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Sábado, 08 de janeiro de 2011

AS MÚLTIPLAS DIMENSÕES DA LITERATURA INFANTIL

1. DIMENSÃO HISTÓRICA

2.
A dimensão histórica da obra literária diz respeito ao fato de que a ficção
necessariamente revela circunstâncias e os valores da época em que foi
produzida. Isso porque uma narrativa só se mostra em plenitude pela tessitura da
trama, pelo modo como o autor costura o enredo, como o estético se organiza na
linguagem e o simbólico é delineado na trama.

A título de ilustração acerca do que se está denominado dimensão histórica


da literatura, consideremos o conto Cinderela, seu jogo narrativo instaura, de
modo simbólico, sutil e encantatório, uma luta entre duas forças sociais distintas:
a burguesia e as forças feudais. A luta, motivada pela necessidade de uma
determinada classe social impor-se perante outra, releva-se pelo delineamento de
valores e estruturas sociais veiculadas pela construção do jogo narrativo que
costura o texto.

Com base nessa perspectiva, a narrativa de Cinderela ganha outra


dimensão. Ela poderia ser considerada uma produção medieval, a julgar pelo
fato de que nela as personagens são construídas com base em situações entre
tipos sociais e não em conflitos individuais, como nas narrativas modernas.
Assim no conto em questão, a nobreza é tipificada pelo príncipe e assinalada por
signos pertinentes, como castelo no qual ele habita e onde acontece o baile. A
servidão, por seu turno, é tipificada por Cinderela, relegada à condição de serva
pela madrasta e destinada aos trabalhos mais degradantes. Naturalmente a moça
desaparecida foi creditada pelo príncipe, por seus trajes e sua presença na corte,
como uma aristocrata. E que acaba casando-se com o príncipe, mesmo não o
sendo, rompendo assim a idéia da tipificação. Mas como estamos tratando de
uma história que se materializou no mundo burguês, com base em uma
adaptação, a aspiração burguesa, o desfecho será plenamente compatível com as
idéias liberais, já que, no universo burguês, uma classe social pode ascender a
outra pela mediação do casamento. Nos primórdios do capitalismo, era comum o
matrimônio como instrumento da escalada social burguesa.

Ao mesmo tempo em que sofrem mudanças em sua composição, as


histórias vão incorporando conceitos e valores burgueses, e se num primeiro
momento revelam a luta contra o ideário feudal, com a afirmação da burguesia
na história, o cenário vai modificando-se paulatinamente.

No século XVIII, ao lado das histórias maravilhosas nas quais se critica o


ideário medieval e se erige uma nova concepção de homem e de sociedade, são
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produzidas narrativas de aventuras, em que o herói, à custa de trabalho,


renúncias e sacrifícios, ou seja, de valores tipicamente burgueses, constrói a
própria vida. A título de ilustração, destacam-se duas obras que, de forma
exemplar, desenharam em sua estrutura, simbolicamente, o mundo burguês:
Robinson Crusoé e as viagens de Gulliver.

A obra Robinson Crusoé tem sido considerada, pela crítica literária,


precursora da literatura realista e recebeu centenas de versões voltadas à
infância, de formato e extensão os mais diversos. Por isso, a obra é animadora e
estimulante, tendo alcançado enorme prestígio à época em que foi lançada. Em
período em a burguesia luta contra os mitos da religião para submeter á natureza
e pô-la a serviço do homem por meio da ciência, Crusoé simboliza essa luta. Sua
trajetória solitária, seu ânimo imbatível sustentam a narrativa e conferem-lhe a
força necessária pra que se compreenda, por meio de um jogo simbólico entre
homem e a natureza, um momento da história da burguesia, as marcas e os
valores que lhe são caros. È o caso do filme Náufrago, grande sucesso de
bilheteria, uma réplica atual de Crusoé, lutando individualmente contra as forças
da natureza.

No século XIX, já instalada a burguesia no poder, o tom da literatura é


outro. A crítica incide, então, sobre caráter desumanizador da grande indústria,
as más condições da classe operária inglesa viriam a ser um de seus temas
preferidos. Em Oliver twist, escrito em 1838, traduz, nitidamente, uma crítica á
exploração infantil e ás injustiças sociais, exibindo a crueldade da sociedade no
trato das crianças menos favorecidas e os bastidores da Londres do seu tempo e
colocando em confronto as classes sociais que se desenvolveram com o trabalho
industrial, muito embora o autor se coloque na perspectiva da mesma classe que
ele critica, como, aliás, toda a literatura do realismo clássico do século XIX.

As obras literárias surgidas no último quartel do século XIX, estendendo-se


ao século XX, incorporarão em sua estrutura toda a fragmentação de uma
sociedade marcada pela exacerbada divisão do trabalho industrial e pela
desestruturação da sociedade construída pela burguesia. As crises cíclicas que
convulsionaram o mercado europeu nesse final de século decretaram a falência
do capitalismo concorrencial. A história realiza seu movimento muito
visivelmente, se a ela estamos atentos. Esse desmoronar da sociedade pode ser
constatado em todos os setores da vida humana, em suas instituições, na
linguagem, inclusive na literatura.

A transição do capitalismo concorrencial para a fase dos monopólios e a


intensificação da divisão do trabalho geraram, pois, grandes modificações na
base material do trabalho industrial e nas relações econômicas e sociais,
marcando todo o século XX, até os dias atuais. As alterações ocorridas
provocaram, igualmente, uma ruptura na concepção de mundo vigente.
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A literatura traduz subversão aos tradicionais valores burgueses e,


paulatinamente, são redimensionadas todas as categorias estéticas presentes na
obra literária. Uma nova concepção de tempo pauta as narrativas, agora operadas
por fluxos de consciência e não mais por cronologias, como nas literaturas
anteriores. As personagens das histórias infantis são marcadas por uma dialética
imaginável em Cinderela, por exemplo, que por ser virtuosa, alcançou a
felicidade.

Um sinal dessa nova estética já apareceu em As aventuras de Pinóquio,


mesmo que a narrativa conduza ao final feliz pela regeneração da personagem,
nenhuma foi tão malcriada, debochada, mau-caráter e mentirosa quanto foi
Pinóquio. Pinóquio é uma personagem tão identificada com a humanidade do
século XX que rompeu as fronteiras e os limites da literatura infantil e
conquistou o mundo adulto.

O quadro traçado até aqui mostra que a obra literária carrega em sua
estrutura um conjunto de elementos que permite detectar nela uma dimensão
histórica. Quando no século XX uma nova literatura se põe em marcha, o mundo
não é mais o mesmo, porque é um mundo de transição, no qual elementos da
velha sociedade se misturam com os da nova que vem sendo gestada em seu
interior, nascida de seus escombros. Por conseqüência, a literatura não é mais a
mesma. E é ela própria que nos dá conta de tal circunstância. Sendo um tempo
de decadência de uma civilização e, ao mesmo tempo, de inauguração de outra,
que vem instalando-se no palco da história, a literatura vislumbra essas duas
marcas sociais, por sua linguagem passadiça ou revolucionária.

Do ponto de vista histórico, essa nova literatura ganhará significado se, no


confronto com a anterior, forem colocados frente a frente, para a apreciação
infantil, dois sistemas simbólicos de valores sociais. Se a literatura for bem
explorada “por dentro”, em suas múltiplas dimensões, que incluem a histórica, a
criança, sem perceber, vai formando seu conjunto de valores e compreendendo o
caráter temporal e transitório desses valores.

3. DIMENSÃO ESTÉTICA

A literatura infantil, como se viu, revela sua dimensão histórica por meio
dos componentes estéticos que a estruturam. È, portanto, sobre essa natureza
estética primeira, imanente ao texto, que se deve debruçar, para apreensão das
demais dimensões do texto literário. È o maravilhoso, categoria indicativa do
universo encantado que povoa a literatura, tornando-a mágica e encantatória.

O maravilhoso, na literatura caracteriza-se por conferir a determinado


universo uma potencialidade capaz de transcender o real por meio de inúmeros
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elementos, esses elementos trazem em si uma carga de poder transformador que


facilita à personagem a empreitada rumo a suas conquistas e viabiliza o alcance
das coisas desejadas. Se situações problemáticas ou obstáculos diversos não
puderem ser superados apenas com as virtudes naturais de determinada
personagem, surgirá a seu favor e em seu socorro o elemento mágico necessário
para a transposição da situação ou do obstáculo, enfim por aí a magia se constrói
e encanta gerações de crianças e mesmo de adultos.

Uma das forças mais poderosas desse universo maravilhoso é a natureza. È


nela que habitam os seres imaginários que povoam a literatura. Desde que o
homem misturou o humano e o simbólico que caracteriza a arte, é dessas regiões
encantadas que eles surgem envoltos em seus mistérios, povoando os contos.

De todas as entidades imaginárias que povoam o maravilhoso das histórias


infantis, entretanto, as fadas foram as que ganharam mais expressão,
provavelmente porque personificam o humano com poderes extraordinários,
enfeitiçando ou libertando personagens e, assim, funcionando como o pêndulo
que sanciona o bem e exorciza o mal à humanidade. A palavra fada deriva do
latim fatum, que significa fado, destino. Isso porque as fadas são entidades que
carregam consigo um extraordinário poder de intervir e mudar a vida das
personagens, conferindo-lhes um destino, quase sempre, o melhor, o mais feliz.
As fadas são as mais numerosas, belas e memoráveis entidades do maravilhoso,
nas histórias contemporâneas, as fadas trazem em si malefícios próprios das
bruxas e, ao mesmo tempo, virtudes das fadas, isso ocorre dadas as
possibilidades infinitas da imaginação quando a serviço da literatura, e pela
natureza mesma da literatura como desbordamento do real.

O principal gênero que abriga a literatura infantil é o conto. A origem da


palavra conto está na forma latina commentu, que significa invenção, ou ficção.
Os contos contemporâneos possuem estrutura narrativa mais aberta e variada, ao
passo que os contos clássicos, em geral os do universo do maravilhoso,
apresentam quase sempre um modelo narrativo tipificado, sem muitas variações
na estrutura.

O enredo dos contos organiza-se a partir de situações problemáticas que


serão resolvidas ao final. Nos contos maravilhosos, tais situações serão
resolvidas pela recorrência a elementos encantatórios, no máximo um ou dois
desses elementos concorrendo para a superação das dificuldades.

Além dos contos, ainda povoam o universo infantil lendas, mitos, novelas,
fabulas, apólogos. As lendas e os mitos são passíveis de confusão, encontrando-
se divergências entre os teóricos da literatura. Uma classificação plausível
assentaria a distinção entre um e outro no distanciamento temporal e na
consagração universal dos mitos, cujas origens se perdem na poeira da história,
ao passo que as lendas são mais próximas, porque extraídas do ideário de uma
nação, de seus costumes e tradições. As lendas, também conhecidas como
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contos ou fábulas populares, são extraídas do folclore de um povo, ou seja, do


saber popular. No Brasil, as lendas formaram-se no caudal das culturas africana,
indígena e portuguesa, que compõem a alma do povo brasileiro.

Esses são os principais gêneros que povoam a literatura clássica voltada para
as crianças, e é fundamental que sejam compreendidos e aprofundados, como
condição do trabalho docente. O que confere sentido a uma literatura é o modo
como ela organiza sua trama, e não apenas a trama. Se não dominamos o
estético, deixamos de apreender as demais dimensões do texto literário.

4. DIMENSÃO PEDAGÓGICA
Finalmente, outro aspecto importante da literatura é seu vinculo com
a educação, o conteúdo literário possui uma dimensão pedagógica, que lhe é
inerente porque humana, ainda que a obra não tenha sido escrita com a clara
intenção de ensinar. Por isso, os textos literários foram historicamente utilizados
como instrumentos disseminadores de concepções e valores vigentes nas
sociedades. O homem é a espécie biológica que se desprendeu dos animais e se
tornou humana pela formação da consciência. A consciência nasceu da
necessidade de os homens se comunicarem entre si. Portanto, linguagem e
consciência constituem uma totalidade única. É nesse sentido que se aponta uma
natureza pedagógica inerente à literatura. Literatura é linguagem, e, à medida
que o ser humano exercita sua linguagem por meio da literatura, eleva-se seu
nível de consciência. A única exigência para que essa interação seja educativa à
criança, no caso da literatura infantil, é que o autor consiga imprimir na obra
contribuições relevante. Se a obra colocar o leitor diante de situações éticas,
repetidas vezes, por meio de muitas leituras, ele acabará por desenvolver
comportamentos éticos. E, ainda, se a linguagem da obra for carregada de
elementos estéticos de grande densidade, o leitor, ao longo de muitas obras,
refinará sua sensibilidade e sua linguagem. E, finalmente, se a obra, ainda que
ficcional, estiver marcada pelas pegadas humanas dos antepassados, se por meio
dela o leitor vislumbrar outros homens mergulhados em outras civilizações,
paulatinamente ele se reconhecerá humano e compreenderá que faz parte dessa
prodigiosa aventura que é a de escrever história e construir civilizações. Isso
contribuirá para fazer do leitor um ser atuante na sociedade, com força de
intervenção social.

Na contemporaneidade, todavia essa portentosa literatura, que reúne


história, estética e ética, tem dado lugar àquela espécie de escrita degradada, já
mencionada, presente em diversos livrinhos denominados paradidáticos, palavra
nova e extremamente útil para justificar obras sem valor literário e que, no
entanto, proliferam nas escolas e substituem as grandes literaturas. São livretos
voltados aos problemas que assolam a sociedade e se refletem nas crianças e nos
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adolescentes, como as drogas, divórcio, violência nas grandes metrópoles,


enfim, uma gama muito grande de temas. Quase sempre essas obras, embora
pretendam possuir valor pedagógico, não apresentam nenhum valor estético e,
portanto, não podem ser consideradas literatura no sentido da literatura-arte. E
por isso mesmo não atuam no universo infantil, como esperam seus escritores e
usuários. O desserviço prestado por esses livretos é incalculável, pois são eles e
não a literatura verdadeira que ocupam o espaço da sala de aula. Boas obras de
literatura, com largas possibilidades pedagógicas, estéticas e históricas,
organizadas pelo MEC, lamentavelmente são pouco difundidas na escola entre
as crianças e os jovens, e são tratadas como auxiliares e não como literatura
fundamental.

O que de importante fica registrado é que somente adentrando o


caudaloso acervo literário legado pelos antigos e modernos o professor pode
haurir ensinamentos e transmiti-los às crianças, para alargar seus horizontes. Só
assim faz sentido considerar que a literatura possui uma dimensão pedagógica.