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CORRENTES ACTUAIS DA SOCIOLOGIA I

O objecto de estudo será a Sociologia Alemã e a Sociologia Americana. Em relação à


sociologia americana, irá abordar-se os anos 30-50, com o interaccionismo simbólico
(os autores que se irão estudar são Blummer, Mead e Becker). A sociologia alemã irá
ser abordada a partir da Escola Crítica de Frankfurt (com os autores Adorno,
Karkheimer e Marcuso), nos anos 30-60, e nos anos actuais com Jürgen Habermas e
Luhmann.

Objectos de estudo de sociologia


Antes de mais deve-se ter em conta que os objectos de estudo são diferentes segundo
os níveis de observação (que originam diferentes escolas). Pode-se analisar através de:
1) Microssociologia – focada no individuo
2) Mesossociologia – focada na interacção/situação e nas instituições (papeis
sociais)
3) Macrossociologia – focada no espaço social/estatuto social e nas posições
sociais

A microssociologia e a Mesossociologia têm três grandes correntes que estudam estes


níveis como a etnometodologia, interaccionismo simbólico e a fenomenologia social
(estas duas ultimas correntes pretendem responder à questão “quais os mecanismos
que nos permitem interagir?”).
A fenomenologia social procura perceber o conjunto em que o individuo se insere;
para tal é necessário entender o conceito de mundo social da vida. Este conceito
reporta-se ao mundo em que nascemos e no qual temos normas/regras que nos são
incutidas socialmente (somos socializados desde o 1º segundo de vida). Temos
implícitos sociais que nos permitem interagir socialmente (somos animais sociais),
permitindo-nos prosseguir – tal não é discutido, é aceitável socialmente.

A ESCOLA DE CHICAGO
Esta é a primeira escola de Sociologia Americana, que revigorou entre 1892 e 1935,
John Dewey e George Mead. A segunda escola, que revigorou entre os anos 60 e 80,
teve como principais autores Blummer e Goffman.
Mead e Blummer (1ª fase da Escola de Chicago)

Saliente-se, antes demais, Herbert Blummer, importante sociólogo que deu nome à
Escola de Chicago.
Denote-se que Chicago, era (e é) uma grande metrópole com um grande número de
imigrantes de diferentes culturas, pelo que lhe era associado um conjunto de graves
problemas sociais. Além disso, Chicago torna-se um importante laboratório para a
Sociologia (nomeadamente devido a questões de segregação, de prostituição, de
crime...). Chicago foi ainda o local onde se fundou a primeira revista de sociologia e a
Associação Americana de Sociologia.
A EC passou por duas fases: uma que durou até aos anos 30/40, com enorme
influência de John Dewey e George Mead; outra, que foi importante no pós-Guerra,
salientando-se Goffman e Becker.

A EC revela uma predileção pelo trabalho de campo/pesquisa de terreno e, também,


pelo estudo de pequenas áreas delimitadas (rua, bairro, escola, bordel, etc...) de forma
a facilitar a presença e estudo do investigador.

A EC é ainda definida pelo pragmatismo, não existindo preocupações de critérios


absolutos nem metafísicos, estudando-se apenas o observável. Seguindo as ideias de
Blummer “o interaccionismo simbólico é uma abordagem terra-a-terra do estudo
científico da vida dos agrupamentos humanos e condutas respectivas. O seu universo
empírico é o mundo natural da vida e da conduta dos grupos, produzindo
interpretações a partir desse mesmo estudo naturalista”, pelo que defende que se deve
estudar os fenómenos naturais como eles são dados. Assim, considera-se que não há
verdades absolutas, sendo as verdades mutáveis e dependentes dos interesses dos
agentes e do seu uso. A verdade é sempre contextual e depende da capacidade do
actor para observar/dotar o mundo. Ainda se pode afirmar que a realidade não pré-
existe aos indivíduos (nem antes nem sem aos indivíduos, não lhes é transcendente).

Pode-se estabelecer uma ligação entre Dewey com um clássico, Durkheim, dado que
segundo o primeiro autor, nao existe um pensamento mas sim um processo mental;
isto é, só existe realidade se esta existir na nossa mente e com um significado. Assim,
depreende-se que tudo o que é macro (sociedade, sistemas, etc...) existem mas não
determinam a consciência/comportamento do indivíduo. As normas, papéis, crenças
só existem porque os indivíduos as utilizam na interação, pelo que o importante é o
uso que estes lhes dão.
Segundo Blummer, a interacção existe por si própria e, ao estudarmo-la, desenvolve-
se e expressa-se a capacidade de pensar; defende também que os objectos, quer sejam
físicos ou abstractos, só existem se lhes dermos significado.

É importante estabelecer que existem dois tipos de interacção, a simbólica e a não


simbólica (não envolve o pensamento). A interacção simbólica expressa-se através da
linguagem.

O behaviorismo social (George Herbert Mead) determina que o interesse se foca nas
respostas dadas pelo indivíduos, pelo seu significado e pela forma como estes
seleccionam a forma de resposta. Os estímulos provêm dos processos mentais dos
actores. Este behaviorismo distingue-se do behaviorismo biológico (de Watson), onde
o comportamento é interpretado através de um estímulo-reflexo (depende apenas de
fenómenos biológicos).

O self/o outro generalizado (George Mead)


Existe uma enorme dificuldade em explicar e traduzir o que é o self. Contudo, pode-se
afirmar que o self é mutável e adaptável às situações e aos outros (e ao seu
comportamento). Assim, conclui-se que o self e a definição das situações constroem-
se mutuamente, na própria interacção, através da linguagem.
A linguagem (verbal e não verbal) serve para expressar, comunicar, persuadir,
compreender, completar e dar sentido à acção; ela torna acessível aos outros, aquilo
que é interior/reflexões internas (sentimentos, pensamentos…) através de símbolos.
Apesar de os significados/símbolos variarem conforme as situações, a linguagem é
uma caixa de ferramentas universal que é expressa através da experiência concreta da
interacção social. Por exemplo, um carro é um objecto conhecido universalmente
(rodas, transporte, etc) universal, contudo o seu significado pode variar conforme o
contexto (pode ser sinónimo de estatuto, de mobilidade, de sedução, etc).
O outro generalizado, termo de George Mead, é um conjunto de expectativas/normas
que a comunidade desenvolve sobre nós próprios e que nós, por sermos parte
constituinte dessa comunidade, desenvolvemos sobre os outros. Assim, afirma-se que
a forma como nos encaramos depende daquilo que os outros pensam e sentem em
relação a nós, existindo, portanto, uma incorporação do controlo social. Deve-se ter
em conta que o outro generalizado é um aspecto reflexivo – explicado mais em baixo.
Segundo Mead, para percebemos o outro generalizado temos que ter em conta a
atitude de toda a comunidade. Para o self ser completo, o actor incorpora a atitude
social do grupo a que pertence, existindo sempre uma continuidade entre a atitude
própria e a do grupo.
O padrão do grupo social organizado cria o outro social organizado (o self); mas
existem vários grupos sociais organizados e, por isso, vários selfs. O outro
generalizado é também a sociedade, isto é, é a parte da sociedade que entra no nosso
self, quer por expectativa quer por constrangimento, mas nunca descura o
individualismo de cada individuo. Afirme-se também que o outro generalizado torna
eficiente o actor social.
Também não se deve descurar a importância da reflexividade do individuo, isto é, a
sua capacidade para reflectir, para diferenciar o objecto e o sujeito; o individuo
consegue tornar o seu self num objecto e pensar sobre isso, num diálogo interno.
Segundo Blummer, o ser humano constrói a sua identidade através da comunicação e
do sentido que atribui à interacção.
Em termos conclusivos, saliente-se a relação entre o self, a mente (representações
mentais, consciência humana e processos internos) e a sociedade.
O self desdobra-se em “I” e em “Me”. O “I” reporta-se à resposta/atitude/acção
imediata de cada individuo, sendo, por isso, uma espécie de conhecimento pré-
reflexivo. O “Me” reporta-se à sociedade que existe em nós, sendo uma reconstrução,
um processo reflexivo interno; por se reportar à sociedade, é encarado como a forma
desta dominar os indivíduos que a compõe, produzindo uma forma de conformismo;
saliente-se que existem vários “Me” porque existem vários outros generalizados –
pressupõe-se que o outro generalizado está presente no “Me”. Cada ser humano, ao
longo da sua vida, articula o “I” e o “Me” de maneira diferente – até porque existem
vários outros generalizados. Segundo Mead o “I” ganha mais força no self e o “Me”
vai perdendo força na sociedade.
Perante o exposto, podemos concluir que o outro generalizado é, também, o padrão da
nossa autocritica.
O que é uma sociedade?
Segundo os interaccionistas simbólicos, é uma ordem simbólica criada pela
linguagem e pelos próprios símbolos.
A situação é definida e ocorre porque a negociamos através de símbolos e linguagem,
os indivíduos e a sociedade são construídos ao mesmo tempo, designando-se portanto
por construção social da realidade.
O significado não é inato, existindo sempre em função de uma intencionalidade e,
portanto, resulta da interacção entre pontos de vista.

O interaccionismo simbólico de Goffman (2ªfase da Escola)


Interaccionismo porque se estuda o contexto de interacção social entre indivíduos
(reciprocidade) e simbólico porque se preocupa com os mecanismos através dos quais
os sujeitos dão sentido às suas interacções e acções. Assim, é o estudo dos símbolos e
da linguagem.
O autor mais estudado é Goffman que apresenta vários estudos:
1) Performance, isto é, a gestão de impressões. Neste estudo compara a vida
social a um teatro no qual os actores sociais fazem uma representação e uma
interpretação dos papéis de acordo com o contexto situacional. Os actores
socias são sensíveis ao modo como são vistos pelos outros e, porisso, vão
reagir à forma como são vistos e vão influenciar as reacções dos outros.
Saliente-se os conceitos de papel social e estatuto social, que variam com o
contexto em que os actores se encontram (conjunto de estatutos).
2) Indícios – palcos de situação/quadro de interacção. São quadros que possuem
as pistas para compreender os momentos de interacção. Fala-se em interacção
focalizada (contexto directo onde os indivíduos prestam atenção directa ao que
os outros dizem e fazem, portanto, tem subjacente aberturas; sem indiferença
cortês) e a desfocalizada (contexto de grande movimento onde os indivíduos
tem uma consciência mútua da sua presença)
3) Regra da troca/compromisso de trabalho – espécie de contracto “que, conhecia
as interacções e que estabelece um equilíbrio nos mesmas e nas relações
sociais” (ideia de reciprocidade). É um “contracto” que vai supor, de forma
aceitável, que cada uma das partes tem em consideração aquilo que são os
interesses e as intervenções dos outros e, por isso, tem inerente que cada parte
adapte as suas atitudes e participação na interacção. Normalmente esta regra é
conseguida através da linguagem/comunicação.
4) Persuasão interpessoal/instituições totais – a persuasão é o mecanismo
utilizado principalmente neste tipo de instituições em que o nosso reportório
interaccional não pode ser utilizado (ex.: priões, manicómios, campos de
concentração, conventos, etc). Utilizada em situações em que a interacção é
limitada, onde há uma grande desigualdade/desequilíbrio entre as partes; há
uma altura de imposição que origina um acto metabólico.

Conceitos:
Linguagem – conjunto de regras que se torna no principal mecanismo de
controlo internacional, ou seja, é um conjunto de símbolos que podem ser
agregados num infinito nº de formas permitindo a comunicaçã o do pensamento
abstracto sendo, por isso universal, no que respeita À sua existência em todo e
qualquer tipo de sociedade

Becker (2ª fase da Escola de Chicago)


Faz muita pesquisa empírica, tendo sido conhecido por ter escrito vários livros (entre
eles “Outsiders”), estudando também o hipertexto e metodologias. Foi muito
influenciado por Evertt Hughes, utilizando conceitos da Sociologia das Profissões
(como o conceito “carreira”). Cria, então, vários termos/conceitos importantes (como
rotulagem/etiqueta) e estuda diferentes temas

“Outsiders”
O que é um desviante?
Um desviante pode ser um individuo que não cumpre as regras e as normas impostas
pela sociedade, isto é, um individuo que não segue convenções sociais; deve-se ter em
atenção que pode ser considerado desviante, mesmo que o seu comportamento não
seja considerado ilegal (ex.: homossexualidade).
Os grupos sociais constroem regras que podem ser reforçadas conforme as situações.
Há diferentes perspectivas sobre o que é ser desviante ou não (uma pessoa pode não
se considerar desviante). Aliás, os que quebram as regras podem considerar que
aqueles que constroem a moral são os outsiders.

Becker afirma que existem duas grandes categorias: os criadores/guardiões da moral e


os outsiders/quebra-leis. Segundo este autor, ninguém nasce desviante, existindo um
processo em que se atribui um rótulo. Tornar o desvio como sendo patológico ou
médico também varia conforme o tempo e o espaço, dai não se considerar um
processo biológico.
Este autor não olha tanto para o desvio, dando mais atenção à norma para depois
encontrar o desvio. Segundo ele:

“Considerarei o desvio como o produto de uma transacçã o efectuada entre um


grupo social e um individuo que, aos olhos do grupo, transgrediu uma norma.”

“O facto central sobre o desvio é que ele é criado pela sociedade.”


“Os grupos sociais criam o desvio construindo as regras cuja infracçã o constitui
o desvio.”

Assim, podemos falar na construção social da realidade: o desvio só é desvio depois


de se criar uma norma cuja infracção constitui esse desvio. Este autor considera que
existem desigualdades sociais tendo em conta a diferente distribuição de poder e o
conflito que isso cria. A forma de rótulo é imposta por quem ter poder, sendo uma
ordem política. Afirma que existem dois tipos de guardiões (os que criam as normas e
os que garantem a sua aplicação). Estes guardiões têm tanto poder que aplicam os
seus interesses como universais. Também há a ideia de que a existência de
determinadas normas servem para organizar o mundo (sem normas não há ordem no
mundo, segundo esta lógica). Também há a ideia de que todos os meios podem ser
usados para eliminar desviantes e comportamentos desviantes. Fale-se ainda em
“espíritos de cruzadas”, dando a ideia de missão sagrada por parte dos guardiões para
fazer cumprir as normas.
Tipos de desvio segundo Becker

Comportamento quebra-
Comportamento obediente
leis
Percebido como desviante Falsamente acusado Puro desviante
Não percebido como
Conformista Desviante secreto
desviante

Desviante secreto – como exemplo pode-se apontar um polícia corrupto. É um


confronto entre um comportamento oficial (fachada) e um comportamento
subterrâneo. Becker á o exemplo de sadomasoquistas – tem uma vida normal mas,
secretamente, tem determinados rituais.
Falsamente acusado – num gang o elo mais fraco é o qe vai mais depressa preso; os
hispânicos/negros são os mais facilmente presos pela polícia. São casos em que o
individuo é acusado de ter um comportamento desviante mesmo que não o tenha
efectivamente.
Puro desviante – a máfia italiana é um exemplo disto (assume e toda a gente sabe
quem são). São os indivíduos que se afirmam como desviantes e são vistos com esse
rótulo pelo resto da sociedade.

O desvio é sempre o produto de uma interacção, é uma questão de quem tem o poder
e incorpora esse rótulo noutras pessoas, não sendo, portanto, uma questão de
patologia.

Etiquetagem/rotulagem – é a designação do individuo como transgressor da parte de


quem tem poder (quem cria normas, quem as executa e julga alguém segundo elas).
Estigmatização – marcação de uma pessoa com um traço negativo; o problema do
estigma é que pode moldar a identidade de uma pessoa de tal maneira que passa a ser
o traço principal (identidade estigmatizada)

Para Becker, o conformismo ou o desvio são produzidos através de um processo não


sendo, por isso, imediato ou de inclusão. Geralmente, os vários factores sociais
actuam ao longo do tempo e tornam uma pessoa conformista dada a existência de um
compromisso destes factores sociais com as instituições sociais. Existem dois
modelos de conformismo/desvio, o sequencial (para Becker este é o que faz mais
sentido, pois os factores sociais actuam por etapas; modelo altamente influenciado
pela sociologia das profissões e pelo conceito “carreira”) e o simultâneo.

Exemplo de passos para o conformismo:


Ser bom aluno → ter um bom emprego → ser casado → ter filhos
Atençã o que ser conformista nã o é um aspecto negativo. Se um individuo nã o
tem alternativas estruturadas, pode sentir-se destruturado. Tal pode levar a
uma maior pressã o social e a um sofrimento social, podendo tornar um
individuo desviante ou estigmatizado.
Becker afirma que cada etapa muda o comportamento dos indivíduos, falando em
“carreiras do desvio” (etapas ordenadas). Deve-se ter em conta que as carreiras:
1) São um processo de etapas
2) Tem inerente um conjunto de contingências (factores objectivos e subjectivos)
que afectam essas mesmas carreiras
3) Todas as carreiras do desvio têm a capacidade de resistir à moral dominante e
a familiarização (apesar de variarem de caso para caso) bem como a tentativa
de impor a moral de um desviante sob a moral de um dominante.
4) Há compromissos cumulativos que desenrolam uma carreira (atenção que nos
compromissos do conformismo, estes são impostos segundo a moral
dominante da sociedade)

Exemplo de passos numa carreira desviante:


1º acto de desvio (pode custar ao individuo) → começa a integrar-se num
grupo com uma linguagem e prá tica pró pria → começa a naturalizar a sua
condiçã o de desviante

Carreira de desviante de um fumador de marijuana


Segundo Becker, pode-se afirmar que os fumadores têm uma moral avessa à moral
dominante. Bekcer afirma que nos EUA este fenómeno expandiu, apesar de saberem
que é ilegal – do ponto de vista politico – e desaprovado – do ponto de vista moral. A
sua preocupação é analisar o comportamento desviante que produz a motivação
desviante (recorrendo à observação, à entrevista e a informantes privilegiados).
Determina que o uso da marijuana é recreativo e que, após as várias etapas do
fumador que o tornam desviante, no fim se sentem gratificados. Para este autor há um
processo subjacente para se tornar um fumador:
1) Aprender a técnica – apos fumar a primeira vez não fica atrapalhado (tem um
significado social)
2) Aprender a perceber os efeitos – a droga permite aprender experiências e faz
com que os indivíduos queiram aprender a moca/ficar predado
3) Aprender a gostar dos efeitos – os mais experientes vão regular a quantidade
de droga desejável para evitar o desconforto (ensinar a fumar por prazer)
4) O desviante já é capaz de consumir marijuana por prazer – gostar de fumar e
usar marijuana não é condição suficiente para se tornar desviante
5) Capaz de controlar e inverter o controlo sobre ele exercido – existem três tipos
de controlo:
a. Controlo através do limite de acesso à droga
b. Separação entre fumadores e não-fumadores – a sociedade procura que
os fumadores sejam desviantes-secretos para evitar contágio na
sociedade
c. Definição do acto como imoral
Ao passar os controlos, ultrapassa convenções sociais, substituindo o ponto de vista
da sociedade dominante pelo ponto de vista do grupo de fumadores de marijuana (não
só sente poder como discorda com o que a sociedade dominante assume como
moralmente correcto).
Deve-se ter em atenção que as etapas não são estanques, podendo variar conforme os
indivíduos e contextos, mas tem sempre a mesma tendência. Becker estabelece, então,
uma tendência em relação à carreira dos fumadores mas só o faz depois de observar
(observação participante).

Músicos de jazz
Becker participa neste grupo, por ser um músico de jazz, e observa, fazendo por isso
observação participante com participação directa no grupo.
Aparentemente, este grupo parece um grupo dentro da lei, legal, mas são considerados
marginais porque o seu comportamento é anticonvencional; este comportamento é
duradouro e uma base sólida de sociabilidade. O grupo de músicos de jazz possui uma
visão própria do mundo e um estilo de vida muito próprio, partilhado pelos membros
desse mesmo grupo e que constroem um certo isolamento da restante sociedade.
Saliente-se o facto de possuírem linguagem/valores/etc próprios, pelo que a cultura se
torna identitária e diferenciadora (identificam-se com uma tábua comum de valores
sobre si mesmos, sobre os outros e sobre si próprios como desviantes. Tal permite
superar os juízos que a sociedade tem sobre eles – o facto de as pessoas os julgarem
bizarros, exóticos, diferentes… Os músicos de jazz definem-se segundo critérios
autónomos e não heterónimos porque criam formas de se tornarem
autónomos/independentes do resto da sociedade, desenvolvendo comportamento
próprios/não-convencionais/boémios.
Refiram-se três dimensões inerentes aos músicos:
1) Concepção sobre si mesmos – existe uma fronteira binária (nós VS outros),
tendo por isso, uma concepção sobre os que não são músicos de jazz.
Definem-se como pessoas dotadas de um dom inato (pretensão para tocar bem,
genialidade… - características carismáticas), considerando os outros
quadrados/aborrecidos/rotineiros.
2) Conflitos que se vão instaurar entre “músicos sérios” e “músicos
comerciais/vendidos” – músicos de jazz seguem a arte pura (arte pela arte) e
critérios artísticos; quando alguém muda os critérios extra-artísticos (ou seja,
tocar em lugares mais comerciais, mudança do seu reportório, etc) deixam de
fazer parte da cultura interna
3) Auto-segregação – sentimento de pureza que tenta inverter (ser puro não é ser
contaminado pela sociedade dominante); isolam-se quando tocam – ou seja,
nos cenários de interacção – e desenvolvem uma clara hostilidade
relativamente aos “quadrados” e dos que se vendem

Há um conjunto de cerimonias/rituais (até ao nível do vestuário) que é um marcador


da fronteira destes artistas com a sociedade dominante. Becker vai buscar mais uma
vez a Everett Hughes a diferença entre estatuto principal (master status) e estatuto
auxiliar; tal remete para aideia que na sociedade há estatísticas com mais poder do
que outras (há uns que marcam/catalogam mais do que outros; por exemplo, numa
mulher engenheira mecânica, o estatuto principal é o facto de ser mulher dado que tal
não é tao frequente num meio com mais homens). Aos poucos, ser desviante vai ser
um estatuto principal – torna-se a identidade da pessoa (vai sendo rotulada); se um
desviante assume um comportamento desviante, vai-se tornando a sua identidade.

Críticas a Becker
 Alguns autores criticam a teoria da rotulagem pois acham que Becker coloca
uma enfase muito determinista nesta teoria (criticam o facto de Becker so
considerar o desvio) – Becker responde que o rótulo é um dos
mecanismos/uma das explicações para compreender o desvio, mas que tal faz
com que seja mais difícil para o actor comportar-se normalmente.
 Critica a visão consensual do interaccionismo – actores sociais ajustam-se ao
comportamento que deles se espera (como se tivessem que preencher um
papel) – Becker responde que tem em conta que há conflitos/graus diferentes
de poder, que o ajustamento não é automático mas que as pessoas têm sempre
em conta tal ajustamento/etiqueta, acrescentado que o desvio é uma acção
colectiva (“as pessoas agem com um olho nas respostas dos outros que estão
envolvidos nessa acção” – Outsiders).
 Há autores que consideram Becker perigosamente radical porque procura
destruir a ordem social segundo a sua teoria dos guardiães morais – Becker
afirma que apenas observa e que não há uma ordem social, apenas que o
desvio tem diferentes significados
 Há quem afirme que Becker não tem em conta aspectos macro-sociais (classe,
etnia, etc) – Becker faz uma observação micro/meso e por isso não parte de
características macro.
 Criticam o facto de Becker criticar os elementos das instituições sociais (por
não terem responsabilidades morais) – Becker diz que não são os médicos
psiquiatras que tem total responsabilidades; que é o hospital – enquanto
instituição – que tem responsabilidade total; é uma questão de escala de
observação.

ESCOLA CRÍTICA DE FRANKFURT


Esta escola nasceu na Alemanha no séc.XX. Deve-se ter em conta o contexto
histórico nomeadamente a democracia de Weimar (existiam fortes conflitos políticos
e sociais) e a existência de partidos de esquerda e direita. Posteriormente à guerra vai-
se viver num período de fome, desemprego, recessão económica, inflacção louca (o
Estado era fraco). É neste contexto que, em 1923, se desenvolve o primeiro Instituto
de Pesquisas Sociais em Frankfurt. Entretanto, começa a nascer o nacionalismo-
socialista (partido social-nacionalista), que rejeitava o capitalismo e o comunismo,
defendia que a crise se superava com obras publicas e com a economia de guerra. A
economia de guerra devia servir o propósito do espaço vital, existindo ainda a
superioridade da raça ariana (judeus como bode expiatório pois estes eram uma classe
abastada). Como tal, verifica-se a rápida ascensão deste partido com Hitler. É, então,
num contexto de crise económica, social e politica que a EF nasce.
Em 1931, Max Horkheimer torna-se o director do Instituto de Pesquisas Sociais que,
com Adorno, forma a dupla mais conhecida de EF. Contudo, com a guerra, os autores
exiliam-se.

Características da EF, tendo em conta que é uma escoa crítica:


 Muito marcada pelo Holocausto, campos de concentração (a que muitos
chamam de “Des-civilização”); representam o que de mais moderno existia a
nível técnico/cientifico; os autores da EF criticam o uso da ciência para estes
propósitos, tendo que ter objectivos
 Critica ao determinismo económico porque se inspiram em Marx mas criticam
o neomarxismo – as questões do séc.XX já não podiam ser analisadas pela
economia (a economia já não determina as mudanças de todas as outras
estuturas) – os EF dão importância à cultura; inspiram-se muito em Weber e
em Freud
 Critica ao positivismo – criticam a aplicação de métodos/técnicas das ciências
naturais e o facto de os positivistas consideraram que já não há lugar para
valores ou juízos (neutralidade axiológicos), defendendo que se devem criar
cientistas críticos e que se devem reger por uma razão instrumental
 Critica à sociologia positivista – ideologia que alimenta o poder, etc
 Critica à sociedade moderna (ideia do progresso/racionalidade infinita) –
afirmam que a modernidade é ambígua (inspiração em Weber); a EF afirma
que a racionalidade tecnológica e irracional pois vai destruir a subjectividade
dos indivíduos (destrói questões étnicas)
 Critica a cultura moderna – Adorno e Horkheimer determina o conceito
“indústria cultural”, afirmando que um livro, um programa de TV, etc,
equivalem a uma lata de salsichas (aproximação destes factores a bens
materiais). Estes dois autores não gostam do conceito “cultura de massa” pois
a cultura não é feito por nem para população de massas, mas sim para as
pessoas. Os autores da EF denunciam que o seu principal objectivo é criar
pessoas manipuladas e alienadas (pessoas passias não questionam a TV,
Internet, etc…). Para estes autores, a cultura deve obrigar os actores a pessoas.
Defendem que é possível criar, através da pesquisa cientifica, possibilidades
diferentes de sociedade, da organização social: ideia de transcendência da
realidade existente, para além do que é observável e, com este esforço
intelectual (imaginação, capacidade crítica), compreende-se e altera-se o
mundo.

Os mass media acabam por criar um nº de pessoas manipuladas, que não sabem que o
estão a ser e que são exploradas ao pensar que estão à procura pela busca da
felicidade. Reproduzem o sistema capitalista e a cultura é vista como uma mercadoria,
em que existe um dominador comum – como tal, não é crítica e não exige esforço.
As massas esta excluídas da participação, sendo encaradas como meros produtos e
consumidores passivos, pelo que parece que há a procura em juntar o objecto e o
sujeito num só. Procuram formar o individuo para o consumo e não para o
pensamento crítico.
Há ainda a irracionalidade da razão.

Texto de Adorno – “Educação após Auswitch”

O grande paradoxo é o facto da civilização não fortalecer a anti-civilização; progresso


da espécie humana vai provocar a sua própria destruição (origina e fortalece
progressivamente o que é anticivilizatório). Como tal, o autor sugere que tem que se
olhar para os carrascos para perceber a sua história. Estes carrascos eram pessoas
quem evitavam pensar em si mesmas, existindo total ausência de consciência. Aliás,
deviam ser pessoas totalmente socializadas; quando hipersocializadas, tornavam-se
demasiado conformistas.
Salienta o facto de regimes totalitários precisarem de uma socialização totalitária.
Segundo uma lógica de heteronomia (Facilmente os chamados compromissos
convertem-se em passaporte moral --— são assumidos com o objetivo de identificar-
se como cidadão confiável — ou então produzem rancores raivosos psicologicamente
contrários à sua destinação original. Eles significam uma heteronomia, um tornar-se
dependente de mandamentos, de normas que não são assumidas pela razão própria do
indivíduo, O que a psicologia denomina superego, a consciência moral, é substituído
no contexto dos compromissos por autoridades exteriores, sem compromisso,
intercambiáveis, como foi possível observar com muita nitidez também na Alemanha
depois da queda do Terceiro Reich.), nos regimes totalitários os indivíduos iam-se
como um homem unidimensional, tornando-se máquinas de obediência, totalmente
dependentes do que o poder institui, não existindo nenhuma margem para por em
causa – limitam-se a aceitar passivamente ordens. Assim sendo, limitam-se a adoptar
normas e ordens que não foram criadas pela sua própria racionalidade (É possível
falar da claustrofobia das pessoas no mundo administrado, um sentimento de
encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, como uma rede
densamente interconectada. Quanto mais densa é a rede, mais se procura escapar, ao
mesmo tempo em que precisamente a sua densidade impede a saída. Isto aumenta a
raiva contra a civilização. Esta torna-se alvo de uma rebelião violenta e irracional. A
nossa sociedade, ao mesmo tempo em que se integra cada vez mais, gera tendências
de desagregação. Essas tendências encontram-se bastante desenvolvidas logo abaixo
da superfície da vida civilizada e ordenada. A pressão do geral dominante sobre tudo
que é particular, os homens individualmente e as instituições singulares, tem uma
tendência a destroçar o particular e individual juntamente com seu potencial de
resistência. Junto com sua identidade e seu potencial de resistência, as pessoas
também perdem suas qualidades, graças a qual têm a capacidade de se contrapor ao
que em qualquer tempo novamente seduz ao crime).
Pelo que foi dito anteriormente, refere tendências de regressão (des-civilização).
Assim, o todo colectivo (reportando-se a tradições, regras, normas) esmaga o
individuo, demonstrando as tais tendências totalitárias. A educação é baseada na força
e disciplina sem afecto – traços do nazismo.
O medo nunca pode ser reprimido – as pessoas são iguais e não deve existir remorso
em matar alguém. Apenas executam, não pensando no que fazem e são membros de
uma hierarquia muito bem organizada. - É preciso buscar as raízes nos perseguidores
e não nas vitimas, assassinadas sob os pretextos mais mesquinhos. Torna-se
necessário o que a esse respeito uma vez denominei de inflexão em direção ao sujeito.
É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais
atos, é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se
tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma
consciência geral acerca desses mecanismos. Os culpados não são os assassinados,
nem mesmo naquele sentido caricato e sofista que ainda hoje seria do agrado de
alguns. Culpados são unicamente os que, desprovidos de consciência, voltaram
Contra aqueles seu ódio e sua fúria agressiva. E necessário contrapor-se a uma tal
ausência de consciência, é preciso evitar que as pessoas golpeiem para os lados sem
refletir a respeito de si próprias.
Os indivíduos pertencentes e que alinhavam neste tipo de regime, sentiam-se mais
integrados, socializados e mais prestigiados.
O principio da acção é definido pelos meios que se tornam os fins; os meios são mais
importantes do que as pessoas. A ordem social produz e reproduz a friza como
transformam-se os outros. - Um mundo em que a técnica ocupa uma posição tão
decisiva como acontece atualmente, gera pessoas tecnológicas, afinadas com a
técnica. Isto tem a sua racionalidade boa: em seu plano mais restrito elas serão menos
influenciáveis, com as correspondentes conseqüências no plano geral. Por outro lado,
na relação atual com a técnica existe algo de exagerado, irracional, patogênico. Isto se
vincula ao "véu tecnológico". Os homens inclinam-se a considerar a técnica como
sendo algo em si mesma, um fim em si mesmo, uma força própria, esquecendo que
ela é a extensão do braço dos homens. Os meios —— e a técnica é um conceito de
meios dirigidos à autoconservação da espécie humana — são fetichizados, porque os
fins — uma vida humana digna — encontram-se encobertos e desconectados da
consciência das pessoas.
Quando se refere a educação após Auschwitz, o autor presenteia duas questões:
primeiro, à educação infantil, sobretudo na primeira infância; e, além disto, ao
esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não
permite tal repetição; portanto, um clima em que os motivos que conduziram ao
horror tornem-se de algum modo conscientes.

“Eros e civilização” – Herbet Marcuse

Este autor, socialista/marxista que parte para os EUA nos anos 30, tornou-se um
activista e foi um forte impulsionador dos movimentos juvenis. Vai demonstrar nesta
obra, três grandes influências: Marx (razão negativa – relacionada com o esquema
dialético), Freud (teoria da psicanálise) e a escola crítica.
Esta obra foi escrita nos anos 60, uma época de grande agitação por todo o mundo;
este autor defende que a civilização, no decurso da evolução social, tem vindo a
reprimir o desejo, o progresso e as necessidades humanas, contrastando com as ideias
defendidas pelos positivistas.
A sociologia tem um papel negativo porque aparece como uma engenharia social,
dado que serve para servir grandes organizações, onde as respostas são dadas em
função das encomendas (pelo que as questões de foro sociológico são postas de lado),
criando uma agenda crítica. Os cientistas fornecem informações que permitem que as
empresas/media/próprio poder controlem as pessoas acabando por criar uma
sociedade administrada (controlada por uma tecnocracia – os
investigadores/cientistas, que se dizem neutrais, acabam por ter um poder enorme, não
se preocupando com os efeitos/consequências/responsabilidade social e dando enfase
as causas e outras informações pedidas pelas grandes organizações).
Contudo, as pessoas não sentem a dominação, acabando por ser manipuladas ou
alienadas.
O poder actua em nome da liberdade, isto é, o controlo e a opressão são legitimadas
em nome da liberdade. Marcuse dá exemplos em que descreve a “Terra como um
inferno” no Vietname, na África do Sul, nos guetos. Contudo, afirma que esta lógica
se está a implementar pelo mundo, está a globalizar-se, espelhando uma ideia de
servidão voluntária.
A servidão voluntária é a ideia que de mesmo quando há uma consciência difusa de
que somos controlados/etc, não nos afecta o quotidiano porque já temos uma
realidade que nos foi imposta). Para combater a servidão é preciso “prescindir dos
heróis e das virtudes heróicas” (porque se não pode haver uma guerra, exaltações,
etc), “viver como um fim em si mesmo” (a nossa existência não pode ser um
consumo, não nos podemos tornar objectos), e também é necessário desenvolver uma
“sexualidade polimórfica” (seguimento das ideias de Freud; a sexualidade deve
significar uma significação plena das necessidades humanas e deve corresponder à
plenitude da sociedade humana – se a sexualidade não for reprimida, há a libertação
da servidão.
Marcuse dirigiu-se claramente aos estudantes, sendo criticado por isso porque a
Escola de Frankfurt defendia que se devia ser crítico na escrita e não enquanto actor
social. Destaca o conflito entre gerações, defendendo que se deve combater “falsos
pais, falsos professores e falsos heróis” porque propagam ideais e são detentores de
autoridade parental, educacional e nacional.
Como tal, defende a união dos oprimidos para alem das fronteiras (solidariedade
global), não descurando a necessidade dos indivíduos em se rebelarem contra os
aparelhos (“corpo contra máquina”).
Destaca ainda a diferença entre novos e velhos movimentos sociais; os primeiros são
movimentos em que há novas formas de expressão da subjectividade rebelde, onde o
individuo/subjectividade se sobrepõe a todo, existindo várias causas e não apenas uma
em que se dá importância à criatividade individual; os segundos movimentos
reportam-se a movimentos em que os indivíduos dependem dos colectivos.
Marcuse fala da junção da questão erótica (pessoal/intimo/subjectivo) com a questão
politica: a política passa a ser feita segundo a subjectividade de cada individuo – o
corpo e a linguagem podem ser usadas como arma de libertação não só de um grupo
mas como individuo.
Este autor refere ainda o contraste entre o eros e a morte. Procura distinguir as
verdadeiras necessidades (vão de encontro ao nosso bem-estar, ao nosso ser) e as
falsas necessidades (impulsionadas pelo consumo).

“Hoje, a luta pela vida, a luta pelo eros, é a luta política” → nã o se pode dissociar a luta
pessoal da luta politica; para um individuo se libertar politicamente tem que se libertar
pessoalmente.

As fronteiras entre a sociologia, politica e psicologia estão a atenuar-se.

A sociedade capitalista não responde às verdadeiras necessidades, dai ser uma


sociedade unidimensional: cria um homem unidimensional (só tem satisfação através
do consumo). A civilização tem vindo a cortar o princípio do prazer e tem vindo a
impor o principio da realidade (só há uma realidade: a da competição, do consumo
alienado, etc). Para Marcuse, seguindo Freud, a história do Homem é a história da
repressão constante do principio do prazer.
A repressão pode ser entendida como restrição (não permite que as pessoas se
libertem), coerção (as pessoas são coagidas a actuar segundo falsas necessidades) e
supressão (somos suprimidos na sociedade).
A civilização como um processo histórico, socializa o Homem na renúncia do prazer
momentâneo. Ela só existe com a cultura:

Princípio do prazer Princípio da realidade


Satisfação imediata Satisfação adiada
Prazer Restrição do prazer
Júbilo Esforço
Fruição Produtividade – estigmatiza-se quem não
produz
Ausência de repressão Segurança – acomodada nas
mercadorias, com as aparências

O Homem torna-se útil para as estruturas e passa a ser assim considerado, tornando-se
sujeito de uma racionalidade limitada/instrumental (o trabalho não lhe dá satisfação
pessoal, ele apenas cumpre horários e segue regras.
O principio da realidade materializa-se num conjunto de instituições, onde os
indivíduos aprendem a lei e ordem e reproduzem-na, contribuindo para o
conformismo.
MAS afirma que a civilização não eliminou totalmente a fantasia (inspiração em
Freud), existindo o retorno do oprimido (espécie de regressão a um estado que nos
pode inspirar a ser diferentes) porque, por vezes, de forma fugidia, parece que
regressamos ao principio do prazer. A regressão externa (instituições, sociedades,
mercado…) foi sempre apoiada pela repressão interna (do próprio individuo). Como
tal, conclui que tem que haver libertação em ambas as direcções através de, por
exemplo, criticar e desmistificar os valores/normas/etc dessas instituições. Fazer
progressão é progredir, se soubermos o que foi o passado, podemos moldar o futuro,
tal não é só conseguido com a psicanálise mas também através de processos sociais.

Criticas à Escola de Frankfurt


1) Conservadores – é um projecto politico e não um trabalho cientifico – usar
ciência tem de ser feito de forma neutral e devese verificar hipóteses; EF diz
que é rigorosa mas não é neutra porque os cientistas tem um conjunto de
valores
2) É demasiado elitista – sobretudo Adorno e Horkheim – porque a EF defende
que não é possível ser feliz com a arte e por ter uma postura muito fechada
3) Defendem a posição de que a sociedade de consumo é utópica

Jürgen Habermas
Iniciou o seu percurso na EF, trabalhando nela depois da II Guerra Mundial. Mas, de
alguma forma, acabou por criar a sua própria escola quando publicou a obra “A
mudança estrutural na esfera pública” em 1962. Foi conhecido pela polemica contra
Popper. Continua a teoria critica porque dá 3 tipos de conhecimento (os positivistas só
dão um): conhecimento ligado ao controlo e à previsão dos fenómenos segundo os
métodos das ciencias exactas, conhecimento hermeneutico, ligado à fenomenologia,
conhecimento emancipatório.
Habermas vai-se preocupar muito com o conhecimento hermenêutico, com a forma
como os individuos transmitem as ideias e comunicam através da linguagem (foco
privilegiado de análise). Habermas pensa que o conhecimento cientifico do mundo
deve permitir a sua transformação – legado marxista, mas, enquanto Marx punha a
ênfase nas relações de exploração, Habermas punha o ênfase na comunicação e nas
formas como esta permitia a transformação. Habermas procura os mecanismos de
dominação através da comunicação e da linguagem.
Por outro lado, é um grande defensor do carácter incompleto da modernidade. Aponta
várias patologias à modernidade mas defende que tem um pontencial que não se
concretiza. É contra a ideia dos pós-modernos, que defendem que não há razão, nem
valores universais.
Habermas entra em debate com:
 Popper por causa do seu positivismo
 Pós-modernistas
 Teóricos do sistema – para Habermas os sistemas não estão a funcionar bem

A principal razão dessas patologias é a irracionalidade da razão ou da modernidade (já


falado por Adorno, com os campos de concentração): cada vez mais o mundo-do-
sistema coloniza mais o mundo-da-vida. O mundo do sistema é a perspectiva de um
observador extermo; que observa a realidade social por fora; a grande preocupação é
coordenar as actividades dos individuos para que a sociedade/mundo funcione bem;
controlo racional dos individuos; é uma razão intrumental (é apenas preciso encontrar
meios para que a sociedade funcione) e formal (não se preocupa com o seu conteúdo,
se é ético ou positivo, apenas se preocupa com a forma). O mundo-da-vida é o ponto
de vista do actor social; sao todas as práticas sociais que permitem o
encontro/entendimento/comunicação entre actor e interlocutor; são todas as formas de
comunicar, de entender os outros e de nos fazer entender para chegarmos a um
consenso, traduzindo-se por isso em práticas linguisticas; a comunicação só é possivel
porque fomos socializados em comum num mundo, o que permite descodificar o que
o outro diz e entende-lo.
Actualmente, o mundo-do-sistema está a abafar a autonomia do mundo-da-vida e a
desligar-se desse mundo-da-vida. De tal maneira que esse mundo-do-sistema se
tornou auto-referencial (usa as suas próprias referênciais), frio, burocratico: não quer
saber da vida das pessoas, criando as suas próprias normas e referências, vendo as
instituições separadas dos indíviduos. Segundo Habermas, os individuos deveriam
colocar restrições ao sistema (colocar barreiras à invasão de privacidade, como as
instituições de serviços secretos e de espionagem). Mas defende que o mundo-do-
sistema deveria ter sensores para nao estar tão desligado do mundo da vida, para
receber informações e perceber a dinâmica do mundo da vida.
Cada vez mais, as pessoas lidam umas com as outras espelhando, por um lado, a
barbarie ou a imoralidade. O Estado Islâmico é um exemplo que cria o seu p´roprio
mundo-do-sistema, procurando agregar as diferentes esferas sociais (econónima,
social, cultural...), não existindo o mundo-da-vida.
Habermas defende a articulação dos dois mundos, sem que um abafe o outro; tem, por
isso, uma visão dialética dos dois mundos ma vez que estes ajudam e enriquecem e
controlam-se mutuamente. Só assim é possível integrar cultura, sociedade e
personalidade.
O problema é que o mundo-do-sistema se esqueceu que o mundo-da-vida tem as suas
especificidades que não são compreendidas por actores externos (exemplo máximo:
os carrasco “coisificaram-se” pelo que eliminavam pessoa, recusando o seu mundo-
da-vida, evitando pensar nos actos cometidos).
Portanto, a colonização é a tentativa de manipular: os actores sociais, não tendo em
conta a sua subjectividade/personalidade, agem de acordo com o mundo-do-sistema.
Assim, há aquilo que Habermas chama por deformação da imagem do mundo-da-
vida.
Cada vez mais o dinheiro e o poder tornam-se auto-referenciais, sem se preocuparem
com os efeitos, permitem todos as arbitariedades. Habermas concluiu que as
patologias tem vindo a aumentar, cada vez mais a comunicação no mundo-da-vida
está empobrecida (os temas já não são discutidos e de forma pré-formatada). A
linguagem no mundo-da-vida está mais pobre, sendo dficil comunicar e detectar a
coisas e o conhecimento de forma criativa. Há um detrimento da linguagem para a
formação das consciênciais (empobrece o debate público). Habermas procura
encontrar a situação comunicativa/discursiva ideal (qual será a situação em que as
pessoas podiam comunicar de forma livre, critica, formando opinião) transmitindo
pensamento-acção. É aqui que se mostra que a modernidade é incompleta: é
necessário tornar a comunicação mais livre, crítica, mais ligada à acção e à
transformação.

Influências de Habermas
 Hegel (dialética)
 Marx (separação da sociedade actual)
 Teoria Crítica (EF) – crítica ao positivismo
 Weber (burocratização; racionalidade formal)
 Pragmatismo e fenomenologia social (importância do mundo-da-vida e das
práticas de dominação)
 Teoria dos sistemas de Parsons (sociedade como um sistema auto-referencial –
a sua preocupação nao é com os indivíduo mas apenas com a estrutura – desta
forma, Habermas tem de perceber a actuação dos sistemas e depois aponta as
suas críticas)
Habermas inicia-se na EF, mas acaba por perceber que esta escola está num impasse e
é incapaz de resolver problemas. Assim, Habermas dá mais atenção à deterioração da
comunicação.

“A Mudança Estrutural da Esfera Pública” (1962)


Pretende perceber como, no séc.XVIII, se autonomixou um espaç de circulação de
ideias (a esfera pública). Assim, percebeu que tal se deveu ao aparecimento da
imprensa/jornais (podem ser lidos por mais pessoas), à existência de salões (espaços
de debates do tipo artistico-filosófico) e o surgimento de cafés (espaços mundanos
onde se discutem assuntos do dia-a-dia). Tal permite a maior circulação e mais
práticas comunicativas, acabando por formar a tal esfera pública.

Esfera pú blica → terreno abstracto onde existe livre circulaçã o de ideias e onde se pode
contestar o poder. Cria uma razã o crítica (diferente da analítica)

A esfera pública forma-se num espaço autónomo onde se pode discutir o Estado; há
idea da competição entre os melhores argumentos, isto é, na esfera pública ganha que
demover os argumentos dos outros e convencer os outros indivíduos; requer a
existência de homens livres, porque tem que haver liberdade para argumentar e
contra-argumentar. Tem um sustentáculo na vida privada porque os homens tem que
ser independentes e ter capacidade para sobreviver – tem que ter protecção na vida
pública. É na esfera pública que há poder para críticar o Estado.