela prática de sua histórico­social realização, a perceber a analogia com o
círculo hermenêutico”. A aludida intencionalidade – cobradora do sentido do direito – apõe o último limite normativo à lei: limite de
validade. Essa intencionalidade é fundamental e fundamentante, sendo lícito ajuizar e controlar o Direito, “ou de uma essencial intenção
ao direito, o conteúdo normativo­jurídico das normas prescritas legislativamente” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 237­238).

O Direito se constitui como Direito se percebermos a necessidade de superação constitutiva dos limites legais na concreta realização
jurídica, a gerar duas conclusões: a) a lei tem uma prerrogativa, mas não o monopólio de criação do Direito; b) tal criação concorre com a
manifestação e a objetivação de um Richterrecht (jurisprudência). Essa atividade criadora da jurisdição é irreversível (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 238).

y) E a convocação, neste sentido protagonista, da jurisdição, da função judicial, impõe­se ainda de outros modos. Chamaremos a
atenção para mais dois (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 238).

Imputa­se responsabilidade ao juiz para conferir a última palavra acerca da validade, de comportamentos e de interesses sociais. Os
interesses sociais levaram a uma maior criatividade da jurisdição (CAPPELLETI ), a transformar o próprio sentido do direito no que designa
como direito social (F. EWALD). Entende­se direito social como aquele ligado ao Welfare State, sem nele se esgotar, “que tem na
sociedade, no desenvolvimento social em todos os seus aspectos, o sujeito reivindicativo e o seu partenaire de intervenção”. Isso tudo
leva a uma indispensável participação da função jurisdicional em sua diversidade de formas (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 239).

Acrescenta­se o direito social aos tradicionais objetivos jurídicos de garantia e de repressão a um objetivo promocional, cuja
programaticidade para o futuro vai pouco além da prescrição de fins e de princípios. Isso exige uma controlada determinação
concretizadora a ser desempenhada pela função judicial, que irrecusavelmente discricionariza a decisão, em razão de uma necessária
flexibilidade concreta do próprio direito − no direito econômico, na concretização das cláusulas gerais dos contratos, na defesa dos
direitos da personalidade, na integração do direito do trabalho, no juízo de responsabilidade no domínio das externalities, como a tutela
dos interesses coletivos, difusos, entre outros. Essa intervenção judicial é exigida pelas ações populares, nas “actions cleevtives”, nas
“public interest litigations”, nas “Verbandslagen”, entre outras. (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 239­240).

De um sumário diagnóstico da atual situação jurídico­jurisdicional, entre outros temas, pode­se destacar a necessária “revisão dos
problemas das fontes do direito – a impossibilidade de continuar a identificar o direito com a legislação − e da separação de poderes −
“pela superação definitiva do poder judicial entendido como ‘de quelque façon nulle’, e a actuar como ‘la bouche de la loi’, e os juízes
‘êtres inaminés’ enquanto apenas servidores da lei e ‘qui n’en peuvent modérer ni la force ni la rigueur’ (MONTESQUIEU), numa estrita
tarefa exegético­aplicadora” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 240).

Revisam­se tais problemas jungindo­os com o reconhecimento de uma “ordem jurídica translegal”, em que o poder normativo­jurídico
criador da jurisdição concorre a constituir e a manifestar, e nos remete ao sentido atual do Estado de Direito, afastando­se dos limitados
termos normativísticos e garantísticos tradicionais (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 240).

4. SENTIDO ATUAL DA FUNÇÃO JUDICIAL, DA JURISDIÇÃO E DO JUIZ: MODELOS DE JURIDICIDADE E DE JURISDIÇÃO

Pode­se analisar o vigente sentido da função judicial, da jurisdição e do juiz por duas perspectivas que concretizam a nossa práxis atual:
a) “a transformação irreversível do sentido das leis”; b) “a assunção deliberadamente programática de uma estratégia político­social no
todo da realidade social” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 240).

A lei iluminista e revolucionária se identificava com o Direito, cuja racionalidade e universalidade assimilariam e garantiriam os valores da
liberdade e da igualdade, definindo um status normativo formal enquadrador do comportamento social, mas dele descomprometido
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 240).

Atualmente, as leis

não são mais do que prescrições de certas forças políticas, mesmo partidárias, que no quadro do sistema político­estadual ou
constitucional adquirem legitimidade para tanto e pelas quais se impõe um programa de acção político­social, em que uma política se
afirma e concretamente se compromete com fins particulares – numa palavra, se as leis, de estrito estatuto jurídico, passaram a
“instrumento político” (“governa­se com as leis”); também, por outro lado e numa evidente coerência com o ponto anterior, a praxis social
radicalmente se politizou, tornando­se objecto, o campo e o objectivo do que se diz o “Big Government” globalmente interventor e
transformador. Pelo que tudo converge neste problema: o problema da autonomia do direito e da possibilidade institucional da sua
afirmação (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 240­241).

Duas atitudes são possíveis:

Ou não se renuncia à universalidade de certos valores e de princípios normativos em que todos se reconheçam contra a seletividade
estratégica de certos fins e relativamente à qual necessariamente a partidarização se manifesta em apoio ou em oposição, e um poder
eficaz se terá de mobilizar – e sem que isto se pretendam esclarecidos em toda a sua complexidade quer o sentido autêntico, quer o
conceito político – e então, para se garantir aquela universalidade axiológico­normativa em que se traduz a autonomia do direito, terá de
reconhecer­se neste a “medida do poder”, isto é, a sua validade crítica perante o político, e de imputar­se institucionalmente a sua
possibilidade a uma instância chamada exclusivamente a isso mesmo, como contraponto à tendente unidimensionalidade, se não
totalitarismo, do político. E essa instância não poderá ser hoje, pelo que já se disse, o poder legislativo com a sua legislação, dado o seu
compromisso político – impõe­se hoje uma distinção, pelo menos uma tensão, entre a lei e o direito, já porque a lei não é só em si o
direito, já porque pode manifestar­se em contradição com ele. Terá de ser essa instância o poder judicial, a jurisdição: a índole política
(comprometidamente política) da função legislativa há­de ter o seu contra­pólo na índole jurídica (auto­normativamente jurídica) da função
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24/02/2015 A FUNÇÃO DO JUIZ VISUALIZADA A PARTIR DO JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES ­ Crítica do Direito
jurisdicional. Neste sentido, mas apenas neste sentido, se poderá falar da evolução “Vom Gesetzesstaat zum Richterstaaf” (R. MARIC).
O que, desde que assim entendido, está para além da questão da legitimação (democrática) da função jurisdicional, quanto às suas
manifestações juridicamente criadoras, pois não se trata da disputa entre poderes, inclusive de atribuir “Alle Macht den Richtern” e assim
da eventual emergência do “governo dos juízes”, mas de afirmar o direito ao poder, da possibilidade em último termo de reconhecer o
direito como dimensão constitutivamente indefectível do Estado e assim o Estado verdadeiramente como Estado­de­Direito.

Ou se sobrevaloriza a estratégia político­social, se assume o político como o único protagonista – e é o outro termo da alternativa – e
certamente que nesse caso a função judicial não lhe poderá ser estranha, numa qualquer autonomia intencional, e converter­se­á no
operador táctico no terreno, com os meios institucionais e normativo­decisórios que lhe caibam, da estratégia global praticamente
definida. Hipótese em que a jurisdição se funcionalizará a essa estratégia como seu instrumento ou longa manus (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 241­242).

Diante disso, CASTANHEIRA NEVES apresenta os modelos de juridicidade e de jurisdição de maneira descritiva e compreensiva, sem
dispensar a perspectiva e o horizonte regulativo de cada um deles. Os referidos modelos são: a) normativismo legalista; b)
funcionalismo jurídico; c) jurisprudencialismo (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 242).

O modelo do normativismo legalista é uma referência indispensável para a análise que se pretende fazer, por ser um importante
antecedente histórico que tenta restaurar por conta do liberalismo radical, pelo pensamento analítico e por alguns pontos do funcionalismo
sistêmico. Tal modelo assume uma perspectiva individualista de cunho moderno­liberal e iluminista (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p.
242).

Para este modelo há uma determinante antropológica compreensiva que “ao tempo o homem de si mesmo teve levava implícito tudo o
resto” (século XVI ao século XVIII), irradiando para uma autonomia humana ensejadora de uma ruptura com a ordem teológico­metafísica­
cultural transcendente. O normativismo legalista tem por fundamentos únicos de seu saber e da sua ação, respectivamente, a razão em
diálogo com a experiência empírica e a liberdade, com a secularização e a emancipação do econômico, ou mesmo a sua libertação do
enquadramento ético­religioso presente na formação do capitalismo. Isso tardou a significar decisivamente a emancipação dos interesses
para efetivar a realização da liberdade reivindicada – “o domínio da práxis social era o domínio dos interesses”, embora tais interesses se
apresentassem como “direitos naturais” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 242­243).

A consequência disso foi o aparecimento de duas concepções: (i) o individualismo moderno­iluminista e (ii) o racionalismo. Este detinha
uma ratio afastada da ontologia metafísico­hermenêutica de razão clássica e se configura como uma razão moderna plasmada numa
autofundamentante razão axiomática − evidências racionais − e sistematicamente dedutiva nos seus desenvolvimentos − razão
cartesiana. Tais características levavam a uma consequência política, qual seja a institucionalização de um poder que expressasse a
coerência de tal racionalidade − um contrato social que exprimisse a liberdade e a igualdade vinculante da vida em comum. Essa
vinculação tinha um de dois fundamentos: “a volonté générale que o próprio contrato constituiria (solução de Rousseau) ou a
universalização racional das liberdades (solução de Kant). A consequência para ambas as soluções seria a mesma, a constituição de
uma legalidade – o direito seria a lei, unicamente a lei” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 243).

Conclui CASTANHEIRA NEVES que a liberdade, a igualdade e os interesses racionais se elevaram ao platô de “direitos naturais,” que foram
convertidos em direitos subjetivos pela mediação do contrato social à legalidade (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 243).

O modelo do funcionalismo jurídico tinha por viés a sociedade como fenômeno específico, “fenômeno social global – fórmula de
Gurvitch”, sendo a sociedade uma estrutura dinâmica e própria, e não uma simples associação atomística de indivíduos. Um sistema
social heterônimo pensado inicialmente por PARSONS e por LUHMANN, e não por COMTE, DURKHEIM ou MAX W EBER. Esse sistema funcionaliza
os seus elementos e as suas dimensões, com o Direito sendo funcionalizado “à estruturação, à regulação e à organização da sociedade”.
Para CASTANHEIRA NEVES, o funcionalismo jurídico leva o Direito a uma perda de autonomia intencional e material, já que se torna
instrumento com particulares características prescritivas, institucionais e “ao serviço das exigências provindas das instâncias e das
forças políticas ou simplesmente sociais, culturais, econômicas etc.” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 242­243).

CASTANHEIRA NEVES assevera que o funcionalismo jurídico abarca uma político­socialização do Direito, com uma determinação política −
aparecimento do Estado­providência ou Welfare State − e uma outra social − “emergência do social enquanto campo e critério de todos
os problemas humanos – e justamente pela conversão desses problemas em específicos problemas sociais”. Desse modo, todos os
problemas humanos tornam­se problemas sociais, sendo a sociedade chamada a resolvê­los, o que torna o Estado um “Estado de
direitos sociais”, “que o desenvolvimento económico­social há­de garantir e a que tudo se funcionaliza” (CASTANHEIRA NEVES, 2007,
p. 243­244).

Um dos meios jurídicos para tal mister continua sendo a legislação, agora com outra índole – instrumento de ação política, e não
somente instrumento de garantias dos direitos e da segurança jurídica – quadro e limite dos poderes –, tradicional função do princípio da
legalidade. A funcionalização político­social trouxe novos contornos prescritivos, como destaca CASTANHEIRA NEVES, “bem diferentes do
tipo estrito de “norma jurídica” (norma racionalmente geral e abstracta), tais como o da ‘lei­plano’, o da ‘lei­providência’ (Massnahmegestz)
etc. Quer dizer, a legislação ficou instrumentalmente disponível para todos os tipos prescritos que aquela funcionalidade exigisse”
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 244).

O jurisprudencialismo possui outra tônica, como explica o autor:

Designamo­la por perspectiva do homem (do homem­pessoa), isto é, aquela perspectiva em que o direito, com uma sua normatividade
axiologicamente fundada, é assumida por, e está directamente ao serviço de uma prática pessoalmente titulada e historicamente
concreta, prática dinamizada pelas controvérsias também prático­concretas, mas cuja intencionalidade capital é a realização nessa
prática e através dela, como básica condição mediadora, do homem­pessoa convivente e assim do homem no “seu direito” e no “seu
dever ou na sua responsabilidade”. Não já a perspectiva macroscópica ou da globalização socialmente contextual em que a pressão do
todo tende a influenciar a especificidade de tudo, numa confusão das dimensões – caso em que o todo não é só integrante holístico, é
antes o dissolvente das “essências” – e por isso o direito perde nele a sua autonomia, já que, funcionalizado aí à estruturação,
organização e regulação global da sociedade, vê­se ele intencionado também funcionalmente ab extra por uma estratégia que não é sua,
que de todo lhe é heterônoma. Não já essa perspectiva macroscópica, mas uma perspectiva que se poderá dizer de imanência
microscópica, porquanto o direito é, diferentemente, convocado, e nessa convocação, problematizado pelo homem concreto que vive e
comunitariamente convive os acontecimentos práticos (volvidos em casos ou problemas práticos) da inter­acção histórico­social
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 244­245).  

O jurisprudencialismo se diferencia do normativismo legalista, uma vez que no normativismo legalista o normativo nuclear e o
judicativamente relevante são a lex, como norma, como imperativo e como regra, sem falar dos compromissos políticos, de
racionalização e de programada assimilação que permitem às exigências contextuais. No jurisprudencialismo, importa a axiológica
normatividade de uma validade como ius, cuja intenção é a sua realização histórico­concreta por meio do juízo prático sobre “inter­acção”
pessoalmente titulada e comunitariamente responsável. Independentemente do critério normativo­jurídico em que se apóie tal juízo
prático, este é traduzido sempre em “uma mediação normativo­juridicamente constitutiva que esses elementos não reduzem”
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 245).

5. ANÁLISE DOS TRÊS MODELOS DE JURISDIÇÃO E PREFERÊNCIA PELO JURISPRUDENCIALISMO

CASTANHEIRA NEVES aduz que o normativismo legalista tem por horizonte o individualismo contratualista fomentador da legalidade, base
do normativismo moderno, que expressa o jusracionalismo e a razão axiomático­sistemática do pensamento jurídico moderno, presentes
nos Códigos. Esse jusracionalismo construiu, fundado em axiomas ético­racionais ou em postulados antropológico­racionais (sem ignorar
o precursor SUAREZ, GRÓCIO, PUFENDORF, THOMASIUS e W OLFF), valores, aspirações e interesses de titularidade do homem moderno: “sistemas
conclusos de normas e que nessa sua autoconstrutivista racionalidade se sustentavam” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 245­246).

A referida ideia de sistema, influenciada por LEIBNIZ, fulcrada em um normativo perspectivado pela legalidade presente nas codificações,
não entende o direito como estrito dado prescritivo das leis, como se pregava nas revoluções − dado literal da lei sem interpretação [2]  e

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24/02/2015 A FUNÇÃO DO JUIZ VISUALIZADA A PARTIR DO JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES ­ Crítica do Direito
sem integração (só possível ao réferé legislatif) −, tornando­se um sistema de normas legais − “uma legalidade a que uma auto­
racionalidade dava concludência e consistência” −, a gerar o normativismo legalista, como explica CASTANHEIRA NEVES:

Pela legalidade imputava­se a constituinte titularidade do direito exclusivamente ao legislador, pelo sistema postulava­se nele uma
racionalidade intencional que permitia um tratamento dogmático. Foi nestes termos que o direito se veio a compreender um sistema de
normas legais, subsistente numa racional normatividade abstracto­dogmaticamente determinável – durante muito tempo só mediante uma
estrita exegese complementada por uma lógico­formal conceitualização; depois, por uma interpretação mais compreensiva e o
reconhecimento mesmo de lacunas, posto que ainda só, na persistente ideia de um sistema virtualmente auto­suficiente, integráveis por
uma auto­integração, nas analogias legis e iuris. Podia, pois, continuar a dizer­se – e dizia­se na teoria das fontes do direito – “a ciência
do direito”. A ciência do direito, o pensamento jurídico ou a “doutrina” conheciam nestes termos apenas um direito­lei (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 246).

Percebem­se duas dimensões de tal modelo: a) o direito como sistema de normas legais; b) os sujeitos de tal determinação − o legislador
e o jurista (dogmático). Busca­se a terceira dimensão, a dimensão da realização concreta do direito que o modelo admitirá, com o
atendimento da jurisdição com o seu sujeito respectivo, o juiz. A dimensão concreta do direito leva ao paradigma da aplicação,
“esquema intencionalmente metódico da lógico­dedutiva aplicação das normas legais, e o juiz como operador impessoal, anônimo e
fungível dessa aplicação” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 246).

Dessa maneira, o modelo normativista legalista tem como prius a vinculação do direito às normas do sistema legal, e como posterius a
aplicação de tal sistema de normas legal, a concretizar um dualismo normativista expressado pelo conhecimento e pelo
reconhecimento do direito no sistema legal, bem como pela aplicação de tal sistema no momento em que o juiz decide (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 246­247).

Sobre disso, CASTANHEIRA NEVES faz três observações (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 247­249):

a) caso o direito se manifeste em um sistema de normas e em tal sistema exclusivamente se objetiva, não se pode pensar a sua
projeção em uma realidade histórico­social que implique alguma possibilidade jurídica de constitutividade, pois o direito posto pelo
sistema somente se repete em cada caso concreto. A solução da situação concreta opera­se pela aplicação sem nenhuma mediação
constitutiva, a ensejar a explicitação do “direito que é”, ou seja, o direito é aquele objetivado pelas normas do sistema (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 247);  

b) o objeto concreto da aplicação demanda um esquema garantidor da relação entre o geral abstrato das normas e o particular de cada
situação analisada, sem que isso importe em implicações constitutivas, mas sim “que subsista uma identidade entre o pressuposto
aplicando e o resultado da aplicação. O que só a lógica dedutiva (a relação lógico­dedutiva do geral para o particular) pode lograr”. Tal
perspectiva aponta para o silogismo e a subsunção como esquemas de aplicação das normas jurídicas (CASTANHEIRA NEVES, 2007,
p. 247);  

c) “a realidade histórico­social da aplicação do direito vai concebida como uma realidade analisável em termos de simples factos, como a
totalidade dos factos correlativos. À racional abstracção das normas ou com a correlativa factualidade (empírica) da idealidade lógica
(conceitual) às normas (da sua lógico­conceitual representatividade e previsibilidade normativo­regulativa)”. Nesse passo, o modo de ver
essa realidade histórico­social não se apresenta como um acervo disperso de “factos”, mas como unidades de acontecimentos histórico­
socialmente estruturados, em específicos casos prático­sociais. Isso traduz uma analítica decomposição dessas unidades e dos casos
em elementos discretos, como é próprio do racionalismo moderno e epistemológico­positivista. Neste, “o normativismo encontrou a
possibilidade da sua explicita expressão, a dicotomia razão (lógica)­factos − dicotomia que o pensamento jurídico normativista se limitou
a converter na sua dicotomia paralela norma­factos” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 247­248).

O normativismo legalista é um modelo de jurisdição que dominou por mais de um século, sendo a aplicação lógica das normas aos fatos
forma dedutiva, com as normas e os fatos sendo autônomos entre si, sem que haja alguma correlação de interferência entre a faticidade
e a normatividade. Com isso se anula a autonomia da jurisdição em sentido próprio e autêntico, com o juízo reduzindo­se a uma formal
dedução em que o juiz se torna um impessoal e fungível operador de um esquema que o suprime (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p.
248).

Essa obediência às exigências de uma razão prática e de uma razão teórica − sentido da racionalidade do normativismo − era também o
sentido do projeto político do Estado pós­revolucionário, com uma estruturada separação de poderes e o Legislativo sendo o poder
supremo, como apregoava LOCKE. Afirma CASTANHEIRA NEVES: “Nem outro sentido tinha nem outro objectivo se propunha a estruturação do
processo judiciário segundo a distinção ‘matéria de direito’ – ‘matéria de facto’, separadas uma da outra e a considerar em momentos
diferentes e por órgãos decisórios e de controle também diversos”. Ou seja, é um modelo fundamentalista normativo­legalista
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 248).

CASTANHEIRA NEVES afirma que tal modelo ainda não está de todo superado, sendo certo que sofreu dissidência do seu teórico mais radical
(KELSEN). Este pensava em um normativismo puro, em que o dever­ser não se contaminasse com o ser. Advieram críticas de facto pelo
não cumprimento de tal paradigma na realidade de uma decisão judicial, e críticas de iure, que negavam tal paradigma da aplicação,
explicitadas pelos movimentos do final do século XIX e início do século XX. Para exemplo, a “escola histórico­evolutiva”, o “movimento
do direito livre”, a “jurisprudência dos interesses”, a “jurisprudência sociológica” etc.

O normativismo legalista afirma a autonomia sistemático­dogmática do direito, todavia amparada em uma normatividade dogmaticamente
fechada em si mesma e alienada de uma realidade social que evoluía e exigia compromissos político­sociais, econômicos, entre outros.
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 248­249).

Pondera CASTANHEIRA NEVES:

É certo que a prática social tinha naquele sistema normativo autónomo um estatuto que lhe oferecia a universalidade racional e com ela a
neutralidade estrutural, a igualdade (decerto abstracta e formal), a liberdade­segurança. Mas eram estes valores só valores formais e que
uma sociedade que não quisesse limitar­se ao livre jogo liberal teria de considerar insuficientes ou mesmo recusaria. Além de que os
pressupostos culturais seriam agora outros (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 249).

Por isso, houve a abertura para o funcionalismo jurídico, cujos três principais pressupostos são: a) funcionalidade; b) razão
instrumental; c) compromisso ideológico. A funcionalidade é compreendida com um recuo a uma particular mudança da cultura
europeia, iniciada na modernidade, após a radical ruptura com o pensamento clássico, no século XX (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p.
249).

O pensamento clássico é baseado na perspectiva platônico­aristotélica e numa atitude teorética (contemplativa) perante o ser e a “ordem
natural”, concebendo o todo pensável em um modus ontológico em que a eidos ou a necessidade determinante se afirmavam em termos
substancialistas e essencialistas. Pensar era conhecer e referir algo como ser­objeto ou numa entidade que seria em si determinada
como categoria­conceito, numa estrutura racional culminada em juízo proposicional de verdade. A compreensão pré­moderna, portadora
de inteligibilidade determinativa, de um parmenídico ser em si e de uma subsistência absoluta, referia a ação prática a uma pressuposta
ordem de sentido ontoteleológico em que ens et bonum se identificam (ens et bonum convertuntur), uma vez que este tinha no telos
essencialmente constitutivo daquele a sua expressão, base também do jusnaturalismo clássico e ordem em que a ação se devia inserir e
se manifestar (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 249­250).

O homem moderno compreendia o ser de outra maneira como uma energia, como algo dinâmico e evolutivo, que possibilita novidade,
com irreversibilidade e historicidade, construída também pela força criadora do homem. Esse homem moderno foi colocado em um
mundo de faticidade empírica, de causalidade e de axiologia neutra − desencantamento com o mundo de MAX W EBER −, em oposição a
sua subjetividade, “tomada, aliás, a última instância no sentido da acção e da fundamentação: recordem­se Descartes e Leibniz”
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 249­250).   

LUHMANN opõe uma perspectiva mecânica à teleológica, pois separando­se o esquema causal e a ordem de valor, os fins deixam de ser a
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24/02/2015 A FUNÇÃO DO JUIZ VISUALIZADA A PARTIR DO JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES ­ Crítica do Direito
expressão teleológica de uma ordem onto­axiológica para se tornarem simples manifestações de pretensões subjetivas − subjetivação
dos fins. Nessa linha, a ação é entendida em relação aos fins como possibilidade causal, funcional ou técnica, e sua avaliação ocorre
pela eficiência quanto aos objetivos e a sua eficácia de efeitos. Passa­se das ações e dos comportamentos pessoais e institucionais
relacionados ao bem, ao justo e ao válido (axiologia material), para o útil, o funcional e o eficiente da performance (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 250).

A racionalidade do funcionalismo é a “razão instrumental” no sentido atribuído por HORKHEIM, ou Zweckrationalität, cuja dicotomia foi
cunhada por Max Weber entre racionalidade finalística ou Zweckrationalität e racionalidade axiológica ou Wertrationalität. Na razão
finalística, segundo W EBER, a ação se expressa pelas expectativas colocadas no comportamento dos objetos do mundo exterior e dos
homens, com a utilização destas expectativas como condição ou meio para os fins almejados ou considerados racionalmente como
resultados. Na razão axiológica, de acordo com Weber, a ação é determinada pela crença no valor incondicionado, em sentido ético,
religioso ou por outro comportamento puramente como tal e que independe do resultado (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 250).

W. MAIHOFFER (Rechtsstaat und menschliche Würde, p. 99 e ss.) sintetiza as duas racionalidades: a) razão finalística: eu quero, porque
isto me é útil, pois o comportamento humano se funda no benefício ou no prejuízo, determinando­se pelo sujeito inteligente
(Vertandessubjeckt = sujeito de razão abstracta ou de inteligência e utilidade); b) a razão axiológica: eu quero, porque tenho isso por reto,
por bem, uma vez que o comportamento se funda em princípios e em normas, com o homem sendo determinado como uma pessoa de
razão (Vernunftperson = sujeito e pessoa de razão espiritual e cultural), cuja compreensão do mundo global se dá pelo prisma da retidão e
da moralidade (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 250­251).

A prática se converte em técnica (HABERMAS), com a fundamentação servindo à instrumentalização, ou a razão objetivo­material à formal
"razão instrumental" e a ordem (de validade ou institucional) à planificação (programático­regulamentar), a validade à eficiência ou à
eficácia. Corrobora um finalismo aferido por um consequecialismo, em que os valores são substituídos pelos fins subjetivos, e os
fundamentos, pelos efeitos empíricos. CASTANHEIRA NEVES aduz que "a complexidade deste modo resultante pode levar a pretender o
contraponto de um simplesmente sistémico equilíbrio funcional de fungibilidade ou de equifinidades" (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p.
251).

Acrescenta CASTANHEIRA NEVES:

Corolários disso, e em que o compromisso ideológico se manifesta: a libertação da política, o pragmatismo filosófico, o utilitarismo social
(este consequência também da libertação do económico). Depois, já no nosso tempo, as formas radicais do secularismo activo, da
incondicional libertação ética e bem assim dialéctica holística da "razão crítica" e de todas as "teorias críticas" nelas fundadas a favor de
uma total emancipação, tal como no plano social o materialismo utilitarista do bem­estar etc. Daí, como natural consequência, que a
substância tivesse de enfrentar e de ceder à função no pensamento em geral e também no pensamento jurídico (v. Siegried MACK,
Substanzbegriff in der Rechtsphilosophie, 1925), tal como analogamente a estrutura viria a ser considerada vs. função (N. BOBBIO,
Dalla strutura alla funzione, 1977) (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 251).

Como se percebe, o funcionalismo jurídico caracteriza­se por sua particular atitude perante o direito, e sua pergunta básica é: para que
serve? Não há preocupação em saber o que é o direito, em determinar o seu conceito ou o seu princípio, duvidando­se, até mesmo, da
validade do pressuposto exigido por tal atitude. O funcionalismo jurídico põe em xeque a autonomia da subsistência objetiva do direito
como algo em si, porque o direito não pode estar desvinculado da sua finalidade funcional operacional, sendo concebido como um
instrumento para o atingimento de variados fins, como os sociais objetivos a serem realizados (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 251­
252).

Castanheira Neves esclarece: “Quer dizer, estamos perante uma assimetria em que a autonomia constitutiva do imput é sacrificada à
optimização do output − ou, para o dizermos em paráfrase a Luhmann, é a periferia do sistema jurídico a dominar o próprio sistema, numa
submissão às suas ‘irritações externas’” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 252).

O funcionalismo jurídico é complexo e se apresenta sob diversas modalidades, como o funcionalismo político, o funcionalismo social e o
funcionalismo sistêmico. O funcionalismo político apreende o Direito como instrumento da política, cuja orientação expressa é a
politicização da juridicidade, com o Direito; além da função política geral e dos naturais efeitos políticos, “pretende­se que assuma um
directo e determinante objectivo político, e assim segundo fundamentos e critérios imediatamente políticos" (CASTANHEIRA NEVES,
2007, p. 252).

Explica­se a afirmação acima com um argumento sociológico, visto que a sociedade vigente se organiza sob o pálio de um Estado Social
de Direito − do individualismo­liberal para o pluralismo­social −, de acordo com CASTANHEIRA NEVES:

um sistema de direito emergente e elaborado em função da “garantia” de uma sociedade civil substancialmente apolítica, mas onde vêem
progressivamente desmentidas todas as tradicionais separações − política e economia − Estado e sociedade civil − sobre as quais
aquele sistema se fundara; pelo que “o jurista político seria a condição necessária” para a existência desta nova sociedade política de
contínua mutação social e politicamente constituenda, e isto implicaria a exigência de “uma teoria política do direito”, ou seja, a
“politicização” do direito e dos juristas (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 252).

CASTANHEIRA NEVES afirma que o decisivo é o compromisso ideológico que orienta uma crítica radical à realidade social − linha neomarxista
−, fundada na utopia crítico­ideológica da emancipação, como se vê com a teoria crítica do direito, assimiladora do projeto filosófico
social da Escola de Frankfurt, em sua prospectiva dialética holística, por exemplo, com a critical legal studies moment (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 252).

Também o é com o “uso alternativo do direito”, albergando as coordenadas anteriores numa direta intenção de realização metodológico­
judicial do direito, em que se haveria de “tomar partido”, ou seja, “a prática humano­social seria exclusivamente prática política”
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 252­253).

O funcionalismo também se encontra na perspectiva social, dividido em duas submodalidades: a) tecnológico estrito e econômico. A
neutralidade tecnológica e o consequencialismo social substituem respectivamente o compromisso e a militância ideológicos e o
finalismo programático, cujos modelos transformam menos a estrutura e mais a estratégia, a partir de critérios de performance funcional e
segundo uma estrita Zweckrationalitat (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 253).

O funcionalismo social teleológico aponta para o direito e para o pensamento jurídico como uma expressão de ROSCOE POUND, utilizada
por KARL POPPER: social engineering − estratégia critico racional, mormente no plano da legislação, a convocar uma analítica “teoria da
decisão na realização concreta, e transformando correlativamente a função judicial, na sua básica intencionalidade” (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 253).

O funcionalismo social econômico, expresso, por exemplo, pela análise econômica do direito, é assim comentado por CASTANHEIRA
NEVES:

com seu entendimento da sociedade e de toda a prática social, mesmo política (recorde­se a teoria do public choice), segundo a estrutura
de mercado, com seu utilitarismo (ainda que numa pretensa superação crítica de Bentham), com o seu postulado do “homem racional”
(em que a racionalidade é apenas inteligência dos interesses), com a sua tese behaviorista do comportamento humano­social − o direito
só teria sentido na perspectiva da eficiência económica (da “maximização da riqueza”, segundo Posner) e para realizar, acabando por
reduzir­se a um papel residual na coerência do “teorema de Coase” (competindo­lhe apenas diminuir os “custos de transacção” e oferecer
as condições para a resolução das “externalidades”) − embora com possíveis e complementares intenções também distributivas,
segundo alguns (pense­se em Calabresi) (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 253).

O funcionalismo sistêmico renuncia a uma regulação material da sociedade − seja finalista, seja conseqüencial −, em razão da sua
complexidade e da sua pluralidade em relação aos polos organizatórios e autopoiéticos, percebendo o direito como um subsistema social
seletivo e estabilizador de expectativas. O direito é estruturado de maneira invariante e com intencionalidade autorreferente, de acordo
com as dicotomias lícito­ilícito, legal­ilegal, redutoras da citada complexidade “em termos de um mero sistematizador da contingência
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24/02/2015 A FUNÇÃO DO JUIZ VISUALIZADA A PARTIR DO JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES ­ Crítica do Direito
continuamente reconstruído numa circularidade recursiva” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 253).

Diante do exposto, a função judicial tem por paradigma não mais o normativismo legalista, mas a decisão no seu sentido estrito e
específico. Em tal decisão existe uma voluntas titulada e não uma anônima necessidade lógica, não obstante a decisão seja controlada
racionalmente. Este controle perpassa pela opção entre soluções alternativas que visam “a um pressuposto fim ou objectivo em função
dos efeitos verificáveis nas circunstâncias da decisão”. É uma racionalidade estratégica, não discursiva, orientada pelo princípio da
otimização na realização de um certo objetivo, cuja solução e escolha da ação passam pelos efeitos, “lográveis nas circunstâncias, que
melhor realizem esse objetivo” − racionalidade estratégico­consequencial. Por isso não se permite uma única solução, senão uma
múltipla e derivada das circunstâncias e dos fins almejados, a gerar ampla autonomia a quem decide, a tornar impositivos somente os
fins, mesmo quando o programa estratégico estiver especificado em normas ou em regras, pois o importante são os fins “particulares
prescritos por essas normas ou regras, não o modo e índole concretos da decisão” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 254).

O funcionalismo jurídico ouve as exigências e as pretensões do contexto político e da realidade social, com as decisões sendo
estratégicas em todos os casos, ante os efeitos que produzem, a afastar a neutra analítica que decompõe a decisão em fatos aos quais
se aplica logicamente uma abstrata racionalidade normalística conceitualizada, como ocorre com o normativismo (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 254­255).

O fenômeno específico é considerado “como realidade de uma estrutura, de uma intencionalidade, de um dinamismo próprio a manifestar­
se simultaneamente como objectivo, como objecto e como condicionante dessa actuação, e que, por isso mesmo, se não pode ignorar
nessa sua autónoma especificidade”. O funcionalismo jurídico dialoga com a sociologia, com a ciência política e com as ciências sociais,
sendo estas partes de sua dimensão, a tornar o direito a ciência do “controle social” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 255).

Seguindo a formulação proposta por FRANÇOIS OST − juiz júpiter, hércules e hermes ou juiz político (funcionalismo político), social engineer
(funcionalismo social­tecnológico) e juge entraîneur (síntese paradigmática) −, o juiz do funcionalismo terá uma atuação “essencialmente
funcional, teleológica, instrumental, evolutiva e pragmática”, para cuja decisão será considerada “como justa a solução mais adequada ao
objectivo proposto pelo planificador social, sendo neste caso secundária a consideração de valores materiais ou de regras formais”
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 255).

Esse modelo seria “post­liberal”, em que se afastaria do “rule of Law” e se substituiria o “rule interpretative model” − aplicação de valores
e de regras preestabelecidas em casos concretos − pelo “judicial­power model” (Ph. SELZINK), “aquele em que o juiz seria
constitutivamente interventor, criador autónomo das soluções exigidas pelos fins e interesses sociais” (CASTANHEIRA NEVES, 2007,
p. 255).

CASTANHEIRA NEVES entende que o “judge entraîneur” substitui o juiz árbitro do sistema legalista­liberal e participa da realização das
políticas determinadas, assegurando uma melhor regulação aos interesses em causa. O juiz atua para além do campo fechado dos
direitos subjetivos determinados pela lei e se torna responsável pela conservação e pela promoção de interesses finalizados por objetivos
socioeconômicos e regulados por sistemas de normas técnicas correspondentes. Torna­se um instrumento dinâmico e de oportunidade
que o afasta do “aplicador passivo de regras e princípios preestabelecidos” e o faz “colaborar na realização de finalidades sociais e
políticas: seu papel consiste em comparar sistematicamente objectivos alternativos com vista aos seus resultados respectivos e aos
valores que lhe estão subjacentes” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 256).

O autor critica o modelo funcionalista:

(...) porque submetido a uma radical instrumentalidade, o que vemos é que o direito é afinal puramente política no funcionalismo político,
simplesmente tecnologia ou administração no funcionalismo social e económico. Será porventura diferente no que toca ao funcionalismo
sistémico, já que a teoria dos sistemas sustenta justamente a relativa autonomia dos subsistemas, entre os quais se contaria o direito,
no sistema global da sociedade. Há, no entanto, que distinguir. Ou a perspectiva sistémica é teoricamente metanormativa, segundo um
ponto de vista epistemologicamente externo e de cariz fundamentalmente sociológico, e então a autonomia do sistema jurídico é algo que
se pressupõe − e pressupõe­se no sentido normativo tradicional − para ser simplesmente descrito e analisado. Ou pretende ser uma
teoria jurídica (não sociológica) do direito, e nesse caso a autonomia do sistema jurídico é pensada segundo um funcionalismo puro, em
termos só formalmente processualísticos e com abstracção (ou equivalência funcional) de quaisquer dimensões materiais (fosse ela as
dos valores, dos fins, dos interesses), que acaba por traduzir uma radicalização do normativismo positivista e da sua contingência
decisória: as normas são agora generalizadas expectativas contrafactuais reflexivo­processualmente selecionadas, a dogmática
determina categorias estrutural­funcionalmente conceituais da auto­referência jurídica e assim das suas variação e tolerância possíveis, a
aplicação do direito obedece a um Konditionalprogramm, os sujeitos de direito afivelam a máscara de “papéis” funcionais etc. Depois, há
que ser consistente de que no fundo de tudo se impõe uma capital opção antropológico­cultural de que dependerá o sentido do direito e
inclusive a sua própria subsistência autenticamente como direito. Com efeito, o homem dos nossos dias terá de perguntar­se que sentido
se propõe conferir à sua prática e, através desse sentido, que compreensão assimilará de si próprio na sua existência histórico­
comunitária (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 256­257).

Essa prática se refere a uma validade, porventura problemática, mas que jamais prescinde de por ela interrogar, implicando um
fundamento axiologicamente crítico, com o homem elevando­se a um sentido materialmente vinculante, no qual assume o projeto
responsabilizante da sua própria humanidade, ou em uma prática determinada somente por um juízo de oportunidade, não exigindo mais
do que programações finalísticas viabilizadas por esquemas de uma operatória eficiente, “e o homem reduzindo­se à imanente titularidade
de estratégias de interesses que lhe permitirão uma existência formalmente calculada, e nada mais. Uma opção entre o sentido e a
eficácia, entre a validade e a utilidade” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 257).

CASTANHEIRA NEVES sustenta que há opção pelo fato de caducar a pretensão de evidências metafísicas que alimenta o jusnaturalismo,
tendo se decidido o homem sobre si próprio. O radical é ter o homem a “liberdade para se salvar ou para se perder numa responsabilidade
de si para consigo”. Desse modo, o paradoxal critério desta opção última neste mundo é poder ser o que de humanidade ou de
inumanidade, de enriquecimento ou de empobrecimento do homem daí resultar, ainda que no horizonte da transcendência interrogada:

pois unicamente ela pode conferir sentido à própria interrogação última, a liberdade e as suas opções aferem­se pelas suas próprias
experiências históricas, acabam por ter, e nisso está o paradoxo, o critério nos resultados históricos. Será despropositado recordar­nos
do pari de Pascal? Deverá, pois, se perguntar­se se não estamos na verdade não apenas perante uma alternativa ao direito qua tale pura
e simplesmente. Será, por outro lado, aceitável um juiz que vacila entre o militante político e o administrador discricionário? E ainda, se
são renunciáveis os valores e os princípios, o sentido e as garantias que se vinculam ao Estado de Direito, a pretexto do empenho numa
nova e melhor sociedade, de mais desenvolvimento, de uma maior atenção aos resultados, de uma científico­tecnológica eficiência etc.
Os benefícios porventura desse modo obtidos compensarão as perdas capitais que serão ou seu preço? − e este argumento, notar­se­á,
não pode ser indiferente a uma perspectiva que tanto invoca a eficiência (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 257).

CASTANHEIRA NEVES, após a crítica ao normativismo legalista e ao funcionalismo jurídico, propugna o jurisprudencialismo. São suas as
palavras:

Nela nem se trata da autonomia formal e alienada do primeiro modelo, nem do instrumentalismo extraponenciado e dissolvente do
segundo modelo, mas da autonomia de uma validade normativa material que numa prática problemática e judicanda se realiza, se orienta
por uma perspectiva polarizada no homem­pessoa, que é o sujeito dessa prática. Jurisprudencialismo que significará a reafirmação ou
mesmo a recuperação do sentido da prática como iusprudentia: axiológico­normativa nos fundamentos, prático­normativa na
intencionalidade, judicativa no modus metodológico (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 257­258).

O jurisprudencialismo tem por pressupostos:

a) homem­pessoa − recompreensão do homem com uma profunda reflexão acerca das exigências do compromisso com a coexistência,
explicitada em uma antropologia axiológica com implicações axiológicas e éticas. Isso porque o Homo faber e o Homo laborans da

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24/02/2015 A FUNÇÃO DO JUIZ VISUALIZADA A PARTIR DO JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES ­ Crítica do Direito
sociedade técnica, bem como o Homo ludens da sociedade e o bem­estar à outrance esvaziaram espiritualmente o homem. Com isso, a
pessoa detém uma dignidade absoluta, todavia negando­se a sua identificação com o indivíduo e com o individualismo, tendo em vista “o
pressuponente compromisso e recíproco reconhecimento comunitário que aquela dignidade implica”. Isso significa a responsabilidade
ética perante a pessoa em todo o universo humano, “seja imediatamente prático e de convivência ou não”, “como igualmente a
responsabilidade ética da pessoa relativamente a esse mesmo universo”. Além disso, a pessoa não é somente sujeito de direitos
fundamentais (ou não), mas também de deveres: “não sendo os direitos simples reivindicações politicamente sustentadas e os deveres
exterioridades limitativas só pelo cogente cálculo dos interesses e sempre repudiavelmente sofridos, como acontece com a polarização
prática no indivíduo, mas manifestações mesmas da axiologia responsável e responsabilizante da pessoa” (CASTANHEIRA NEVES,
2007, p. 258).

b) implicações normativas advindas do reconhecimento comunitário da pessoa e da sua dignidade ética − é indispensável que
haja um fundamento para qualquer pretensão que uma pessoa, na intersubjetividade e na coexistência, dirija a outra. Esse fundamento
tem por sentido uma ratio que afirma um argumento de validade (sentido normativo transindividual expressado por valores ou por
princípios). O fundamento transcende os pontos de vista individuais de uma relação intersubjetiva, por exemplo, os interesses sem
nenhuma reciprocidade, a afastar tal ação e pretensão, transcendendo pela assunção de uma unidade ou de um comum integrante – “um
critério codivisível por todos os membros do mesmo universo de discurso”. Dessa maneira, os membros da relação se reconhecem
iguais, pois sua determinação correlativa não deriva da vontade, do poder ou da prepotência de qualquer dos membros, porém se justifica
“pelas suas posições relativas nessa unidade ou comum integrante”. O sentido normativo, portanto, se impõe aos interesses de cada um,
a vincular simultânea e igualmente os membros da relação (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 258­259).

O fundamento exigido no postulado do sujeito ético, que tem a sua liberdade reconhecida enquanto pessoa e a sua igualdade entre iguais,
demonstra a inegável necessidade de que cada pretensão tenha validade, nos termos antes referidos. Somente dessa maneira é que a
pessoa se “reconhecerá como sujeito e não como simples objecto de uma qualquer prepotência”. Castanheira Neves sustenta que o
direito só é autêntico se tal validade for instituída, pois, em caso contrário, o direito será apenas “mero instrumento social de
racionalização e satisfação de interesses ou de objectivos político­sociais” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 259).

O normativismo funda­se em uma intenção objetivo­analítica que incorpora ao jurídico as características formais e universais da razão
teórica e implica o direito a um sistema racional de critérios normativos abstratos. O jurisprudencialismo, contrariamente ao normativismo,
convoca uma axiologia e postula um social compromisso prático em que a racionalidade se dá por uma prática fundamentação normativa
material, e não, como no normativismo, por um teórico universal sistemático (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 259).

O funcionalismo possui uma perspectiva macroscópica da realidade social, a perceber o direito como um elemento de organização e de
administração­direção gerais da sociedade, com a própria decisão concreta estando inserida no quadro estratégico dessa organização e
direção. O jurisprudencialismo preocupa­se com os concretos problemas práticos omitidos na perspectiva macroscópica do
funcionalismo. Cada problema concreto se refere a sujeitos pessoalmente particulares e em situações histórico­socialmente concretas, e
não a variáveis subjetivas de papéis sociais em situações socialmente tipificadas. Não há, no jurisprudencialismo, uma intenção de
estratégia instrumental e de eficiência funcional. Existe um juízo prático­normativo e de axiologia normativa válida (de prática da justeza),
opondo­se a eficiência à validade e a racionalidade à axiologia. O direito, para o jurisprudencialismo, é “um axiológico­normativo fim em si
− ele próprio um valor na validade que exprime” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 259­260).

Tal validade convoca normativamente os valores e os princípios jurídicos, sendo caracterizada “pelo nível de consciência axiológico­
normativa da consciência jurídica geral da comunidade histórico­cultural”. É uma alternativa relativa ao jusnaturalismo e ao positivismo
jurídico (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 260).

O jusnaturalismo procura os fundamentos constitutivos do direito em manifestações do ser – natureza − a partir de uma metafísica
ontológica (“numa geral ordem constituída dos seres ordo rerum, ou numa qualquer pontualizada natura rerum”) ou de uma ontologia
antropológica (“na natureza do homem”). O jurisprudencialismo compreende que o direito compete à autonomia cultural do homem, cujos
sentido e conteúdo da sua normatividade exprimem uma resposta cultural ao problema humano da convivência humana em um mesmo
mundo e em um mesmo espaço histórico­social, sem necessidades ou indisponibilidades ontológicas, “mas antes com a historicidade e a
condicionalidade de toda a cultura”. A constituição se dá não pela objetividade essencial da filosofia especulativa ou teorética, mas pelas
exigências humano­particulares advindas pela “razão prática”, imputando a responsabilidade poiética da filosofia prática (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 260).

O positivismo considera o direito como um resultado normativo de uma vontade orientada por um finalismo de oportunidade ou mera
expressão da contingência ou dos compromissos político­sociais. O jurisprudencialismo, contudo, aponta para a prática histórico­cultural
constituída de uma intencional validade estruturada pela distinção entre válido e inválido. A validade explicita e constitui uma
normatividade com certos valores e princípios normativos fundamentadores que pertencem ao ethos referencial ou ao epistéme prático de
certa cultura em determinada época. Tais valores e princípios, sem olvidar a autonomia cultural humana e a historicidade, impõem uma
pressuposição fundamentante e constitutiva perante as contingências positivadas expressas em uma cultura e em determinada época −
valores e princípios metapositivos dessa mesma positividade. São como uma “auto­transcendência ou transcendalidade prático­cultural,
em que ela reconhece os seus fundamentos de validade e os seus regulativos normativos de constituição” (CASTANHEIRA NEVES,
2007, p. 261).

Afirma CASTANHEIRA NEVES:

Pelo que a exclusão da necessidade ontológica não nos condena à mera continência político­social, no domínio prático­jurídico a posição
exacta é a de um tertium genus referido a uma autopressuposição axiológico­normativa fundamentante e regulativamente constitutiva.
Autopressuposição essa que compreenderemos de uma como que universalidade intencional no problema do sentido do direito − ou na
resposta à pergunta sobre o seu “para­quê” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 261).

Essa validade, de indeterminação normativa, necessita de um aporte dogmático:

normas legais, com a complementaridade da reelaboração doutrinal e dos contributos jurisprudenciais. Isto, por um lado; por outro lado,
essa validade dogmaticamente determinada enfrenta uma concreta problematização praxística nos casos decidendos, a exigir, por sua
vez, uma mediação judicativa que realize a validade nessa prática. As duas primeiras dimensões manifestam­se num sistema normativo,
as outras duas são convocadas por um problema prático −, e a dialéctica entre sistema e problema num objectivo judicativo de realização
normativa é a racionalidade jurídica a considerar. É com duas intenções que nessa dialéctica se implicam, tanto a intenção da justiça
material referida ao problema concreto como a intenção de concordância normativa referida ao sistema de validade (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 261).

Essa dialética possui um sentido, um modus operandi e uma índole da mediação. O sentido da dialética abarca a delimitação e a
predeterminação do campo e dos problemas no começo de uma experiência problemática, cujo esquema pergunta­resposta parte dos
problemas e das respostas colocados pelo sistema. Todavia, os problemas e as respostas apontados pelo sistema não podem
unilateralmente ser supervalorizados, já que a experiência histórica alarga, aprofunda e exige novas perguntas e novas respostas. Ante
isso, as perguntas e as respostas colocadas pelo sistema traduzem uma assimilação intencional − respostas constituídas −, derivada de
uma certa experiência e por esta limitada. Nesse passo, o sistema exaure a sua capacidade e a sua possibilidade hermenêutica no
tocante à nova problemática, a autonomizar o problema, cuja experiência da realização normativa ganha novos contornos, com a
pergunta ainda não encontrando resposta nos ditames colocados pelo sistema posto (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 262).

CASTANHEIRA NEVES chega a uma primeira conclusão:

se nesta dialéctica tem o direito realizado a sua dinâmica de emergência, pela solução dos problemas jurídicos concretos que se vão
desse modo suscitando, então o direito nunca será um dado, ou sequer um objecto, e sim verdadeiramente um problema − será ele,
como já tinhamos aludido, um contínuo problematicamente constituendo (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 262).

O modus operandi considera a historicidade da citada problemática, assumindo que a intenção normativa obriga o pensamento jurídico a

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24/02/2015 A FUNÇÃO DO JUIZ VISUALIZADA A PARTIR DO JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES ­ Crítica do Direito
perceber os limites objetivos, intencionais, temporais e de validade das normas jurídicas (da própria lei) para se cumprir a intenção do
direito que o sistema jurídico e a ordem jurídica autonomamente implicam. O mencionado modus operandi compreende a juridicidade – “a
intencional normatividade do sistema e do seu direito" −, que ultrapassa extensiva e intensivamente, “como em normativas exigências
constitutivas, aquele jurídico positivo”. O modus operandi obriga a continua referência àqueles princípios e valores normativos que são
fundamentos regulativos do próprio sistema e últimos critérios de realização do direito (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 263).

A abertura do sistema impõe que a realização do direito indague permanentemente e se faça intérprete, em um juízo normativo concreto,
do consenso comunitário das intenções axiológico­normativas da “consciência jurídica geral”, “com as suas expectativas jurídico­sociais
de validade e de justiça”. Não se desconhece a força imperativa e teleológica de determinação da validade jurídica da lei, inserida no
sistema jurídico que a objetiva no seu sentido e nos seus fundamentos últimos e juridicamente decisivos; estes serão procurados na
normatividade fundamentante constitutiva do sistema jurídico e da sua juridicidade. Além disso, “a teleologia imperativa terá de admitir a
coerência dos fundamentos normativos da validade do sistema jurídico (nos seus valores e princípios constitutivos) numa transcensão da
teologia por esses fundamentos”. Esclarece CASTANHEIRA NEVES: “A significar isto, numa palavra, que a ratio legis se dialectiza e se vê
superada pela ratio iuris – ‘a vinculação à lei, di­lo também Luhmann, não significa vinculação à legislação’” (Die Stellung der Gerichte im
Rechtssystem. In: Rechtstheorie, 21 (1990, 470) (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 263).

O outro momento é o do concretum decidendo, em que se verifica um diálogo problemático entre a norma (solução normativa abstrata de
um pressuposto problema tipificado) e as exigências normativas específicas do caso decidendo, compreendido autonomamente “como
um problema análogo àquele que a norma pressupõe e tipifica”. O sentido determinado pela norma, a apreensão da solução que ela
prescreve, o fundamento teleológico da ratio legis têm um valor hipotético em face do fundamento axiológico­sistemático da ratio iuris, a
levar a solução posta na norma positivada a uma contraprova quando da experimentação problemático­decisória do caso concreto. A
decisão do caso concreto, portanto, poderá assimilar total ou parcialmente, ou mesmo negar, a solução engendrada pela norma
positivada, ante as peculiaridades do caso em análise, a exigir “uma autónoma constituição da solução jurídica” (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 263­264).

CASTANHEIRA NEVES chega a uma segunda conclusão:

Conjuguem­se os dois momentos na unidade da sua dialéctica, e uma segunda conclusão se impõe: a de que é indispensável uma
particular mediação judicativa a que o operador em concreto será chamado e de que será o responsável. Esse operador concreto­
judicativo não é outro, evidentemente, que o juiz (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 264).

A perspectiva jurisprudencial tem por referente um normativo problemático cuja realidade é correlata à própria normatividade axiológico­
materialmente jurídica, realidade da “inter­acção” ou da convivência prática de acontecimentos prático­sociais oriundos das controvérsias
concretas que necessitam de uma solução de validade normativa. Na linha de ANDREAS FESER, “os dados­objectos sociais a regular pelo
direito ‘não são simplesmente quaisquer factos de vida a explicar empiricamente, mas acontecimentos humanos, inter­acções
comunicativas’. O paradigma da jurisdição está no juízo (não numa lógica aplicação, nem numa estrita decisão)” (CASTANHEIRA
NEVES, 2007, p. 264).

CASTANHEIRA NEVES aduz que o juízo não se identifica com qualquer raciocínio e não possui uma índole puramente lógica, devendo­se
distinguir os diversos tipos de juízos lógicos: a) juízo enquanto inferência; b) juízo enquanto julgamento; c) juízo que realiza o sentido
prático de julgar ou juízo de ponderação prática. Pode­se falar também do juízo não puramente lógico, abordado por KANT na terceira
crítica:

juízo que “julga”, enquanto à “faculdade do juízo” competiria “conhecer o particular como contido no universal”, já em termos
“determinantes” (do universal para o particular), já em termos “reflexivos” (do particular para o universal). É esse juízo, e sobretudo na sua
modalidade reflexiva, que aqui queremos especificamente considerar, reconhecendo que ele encontra num discurso o seu modus
operandi, e em raciocínios a sua estrutura lógica, o que tem no eticamente de específico reside na sua particular índole prático­
argumentativa. Sabe­se que um argumento não é uma premissa (proposição pressuposta de uma inferência necessária) − com ele
constitui­se antes uma racional conexão e passagem de certas proposições ou posições a outras proposições ou posições num sentido
intencional e materialmente justificado ou fundamentante, em referência ao contexto de pressuposição significante de uma situação
comunicativa e em termos de conexão racional se oferecer nessa situação comunicativa como concludentemente inovadora
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 265).

Dessa maneira, tal juízo se caracteriza pela resolução de uma controvérsia prática, normalmente expressiva de posições divergentes
sobre o mesmo caso, “mediante uma ponderação argumentativa racionalmente orientada que conduz, por isso mesmo, a uma solução
comunicativamente fundada”. O critério de tal juízo são os fundamentos, sustentadores da intencional concludência normativa, a
solução mediatizada no caso concreto – “critério como fundamento, não como premissa, nem como efeitos”. Fundamentos nos quais a
normatividade do sistema de validade se manifeste e determine (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 265).

O juízo que tem por critério um fundamento de validade se submete ao “absoluto” – “a validade não o seria sem a pressuposição da sua
incondicionalidade” −, e o juízo que tem como critério os efeitos do fundamento se orienta por um “relativo” e de acordo com uma
contingência de oportunidade de cálculo e de conveniência. Os efeitos são ponderados por sua utilidade social; sua intervenção na
realidade social, de maneira conformada e organizada, confere uma perspectiva programática heterônoma futura. Os fundamentos,
porém, concedem sentido de validade a valores constitutivos do sistema e uma intencionalidade regulativo­normativa justificadora de tais
valores. A justificação de tal intencionalidade ocorre em juízos axiológico­normativos críticos de validade e de invalidade sobre o objeto
problemático a ser resolvido. A função social ou comunitária reside na afirmação dos mencionados valores de “uma imanente intenção
pressuposta e a respectiva intencionalidade normativa de validade, para ponderar e garantir sancionatoriamente o seu concreto
cumprimento − pelo que a sua perspectiva normativa é imanente, e o seu tempo, presente” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 265­266).

Os fundamentos normativos podem estar previamente constituídos e objetivados em critérios normativos jurídicos positivados ou
somente oferecerem “enunciados na assunção e princípios normativo­jurídicos, ou serem mesmo assumidos­constituídos no próprio
momento em que se considera um concreto problema decidendo e seu critério, que sempre a sua índole e função é a de fundamentos de
juízos de política ou tecnológica eficácia social” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 266).

Um fundamento normativo é intencionalmente pressuposto sem que necessariamente seja objetivo formalmente antecedente, ou seja, é
previamente dado e constituído, já que autoriza criação ou assunção constituinte “no próprio juízo em que é fundamento e critério. Nestes
termos, o seu ‘presente’ denota um tempo lógico (o prius de pressuposto) e não um tempo cronológico (o ante de antecedente)”
(CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 266).

Distinguem­se, portanto, fundamento e efeito (diferença de categoria, de planos, de termos e de racionalidades), valor e fim (perspectiva
axiológica), sentido­fundamento e causa­efeito, significação e técnica (perspectiva epistemológica), relação­a­valor e relação meio­fim
(perspectiva sociológica). Essas distinções diferenciam a intenção axiológica da intenção tecnológica, a compreensão dos sentidos do
esquema ou modelo operatório, a racionalidade hermenêutico­dialética da racionalidade empírico­analítica (CASTANHEIRA NEVES,
2007, p. 266­267).

Por tudo isso, o juiz convocado é o juiz do jurisprudencialismo, “e a sua jurisdição, a de uma validade problemático­concretamente
realizada neste modo judicativo” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 267).   

6. CONCLUSÃO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES

O tempo presente é aquele em que se joga o destino do homem­cultural do Ocidente, no qual a mais alta civilização da história foi
forjada, em meio a tragédias e a misérias, como a Inquisição, a escravatura, Auschwitz e Gulag, a caracterizar situações de
inumanidades. O direito é, nessa civilização, a dimensão constitutiva da humanização do homem, devendo­se proclamar o “direito ao
direito”, como feito por HANNAH ARENDT, o verdadeiro, último e decisivo direito do homem. Para isso, é necessário perceber o direito em seu
sentido autêntico, “não mero imperativo do poder, não simples meio técnico de quaisquer estratégias, mas validade em que a axiologia e
a responsabilidade do homem se manifestem”, a tornar indispensável o juiz (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 267).

http://www.criticadodireito.com.br/todas­as­edicoes/numero­4­volume­59/frota 9/10
24/02/2015 A FUNÇÃO DO JUIZ VISUALIZADA A PARTIR DO JURISPRUDENCIALISMO DE ANTÓNIO CASTANHEIRA NEVES ­ Crítica do Direito
O juiz tem uma responsabilidade ética de projeção comunitária, como aduz CASTANHEIRA NEVES:

Negar­se­á nesse seu sentido se for mero funcionário, funcionalmente enquadrado e nisso comprazido, servidor passivo de qualquer
legislador, simples burocrata legitimante da coacção. Só o será verdadeiramente assumindo uma dimensão espiritual, e
responsabilizando­se por ela, aquela mesma dimensão espiritual que radicalmente constitui o direito como expressão da humana
coexistência, da humana convivência comunitária. E nesse caso, afirmando­se o representante e intérprete “da soberania originária, da
soberania ainda não delegada do povo”, segundo a bela fórmula de Marcic, e assim a voz em que a palavra decisiva da democracia, no
seu sentido originário e também autêntico, se faz ouvir, tem profunda significação, posto que muitos o não entendam, que a Constituição
portuguesa, no seu art. 202º, diga que “os tribunais são órgãos de soberania com competência para administrar a justiça em nome do
povo”. Utópico tudo isso? Então são utópicos a Constituição e o pensamento vocativo − e devem sê­lo (CASTANHEIRA NEVES, 2007,
p. 267­268).

À vista do exposto, verifica­se que o pensamento de CASTANHEIRA NEVES, embora pouco difundido no Brasil e em Portugal, traz grandes
contributos para se pensar um direito real, efetivo, concreto e justo, bem como para se perceber a importância que o atuar de um juiz tem
para a efetivação do direito em seu sentido de autenticidade.

7. REFERÊNCIAS

CASTANHEIRA NEVES, António. Entre o “legislador”, a “sociedade” e o “juiz” ou entre “sistema”, “função” e “problema” − modelos
actualmente alternativos da realização jurisdicional do direito. In: SANTOS, Luciano Nascimento (Coord.). Estudos jurídicos de
Coimbra. Curitiba: Juruá, 2007, p. 229­268.

[1]            Doutor em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná. Mestre em Função Social do Direito pela
Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo. Professor do Centro Universitário de Brasília – UNICEUB. Especialista em Direito Civil
pela Unisul. Especialista em Filosofia do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Membro dos seguintes grupos de
pesquisa em Direito Civil: Núcleo de estudos em direito civil constitucional “Virada de Copérnico” (UFPR), Núcleo de Pesquisas em
Direito Privado Comparado (UFPR), Constitucionalização do Direito Privado (UFPE), Responsabilidade Civil (UNICEUB). Líder do Grupo
de Pesquisa Direito Civil Constitucional Prospectivo (UNICEUB). Professor Associado do PPGD­UNICEUB e da graduação em direito
no UNICEUB. Advogado. Áreas de interesse: direito civil, direito do consumidor, teoria e filosofia do direito. CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/0988099328056133.
[2]  Trata­se da frase de Robespierre: “Ce mot de jurisprudence des tribunaux (...) doit être effacé de notre langue; dans um État qui a une
constitution, une législation, la jurisprudence n’est autre chose que la loi” (CASTANHEIRA NEVES, 2007, p. 246).  

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RCD ­ Revista Crítica do Direito ­ ISSN 2236­5141 ­ Qualis B1

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