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Espírito, Eu e sociedade: George Herbert Mead

Situando o pensamento de GH Mead: Tradição sociológica americana: caráter empírico,


censo de 1790. Tradição européia: evolucionismo, utilitarismo, economia política,
teorias sintéticas, critica da razão, romantismo, idealismo. Pragmatismo: realidade não
existe fora do mundo real: indução a partir dos fatos observados. Interacionismo
simbólico: os atores se relacionam com o mundo, a interação é mediada pela linguagem,
comunicação, símbolos. A sociologia estuda a ação e a interação. Influência da filosofia
alemã: nove mil americanos estudaram na Alemanha entre 1815 e 1915. Psicosociologia
ou Psicologia social.

A obra de Mead ora discutida está organizada em três grandes pontos: Mente, Self e
Sociedade. Esta resenha prioriza a discussão da Parte III da obra, em que se expôs a
concepção do autor sobre o “indivíduo”, no texto, em espanhol, referida por La Persona,
e no original, em inglês, por Self. A discussão do texto de Mead precisa ser
contextualizada. George Herbert Mead é um dos principais clássicos da psicologia
social, e seu destaque na sociologia está ligado à Escola de Chicago como um dos
fundadores do Interacionismo Simbólico. Destaca-se, ainda, a tradição sociológica
americana e o pragmatismo. A idéia básica a se considerar é que para Mead, a
sociologia estuda a consciência, a ação e a interação. Em Mente, Self e Sociedade,
Mead descreve como a mente e o self individuais se originam no processo social. A
idéia do autor é que o indivíduo se origina e só pode se originar a partir do social, sendo
o social que o constitui, mesmo que o indivíduo internalizando o social possa modificar
o social. Mead realiza uma “descrição densa” da experiência individual no social e dos
processos de sociabilidade que permite ao indivíduo emergir. O modelo de Mead da
sociedade é um modelo orgânico em que os indivíduos estão relacionados ao processo
social no mesmo sentido que as peças corporais são relacionadas aos corpos. Assim,
para Mead, a psicologia individual seria inteligível somente nos termos de processos
sociais. Mead parte do condutivismo, mas critica linhas desta corrente dando prioridade
à sociedade nas suas análises. Para o condutivismo mais tradicional de Watson,
importaria apenas a análise da conduta observável e os estímulos que provocam esta
conduta. Mead dava importância à conduta observável, mas também reconhecia que
existiam aspectos “encobertos” na conduta que emanam do social. Assim, Mead
contrasta sua teoria social do self com as teorias individualistas do self. O
desenvolvimento do self (mente) e a consciência do self (self, persona, indivíduo social)
ocorrem dentro do campo da experiência e são, primariamente, sociais. O self só pode
ser desenvolvido plenamente quando as pessoas tornam-se membros de uma
comunidade e agem segundo as atitudes comuns desta comunidade. O self não está no
nascimento, mas emerge do processo da experiência e atividade social, isto é, torna-se
indivíduo em conseqüência de suas relações a esse processo e ao todo e a outros
indivíduos dentro desse processo – isto é, subentende “ser um objeto” deste social. O
self é um processo reflexivo, no sentido de que o self é a capacidade de considerar-se
como objeto. Para Mead, é a reflexividade do self que “o distingue de outros objetos e
do corpo”. A atividade reflexiva inicia pela capacidade do ator de se colocar no lugar do
outro. Seria mediante essa reflexão que o processo social seria internalizado na
experiência dos indivíduos, e, ao adotar a atitude do outro, o indivíduo estria
conscientemente capacitado para se adaptar a esse processo e para modificar tal
processo em qualquer ato social dado. Assim, o indivíduo não se avalia a partir da sua
perspectiva e, sim, colocando-se na perspectiva de outros indivíduos ou do ponto de
vista do grupo social. Neste sentido, poder-se-ia entender que a teorização de Mead
representa os indivíduos como atores conformados ao grupo de pertença. Essa idéia
reforça sua perspectiva de anterioridade do social sobre o individual, o que lhe
aproxima, de certa maneira, da teoria de Durkheim. Entretanto, a abordagem é distinta,
pois enquanto Durkheim relegaria toda a sua atenção sobre o que é social e as coisas
propriamente internalizáveis, Mead está interessado no processo de internalização, em
como o social é internalizável. Neste sentido, entende-se que Mead está interessado nas
implicações da ordem social sobre a produção da sociabilidade e interação. Nesta obra
analisada, encontra-se uma explicação para a constituição e manutenção de identidades
sociais, entendendo como estas conferem ao self um ambiente estável e familiar. A
concepção de Mead também é uma explanação de como esse processo constrói e
mantém a realidade social. A mente, para Mead, é uma faculdade biológica que permite
apreender e manejar símbolos cujos significados são compartilhados por diferentes
pessoas. Mediante a mente poder-se-ia estabelecer uma linguagem baseada em
significados estabelecidos por uma convenção. O ato de pensar é uma ação mediante a
qual os indivíduos tomam consciência de si mesmos e aprendem a conhecer os
comportamentos socialmente aceitáveis. Os indivíduos fazem uma série de construções
mentais (adaptação) a fim de conhecer os papéis sociais e como cumpri-los em
diferentes situações. A concepção social do self que Mead discute, envolve que os selfs
individuais são os produtos da interação social e não das precondições (lógicas ou
biológicas) da interação. Mead especifica que cada self é diferente dos demais. Os selfs
compartilham uma estrutura comum, mas cada um recebe uma particular articulação
biográfica. As pessoas podem se inserir no grupo não somente se conformando a ele,
mas, também, introduzindo mudanças nele, o que permitiria entender um pouco da
perspectiva de Mead sobre mudança social. O self constitui-se como uma unidade dual
de um “eu” (I) e um “mim” (me). Pelo “eu” o self individua-se, pelo “mim” o self
socializa-se. Tais pólos seriam independentes, mas referem-se necessariamente um ao
outro. Diferente de outros precursores da psicologia social e do interacionismo
simbólico, Mead concentra sua investigação não tanto numa subjetivação espiritual do
self, mas na capacidade do self de introjetar os valores e as regras sociais, sem o que o
self não poderia constituir-se. A diferença individual resulta de um processo de
significação de si em que há um outro generalizado contra o qual o indivíduo reage e
pelo qual o indivíduo se constitui. O eu é uma reação do corpo ao eu generalizado (o
‘mim’). O ‘eu’ é a reação do organismo às atitudes dos outros; o ‘mim’ é a série de
atitudes organizadas dos outros, que o eu mesmo adota. As atitudes dos outros
constituem o ‘mim’ organizado e o eu reage contra elas como um ‘eu’.

Referência:
MEAD, George. Espíritu, Persona y Sociedad (Mind, Self and Society). México:
Paidós, 1993.