UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Faculdade de Filosofia, Letras e Ciê ncias Humanas

Programa de Pós-Graduação em História

Entre Narros & Mulungos
Colonialismo e paisagem social em Lourenç o Marques c. 1890- c.1940.

Valdemir Donizette Zamparoni

Tese apresentada para a obtençã o do grau de Doutor em História Social junto à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciê ncias Humanas da Universidade de Sã o Paulo, sob a orientaçã o do Prof. Dr. Carlos Guilherme Mota.

____________________________________________________________________ Sã o Paulo, 1998

Índice INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 1 PARTE I - PARADIGMAS DA DOMINAÇÃO 1. DO ESCRAVO AO CHIBALO........................................................................................... 13 1.1 Da troca à conquista militar ...................................................................................... 13 1.2 A Moral do trabalho.................................................................................................. 26 2. MECANISMOS DE DOMINAÇÃO ..................................................................................... 43 2.1 O Imposto de Palhota: importância e características................................................ 43 2.2 A expropriação de terras ........................................................................................... 55 3. O TRABALHO COMPELIDO: FORMAS E DIMENSÕES ........................................................ 87 3.1 Trabalho prisional ..................................................................................................... 89 3.2 Chibalo...................................................................................................................... 93 3.3 Mulheres e crianças sob o chibalo.......................................................................... 108 3.4 Régulos e Sipaios.................................................................................................... 127 3.5 Da fuga ao boicote .................................................................................................. 132 4. O TRABALHO VOLUNTÁRIO ........................................................................................ 142 4.1 Mamparras & Magaíças.......................................................................................... 142 4.2 Cozinheiros, mainatos & muleques. ....................................................................... 175 4.3 As raças dos empregos............................................................................................ 190 PARTE II - XI-LUNGUÍNE: ESPAÇO URBANO, ESPAÇO BRANCO? 5. A FORMAÇÃO DO ESPAÇO URBANO............................................................................. 250 5.1. A teia da aranha ..................................................................................................... 251 5.2. Luz nas trevas ........................................................................................................ 257 5.3. Bondes, negros e cães ............................................................................................ 260 5.4. As muralhas invisíveis ........................................................................................... 269 5.4.1. A morada do homem e o mundo da mulher ................................................... 270 5.4.2. Jaquetão, rendas e capulanas... ....................................................................... 282 5.4.3. Chapas e passes............................................................................................... 291 5.4.4. Monhés & Chinas ........................................................................................... 301 5.4.5. Caniço, zinco e alvenaria ................................................................................ 308 5.4.6. Compounds e bairros ...................................................................................... 314 5.4.7. Negros males................................................................................................... 321 5.4.8. Areias brancas, águas negras. ......................................................................... 329 6. COPOS E CORPOS: A DISCIPLINA DO PRAZER ............................................................... 334 6.1. Vinho colonial & bebidas cafreais ........................................................................ 338 6.2. Negras nas cantinas, brancas nos bars................................................................... 350 PARTE III - A EMERGENTE PEQUENA BURGUESIA FILHA DA TERRA 7. NOTAS SOBRE CLASSE EM ÁFRICA ............................................................................. 364 7.1 A questão “classe” vista pelos “Pais da Pátria”.................................................... 366 7.2 Intelectuais contra “classe”. .................................................................................... 372

7.3 A afirmação da existência de classes. ..................................................................... 380 7.4 Moçambique: classe ou elite? ................................................................................. 386 8. ESPOSAS, CONCUBINAS & MESTIÇOS......................................................................... 394 9. EDUCAR É CIVILIZAR: AS CORES DO ENSINO ............................................................... 416 9.1 Católicos x Protestantes: Deus branco & almas negras .......................................... 416 9.2 As “escravas perpétuas” & o “ensino prático” .................................................... 437 9.3 “A instrução é para todos” .................................................................................... 448 9.4 Ensino regular, ensino rudimentar .......................................................................... 457 10. DO INDÍGENA AO ASSIMILADO .................................................................................... 467 10.1 O “bacharel negro” & o “europeu selvajão”...................................................... 478 10.2 Frugalidade, moralidade e respeito....................................................................... 493 10.3 Mulatos x negros: bailes & futebol....................................................................... 505 10.4 De “fartos de vos aturar” a “prontos a colaborar” ................................................ 522 CONCLUSÃO................................................................................................................... 550 FONTES & BIBLIOGRAFIA .............................................................................................. 553

Índice de tabelas e quadros Receita de Moçambique em réis ..................................................................................... 47 Trabalhadores fornecidos - Moçambique - 1926/1928................................................... 97 Mortalidade de trab. moçambicanos no Transvaal - 1917/1938................................... 158 Mapa necrológico de trab. no Transvaal - 1913 ........................................................... 159 Distribuição profissional consoante grupos raciais - Lourenço Marques - 1894 ......... 191 Profissões desempenhadas por africanos - Lourenço Marques - 1894 ........................ 192 Profissões segundo raças - Lourenço Marques - 1912 ................................................. 194 Salários em Lourenço Marques - 1908 ......................................................................... 201 Preços dos gêneros em Lourenço Marques - 1908-1917.............................................. 204 Salários na Ponte-Cais de Lourenço Marques - 1914-1920 ......................................... 205 Profissões segundo raças - Lourenço Marques - 1928 ................................................. 219 Desempregados em Lourenço Marques, segundo raça - 1927-1935 ............................ 227 Distribuição profissional na construção civil - Lourenço Marques - 1928................... 232 População, segundo gênero - Distrito de Lourenço Marques - 1912............................ 242 Profissões - mulheres não-brancas - Lourenço Marques, 1928 .................................... 278 População de Lourenço Marques - cidade e subúrbios, 1912....................................... 295 Vinho importado para L. Marques, 1897-1914 ............................................................ 340 Principais Mercadorias Importadas pela Colônia de Moçambique, 1929-1931 ........... 340 Proporção entre sexos e origem racial - Lourenço Marques, 1894-1940 ..................... 404 Mestiçagem segundo origem racial dos pais - Moçambique, 1940 .............................. 407 Crescimento dos grupos raciais - Moçambique, 1928-1940......................................... 408 Matriculados no Liceu 5 de Outubro - L. Marques, 1931-1934 ................................... 461 Alunos liceais segundo raça e sexo - 1935. .................................................................. 462 Assimilados por faixa etária - Moçambique, 1917-1922.............................................. 495

À memória de Aquino de Braganç a

Agradecimentos Fazer agradecimentos é sempre um risco. Não há como agradecer a todos que, direta ou indiretamente, colaboraram para que um trabalho de anos pudesse se concretizar. Sempre, por um pecado da memória, deixamos, injustamente, alguém de fora. Por outro lado, ingratidão maior seria não nomear as pessoas que estiveram mais presentes ao longo do processo. Por isto vou correr o risco e pedir, de antemão, perdão pelas omissões, esperando que o inferno não me aguarde. Agradeço, antes de mais ninguém, a Carlos Guilherme Mota e a Aquino de Bragança (in memoriam), cuja generosidade e crença no projeto forçaram portas resistentes a um recém-graduado, o que me permitiu viver em Moçambique. Lá só cheguei devido à bondade e apoio do Carlos Guilherme Mota, que mal me conhecia, mas que, ao arrepio da burocracia e dos contratempos, batalhou para que eu obtivesse uma bolsa da FAPESP. Carlos também se mostrou, ao longo destes anos, um orientador compreensivo e benevolente. O saudoso Aquino de Bragança foi quem me abriu as portas do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, e, de Diretor, passou a interlocutor, a conselheiro e a amigo. No Centro de Estudos Africanos, tenho que agradecer ainda aos colegas da Oficina de História: Yussuf Adam, Annamaria Gentilli, Jacques Depelchin, Isabel Casimiro, Paulo Soares, Salomão Zandamela, Sipho Dlamini e Alpheus Manghezi, cuja boa vontade permitiu-lhes desviar-se dos seus próprios afazeres para dedicarem sua atenção às minhas interrogações ou para que eu pudesse ter acesso aos textos em Ronga e Zulu. Em Moçambique tenho que agradecer de modo especial à equipe do Arquivo Histórico de Moçambique, particularmente à sua Diretora Maria Inês, ao Lemos e ao Sopa, que suplantando as limitações materiais e os problemas conjunturais por que tem passado Moçambique, construíram um magnífico e respeitável centro de documentação de fazer inveja a gente muito mais aquinhoada de dinheiro e de recursos humanos. Eles não só puseram os meios materiais de que dispunham à minha disposição, como contribuíram, fazendo sugestões e indicando pistas e materiais. Agradeço ainda a dois moçambicanos, Brazão Mazula e a Miguel Buendia, com os quais compartilhei ansiedades e idéias, tanto sobre a história passada, quanto sobre a realidade presente moçambicana, quando pudemos conviver alguns anos em São Paulo. Em Portugal, agradeço especialmente a Alfredo Margarido, um dos últimos

grandes humanistas portugueses, que esconde por trás de sua aparente dureza, uma imensa e bondosa alma e de quem, através de embates, passei de orientando a amigo; à querida Isabel Castro Henriques, uma interlocutora atenta e minuciosa, e a Almeida Serra sempre pronto a me ajudar. Eles repartiram prodigamente seus conhecimentos, abrindo seus corações e casas, com quem partilhei saborosos momentos de letras, copos e garfos. No Brasil, foi importante a figura de Fernando Augusto de Albuquerque Mourão, que, como consultor secreto da FAPESP, deu valiosas sugestões de leitura, quer na fase inicial da pesquisa, quer mais tarde, e que liberalmente emprestou alguns dos milhares de livros que possui. Agradeço a Maria Odete Ferreira, incansável secretária do CEA/USP cuja solicitude e eficiência facilitaram meu trabalho; a Fernando Novais e a Kabenguele Munanga, por terem acreditado no trabalho e aprovado minha passagem para o doutorado direto, bem como pelas sugestões bibliográficas e orientações quando do exame de qualificação. Agradeço ainda aos amigos Leny Caselli Anzai, Oswaldo Machado, Regina Beatriz Guimarães Neto, João José Reis, Selma Pantoja e Manoel de Souza e Silva que, em momentos diferentes, tiveram a paciência de ler trechos avulsos deste trabalho e aportaram significativas críticas e sugestões, e à amiga Matilde Araki Crudo, que além do mais, deixou de lado a sua própria tese para me socorrer também nos meandros e armadilhas burocráticas, no momento em que eu estava na reta final deste trabalho. Agradeço a José Capela pela cortesia em ceder suas cópias de microfilmes, fundamentais para a existência deste trabalho, e a Colin Darch, que, apesar de estarmos em continentes diferentes, esteve sempre pronto a me socorrer. Deixo aqui um abraço virtual aos interlocutores também virtuais que, solícitos, atendiam às minhas interrogações com a presteza que só a infovia permite. Agradeço à FAPESP, à CAPES, ao CNPq e à Fundação Calouste Gulbenkian que, em momentos diferentes, propiciaram recursos para a realização deste trabalho. E, por fim, tenho que agradecer especialmente à minha mulher Catarina e à minha filha Carolina. A ambas deixei de dar a atenção que mereciam ter tido nestes últimos anos. Catarina, sobretudo, muitas vezes, privou-se, em solidariedade, de usufruir de prazeres e lazeres e, pior, teve que suportar meus momentos de mau humor, minhas irritações e até minhas alegrias que, pareciam-lhe, por vezes, descabidas e, além de tudo, incumbiu-se da maçante tarefa da leitura final e revisão do texto. Se persistirem

erros, trata-se tão somente de irresponsabilidade minha, que, à socapa e à sua revelia, voltava, mesmo à última hora, a reescrever trechos já revisados.

PARTE I

PARADIGMAS DA DOMINAÇÃO

1. DO ESCRAVO AO CHIBALO

1.1 DA TROCA À CONQUISTA MILITAR
“O Ocidente não lhes dará, como espécies por elas assimiláveis, mais do que panos para se vestirem, aguardente para se embriagarem, pólvora para se exterminarem.” Oliveira Martins

A presença portuguesa na costa oriental da África, na região que viria a constituir Moçambique, relacionou-se à expansão para o Oriente em busca de especiarias, no século XVI, e assentou-se no sistema de feitorias e portos para abastecimento desta nova rota. A região, notadamente acima do Zambeze, mantinha desde há séculos relações comerciais e culturais com o Índico sendo comum a presença de populações arabizadas pelo contato com comerciantes levantinos. Os portugueses integraram-se como um dos elementos neste espaço, não sem oposição do capital mercantil representado pelos comerciantes árabes e swahílis anteriormente instalados e que contavam com a retaguarda dos capitais mais sólidos de origem indiana sediados em Zanzibar6. Os portugueses não exerciam qualquer domínio real para além dos arredores das precárias feitorias semifortificadas construídas, algumas fruto de pressão militar, mas em geral sob autorização

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BOXER, Charles. “Os Portugueses na Costa Suáili, 1593-1729”. In: BOXER, Charles e AZEVEDO, Carlos de. A Fortaleza de Jesus e os Portugueses em Mombaça. Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1960, pp.13:77; HAFKIN, Nancy Jane. Trade, Society and Politics in Northern Mozambique, c. 1753-1913. Boston University, (Ph. D. thesis) University microfilms, 1973, particularmente pp. xi:xiii; 135:9, 168:189; CHITTICK, H. Nevill e ROTBERG, Robert I. (eds). East Africa and the Orient: Cultural Syntheses in PreColonial Times. New York, Holmes & Meier, 1975; LOBATO, Alexandre. Sobre “cultura moçambicana”. Lisboa, ed. do Autor, 1952, principalmente pp. 28:29 e SWAI, Bonaventure. “Precolonial states and European merchant capital in Eastern Africa”. In: SALIM, Ahmed Idha (Ed.). State Formation in Eastern Africa. Nairobi, Heinemann, 1984, pp. 15:35; SHERIFF, Abdul. Slaves, Spices and Yvory in Zamzibar: integration of an East African Commercial Empire into the World Economy, 1770-1873. London, James Curvey, 1987; KAGABO, Joseph H. “Les réseaux marchands arabes et swahili en Afrique orientale.” In: LOMBARD, Denys e AUBIN, Jean. Marchands et Hommes d’affaires asiatiques dans l’Océan Indien et Mer de Chine, 13-20èmes siècles. Paris, EHESS, 1988, pp. 237:252; MIDDLETON, John. The World of the Swahíli. An African mercantile civilization. London, Yale Univ. Press, 1992; BENTO, Carlos Lopes. As Ilhas Querimba ou de Cabo Delgado: situação colonial, resistência, mudança (1742-1822). Tese de doutorado apresentada ao Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, 1993.

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Narra as viagens do autor realizadas entre 1455/63). s/d. integrados numa extensa rede comercial que ia dos sertões às feitorias do litoral e daí pelos mares afora. Arquivo Nacional. Luís de. âmbar. 9:236. Coimbra. As 239 aportagens ocorridas entre 1811 e 1830. Submetida a devido preparo. p. António. 1a ed. Cf. “Para a História da penetração portuguesa na África Central”. marfim. Manolo Garcia. o primeiro carregamento de urzela moçambicana seguiu para Lisboa somente em 1841 e foi tornar-se comercialmente rentável somente após 1860 pois. Berlin. dentes de 7 Entre outros ver: CADAMOSTO. pp. pp. 1977 e ainda Antonio José de Carvalho e João de Deus em seu Diccionário Prosódico de Portugal e Brazil. Livros Horizonte. sua característica básica: os portugueses eram intermediários. Rio de Janeiro. até então a urzela obtida em Cabo Verde e outras ilhas atlânticas era mais barata. & JONES. Portugália. H. Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). José. (eds. representaram um crescimento de 1493% em relação às 15 aportagens ocorridas no período de 1795 a 1811. 1993. tabaco. G. Gerhard. com 93% do total.. Henrico di Portogallo. 87. ferro. Junta de Investigações do Ultramar. FLORENTINO. Chronica do felicissimo rey D. Lisboa. rev. os europeus e árabes recebiam escravos. Holanda e França foram. Emanuel. pp. a partir das últimas décadas do século XVIII8. Sua extração durou até o começo da década de 20 tendo sido substituída pelos corantes químicos. Estudos de economia caboverdiana. musselinas e outros tecidos finos. 14 . Lisboa. 1890. 1962. deu significativo impulso a esta rede comercial. 1922-1931. Rio de Janeiro. Imprensa da Universidade. 1953. Inglaterra. 170:3 e 246:9. e aug. (a 1a edição é de 1566/7) e LOBATO. publicada em Vicenza. Lisboa. Dietrich Reimer. A intensificação do tráfico de escravos rumo às Américas e particularmente para o Brasil. 1749. p. In: Colonização Senhorial da Zambézia e outros estudos. 3 tomos. 72:3. como outros. não alterando no entanto.. Lendas da Índia. produz um corante azul-violáceo. 78 e do mesmo Alexandre Lobato. essenciais para que as mercadorias afluíssem para os seus portos e não para os de seus concorrentes7.). 10 Espécie de líquen tintorial (Roccela tinctoria) que nasce e cresce espontaneamente nos rochedos virados ao mar. Cf. Vila da Maia. p. A. LIESEGANG. Livraria Portugal. p.17. 50:55. vidrilhos. sob o título: Aloysio de Cadamosto libro della prima navigatione per Oceano alla terra dei Negri et della bassa Ethiopia per commandamento del infante D. In: LIESEGANG... espelhos. 112:9 e 136:7. pontas de rinoceronte. missangas9. p. Porto/ Rio de Janeiro. Do escravo ao Chibalo ___ frutos de muita diplomacia. Aspectos de Moçambique no antigo regime colonial. panos da Índia. Porto. Afrontamento. 4a ed. “A first look at the import and export trade of Mozambique. Embora fosse utilizada eventualmente nas trocas.a e Frederico Augusto Schmidt. Lisboa. urzela10.1. na medida em que me parece mais próxima de sua raiz etimológica conforme apontam José Pedro Machado em seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. seus mais destacados compradores. longas negociações e saguates (presentes a título de direito de passagem) ___ dos potentados locais com os quais procuravam manter as mais cordiais relações. que foi largamente utilizado na tintura de papel e principalmente de têxteis ___ sedas. de navios negreiros oriundos da então chamada África Oriental Portuguesa e particularmente da Ilha de Moçambique e de Quelimane. GOES Damian de. 193. Alexandre. Imprensa Nacional/ Casa da Moeda. pólvora e armas. PASCH. Viagens. Figuring African Trade. 8 CAPELA. 1982. 9 Adoto esta grafia e não miçanga tal como grafada por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira em seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 3a ed. GASPAR CORREA. 1800-1914”. 1986. O Escravismo Colonial em Moçambique. 1995. (A 1a edição é de 1507. Lisboa. Lopes & C. 467 e CARREIRA. no Rio de Janeiro. Em troca de aguardente do Brasil. no passado.

Maputo. the nature of free and unfree 11 15 . além disso. 2a ed. buscava o controle dos portos como condição básica para a metrópole exercer o seu poder arrecadador além de propiciar negociatas tanto a particulares quanto a agentes do Estado. que reúne tanto modernos historiadores e antropólogos anticolonialistas quanto os historiadores e administradores coloniais portugueses. que parece querer ignorar a importância da escravatura entre as sociedades africanas ao Sul do Save. Gerhard. Entre 1770 e 1850.1. 1990. particularmente ativa na costa oeste africana especialmente ao Norte de Benguela. 1989. 25. de sua parte. do Tratado de Aliança e Amizade firmado entre a Inglaterra e coroa portuguesa no Rio de Janeiro. 12 LIESEGANG. Manuel Joaquim Mendes de. Descobrimento e Fundação de Lourenço Marques (1500-1800). p. evitou deixar registros precisos de tais operações. há toda uma tradição historiográfica. IICT. Em 1829. em 1810. procurava. o tráfico de escravos constituiu-se na principal atividade econômica da colônia. 321:4. a natureza clandestina de tal tráfico. Do escravo ao Chibalo hipopótamo. Lourenço Marques. Caetano. cit. 65 e VASCONCELLOS E CIRNE. António. ainda que não conseguisse fazê-lo como o desejado. e apesar de legislação ante- RITA-FERREIRA. cobre e ouro num prolífico comércio proveitoso para ambas as partes11.Relação Europa-África no 3o quartel do Séc. pp. 13 HARRIES. a partir da promulgação. oriundo de Lourenço Marques e Inhambane. Arquivo Histórico de Moçambique. Patrick. embora. existente antes e sob o domínio Nguni e o envolvimento destas com o tráfico para o Atlântico e o Índico13. “Slavery. como afirma Patrick Harries. In: I Reunião Internacional de História de África . Nesta conjuntura internacional em que a sorte da monarquia portuguesa estava extremamente dependente de suas alianças com a Inglaterra. mas não exercia de facto suserania sobre o Estado de Gaza. A 1a edição é de 1890. mel. esconder o tráfico existente dos olhos da cobiça imperialista britânica. “A Sobrevivência do mais fraco: Moçambique no 3o quartel do Século XIX”. prefácio e notas de José Capela. p. MONTEZ. As constantes pressões do capital inglês que culminaram com o Abolition Act de 25 de março de 1807 e as operações da Royal Navy.. em nada numericamente desprezíveis. nada mais fizeram que intensificar o tráfico luso-brasileiro não apenas nas regiões acima do Zambeze mas em toda a costa moçambicana. Como Portugal reivindicava. 1948 p. social incorporation and surplus extraction. 460:7. Op. Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga. XIX (Actas). Memória sobre a Província de Moçambique. 75% das rendas alfandegárias eram dependentes do tráfico de escravos12 e isto permitiu e exigiu a expansão de uma rede administrativa colonial portuguesa que. cera.

dado o envolvimento das instâncias administrativas no lucrativo negócio: do Governador Geral aos funcionários administrativos e ao clero. não se tinha controle sobre as atividades dos potentados e chefaturas africanas e. 1995. J. In: Revista Internacional de Estudos Africanos. Do escravo ao Chibalo rior. seus descendentes africanizados e os potentados africanos16. 5a ed. sendo que esta fraca presença portuguesa no território. Lisboa. esta de fato. através de decreto do ministro Sá da Bandeira. Embora Portugal reivindicasse a soberania sobre todo o território. estavam envolvidos ou se deixavam envolver diretamente pelos interesses dos partidos de negreiros. além de fortes lob- labour in South-East Africa”. abrindo espaço para os comerciantes portugueses e para uma mais intensa utilização do trabalho escravo nas colônias africanas portuguesas15. de resto.[Pedro] de. Tal rede possuía vinculações no Brasil. 15 MARQUES. em meados do séc. João Pedro. Note-se que o decreto proibia qualquer forma de exportação de escravos. “O mito do abolicionismo português”.1. João Pedro [Simões]. todos tinham alguma relação com o comércio de negros e. XIX. 1981. fosse por mar ou por terra. Para uma análise das relações entre diplomacia e tráfico de escravos ver: MARQUES. o tráfico foi oficialmente abolido somente em 10 de dezembro de 1836. 10-11. 22. pp. pouco podia fazer em relação à continuidade do tráfico. um ato de pouca significância concreta. já independente. à Ilha de Moçambique e à sua estreita faixa fronteiriça. aumen14 16 . No interior. In: Journal of African History. Embora tardio e ineficiente. Origens do Colonialismo Português Moderno. pp. estava limitada a pontos costeiros: ao Ibo. Valentim. mesmo quando queria. verdadeiras redes de comerciantes que integravam europeus. Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para a Comemoração dos descobrimentos Portugueses. 1979. o decreto e as posteriores justificativas de Sá da Bandeira acabaram por constituir-se no gesto fundador do mito da precedência do abolicionismo português. pp. não raro. A diplomacia portuguesa (1807-1819)”. às Ilhas Querimbas. a repressão ao tráfico não era levada a cabo. Xai-Xai e Lourenço Marques.16 16 OLIVEIRA MARTINS. e alijar os traficantes brasileiros.65:99. mas que teve ampla resistência porque a opinião pública portuguesa não só não estava ao lado do abolicionismo como considerou tal decisão um ato de subserviência a uma potência estrangeira14. O Brazil e as Colónias Portuguesas. Beira. o que significa que a intenção era impedir a continuidade do tráfico para o Brasil. In: Actas do Colóquio Construção e Ensino da História de África. p. mas a importação somente era interdita por mar. Inhambane. 309:330. Caribe e Angola. Lisboa. jan-dez 1989. 245:257 e ALEXANDRE. a Quelimane. nas áreas em que este controle teoricamente se exercia. Sá da Costa.[Joaquim] P. “Manutenção do tráfico de escravos num contexto abolicionista.

embora. “A imprensa negra em Moçambique: a trajetória de ‘O Africano’ . neste mesmo ano de 1828.2. De resto a sucessiva legislação versando sobre o mesmo assunto mostra. 337. (Boletim do Depto de História da Universidade Eduardo Mondlane).Subsídios para a História Colonial. o marquez de Aracaty. ZAMPARONI. pp. 26 e ainda do mesmo autor O Escravismo Colonial em Moçambique. articularam-se tentativas de rompimento com Portugal e a anexação daquelas colônias ao Império brasileiro onde prosperava o negócio de escravos. Maputo. 1988. 1873. Lisboa. em Moçambique. Imprensa Nacional.000 escravos de Inhambane e 400 de Lourenço Marques18. Documentação Avulsa Moçambicana do Arquivo Histórico Ultramarino. cerca de 35. Op. José. no 2. a sua ineficácia quando se tratava de passar do papel ___ para inglês ver ___ à prática20. Do escravo ao Chibalo bies na metrópole. “Legislação do Trabalho nas Colónias Africanas no 3o Quartel do Século XIX: Ra- 17 . p. O Trabalho Rural Africano e a Administração Colonial. Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. 17 18 19 20 tada. António Lourenço. 335. tabela XV. SÁ DA BANDEIRA. Marquez de. Os interesses escravistas coloniais eram tão poderosos que. Gerhard. ver particularmente: TORRES. São Paulo. Muitos destes governadores procuravam minimizar a existência de tráfico em territórios sob sua jurisdição simplesmente para desviar a atenção oficial sobre os negócios que ali se realizavam. Patrick. cit.1908-1920”. succumbio fallecendo. Ainda em 1844 um traficante de escravos brasileiro carregou dois navios com 1. 17. 27:29. p. Para uma leitura circunstanciada dos limites e da ineficácia desta legislação. e seus interesses e poderes suplantavam os dos governadores17. 340. Porto. cit. Agosto 1985. I. Lisboa. Marquez de. 1837-1900”. 1920. O Trabalho Rural Africano e a Administração Colonial. Lisboa. Afrontamento.. p. Agência Geral das Colónias. 316. 463 e HARRIES. 224:231. O Governador de Inhambane. O Trabalho Rural Africano e a Administração Colonial. 1873.1. pouca influência teve a legislação anti-escravagista editada em 1826. Imprensa Nacional. In: Africa: Revista do Centro de Estudos Africanos (USP). teve de retirar-se da província por motivo de uma insurreição. tanto em Angola como em Moçambique. um. pp. Lisboa. vol. 11 (1). 77. Francisco. ALEXANDRE. cit. Valdemir D. FARINHA. principalmente pp. Adelino. O próprio Sá da Bandeira reconhecia a impotência administrativa diante dos interesses escravistas ao afirmar que. Imprensa Nacional. p. de per si. o general Marinho. I. suscitada contra elle pelos negociantes negreiros”19. SÁ DA BANDEIRA. Parceria Antonio Maria Pereira Livraria editora. Lisboa. Marquez de. In: Cadernos de História. 11:103. naquela região. “dos dois íntegros governadores geraes incumbidos de fazer cessar o tráfico. informa em 1828 que. CAPELA. pp. 660 e segtes. 1964. pp.600 escravos tenham sido exportados a partir dos diversos portos moçambicanos. p. 1873. Pe. por exemplo. p. A primeira edição é de 1880. 1942. Cf. Lisboa. 17. 1993. Op. Domingos Correa Arouca. SÁ DA BANDEIRA. LIESEGANG. Op. Ver SANTANA. pois o principal produto comercial era o marfim. “Mentalidade escravista em Moçambique. e o outro. Valentim. 32:3. A expansão da Fé na África e no Brasil .

Do escravo ao Chibalo Somente com a crescente pressão diplomática e a eficácia fiscalizadora por parte dos britânicos em águas sul atlânticas. mouros. É interessante consultar. para a repressão do tráfico. Maria Emília Madeira. das Comores. XIX (Actas). 1818 . 1989.. 1989. “A Sobrevivência do mais fraco: Moçambique no 3o quartel do Século XIX”. ainda que contenha imprecisões quanto às datas. 301 e ainda CAPELA.Livres os filhos de mulher escrava. faculdade da auto-alforria.Relação Europa-África no 3o quartel do Séc. IICT. Op. Limita-se o tráfico. 65:80. IICT. 1868 . desde há muito envolvidos no comércio de ho- zões do Fracasso da Política Liberal Portuguesa”. 1869 . Livres os filhos de mulher escrava. Entretanto. pp. swahílis. Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga. 1836 . senão em volume. Insurreição dos slavistas em Angola e Moçambique. por exemplo: ALEXANDRE.1. assinado mas não promulgado. ao menos em lucratividade para os EUA e Cuba21. de cultura Swahíli. na convenção de Londres. no reino. denominação recebida pelos comerciantes islamizados. “Abolição do tráfico de escravos e reconversão da economia de Angola: um confronto participado por ‘brasileiros’”. estabelecidos no noroeste de Madagascar.Ratificação das convenções de 1810.Decreto fixando para 1878 a abolição definitiva da escravidão colonial. 1773 . Juntas de proteção.Alforria dos escravos da corôa. In: O Escravismo Colonial 18 . foram paulatinamente se retirando para o Brasil até que. então. 1835 . 221:244. 1838 . brasileiros e portugueses. 1854 . até 1878.Franquia dos portos coloniais ao comércio de todas as nações. Ver: RITA-FERREIRA. mas não se realiza.Decreto de abolição imediata. Indenização dada pelo trabalho gratuito e forçado dos libertos. chefe do movimento anti-slavista.Abolição da escravidão no Ambriz e em Cabo-Verde. Antalaotra designa os comerciantes de cultura swahíli.Promulgação do código penal contra negreiros. confirmando a abolição da escravidão. ver ainda SANTOS. cit. plural de Mjojo. 34:70. pp. após 1853. In: I Reunião Internacional de História de África . XIX (Actas).O marques de Sá da Bandeira. Proibição do tráfico em todas as colónias portuguesas. Lisboa. antalaotra e ajojo22.Ocupação do Ambriz. com a proibição do tráfico pelas leis brasileiras. 1856 .Estabelecimento dos Cruzeiros e tribunais mixtos. Valentim.” 21 Para as peripécias e estratégias de burla quer à legislação quer à fiscalização inglesa veja-se. particularmente após o bill de Palmerston de 1839 que autorizava a ação unilateral dos britânicos no apresamento de navios portugueses e brasileiros. Resgate dos recém-nascidos. 1994. o grosso desse tráfico passou. 1815 . Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga. “Arábios. José. Abolição gradual da escravidão no reino. p.Abolição da escravidão (25 de fevereiro).Extinção do trabalho forçado dos libertos. pp. Mujojos & Ca”. 1817 . 1842 . 1810 .Tratado anglo-português.Nos tratados com a Inglaterra assenta-se em abolir gradualmente a escravidão colonial.Decreta-se a abolição da escravidão colonial. 1855 . a relação dessa legislação que nos oferece OLIVEIRA MARTINS. às páginas 187:8 do seu O Brazil e as Colónias Portuguesas: “1771 . 1876 . a concentrar-se no centro-norte de Moçambique: árabes omanitas. António. 22 Ajojo é palavra de origem Swahíli. In: Studia. Abolição do trabalho forçado dos carregadores. Arrolamento dos escravos particulares: livres os não recenseados. no 52. In: I Reunião Internacional de História de África Relação Europa-África no 3o quartel do Séc.Liberdade dos escravos ao desembarque no continente. este praticamente se extinguiu. redirecionando-se. é que os comerciantes negreiros. 1858 .

1993. Inicialmente criado para regulamentar a ida de trabalhadores de Benguela para a Ilha do Príncipe. e a que se refere o mesmo artigo. 166:193. O Tráfico de Escravos de Moçambique para as Ilhas do Índico. India and East Africa. CAPELA. Oxford. Lisboa. Imprensa Nacional. José & MEDEIROS. pp. pp. e estabeleceu que todo escravo importado por terra seria considerado liberto. [devessem] ser consideradas exemplares. porém. em menor escala. Particularmente sobre o tráfico no Índico. 9.1880-1939. que reúne a principal bibliografia sobre o assunto. o liberto que houvesse se “comportado sempre bem. considerou libertos os não registrados e os pertencentes ao Estado. Porto. 1988. 10o e 11o do Regulamentos sobre libertos. Collecção Official da Legislação Portugueza . pp. estudo este atualizado e republicado em CAPELA. 1800-1861”. pesquisas a efetuar”. 1981.anno de 1853. In: Slavery & Abolition. até os primeiros anos do século XX23. embora fosse crescente a pressão diplomática britânica. Maputo. ou por esmo- em Moçambique. José. 1720-1902. CAPELA. porém mantinham a posse e o usufruto do trabalho dos libertos que estavam obrigados a continuar a trabalhar para seus antigos proprietários por mais sete anos e. Op. José Maximo de Castro Neto Leite e. 117:125. Universidade Eduardo C. Gwyn. este Regulamento abolia a escravatura para estes trabalhadores e criava a figura jurídica do liberto. pp. Eduardo. 1854. “O Tráfico esclavagista no Oceano Índico: problemas postos ao historiador.. R. podem ser transportados da Província de Angola para a Ilha do Príncipe. Ed. 1993. GERBEAU. 24 Ver particularmente os Artigos 1o. GREGORY. 1993. cit. In: VASCONCELLOS. “Madagascar and Mozambique in Slave Trade of the Western Indian Ocean. que. G. e do maior proveito para seu libertador”. Hubert. 20:1. segundo a qual os senhores perdiam a propriedade. onde o negócio florescia num contexto em que. 1987. com a obrigação. A history of race relations within the British Empires . séculos XV-XIX. de continuar a “servir o senhor por tempo de dez anos”. Maputo. pelo artigo 8o do Decreto desta data. Afrontamento. O Decreto de 14 de dezembro de 1854 tornou obrigatório o registro dos escravos em todo o Ultramar. nos termos do Regulamento sobre os libertos posto em vigor pelo Decreto de 25 de outubro de 1853. Mondlane. In: O Tráfico de Escravos Negros. 1971. Do escravo ao Chibalo mens. e GERBEAU. Op. Findo seis anos. a todos os respeitos.1. pp. O Decreto de 1854 avançava um pouco mais e passava a possibilitar que todo escravo que “por si e por seu próprio pecúlio. Ver ainda MEDEIROS. cit. cabendo à Junta de Superintendência dos Libertos decidir se o liberto estaria “no caso de merecer similhante benefício”24. e sobre sua permanência tardia ver. Lisboa. 23 19 . Arquivo Histórico de Moçambique. O Escravismo Colonial em Moçambique. Hubert. 181:238. estaria livre de suas obrigações. a presença e ação dos barcos ingleses era menos ostensiva. J. Claredon. As Etapas da Escravatura no Norte de Moçambique. Afrontamento. Dec 1988. 75:132. Porto. se fossem menores de treze. até os vinte. 678:684. assumiram rapidamente o espaço deixado e ampliaram suas remessas rumo a Madagascar e às demais colônias francesas do Índico. Esta frutífera rota de escravaria durou. pp. ver entre outros: CAMPBELL. 70. Eduardo. 75:132. de maneira que suas acções.

Comungando dos mesmos valores culturais. certamente não era nada encorajador para escravos analfabetos e que sempre viram as autoridades.1. contudo. Ao lado do tráfico para o Índico permaneciam práticas de caráter escravista. 27 Para uma síntese histórica do domínio Ngni e suas relações com os demais povos do sul de Moçambi25 20 . ainda que em escala reduzida. O procedimento judicial previsto para se determinar este justo preço. tinha agarrado duas crianças “que naturalmente. Lisboa. Manikussi.. praticarem os mesmos atos que os demais senhores25. Gen. embora aparentemente sumário. havia calculado vender por cinco ou seis libras cada uma. cujo sucesso dependia das boas relações que mantinha com os potentados locais. indigna-se quando fica sabendo.”26 Nos anos de 1840. 1878. era comum. mesmo nas áreas onde era mais efetiva a presença da administração portuguesa. agora investidas como seus protetores. por um de seus caçadores. Ver FERREIRA MARTINS. 202. que um soldado branco que o acompanhava numa viagem de retorno a Lourenço Marques. 1957. mesmo nas últimas décadas Ver nomeadamente os artigos 1o. devido à atividade britânica que tornava o tráfico arriscado ao Sul do Save. 6o. teria o “direito de reivindicar a sua natural liberdade”. Lisboa. Lisboa. Itinerário de uma viagem à caça dos elephantes. a venda de pessoas para trabalhos diversos ___ ___ agricultores. Typographia Universal. 836:42. Publ. resguardando porém ao senhor o “justo preço do seu serviço”. entretanto. cit. 19o ao 26o do Decreto de 14 de dezembro de 1884. Op. Diocleciano Fernandes das. em 1861. ou seja. José Maximo de Castro Neto Leite e. desde que seu senhor fosse adequadamente indenizado. Na região do Zambezi. p. nos meios coloniais. pp. 4o. Ilídio Rocha agregou à obra de Diocleciano F. republicando-se a obra sob o título Das Terras do Império Vátua às Praças da República do Transvaal. carregadores. a deste último calcada em biografia anterior. AGU. Diocleciano Fernandes das Neves ___ um caçador e comerciante de marfim. como para atender à demanda dos boers instalados no Transvaal27. Do escravo ao Chibalo la e favor de outrem”. Luís. Dom Quixote. das Neves um posfácio dedicado às figuras deste autor e de João Albasini. proibiu o comércio marítimo de escravos. domésticos tanto para os colonos europeus instalados em Lourenço Marques. 1987. Passado um século. então à frente do Estado Nguni de Gaza. obtivesse os meios. a influência e os poderes dos senhores de escravos eram tais que raramente os encarregados das Juntas Protectoras dos Escravos e Libertos teriam meios ou interesse em contrariá-los. In: VASCONCELLOS. Além disso. 2o. 26 NEVES. da eficácia dos presentes que dava e da lealdade dos caçadores negros que o acompanhavam. era-lhes mais fácil identificarem-se com os interesses dos poderosos senhores escravocratas e traficantes do que advogarem a causa dos escravos. João Albasini e a Colónia de S.

Patrick. Do escravo ao Chibalo do século XIX.1992. a abolição tanto do tráfico quanto da escravatura apontavam para uma necessária reorientação da prática colonial e prenunciavam o desencadeamento do processo de paulatina substituição do caráter mercantil pela atividade produtiva intrínseca ao capitalismo da segunda metade do século XIX. Lisboa. Lisboa. Valentim. cit. 1996. em nenhuma delas havia a junção do trabalho assalariado livre.. neto de Manikussi. HARRIES. na medida em que. permaneceu sendo prática corrente no Estado de Gaza até sua derrota frente aos portugueses em 189528. p. Slavery. persistissem práticas de tipo escravista mais ou menos escamoteadas sob fórmulas jurídicas diversas. pouco tenha mudado as condições impostas aos trabalhadores africanos29. a partir destas duas últimas décadas do século XIX. a história colonial portuguesa. pelo menos até a segunda guerra mundial. Escher. Reconhecimento do Limpopo: os territórios ao sul do Save e os Vátuas. 30 TORRES. 28 XAVIER. Adelino Torres é de opinião que é o trabalho escravo ou semi-escravo o que caracteriza as colônias portuguesas no século XIX e princípios do XX. decisivamente. p. cap. 29 Em 1861 Inhambane contava com 3. Luís António. o “espírito guerreiro” da expansão e o trabalho compulsório são que ver COVANE. era resultante da sobrevivência e dominação do mercantilismo e não do projeto do capitalismo liberal30. de facto. Imprensa Nacional. Adelino. p. cit. Ver respectivamente Boletim Oficial no 23 de 07/06/1862 e no 44 de 05/12/1862 e ainda ALEXANDRE. 02. vendia escravos para traficantes árabes da costa e a escravidão doméstica. Alfredo Augusto Caldas. tese de doutoramento apresentada ao Institute of Commonwealth Studies. O que se vê em Moçambique. 1894. 1991. Op. Ngungunhane. p.116 escravos e Lourenço Marques com 276. 38. segundo ele. Migrant labour and agriculture in southern Mozambique with special reference to Inhamissa (lower Limpopo). Op. social incorporation. ferrovias ___ e no fornecimento de força de trabalho migrante para as colônias vizinhas do hinterland e para as plantations nas áreas controladas pelas companhias concessionárias capitalistas. Acrescenta ainda que os monopólios coloniais. afirma que o modelo que influenciou. O Império Português entre o real e o imaginário. no 21 . a existência de uma mercado interno integrado e a circulação de moeda fiduciária. Adelino Torres interroga-se sobre a possibilidade de se falar em capitalismo nas colônias portuguesas africanas. 1920 . Assim.16. com particular destaque para a escravidão feminina. 148. Op. cit. ainda que tal reorientação. Ainda que a abolição do tráfico não tenha significado a imediata supressão da escravatura e. 316:326.. University of London. 65.1.. p. é a constituição de um novo tipo de colônia baseada sobretudo na prestação de serviços ___ portos. mesmo quando esta foi legalmente suprimida. senão até 1961.

Ravan Press. mafurra. o Congo-Belga e mesmo as colônias britânicas. cit.. esta nova tônica que assumia o capitalismo em sua vertente colonial é brilhantemente expressa por um pensador do colonialismo português nos seguintes termos: “O que é absolutamente indispensável para todas as ‘fazendas’. a este já não bastavam as trocas primárias. Apesar disto. cocos. a falta de um mercado interno. enfim. urzela. 1900-1933. Quelimane. possibilitando-lhe a maior rentabilidade possível. 11:21. Idem. Johannesburg. borracha. ONSELEN. Arlindo. capitalistas. 1989. In: O Império Português entre o real e o imaginário. É mistér original o trecho está destacado em negrito. Op. pp. Ibidem. a presença do espírito guerreiro e a imposição de métodos coercitivos para a extração de força de trabalho barata não são práticas de uso exclusivo português. é o capital. e não só o português. fontes produtoras de matérias primas à produção industrial ___ madeiras. pp. Seriam então todos os empreendimento colonialistas na África. entre outros ___ representantes comerciais de casas marselhesas instaladas nos portos da Ilha de Moçambique.1. metropolitanas ou ultramarinas. Ibo. minérios ___ e garantir força de trabalho barata. embora. Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga. Do escravo ao Chibalo demonstrativos da hegemonia do mercantilismo sobre as idéias liberais.C.I. 1976. uma sobrevivência do mercantilismo? Julgo que o que se passa é que justamente devido ao momento de transição em que vivia o capitalismo. In: I Reunião Internacional de História de África . Sofala. p. 33 Adelino Torres reconhece que a busca por força de trabalho barata “foi sempre uma necessidade e um objectivo da colonização. por exemplo. Ora. “Quando começou o comércio das oleaginosas em Moçambique? Levantamento estatístico da produção e exportação no período entre 1850-1875”. Inhambane e Lourenço Marques incentivaram sua produção e praticamente monopolizaram o seu comércio na segunda metade do século XIX34. nem sempre isto realmente tenha ocorrido. assegurar à facção nacional do capital um lugar seguro para onde exportar excedentes financeiros. oleaginosas. XIX (Actas). Chibaro: African Mine Labour In Southern Rhodésia. 31 22 . 39 e 42. copra. veja-se as colônias francesas. no caso português. amendoim. onde também era usual a prática do chibalo32. isto é. já que a maior rentabilidade obtida com a exploração colonial nas colônias portuguesas era apropriada por empresas estrangeiras33: as minas do Rand absorviam grande parte da força de trabalho moçambicana e no que tange às oleaginosas ___ gergelim. I. 34 Ver: CHILUNDO. Charles van. em qualquer época e país.”. 32 Ver. constituindo o que denomina de proto-capitalismo31. 89.T. era preciso assegurar mercados.Relação Europa-África no 3o quartel do Séc. semi-proletarizada..

(trad.”35 Com estas palavras de Oliveira Martins. de. ou sob a forma de valor. A Riqueza das Nações: Investigação sobre sua natureza e suas causas. e as guarnições com que. correspondem economicamente ao preço do escravo. P. Blanqui) Paris. J. ou ao salário do colono contratado. Em português consulte-se SMITH. Outrora a escravidão supria isso. particularmente as páginas 240:284. navegar os rios. Augustus M. com rapidez e de modo razoável. na impossibilidade da reprodução in totum do modelo. Augustus M. 38 SMITH. na Índia os ingleses. ora. Entretanto. 23 . Kelley Publ. Hoje consolida-se nos adiantamentos e salários dos imigrantes. eis aí o indispensável para a manutenção das ‘fazendas’ ultramarinas. 205. Adam. 1967 e A View of the Art of Colonization. 1969. negros ou chineses contratados para os territórios despovoados. o capital intervém sob uma forma... Op. ferramenta humana de trabalho. Do escravo ao Chibalo dissecar os pântanos. Kelley Publ.1. Se não se tinha nas colônias as condições para a acumulação capitalista tal como estas se manifestam na Europa. A força e não o contrato é sua expressão ativa. não é à toa que Adam Smith está citado na bibliografia de sua obra37. Sobre o pensamento de Edward Gibbon Wakefield ver suas obras: England & America: A comparison of the social and political state of both nations. Esta especificidade da manifestação concreta do capitalismo nas colônias parece escapar a 35 36 OLIVEIRA MARTINS. ou sob a forma de força. Propriedade de Terra e Transição. construir os armazéns e obter os braços. New York. 1990.. ao efetuar a conquista militar e ao estabelecer formas de controle sobre a força de trabalho38. mantém submissos os régulos indígenas que fazem trabalhar mais ou menos servilmente as populações. As primeiras edições são respectivamente de 1834 e 1849. p. e o capital consolidava-se no preço dos negros. New York. cit. São Paulo. pois. 1842. São Paulo. buscou-se a criação de mecanismos próprios e adequados à conjuntura. ao propugnar pelo intervencionismo estatal como o regulador necessário e condição sine qua non para o estabelecimento de relações econômicas capitalistas nas colônias36. está claro que não é em Adam Smith que se deve buscar a especificidade do capitalismo colonial e sim em Wakefield. Capital. em Java os holandeses. Brasiliense. abrir as estradas. só aparentemente diversa. 37 Cita a edição francesa: Recherches sur la nature et causes de la richesse des nations. é justamente isto o que Oliveira Martins prega e o que a ação colonial portuguesa persegue. Roberto. tratou-se de criá-las e. Para Adam Smith somente por meio de um exército efetivo e bem organizado era que um país bárbaro podia ser civilizado. Nas regiões habitadas por povos indígenas susceptíveis da submissão rudimentar da civilização.

Anos antes Oliveira Martins. numa verdadeira missão. Charles E. Foi justamente este expansionismo desenfreado que fez renascer em Portugal o que Valentim Alexandre chamou de “o mito da herança sagrada”. Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses. p. Perspectiva.” Apud BRUNSCHWIG. A Partilha da África Negra. Coimbra. A bibliografia sobre o tema é extensa. José. II. mas para uma análise específica sobre o mapa cor-de-rosa numa perspectiva portuguesa ver: NOWELL. melhor seria “por de parte os domínios vastos e as tradições históricas. “A África no Imaginário Político Português (séculos XIX-XX)” In: Actas do Colóquio Construção e Ensino da História de África. 1974. Pareceria A. pretensão contestada pelos britânicos que ameaçaram invadir e anexar Moçambique caso Portugal não abdicasse de suas pretensões. p. Lisboa. estabeleceu em seu artigo 35o o princípio da ocupação efetiva e a obrigação de “assegurar nos territórios ocupados nas costas do Continente Africano a existência duma autoridade suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos e. M. 1982. Junta de Investigações Científicas do Ultramar. potencializado após o ultimatum britânico de 1890: este mito ganhava novos coloridos justificando não apenas a conservação do território até então ocupado. Alienar mais ou me- Abril Cultural. a liberdade de comércio e de trânsito. Do escravo ao Chibalo Adelino Torres. pp. 1970 e ALEXANDRE. O “Ultimatum” visto por António Enes . 1983. Diligências Diplomáticas em torno de Moçambique. concentrando num lugar [Angola] os recursos e as forças disponíveis. 1946. foi brilhantemente expresso pela frase de Cecil Rhodes ___ “se pudesse anexaria as estrelas” ___ que sintetizava a sanha expansionista do capitalismo mais dinâmico da Europa39. repudiando o princípio dos chamados “direitos históricos” como reivindicava Portugal. nas condições em que for estipulada. F. 1995. que vê mercantilismo onde já se desenvolvem formas de transição ao moderno capitalismo. Coimbra editora. O espírito que prevaleceu na Conferência de Berlim de 1885. Valentim. Pereira. mas uma expansão máxima pelos territórios africanos sobre os quais se julgava ter direitos ancestrais. 90. A. 39 24 . A Ata Geral da Conferência. na qual se estabeleceu o princípio do domínio efetivo como garantia para a posse das colônias. em caso de necessidade. razão de ser da nação40. Henri. convertendo-se no elemento central do nacionalismo português. The Rose-Colored Map . 231:44. então considerado um “pessimista”. 40 O ultimatum relaciona-se à disputa pela área do hinterland entre Angola e Moçambique que Portugal reivindicava para si no famoso mapa cor-de-rosa. Lisboa.1. D’ALMADA.com um estudo biográfico. mas efetivamente um homem do seu tempo e realista em questões coloniais. argumentava que diante dos acanhados recursos e da manifesta incapacidade administrativa portuguesa. Lisboa.Portugal’s attempt to build an african empire from the Atlantic to the Indian Ocean. vol. Sobre a reação ao ultimatum na voz e na perspectiva nacionalista de um contemporâneo veja-se: OLIVEIRA MARTINS. 162. se acaso os há. São Paulo.

A. A primeira edição é de 1893. p. tendo direitos político-administrativos. Maputo. pp. Portugal entregou dois terços do território de Moçambique ___ o centro e o norte ___ às Companhias Concessionárias. recebeu um estatuto de Cia. e a Cia. bem como um indicativo da sua internacionalização.1. até então. Lisboa. II. e demais publicações do autor. Adelino. O próprio Oliveira Martins foi um dos fundadores da Cia. Moçambique . O Império Português entre o real e o imaginário. Escher. 1979. nominal e restrito. vol. Anuário de Lourenço Marques 1932. pp. 1971. Bayly. pp. António. Ver: ALBUQUERQUE. 44 Ver: LEITE. Majestática em maio de 1892 e a partir de 1893 passou a controlar. Estampa. Separata dos nos 13 e 14 da Revista do Gabinete de Estudos Ultramarinos. “No centenário da Companhia de Moçambique. controlavam cerca de 50% da área de Moçambique. poderes policiais. até 1942. Paris. A Cia. Lourenço Marques. foi a mais importante e duradoura dentre elas. em 1892. outubro de 1989.Relatório apresentado ao Governo. por enfeudações a companhias”41. Embora nesta edição o nome do autor apareça. a totalidade dos distritos de Manica e Sofala numa área de 134. 1991. Lisboa. o que de fato acabou por ocorrer: sem capitais suficientemente abundantes que pudessem exportar para ampliar seu domínio. Moçambique. ALMEIDA. J. 4a ed. adequando-se às exigências da Conferência de Berlim ao abrir a colônia às novas exigências do mundo capitalista. 703:824. Ruy. sem maiores explicações. Tip. 1888-1988”. Tais Companhias. História do Colonialismo Português em África. em 1898. 65:76. Do escravo ao Chibalo nos claramente. no 06. Agência Geral do Ultramar/Imprensa Nacional. criada em 1891. em 1908. a Société du Madal. Oliveira Martins perante o problema colonial e a crise. As datas de fundação e os capitais envolvidos nas mesmas mostram que a um só tempo sua criação foi uma tentativa da metrópole para enfrentar a concorrência aberta pelo imperialismo britânico. Ver MARTINS. emitindo selos e moeda próprios43. Maria Inês Nogueira da. cit. In: Arquivo. 41 OLIVEIRA MARTINS. 233. de Moçambique. de Moçambique. Agrícola do Lugela. de 1893 e 1913. La formation de l’économie coloniale au Mozambique. Pedro Ramos de. Op. Francisco de Assis Oliveira. a Cia. p. de. 56:9. COMPANHIA DE MOÇAMBIQUE. do Nyassa. opto por uniformizar a grafia consoante as edições anteriores. Lisboa. 1989. grafado com um único “n”. e com capitalistas dados ao lucro especulativo e mesmo à usura42. cronologia século XIX . Esta Companhia e outra majestática. fundada em 1888. 1957. W. P. “O Pensamento Colonial de Oliveira Martins”. pp. Lisboa. Tese de doutorado apresentada à EHESS. além do Oriente. 1932. do Boror. 42 Ver TORRES. em 1904. 13:15 e 31 e ENNES. fac-similada pela de 1946.822 km2 ao Norte do paralelo 22 até às margens do Zambeze. 254. 43 No que tange à Cia de Moçambique ver entre outros: COSTA. constituídas principalmente por capitais estrangeiros ___ ingleses e franceses ___ tornaram-se verdadeiros Estados. Além destas duas fundaram ainda a Cia da Zambézia. 25 . a Cia. Algumas destas últimas eram sub-concessionárias das maiores e mais antigas44. Estas idéias eram partilhadas por muita gente importante inclusive por Eça de Queirós. Joana Pereira. que se formaram para tal..

Do escravo ao Chibalo No sul. que evidenciavam a febre imperialista.” Brito Camacho. e por isso as ‘fazendas’ só prosperam à custa mais ou menos brutal dos braços indígenas” 45. P. retomando o Estado o controle sobre seus territórios. para que se pudesse considerá-lo como capitalista. máquinas e outros meios de produção. pois seu porto era o caminho mais curto e rápido para se atingir a região aurífera e carbonífera do Transvaal. e baratear o custo da produção”. em que a preguiça é nos brancos uma qualidade do indivíduo. 45 OLIVEIRA MARTINS.. p. meios de vida. “Ainda se não fez uma classificação de raças com base na preguiça. 1. Lourenço Marques rapidamente tornou-se a cidade mais importante de Moçambique. Rapidamente foram criadas as obras de infra-estrutura tanto para servirem ao novo e dinâmico pólo de desenvolvimento capitalista quanto para administrar o crescente fluxo de força de trabalho moçambicana que a região atraía. 1934. Oliveira Martins não estava falando novidade: Marx. para abrir os caminhos. e nos pretos um predicado da raça. 218 26 . eram as corridas ao diamante de Kimberley e. J. se lhe faltava o trabalhador assalariado. de. depois. não foram renovadas.. mas assentou-se desde há muito. o outro homem obrigado a vender-se Território de Manica e Sofala: monografia apresentada à Exposição Colonial Portuguesa no Porto.. também o eram de que este não bastava.2 A MORAL DO TRABALHO. No surto nacionalista que se seguiu à implantação da ditadura portuguesa em 1928 as concessões da Cia do Niassa que venceu em 1929 e da Cia de Moçambique vencida em 1942. Op. afirmara que este havia descoberto que nas colônias não bastava que uma pessoa possuísse dinheiro. era preciso também contar com “a abundância desse instrumento de trabalho chamado homem. comentando as análises de Wakefield sobre as colônias da América e Austrália. por ali passando o grosso das mercadorias para o hinterland mineiro.1. Se os teóricos do colonialismo português eram cônscios de que era indispensável “o capital abundante para desbravar o chão. ao ouro do Rand no último quartel do século. cit. para instalar as plantações.

colher e vender?”48. 1991. Karl. p. em geral. 48 OLIVEIRA MARTINS. 650. 50 JUNOD. pp. embora comportassem conflitos sociais não negligenciáveis. Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa. Estas últimas duas referências foram feitas a partir de versões eletrônicas gentilmente cedidas pelos autores e as páginas aqui indicadas podem não coincidir com as das versões apresentadas à defesa. por exemplo. conseguiam sustentar suas necessidades de consumo e os excedentes. J. pois mantinham a posse da terra. Porto. ninguém era despossuído de terras para se sustentar50. 1977. nos quadros da colônia portuguesa da África Oriental. o mais básico meio de produção.. 1975. tomo I. a enriquecer o capitalista. Op. Luís António. P.1. convertidos em tributos pagos aos régulos e potentados diversos. ainda que rudimentares47. 04:13. Para uma mais detalhada discussão acerca deste tema e da própria validade da utilização do termo camponês ver: ALMEIDA SERRA. El Capital. México DF.” MARX. 49 Para o balanço das diversas interpretações ver BUNDY.. p. quando ele em pessoa pode plantar. 2a ed.. COVANE. p. cit. XXV. 1979. CAPELA. por que iria o preto servir e enriquecer um colono. prefere enriquecer-se a si mesmo com seu trabalho. Do escravo ao Chibalo voluntariamente46.A vida duma tribo do sul de África. MARX afirma: “Aqui [nas colônias]. Lourenço Marques. 221. tomo II . cit. Junod afirma que embora o sistema de distribuição de terras comportassem privilégios quanto à fertilidade do solo. não se encontrava uma conjuntura na qual as pessoas fossem se oferecer como braços para o trabalho assalariado. 209:276. de. Tese de doutoramento. no circuito capitalista. a utilização da força de trabalho africana. Henrique A. Migrant labour and agriculture. até então. particularmente pp. 1975-85. mas a terra era possuída. José.Vida Mental. pelo contrário. Nos marcos da economia mercantil. O Imposto de Palhota e a Introdução do Modo de Produção Capitalista nas Colônias. 44. Op. parece não só conhecer como parafrasear Marx ao afirmar que “como os terrenos não têm dono. 1974. quer africanos. Oliveira Martins estava plenamente consciente desta situação. pp. London. Política Agrária e Desenvolvimento Económico e Social na República Popular de Moçambique. não havia condições objetivas que levassem a uma proletarização imediata e voluntária das populações locais. p. Escrevendo em 1880. 651.. The rise and fall of the South African peasantry. Afrontamento. como força de trabalho. pelos membros da comunidade que dela desfrutavam49. entravam no circuito de trocas. pois os camponeses indígenas não formavam um todo homogêneo e indistinto sem hierarquias em seu seio. o regime capitalista tropeça por todos os lados com o 'obstáculo' do produtor que. 09:11. p. e os instrumentos de produção. Fondo de Cultura Economica. 46 47 MARX. 23. afroportugueses ou afro-islamizados. podiam evitar venderem-se. ou seja. de formas e por mecanismos variados. A grafia correta de seu 27 . Heinemann. Op. António Manuel de. K. cap. nem limite. As formas produtivas nãocapitalistas. Imprensa Nacional. Colin. achando-se na posse de suas condicões de trabalho.. No sul de Moçambique. Usos e Costumes dos Bantos . cit. Ora.

Artur R. os homens voltavam a se integrar ao seu meio social. no final do século XIX. era necessário estabelecer uma identidade distinta para o outro. 1900.1. ou seja. de tal maneira que a dominação pudesse ser exercida. chegando a causar o despovoamento de certas regiões. exigiam a criação. contudo. Nos projetos constitucionais de 1838. Typographia de A. “Descentralização na Legislação e na Administração das Colónias”. pp. cumpridas essas missões. 51 28 . Os textos constitucionais de 1822 e 1826. elaborados no bojo do movimento liberal do Porto. sem [. Ver Adelino Torres. sem qualquer constrangimento jurídico. p. através da diplomacia ou dos presentes/saguates. Do escravo ao Chibalo pelos europeus. nome é Henri-Alexandre Junod. de Almeida. a partir da segunda metade do século XIX. MAVULANGANGA. 52 RIBEIRO. 16 p. Grifo original. As novas características assumidas pelo capitalismo. 1946.. excerto do relatório que precede a proposta de lei sobre a “Administração financeira das províncias ultramarinas de 1917”. desequilíbrios culturais. para atender às novas condições criadas com o retorno da família real portuguesa à Metrópole e diante do fato novo que foi a independência do Brasil. contudo. O Império Português entre o real e o imaginário. 78:82. o uso de carregadores era extremamente disseminado mobilizando. machileiros. o que ocasionava graves prejuízos às populações. Carta aberta ao Exmo Sr. em Moçambique. antes de mais nada. nas colônias. Lourenço Marques. Em Angola. Mavulanganga significa “o que abre o peito” e era o pseudônimo de Ernesto Torre do Valle. 1843. 1852 e no “Decreto Orgânico” de dezembro de 1869 a questão colonial era vista principalmente pelo prisma da independência e equilíbrio de poderes do Estado. que chegou em Moçambique como contratado para as obras da ferrovia ligando Lourenço Marques ao Transvaal. etc. Delegado e Procurador da Corôa e Fazenda. sem a constituição de uma população permanentemente voltada para tais atividades51.. ___ e. Lisboa. A Rusga. de uma força de trabalho permanentemente integrada à esfera produtiva. Mas como obtê-la? A força e a sujeição pareciam ser o único caminho. era esporádica e utilizada para cumprir missões específicas: os comerciantes-caçadores. caçadores. “das ‘regalias do cidadão. In: Antologia Colonial Portuguesa. vol. W. 155. serviçaes e indígenas. conseguiam dos potentados locais os trabalhadores de que necessitavam ___ carregadores.I.] o tratamento do assunto sob o ponto de vista ‘utilitário’ e ‘prático’ dos interesses e das necessidades instantes da administração das colónias e do seu progresso”. do perigo das ditaduras’ e doutras considerações de carácter acentuadamente abstrato e doutrinário. Bayly & Co. não faziam qualquer alusão ao “‘carácter colonial’ duma parte do território da nação”52. em torno de 200 mil homens. Agência Geral das Colônias. Curador dos Orphãos.

1900. p. Op. 74. de 14/12/1884. Do escravo ao Chibalo vincados pela discussão teórica liberal53. no que tange aos africanos. ao menos diretamente. p. porém. por tais atos. Claro está que em nenhum momento os indígenas foram de fato tratados igualitariamente. Porto. caso estes o 53 54 Id.. Ibid. 1977. perante a lei. O Decreto de 1854 já considerara como cidadãos o restrito grupo de indivíduos africanos ou mestiços formados pelos bacharéis. Manuel Moreira. 33 do Dec. então capital da Colônia56. batizados cristãos. 55 Apud BOXER. 05. a monarquia liberal acabava por subordinar estas à mesma legislação em vigor na Metrópole. através do decreto de 02 de abril de 1761. escrivães. pois “Sua Majestade não distingue seus vassalos pela cor mas por seus méritos”55. p. Relações Raciais no Império Colonial Português. negociantes de grosso trato. Indígenas em Moçambique. e deste modo a Carta-Lei de 1o de julho de 1867 e o Decreto de 13 de novembro de 1869. Esta universalização do direito de cidadania às colônias estava condicionada. oficiais do exército ou da armada. pondo fim à figura do liberto e lançando as bases do trabalho assalariado ficando. do Commércio.1. FEIO. juízes. José Maximo de Castro Neto Leite e. In: VASCONCELLOS. estenderam às colônias. Assim ao considerar as colônias como “províncias ultramarinas”. Valdemir D. Estudos Sociológicos. clérigos. os indivíduos por ela abrangidos. como foi o caso das mais de cem famílias de origem africana radicadas há gerações na Ilha de Moçambique. Lisboa. a iniciativa de Pombal que. a partir de julho de 1870. guarda-livros. o Código Civil em vigor na Metrópole54. Op. cit. A obra foi escrita em 1892. p. Typ.. cit. um século depois. Afrontamento. professores. proprietários territoriais e os administradores de fazendas rurais e fábricas57 mas. Charles Ralph. p. no que tangia aos indígenas a expressão mais significativa deste pretenso espírito liberal somente foi manifestada pela Carta-Lei de 29 de abril de 1875 que extinguiu legalmente a condição servil nas províncias ultramarinas. 157. vereadores ou ocupantes de cargos administrativos similares. 57 Art. 1os caixeiros. tabeliães. 75. ao grau de inserção do indivíduo no restrito espaço político e cultural do dominador. 1415-1825. passara a considerar os súditos asiáticos e africanos. 840. A esmagadora maioria da população permanecia à sua margem e não era afetada. com os mesmos direitos legais e sociais que os brancos nascidos em Portugal. 29 . 56 ZAMPARONI. como “cidadãos” plenos. reeditando. “obrigados a contratar os seus serviços por dois annos” e preferencialmente com os antigos patrões.

”In: Código Penal. que o justifique de se achar nestas circunstâncias. Acrescente-se a esta disparidade de tratamento a ampla margem de manobra e de interpretação aos executores da lei em terras coloniais. posto em vigor em 21 de novembro de 1878. que procurava dar maior autonomia administrativa às colônias. 256 do Código Penal afirmava: “Aquelle. nem meios de subsistência. prevista no Regulamento. em exemplo referente à Índia. Imprensa Nacional. 380:7.1. Imprensa Nacional. por exemplo. nem exercita habitualmente alguma profissão ou offício. em que ganhe sua vida. porém. face à crescente e mais efetiva presença de europeus no território.. Uma vez. que a ratificava e ainda suprimia a tutela pública sobre os ex-escravos e estabelecia a liberdade dos africanos poderem contratarem-se livremente com qualquer patrão e não exclusivamente com seu antigo senhor. fazendo-o interessar-se pelos negócios da colônia [. a ser aplicada nas colônias. até então restrita às fortalezas e entrepostos comerciais. mas extensivo às demais colônias. 10 de Dezembro de 1852. 1876. Lisboa. e entregue à disposição do Governo para lhe fornecer trabalho pelo tempo que lhe parecer conveniente. será competentemente julgado e declarado vadio. In: Collecção Official da Legislação Portugueza . ou outro mister. para até dois anos.anno de 1878.. era: “necessário chamar o elemento indígena às funções públicas. contratado. nos termos do Código Penal e o seu novo patrão ser multado59. nos termos do art. reconhece apenas cidadãos sob domínio da soberania portuguesa. as raças votadas ao obscurantismo pelos preceitos das velhas tradições do oriente aprenderão a exercer e a ter consciência dos 58 Carta-Lei de 29 de abril de 1875. 30 . 125:7. Lisboa. durava quatro vezes mais do que em Portugal60. Imprensa Nacional. 90 do Regulamento. 60 O Art. que não tem domicílio certo em que habite. Ainda que o Código Penal aplicado às colônias fosse o mesmo da Metrópole. Segundo o texto. pp. Do escravo ao Chibalo desejassem58. O Decreto de 03 de novembro de 1881. Approvado pelo Dec. 59 “Regulamento para os Contratos de Serviçaes e Colonos nas Províncias da África Portugueza. 1879. Lisboa.] reconhecida a sua igualdade civil e política perante a lei [. 1853.. a pena por vadiagem.anno de 1875. e punido com prisão correcional até seis mezes. A Carta-Lei foi complementada pelo Regulamento para os contratos de serviçaes e colonos nas províncias da África portugueza.] o projeto não conhece diferenças de religião nem de castas. A sujeição ao trabalho obrigatório era extendida. pp. não poderia o indivíduo romper o contrato e mudar de patrão sob pena de ser preso por vadiagem.. considerada como portadora dos desígnios civilizatórios. mantém o espírito liberal. não provando necessidade de força maior. o relatório que o precede defende a assimilação do indígena a partir da expansão igualitária da lei portuguesa.” In: Collecção Official da Legislação Portugueza .

. Oliveira Martins.161. Informação do Intendente de Negócios Indígenas e Emigração ao Governador Geral.552 Negros africanos (ocidentais) 1. Cuvier: Brancos 1:1 Negros 1. 1943. cx. republicados em 1943: LIMA. cit. no antropóide muito.534 Corsos ---1. Op.239 b) Relação do craneo para a face. não raro próximo do anthropoide.” OLIVEIRA MARTINS. trata-se de uma versão cientificista das palavras que Gomes Eanes 61 62 RIBEIRO. P. e abundam documentos que nos mostram no negro um typo anthropologicamente inferior.”63 Na verdade. no 2 e no 3 de 1918.25:4 d) o orifício occipital acha-se no europeu a igual distância da parte anterior e posterior do craneo. no negro é mais posterior. Américo Pires de. p. Op. lastreado nas disseminadas teorias filosóficas e científicas coevas. a abertura do ângulo facial que d'hai deriva e a situação do orifício occipital. a diminuição inversamente relativa do craneo e da face. Em todos estes signaes os negros se encontram collocados entre o homem e o anthropoide. até uma avançada idade. um dos fundadores da Cia de Moçambique. o novo código será para elas escola e catecismo de liberdade.”61 Contra este espírito assimilacionista.364 Americanos ---1. IV. Lisboa. 284:5. 63 Para dar sustentação à sua tese indica.574 1. como referido. e com a objetividade esperada do discurso positivista mesclado à crueza dos interesses capitalistas62. como se sabe. Esta antropometria permaneceu como atividade científica portuguesa até meados do século XX. de. e bem pouco digno do nome de homem. Proc. em nota. Vejase por exemplo os artigos de Américo Pires de Lima. Do escravo ao Chibalo seus direitos. em obra que veio à luz no mesmo ano do Decreto. Instrução e Cultos. pp. adepto da antropologia física predominante no final do século XIX.. Secção E. Oliveira Martins foi autor de vasta obra acadêmica mas também sócio-fundador e presidente da Sociedade de Geografia Comercial do Porto e. apenas. 1292. nos antropóides. de 20/03/11. os seguintes dados tomados de especialistas: “a) capacidade craneana em centímetros cúbicos: Broca Morton Europeus parisienses 1.430 1. vituperava.558 ---Bascos espanhóis 1. até aos 20 ou 25 anos no hotentote e no negro. Essas teses fazem eco no século XX: ver AHM-DSNI. A transição de um para outro manifesta-se. que “Há decerto. Agência Geral das Colónias. 39/A. cit.1. Os ossos próprios do nariz ficam separados da linha média. até que no cavalo e no hipopótamo deixa de fazer parte da base do craneo(Broca). frutos de observações feitas entre 1916/17: “Notas Etnográficas do Norte de Moçambique” e “Contribuição para o estudo Antropológico dos indígenas de Moçambique” ambos em: Anais Científicos da Faculdade de Medicina do Pôrto. J. no europeu. Explorações em Moçambique. vol. Artur R. em diversos caracteres: o aumento da capacidade da cavidade cerebral. e até aos dois. de Almeida. ano 1911. 31 .

era considerada por Oliveira Martins como uma tese “absurda não só perante a história. cit. que só pela força se educam povos bárbaros. Fund. p. 32 . Ibidem. quasi tanto como entende o preto. os que achavam ser possível civilizar negros com a bíblia. há mais de três séculos. “La vision de l'autre (africain et indien d'Amérique) dans la renaissance portugaise”.1. argumentava Oliveira Martins. 1984. 67 Idem. 286. J. como o caminho para que o negro pudesse civilizar-se. iluminando-lhe o espíri- 64 A zoomorfização dos grupos não-brancos remonta aos primórdios da expansão portuguesa. Op. tornando impossível a extensão de quaisquer direitos à população não-branca. tornar-se verdadeiramente homem ao se adequar aos valores europeus. 507:55. Estava pois fechado um perfeito círculo infernal para justificar a dominação colonial. de. O indígena não podia civilizar-se porque era inatamente inferior e não podia ser cidadão porque não era civilizado. deixam de ter ouvidos. numa perspectiva iluminista. Do escravo ao Chibalo da Zurara já havia escrito. P. Mesmo os que julgavam que Portugal devia “pela instrucção. MARGARIDO. Manuel Joaquim Mendes de. 40 e 52:6. até então. tidos como universais.”67 Este discurso passa a sustentar uma nova perspectiva das relações humanas nas colônias já que. isto é. para demonstrar quão quimérica era a possibilidade de se civilizar os selvagens? Opondo-se às teses liberais argumenta: “E se não há relações entre a anatomia do craneo e a capacidade intellectual e moral. pelo contacto com o indígena e pelo seu convívio ir preparando o selvagem. In: Le Humanisme Portugais et l'Europe (Actes du XIXe. porque “toda a história prova. que nem por não terem falla. Colloque Internacional d'Études Humanistes). Ibidem. a metaphisica da encarnação do Verbo e o dogma da Trindade?”65 A educação vista pelos liberais. cit. porque há de parar a philanthropia no negro? porque não há de ensinar-se a Bíblia ao gorilla ou ao orango.. porém. 285. Não bastariam estas provas. educação e panos de algodão. p. pp. como também perante a capacidade mental dessas raças inferiores”66. p. Op. 283. Alfredo. p. 68 Ver por exemplo VASCONCELLOS E CIRNE. Calouste Gulbenkian. Paris. com famílias mulatas desfrutando de prestígio e poder econômico68. era possível encontrar na sociedade colonial uma mescla racial. 66 Idem. portanto. Tal discurso busca fundar as desigualdades raciais e sociais numa pretensa ordem natural das coisas. em sua Crónica de Guiné: os traços somáticos eram tomados como um paradigma hierarquizador dos homens64. e hão de entender. Que se desiludissem. 65 OLIVEIRA MARTINS.

comungando as idéias de António Ennes. em comunicação apresentada ao Congresso Colonial Nacional. de Geografia. E. 59:136. Diocleciano Fernandes das. alinhavam-se com as teses de Spencer e advogavam que. a partir de 1895. I. “Regime Jurídico das Populações Indígenas”. 85. onde faleceu. Lisboa.. Principes de Sociologie. Herbert. quanta extemporânea medida não tem tido origem nesta falsa idéia!”70 Fazendo eco a tal tese. FEIO. cit. Eduardo da Costa. insurgindo-se contra a herança iluminista. que julgava superficiais. Op. estas ao atribuírem a todos os homens uma mentalidade semelhante. pp. Soc.] têm-se convencido os nossos legisladores para o ultramar que aplicando a ‘mesma lei’ a todos os habitantes de uma colónia se obtinha a desejada ‘igualdade’ deles todos perante esta lei. em razão das diferenças sociológicas entre as sociedades européias e africanas que se achavam “na sua infância”. cit. era preciso estabelecer leis distintas69. trad. e FERREIRA MARTINS. 79:96. A memória apresentada foi publicada inicialmente como Estudo sobre a Administração Civil das nossas Possessões Africanas. temos indo estendendo. assim argumenta: “Na nossa terrível mania assimiladora. tomo I.. p. Ancienne Librarie Germer Baillière. para todos os habitantes sobre os quais ondeia a bandeira portuguesa. grifos no original. Op. 1946. com 239 páginas.. Feio. vol. 70 Eduardo da Costa foi chefe do Estado Maior de António Ennes. sucessivamente e sem descanso. pp. Op. e admitindo um tipo único e superior de civilização que se tornava necessário implantar por toda parte. da qual teve um excerto publicado sob o título “Princípios de Administração Colonial” na Antologia Colonial Portuguesa. Quanta enganosa doutrina. no nosso prurido de liberdade e igualdade civil e política. cit. as instituições democráticas de nosso regime político aos sítios mais longínquos das nossas colónias. Paris. Marnoco e Souza. Foi Governador dos Distritos de Moçambique (1897) e de Benguela (1904). Do escravo ao Chibalo to”. ou pelo menos julgando-os susceptíveis de a adquirir depois de uma breve educação. Agência Geral das Colónias. 1903. Cazelles. Lisboa.1. NEVES. tendo tomado parte ativa nas campanhas militares que culminaram com a ocupação do Sul de Moçambique. 7e ed. [. como Manuel M. 71 MARNOCO E SOUZA. M. Ministro da Marinha e Ultramar no último Governo da Monarquia e catedrático no ensino de “Administração Colonial” da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. de 1901.. 148:52 e SPENCER. Em 1907 foi nomeado Governador Geral de Angola. afirmava que o que orientou a colonização portuguesa nos três primeiros quartéis do século XIX foram as teorias do século XVIII. Gen. levaram a substituir as instituições indígenas pelas leis européias o que considerava ter redundado em graves conseqüências para os resultados da obra colonial71. Manuel Moreira. 1903. particularmente pp. In: Antologia Colonial Portu69 33 .

de injusto. Do escravo ao Chibalo A tônica presente nestes argumentos recai sobre a inequívoca diversidade cultural e a conseqüente relatividade das instituições jurídicas. I. Lisboa. 99. de civilização muito diversa. e como isto. os mesmos hábitos e a mesma civilização”. 1979. de instintos muitas vezes antagónicos. se não fosse de todo impossível. Op. I. pode-se vislumbrar sua intenção oculta. de bom. Loc. cit. que a todos se aplica indistintamente? O qual ela tem. pp. à condição de cidadãos pela via da educação. portanto. excluí-la dos direitos de cidadania que poderiam significar empecilhos à obtenção coercitiva de força de trabalho barata. p. Artur R. Op. era preciso. podem considerar de ‘igual modo’ a lei. Por trás de tais argumentos que aparentemente distanciavam-se de uma concepção civilizatória eurocêntrica e que pareciam querer resguardar os indígenas dos efeitos deletérios da aplicação indiscriminada da legislação metropolitana.1. cit. Albert. COSTA. 144 e 155. só se daria “em época muito longínqua e indeterminada”. A respeito da restrição dos direitos de cidadania “aos homens de cor” e a manutenção da escravatura nas colônias pela Constituinte de 1791. ver. de Almeida. outro ‘indígena’”75. de imoral e de nocivo. passo seguido pelas demais nações colonizadoras. para uns. vol. o único caminho para a civilização passaria necessariamente pelo trabalho na esfera capitalista. Imbuídos da fé pre- guesa.”72 As leis em vigor em Portugal seriam. cit. Publicado originalmente em 1906. dando-lhes os “mesmos sentimentos. 1946. entre outros: SOBOUL. A Revolução Francesa. de moral e de justo. a existência de “pelo menos. 99. tidos como selvagens e indolentes. Ora ___ argumentava-se ___ se até mesmo a França “revolucionária” excetuara os domínios coloniais dos termos de sua Constituição de 1791. Lisboa. Já que consideravam impossível elevar os indígenas. vol. nas possessões portuguesas. que era. Agência Geral das Colónias. Op. grifos originais. e a ‘igualdade’ da lei produz a maior ‘desigualdade possível de condições perante ela’. p. 72 34 . “inteiramente impróprias para o meio indígena das colónias”73. 74 RIBEIRO. ao traçar uma identidade distinta e inferiorizante para a população colonizada. por que haveria Portugal de não o fazer? 74 Se há tais disparidades. 153:5. p. Livros Horizonte. Eduardo da. cit. encerra. 73 MARNOCO E SOUZA. dois ‘estatutos civis e políticos’: um ‘europeu’. pois segundo se argumentava: “homens de uso muito diferentes. para outros. antes de igualar a lei tornava-se necessário igualar os homens.

constante. particularmente o cap. B. pp. disciplina e resistência operária”. nesse mundo. faziam crer que aos civilizadores era imposta a tarefa de arrancar o indígena deste estado natural de indolência e ociosidade e submetê-lo a uma disciplina do trabalho.1. A Teoria Política do Individualismo Possessivo de Hobbes até Locke. sem cair no velho tipo condenado da escravidão”78. individual e social. 77 OLIVEIRA MARTINS. Rio de Janeiro. 35 . mas aguilhoado pela necessidade imediata: e as necessidades do negro são curtas. Brasiliense. “Lógica e Dissonância . não tinha como ser mais explícito: “explorar em proveito nosso o trabalho de uns milhões de 75 76 COSTA. como conforma este trecho de Oliveira Martins76: “Trabalha [o negro]. e que o preto livre trabalha ___ fatos aliás exatos em si ___ porque é mistér acrescentar que o preto livre só trabalha intermitentemente ou excepcionalmente. A escravidão tinha pois um papel positivo e economicamente eficaz. e satisfazem-se com pouco. Eduardo da. v. p. entretanto. 233. Os pensadores. como o europeu. Op. era necessário justificar a sujeição das populações e a criação de trabalhadores com novos argumentos. 219:20. o trabalho nunca foi empregado em escala considerável. Grifo original. Do escravo ao Chibalo tensamente natural e universal de que o trabalho e a acumulação de seus frutos era a base de toda a vida. Roberto. pelo trabalho fixo. Não abandona a liberdade e a ociosidade. Ver a este respeito. Maria Stella Martins. Propriedade de Terra e Transição. 1969. Augustus M. Ibidem. sim. São Paulo. Abril. set. pois os válidos para o período anterior perdiam sua eficácia diante dos novos tempos. com o fito de uma capitalização ilimitada. Kelley Publ. por instinto. “Da Propriedade”. particularmente pp. que é a dura condição da vida civilizada. Era necessário descobrir “um meio de tornar forçado o trabalho do negro. 205:273 e ainda BRESCIANI. p. 324 afirma: “Até agora. p. C. São Paulo. New York. por exemplo. ordinário. cit. J. 6.1985/fev. as formulações de Locke em seu “Segundo Tratado sobre o Governo” In: Locke. mas não por ‘hábito’. 1990. O objetivo perseguido.. Paz e Terra. sob o ponto de vista da prosperidade das plantações. 86. no 11. 1973. V. In: Revista Brasileira de História. . pp. 1979. 51:60 e MACPHERSON. p. 21. ciência. com constância e combinação. P. p. exceto por um ou outro dos dois meios: ou pelo assalariamento ou por algum tipo de escravidão. e que o mais elevado preço do trabalho escravo era compensado pela constância e permanência do funcionar desse instrumento de produção. Wakefield em seu A View of the Art of Colonization. 78 Idem.”77 Apesar da defesa da racionalidade econômica da escravatura. cit. alterando sua conduta diante do mesmo. Trabalha. 271.1986. Não basta dizer que o trabalho escravo é mais caro. sim. Op.Sociedade de trabalho: lei.” Apud SMITH. para ele felizes condições da vida selvagem.

criar escolas onde se deveria. Do escravo ao Chibalo braços. António Lobo de Almada. entretanto. continua: “assim que se deu ao negro a liberdade... ela suporia implicitamente o cumprimento de deveres. em 1900. a prerrogativa de coagir à observância de uma lei social quem espontaneamente lhe não acatar os preceitos. de forma mais sutil ___ necessária diante da atenta platéia internacional ___ mas nem por isto menos clara. do tempo e das condições como em que hão-de cumprí-la. Ibidem. s/ed.1. cit. p. que “tão grande raio de luz” a ofuscou. e que assegurava aos negros “o sagrado direito de ociosidade. e embora considerasse que a liberdade fosse um direito natural. não se lhe fez compreender em seguida e claramente que uma das características da mais sã liberdade é o enobrecimento pelo trabalho livre. Op. Já no final do século.”81 Como. De tal modo se fez no Brasil”79. respeitará os direitos dos trabalhadores aos frutos de sua actividade. que lhes dizia textualmente: ‘de ora avante ninguém tem obrigação de trabalhar’”. ENNES. o negro considerava todo trabalho assalariado como escravidão e não o buscaria senão constrangido pelas circunstâncias e pela lei. pois deixaria “ aos negros a livre escolha do modo. p. António Ennes. enriquecendo-nos à custa deles . era necessário.. António José. argumentava que a legislação liberal acabara por se constituir numa “espécie de declaração dos direitos dos negros. Apenas conferirá à autoridade pública.”82 De acordo com António Ennes. não constituirá ninguém proprietário das suas pessoas ou usufrutuário das suas aptidões. em nada se assemelharia à escravidão. 1900. p. era essencial enfatizar que o fim da escravatura não podia ser reconhecido como “um direito de não trabalhar”. Ibidem. e não a qualquer particular. 8. administrador e grande proprietário de terras em São Tomé. prossegue o autor. 70. 82 Idem. de sua escolha. sobretudo.. Moçambique. La Main d'Oeuvre en Afrique. 36 . então.”80 No Congresso Colonial Internacional que se realizou em Paris. um poeta. Paris. de 79 80 Idem. 81 NEGREIROS. segundo ele. A obrigação do trabalho. 7. fazê-lo compreender “o respeito que é devido às leis e à autoridade e ainda a natureza de seu dever que é o de prover os seus meios de existência pelo trabalho. suas teses acerca do assunto ao afirmar que a raça negra não estava pronta para receber o fim da escravatura. fazendo eco ao pensamento colonial português expressou.

ENNES. da inclemência do clima. Agência Geral das Colónias. sendo preciso. p. São Paulo. “não deve ter escrúpulo de obrigar e. ao menos. dentro da lógica colonial. como soberano e depositário do poder social. s/d. Lisboa. António et alii. Moçambique... não desprovido de fundamento. 28. esses rudes negros da África.. da aridez do solo e da proliferação de doenças às quais aqueles não suportariam ___ nem com o “poder das máquinas. e alii. cônscios de que a exploração colonial moderna assentava-se sobre a intensiva exploração de força de trabalho barata. 87 ENNES. 1946. 85 ENNES. Não se discutia já o mérito de se saber se os negros pertenciam ou não à raça humana. Op. Apud Antologia Colonial Portuguesa. p. cit. domesticáveis. “O Trabalho dos Indígenas e O Crédito Agrícola”. p. esses meios selvagens da Oceânia”88. de modo a consolidar a sujeição 83 84 ENNES. 86.. 88 Idem. como um pai pode compelir os filhos a aprenderem a exercerem um mister. 28. p. de forçar a trabalharem. a melhorarem-se pelo trabalho.1. Albert. Op. isto é. 76. a civilizarem-se trabalhando. Como corolário de tal argumentação afirmava que o Estado.” SCHWEITZER. 37 . a adquirirem pelo trabalho meios de existência mais feliz. vol. António J. Restava então o trabalho indígena: “precisamos dele para a economia da Europa e para o progresso da África. Esta força de trabalho só poderia ser obtida a partir da conquista militar seguida da implantação de uma máquina administrativa vigorosa. esses ignaros párias da Ásia. sendo portanto defensores acérrimos da compulsão ao trabalho. a longa trajetória escravista já demonstrara que para o trabalho eram suficientemente humanos ou. cit. 27. cit. Ibidem. p. António et alii. António José. 27. Do escravo ao Chibalo coagir os negros a trabalharem. Ennes e seus seguidores eram. “homens de seu tempo”. Op. Ennes argumentava que o principal desafio posto à Portugal era o de “obrigar as províncias ultramarinas a produzirem”84 e para tal não se poderia contar nem com o trabalho dos colonos brancos ___ sob argumento. face à escassez de capital86. Melhoramentos. Entre a Água e a Selva. 86 O médico Albert Schweitzer afirmava no começo do século XX que nem mesmo os anamitas e chinezes poderiam ser usados como força de trabalho pois “estrangeiros não podem trabalhar nas selvas africanas porque não suportariam o clima nem a vida no acampamento. Extrato do relatório elaborado pela Comissão encarregada de estudar o problema de trabalho dos indígenas em 1899. 2a ed.”83 Apesar desta argumentação de cariz humanista. p. I. A nossa África tropical não se cultiva senão com Africanos”87. como se faz nos plainos virgens da América do Norte”85. como fazia Oliveira Martins e seguidores.

Marx. Cit. entre outros: CAMPOS JÚNIOR. de prender os indunas dos chefes locais. 38 . da Magaia. culminaram com a prisão de Ngungunhane e a completa desestruturação do império de Gaza90. J. Independente da polêmica entre os evolucionistas ou não o certo é que ação colonial. 1936. 2a ed. exigia o estabelecimento de regimes jurídicos diferentes tanto em relação à Metrópole. Moçambique. a 15 km de Lourenço Marques.. Lisboa. como havia indicado os levantes contra Lourenço Marques ocorridos entre agosto e outubro de 1894 que fez a cidade viver sob clima de guerra. Embora a intervenção militar de 1895/97. As operações militares que se seguiram no ano de 1895. António José. 1936. Portugal e Ultramar. Lisboa. 2a ed. TOSCANO. sob o comando de A. Tais teorias e argumentos eram como luvas sob medida nas mãos ávidas dos interesses econômicos. 1896. Vitórias de África (1894-1895). Lisboa. p. Francisco e QUINTINHA. ver. Op. os régulos Mahazuli. da Moamba atacaram a cidade mas suas zagaias não conseguem fazer frente à artilharia e aos fuzis de seus inimigos e foram rechaçados. era preciso transformá-las em lucros e dividendos e o único caminho possível para forçar o negro à obrigação moral do trabalho era o domínio militar efetivo que arrasaria todos os obstáculos que pudessem se opor à expansão capitalista89. da Zixaxa e Mugunduana. que contou com o apoio de vários potentados descontentes com o jugo imposto pelo Estado de Gaza91. Ennes e Mouzinho de Albuquerque. Op. J. tenha vindo escudada em argumentos emocionais. A defesa de Lourenço Marques. Para detalhes do clima vivido pela população branca na cidade em 1894. António de. Op. sujeição incompatível com o status de cidadão tal como concebido pelo liberalismo. 1930 e BOTELHO. o sucesso da empreitada colonial sob os novos tempos impedia a manutenção dos anacrônicos valores do humanismo liberal. ENNES. tais como honra e prestígio nacional. s/ed. numa operação coordenada. Pelo Império... 91 Ver entre outros: ORNELLAS. 650. Do escravo ao Chibalo dos dominados. NORONHA. Teixeira. A defesa de Lourenço Marques e as Campanhas do Vale do Incomati e do país de Gaza. Lisboa. O estopim foi a tentativa do comandante do posto militar de Angoane... orientada pelos parâmetros da economia capitalista moderna. Matibejana. cit.. Ed. quanto às colônias entre si. Eduardo de. História Militar e Política dos Portugueses em Moçambique.1.. De 1833 aos nossos dias. A 14 de outubro. Julião. ameaçada que estava por forte aliança dos principais régulos da região que se negavam a se submeterem à dominação colonial e particularmente contra o fornecimento de “carregadores” e contra o aumento de $900 para 1$350 do imposto per capita estabelecido pelo Decreto de 28/07/1894. estes mal disfarçavam 89 90 Ver K. rev.. A Derrocada do Império Vátua. Ayres de et alii.

tenente do corpo do Estado Maior da expedição militar contra o Estado de Gaza. 1815-1910: a study in uneconomic imperialism. 92 39 . A dimensão simbólica da ocupação. os povos mais trabalhadores da província. quer dos conquistados em terras africanas mereceria um estudo pormenorizado. p. Um indicativo da importância de tal estudo é que os próprios conquistadores eram tão conscientes de que o po- cit. levavam à cabo na África94 ou para persuadir a própria nação portuguesa de que não estava “perdida a raça dos heroes da nossa antiga epopêa”95. uma fonte de receita para o thesouro [. Idem. Valentim. Do escravo ao Chibalo os interesses econômicos92. Teorema. Ayres de et alii. Lisboa. Gervase. é uma boa região para negócio. Gomes. 1897. Colima . 95 Idem.]. Para uma perspectiva crítica a estas teses. In: ORNELLAS. a autoridade máxima da Colônia recém conquistada. e o predomínio dos vátuas tornava o commércio ali tão incerto quanto arriscado. Stanford. não deixavam de expressar a consciência do significado econômico da operação: “A Cossine e o Biléne. também muito populoso..na verdade a palavra local era kurima: cultivar a terra. pp.. Richard James. p. Stanford Univ. 1990. 02. a nossa melhor esperança. ver o pioneiro HAMMOND. “A África no Imaginário Político Português (séculos XIX-XX)”. 248. Lisboa. ou seja. Op. Tudo isto representa um incalculável augmento da riqueza para a província. de Byron. tornou-se o Comissário Régio. mas que por sua vez acaba por privilegiar os aspectos econômicos ver. A Campanha das Tropas Portuguezas em Lourenço Marques e Inhambane.1. autor destas palavras. 03 e 248:9. quer do lado português. emprezas agrícolas e caça. só hoje se póde considerar livre do perigo de uma revolta de indígenas. Ver ainda a análise dos mitos que embasaram o pensamento e ações coloniais em ALEXANDRE. Ibidem. p. o Maputo. 249. paízes povoadíssimos. Se os comandantes militares viam a ocupação principalmente como um operação para demonstrar aos negros que os portugueses não “eram raça de mulheres e gallinhas”93. Press. por exemplo. Portugal and Africa. emfim Lourenço Marques. aos ingleses que os poor paltry slaves. 1966. Sobre o caráter não econômico como motor da empreitada colonial portuguesa. cit. só agora podem ter certeza de colher o que semeiam sem que uma ‘impi’ vátua lhe venha assolar a ‘colima’ e esvasiar os celleiros. 94 Conforme Mousinho de Albuquerque. ingleses. Calif. Ibidem. p.. Ibidem. 231:244.. eram capazes de levar adiante empreitadas tão ou mais audaciosas que as que eles. O Terceiro Império Português (1825-1975).”96 Não foi sem motivo que Mouzinho de Albuquerque. M. 93 Palavras de Ayres de Ornellas. são dos melhores mercados d’esta província.. m’chope e bitongas de Inhambane. 96 Idem. CLARENCE-SMITH.

Lisboa. 223.. e de um trabalho mais ou menos clara e directamente forçado” 98. Mário Simões dos. A Memória Coletiva. p. da ordem e da sujeição dos indígenas a uma autoridade que pudesse convertê-los em instrumentos de trabalho progressivo. Londres. Do escravo ao Chibalo der de Ngungunhane sobre os povos do sul de Moçambique assentava-se sobre bases não exclusivamente materiais e se expressava sob formas simbólicas. 93. XXIV. 234. Gama. assegurando as condições para a plena realização capitalista. 1990. além de fortalecer seus argumentos diante dos conflitos de fronteira e posse de territórios que os opunham aos ingleses. Fundavam-se. como uma emanação de interesses de classes hegemônicas metropolitanas. 1936. Class struggles in Tanzania. 1976. A Campanha.A pacificação da província ao sul do Save. que exigia “o regime de uma vassalagem real dos indígenas. numa tentativa de apagar da memória dos homens a lembrança dos poderes por eles representados. Maurice. Heineman. Op. 100 Ver por exemplo: VERGOPOULOS. de. as bases do novo poder conquistador e o subseqüente estabelecimento de uma pretensa pax colonial. 2a ed. Joaquim Mousinho de. Ed. a coerção exercida pelo poder de Estado. António José. enquanto força exógena. ALBUQUERQUE. 157. Ayres de et alii. Tip. Kostas. P. como se seu Deus os houvesse abandonado”97. Embora em 24 de julho de 1875 Mac-Mahon tenha arbitrado a questão da posse da zona da baía a favor de Portugal. cit. é fundamental na condução do processo de implantação do capitalismo sobre as formações sociais não-capitalistas100 e não só as tradicionais forças do mercado. ritualmente. Arbitragens de Lourenço Marques. Ver REIS. Edições Vértice. Jan-Mar/1983. a Inglaterra continuou a cobiçar a região culminando com o ultimatum. destruíram também os espaços sagrados que legitimavam tal poder. “L' État dans le capitalisme periphérique”. p. A Guerra de África em 1895. 31. António Ennes afirmava que o território de Lourenço Marques.1. “Chaimite . p.13. e as mais essenciais destas condições dependiam da paz. J. que reforçava a posição portuguesa tanto diante dos antigos aliados dos Nguni como de seus subordinados. 35:6 e SHIVJI. 99 ENNES. São Paulo. Ennes antevia 97 Mousinho de Albuquerque narra que um dos objetivos era atacar os lugares onde estavam enterrados os antepassados e mesmo o fundador da dinastia do Ngungunhana. p. In: Révue Tiers-Monde. onde se localizava o complexo ferro-portuário que atendia a região mineira do Transvaal “ só podia estar em mãos bastante fortes para o manter em condições de prestar ao mundo os serviços de que eram capazes o seu porto e o seu caminho de ferro. Esc. das Oficinas de São José. 98 OLIVEIRA MARTINS. pp. 1945. cit. HALBWACHS. Issa.. Op. os súditos dispersos sentir-se-iam assim “afastados de seus santuários.”99 Numa situação colonial.” In: ORNELLAS. p. Lisboa. de utilidade internacional. que não se contentaram com a vitória militar.. 40 ..

41 . como também a indispensável expansão de uma força de trabalho submetida e barata. 1926 e 1928. 1911. em termos legais. Escher. p. p. In: O Império Português entre o real e o imaginário. 102 Cf. O novo Código traduzia. 38. Do escravo ao Chibalo não só a necessidade de se manter em efetivo funcionamento a infra-estrutura construída e operada com base no trabalho forçado e sub-remunerado. que multiplicou em trinta e duas vezes sua arrecadação entre 1889. quando praticamente todo o sul de Moçambique já estava sob efetivo controle militar e administrativo português. Lisboa. ter produzido bens de exportação. 495. e 1897. a critério das autoridades locais. 1914. em 1906. que todos os indígenas das províncias ultramarinas portuguesas estariam sujeitos à obrigação moral e legal de adquirir pelo trabalho os meios que lhes faltassem para substituir e melhorar a própria condição social. tendo plena liberdade de escolherem o modo de cumprir essa obrigação. quando iniciou suas operações. ponto terminal do caminho de ferro. porém de semelhante teor. estabelecia que a obrigação do trabalho era considerada cumprida quando. o que. CUNHA. Sou de opinião que esta legislação visava justamente criar as condições prévias para a acumulação capitalista nas condições coloniais. para acompanhar a demanda oriunda do acelerado crescimento econômico da região. todas as teses acima apontadas e era a consagração das idéias há muito defendidas por Ennes101. seis anos antes da publicação do Código. 1991. opunha-se radicalmente aos laivos de liberalismo porventura presentes no Regulamento para os Contrattos de Serviçaes e Colonos nas Províncias de África de 1878 e que. cultivado terras por conta própria em 101 Adelino Torres afirma que esta legislação laboral de António Ennes assinalava a vitória dos mercantilistas e da “burguesia colonial pré-capitalista”. M. já em seu artigo 1o. Um indicativo de tal crescimento são as operações do caminho de ferro que ligava Lourenço Marques a Pretória. 151. O Código estabelecia. os indígenas provassem ter capital suficiente. poderia ser-lhes imposto pelas autoridades102. Op. consagrava a “liberdade de trabalho”. J. o porto de Lourenço Marques. cit. O Código. no coração da região mineira. p. da Silva. O Código do Trabalho Indígena publicado em 1899. Com redação ligeiramente diferente aparece o mesmo conteúdo na proposta de “Regulamentação do Trabalho dos Indígenas” elaborada por António Ennes. embora dificilmente tenha sido respeitado.1. demandava cada vez mais braços para os serviços de carga e descarga e não se tardou a dar um enquadramento legal à “obrigação moral” do trabalho. ao qual se seguiram outros mais rígidos. em seu Moçambique: Relatório apresentado ao Governo redigido em 1893. da autoria de Ennes e de uma equipe que comungava com seus ideais. se não fosse feito.

1917 (Boletim Oficial no 27/1917) e depois o Estatuto Político. relegando as populações rurais aos piores terrenos.300$00 réis. variados foram os mecanismos implantados para concretizar tal fim: espoliação das melhores áreas produtivas. níveis de vida compatíveis com os padrões civilizados103. além do imposto de palhota que era de 5. posto em vigor pelo Dec. Do escravo ao Chibalo certa quantidade e dimensão fixadas pela administração. 42 .1. ou o exercício de ofício ou profissão que lhes garantisse. 104 Em 1910. não se esgotou com a dominação militar e a promulgação de legislação coercitiva. O Africano. 16. Paralelamente à ocupação e. principalmente.199 de 06/12/1928. para caçar tinha que pagar um imposto de 2. posto em vigor pelo Dec. pasta ano 1911.000$00 por cão. Regulamentos de Serviçais. 01/08/1911 e AHM-DSNI. modificado em 1915 (Boletim Oficial no 14/1915). a si e a seus familiares. o indígena “o único. o de palhota. ou seja.12. Informação do Intendente de Emigração de 08/03/1911 acerca de um Regulamento de Trabalho Indígena mandado aplicar pelo Governador do Distrito de Inhambane. que reproduz a mesma redação do Código. disciplinada e barata. para servir à acumulação em benefício dos agentes colonialistas. além da obrigação do trabalho e do cultivo obrigatório. 103 Ver o Regulamento de 27/05/1911.533 de 23/10/1926) seguido do Código de Trabalho dos Indígenas das Colónias Portuguesas de África. não pode caçar e para o fazer tem que pagar um saco cheio de quinhentas”. proc. Mas a obra de criação de uma força de trabalho abundante. o legítimo dono destas terras. tudo isto contribuiu decisivamente para o surgimento de uma força de trabalho negra sub-proletarizada e sub-remunerada. 94. 951 de 04/10/1914. o Regulamento Geral do Trabalho dos Indígenas nas Colónias Portuguesas. adaptação e ampliação de impostos diversos104. imposição do vinho colonial e proibição das bebidas ditas cafreais. sendo o principal deles. após a sua consecução. Civil e Criminal dos Indígenas de Angola e Moçambique (Dec.

82:117 e Work culture and identity: migrant laborers in Mozambique and South Africa. pp. Tese de doutoramento. Luís António. Porto. pp. José Fialho. Como já observara Patrick Harries. Lisboa. particularmente de H. University of California. particularmente mapa Grupos Étnicos de Moçambique entre as páginas 10 e 11 e 43:56. Op. Povos de Moçambique: História e Cultura. COVANE. Los Angeles. com o domínio colonial. A meu ver esta perspectiva supervaloriza um pouco a capacidade que teriam estes elementos exógenos. The LusoBrazilian Alcohol Commerce at Mpinda. De qualquer modo reafirma que embora estas divisões possam tornar mais inteligíveis tais sociedades é preciso tomar cuidado com sua utilização. 1994. Ver. 1989. com sentido depreciativo. Op. 46:7. Na região do Limpopo. classification and internal colonialism : the emergence of ethnicity among the Tsonga-Speakers of South Africa”.Vida Social. 02:03. p. 107 Trata-se do dente/presa que fica em contato com o solo quando o elefante é abatido.1 O IMPOSTO DE PALHOTA: IMPORTÂNCIA E CARACTERÍSTICAS A prática do pagamento de impostos não é estranha às sociedades africanas antes da chegada dos europeus. 43 . In: African Affaires. falando em nome da ciência. o “dente da terra”107. Patrick. Ao Sul do Save105. parte das bebidas fermentadas106. 25:52. pois mesmo que alguns destes termos designativos tenham sido utilizados pelos Nguni. Ver ainda MONNIER. pp. para esta questão da definição e uso do termo: JUNOD. além de população Nguni. Dissertação de Doutoramento. James Curey. 1996. Londres.. ISCTE-UTL. era também corrente nos reinos da África Centro-Ocidental. Junod. 23:31. número especial de Le Fait Missionnaire. pp. foi na virada para o século XX. déc/1995. Entretanto uso estes termos com restrição. 32:42 e RITA-FERREIRA. 1989. Nicolas. particularmente com mulavu ___ vinho de seiva de palmeira.. 64:5 e ainda FELICIANO. Usos e Costumes. tomo I . pp.2. chamam a si mesmo de Machangana e sua língua de Chigangana ou Changana. HARRIES. Os trabalhadores migrantes exerceram papel ativo para que estas comunidades imaginadas se transformassem em grupos étnicos. para distinguir os povos vizinhos que não adotaram seus costumes. Afrontamento. Antropologia Económica dos Thonga do Sul de Moçambique. A. “Exclusion. a lavra da machamba 105 O Sul do Save é composto por população majoritariamente hoje conhecida como Thonga (ou Tsonga) e seus sub-grupos. na definição e imposição de identidades alheias. 1975. In: VAIL. lingüistas e etnólogos. cit. 106 A prática de se pagar tributos em bebidas. Trata-se de cópia digital. Henrique A. cujos membros seriam conscientes de seus interesses comuns. Leroy (dir. 1860-1910. and Benguela during the Atlantic Slave Trade c. a escolha do nome Thonga e a identidade étnica que ele pretende traduzir foi resultante de uma construção por parte dos missionários. The creation of tribalism in Southern Africa. Migrant labour and agriculture. Strategie missionnaire et tactiques d’appropriation indigenes: La Mission Romande au Mozambique 1888-1896. Luís Covane também observa que. Chopi e Bi-Tonga. partes da caça e pesca efetuada. Heinemann. “The roots of ethnicity: discourse and the politics of language construction in South-East Africa”. c. as pessoas não se reconhecem sob esta designação. Em trabalho mais recente Harries modula tal formulação e passa também considerar os agentes sociais envolvidos. Luanda.. cit. que antropólogos e administradores erigiram fronteiras fixas no espaço e enraizaram-nos num passado mitológico como sendo povos distintos. conforme CURTO. no 2. Portsmouth. 1480-1830 and its Impact on the Societies of West Central Africa. MECANISMOS DE DOMINAÇÃO 2. policopiada. por exemplo. A. gentilmente cedida pelo autor. embora Tsonga (ou Thonga) constitua a principal língua falada no sul de Moçambique.. pp... jan/1988. cuja paginação pode não coincidir com a versão impressa apresentada à defesa.). os súditos deviam pagar uma série de impostos aos chefes: o imposto sobre a colheita ___ Chihundjo. José Carlos.

pp. Tais impostos eram pagos. deviam a estes. 246 e segtes e MACHADO. e somente no caso da ausência de filhas podiam os filhos homens herdarem por uma geração. uma série de prestações de serviços quer nas machambas. Op. particularmente aos habitantes da região do Cabo da Boa Esperança. pelos portugueses em Moçambique. submetidos aos Nguni. cit. renegado. remonta suas origens à prática de cobrança do mussoco. 110 Ver LOBATO. cit. GASPAR CORREA. A detentora estava legalmente obrigada a casar-se com português nascido na metrópole. 30.. Mecanismos de dominação (roça) e a conservação das palhotas do chefe. Com o tempo. os chefes passaram a exigir que seus súditos lhes pagassem impostos em dinheiro. Op. segundo Alexandre Lobato. cit. Colonização Senhorial da Zambézia e outros estudos. exclusivamente a mulheres portuguesas brancas. portanto.. É com este sentido que é empregado. direitos distintos sobre seus frutos.. pp. entretanto. do ponto de vista legal. ainda. pp. Os povos do Sul do Save. 390:2 e FELICIANO.. Açores. casas ou obras por estes designadas. o proprietário simbólico dos bosques e dos animais neles existentes. infiel. tomo I. O Imposto de palhota. o sentido pejorativo preponderou sobre o geográfico e deixou de referir-se exclusivamente aos povos da região da cafraria. já mergulhados na economia monetária. 109 O termo cafre deriva do árabe kafr com o significado de ingrato. Quando os portugueses chegaram à costa oriental da África. tendo. cit. Os prazos eram. a sucessão dava-se pela linha feminina. segundo Lobato. originalmente ali cobrado.2.. Op. transformando os primeiros em enfiteutas109. José Fialho.. Usos e Costumes. o sistema veio enquadrar juridicamente a propriedade que. nos séculos XIX e XX. constituídos por doações ou aforamentos régios de grandes propriedades de terras. aplicado a quem não professava o islamismo. Alexandre. como intermediário entre os ancestrais e os vivos desempenhava determinante papel no equilíbrio comunitário. tomo I. Op. pois o chefe. cit.. por um período de três gerações. o guardião da terra e de tudo que nela havia. Madeira ou do Oriente. era o gestor das cerimônias propiciadoras de chuva. p. O sistema de aforamentos. O prazo moçambicano resultaria. alargando o seu uso para outros povos africanos. da combinação do sistema sesmarial da metrópole com as chamadas mercês nupciais praticadas em terras da Índia110 e o mussoco. 248:9. GOES Damian de. Junta de 44 . de fato. José Pedro. Em Moçambique. recebia ainda taxas diversas por sua atuação como intermediário nas disputas entre súditos. era distinto do sistema donatarial praticado no Brasil. atrasados e selvagens. Henrique A. já era exercida pelo colono branco e possuída pelos cafres. Op. Lisboa. na região dos Prazos da Zambézia. sob os mais diversos pretextos108. No final do século XIX. Já a partir do século XVI o termo passa a ter o sentido de bárbaros. era um tipo de im- 108 Ver JUNOD. tanto em seus aspectos materiais quanto espirituais. adotaram o termo para referirem-se. ou seja. propriamente dito..

Famine and Migration in Lower Zambézia. In: Estudos Moçambicanos. legalizou a cobrança do imposto por fogo. Assim. Para maiores detalhes acerca do significado do mussoco como elemento integrado no processo de integração capitalista ver: SERRA. particularmente capítulos 5 a 7. pp. Allen F. p. 1977. Agência Geral do Ultramar. a administração da Companhia substituía tal alternativa e exigia pagamento em dinheiro. algodão. Lisboa. 1986. 1855-1930”.2. 1980. acrescido de 50% Investigações do Ultramar. Boxer refere-se ao sistema de prazos como “feudos”. 33:52. Forced Labour and Migration. University of Wisconsin Press. 52:7 e ISAACMAN. Op. Cit. 1870-1914”. estipulando que o mesmo podia ser cobrado em gêneros tais como café. 1415-1825. 1. 18501914.. nos quadros de uma organização social com formas e aspectos tidos. Está claro que esta é uma tentativa de estender. ca. estabeleceu-se a obrigatoriedade do pagamento do imposto de palhota que. palhota ou cubata. Patterns of Movement within Africa. na área da Companhia de Moçambique. cera ou marfim. poderia ser efetuado com produtos agrícolas. Tese de doutorado junto à University of Manchester. a partir de um decreto de 09 de julho de 1892. 1957. Manuel Joaquim Mendes de. Economy and Society of the Lower Zambezi Basin in Mozambique. Em 1856. 109:158 e ainda ISHEMO. 1980. cit. The Zambezi prazos. José. “Forced Labour. Giuseppe. The Africanization of a European Instituition. e o não pagamento acarretaria em trabalho forçado até atingir o seu valor. p. Shubi L. entretanto. o pagamento só poderia ser efetuado em dinheiro.. foi sendo monetarizado e acabou por tornar-se elemento central no processo de acumulação de capital colonial ao agir como mecanismo extra-econômico para a aquisição de trabalho pelo Estado e colonos111. Op. Mozambique. Charles Ralph. pelo Decreto de 03/11/1856. por alguns autores. a participação dos indígenas no circuito da economia capitalista. Abebe & ISHEMO. porém. Shubi L. Shubi L. como feudais ou pré-capitalistas. 1977. Ver BOXER. 112 Apud CAPELA. Em Moçambique. Mecanismos de dominação posto de captação pago em gêneros alimentícios. Relações Raciais no Império Português. 97:116. Porto. a partir de 1894. O sistema dos Prazos é ainda identificado como semelhante ao sistema sesmarial e donatarial. gado ___ referindo-se mais especificamente a Angola ___ ou em seu equivalente em dinheiro112. nas áreas sob administração da Companhia de Moçambique. Lisboa. 1989. Sá da Bandeira. VASCONCELLOS E CIRNE. Evolução Administrativa e Econômica de Moçambique. sempre que possível. Wisconsin. “O Capitalismo Colonial na Zambézia. 75. ‘Mussoco’ (Taxation). pp. 1972. 53. através de um mecanismo tributário. feno. ISHEMO. Ver a esse respeito especialmente PAPAGNO. pp. policop. A Regra do Jogo. 1752-1763.. Hans Zell Publishers. Colonialismo e Feudalismo: A questão dos prazos da coroa em Moçambique nos finais do século XIX. 45 . 1962. In: ZEGEYE. Carlos. paulatinamente. 1750-1902. como veremos. nos dois primeiros anos. tal mecanismo será ampliado e claramente utilizado para atingir seus fins. Mozambique. Anos mais tarde. pp. Afrontamento. London. seguindo o conjunto de medidas legais que abolia o serviço obrigatório de carregadores. 111 Charles R.

349. Vila Nova de Famalicão. p. 1930. Lourenço Marques. Imprensa Nacional. não tinham necessidade de oferecer-se como força de trabalho. que destruiu o Estado de Gaza e assegurou o efetivo domínio português ao Sul do Save. s/ed. p. Art. cit. 2a ed. 55. O pagamento em produtos agrícolas. nem agricultura sem a sua submissão. 117 Cf. determinou que todos os indígenas do referido Distrito “serão sujeitos ao imposto de palhota”117. já se tor- 113 114 Idem. p. como se deu na Circunscrição de Zavala. foi interpretada como “uma das operações financeiras mais felizes que na Província se têm realizado. pela imposição do imposto de palhota que aquela expedição tornou possível. Porto. Armando A. entre 1922 e 1927.2. Alfredo Augusto. Ibidem. In: ENNES. entre outras providências. a uma companhia concessionária. não há indústria. Op. direta ou indiretamente. quando o Governo Geral tornou obrigatório a entrega de sementes de mafurra. como estes possuíam.. A Guerra de 46 . Como já mencionamos. 1950. coman- dada por António Ennes.” 116 De fato: já poucos dias antes da prisão de Ngungunhane (28/12/1895). de Morais e. Economy and Society. Shubi L. SALDANHA. Minerva. 1927. A 1a edição dos seis volumes veio à luz em Lourenço Marques. Ernesto Jardim Vilhena defendia no parlamento português a necessidade de se investir nas Guerras d’África. mas esse capital tem rendido anualmente até 40 ou 50 por cento.. As Colónias Portuguesas. Mecanismos de dominação de multa113. passados dez anos. 115 Apud CASTRO. Relatórios sobre Moçambique. em Inhambane. Tip. porque sem ela não há mão de obra. ainda que lhes extraísse sobretrabalho.. na condição de Comissário Régio. II. vol. G. nos anos fiscais de 1907/08/09. entre 1907 e 1910. António Ennes. não se hesitasse em cobrar em gêneros agrícolas ou produtos de coleta. criou o Distrito Militar de Gaza (07/12/1895) e. 60 e ISHEMO.. uma oleaginosa.. porque sem ele não há imposto. de acordo com os interesses do Estado ou de particulares influentes.” 115 A expedição de 1895-97. António José. dava-se um passo a mais no sentido do assalariamento. O caso da Mafurra. embora. 11 da “Organização do Distrito de Gaza. o imposto de palhota estava entre as principais fontes de receita de Moçambique e. deixava amplo espaço de manobra aos agricultores e. pois segundo ele “não há administração económica de possessões africanas sem o domínio sobre o indígena. a terra que cultivavam. Eduardo. como forma de pagar o imposto de palhota114. (1895)”. a conquista militar era claramente percebida em suas dimensões a um só tempo políticas e econômicas. Ao se exigir o pagamento em dinheiro e em montantes crescentes.. Custou aproximadamente 200 contos de réis. Já em 1896/97. 116 FREIRE DE ANDRADE.

2. só a obrigação que todos os anos lhes impõe. M. Op. Eduardo. Mas. Quanto menos utilizável for para nós o indígena. 121 Moçambique. de pagar o imposto de palhota. 517. 118 47 . Op.. o suficiente pra conseguir pelo trabalho que se vêem obrigados a procurar o dinheiro que precisam [.548$000 461. administrador da circunscrição121 da Namaa- África. Entretanto. 12/10/1911.. pp. 19a série.400. foi chamado de colônia. todos os pretos eram “rebeldes ao trabalho e poucos amigos de emigrar. 624:5.75.. 119 COSTA. J. Extraído das “Tabelas Geraes da Receita e Despeza da Província de Moçambique no exercício de 1896-1897”. “Estudo sobre a administração civil de nossas Possessões Africanas”. mais se lhe deve exigir em obrigações para o Estado. no 7-12.. e se não for instigado para isso diretamente.]. era visto como “uma justa retribuição da tranqüilidade e do progresso que o governo europeu garante nos territórios ocupados e [seu pagamento] representa a verdadeira submissão das tribus indígenas”119. Mecanismos de dominação nara na principal fonte de arrecadação. creio que mais nada o moverá de sua indolência natural. Joaquim Mousinho de. os faz sair de sua vida sedentária e descuidada. sob a administração colonial. In: ALBUQUERQUE. Para estes. p. além do imposto ter sido uma das mais importantes fontes de arrecadação. 120 O Africano. mais do que uma questão de soberania e fonte de arrecadação fiscal.149$000 1907/08/09 n/d 2. 1977. Providéncias publicadas pelo Comissário Régio na Província de Moçambique.. Impostos Comerciais diversos Imposto de palhotas 1896/97 1.176$000 550. porque ele para viver não precisa de trabalhar. Imprensa Nacional.899$035 n/d 2..200$328 ___ os Caminhos de Ferro de Lourenço Marques.453.321. cit. 1901. 1898. 112:3 e CAPELA. por algum tempo.000$000 469. p. Apresentado ao Congresso Colonial. Lisboa. depois província e era dividido em distritos que se subdividiam em circunscrições e estas em postos administrativos e regulados. In: Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa. cit.. pp. superando as provenientes do mais dinâmico setor capitalista da economia colonial como mostra a seguinte tabela:118 Receita de Moçambique em réis Fonte Direitos alfandegários Caminhos de Ferro de L. o imposto de palhota era visto como elemento essencial para o estabelecimento de relações de trabalho de tipo capitalista e os administradores coloniais tinham plena consciência deste mecanismo.” 120 Estas palavras de Pedro Chichorro.

1910.. 126 Trata-se da transcrição de trecho do Relatório da Circunscrição de Marracuene. reafirmava que um dos principais problemas da agricultura em Moçambique era a natural preguiça dos indígenas123. imprevidente e bronco” tinha “por única ambição a posse de maior número de mulheres para viver vida folgada à custa do seu trabalho dela e do lobolo das filhas que venham a ter”126. defendia durante o seu governo a tese de que se deveria aumentar o imposto de palhota de tal sorte que o indígena se visse obrigado a trabalhar o ano todo125. Álvaro de Castro. Luís António. O Africano. Mecanismos de dominação cha. no Distrito de Lourenço Marques. 124 AMARAL. que publicara estas palavras. para poderem pagar o imposto criando-lhe quanto possível necessidades que só pelo trabalho assíduo possam satisfazer. 125 CASTRO. propôs que se devia “Obrigar. embora em teoria se dissesse que o “preto não cultiva mais do que é preciso para o seu sustento animal” a realidade demonstrava que milhares de sacos de milho. como argumentava um outro articulista de O Africano em edição do mesmo mês em que foram publicadas as palavras de Chichorro. 43 e seguintes. opinião diversa. Parece contudo que os administradores estavam cegos a isto e as palavras de Chichorro não perderam a força com o passar dos anos.Curadoria e Negócios Indígenas. Álvaro de. no 3) Lisboa. p. Governador Geral de Moçambique entre 31/10/1915 e 17/12/1917.. argumentava que na Ponte-Cais. Secção B . Soc. cx. Relatório do Administrador da Circunscrição de Marracuene (Vila Luiza) para a Repartição Central dos Negócios Indígenas de 19 de outubro de 1954. 1123. dirigindo-se a Álvaro de Castro. Lisboa. (Parecer da Sub-comissão. s/d. Migrant labour and agriculture. Francisco José Pereira do. 1913. 28/10/1911. p. em 1911. Uma das comissões criadas em 1911/12. Geografia de Lisboa. 182. p. África Oriental Portuguesa: Notas e Impressões.. os indígenas nas colónias a trabalhar. entretanto. de autoria do 48 . cit. o administrador da circunscrição de Marracuene. Op..2. tinha. que as milhares de libras que en- 122 123 O Africano. pela Sociedade de Geografia de Lisboa para estudar os problemas coloniais. AHM-DSNI. alínea b. Elementos para a resolução dos Problemas Coloniais. ainda em 1954. era o preto que trabalhava para o “engrandecimento e prosperidade de certos magnatas da terra”. Apud COVANE. pelos impostos directos. nos Caminhos de Ferro e em todos os demais trabalhos braçais. pois era corrente no meio colonial que o indígena “indolente. Facilitar e baratear quanto possível a vida dos europeus nas colónias”124. para além dos preconceitos comuns entre os brancos colonialistas. 73. a resistência manifestada pelos trabalhadores em submeterem-se ao mercado como força de trabalho pois. Livraria Acadêmica. expressam. amendoim e feijão entravam no comércio regional e mesmo externo122.

Desnecessário acrescentar que trabalho era entendido pelos agentes coloniais como aquele realizado. podiam ser supridas pela natureza. Fomento da Província. em substituição à de Governador Geral foi criada a figura do Alto Comissário com poderes. são os dias de trabalho diminuídos. não pega”. 128 O Brado Africano. 1922. numa brilhante tirada irônica. comerciais ou industriais de tipo capitalista e nunca o trabalho agrícola realizado pelos indígenas em suas próprias machambas. Alto Comissário em Moçambique129. 24/11/1915. o almofariz em administrador Roque Francisco d’Aguiar (Nwadambu) publicada em O Africano.2. Mecanismos de dominação travam em circulação na Colônia eram resultantes da emigração de indígenas e que. ficava com as honras. o que se passava era que os últimos não tinham necessidades de consumo para além daquelas que. e. as Bases Orgânicas da Administração Colonial que praticamente sepultou os poderes dos Alto Comissários. 129 Com a Lei 1005 de 07/08/1920. o negro. fez publicar com o Decreto 12421. a não ser que consideremos mobiliário a esteira em que se deitam. A tese da indolência convivia com outra. são as horas exageradas de trabalho. o governo. Esta nova perspectiva foi sistematizada pelo médico Manuel de Brito Camacho. portanto. nos empreendimentos agrícolas. o então ministro das Colônias. eles constróem a sua casa. segundo a qual a preguiça inata seria vencida se se criassem necessidades que forçassem os indígenas a buscar trabalho assalariado. 06/02/1926. em assuntos coloniais. que não era. Cmdte João Belo. indagava ao Governador se era graças à suposta indolência dos africanos que o Alentejo estava por desbravar127. pois de fato ele. é a má alimentação. e “nós com os vincos do cavalo marinho”. uma palhota sem mobília. O Africano. Na sequência do golpe militar de 28/05/1926 a 02 de outubro deste mesmo ano. 127 49 . mais amplos que os de seus predecessores. 19/04/1912. Dizia ele: “Com um feixe de paus e um braçado de colmo. com pouco esforço. afirmando que a “lenda de que o preto só trabalha compelido. se havia alguma agricultura em Moçambique. é a miséria do salário. é o ‘chicuenete’. Ver com teor semelhante as edições de 09/03/1929 e 14/12/1935 e ainda Grémio Africano de Lourenço Marques. Lourenço Marques. era graças ao “suor do nosso sacrifício” ___ ele. acrescentava Estácio Dias.”128. Brito Camacho era Coronel Médico e esteve à frente do governo da Colónia de Moçambique entre março de 1921 a setembro de 1923.. Imprensa Africana. é muitas vezes a pancadita. Também O Brado Africano imprecava contra tais argumentos falaciosos. buscava trabalho voluntariamente sempre que estivesse convencido de que o pagariam adequadamente e conforme o combinado.. que negava o determinismo biológico como causa da suposta indolência. exclusivamente. Para ele não havia diferença entre a preguiça entre os brancos e os indígenas. a tal indolência que fazia com que se tivesse “horror ao trabalho para o branco: é a gratuidade.

pp. paga aos seus doutores. Outras vozes coetâneas batiam na mesma tecla.. quando se desloca por conta alheia. cujas palavras parece que Brito Camacho conhecia bem. SCHWEITZER. já manipulados.193:4. contudo. nos anos maus passam fome de rabo. Quase de graça. 99:103. Cultiva cada qual o tabaco que fuma e destila os líquidos que bebe. As mulheres adquire-as a troco de gado. bambus. aos seus feiticeiros. embora em mínimo grau. um pouco de mandioca. como tecidos e utensílios. que são espectáculos públicos e gratuitos. Op. que Brito Camacho. nada mais era do que criar necessidades e que. dezenas ou centenas de quilómetros. de se vestir como o branco. Se adoece. Nos anos bons passam a vida regalada. sempre a correr. Ibidem. tivesse pactuado com os meca- 130 131 CAMACHO. sob a forma de impostos [. [.. Brito.” 130 O problema. e a Natureza é a botica que lhe ministra. 192. afinal. e quando as adquire por dinheiro.”131 Estas idéias não impediram. ele se veria obrigado a trabalhar mais do que trabalha.] o negociante cria necessidades ao indígena. ráfia e cortiça para construir uma cabana que o proteja do sol e da chuva. toda a casta de remédios. como é o caso do também médico Albert Schweitzer. muito em breve convertido em necessidade.] ‘tratemos de criar-lhe o maior número possível de necessidades e ele trabalhará para satisfazê-las’ dizem ao mesmo tempo a administração e o comércio. pp. pescar e caçar.2. a vida espiritual do branco”. porque dispõe livremente das pernas. fazendo pequenos saltos.. remunerados com a alimentação os que se fazem em honra dum branco. cultivaria estrictamente o necessário para se alimentar entre duas colheitas.. Mecanismos de dominação que pilam o seu grão e uma vaga caçarola em que fazem os seus cozinhados. Brito Camacho não estava pregando no deserto. de ter uma vida de espírito que fosse. Se não tivesse que pagar impostos. estava no fato de que os colonizadores não se tinham dado conta de que civilizar. “A preguiça indígena”. Idem. cit. e muitos nem desse trapo carecem. Só lhe resta plantar algumas bananeiras.. e outras inúteis como tabaco e artigos de ‘toilette’. dizia Brito Camacho. A Administração cria-lhe essas necessidades impostas. cit. em género. Não usam chapéu nem usam calçado. Op. Diverte-se nos batuques.. “preferindo ao gozo de não fazer nada o gozo maior de satisfazer necessidades e apetites. de se alimentar como o branco. o preto não carece de meios de transporte. ou mais nocivas como o álcool”. palmilha umas poucas léguas em poucas horas. Para se deslocar a distâncias infinitas. muito parecida com a serapilheira. Albert. Vejamos o que dizia o médico alemão: “A natureza lhe fornece [ao indígena] . quando foi Alto Comissário de Moçambique. por um trabalho mínimo. além da água. In: Antologia Colonial Portuguesa. se se criasse no “preto o hábito. oferecendo-lhes mercadorias úteis. mais ou menos tudo quanto êle necessita para viver na sua aldeia. pp. o cálculo é sempre feito sobre o número de cabeças que teria a dar. Qualquer trapo lhes serve para cobrirem as vergonhas naturais. que seja muzungo. 50 . A floresta lhe fornece troncos. porque o substituem pela casca de certas árvores.

sem dúvida. 1945. A. de 10/02/1923. p.. 502:4. inglesa. mandassem o dinheiro para o pagamento do imposto. 132 51 . era elaborado um recenseamento de palhotas e população. parag. a popula- “Organização Administrativa do Território do Maputo. não raro acompanhada de atos de violência.2. 135 Sobre estas práticas arbitrárias muitas denúncias apareceram nas páginas de O Africano. A. Ver por exemplo as edições de 11/06/1913 e 19/04/1917 e O Brado Africano. cit. II. O imposto de palhota. dentro da área da circunscrição. por exemplo. de 08/03/1916 e O Brado Africano de 01/05/1920. Anualmente. 12. a prática de extrapolar os prazos do trabalho gratuito exigido por falta de pagamento do imposto. que se incendiassem ou se destruíssem as palhotas de quem não pudesse pagar o imposto e estabelecia que os indígenas que “se acharem nestas circunstâncias serão apenas obrigados a trabalharem seis dias consecutivos à ordem do administrador. 134 Ver por exemplo O Brado Africano. com o intuito de possibilitar a arrecadação e estabelecer mecanismos para o controle sobre o movimento das pessoas em sua área. (1895)”. Op. proibia expressamente. Mecanismos de dominação nismos coercitivos para a obtenção de força de trabalho ou para o pagamento do imposto de palhota. recusando-se a moeda corrente portuguesa136 e. vol. como a inflação era acelerada. Op. art. que haviam fugido ou emigrado em busca de trabalho. a partir de 1906133. 2o e 7o. Era vulgar. procedia-se à cobrança. pp. acrescido de multas. os dias trabalhados pelas mulheres não lhes eram remunerados135. Uma vez recenseadas. In: ENNES. sob responsabilidade do administrador de circunscrição. recebendo nesses dias apenas alimentos ou a quantia indispensável para se alimentarem. como também era corriqueira a prática de prender as mulheres e forçá-las ao trabalho sub-remunerado até que remissem o valor do imposto em dívida. António Ennes.”132 Os sucessivos aumentos do imposto de palhota e a obrigatoriedade de seu pagamento em equivalência com uma libra-ouro. 136 Ver por exemplo O Africano. tornando impossível que se continuasse a pautar a vida pelo tempo da natureza e pela lógica das necessidades imediatas. Muitas vezes exigiam-se pagamentos em ouro. era uma dessas necessidades para cuja satisfação era preciso buscar trabalho assalariado. António. cit.. por ser prática usual. 348:50. Caso seus maridos. 133 FREIRE DE ANDRADE. Já em 1895. significou um aumento de 100% em seu valor real e tornou sua cobrança cada vez mais escorchante e motivo para a prática de incontáveis e crescentes atos de violência134. 01/07/1933.

ver: PANTOJA.] com esta diplomacia de que só as autoridades portuguesas tem o segredo. 19/07/1911. casamentos e a sua dedicação exclusiva ao comércio. 176:181. Selma Alves. Agência Geral do Ultramar. era o dobro do valor das palhotas139. p. homem de negócios. uma boa síntese está presente no volume II Seminário Internacional de História Indo-Portuguesa. 66. MACHADO. RITA-FERREIRA. 1985... O Encontro nas Terras de Além-Mar: os Espaços Urbanos do Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. banij. todo o Guzarate. Lisboa. um destes grupos. XIX e primeiras décadas da época colonial. LEITE.. Instituto de Investigação Científica Tropical/ Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga. são hinduístas. Os baneanes. A Companhia dos Baneanes de Diu em Moçambique (1686-1777). 1994. Os baneanes eram membros da casta dos vanias (os váixias dos tempos védicos) e estavam submetidos a uma série de regras aí incluindo alimentação. podendo-se aí incluir como origem. que parece ser donde deriva o termo baneane. 138 O Africano. Liv. pp. José Pedro. e particularmente do Guzarate. Vieram da Índia britânica islamizada. Manuel Joaquim Mendes de.. exceto os goeses cristãos que se comportavam como europeus. Luís Frederico Dias.. recebiam o epíteto de monhés que trazia em si certa carga depreciativa. [. 198. Rio de Janeiro. Tese de doutoramento apresentada ao Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia. cujos mecanismos não dominavam. embora ambos sejam sunitas. IFCS/UFRJ. p. 52 . Sobre as várias categorias com que eram classificados os indianos em Moçambique na segunda metade do século XVIII. 616:648 e mais recentemente ANTUNES. 02 a 05/09/1996. mercador e vanijjana. Ora o que este ‘Dumapanze’ dizia era que era necessário diminuir o imposto de palhota e acabar com o ‘chibalo’ e a ‘tropa’. significa comércio. p. Alexandre. Lourenço Marques. Consultei cópia eletrônica. Cf. hábitos e a longa história da presença indiana em Moçambique. Op. o valor anual do imposto. Luanda e Ilha de Moçambique na Era da Ilustração. Comunicação apresentada ao IV Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. O pior é que realmente há 137 Popularmente. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. para a população que não recebia em libras. cujas páginas podem não coincidir com a edição apresentada à defesa. Horizontes. Sobre as distinções. cit. originários da região de Diu. Joana Pereira. 1970. mas não só. aumentos de impostos e esta situação criava um latente estado de descontentamento. em língua guzarate. 1992. conforme nos aponta O Africano. 02/12/1922. “Moçambique e os naturais da Índia portuguesa”. Xilunguíne.séc. Os mouros indianos distinguem-se dos mouros omanitas. aumentam o imposto de palhota e previnem as reservas [tropas negras] para estarem prontas à primeira voz para seguirem para Moçambique! Isto tudo só se pode levar a rir.] há pouco tempo as autoridades andavam bastante atrapalhadas por causa de um tal Dumapanze que andava a dar rapé aos pretos e segundo se dizia os andava a incitar à revolta. Em sânscrito. 3a ed. Lisboa. vãniyãn significa comerciantes.2. os várias grupos culturais de origem indiana. em 1914: “o imposto de palhota parece que foi aumentado de 5 a 6$000 réis em vista do câmbio da libra [. além disso. 1977. 38:40. 371. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. do qual destaco o artigo de A. LOBATO. pp. em certas circunstâncias. A crescente desvalorização do escudo face à libra ocasionava. 139 O Brado Africano. Em torno da presença indiana em Moçambique .. gentilmente cedida pela autora. Lisboa. Mecanismos de dominação ção era espoliada pelos agentes administrativos e cantineiros brancos ou monhés137 no momento de efetuarem o câmbio138. vanij. Ver ainda VASCONCELLOS E CIRNE.

asneira. a população da região do Bilene recusou-se a pagar o imposto de palhota cada vez maior.. porque este ano vão ter muitas mulheres a trabalharem pelo preço da chuva. pagando em ouro.1-10-0 por palhota. com todas as suas alcavalas. quando é certo que a ele ___ tirando o Transvaal ___ ninguém lhe paga em ouro. porque será impossível que todo preto pague o imposto ultimamente decretado. entretanto. 09/02/1924. todos os indígenas maiores de 18 anos passaram a pagar £. como é uso e costume.2. que esperam. 05/07/1924. proc. crescem sucessivamente. resume as práticas e violências perpetradas pela administração colonial: “Os impostos para nós são como cogumelos. ficando contudo obrigado a pagar tendo ou não o indivíduo palhota142. nota 71/10 de 23/04/1910. Do Administrador do Bilene ao Secretário dos Negócios Indígenas. 53 . O editorial Imposto de Palhota de O Brado Africano. convencidos como estão de que de ano para ano as exigências aumentaram com prometimento de melhoramentos que nunca se fazem e realizam. também dos moçambicanos trabalhando nas minas daquele território143. Não condenamos o imposto por ser pago em ouro. AHM-DSNI. mas que no pagamento lhe fazem a conversão ao câmbio da li- 140 141 O Africano. É o agravamento ao pobre narro. ao Sul do Save.”140 Algumas vezes. Regalai-vos senhores agricultores. Na verdade. apesar da tabela dos salários ser em shillings valorizados. 106. 23/09/1914.). 143 O Brado Africano.”141 Para agravar a situação. motivo que foi reconhecido pelo agente da administração colonial: “o movimento era geral. introduziu-se um imposto per capita. pago em ouro esterlino (B. sem cabeças ou chefes promotores e que o único intuito do indígena era furtar-se a aumentos sucessivos de impostos. em 1926. Mecanismos de dominação um certo perigo de que os indígenas aborrecidos com tudo isto acabem por se zangar e fazer alguma.. ou antes por cabeça. o descontentamento irrompia: em 1910. cobrando-se-o por meio de acordo com o Transvaal.S. São mais tantas mulheres presas para garantia do pagamento do imposto de palhota. Agora temos o imposto de palhota. Pasta 1910. 142 O Brado Africano. a partir de 1924.

Conforme Portaria Provincial no 3245 de 22/12/1937. de fato oficializado a partir de janeiro de 1938. humilhação. o que ficou conhecido como mudende145. conforme O Brado Africano apontava em 1933.2 A EXPROPRIAÇÃO DE TERRAS 144 145 O Brado Africano. um condão.. Relatório do Governador Geral de Moçambique. Lisboa. 146 O Brado Africano. ou a família não suportando o peso do fisco. já para a população indígena era o “horror. [. um caudal inesgotável de receita”. filhos e parentes. significou uma sobrecarga e reverteu num aumento dos dias de trabalho para pagá-lo. além disso. martírio. Caberia aos maridos e pais pagarem o imposto de suas mulheres ou filhas. desvalorizada em mais de 50 por cento. Muitas vezes. cativeiro. o mudende pudesse ser diminuído ou adiada a sua aplicação. Por ele são responsáveis e cativos. algema. na medida em que todas as mulheres. 54 . entretanto. passaram a serem taxadas. ainda que exercesse forte pressão no sentido da criação de uma força de trabalho para servir ao setor capitalista. 06/03/1926. José Tristão de. entre 18 e 60 anos. para o Estado colonial era “um maná.2. As viúvas e mulheres desenraizadas de família tinham que arcar com tal peso sozinhas. foi apontado como potencializador da prostituição. conseguiu que se formasse tal força de trabalho. 147 O Brado Africano. da expropriação de terrenos e do trabalho forçado. espancamento. em resumo. 1945. Ver O Brado Africano de 15/01/1938 e BETTENCOURT. a Portaria Provincial no 4768 de 27/06/1942 permitia que.. a mais negra escravidão. “acabavam por vender a filha ou a prostitui-la pros vários homens que ajudam a pagar o imposto”146. Mecanismos de dominação bra do Banco Nacional Ultramarino. a conjunção do imposto.]”144 A cobrança do imposto per capita. 30/04/1932. por ele são compelidos a trabalhar grátis nas estradas e outra obras do Estado para comodidade dos bafejados da sorte. 1940-1942.”147 A imposição do imposto de palhota. a critério do interesse administrativo. como não tinham renda própria. 2. pois deixava margem para que se pudesse pagá-lo a partir da venda de produtos agrícolas. não era suficientemente eficaz para atingir tal objetivo nas dimensões desejadas. O imposto de palhota tinha dois significados distintos. pais. 01/07/1933. entretanto. Devido às várias reclamações. mulheres.

Femmes. greniers et capitaux. premida. e o que. esta situação de convívio/conflito foi vista por Pierre Philippe-Rey em termos de uma “articulação de dois modos de produção em que um instaura a sua dominação sobre o outro”. entretanto. ao contrário tratava-se de expropriar as melhores terras daqueles que as possuíam148. mas. recrutada”. cada vez mais em circunstâncias desvantajosas. 55 . Embora o Estado colonial considerasse as terras indígenas como passíveis de expropriação e concessão. não reunia os meios e nem tinha a intenção imediata de expropriá-las em sua totalidade. pelo Estado. associados às crises ecológicas e guerras. pp. pp. 135.2. de fato. que embora “esmagada. 656:8. cit. fatos que. pois crescentemente restritas às terras menos férteis. ou seja. 149 MEILLASSOUX. Claude Meillassoux afirma. a comunidade doméstica persistiu. Maspero. diferentemente do que ocorria nas colônias norte-americanas e na Austrália. isto é. do chamado preço suficiente. recenseada. 275:80 e as críticas a respeito de suas teses em MARX. Mecanismos de dominação A crescente presença branca na colônia foi paulatinamente expulsando a população rural das áreas mais férteis e superpopulando as áreas circundantes. Op. ainda que. K. Este processo foi um tanto distinto daquele preconizado por Wakefield: em Moçambique. Roberto. não se tratava de impedir aos colonos brancos o acesso indiscriminado à terra a fim de obrigá-los a assalariarem-se por determinado tempo através da fixação. Claude. pelas machambas mantidas pelos indígenas. porque as relações de produção que lhe são típicas não desapareceram completamente149. taxada. 1975. acabou por predominar foi uma situação na qual o custo de reprodução da força de trabalho assalariada continuou a ser garantido pela produção não-capitalista. cit. Posta numa perspectiva que privilegia as relações de classe. Paris. Op. a carência de capitais e os interesses fiscais imediatistas do Estado condicionaram as características deste processo. e esta articulação seria um processo. acabaram por contribuir para uma crescente desestruturação dos processos de produção camponesa e por acelerar a criação e expansão de uma força de trabalho para o mercado. “um combate entre os dois modos de produção com os confrontos e as alianças que um tal combate implica: confrontos e alianças essencialmente entre as classes que estes modos de produção defi- 148 Ver a opinião de Wakefield em SMITH. Mesmo que fosse claro para as autoridades e colonos esclarecidos que era preciso criar uma força de trabalho proletarizada. dividida. p.

Op. no 269/94. Les alliances de classes. Henrique A. de Lisboa..2.Administração.. ainda que permaneça com a mesma essência...Inquéritos. a partir do final do século XIX. causando verdadeira inflação que as desvalorizaram. Apercebendo-se deste sistema de valores locais. Essas enxadas não se destinavam ao uso agrícola e eram exclusivamente utilizadas como meio monetário e reserva nas transações envolvendo o lobolo152. cx. embora praticado mais vastamente. ainda atualmente. não se trata de um movimento linear ou estático. o lobolo era cotado entre 20 e 35 libras. pp. 1973. considerados ilegítimos. dinheiro ou outros bens materiais. Casamentos sem lobolo eram. Work. 95. 69 . Gaza e Inhambane. interagindo-se. Tomemos como exemplo o lobolo: originariamente conhecido com este nome nas atuais Províncias de Maputo. de gado. altera as características das formações sociais não-capitalistas.. doc. da mesma forma que. tomo I. 1926-1927.13. 154 AHM-DSNI. em torno de 1820. cerca de 255 mil delas. de 56 . os bois foram sendo substituídos paulatinamente. Em meados dos anos 1920. da força de trabalho de uma de suas mulheres. em 1874. 265:72. principal agente do trabalho agrícola e de reprodução social: “O primeiro grupo adquire novo membro e o segundo sente-se diminuído e reclama alguma coisa que lhe permita reconstituir-se por sua vez pela aquisição doutra mulher”151. 153 Sobre a importância das bejas no comércio local ver: HARRIES.. ver ainda pp. simbolizando a união entre as duas famílias. 13:15 JUNOD.. Pierre-Philipe. também o capitalismo ganha novos contornos em sua fisionomia. Ambos os substitutos são claros indica- 150 151 REY. pelas enxadas de noivado (beja).87:90. Usos e Costumes. os comerciantes começaram a importar. o que equivalia entre 05 e 10 cabeças de gado154. pp. e ainda o são em algumas comunidades. p. depois em Kimberley e no Rand. Patrick. ao implantar-se. por parte da família da noiva. cit. Paris. Secção A . Junod explicava-o como uma espécie de compensação pela perda. Em todo o sul de Moçambique. paulatinamente substituídas pelas libras esterlinas obtidas através do trabalho migratório. pesando 400 toneladas e avaliadas em £. Trata-se de um processo conflituoso e dinâmico. na medida em que ambos sofrem ações recíprocas. 152 As enxadas de cultivo eram chamadas xikomo. inicialmente no Natal.350 foram desembarcadas em Lourenço Marques153. foram. assim sendo. integra-se como parte fundamental dos rituais de casamento e consiste na entrega por parte da família do noivo à família da noiva. a partir da expansão Nguni. Mecanismos de dominação nem”150. além disso como as bejas enferrujavam e não podiam ser facilmente transportadas. Proc. Maspero. culture. 266. bejas industrializadas em tal volume que.

como também de seguidores e estudos. O Africano. mas suscitou interesse pela pesquisa acerca da questão sobre qual modo de produção se aplicaria à África. and class in África: A Retrospective”. Rey.Punu et Kunyi du Congo-Brazzaville”. cujo mecanismo essencial seria o controle político do comércio de longa distância.Op. com o objetivo fundamental de reprodução e não de acumulação”156. p.13:16. 157 Não nos interessa envolvermo-nos nesta discussão. Mecanismos de dominação tivos da crescente hegemonização de práticas de trabalho tipicamente capitalistas. a simplicidade dos meios de produção e a impossibilidade de restringir o acesso aos mesmos (terra e trabalho familiar). Esta formulação do Modo de Produção Asiático teve vida curta. pois tanto as bejas. a ausência de apropriação privada da terra: muitos são os fatores que tornam a extensão de modo de produção inadequada”. não se desenvolveu. 11/07/27. 15/06/1912. Uma discussão mais ampla acerca do significado deste conflito. 103. baseados nos argumentos de Althusser. 1975. apesar desta crescente monetarização e inserção no universo das relações capitalistas. subordinada aos laços afetivos. na sua obra Pre-Capitalist Modes of Production. Catherine Coquery-Vidrovitch em seu artigo “Recherches sur un mode de production africaine” (La Pensée. decorrente da implantação do capitalismo na África ocorreu a partir do final dos anos 60 e prolongou-se pelos anos 70. pp.. e Hirst. 144. 1985. 282. 458). Para nosso propósito basta um simples resumo de seus principais argumentos. A mais persistente elaboração teórica neste domínio foi a de Modo de Produção Linhageiro. Ste-Foy. In: Cahiers d'Études Africaines.) ela renunciou a seu modelo argumentando que a lógica do modo de produção é particular para o modo capitalista: “A fusão do econômico com o político e religioso. originalmente elaborado por P. José Fialho Feliciano afirma que. em 1969. do Administrador do Bilene ao Director dos Serviços e Negócios Indígenas. principalmente nas regiões mais distantes do interior. B & LÉTOURNEAU. 421:495: a discussão teve ínicio na França. B. como demonstraram. entretanto. tinham que ser obtidas através do assalariamento e isto era claramente percebido pelos contemporâneos155. Mode of production: The Challenge of Africa/Modes de Production: les défis africains. centrada na polêmica acerca de qual seria o modo de produção aplicável ao continente negro. 61:78) foi quem propôs mais especificamente a existência de um Modo de Produção Africano. 155 57 . cit.-P. nos servindo do balanço feito por M. Eds. Hindess. Etnicity. extremamente distintas dos estados clássicos indianos e chineses.2. (“Articulation des modes de dépendence et des modes de prouction dans deux sociétés lignagères . vinculada à elaboração de Wittfogel acerca do Modo de Produção Asiático e sua aplicabilidade em relação às sociedades africanas. PQ:SAFI. uma vez que era certo que não se podia aplicar igualmente o esquema linear “comunismo primitivo-escravatura-feudalismo-capitalismo”. no artigo “Réflexions d’historienne” (In: JEWSIEWICKI. em 1985. In: Cahiers d'Études Africaines. em sua origem intrinsecamente ligado à reprodução das relações sociais de produção não-capitalistas. José Fialho. Crawford Young em seu artigo “Nationalism. Sua tese gerou uma série de polêmicas. J. Como tal discussão foge um pouco ao escopo deste trabalho a ela simplesmente remetemos157. Routledge& Kegan Paul. quanto as libras. únicas sociedades onde tal formulação se aplicava. (Young. p. Esta monetarização por seu turno reforçou a manutenção de tal ritual de casamento. 156 FELICIANO. um mercado interno às comunidades rurais. pp. P. Segundo ele a economia permaneceu “enquadrada no contexto social de parentesco e alianças. London. ao seu sistema simbólico/ideológico.

Já em 1897. em 1980. (VANSINA. Migrant labour and agriculture. 3.). Art.. Maspero. às margens do rio Umbeluzi160. a seguir.Vansina afirma que a teoria do Modo de Produção Linhageiro foi construída a partir de uma “mythological folk model of society”. cit. o processo de expropriação das terras foi acelerado devido à crescente demanda de produtos alimentícios para abastecer Lourenço Marques e de matéria prima para a exportação. pp. e do rio Maputo. Op. à mesma empresa. 1969. Op. In: Cahiers d'Études Africaines. pp. Henrique A.000 hectares de terrenos “baldios. Jean. não é tão rígida e que muitas vezes é determinada mais pelas flutuações do poder político e menos por qualquer estrutura de linhagem. cit.. London. a classe dirigente seria formada por anciãos cuja hegemonia seria mantida através do controle por eles exercido sobre os meios de reprodução (acesso às mulheres e ao conhecimento social incluindo os sobrenaturais). associadas à construção do caminho de ferro rumo às minas do Transvaal. P. (Le Marxisme devant les 'sociétés primitives'. ao Norte. 75:117).) e se fez acompanhar pela elaboração de “articulação de modos de produção” por Rey. 08:09. ao Sul da Baía. por prazo de 15 anos. 158 JUNOD. então Comissário Régio de Moçambique. para sua reprodução.. Para ele o campesinato é “uncaptured” porque não depende da superestrutura política e econômica colonial imposta. tendo em vista “o desenvolvimento que tem tomado a cidade de Lourenço Marques” e a necessidade de oferecer garantias aos investidores capitalistas. concedeu a Leão Cohen. de 1969. 160 Concedeu pelo mesmo ato o monopólio na moagem de trigo por igual período. Seu argumento central era o de uma “economy of affection”. 415:440) sob influência de Claude Meillassoux (“Essai d'interprétation du phénomène économique dans les sociétés traditionelles d'auto-subsistance”.. “The Peoples of the Forest”. Para a caracterização da região do Limpopo. Em direção pouco diferente. In: BIRMINGHAN. 1. cit. Neste Modo de Produção Linhageiro. Paris. Deux études.. do exclusivo da exploração da borracha “nos terrenos baldios do Estado no districto de Inhambane por espaço de vinte e cinco annos”. do Estado”. & MARTIN. Luís António. não há articulação e sim disjuntura entre este Modo de Produção Camponês e o Modo de Produção Capitalista. O curioso é que em ambos os decretos não há 58 . e Incomati e Limpopo. apresentou a tese de um Modo de Produção Camponês. A History of Central Africa. Longman. entendido como os “meios de reprodução”. Tembe e Umbeluzi. Mousinho de Albuquerque. 38:67). . recebeu colorido althusseriano com a obra e Terray.. Providencias. 159 Cf. D. também em 1969. que criou as facilidades de transporte para melhor atingir as férteis terras aluvionais dos vales dos rios Matola. pp. de terrenos necessários para construções de qualquer natureza que interessassem ao desenvolvimento do comércio e indústria da província159 e. Joaquim Mousinho de. p. vol. Argumenta que as diferenças sociais internas variam de sociedade para sociedade e que a hierarquia por idade proposta por tal análise.. ver COVANE. mas para o autor. 1983. pelo prazo que julgasse adequado. que rodeavam a cidade de Lourenço Marques.2. I. tomo II. ou como a rede de relações sociais e reciprocidades que oferecem garantias de sobrevivência e isto o aproxima das teses do Modo de Produção Linhageiro. promulgou um decreto pelo qual se autorizava o governo geral da província de Moçambique a fazer arrendamentos. In: ALBUQUERQUE. 309. Mecanismos de dominação No sul de Moçambique. 4. vales nos quais se concentrava a maior parte da população e produção camponesa158. 35. Op. (eds. Hyden. Ver ainda a concessão. 1o do Decreto de 30/05/1897. pp. pp. 59:64.

1249. Japan to His Excellency the Governor General of the Portuguese East Africa. pp. Imprensa Nacional. demandava por novos territórios. 02/01/1919. estava intimamente associado ao capital simbólico da propriedade fundiária uma única menção à presença de populações indígenas em tais terras. deixando-o no abandono162. 1913. 161 AHM-DSNI. a companhia japonesa The International Development Co. Também os pequenos colonos e funcionários mal punham o pés no continente e logo procuravam tornar-se senhores de terra. Ver respectivamente. não era exercida exclusivamente por capitalistas interessados em lucros imediatos. 59 . Ibidem. de 17/11/1897. Mecanismos de dominação A cobiça por concessões de terras férteis não se limitava aos capitalistas instalados na Colônia. erraram de alvo e avaliaram de maneira equivocada a situação moçambicana que em nada era parecida com a brasileira. Certamente. De Kaigai Kogyo Kabushiki (The International Development).2. 371:4 e 692:3. nestes casos. certo montante para cada número de colonos por ela assentados. enviou ao Governador Geral Massano de Amorim documento no qual oferecia emigrantes e pedia a concessão gratuita de pelo menos 50 mil hectares de terra. fazer as estradas necessárias ao empreendimento e pagar. A única semelhança é que a escravatura em ambos os territórios havia sido abolida somente no final do século anterior. Em Moçambique. cx. O Governo colonial deveria. Secção D . o que a Colônia necessitava era de capital e não de força de trabalho. também despertavam interesses internacionais e até mesmo como possível destino para a migração japonesa que. mas não dispunha de força de trabalho barata e abundante exigida. criar escolas. Em 1919. entretanto. 1911-1912. Lourenço Marques. 10:3. senão ausente. a população nativa não tinha sido extinta e. daí o apelo à migração européia e mesmo a aceitação dos migrantes japoneses. o interesse econômico. conforme respondeu o Governador Geral ao recusar a proposta. In: Idem. nas últimas décadas do século passado e princípio deste. custear a passagem dos colonos a partir do Japão. A pressão sobre as terras indígenas. segundo a proposta. Lourenço Marques. No Brasil os nativos haviam sidos dizimados e a expansão cafeeira para o interior paulista contava com capitais para o empreendimento. isentas de taxas e impostos. certamente mal informados. mais particularmente com a paulista. Os dirigentes da companhia japonesa. de 29/07/1897 e Dec. à companhia. mesmo que não dispondo de capitais ou conhecimentos para dedicar-se ao empreendimento agrícola. Tokyo. Usava como argumento para vender sua proposta o sucesso da emigração japonesa para São Paulo161. postos agrícolas. 162 Ver por exemplo o Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques.Fomento e Colonização. pp. Dec.

de Almeida. de circunscrições civis ou capitãesmores. era imaginar-se na posição de senhorio. Supplemento. por escrito ou verbalmente. seu desenvolvimento intellectual e moral. Th. Op. Ter terras. Mecanismos de dominação como demarcador de posições na hierarquia social. nas mesmas. sociedades ou indivíduos. casas e culturas. ainda que abandonado e inculto. pp. aproximada”164. O “modelo B” que acompanhava o Regimen era mais detalhado. adquirirem jamais direitos de propriedade. deveriam. 1907. os indígenas só poderiam ocupar áreas de terrenos devolutos. 159:164. exigindo ainda que se informasse a instrução. no qual devia constar “com o possível rigor. das mulheres e dos filhos menores. o qual procurou reunir em um único diploma a profusa e contraditória legislação anterior. com seus limites e área. persistente marca da paisagem social do medievo. no prazo máximo de dois anos. pelo menos. Inhambane 1905-1906. Typ. provando que ocupavam tais terras há pelo menos dois anos antes do Decreto e que tivessem. os nomes. bem como a situação e descripção minuciosa do terreno. o respectivo título aos administradores de concelhos. filiação. naturalidade. que em Portugal era tão presente. Estabeleceu que seriam de domínio do Estado todos os terrenos que não pertenciam a pessoa collectiva ou singular. da Empreza da História de Portugal. 163 Decreto de 09/07/1909 publicado no Boletim Official do Governo Geral da Província de Moçambique . de 02/09/1909. mantendo seus princípios gerais e estabelecendo novas normas163. idades e grau de parentesco das pessoas da família. incultos e não demarcados e desde que obtivessem um título de ocupação. Fora das reservas. costumes. reconhecidos pelas leis portuguesas. estado. contudo. preferencialmente de um grande lote. idade. ser proprietário. conta com 226 artigos e dezenas de anexos totalizando 29 páginas e GARRETT. o nome. Um Governo em África. Para que os indígenas pudessem garantir a posse sobre os terrenos que já ocupavam quando da publicação do Decreto. o Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar fez publicar um Decreto approvando o regimen provisório para a concessão de terrenos do Estado na província de Moçambique. cit. Se fossem terrenos considerados urbanos. 164 Art. residência e quaesquer signaes característicos do indígena. cor e os nomes e idades dos pais inválidos. 60 .2. religião. raça. 29 e § único do Regimen provisório para a concessão de terrenos do Estado na província de Moçambique. ou seja. requerer. Em 1909. Estabelecia a possibilidade da criação de reservas de terras nas quais os indígenas poderiam cultivar livremente sem. confirmado pelo secretário dos Negócios Indígenas. o que excluía os indígenas. Lisboa.

10.000 hectares no resto da Colónia. a particulares ___ ___ portugueses. O Decreto 3. uma posse mansa e tranqüila.. era a exigência de que sobre a área a ser titulada não houvesse qualquer contestação de terceiros. que susbstituiu o Regimen. conseguiu em 1924 a concessão de uma área com cerca de 30. garantia. Finalmente. um terço da área permanentemente cultivada167. “a permanência. 59 e 149 § 7o do Regimen. Op. talvez. O título de propriedade plena só seria concedido. pelo menos. 167 Ver Capítulo IV. Somente nos casos previstos de concessões gratuitas de terrenos às “corporações administrativas. Assim como as demais terras eram passíveis de serem concedidas por aforamento.. filhos menores e pais inválidos. 168 Ver artigos 45. A. e. a indígenas. de origem inglesa. no máximo dois hectares por adulto da família do requerente. Apud Anuário de Lourenço Marques . o chefe (homem). mulheres. Para se ter uma idéia do tratamento diferenciado. ou seja cinqüenta vezes maiores do que o máximo permitido a indígenas. 61 . vol. cit. tendo-se como base o número de palhotas e o valor das áreas cultivadas165. Op. A Premier Cotton Plantation. cit. a quem coube dar início à aplicação do Regimen. o mais complicado dos pré-requisitos. em se tratando de terras agrícolas. Alfredo Augusto Freire de Andrade. p. é que estava vedada a expropriação [sic] das parcelas de terrenos ocupadas por indígenas166. arrendamento e/ou vendidas. cit. estas também o podiam ser.. palhotas e gados”. na qual o requerente provasse vinte anos consecutivos de ocupação efetiva com. estrangeiros e às empresas por prazos de 19 anos renováveis. considerando-se como família. cujas áreas não poderiam ser superiores a 1. mediante indenização a ser paga aos indígenas e fixada pelo Governador Geral. A. p. nos terrenos a conceder. artigos 13 a 37.500 hectares. estabelecimentos de beneficiência. 05 hectares nos seus subúrbios. 53 e 57. não estava assegurada. para as suas povoações. ao menos na forma da lei.1932.000 hectares no distrito de Lourenço Marques e até 50. FREIRE DE ANDRADE. piedade e instrucção”. aos indígenas. concordava plenamente com tal prática. podendo um mesmo requerente obter mais de uma concessão de terrenos168. embora mantendo suas principais características. terrenos de até 02 hectares em áreas urbanas. Op.383 de 16/03/18. por exemplo.000 hectares. Ibidem. dado a indígenas e a europeus. Mesmo tendo sido cumpridas estas etapas.. 166 Ver artigos 53. 77:8. missões catholicas. I. Ibidem. “Das concessões a indígenas”. 106.2. 165 O Governador Geral de Moçambique (1906-1909). portugueses. Mecanismos de dominação poderiam ter no máximo 400 m2 e. mediante solicitação formal ao Governador Geral. pelo Estado. reservando-se-lhes a área necessária. basta mencionar que o mesmo Decreto permitia ao Estado conceder. a particulares. aos indígenas que ali vivam.

cercava-a com arame. Quando encontrava alguma resistência e não conseguia tirar “à má cara o produto das suas machambas. O Governo exigiu-lhe 'outra qualidade de impostos'. O Governo um dia exigiu-lhe o pagamento do imposto: pagou. e como tinha meios para pagar a demarcação. o preto não sabe ler.. declarando-a como terra vazia.. 22/11/1913. recebia o título de propriedade ou aforamento. Exmo Sr. leram e tomaram nota da data em que terminava o prazo e.. parcela do tal cadastro. enuncia desse modo a sua indignação: “Para se regularizar os terrenos [. terrenos que os pretos ocupam há muitos anos e onde teem construcções! [. no Boletim Oficial!. o preto não tem escolas.. independentemente da presença de narros (negros) que a ocupassem. Nasceu e viveu num terreno. a pedir terrenos. pagou novamente.. Os mulungos que sabiam ler. Ora esse prazo acabou dia 17. manda[va]-lhe uma invasão de gado para o destruir.. João Albasini em artigo sob o sugestivo título de “Vozes de Burro”. convencendo-o [o indígena] da inutili- 169 170 O Africano. no momento asado caíram na Agrimensura umas chuvas de requerimentos . construiu barracas de zinco em substituição a palhotas..] deu-se para isso um prazo que veio publicado . Pagou porque? Certamente porque era o dono da barraca e do terreno e por essa razão a Fazenda lhe recebeu os impostos. encurralando os narros. o método de expropriação era muito mais direto e. com algumas variações.] O preto.2.” 169 Ainda que o Regimen definisse que todas as expropriações de terras cultivadas por indígenas seriam objeto de indenizações. Secção D . suas lavouras e gados170.... que contêm dezenas de aforamentos de terrenos na região de Lourenço Marques.. Ver AHM-ACM. 62 . Mecanismos de dominação Criticando de forma irônica as dificuldades impostas aos indígenas para garantirem as suas terras nos termos estabelecidos pelo Regimen e as práticas dele decorrentes. No diaa-dia. principalmente as caixas de nos 79 a 89. a prática nem sempre seguia a lei. seguia o seguinte roteiro: o mulungo (branco) procurava a área que melhor lhe agradasse e. arredores e sertão. Os pretos donos de terrenos que se não aproveitaram das inúmeras escolas que o Governo tem abertas pelas cidades. Ver ainda o Editorial da edição de 11/04/1914. não leram o Boletim. não lê Boletins. dirigia-se à Repartição de Agricultura onde a requeria.Fomento e Colonização.

quando andava a fazer o recenseamento. em sua condição de intérprete indígena junto às circunscrições.”173. outra do Pina Cabral. 7. 172 O Africano. O tristemente célebre cavalo marinho era um chicote feito com couro de hipopótamo. a propósito disto.. no único. A Rusga. que pelo artifício legal. os moçambicanos ali tinham machambas e eram tradicionalmente grandes criadores de gado. e outra ainda de uns alemães. muitas vezes. 05/02/1916. Havia até um comerciante bastante próspero na região. Op. que também era criador de gado. por isso mesmo logo os concessionários depressa o requeriam. da sua vontade”171.. 11/12/1915. já não eram mais suas. os ocupantes originais se não eram expulsos. O Brado Indígena. cit. o demarcavam e o indígena era de repente vassalo tributário do ‘mulungu’ das estacas e bandeirinhas!” 174. para atuar de um modo eficaz na derme e na alma e tendente a convidar o miserável a abandonar o privilégio que lhe é concedido. 24/04/1915 e MAVULANGANGA. sem nenhuma consideração pelas lavouras existentes. do bicho expoleado. mas se isto não surtisse efeito. Os pretos que dantes tinham lá estado tinham sido varridos para muito longe do rio Incomati. 174 O Africano. aquelas terras tinham sido todas cedidas a colonos por concessão administrativa.. das terras que em 1922 eu percorri na área do chefe de terras Mahubana. o Jackson Cossa. assim descreve o fenômeno de expropriação: os colonos e companhias estrangeiras obtinham facilmente os títulos de propriedade e créditos agrícolas enquanto aos negros era-lhes proibida qualquer concessão além de serem escorraçados das terras mais férteis.2. “uma sova de cavalo marinho aplicada a tempo. 171 63 . tinham que pagar taxas para continuar a morar no local pois “sempre que um terreno era bom ___ ___ ocupado e cultivado por indígenas. Mecanismos de dominação dade do seu esforço. Quando em 1936 fui para a Moamba como intérprete. as terras. eu trabalhava no posto administrativo de Ressano Garcia. em benefício dos primeiros: “Lembro-me. Raúl Bernardo Hoanwana. onde muitas vezes estavam enterrados seus ancestrais e.. ai khona mulungo’. 19/06/1915. pela lei da Concessão de Terrenos”172 era a melhor maneira de expulsar os moradores indígenas da área cobiçada. os Requardt. Uma parte das terras era do colono João Cristóvão. tinham que cultivar. bizarra e nobremente. como assalariados ou rendeiros. de 03/07/1926. para as montanhas e Editorial Através do mato de Estácio Dias. ou então. Então aquela zona conhecida por Ka nwa Xiguavulane era muito povoada. Dependendo do interesse do novo proprietário e “apesar dos ‘has! e hes!.. 173 O Africano. p. Na altura.

maço 1927. afirmava que os europeus “sempre se teem aproveitado. uma nota lenta tomada a lápis. Até o próprio Mahubane tinha sido afastado para longe. dos terrenos já desbravados dos indígenas. às arrecuas. 177 O Africano. depois. em 1927. com infinitos ‘bayetes’. 12/09/1912. mas nada era levado muito a sério. logo se cruza a perna e se puxa com delícia o lume ao cigarro: ‘Irra. pois temiam que um branco qualquer. se some atrás da porta do gabinete. que maçador ___ ainda bem que já são cinco horas. Informação do Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas ao Governador Geral. por meios as vezes bem pouco limpos. Mas o que fazia a autoridade diante de tais fatos por ela conhecidos? “Quando muito. para o qual era claro o significado de tais práticas e seu impacto sobre as populações indígenas178. por vezes. 64 . Rio Tinto. 13/02/1913. não plantavam mais árvores frutíferas. 10/03/1915. Estas. Memórias.’”. 175 176 HONWANA. com sua família e o seu gado. tudo continuava como dantes. Raúl Bernardo. AHM-ACM.. 178 Ver por exemplo O Africano de 09/09/1911. As constantes denúncias. Ed. para sossegar o queixoso quando a tanto se aventura.2. pp. 1989... cx. que é uma grande pouca-vergonha. 27/12/1913. 09. Adeus’ E mal o bicho. pelo direito da força. cultivavam somente para satisfazer as suas necessidades mais básicas e imediatas. junto dos Libombos. 89:90. saber. há um abrimento da boca a fingir interesse. para dar o respectivo corretivo ___ Que sim. Mecanismos de dominação para Hlanzini. Diversos Confidenciais. 04/06/1913. esbulhadas de suas terras sobre cuja posse julgavam ter direitos ancestrais. de 24/02/27. viesse se apossar de suas machambas arduamente lavradas. 24/05/1913. Estes abusos recebiam freqüentes e veementes denúncias nas páginas dos jornais do Grémio Africano de Lourenço Marques. Precisamente na circunscrição do Sabié é que se tem dado essa imoralidade de se estarem constantemente a fazer levantamentos das reservas indígenas em benefício de vários agricultores europeus”176.”175 Tais práticas corriqueiras eram reconhecidas até mesmo pelo Secretário dos Negócios Indígenas que. surtiam algum efeito e o governo local procurava regularizar a situação. já que oficialmente nada disto se praticava em terras coloniais lusas. e o cair consolado. para o espaldar da cadeira: ‘Dize a este ‘gajo’ que vou indagar..177 Como o reconhecimento de tais práticas era feito em caráter confidencial. 13//12/1913. Asa.

0) por palhota quer correr com os indígenas que estão na concessão! [. os casos da Incomati Estates que. como a lógica do sistema assim o exigia.. 13. In: O Africano.2.10. 167. que. 179 65 . Secção A . com ou sem indenizações. e o que se faz todos os dias é correr com ele para ir cair justamente nas mãos de seus algozes! Fala-se em reservas de indígenas e núcleos de população e escorraçam-no de onde está e onde constituiu esse núcleo em terreno do Estado!”182 Nas últimas décadas do século XIX retomou-se. com ação levada à cabo. ano 1922. valor considerado baixo pela Secretaria dos Negócios Indígenas. de 03/07/1926. O Brado Indígena. tanto hão de recuar. O Africano. que hão de acabar por aceitar a Libra e meia por palhota e sairem. 181 AHM-DSNI.AHM-DSNI. 27/03/1913.] Já teem sido empurrados. como exemplos. Secção A . 07/08/1915. avançando.0. expropriou terrenos ocupados por 161 palhotas. em 1921181.0. afastados.Administração.Administração. em terras da Circunscrição da Namaacha. ano 1922. a troco de 7$500 réis (£ 1. por exemplo. teem sido recuados para dar lugar às culturas dos concessionários e. cx. Proc. sobre as terras por eles cobiçadas: “os pretos da Matola começam a ser incomodados pela ‘Movemi Stats’ [sic. tendo em vista o estabeleci- Editorial Através do mato de Estácio Dias.”180 Tome-se ainda. em 1921. leia-se Estates] que. tanto. 13. como ocorreu. 182 “Os escorraçados de S. desmascarava certo discurso que ora ou outra se ouvia da boca dos governantes coloniais: “quer se proteger o indígena contra a exploração dos brancos proprietários de terrenos. no único. nos meios coloniais portugueses. e a expulsão dos indígenas promovida pela Empresa Industrial e Edificadora. José”. Proc. em 1915. e os colonos e os empreendimentos capitalistas acabavam invariavelmente.. para expulsar a população instalada nas proximidades da Missão de São José de Lhanguene. indenizando-as à base de £ 1. Assim. a velha polêmica acerca das condições de salubridade e fertilidade da terra. Até mesmo o Estado não hesitava minimamente em avançar sobre terras e lotes urbanos ocupados por indígenas. entretanto. 167. não interveio na questão. onde o Estado construiu um paiol de munições. 180 Artigo de João Albasini em O Africano. Mecanismos de dominação por que se trata de pretos179. agora com argumentos assentes em bases tidas como científicas. cx.

Mecanismos de dominação mento de colonatos brancos183. A. do fracasso da produção agrícola empreendida pelos colonos. cit. J. Lisboa. Lisboa. cit. e que tão preciso lhes é. p. O capital que se prestar a explorá-la. Thomé e Príncipe e suas dependências ou a salubridade e insalubridade relativa das Províncias do Brazil.. Imprensa Nacional. 10.Distrito de Inhambane. Manuel Ferreira. da Silva. que o paludismo dizima. 1949. do crescente desemprego na metrópole e do alastramento de teorias segregacionistas cuja prática medrava na metrópole e colônias. em melhores condições financeiras. 1913-1915.Estudo de Direito Colonial. situação reconhecida por António Ennes. cujas culturas careciam de capitais. em alterar a forma de colonização.. Diante da fraca presença branca em Moçambique. das Colónias de Portugal e de outras nações da Europa. OLIVEIRA MARTINS. Iam em busca de algum emprego público através do qual esperavam encher a burra e retornar. à metrópole. Lourenço Marques. O Trabalho Indígena . Agência Geral das Colónias. cit. 1916. Mais uma vez não se tardou a reafirmar a tese de que a África era por demais insalubre para o trabalho branco: “A nossa África tropical não se cultiva senão com africanos. e esse trabalho. quando tal se consegue.. 185 MATOS. onde não se criam famílias ou mesmo. resistente. em tais condições. vol..”186.”184 Para os administradores coloniais que se seguiram. Moçambique. em Portugal. quando Governador Geral em Moçambique. Ver ainda Relatório do Governador . esta definha e pouco vale. bases técnicas e existiam graças à utilização de força de trabalho compelida. de. um dos mais expressivos 183 Ver por exemplo RIBEIRO. 1877. ENNES. A Província de S. Op. até então. p. esta tese nunca deixou de exprimir a realidade colonial. afirmava em seu Relatório que “o esforço individual é inútil em regiões insalubres como estas..Manhiça” In: Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques. há de pedir trabalho para as explorações.1911-1912. 184 Relatório elaborado pela comissão redatora do Código do Trabalho Indígena de 1899. M. 158. cit. João Antonio Paes de. “2a Circumscripção . Em 1912. I. António. p. 186 FREIRE DE ANDRADE. P. 48. insistia em afirmar que as culturas agrícolas deveriam ser dirigidas pelos europeus e executadas pelos indígenas “porquanto é já matéria assente que o europeu não pode sujeitar-se aqui ao rude trabalho agrícola. pp. João António Paes de Matos. Op. pensou-se. 186 e 206. Op. assentava-se na migração individual que. Op. Ao depauperamento physico segue-se o intellectual e moral como conseqüência fatal e necessária”185. trabalho abundante. Imprensa Nacional.2. 66 . discípulo de António Ennes. Freire de Andrade. barato. não incentivava senão indivíduos solteiros que pouco interesse tinham nas atividades agrícolas. nunca lograrão fornecer-lho as emigrações européias. Esta. J. Apud CUNHA..12. p. A. embora contasse com apoio oficial. o administrador da Circunscrição da Manhiça.

1994. Na década de dez foram retomados projetos. não o 187 188 ENNES. mesmo na superficialidade das relações de carácter mais geral. 65:8. já esboçados no século XIX. mai 1964.] na vida indígena muito há de bom e são.. p.. através das quintas das edilidades e dos postos zootécnicos.2. SHEPHERD. London and Portland. 23. The Agrarian Question in South Africa. um respeitado velho colono e chefe Provincial da Repartição de Agricultura. onde a presença branca era proporcionalmente menor do que em Angola.. Op. em maior ou menor grau. na vizinha União Sul-Africana que tornou-se um dos principais pilares no qual se assentou o apartheid189: “O contato das duas raças. 245. January/April 1996. Roger. cit. nos quais desenvolveu a teoria que viria orientar a implantação dos colonatos brancos. F. O direito de propriedade só ocorreria se. pp. áreas agrícolas férteis. com o apoio material do poder colonial. Maspero. aí. não levando em conta a presença de indígenas na área. 07/06/1913. Henry (Ed. o governo deveria cortar e distribuir talhões de cinqüenta a cem hectares entre os colonos brancos que os quisessem ocupar. O Africano. Apartheid et Capitalisme. Moçambique. ou melhor expulsando-se os indígenas para dar lugar às famílias brancas. Ao Estado.. em 1913. pp. 1979. 216. nos 2 & 3. Mecanismos de dominação ideólogos da ação colonial187. A partir de 1912. O projeto consistia em identificar. vol. caberia emprestar gado para a lavoura e dar sementes e plantas cujo cultivo seria orientado por um regente agrícola188. 67 . particularmente em Moçambique.. In: Les Temps Modernes. segundo as circunstâncias. Christine e MEUNIER. [. Jan-Feb. “Brève histoire de la spoliation des terres et de l’explotation du travail en Afrique du Sul”. nas colônias. “The land inequity. é sem dúvida bastante nocivo para qualquer delas. BERNSTEIN.). In: Africa Report. ao fim de três anos. de se criarem colonatos brancos. irrigáveis e drenáveis. 2024:48. priorizando a migração de agregados e não mais de solteiros. António José. Segundo ele. Anne. publicou alguns artigos sobre a questão agrícola na colônia de Moçambique. 39. (South Africa)”. 1996. Augusto Cardoso. instalar tais colonatos. 189 Ver entre outros: Comité anti-apartheid. Paris. dando preferência aos que trouxessem famílias. Frank Cass. que pudessem contar com facilidades de transporte e. Trata-se de edição especial do The Journal of Peasant Studies. Os projetos deste tipo assentavam-se numa base de exclusão racial explícita e claramente se aproximavam dos princípios contidos no Native Land Act posto em vigor. o administrador local ou o regente agrícola atestassem que o lote havia sido suficientemente arroteado. v.. nos quais o assentamento seria feito com base em unidades familiares. MESSIANT. aliás seguindo o modelos de ação propostos anteriormente.

191 O Africano. [.] a par do perigo que pela promiscuidade com o branco está o preto correndo. fazendo por assim dizer uma educação nova. obrigando-os assim a entrarem nas reservas a eles destinadas191. onde nos anos cinqüenta finalmente o projeto dos colonatos brancos foi implantado193.] na zona reservada ao colono não deve o indígena ter a sua residência habitual senão em casos especiais. toda região onde a população atinja uma certa densidade devem ser taxativamente demarcada como reservas.2. tirando partido de seu conservantismo. retirar a população indígena das regiões que se destinam ao pequeno agricultor europeu. afirma o autor anos depois. a vida indígena. 190 “Reservas Indígenas”. pela criação das reservas.”190 Em artigo posterior afirma o mesmo autor que uma vez divididas as terras e separadas as raças. publicada em O Africano. sendo em número limitado e não podendo delas afastar-se.. a Associação do Fomento Agrícola.” na edição de 28/04/1915. 192 O Africano. Exposição. cujo autor assina Selvagem de Inhambane. nela só deve entrar como comerciante e assim mesmo em condições especiais. 1924.. deve ter em comum. provavelmente pseudônimo de Augusto Baptista. BALFOUR. própria da raça. 193 Associação do Fomento Agrícola da Província de Moçambique.. 10/07/1915. 18/06/1913. 02/07/1913. Ver ainda idéias semelhantes defendidas por “X. Minerva Central. Bem assente o princípio que a vida das duas raças nada. Para o sucesso da agricultura branca em Moçambique. J.”192 Nos anos vinte. o que seria vantajoso para ambas.. A. Relatório sobre irrigação com referência especial ao Vale do 68 .. particularmente na do Vale do Limpopo. na zona reservada ao indígena deve ao colono ser interdita a propriedade. se mantenha o mais possível alheada da falsa civilização que sem método nem orientação definida lhe estamos incutindo. parece-me da mais urgente necessidade que.. tendo Augusto Cardoso na presidência. estão impossibilitados de cometer tais depredações. Mecanismos de dominação destruamos por uma acção civilizadora mas desorientada. ou muito pouco.. continua a apostar nas reservas.] As culturas do pequeno agricultor precisam ficar ao abrigo das depredações dos indígenas e isto só se consegue relegando estes para regiões afastadas de forma que nas regiões reservadas aos brancos só residam os [indígenas] que nela trabalham e que. Lourenço Marques. deveria o Estado dificultar ao máximo que os indígenas pudessem ter acesso aos terrenos devolutos. [. nela só deve entrar como um fator de trabalho que não pode dispensar-se. [. antes o conservemos e aperfeiçoemos. era preciso “primeiro de tudo.

dentre as razões para o fracasso. Imprensa Nacional. Ver ainda o artigo de um de seus idealizadores e executores: MORAIS. 69 . “O Colonato do Limpopo”. 1932 e Censo da População não indígena em 1928 . 14. O curioso é que o artigo é assinado pelas iniciais F.1%). ISCSPU. 195 O Brado Africano. embora tivesse diminuído em relação às décadas anteriores. Cardoso visavam manter o negro “condenado à ínfima situação de ‘servo de gleba’. In: Estudos Políticos e Sociais. 197 O Brado Africano. O Brado Africano aponta que. 1920. Repartição de Estatítica. das quais 3. estava o fato de que se criassem reservas nas quais os indígenas pudessem se ocupar intensamente na agricultura por conta própria. enquanto que “não trabalhando. 196 O Brado Africano. 11/06/1937. contrariamente ao que se queria fazer crer.759 (0. 11/06/1937. as reservas nunca funcionaram com a amplitude e nem atingiram os fins que seus idealizadores apregoavam. Imprensa Nacional.. “Irrigação do vale do Limpopo” e “Irrigação e Colonização do vale do Limpopo: apreciação de cinco projetos de decreto”. II. embora pareça improvável que fosse de sua autoria. porque já não estava na Colônia. d’A. Lourenço Marques. entre outros motivos. no 02.45%) e. 194 Dados extraídos dos Censo da população indígena em 1930 . Um indicativo deste fracasso é a continuação da fraca presença de população branca e portuguesa na Colônia: em 1928/30. Protesto com teor semelhante encontra-se na edição de 21/06/1912. Trigo de.Colónia de Moçambique. indo-portugueses. o negro era compelido ao trabalho ___ ___ dos brancos recebendo o zeloso funcionário qualquer coisa parecida com 2 shillings e meio por cabeça!”195. Imprensa Nacional. O mesmo O Africano. Mas os membros da pequena burguesia negra e mulata. 1930. Lourenço Marques. o desequilíbrio entre sexos. amarelos. que dava guarida aos artigos de Augusto Cardoso em defesa das reservas.960. vol. continuava bastante acentuado194. a população total de Moçambique era de 3. Repartição de Estatítica.9:1.028 eram europeus (0. 1964.2. O conteúdo marcadamente racista de tais propostas e projetos não passou despercebido aos contemporâneos.9%) eram não indígenas indo-britânicos e mistos ___ ___ europeus. dos quais. respectivamente nos nos 19 e 24 de 1934.874 do sexo feminino. sendo 9. 35. eram os colonos que invadiam as terras nas poucas áreas consideradas reservas indígenas196.162 eram portugueses. para os quais as propostas do Sr. Lourenço Marques. 18/05/1912. Ver ainda os artigos de GRANGER. ambos publicados no Boletim da Sociedade de Estudos da Colónia de Moçambique. também publicava protestos de outros leitores. Lisboa. ou seja. J. Mecanismos de dominação Na verdade.Colónia de Moçambique. que era a forma com que abreviava seu nome o antigo Governador Geral (1906-1909) Freire de Andrade.020 pessoas.996. reunida em torno do Limpopo. numa relação de 1. destes. 18. A.288 do sexo masculino e 4. O jornal ainda denuncia que.261 eram indígenas (99. o administrador da circunscrição nada ganharia. à miserável condição de escravo do patrão ou do senhor”197.

por isto. Mecanismos de dominação Grémio Africano de Lourenço Marques. Propôs que o Estado criasse. o Grémio. numa cruzada contra a ação das 198 Grémio Africano de Lourenço Marques. criava uma situação de insegurança. José Albasini. gratuitamente. não tinha capacidade para absorver mais que vinte. mas. preferiam emigrar apesar das contrariedades que isto lhes traziam. Como sua palavras não surtiram efeito. o Grémio. o que denominou de “excepção protetora” para os indígenas. Lourenço Marques. incutindo no espírito do indígena o amor à sua pátria e respeito pelas suas leis. Em agosto de 1922. não ficavam só em denúncias pelas páginas dos seus jornais. reiterando suas idéias. que esta era a única alternativa à mão de obra moçambicana. assim evitando que fossem submetidos às medidas compulsórias de praxe. já que a agricultura. já que este. o Grémio resumiu em um folheto suas idéias acerca das medidas necessárias para viabilizar o que então se chamava de “fomento” da Província e. fornecendo-lhes ainda. ao Sul do Save. prenderiam o indígena às terras. Fomento da Província. dos oitenta mil trabalhadores que anualmente preferiam ir para as minas a oferecer-se aos agricultores colonos198. que não garantindo a posse definitiva do terreno. pois este aprenderia a dar valor às suas concessões e adquiriria confiança nas leis portuguesas. suprimindo as peias formalistas e as condições inibitivas que praticamente inviabilizam o acesso do indígena à propriedade agrícola. afirmava que tal propaganda tinha a finalidade de incutir no “indígena o amor ao trabalho e o desenvolvimento da sua terra”. a convite da Associação do Fomento Agrícola da Província de Moçambique. neste documento. não dispunha de meios e informações para requerer e seguir os processos de concessão pelos meandros da burocracia. que estas medidas simples evitariam o êxodo migratório para o Rand. O folheto vai assinado por Estácio Dias. tornálo muito mais português sob todos os pontos de vista”. começou a articular o que denominou de “campanhas patrióticas” pela melhoria da produção agrícola dos africanos. reconhecia. reafirmava que as preleções visavam ainda “educar. que reunia os interesses dos colonos e empresários agrícolas. civilizar. então. os agricultores indígenas. não despertava o “amor à terra” e. em geral. argumenta-se no documento. Tais medidas. a partir de 1927.2. Eugénio da Silva Jú- 70 . reduzidos “quasi à condição da antiga escravatura”. o que não ocorria com a legislação então em vigor. Seu presidente. José Albasini. 1922. Joaquim Swart. na situação de então. preconiza uma remodelação profunda no regime de concessão de terrenos. sementes e árvores. Imprensa Africana. Considerava.

488/182 do Administrador do Bilene ao Director dos Serviços e Negócios Indígenas. dele estava isento. a posteriori. para percorrer o interior de Gaza. cx. 1.Administração. mas Swart. 199 71 . cabendo ao europeu o papel de exporta- nior. s/d e a entrevista de Joaquim Swart ao O Brado Africano de 24/12/1948. num verdadeiro trabalho de extensão rural. sócio do Grémio.Administração. Mecanismos de dominação missões estrangeiras que considerava desnacionalizadoras do indígena199. como reconheceu. 14. disseminando informações e orientando sobre novos métodos e técnicas de cultivo. Esta nomeação de Swart. proc. como delegado do Grémio. Ofício do Director dos Serviços e Negócios Indígenas ao Governador Geral. 14. Secção A . cx. 11/04/1931. 05/01/1927 e ao Secretário dos Negócios Indígenas. Secção A . 37. que enxergava mais longe os reais interesses da administração colonial. 24/12/1948. que passou a receber um salário mensal de Esc. 37. AHM-DSNI. Tal atitude motivou o administrador a sugerir aos Negócios Indígenas que demitisse Swart das funções de que se encontrava investido.119 extinguiu legalmente o chibalo. reafirmando seu entendimento de que era o indígena quem realmente poderia fazer agricultura em África. por ter retornado do Transvaal. O Governador Geral José Cabral.000$00. durante mais de vinte anos202. mas também divulgando os valores patrióticos da lusitanidade e o modo de vida “civilizado”. cópia da carta de Joaquim Swart ao Administrador do Bilene (s/d : março de 1929) e Doc. O Brado Africano. carta de José Albasini ao Governador Geral. Francisco De Haan. que tanto apostava na cooptação como na dissensão entre os membros da pequena burguesia negra e mulata. 1930. cx. 200 AHM-DSNI. quando o Decreto 16. julgou que aquela era a oportunidade para apregoar uma restruturação na produção agrícola da Província. de 13/03/1929 e entrevista de Joaquim Swart ao O Brado Africano. Em 1929. proc. Secção A . 202 O Brado Africano. trabalhando sob a imediata e directa dependência da Repartição dos Negócios Indígenas” 201. 37. A intenção parecia estar em conformidade com os interesses governamentais. por exemplo. fez exatamente o contrário: não só permitiu a continuidade dos trabalhos de Joaquim Swart como tornou-o “agente oficial do Govêrno na propaganda da nacionalização do indígena do Sul do Save. proc.2. 201 AHM-DSNI.Administração. parece-nos estar inserida numa estratégia maior do Governador Geral José Cabral. o próprio Swart. pois julgava que a sua presença punha em risco a autoridade administrativa constituída200. 14. oficiado ao Administrador do Bilene contra o fato de que Miguel Kuvamba. mal começou seu trabalho e passou a tomar a defesa dos indígenas tendo. tinha sido preso para o chibalo quando.

charruas. O colonizar deve ser o aproveitamento do elemento indígena criando-lhe maior riqueza sob orientação sã e técnica. enfim as condições necessárias para que este novo agricultor melhorasse sua alimentação.. o Grémio decidiu fornecer algumas charruas aos seus associados do interior. mas como não encontrava eco205. para que isto se tornasse realidade. Afastando o indígena do europeu e aplicando-o somente como trabalhador não é colonizar. 09/03/1929. vendê-los aos indígenas ___ dizia que só a compra garantiria a propriedade jurídica plena contra as espoliações perpetradas pelos brancos ___ e fornecer-lhes sementes seleciona- das. mas lamentava que este seu gesto e esforço não fosse secundado pelas autoridades204. que reunia os plantadores brancos. O Brado Africano. os projetos oficiais de colonização tinham como objetivo diminuir ou. 72 . 20/12/1930. somente como trabalhadores.. produção que. bastava demarcar lotes próprios ao cultivo. elevasse sua qualidade de vida e contribuísse para o desenvolvimento da Colônia ao produzir excedentes para o mercado203. Para onde irão esses milhares de indígenas que hoje vivem nesse vale onde se dedicam à pequena agricultura em terras que de direito lhes pertencem. Ao lado destas iniciativas. só com portugueses ‘europeus’ e. pelo menos 50 mil hectares. O Brado Africano continuou protestando. aqueles [os indígenas] aproveitados. por serem reservas indígenas? [. se bem sucedida. como a aquisição de bens e mercadorias industrializadas.”206 Ainda que significasse uma variação na política de migração para dar respostas adequadas à crise portuguesa.2.] a opinião deste Grémio é que nessa Zona se reservem. ao menos. garantiria a estes produtores não só o dinheiro necessário para o pagamento das taxas e impostos. impedir a expansão da produção agrícola indígena para o mercado. 205 O Brado Africano. para nela se criar uma Zona de colonização. Mecanismos de dominação dor e. para a agricultura indígena. Para dar concretude à esta sua “propaganda patriótica”. 14/03/1931. o Grémio enviou um parecer ao Ministério das Colónias e à Associação do Fomento Agrícola. base primacial da riqueza da Colônia. o que lhes possibilitaria fugir dos baixos salários praticados na 203 204 O Brado Africano. insurgindo-se contra tais projetos de assentamento excludentes: “Os indígenas serão escorraçados da Zona.

a colheita de oleaginosas e demais produtos secundários como cascas tintoriais. Esta árvore. mas o objeto de concessão não era esta e sim a coleta de sua semente. 27/10/1934. que produz excelente madeira. resinas. Portaria Provincial 315 de 09/01/1917 publicada no Boletim Oficial no 2/1917. Estas concessões. por dez anos. Para. Trata-se de uma árvore frondosa.2. não tem diminuida sua credibilidade. a extração de cascas taninosas. como por exemplo. No sentido oposto. Ver ainda edição de 17/11/1934. em setembro de 1917. contudo. o fortalecimento da agricultura camponesa. dar maior transparência ao processo. não obedeciam normas. retirava o ancestral direito das populações africanas de usufruírem livremente de tais produtos. etc. que. sendo geralmente concedidas pelo critério da precedência e segundo critérios pessoais e de apadrinhamento. embora nativa. acima citado. contrariava interesses múltiplos: as minas não teriam a abundância de força de trabalho. foi o da mafurra208. que. Mecanismos de dominação Colônia e até mesmo diminuir a migração para o Rand. O caso que mais chamou a atenção e que parece ter sido o objeto primordial do próprio regulamento. em janeiro de 1917. cidadãos e moradores na União Sul-Africana. o exclusivo. o que. nos moldes em que o Grémio a preconizava. no extremo sul de Inhambane. contudo. que atingia altas cotações no mercado internacional. alterando essa secular relação. explorassem a indústria da pasta para o fabrico do papel e outros produtos a partir da matéria prima extraída dos Baobás (Adansonia digitata). Era prática corrente dar em concessão vastas áreas para a exploração comercial de madeiras. a que dava. abundante particularmente nas circunscrições de Manjacaze. e que tornava passíveis de serem outorgados a particulares o exclusivo sobre certas áreas para a exploração de lenhas. oleaginosa. na faixa litorânea de Gaza e de Zavala. existentes no vasto território formado pelos mais de 225 mil km2 dos distritos de Quelimane e Tete207. para que Wardlaw Brown Thomson e Ernst Augustus Ritter. o governo colonial editou um Regulamento para a Exploração de Matas e Produtos Florestais. uma vez que além de suas opiniões. fibrosas. 208 Ver sobre o caso o folheto de Eduardo Saldanha. os colonos menos ainda e o Estado não teria uma segura fonte de arrecadação representada pela migração. Mas a cobiça não era somente por terras. recebia cuidados minuciosos da 206 207 O Brado Africano. transcreve uma sé- 73 . simplesmente. acabou por ser implementado somente quatro anos depois. e que implicava na substituição da mulher pelo homem nas lides agrícolas. em tese. embora movido por desavenças pessoais.

cit. nomeadamente nos anos de crise na produção agrícola. esta era uma estratégia para evitar que os homens se apropriassem do fruto do seu trabalho209. pelo preço fixado pela administração. entretanto. sipaios ___ para colaborarem para o sucesso do empreendimento. pagava-se preços que variavam entre cinco e onze libras a tonelada. cabos de terra. mas como a concessionária não estava disposta a pagar trabalhadores para efetuar a coleta. numa área de 172 mil hectares abrangendo toda a Circunscrição de Zavala e parte da de Inharrime. conforme denuncia uma representação assinada por cento e vinte colonos de Gaza e Inhambane. duas libras e meia a tonelada. forçando os indígenas. régulos. Mecanismos de dominação população. nos meses de janeiro a março. e de quem as mulheres adquiriam adornos e capulanas e não dinheiro. dali em diante. Eduardo. Op. até os postos exclusivos da empresa concessionária normalmente localizados às margens do rio Inharrime. sem pagamento e sem alimentação. não hesitando em mobilizar as autoridades administrativas da circunscrição ___ ad- ministrador.. para levar a cabo tal exploração. pois. Os autores de tal alcavala. O Governador Geral Brito Camacho concedeu a licença. 209 rie de documentos oficiais e artigos jornalísticos. copiosos entre dezembro e março. o Governador tornou obrigatório que todo o pagamento do imposto de palhota fosse feito em mafurra. em fevereiro de 1922. foram passadas licenças de exclusividade na colheita da semente a quatro concessionários. 03/04/1926. a terem de apanhar a mafurra para a vender forçadamente ao Sindicato. fuga que atingia milhares de pessoas. LV:LVI. O Imparcial. Apud. a manterem limpos os terrenos debaixo das mafurreiras. SALDANHA. ou seja. pois a polpa de seus frutos. em sua maioria marselhesas. pp.2. segundo um contemporâneo. fora da concessão e no distrito de Gaza. a Sociedade de Zavala. constituindo-se a seguir uma empresa privada. quando nas circunscrições. As sementes eram normalmente recolhidas por mulheres e crianças e levadas aos cantineiros asiáticos. em especial para Panda e Muchopes. Pois bem. a baixos preços”. servia como suplemento alimentar. não contavam com “a resistência passiva do indígena que prefere mil vezes fugir (os que podem) para as terras limítrofes. recolherem e limparem as sementes e depois transportá-las. que agiam como prepostos de empresas exportadoras. 74 .

p.Vida Social. o que fez com que a empresa concessionária nunca tenha conseguido adquirir mais que mil toneladas. mais uma vez. mesmo com a monetarização ocorrida no final do século. Eduardo. como de artigos na imprensa.2.. ao promoverem as queimadas. 212 Junod afirma que. p. Abaixo assinado reunindo comerciantes. que contrariava o cuidado que tal árvore sempre merecera. ao administrador que agia em conluio com a empresa concessionária e a não renovação da concessão ao fim dos cinco anos iniciais. dirigida ao Alto Comissário interino Artur Ivens Ferraz210. o gado bovino permaneceu como referência para o lobolo. embora atacada eventualmente por zoonoses. Op. que. O dirigente da empresa e principal acionista.. agricultores e industriais de Gaza e Lourenço Marques dirigido em novembro de 1923 ao Governador Geral. apesar da pressão. muitas vezes em conluio com os administradores locais. identifica- 210 211 Apud. Tal comportamento. O sucesso dos criadores indígenas logo tornou-se alvo da ganância dos colonos brancos. Além da terra. outra atividade da população africana era alvo dos ataques dos colonos. cit. XX. Agora pertencem aos brancos”211. e menos do que se exportava antes da concessão. cit. quando da culimação das terras para as sementeiras. Mecanismos de dominação de 19 de outubro de 1925. Henrique A. tendo retribuído com cargos quem tomou sua defesa diante dos ataques sofridos anteriormente. 75 . A criação de gado proliferava na região em torno de Lourenço Marques. Eduardo. Op. além de largamente utilizado como termo de referência no pagamento do lobolo212. 266. SALDANHA.. as pessoas já não se importavam com as mafurreiras deixando que o fogo as destruíssem. Apud SALDANHA. Além destas estratégias. longe de ser punido. p. Op. Além da fuga. as pessoas recolhiam o mínimo de sementes. assim expressões como “comer os bois” significa aceitar o lobolo. Mas o que resultou de tudo isto? Um administrador renitente à esta prática foi substituído por um conivente e apesar das inúmeras denúncias tanto sob a forma de protestos de comerciantes prejudicados com tal monopólio. Ver: JUNOD.. cit. a que mais parece ter dado resultado foi que. que acabou arquivado. de um potencial estimado em vinte mil toneladas. o tenente-coronel José Ricardo Pereira Cabral. O processo era. tomo I . foi nomeado Governador Geral de Moçambique. XIX. era praticamente isenta da doença do sono e era a base de sustentação dos poderes políticos locais. Usos e Costumes. simples: o mulungo.. o máximo que se conseguiu foi um inquérito. chamou a atenção dos colonos contemporâneos que inquiriram do motivo e obtiveram a resposta de que assim procediam porque “as mafurreiras já não são dos pretos.

contudo. embora o grosso do rebanho bovino estivesse nas mãos da população negra. João Albasini apurou que “a ordem brava de expulsar dali as pretas foi provocada ‘pelo aspecto repugnante’ das latas. bem junto ao local em que o gado costumava pastorear e. Mecanismos de dominação va os maiores criadores indígenas e logo ia fazer uma palhota e uma pequena machamba. sem grandes culturas agrícolas. não raro acabava por abandonar suas machambas em benefício do branco e passava a levar o seu gado para áreas mais distantes ou menos ricas em pastagens. 04/05/83. expulsas do Bazar ___ Mercado Municipal Vasco da Gama. O indígena. possibilitando-lhes novas aquisições depois de passado o surto. que acabava tendo que vender o seu gado a intermediários brancos215. reivindicando sua propriedade. deixando as anteriores à mercê do mulungo213. era abatido a tiros de forma desordenada e sem qualquer indenização214. segundo O Africano. fita 06. os criadores brancos recebiam orientações e principalmente eram indenizados pelo gado doente abatido. mais que depressa. legítimo proprietário do gado. em 1914. cit. legislou-se no sentido de só se permitir a comercialização de carne abatida no matadouro municipal que cobrava taxas variadas pela inspeção sanitária e uso dos recintos e dava prioridade e reservava cotas para o fornecimento de carne a criadores brancos. 09/09/1911. Op. como não era cercada. a razão acabava com o colono e o atrevido recebia umas palmatoadas para não vir importunar o “sor” administrador. O indígena. vendo-se roubado e sem qualquer proteção. As ocorrências de zoonoses mostravam-se como mais uma oportunidade para expulsar criadores negros do mercado: enquanto. feijão e milho” foram expulsas. Também foi em nome da higiene que as vendedoras africanas que forneciam “cozinhados. a prática européia de cercar os pastos colidia frontalmente com o ancestral método de criar o gado solto. o gado acabava por invadi-la em suas deambulações. Outro mecanismo para expulsar os africanos do mercado urbano baseava-se na legislação sobre salubridade pública: já em 1904. quando tinha coragem. O colono. p. primeiro do antigo pântano e depois. 414 e PENVENNE. invariavelmente. 215 Anuário de Lourenço Marques . ia à administração reclamar mas. panelas e tripas cozinhadas que se viam no Bazar das 213 Raúl Bernardo Honwana descreve vários casos por ele presenciados em sua condição de intérprete da administração da Moamba. CEA. novamente. Jeanne Marie. o gado dos indígenas.. Ver entrevista à Oficina de História/CEA. aprisionava as reses e marcava-as com o seu “ferro”. African Wor- 76 . Além disso.1932.2. 214 O Africano.

significava altos custos e arriscados subsídios governamentais com resultados incertos face ao desconhecimento científico sobre solos e sementes apropriados à região e à própria instabilidade climática do sul da Colônia. Otto. 239:270. 239:263 e ROESCH. e que o mais adequado era que esta cultura fosse feita diretamente pelos agricultores moçambicanos. deixando os homens disponíveis para servirem como força de trabalho assalariada ou para o chibalo. embora não integrasse a dieta alimentar local. 14/06/1914. cerca de 200 plantadores cultivavam cerca de 13 mil hectares em Maputo e Inhambane218. com ironia. cit. com trabalhadores assalariados negros e supervisão branca. pp. em meados da década de vinte. particularmente a do algodão217.” In: Journal of African History. ser mobili- kers. Incentivados pela decréscimo de rendimento da produção algodoeira norte-americana. 1938-1961. entretanto. Ver a respeito VAIL. pois. Também os pescadores negros foram paulatinamente coagidos através de normas. em todas as fases de produção. segundo essa proposta. “Migrant labour and forced rice production in southern Mozambique: the colonial poverty of the lower Limpopo valley. 132:5. 1991. “estômagos tão delicados”.. pp. mapira. Op. História de Moçambique . O Africano. nunca tinham visto as cantinas onde se vendiam as “mesmas petisqueiras e peixes fritos podres?”216. colonos e pequenos empresários tentaram empreender tal cultura e. feijão ou mandioca. um outro mecanismo foi posto em movimento para forçar os indígenas a entrarem cada vez mais na economia de mercado: a introdução das culturas agrícolas de cultivo obrigatório. a Associação do Fomento Agrícola (AFA) se tinha dado conta de que o cultivo do algodão. já neste momento. Para a introdução de tal cultivo deveriam. 1930216 77 . 1978. por colonos e empresas agrícolas.Moçambique no auge do colonialismo. regulamentos e exigências diversas a transformarem-se em empregados assalariados de barcos.2. o arroz tornou-se de cultivo obrigatório e visava abastecer o mercado urbano branco e metropolitano.. Mecanismos de dominação 10 às 13” e. Seu impacto sobre o dia-a-dia da economia doméstica foi semelhante ao do algodão. “Tawani Machambero! Forced rice and cotton cultivation on the Zambezi. Leroy & WHITE.. a ele se podia recorrer como fonte de alimento na ausência dos alimentos prediletos como farinha de milho. poderia ser feito em caráter doméstico. David (coord). segundo eles. e particularmente na virada para a década de trinta. cujos proprietários fossem brancos. 218 HEDGES. sem prejudicar a oferta da força de trabalho para as machambas dos colonos. já que se prestava muito bem.” In: Journal of Southern African Studies. a ser conduzido pelas mulheres e crianças da “família cafreal”. 17. Argumentava a AFA que o cultivo do algodão poderia ser levado à cabo pelos indígenas. 217 Além do algodão. porém. XIX. Landeg. Após a implantação da ditadura em 1926. pp. pergunta o jornalista se os que deram tal ordem..

220 Não me deterei muito sobre o tema. para que nelas montassem armazéns e máquinas de descaroçamento e prensagem e nas quais teriam. Heinemann. para “levar-se ou mesmo forçar-se o indígena a cultivar o algodão para trazê-lo ao comércio” e. pois a crescente indústria têxtil metropolitana adquiria no mercado internacional mais de 95% do volume utilizado.. a colheita. as práticas cultivares. pp.). Remeto ao mais recente e completo estudo acerca do tema: ISAACMAN. James Currey. pp. 3. Maputo. ver ISAACMAN. 1996. de fato. Universidade Eduardo Mondlane. work. a defesa sanitária. and rural struggle in colonial Mozambique. somente em 1938 e durou até 1961220. com preços fixados em comum acordo entre os concessionários e o governo219. o governo metropolitano passou a incentivar o cultivo e principalmente a lançar as bases para uma política de cultivo compulsório que veio a se concretizar. Mecanismos de dominação zadas as diversas instâncias da repartição de agricultura bem como as autoridades administrativas locais. Portsmouth. Para minimizar os custos desta dependência. Como o algodão não podia ser exportado no estado em que era colhido. era indispensável que o Estado fornecesse as sementes. cit. pois o seu impacto maior se deu no período posterior ao aqui estudado. Heinemann. 219 78 . que se corporificou no Acto Colonial em 1930. que tinha como uma de suas metas mais urgentes substituir as importações por produtos coloniais adquiridos por preços abaixo dos praticados no mercado internacional e o algodão tornou-se a peça chave desta política. London. seriam forçados a arcar com os principais prejuízos decorrentes das cíclicas crises ecológicas.2. Com o golpe de 1926. Richard (eds. Portsmouth. 1995. 1961. o monopólio da compra da produção. O cultivo obrigatório pelos camponeses pareceu às autoridades portuguesas ser mais viável do que o sistema de plantation. Cotton is the mother of poverty: peasants. por dez anos. enfim coordenasse todas as práticas envolvidas no cultivo. vol. as indicações quanto à escolha do solo. Não tardou para que estas propostas encontrassem eco nos acontecimentos políticos dos anos seguintes. a preparação do terreno. Departamento de História. Op. 22:6. emergiu um forte clima nacionalista. 27:8. 1938-1961. O sistema adotado foi uma concretização das propostas da AFA. Allen. por se tratar de uma cultura nova em terras moçambicanas. 1993. tendo muito menor poder de pressão que os agricultores brancos. Associação do Fomento Agrícola da Província de Moçambique. Para diversas perspectivas e regiões da África. a armazenagem. Cotton. a AFA sugeria que áreas de no mínimo quatro mil hectares fossem concedidas a empresas. em Portugal. Colonialism and Social History in Sub-Saharan Africa. Allen e ROBERTS. pois não exigia investimentos e subsídios estatais e a rudimentaridade e a baixa produtividade do cultivo seriam compensadas pelo grande número de cultivadores africanos que.

com esta política agrícola. que garantia que uma maior quantidade de dinheiro obtido nas minas chegasse. pp. o seu ponto de vista era um tanto diverso. ainda que em moeda portuguesa desvalorizada. Rio Tinto. nem o Grémio se deu conta das reais implicações de tal cultivo. eficiente e voltado para o mercado. expropriados e excluídos dos assuntos agrícolas e. 17/11/1923 e seguintes. nem nunca se criou de fato uma extensa camada de agricultores africanos produzindo para o mercado. p. por extensão. era clara. dos demais direitos de cidadania. 22. tenha visto surgirem alguns agricultores africanos cultivando terras com arados puxados por bois. 191 e HONWANA. ao contraporse aos projetos dos colonatos e. 223 COVANE. seu número permaneceu insignificante e sua existência pouco ou nada se deveu à política agrícola do Estado Colonial. Migrant labour and agriculture. Hunnicutt acerca das possibilidades. na verdade. Op. 1989. Asa. David (coord). e mais ainda a década seguinte. p. Assim. 79 .. 89. uma vez mais o Grémio tomava a iniciativa de propagar novas técnicas agrícolas e. Raúl Bernardo. Ed. HEDGES..2. integrar o indígena ao mercado ___ aliás já em 1923 O Brado Africano havia iniciado a publicação do trabalho de B. Luís António. Mecanismos de dominação O Grémio Africano.. que tinha se insurgido contra os colonatos brancos. Embora a década de trinta. vantagens e desvantagens da cultura do algodão em Moçambique221. servia também para demonstrar que os africanos não eram em nada inferiores aos brancos e que. Op. este deveria ser o africano. 221 222 O Brado Africano. Memórias. às terras de origem dos trabalhadores e fosse aplicada em melhorias agrícolas ou no aumento do rebanho bovino e mesmo no comércio223. Se havia algum agricultor a ser subsidiado e favorecido. viu na introdução da cultura do algodão uma perspectiva para elevação da qualidade de vida dos agricultores africanos e apoiava o novo discurso das autoridades coloniais que apregoava. e esta iniciativa de incentivar a criação de um setor agrícola africano. portanto. embora tais iniciativas possam ser entendidas por alguns estudiosos como uma tentativa de se integrar o “campesinato nos planos coloniais de produção agrícola”222. 136. depois ao apoiar a introdução de um cultivo de rendimento. não deveriam ser submetidos como animais de carga ao chibalo. em decorrência de um aumento da população urbana e como uma resultante indireta da efetivação do deferred paid. Contudo. cit. moderno. mas sim ao crescimento de um mercado interno para os produtos alimentícios. H. cit. A intenção do Grémio.

Na verdade a criação de um setor agrícola africano. isto.. 1899-1902. Luís António. apesar dos discursos pronunciados neste sentido. no mínimo. Como era compelida a tal cultivo. e que os problemas realmente emergi- 224 BROCK. Migrant labour and agriculture. diretamente associado à criação e perpetuação de uma força de trabalho negra barata a serviço dos capitais e interesses brancos. Raúl Bernardo Honwana narra o ocorrido. temendo que isto obstasse o fluxo de tais trabalhadores225. Northwestern University. 1870-1930. a WNLA. Já antes de ter se tornado obrigatório.. Cambridge. 225 COVANE. voltado para o mercado. em relação ao algodão. 131. southern Mozambique. Mas o cultivo do algodão não foi pacífico. Mecanismos de dominação No começo do século alguns agricultores/comerciantes brancos tentaram. Tese de Ph. pp. não tendo sido um assunto exclusivo de brancos. na década de trinta. cit. Bill. alguns administradores tentaram forçar os camponeses para que plantassem anualmente. manifestara preocupações com o progresso da agricultura indígena no sul de Moçambique. O fracasso da agricultura africana esteve. Honwana afirma que a população obedeceu a contragosto..2. Lisa Ann.. D. Uso a designação “Guerra anglo-boer” por ser a mais corrente embora haja uma tendência na atual historiografia de se usar a designação “guerra sul-africana” na medida em que a mesma envolveu e afetou a vida das comunidades africanas negras. porém. um hectare de algodão. Black people and the South African War. plantar e as demais técnicas de cultivo e. 224:5.. e da ação levada a cabo pelo protecionismo nacionalista do Estado Novo. fez banjas (reuniões do administrador com a população indígena). assim. quando o administrador da circunscrição de Bela Vista. Cambridge University Press/Ravan Press. p. p. por fim. Serra Cardoso. Peter.. Op. Apud COVANE. From Kingdom to colonial district: a political economy of social change in Gazaland. distribuiu sementes. introduzir sementes de produtos como borracha e algodão para incentivar a expansão da produção indígena voltada para o mercado. Já no começo do século. O diligente administrador demarcou os lotes. podia por em risco os pilares de sustentação da economia da Colônia: disponibilidade de força de trabalho barata e trabalho migratório. isoladamente. durante a Guerra Anglo-Boer. cit. em 1932. 216:8. Luís António. 130. nas quais explicou quais as vantagens do cultivo. Abraham Esau's war: a black South 80 . muitas vezes monopolistas. a agência recrutadora de trabalhadores para as minas do Transvaal. recebeu ordens do Governador Geral para introduzir tal cultivo. como preparar a terra. Migrant labour and agriculture. 1983 e NASSON. quer da colônia portuguesa quer das colônias vizinhas.. contando tirar vantagens de sua condição de intermediários. 1989. nunca se transformou em política oficial. As duas principais obras nesta perspectiva são: WARWICK. Op. como o caso de David Caji e a Associação dos Agricultores de Xai-Xai224.

66. depois do camarão (73 milhõesde USD). Assim muitos tiveram que ir para o chibalo por falta de pagamento de imposto. Raúl Bernardo. quando foram produzidas 144 mil toneladas de algodão em caroço. conforme NotMoc. O preço do algodão de terceira classe era de $20 (vinte centavos) o quilo. à desnutrição e disto as pessoas tinham consciência. 226 81 . da cozinha. o produto devia ser classificado. 1899-1902. 228 Apesar destes fatores. onde perante um representante da Agricultura.2. p. à fome.”226 No ano seguinte as pessoas se recusaram a plantá-lo. e eles atribuíram o facto à campanha de algodão que não lhes teria dado tempo para se dedicarem à produção de comida. as tarefas do algodão acabaram por significar mais uma sobrecarga que pesava sobre os ombros das mulheres. em 1996 a produção foi de 51 mil toneladas e a participação do setor familiar foi de 65%. Asa. já tradicionalmente encarregadas das lides agrícolas alimentares. 103 de 22/06/1997. varí- African War in the Cape. 1989. Doenças como a malária. como esta migração era exclusivamente masculina. Estes processos de expropriação e de coerção tiveram efeitos nefastos sobre a qualidade de vida da população. Ed. pois “levavam muito tempo a cultivar e a cuidar dele e no fim do ano nem algodão nem comida nem dinheiro para impostos”227. excepcionalmente. como de segunda classe. Cambridge University Press. em 1973 o algodão atingiu seu recorde. Por outro lado. 227 Idem. do transporte de água e lenha. Cambridge. Mecanismos de dominação ram quando chegaram as colheitas: “o administrador forneceu os sacos e quer os camponeses quer os colonos começaram a trazer a sua colheita para a Administração. O algodão é o segundo produto de exportação (20 milhões de USD). HONWANA. pesado e pago. A resistência ao cultivo obrigatório do algodão foi particularmente acentuada ao Sul do Save. expondo-a à miséria. Rio Tinto. Outro aspecto que deve ser lembrado é que. dos cuidados com a alimentação. febre tifóide. Ibidem. Sucedeu então que todo o algodão dos colonos foi classificado como de primeira classe. 1991. onde a migração para as minas do Transvaal possibilitava aos homens rendimentos mais elevados e tornava clara a insignificância dos obtidos com tal cultivo228. febre amarela. Uma grande parte dos camponeses não conseguiu pagar os seus impostos com o produto da venda do algodão. das quais 40% eram provenientes do setor familiar. educação e higiene dos filhos. Este facto provocou grande descontentamento. o algodão produzido pelos camponeses foi classificado como de terceira classe e. Memórias. 1932 foi um ano fraco em culturas alimentares.

pneumonia. sífilis e gonorréia.. 230 O Africano. 24/11/1924. sobre a situação. sem palmares. aflição. Ver com igual tom o artigo “Fome! A negra Fome! (ou a Liberdade.Português.231 “Quem tem viajado pelo interior do distrito de Inhambane fica horrorizado pelo espectáculo de pungente realidade que se 229 Ver por exemplo: O Africano de 15/12/1911. tudo o que vos rodeia. de indígenas que ficaram sem culturas. d’esse preto que tem fome. precedido de certas instruções à formação de grande número de palavras. José Luís. pelo menos. Igualdade e Fraternidade. porque gente de corpo alvo se assenhorou do que era dos indígenas. 07/01/1914 e O Brado Africano de 23/09/1922.”230 “Por este sertão afora não há água nem comida. não há dinheiro nem trabalho onde o possam obter. com a qual o autor assina seu texto significa sofrimento. espaço propício para que a morte fizesse milhares de vítimas. 07/11/1912. a indolência do indígena ___ mas não se diz que sobram tristíssimos exemplos aqui e em toda a costa. A palavra Nhlomulo. [. sem propriedades. 30/09/1922.. principalmente nos momentos de prolongadas secas. Dicionário Xi-Ronga . 1921. encontravam corpos frágeis e desnutridos.2.. não há almas que se compadeçam de tão infelizes criaturas que só teem que morrer sem um queixume. Mecanismos de dominação ola. Lisboa.] Lembrai-vos. água para mitigar a sede que este dias de vento norte torna atroz e fatal. Tip. alimentos de toda espécie. trocadas em miúdos. denunciando quer as raízes da fome. o suor do seu trabalho. sem a necessária resistência orgânica. de 12/12/1912.. Assim manifestava-se. com luz elétrica e bons caminhos empedrados e luxuosos edifícios e fáceis meios de transporte!] e que só a vós aproveitam. leishmaniose e filariose. [. acrescidas daquelas trazidas das minas como a tuberculose. 11/12/1915. sem uma palavra de revolta contra quem lhes tira esses impostos. Europeus. O Africano. 82 . que em tudo o que vós hoje gozais. origina do suor do preto. quando já não podiam contar com reservas alimentares resultantes de safras anteriores229. conforme QUINTÃO. 12/09/12. 231 O Africano. quer o descaso das autoridades e seu discurso baseado no darwinismo social que atribuía à inata preguiça indígena a culpa pela situação: “D’alto a abaixo se condena a inércia.. com indignação. 24/12/1912. 22/12/1911. sem lhes dar em troco... do Commércio. 18/11/1922. e sede e que morre depois de ter contribuído para os benefícios que acima menciono [água em abundância. como a libra do seu imposto de palhota. assinada por Paulo de Lima e publicado pelo O Africano.)”.] Nhlomulo.

83 . pois a fome está à porta com toda a horrível fealdade. lembrai-vos. “Colonial Roots of Famine in Karamoja: a rejoinder”. 36 (1986).] Senhor. basta de nódoas negras na história desta Costa da Cafraria com que o futuro nos estigmatizará! Júpiter. Mecanismos de dominação lhe oferece à vista. Não deveis dizer que o preto trabalhou pouco.. todos esses agricultores arrebanham. Shubi L.. filantropia ou altruísmo! ou o que quiserdes para com estes desgraçados que mourejaram dias e dias à torreira do sol nesses campos que ensoparam com seus suores e que agora em lugar de colheitas feracíssimas. agora que não tem absolutamente tempo 232 233 O Africano. Não digais que isto são romances d’almas generosas. Ecology Control and Economic Development in East African History. essa gente para ser empregada nas machambas que em geral são de amendoim e gergelim. e não deixam por isso. Heinemann. 07/01/1914. à força. Se as coisas fossem como antigamente que o preto andava livremente nos territórios. ao indígena. que vos construiu edifícios para habitardes comodamente e cujo suor bem recolhido chegaria para amassar o cal destas paredes. que vos sustenta faustosamente. indo vender os seus gêneros onde quisesse e tratando das suas machambas na época própria. compadecei-vos dele e tratai de minorar já a sua dor! Não queiram dar ao mundo mais um espectáculo de desleixo como já demos. que ele é culpado da miséria que o vai assolar. 232 A fome nada mais era que uma conseqüência da ruptura do processo de produção camponês e. porque é mentira. ISHEMO. New Brunswick. Mahmood. tende caridade. neste sentido.. Helge. um momento. que os pretos vão ter fome outra vez!. KJEKSHUS. Rutgers University Press. na maioria empregados da Companhia. Mas agora que não se pode dar um passo sem ser preso para ir trabalhar na machamba do chefe de posto ou de concelho. que se entregam a machambas. 1984.2. London.. lhes apresentam searas requeimadas como se o espírito do extermínio por ali passasse. Sobre a relação entre o desenvolvimento da acumulação colonial e as crises ecológicas e a fome ver ainda: MANDANI.. para também cultivar as suas terras e obter produtos que vá depois vender aos negociantes.. p. 1977 e TURSHEN. The Political Ecology of Disease in Tanzania. Op. In: Review of African Political Economy. portanto... 111. ele trabalhou. Meredith. vós que governais este povo desditoso. as pré-condições para a acumulação de capital também eram as que a desencadeavam233: “ tudo deriva do facto de haver muitos agricultores. lutou até para angariar para si e para sua família o sustento durante o ano. cit. [.

de que o régulo ou chefe é a encarnação mais ou menos viva e effectiva. assim como não há. “não há verdadeiramente pobres. Entre os povos do Sul do Save “as terras. entre eles.. o imposto de palhota. 84 . capitalistas. Em terras de Gaza.2. a corrupção pelo vinho e pelo sópe e toda sorte de elementos desaparecerão com a consumação da base respectiva. feita e discutida na província. como era de prever. Pe. Gazeta das Aldeias. Op. [. a exploração da migração. p. os prados. 25/11/1922 e ainda na mesma perspectiva a edição de 14/07/1923. a raça terá desaparecido e como já não se dão as correrias migratórias de outros tempos. 18/11/1922.. cit.”235 Tais efeitos perversos. 225. Quando as necessitam vão ter com o régulo ou chefe. Daniel da. José Fialho. O alastramento da economia monetária e das práticas agrícolas modernas. Por direito. Daniel da Cruz. sujeito a ser concedido a qualquer caçador de terras beneficiadas e plantadas. Mecanismos de dominação nenhum para cultivar sua machamba [. Porto.] Este estado de coisas resultou. porque os pretos não tiveram vagar nem liberdade para tratar suas culturas. [. tudo é commum. o imposto de cão. contudo.”. continua o Pe.. 237 CRUZ. p. vindo a sofrer quase sempre de fome.. à mais pequena irregularidade de chuvas. Por isso houve muito gergelim e amendoim e nenhum bocado de milho!234 “A impressão que se sente é que num futuro não muito longínquo. as mattas. principalmente a tração animal e a charrua. os rios.. praticamente toda a vida cultural e social foi afetada pelos mesmos. nesta província. 236 FELICIANO. por isso. Editorial. O Brado Africano.] Vai grassando uma fome terrível. que lh’as 234 235 O Brado Africano.. a terra pertencia aos ancestrais e ao chefe cabia o poder distributivo e de gestão sobre a mesma: “As terras ninguém as quer senão só quanto basta para lhes produzir a alimentação quotidiana. não se detiveram em seu caráter econômico. 1910. senão o de simples detentor dessas plantações. 279. ficando o terreno ocupado.. tira todos os direitos de senhorio aos indígenas que possuíssem terras e plantações.] A lei de concessão de terrenos de 1909. o chibalo. por falta de gêneros. nem mendigos”237. estimularam a desagregação dos grupos sociais e das formas de solidariedade e coesão consuetudinariamente transmitidos236. e outras e outras que se vem sucedendo. pertencem ao estado. visto não poder ter reservas como antes as tinha. no empobrecimento da raça indígena pela falta de cereais que fazem parte da sua alimentação. lagôas e fontes.

Ibidem. o chefe perdia o direito imediato sobre a terra concedida. São Paulo. para cultivo. 21:31 e FELICIANO. 240 Ver: HAMPATÉ BÂ. 85 . Présence Africaine. P. As afirmações de Tempels foram discutidas. ou ainda. ou seja. Placide. constituindo-se em tabu invadir. Joseph (Coord. La Philosophie Bantu Comparée..I. Cada um cultivava no seu lote e. alguns excluindo homens. grávidas. pp. Paris.” 238 Mesmo a um estranho ao grupo. senão podem ser passadas a outros que a requeiram. Não havia a prática de se estender os lotes individuais. se um súdito morresse. proibição de se cultivar nos dias considerados sabáticos 241. 1976. bastava declarar-se súdito __ condza __ de determinado chefe. outros excluindo mulheres ou mulheres menstruadas. por KAGAME.. Alexis. cit. Usos e Costumes. particularmente o capítulo “Ontologie des bantous”. em mais nenhum. “A tradição viva”.. Henrique A. as suas terras eram herdadas pelo filho. Havia também uma série de tabus associados aos diversos produtos e atividades agrícolas ou de pastoreio. emquanto as cultivarem e explorarem. por exemplo. pp.). nas quais encontravam-se os túmulos de seus antepassados e demais elementos integrantes de seu 238 239 Idem. terras de outros239. Henrique A. as árvores frutíferas nativas que asseguravam alimento e frutos para a fermentação de bebidas ___ ncanhe. 225:6. puérperas. Assim. ainda que as divisas fossem informais e móveis. pp. mas podia ter sua posse transmitida hereditariamente. Op. Présence Africaine. entretanto.. da jurisdição do chefe que lhe concedera. tomo II. História Geral da África . A partir da concessão. 30:47. para receber deste um lote suficiente para sua subsistência. entre outros.2. tomo II. Mecanismos de dominação concede e lhes reconhece a posse. há uma indissociável relação entre a natureza e o homem. consuetudinariamente obtidas. sua terra voltava a pertencer a este chefe. 241 Ver JUNOD. Metodologia e pré-história da África. R. a terra não podia ser alienada pela venda.. 1982. que a distribuía a outro membro de sua comunidade. Ver JUNOD. como de resto em muitas outras sociedades africanas. In: KI-ZERBO. Ter que abandonar suas terras. Na cosmovisão hegemônica no Sul de Moçambique. José Fialho. viúvas.. antes de cortá-las era necessário proceder a ritos especiais.. A. Paris. nqüenga e cajueiro ___ eram cercadas de rituais. Ática/UNESCO. excetuada a machamba do chefe. 09:12. 181:218 e ainda o pioneiro TEMPELS. p. Se por qualquer motivo este súdito mudasse para outras áreas fora. La Philosophie Bantoue. Usos e Costumes. pp. de maneira que qualquer ação que desequilibre a harmonia das forças naturais pode por em risco a saúde individual e do grupo social240. 1949. Pode-se vislumbrar que tipo de impacto cultural teve este processo de expropriação de terras.

ver NEGRÃO. como força de trabalho barata. tem autorizado inúmeros projectos agropecuários que estão a ser implementados em áreas ocupadas pela população rural. Processo semelhante e. III: “Práticas rituais e mágicas dos processos de produção”. o que tem elevado o número de conflitos no sul do País. como vimos. 31/03 e 03/05/1997. e ter que se submeter a tarefas agrícolas próprias das mulheres. ao que indicam as fontes. estabelecendo uma nítida divisão do trabalho: aos europeus caberia mandar. conforme denuncia a Associação Rural de Ajuda Mútua (ORAM). árvores para si sagradas. Mecanismos de dominação universo mágico-religioso. em terras agora possuídas pelos brancos. Neste contexto. entretanto. a população negra espoliada de seus melhores terrenos. 191:240. seus efeitos não podem ser negligenciados. 102 de 19/05/1997. Este paulatino processo de expropriação de terras. causaram um impacto cultural tão ou mais profundo que o econômico. quanto o de criar um força de trabalho barata para servir aos interesses do capital. é importante analisar como. 98 e 101 respectivamente de 17/03. que rompiam com seus valores. criada há cinco anos e que reúne mais de 90 associações camponesas. com os danos daí decorrentes. na prática. Sobre as perspectivas e situação do debate em torno do tema. Ver Notícias. pp. 242 particularmente o cap. 86 . Esta expropriação só não foi mais alargada devido ao relativamente pequeno número de colonos brancos estabelecidos e pela baixa capacidade de investimento dos mesmos. trabalhar242. mesmo não tendo o Parlamento aprovado uma nova Lei de Terras.2. acabou por inserir-se. desestruturando toda uma visão de mundo. com maior intensidade. “Que política de terras para Moçambique?” artigo elaborado para subsidiar as discussões parlamentares e publicado nas edições do NotMoc nos 97. tendo que pagar impostos cada vez mais escorchantes. tanto tinha o objetivo de alienar do indígena as melhores terras e transferi-las aos agricultores brancos. dirigir. 15/05/97 e NotMoc. na esfera produtiva capitalista. José. ter que cortar. está sendo levado a cabo pelos atuais governantes moçambicanos que. aos negros.

O TRABALHO COMPELIDO: FORMAS E DIMENSÕES “Havia o vento sobre as cabeças dos milhos havia a chuva sobre as águas dos rios e havia a carícia de fogo do `cavalo-marinho' sobre a cabeça dos homens. outros tantos eram compelidos ao trabalho dentro da própria Colônia e milhares de trabalhadores eram ainda recrutados para suprir a crescente demanda das roças cacaueiras de São Tomé. de 07/08/1875.Acordos e Regulamentos Principais. golfo da Guiné e Moçambique constituíram suas principais fontes 243 Com a Portaria no 152 de 02/08/1875. Moçambique conquistado. assente em grandes latifúndios ___ roças ___ de café. Maputo. o colonizador apelou para a obrigação moral do trabalho para justificar a exploração que exercia e que se assentava sobretudo na utilização de trabalho sub-remunerado através do mecanismo de um recrutamento forçado. Boletim Oficial no 32. fruto de acordos regionais envolvendo força de trabalho e comércio243. desenvolve-se. que ficou sendo conhecido como chibalo. paulatinamente. I Série. agora sob o estatuto de libertos. A agricultura São Tomense. ver COVANE.3. a servir como reserva de força de trabalho barata: primeiro para as minas do Transvaal e. rumavam dezenas de milhares de recrutados.” José Craveirinha. desencadeado um processo de expropriação de recursos e bens. em regime de trabalho denunciado como escravo. na segunda metade do século XIX. contudo foi a partir do “Modus Vivendi”. a força de trabalho oriunda do continente e que anteriormente era enviada para a América. 1989. assinado durante a guerra sul-africana (1899-1902). em 1822. na esteira da extinção do tráfico de escravos absorvendo. Tendo se imposto manu militari sobre o território e pessoas. que se estabeleceu um vínculo explícito entre o fornecimento de força de trabalho moçambicana e a prioridade do tráfego do Transvaal pelo porto de Lourenço Marques. 87 . passou. pelo governo britânico no Transvaal. Luís António. introduzido em 1800. Para a principal legislação sobre o assunto. o governo colonial inaugurou a regulamentação da emigração de trabalhadores para a região. imposto necessidades monetárias. 1850-1964 . para a Rodésia. As Relações Económicas entre Moçambique e a África do Sul. mais tarde também. Arquivo Histórico de Moçambique. e de cacau. Angola.

R. Diversos Confidenciais. 245 Conforme O Diário de Notícias. foi acusado de ser complacente com os plantadores. 1914. Dec. ex. não raro eram denunciadas. Francamente. In: Actas do Colóquio Construção e Ensino da História de África.781 moçambicanos ingressaram em São Tomé. Boletim Oficial 37/1909. que nos disseram ser restos de 200 e tantos valentes que foram ‘inillo tempore’ prestar serviços em S. vol. ver MANTEIRO. Apesar da legislação que regulamentava as condições gerais para o recrutamento. justamente no ápice desta polêmica. cit. 1995. Lisboa. do Gov. Pressionada.3. Thomé. Annuário Commercial. foram embarcados de Angola para São Tomé 55. trabalho e salários. III. de.282. ver ALMEIDA. AHM-ACM. Tomé e Príncipe)”. Acra e Camarões. apud ALMEIDA.869 serviçais245. Conselho Colonial. a partir de 1903. Boletim Oficial 12/1913. Dec. 32. um movimento de opinião pública patrocinado pela Anti-slavery Society pelo boicote ao consumo de chocolate como forma de denunciar as condições de recrutamento e trabalho prevalecentes nas roças. mas com pouco eco no Foreign Office. P. Secção A. de. Ver p. transporte. p. Ed. cx. A polêmica agitou a Inglaterra. A Mão d'Obra em S. ou 22%. 2a Secção.. 247 Decreto de 29/01/1903. dos quais apenas 7. para a defesa do ponto de vista dos roceiros São Tomenses. do Auctor/Tip. cx. Lisboa. III. Boletim Oficial 06/1910. pelas próprias autoridades coloniais. para um estudo anatômico do cadáver do 244 Vinham ainda contratados da Libéria. cit. vol. Joaquim José Machado ao Ministro das Colónias. O trabalho compelido de recrutamento244. 1910. Carta do Governador Geral de Moçambique. seu descumprimento e as precárias condições de saúde e transporte a que eram submetidos os trabalhadores247. Maria Nazaré. “Cidades: construção e hierarquização dos espaços e dos homens (o caso de S.. Em 1912. Entre 1876 e 1900. foram repatriados. 08/12/1913. Francisco. umas 37 peles humanas com pretos dentro. 88 . O Africano comentou sob o título Peles Humanas: Vimos a bordo do vapor portuguez África enquanto ahi esteve fundeado. Dec. Entre esta data e 1915. Consulta no 94 de 22/08/1914. chegando às barras do Tribunal de Birminghan em 1910246. 297. Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para a Comemoração dos descobrimentos Portugueses. de 23/04/1914. Op. 09/12/1909. Nota Confidencial no 42. 07. ilustrado. R. 04/11/1904.11. O primeiro grupo de 104 trabalhadores moçambicanos desembarcou em São Tomé. P. a indústria cacaueira inglesa promoveu uma viagem de inspeção que sob o comando de Joseph Burtt percorreu por dois anos Angola e São Tomé e produziu um relatório que embora afirmasse que as formas de recrutamento e trabalho eram não livres. em julho de 1908. 17/07/1909. CEITA. Geral de Moçambique. Depois de uma série de denúncias na imprensa e mesmo dos cônsules britânicos em Angola. em 25 anos. Cf. Freire de Andrade ao Ministro da Marinha e Ultramar de 06/11/1909 e Arquivo Histórico Ultramarino. desencadeou-se na Inglaterra. Thomé e Príncipe. 246 Sobre a polêmica na Inglaterra e seus reflexos na política portuguesa e colonial. Op. p.

julgadas necessárias à implantação efetiva do domínio colonial dos administradores de circunscrições. legislou no sentido de atribuir aos administradores locais o papel de juízes. 89 .1. 1945. aqui só as mencionamos para podermos entender com maior clareza os mecanismos gerais de coerção e as condições de trabalho internas em Moçambique e. serviçais indígenas e escravatura. desordem. 520 e segtes e O Africano. então Comissário Régio encarregado de pacificar o Sul de Moçambique. António Ennes. que se via na obrigação de alimentálo. tal encargo. S. em Lourenço Marques. por 248 249 O Africano. p. Sonoro são as libras que todo este bando de miseráveis deixa aos negociadores de cabeças d’alcatrão. O trabalho compelido preto achamos dispendioso o transporte de tais esqueletos e muito infame. O Governador do Distrito de Lourenço Marques. inicialmente.3. são três tremendos poemas a fazer que não acham facilmente poeta que os rime em verso sonoro. Cit. Já fede tanta podridão!. ofensa à moral e ao pudor. nos termos dos regulamentos do trabalho prisional. acabava por recair sobre a família do preso. TRABALHO PRISIONAL Uma das atribuições. aos indígenas que fossem presos por embriaguez.. Antes mesmo do domínio efetivo. mesmo que morasse longe249. António. Ver ainda.248 As condições de trabalho e vida a que estavam submetidos os trabalhadores moçambicanos nos vários destinos merecem pesquisas específicas. foi a de deterem o poder de polícia.. 3. In: ENNES. de três a quinze dias. porém.. desobediência às autoridades e infrações dos regulamentos policiais. solicitou que fosse elaborada legislação que permitisse aos policiais sentenciarem sumariamente indígenas. Thomé. A Guerra de África. mais particularmente. que poderiam aplicar multas de trabalho. a edição de 23/05/1914. 15/06/1912. recebendo os sentenciados unicamente 60 réis diários a título de alimentação. 24/04/1909. o tratamento que se dá a seres humanos até aquele estado de lindesa. pouco digno. em princípios do século. “Organização Administrativa do Distrito de Lourenço Marques (1895)”. Op... pouco humano. por exemplo.

pois afirmava. doc 1563/50 de 06/10/20 do Sub-Intendente dos Negócios Indígenas de Quelimane para Secretario dos Negócios Indígenas no qual comunica que o indígena Culumenha foi condenado a cinco anos de serviço militar por despacho do Governador Geral. cit. inundações e outras calamidades públicas. Intendência. Argumentava que a prática era antiga. 253 Ver por exemplo para aprisionamentos na Ilha de Moçambique: AHM-DSNI. embriaguez. contava com um batalhão disciplinar num total de 562 praças. com razão. 1908. fiscalização e estatística de todos os atos relativos à emigração ou movimentação de indígenas. 127:131. antes mesmo que fosse publicada. 505. Em geral os indígenas considerados perigosos eram deportados para outros Distritos ou. proc. 1a Repartição. a regulamentação dos deveres dos régulos e outras autoridades indígenas. 250 90 . desordem. Repartição. que concentrar o poder de justiça nas mãos de quem detinha a força era abrir caminho às práticas discricionárias. de 22/12/1902. reagiu vigorosamente contra esta Portaria. os documentos números 364/33 de 18/06/17. que funcionava na Fortaleza de São Sebastião na Ilha de Moçambique. bastava autorizá-la oficialmente250. boa parte das atribuições de justiça foram delegadas ao seu titular. a determinação e fixação das zonas de terreno que deviam ficar exclusivamente reservadas a indígenas. Com a criação da Curadoria dos Negócios Indígenas e Emigração. nos termos dos regulamentos do trabalho prisional. que no período tratado teve vários nomes ___ Secretaria. Os critérios para a aplicação da variada gama de punições eram extremamente elásticos e dependiam do entendimento de seu executor. 16. por bebedeira. 50. variar de quinze a noventa dias252. a organização do fornecimento de trabalhadores indígenas tanto para o Governo. . em 1904. dos quais 84 eram europeus. no 31/1913. sendo 60 destes também presidiários.. ficando o AHU. pp. cx. Curadoria e Negócios Indígenas. 50. O trabalho compelido mente indígenas. . já em 1896. a critério do comissário. cx. pequenos furtos. In: Boletim Oficial de Moçambique. Annuário de Moçambique 1908. de 16/07/1913. etc. a fiscalização do trabalho indígena. Moçambique. p. p. a regulamentação. a coadjuvação às autoridades militares na organização e recrutamento da polícia indígena. como para o serviço de particulares.3. elevada a Secretaria em 1907. Joaquim Mousinho de. e estipulou penas de trabalho correcional gratuito que podia. Imprensa Nacional. a portaria 1075 voltou a conferir ao comissário de polícia de Lourenço Marques atribuições para julgar delitos e transgressões cometidas por indígenas. tais práticas punitivas persistiram251. Lourenço Marques. 252 Portaria Provincial 1075 de 26/07/1913. ultraje ao pudor e à moral pública. 614/22 de 03/09/17 e 613/33 de 03/10/1917 da Secretaria dos Negócios Indígenas ao Secretário Geral do Governo e para incorporação militar a caixa 1371.. desobediência e vagabundagem. os praças recebiam 60 réis diários253. Op. a organização na assistência aos indígenas nas crises provenientes de epidemias. tais como vadiagem. ano 1920. então. a organização do registro civil dos indígenas. aprisionados no Depósito Geral de Sentenciados. a codificação dos usos e costumes cafreaes dos povos indígenas. Secção B. incumbia: a organização da justiça indígena. Providencias. 990. Ver O Africano. entretanto. Governador do Distrito de Lourenço Marques à Secretaria Geral do Governo de Moçambique. Ver SOUZA RIBEIRO. Serviços e Negócios. “Confidencial 88”. tropas de 2a linha e sipaios. mais correntemente incorporados às tropas militares para servirem em pontos distintos do vasto império colonial ou. Ver ainda ALBUQUERQUE. Em 1913. o qual. O Africano. 251 À Curadoria.

O Regulamento Geral do Trabalho Indígena nas Colónias (1914) estabelecia em seu art. a partir de 1916. Era prática usual da polícia efetuar. à noite. 24/09/1913. A montagem de tal sistema não estava limitada ao universo da ação policial propriamente dita: manter a ordem e os bons costumes. Op. 19/07/1911. com a diferença de que somente metade desse salário seria pago ao prisioneiro indígena ao terminar a pena e.. uma insgnificante minoria é que fica acorrentada em trabalhos públicos. estando os condenados fadados a trabalharem em troca de alimentação e vestuário e. 256 O Africano. mas até o pulsopresos eram256 podiam ser entregues a particulares que os requisitassem. envolvendo as mulheres ou parentes dos presos. [. as famosas rusgas que percorriam os subúrbios de Lourenço Marques. Portaria Provincial no 6 publicada no Boletim Oficial de Moçambique. gratuita e. 91 . p. em geral. 204 que a pena de prisão poderia. mas porque não se apura que à hora da prisão estivesse trabalhando. prendendo quantos homens válidos achasse pelo caminho. sob a alegação de vadiagem: “No dia seguinte. os julgamentos eram protelados enquanto o Estado não terminasse a obra na qual empregava os detidos254. no 16/1915. mais tarde um outro administrador.3. outros provam simplesmente que trabalham e saem e enfim. estas foram oficialmente convertidas em penas de trabalho correcional que podia variar de três dias a um ano. 8. não porque na sua maioria seja vadia. que era também médico. O trabalho compelido indígena à mercê das mais variadas arbitrariedades dos administradores. Op. cit. mudou a corrente para o pescoço. muitas vezes.. O Africano. ser substituída pela de trabalho correcional na proporção de dois dias de trabalho por um de pena. a outra metade. seria utilizada para cobrir as despesas com os policiais empregados em sua vigilância: ou 254 255 MAVULANGANGA. dependendo do valor da multa aplicada. pp. policiais brancos e dos sipaios negros que os submetiam a torturas e maus tratos físicos. para indígenas. acorrentados como aponta O Africano: “Há tempos os presos eram acorrentados pela cintura.” fornecidos prioritariamente para serviços e obras públicas. 14:5. Ver a mesma prática no começo do século em MAVULANGANGA. invadindo casas e quintais. cit.] e do pescoço a corrente desceu Os esquerdo. suplemento. se possível. além de chantagens monetárias ou sexuais. O que se buscava era conseguir recrutar soldados ou força de trabalho e. uns pagam e saem porque tinham e teem serviço.”255 Sequer havia o objetivo de arrecadar multas pois. sendo o seu salário igual ao dos demais serviçais do mesmo patrão.

descontavam-se dos salários. numa sua propriedade agrícola [.. conforme indicam os trechos abaixo: “[haviam] sido fornecidos presos indígenas a um tal Martins.. parag.] Henrique Fernandes da Silva [. Assim.. além das despesas com vigilância. roupas __ em geral. cx. Secção A. não pagando este. sacos de estopa __ taxa de cadeia.] ao empreiteiro Bucellato”258 “[.. 4o. 712 e 713 92 . Inquéritos e sindicâncias. detidos por falta de pagamento do imposto de palhota.1933.”259 Quando o trabalho prisional era pago. 109. para a referida propriedade agrícola. indígenas que ao tempo se encontravam detidos na Administração por falta do pagamento do imposto de palhota. tendo sido enviados de noite.] o guarda europeu do Corpo de Polícia desta Vila. e aos quais e até a data do levantamento deste auto de notícia. Embora.. a partir de 1917.. pelo Administrador efetivo.Auto de Investigação aos serviços do Corpo de Polícia Civil de Lourenço Marques.] e empregava os referidos indígenas no fabrico de óleo de côco.1917. a legislação determinasse que o trabalho prisional fosse pago. sem que aos mesmos efetuasse qualquer pagamento pelo seu trabalho... Lourenço Marques. 82. nem salário.1925.. oito indígenas. Processo de inquérito à Administração do Concelho e Comissariado de Polícia de Inhambane .] [. comerciante residente na Rua Primeiro de Maio. 259 AHM-ACM. 258 AHM-ACM. que praticamente nada sobrava ao prisioneiro. cx. em Nhamua.Inspecções .. de João Jacinto Estevão. percentuais para comida. o prisioneiro arcava com os custos diretos de seu cárcere257. O trabalho compelido seja.[. durante a Superintendência do Comissário Hermínio Gonçalves Carneiro e Adjunto Augusto de Souza Dias . Ver art. para trabalharem na construção de um edifício e carregarem carvão do caminho de Ferro para a casa do mesmo Martins. Imprensa Nacional. continuando os presos a serem fornecidos sem salários aos machambeiros.. a empresários e mesmo nas terras de policiais. nem alimentação dos presos [. pp. Volume 04.. na propriedade agrícola “Quinta do Sanatório”. 1919. de tal maneira..] dezessete indígenas que em Agosto de Mil Novecentos e trinta e dois.[.] trazia a trabalhar obrigados.. não era raro verificar-se a ocorrência de burla. 257 Regulamento Geral dos Trabalhadores Indígenas nas Colónias Portuguesas . escoltados por um cipai [sic] desta Administração..3. foram mandados prestar serviços pelo Administrador efetivo Gonçalves de Freitas.] que nas mesmas condições eram fornecidos presos para trabalharem [. não tinha sido feito qualquer pagamento. 627 ..

cx. O trabalho compelido não é de se estranhar que a prática de agarrar narros e metê-los na cadeia fosse corriqueira e ocorresse sob quaisquer pretextos. 108. com o fim do estatuto do indigenato262. Em Moçambique. em pressionar para baixo os custos e incrementar o controle estatal e do colono sobre a força de trabalho. trabalho compelido ou mesmo escravatura. por exemplo. tinha-lhes sido diminuído. surge na África Central e Austral abrangendo formas de trabalho forçado. mal pago ou mesmo não-pago. Francisco Chichi escreveu ao Governador Geral informando-o de que os 19 sentenciados a serviço da Secretaria de Obras Públicas estavam vestindo sacos pois já havia um ano e seis meses que não recebiam fardamento e. sendo abolida somente em 1962. 3. Em 1927. Seus argumentos nem sequer foram considerados e o despacho foi lacônico: “Não pode ter andamento por não estar devidamente selada” 260. mesmo já sendo simbólicos. cx. de 14/04/1927. o Comissariado de Polícia de Lourenço Marques tinha em média 500 presos disponíveis e.2 CHIBALO O termo chibalo. 220 deles estavam fornecidos para o Estado. foi no chibalo que se assentou basicamente o crescimento econômico em Moçambique. A/10. de 07/08/1923.Secção M . De Francisco Chichi ao Governador Geral. 262 Ver diversos apenamentos para este período em AHM-DSNI . os salários. 261 AHM-DSNI. AHM-GG. seja o trabalho respectivamente. assim distribuídos: 25 para a Repartição de Agricultura. 1735. 20 para a Quinta Experimental do Umbeluzi e 100 para a Repartição de Obras Públicas261. A prática de penalizar com trabalho correcional persistiu até tarde. Informação da Secretaria dos Negócios Indígenas. cx. 260 93 . ou resultado.Tribunais Indígenas.3. seja ele realizado através de contratos. desde que algum particular influente ou repartição pública precisasse de braços. trabalho contratado. o termo designa todo tipo de trabalho conscrito. ou variações do mesmo. Apesar do inegável propósito. 75 para a Colonização Oficial. em abril deste ano. além disso. na utilização do trabalho prisional. Em agosto de 1923.

régulos e sipaios envolvidos na operação de recrutamento265. A seguir. O Brado Africano. 94 . o trabalho obrigatório na abertura e conservação de estradas era conhecido como mwangani e o trabalho nas sisaleiras como m’panga. p.. In: Não Vamos Esquecer!. Charles van. determinava que o régulo deveria fornecer à requisição do administrador os trabalhadores “que ele precisar para obras de utilidade pública que hajam de executar-se dentro dos limites da circunscrição”264. em resoluções baixadas na qualidade de Comissário Régio durante as operações militares no sul de Moçambique. O mercado não podia contar tão somente com o trabalho prisional. Em Cabo Delgado. O mecanismo criado funcionava. A. pagavam taxas de recrutamento que incluíam um percentual per capita a ser distribuído entre os administradores. Embora tal estratégia de recrutamento atendesse a contento às necessidades das administrações locais. notificar os régulos. Aldeia Comunal Namaua. 26/01/1929. Cabo Delgado em 28/07/1982. os empregadores. da seguinte forma: a Secretaria dos Negócios Indígenas (Repartição. principalmente p. vadiagem e outros pequenos crimes263. viesse a garantir que o fluxo e o volume de força de trabalho a ser fornecida correspondessem às necessidades de tal mercado. Cf. 53:5 e entrevista de Joseph N’kwaveke Mfuje à Oficina de História. por sua vez. (1895)”. cit. com pequenas variantes. não dava conta de um mercado de força de trabalho mais amplo. os recrutados eram guardados. ao receberem os trabalhadores que lhes tinham sido vendidos. mandava. dez/83.. Op. 504. realizado pelos detidos por bebedeira.3. Mueda. Pagavase também os gastos com transporte e alimentação durante a viagem. O administrador. ZAMPARONI. pp. consoantes as regiões e situações. notificava os administradores das circunscrições para que recrutassem o número de trabalhadores pedidos. de forma mais ou menos perene. António Ennes. Serviços) recebia os pedidos das repartições oficiais ou de empregadores privados nos quais se especificavam a quantidade de braços e o tipo de trabalho a que se destinariam e. cit. “O trabalho forçado no norte do País”. 265 Vendidos era o termo que os trabalhadores utilizavam para designar sua situação. 264 “Organização Administrativa do Território do Maputo. In: ENNES. 1945. Valdemir. Antes mesmo que qualquer regulamento ou código de trabalho tivesse sido elaborado. através do chefe do posto. Centro de Estudos Africanos/UEM. a seguir.. nos 2/3. O trabalho compelido prisional. esporádico e instável. Intendência. Era preciso desenvolver um mecanismo articulado e ágil que. Maputo. Boletim Informativo da Oficina de História. Cf. 99 e seguintes onde são apresentadas as variações do termo e formas de trabalho forçado na África Austral nos finais do século XIX e princípios do XX.. transportados e entregues no local de trabalho às expensas do Estado. Chibaro. O requisitante “ou 263 ONSELEN. que tinham a obrigação de fornecer o contingente exigido. Op.

Cardoso. como Governador do Districto [de Inhambane] permitia-se ao luxo feudal de se fazer transportar em ‘riquichó’ puxado por pretos. em 1915. tendo que andar 30 km por dia. vol. em meados da década de dez. teoricamente para servirem aos interesses do Estado. quer para empresas agro-industriais ___ Inhambane Sugar Estates e Inhambane Oil Union ___ quer para as obras do Porto de Lourenço Marques268. calculava que anualmente eram recrutados coercivamente cerca de 141. acima apontado. Chai-Chai. Op. 13. que eram vencidos à força de berros atroadores e golpes de cavalo marinho!”269 Apesar do elevado número de trabalhadores engajados. durava seis meses. o qual. Almeida Garrett. com uma carga aproximada de trinta quilos nos ombros. no Distrito de Inhambane267.500 homens.. AHM-DSNI. 209 e 221. Circular da Secretaria dos Negócios Indígenas aos Administradores do Bilene. à sua propriedade. 10 ou 12 kilometros de areia solta. cit. de mercadorias e pessoas. Assim O Africano descreve-nos tal prática: “No seu doentio ódio à raça negra e sagrado respeito que tem pelos quadrúpedes ___ a ponto de não querer bichos para o trabalho ___ o Sr. sendo a sua autoridade apenas nominal. p. com salários de 100 réis diários. que aliás era o mesmo salário que o Estado pagava. isto é alugava-os a um certo preço por dia. II. o recrutamento não se fazia sem oposição. O governador deste Distrito. tendo inclusive que providenciar a própria comida. quer estivessem a serviço do Estado ou de particulares. Th. A. 95 . 88:9. M’Chopes. A. aos carregadores chibalo. Os próprios administradores recrutavam trabalhadores. pois alegava-se que o Estado não tinha verbas para alimentação e nem para pagar salários. cit. 135. e o pagamento era-lhe feito a ele. em 1906. 268 GARRETT. Chibuto e Guijá. de 25/01/1915. a presença portuguesa. como lamentava o Governador Garrett: 266 267 FREIRE DE ANDRADE. mas que na verdade eram utilizados para fins particulares quer nas tarefas agrícolas quer como carregadores.. ainda não se havia consolidado totalmente. de Almeida. a seu serviço.3. que pagava aos indígenas no fim do seu período de trabalho”266.Op. para servirem como carregadores. cx A/10. Além deste número eram ainda fornecidos trabalhadores chibalo quer para a agricultura. Em algumas regiões do interior. particularmente pp. ganhando uma diária entre 100 e 150 réis. além de um prémio por cabeça. Não raro porém trabalhava-se de graça. O trabalho compelido empregava ele mesmo os indígenas ou os negociava.

quando entrou em vigor o Regulamento Geral do Trabalho dos Indígenas nas Colónias Portuguesas. como fugiam aquelles que para transporte de pessoal e cargas mandava chamar. Cruz Ltd. cit. Pina Cabral) e Marracuene Agrícola e Comercial (Antonio Vicente Pinheiro). Judith. o então Alto Comissário Brito Camacho assinou acordo com J. 31/01/1925. Cotton Plantation. 1980. University of Durban. The Delagoa Bay Stevedoring and Landing Co. a Sociedade de Recrutamento de Indígenas. para assumir tal tarefa. Vice-secretários: Empreza Agrícola e Pecuária do Impamputo e Martinho da Silva. P. chibalo. não angariando nunca um só preto para soldado. Uma completa anarchia. pp. O próprio governo. 213. Empresa Agrícola do Incomati (Dr. cit. para trabalhar em Lourenço Marques. Ltd. 951 de 04/10/1914. reunia os interesses capitalistas. O trabalho compelido “Sem força. Mandavam-se chamar e não se apresentavam. Th. Direção Geral: herdeiros de A. segundo o qual o Estado se comprometia. p. p. Capital and Migrant Labour in Zambézia. tendo a fiscalizar uma grande extensão de território. que os que angariava todos fugiam. entretanto. maço 96 .. (Dr. 273 O Africano.3. A composição de seu corpo diretivo. GARRETT. modificado em 1915 (Boletim Oficial no 14/1915) e em 1917 (Boletim Oficial no 27/1917). 271 Regulamento Geral do Trabalho dos Indígenas nas Colónias Portuguesas. Ltd. Secretários: A. HEAD. durante 20 anos. Neves & Cia (Sociedade Pecuária) e Georges A. 269 270 O Africano. Anuário de Lourenço Marques . 18/12/1915.1932. Premier Cotton Estates of South Africa S.). tese de doutoramento. que recebeu o monopólio do recrutamento de trabalhadores ao Sul do Save. Mihaleto. 19/07/1911. Davam-se ordens ao régulos e estes não a cumpriam.”270 Este mecanismo de recrutamento de força de trabalho funcionou. Garcia Marques). In: Estudos Moçambicanos. de Almeida. entre 1922 e 1924.199. a fornecer e manter permanentemente 3. Mozambique: A Study of the Labour Force of Sena Sugar Estates Limited. estava o commando militar continuamente sujeito a menoscabos da sua auctoridade. 272 Ver O Africano. Conselho Fiscal: A. 9. retirando do Estado tal atribuição271. “A Sena Sugar Estates e o trabalho migratório”.A. posto em vigor pelo Dec. Op. em 1932. Durban. Fragoso.000 trabalhadores nas atividades de suas empresas agrícolas e.755 indígenas. cx. Secretaria dos Negócios Indígenas. até 1915. Hornung. (1). quer investidos na agricultura quer os ligados às atividades portuárias: Assembléia Geral: Presidente: Padre Vicente do Sacramento (Mailana Agrícola Ltd. não observava a lei: em 1921. Cf.. a Secretaria dos Negócios Indígenas forneceu. Op. a contar com o apoio dos agentes administrativos na obtenção dos trabalhadores indígenas272.53:72 e da mesma autora: State.. que transferia para empresas particulares a tarefa de recrutar os indígenas solicitados. 991. não conseguindo reunir gente para o trabalho do governo. o que equivaleu a 90% das requisições que recebera273. Vice-presidente: Incomati Estates. Amadeu José Gonçalves & Ca. que continuou. 1980 e AHM-ACM. na legalidade. porém.. Foi criada.

Como argutamente já observara O Africano acerca da legislação portuguesa. 09/04 e 24/12/1927.316 45. entretanto. 339:341.043 1927 14. “a lei é boa e faz um vistão mas é nos arquivos das secretarias.3. 371 e do Anuário Estatístico da Colónia de Moçambique . Imprensa Nacional. de 20/08/1927. 5o. 1927.Moçambique . mais uma adequação da legislação portuguesa às decisões da Sociedade das Nações que o acusava de escravagismo.233 Note-se que o número de trabalhadores compelidos. totalidade dos salários pagos e prémio de engajamento recebido. excluindo os Distritos de Cabo Delgado. pp.399 8. que proibia o recurso ao trabalho forçado um ano após sua publicação. O Brado Africano. 274 97 .393 115.533 de 23/10/1926 e publicado em Moçambique no Boletim Oficial no 48 de 27/11/1926.129 204. In: Boletim Oficial de Moçambique.1926/1928 Distritos Lourenço Marques Inhambane Quelimane Tete Moçambique Totais 1926 20. O Estatuto foi estabelecido através do Decreto 12. Na prática a lei foi desconsiderada. editou-se o Código do Trabalho Indígena nas Colônias Portuguesas de África que reforçava a proibição “absoluta do trabalho obrigatório ou compelido para serviços de particulares ou privados” pois. Niassa e Manica e Sofala.758 9. Fora d’esse grato ambiente impera o cavalo marinho e o ponta-pé”276. ainda estão faltando os dados das circunscrições do Zumbo.425 31.520 138. Lourenço Marques.128 1928 20. todas do Distrito de Tete.. no 34.6% maior do que os fornecidos em 1927. Ver Art. Em 1929.347 48. Marávia e Macanga.anos 1926. Civil e Criminal dos Indígenas de Angola e Moçambique. foi. III série. reúne apenas os números de trabalhadores fornecidos. 1929.934 143..181 66. O trabalho compelido O Estatuto Político. na verdade. conforme mostra a tabela abaixo que. é 50% maior que o de 1926 e 42. e não teve qualquer efeito real274.523 50. segundo afirmava em seu preâmbulo. exceto quando se tratasse serviços de interesse público inadiáveis e sempre remunerado.104 25. 275 Nos números referentes a 1928. fornecidos em 1928. nas áreas sob administração do Estado. portanto após a entrada em vigor da lei que proibia tal prática. administrados por companhias concessionárias275: Trabalhadores fornecidos . p.545 8. Dados extraídos a partir do Mapa estatístico dos indígenas requisitados e fornecidos durante 1926.965 11. com designação dos serviços em que foram empregados. 1928.939 6. a política de recrutamento forçado vencera a “irresolução” e a “relutância instintiva” do 1924. de 23 de outubro de 1926.

Contra a manutenção do trabalho forçado. 02/1929 (Suplemento). em representação da Associação dos Lojistas ao Ministro das Colónias. Entretanto. os trabalhadores evitavam ao máximo oferecer-se para trabalhar nas machambas dos colonos e isto está claramente expresso. como se não existissem outros processos para a sua integração na civilização. por exemplo. 279 AHM-DSNI. o “indígena. efetuado por trabalhadores voluntários. o O Brado Africano argumentava que. para trabalharem em tarefas agrícolas de suas machambas279. Secção B . 1929. o Acto Colonial.3. o Estado forneceu a Paulino dos Santos Gil. Diante destes argumentos o Estado manteve o sistema de fornecimento funcionando conforme demonstram os cerca de duzentos contratos referentes ao ano de 1929: por exemplo. Guia 14/929. estabeleceu que.Folha de pagamento. 19/01/1929. E quando queira trabalhar voluntariamente. na qual se afirmava que a aplicação de tal legislação representaria a ruína da agricultura colonial pois. seguindo o espírito do Código editado no ano anterior. em regra a chicote”. A nova legislação não era seguida à risca nem mesmo pelo Estado: até nos serviços de carga/descarga do Cais que era. o novo 276 277 O Africano. isto não significou o fim do chibalo. 11/12/1915. num momento da “marcha progressiva da liberdade das raças”. Na verdade a nova legislação era mais uma resposta às pressões que Portugal continuava sofrendo nos fóruns internacionais. O trabalho compelido indígena para o trabalho277. através de um deles. Em 1930. cx. 281 O Brado Africano. Contrato 196/929 indígenas fornecidos a Paulino dos Santos Gil . 10/08/1929. um dos maiores empresários da Colônia. Ver o “Preâmbulo” do Código do Trabalho Indígena nas Colónias Portuguesas de África publicado no Boletim Oficial da Colónia de Moçambique. salvas muito poucas exceções. Imprensa Nacional. do que um reflexo da situação nas colônias. onde se pagavam salários mais altos. mal pago ___ ___ quando é pago mal alimentado e ‘afagado’. 278 Ver a íntegra da representação em O Brado Africano de 20/07/1929 e 27/07/1929.Curadoria e Negócios Indígenas. 40 indígenas por seis meses. Lourenço Marques. Na prática. não fazia sentido forçar o indígena a trabalhar única e simplesmente para a riqueza alheia. contava com 428 artigos. continuando o mesmo a ser “degradado. 280 O Brado Africano. entre 29 abril a 31 de outubro. 734. já há algum tempo. preferirá o trabalho das minas de ouro do Rand”278. particularmente a educação280. apelava-se para o aprisionamento de trabalhadores para realizarem tais tarefas281. dali em diante. o Estado estaria “desobrigado” de fornecer trabalhadores chibalo a particulares. 98 . não trabalha sem que a isto seja obrigado.

no dia-a-dia. em execuções de decisões judiciárias de carácter penal. etc. sipaios. estando isentos aqueles que se enquadrassem numa das seguintes situações: homens com idades inferiores a 14 e os com idade superior a 65 anos. 284 Regulamento do Trabalho Indígena na Colónia de Moçambique. Secção A.3. secretários. Inspeção. incriminam o Administrador e o guarda europeu por terem fornecido presos para trabalharem gratuitamente em propriedades agrícolas privadas. Ver Art. cx. inválidos e doentes. sem salário algum. Uma vez entregues aos patrões. os indígenas presos por falta de pagamento do imposto de palhota285. autoridades administrativas e sipaios. de 1933 que. deixando espaço para que a norma fosse burlada pelos próprios agentes da administração ___ administradores. estradas ou ferrovias. Inquéritos e Sindicâncias. além de trabalhos agrícolas. Ver por exemplo AHMACM.570 de 08/07/1930. limpeza de poços e caminhos. O Estado poderia ainda recrutar trabalho obrigatório nos casos de “força maior”283. 627. Embora a lei não mais permitisse o chibalo por motivos fiscais. em ocupações cujos resultados lhes pertençam. 99 . O significado e latitude de tal expressão não foram definidas pelo Regulamento. entretanto. mas especificou que o Estado poderia lançar mão do trabalho obrigatório ___ quando não conseguisse voluntários. O Regulamento de Serviçaes e Traba- 282 283 Acto Colonial. 01/07/1933. 19 e 20. 311. os integrantes regulares do serviço público e das forças policiais e ainda os emigrantes na vigência do período de seis meses após o seu retorno. 285 O Brado Africano. mais uma vez tal dispositivo foi ignorado e continuou sendo comum submeter a trabalhos forçados. para o- bras de construção e/ou reparações de pontes. o Acto Colonial foi seguido pelo Regulamento do Trabalho Indígena na Colónia de Moçambique o qual ratificou a proibição do fornecimento de trabalhadores chibalo para particulares. Processo de Inquérito à Administração do Concelho e Comissariado de Polícia de Inhambane. guardas. Dois meses depois de sua edição. ou para cumprimento de obrigações fiscais”282. O Regulamento manteve a possibilidade de se punir os crimes dos indígenas com até um ano de trabalho correcional remunerado284. O trabalho compelido instrumento legal continuava a assegurar ao Estado o poder de “compelir os indígenas ao trabalho em obras públicas de interêsse geral da colectividade. Ver Art. foi publicado em 04/09/1930. ___ que dela deveriam ser executores. às páginas 712 e 713 do volume 04. cujo produto deveria reverter para os próprios indígenas. posto em vigor pelo Decreto 18. O Regulamento do Trabalho Indígena na Colónia de Moçambique. 271 e 272. os trabalhadores ainda continuavam sujeitos a toda uma gama de práticas violentas e arbitrárias. Art.

menção aos aspectos mais cruéis.. Como resultado desta selvajeria. e suas modificações de 1915 e 1917. s/ed.] tinha os pulsos esfolados até os tendões. no dia seguinte. que pudessem lembrar a escravatura. sua mão direita estava irremediavelmente enclavinhada. Tomemos como exemplo o ocorrido na localidade de Chinhanguamine. [Imprensa Nacional].3. em carne viva. cit. 2o. de 1914. que podiam prender temporariamente os indígenas que tivessem cometido alguma falta e puni-los com métodos que somente excetuavam “o uso de algemas. o Malawene foi espancado com o cavalo-marinho. 1o. permitindo aos mesmos “empregar os meios preventivos necessários” para garantirem a disciplina da força de trabalho. em 1944. a aplicação de multas pecuniárias e a privação de alimentos. com vinho. pegadas de calçado semelhantes à que este trabalhador usava. pelo cantineiro Júlio da Silva e o preso não foi levado para a administração mas para a cantina: Aí. Foi ainda privado de comida durante quase vinte e quatro horas e amarrado ao tecto. grilhetas. próximo à cantina. Nas 286 Regulamento dos Serviçaes e Trabalhadores Indígenas no Distrito de Lourenço Marques . 1904. especialmente art. Op. dava poderes de polícia aos patrões. no texto. mas mantiveram em mãos dos patrões o poder de polícia “ enquanto a autoridade não o possa fazer”. A cantina de um colono branco foi roubada e este imputou a culpa a Malawene. Lourenço Marques. 100 . 30. art.1904. Previa que nos estabelecimentos industriais ou agrícolas onde trabalhassem mais de quinhentos serviçais.. 28. cujas práticas permaneciam correntes. comandados por um branco287. gargalheiras e outros instrumentos que tolham a liberdade de movimento. 3o e art. A prática entretanto ia além da lei.. suprimiram do texto as formas permitidas de violência. 47. 287 Regulamento Geral dos Trabalhadores Indígenas das Colónias Portuguesas. seria permitido ao patrão ter postos de polícia com policiais indígenas. [. O Regulamento Geral dos Trabalhadores Indígenas nas Colónias Portuguesas. O trabalho compelido lhadores Indígenas no Distrito de Lourenço Marques. um trabalhador dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques.”286 Os diversos regulamentos que lhe sucederam mantiveram o mesmo espírito. apenas suprimindo. de 09 de setembro de 1904. parag. unicamente porque tinham sido vistas. Os sipaios mandados pela administração para averiguar o fato foram subornados.

Memórias.. mas deixavam aos patrões a incumbência de julgar tais limites289. ele manteve que o seu único crime era calçar sapatilhas. Afirmava-se. pois seu irmão recorrera a Karel Pott. por exemplo. 101 . Raúl Bernardo. cx 1590. Sob tais condições de trabalho e alimentação. de propriedade de Eduardo de Souza Saldanha. também. parag. Assunto: Queixas de indígenas contra europeus.. p.. Secção B.”290 O trabalho rural. em 22/01/32. Mesmo no setor mais dinâmico da economia colonial de Moçambique. não era de se estranhar que muitos mor- 288 289 HONWANA. Nem mesmo as frutas produzidas na machamba os trabalhadores podiam comer sem que fossem severamente punidos: em 1932. sem remuneração alguma e tocados ainda a cavalo marinho. 290 O Africano. 291 AHM-DSNI.”288 Este caso foi um dos poucos em que o branco agressor acabou condenado à prisão e obrigado a indenizar o indígena. Pasta anos 1930/34. Regulamento Geral dos Trabalhadores Indígenas. 20. era comum o desrespeito às leis e normas. o primeiro e então único advogado mulato de Moçambique e ativo militante do Grémio Africano de Lourenço Marques.3. 1905/20 e 234/20 do Administrador da Circunscrição do Maputo ao Director dos Serviços e Negócios Indígenas. Os vários regulamentos do trabalho indígena também estipulavam vagamente quais seriam os deveres dos patrões quanto às condições de trabalho. que não se poderia exigir do indígena “trabalho superior às suas forças”. o complexo ferro-portuário. quanto à alimentação. etc. cit. alimentando-se com uma papa de farinha e abóboras mal cozidas.. eram extremamente vagos quanto aos seus direitos. Nas plantações de cana do vale do Umbeluzi. Os advogados brancos raramente aceitavam este tipo de causa. Proc. O trabalho compelido averiguações. um dos mais gananciosos membros da burguesia branca local. art. 2o. Op. os trabalhadores eram levados amarrados sob escolta policial e eram obrigados a trabalhar cerca de dezesseis horas por dia. não tinha hora para acabar. 92. o encarregado da propriedade submeteu vários indígenas a palmatoadas sob a acusação de terem roubado mangas para comer291. docs. que aceitou defender o agredido. 19/11/1913. Curadoria e Negócios Indígenas. As concessionárias de carga/descarga faziam “trabalhar os pobres pretos antes e depois das horas regulamentares. jornada de trabalho. 2o. Se eram detalhistas quanto às obrigações dos indígenas. proximidades de Lourenço Marques.

ano 1924 e ainda entrevistas com Pedro Pacheleque Faleca (07/07/1977). cx. Um método usual de se organizar o trabalho agrícola consistia na fixação de metas coletivas ou individuais e. em 1929. em Xinavane. fossem fixados contratualmente por mês à base de £. Cumbe e Joaquim Cumbane (04/07/1977). outros em simples folhas d'árvores e outros em esteiras nojentíssimas. Administração. de farinha de milho. pois como pode calcular. somente após atingi-las. History of African Labor.] Evidentemente que aquela alimentação e aquele charco onde dormem deve trazer doenças terríveis e fizemos estas perguntas ao nosso homem. embora os salários. em cada 24 longas horas. Op. a cerca de um terço do valor contratado. nos disse o homem. O trabalho compelido ressem e que praticamente todos tivessem sua saúde depauperada 292. 734.Folha de pagamento. mas mais assombrados ficamos quando nos disseram que os pretos só tem uma refeição por dia! Quer dizer. Apud PENVENNE. 3$26 ou em torno de Esc. Secção A. que é no que consiste a alimentação dos indígenas ali. Nas machambas de Paulino dos Santos Gil.. 293 AHM-DSNI. eram de fato pagos somente os dias efetivamente trabalhados. reduzia o salário diário a cerca de Esc.3. 158$50. Jeanne. Nos setores agrícolas em que havia maior investimento de capital..0. um bloco.. cx.Curadoria e Negócios Indígenas. ninguém vai incomodar o doutor que está a grande distância. com esses olhos que a terra há-de comer. embora isto fosse proibido por lei293.. 'Morrem muitos. Alfeu T. Guia 14/929. o que correspondia a cerca de Esc. os homens. Pela folha pagamento pode-se ver que os trabalhadores compelidos não tinham descanso. que é composta de um tijolo e . um tijolo. ou como lhe queiram chamar. ou seja. 101$06 mensais. o indígena tem como refeição um bocado de entulho rijo e indigesto a que chamam ali de koyl. [. 102 . é que se encerrava a jornada diária..1. Contrato 196/929 indígenas fornecidos a Paulino dos Santos Gil . Estávamos assombrados. trabalhadores da Incomati Sugar Estates.5... De vez em quando ___ con- 292 AHM-DSNI. trabalhando todos os dias do mês. cit. proc. transportando alguns em sebentíssimos sacos. mais nada! Vimos. 308. 37. A situação nas plantações de cana da Incomati Sugar Estates era relatada nas páginas de O Brado Africano nos seguintes termos: “Fazia-se já noite e aproveitamos a ocasião para examinar a alimentação. o que. p. por causa de um preto doente. 23. depois dos descontos. Secção B . as condições de trabalho não eram diferentes.

em Lourenço Marques: “Exame microscópico . embora soubessem que tinham direito a receber peixe e carne296. 295 O Brado Africano. não lhe é marcada a tiqueta e não tem o tijolo. A fiscalização. a alimentação era deficiente em termos calóricos. 95. Secção A . informa que a Incomati Estates em um dos seus “talhões de cana sacarina. 296 Ver AHM-DSNI. acabavam comendo papa de farinha de milho ou mandioca. 51. de 21/04/1921. que caberia à Secretaria dos Negócios Indígenas. e peixe ou carne semanalmente ___ os trabalhadores. apresentado à Secretaria dos Negócios Indígenas e AHM-DSNI. Esse e outros como esse são ‘atirados’ por aí pois. é por tarefas. 1924. Secção A . o que não é novidade ali. Relatório de Jaime Teixeira. 20g de sal e 100g de amendoim distribuídas em duas refeições diárias. preparada com produtos impróprios ao consumo e servida deteriorada297. de 09/05/29. Missão de Inquérito sobre trabalho indígena no Distrito de Moçambique. era ineficaz e. eventualmente.. a partir dos anos vinte.Administração. 294 O Brado Africano.”295 Embora. 103 . tomemos o resultado da análise no 6. AHM-DSNI. normalmente. Secção A . 07/02/1925. AHM-DSNI. 23. Proc. como viu. O capataz marca aos negros um bocadão de terra para trabalhar ___ um ntehe ___ como lhe chamam e o preto é obrigado a aprontar aquilo num dia. Carta do Administrador de Xinavane ao Intendente dos Negócios Indígenas e de Emigração. Se o negro não dá conta do trabalho marcado.contém fungos em abundância. encontrou o esqueleto de um indígena”. Missão de Inquérito sobre trabalho indígena no Distrito de Moçambique.Administração. cx. feijão ou amendoim e. cx. doc. pois já se trabalhou em noites de luar. Secção A . 95. 800g de farinha de milho. cx. Proc. contra as determinações da lei. o cemitério é só para brancos. 37. 297 Ver entre outros O Brado Africano de 25/10/1919 e 20/02/1925. 22. mal cozida. 1924. 264/17. 14/02/1925. vê-se o pobre negro obrigado a ir para o trabalho de madrugada..635 de uma amostra de farinha de milho requerida pela Secretaria dos Negócios Indígenas e realizada em 16 de julho de 1924 pelo Laboratório de Análises Clínicas do Hospital Miguel Bombarda.3. cx.”294 “Vamos agora dizer como se trabalha..Administração. algum tipo de leguminosa. o governo tivesse fixado a quantidade e o tipo de alimentação ___ 200g de feijão. Como o bocadão é sempre bem puxado.. não raro. 22.Administração. Como exemplo. O trabalho ali. insectos. proc. O trabalho compelido tinuou ele ___ os polícias matam aí um homem acusado de roubar cana.

com a necessária conivência nos relatórios de viagem. desnecessitando cultura e os seguintes frutos: Melancia.] A fome e a alimentação deteriorada foram a causa do horror que presenciamos. Em edição de janeiro de 1927. abóbora. mandioca. certamente não eram melhores as condições da alimentação servida. caju. Secção A . chamaríamos a atenção do Sr.”299 Interessante é poder comparar esta alimentação que lhes destinavam os patrões. ocanhe (sclorocarua caffra).amido de milho. afirma que os indígenas consumiam os seguintes produtos.Imprópria para alimentação. e batata doce. um deles. mecurre (eugenia cardata) e o fruto de landolphia kirkii. O trabalho compelido uns germens e detrictos . Conclusão: Farinha de milho avariada . todas as cucurbitáceas. quando iam. é um garoto de 12 a 13 anos. 95.. mandioca. laranjas. 104 . É claro que tal situação propiciava condições mais do que favoráveis ao alastramento de doenças diversas. 1924. O Governador do Distrito de Inhambane em seu Relatório pertinente aos anos 1913-1915. Secretário dos Negócios Indígenas. amendoim. Se para alguma coisa valesse. 22. ananás. num estado absolutamente horrível. 15/01/1927. e medambe (folha de feijão). de tal forma magros que não podiam andar e a boca apodrecida pelo escorbuto.. mapira (sorgo).Administração. É desumana e não tem classificação o abandono a que foram votados os desgraçados para que chegassem a tal estado. [.”298 Se esta era a situação de um lote de alimentos mandado analisar pela Secretaria dos Negócios Indígenas. nos seguintes termos: “Vieram para o Hospital Miguel Bombarda. ti-nduti (cajanus indicus). dependiam da hospitalidade dos patrões que os alojavam e alimentavam contando.3. sandjáua. Consome também produtos de vegetação espontânea. 14 indígenas da Cotton Plantation de Changalane. 299 O Brado Africano. o O Brado Africano descreve a situação dos trabalhadores de uma empresa agrícola. pelos patrões. àquela que os trabalhadores estavam habituados a comer. bredos. Missão de Inquérito sobre trabalho indígena no Distrito de Moçambique. tigengo (Vandzêa subterrânea). com a agravante de que. bimbe (corinia Livingstoniana). pelo interior afora onde os agentes da Secretaria raramente apareciam ou. Utiliza rama das seguintes plantas: batata doce. certamente. tinhenba (feijão chibambo). Soubemos que têm vindo muitos no mesmo estado. 298 AHM-DSNI. cx. Proc. por eles cultivados: “milho.

3. cit. ao final de seis meses de trabalho. cit. ficava somente na ameaça de terem cortados os fornecimentos de trabalhadores compelidos por parte do Estado301. documento da Repartição de Saúde para a Secretaria dos Negócios Indígenas de 05/05/1928. alimentação imprópria ao consumo. 68. 304 O Brado Africano. Guia 14/929. II. O trabalho compelido Próximo da costa. em geral. 152. C pelas faltas de doenças”304. Para os principais cultivos e práticas agrícolas ver FELICIANO. 734. 305 FREIRE DE ANDRADE. W para o sabão.. do Administrador da Circunscrição de Imala ao Director do Caminho de Ferro de Moçambique. 16/02/1924. dos rios e lagos. consomem peixe.. etc.] dedicam-se também à caça.”300 Embora a precariedade alimentar fosse notória e reconhecida pela Secretaria dos Negócios Indígenas e pela Repartição de Saúde. 159:190. 302 Ver a série de documentos em AHM-DSNI. sevícias que incluíam o uso de palmatórias e do famoso cavalo marinho303. era corriqueira a prática de falsificar as guias de remessa de trabalhadores. [. 95. Op.Folha de pagamento. que secam em grandes quantidades. alojamento imundo e mísera remuneração da qual se descontava “ X para o tabaco.. Op.Administração. cx. 1924.”302 Além de extensas e extenuantes jornadas de trabalho. marisco. corriam ainda sério risco de nada receberem. Contrato 196/929 . cx.indígenas fornecidos a Paulino dos Santos Gil . donde obtêm grande quantidade de carne. A.Administração. José Fialho. ficando sem qualquer remuneração pelos seis meses de trabalho prestado305.. raramente os patrões sofriam qualquer sanção que. Muitos trabalhadores fugiam ao ver que o patrão não lhes pagava ao final do contrato. Missão de Inquérito sobre trabalho indígena no Distrito de Moçambique. alongando o prazo previsto no contrato estabelecido. pois “uma sova pregada em vésperas de pagamento faz com que eles per- 300 Apud CAPELA. 22. Os que resistiam. Secção B . J. 301 Ver por exemplo AHM-DSNI. 105 . Secção A . da Secretaria dos Negócios Indígenas enviados aos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques. p. Ainda que investigasse as reclamações. Secção A . Secção A . Sobre a prática dos descontos diversos. vol. 1977. 303 AHM-DSNI.Administração. Z para o fato. proc. pois isto revertia em significativa economia de despesas ocasionadas por novo processo de engajamento. p. 41. tendo seus contratos transformados em penas de trabalho prisional ou chegando mesmo a serem deportados.. para pagar o imposto de palhota. Op. sobrando tão pouco que mal daria. cit. cx. cx.Curadoria e Negócios Indígenas. a Secretaria dos Negócios Indígenas punia os trabalhadores para “manter firme a disciplina. pp. documento 381-3 de 13/10/23. ver ainda AHM-DSNI. relativos a 1920. A. 13. Já os trabalhadores eram severamente punidos caso articulassem quaisquer protestos.

obrigando-o a evadir-se. A situação era de tal maneira abusiva que. muitas das vítimas temiam denunciar as violências sofridas com medo de represálias mais drásticas ainda307.3. trata-se de um europeu. Assunto: Queixas de indígenas contra europeus. 1590. O desleixo 306 307 O Africano. certamente. 94 . matam-se à pancada. tratassem mal o indígena. o que nos induz a pensar que sua ocorrência era muito mais alastrada já que. cx. Curadoria e Negócios Indígenas. 06/02/1913. a família toda. denunciava irado. evitar que a alimentação fosse parca e de má qualidade. apenas à ordem do livre arbítrio. em 1915. Aplicam-se sovas fenomenais em irmãs e parentes dos fugitivos.Informação da Secretaria dos Negócios 106 . por não saberem dizer onde estes se acolheram. depois de terminados seus contratos e regressados às terras.16/03/1909. não se hesitava em prender-se-lhe “a mulher. Proc.”306 Todas estas práticas estão fartamente presentes na documentação oficial. 309 AHM-DSNI.. nas páginas de O Africano308. etc. que os patrões na véspera do termo do contrato. Pasta anos 1930/34. evitar que sob o pretexto de não terem livro-ponto. A lei assegurava ao patrão o direito de mandar prender o trabalhador que se evadisse. Veja-se como exemplo: AHM-DSNI. ferramentas desaparecidas. Paulo de Lima. Secção B. de quem manda”. Metem-se nos calabouços por dias e dias. Proc. tivessem de esperar três a quatro meses pelos seus salários vencidos. mas caso isto não pudesse ser feito. os filhos. evitar que os patrões se recusassem a dar assistência médica aos serviçais e a dar-lhes indenizações quando se inutilizassem por acidentes de trabalho309. 20.1915 . a Secretaria dos Negócios Indígenas chegou a enumerar as principais práticas cometidas pelos patrões contra seus trabalhadores e a pedir para que as autoridades as coibissem e evitassem que os patrões continuassem a obrigar os indígenas a trabalharem catorze horas diárias. que sob o pretexto de faltas cometidas. por vezes exclusivamente odioso e vingativo. 308 O Africano. que se evitassem que os indígenas. O trabalho compelido cam o amor ao dinheiro para salvação do corpo. um leitor que. os patrões se recusassem a pagar aos serviçais que tivessem perdido os seus tickets. ao que se pode depreender do texto. se continuasse a cortar dias de vencimentos. nos quais se comprovava o cumprimento das tarefas e jornadas. A caixa está repleta de reclamações por falta de pagamento por trabalhos prestados. a propósito de qualquer nada. burlas diversas e violências físicas praticadas contra indígenas por parte de europeus.Regulamentos de Serviçais . ficando assim saldadas as contas de serviçais e patrões.

e pasta ano 1951. 991. maço 1921 e ainda Grémio Africano de Lourenço Marques. e mesmo as indenizações. 401/24 de 17/05/1918 e 606/24 de 09/07/1918 ambos da Secretaria dos Negócios Indígenas ao Governador do Distrito de Gaza.. 40. Não é desnecessário lembrar que. Manjacaze. estabelecidas em lei. fixando-os entre £. na Província do sul do Save. efetivamente. 313 A maior parte dos trabalhadores chibalo para atender Lourenço Marques era fornecida pelas circunscrições de Chonguene. 312 Portaria Provincial no 545 Boletim Oficial no 33/1917. Em 1918. foi com base no trabalho prisional e chibalo que foram feitos os aterros sanitários. Curadoria dos Negócios Indígenas. empregava um número que variava de 700 a 1. dão aos seus trabalhadores indígenas alimentação deficiente e de péssima qualidade [. cit.000 indígenas nas obras do aterro do pântano do Maxaquene. área de expansão da cidade de Lourenço Marques313. aumentou os valores para as indenizações. 990. à empresa David & Carvalho que. construção de vias e caminhos diversos e Indígenas de 17/12/1915. cx. Secção B. Não havia qualquer tipo de pensão ou aposentadoria. 05/01/1918. bêbados. os patrões burlavam de tal maneira a lei. a Secretaria dos Negócios Indígenas requisitou ao Governador do Distrito de Gaza que fornecesse 1. por exemplo. as várias obras de construção e expansão do cais. Curadoria e Negócios Indígenas. AHM-ACM.108/D/1/2 de 18/09/51: “freqüentes [são] as queixas dos abusos cometidos pelos capatazes indígenas e europeus ao serviço das Concessionárias de arroz e algodão”. com a intenção de pressionar os patrões a dispensarem os cuidados necessários para salvaguardar a integridade física e a vida dos seus trabalhadores. 311 Ver por exemplo: AHM-RCNI. docs. que movimentaram milhares de metros cúbicos de terra e que permitiram a expansão e melhoria das condições de habitabilidade da cidade. limpeza da praia. O trabalho compelido quanto à segurança física do trabalhador era tal. Ver ainda O Brado Africano. ou porque ocorriam fora do local de trabalho. nota de 19/05/50: “alguns patrões. sob o argumento de que os acidentes aconteciam porque os trabalhadores eram negligentes. 5 e £. o que não estava acontecendo310.] e cometem abusos no tocante a horários de trabalho”. embelezamento da cidade. cx.312.. que o Governador Geral Brito Camacho. nota 3.000 novos trabalhadores indígenas. Chibuto. em 1917/18. Fomento da Província. O caminho de ferro que ligou Lourenço Marques ao Transvaal. maço 1909. em 1921. Guijá e Bilene. Op. 310 107 . práticas estas que avançam até tardiamente311. Secção B.3. etc. raramente eram pagas. o alargamento de ruas. pasta 1950. AHM-DSNI. anteriormente rodeada de pântanos. que mesmo os menores direitos dos trabalhadores eram desrespeitados. As condições de trabalho urbano não eram muito diferentes. do Chibuto e Manjacaze.

deixando assim a terra preparada para a semeadura. minas ou rios ___ pilar os grãos e preparar os demais alimentos. Edição da Administração dos Portos. 3. Usos e Costumes. Hamburgo. além das incumbências relacionadas diretamente com a maternidade316. Os homens normalmente se incumbiam da caça. Ver FELICIANO. da lide com o gado. cit. etc. ao Sul do Save.Lourenço Marques: Edifícios públicos. a mulher assumia praticamente todas as tarefas do ciclo produtivo agrícola: semear. 108 .. José Fialho. colher. com pequenas variações. pp.3. José Fialho. zelar pela educação e saúde dos filhos. 319:331. de derrubar as árvores e queimá-las. Mas não eram só os homens que eram submetidos a tais tarefas. José dos Santos. pp. sachar. cujos homens já participavam da agricultura desde o século XIX. Vejamos como isto se deu. com a expansão do cultivo obrigatório de algodão.. ___ que em algumas áreas tomava boa parte do dia e exigia o dispêndio de grande esforço físico devido às distâncias a serem percorridas até as fontes. 182:5 e CRUZ. na divisão sexual do trabalho anterior à dominação colonial.315. 316 No que tange particularmente aos povos ao Sul do Save.. cabia à mulher as principais tarefas agrícolas. Lisboa. Além destas tarefas havia encargos considerados femininos como a confecção de panelas e demais utensílios de barro para uso doméstico. Op. foram basicamente sustentados pelo trabalho chibalo. nas mesmas condições acima apontadas314. tomo I. subremunerado e. 315 Ao Sul do Save lentamente foram se processando mudanças na divisão sexual do trabalho nos seios das populações mais diretamente atingidas pela monetarização de tipo capitalista. que não foi ignorado pelos patrões e autoridades. Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique. Mulheres e crianças constituíam um potencial de força de trabalho não desprezível. 314 LIMA. p.3 MULHERES E CRIANÇAS SOB O CHIBALO Embora se corra o risco de ser contraditado por estudos de casos acerca de realidades específicas. 96 e principalmente 170:5. particularmente após a 2a Guerra Mundial. 120:1. Excetuando-se o caso dos Chopi. cit. Vol II . História dos caminhos de ferro de Moçambique. cit. Pe. O trabalho compelido mesmo da Catedral. 1971. porto. Daniel da. Broscheck & Co. 3 vols.. e RUFINO. ilust. podemos dizer que. nas demais sociedades.. Alfredo Pereira de. Op. cit. ver JUNOD.. FELICIANO. caminhos de ferro. além das chamadas lides domésticas. Op. a tarefa de buscar água para o preparo da comida e higiene. Albuns fotográficos e descritivos da Colónia de Moçambique. Henrique A. Op. etc. 1929. pp.

com maior ou menor intensidade. 2 e esc. como demonstra a correspondência trocada. um determinante papel na reprodução global da sociedade. cuja produção assentava-se basicamente no trabalho feminino. significaria afastá-la de suas tarefas. boa parte dos custos sociais de reprodução e oferta de força de trabalho barata que servia à acumulação capitalista. 19/04/1917 e O Brado Africano. Exia. tomando-as como reféns. do Grémio Africano de Lourenço Marques ao Secretário dos Negócios Indígenas. não raro. 109 . Este indígena ganha mensalmente £. contudo. do régulo Kubana e induna Muzinge. assim. a utilização da força de trabalho feminina. nome que popularmente se dava ao imposto de palhota] em 2 meses. Utilizá-la nos mesmos moldes que a masculina. de fato. não chegando o que ganha para pagar por uma vez as 02 palhotas. ao menos formalmente. que a mulher. carta no 68/21. era prática comum. aprisionar as mulheres. da produção familiar foi um forte fator no processo de acumulação de capital. pasta 1921. velhos e crianças. O Grémio Africano de Lourenço Marques. de 06/04/1921. Esta política oficial não impediu. Enfim. Ver documento em AHM-DSNI. Se V. Conforme já foi dito. procurou coibir. veio para esta Repartição prestar serviço como auxiliar. o indígena José Shiceque. que a partir dos anos dez deste século. ainda que parcial. mesmo sabendo-se que os seus maridos estão trabalhando como chibalos no CFLM e que só recebiam seus vencimentos ao fim do contrato de seis meses. gratuito. doc. 01/08/1919. quando da cobrança do imposto de palhota. e obrigá-las ao trabalho até que seus maridos ou parentes pagassem o imposto. desestruturando o ciclo reprodutivo. e disso rapidamente apercebeu-se o governo colonial. o setor capitalista podia deixar para o setor nãocapitalista a responsabilidade de sustentar os trabalhadores regressados de seus contratos __ cuja duração variava de três meses a um ano __ e arcar ainda com os custos de sustentação dos inválidos. concordar era favor soltar-lhe a mulher 317 Ver por exemplo O Africano. de forma intensiva. transferia para o setor não-capitalista. 27$00. entre o Secretário e o Administrador da Manhiça: “Como V. pode contudo pagar a importância da tinemba [sic. O trabalho compelido A mulher desempenhava. regiões e interesses. consoante os momentos. fosse utilizada para o trabalho assalariado e.3. proc. irmãs e filhas. e mais particularmente da produção agrícola. 583. em 1923. mesmo quando estes estavam prestando serviços ao CFLM317 ou à própria Secretaria dos Negócios Indígenas. reclama que no Sabié as mulheres são presas por falta de pagamento do imposto de palhota. Exia sabe. a preservação. Como o chibalo assentava-se sobre um trabalho sazonal e migratório. 30.

pasta 1927. doc. Muitas crianças teem morrido porque.Circular da Secretaria dos Negócios Indígenas aos Governa318 110 . nota 795/30 de 17/06/24. nem mesmo pelos administradores de circunscrições que. em tese. cx. Pasta 1924. Proc.]” 321. 320 O Brado Africano de 10/01/1925. cit. deveriam ser seus lídimos representantes pelo interi- AHM-DSNI. cx. velhas e mesmo aquelas em adiantado estado de gravidez eram obrigadas a lavar e a engomar roupas dos soldados ou a trabalhar semanas inteiras. de 16/03/1908. o Governador Geral fixou entre quatro e seis metros as larguras para as estradas. mulheres jovens. nota 826/30 de 03/06/1929. pasta 1923. AHM-ACM. da Sociedade Cooperativa e Patriótica dos Indígenas da Província de Moçambique ao Curador dos Indígenas em Johannesburg. Secção A .”318 A situação era de tal monta e de completo abuso que. enviados pelo fiscal dos prazos ao Governador do Distrito de Quelimane em 16/01/1929 e MAVULANGANGA. Circular 869/12. 37. 167. nas machambas dos régulos ou dos administradores coloniais320. Mas o que pregava a lei não era cumprido. 106 .Administração.Autos de investigação contra Francisco José da Silva Loureiro e Francisco Dias Veredas. nota no 355/30 de 27/03/1923. Pasta 1929. 110/23. em 1915. morreu. Pasta ano 1916.3. devido aos trabalhos forçados e poucos dias depois do aborto. Ver ainda no mesmo Fundo. conforme se denunciava nas páginas de O Africano: “Há dias uma desgraçada teve um aborto. Embora contrariando a lei. proc. cx. ano 1922. no qual se reclama desta situação. em 1927.. sendo as mães condenadas a trabalhos forçados trazem-nas a todo rigor do tempo sem resguardo sem cuidado [. 322 Ver por exemplo AHM-DSNI. A/10. parece. 319 AHM-DSNI. A situação era tal que.Administração. A/10. era comum a utilização de mulheres na abertura e conservação de estradas322. do Secretário dos Negócios Indígenas ao Administrador da Circunscrição da Manhiça. Informe Confidencial do Director dos Negócios Indígenas de 24/03/1927.Telegrama do Administrador do Chai-Chai ao Secretário dos Negócios Indígenas. Diversos (Confidenciais).. 13/12/1913. pasta A/20/2 . 323 AHM-DSNI. gratuitamente e com alimentação às suas expensas. o que. Secção A . em virtude do que não poderiam dedicar-se à suas machambas323. cx. de 22/09/23. 14. O trabalho compelido Focheia que aí se acha presa por motivo da falta de pagamento d’imposto de palhota. segundo o governador. da Secretaria dos Negócios Indígenas de 26/04/1927. lhes tomava muito tempo útil. parece. pondo em risco suas vidas e a de seus filhos. de sol a sol. 321 O Africano. 374 e AHM-DSNI. para “evitar os abusos que obrigam os indígenas a abrirem grandes e largas estradas”. Quando presas. a Secretaria dos Negócios Indígenas emitiu circular aos administradores comunicando que nenhuma mulher indígena poderia ser mantida presa por falta de pagamento do imposto de palhota por mais de 60 dias319. Op. cx. Pasta 1908.

compensando-as não com dinheiro. de valor equivalente a um escudo”324. não excedendo a 40$00 por cada trinta dias de serviço. sendo de notar que a referida importância excede a que lhes é paga pelos agricultores. através de carta confidencial. 374. Carta Confidencial no 449/A/36 de 15/09/28. Com este sutil expediente. pois o Estado estaria pagando-as “mais liberalmente” que os particulares.3. julgava que o pagamento em capulanas e sal seria suficiente para atrair voluntárias. mas no fornecimento de um pano ou capulana a cada mulher. ponderou ao Diretor dos Serviços de Administração Política e Civil sobre a necessidade de ser autorizado a utilizar-se do serviço de mulheres para a abertura de 30 Km de estradas em sua circunscrição como única alternativa à escassez de mão de obra masculina. mas sob o ponto de vista do trabalho voluntário. 5. Neste caso. em nota confidencial 324 dores e Inspetores das Circunscrições do Distrito de Lourenço Marques. Em 1928. como muitas vezes fornecessem-nas para particulares. a apresentarem-se” e. concluiu sobre a necessidade de “as coagir de começo. AHM-ACM. porque esse o gastariam elas ou seus maridos nas bebedeiras. E o administrador perguntava-se: se os agricultores privados podiam usufruir do trabalho feminino porque não poderia o Estado lançar mão de tal expediente? Como presumisse que. brandamente. cujo valor seria conforme os dias de trabalhos prestados. Em 1927. e ao alto custo que isto significaria. que proibia o trabalho obrigatório para homens menores de 14 e maiores de 60 anos e para todas as mulheres. Diversos (Confidenciais). ninguém poderia afirmar que as mesmas teriam sido forçadas a trabalhar gratuitamente. conjecturava o administrador. o administrador da Manhiça. nesta despeza incluindo uma distribuição de sal por semana. O trabalho compelido or. Propunha a utilização do trabalho das mulheres “não a título gratuito. e que na maioria dos casos não vai além de um pequeno cacho de banana ou de um litro de sal diário. se simplesmente convocasse. depois. o Diretor da Repartição dos Serviços da Administração Política e Civil rejeitou a proposta. cx. recrutada para as minas. do Administrador da Circunscrição da Manhiça ao Director dos Serviços da Administração Política e 111 . § 2 do Regulamento Geral do Trabalho Indígena. pois a mesma contrariava o Art. A rejeição oficial não significa que a prática não prosseguisse e que os administradores não só continuassem a prender mulheres para abrir estradas. as mulheres não apareceriam voluntariamente.

Circular no 322/24 de 12/02/1927. AHM-ACM. O Secretário dos Negócios Indígenas mostrava-se preocupado não com a situação das mulheres. O trabalho compelido ao Governador Geral. os homens brancos em Mungari e Nysiwisa têm violado crianças que são demasiado novas para um homem dormir com elas. 327 AHM-DSNI. Administrador do Sabié ignore o que está se passando na Sociedade das Nações sendo justamente esta questão do trabalho compelido das mulheres indígenas uma das mais graves que ali se debate na Secção que trata da proteção que se deve aos indígenas africanos”325. em particular. Embora fosse também proibido. quer nas cidades. 1915. da Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas para os Governadores dos Distritos de Inhambane. cx. eram muito comuns os atos de violência física e sexual328. cx. de 24/03/27. uma circular reafirmando a proibição de se empregar crianças. maço 1927. o próprio Secretário dos Negócios Indígenas reconheceu que o O Brado Africano estava certo ao denunciar tais práticas: “O facto concreto e insofismável é ter o Administrador do Sabié mandado trabalhar n'uma propriedade particular 23 mulheres que se achavam presas na sede da Circunscrição por falta do pagamento do imposto de palhota. 325 112 . 326 AHM-DSNI. mas com ação do administrador que inadvertidamente podia por a perder a empreitada de propaganda na qual se empenhava o governo português para desfazer-se da péssima imagem que desfrutava nos fóruns internacionais e. Em muitos casos as vítimas eram crianças: “Ultimamente. da pecha de escravocrata. Pasta 1927. até a década de vinte.Pasta Regulamento de Serviçais. Mas as agressões sofridas pelas mulheres não se limitavam ao trabalho em condições humilhantes e aos insultos recebidos. era usual. Circulares. idosos e mulheres em trabalhos públicos ou particulares mesmo quando fossem remunerados326. Proc. no mês anterior. 94. Tete e Moçambique. acompanhadas de um cipai da Administração” e continuava: “não é admissível que o Snr.3. Com estes argumentos o Diretor já tinha expedido. a utilização de mulheres e crianças como carregadores de mercadorias. 328 Ver por exemplo O Brado Africano. 09. quer no interior327. A/10. Diversos Confidenciais. Muitas das raparigas estavam muito doentes e Civil. 10/02/1923.. Informação do Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas ao Governador Geral.

ou para o mato. na maior parte dos casos. Pasta anos 1930/34. temerosos de que pudessem ser vítimas de represálias ou por se sentirem impotentes diante do poder do colono e da conivência das autoridades. Op. Comissário para os Nativos.) N3/26/2/6/8. Secção B. Assunto: Queixas de indígenas contra europeus. 11/04 e 14/04/1917. humilhar-se ao aceitar a garrafa de vinho que este 329 Rodhesian National Archives (R. R. cit. p. para satisfazerem colonos.Administração. Tais práticas não podiam ser denunciadas publicamente pois a imprensa estava então sob rígida censura. das terras do Muéne Morla. não tiveram que superar a vergonhosa situação diante dos amigos. Autos de investigação.N. Ibidem. quantos pais. Veredas”332. dentro do escritório da referida estação e na presença dele. Francisco Dias Veredas. Declaração de Shongorisho a E. capatazes ou sipaios que depois. a um funcionário inglês. O trabalho compelido tiveram de ser mandadas embora.3. do Director dos Serviços e Negócios Indígenas ao Comissário de Polícia de 15/09/32 referente à Queixa da família da indígena Especiosa Laura da Cruz. um dos chefes da revolta do Barué mostrou. 258. por exemplo. deflorada por um europeu. Morkel. Nyakatoto. cx. 1627/20. Apud ISAACMAN. alegava terem sido cortadas durante a violação sexual330. e só podia publicar notas oficiais331. Afrontamento. 332 AHM-DSNI. Poucos destes atos de violência resultaram em qualquer tipo de punição aos seus autores e até mesmo foram raros os inquéritos administrativos como o levantado. uma corda com dezenove nós. Secção A . 07/04. Apud Idem. cortou mesmo as partes íntimas da rapariga para a poder penetrar. quando muito. um para cada menina cujas partes íntimas. Bastava cair nas graças deste ou daquele colono para ser arrastada para o ato sexual e. 330 RNA. Ver ainda os casos narrados em AHM-DSNI. 331 O Africano. 8 de Agosto de 1917. Auto de declarações de Domingos Julio Faria à Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas de 05/12/32 e doc. cx. pasta A/20/2. Um cipaio. 113 . 291. 7 de Maio de 1917. 37. S. mais uma vez. Proc. ou seus pais ou maridos. e depois a obrigou a igualmente ter relações com o pessoal a seu serviço. A Tradição de Resistência em Moçambique . 1590. no qual se provou que o mesmo teve “relações sexuais com uma menor de nome Banrida. não denunciavam as agressões. nota 04. p. Allen F.O Vale do Zambeze. contra o ex-chefe da Estação de Matacurro. 18501921. Depoimento a H. Porto. 20. 1979. Taberer. Quantas Marias não foram arrastadas ou convidadas para o meio das machambas. as mulheres vítimas de abusos. como Madala.”329 Esta dupla violência não foi um caso isolado: Shongorisho. alegadamente em função da I Guerra Mundial. engolir a seco e mostrar-se resignado diante da posse da filha e depois. em 1917. displicentemente lançava-lhes “para o regaço uma moeda de prata”. prazo Licungo.A. A3/18/38/5.

Monteiro Marques.. Op. alguns parentes mais destemidos procuravam um acordo a fim de reparar o ato de violação. Cf. 335 AHM . Secção B. cx. pedem que lhes “sejam fornecidos por intermédio da Administração. O assunto foi encerrado com a retirada da queixa após o pagamento dez libras de indenização e de uma declaração da reclamante ilibando o agressor334. não só ao trabalho como ao convívio de brancos e desprezo pela ociosidade. mais que estes argumentos.” 335 Pesavam. 1590. que muitas vezes implicava em rompimento de acordos de casamento. em todas as partes. em 1915. Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques. Assunto: Queixas de indígenas contra europeus. ano 1906 . 1978.1915. Maputo. desde pequenos.. Proc. Requerimento ao Governador Geral. tais tarefas se faziam com menores. 20. p. O trabalho compelido mesmo capataz lhe oferecia. 114 . como foi o caso da queixa movida. no qual se achavam envolvidas somas pagas como adiantamento de lobolo. situação narrada por Luís Bernardo Honwana em seu conto Dina333? Tendo se consumado a violência. 1911-1912. cx.Pasta Regulamento de Serviçais .Fundo Cia. Também o trabalho infantil era extensamente utilizado sob o argumento de que seria uso que não conviria “desprezar por ser vantajoso habituar todos os indígenas. em 1932. administrador da Circunscrição dos M’Chopis. proc. Instituto Nacional do Livro e do Disco. 47:67. Opinião semelhante foi emitida por C. além disso. cit.3. de 29/08/32. indígenas menores [. Queixa de Sonto Ramgi contra David Miguel dirigida ao Director dos Serviços e Negócios Indígenas. por Sonto Ramgi.] ao preço de $05 e comida para os seguintes serviços agrículas [sic]: sacha e apanha de milho. Pasta anos 1930/34. 98. apanha de algodão e outros serviços idênticos que não sejam violentos. de 10/12/1915. Luís Bernardo. contra David Miguel dirigida ao Director dos Serviços e Negócios Indígenas pelo fato de que o colono europeu tinha deflorado sua irmã de 13 anos. como sói acontecer aos colonos diretamente envolvidos com a produção.. 94. 336 AHM-DSNI . isto era expresso com todas as letras em um requerimento de agricultores do Chibuto ao Governador Geral no qual.Circular no 23 da Companhia de Moçambique de 28/03/1906. pp.”336 Fundamentavam sua petição sob o argumento de que. os interesses imediatos em obter-se força de trabalho e baratear ainda mais os seus custos. argumentavam que em todo o mundo ___ no que não deixavam de ter razão ___ empregavam-se em tais tare- 333 HONWANA. monda e desponta de arroz. que todos os administradores os forneciam sem problemas e só o de sua circunscrição recusava-se a fazê-lo sem autorização superior. de Moçambique. Nós matámos o cão tinhoso. Numa linguagem mais direta e objetiva. 334 AHM-DSNI.

Raúl Bernardo. Ver Art. quatro vezes maior. 1910. p. que os salários então vigentes para trabalhadores adultos era de $20 por dia. Lourenço Marques. Relação dos indígenas. ao Regulamento Geral do Trabalho dos Indígenas nas Colónias Portuguesas. argumentando que tal prática beirava à escravatura. neste ano. a própria Direção dos Serviços e Negócios Indígenas autorizou os plantadores de algodão do Distrito de Lourenço Marques a utilizarem-se do sistema de recrutamento do Estado para obterem indígenas menores que necessitassem para a apanha do algodão339. portanto.. cx. Não mencionaram contudo. de 16/03/25 e da Associação dos Velhos Colonos da Província de Moçambique ao Alto Comissário da República. 341 O Decreto de 09/12/1909. no Distrito de Lourenço Marques. Ver ainda HONWANA.]341. loc. cit. Boletim Oficial no 27/1917. Apesar da legislação proibir o recrutamento de crianças para trabalharem nas plantações em São Tomé e minas da África do Sul. para serem fornecidas aos plantadores de algodão. 84. que confirma a prática. 5o . 167. ou seja. de 26/03/24. um terço do pago aos adultos compelidos e. raro era o “comboio que do interior não traz dezenas de crianças engajadas pela WNLA e que são metidas a bordo dum vapor que para longe as leva [. publicado no Boletim Oficial no 6/1910. de 20/03/25. Insatisfeitos com o número fornecido. menores. a utilização de menores lhes traria enorme economia. O Brado Africano denunciou que pelo interior estavam mandando agarrar à força crianças. foram fornecidos.i Op. O trabalho compelido fas rapazes que “se hiam educando e abituando ao trabalho que os não impede do desenvolvimento e só os ivita de andarem na vadiagem” [sic]337. item 2 da redação dada. e que. a prática era disseminada338. proíbe a contratação de menores de 15 anos e autoriza os menores de 07 anos a acom- 115 . de 1917.. Harries afirma que as plantações de cana de açúcar 337 338 Idem. 681 menores com contratos cuja duração variava entre três e quatro meses. Secção A . cit. a Associação do Fomento Agrícola e a Associação dos Velhos Colonos conseguiram do Secretário do Interior a autorização para que o recrutamento pudesse também ser feito em Inhambane. contudo.3. a partir de 1925340.Administração. O salário estabelecido era de 50$00 mensais. 339 O Brado Africano. documentos: Informação do Secretário dos Negócios Indígenas ao Governador Geral. em 1917. Em 1924. cuja idade não ultrapassava os catorze anos e que ainda estavam à guarda de seus pais.. para a colheita do algodão. Embora o Regulamento Geral do Trabalho dos Indígenas nas Colónias Portuguesas. Pasta Correspondência sobre o fornecimento de indígenas para a colheita de algodão. 02/05/1924 e 10/05/1924. 1924-25. fornecidos durante o ano de 1924. Memórias. Imprensa Nacional. 340 AHM-DSNI. Associação do Fomento Agrícola da Província de Moçambique ao Secretário Provincial do Interior. proibisse a utilização de trabalho forçado infantil. Neste mesmo ano.

a critério dos empregadores que. acabavam por utilizarem-se de crianças com idades inferiores342. 201. seguindo este exemplo. Nada se dizia a respeito dos trabalhos de superfície.3. AHM-DSNI.. perambulavam pelas ruas de Lourenço Marques à busca de empregos ou pequenos biscates para ganharem alguns tostões que lhes garantissem a sobrevivência ou o retorno para seus lugares de panharem suas mães recrutadas para São Tomé. as minas filiadas à WNLA empregavam oficialmente cerca de dois mil destes “piccanins” ___ menores de catorze anos. burlava-se a legislação oficial. pressionaram e a lei foi alterada. no ano seguinte. Em 1902. O trabalho compelido do Natal e as minas de diamante de Kimberley estavam legalmente autorizadas a empregar crianças acima dos onze anos e. docs. Nota da agência da WNLA em Chai-Chai de 21/03/1919 ao Governador de Gaza e telegrama no 184 116 . aventuravam-se pela vida e. Secção B.. cx. p. maço 1919 . Op. como Golf Cadies e tarefas assemelhadas. 990. cx. maço ano 1919. Aqueles menores. deixando a definição de quem atendia ou não esta exigência. Curadoria e Negócios Indígenas. nos quais crianças com idades em torno dos doze anos eram largamente empregadas. tendose em conta que pagavam aos menores entre 50% a 75% do valor dos salários pagos aos trabalhadores adultos. fixando somente a proibição de se empregar nos trabalhos de subsolo aqueles que aparentassem idade inferior a dezesseis anos. cujo aprendizado era considerado mais fácil e cujo comportamento era tido como mais dócil que o dos adultos. 344 Ver por exemplo AHM-DSNI.Nota no 455 de 01/08/1918 do Governador do Distrito de Gaza para o Intendente de Emigração. Curadoria e Negócios Indígenas. As minas. 989. mas sobre cujo destino real. 343 AHM-DSNI. o governo e as demais autoridades portuguesas não exerciam efetivo controle344. Patrick. na África do Sul. o aspecto financeiro da questão não era nada desprezível343. 990. Mas não era só a habilidade na aprendizagem e a docilidade no trato que levavam as minas a tal opção preferencial pelas crianças. cuja estatura facilitava a movimentação nas galerias apertadas. cx. as minas de ouro no Rand também empregavam menores. obtendo-se autorização para recrutar menores para trabalharem. diversos.. cit. para execução das mesmas tarefas. Além disso. secção B. no 437/07 e 477/07 de 23/04/1907 da Curadoria dos Negócios Indígenas em Johannesburg para Intendência de Emigração. quando não conseguiam cruzar a fronteira legal ou ilegalmente. desgarrados de suas comunidades. seção B. 342 HARRIES. interessadas em seguir usando crianças. Work. culture. Curadoria e Negócios Indígenas. em realidade. maço ano 1907. de fato. as autoridades britânicas estabeleceram esta como sendo a idade mínima para os trabalhos nas galerias.

Nos centros urbanos. sujeitos a sevícias. 02/10/1915. pioneira no ramo. pagava-se entre 300$00 e 400$00 mensais346. Teresa dos Santos. enfestam a cidade. o que não impedia que o trabalho das crianças fosse utilizado também na incipiente indústria laurentina. N. Especial. Não é demais frisar que tanto mulheres quanto crianças estavam. “como nem sempre há serviço.3. Também as repartições e organismos oficiais. 345 117 . em 1929. George. permitiam que as empresas concessionárias de seus serviços utilizassem menores.”348 Mas não eram só os menores indígenas que estavam submetidos a trabalhos pesados e degradantes. tais como os Caminhos de Ferro de Lourenço Marques. A fábrica de cigarros A. aprendizes das Oficinas Gerais dos CFLM. deitava sangue pelos ouvidos e pela boca. O trabalho compelido origem. Out. com os salários. 346 Ver depoimento de C. como os homens adultos. e com salários em níveis ainda inferiores aos masculinos. 22/01/1921. de 20/03/1919 do Intendente de Emigração para o Governador de Gaza. 87. “Recordações sobre Lourenço Marques. cuja idade variava entre dez e quinze anos. 1987. a política oficial era a de permitir que os menores fossem empregados basicamente em tarefas de caráter doméstico. principalmente como muleques de recado. entregam-se a vícios. variando entre 60$00 e 100$00 mensais. In: Arquivo (Boletim do Arquivo Histórico de Moçambique). sendo que aos adultos. E. como em serviços pesados e perigosos como denunciou O Brado Africano em 1921: “neste dia descarregava-se vigas de ferro em grupos de quatro. transportavam as vigas da ponte para a vedação quando uma das quatro crianças já muito cansada por as suas forças não poderem suportar tanto peso. eram submetidos a tarefas que não lhes competiam e obrigados a descarregarem peças com peso superior às suas forças349. 02/10/1915. Nhaca para OLIVEIRA. não só para abastecerem os navios de carvão347. não sendo rara a sua entrada nos calabouços da Polícia de onde saem então refinados pelo contato e camaradagem de corrente com a malandragem que tem cadastro” 345. mas. O Africano. 1930-1950”. quando foi levantada pela polícia que compareceu ali. 348 O Brado Africano. péssimas condições de alojamento e alimentação. empregava principalmente crianças. e a viga caiu-lhe em cima. inclusive abaixo dos dez anos. já na agonia da morte. 347 O Africano. no 2. p. caiu. Em 1919 o jornal já havia criticado o fato de que os “rapazes de côr”.

as sementeiras dos pobres pretos perdem-se porque estando às ordens dos brancos não podem tratar do que é seu. e que não conhecem os nossos processos administrativos. 351 ROSS. até que em 1925. Report on Employment of Native Labor in Portuguese Africa. depois que o sociólogo norte-americano Edward A. The Abbott Press. etc. mandam prender os cidadãos para serem alugados aos machongueiros.3. porque ditas para as autoridades que pactuavam com tais práticas. mas. 1925. Isto claro não é escravatura. 14/10/1922. O trabalho compelido Diante de todas estas condições não era difícil associá-las à escravatura. vendo fazer isto que apontamos.. Entretanto as perguntas de O Brado Africano permaneceram sem resposta: Não é do Governo Português o Regulamento de 14 de Outubro de 1914 que estabeleceu nas Colónias o trabalho obrigatório. a pretexto de que não teem chapa. A partir dali.] 349 350 O Brado Africano. onde a delegação portuguesa fez uma defesa cautelosa e o caso foi arquivado. o que é pior ainda do que a escravatura? [. Ross visitou Angola e Moçambique e elaborou um relatório. novamente à tona. porém. 118 . Não sabemos o verdadeiro nome disto. etc.. a polêmica veio... acerca das condições de trabalho que considerou próximas da escravatura351. causa de tantos roubos e mortes dos indígenas. o relatório foi submetido à Comissão Provisória para a Escravatura. como não é escravatura a prisão de mulheres a pretexto de que os maridos devem o imposto de palhota. na polícia alugam-nos a quem precisa.. New York. Assim fazia o O Africano e depois O Brado Africano. 61 p.. uma série de intervenções na Sociedade das Nações passou a acusar Portugal de manter nas colônias práticas escravistas. Edward Alsworth. Isto.”350 As palavras d’O Brado Africano tinham pouca repercussão. Os administradores das circunscrições. Fazendo de conta que protestava contra as afirmações da imprensa inglesa e norte-americana de que em Moçambique havia escravatura.. 04/10/1919. O Brado Africano. supõem que se trata dos tempos da escravatura. Veja eco em Moçambique entre outros no O Brado Africano de 01/08/1925. em 1924.. não é escravatura... assim afirmava O Brado Africano: “A polícia inconstitucionalmente prende os cidadãos pacíficos.. Mas os que estão de fora. e outras coisas que não apontamos. escravatura não é.

353 O Brado Africano. estabeleceu a obrigação do passe em Lourenço Marques. O curioso é que O Brado Africano manifestou-se contrário ao Relatório Ross..3. chegando ao ponto de indígenas preferirem a morte como um deles que se lançou ao mar na ponte cais conforme o ‘Brado’ deu eco? Isto não é ainda pior do que a escravatura? Não é.] homens e muleques algemados transitando pelas Avenidas a caminho da polícia [.353 As pressões fizeram com que Portugal alterasse a legislação do trabalho indígena mas. Sobre o uso generalizado da palmatória por parte das autoridades coloniais ver entre outros: O Africano.. o preto é metamorfoseado em Besta para carregamento de carroças de cargas e de seus patrões em passeios de recreio. trabalho forçado. como tivemos a ocasião de presenciar no Comissariado de Polícia. sendo multados os refratários em 6 libras ouro ou mais e aqueles que não tem esta importância.. 19/07/1924. não porque não concordasse com seu conteúdo mas porque as denúncias tinham sido feitas por estrangeiros 352 O Brado Africano.] trabalhos forçados a ‘pão e laranja’ [. Praticamente as mesmas palavras já figuravam na edição de 13/07/1929. 18/01/1930. como no tempo da escravatura aberta.. Em que época se faz isto? No regime da Fraternidade. concluía. neste século de luzes e dentro do regime de liberdade. espancamentos.. prisões arbitrárias. 09/02/1924. com razão O Brado Africano: “Escravatura.. cidades portuguesas. fraternidade e igualdade?352 Bem sei que não se compram pretas e pretos ‘in perpetu’.] Que é isto? Uma espécie de escravatura encapotada. Beira e Moçambique. 354 O Brado Africano. no fundo. é a mesma escravatura [. Mas todas essas violências. presos ___ maltratados com chicotes de cavalo marinho e palmatórias ___ durante 4. 5. 119 .. 6 [meses] e até um ano e com uma alimentação que nem os suínos do Alemtejo comem. onde apesar das bastantes riquezas que os seus habitantes possuem. 09/09/1911 e 08/03/1912.] nunca passaram de regimes de exploração braçal do preto” 354. e manteve esta posição nos anos subseqüentes. mas nunca vi violências tamanhas. O trabalho compelido Não é da legislação portuguesa que como medida de tirar a pele ao indígena. trabalho compelido.. Assisti ao rescaldo da escravatura. de negros e negras na província [.

Os agentes da Secretaria dos Negócios Indígenas que. do que repousar tranquilamente sobre as comodidades e vantagens do trabalho compelido. nenhuma iniciativa para além da que sua função formalmente exigia. deveriam zelar pelos indígenas. os membros desta pequena burguesia negra e mulata viam o perigo de uma anexação de Moçambique. Com tais sistemas de exploração da força de trabalho. para o qual a melhor forma de integrar a força de trabalho negra no mercado era pela criação de necessidades fiscais e de consumo. O trabalho compelido que. a dominação portuguesa nesta terra. pela Inglaterra ou pela União Sul-Africana como uma espada que pairava sobre suas cabeças. tentou aplicar uma política de modernização das relações de trabalho. fosse porque. através do assalariamento e não pelo recurso ao trabalho compelido. 120 . pois isto fatalmente representaria a última pá de cal em sua existência. com tanta fé e tanto amor a soberania. formados na cultura lusa. nenhum espaço teriam num mundo anglófono. que só interessam aos “gananciosos cheios de impaciência de enriquecer depressa”356. o direito de protestar junto às autoridades era praticamente inexistente. esta posição nacionalista já se havia manifestado diversas vezes. já periclitante. Propôs então que os salários rurais fossem aumentados e pagos ao câmbio-ouro. queriam desprestigiar Portugal ___ aliás. já que os agricultores também cotavam e vendiam seus produtos 355 356 O Brado Africano. que julgavam ainda mais racista e excludente que o português. como grupo social. ninguém defende com tanto ardor. 12/04/1919. nem pugnar pelos indígenas submetidos a maus-tratos. Mais do que um mero chauvinismo por trás do alegado patriotismo. seguindo as idéias do recém empossado Alto Comissário Brito Camacho. enfim. faziam parte do esquema colonial de dominação e não estavam interessados em fazer cumprir as leis no que tangia ao patrão. em 1921. ou ao menos de sua região Sul. 14/05/1921. apud O Brado Africano.3. em tese. na opinião do jornal. O único que distou um pouco desta linha foi o Secretário dos Negócios Indígenas Jaime Teixeira que. fosse por temerem que o modelo social implantado seria o da vizinha União. pois como afirmava João Albasini “Ninguém detesta como nós a intervenção estrangeira na nossa vida nacional. Dizia Jaime Teixeira que era “preferível atrair o indígena à cooperação de trabalho com os europeus pela estipulação de salários equitativos” e através da melhoria das condições de trabalho e da assistência.”355.

era comum o fornecimento gratuito de trabalhadores para servirem de criados a funcionários públicos. A. já que os melhores migravam para as minas. eram brancos e era com funcionários e patrões brancos que se deleitavam em rodadas de cartas e uísque nas modorrentas tardes e noites coloniais. exceto os intérpretes e sipaios. etc. A.. segundo eles. o compadrio e o apadrinhamento eram essenciais para a manutenção de boas relações que pudessem garantir o futuro. A troca de favores. julgavam-se representar a civilização e. tais como o reembolso de despesas de engajamento. prêmios de 5 sh. Em geral. para “cavarem” o mais rapidamente para a metrópole. 13. “obrigados a entregar a féria ao funcionário a quem tinham sido dados”. ao final do contrato e obrigatoriedade de que os salários não pagos por eventuais abandonos e fugas dos trabalhadores fossem depositados na Secretaria dos Negócios Indígenas. ou como puxadores de riquixás. já que dependiam de certos vínculos e apoios para pleitear e conseguir melhores posições no aparelho administrativo colonial. FREIRE DE ANDRADE. argumentavam ainda que tinham muitas despesas com capatazes. Com tamanho rechaço por parte dos interesses da burguesia colona local. o que. para assim evitar a prática da surras em véspera de pagamento como faziam alguns patrões357. por exemplo.3. cit. Apesar de prever algumas garantias aos agricultores. com alojamento. Op. não levava em conta a real situação da agricultura colonial que contava com os piores trabalhadores. os agentes da Secretaria dos Negócios Indígenas. contudo. Diante de tais circunstâncias. assim. enquanto esperavam passar seu tempo de purgatório remunerado na colônia. 14/05/1921. não iriam se apoquentar por causa de uns narros e nem tampouco incomodar seus padrinhos e amigos enquanto aquilo não acontecia. interrogava-se O Africano: 357 358 O Brado Africano. em caso de fuga dos trabalhadores. p. levando na algibeira uns bons cobres e com destino certo em alguma repartição central.. 121 . O trabalho compelido com esta paridade. Ademais. com alimentação. os homens da Secretaria dos Negócios Indígenas não tinham a menor intenção de indisporem-se contra figuras importantes da sociedade local. vol. não lhes permitia pagar salários com base-ouro. Brito Camacho voltou atrás e o projeto foi engavetado. II. faziam parte de uma mesma comunidade ideológica. conforme admitia o próprio Governador Geral Freire de Andrade358. Jaime Teixeira logo descobriu que não eram poucos os “gananciosos”: os agricultores bombardearam energicamente tal projeto que.

Inglesa. Mais nada. obviamente. Como uma outra faceta destes mecanismos de expropriação e de desestruturação das formas produtivas da economia camponesa. surgiram alguns camponeses africanos que foram bem sucedidos e adaptaram-se à produção de mercadorias para o novo mer- 359 360 O Africano. Cf. fechar o ponto aos empregados. 02/05/1914. O trabalho compelido “Um Intendente afinal que papel desempenha? Entrar para a repartição às tantas e levar o tempo a assinar expediente. 164 e ALMEIDA.3. O Problema da África Oriental Portuguesa . era comum que o dinheiro arrecadado aos indígenas fosse utilizado para benefício pessoal. 205:210. Imprensa Nacional. cit. por exemplo. assinar notas e.1940. Lisboa. p. Américo Chaves de. base sobre a qual assentava-se a economia colonial em Moçambique. mas tornar tal cargo dispensável não era. Assim. a aspiração dos pretendentes ao mesmo. perfeitamente mudo e esquecido como entidade governativa de Negócios Indígenas! Um Intendente para estar a espreitar pelas venezianas a Praça 7 de Março é um objecto de luxo muito dispensável. Diante da importância estratégica de que se revestia o controle da força de trabalho. quer através da conversão do ouro arrecadado para a moeda portuguesa ao utilizar-se do câmbio oficial. a dar todo o seu tempo ao movimento da Secretaria.205. entre 1926 e 1936361. p. tendo fortalecido suas posições no período em que seu irmão José Cabral esteve à frente do Governo Geral de Moçambique. ALMEIDA. Américo Chaves de. 361 Ver SOUZA RIBEIRO. às quartas. Op. dirigiu os Negócios Indígenas por cerca de vinte anos. 1932. Lourenço Marques. Anuário de Moçambique . inferior ao do mercado360. pp. 122 . É um Intendente dos Negócios Indígenas da Província de Moçambique ___ uma coisa tão vasta ___ encerrado em quatro paredes a ler regulamentos. quer através do não recolhimento de seus valores aos cofres da Secretaria dos Negócios Indígenas. ir ao Concelho do Govêrno aprovar Montepios Ferroviários e outras coisas que não lhe dizem respeito.”359 O quadro realmente era mais ou menos este. não é de se estranhar que o cargo fosse objeto de disputas e que seu titular a ele se agarrasse ferrenhamente: António Augusto Pereira Cabral. o cargo de Secretário dos Negócios Indígenas era ocupado por pessoa de estrita confiança do Governador Geral.A Ruína de Moçambique. Era um cargo de prestígio e poder e propiciava múltiplas vantagens ao seu ocupante: além dos esquemas de favorecimento a este ou aquele colono. 1940.

mas em membros produtores para o mercado364. ouso afirmar que tornar-se cristão significava passar a integrar uma comunidade universal. tomo I. Comaroff. In: HANSEN. cit. de uma nova moralidade em relação ao casamento. entretanto. sendo o manejo do gado um atributo masculino.. cit. New 123 .3. charruas e juntas de bois. Luís António. à família e ao convívio social. Karen Tranberg (ed. A introdução da tração animal e do arado também afetou a divisão sexual do trabalho na medida em que. 364 COMAROFF. Jean & John L. Domesticity and Colonialism in South Africa”. libertando as mulheres de parte de suas atividades362. Usos e Costumes. as tarefas agrícolas que o empregavam passaram a ser também vistas como atividades masculinas. que viam na introdução destas novas tecnologias uma crescente perda de prestígio e poder e reagiam a isto afirmando que tais instrumentos eram diabólicos e que desafiavam os espíritos dos ancestrais. Na maioria das vezes. esses agricultores tinham um padrão de vida muito superior aos dos chefes e munumuzanes. p. Henrique A. isto era resultante de ingressos monetários originalmente obtidos com o trabalho assalariado. Op. “Home-Made Hegemony: Modernity.. particularmente nas minas. cujos valores transcendiam os valores locais.. na linguagem da administração colonial. convertidos em arados. 133:4. destacando-se do conjunto social que os rodeava. era integrar-se numa outra comunidade cujos laços manifestavam-se nas orações cotidianas e eram reforçados pelas festas litúrgicas ou pelas pregações dominicais que reuniam os fiéis. O que Comaroff afirma sobre os cristãos Tswana pode ser estendido para o sul de Moçambique: os agricultores africanos integrados no mercado eram cada vez mais relutantes em partilhar 362 363 JUNOD.. Migrant labour and agriculture. Tornar-se cristão era também dotar-se de uma outra disciplina.). afirma que.. na espera de atrair com isto seguidores que se converteriam não só em cristãos. em agricultores africanos. na África do Sul ___ que também agiam no Sul de Moçambique ___ o arado e outras técnicas modernas constituíam a base material de sua missão civilizadora na implantação de uma nova ordem moral e eram usados em seus lotes para mostrar a superioridade das forças da cristandade. 515:6. para as missões metodistas que atuavam entre os Tswana. O trabalho compelido cado colonial. Op. transformando-se.. p. De qualquer modo. Alguns dos entrevistados por Covane tendem a identificar estes agricultores mais bem sucedidos como sendo cristãos embora o autor afirme ser difícil traçar com segurança esta associação363. de um outro senso de ordem. African Encounters with Domesticity. COVANE.. Com uma capacidade produtiva que ultrapassava em muito a de sua comunidade.

assim.3. era encarar o trabalho e a acumulação individual como benéficos. 124 . tornavam os cristãos menos suscetíveis às pressões e mais autônomos em relação a estes mesmos poderes do que os não convertidos. o que. 1992. que representava suas crenças e valores passados. Sua famílias tornavam-se cada vez mais fechadas e nucleares365. que. Idem. o hábito do mútuo auxílio. não dependia daqueles para terem acesso à terra e já não mais se integravam às formas comunitárias de trabalho e convivência social. facilitava sobremaneira as relações com os colonos e autoridades portuguesas e abria caminho para alguma ascensão social. quando ainda era incipiente um mercado de manufaturados. investiam em outras transações e na propriedade privada. dirigidas por missionários ou nos bairros indígenas urba- 365 Brunswick. sem sombra de dúvida. mais cedo ou mais tarde. Ibidem. o avanço do individualismo cristão e europeu mataria o coletivismo e as práticas sociais e rituais que dele derivavam: “o respeito aos velhos. o mais significativo. era aderir à abstinência alcoólica ou ao menos distanciar-se da bebedeira e da prostituição das cantinas. tanto contribuía para uma maior acumulação de bens e recursos quanto. p. Ao menos. tornar-se cristão era ter o caminho aberto ao acesso de tais bens materiais propiciado pelas missões e. agia segundo a lógica do mercado e da acumulação. Se muitos ainda mantinham certa fidelidade e respeito à autoridade dos chefes é inequívoco que o ato de aderir a uma fé. iria cair e que. 50. Rutgers University Press. da cidade e do trabalho assalariado. enfim. afirma que ao adotar o cristianismo o novo fiel fincava um machado na raiz de uma imensa árvore. Junod. com a manifestação de tais comportamentos. 46:49. O trabalho compelido bens com dependentes ou em investir na fabricação de cerveja doméstica e gastar com hospitalidade. pp. particularmente se cristão. o sentido de unidade familiar. numa espécie de balanço dos resultados da ação dos europeus sobre as sociedades africanas redigido em 1911 e apresentado como “Conclusões práticas” à sua obra mais importante. não se deixava já influenciar facilmente pelas ameaças dos chefes. a disposição de partilhar sua comida com outros” e assim como o lobolo e o curandeirismo estas “virtudes” não poderiam ser mantidas nas povoações cristãs. era aderir a uma cosmovisão mais adequada ao universo do capital. Este tipo de agricultor africano. cujas práticas rituais e intermediação com o universo espiritual não dependiam dos vínculos e poderes locais. era também ligar-se em um novo conceito de tempo.

acrescentava: “As causas que levaram a esta transformação desenvolverse-ão provavelmente mais ainda no futuro. realizada pela primeira vez após a independência. que incluem a abstenção sexual e o uso de roupa exclusivamente vermelha. passados cerca de um século de vicissitudes e constrangimentos diversos. nestes últimos anos. p. Op. Como missionário que era Junod estava consciente de que sua ação resultava num profundo abismo que se cavava entre os cristãos e os demais... tomo I. durante a qual o regulo M’Panze disse falar em nome do espírito do líder da revolta. 1908. Makombe. “The best means of preserving the traditions and customs of the various south african native races”. As cerimônias foram preparadas segundo os preceitos tradicionais.3. Usos e Costumes. enfraquecendo a comunidade e. Henrique A.. como o demonstra a comemoração do octogésimo aniversário da Revolta do Barué (1917). o poder de justiça e o retorno a cerimônias públicas de culto aos antepassados. Certamente Junod sobrevalorizava a ação missionária e os efeitos da penetração dos valores ocidentais pois. 519. por uma semana. 142 e Usos e Costumes. In: Report of the South African Association for the advancement of science. pelo contrário. porém primitiva. que. pp. tomo I. p.. cit.. uma comunidade civilizada para a qual inevitavelmente evoluiria a “sociedade indígena” 368. Op. O trabalho compelido nos366. parecem emergir com renovado fôlego. O desenvolvimento do individualismo continuará com as suas conseqüências inevitáveis e entre elas a destruição progressiva dos laços tribais. 125 . por ele considerada pitoresca. embora tivesse certo em identificar esta tendência dissolvente. ainda hoje.”367 Junod acreditava que as missões teriam a capacidade de operar esta transformação ao propagarem a consciência individual que suprimiria a vida social coletiva. A fuga do cabrito reserva- 366 JUNOD. 367 JUNOD. 504 e 516. e apregoou o restabelecimento do regulado e a elevação ao trono dos filhos de Makombe. criando-se assim um homem novo. cit. a ponto de podermos facilmente prever o momento em que o clã perderá a sua coesão política e os seus membros se tornarão independentes de toda a autoridade indígena.. Cape Town and Johannesburg. como por exemplo aparecem nas discussões que se desenrolam atualmente em Moçambique envolvendo a nova Lei de Terras. uma sociedade nova. por exemplo ou ainda que se dissiparam completamente os poderes da autoridades indígenas. Henrique A.. não podemos dizer que se extinguiu toda a coesão política local ou que foram suprimidas as práticas rituais ___ ___ a do lobolo..

Se pode ser discutível que o fato de ser cristão tenha tido alguma influência na formação de uma camada de agricultores africanos voltados para o mercado. entre outros: GEFFRAY. afetados ainda pelas secas. trabalhar por farinha de milho. 126 . José Maria de Assunção e Francisco Silva encaminharam ao Director dos Serviços e Negócios Indígenas uma Exposição dos agricultores africanos da Manhiça. em igualdade de condições com os colonos europeus. 368 369 Idem. Alfredo Viana Mussumbuluco. Op. na qual pediam que este organismo fornecesse-lhes. Armando do Santos e Silva. cx. 370 AHM-DSNI. não se distinguiam dos agricultores brancos. entre outros: NEGRÃO. viu aumentar o número de camponeses sem acesso à terra ou com acesso restrito a terras inférteis. Luís António. kurimela a sipho. Ibidem. cit. Estavam presentes vários ministros. ver ainda.Peace Process Bulletin. 371 Kurimela a mbeu significava trabalhar por sementes. alguns destes proprietários negros. cristãos ou muçulmanos.. que.. Migrant labour and agriculture. Bicket Timana. Johanisse. não tenho dúvidas de que no que tange ao recurso à exploração da força de trabalho compelida. 734 Proc. assim como indianos e mulatos. Job Tomás. 1997 e sobre o papel das autoridades indígenas sob o governo da FRELIMO. Mozambique . Carlos da Cunha Amaral. José. junho/1997. A década de trinta e. Tomemos um caso exemplar: em 1926. foi lançada a pedra fundamental de um monumento em homenagem a Makombe. pp. 136:42. Exposição dos agricultores africanos da Manhiça ao Director dos Serviços e Negócios Indígenas de 16/01/26 e ainda Relação dos indígenas requisitados e fornecidos aos agricultores da Manhiça durante o ano de 1925 de 05/02/1926. Op. trabalhar por sabão. Gimo Machava. 505 e 508. COVANE. Cf. cit. A reivindicação no aumento do fornecimento indica que isto já ocorria e a igualdade aqui reivindicada não é senão a de poder ser suprido com a mesma liberalidade e abundância com que eram supridos os colonos brancos. governadores e administradores de Moçambique e um governador de província do vizinho Zimbabwé369. Na vila de Catandica.. Porto. a seguinte. Valy Ussene Jallá. situação da qual se aproveitavam estes novos agricultores africanos que ofereciam emprego a troco de comida ou pequenos bens. NotMoc. prática conhecida como kurimela371. ano 1926 . Christian. kurimela a papa. 1991. 101. A causa das armas.Curadoria e Negócios Indígenas. um número maior de trabalhadores compelidos370. Afrontamento. mais ainda. onde se deu a cerimônia. Ver.Força de trabalho Chibalo.. Machiva. sept. O trabalho compelido do à oferta cerimonial foi associada à fuga de Makombe quando cercado por tropas portuguesas: transformou-se em pássaro e voou. 19. não conseguiam colheitas suficientes e viam-se forçados a buscar trabalho para sobreviverem.3. Malalana Musentu. Secção B . pragas de gafanhotos e inundações. pp. 22.

em todas as suas etapas. 127 .. aleatoriamente impostos.] O respeito pelo chefe. havia um contingente de indivíduos africanos que foram integrados neste processo e dele também se beneficiaram direta ou indiretamente: trata-se dos régulos e cipaios. acerca dos quais falaremos a seguir..] O chefe é a 'terra'. é a idéia mística de que a nação vive por ele como o corpo vive pela cabeça. Os novos chefes e régulos nomeados pelas autoridades portuguesas. também para a montagem e funcionamento eficaz dos mecanismos de dominação que vimos expondo. sabendo que se um régulo submetido contasse com certa legitimidade e respeito entre 372 Por exemplo. sua existência e conduta correta era o que assegurava a própria existência da vida social: “o aparato da realeza é reduzido ao mínimo. fazia executar as ordens da administração colonial. nas operações e no combate de Marracuene. 3.4 RÉGULOS E SIPAIOS Da mesma forma que os soldados africanos foram essenciais para o sucesso das tropas portuguesas durante o processo de ocupação militar em Moçambique. muitos foram presos ou destituídos. ou seja.. antes da conquista militar. todavia. O trabalho compelido Estes mecanismos de coerção que acima apontamos.. Junod afirma que. régulos. [. pp.[. e o que mantém seu prestígio não é a grande riqueza ou poder. o régulo tinha um caráter sagrado. [. 08:9. intérpretes e sipaios passaram a integrar uma estrutura alargada que atuava como o braço que.3. não eram meros fantoches..”373 Após a conquista. não atingiam toda a população de igual maneira e nem eram executados.] Um clã sem chefe perdeu a razão (hunguquile). Buscaram colocar a seu serviço as instituições políticas anteriormente existentes e ainda criaram outras.. Cf: ORNELLAS. a obediência às suas ordens são gerais. cotidianamente. participaram 802 praças africanos. Morreu. e além dos agricultores africanos. indunas. entretanto. Ayres de et alii. as autoridades coloniais não podiam contar somente com os colonos europeus372. Op. As autoridades coloniais. É o galo que sustenta a vida do país. cit. exclusivamente pelas autoridades e colonos.

de 128 . p. Governador do Distrito de Gaza entre 1898-1907 em O país de Gaza. tomo I. filho do falecido régulo Chicuazo. seu irmão mais velho de nome Massazene.375 Este respaldo nas estruturas de poder e linhagens locais não era sinal de que estes gozassem de autonomia. 1904/05 . Diversos Moçambique. Reservados. 370:1. 285..3. Circunscrição de Lourenço Marques Respostas aos quesitos feitos pelo Secretário dos Negócios Indígenas Dr.. 377 Ver por exemplo AHM-OP. CRUZ.. Sociedade de Geografia de Lisboa. procuraram então nomear. Termo de nomeação do régulo Massazeve . Pasta E . Usos e Costumes. Op. cx. a própria condução do processo sucessório pela administração colonial indica que os nomeados estariam a ela submetidos perdendo desta forma sua autonomia anterior e tendo alteradas a natureza de sua ação376.. 03 . FERRÃO. Nos processos de escolha e nomeação de régulos. preferencialmente. Francisco Ferrão para a confecção do relatório sobre o distrito de Lourenço Marques. pp. da Circunscrição do Muchopes ao Governador do Distrito de Gaza 376 Ver principalmente as opiniões de Alberto Cesar de Faria Graça. Henrique A. atuando como correias de transmissão dos novos valores impostos pelo dominador e desempenhando ativo papel na opressão de sua própria gente377. Doctos Importantes. [o administrador] convocou uma banja que indicou como seu sucessor.Pasta Correspondência da Secção de Lourenço Marques. 990. Que tendo verificado a veracidade das informações e não tendo nenhum dos chefes. O termo de nomeação afirma textualmente: “tendo falecido o régulo Chicuazo. Francisco. propôs a nomeação dos citados à Sua Excia o Governador do Distrito”. 88:92.Do Administrador de Manjacaze. pp. pessoas que tivessem alguma legitimidade fundada nas estruturas de poder anterior à dominação Nguni ou que se tivessem posicionado ao lado dos portugueses contra o Estado de Gaza374. indunas ou indígenas presentes impugnado o direito dos pretendentes. p. 1898-1907. de Manjacaze. Os régulos e seu séquito de sipaios acabaram por se tornarem agentes diretos do aparelho de Estado. mais facilidade teria no cumprimento das determinações que lhes fossem imputadas. José Fialho. Secção B. Lourenço Marques.18 e AHU.Relatório do Governador do Distrito de Gaza . 13/10/1918. cit. chefe de terras do mesmo regulado e como sucessor deste com direito à chefia o indígena Facueze. 111. Pe. 295 de 01/10/18. 145. no 508 . 375 AHM-DSNI. cit. Ver para outro exemplo: doc. cx. Op. como ocorreu em 1918. Imprensa Nacional. a administração colonial muitas vezes recorria a consultas para que houvesse o necessário respaldo ao escolhido. Daniel da. quando da nomeação do régulo Massazene. O trabalho compelido seus súditos.Do Comandante Militar dos M'Chopis ao Secretário do Governo do Distrito de Gaza. Curadoria e Negócios Indígenas..Dezembro de 1898 e ainda FELICIANO. 1909. Esta- 373 374 JUNOD.

em editorial. Ver ainda. já que era prática usual os chefes receberem £. 12. 15 § único da “Organização Administrativa do Território do Maputo. e espanca-se. amarra-se a torto e a direito.... cit.. força policial negra que servia nos postos e áreas administrativas378. 111.]. O Brado Africano. 378 129 . os régulos. António Ennes redigiu e mandou publicar em 1895. a trabalhar e não lhes paga. seus auxiliares e com os sipaios. publicada no Boletim Oficial da Colónia de Moçambique no 31/1944. A. homens. Pe. CRUZ.. 379 Art. A Guerra de África . (1895)”.. quem são os régulos hoje? Autoridades de comédia. 275 do Regulamento do Trabalho Indígena na Colónia de Moçambique. a efetuar o arrolamento para a arrecadação do imposto de palhota e a prestar contas ao administrador. Antes mesmo de efetivado o domínio sobre o território. a fornecer os homens requisitados para as forças militares e os trabalhadores para o chibalo. cit. cit. ENNES.. Daniel da. de 04/09/1930.. Op. contando para isso com indunas.. Op.. 23/07/1932. 502:05 e JUNOD. tomo I. 19/04/1924.10 por trabalhador que fornecessem aos recrutadores a serviço das minas379.”380 “Encarregam dessa árdua e ingrata missão. cit.1.. Op. O trabalho compelido vam obrigados a transmitir ordens. O Brado Africano. 392. 380 O Brado Africano. mulheres e crianças. 441. Op. em suma. obrigam-se a pagar multas avultadíssimas. António José. para a agricultura e 22/03/1905. a Organização Administrativa do território do Maputo. Usos e Costumes. De comédia ou de pura farsa porque são uns risíveis ratões de quem o Governo se serve. pp. São portanto os régulos os encarregados do apanha de trabalhadores ‘voluntários’ para a indústria. p.. na qual se estabelecia que o régulo receberia um terço do montante do imposto de palhota por ele arrecadado e 200 réis por semana completa de trabalho de cada um dos homens que fornecesse para o chibalo. O Art. pôs a nu os métodos de recrutamento e a nova condição a que estavam submetidos os antigos chefes: “fazem-se rusgas às povoações. medida que tencionava redirecionar o fluxo de trabalhadores. p. In: ENNES. um nunca acabar de barbaridades impróprias do século e do regime.. cláusula 3 e Art. p. O papel dos chefes e demais autoridades gentílicas foi reforçado pela Portaria no 5639 de 29/07/1944. Moçambique. a quem o Governo atormenta com obrigações[. E que são os régulos. explicita que caberia aos chefes lançar mãos dos meios necessários para fazer cumprir a requisição de trabalhadores..3. Henrique A.

à demissão e mesmo ao desterro383. Op. Daniel da. ou ainda para obrigar os homens a apresentarem-se para o recrutamento382. cit. 31/05/1919. cabos de terra e sipaios. entretanto.]”. cit. indunas. C. O trabalho compelido para tudo quanto apetece. Tais medidas acabaram por resultar no arrombamento da cadeia e fuga dos prisioneiros. 1911-1912. da crescente prática de prender mulheres para o chibalo e do corriqueiro roubo de gado praticado por brancos.. prestava-se a todo tipo de extorsões e violências. 130 . 111. 02/07/1927 e ainda FELICIANO. Em 1927. Pe. Monteiro. Vundiça afirmava com certa fanfarronice e com as mãos cheias de terra que “a minha gente é tanta como esta terra. agentes activos responsáveis por todos os resultados funestos. do seu alto poderio. Os régulos que não conseguiam atender plena e prontamente as requisições sofriam drásticas punições. que podiam chegar à prisão. além de espancamentos e do agarra.. realizado pelos agentes administrativos. José Fialho.384 Uma vez presos os régulos. O próprio 381 382 O Brado Africano. ao trabalho forçado. 383 O Brado Africano. ela não acaba”.3. 02/07/1927. cit.. 129:30. CRUZ. 384 O Brado Africano. 104:5. tomou as medidas que julgou adequadas para reprimir o que considerava um ato de rebeldia: “Mandou. Op. era comum o aprisionamento de mulheres e filhas para se fazer chantagem econômica ou sexual. régulos. diante do progressivo esgotamento de braços masculinos entre os seus. “8a Circumscripção M’Chopes”. p.. o administrador do Xai-Xai. prender os régulos todos e os seus indunas. reclamou à Secretaria dos Negócios Indígenas385. pp. o mesmo administrador determinou também que se efetuassem rusgas para prender todos os homens encontrados nas aldeias. Op. como dono das terras.”381 O recrutamento. O inquérito que se seguiu reconheceu o roubo e mandou os brancos ladrões devolverem o gado e determinou ainda a soltura das mulheres presas. não tendo faltado a alguns a bofetadasita nacional na bestunta caratonha do pobre narro [. Talvez o melhor exemplo de como eram tratados os régulos sob a administração colonial possa ser exposto com o caso ocorrido com o régulo Vundiça: ante às dificuldades de outros régulos em fornecerem cada vez mais homens para o trabalho compelido. 23/08/1913 e MARQUES. p. alegando que os régulos não estavam fornecendo o número requisitado de trabalhadores chibalo. In: Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques. Ver por exemplo O Africano. e condená-los a trabalhos forçados.

a quem o Secretário interino dos Negócios Indígenas. além de percentuais sobre o número de trabalhadores fornecidos para o chibalo ou para os recrutadores das minas. Informação do Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas ao Governador Geral. fazia de tudo para agradar os colonos seus apaniguados. cassete 04. Mantinha certo poder de distribuir a justiça e. p. cit. O trabalho compelido Secretário dos Negócios Indígenas. que criara “inimizades até entre outros régulos. 09. Projeto Luta de Libertação. entretanto. passados alguns anos. 12/03/1927 e depoimento de Raúl Bernardo Honwana à Oficina de História/CEA. o Governador Geral José Cabral. como é o caso de Sibebe. como também recebia comissões sobre o imposto de palhota recolhido. Muitos daqueles régulos que haviam apoiado os conquistadores portugueses. O prestígio do cargo assegurava a seu titular uma série de benefícios financeiros: não só era isento de pagar. ainda que régulo. que “como recompensa da sua fidelidade sempre reconhecida nas várias sublevações dos indígenas contra nossa soberania e em virtude do estado de pobreza em que se encontra” lhe fosse dada a importância de £. no fornecimento de força de trabalho.12 “para a construcção de três palhotas e mensalmente 50 quilos de arroz. 95. despesas que seriam oriundas do fundo de “espólios indígenas”. cerveja e trabalho388. 20/4/83. e como tal. Augusto Cabral. 19/02 e 26/02/1927. como também tributos dos magaíças retornados. demitido e desterrado por dez anos386. exactamente para bem servir os brancos”. e quanto a Vundiça.. Migrant labour and agriculture. em 1915. Op. não podia permitir que um indígena. reconheceu que o administrador do Sabié. cx. em nota confidencial ao seu irmão. 22/12/1915. pois do contrário ninguém desejaria sê-lo. antiga rainha das terras do Machaquene. 10 quilos de feijão e 2$00 em dinheiro”. 131 . na condição de eminente representante do poder colonial. acabou sendo considerado culpado de “falsas acusações contra as autoridades constituídas”.387 É evidente que ser régulo não tinha só desvantagens. de 24/02/27. tivesse a ousadia de reclamar contra a administração portuguesa. responsável pelo inquérito contra o régulo. O Brado Africano.3. 30 quilos de amendoim.. Diversos Confidenciais. além de diversos pagamentos em gêneros.. AHM-ACM. cobrava taxas em dinheiro ou bens para a 385 386 O Brado Africano. acusando o régulo de práticas comumente perpetradas pelos europeus. propõe. estavam vivendo na miséria. para tanto. O Secretário. Luís António. 387 O Africano. maço 1927. 388 COVANE.

garantindo-se-lhes que apenas lhes seria exigido o imposto único anual. 1979. “A rebelião Barué de 1917: uma consciência zambeziana elevada”.O Vale do Zambeze. 3. 257:300. o recrutamento de soldados e carregadores ou o repentino aumento do imposto de palhota ocasionado por sua paridade com a libra. pp. Porto.3. 132 . Op. O Africano. em 1917. 391 O Africano. em 1914. outras manifestações de revoltas se disseminaram. Além das revoltas rapidamente esmagadas. gado e principalmente ter várias mulheres. como ocorreu em 1907. centenas de estratégias cotidianas.5 DA FUGA AO BOICOTE Mas é claro que as populações contra quem se voltavam estes mecanismos coercitivos não permaneciam passivas como sujeitos inertes sobre os quais a vontade alheia se aplicava tranqüilamente. Outras somavam ao agudo descontentamento com a administração colonial. 07/04. cit. 392 O Africano. 1850-1921. Francisco.. a violência sexual contra as mulheres. abalou a presença portuguesa em terras de Tete392. 117:21 e ainda FERRÃO. cit. em Inhambane. algumas ficando em tentativas supostamente organizadas ou lideradas por régulos e desencadeadas por motivações palpáveis como o aumento do trabalho forçado. 110:1. 389 390 CRUZ. Op. coisas dificilmente acessíveis a outros membros da população. em Gaza. propostas de restauração da legitimidade política perdida. Pe. Allen F. Daniel da. 11/04 e 14/04/1917 e ISAACMAN. queria “derruir a Soberania Portuguesa” ao pregar “a superioridade e o poder de Godide. In: A Tradição de Resistência em Moçambique . como herdeiro de Gungunhana a quem unicamente todos deviam prestar vassalagem. Esta sua posição lhe permitia reunir certa quantidade de bens de consumo. além de manter o mais importante dos poderes que era o de efetuar a redistribuição das terras mantidas pela comunidade389. 18/11/1914 e 23/09/1914. que supostamente. pp. Algumas demonstrações de descontentamento não ficaram só em articulações e eclodiram violentamente como a conhecida Revolta do Barué que. Afrontamento. Além das acima mencionadas. quando foram condenados dez régulos390. 06/05/1914. O trabalho compelido resolução de conflitos envolvendo terras. lobolo ou feitiçaria. de um escudo” 391. como ocorreu.

Moçambique. o grosso das tropas portuguesas era formado por soldados africanos. 433:449. 133 . quer por angolas trazidos da costa ocidental. quer recrutados entre os homens dos régulos aliados. Como a implantação da máquina administrativa não se fez de um só golpe. 48.doc 277 de 26/11/1909 do Administrador do Sabié para o Sec. que vale a pena dedicar algumas linhas a seu respeito. O recrutamento militar compulsório causava tanto pavor na população e era por ela tido como muito mais danoso do que o chibalo. p. 920/1811. pasta 1908. segundo o qual “bastantes famílias e homens válidos teem emigrado para o Transvaal com tenções de aqui não voltar a fim de se eximirem do recrutamento militar.. Op. em 1909. A mesma opinião é expressa pelo Administrador do Guijá ao Governador Geral. 394 AHM-DSNI. deveriam. O trabalho compelido das quais só se guarda memória de algumas. António Ennes. cit. proc. 395 ORNELLAS. António José. 25. se necessário. Em 1897. doc. cx. ao menos para contornar seus aspectos mais violentos e tornar a vida menos dura. do chibalo e do recrutamento militar foi a tática de mudar-se para áreas da colônia onde o controle administrativo era menor393 ou arriscarse a toda sorte de perigos e cruzar a fronteira para os territórios vizinhos como informa. 316 de 24/11/08. neste caso. 106. pp. ano 1910. o sucessor de Ennes. de 03/05/1910 do Quartel General para o Intendente dos Negócios Indígenas e de Emigração. o Administrador do Sabié..”394.. dos Negócios Indígenas. agir também como força policial e serem recrutados nas localidades onde as ensacas estivessem estacionadas em tempo de paz396. sendo a manutenção da ordem subsequente. doc. Op. e que os 1. Secção B . cx. Carta do Representante Civil do Governo de Inhambane ao Conselheiro Secretário Geral.143 recrutas para as forças regulares deveriam ser oriundos de distritos diferentes daqueles em que as tropas estivessem aquarteladas e servir por um período de cinco anos. em sua Organização das Forças Militares Regulares e Irregulares estabelecia que o recrutamento compulsório. 396 ENNES. emigração que se tem feito especialmente depois da [introdução da] cobrança do imposto de palhota. Diversos (confidenciais). AHM-ACLM. 393 AHM-DSNI. Conforme se disse. 1371 .Curadoria e Negócios Indígenas.3. se desenvolveram diariamente senão para enfrentar. ao Secretário dos Negócios Indígenas. cit. deveria ser feito com o apoio dos potentados indígenas. Criava ainda uma força irregular formada por 4. Ayres de et alii.784 sipaios que eram obrigados a prestar três anos de serviços. em suas campanhas de ocupação militar.. 372 de 26/06/1909 e ainda Proc. Comissário Régio em Moçambique. uma das primeiras formas encontradas pelas populações para esquivarem-se da obrigatoriedade do pagamento de impostos. também feita com este recurso395.

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Mousinho de Albuquerque, determinou a obrigação de que todos os indivíduos estabelecidos nas terras da coroa, dos régulos ou xeques, deveriam prestar serviços como auxiliares no caso de rebelião ou guerra, isentando somente os menores de 21 anos, os inválidos e os funcionários públicos. Os que não quisessem se engajar poderiam isentar-se pagando 2$500 réis de taxa, mas caso fossem encontrados sem o documento de isenção ou se recusassem a integrar a tropa, seriam multados em 45$000 réis e, se fosse indígena, condenado à pena de prisão com trabalho397. Nos anos de 1896/7 as forças regulares integradas nas Cias de Guerra passaram a contar com 2.304 indígenas, conforme demonstram os quadros orçamentários para estes anos398. Em 1900, um antigo colono, comerciante grossista, cujos negócios se realizavam com consumidores indígenas, mandou publicar um panfleto intitulado “A Rusga”, sob a forma de carta aberta ao Curador dos orphãos, serviçaes e indígenas no qual se insurge, de maneira bastante humorada, contra a ação da polícia de Lourenço Marques que prendia “todos os pretos, por toda a parte, a torto e a direito, quer tivessem trabalho ou não, inoffensivos e innocentes, com mavórtico fervor” para serem engajados como soldados no Distrito de Moçambique, no norte de Colônia. Alegava o autor, que se escondia sob o pseudônimo de Mavulanganga, que quando a polícia começava a “apanhar pretos de dia e de noite, nos quintaes, especialmente os que dormem o sonno dos justos”, todos os outros punham as barbas de molho e fugiam, fazendo com que não se tivesse gente disponível para transportar os 6 mil volumes que ele tinha estocados na Alfândega, além disso, tal atitude policial desestruturava o comércio dos arredores da Cidade, pois os pretos com medo de serem agarrados, voltavam para suas terras e os cinqüenta comerciantes a quem tinha adiantado mercadorias a crédito não podiam pagá-lo, por falta de consumidores. Afirmava ainda que, mais do que soldados, o que a Colônia precisava era de gente que “nos ajude a trabalhar, que ganhe e que consuma”. Mas não tomava só defesa dos seus interesses imediatos. Também se opunha aos estereótipos acerca dos indígenas: chega a “dar a palavra de honra” que apesar do que se afirmava, os indígenas eram gente; que tinham sentimentos, amor e verdadeiro senso de justiça, além de serem diligentes e, se na Cidade, havia vadios, estes eram brancos, pois os pretos eram trabalhadores e a prova disso

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ALBUQUERQUE, Joaquim Mousinho de. Providencias , Op. cit. , pp. 87:8. Idem, Ibidem, pp. 138:144.

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era que eram eles que abasteciam a cidade de peixes, de carne, de lenha, de estacas e pedras, eram eles que “com o torso nu e luzidio de suor, ajoujado” transportavam todas as mercadoria para a colina e interior. Dos europeus, dizia o autor, ele próprio um europeu, só recebiam violências e extorsões, expropriação de terras, três meses de chibalo sem pagamento, trabalho prisional gratuito, etc., sendo tratados como animais. O recrutamento militar compulsório, além de prejudicar o comércio, era apontado como um dos principais fatores para a disseminação da prostituição, pois desfazia as famílias quando os maridos, pais ou irmãos eram enviados à tropa deixando para trás as mulheres com os filhos menores399. Em 1908, Junod nos descreve os métodos usados para conseguir recrutar os soldados que precisavam para servirem em Angola e Moçambique: “os administradores, no interior, simplesmente ordenam aos chefes locais para que lhes forneçam x quantidade de homens. Policiais negros acompanham os emissários dos chefes e simplesmente agarram os indivíduos indicados. Eles dizem que é só para o trabalho forçado. Mas na esquadra de polícia os velhos são mandados para casa e os jovens presos. Em alguns dias eles serão enviados, para onde e por quanto tempo não sabem. Como muitos dos que foram aprisionados da mesma maneira em anos anteriores nunca retornaram, esses arrestos, aos olhos dos nativos, equivalem a um serviço para a vida toda, o que para eles é uma idéia intolerável.”400 O pavor de ser engajado nas tropas era tal que, acrescenta Junod, dois destes homens cortaram parte de seus dedos indicadores tornando-se incapacitados para o manuseio de armas. Um administrador colonial, em 1913, alinhava-se com Junod ao afirmar que não havia argumentos que pudessem convencer os indígenas a engajarem-se no serviço militar por o considerarem um castigo e não uma obrigação cívica. Segundo ele “O indígena é muito amante da sua liberdade e contrário a tudo que o constranja, portanto, as narrações feitas por aquelles que durante três anos permaneceram nas fileiras, sujeitos aos rigorismos militares, o estado de abandono em que depois se encontram, por haverem perdido a família durante uma tão longa ausência, as doenças que contrahiram, o estado de fra-

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MAVULANGANGA. A Rusga. Op. cit. Swiss Mission Archives (SMA), Lausanne, cx. 548, Junod para o Conselho, 15/05/1908, Apud HARRIES, Patrick. Work culture and identity... Op. cit. pp. 168:9. Para anos posteriores ver a mesma prática em ISAACMAN, Allen F. A Tradição de Resistência ... Op. cit., p. 260.

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queza physica devido à falta de trabalhos violentos a que estavam acostumados e que constituem os únicos meios que teem de angariar a vida, a falta de um peculio que os habilite a tentar de novo a existência na terra natal, são razões mais do que sufficientes para amedrontar esta gente da crueza do serviço militar.”
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Para contornar esta rede de informação oral que disseminava o pânico e a fuga, o administrador repete argumentos de seus antecessores, propondo que para o sucesso do recrutamento seria “de toda conveniência mudar-se de mês todos os annos, de forma a desnortear o preto a respeito da data fixa de levantamento, o que o põe de sobreaviso”402. Se o alvitre foi seguido, parece não ter resultado. O certo é que as pessoas faziam de tudo para livrarem-se do recrutamento militar. Os que dispunham de algum dinheiro, gado, bens ou excedentes agrícolas, muitas vezes davam tudo que tinham aos régulos e sipaios403 e outros ainda fugiam para o mato, abandonando nas aldeias somente mulheres e velhos inválidos para o trabalho pesado, conforme nos narra um destes fugitivos: “Nessa altura costumávamos esconder nas montanhas. As nossas mulheres traziam-nos comida num balde. Parecia que iam buscar água, mas iam levar-nos comida. Se ouvíamos um cão ladrar, sabíamos que os sipaios tinham chegado.”404 Quando Portugal integrou-se nos conflitos ligados à primeira guerra mundial, acelerou-se o recrutamento compulsório e somente em 1916 foram recrutados cinco mil homens para servirem como carregadores e soldados integrados nas tropas indígenas coloniais. Não se poupava nenhum homem válido: “todos os nossos filhos são apanhados e mandados embora como soldados... Para onde não sabemos. Quando são levados, regressam umas vezes dentro de 3 ou 4 anos, outros nunca mais voltam. Nunca sabemos se estão vivos ou mortos”405 não sendo pois de se estranhar não só que “os homens recrutáveis fugiam para o mato, pois preferiam o convívio com as feras ao martírio do Niassa”406. Era nesta região inóspita que se desenrolavam os enfrentamen-

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MATOS, João Antonio Paes de. Op. cit., p. 17. Idem, Ibidem, pp. 17:8 e AHM-ACLM, Diversos (confidenciais), cx. 372, do Administrador do Guijá ao Governador Geral, 26/06/1909. 403 MARQUES, C. Monteiro. Op. cit., p. 105. 404 Entrevista com Lofas Nzampo em Estudos Moçambicanos. no 2, 1981, p.28. 405 Citado por ISAACMAN, Allen F. A Tradição de Resistência ... Op. cit., p. 259. 406 ARAÚJO. José Botelho de Carvalho. Relatório acerca da Administração do Distrito de Inhambane por [...] Governador do Distrito, ano de 1917. Coimbra, 1920, apud CAPELA, José. O imposto de pa-

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tos bélicos e onde, sob péssimas condições de alojamento e alimentação, os homens eram vitimados não só pelas balas, mas também, e principalmente, por inúmeras doenças. Esta tática de ocultação nem sempre surtia efeito pois, como já apontamos, difundiu-se a prática de se aprisionarem as mulheres e submetê-las ao trabalho compelido até que seus maridos e parentes se apresentassem. Segundo o Grémio Africano, a única maneira de se evitar o aumento da emigração e estas “correrias de pretos pelo mato”, quando do recrutamento, era reorganizar todo o sistema: primeiro as companhias de guerra deveriam ser substituídas por um exército colonial regular constituído por voluntários, que deveriam ser decentemente vestidos, calçados e alimentados; todos deveriam ter direitos e regalias iguais, quer fosse por pensão, reforma ou serviços prestados; e os que tivessem habilitações literárias, deveriam ter acesso a todos os postos em igualdade de condições com os europeus, como era antes da organização das companhias de guerra, quando oficiais nativos “honraram a pátria em vários combates e que sempre mantiveram aquela linha e aquele garbo que se exige de um militar”407. Nas regiões sob administração das companhias concessionárias da colônia
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centro-norte

enquanto não se tinha ainda montado uma eficiente rede de controle pelo

interior, estas não pressionavam muito as populações no sentido de obter força de trabalho para o chibalo; entretanto, depois de assentadas plenamente, não hesitaram em lançar mão das mesmas táticas e com resultados semelhantes: “Dos territórios da Cia do Nyassa tem emigrado milhares de famílias indígenas e a onda não parou ainda (...) Os pretos, explorados, suando sangue à força de cavalo marinho para enriquecer estes vampiros, engordar Broas, Vil Hyenas, etc., etc., vão em massa para o Tanganyka, Nyassaland, etc., despovoamento que se regista todos os dias. Do concelho de Montepuez fugiram 30 mil famílias, de Ankuabe 10 mil, de Mekufi 8 mil, de Amaramba e Mahua 12 mil, de Metarica 8 mil, de Metangula 10 mil, do Tungué 7 a 8 mil, de Mocímboa 4 mil, de Quissanga 6 mil, dos Makondes 4 mil, de Metonia 3 mil etc. etc., e isto vai caminhando para que os Territórios sejam em breve um grande deserto e uma grande necrópole. A exploração do preto é abjecta por toda parte. No litoral

lhota... Op. cit.,1977, p. 161 e AHM-DSNI, Secção B, Curadoria e Negócios Indígenas, Proc. 118, ano 1918, doc. 52/23 de 07/02/18, do Sub-Intendente dos Negócios Indígenas e de Emigração em Inhambane para o Intendente dos Negócios Indígenas e de Emigração. 407 Grémio Africano de Lourenço Marques. Fomento da Província. Op. cit.

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servem-se alemães amigos, magnatas de quem se tem medo, sócios de encapotados e descarados vultos da redondíssima ‘panelinha’ enquanto que no interior reina a mesma faina de enriquecer e sugar o preto por todos os modos. Nos Concelhos de Metarica, Metonia, Amaramba e Lago, foi imposta aos indígenas a obrigação de pagarem o imposto de palhota em dinheiro inglês, moeda que os desventurados pretos teem de procurar nos territórios estrangeiros vizinhos [...].”408 Para enfrentar o cultivo obrigatório do algodão, as pessoas lançaram mão de várias táticas. Raúl B. Honwana afirma que a insistência do administrador de Bela Vista em manter, em 1933, o cultivo obrigatório do algodão, que já se mostrara insatisfatório no ano anterior, fez com que a população, diante da incapacidade do régulo Santaca em resolver a questão, tomasse para si a iniciativa de ir dialogar com o administrador para convencê-lo de que “por mais sacos que vendamos, não conseguimos pagar nem sequer o imposto de uma só palhota; uma povoação tem normalmente de cinco a seis palhotas; não temos tempo para produzir comida; temos fome.” A reunião durou horas e quando o administrador mandou os sipaios deterem dois camponeses que dançavam desafiadoramente na sua frente, a multidão reagiu atacando os sipaios, dando fuga aos prisioneiros e jogando as senhas do imposto de palhota para cima do administrador, gritando: “Fica com o teu algodão, nós vamos todos embora para a Zululândia; não queremos ter mais nada com vocês”; e foi o que efetivamente ocorreu: o régulo Santaca com sua gente buscou refúgio nas terras de seu primo Muhlupheki, no Transvaal409. A tática de mudar para longe, entretanto, era sempre uma escolha dolorosa, pois significava abandonar suas terras, não só em seu significado econômico mas também cultural e espiritual. Como já se disse, a terra vinculava estreitamente os indivíduos com seus valores culturais e desenraizar-se deles não poderia senão ser uma decisão extremamente traumática. Se do outro lado da fronteira os povos fossem parentes, como no caso de Santaca, o impacto seria menor já que compartiam língua, hábitos e valores; mas nem sempre este era o caso e, então, ir para outras terras, fora de seu universo cultural, seria defrontar-se com uma série de problemas, que passava inclusive pela questão do acesso à terra enquanto meio de produção.

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O Brado Africano, 31/01/1925. HONWANA, Raúl Bernardo. Op. cit., p.67.

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Quando o sistema de cultivo obrigatório tornou-se mais efetivo e nas situações em a fuga era inviável ou indesejada, os camponeses lançaram logo mão de uma estratégia silenciosa para minimizar o impacto de tal tarefa. Como não era possível ocultar, preparavam o terreno e semeavam o algodão, tendo porém o cuidado de cozinhar, na calada da noite, as sementes fornecidas pela administração410. Assim não podiam, formalmente, serem acusados de se recusarem ao cultivo e atribuíam o fato do algodão não nascer à má qualidade das sementes. Com tal artimanha se isentavam das demais tarefas do trato agrícola deste produto, mais exigentes em termos de trabalho e tempo, e podiam aproveitar a terra preparada para cultivar produtos de seu interesse. Quando nada disso era possível, muitas vezes os camponeses preferiam queimar, enterrar ou simplesmente jogar fora o algodão já colhido, do que levá-lo até os postos de compra das companhias concessionários para vendê-lo a preços irrisórios411. Uma outra estratégia era a da mudança dos nomes. Entre os Tsonga, os nomes das pessoas podiam variar ao longo da vida, do nascimento à morte, nomes cuja atribuição era situacional, dando ao indivíduo uma definição do eu ancorada no tempo e no espaço e isto era feito de maneira pragmática e adaptável, permitindo a homens e mulheres situarem-se numa ampla gama de relações sociais412. Amparados nesta prática cultural, e aproveitando-se do fato de que para a maioria dos brancos todos os indígenas tinham a mesma aparência, muitos mudavam de nomes ou adotavam nomes falsos na tentativa de subtraírem-se à vigilância, ao recrutamento militar e à obrigação do trabalho413. Havia um expediente bastante interessante: diante da obrigação de prestarem entre noventa e cento e oitenta dias de trabalho assalariado, muitos recorriam ao expediente de trabalhar quinze ou vinte dias de graça em terras de algum colono, deles obtendo os registros probatórios de todos os dias obrigatórios, conseguindo assim amparo legal para cuidarem de seus próprios interesses414.

410

Esta informação obtida em conversas com vários camponeses está confirmada em ISAACMAN, Allen. Cotton is the mother of poverty... Op. cit. p. 17. 411 Sobre as diversas formas e manifestações de resistência levada a cabo pelos camponeses em Moçambique ver ISAACMAN, Allen. Cotton is the mother... Op. cit. pp. 205:37 e HEDGES, David (coord). Op. cit. pp. 111:4. 412 JUNOD, Henrique A. Op. cit., tomo I, pp. 464:66; CRUZ, Pe. Daniel da. Op. cit., p.103 e HARRIES, Patrick. Work culture and identity... Op. cit., p.06. 413 SERRA, Carlos et alii. História de Moçambique. Maputo, Tempo, 1983. Vol.2, p.201. 414 ARAÚJO, José B. de Carvalho. Op. cit., p.166.

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3. O trabalho compelido

Uma vez tendo sido agarrado, era ainda possível fugir no trajeto ou tendo sido já vendido para algum agricultor, tentar fugir da machamba. Estas ocorrências não eram raras mas implicavam riscos de longas jornadas a pé pelo meio do mato evitando os caminhos mais movimentados para não serem presos. Em circular aos administradores das circunscrições do distrito de Lourenço Marques, a Secretaria dos Negócios Indígenas relatou tal prática, mencionando o exemplo de que, em julho de 1916, na propriedade agrícola do Dr. Eduardo Saldanha, deveriam estar permamentemente cento e oitenta indígenas fornecidos, mas que cinqüenta deles haviam se ausentado; pedindo-se aos administradores que procedessem com rigor, prendendo os fugitivos e enviando-os a fim de serem castigados com trabalho correcional, e que tomassem medidas para que, no futuro, se evitassem semelhantes inconvenientes415. A maioria destes fugitivos não voltava diretamente para suas terras, onde seriam submetidos a penas de trabalho prisional; rumavam para as minas na esperança de que, ao voltarem, decorrido algum tempo, a fuga já houvesse sido esquecida no emaranhado burocrático da administração colonial ou que, voltando com algumas libras, pudessem comprar a conivência dos régulos e sipaios para que não os denunciassem. Nas áreas da Sena Sugar Estates, como o trabalho era organizado por tarefas, o trabalhador só tinha direito ao salário, que lhe era pago semanalmente, com a apresentação das chapas obtidas pelas tarefas cumpridas. Aqueles que pretendiam fugir, vendiam, ainda que por preços menores, suas chapas aos que ficavam, possibilitando a estes manejarem alguns dias da semana de acordo com os seus interesses. Na lavoura, os trabalhadores desenvolveram uma série de táticas para boicotar o trabalho; plantavam a cana fora das especificações exigidas pela empresa; capinavam só até à metade das linhas de cana e daí em diante davam uma amassada onde o mato era maior, pois contavam com a negligência dos capatazes; evitavam cortar a cana muito rente ao solo
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embora seja aí que se concentre o maior teor de sacarose

porque isto implicava

em maior esforço físico; nem sempre aparavam adequadamente as palhas, deixando entulho; no momento de completarem os vagões, ao invés de enchê-los com feixes de cana alinhados e sobrepostos, faziam verdadeiros ninhos de rato e só completavam da maneira correta os feixes superiores, para disfarçar. Quando a manobra era descoberta,
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AHM- DSNI, Cx. A/10, pasta ano 1916, Circular da Secretaria dos Negócios Indígenas, no 504/58/1 de 13/07/1916.

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3. O trabalho compelido

xes superiores, para disfarçar. Quando a manobra era descoberta, já era tarde, pois se estava diante das moendas416. Quando não era possível por em prática alguma das táticas acima indicadas, era comum os trabalhadores oferecerem-se, a partir de informações de amigos e parentes, como voluntários para trabalhar para patrões que pagavam melhor, tratavam menos mal, enfim, onde as condições gerais de trabalho fossem as menos ruins possíveis, preferencialmente nas minas do Transvaal ou mesmo em Lourenço Marques, onde os salários urbanos eqüivaliam ao dobro dos pagos na agricultura e, onde às vistas da população, as violências eram menores.

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HEAD, Judith. “Opressão colonial e formas de luta dos trabalhadores - o caso Sena Sugar Estates” In: Não Vamos Esquecer. Ano I, no 2-3, dez/1983, pp. 39:44.

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4. O TRABALHO VOLUNTÁRIO

4.1 MAMPARRAS & MAGAÍÇAS
“Madevo atravessou Ressano Garcia com ritmo de sífilis nas calças de ‘ten and six’ um brilho de escárnio no candeeiro à cinta um gramofone ‘His Master’s Voice’ e na boca uma sincopada cantiga de magaíza que retoca a paisagem com a sofisticada cor das hemoptises ‘one pound ten’. José Craveirinha.

Embora a maioria dos trabalhadores migrantes possam explicar, nos anos mais recentes, a sua integração no mercado de trabalho, nas minas ou cidades, a partir de argumentos extra econômicos, situando-a no âmbito dos desafios pessoais e desvinculando-a de problemas na agricultura417, esta vista como tarefa feminina, é preciso estar atento, pois aquilo em que as pessoas acreditam e que aos olhos de hoje pode parecer uma verdade inconteste e eterna, pode, de fato, não ser senão o fruto de um processo de construção de representações sociais e um movimento, cujas raízes, por vezes, encontram-se fincadas a não mais que algumas décadas. Já a partir do terceiro quartel do século XIX, antes portanto do domínio efetivo português, estabeleceu-se um importante fluxo migratório de trabalhadores, principalmente de origem thongas-rongas e m’chopis, acompanhando a expansão da indústria açucareira do Natal. Em 1871, as autoridades do Natal firmaram acordo com Muzila para garantir o fornecimento de homens para as plantações e, já em 1866, o Governador Geral de Moçambique, António de Canto e Castro, relatava que a maior parte da riqueza circulando pelo interior da região sul de Moçambique era resultante do ingresso de libras obtidas através do trabalho migratório na colônia vizinha418. Tal fluxo estava asso-

417 418

COVANE, Luís António. Migrant labour and agriculture... Op. cit., pp. 33:4. Idem, Ibidem, p. 84.

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4. O trabalho voluntário

ciado a fatores diversos: secas, doenças bovinas, conflitos internos no império de Gaza opondo Mawewé a Muzila (c.1860), bem como a paulatina extinção dos elefantes cujo marfim assegurara, até então, acesso a bens de consumo e de prestígio, de origem européia e indiana419. Em 1867, Moçambique exportou 94,4 toneladas de marfim e, a partir de então, esta cifra foi caindo até 72 toneladas em 1887; a queda mais acentuada porém, verificou-se nos anos posteriores à dominação militar portuguesa: em 1902 exportou-se somente 3,9 toneladas, excluindo-se a área sob jurisdição da Cia do Nyassa. Das áreas sob administração do Estado, exportou-se em 1904 - 2,9 tons., em 1905 - 1,2 tons., em 1906 não mais que 1,6 tonelada420. Ao sul do Save, esta crescente escassez de elefantes manifestava-se já por volta de 1870 e, certamente, estava associada à presença mais intensa de caçadores brancos, equipados com armas cada vez mais letais que propiciaram grandes caçadas em temporadas anteriores, e que, diante da concorrência e da crescente escassez, passaram a abater animais cada vez menores, impedindo o ciclo reprodutivo do paquiderme e praticamente extinguindo-o das terras ao Sul do Save. Após a conquista, paulatinamente expropriados de suas melhores terras, e diante de seus rebanhos reduzidos pelas razzias militares durante a ocupação, ou pela cobiça de criadores brancos, pelas constantes crises ecológicas e pelas sucessivas pestes bovinas; proibidos de portar armas de fogo, mesmo para a caça, coagidos pelos crescentes impostos e pela obrigação moral de trabalhar, por tudo isso os negros viram-se constrangidos a buscar trabalho assalariado421. Algumas vezes o trabalho assalariado deixava de ter,

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Ver JUNOD, Henrique A. Usos e Costumes... Op. cit., tomo I - Vida Social, p. 266; ERSKINE, St. Vincent. “Third and fourth Journeys in Gaza or southern Mozambique, 1873 to 1874 and 1874 to 1875”. In: Journal of Royal Geographical Society. 48, 1878, pp. 25:56; RITA-FERREIRA, António. “A Sobrevivência do mais fraco: Moçambique no 3o quartel do Século XIX” e COVANE, Luís António. “Considerações sobre o impacto da penetração capitalista no Sul de Moçambique, 1850-1876”, ambos In: I Reunião Internacional de História de África - Relação Europa-África no 3o quartel do Séc. XIX (Actas). Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga, IICT, 1989, respectivamente pp. 314:16 e 525:34 e ainda HARRIES, Patrick. Labour migration from Mozambique to South Africa with special references to the Delagoa Bay hinterland. c. 1862-1897. tese de doutorado defendida junto à University of London , mimeo, 1983 e do mesmo autor Work culture and identity... Op. cit., pp. 145:154. 420 Ver LIESEGANG, Gerhard. Op. cit., tabela XV.14 , pp. 502, 471 e 503. 421 Ver sobre as crises ecológicas e doenças: COSTA, Gomes da. Gaza - 1897-1898. Lisboa, Typ. e Photogravura C. Branco Albert, 1899, pp. 175; JUNOD, Henrique A. Usos e Costumes... Op. cit., tomo II, p. 43 e ainda Relatório das Circunscripções - Districto de Lourenço Marques - 1911-1912. Lourenço Marques, Imprensa Nacional, 1913, nas quais se apontam as principais ocorrências epizooticas: East Coast Fever, Tripanosomiase, e se avaliam os impactos da seca de 1911, pp. 09, 48, 97, 99, 118. Embora tendo seu porte proibido pelo Art 2o, parágrafo único da “Organização do Distrito de Gaza”, de 1895, foram apreendidas, em 1900, 20 mil armas de fogo somente ao Sul do Rio Save. Ver: ENNES.

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4. O trabalho voluntário

nas áreas menos férteis, o objetivo de conseguir o dinheiro para os impostos, para transformar-se no principal meio de sobrevivência física e social de comunidades inteiras, o que não significa concordar-se com a tese de que os trabalhadores afluíam às cidades e às minas à procura de um complemento salarial com vistas “à sobrevivência da exploração agrícola familiar”422, perspectiva que, claramente, minimiza as pressões extraeconômicas exercidas pelo Estado colonial, traduzidas, como vimos, principalmente no imposto de palhota e na obrigatoriedade do trabalho. Em tese, podiam oferecer-se voluntariamente no mercado de trabalho, buscando os melhores salários e onde as condições de sua realização fossem menos ruins. Entretanto, diante do chibalo, do recrutamento militar, das exações, violências e demais condições impostas à força de trabalho, milhares de trabalhadores buscavam engajar-se em contratos, com variação entre um e dois anos, que os levassem às minas de ouro do Transvaal, onde não havia imposto de palhota, chibalo ou recrutamento militar423. Assim o Pe. Daniel da Cruz descreve-nos esta situação de deslocamento: “Amam as suas selvas, os seus batuques, a vida remansosa de suas aldeias e palhotas, o céu que os viu nascer; mas a necessidade os obriga, e assim vão, tristes, mas cantando, na esperança de um futuro risonho e descansado.”424 Para trás ficavam as esposas, mães, filhas, tias e crianças chorando e temendo pela longa ausência de seus homens. Só não disse, o padre, o que realmente os impelia a tal partida. Aproveitando a existência de migração anterior à conquista e antevendo a crescente demanda, o governo português, substituindo os antigos senhores Nguni, estabeleceu acordos com o Transvaal, outorgando privilégios e, depois, concedendo o monopólio no engajamento de trabalhadores moçambicanos às organizações criadas pela Câmara das minas425. Em 1893 a Câmara das Minas do Witwatersrand criou o seu próprio Native Labour Department (NLD) para não mais depender dos recrutadores independentes, podendo assim regularizar e ampliar a oferta de trabalhadores migrantes e impedir o

António José. A Guerra de África em 1895. 2a ed., Lisboa, Ed. Gama, 1945, p. 516. 422 ROCHA, Aurélio A. N. Lourenço Marques: Classe e Raça ... Op. cit., p. 17. Outras críticas e este trabalho, ver, MOREIRA, José. A Luta de Classes em Lourenço Marques..., Op. cit., pp. 09:11. 423 O Africano, 23/01/13 e o artigo “A caminho do Joni” de Simeão Makwakwa, publicado em ronga na edição de 12/02/1916. 424 CRUZ, Pe. Daniel da. Op. cit., p. 218. 425 Ver a sucessiva legislação editada a partir de 1875, inicialmente para garantir a migração para o Natal e depois para as minas: COVANE, Luís António. As Relações Económicas entre Moçambique e a África do Sul.. Op. cit., e do mesmo autor Migrant labour and agriculture... Op. cit., pp. 99:109.

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de “remediar a falta local de trabalhadores”. 427 Ver: HARRIES. Lourenço Marques: Classe e Raça. In: Migrant Labour in South Africa's Mining Economy . em 1897. Quando. passou a exercer. pagos antecipadamente. Op. Estes objetivos. O trabalho voluntário crescimento dos salários mineiros ocasionado pela disputa. conseguiu que Mousinho de Albuquerque. entretanto. 426 145 . 111.Witwatersrand Native Labour Association. chegados à África do Sul. no qual se estabelecia explicitamente que ninguém poderia habilitar-se como engajador sem a prévia nomeação escrita de uma ou mais direções de indústrias do Transvaal426. os passes eram novamente visados pela Curadoria dos Indígenas. Op. em 1912427.. os contratos pagavam emolumentos de 4$500 réis-ouro e a cada passe concedido ao trabalhador engajado pagar-se-ia o emolumento de 1$680 réis-ouro em Ressano Garcia.. o Modus Vivendi foi assinado entre o governo português e o Transvaal. 1985. p. já sob o nome de WNLA .. Ver ainda artigos 1o a 13o. Patrick. como afirma Rocha. JEEVES.. de 909$000 réis em moedas de ouro. ao custo. pp. Providencias. em 1903. Estes acordos permitiam ao governo colonial português. em 1897. 694:5. Op. a associação dos mineiros. 13 e 17. emolumentos e caução. A intervenção levada a cabo pelo Estado.The Struggle for the Gold Mines Labour Supply. O Regulamento é de 18 de novembro de 1897. o indígena que pretendesse Art.Native Labour Supply Association. a NLD. 187:220. Johannesburg. O Regulamento estabelecia a exigência de licenças para os recrutadores. 2o. cit. não se fez com o fito. definitivamente.. Comissário Régio em Moçambique.4. o monopólio no recrutamento de trabalhadores no sul de Moçambique.. arrecadar milhares de libras-ouro com a cobrança de taxas de emigração. só tiveram sucesso quando. 1890-1920. Aurélio A. Alan H. por força de trabalho. mas sim para assegurar uma crescente fonte de arrecadação fiscal que doutro modo lhe escaparia por entre os dedos428. . tal como comprova os artigos do Regulamento para engajamento dos indígenas na Província de Moçambique para o trabalho na República do Transvaal mandado publicar.. para atuação num único distrito. N. entre as várias minas. In: ALBUQUERQUE. monopólio confirmado.. 428 ROCHA.. de fato. transformada no ano anterior na NLSA . Joaquim Mousinho de. por Mousinho de Albuquerque. cit. pp. “The WNLA’s Mozambique Connection”. pp. assinasse o Regulamento para engajamento dos indígenas na Província de Moçambique para o trabalho na República do Transvaal. controlando o fluxo migratório. no sentido de regularizar a migração. entre imposto. ao custo de 2 shillings e 6 pences. Witwatersrand University Press. único ponto autorizado a permitir a saída de trabalhadores. cit. Work culture and identity.

alterando hábitos e gostos. Op. A entrada em vigor deste sistema no sul de Moçambique causou um deslocamento do consumo efetuado pelos magaíças. cit. mecanismo acordado segundo o qual os trabalhadores receberiam só cinqüenta por cento em libras-ouro na África do Sul e os restantes em escudos portugueses desvalorizados. em acordo com a Cia da Zambézia e Cia do Nyassa. pp. 693:703. 989. da 146 . o praticasse em relação aos indígenas recrutados nos territórios destas companhias majestáticas430. o trabalhador que quisesse regressar à Colônia ou renová-lo. gastavam boa parte de suas economias nas cantinas localizadas na fronteira e nos principais caminhos de passagem obrigatória. 25. Joaquim Mousinho de. Comumente. sendo a moeda-ouro transferida para os cofres do governo português. cx. pelo interior de Gaza. In: ALBUQUERQUE. 14. o Estado colonial passou posteriormente a beneficiar-se do “deferred paid”. nota no 5/217. Contrariamente ao que afirma Rocha. 8. a ampliação dos 429 Ver Arts. quando voltassem às suas terras. 33 e 44 do Regulamento para engajamento dos indígenas na Província de Moçambique para o trabalho na República do Transvaal. mas com o novo sistema. nos termos dos artigos XIII e XIV da Convenção entre o Governo da República Portuguesa e o Governo da União da África do Sul.4. entretanto. Providencias.Curadoria e Negócios Indígenas. este sistema só foi legalmente efetivado em 1928. Esse deslocamento territorial do consumo teve impacto bastante significativo. 6. e não raro com bebidas e prostitutas. visando criar uma reserva para atender à demanda interna. Secção B . O trabalho voluntário mudar de patrão deveria pagar 20 shillings à Curadoria e. Joaquim Swart. para cada trabalhador que o engajador não apresentasse ao Curador haveria uma multa de 9$000 réis em moedas de ouro. 7. . 18. embora já em 1909 a WNLA. .. de 13/03/1909. ampliando o leque e o universo de consumidores de produtos anteriormente raros. ao retornarem. o Regulamento não só não estabelecia qualquer obrigatoriedade de repatriamento de trabalhadores. Além da extração fiscal direta. atribuiu às suas palestras civilizadoras. devido a pressões do comércio transvaaliano. deveria obter um novo passe ao preço de dez shillings. bastando para isto o pagamento de novas taxas429. como tornava explícito o reengajamento. 430 AHM-ACM. já que mercadorias mais diversificadas e de qualidade superior passaram a abastecer as cantinas do interior.. a parte do pagamento não recebida na África do Sul passou a ser despendida nas cantinas estabelecidas próximo às aldeias. uma vez terminado seu contrato.

seja pela menor concorrência já que. cobrindo também a parte superior do corpo e a cabeça com lenços e não mais usando as capulanas somente da cintura para baixo. porém. muitas 431 Intendência de Emigração para o Chefe do gabinete do Governador Geral. que se reduziram a cerca de duas mil. pelo interior. mas nos parece que o intrépido delegado do Grémio. a partir de 1930. que com sua esposa deixou o conforto de Lourenço Marques para lançar-se em tal empreitada. se por um lado permitia que estes exercessem com maior benevolência a costumeira prática de presentear e custear festas aos parentes e amigos. particularmente os 60 estabelecidos em Ressano Garcia. e na seguinte. O Brado Africano de 24/12/1948. Na década de dez. uma elevação geral dos preços dos produtos manufaturados. que inegavelmente trouxe mais dinheiro para as aldeias. Este deslocamento do consumo causou protestos por parte daqueles cantineiros de fronteira. em geral. seu sucessor. que em suas petições ao governo informavam que. o que contrariava posições anteriores. superestima sua capacidade de influenciar pessoas431.200 pessoas que dependiam deste comércio432. De qualquer modo. 147 . ou seja o fato das mulheres do interior passarem a se vestir “pelo figurino de sua patrícia do litoral”.4. é difícil que não tenha também ocorrido de imediato. as cantinas do interior. porta de entrada dos retornados. movimentavam cerca de nove mil libras. tinham combatido acerrimamente a exploração que os mineiros sofriam em Ressano Garcia. seja pela maior oferta de dinheiro em circulação. antes do pagamento diferido. O trabalho voluntário padrões das capulanas disponíveis nas cantinas do mato e o que chamou de transformação radical na maneira de vestir da mulher indígena. O Brado Africano. por outro tornava mais nítida sua relativa riqueza diante dos demais aldeões. tendo que. Tais palestras podem ter de fato contribuído para difundir valores novos. O Africano. e que a crise os estava levando à ruína e afetando diretamente 1. Embora todo este processo mereça um estudo mais acurado. localizadas fora da sede da circunscrição. ampliando o poder de compra. em detrimento dos produtos agrícolas. é que a ação de Swart e sua esposa coincide com a introdução do pagamento diferido. o certo. as mudanças no gosto e nos padrões de consumo são variantes de difícil apuração. A maior disponibilidade de dinheiro concentrada nas mãos dos magaíças. passou a dar amplo espaço para apoiar tais reivindicações. O Brado Africano. eram poucas e com uma abrangência territorial bastante grande.

“A vida da Associação Africana da Colónia de Moçambique . cx 372. como explicar então a defesa dos cantineiros de fronteira? Esta nova postura só pode ser entendida se colocada em seu contexto: a Colónia estava sendo profundamente atingida pela crise dos anos trinta.como se organizou o Gremio Africano”. na primeira década do século. 148 . Grémio Africano de Lourenço Marques. a paternidade do Grémio pela implantação deste sistema de pagamento. dentre as propostas para o fomento da Província. ali mesmo. que era acompanhada de um acirramento do racismo e estava escorraçando os “naturais da terra” do mercado de trabalho. Diversos Confidenciais. 22/08/1931. em Lourenço Marques. apresentadas em 1922. foi ratificada por Francisco de Haan. entretanto. a associação engajadora de mineiros433. Fomento da Província. com a efetivação do deferred paid. já havia sido proposto. In: O Brado Africano. no 34 de 18/09/1909 do Governador Geral ao Ministro e Secretário de Estado dos negócios da Marinha e Ultramar. cit. com quem aliás. 434 HAAN. Acerca das propostas de Freire de Andrade ver: AHM-ACM. Op. que haviam feito no Transvaal. um dos seus dirigentes e signatário da proposta de 1922. pelo Governador Geral Freire de Andrade. não se dando o caso de uma grande parte deles voltarem sem vintém” é que. pelos magaíças que retornavam após os contratos e isto tinha grande peso no comércio local pois. A Colônia beneficiava-se ainda das economias trazidas. entre cinqüenta e cem mil moçambicanos empregavam-se nas minas 432 433 O Brado Africano. Teriam sido eles os reais autores da proposta que depois foi ampliada por Freire de Andrade para envolver a questão do câmbio e a remessa do ouro para Portugal?434. assumir sua defesa era tomar o partido da manutenção do emprego de seus pares. perfeitamente inúteis”. 30/12/1939. voltarem a engajar-se em novos contratos porque na ânsia do consumo. projeto que.4. 1 e 3. os dirigentes do Grémio mantinham excelentes relações. O trabalho voluntário vezes. pp. anualmente. acabavam bebendo e gastando com as prostitutas mantidas pelos cantineiros o que sobrara de suas economias já desperdiçadas na compra de “bugigangas. Para evitar tais ocorrências e para possibilitar que os indígenas pudessem “chegar às suas terras com o dinheiro preciso para as suas necessidades. Se eram defensores do sistema do pagamento diferido. que acabou por ser efetivado. ou nas sucursais distritais da WNLA. Francisco. Como estes cantineiros empregavam grande número de naturais. em libras-ouro. doc. está a de que pelo menos metade dos salários dos migrantes fossem pagos na sede. Aliás.

. O Africano. Press. Manchester Univ. 1977.. não conseguiam atrair voluntários e disto punham a culpa na concorrência do capital mineiro. Exa. KATZENELLENBOGEN. Proletarian and Peasant. Como apontara corretamente João das Regras. fazendo com que fossem necessários mais dias de trabalho para poder quitá-lo. que o indígena fosse buscar o ouro para pagamento do imposto obrigatório neste metal se infelizmente nesta terra só há papel e muita pouca prata? Nesse caso o indígena fica para sempre na obrigação de ir para o Transvaal arranjar ouro [. colono agricultor. o imposto de palhota foi fixado em libras e deveria ser pago nesta moeda ou ao câmbio do dia. conforme indica a tabela sobre mortalidade apresentada à página 157435.]”436. Ruth. Simon E.4.. Op. Susex. The Harvest Press. Railways and Trade in Making of a Relationship. Paulo e ZAMPARONI. entremeados a estes interesses “berra o patriotismo turbulento contra este desvio de braços potentes e peitos fortes” achando que a emigração seria um mal. 02/02/1916. Destaco: Centro de Estudos Africanos. apegados a métodos arcaicos de produção. para coibir tal fluxo migratório. 3. muito mais dinâmico e rico. pp. In: Estudos Moçambicanos. Alan H. João das Regras era um dos heterônimos de João Albasini. e nos próprios trabalhado- 435 Vasta é a bibliografia que analisa a migração sob o ponto de vista econômico-político e suas implicações regionais. O Mineiro Moçambicano . South Africa and southern Mozambique. outros pelos interesses do comércio. Ver. Na verdade. A exigência de pagamento em libra-ouro acelerou mais ainda a corrida para o John: “então onde queria S. Maputo. Como já mencionamos. 1983. nas páginas de O Africano. 1982. Costa. Black Gold: The Mozambican Miner. 81:96. expressa em O Africano.um estudo sobre a exportação de mão-de-obra. O trabalho voluntário do Rand. por exemplo. 26/04/1916. JEEVES. com baixíssimo investimento e com uma relação com a força de trabalho que beirava a escravatura. John ou Joni eram os nomes popularizados no Sul de Moçambique para referir-se às minas do Rand. FIRST. e o Estado pelas libras do imposto. 437 O Africano. cit. “Trabalho Migratório na África Austral: um apontamento crítico sobre a bibliografia existente”. DARCH. Os plantadores e investidores ao sul da colônia fizeram pressões. Ver SOARES. 12/11/1913. “é que não vemos desenvolver outro ramo de atividades a não ser a cantina do ‘tal’”437. Instituto de Investigação Científica de Moçambique. Ver. em vários momentos. a partir de 1906. Colin. Manchester. acrescentava o articulista. “Antologia de textos do jornal O Africano (1908-1919)”. Valdemir. In: Estu- 149 . Segundo estes argumentos a emigração despovoava a colônia privando os capitalistas locais de força de trabalho e forçava a elevação dos salários pondo em risco a agricultura e a própria administração da Colônia. 1981. uns gritavam pelos interesses da agricultura. muitas vezes sob o argumento chauvinista de que sua manutenção significava a desnacionalização do “nosso indígena” e a ruína dos investimentos feitos em “terras portuguesas”. Labour. mas o certo. 436 Opinião de João G.

em exposição apresentada em outubro de 1923. prestigiando-se o patrão e a autoridade do próprio administrador de cir- dos Afro-Asiáticos. procurando augmentar-lhe o rendimento. 22. ou ao menos. de 05/01/1916. 439 Ver. a pouca agricultura deste distrito teria que acabar. Proc. e nem concorrer com os salários praticados além-fronteiras. de modo que se não fosse o auxílio que o Governo. Carta do Administrador da Circunscrição dos Muchopes (Manjacaze). pp. esquivam-se de fazer serviços. 18/12/1915. e os que ficam. tendo em vista os “princípios da economia agrícola”. como medidas práticas propunha-se que a emigração para as minas deveria ser condicionada ao atendimento das necessidades de força de trabalho dos agricultores da Província. 92.] neste distrito os agricultores não poderão ir além do que atualmente pagam.”438 Como esses plantadores e investidores não conseguiram deter o fluxo. que não poderiam também modificar a seu critério os regulamentos e contratos mas que deveriam sim. as cartas de colonos ao O Africano. por intermédio das administrações nos tem prestado. isto é.. 951 de 04/10/1914. visto que não é possível augmentar à vontade o número de indígenas”. conforme reivindicava a Associação do Fomento Agrícola. 127:178. a Azevedo Coutinho. O trabalho voluntário res acusados de indolência: “O Transvaal. maço Regulamento de Serviçais -1915. 02/02/1916 e ainda a opinião favorável ao fornecimento de trabalhadores indígenas e contrário ao Regulamento Geral do Trabalho dos Indígenas nas Colónias Portuguesas. compelindo o indígena a trabalhar. que fossem instituídos contratos agrícolas de longo prazo. nomeado Alto Comissário em Moçambique. posto em vigor pelo Dec. 438 150 . passaram a exigir uma intensificação da intervenção do Estado no sentido de serem abastecidos de trabalhadores compelidos439. por exemplo. 18/12/1915.. manifestada por um administrador colonial em AHM-DSNI. consoante os interesses dos agricultores e sem a intervenção das autoridades. devido à sua grande indolência. em Lisboa. [. atuar no sentido de que o “preto cumpra as obrigações contraídas dando castigos rigorosos pelas ausências ilegítimas do trabalho ou pelo seu abandono não autorisado. 94.4. com as suas minas d’ouro. que o trabalho indígena fosse organizado em “bases racionaes que comportem um melhor aproveitamento da mão de obra existente. ou seja. 10 centavos diários com comida e 5% de emolumentos. set. Opinião de “Um agricultor” em O Africano. tira-nos grande parte de nossos indígenas. que os salários fossem fixados.

higiene. assim sintetiza a situação: “Não queriam que os indígenas emigrassem para o Rand. para o Rand e em defesa de uma reserva de mercado na obtenção de força de trabalho barata. para. a quem caberia fixar contratos. jornada de trabalho. Os diretores do Grémio pensavam num sistema capitalista idealizado. venderem as poucas cabeças de gado que ainda lhes restam. reagiam a estes argumentos contra a emigração. queriam-nos cá dentro. e a nomeação de fiscais idôneos. já os empresários locais. e que agissem no sentido de obrigar os patrões a cumprirem as determinações legais quanto aos salários. assistência médica e o pagamento de indenizações por acidentes de trabalho. queriam-nos cá dentro para. argumentam os autores. descanso semanal. na situação colonial. e que é inconveniente pois o trabalho para ser bem executado deve ser feito por quem livremente se ofereça. O Grémio. por isso. como ainda na estação passada aconteceu. acabar-se com o serviço obrigatório a que chamam shibalo”441. em documento apresentado no ano anterior e a convite da própria Associação do Fomento. e seus jornais O Africano e depois mais enfaticamente O Brado Africano. 1924. eram mais realistas e cientes de que. O trabalho voluntário cunscrição”440. 441 Grémio Africano de Lourenço Marques. que deveriam ser os defensores de tais posições. 08:9 e 17:9. em troca dum ou dois sacos de milho. O Grémio Africano de Lourenço Marques. alojamento. seja ele da agricultura ou qualquer indústria. na ânsia de miti- 440 Associação do Fomento Agrícola da Província de Moçambique. que fossem bem pagos.4. baseado na lei da oferta e da procura. acrescido de alimentação e alojamento. pp. Fomento da Província. para conseguirem seus intentos era preciso apelar para a coerção e para estratégias que limitassem a livre concorrência na obtenção da força de trabalho. com duração máxima de seis meses. aos administradores. mais depressa. ou seja. cit. Se tais requisitos fossem observados. legal ou não. de livre concorrência. Exposição. “o preto será o primeiro a procurar voluntariamente trabalho. Lourenço Marques. 151 . devendo. de 1923. Minerva Central. tinha deixado claro que era preciso uma forte intervenção do Estado. alimentação. para que não se deixassem corromper. sem ser preciso que seja compelido como se faz agora. mais facilmente se prostituírem as suas mulheres e as suas filhas. a morrer de fome. Um editorial de O Brado Africano. ao menos em relação às minas. Op. não subordinados “à autoridade administrativa do mato”. estabelecer um salário mínimo de um shilling diário.

não criavam gado e nem tinham tempo para cuidarem de suas palhotas. O Brado Africano. queriam-nos cá dentro para fazerem mais estradas.”443 Seus argumentos foram de pronto contestados por outro colaborador. assim. apelava para que se evitassem por todos os meios a “depauperação e extinção total dos naturais desta Colônia. que traz o narro sempre assustado. F. A agricultura dos colonos era a causa do “maldito Shibalo. mas pedia o fim do monopólio exercido pela WNLA. esgotava seu vigor e saúde. Alguns. professor da escola para indígenas Sá da Bandeira. não sabendo se no dia seguinte estará ‘vendido’ (é o termo cafreal) para a Namaacha. 152 . 21/07/1928. vendo-se perseguido a toda hora. mal alimentados e pessimamente tratados”. que ainda cá fiquem alguns pretos para sustentarem a tal agricultura dos brancos. A. que só prejuízos trazia à Província. parecia concordar com os argumentos dos colonos ao afirmar que Moçambique nada lucrava com a migração para as minas pois fazia escassear a mão de obra para o desenvolvimento da Província e o que dela resultava era apenas a extinção completa do “nativo” pois este. conclui F.: “Acha o meu amigo Cantine mau isto? Acho eu que faz muito bem. além do mais. por sua vez. mesmo assim. A. não via razão em restringir a emigração numa terra que tinha 200 mil homens válidos e que só tinha emprego para vinte mil e. “mal pagos. depois de considerar um crime de lesa-pátria a continuidade de tal migração. para quem tal proposta atentava contra a liberdade de ir e vir e. que não traz lucros nenhuns à terra. resolviam emigrar para o John onde ganhavam algum dinheiro. Polêmicas como esta indicam que esta emergente pequena burguesia negra e mulata não constituía 442 443 O Brado Africano. os indígenas não faziam agricultura. confesso. que tinha sido temporariamente diretor de O Brado Africano. para Boane ou para a Manhiça” e o chibalo. e tenho pena. assim. os indígenas. um negro.”442 A posição contudo não era unânime entre os colaboradores do jornal.4. palhotas e machambas. afirmava Cantine.”444 Tal artigo foi seguido por uma “Nota da Redação” que apoiava seus argumentos. ou de graça ou a troco de 10 centavos ao dia. recebendo no fim de “trinta dias utilíssimos uma compensação que não lhe chega para comprar rapé”. (Francisco Albasini). O trabalho voluntário gar a fome que lhes vai mirrando a pele. era a principal causa da emigração. motivados por ele. como José Cantine. no John. 08/09/1923.

O trabalho voluntário um todo homogêneo. ora eram aliados e ocorria muitas vezes um mesmo investidor possuir interesses que aparentemente contradiziam-se.CFLM (Diversas). Secção A . cientes de que seus principais críticos estavam divididos. 27/07/1929. 446 AHM-ACLM. seus vários segmentos tinham interesses que ora eram antagônicos. mais uma vez. os colonos. e b) se não determinar que quando o indígena regresse à colónia. e para quem a ação na esfera privada e pública confundiam-se: nos anos dez ocupou por um ano a chefia dos Armazéns Gerais dos CFLM deixando-o para dedicar-se aos negócios particulares a partir dos vínculos pessoais então constituídos446. que pode ser tomado como o típico empresário português com capitais investidos tanto nas atividades comerciais. investidos na Colónia. Como os capitais portugueses. pois ao comércio era vital a manutenção do fluxo de libras oriundas da emigração. um dos expoentes dos negócios na Colónia. depois de ter prestado serviço fora dela. nesta mesma representação. e isto fica claro quando. 153 . uma das mercadorias de maior consumo entre os indígenas. enviou uma representação ao Governador Geral José Cabral. O Brado Africano. não estavam setorizados ou concentrados em um único ramo de atividade. a Associação Comercial dos Lojistas.”445 Este esforço em limitar a ida para as minas expõe os interesses contraditórios da burguesia local. para velhos argumentos: “Entende essa associação que essa ‘obrigação moral’ não pode considerar-se cumprida enquanto: a) o indígena não preste em cada ano. quanto agrícolas e industriais. cx. se o não prestar voluntáriamente. em seu seio enfrentavam-se contradições diversas. insurgem-se também contra a intenção do Governador Geral em limitar o comércio do vinho colonial. se aproveitavam para fortalecer posições e retornar à carga: em 1929. Nos anos trinta já tinha 444 445 O Brado Africano. interesses irreconciliáveis e. Paulino dos Santos Gil. O melhor exemplo desta diversidade de interesses é o do próprio presidente da Associação.4. 239. legal ou não. 04/08/1928. não possa emigrar de novo enquanto não tiver cumprido a obrigação consignada na alínea anterior. por vezes. seis a nove meses de trabalho a que será compelido. demandando medidas administrativas que assegurassem força de trabalho compelida e barata apelando. depois de descanso que não poderá ultrapassar seis meses. Assumiu o cargo em 27/12/1910 e pediu exoneração em 24/01/1912.

Op. vogal da Junta de Crédito Agrícola. barata. possuía armazéns alfandegários. cit. etc. entre as palhotas”449 Apesar das pressões. Esta contradição provocou o seguinte comentário por parte de O Brado Africano à petição de 1929 por ele publicada: “Flagrante. como já se apontava há uma década nas páginas de O Africano.. a emigração era um verdadeiro “motor da riqueza”. 239.Alguns actos administrativos. tesoureiro da Associação dos Europeus Chefes de Família e presidente da Assembléia Geral da Liga Nacional de Defesa dos Animais447. F. 1930. no povoados de pretos. o importador do colonial iria se queixar pela falta do consumo. era dono de uma fábrica de extração de óleos vegetais. Querem mão de obra. todas entidades de caráter oficial. mapira. tinha concessões agrícolas e de extração de madeiras e exportava produtos agrícolas coloniais: milho. vogal da Comissão do Monumento a Mousinho de Albuquerque. Ed. A atitude do Governo da Colônia de Moçambique perante a aplicação do novo Código do Trabalho Indígena . O trabalho voluntário montado uma empresa de importação/exportação que fornecia materiais telegráficos e ferroviários para o Estado. os empresários e agricultores colonos não lograram seus objetivos pois. não vendo seus interesses plenamente atendidos pelo Governador Geral. compelida. Notícias. 195:7. longe da fiscalização. Paulino dos Santos Gil publicou um opúsculo. pp. vogal da 2a Instância no Conselho de Serviço Técnico Aduaneiro de Moçambique.4. 221. algodão. era vogal do Conselho Económico da Colónia de Moçambique. empresa construtora.P. o fabricante do sópe 447 448 Cf. Em 1932. 171. Paulino dos Santos. 242. 449 O Brado Africano. tinha a concessão dos serviços de limpeza da cidade de Lourenço Marques. Lourenço Marques. que não podia parar pois. 200. fábrica de móveis. farta. no qual sintetiza as opiniões da emergente burguesia plantadora e industrial local contrária ao fluxo de força de trabalho moçambicana para as minas do Rand448. além de ser presidente da Assembléia Geral da Associação do Fomento Agrícola. serrarias. se isto ocorresse. 1930. regulamentada. Anuário de Lourenço Marques -1932. 154 . querem que o braço que escasseia se extingua na bacanal de vinhos. Em. GIL. da Veiga Nogueira/ Tip. copra. 27/07/1929. 208. amendoim. sem liberdade de pedir salário dum lado e do outro querem a liberdade de vender vinhos a pretos como e onde queiram. era o representante dos patrões e presidente do Tribunal dos Acidentes de Trabalho. gergelim.

Os mineiros não eram considerados importantes pelos jornais somente enquanto 450 451 Artigo “O Motor da Riqueza suspenso” de Joshua Macabele publicado em O Africano. 452 O Brado Africano.4. 01/09/1923. ela há de fazer-se sempre. quer não queiram”451. do que devido à eficácia da pressão dos agricultores coloniais ou às medidas tomadas pelo Estado colonial português453. e para todas as necessidades no interesse. os caminhos de ferro veriam minguar o tráfego e a Fazenda Pública iria inutilmente fazer “o jogo dos algarismos para equilibrar o orçamento com os encargos creados. a migração representava enorme fonte de arrecadação através de inúmeras taxas. Migrant labour and agriculture. as empresas de navegação sentiriam a falta do rendoso transporte de carga humana. 155 . estava. O Brado Africano. está muito mais associada à desaceleração do recrutamento de trabalhadores estrangeiros por parte da indústria mineira do ouro. que se verificou no início dos anos trinta. 197. se o indígena não emigrasse “quem havia de trazer as 600 ou 700 mil libras em esterlino inglês?”452 De fato. Op. O trabalho voluntário não teria para quem vender a delícia que jorrava de seus moinhos. do indígena e do nosso próprio. às circunscrições faltariam a librita do imposto. em grande parte clandestinamente. perguntava o jornal. nem administradores de circunscripção.. quando feita pelas vias legais. A redução do fluxo de força de trabalho para as minas. que a província de Moçambique não tinha como absorver os cerca do 80 mil homens que emigravam voluntariamente para o Rand. pois. e não havia “artifícios. De mais a mais. que optou pela mão de obra local desempregada em razão da crise vivenciada pela agricultura e pelas minas. 08/03/1919.. conforme aponta a tabela da página 157. 453 COVANE.”450 O Brado Africano acrescentava. nem leis. vinculada à preferência dada pelo Transvaal ao trânsito de suas mercadorias pelo Porto e Caminho de Ferro de Lourenço Marques. os interesses da indústria têxtil e vinícola metropolitana e os do capital mineiro sul-africano eram muito mais poderosos e influentes nos rumos traçados em Lisboa para a política colonial do que as petições e protestos de meia dúzia de agricultores descapitalizados e pequenos empresários da Colônia.. quer queiram. em razão dos acordos bilaterais. por várias vezes. com toda a sua corte de amanuenses ou de sipaios que a evitem. impostos e divisas para o Estado e. 08/09/1923 e opinião semelhante já expressa na edição de 06/03/1920. p. por tudo. a Alfândega veria espantosamente diminuídos os direitos aduaneiros. Luís António. cit. profundamente abalados pela depressão então vivida pelo capitalismo mundial.

Migrant labour and agriculture. outros que não sabem ler o landim e outros dizem ainda que não compram ‘O Africano’ por não ser escrito em ‘zulu. Os da região sul de Gaza e do interior do Distrito de Lourenço Marques eram despachados a partir das estações ferroviárias mais próximas e. 1911-1912. em Xai-Xai. tão superlotados que não permitiam deitar. Daniel da. saíam semanalmente mais de 600 homens. da barra do Limpopo. os trabalhadores chibalo que estavam a seu serviço. 457 CRUZ. ou completamente fechados. Cf. ocorriam casos em que a ganância dos colonos brancos levava-os a vender para os recrutadores. Mesmo quando não se tratava de burla. cit. como era natural. depois de alguns dias de marcha a pé. 456 Relatório das Circumscripções . 135. Embora a maioria dos trabalhadores se engajasse voluntariamente. se fossem da região norte de Gaza ou do interior de Inhambane e. O trabalho voluntário fazedores de dinheiro. numa viagem em que esteve presente. submetidos à 454 455 O Africano. 156 . Op. 218. Daniel da Cruz: o comerciante sucumbiu ao tilintar das libras do engajador e “chamou os seus serviçaes ao vapor dizendo-lhes que iam descarregar mercadorias.. CRUZ.. para ampliar o número de leitores entre os mineiros. p. Daniel da. uma vez na capital. 105. O Padre Daniel da Cruz diz que. um pequeno vapor costeiro transportou da Beira para Lourenço Marques nada menos que 1. Op. “uns dizem que não sabem ler português. O Africano passou a publicar. p. 214... próprios para o transporte de cargas. Op. p. língua que eles mais sabem ler e escrever’”454. Covane aponta o número médio 13 mil homens por ano entre 1905 e 1908.200 indígenas e que. pois como informava seu correspondente e distribuidor em Johannesburgo. Luís António. Pe.4. além da seção ronga criada desde a sua fundação. mas como significativo universo de leitores e campo para a disseminação de suas idéias. também uma seção em zulu. a serviço das minas. Op.. assim. Elles foram. os maus tratos a que se submetiam os recrutados começavam após o engajamento: ficavam alguns dias trancafiados nos compounds pelo interior.. Pe. ou seja mais de 30 mil por ano457. como o caso ocorrido em Xai-Xai e narrado pelo Pe. eram embarcados em vagões abertos de transporte de gado. mas tanto que entraram no vapor este levantou ferro e aproou em Lourenço Marques de onde deviam partir para o Transwaal”455. eram embarcados em vapores para Lourenço Marques456. cit. 19/04/1912 e O Brado Africano. 24/12/1948.. COVANE. quando já se tinha o número adequado.. cit. ficavam alojados em compounds nos arredores de Lourenço Marques e. p. cit.

08/12/1911. p. O Africano. pp. p. pagavam as taxas necessárias e recebiam o passaporte para emigrar. Findo o contrato. Migrant labour and agriculture. cit. do outro lado da fronteira. Patrick. entre 70 e 75% dos trabalhos nas galerias eram realizados por moçambicanos. Ruth & DAVIES. o percurso de volta seria o mesmo.461 458 459 O Africano. Imprensa Nacional.. 1940. recebiam o visto para trabalhar no Transvaal. teoricamente eram inspecionados pelo serviço de saúde. 24/11/1911 e 22/12/1913. International University Exchange Fund.4. se a ferrovia estivesse inoperante. Lourenço Marques. da chuva e do frio e alimentados com “02 biscoitos” para sustentarem-se durante a viagem de dois dias até a região mineira458.. 461 Elaborada com dados obtidos em SOUZA RIBEIRO. Luís António. A tabela da página seguinte dá-nos uma visão do índice de mortalidade dos trabalhadores mineiros diante de tais condições. as gangs eram agrupadas num compound maior.. Anuário de Moçambique .. Op. expondo-os a acidentes e às doenças pulmonares460. 314:5. 196. Cf. por exemplo. 10/03/1915. na fronteira com o Transvaal. seriam simplesmente despejados à linha e entregues à própria sorte459. 1980. Op. Para anos posteriores. 12 e COVANE. p. dos mais arriscados e insalubres trabalhos. Work culture and identity. depois do que eram embarcados novamente nos trens e. Robert H. os números de trabalhadores diferem um pouco dos apresentados por FIRST. Migrant Labour to South Africa: A Sanctions Programme? Geneva. em Komati Poort. particularmente nas profundas galerias subterrâneas. eram encaminhados ao compound da WNLA e distribuídos pelos diversas minas que os encarregavam. Em Ressano Garcia...1940. 186. O trabalho voluntário inclemência do sol. 460 Em 1907. cit. quase exclusivamente. exceto que. ver O Africano. 157 . Uma vez chegados à Johannesburgo. HARRIES.

418 88. Relatório do Curador . para o primeiro semestre de 1913.061 107.185 81.8 14.065 1.365 1.257 98.372 97. oriundos do norte do mesmo paralelo462.810 1.382 96.771 1.977 88. p.176 850 572 425 630 864 869 1.739 1.408 1.671 2. para os anos 1905/1912.415 2.762 56.3 21.6 10.624 97. Imprensa Nacional.193 1.024 720 551 738 993 1. A partir de 1913 o governo da União Sul Africana proibiu o recrutamento destes tropicals boys. na vigência do Estado Novo.1 18.6 12. moçambicanos no Transvaal .9 9.204 1.132 101. uma taxa média anual de 34‰ a mortalidade dos trabalhadores moçambicanos.1 14.531 73. mas que se aproximava da 462 AZEVEDO.377 doenças 1.3 15. de qualquer modo.014 2.866 59.615 1.2 16.9 10. o relatório do Curador referente a 1914-5 indica.084 65.220 832 acidentes 256 197 200 256 229 163 207 247 232 211 287 255 252 232 174 148 126 108 129 150 216 209 total (b) 1.8 26.415 2. Curadoria dos Indígenas Portugueses no Transvaal. que correspondia a mais do que o dobro da existente entre os mineiros oriundos do Cabo e do Natal.239 1.505 92.415 113.5 31. Lourenço Marques.2 14.449 1. uma mortalidade de cerca de 31 por mil (‰) entre os nativos oriundos abaixo do paralelo 22o S. não estivessem interessadas em dar publicidade à realidade. Serrão de. O trabalho voluntário Mortalidade de trab.2 Tal tabela não dá conta da real situação porque não inclui os trabalhadores repatriados às vésperas da morte e.019 1.5 13.Ano económico 1912-13. J.1 18.7 19.581 93. ademais.241 105.4. 23. Esta minha desconfiança decorre do fato de que o próprio Curador dos Indígenas Portugueses no Transvaal.436 1.935 2.309 95.574 1. e de mais de 60‰ entre os tropical boys.890 95.486 1.767 1.5 14.482 88.727 1.5 17.202 1. de onde vinha a maioria.735 2. 158 . já que não lhes seria conveniente que os dividendos obtidos com o deferred paid fossem questionados por estatísticas mortuárias.487 1.041 ‰ b/a 18.350 1.118 1. talvez pelo fato de que as autoridades coloniais.5 11.408 1.3 13. José Serrão de Azevedo aponta.1917/1938 Anos 1917 1918 1919 1920 1921 1922 1923 1924 1925 1926 1927 1928 1929 1930 1931 1932 1933 1934 1935 1936 1937 1938 no trab.411 93.7 12. (a) 89. os números nos parecem minimizados. 1913.538 1.

87 3. pela pneumonia e outras doenças pulmonares que deixavam anualmente centenas de mortos.. Imprensa Nacional. cit...36 9.45 3. ao relento. AZEVEDO.80 2. à má alimentação. 133 e HARRIES. J. Work culture and identity.38 100. os campos mineiros eram freqüentemente atingidos por surtos de varíola.50 19. tocavam entre as três e quatro horas da madrugada. para dar início ao trabalho. Os mineiros tinham que caminhar centenas de metros entre o alojamento e a entrada das galerias. Op. Op. Novamente o relatório do Curador dos Indígenas Portugueses no Transvaal nos aponta as principais causa mortis dos trabalhadores moçambicanos no Transvaal. ficavam esperando. numa situação que nos faz lembrar os mineiros retratados por Zola em Germinal. pela febre tifóide. Patrick. 464 HARRIES.425 2. Serrão de. 463 KATZENELLENBOGEN. J. a mortalidade entre negros era de 30. p. 22. superlotação e insalubridade generalizada nos compounds. South Africa and southern Mozambique. anos de uma epidemia de varíola.213 % 41.. Curadoria dos Indígenas Portugueses no Transvaal. particularmente no inverno rigoroso. que tais mortes estão intimamente associadas às inseguras condições de trabalho nas galerias.Ano económico 1914-15. Simon E.. 465 AZEVEDO. 159 . as sirenes. 187.50 0. As doenças pulmonares eram responsáveis por mais de 54% das mortes e estavam diretamente relacionadas com as condições de trabalho: mesmo no rigoroso inverno da região. Serrão de.32 8... 1915. no Transvaal ... durante o 1o semestre de 1913465: Mapa necrológico de trab. pelas diarréias e. embora em certas áreas mais insalubres da cidade podia atingir 42 por mil464.1913 Causa mortis Pneumonia Meningite Acidentes Tuberculose Tísica de mineiro ou silicose Disenteria Febre tifóide Escorbuto Diarréia Paludismo Outras doenças Total Total de mortos por doenças totais 1.00 91. Patrick.Op.1912-13.8‰ e de 35‰ em 1893-4.4. Além das epidemias de 1893-4 e 1897-8. mesmo para um leigo. Em 1890. 113. p. Op.003 226 212 205 94 92 62 37 12 12 470 2.25 Os dados revelam. p. Lourenço Marques.53 0. cit. cit. na região de Johannesburgo. 62. Relatório do Curador . Relatório do Curador . Work culture and identity.74 8. p.55 1. p. O trabalho voluntário mortalidade das duas décadas anteriores463.. cit.

bloqueio e inundação de galerias. cada mina deveria ter um hospital para providenciar os primeiros socorros.1912-13. conseguem arribar. entretanto.. asfixia por gases ou acidentes com os vagões carregados de minério. as demais. continuam a trabalhar nas minas porque estas 466 467 HARRIES.] centenas de indígenas de Moçambique. ficando para sempre. Op. cit. recebiam o vento gelado da superfície enquanto esperavam que seus tíquetes fossem marcados antes de poderem recolher-se aos alojamentos superlotados..] Eis porque morrem mensalmente cerca de 400 indígenas desta Província nas minas do Transvaal.. a partir de 1895. uns... e lá voltam para as entranhas da terra. O trabalho voluntário em longas filas para descerem ao subsolo onde a temperatura era bastante elevada.. 468 Ver entre outros: AZEVEDO. principalmente em situações de fome e desnutrição e. [.4. um inspetor de saúde deveria visitar os compounds e. 1911-1912. outros porque não mais se restabelecem. mesmo entre aqueles que nunca tinham ido às minas468. além de receberem rajadas de vento frio do sistema de ventilação. levando ao lar das suas palhotas a tuberculose que se lhe desenvolveu ou que contrairam. Assim O Africano descrevia a situação em 1913: Dos que não morrem. pneumonia e tuberculose transmitem-se.. de fato. com desenvoltura.] há minas onde o médico vai apenas uma vez por semana! [. são devolvidos sem saúde e sem dinheiro. deviam-se principalmente à queda de rochas. O Africano. Work culture and identity..] Eis a explicação da grande mortalidade entre indígenas que trabalham nas minas. denunciava O Africano: “[. 160 . 12/11/1913.. 48. 102. Op. nos quais as doenças facilmente se disseminavam466. com suas roupas encharcadas.. a cumprir o contracto que fizeram... 188. Terminada a jornada diária. que. Lá trabalhavam praticamente nus e eram molhados pelas goteiras do teto ou por lençóis de água. passando largos meses no leito do hospital. Patrick. Em tese. estando atacados pela tísica. estas doenças pulmonares eram apontadas como as principais causadoras de morte entre a população moçambicana nos distritos de Lourenço Marques..”467 Como se sabe. uns seres inúteis e infelizes. 94. Relatório do Curador . Op. cit. pp. desabamento dos precários elevadores. idem 1914-15 e Relatório das Circumscripções . [. cerca de um quarto das mortes por acidentes eram ocasionadas pela manipulação de explosivos... Nas minas. Serrão de. cit. J. Inhambane e Gaza. p. a partir de 1892.

472 HARRIES. temidos tanto pelo sofrimento físico e 469 470 O Africano. pp. Em 1911 esta compensação financeira tornou-se obrigatória a todos os mineiros acidentados e seu valor ascendeu a £. 473 O trabalho nas minas era uma experiência tão importante na vida social. os homens antes de devorá-los. Work culture and identity. a relação entre mulheres e homens negros era.50 em 1914470. até que a morte venha reclamar o seu derradeiro alento! 469.. se considerarmos a idade entre 25 e 39 anos.4. um sistema de seguros foi implantado e garantia ao mineiro que pagasse a taxa de 2 sh.. p. 471 “As aventuras de Djiwâo”. Cantos e Contos dos Rongas. traziam consigo e disseminavam pelas aldeias não só as doenças pulmonares. de 1:63 e. Henrique 161 . a respeito dos nomes. cit. Patrick. já que sendo a força de trabalho predominantemente migrante. atingia 1:98. 13/01/1912. era um signo de distinção social e que marcava a passagem pelas minas. mantinha prisioneiros. Op. das roupas. devem ser lembradas as resultantes de doenças venéreas. debaixo da terra. fazendo cair o número de acidentes.. 187. Jack. através da Curadoria dos Indígenas Portuguezes. Work culture and identity. anuais. dos utensílios diversos. Instituto de Investigação Científica de Moçambique. Henri-Alexandre. não seriam suas galerias os buracos onde Sakatabêla. cit. A partir de 1905. que a adoção de nomes de origem européia como Fifitin. portanto. £. em caso de morte. mas também o sífilis e a gonorréia.. O trabalho voluntário pagaram £. do linguajar e dos nomes europeizados473. em 1896. In: JUNOD. Ver. que estes escravos trabalhem até o último instante. John ou nomes cristãos.5 em caso de acidente que o incapacitasse para o trabalho e. as minas passaram a investir na melhoria das condições de trabalho. mas no imaginário dos trabalhadores elas continuaram a ser as devoradoras de homens. HARRIES. Para isentarem-se das indenizações. Tal situação de celibato forçado propiciava o alastramento da prostituição. JUNOD. mas como esta além de não lhes ser familiar era dispendiosa. 114.10 seriam enviadas à sua família em Moçambique. Maputo. Harries afirma que parece mais provável que as doenças venéreas eram adquiridas menos nos bordéis do que nas cantinas dirigidas por mulheres negras472. O certo é que os mineiros. era desproporcional a relação entre gêneros: nas áreas mineradoras próximas a Johannesburgo. como nos narra Henri Junod em conto recolhido da tradição oral ronga no final do século XIX? 471 Além das doenças pulmonares e decorrentes da insalubridade do trabalho e alojamentos. 1975. além das libras. a bruxa branca de várias cabeças ___ as empresas mineiras? ___ . dos hábitos distintos. p. estabelecida pelo acordo de 1897. Jim.5 por cada um à WNLA e exigem.. 162:171. recebesse £. Patrick. Sixpence. A 1a edição é de 1897. Op. Shilling..

cit. 475 O Africano. reforçava sua masculinidade e ao jovem travestido cabia comportar-se como mulher daquele. cit. Henrique A. José Fialho. 476 JUNOD. Para além de todos os aspectos envolvidos em sua explicação. pois isto não explicaria porque o relacionamento era estritamente intergeracional e temporário. tomo I. Tal prática deve ser vista. os homens retinham seu domínio sobre as mulheres das suas comunidades de origem e admite que A. temidos tanto pelo sofrimento físico e pelas mortes que causavam. reproduzindo nas condições das minas o conceito hierárquico de gênero.. 467:70.. como uma espécie de rito de passagem para a idade adulta. entretanto. o certo é que o próprio Harries admite que ao criarem e sustentarem uma distinção de gênero. cit. 12/11/1913. governado por leis e rituais específicos. quanto porque esterilizavam as mulheres ___ ___ algo grave para sociedades nas quais é fundamental a descendência e na qual as pessoas estéreis são marginalizadas diminuindo a população e com ela a importância e prestígio dos chefes474. Quando os compounds passaram a restringir a movimentação dos mineiros. pp. Op. Op. inclusive reproduzindo o pagamento de lobolo na obtenção das esposas477.183:4 e FELICIANO.. Harries.. argumenta que a prática não deve ser vista exclusivamente como produto do celibato forçado ou da existência brutalizada. Junod viu tal prática como uma degradação resultante do isolamento a que estavam submetidos os trabalhadores. Op. 162 . Op.208. cit. Henrique A. num mundo sem mulher. mas também uma divisão sexual de tarefas e responsabilidades. Pe. Usos e Costumes. O trabalho voluntário mas também o sífilis e a gonorréia. ao desempenhar o papel de homem.. tornando as minas campos férteis para a disseminação da “inversão dos sexos”475 (bukhotchana) pois. 464:66. o que incluía não só diferentes papéis no ato sexual. Op. 381 e segtes. 474 JUNOD. Harries afirma que esta homossexualidade iniciatória servia como uma estratégia de inclusão e distinção social e que. cit. 05/01/1912... pp. Work culture and identity. Work culture and identity. esta possibilidade de relações heterossexuais foi limitada..4. onde a supremacia cabia ao mineiro experiente que. Usos e Costumes.. tomo I. Usos e Costumes. Op.103 e HARRIES. cit.. de Moçambique... Patrick. embora não tenha resistido diretamente ao capital. 200:208.. Daniel da. particularmente pp. 477 HARRIES. pp. cit. era proibida a presença feminina. tomo I.. como uma degenerescência do comportamento provocada pelas circunstâncias476.. em seu interior.. p. p.. Op.. Patrick. CRUZ. pp. podia ser mobilizada politicamente478. segundo ele. prontamente aceito e largamente praticado principalmente entre os mineiros de origem Shangana..

pelo inspetor das minas de diamantes. Ibidem. as lojas de roupas e alimentos. ficavam o açougue. apud HARRIES. 207. Apesar do alastramento da bukhontchana e embora perseguida. os patrões acabaram por instituir um mecanismo que não só garantia uma certa estabilidade da força de trabalho disponível. O trabalho voluntário uma das possíveis razões pela qual a prática foi rapidamente aceita entre os mineiros era que. Chibaro. e aquelas mulheres do sul de Moçambique que por qualquer motivo encontravam-se marginalizadas de seu meio social. Essas palhotas eram construídas de chapa de zinco e madeira e as paredes com tijolos secos ao sol.4. localizavam-se o escritório.. No centro da área cercada ficavam grandes tanques para lavagem de roupas e para o banho com água vinda do rio481... Os compounds fechados tinham como objetivo inicial impedir os roubos de diamantes ___ incluindo medidas de estrita vigilância sobre os movimentos e humilhantes ___ revistas no corpo e intestinos . o sexo como meio de reprodução perdeu valor e uma forma de sexualidade não reprodutiva ganhou espaço e legitimidade479. Os primeiros compounds fechados foram construídos em 1885. obstruindo a prática de trocar de emprego em busca de melhores salários. a prostituição feminina ao redor dos compounds era tolerada pelas autoridades. não hesitavam em oferecer seu corpo na região das minas. No lado não ocupado pelas palhotas. a sala de recreação e o hospital. Idem. Work culture and identity. que a viam como uma forma de preservar as mulheres brancas de possíveis ataques dos mineiros negros480. 163 . no lado oposto ficavam os sanitários. ONSELEN. 480 Cf... como uma área murada na qual as palhotas-dormitório ocupavam uma das laterais e parte das duas outras. ao limitar a movimentação de seus trabalhadores. po- rém. 67. nas minas de diamantes de Kimberley e o maior deles. devido à escassez de mulheres. o refeitório. p. assim. cit. Foram descritos. p. Charles van. em 1886. o de West End. pertencente à De Beers. a padaria e as cozinhas. cit. mas que também permitia controlar e disciplinar o coti- 478 479 Idem. alojava mais de 3 mil homens numa área de cerca de quatro mil metros quadrados. Op. Patrick. se as mulheres negras não vendiam diretamente a sua força de trabalho para as minas. 481 Report of the Inspector of Diamonds Mines for 1885. vendiam o seu corpo para os mineiros. Op. 208. No flanco de um dos lados da área. p.. etc. Ibidem. pp. 178:80.

ao mesmo tempo. os patrões. disciplina. Embora os trabalhadores ficassem internos numa situação que se assemelhava a prisões e as relações se acercassem da semi-escravatura. principalmente. tida como fonte de acidentes e brigas entre facções e que. higiene. embora os patrões vissem a regularidade e a disciplina do trabalho como principais vantagens. que variava entre vinte e cinqüenta por cento. o certo é que este sistema de compounds fechados permitiu um aumento da produtividade. canto coral. promoviam gincanas. Ao tirar os mineiros das ruas. levaram a paz às áreas urbanas e passaram a controlar seus trabalhadores. sobriedade. O trabalho voluntário diano dos trabalhadores. é preciso lembrar que a força de trabalho era livre. causava altos índices de absenteísmo. batalha na lama. corridas de saco. mas também em seu cotidiano: onde residiam. Op. a disciplina. 164 . De fato alguns reformistas morais viram os primeiros compounds como alternativas às precárias condições de vida dos bairros negros. exceto carteado ___ e nos dias de festa. cit. corridas. nas segundas feiras. a competitividade e que estabelecessem hierarquias de novo tipo entre os membros do grupo mas. 66:80. pp.. um espaço privilegiado para incutir-lhes noções de frugalidade. Work culture and identity.4. Esperava-se que estas distrações e jogos promovessem o espírito de equipe. não só durante a jornada de trabalho.. um local onde as mentes infantis dos indígenas estariam protegidas dos vícios degenerados da civilização européia. com prêmios em dinheiro que opunham membros de um mesmo grupo étnico. representado pelas cidades casernas européias do século XIX. limitavam o acesso indiscriminado à bebida. que os trabalhadores engajavam-se voluntariamente e que. a um só tempo. futebol.. com quem se relacionavam. as minas paulatinamente foram aumentando os salários e incentivando uma espécie de paternalismo racial que retardava a emergência de uma consciência de classe entre os mineiros. De qualquer modo. etc. O sistema de compounds pode ser visto como a expressão superlativa do sistema de controle imposto sobre a classe operária. para compensar tais condições de trabalho e arrocho da disciplina. Não eram prisioneiros. Os tra- 482 Veja HARRIES. não deixavam de incentivar jogos e diversões européias ___ críquete.. etc. honestidade e outros valores cristãos e. infantilizavam os trabalhadores negros aos olhos dos brancos já que tais brincadeiras pareciam indignas e juvenis. mas pareciam. que não só ficavam distanciados da força de trabalho branca como eram alojados em bases étnicas482. Patrick. o que comiam e. saltos.

em tese. etc. tinham que sair clandestinamente dos compounds. O trabalho voluntário balhadores. tongas. a execução de danças rituais ou festivas. a apropriação e transformação de nomes europeus. facas e outros pequenos utensílios. resultante do convívio forçado entre múltiplos falares quer africanos (zulus. Tranquilizados por esta promessa. O estabelecimento de ritmos de trabalho. xhosas. mas também pelo bem estar dos trabalhadores moçambicanos. os trabalhadores desenvolviam uma série de estratégias para manterem suas vidas o mais autônoma possível diante da situação. a criação de um falar próprio das minas. pois sabiam de antemão que não seriam autorizados: “Quando chegam à Curadoria. inglês. a reciclagem de caixas. que lhe manifesta as mais benévolas disposições para com os queixosos.) quer europeus (africans. deveriam dirigir-se à Curadoria que. e ao chegarem ali. não podiam facilmente se ausentar dos compounds.4. um dos intérpretes explica o motivo da sua presença ao amanuense encarregado de receber as queixas dos indígenas. deveria zelar não só pelos assuntos de migração. dotando os leitos de cortinas para manter o mínimo de privacidade. dirigem-se para a mina. 165 . o fanagalo ___ - uma espécie de jargão. sendo pouco depois sumariamente condenados a 30 dias de trabalhos forçados por deserção!!!”483 Apesar destas duras condições e de todas as tentativas de controle exercidas pelas minas e governo. o surgimento de grupos de música e cantigas e a manutenção de práticas artesanais como a confecção de braceletes de cobre. o qual transmite imediatamente pelo telefone ao director do Compound. a comida comunitária. a prática de organizar os dormitórios segundo preceitos próprios em oposição às exigências do pessoal médico. rongas. cestos. o que é comunicado aos pobres indígenas. de vínculos de solidariedade social e de ajuda mútua e aprendizagem. A realidade porém era outra: para irem fazer suas queixas. particularmente os migrantes. latas e tinas para a construção de tambores e xilofones.) ou indianos e chineses ___ . 13/01/1912 e 22/11/1911. são recebidos por um pelotão de polícias que os algemam e conduzem à prisão. os trabalhadores 483 O Africano. pedindo que voltem para a mina onde justiça lhes será feita. etc.demonstram que longe de serem vítimas passivas. pois os passes eram confiscados pelos gerentes. Se estivessem descontentes com as condições de trabalho.

C. 166 . docto 28/22 de 03/03/22 da The Home Native Cooperative Society Of East Africa ao Intendente de negócios indígenas e doc.Instrução e Cultos. O trabalho voluntário lutavam para gerir não só os seus tempos livres. E. na Sociedade Cooperativa e Patriótica dos Indígenas d’Africa Oriental. afirmou que. C. foram ouvidos pelo Grémio. três mineiros moçambicanos que vieram especialmente do Rand para este fim. Daniel João Manuel. Além disso. Babana e Philipp S. Destas associações não tenho muitas notícias. e agia no sentido de defender os interesses de seus sócios. ano 1919 e O Brado Africano. 14. 25/06. proc. Cooperativa dos Indígenas Portugueses no Transvaal.. um de seus sócios. cobrou do mesmo posição acerca de outra petição enviada em 20 de dezembro do ano anterior. um sistema referencial próprio484. 12. para elaborar o documento Fomento da Província. 15/01/1922. Mujajisse que estava à frente das outras associações. cx.4. mas também para manter valores espirituais e um sistema de relações sociais que não fosse controlado pelo empregador. na parte que tangia à questão da emigração. publicou artigo incitando os imigrantes moçambicanos no Rand a ingressarem na dita Sociedade486. Os migrantes moçambicanos chegaram a se organizar numa Home Native Cooperative Society of East Africa ou. proc. Langa. e 484 485 Ver HARRIES. A Sociedade elegeu também uma Portuguese Native Women Restitution Committee (Comissão de Restituição das mulheres indígenas da Província de Moçambique) que. 167. U. Chissano.. 22/10/1921 e 13/09/1924. 208:10 AHM-DSNI. ano 192. chamada Home Missionary Society. U. em 1922. O documento é assinado por P. porém. em 1922. Op. além de Ferdinand Bruheim. enfim estabelecendo uma comunidade de interesses. Patrick. Secção A . Francisco de Haan. pp. Olímpio Soares Correia e Felipe Muyayin como seus delegados para apresentarem ao Governo português suas reclamações quanto às condições de trabalho a que estavam submetidos nas minas485. proc. Esta Sociedade foi fundada a partir de uma outra. em abaixo assinado dirigido ao Governador Geral e datado de 02 de outubro de 1919. 19. 486 O Brado Africano. a partir de Fordsburg. chegando a mandar para Lourenço Marques. cx. 1299. na qual pediam que as mulheres indígenas portuguesas que se encontrassem na África do Sul fossem restituídas a Moçambique. P. 110/23 de 22/09/23 ao Curador do Indígenas e ainda Secção E . pasta 1922. pois o acima citado Daniel João Manuel era o seu representante no Transvaal e o principal colaborador da Seção Zulu do O Brado Africano onde.. Work culture and identity. do Secretaria Negócios Indígenas à Soc. M. Vilankulo. cit.Administração. em português. em 1921. por exemplo. estou certo de esta Sociedade Cooperativa mantinha ligações com o Grémio Africano.

durante cerca de um ano. AHM-DSNI. o segundo acusado foi qualificado como Jusa. de José Albasini e Estácio Dias. Mais uma vez não tenho elementos detalhados. pelo O Brado Africano487. cx. conhecido por Henry Geffrey e Jusa ou José Anderson. nascido na mesma localidade de seu colega. creio que podemos tomar as informações existentes nos poucos documentos que encontrei nos arquivos moçambicanos para fazer tal assertiva. trabalhou como criado por três anos no White House Hotel e dois anos no Alexandra Hotel em Muizemberg. Comissário de Polícia da Beira. and African Communities (Imperial) League. ano 1922 . 167 . cit. O primeiro dos acusados era Caetano. na qual aprendeu a ler e escrever a língua inglesa. Apurou-se que ambos pertenciam à Universal Negro Improvement Association and African Communities (Imperial) League. solteiro. Foi criado de Hendry Juta. 1633. uma escola católica romana na qual aprendera a ler e escrever em inglês. então território sob administração da Cia de Moçambique488. natural de Inhaama. Tete. à entidade liderada por Marcus 487 488 HAAN.4. onde era conhecido também por José Anderson e Juze Anderson Lewis. filho de João e Catarina. na viagem de retorno da Cidade do Cabo para suas terras em Tete. representando o Grémio Africano. Mineiros ou não. onde era também conhecido como Henry Goeffrey e Jeffrey Mathew Edward. Paul School (escola evangélica). contra dois indígenas que. quer pela ausência de bibliografia específica.Processo acerca de 02 indígenas naturaes de Tete de nomes Caetano. 26 anos. foram presos pela polícia da Beira. 21/06/1922. onde freqüentou durante dois anos e meio a St. Um deles nos parece bastante significativo e indicador de tal envolvimento. presidente da dita Associação e. residiu cinco anos na Cidade do Cabo. O trabalho voluntário uma de suas conversas contou com a presença. pelo Major Alberto Pais. tendo residido cinco anos no Cabo. entre outros. pertencentes à associação denominada Universal Negro Improvement Ass. Francisco. quer porque também não tenha me debruçado sobre o tema. em ronga. 07. durante os últimos seis meses. Khossa. Trata-se de um processo instaurado em novembro de 1922. 25 anos. depois trabalhou em várias casas e finalmente no mesmo Alexandra Hotel em Muizemberg. onde freqüentara. solteiro. e O Brado Africano. de J. ou seja. Proc. cujo teor foi publicado. tradução de Salomão Zandamela. Op. os migrantes moçambicanos na África do Sul não ficavam isolados e participavam não só das atividades culturais e associativas de caráter regional. mas. juiz do Supremo Tribunal do Cabo. como também se envolviam em greves e com organizações de caráter político. Inhacuaua Chatima.

assim como as constantes no Constitution and Book of Laws. deveria significar o estabelecimento de negócios dos negros em toda parte. assinado por Marcus Garvey. na Primrose Street. tocava piano e se tomava chá” e que seus dirigentes. 03/06/1922. Inc. mimeo. and African Communities' League. os detidos declararam que freqüentavam a sede da UNIA. Robert A. dançava. na qual se “palestrava. nos quais seriam empregados os milhões de negros que nos últimos trezentos anos tinham dependido de outras raças para a sua existência489. eram atentatórias à soberania portuguesa. noticiavam a abertura. of the World e cinco números de The Negro World com matérias concitando os negros do mundo todo a unirem-se e a trabalharem para os seus próprios interesses. 08-12/09/1982. O Comissário de Polícia concluiu que. “The Role of Garveyism in the Making of the Southern African Working Classes and Namibiam Nationalism”. setembro de 1982. dos quais trinta seriam “portugueses”. no qual afirma que aqueles que tinham erigido a Universal Negro Improvement Association tinham tido a visão de um grande império. todos negros491. além do complô para assassinar Marcus Garvey490. Inquiridos. O trabalho voluntário Garvey e traziam consigo cartões de pagamento de membros ativos. não dado. The UNIA. Marcus Garvey Papers Project/UCLA. Gregory Alonso. Uma das edições trazia o editorial “Negroes Facing Supreme test in world competition”. 168 . apesar dos detidos terem uma “ilustração deficiente” e não terem “perfeito conhecimento dos fins da associação”. Este império seria só econômico. J.4. Inc. tinham seu espírito influenciado pelos artigos do jornal que traziam e estas idéias. 26/08 e 09/09/1922.made for the Government of the Universal Negro Improvement Association. race and Nationalism. que assinavam os certificados de sócios. eram William A. 19/08. Cheswell. professor primário.. e William B. hão de natural- 489 490 The Negro World. edições de 05/08. o livro Constitution and Book of Laws . além disso. Apresentado na reunião South Africa in the Comparative Study of Class. mimeo e PIRIO. os debates e o sucesso da Terceira Convenção Internacional das pessoas negras do Mundo. empregado da Daniel Milling Co. Jackson. Idem. Informaram ainda que a sede contava com cerca de 400 sócios. certificados de membros a partir de novembro 1921. As demais edições. da luta. empregado da Argus Co. Caesar Allen. New York. mas também político. mas resultante do trabalho. no Cabo. 491 Sobre a presença do garveísmo na África do Sul e Austral ver: HILL. além de pregarem idéias semelhantes. “imbuídos como estão estes indígenas de idéias de emancipação da raça negra. “‘Africa for the Africans’: Marcus Garvey. Los Angeles. and the Struggle of African Nationalism in South Africa in the Nineteen-Twenties”. da energia e do sacrifício do próprio negro.

do Comissariado de Polícia da Beira para Governador do Território.4. além disso. Seria somente para demonstrar aos seus parentes e amigos que tinham sido bem sucedidos e que dominavam a língua inglesa a ponto de poderem ler jornais e serem admitidos em sociedades? Mas. para saber se a associação tinha existência legal na África do Sul492. 1633. cx. Proc. microforms nos 11. poderem mais facilmente propagar seus princípios. Este perigo latente parece não ter preocupado o Alto Comissário Brito Camacho que. O trabalho voluntário mente fazer propaganda sediciosa logo que para isso se lhes ofereça oportunidade”. assim. Sócios recém admitidos. 15/11/1922 com vários anexos. da Secretaria Provincial de Negócios Indígenas para Governador da Cia de Moçambique.382. é plausível que pouco conhecessem das intenções da UNIA. ano 1922. organizado na Industrial and Commerce Workers Union. o Comissário de Polícia tinha. 1633. era dirigida por Clements Kadalie. Estes não eram casos isolados. em razão da propaganda das idéias garveístas que este fazia. 07. porque justamente este jornal e esta associação? É mais crível que ambos tenham tentado levar consigo tais papéis por estarem convictos de suas pregações e. doctos 1879/6/22 do British Consulate-General. de 15/11/22 e SAGA (South Africa General Archives). A meu ver. a partir da Beira. ano 1922. MNA. razão: haveriam de fazer propaganda. 2086/7. de 10/11/1922 e 50/1026 do Governor General to Consul-General. Quantos não passaram despercebidos pelas autoridades? A cidade da Beira. Proc. 493 AHM-DSNI. “devendo-se-lhes todavia recomendar. de 27/11/22. por exemplo. mandou por os dois em liberdade. Lourenço Marques to Gobernot General of the Union of South Africa. com resultados de investigação. (Confidencial). 07. aliás. 494 Ver. natural daquele protetorado. em 1926. que se devem abster de qualquer espécie de propaganda do contrário serão novamente presos e deportados para Timor”493. mas é bastante significativo que tenham se preocupado em levar para casa tais papéis dentre sua comumente volumosa bagagem de retorno. sendo a sede da Cia de Moçambique. cx. que. 169 . O processo contém ampla documentação. o processo crime movido contra o Isa MacDonald Lawrence pelas autoridades do Nyasaland. cópias de correspondência oficial e cartas enviadas e/ou trocadas pelo acusado. consultou o consulado britânico em Lourenço Marques. quatro dias após receber o comunicado do Gabinete do Governo do Território da Cia de Moçambique. datado de 18/11/22. conforme demonstra ampla documentação existente no Malawian National Archives494. 492 AHM-DSNI. desde 1919. doc. 461/22. com eles em mãos. onde trabalhavam muitos negros de colônias inglesas e que também era caminho natural para o então Nyasaland. se fosse este o caso. julgou que deveriam ser impedidos de seguir seu destino e. doc. parece ter sido um porto de entrada e de difusão das idéias pan-africanistas e associativistas do operariado negro sul africano.120 a 11. pois.

Imprensa Nacional. empregados nos canaviais de Moçambique. p. O trabalho voluntário As precárias condições de vida e trabalho nas minas eram conhecidas pelo interior afora mas pareciam. Pe. se deveria trabalhar em média 95 dias para obter o dinheiro para o imposto de uma única palhota. doc. p. 1949. Hurst & Co.. Migrant labour and agriculture. Cf.000 o que ao câmbio do Sr. os salários praticados nas minas eram bem mais altos do que os pagos em Moçambique. os plantadores de cana do Natal pagavam £.Curadoria e Negócios Indígenas. Luís António. 497 Cada magaíça trazia. como diziam os portugueses. nas minas o valor era obtido com menos de um mês de trabalho496. 162. nas minas era possível receber £. os salários pagos nos territórios da União Sul-Africana eram superiores aos da Colônia portuguesa. Luís António. aos trabalhadores. melhor fazê-lo nas minas. na mesma época. cit. Enquanto. 170 .0.. Mesmo na agricultura. Malyn. ou seja acima de seis vezes mais495. 496 NEWITT. cx. Secção B . enquanto que os trabalhadores chibalo. pagava £. 40. enquanto as obras nas docas e no Caminho de Ferro ligando Lourenço Marques ao Transvaal pagavam cerca de 10s por mês. onde recebia £45. vol. 90. enquanto que. Lourenço Marques.1.. o que equivalia a 360$00 escudos. Daniel da. 1981. 2. I. cit.. C. Em 1921. cit. em 1916. dinheiros.000 contos ao passo que os mesmos 80. uma empresa agrícola de capitais estrangeiros em Moçambique e mais capitalizada. Alfredo Augusto. Op.0 e £. 115.4. 219. Assim O Brado Africano demonstra a mesma disparidade salarial.000 ou 6.0. os fazendeiros do Transvaal pagavam entre £. Op.3.000. a Incomati Estates.0.0. Em 1926. isto é apenas cerca de 6/450 ou menos de 1 e 495 COVANE. no Sul de Moçambique. p. recebiam 15 shillings ou cerca de 90$00 escudos498.000 trabalhadores quando compelidos a valorizar a terra pátria (Roças Hornung) e criar riquezas para conhecidos ganhariam £. Se era necessário trabalhar para pagar os impostos e satisfazer novas necessidades de consumo. Portugal in Africa: the last hundred years. Op.000 contos...000 trabalhadores que vão criar riquezas para estranhos recebem uma remuneração anual de cerca de £. em 1925: “Os 80. pois em finais do século. Relatórios sobre Moçambique. p.1. nos primeiros anos deste século. além disso. melhores do que as impostas em terras moçambicanas e. 733. de 04 de janeiro de 1921 e COVANE. na Colônia portuguesa. 2a ed.. Camacho dá a bonita quantia de 450. Migrant labour and agriculture. uma média de £10 a £15 ao final de um contrato de trabalho de 18 meses nas minas. das minas se poderia sair com algumas libras no bolso ao fim do contrato497.. 26 e ainda CRUZ. FREIRE DE ANDRADE. Até 1971 a libra inglesa (£) fracionava-se em 20 shillings e estes em 12 pences ou. 2.. p. 3. London.3 por mês. os colonos pagavam aos trabalhadores agrícolas cerca de 12 shillings por mês. 498AHM-DSNI.

Work culture and identity. panelas. jaquetas. p. Em seus Relatórios sobre Moçambique. um valor social. Além das dezoito ou vinte libras que lhes garantia o pagamento do lobolo cada vez mais caro.4. a partir do final do século passado. Henrique A. gaitas. gramofones. talheres de mesa. sendo que metade deles continha mais de doze quilos de sabão em barra. cobertas. p. HARRIES. 25/04/1925. p. 134. lençóis. escovas.. origina-se de ‘baar’ em língua afrikaans com o significado de bruto. cit. Op. neles encontrou uma enorme variedade de produtos. da terra dos ingleses. não especializado. O trabalho voluntário 1/2% do que ganhariam servindo estranhos e valorizando a terra alheia. os primeiros eram magaíças. Pe. e daí gayisa. passou a ser. Ver o seu Usos e Costumes. por corrupção. a seguir o plural aportuguesado do termo gerou magaíça. Junod afirma que nos idos de 1870 o lobolo andava pela faixa das dez libras.. Cf. traziam baús repletos de mercadorias diversas501. As duas ou três semanas seguintes eram seguidas de visitas de parentes e 499 500 O Brado Africano. p. espelhos... uma espécie de rito de passagem à idade adulta. tomo I .. 229:231.. harmônio e. canetas. Cf..”499 Além da força propulsora representada pelas diferenças salariais e pressões fiscais. eram galinhas500. 267. reinserindo o magaíça na comunidade. respeitados por sua coragem. Mamparra ou màmbárha. Termos diferentes passaram a designar os que tinham ou não ido às minas. acabou por tornar-se ngisi. Por vezes traziam bicicletas. Designava os indígenas retornados das minas. cit. Migrant labour and agriculture. Raúl Bernardo. que substituíam as gorduras de origem animal e o óleo de mafurra502. nota 1.. A. 20. Daniel da. agregou-se outra de caráter cultural: ir para as minas. 171 . p. 502 Cf. COVANE. inexperiente. ignorantes. pentes.. p. arames de aço... As bagagens geralmente era abertas somente diante dos familiares mais próximos e inseria-se nos rituais de boas vindas. o Governador Geral Freire de Andrade descreve o conteúdo de dez baús de magaíças que inspecionou.Vida Social. surpreendentemente para a época. “as pessoas que fogem em tempos de fome e miséria e que regressam a casa com os bolsos cheios”. Op. comparados nas canções e linguagem populares a galos. A. Op. mas principalmente facas. FREIRE DE ANDRADE. chapéus.. ou seja.Op. I. vistos como inferiores. casacos. óleos perfumados para o corpo. HONWANA. fortuna e experiência no mundo. cit. vol. Cf. 501 CRUZ. crescentemente. Op. cit. cit. 89:90. Significava. nota 1. nota 56. panos diversos. termo que.. Luís António. cit. que nada conheciam do mundo. mas nos anos dez deste século já estava cotado em trinta libras. uma experiência à qual todos os homens deviam submeter-se para de fato tornarem-se homens. enquanto os que não emigravam eram os mamparras. popularmente. além destes era comum trazerem brinquedos. máquinas de escrever503. Op. relógios. 157.. Patrick.

desacostumado que estava aos baixos padrões de vida da população local506. Daniel da. os menores de idade. 95. os endividados com o imposto de palhota. Luís António. Secção A Administração. além de todos aqueles que não conseguiam ou não queriam submeter-se às taxas e mecanismos do engajamento legal. quer montando verdadeiras redes de emigração clandestina que ligava membros de uma mesma aldeia ou região507. de 11/07/27. quer com a ajuda de recrutadores independentes. cit. Proc. Op. O Pe. COVANE. Pe. os rejeitados pela inspeção médica. Migrant labour and agriculture. esquecendo-se da família. Op. quer porque tinham adoecido e nada recebido durante sua jornada nas minas. 109 e AHM-DSNI. 1926-1927. ou seja deveriam ser magaíças por terem ido às minas.. O trabalho voluntário todos esperavam receber algum tipo de presente. Op. os que viviam próximo à fronteira e. cx. como muitos mineiros eram treinados em primeiros socorros para atuarem nas minas. Daniel da Cruz afirma que o Transvaal era o verdadeiro Brasil para os magaíças e estes quando de lá voltavam às suas terras eram considerados ricos e opulentos senhores que andavam sempre rodeados de amigos junto das cantinas505. Migrant labour and agriculture. do Administrador do Bilene ao Director dos Serviços e Negócios Indígenas. 506 COVANE. Op. 505 CRUZ. 21. p. entretanto. Os produtos trazidos das minas formavam não só um conjunto de elementos de prestígio individual mas.. cit.. os que viviam ao Norte do paralelo 22º S. 10/03/1915. podem ser tomados como um indicativo seguro de mudanças de hábitos de consumo e higiene pelo sertão afora.4. 172 . Muitos. 69 . mas eram considerados mamparras por seu comportamento indesejado. Estes eram conhecidos como mamparras magaíças. a partir de 1913. procuravam atravessar a fronteira ilegalmente. doc. ilegalizados depois dos acordos com o Transvaal. quer porque tinham gasto todo o salário. Luís António. ao cabo de algum tempo. no 269/94. Estas libações com colonial ou sópe e a generosidade na distribuição de presentes fazia com que.. acabavam por suprir a quase inexistente rede de saúde pública colonial e por concorrer com os curandeiros locais504. os criminosos.Inquéritos.. Medicamentos eram um item sempre presente nas bagagens e. p. Luís António. cit.. uma vez retornados ao lar.. voltavam do Rand de mãos vazias. 507 COVANE. p. cit. lá ia o magaíça em busca de novo contrato de engajamento. pelo volume representado pelos milhares de mineiros e pela distribuição social dos mesmos.. Os fugitivos do trabalho forçado ou do serviço militar. 219.. p. 21.. Isto significava andar dias e dias a pé evi- 503 504 O Africano. Migrant labour and agriculture.

O número de tais clandestinos era tão grande que a própria WNLA montou postos de recepção junto à fronteira. Na verdade. para enfrentar tamanha jornada. do que arcar com todo o processo de recrutamento. Work culture and identity. Op.. Op. Teresa dos Santos. p.86. 115:118. compreendendo os anos que vão de 1903 a 1940 estão repletas de notas acerca da emigração clandestina com propostas e atitudes tomadas para reprimí-la. 343. 510 HARRIES. permitem dizer que para todos os efeitos práticos. a reduzida capacidade de fiscalização e a inexistência de qualquer barreira real além dos montes Libombos.Curadoria e Negócios Indígenas do fundo AHM-DSNI. cit. Enfrentavam riscos de serem atacados não só por animais selvagens. Aqueles que tinham parentes pelo caminho eram por eles ajudados. a situação em Moçambique que forçava os trabalhadores a submeterem-se a tais extenu- 508 Depoimento de D. Muitos morriam pelo caminho e os demais chegavam esqueléticos. mais aumentava a imigração clandestina a tal ponto. mas que.4.. que penalizava com multas e trabalho prisional os eventuais detidos511. falsos policiais que os extorquiam. O trabalho voluntário tando os caminhos mais conhecidos e patrulhados por tropas de sipaios508. João Albasini. 509 JUNOD. ou ainda o risco de sujeitarem-se a agricultores brancos de ambos os lados da fronteira.. água. que exigiam dinheiro ou trabalho como direito de passagem por suas terras. ao regularizar os documentos do contratado. que se desencadeou forte esquema de repressão. com fina ironia.. pp. Ver também a Portaria Provincial no 93 de 173 . p. “Recordações sobre Lourenço Marques. pois para ela era mais barato pagar eventuais multas por emigração clandestina. 511 As caixas 886 a 891 e 905 da Secção B . mandioca. Sithole para OLIVEIRA. paulatinamente. Patrick. cit.. cit. H. ou de serem interceptados por policiais a serviço das empreiteiras que os obrigavam a trabalhar na construção de ferrovias ou obras públicas. tratava-se de uma fronteira fictícia. em território sul-africano. mas também por salteadores. Quanto mais a administração portuguesa agia no sentido de regulamentar e controlar o fluxo migratório. Assim. J. sal para garantirem a alimentação. desnutridos e doentes510. farinha de milho. além de rolos de tabaco usado quer para comprar comida quer como pagamento nas travessias de rios. 1930-1950”. pois as pessoas temiam que os estrangeiros circulando por seu território fossem potenciais transmissores de doenças e morte e que pudessem ser contaminadas pelo espírito maligno que os acompanhavam509. assim expunha. Usos e Costumes dos Bantos. e panelas. tinham que carregar pesados fardos com cobertores e agasalhos para protegerem-se do frio. caso contrário não podiam esperar muita hospitalidade. ia ganhando concretude. Op.

] Colonização. 512 174 ... é perfeitamente sonhar acordado. onde havia uma crescente demanda por serviços especializados de tipo artesanal. [. trabalho forçado. p. cit.. Migrant labour and agriculture. 513 COVANE. dilúvios e dias passados no topo das árvores quando chove e sedes atormentadoras quando o sol cresta o capim e mata os gados! [. “Dize-me com quem andas.. mas nas cidades da Colônia era possível receber a visita das esposas e familiares ou ir visitá-los eventualmente. por qualquer motivo. mulheres confiscadas de reféns ao imposto. e dir-te-ei as manhas que tens.4.. porque ao menos vai ganhar mais... ou mesmo acorrer em situações emergenciais. semiespecializados e domésticos aos quais poderiam oferecer-se como voluntários. publicada no Boletim Oficial 8/1910.. Lourenço Marques era conhecida por xitlela vasati que.”512 Entretanto.” In: O Africano. a trabalhar para outros com tão baixos salários. Os salários eram menores do que os pagos pelas minas. Vai-te despir.. bebedeiras.. 17/02/1910. significa um lugar onde mesmo as mulheres podem ir e voltar com segurança513.. afluíam para os principais centros urbanos da Província. Op.. 23/09/1916.. Luís António. cavalo marinho. não conseguiam ou não queriam ir para o Rand. ó boa amiga.. o aborígene quer antes ir para fora de sua terra. em shangana.] Ora trabalho por trabalho. O trabalho voluntário antes jornadas: “Querer de boa fé que o preto deixe de emigrar para se dedicar à agricultura aqui.. os trabalhadores que. 22.. pancada por pancada. em se dedicar à sua terra ___ da qual apenas guarda dolorosas recordações de exigências em dinheiro.. e ele na sua qualidade de bruto ___ desculpem-no ___ não sabe calcular as vantagens altissonantes e patrióticas. que podem advir para a civilização e para o Mundo.

estivadores. Ravan Press. a forma como estas relações serão estabelecidas mostram que nem sempre este vínculo é obrigatório e o único determinante. pp. Op. pp. Duncan G. e Org. 1900 . pp. HANSEN.). quer para os trabalhos domésticos. 59. A emergência da burguesia na Europa foi acompanhada por um discurso que considerava natural e necessária a relação entre atividades domésticas e mulher. 175 . Ithaca. Mambo Press.” In: Studies in the Social and Economic History of Witwatersrand. Charles van. cit. MAINATOS & MULEQUES Ferro de engomar aceso no muro aquece o assobio do moleque brincalhão e a voz violenta do patrão. Karen Tranberg. desde a virada do século e no Witwatersrand no final da década de trinta. artesãos de diversas especialidades e por um expressivo contingente de criados para servirem quer à emergente rede hoteleira. p. de resto como em quase toda a África Austral514. II. Albert. New Brunswick. ONSELEN.. Cornell University Press. na região do Cabo. no 1.. Vilas et Cidades . a ampla participação de homens africanos no mer- 514 A preponderância masculina nos trabalhos domésticos foi sendo substituída pelo emprego de mulheres negras e mulatas. Johannesburg. O trabalho voluntário 4. Harmattan.1985. cit. vol. Mambo occasional papers. “Le processus d’urbanization de l’Angola pendant la période coloniale (années 1940-1970). também as principais tarefas a que se dedicavam os trabalhadores voluntários estavam relacionadas com a atividade terciária. Paris.4. O moleque está feliz ou não? tem água e tem comida tem calça e tem guarida e tem voz violenta do patrão. PENVENNE. African Workers. a esmagadora maioria dos serviçais domésticos era constituída por homens. 105. Adelino. puxadores de rickshaws. Karen Tranberg (ed. sob domínio colonial.). 141:153. cf. Também na África Equatorial esta parece ter sido a prática corrente. 1890-1914. African Encounters with Domesticity. marinheiros. Michel (Introd. Na África. Como as cidades coloniais em Moçambique eram mais prestadoras de serviço do que centros de produção industrial. 1982.. Distant Companions: Servants and Employers in Zambia.Bourgs et Villes en Afrique Lusophone. Rutgers University Press. particularmente p. In: CAHEN. TORRES. Em Lourenço Marques. veja para a região entre outros: HANSEN. Jeanne Marie. CLARKE.01:73.2 COZINHEIROS. cf. 98:117. Domestic Workers in Rhodesia: The Economics of Masters and Servants. 1992. 1989.. Op.1989. 1974.. Calane da Silva. Domestic Service on the Witwatersrand. SCHWEITZER. Gwelo. “The Witches of Suburbia. A maioria era formada por carregadores.Socio-economic series.

Guilherme de.6%) das quais sete pretas.560 pessoas. os “amarelos” somariam 373 pessoas ou 1. 7. Entretanto.4%) distribuídos racialmente da seguinte maneira: 135 pretos (51. Somente doze eram mulheres (4. O Censo de 1912. cit.5%) sendo que a esmagadora maioria deles. nos aponta que. a criação do universo doméstico em África não é determinado somente pelo gênero. pois trata-se de segmentos sócio-culturais bastante distintos entre si. certamente relacionadas com o aumento da população branca 515 Dados elaborados a partir de AZEVEDO. O Censo inclui na categoria de domésticas.503 mulheres. mas fatores como raça e classe intervêm de maneira primordial. por exemplo.8% do total. em 1912. para servir a uma população branca de 5. SOUZA RIBEIRO. Pois bem. Imprensa Nacional. as 86 pessoas restantes eram sete homens chineses. 34 brancos e 14 chineses. Logo. aqui citado. Lourenço Marques. os indianos portugueses e ingleses. 82 pardos (31. em Lourenço Marques e subúrbios. Dentre os 261 indivíduos cozinheiros. além das mulheres donas-de-casa. indianos a cidade contava com 99 pessoas lavadeiras de roupa das quais somente 13 eram mulheres.560 pessoas e 2. da cidade de Lourenço Marques” às páginas XVIII e XIX. 113 eram pardos.7%).1940. no mapa no 4 “População de facto. 1940.4%). onze homens negros e 67 pardos.368 ou cerca de 30% do total. O trabalho voluntário cado de trabalho doméstico mostra que as tarefas ditas do lar não são atributos naturalmente femininos e mais. teríamos as seguintes cifras: o segmento branco.079 habitantes. sendo onze pretas e duas pardas. 249 eram homens (95. constituído por 5. os “indianos” 2016 ou 7. alguns homens. para o conjunto da cidade de Lourenço Marques. embora a situação não tenha mudado no que tange à divisão sexual de tal tipo de tarefa. 22 chineses (8.31% da população total ___ 26. Com o correr dos anos.4. dos 11.153 serviçais que a Cidade e subúrbios tinham. certamente porque não inclui as crianças menores que não eram estudantes. As demais mulheres eram assim distribuídas consoante a classificação racial do Censo: 108 pardas e 27 brancas515. distingue. 176 .520 indivíduos “pardos”. perfazendo 3. Tudo indica ainda que foram agrupados sob a demonimação de “pardos” tanto os indianos e goeses quanto os mulatos. no Anuário de Moçambique . A distribuição da população consoante profissões e raças registra somente 5189 indivíduos brancos e 2. assistimos a um estrondoso crescimento nas atividades domésticas assalariadas.344 ou 66.5% da população. o que representa 21. dos “Mixtos (pardos)”.898. os “pardos” ___ aqui denominando os mixtos e mulatos ___ 785 pessoas ou 3% e os “pretos” 17. não indígena. ou seja 7. as pretas constituíam a imensa maioria. e inclui na categoria de serviçais os trabalhadores em atividades domésticas assalariadas.489 eram pretos ou 67.1% do total. Das 3.43%. ainda que estejam distinguidos consoante a nacionalidade. exceto os mainatos e os cozinheiros. três brancas e duas pardas.650 eram homens (68. com diferentes inserções na sociedade e no aparelho administrativo do Estado colonial.4%) e 10 brancos representando cerca de 3. Isto limita um pouco a análise. a partir do Anuário de Lourenço Marques-1915 e de elementos colhidos no Relatório efetuado por AZEVEDO em 1912. Op.73% .

quando os tinham. a extensão da criadagem não era medida tão somente pela necessidade real.843 pessoas empregadas em tarefas domésticas assalariadas. 07 516 Censo da população não indígena em 1928. dos quais 878 eram homens africanos.708 eram criados.4. Colónia de Moçambique. In: Boletim Económico e Estatístico. ora isto significa uma proporção aproximada de um empregado para cada potencial empregador e uma média aproximada de dois empregados por casal. muito embora. como potenciais empregadores para trabalhos domésticos todos os segmentos socio-raciais cujos membros tinham alguma capacidade de assalariar e deles excluirmos os indivíduos menores de vinte anos e os empregados em tais tarefas ___ embora não se possa descartar a possibilidade de que um outro com idade inferior a vinte anos pudesse ser empregador ou que alguns homens ou mulheres europeus e mesmo mulatos empregados em atividades domésticas pudessem. 594 mixtas e 222 amarelas. já que a maioria dos integrantes deste segmento racial tinha profissões modestas ou ocupava baixos cargos na burocracia colonial. 57 indo-britânicos. do total de cozinheiros. empregarem africanos para os afazeres do lar ___. afinal. Lourenço Marques.116 eram cozinheiras e 5.747 pessoas virtuais empregadoras das quais 6. 1. vivendo com vencimentos frugais.5% eram homens. 977 indo-portuguesas. embora alguns tivessem número maior pois. entre os mixtos. 302:304. de 1928. Repartição de Estatística. Mais uma vez as variantes raça e gênero são importantes para a caracterização deste imenso universo de assalariados domésticos. série especial no 10. teríamos um total de 8. e o mesmo se passava entre os membros do segmento africano. por seu turno. 1930. O trabalho voluntário na cidade. 13 eram mixtos. este mesmo Censo aponta a existência de 6. Imprensa Nacional. poucos tinham algum tipo de empregado doméstico e. geralmente tratava-se de sobrinhos/sobrinhas ou parentes trazidos do interior e que raramente recebiam mais do que cama e comida pela ajuda ou trabalhos prestados516. Se contarmos. já que a maioria dos amarelos era empregada em profissões artesanais com parcos vencimentos e.011 ou 90. mesmo que desejassem ter criadagem à imagem e semelhança dos europeus. 50 indo-portugueses. nestes dois últimos casos. os números possam superdimensionar a potencialidade empregadora dos segmentos raciais. pp. Pois bem. 1. poucos realmente podussem mantê-la. a partir de dados extraídos do Censo da população nãoindígena de Lourenço Marques. das quais 19 eram jardineiros.016 eram européias. O Censo da população não-indígena de 1935 excluiu os africanos não assimila- 177 . 938 indo-britânicas. Na verdade o Censo incluiu toda a população urbana de Lourenço Marques e não somente a considerada civilizada.

tido como inferior. mas era sabido e corrente que não era este o fim principal para que as levavam para casa517. em 1928. veremos que embora tenha caído a percentagem de homens. para 90. quando na Europa ocorria exatamente o inverso? Por que no universo do trabalho doméstico colonial os homens substituíram as mulheres. a partir dos anos quarenta. em 1912. em 1928. Op.209 eram homens que representavam 91. cit. 41 eram mixtas. mais de 78% de todos os cozinheiros assalariados. 73 indo-portugueses. O trabalho voluntário europeus e 06 amarelos. em relação ao total. na mentalidade dos empregadores. CRUZ. ocupavam cerca de 87. tornando claro o caráter subordinado atribuído. Pe. transcorridos dezesseis anos.2% do total e destes 5. Somente 105 mulheres trabalhavam de forma assalariada como cozinheiras.4. a preponderância masculina era ainda maior: 5. também entre elas. Se compararmos os dados relativos aos cozinheiros. Daniel da. Mas por que esta preferência por trabalhadores domésticos masculinos. representavam cerca de 51% do total e. Na distribuição dos criados.. Jeanne Penvenne procura dar uma explicação ao fenômeno ao afirmar que.088 eram africanos. numa interpretação que se choca frontalmente com as noções ocidentais de domesticidade? Asiáticos e europeus empregavam mulheres nos serviços domésticos. 18 européias e 14 indo-portuguesas. as tarefas consideradas degradantes e indignas. a este tipo de trabalho. a maioria era representada pelas 96 africanas. passaram a representar. a tal ponto de serem considerados mais hábeis e capazes que as mulheres para estas tarefas. a maioria dos demais trabalhadores era empregada por patrões do mesmo segmento racial.3% delas eram africanas. Das 499 mulheres empregadas como criadas 426 ou 85.4% de todos os postos de trabalho doméstico. 02 indo-portuguesas e 02 européias. p. a profissão tornou-se cada vez mais a atividade dos homens negros que. reservando-se ao segmento racial. Mas estes números ainda nos dizem que a maioria dos trabalhadores domésticos eram homens e que os homens africanos. 09 indo-britânicos. Excetuando-se os negros e mixtos. 221. Estes números fazem saltar à vista que nada menos que 95% de toda a força de trabalho assalariada em tarefas domésticas era formada por homens e mulheres africanos. representando menos de dez por cento do total e. as “senhoras” 517 dos e o seu similar de 1940 incluiu somente os africanos civilizados excluindo os demais africanos. comuns aos dois Censos. seguidas pelas 05 mixtas. em 1912.5% em 1928. de 95%. 07 europeus e 06 amarelos. 178 . 26 mixtos. embora.

519 SCHMIDT. Tais argumentos também são compartilhados por Elizabeth Schmidt. Karen Tramberg. e por Karen T. pelos missionários. Há que se considerar ainda o fato de que. p. fazendas e outros empreendimentos521.. 520 SCHMIDT. “Seeking the Factory for Women . Karen Tramberg.. os capitalistas consideravam que jovens mulheres africanas podiam ser empregadas em trabalhos domésticos por um salário menor do que o dos homens e que. 1900-1939”. portanto. As escolas das missões e os clubes de jovens ensinavam profissões para os rapazes africanos integrarem-se na economia de mercado. Jeanne Marie. Karen Tramberg. este ciúme sexual contribuiu para as divisões de raça e classe presentes nos serviços domésticos518.233 e HANSEN.. gentilmente cedido pela autora. Cornell University Press..). HANSEN. cf. 148. and Domestic Labor: The Question of African Female Servants in Southern Rhodesia. esta era vista como necessária para garantir 518 PENVENNE. Distant Companions. enquanto as garotas e moças eram transformadas segundo o modelo da dona-de-casa européia. Op.Mozambican Urbanization in the Late Colonial Era”. diferentemente dos proprietários de capital. Elizabeth... 1900-1985. p. O trabalho voluntário brancas buscassem mulheres negras para atenderem a si e às suas crianças. todo o sistema de poder dos chefes. In: HANSEN. p. Karen Tranberg (ed. liberar-se-ia força de trabalho masculina para o que consideravam tarefas “produtivas” nas minas. 120:135. Este ensino de tarefas domésticas de tipo europeu às mulheres africanas. 179 . diferentemente dos missionários que se opunham ao emprego de mulheres africanas mesmo antes do casamento. Rutgers University Press..... quando analisa o tema na Rodésia do Sul. sendo a principal força de trabalho agrícola a permanência da mulher no campo. deviam cuidar da casa e criar filhos saudáveis e disciplinados.127. African Encounters with Domesticity. Elizabeth. nos quais se baseava o exercício da autoridade colonial inglesa. Segundo Schmidt. Inédito. cit. New Brunswick. “Race. Ithaca. A autora repete argumentos semelhantes ao apresentado em seu African Workers. Sex.4. Distant Companions. com isto. Os oficiais administrativos. Op. 08. elas temiam que seus maridos também quisessem ser “servidos” sexualmente e que. p. conseqüentemente. pp. consideravam a questão sob um ponto de vista mais amplo e temiam que a emancipação da mulher africana ameaçasse minar o poder masculino africano e. Hansen em seu estudo sobre a Rodésia do Norte519. cit. 1992. pp. 521 Argumentos semelhantes para a liberação de força de trabalho masculina foram também usados na Rodésia do Norte a partir dos anos quarenta. tinha como propósito primário preparar esposas e donas de casa para os professores e evangelistas africanos e não para inseri-las no mercado de trabalho doméstico assalariado520. 221:241 e HANSEN. Distant Companions: Servants and Employers in Zambia. cit. cit. 1989. Op. Op. ajustados aos padrões europeus.

African Encounters with Domesticity. Karen Tramberg. o ideal de que a mulher devia ficar em casa e o homem buscar trabalho. ainda que doméstico. A/10.. New Brunswick. Jeanne Marie. era.. African Workers.. 1992. Op.). dominada pela moral sexual vitoriana. ou seja. ano 1927 . diante de todos estes argumentos. 231 e HANSEN. envidassem esforços para contratarem criadas e não criados? Embora trate da reação ao “black peril” representado pelas alegadas ofensas sexuais sofridas pelas mulheres brancas rodesianas por parte dos homens negros523. pois supostamente encarnava instintos selvagens como sensualidade e luxuria e se constituiriam no objeto 522 SCHMIDT. que supria o crescente mercado de trabalho assalariado conforme já apontamos acima. as mulheres africanas deveriam permanecer em seu próprio domínio doméstico. 134:6. a miscigenação entre homens brancos e mulheres negras. segundo Schmidt. o tema parece não ter preocupado a comunidade branca. Elizabeth. argumenta Schmidt. mais rebeldes e que desertavam com mais facilidade do que os homens522. Ver AHM-DSNI. enquanto que os homens trabalhariam no mercado assalariado.. não seria mais adequado esperar que os homens brancos temessem pela integridade de suas mulheres e crianças convivendo com trabalhadores negros e que. Janet M. p. Karen Tranberg (ed. p. extremamente patriarcal e machista. Op.Informação da Secretaria dos Negócios Indígenas. “Men at Work in the Tanzanian Home: How Did They Ever Learn?” In: HANSEN. pp. desse modo. portanto. acabou por prevalecer sobre a divisão de gênero pensada para tais tarefas. além disso. O trabalho voluntário a reprodução a baixo custo da força de trabalho masculina.. 180 . 523 Embora o Comissário de Polícia de Lourenço Marques fale desta possibilidade. de 18/04/1927. potencializado pelo medo que as mulheres européias tinham da sexualidade da mulher africana. Além do mais as patroas européias não tinham interesse em gastar tempo treinando jovens africanas que as abandonariam com o casamento e.. na ideologia doméstica européia. cit. PENVENNE. 58 e BUJRA. o emprego de mulheres africanas como serviçais nas casas européias e o conseqüente afastamento de seus próprios lares conflitava com as tentativas européias de domesticá-las. a virginal mulher européia era colocada no pedestal. A primeira pergunta a se fazer. menos inteligentes. p. maior o temor do “yellow peril”. 251. Op. cozinhar. se no meio branco. Nesta sociedade de colonos. enquanto a mulher africana era reputada como tentadora.4.. cit. cx. Embora. Rutgers University Press. Parece que havia uma unanimidade no meio colonial europeu da Rodésia do Sul que considerava as mulheres africanas menos capazes. é que.. Distant Companions. afirma a autora. limpar a casa e cuidar dos filhos constituíssem a essência das “tarefas femininas”. cit.

Além da agricultura e da coleta. corta lenha. ajudam a compreender o fenômeno. opondo-se a empregar serviçais africanas que poderiam representar uma tentação permanente para esposos e filhos524. cit. cabe à mulher a educação dos filhos e a culinária: põe o milho de molho.. por isso então. Sou de opinião que é na dinâmica das sociedades africanas e na forma como estas se articulam com o desenvolvimento do capital que se enraízam mais profundamente os motivos de tais opções.Op. fosse um atributo masculino que remontava quer às empreitas como carregadores. agiam como um esquadrão da moralidade branca na manutenção das barreiras sexuais entre as raças. quer ao engajamento para trabalhar nos canaviais do Natal e nas minas do Rand. O que Schmidt parece não ter devidamente em conta é que. os africanos de qualquer sexo ou idade eram vistos primeiro como seres congenitamente inferiores.224. mas à mulher cabe mantê-lo vivo e cozer 524 SCHMIDT. mas não creio que sejam determinantes ou mesmo que expliquem adequadamente a predominância de homens africanos em tais tarefas. O trabalho voluntário secreto dos desejos sexuais dos homens brancos. afinal. pila-o. explicar este engajamento para trabalhar como serviçal doméstico requer um pouco mais de atenção. mantendo a necessária distância social entre governantes e governados. Ao homem cabe acender o fogo. para os colonos. 181 . Na sociedade Thonga o ato de cozinhar. vistos como tal. entre os indígenas. Embora a prática de buscar trabalho assalariado. como elas próprias seriam apontadas como esposas fracassadas e. Elizabeth. p. quase infantis e. maior que o temor por sua própria segurança. mantendo-se longe das mulheres africanas. isto não só reduziria a dignidade que deveria pautar a vida dos europeus. é fundamental na determinação dos papéis sexuais masculinos e femininos. as mulheres européias agiam como guardiãs da civilização e dos privilégios das pessoas de pele branca e assumiam a responsabilidade primordial de defender a dignidade e o prestígio do Império. a sexualidade teria pouco espaço nesta representação do outro. e demais tarefas domésticas. Schmidt afirma que. homens e mulheres. era a preocupação destas mulheres com que seus esposos e filhos mostrassem o devido respeito à coroa britânica e às mulheres européias. pois caso seus maridos buscassem companhia de mulheres das “raças subordinadas”. ou mesmo nos serviços rurais e urbanos na própria Colônia.4. busca água e prepara os alimentos. Nesta perspectiva. Certamente estes argumentos que povoaram as cabeças dos agentes sociais.

em panelas de barro assentadas sobre pedras. Os lóquios seriam de tal modo perigosos. doutro modo. cobertas de caniço e de chão batido. 35 e 179 e FELICIANO. não correspondiam àquelas que se esperavam de um empregado doméstico assalariado. ao ato de cozinhar ou de servir comida a outrem. A comida era preparada em fogo de lenha. ou deram a luz a natimortos. Se os afazeres domésticos e particularmente a culinária eram assim tão profundamente associados à definição do papel da mulher. eventualmente uma mesa. com poucos móveis: camas. O trabalho voluntário os alimentos525. 33. rompendo com seus valores e tabus. cit.. e para satisfazerem as necessidades de suas famílias.. se colocasse a partir da ponta mais fina. tomo II.. Op. A associação analógica entre a gestação e o ato de cozinhar é tão íntima. ou que tiveram aborto. infiéis.. Henri. A culinária é uma tarefa tão marcadamente feminina que José F. Usos e Costumes. O marido que comesse comida de sua mulher menstruada ficaria com hidrocele. pois esta posição de expulsão. a morte seria o destino esperado para quem se alimentasse com a comida preparada por uma viúva526. cit. viúvas ou cujo filho morreu. puérpera ou com aborto recente seria impura e.4. bancos. tornaria os homens tuberculosos. seria como “por as pessoas ao contrário” e. se ofereciam para realizar tais tarefas nos lares dos colonos brancos? É verdade que o que Janet Bujra afirma em seu estudo sobre a Tanzânia também se aplica a Moçambique colonial: as tarefas domésticas que as mulheres africanas aprendiam em suas próprias casas. A casa dos colonos era maior. 165:167. pp. e. qualquer que fosse o seu estado. os filhos dessa mulher nasceriam com os pés para a frente. deveria sempre preparar a comida de joelhos ou com as pernas dobradas. ou puérperas. José Fialho. expulsores de sangue como elas. 182 . A mulher. atingiria os alimentos que se dispersariam. que a mulher puérpera deveria afastar-se da cozinha familiar por dois meses.. não seria apropriado perguntar-se porque motivo não eram as mulheres e sim os homens africanos que. por fim. p. acumulando água no lugar de esperma. tomo I. Suas casas eram de barro e varas. Feliciano nos diz que uma série de tabus e impedimentos associam as mulheres menstruadas. de parto. que quando uma criança é prematura costuma-se dizer que ela é “papa mal cozida”. pp. por associação. nunca abertas. 302. com comparti- 525 JUNOD. revela-se também através da prescrição para que as mulheres coloquem no fogo as pontas mais grossas da lenha a ser queimada pois. Op. A comida servida por mulher menstruada.

mas antes aprendiam a fazê-lo no próprio emprego. Elisabeth Schmidt acrescenta que o trabalho doméstico estava entre os piores pagos. Sex and Gen- 183 . 2. era estritamente vigiado e uma das formas mais isoladas de trabalho. Relatório sobre os trabalhos do recenseamento da população de Lourenço Marques e Subúrbios. as mulheres brancas passassem a contar com babás e amas negras para atender os seus filhos. isto não constituía motivo suficientemente forte para que fossem empregadas em tais tarefas: embora com a melhoria de vida do segmento branco. garotos indígenas entre 10 e 14 anos fornecidos pelas administrações do interior528. erguida em pedra. Op. Ora se os homens aprendiam. Op. conforme apontam os Censos de Lourenço Marques: em 1912 a cidade contava com 21 jardineiros homens sendo 05 brancos e 16 negros. Karen Tranberg. 25. passados dezesseis anos. and Domestic Service in Zambia”. a relutância dos homens africanos em submeter suas mulheres. 528 Por exemplo Jornal do Comércio. 1992. pp. com janelas de vidros e equipada com caros e variados itens de mobília. “Body Politics: Sexuality. referido ao dia 1 de Dezembro de 1912.. se isto era verdade para as mulheres africanas. “Men at Work in the Tanzanian Home: How Did They Ever Learn?” In: HANSEN. filhas e irmãs a tão degradantes situações530. a maioria dos babies siter eram mofanas. dos 19 jardineiros. 24/08/1923 e Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques -1911-1912. 247:8... se não tinham domínio sobre as habilidades específicas exigidas por tais tarefas. todos homens. cozinhas com água corrente. 1990. pp. e Censo da população não indígena em 1928. 529 AZEVEDO. cit. Rutgers University Press. principalmente porque. entretanto.. era ainda mais para os homens que também não eram preparados culturalmente para desempenhar tais tarefas domésticas. African Encounters with Domesticity.). pp.4. José Fialho. concreto ou tijolos. 530 HANSEN. que a falta de coincidência nestas tarefas não pode explicar adequadamente a divisão sexual neste tipo de trabalho. segundo Hansen. tinham-nas em seu referencial mais abstrato. O trabalho voluntário mentos especializados. cit. BUJRA. Op. Também em Lourenço Marques os trabalhos domésticos estavam no nível mais baixo da escala de salários urbanos para 526 527 FELICIANO. p. In: Journal of Women’s History. as mulheres também poderiam aprender. 310:322. O trabalho demandado por este tipo de casa tem muito pouca relação com aquele aprendido em casa527. dois eram brancos e 17 eram africanos529. 120:142 e “Household Work as a Man’s Job. e com a atividade de jardinagem era pior. Op. a própria autora reconhece. daí talvez se explique. Karen Tranberg (ed. Guilherme de. fogões e até refrigeradores. cit. Mesmo sendo preparadas nas tarefas relacionadas à agricultura e aos cuidados com as crianças. cit. já que. Gender. Janet M. New Brunswick.

este tipo de trabalho permitia que pessoas jovens entrassem na economia urbana contando com moradia e comida. conforme demonstra tabela da página 201531. sobre salários.. conversassem. ou mais fresca. nas cidades do então Tanganyika como indica BUJRA. oportunidades de treinamento e mesmo de escolaridade rudimentar que lhes abria caminho. a disponibilidade de água nos fontanários. por mais que estes fiscalizassem o dia-a-dia de seus empregados.18:23. 60.. novos valores. nos anos trinta. criava. já que. pp. Jeanne Marie. em tais atividades. a carestia ou uma ou outra notícia publicada nas páginas de O Africano ou de O der in Domestic Service in Zambia”. entretanto.. Casamentos. nascimentos ou morte de alguém. os fogões e ferros de passar queimavam carvão ou lenha e as compras cotidianas de gêneros como pão. p. cabendo aos serviçais irem aos fontanários para abastecerem a casa. Mesmo que alguns desses produtos pudessem ser adquiridos de vendedores ambulantes à porta de casa. estas atividades exigiam e possibilitavam que os empregados mantivessem contatos com outros colegas... 531 184 . cit.4. era-lhes impossível cronometrar os tempos gastos. nas duas décadas iniciais do século. pp. ao menos para alguns. à busca de outros empregos melhor pagos que exigiam especialização ou a astúcia e sagacidade tipicamente urbanas532.Op. sobre vagas nesta ou naquela casa. experiências acerca de sua própria vida. 1986. etc. intervinham fatores imponderáveis sobre os quais os patrões não podiam exercer o menor controle: o tamanho das filas. cit. 2. Op. ainda que restrito. com novas línguas. a barraca que teria disponível a verdura desejada. carne. pois a maioria dos empregos era preenchida através de uma rede de conhecimento. tornando-se-lhes mais fácil a superação das barreiras que separavam o mundo rural do urbano e pondo-lhes em contato com o espaço urbano. Janet M. 532 PENVENNE. Embora não questione o caráter degradante da maioria das relações que possam ter-se desenvolvido no espaço de trabalho doméstico colonial. In: Anthropology Today. trocassem coscuvilhices sobre a vida de seus patrões e patroas. de maneira alguma poderíamos considerar que os trabalhadores domésticos estavam submetidos a um olhar escrutinador onisciente ou que vivessem isolados nas casas e quintais: em Lourenço Marques. African Workers. 252:3. verduras e legumes que integravam as refeições dos patrões eram de responsabilidade dos empregados domésticos e. O mesmo não ocorria. a prisão de outrem. O trabalho voluntário trabalhadores voluntários. nem todas as casas contavam com rede de água corrente.

Se as mulheres africanas tinham necessidade de dinheiro. Hansen acrescenta ainda que um dos motivos que afastavam as mulheres africanas do trabalho doméstico pago era que este conflitava com as demandas colocadas para as mulheres africanas no atendimento ao seu próprio trabalho doméstico. 137 e 139. a divisão sexual do trabalho doméstico. 534 HANSEN. atividades que podiam ser conciliadas com as tarefas de educar os filhos e cuidar da casa. cit. O trabalho voluntário Brado Africano. Op. O motivo pelo qual as mulheres africanas não se ofereciam para tais serviços está relacionado. Distant Companions. African Workers. produzindo e vendendo cerveja ou verduras. c) os homens africanos eram relutantes em permitir que as mulheres trabalhassem fora de casa e. parece-me que tanto ela como Schmidt atribuem maior importância à dimensão européia da questão ao dar à mulher branca e aos colonos em geral a centralidade na definição desta divisão sexual do trabalho doméstico. na Rodésia do Norte.4. recebeu pouca atenção no debate sobre o assunto que envolveu os colonos rodesianos. Karen Tranberg. Op. p. lém de mais lucrativas que o serviço doméstico assalariado533.. homens. p. Jeanne Marie. cit. Hansen conclui que. a dinâmica e o ritmo do dia-a-dia. afirma a autora. tal como se configurou. 58. Karen Tranberg. Elizabeth. pp... a destacar: a) os oficiais administrativos. Op. Op. p. críticas e idéias. certamente eram assuntos correntes nestes contatos cotidianos que funcionavam como uma eficiente rede de informação oral disseminando valores. 143 e PENVENNE. cit. Ainda que não pudessem ou quisessem escapar às suas tarefas.. elas usualmente escolhiam trabalhar de forma independente. segundo Schmidt.. cit. viam as mulheres africanas em termos de sua função sexual.. tornando a vida menos monótona e longe do que pudesse parecer um claustro. foi resultante de uma série de fatores.. em meu entender.. Esta perspectiva africana da questão. 185 .. Distant Companions. 223 e HANSEN. também parecem não chegar no âmago da questão. Se estes argumentos não alijam a perspectiva africana. particularmente com a prática do lobolo que procurava garantir a integridade da 533 SCHMIDT. mantinham algum controle sobre o tempo. d) as próprias mulheres africanas não estavam muito interessadas no trabalho doméstico pago534.. com o papel de produtoras agrícolas e reprodutoras biológicas que lhes reservava a sociedade africana de onde provinham. Apesar destes argumentos. b) as mulheres brancas preferiam não tê-las em suas casas.

Pe. Dona. Op. majoritariamente estabelecida entre as patroas brancas e os empregados negros. raramente se dirigiam aos seus empregadores chamando-os por seus nomes e sim por termos como Senhor. José Fialho. Colher. 537 A mesma prática se dava na antiga Rodésia do Norte. porém. apesar de todo este esmero. ele é muito mais decorrente de um mecanismo de defesa interno à sociedade africana do que uma estratégia de administração da vida sexual de seus esposos. Elizabeth. Daniel da. Wirelees. Distant Companions. 223:4 e 228:30. por seu turno. Missus. etc. lavam e engomam roupa com grande perfeição. na prática. depois de um breve tirocínio. Op.. Karen Tranberg. cit. Op.. Pedro.. 186 . Os homens africanos. por parte das mulheres brancas. cit. Madam. Usos e Costumes dos Bantos. classe e sexo estivessem melhor delineados do que em qualquer outro espaço da vida colonial. João. O trabalho voluntário futura esposa como reprodutora da linhagem masculina535. servem à meza com muito acerto” 536. se 535 Ver entre outros FELICIANO. p. conforme relata o Pe. Master. uma forma de convivência baseada no distanciamento e na rígida hierarquia era construída. p. As mulheres brancas que. patriarcal e machista. a um meio hostil e à sanha libidinosa dos “senhores” brancos. 221. 536 CRUZ. pp. conforme aponta HANSEN.. Dão bons padeiros. eram pejorativamente chamados de muleques ou rapazes e raramente por seus nomes próprios. Cigarette ou Cabbage e os patrões Bwana. 66. portanto.4. preocupados em preservar a sua linhagem. Chefe. e JUNOD. das lides domésticas e principalmente assegurar a reprodução e a educação dos filhos. Como essa relação entre patrões e empregados era. se o cuidado com a preservação sexual tem algum papel nesta divisão sexual do trabalho doméstico. Alguns patrões atribuíam nomes bíblicos como António. optimos cosinheiros.. Pumpkin. Henri. e independentemente de muitos serem pais de família e terem largos anos de experiência. Op. Daniel da Cruz: “Os pretos em geral teem notável habilidade para os arranjos domésticos. na sociedade colonial. Patroa537. Talvez fosse no interior das casas dos colonos que fatores como raça. Patrão. onde os empregados podiam chamar-se Sixpence. Recrutados entre jovens de dez a vinte anos. hoje Zâmbia. cit. Dona. Op.. cit. À mulher cabia cuidar da machamba familiar. os empregados. mesmo ainda meninas. que lhes eram mais familiares e fáceis de pronunciar ou então atribuíam nomes de objetos e produtos como Sabonete. muitos destes empregados domésticos tornavam-se verdadeiros profissionais. tomavam assim os cuidados necessários para não exporem suas mulheres. trazem uma casa limpa e bem arrumada. nomes portugueses como Manoel e Joaquim. cit. e SCHMIDT. Bicycle..

] o serviçal é a nossa segunda individualidade. é que fazia com que as mulheres brancas fossem tidas como muito mais rigorosas do que os homens em relação aos subordinados diretos538. procuravam inverter este exercício de poder sobre outros homens: seus empregados negros.. a máquina que executa dentro da nossa casa todos os serviços materiais para a comodidade e o conforto da nossa existência particular. na vida africana. no universo doméstico. publicado. Ver por exemplo: Jornal do Commércio.Autos e Processos crime (trabalho) 1908-1940. mas não só. Não seriam os serviçais que dependeriam dos patrões.. Fora isto. por excelência. Proc. Será que era isto o que acontecia numa situação colonial? As fontes não são abundantes.. se dava em dois níveis: primeiro.. [. Secção B. 187 . Secção F . no O Africano. Pasta anos 1930/34. Talvez a necessidade de demonstrar alguma autoridade pessoal. cx. É o criado. cit. que no interior das casas se estabelecem. particularmente os docs. quando o critério de gênero perdia importância e era substituído pelo de raça/classe. 540 O Africano. 35/37 . para terem o bem estar e o conforto. O trabalho voluntário encontravam numa posição de subordinação em relação aos homens brancos. alguns artigos e cartas enviadas aos jornais como o de autoria de um colono branco. 70.Justiça. as informações que encontramos permeavam.”540 O que se pode depreender desta afirmação? É a confissão de uma aparente inversão nas relações de dependência. O exercício do poder. 1590. era na condição 538 539 HANSEN. A documentação um pouco mais abundante refere-se já aos momentos de conflito539.Empregadores Empregados. mas estes que deles dependeriam. se os valores e até mesmo a vida dos patrões eram confiados aos empregados. Op. em 1915. 24/03/1915. Assim dizia: “O Serviçal é entre a civilização. contudo. nem muito diretas quanto ao tema. O trabalho doméstico cria uma situação de proximidade física entre patrões e empregados e as relações cotidianas. reclamações de Maio de 1909 a Dezembro de 1912 e ainda AHM-DSNI. de maneira difusa e esparsa. Assunto: Queixas de indígenas contra europeus. AHM-ACM. p. grave. num segundo momento. 20. sem por em causa a autoridade de seus maridos ou pais. caixas de 223 a 259 . Curadoria e Negócios Indígenas.. exigem a cooperação e o entendimento entre as partes. Karen Tranberg.4. entre membros da mesma raça onde o critério de subordinação era a pretensa inferioridade do sexo feminino e. 01/01/1905. portanto. Distant Companions. a quem confiamos em absoluto todos os nossos valores e até a própria vida.

67.59. uma extensão de sua vontade. p. SCHWEITZER. Distant Companions. isto não significava qualquer tipo de intimidade. principalmente naquelas décadas iniciais do século. O trabalho voluntário de que estes últimos neutralizassem a sua própria individualidade para se converter numa espécie de duplo dos patrões. embora circulassem pela casa. quer num tom amistoso.. Se esta expectativa fosse atingida. geralmente no fundo dos quintais. Op. cit. esta convivência diária conflitava com o abismo existente entre dominadores e dominados. não podiam sentar-se nas cadeiras. Opinião semelhante é expressa pelo médico e futuro prêmio Nobel. cit. no entanto.4. cit. Jeanne Marie.. alguns patrões manifestavam. assim. valores e sentimentos próprios..”543. HANSEN. sofás. Albert. Não é improvável que roubavam para comer. no espaço doméstico. Karen Tranberg. O que o Padre não discute é o que os levava a tal ato. tinham quartos destacados do resto da casa. uma atitude paternalista541. Mas tal confiança não se traduzia numa relação amigável e próxima. limpos. p. lavassem as marcas das intimidades dos patrões. Os patrões esperavam que os empregados fossem eficientes. devendo mostrar-se esvaziados de conteúdos. pontuais e. embebedam-se sempre que podem e não teem o menor escrúpulo de roubar quantas coisas encontram. principalmente. fizessem a comida. segundo Hansen. os empregados. à mesa ou usar o banheiro que estes usavam. Pe. Op. baseado em premissas raciais e econômicas que a sociedade colonial criara. principalmente de comer e beber... fiéis cumpridores das ordens. O ponto é poder fazê-lo impunemente. que embora fossem por eles cuidados dele não podiam usufruir.. fornecendo-lhes cartas de referência ou indicando-os a novos patrões ou a empregos melhor pagos quando se retirassem para a metrópole. arrumassem as camas.. 221. bem como respeitosos. Em terras de Gaza. p. Op. 543 CRUZ. como se com crianças tratassem. Op. O tom grave demarcava os limites. African Workers. quando moravam no emprego. Os patrões exigiam e faziam cumprir rigorosamente as ordens expressas. Esta aliás parecia ser uma opinião generalizada. já naquela época e tal como ainda ocorre nos dias de hoje. 188 . como numa relação de pai e filho. Daniel da Cruz assim trata do assunto: “se não andarem bem vigiados. eram vedados aos empregados e muitas vezes trancados: a dispensa e o armário de bebidas542. De qualquer modo. 61. O Pe. p. era preciso desenvolver novos protocolos e regras de comportamento para que não se confundissem locus físico com locus social: desse modo. Daniel da. para com os seus criados. fosse porque os 541 542 PENVENNE. Dois lugares nos lares norte-rodesianos.. quer aos gritos. cit.

. natural de Gaza. 1955-1957 e PENVENNE. African Workers.suivie d’un manual de conversation et d’un vocabulaire rongaportugais-français-anglais. Quando os patrões não aplicavam eles próprios as punições. deu queixa à Administração do sumiço de uma pasta contendo pouco dinheiro e muitos documentos. Henri A.. As suspeitas logo caíram sobre o criado negro. pois ele gritava e rebolava no chão.. regressado aos calabouços. mas afirmava que não havia mexido em nada. Perpétuo da Cruz. Entretanto seus argumentos não convenceram as autoridades e: “Como era hábito naqueles tempos. um inglês hospedado no Hotel Internacional. As diferentes dietas alimentares ajudavam a compor a fronteira social e cultural.4. [. e mesmo do cavalo marinho. aos olhos europeus... eram tomadas como expressão do caráter de toda uma população de pele negra e raramente ocorriam de maneira impune. rapaz de uns 20 anos. mas este continuou a negar tudo. O trabalho voluntário salários eram miseráveis. O rapaz confessou que havia limpado o quarto. Op. pour exposer et illustrer les lois du ronga. apelavam para as autoridades administrativas que se incumbiam de dar o corretivo: o uso da palmatória. como a suspensão da alimentação. falecera durante a noite. o cipaio carcereiro veio dizer que o preso.] Na manhã seguinte. Georges Bridel. por dois sipaios. Este castigo foi muito duro. a qual. o suspeito foi levado aos calabouços onde ficou detido para no dia seguinte se proceder novamente ao interrogatório. tendo-se sentido mal durante a noite.. ou porque a comida que os patrões lhes destinavam era insuficiente. o administrador que era o sr. ocorrências individuais.] Procedeu-se à autópsia no dia seguinte e o médico informou que o rapaz falecera de pneumo- 544 JUNOD. 1896 e ainda. Então mandou dar-lhe chicotadas de cavalo-marinho. que procedia à limpeza dos quartos. foi levado ao hospital e ali fora medicado. pp. em 1938. mandou dar palmatoadas ao rapaz. livro de Registros da Aplicação de Castigos Corporais. mas que. era moeda corrente e perdurou até os anos finais do domínio colonial. não devia ser transposta sob pena de macular a distância social e a hierarquia entre patrões brancos e empregados negros. ou ainda porque quisessem provar da comida do patrão. cortes de vencimentos ou castigos físicos. mas nada confessou. cit. na Moamba. langage parlée pour les indigènes du district de Lourenço Marques. [. Raúl Bernardo Honwana narra que. sendo que a punição por faltas reais ou presumidas podia levar à morte544. uma vez que na maioria das casas aos criados era preparada uma comida distinta e de qualidade inferior. Jeanne Marie. De qualquer modo tais roubos. 189 . Lausanne. por exemplo: AHM-ACLM. Grammaire ronga . 146:7.. Ao fim da tarde.

e como ambos deixaram misteriosamente o hotel. Carlos Santos. José Craveirinha. O Censo não incluiu os elementos da guarnição militar. característica da penetração do capital na região. a cidade de Lourenço Marques ainda era um pequeno vilarejo porém já apresentava uma nítida divisão do trabalho. Vejamos o quadro apresentado nos estudos anexos ao Censo de 1894546: 545 546 HONWANA.. p. Elaborado. pp. circulou entre os hóspedes a hipótese. a partir dos quadros 30 e 33 apresentados por REIS. isto às vésperas da Segunda Guerra. para as autoridades coloniais tratava-se apenas de mais um negro morto e com ele foi enterrado o assunto. 4. 40 e 42.3 AS RAÇAS DOS EMPREGOS Já caiu alguém dos andaimes? O pausado ronronar dos motores a óleos pesados e a tranqüila resposta do senhor empreiteiro: ___ Ninguém. com alterações. Contudo. buscando indicar suas variantes raciais. para além do mercado de trabalho doméstico. O trabalho voluntário nia dupla e assim foi mandado enterrar sem mais complicações.”545 Como além do inglês queixoso lá estivesse hospedado também um alemão. 190 . de que ambos fossem espiões e que o alemão teria roubado o inglês.. cit. bastante razoável. cit. como se configurava as demais áreas do mercado de trabalho urbano? A seguir vamos analisar a estrutura da distribuição profissional a partir do final do século XIX. Op. Só dois pretos. ___ Na virada para o século XX.4. Op. Raúl Bernardo. para tentar compreender os mecanismos e as forças atuantes. Mas. 90.

8 320 35.9 28 21.1 01 0.0 160 50.1 539 59.7 71 7. Se entretanto mergulharmos nos dados não tabulados apresentados pelo Censo. O trabalho voluntário Distribuição profissional consoante grupos raciais .6 Brancos N % 16 88.1 22 31.6 Negros N % 03 3.1 44 61. desempenhado pela cidade.2 05 6.2 241 26. ao agrupar as profissões por ramo de atividades.0 11 3. Quanto à distribuição entre os vários segmentos raciais. A tabela revela algumas coisas. evidencia-se que o segmento branco constitui a maioria da força de trabalho ativa recenseada e exerce um franco controle das atividades profissionais.0 08 6.4 05 7.6 O que salta de imediato à vista é que a esmagadora maioria da população ativa estava vinculada a atividades comerciais e de serviços o que. ligeiramente. Junta.3 72 93.4 01 1.4.1894 Grupos Raciais e Profissionais Agricultura e pesca Operários e artesãos Construção e ob.3 77 8.Lourenço Marques . respectivamente dominadas a primeira.9 142 44.9 87 9.4 07 2.5 05 4.7 37 4.5 85 72.0 23 27. que os africanos desempenhavam as seguintes tarefas: 547 Ver para os asiáticos a nota acima e capítulo 06.9 91 71.5 117 12. veremos. os gerentes e cargos de direção a operários e trabalhadores do setor. 191 .4 128 14.1 904 100 Amarelos N % 02 11. quer com o interior. exceto na atividade comercial e nos serviços domésticos. expressava a característica de entreposto portuário. quer com o Transvaal.6 22 25. públicas Comércio e bancos Transportes e comunicações Serviços e administrações Serviços domésticos Situações não profissionais Total Total N % 18 1.2 39 45.0 27 23. numa mesma categoria. no quadro apresentado na próxima página.9 85 9. sem dúvida.1 Indianos N % 18 20. pelos comerciantes asiáticos e a segunda pelos trabalhadores africanos547.9 88 9. mas esconde outras.9 67 76.

sabi- 548 REIS. agente da Sociedade Industrial de Inhambane e membro do Conselho do Governo548. Correa. p. de uma serração de madeiras. era empregado do comércio e os dois oficiais de diligências. Yussufo Jamá. 65 e 68 192 . educado. Os negociantes eram Pedro Bacasa. Op. concessionário de terras e serviços públicos ___ fornecimento de comida para militares e trabalhadores a serviço do Estado ___ vereador em 1892 e juiz substituto no biênio 1894/95.1894 Profissões Ajudante de despachante Aprendiz de cozinheiro Caixeiros Cozinheiros Creados Domésticas Empregado do comércio Faroleiros Fogueiros Gerente de banco Governanta Negociantes Oficiais de diligências Padeiro Serventes Serviçais Sinaleiro Total Sexos Masc. pois. Diniz Paes e Olímpio L. grande proprietário de terras e herói militar português em Inhambane. por fim. em finais do século. Paulo Fornasini. que sabia ler e escrever e era católico. H. estão pessoas que representam segmentos sócio-raciais distintos. 01 -01 -02 -06 01 19 05 08 21 01 -02 -02 -01 --01 04 -02 -01 -02 -05 01 01 -58 29 Mais uma vez aqui é preciso cautela. maometano. filho de João Fornasini. Ussaene. cit. sob o rótulo de africanos. comerciante. Swart. um transvaaliano branco. Vejamos os casos que mais saltam à vista: o gerente de banco era D. dono de mercearia de secos e molhados. nascido em 1854. analfabeto e que professava. Carlos Santos. era católico e.4. Fem. Paulino. religião gentílica e. O trabalho voluntário Profissões desempenhadas por africanos Lourenço Marques . pai de Joaquim Swart que se destacará nas fileiras do Grémio Africano de Lourenço Marques. João José Manuel. era um dos maiores proprietários em Lourenço Marques: dono da única fábrica de gelo. mulatos. segundo o Censo. que sabia ler e escrever. da moagem. proprietário das jazidas de cal da Catembe. que sabia ler e escrever.

serviçais. sacerdotes e missionários maometanos. pescadores. Elaborei o quadro com base nas tabelas de distribuição de profissões. encadernadores. apontada como sendo de 26. nove vezes e meia e a população total cerca de vinte e cinco vezes.. relojoeiros. fundidores. lavadeiras. oleiros. Em 1912 a cidade já tinha delineada a sua nova feição urbana. Op. guardas-fiscais. agrônomos. eram todos mulatos e que. então oficial. 193 . funileiros. marítimos. professores. Proprietários e comerciantes: proprietários. ferreiros. pintores. guarda-noite. escriturários. muito possivelmente. calceteiros. sacerdotes e missionários católicos. ferradores. Trabalhadores especializados: bombeiros. Os números de alguns itens não coincidem com os apresentados no Relatório. chauffeurs. Militares e policiais: militares oficiais. mantendo a terminologia com que as raças ou cores são apresentadas no Censo. a nova conjuntura apresentava o seguinte quadro resumido549: 549 Elaborado a partir de AZEVEDO. sua população branca tinha crescido. que soma 25. uma discrepância entre o número da população total. tipógrafos. era caixeiro. sacristão. telefonistas. jardineiros. Ver nota 515. arquitetos. montadores. corrigi esta informação no quadro. militares médicos. eletricistas. enfermeiros. carroceiros. carvoeiros. condutores de rickshaws. empregregados do comércio. desde 1894. estivadores.834. capatazes. parteiras. banqueiros. por exemplo. empregados municipais. sapateiros. tomada em seu conjunto. também padece de tais limitações e mazelas. comerciais: agentes de negócios. leiloeiros. empregrados públicos de justiça. entretanto. No que tange à distribuição sócio-racial dos empregos. referido ao dia 1 de Dezembro de 1912. João era ajudante de despachante e seu irmão mais velho. da mesma forma que o eram os irmãos João e José Albasini. comerciantes. sacerdotes e missionários protestantes. maquinistas. padeiros. este por mim elaborado. Isto nos aponta que os poucos africanos. telegrafistas. médicos civis. Certamente houve um equívoco do Censo ao informar que as duas parteiras eram homens. cocheiros. eram adeptos da religião católica. construtores. seleiros. mergulhadores. serradores. domésticas. empreiteiros. condutores de tramways. carpinteiros. remadores. antes ausentes ou pouco representadas. e as variantes de caráter racial apontadas pelo Censo. militares reformados. José. O trabalho voluntário am ler e eram católicos. empregados públicos do Caminho de Ferro. haviam surgido ou se expandido. pareceu-me a única forma de poder visualizar a composição sócio-profissional da cidade. Atividades de caráter doméstico: cozinheiros. com uma diferença de 245 pessoas. farmacêuticos. magistrado. faroleiros. veterinários. operários. Empregados admin. militares veterinários. cit. portanto. já que este apresenta erros nas somas. guarda-livros. Todo quadro que pretenda resumir informações é resultante de escolhas e opções feitas pelo autor e. o mercado de trabalho urbano também se ampliara e diversificara e profissões. modistas. Trabalhadores braçais: carregadores. solicitadores. conservadores. Profissionais liberais ou de cargos de supervisão: advogados. dentistas. praticantes de enfermeiro. caldeireiros. e isto. fogueiros. coveiros. despachantes. posteriormente líderes do Grémio Africano de Lourenço Marques e de sua imprensa. oficiais de marinha mercante. empregados da alfândega. empregados de hotel.079 habitantes e sua distribuição segundo raça e profissões. construtores. barbeiros. Há ainda. guarda-freios de tramways. além de manejarem a língua portuguesa. pilotos. engenheiros. serralheiros. mineiros. taberneiros ou cantineiros. contínuos. jornalistas. que não se ocupavam em atividades braçais e que tinham acesso a funções administrativas. pedreiros. Relatório sobre os trabalhos do recenseamento da população de Lourenço Marques e Subúrbios. desenhadores. As profissões foram assim reunidas: Artesãos: alfaiates. tanoeiros. fotógrafos. torneiros. correeiros.4. cônsules. mecânicos. olheiros. industriais. cortadores. Empregados públicos: empregados dos governos. trabalhadores. porque não incluiu as crianças que não estudavam em nenhuma rubrica mas manteve-as na soma total. guarda-fios. juízes. ourives. impressores. barqueiros. agrimensores. Guilherme de. costureiras.

2 16 76. diminuindo a oferta de empregos para voluntários e comprimindo os salários que atingiram profunda depressão no final da década.6 Trab.2 5 23.1912 Raças Total Amarela Parda Preta Branca Profissões N % (1) N % N % N % N % Agricultores 21 0. 194 .1(2) 18 0. geralmente submetidos ao regime do chibalo.7 2 0.8 28 3.4 149 81.9 72 31.1 104 10.2 100 0.0 374 1.4 619 72.1 226 26.4 2622 10.7 415 9.0 389 42. 925 10.1 1 0.6 17 9.9 426 44. passou para as mãos do Estado.8 2450 57.1 22 9.6 Ativ.0 10 1.2 2314 27.7 199 40. & comerciantes 950 11. 2836 33. O trabalho voluntário Profissões segundo raças . podiam significar ganhos extras no fim do dia.8 1896 22.9 380 24.9(2) 238 3. a concorrência entre as empresas privadas pela escassa força de trabalho permitia praças de pret.4. liberais & superv. sem especialização ou profissão definida.3 4079 19. por um lado. de melhoria do porto e principalmente a atividade de carga e descarga no complexo ferro-portuário que absorviam tal força de trabalho. eram ainda os trabalhadores braçais.8 Total com atividade (b) 21366 82. os percentuais indicados (2) ao total com atividade (b) e os com (3) ao total da população recenseada (c).0 35 3.0 Militares e policiais 855 10.7 Empr. que até então estivera entregue exclusivamente a empresas concessionárias.6 Total recenseado (c) 25834 100. ou sem profissão 4237 16. admin.4 221 45.2 901 31.1 55 7.9 12495 97.0 5554 21.9 1340 31. especializados 1551 18.9(3) 2 0. Se.73 Trabalhadores braçais 12852 60.7(3) 340 1.4(3) 32 0.4 Prof.8 Propr.8 Artesãos 489 5.5 730 47.1 Estudantes 231 0.1 239 1. serviço público 705 8. em sua esmagadora maioria composta por negros. anteriormente.2 67 13. que aumentou o número de trabalhadores compelidos.1 17281 67. os da coluna com (1) referem-se ao total com profissão (a).6 12 6.2 133 8. de caráter domést. & comerc. 182 2. restringindo a possibilidade de se obterem horas-extras ou tarefas duplas que.4 388 13.8 508 72. contrariamente ao que os trabalhadores esperavam.3 38 1. Estes números nos indicam que.6 1509 53.7 395 41.8 25 2.1 3979 46. que predominavam no universo do trabalho urbano representando 60% de toda a força de trabalho com atividade identificada sendo que eram as obras de urbanização.5 Os percentuais de cada coluna de raça/cor referem-se ao total de cada profissão.0 14809 69. parte das atividades de carga e descarga do porto. policiais. Em 1910. Houve uma reorganização na distribuição dos serviços.8 473 51. conforme tabela apresnetada à página 204.6 2135 10.5 Indet.6 308 19. embora a cidade tenha crescido e ganhado ares de modernidade.5 135 58. A intervenção do Estado.1 Empr. chefes de polícia. piorou-lhes as condições de trabalho.Lourenço Marques .0 Total com profissão (a) 8514 39.3 142 20.

médicos. em geral de nível superior. no Porto e no Caminho de Ferro de Lourenço Marques.4. juízes. dentistas. oficiais da marinha mercante. quer salariais. em 1912. excetuando uns poucos pardos. certamente goeses. sacerdotes. Os negros incluídos nesta categoria de supervisão eram os capatazes inferiores que fiscalizavam os trabalhadores indígenas e. 195 . engenheiros. 21. no dizer do jornal. cônsules. a situação modificou-se bastante: crescia a necessidade de uma maior articulação para se obter quaisquer melhorias. Os colonos ocupavam a esmagadora maioria dos empregos liberais ou de direção. farmacêuticos. Embora O Africano lamentasse que quase todos tinham horror às profissões manuais. os brancos constituíam a maioria dos trabalhadores especializados e eram. por outro. Ocupavam ainda a maioria dos cargos administrativos e comerciais privados e dos empregos públicos o que. Eram também brancos a maioria dos militares e policiais e. gerência e supervisão. Embora a população branca representasse. era resultante de estarem “enraizados no espírito nacional o vício do emprego público ou peior. e que por sua vez permitiam maiores rendas e salários e situavam seus membros no topo da hierarquia social da colônia.8% do total. os brancos representavam somente 0. já com o Estado. os seus descontentamentos permaneciam fragmentados pela multiplicidade de empregadores. agrimensores. majoritariamente empregados pelo Estado. leiloeiros. excetuadas as exclusivamente braçais. em sua maioria. voltadas para os brancos. capatazes. sua participação percentual baixa para 19% pois. agrônomos. ela ocupava cerca de 46% de todos as profissões. veterinários. Indico estas profissões no gênero masculino já que não havia uma só mulher que exercesse qualquer uma delas. nestas profissões. jornalistas. 10/05/1912. todas atividades que exigiam maior qualificação. arquitetos. quer das condições de trabalho. representados por profissões como a de advogados. o hábito das grandezas ambicionando vida folgada sem tentar o mínimo de esforço que canse o braço ou o cerébro.3% da população total da cidade. viviam nos subúrbios. ocupavam todos os postos intermediários e superiores da carreira e mesmo a maioria dos postos de praças. professores. O trabalho voluntário aos trabalhadores voluntários conseguir algumas melhorias em suas reivindicações salariais. Se incluirmos estas. banqueiros.”550 550 O Africano. Era deste grupo que saíam os membros do conselho de governo e das associações recreativas e culturais mais importantes.

certamente. que constituíam a maioria da população urbana recenseada e também da população identificada como tendo alguma atividade. além disso. tinham ligeira maioria em relação aos brancos551. Menos de 8% dos que exerciam atividades no aparelho administrativo público e menos de 3% dos proprietários e comerciantes eram negros. Excetuando-se os cinco enfermeiros e os 551 Ver nota Erro! Indicador não definido. A ausência de agricultores africanos arrolados deve-se. 136 (94. tinham pequena ou nenhuma participação em algumas atividades: nenhum negro foi identificado como agricultor e menos de 4% de todos aqueles os empregados por particulares. nove eram pardos e particularmente indo-britânicos que exerciam com maestria e destreza a delicada arte da milenar ourivesaria indiana. ou ainda aqueles que tinham terras e capital suficientes para manterem capatazes brancos como administradores do cotidiano de suas machambas. ao fato de que o Censo considerou como agricultores somente os que tinham a propriedade individual e jurídica da terra. ao passo que os brancos tinham grandes concessões de terras que. dos 144 alfaiates com que a cidade (sem os subúrbios) contava. raramente. Somente nos subúrbios os pardos deixavam de ser a maioria: dos doze alfaiates que ali exerciam seu mister. particularmente os baneanes indo-britânicos. onze eram negros e um pardo. O trabalho voluntário O quadro aponta um número maior de agricultores amarelos que brancos. o número é baixo. geralmente empregando força de trabalho familiar ou. indo-portugueses e indo-britânicos. não raro. dos dez ourives. 196 . porém aqui o número em si não é relevante: os chineses eram horticultores que cultivavam pequenas machambas nos arredores da cidade.4%) eram deste segmento e.. os pardos. Também na atividade comercial. de maneira a permitir-lhes deslocamentos constantes. eram negros. usual era os agricultores brancos residirem na área de sua propriedade no interior ___ justamente aqueles que não tinham na agricultura sua única atividade ou cujas terras ficavam suficientemente próximas de Lourenço Marques. um ou outro empregado negro.4. os quais pareciam ter a exclusividade sobre algumas atividades como as de alfaiate e de ourives. ultrapassavam a centena e mesmo o milhar de hectares e onde empregavam centenas de trabalhadores chibalo. em relação aos artesãos classificados como pardos. Os artesãos brancos estavam em minoria. pois só indica os poucos agricultores brancos que residiam na cidade ___ o . O quadro nos indica ainda que os negros. em cargos administrativos e comerciais.

Os pardos distribuíam-se de forma semelhante. alargava.1%) e comerciantes (30.6%) pois todos. ganhavam mais que nas áreas rurais. entre os chineses. um dos atrativos das cidades eram os salários. Mesmo os trabalhadores chibalo. principalmente. empregados do serviço público ou em atividades comerciais e administrativas particulares. Se este quadro geral nos permite ver como cada segmento racial se inseria no conjunto da força de trabalho urbana laurentina. os que trabalhavam em tarefas urbanas recebiam entre $140 e $160 réis. em 1908. militares e policiais (15. só restavam aos moçambicanos as atividades consideradas menos nobres na hierarquia sócio-profissional: as tarefas domésticas. temos 84. todos representariam somente 1. uma outra maneira de ver estes números é considerar a distribuição dos membros de cada segmento racial pelas diversas atividades.1% de toda a força de trabalho negra empregada na cidade. Os voluntários que conseguiam empregar-se nas diversas firmas de carga e descarga ou de importação/ exportação que operavam 552 O Africano.4% dos negros em atividades braçais tais como carregadores e serviçais. as atividades braçais. o que nos permitiria ver como se dava a distribuição sócio-profissional e. em serviços urbanos.5%). 10/05/1912. cuja atividade se destinava a atender outros indígenas. recebiam. empregados públicos (12. aos que eram comerciantes ou proprietários. Entre os negros é que notamos o maior desequilíbrio: se juntarmos os membros que exerciam atividades de supervisão. cerca de $100 réis diários.1%). Como afirmei.4%) ou exerciam profissões superiores ou de gerência (0. as de policiais e. No outro extremo. exceto que a maioria de seus membros dedicava-se ao comércio (20%) e que poucos eram militares (0.5%) e somente o cônsul exercia uma função superior. indiretamente. embelezava a cidade e se movimentavam os negócios da Colônia. Se fizermos isto.4%) e empregados administrativos e comerciais (11. pouquíssimos eram artesãos (0. veremos que entre os brancos a maioria era formada por trabalhadores especializados (17. constituindo-se eles no exército de força bruta com que se construía. segundo O Africano procuravam “a vida fácil das secretarias”552. as diferenças sociais internas a cada um dos segmentos.9%).4. e ainda os artesãos. O trabalho voluntário doze praticantes desta profissão. 197 . a maioria era formada por trabalhadores especializados (39. Eram banidos do serviço público e das funções militares e policiais.5%). Em tarefas agrícolas.

73. mas tão suavemente que nem se sentem. herdeiros da cultura marítima swahíli. Op. pp. p. para trabalhos industriais.4. entretanto.. 125$00. dos quais muitos eram chibalo e outros assalariados 555. mas. tinha que suportar também os custos de habitação. correndo em todas as direcções. desempenhavam as tarefas de pescadores e as mais pesadas e insalubres como a de remadores e chegadores __ os que carregavam as fornalhas nos barcos a vapor __ e o Pe. no distrito de Lourenço Marques. Op. consoante sua especialização553. p. O que puxa os varaes. 555 CRUZ. que arcar com os crescentes custos de sua alimentação e.. leva uma campainha que toca a todo o instante para avisar os transeuntes. vendo-se algumas vezes numa só rua mais de uma dúzia. 100$00 mensais e. cerca de Esc. no mínimo. Além da carga e descarga do setor ferro-portuário e dos serviços domésticos. o trabalhador urbano tinha. um observador contemporâneo: “Os pretos que os puxam caminham sempre a trote. cit. Op. History of African Labor. excepto nas ladeiras muitos íngremes. diminuiu a diferença entre ambos. eram timoneiros e patrões de pequenas embarcações de cabotagem. ou seja. O que não faltava em todas as cidades coloniais eram os puxadores de rickshaws. Pe. Ou seja. como se sabe. na mesma época. que logo se retiram para os lados. Em 1931. se não morasse em casas/palhotas próprias. quando o chibalo já havia sido formalmente abolido. diga-se logo. cit. os riquixás. 81. O preço destas carreiras 553 554 PENVENNE. Assim descrevia tal atividade o mesmo Pe. embora o Censo de 1912 não aponte nenhuma destas ocorrências. mas como decorrência de um achatamento geral de salários554. como ainda hoje se pode observar nas ruas de algumas cidades indianas.. entre $320 e 1$000 réis por jornada diária. cit. Daniel da Cruz afirma que alguns. Apesar de receber um salário maior. não em função de uma elevação dos salários rurais. passadas mais de duas décadas. recebiam. outras atividades empregavam grande número de homens africanos: nas atividades marítimas.. são pequenas carroças de duas rodas e dois varais que levam até três passageiros puxados à força humana. os salários para trabalhadores voluntários em trabalhos agrícolas giravam em torno de Esc. O trabalho voluntário junto ao complexo ferro-portuário laurentino. De origem oriental. J. o dobro dos trabalhadores chibalo. Anuário de Lourenço Marques -1932. Daniel da.. o trabalhador voluntário recebia. nos arredores da cidade. particularmente macuas. Daniel. 221:2 198 .

pp. O trabalho voluntário são uns 200 réis por kilometro. onde os salários eram mais altos. pelas areentas ruas da cidade. da inferioridade do indígena que. 199 . só aponta a existência de 30 puxadores de rickshaws. Os lucros. a diária de um trabalhador chibalo. A terra é para os brancos.. Sua existência e persistência pode ser explicada por uma conjunção entre a disponibilidade de força de trabalho barata e a necessidade da expressão cotidiana da dominação dos colonos sobre os nativos sendo sinal inequívoco. o que chamava a atenção e provocava protestos era o domínio da minoria branca. Cf. entretanto. é claro. Relatório sobre os trabalhos do recenseamento da população de Lourenço Marques e Subúrbios. era de 100 réis. se estropiavam carregando-os nas costas.”556 O lucro devia ser realmente significativo já que.. como se disse. O Censo de 1912. a galope. 222:3. pouco mais ou menos. havia centenas de puxadores de rickshaws e que. bem como a clara exclusão da maioria negra e de uma minoria parda de origem africana das atividades não-braçais.4. dá bem o tom deste descontentamento: “Já não é pelo mérito que se aquilata o valor das pessoas: é pela cor. como bestas de carga. [. Apesar do desequilíbrio na distribuição das atividades profissionais e das diferenciações sociais entre membros do mesmo segmento racial. apesar da introdução dos bondes elétricos. como na definição da divisão do trabalho em terras coloniais. O mesmo informante nos diz que nesta mesma cidade.] o colonial então terá estes dois caminhos a seguir: ou pendurar-se com uma corda no pescoço e morrer [. cit.] ou en556 557 Idem. quando o padre escreveu. que às vezes formam companhias. AZEVEDO. cit. no terceiro número de O Africano. Quem não é branco não pode viver. Não importa ser-se honesto. É de cor: morra à mingua de pão. e os pretos que em tal mister se occupam chegam a arruinar a saúde. mantinham-se como importante meio de locomoção dos colonos europeus557. trabalhador e cumpridor dos seus deveres: o que se precisa hoje é que seja branco o pretendente do logar.. Op.. em Lourenço Marques. na primeira década do século. referido ao dia 1 de Dezembro de 1912. não tem onde empregar sua actividade. Guilherme de. Certamente os resquícios de uma mentalidade escravocrata evidenciam-se não só na manutenção deste meio de transporte. aos olhos destes mesmos colonos. Op. em 1908. são para os donos dos carros.. onde angariar os cobres para um caldo. O primeiro artigo assinado por João Albasini e publicado em 1909.

Rio de Janeiro. o critério racial estabelecia parâmetros para os vencimentos. desempenhavam funções semelhantes. era língua materna do colono a oficial e a que vigorava nas repartições e. cuja base não se assentava na competência ou qualidade do trabalho. Além destas vantagens. pois nele não se operavam os mecanismos concorrenciais tipicamente capitalistas entre a força de trabalho e o mercado empregador disponível. nos lembra Albert Memmi. Mesmo entre os trabalhadores especializados e semi-especializa-dos. mesmo seu traje. que inviabilizou uma maior aproximação entre os diversos 558 559 O Africano. criando uma profunda fragmentação. independente de seus méritos pessoais. enfim. traduzidas em estátuas e relembradas com pomposos desfiles militares. as festas religiosas.” 558 Por mais que entre os colonos houvesse diferenciações sociais e conflitos ideológicos. alimentares e sociais eram os que acabavam por impor-se como padrão a ser imitado pelo colonizado. Assim o mercado de trabalho urbano. MEMMI. que emergia em terras moçambicanas. vagões e plataformas reservadas. os feriados e os descansos semanais obedeciam à sua lógica. por mais que muitos dos colonos recebessem parcos vencimentos e vivessem em condições bastante precárias em relação a outros europeus. Às datas cívicas da metrópole somavam-se às das vitórias militares sobre os indígenas conquistados. o que se traduzia nas pequenas coisas do dia-adia: guichês sem filas. a sua própria condição de colonos acabava por conferir-lhes um estatuto privilegiado em relação à população colonizada. será menos doloroso que a morte por inanição. Paz e 200 . havia uma defasagem salarial. seus valores e comportamentos familiares. o colonizador era integrante de um mundo que julgava superior. cumplicidade ou ao menos condescendência por parte das instâncias administrativas. Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador. a vida da colônia era ritmada pelo calendário dos colonos. Albert. da profissão que exerciam ou da classe a que pertenciam. raramente.4. se distinguia do de outras cidades não coloniais. O trabalho voluntário tão ___ segundo aconselha a razão ___ passear de clavina ao ombro a caçar gente branca e varar a bala todo branco que lhe passar ao alcance da arma! Ao menos será empregar o tempo nalguma coisa. o certo é que. e do qual não podia deixar de colher os privilégios559. da polícia e da justiça. 07/04/1909. empregos reservados e salários mais altos que os indígenas que.

p. 1967. 28. os salários não passavam de um quinto daqueles pagos aos europeus menos especializados. etc. profissões exercidas exclusivamente por europeus: caldeireiros.4. conforme denunciava O Brado Africano em 1919561. cujos salários mínimos estavam situados em torno de 2$500 réis diários. tais como chegadores. puxadores de rickshaws. em se tratando de trabalhos iguais havia. 700:1. O passar dos anos aprofundou este quadro de exclusão de negros e mulatos e consolidou privilégios para brancos de tal modo que. ferreiros. nas profissões destinadas a indígenas. 08/03/1919. idem. mecânicos. O Annuário de Moçambique -1908 dá-nos alguns exemplos dos salários praticados em Lourenço Marques.1908 Profissões Alfaiates europeus Alfaiates asiáticos Calafates europeus Calafates indígenas Carpinteiros europeus Carpinteiros asiáticos e indígenas Carroceiros europeus Carroceiros asiáticos e indígenas Cozinheiros europeus Cozinheiros indígenas Impressores europeus Impressores indígenas Pedreiros europeus Pedreiros asiáticos Pintores europeus Pintores indígenas Serviçais europeus com cama e mesa Serviçais indígenas. 560 201 . pp. Tipógrafos europeus Tipógrafos indígenas diárias em réis 2$500 a 3$000 $800 a 1$500 2$000 a 2$500 $800 a 1$000 2$000 a 3$000 $800 a 1$800 2$000 a 3$000 $500 a $700 1$000 a 1$500 $500 a $700 1$000 a 5$000 $250 a 1$100 2$500 a 2$700 $800 a 1$000 2$000 a 2$500 1$000 a 1$500 $500 a $700 $150 a $300 2$000 a 2$500 $250 a 1$500 Além das disparidades acima indicadas.. fundidores. Lourenço Marques.1908. consoante as raças dos profissionais560: Salários em Lourenço Marques . Dados baseados em SOUZA RIBEIRO. Annuário de Moçambique . muleques de recado. mesmo os humildes postos de contínuos e guardas-limpadores de sanitários públicos passaram a ser negadas aos nativos. ferradores. neste momento. carregadores diversos. O trabalho voluntário segmentos de trabalhadores. 1908. Imprensa Nacional. funileiros. eletricistas. torneiros. serralheiros. Do mesmo modo. Apesar de todas essas disparidades e do achatamento salarial dos trabalhadores Terra. 561 O Brado Africano.

não hesitava em dela lançar mãos. amarrados ___ se refilam são metidos na ordem à pancada ___ E assim amarrados uns. pela manhã. no exercício direto ou latente da força por parte do Estado colonial. entretanto. não nos parece adequado definir o trabalhador voluntário como aquele que se integra no mercado assalariado em virtude de “pressões económicas decorrentes da penetração da economia de mercadorias no campo”. ROCHA. Op.. Aurélio A. eram resultantes de um mesmo processo e frutos dos mesmos mecanismos. O que sucede então? De repente cai-lhes a polícia em cima: são presos. ou seja. ladeados de polícias reluzentes de triunfo!”562 Assim. cit. que como vimos. Lourenço Marques: Classe e Raça. como denunciava. antes de mais nada. 19/07/1911. na prática cotidiana. reduzindo. O Africano: “Está claro que esta gente não teve serviço. cujos salários eram mais baixos que o dos voluntários: não raro. a ocorrência de trabalho voluntário. em 1911.4.. É certo que a penetração da economia de mercado no campo contribuiu para que as pessoas buscassem trabalho assalariado. agarrá-los por vadiagem e levá-los sob escolta policial aos mesmos locais em que lhes havia sido recusado trabalho. N. formam aquela conhecida caravana de rotos e trôpegos malfeitores que dão entrada no calabouço. Estado ou particulares. 202 .. os empregadores. recusavam trabalho a estes. que a pressão para o ingresso no mercado de trabalho se expressava. pp. O trabalho voluntário africanos. quanto chibalo. em substituição ao trabalhador voluntário. em rusgas. exceto quando se tratava de trabalhadores voluntários bastante especializados. estavam fundados em bases extra-econômicas. lançavam mão de uma artimanha para obter trabalhadores forçados. a cobrança de impostos e a obrigatoriedade do trabalho que. era vista pelo Estado como um eficiente mecanismo de controle 562 563 O Africano. algemados outros. pela conjugação de mecanismos que incluía a expropriação de terras. tanto a existência de trabalhadores voluntários. nunca é demais frisar. que seria definido com aquele que foi coagido por pressões extraeconômicas563. é preciso salientar. por conseguinte. 08:09. A intensa utilização do trabalhador chibalo e/ou prisional. algemados. sob pena de se escamotear a ação colonial. para depois. distinguindo-o do trabalhador forçado.

Lourenço Marques. 203 .000$00 réis. publicou. 1980. Decadência e queda da I República Portuguesa. vol. I. ou seja pela cotação da moeda metálica e não do papel moeda. quanto os dos profissionais semi-especializados mais estáveis. restringia ao mínimo as possibilidades de emprego para os trabalhadores voluntários. que apresento na página seguinte. pelo Escudo (Esc) valendo este 1. e devido à instabilidade desta em relação quer à Libra quer ao padrão ouro. SOUZA RIBEIRO. A situação era considerada de tal maneira crítica que Souza Ribeiro. A tabela. O trabalho voluntário e regularização da oferta de força de trabalho e exerceu inequívoca pressão. Lisboa. já informa os dados convertidos em escudos. na edição de 1917 do seu Anuário de Moçambique. com a instalação da República em Portugal. de mulheres e crianças e a política racial de reservas de quotas que garantiam para os colonos brancos a ocupação das funções melhor remuneradas. pp. A Regra do Jogo. Outra coisa a se destacar é que a maioria dos preços eram fixados ou em Libras (£) ou em escudos-ouro. A utilização metódica do chibalo. António José. Ver ainda sobre a instabilidade da moeda portuguesa: TELO. entretanto. Anuário de Moçambique . 335-8. deixando-os numa situação instável diante do mercado de trabalho e expostos às oscilações conjunturais dos salários e preços. Imprensa Nacional. os preços no dia-a-dia eram também flutuantes. uma extensa lista com os preços praticados em 1908 e 1917.1917. pp.4. “para se avaliar até que ponto a guerra veio agravar a situação dos menos abastados”. 11:37.564 564 Lembro que em 1910. A crise provocada pela primeira guerra refletia-se na contínua desvalorização do escudo e na crescente deterioração das condições de vida. da qual extraí alguns exemplos de gêneros mais comuns. a moeda vigente Real/Réis foi substituída. 1917. comprimindo os níveis salariais tanto dos trabalhadores voluntários sob contrato temporário.

é de se notar que os maiores aumentos recaíram sobre os produtos destinados a indígenas.2% + 20% + 12. estes não acompanhavam a queda da cotação do escudo face à libra. dá-nos uma visão da situação de deterioração mostrando que. Kg Litro Kg Kg Kg Kg Litro lata 250 g.6% + 108% = + 150% + 500% + 140% + 250% + 150% Embora essa conjuntura afetasse de forma semelhante trabalhadores negros e brancos. que compara os salários diários dos trabalhadores na chamada Ponte-Cais do Porto. dif.1908-1917 PRODUTOS Arroz de 1a Arroz de 3a Açúcar areado Batata do distrito Bolacha água e sal Farinha de trigo Feijão encarnado Feijão chibambo Carne de vaca de 1a Carne de vaca de 2a Carne de porco fresca Galinhas Peixe fresco Leite fresco Massas de 1a Massas de 2a Pão de trigo Peixe fresco Sal de Moçambique p/cozinha Sardinha para europeus Sardinha para indígenas Toucinho Vinho colonial p/ pretos Vinho Tinto Maduro UNIDADE Litro Litro Kg Kg Kg Kg Litro Litro Kg Kg Kg Unid/Kg. moeda que era o parâmetro para os preços das mercadorias e aluguéis praticados na cidade. era que os salários não acompanhavam os preços.6% + 25% + 6.6% + 66. ainda que tenha havido aumento nominal de salários. + 108. O quadro.4. 06/11/1920. 204 .8% + 66.565 565 O Brado Africano. apresentado na próxima página.6% + 100% + 50% + 38.3% + 66.5% + 32% +191. contudo. O mais agravante. indicando que parte do custo social da inflação era repassado a este segmento sócio-racial com reduzidíssima capacidade de pressão junto aos comerciantes e autoridades. O trabalho voluntário Preços dos gêneros em Lourenço Marques .6% = unid. lata Kg Litro Litro 1908 $18 $14 $20 $08 $50 $12 $12 $08 $36 $24 $60 $70/un $24 $18 $36 $30 $12 $24 $02 $12 $04 $50 $10 $16 1917 $24 $16 $24 $09 1$60 $35 $24 $12 $50 $40 $60 $50/Kg $50 $30 $45 $32 $20 $50 $02 $30 $20 1$20 $35 $40 1908/17 + 50% + 14.

a partir de 1916.. a situação era ainda mais angustiante para os trabalhadores negros. 2$50 2sh. teremos que os salários dos trabalhadores negros situavam-se entre 45$00 e 75$00 escudos566. 1898-1927. 1920 . houve uma redução real de cinqüenta por cento no valor dos salários entre os períodos comparados. ou seja.3 Note-se que. O segmento branco.. enquanto que. Ver ainda MOREIRA. Estes últimos sofriam mais diretamente a crise. Afrontamento. O Movimento Operário em Lourenço Marques.3 1$50 1sh.£. O melhor estudo sobre o assunto continua sendo o pioneiro a quem remetemos o leitor para maiores detalhes: CAPELA. Na realidade. não houve somente uma degradação do poder de compra do salário e sua redução em função da crescente inflação do período.15. devido ao incremento no uso de força de trabalho compulsório. quer fossem chibalos quer voluntários.1. A inflação afetava o poder de compra dos trabalhadores negros e brancos. s/d.3. mas a situação os atingia diferentemente. multiplicandose os índices da tabela acima por trinta dias. 205 . 1$20 5sh.3 2$50 2sh. que recorriam às greves. Os salários mensais dos operários brancos variavam entre £.3 2$50 2sh. em libras. entre 325$00 e 375$00 escudos. desencadeou. devido às grandes diferenças salariais entre tais segmentos. 30/08/1920. pois tinham ainda que arcar com os custos de habitação e alimentação que. ao câmbio de £. 1$20 5sh. eram geralmente fornecidas pelos patrões aos trabalhadores compelidos. cit.4. Porto. cuja tônica reivindicativa centrava-se na recomposição salarial em níveis compatíveis aos anteriores à guerra567.1=25$00.£. Profissional Carregador Arrumador Trab. O trabalho voluntário Salários na Ponte-Cais de Lourenço Marques . incentivada pelo Estado a favor dos traba- 566 567 O Emancipador.6 $75 3sh. Se o custo de vida atormentava e levava à miséria os trabalhadores brancos.13 e £. mas também sua redução real pela pressão descendente exercida sobre os níveis salariais.Op. $75 3sh. inúmeras greves. José. O caráter específico da distribuição de empregos assente em base racial. A Luta de Classes em Lourenço Marques. malgrado serem ruins e precárias. gozando de maior liberdade organizativa. Isto nos mostra que os salários mais baixos entre os trabalhadores brancos era mais de quatro vezes superiores aos mais elevados salários pagos aos trabalhadores negros. José.1914-1920 Anos Categ. = 25$00 Escudos Libras 1$50 1sh. de porão Guincho Contra-Marca 1914 .1. = 5$00 Escudos Libras $60 2sh.

05/01/1918 e 22/12/1917. Op.. para substituílos nas operações da zona portuária. nesta greve em particular. 08/03/1919.4. meses antes da greve ___ . e a Associação do Pessoal dos CFLM. 23/06/1917. Normalmente as postulações dos trabalhadores brancos não só não mencionavam os trabalhadores negros e mulatos ___ como por exemplo na exposição que os ferroviários tinham encaminhado ao Governador Geral Álvaro de Castro. recebendo reajustes somente os brancos568. muitas vezes. não concedeu os “míseros aumentos” para todos os ferroviários. Embora haja indícios de que os trabalhadores negros das oficinas do CFLM não tenham ficado alheios à grande greve ferroviária de 1917. reivindicando cargos e empregos que julgavam dever ser ocupados exclusivamente por brancos571. ocorreu em julho de 1910 e foi um protesto levado a cabo pelos trabalhadores voluntários contra a crescente introdução de trabalhadores chibalo. censurou a imprensa. sem grandeza e miúdo”. representando o movimento operário branco. fato que.. Sobre a questão da assimilação ver adiante. criou profundo fosso entre os segmentos brancos e negros/mulatos e isto evidenciava-se quando os trabalhadores brancos apresentavam suas reivindicações e. 572 O Africano. pois o jornal logo a seguir acusa a Associação de ter sido conivente com o ex-Governador Geral Álvaro de Castro que. representando os interesses dos operários negros e mulatos. esta foi dirigida pelos e para os operários brancos. tendo agido de “modo mesquinho. da qual se tem registro. como. 206 . envolvendo os trabalhadores negros. o Estado. pp. Em 05 de maio de 1919. “não puxou um grito de protesto à Associação. segundo o jornal. A primeira paralisação laboral. 571 O Africano. O Movimento Operário. porventura. Se tal reivindicação. nova greve ocorre nos Portos e Caminhos de Ferro e tinha como reivindi- 568 569 O Africano. 166:174. O Africano. agiu com extrema violência: perseguiu os grevistas.. 570 CAPELA. se faziam contra eles. pois “havia ainda a contra-marca da coleira de ‘assimilado’” que condicionava o reajuste. mais claramente. nos momentos de greve. com a conseqüente redução salarial572. 11/07/1910. criou uma aproximação entre o O Africano. ela se dissolveu rapidamente. O trabalho voluntário lhadores brancos portugueses. Ainda que estes tenham reivindicado aumentos salariais “sem distinções de raças” não foi isto o que realmente ocorreu.”569 Embora privilegiasse os trabalhadores brancos em detrimento de negros e mulatos. José. cit. 12/11/1916 e O Brado Africano. prendeu e deportou lideranças do movimento570.

trôpega por vezes. naquele momento. dedicado ao 1o de Maio e publicado na mesma semana em que eclodiu a greve. que estavam nas obras de construção do aeroporto. brancos. conseguindo assim furar a greve574. O Brado Africano. os trabalhadores voltaram aos seus postos e obtiveram metade do reajuste reivindicado. A greve se desencadeou na esteira de uma reivindicação salarial por parte dos conferentes de carga. era mais uma volta encapelada da onda. foi acusado de ter insuflado o movimento e. já que gozava de amplo prestígio entre os trabalhadores e. face à manobra e à repressão.4. Paulo e ZAMPARONI. não é de se admirar que isto tenha ocorrido. O Brado Africano. tonta e gafa de tanta infâmia e de tanta podridão”. João Albasini que então era encarregado dos indígenas na Ponte-Cais. mas que caminha para seu triunfo certo. João Albasini. Grifado no original. entretanto é “assim a onda. escoltados pelos “tigres auxiliares acompanhados dos policiais brancos”. é revelador do clima em que vivia seu autor. 575 SOARES. na 2a feira se puzeram em greve pedindo ‘também’ o aumento”573. Nele. O trabalho voluntário cação salarial um aumento de $20. A própria Grande Guerra então em curso. cujo fim ainda não se prenunciava para o autor. por 573 574 O Brado Africano. 10/05/1919. pois a Humanidade. o grupo social do qual fazia parte acabara de ter que vender O Africano para os interesses capitalistas locais e radicalizara posições em torno de seu novo periódico. 10/05/1919. No dia seguinte. que tinham obtido entre vinte e trinta e três por cento de aumento. engrossa túmida por outra onda mais pequena apanhada no trajecto” que muitas vezes “intemerata e rumorosa” vem morrer em ignota praia sem que se compreenda seu verdadeiro desideratum. Os cerca de quatrocentos grevistas foram presos na área do Porto. O editorial “A onda”. 207 . Op. após a intervenção da guarda republicana e da polícia. e o governador mandou vir cerca de duzentos e oitenta trabalhadores chibalo. Artigo publicado em Ronga e traduzido por Salomão Zandamela. cumprindo um Fado eterno. passando os salários menores de $60 para $80 e os maiores para 1$00 escudo diário. e com ela queremos demonstrar a lenta mas potente e invencível marcha da evolução social: tardia. publicando artigos e defendendo teses muito próximas dos ideais socialistas575. cit. a despeito de todas as barreiras despóticas vindas da tirania alarmada. Os trabalhadores “pretos da ponte cais. 135 e praticamente todos as edições de O Brado Africano publicadas em 1919. ‘que com esses brancos trabalham’. Valdemir. p. associa o movimento social a uma onda que “avança encapelada. numa de suas brilhantes criações. embora o próprio o negasse.

assesta baterias” contra a Plebe que. As barreiras mais sólidas cedem. o Poder. fomes e sedes de pão e amor quão mais dolorosos quanto só são atributos fatais de uma classe tomará como que a virtude do milagre antigo. 19/02/1916. 03/05/1919. o autor não tenha de alguma forma influído na greve. O certo é que em novembro de 1919. o corpo pede folia e é chegada a hora das Reivindicações Sociais. O Africano. entretanto. transige e condescende para distrair a atenção e atrair algum incauto e assim romper o elo que une os dançarinos. Avança-se. tradução de Salomão Zandamela. que arde todo numa medonha labareda. haveria de apanhar cacos proveitosos. É difícil crer que. apetrechando melhor o homem para as lutas da vida e a mulher para o livramento da escravidão e opróbrio da mercância do seu corpo”. atirando para a fogueira com os Preconceitos. tomada de medo de perder a supremacia. quer erguer paredões à Onda e chamar à ordem. conforme indica artigo publicado no O Africano. 208 . Era verdade. confortando e preservando. E responde: a transformação do existente e a Onda.4. iluminando soviets e bolchevistas. amuletos preservadores de futuros desastres ou um ou outro fragmento que. com tamanha manifestação de fé e esperança nas mudanças sociais resultantes do movimento “das classes trabalhadoras que se juntam. a Autocracia e Omnipotência do Burguês fortificada pelo Dinheiro!”. os Dogmas. E a Onda galga. num instintivo movimento de defesa comum. O trabalho voluntário entre escombros e ruínas causadas pela “fúria e vaidade científicas dos engenhos destruidores”. reconhece o autor. sarando-lhes os males. isto parece trabalho perdido pois a “cantoria vai alta. a ciência dispunha de recursos e espingardas repressivas e que a “sociedade mandante. O século já mostrava a “débâcle de um mundo podre de manchas e velho de ódios. principalmente porque Nwandzengele. pergunta Albasini. se não diretamente envolvido. que se organizam. já não teme seus roncos. abalada nos seus alicerces. mas. os privilégios. a despeito de tudo. que se consolidam para a luta”. que. alastra-se!”576. que de mão dadas dança em roda a medonha sarabanda. em ronga577. como era conhecido entre os trabalhadores era por eles muito respeitado. passados 576 577 O Brado Africano. que para travar a Onda que crescia e avançava. O que se deveria esperar deste rutilante século XX que “surgiu da noite da eternidade já todo cheio de vaticínios e já carrancudo”. “chegado ao corpo chaguento da multidão torturada ___ ___ que por tanto tempo há sofrido os despotismos e as injustiças.

o governo anunciou ter prendido os líderes que foram condenados a três meses de trabalho forçado e entre eles não estava João Albasini578. pois seus vencimentos diários variavam entre 1$00 e 2$00 escudos enquanto que. 581 O Brado Africano. que eram os trabalhadores mais mal remunerados. ao câmbio corrigido pela cotação da libra. nova greve eclodiu e contou com a adesão de centenas de trabalhadores negros. A greve durou dois dias. setor que ainda mantinha-se fora da alçada do Estado. ou seja. O trabalho voluntário seis meses após a eclosão do movimento. Depois que foram presos treze grevistas considerados líderes. um único quilo do arroz custava 2$00 escudos581. a grande maioria. Desta feita. 03/01/1920. No início de 1920. mais favorável aos patrões do que aos trabalhadores. Os indígenas. 209 . 24/01/1920. 22/05/1920 e 29/07/1922 e O Emancipador. com apoio do movimento operário branco. por dia ou seja ao câmbio actual 1$75.4. ficando quatro navios paralisados. O Brado Africano. foram incluídos entre os beneficiários. Em junho de 1920. foram excluídos da medida580. 22/11/1919. quanto os de mais sete empresas privadas de carga e descarga. tal benefício somente a parte do funcionalismo. prazo ao fim do qual chegou-se a um acordo. o Governo decidiu começar a pagar seus empregados em escudos com base-ouro ou seja. por exemplo. tanto os da área do cais pertencente e controlada pelos Caminhos de Ferro. Nova greve envolveu o pessoal negro do porto em janeiro de 1920 e novamente as reivindicações giravam em torno da questão salarial e da galopante inflação. 25/05/1920. Isto neste tempo em que tudo encareceu ganha menos do que há seis anos!” 579. 05/06/1920.6d. quem parou foram os estivadores avulsos das empresas privadas. Os grevistas reivindicavam aumentos salariais. Actualmente ganha o preto $70 ou seja 1sh. os trabalhadores retornaram ao trabalho. A deterioração dos salários era gritante: “há anos os pretos ganhavam 2sh. 580 O Brado Africano. excluindo todos os negros e mulatos considerados assimilados que. resguardandoos parcialmente dos efeitos nefastos da inflação. só após muitos protestos. que se viram obrigados a retornar ao trabalho sob ameaças e requisições policiais. mas restringiu. Em nenhuma das duas greves o pessoal negro obteve qualquer apoio ou solidariedade dos trabalhadores 578 579 O Brado Africano. tendo conseguido um aumento de apenas $14 centavos por jornada diária.

na colônia “o pior inimigo com que o preto pode contar é o que traja de ganga e kaki e canta a internacional e está inscrito nos centros socialistas”582. e participava de reuniões com membros dirigentes do movimento. 30/05. Ver ainda 24/04 e 01/05/1920.4. João Albasini. tensa e por vezes agressiva584. 27/06. o que contribuía para o afastamento cada vez maior entre ambos os segmentos raciais. 20/09/1920. não deveriam agir contra os seus próprios interesses. com alguns entreveros em 1918. 585 “Ódios de raça?” de Alves Cardiga publicado pelo O Brado Africano em 10/05/1919. 25/05/1914. p. 03/05/1912. 18/03. 20/03/1915. 25/02. 10/03. fez lembrar a estes que eles eram privilegiados pela existência da situação colonial e que. publicara inflamados editoriais e incontáveis artigos saídos da pena da liderança operária local ou de socialistas e anarquistas metropolitanos. 23/06. mesmo assim. 02/01. O trabalho voluntário brancos. que em 1919 e até meados de 1920. 123. um dos líderes brancos deportados após a greve ferroviária de 1917. Op. só se encontram em suas páginas uma ou outra referência. 11/03. Neste ano de 1920. 03/05/1913. onde dava entrevistas. desandou para um afastamento crescente e uma relação fria. tratam-se por companheiros”. críticas. diretor de O Brado Africano. envolvendo a pequena burguesia negra e mulata e os socialistas e anarquistas da terra. 18/02. em 1919. José. em prol da “igualdade de todos os homens sem distinção de raças ou cores” escritas e publicadas pelo O Brado Africano. indicando que a disputa envolvendo a variante racial dividia interesses e suplantava as possíveis alianças de caráter econômico. 24/07. 584 Ver para a década de dez. estava em Lisboa. 582 583 O Brado Africano. 25/08. mas que ganhara novo e caloroso ímpeto em 1919. nos anos seguintes. O mesmo O Brado Africano. o que parecia ser a retomada de um namoro frutuoso que se iniciara no princípio da década de dez. as seguintes edições de O Africano: 29/03. 05/01/1918. 06/12/1916. 210 . ao movimento ou às questões de interesse dos operários brancos. e. pondo-a em perigo583. escrevia regularmente em O Combate. por exemplo. órgão dos socialistas portugueses. MOREIRA. simplesmente emudeceu e. portanto. Era como se ambas as partes tivessem sido assoladas por uma repentina síndrome de aversão mútua tão forte que fazem parecer que as palavras de Alves Cardiga. Aliás. nunca tivessem existido585. o próprio Governador Geral Moreira da Fonseca. 13/01. A partir de então. enquanto isto. 13/12/1917. cit. em Lourenço Marques. 20/06. por ocasião da greve dos ferroviários brancos. em setembro de 1920. o jornal lamentava que enquanto lá “os nossos patrícios estão de pão e pucarinho com os socialistas.

e aprovada por aclamação no Congresso Socialista da Região Sul de Portugal. 588 O Emancipador. 08/11/1920.”588 No ano seguinte. cit. nenhuns nativos teria aquela colectividade. onde eram maioria.. J.4. mas sim que pregasse o socialismo: “Não dê aos pretos a noção de que a África é dos africanos.40 enquanto os africanos e indianos £. que tinha como redator principal Fortunato Rego..20587. Ensine-os a combater exploradores: brancos. amarelos. 211 .. Ver a respeito da trajetória e perfil deste jornal CAPELA. órgão dos trabalhadores brancos. por exemplo. aconselhava este a não fazer nativismo. como se fossem bois de carga. e que estes não eram capazes de se organizar e que. que estabelecia diferenças salariais entre os europeus. Op. realizado no Barreiro. o jornal transcreveu a “Saudação à Raça Negra”. mesmo na Associação de Classe das Artes Gráficas. protestava-se contra “todos os preconceitos que dividem as raças nacionais. também não deixou por menos e.] não faça os pretos livres numa terra graças à lei da pátria.. pp. era preciso que “os europeus andem à agulhada a eles. Porque o preto foge das associações como o diabo foge da cruz. O trabalho voluntário O Emancipador. insurgindo-se contra o que julgava ser indefinições políticas e tendências pan-africanistas de O Brado Africano. O Emancipador. Nenhuns. deixando-os amarrados à lei do salário. O Movimento Operário. que poucos meses antes haviam defendido a implantação em Moçambique de uma legislação para a indústria gráfica nos moldes da legislação de trabalho vigente na União SulAfricana.. na qual repudiava-se todos os “desmandos do Estado burguês português”. os gráficos europeus. começou a aguilhoar os negros e mulatos: sob o título de “Imbecilidades” considerou O Brado Africano um jornal reacionário. deveriam ganhar £. da Liga Africana. contra a não extensão aos indígenas da África portuguesa de todos os direitos que já auferem os 586 O Emancipador. apresentada por Heliodoro Monteiro de Castro. 01/11/1920 e ainda 31/01. 67:83. africanos e indianos: segundo sua proposta. 29/03/1920. anteriormente assíduo colaborador de O Africano. o jornal não considerou relevante interrogar-se por quais motivos os funcionários negros e mulatos não gostavam de se associarem aos brancos. o que considerava ser uma variante do imperialismo. a partir de 1920. 21/02/1920. Não os aconselhe a combater brancos por diferença de raça. não levaram em conta. no quarto ano de experiência profissional. pardos e da sua própria cor [. 1921. pois se não fosse assim. porque apregoava um socialismo cristão. por seu turno.”586 Verdade ou não. 587 O Emancipador.

Em 1920 o Partido Socialista Português. saudava-se fraternalmente seus “irmãos negros” certos que estavam de que “só com a união livre de todas as raças nacionais será possível a implantação da República Social em Portugal”589. vez ou outra. 590 O Emancipador. 591 O Emancipador. o jornal não só eclipsa como toma partido francamente contrário aos não brancos592. na bagagem de um indígena. responsabilizados pela carestia de vida590. quando excluíram os negros e mulatos das reivindicações salariais do funcionalismo e quando promoveram manifestação pública no recinto do Bazar. povoavam as teses dos socialistas portugueses acerca das colônias. já havia votado pontos com semelhante teor publicados pelo O Brado Africano em sua edição de 27/11/1920. O trabalho voluntário seus irmãos da Europa portuguesa”. afirmava-se os princípios da revolução bolchevique anti-capitalista. tal como o movimento operário branco. 24/05 e 31/05/1920. Fica claro. na qual se pediu às autoridades que expulsassem os comerciantes monhés. Tchitchérine. apresentado à FAPESP em agosto de 1983. segundo as autoridades policiais. depois de atravessarem oceanos. na Circunscrição de Mossurize. mas sem nenhuma relação com a realidade: a prática cotidiana dos dirigentes do jornal e do movimento socialista laurentino. 592 Teci estes argumentos em meu Relatório semestral de pesquisa no 04. V. Em princípios de 1920. contrariamente ao que apregoavam. A pregação socialista contudo não era apanágio dos colonos. apontava-se a guerra como um empreendimento 589 O Emancipador. Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros. sem qualquer relação com o real. O reconhecimento de que a força de trabalho africana encontrava-se numa “desgraçada situação de perfeitas máquinas humanas a serem exploradas na aurora do século XX” não os impedia de reivindicar a intervenção do Estado no fornecimento de trabalhadores chibalo aos pequenos agricultores colonos591. que conseguiu escapar da polícia. no ano anterior. pela leitura dos inflamados artigos. área sob controle da Cia de Moçambique. 212 . 23/08 e 22/03/1920. foi apreendida. Discurso altitonante. teses que. na qual. como Presidente do Conselho dos Comissários do Povo e por G. assinada por Lênin. uma proclamação dirigida ao operários ingleses. em seu Congresso Nacional. chegavam na África meramente como bonitas e ocas palavras.4. Assim. que O Emancipador compreendia a situação dos trabalhadores africanos somente nos termos teóricos que. 01/08/1921. era marcadamente racista tanto contra negros quanto contra indianos e isto já ficara claro.

de onde estava se “correspondendo assiduamente com indígenas das regiões do Sabié e com um indivíduo da Beira”. além da solidariedade de caráter racial. Provincial do Interior. estava preso por estar envolvido com esta correspondência. no 825 do Secretario Provincial do Interior ao Chefe da Repartição Central da Secretaria da Colónia. O trabalho voluntário imperialista e exortava-se os trabalhadores ingleses a não combaterem o novo poder operário recém-instalado na Rússia.cx. João Bukownovich. Havia momentos em que estes últimos se uniam a indianos contra os brancos. Pasta no 2. de idéias comunistas” e que acabou por chegar ao Brasil. sendo que o indígena Lobati Lobissi. fizeram circular dezenas de notas pelos diversos orgãos administrativos e policiais593. O terreno era movediço e não raro acabava resvalando em interesses pessoais já que. seria militante do Partido Comunista da África do Sul (SACP). Ao que se indica nos documentos. cx. Em janeiro de 1925 foi preso. numa comunidade pequena como era Lourenço Marques. ano 1925. de 27/01/25. fundado em julho de 1921? Teria ele vínculos com o Partido Comunista Brasileiro? É possível que sim mas. 120. Secção B . Proc. a ressonância desta propaganda? Quem eram estas personagens? Quem era este indígena que conseguiu escapar à polícia? Estaria este Bukownovich a serviço da Internacional Comunista. Embora as transcrições do documento não apontem a data de sua elaboração. no 112/C da Repartição Central da Secretaria da Colónia ao Sec. lamentavelmente. o tema e a forma de abordagem indicam que foi escrita ainda no transcurso da 1a Guerra Mundial. Qual a amplitude.doc. entre os indígenas. e depois enviado para Lisboa. Mas a luta pelo emprego não opunha somente os brancos aos negros e mulatos. no 1. iugoslavo. eram partes integrantes e elementos com- 593 594 AHM. 14/A. de 09/06/25 e doc. não encontramos quaisquer outros documentos sobre esta atividade ou sobre seus personagens. Este certamente é um dos inúmeros aspectos da história moçambicana que merece uma investigação mais detalhada. mas de idéias. o compadrio e as relações interpessoais. do Sabié. a respeito do mesmo.Proc.Propaganda Bolchevista. noutros as partes se distanciavam e proferiam discursos racistas contra os aliados do dia anterior. alinea a . apontado como Souza Duarte. novamente.DSNI. que segundo os documentos era “conhecido na Província como propagandista. na área da Cia de Moçambique. 213 . Bukownovich tencionava voltar ao Cabo onde desenvolvia suas atividades594.4. que pudessem fornecer maiores detalhes acerca desta curiosa circulação triangular. já não de mercadorias. ano 1920 . 1095 . AHM-GG. 34 anos. A apreensão deste documento parece ter causado preocupação entre as autoridades que.

já que “seu modo de vida limita-se à burocracia. O Africano tinha mantido. aos asiáticos. Este foi o estopim pois. 597 O Brado Africano. em dezembro de 1918. o que só fez atiçar lenha à fogueira que se espraiou por dezenas de editoriais e artigos597. entre os quais o Instituto Goano. Cel. uma posição francamente hostil. um candidato nascido em Moçambique. 128:136. posição que. custaria 3. proposto pela Liga Africana de Lisboa e apoiado pelo Grémio Africano de Lourenço Marques e pelo jornal. os indo-portugueses laurentinos. 03/12/1913. mandavam suas economias e riquezas para a Índia595. Carrazeda de Andrade. 27/08/1921. com a pretensa e insofismável frieza dos números. que o funcionário de origem goesa. Em 21 de agosto deste ano finalmente se realizaram. 30/06 e 14/07/1915. O artigo em questão. 27/09/1919. Op. devolveram os exemplares. isto é. O Brado Africano. as eleições para escolher um deputado para representar as Colônias em Lisboa. Como tais mecanismos agiam mais ou menos abertamente no mercado de trabalho e influíam no preenchimento de vagas. na edição seguinte. cit. e particularmente os goeses. O Brado Africano começou por afirmar que os goanos eram parasitas que viviam do trabalho alheio. segundo acusava o O Brado Africano. e sem distinção de nacionalidade. depois de sucessivos e tumultuados adiamentos e anulações. O trabalho voluntário plicadores no estabelecimento de relações sociais. Sobre o processo eleitoral ver MOREIRA. entre outras coisas porque considerava que estes não se nacionalizavam. 20/09.700 libras a mais do que se. ao menos no que tange aos indo-portugueses. entretanto. José. à manga de alpaca. contrariamente ao que estava combinado. fundado em 1905. “Ladrando para a Lua”. uma vez que João Albasini retirara sua candidatura anteriormente proposta596. pp. não deram seu voto ao Ten. em vinte anos de trabalho. mas pura expressão da verdade. provocou as mais vivas reações entre a colônia goesa: dezenas de assinantes. não vai além de 1921. na década de sua existência. particularmente as edições a partir de setembro de 1921. não produzindo nesta vida um trabalho que mereça os privilégios que goza”. em seu 595 596 O Africano. com a criação de seu sucessor O Brado Africano. 214 . cancelaram suas assinaturas. em se tratando dos baneanes. mandaram cartas protestando. Passou. à língua portuguesa e à religião católica e além do mais. Esta posição parece ter mudado. 10/05. não aderiam aos costumes europeus. a tentar demonstrar. que considerá-los como um encargo inútil e pesado para a Província não era calúnia ou insulto. acabavam por ganhar força quanto maior fosse o desemprego.4.

o jornal explica que estes foram escritos pelo Brado “ao passo que o outro deixou o Brado que fosse publicado”600. Para este. os portugueses brancos queriam dar apoio ao Brado na sua campanha contra “o indo-português que abusa da hospitalidade que lhe dão aqui”. como declarava um leitor. a discussão em torno do significado de figuras como a de Mousinho de Albuquerque. em carta enviada ao jornal. O Brado Africano estranhava que a canecada se insurgisse “desbragadamente contra a campanha que nós Africanos. não se tratava da opinião de um ou outro articulista. sem nome na terra.4. num direito legítimo que nos assiste. acabaram por atirar para ambos os lados mas. e os atuais escritos com virulência agressiva. criticado pelo O Oriente e tido. Premidos entre brancos e indo-portugueses. por sua vez. 601 O Brado Africano. 17 e 24/09/1921. representava uma emergente classe social. 29/10/1921. preferencialmente. para o lado mais fraco. para que eliminasse este “encargo pesadíssimo” e para que o dinheiro economizado pudesse ser aplicado nos melhoramentos de que a Província era carente e. pelo nativo. por exemplo. os goeses eram impermeáveis à civilização ocidental e absolutamente refratários à convivência com os 598 599 O Brado Africano. cujos interesses estavam sendo limitados por concorrentes mais fortes. Caneco é o termo pejorativo para referir-se aos goeses. mas da equipe do jornal que. sendo portanto justo. 600 O Brado Africano. na opinião do leitor. no emprego público. porque esta ajuda era a tradução do reconhecimento de que o africano “sempre foi mais português do que o indiano”. Diante da contradição entre os artigos publicados há poucos meses e que expressavam uma boa convivência entre o jornal e a colônia goesa. que se fizesse justiça “aos naturais da Colônia” que não poderiam continuar a “servir de bestas para qualquer adventício. 07/01/1922. argumentava o jornal. ou seja. O Brado Africano. contra a invasão dos cargos públicos desta terra que é muito nossa” 599. encetamos já muito tarde. Aliás. deveriam sair aqueles que pesavam inutilmente na balança econômica. que o indo-português fosse substituído. Esta comparação para determinar quem era mais português beirava o delírio patrioteiro quando vinha à baila. fosse empregado um funcionário natural que também precisava viver e se por acaso. pelo O Brado Africano. buscando e obtendo apoio de alguns brancos. ao mesmo tempo. O trabalho voluntário lugar. pois. “à mesa não tem mais lugares”. apelando então. 215 . ao Estado. 29/10/1921. como um dos “nossos maiores antepassados ilustres” 601. subir e viver à nossa custa”598.

os africanos tirariam disto alguma vantagem e. 216 . 17/12/1921 e 07/01/1922. 03/12. como reconhecia o jornal. no editorial “A greve”. apesar de tudo. por nos vermos livres de um vizinho inútil e perigoso pela sua baba peçonhenta. não o odiamos. passou a referir-se com mais freqüência ao movimento operário negro da vizinha África do Sul.602 queriam a convivência daqueles. em outros momentos. [. fossem ocupados por europeus. assim. pois achava que. não raro transcrevendo artigos originalmente publicados no Workers Herald. eis o dilema. que vá arranchar à intriga dos seus patrícios e fazer as suas manifestações ‘patrióticas’ nas margens do Mandovi. É inequívoco que a conjuntura de “falta de serviço” que. em Moçambique.. 29/10/1921. por exemplo. O jornal aceitava que esses lugares vagos pelos canarins. com inimigos por toda parte. o O Brado Africano. órgão oficial da Industrial and Commerce Workers Union. em julho de 1913. que é um bem para a nossa terra. a primeira organização sindical negra fundada em 1919 na África do Sul. e a Índia para os indianos com a sua ‘civilização típica’.. João Albasini comentou.] A África para os africanos e as raças que influem na sua civilização. ao “contrário da confessa e tradicionalmente reconhecida aversão do canarim para com o branco”.4. tomando praticamente todas as páginas e tornando-se quase obsidiante. 05/11. como “Varrendo o Lixo”. Nestes anos vinte. 29/10. Canalha” e a caracterizar os indianos como “corja maldita e infame”. “Para a Índia. pediam que os canarins fossem mandados embora e que fossem ocupar lugares públicos na Índia. a retomada do movimento paredista dos mineiros que abalou o Rand.”603 Tal melopéia prosseguiu meses e meses. concluía: “o canarim que embora nos repugne.entre outras as seguintes edições: 22/10. retomando prática dos anos iniciais da década de dez quando. não era alegação de ociosos e vadios. 05/11/1921. parecia combater ao apelar para o império dos direitos e valores individuais e para a execração do critério de cores e raças na qualificação dos indivíduos na sociedade604. O trabalho voluntário brancos e à adaptação aos seus costumes. assumindo um tom reacionário e francamente racista que. 604 O Brado Africano. em termos que 602 603 O Brado Africano. ajudou a radicalizar o discurso e a levar o O Brado Africano a publicar editoriais com títulos. 19/11. os africanos. O Brado Africano.

“o proletariado mais uma vez batido. 03/08/1913. ao capital opressor ___ que é o flagelo do mundo desde que o mundo é mundo” e con- cluía afirmando que. afirmava. a serviço da Delagoa Bay Agency. no que foram rapidamente reprimidos por ordem da Secretaria dos Negócios Indígenas. para dar outra batida à besta-fera. o olho prático dos artilheiros e o aprumo marcial das tropas que carregam cegas e sem ira à voz de um que manda. reivindicando a liberação de seus contratos para que pudessem retornar para suas terras. forte e soberbo de verdade” que “atira-se para à frente atrás de seu Ideal. recuou. embora a luta fosse desigual. os trabalhadores negros. o que contribuiu decisivamente para a eclosão de uma sucessão de greves. De um lado. 17/01. mas o seu ouro. cheio de razão. mais bem organizado. no fundo escuro e viscoso das minas” cheia e saturada de tanto “engordar outros. ao som de um clarim que ressoa”. A greve é também tratada na Secção Landim em artigo de Bandana. 14/01. mais unido. 14/01/1914. como vimos..4. Embora em Moçambique não tenha ocorrido tal clima de enfrentamento. enquanto estoira de fome. 217 . preparado.”606. 11/03/1914 e 09/04/1927. Em setembro. no lufa-lufa da refrega. refez-se das comoções e. tomou alento. Diante do descumprimento pelo Estado da Portaria Provincial no 781 de 30/08/1924 que garantia também aos serventuários indígenas abonos salariais que lhes 605 606 Ver por exemplo: O Africano de 04/06. recusaram-se a continuar a trabalhar. pois “um dia será. A derrota de julho não significaria o fim da guerra pois. em quantidade mais harmoniosa e mais compacta. com pedras nos bolsos e dinamites nas mãos” e do outro “a opulenta e farta classe que à luz deste mesmo sol expõe e impõe à força desse ouro que os outros andam arrancando expostos a todos os perigos” que facilmente rechaça o inimigo não “aberta e francamente de armas na mão. a 1a Guerra ocasionou completa deterioração dos salários e das condições de vida. acrescentava Albasini. 02/07. eclodiu nova greve do pessoal a serviço da mesma Companhia. Ainda na esteira da crise inflacionária do pós-primeira guerra. para de novo investir. estava “a massa sórdida e obscura dos que trabalham às ocultas do sol. ficou esperando. por intermédio do soldado fiel ao Estado” já que possui o dinheiro que “compra a precisão matemática das metralhadoras. em fevereiro de 1925. O Brado Africano. o proletariado vencido voltaria a se organizar.. a face afogueada sujeitando o corpo bem tratado à violência do aço das Martin’s Henry. O trabalho voluntário pareciam um ensaio geral de “A onda” 605. pousou armas.

pp. Mais uma vez o governo reagiu com violência. 14/02/1920. ibidem. emperrando a movimentação de cargas. e se prolongou até março de 1926. J. todos os serviçais africanos. Em 11 de novembro eclodiu nova greve dos ferro-portuários brancos que. 03/11/1923. carestia e por sucessivas greves? Às vésperas da crise de 1929 assim ela se apresentava. que operavam na Ilha de Inhaca610. p. empregados públicos. decretou estado de sítio. 195. pagar mais caro pela água fornecida por particulares ou andar cerca de dois quilômetros para buscar água em nascentes do que pagar a água fornecida pelo poder público. Em setembro deste mesmo ano. incluindo as mulheres dos grevistas. além de reivindicarem subsídios face à inflação. 196:211.. os trabalhadores negros. do serviço de estiva no Porto. contra o exigido pagamento da água: os moradores preferiram. Fora do setor ferro-portuário. a ocorrência de uma greve. Mas que alterações ocorreram na distribuição da força de trabalho laurentina em meio a este período conturbado pela guerra. A greve mobilizou toda a categoria. conseguiram que os trabalhadores retornassem ao trabalho no mesmo dia. alguns líderes do movimento foram presos e desapareceram608. bem como o boicote aos fontanários da Câmara instalados no Xipamanine. Op. em sua maioria gregos. 610 O Brado Africano. 607 218 . em 05 de junho de 1925. “Pelos CFLM: Injustiças que revoltam”. 609 Idem. de trabalhadores da pesca a serviço de patrões brancos. In: O Brado Africano. prendeu e deportou os líderes609. 608 CAPELA. retirando-lhes o que considerava regalias. no entanto. O trabalho voluntário permitissem enfrentar a situação de crise. avulsos. pela inflação. reivindicaram aumento salarial: cerca de mil trabalhadores paralisaram suas atividades. menciona-se. reuniram-se na Casa dos Trabalhadores para “tratarem de seu mal estar e reclamarem perante as autoridades competentes as necessárias providéncias urgentes que o caso requer. O Movimento Operário. 13/06/1925. em 1920. consoante os diversos seg- pseudônimo de José Albasini.. 611 O Brado Africano. de forma sucinta. Mais de 300 pessoas lá estiveram para gritar a sua mágoa contra os dirigentes da administração pública”607. cit. insurgiram-se contra a tentativa do governo de deixar de considerá-los como funcionários públicos. entre promessas e ameaças. ainda no período considerado.. durante o boicote.4. que nada cobrava nos fontanários que serviam aos brancos611. a resposta foi rápida por parte das autoridades que.

Escoveiros.3 56 9. Marceneiros. Pintores. Fundidores. Cigarreiros.5 792 43. Litógrafos. Musicos. Contínuos.1928 Raças Total Africanos Amarelos Indo-Brit. Marítimos. Trabalhadores. Dentistas. Despenseiros. Carregadores. Ajudantes de farmácia. Assalariados. Torneiros. Ourives. Ajudantes de comissário. Serralheiros aprendizes. publicado no Boletim Económico e Estatístico.0 23090 61. Vassoureiros. Carpinteiros. Pedreiros. Propr.8 688 4.6 21 1. Industriais.2 Sem profissão 16214 43. 1503 8. Hoteleiros. Cesteiros. Contabilistas. Estenógrafos.0 9001 24. Fiéis de Armazém.6 449 2. Farmacêuticos. Engenheiros. & comerciantes 755 4. de caráter do6843 39.7 190 12.6 1657 4. série Especial.2 36 0.3 8 2. Mixtos Europeus Profissões N % (1) N % N % N % N % N % N % Agricultores 615 3. Missionários.2 9 2.1(3) 1 0. Jornalistas. os percentuais indicados (2) ao total com atividade (b) e os com (3) ao total da população recenseada (c). Calafates.4 1909 43.0 16 5.5 mést. Contratados.6 5 0.0 404 38. Modistas. Telegrafistas.0 44 4. Funcionários públicos: Nomeados. Maquinistas.7 255 33. Empr.3 81 10.5 perv. Sacristãos. Curtidores de peles. Médicos civis.3 4337 25.7 47 1. Pasteleiros. Preparadores de tabaco. é interessante poder fazer algumas comparações. Banqueiros.1 Os percentuais de cada coluna de raça/cor referem-se ao total de cada profissão. Revisores. Pescadores.3 Meretrizes 4 0. Impressores.1 308 6. Indo-Port.4 21 5.5 9 0. Carroceiros.6 103 5.1 Estudantes 426 1. Mergulhadores.6 229 75. Oculistas. Comissários de bordo.6 615 33. Eletricistas.5 6505 95.6 66 3. Sapateiros.5 9 3.3 136 2. Latoeiros. Colchoeiros.1 Artesãos 1049 6. Compositores tipográficos.2 4375 21.2 1371 8. Agrimensores. Mineiros.9 314 0. Comerciantes.75 41 13.0 12 0. Jardineiros. Datilógrafas. Caixeiros de balcão. Estofadores.1 193 1.2 74 1. Ferreiros. Serventes. Porteiros. Pastores.4 116 11. Atividades de caráter doméstico: Cozinheiros.9 Ativ. Soldadores. Tipógrafos. Passados dezesseis anos entre os dois levantamentos. Colónia de Moçambique. Tintureiros.3(2) 3259 96. Telefonistas. Estivadores. Polidores. Vidraceiros. Imprensa Nacional. Encadernadores. Reformados.4 147 9. Costureiras. Cobradores. Leiloeiros. Guardas.7 36 4. Barbeiros.0 948 4. a primeira coisa que nos chama a atenção é que o crescimento da 612 Elaborado a partir do Censo da População não indígena em 1928.7 Empr.4 4314 26.3 17 0. adm.4.8 214 20. Construtores civis. Calceteiros. Correeiros. 219 . Relojoeiros. estudantes e meretrizes mantive-os em separado. Professores. Trabalhadores especializados: Caldeireiros.4 231 5. Malhadores. Tecelões.9 19 3.2 262 24. Bordadeiras.4 194 10. Proprietários e Comerciantes: Criadores de gado. Empregados administrativos e comerciais: Agentes de empresas.1 102 1.5 Trab. Guarda-freios . 305:9.4 1901 5.0 312 73. As profissões foram assim reunidas: Artesãos: Alfaiates.4 38 1. Mecânicos. Esteireiros. & comerc. Funcionários estrangeiros.0 1041 5. Cortadores. Oficiais de marinha mercante. Parteiras. 1930. Joalheiros.0 15 2. Guarda-livros. Lourenço Marques. Carpinteiros aprendizes.0 277 5. Condutores de rickshaws. Despachantes. Vulcanizadores.7 61 4. Cônsules. O trabalho voluntário mentos raciais612: Profissões segundo raças . Funileiros. Artistas teatrais. Condutores de eléctricos. Enfermeiros.6 Total recenseado (c) 37301 100.1 23 0.7 295 1. Ferradores.4(3) 9434 58. liberais & su303 1. Serradores. especializados 1814 10.6 44 2. Criados. Repartição Estatística.8 1338 3. Gerentes de empresas.1 66 0. Proprietários.4 2 0. pp. Condutores de automóveis.4 412 27.0 85 1. Ainda que as variantes raciais identificadas não sejam as mesmas do Censo de 1912.9 139 2.2 112 0.4(3) 13655 66. Trabalhadores braçais: Cantoneiros.02 4 100 Prof.7 2172 49. Empregadas de bar. Como encontrei dificuldades em agrupar de maneira adequada os agricultores. Estucadores.0 672 44. Desenhadores. Profissionais liberais ou cargos de supervisão: Advogados. Solicitadores.5 474 77 49 7. Medidores. Fotógrafos. Capatazes.3 291 38.7(2) 914 60. Engajadores de trabalhadores.9 25 3.8 67 8. Padeiros. Contra-mestres de máquinas. Vendedores ambulantes.9 Total c/ profissão (a) 17289 83.1 2 0. no 10.0 81 19. Serralheiros. Fogueiros.0 Trabalhadores braçais 3372 16. Empregados de escritório.Lourenço Marques . os da coluna com (1) referem-se ao total com profissão (a).1 Total c/ atividades (b) 20653 55. serviço público 4403 25.

foram arroladas como domésticas e. tal categoria foi suprimida. no de 1928. empregava cerca de 8. O trabalho voluntário cidade foi acompanhado de uma crescente definição profissional. preta e branca e. complicando ainda mais as possibilidades de comparações no que tange à distribuição profissional consoante as raças. assim como o de proprietários e comerciantes e mesmo de trabalhadores especializados. indicando tanto a expansão da presença colonial no território. quando fala de amarelos refere-se 220 . conforme já dissemos.5% em 1928. tendo sido as mesmas incluídas no rol das pessoas sem profissão. Tal elevação se torna ainda mais significativa se levarmos em conta que no Censo de 1912 as mulheres. o percentual relativo de trabalhadores neste setor diminuiu. cuja influência crescia em detrimento dos demais pólos urbanos.3% da força de trabalho ativa da Cidade e que. Embora a cidade tenha ampliado sua rede comercial. quanto o fato de que esta tornava-se cada vez mais concentrada na capital. quanto a melhoria da renda familiar que lhe permitia manter maior número de criados domésticos e. parda. Em 1928. em 1928. ainda que pequena. por exemplo. O censo de 1912 classificou a população em amarela. que exigia alargamento da burocracia. em 1912. Intuímos que tenha incluído todos os indianos e possivelmente também os mestiços. de nacionalidade e territoriais: assim. embora a praxe fosse que as mulheres casadas cuidassem dos afazeres domésticos. por seu turno. Também em outros setores houve alterações. Este aumento indica tanto o crescimento da população branca. sem especificar claramente quem estava incluído em tais segmentos.4. Os Censos de 1912 e o de 1928 usaram categorias diferentes para classificar a população. certamente está querendo referir-se aos negros. tornando difícil. cresceu o percentual de pessoas envolvidas com atividades domésticas. O setor cujo crescimento suplantou qualquer outro foi o serviço público que. em 1912. tendo o total de trabalhadores com profissão definida crescido de cerca de 40% para 84% e a participação dos trabalhadores braçais no conjunto da força de trabalho ativa caído de cerca de 60%. foi utilizada uma classificação que mesclou referentes raciais. saber exatamente a quem se referia quando falava de pardos. presença feminina branca no mercado de trabalho assalariado como tendo de alguma forma contribuído para uma maior demanda por serviçais domésticos africanos. quando fala de africanos. para 16% em 1928. não se pode descartar a crescente. passou a empregar um quarto de todos os trabalhadores. donas de casa. passando de 33% em 1912 para 39.

os indo-portugueses. Repartição Técnica de Estatística. os mixtos. 151:7. Imprensa Nacional. 68% dos padeiros quando em 1912 eram 33%. os africanos tornaram-se também o maior contingente de artesãos. em 1912. sob a designação de pardos. em 1928 já representavam 77% das pessoas ocupadas com tal atividade e. me arrisco a pensar em comparações ao menos no que tange aos grupos raciais identificados pretos ou africanos e brancos ou europeus nos quais notamos as maiores alterações. ferradores. contra 23% em 1912. pp. mas há uma crescente presença de africanos. ultrapassando assim a soma dos indo-britânicos. por fim. entretanto.4. Os africanos ingressaram também em profissões dominadas pelos brancos e nas quais não havia um único negro em 1912. Censo da População em 1940 . relojoeiros e condutores de automóveis. tendo crescido de uma participação de 13. muito embora a maioria destes descendessem de casais mixtos. Embora temeroso. menos de 4% da força de trabalho empregada nas atividades administrativas e comerciais era constituída por ne- 613 O Censo de 1940 traz interessantes quadros da mestiçagem na Colônia classificando os mixtos por grupos de idade e segundo as raças dos pais e mães.7% em 1912 para 38. não sem oposição e tentativas de reserva de mercado por parte dos brancos614.População não indígena. Passaram a representar cerca de 43% dos ferreiros. indo-portugueses e mixtos que. nesta altura. em virtude das variações de critérios acima apontadas. surgindo até ourives negros num mercado controlado pelos indobritânicos. 221 . popularmente conhecidos como baneanes. os europeus na verdade são os brancos. 1942. os indo-britânicos seriam os hinduístas. eram em sua maioria goeses católicos. de maneira inexplicada. nenhum africano foi arrolado como agricultor. músicos. 94% dos carroceiros contra 43% em 1912.I . Conforme apontei acima. Lourenço Marques. como a de cortadores de carne. O trabalho voluntário aos chineses. já que a miscigenação se dava em múltiplas combinações. seguidos dos filhos de pais brancos e mães negras613. Este crescimento dos negros na participação da força de trabalho ativa ocorreu em todas as categorias nas quais reuni as profissões: em 1912. o caso mais complicado. Colónia de Moçambique. cerca de 35% dos sapateiros contra os 7.5% em 1912 e dominavam completamente as profissões de vassoureiros. Estes ainda continuaram a ter hegemonia em profissões como a de alfaiate e sapateiro. o que inclui não só europeus mas também os nascidos na América e. cesteiros e esteireiros. estavam na dianteira em 1912.5% em 1928. nos dezesseis anos que separam os dois Censos. envolvendo pais e mães de todos os segmentos utilizados pelo Censo.

quase dobraram sua participação. ainda que timidamente. dois terços dos cobradores e 98% dos guardas. algumas permaneciam firmemente entregues aos brancos como a de maquinistas e telegrafistas. um negro tornou-se fiel de armazém e outro manteve-se como despachante alfandegário. a participação negra diminuiu a favor do segmento branco. ascendendo a 43. Mas este alargamento do espaço não se deu em todas as profissões especializadas.4. enquanto que em outras. Entre 1912 e 1928 também cresceu. somavam quatro vezes mais que aqueles. ainda que estivessem colocados nos cargos mais baixos da hierarquia profissional: passaram a representar 85% de todos os contínuos. o número de eletricistas negros ultrapassou. 11/04/1917. os quais passaram igualmente a representar 43% dos tipógrafos e. porém. O trabalho voluntário gros. bem como curtidores de pele e cigarreiros. os negros aumentaram a sua participação em mais de uma dezena de profissões. funções inexistentes em 1912. o de pescadores chegou a 70%. o número e a participação percentual dos africanos proprietários e comerciantes. este percentual saltou para mais de 12%. são majoritariamente ocupadas por negros. Entre os trabalhadores especializados. Em 1912 os africanos representavam somente cerca de 8% de todos os empregados pelas diversas repartições públicas e. conseguiram tornar-se empregados de escritório com participação em cerca de 7% desta área dominada pelos brancos (65. o número de brancos nesta profissão. Lourenço Marques. Em 1912 os dados referem-se ao tipo de repartição. cresceu o número e sua representação percentual entre os pedreiros (26%). e em 1928. consoante a seguinte hierar- 614 O Africano.3% do total de funcionários. em 1928. conforme acima já tratei. referem-se à relação empregatícia mantida com o Estado. se adicionarmos os mixtos que desenvolviam esta atividade. mas o que aumentou de maneira acentuada foi sua participação como força de trabalho doméstica. em 1928. os africanos passam a representar 53% da categoria. contava com carpinteiros negros cujo número era o dobro do representado pelos chineses que. ainda que representassem somente 7% deles. nas quais estes representavam mais de 85% desde o censo de 1912. Nas atividades um pouco mais cotadas como caixeiros de balcão. em 1928. 222 . como a de marítimos. de serradores a 83% e o de pintores a 87% de toda a categoria. que. e principalmente no setor do serviço público. este número mais que quintuplicou.7%) e indoportugueses (21%). em 1912. pela primeira vez. surgiram impressores e encadernadores. em 1928.

formadas por capitais ingleses e sul-africanos e. 616 Ver protestos contra tal prática em O Brado Africano de 19/01. definitivamente. o Estado tomou para si. estas situavam-se nas categorias mais baixas. cx. na categoria de assalariados.1%. Ver.1% das vagas e os africanos 30. 223 .Administração.4. onde se enquadravam os trabalhadores braçais a serviço do Estado e onde os salários eram mais baixos.199 de 06/12/1928. como uma categoria à parte. ou seja. Em 1929. está a categoria dos nomeados. e tratando-se não só dos melhores cargos mas dos que tinham uma relação de estabilidade com o empregador público. todas as atividades do complexo ferro-portuário. passou a utilizar no porto e caminho de ferro grande quantidade de trabalhadores chibalo. 615 Criados respectivamente pelos decretos 12.2% e. a seguir a dos assalariados. que aos indígenas era garantida a plena liberdade de trabalho e de celebração de contratos para tais fins. contrariamente à legislação anterior. pior remuneradas e mais instáveis. enquanto que os brancos representavam 34. posto em vigor pelo decreto 16. o Código de Trabalho dos Indígenas das Colônias Portuguesas de África. as empresas que operavam na área eram. na mais instável delas.cartas do Grémio Africano de Lourenço Marques para o Secretário de Negócios Indígenas de 23/03 e 29/04/1929. este controle sobre o complexo ferro-portuário acabou significando o inverso: o Estado que geria o processo de requisições de trabalhadores através dos administradores de circunscrições. até então.5%. neste mesmo espírito. os africanos constituíam 88.4%. ou seja. embora no período de dezesseis anos entre 1912 e 1928 tenhamse ampliado as vagas no emprego público para africanos. como é o caso dos contratados para carga e descarga no Porto. generalizaram-se rusgas pelo interior e subúrbios de Lourenço Marques gerando o pânico e a insegurança616. 26/01/1929. Secção A . os aposentados. pressionando mais uma vez os salários para baixo e restringindo a oportunidade de emprego para trabalhadores voluntários. Para obter a demanda cada vez maior deste tipo de força de trabalho. 69 . No topo desta hierarquia os europeus ocupavam 62.6% e os europeus somente 10. aos quais o Estado teria que pagar mais ___ ___ cerca do dobro que aos chibalos615. a de contratados. ainda que o Estatuto Político. Civil e Criminal dos Indígenas de Angola e Moçambique de 1926 e seu sucedâneo de 1929. O trabalho voluntário quia: em primeiro lugar. 29/04/1929 e AHMDSNI. os reformados. na seqüência da onda nacionalista advinda com a implantação do Estado Novo em Portugal. majoritariamente. os africanos chegavam a 56.473 de 06/02/1929. estabelecessem. uma vez que. depois os contratados e.533 de 23/10/1926 e 16.

os brancos. para cerca de 39% em 1928. verificaremos que este segmento cresceu cerca de 14%. mixtos incluídos. não seria um argumento suficientemente forte para deitar abaixo minhas afirmações de que o período foi marcado pelo crescente racismo contra a maioria negra e mestiça? Na verdade. a população da Cidade cresceu cerca de 44%.4. Estas cifras nos indicam que o ritmo de crescimento da população branca foi. sua população reduzida em 16%.5%. ultrapassando o da própria cidade. o ritmo de crescimento da população total e o de cada um dos segmentos raciais: neste período de dezesseis anos. Se considerarmos que os pardos. O crescimento da participação dos negros no mercado de trabalho e a redução de tal participação dos brancos não seria um indício de democratização social e. o dos colonos brancos? No período considerado. assim poderia ser. ao mesmo tempo. o maior dentre todos os segmentos raciais. as que exigiam alguma qualificação. neste caso. embora tenha crescido no mesmo percentual do crescimento populacional da cidade. os pequenos colonos. ou seja. estavam diminuindo em decorrência da crise e da mecanização. Assim. embora minoritária. além do mais. passando de 67%. Trata-se da variação 224 . O trabalho voluntário Mas o que ocorreu com o outro segmento racial. a sua participação percentual na força de trabalho ativa de Lourenço Marques diminuiu em todas as categorias profissionais. de 1912. já os amarelos diminuíram não só percentualmente no conjunto. para 24. como tiveram. em 1912. É preciso considerar. fazendo com que ódios ancestrais emergissem com maior força e vigor. embora também tenha diminuído seu percentual frente à população total. passaram a pressionar. Há uma outra variante que considero não ter deixado de sugerir sua ação no processo de composição da força de trabalho e de disputa pelas vagas para trabalhos não-braçais. no acesso aos empregos. em números absolutos. teve diminuída sua participação na população total. em 1912. de maneira mais radical. de longe. como veremos abaixo. seriam os indo-portugueses e indo-britânicos de 1928. A população africana. cresceu 62% e ampliou de 21. cada vez mais. Esta situação passou a opor. e que representou também o único segmento que aumentou o seu peso no conjunto da população. senão por exclusividade. aos africanos.1% seu peso na população total da cidade. entretanto deve-se observar que a entrada no mercado de um número maior de trabalhadores negros e mestiços com alguma especialização acirrou a disputa pelas vagas que exigiam o mínimo de qualificação que. na maioria com baixa formação profissional. por privilégios. mas a população branca.

6% e os segundos 19%. os primeiros passaram a representar 57. de maneira inequívoca. a disputarem vagas no mercado de trabalho privado e postos nos escalões mais baixos do funcionalismo público. Talvez seja ainda mais importante atentar para o ritmo em que estas alterações se processaram: enquanto neste período de dezesseis anos a população branca cresceu cerca de 62%. tomando-se o conjunto da população urbana. entravam em choque com os colonos brancos que consideravam postos como o de escriturários. em 1912. por isto. Mas qual o sentido em desfiar este longo rosário de cifras? Elas dão segurança para se afirmar. surpreendentemente.4%.2% de todos os alfabetizados da cidade e que. o índice de alfabetizados em seu seio cresceu cerca de 70%. que o período foi marcado por dois movimentos simultâneos que geraram conflitos e antagonismos: de um lado os brancos ampliam sua presença proporcional no conjunto da população urbana e. Há que se considerar ainda que parte do crescimento da força de trabalho negra se deu para atender à demanda de consumo por parte de outros negros empregados assalariados. O que temos então? O percentual de pessoas que os Censos consideraram alfabetizadas. os brancos representavam 53. mas enquanto a população urbana crescera 44%.4. qualificação que embora mínima. embora o Censo só aponte um estudante negro e oitenta e um mixtos num universo de 486 pessoas617. Frutos do contato urbano com os colonos e sua cultura. não sofreu grandes variações: em 1912 cerca de 29. novos gostos e valores no vestir e calçar pediam roupas confeccionadas e não somente capulanas. por outro. tornava-os aptos a reivindicarem oportunidades. quer no conjunto da cidade. inevitavelmente.4% e os negros 11. apesar da precariedade do ensino. já a população negra cresceu somente um terço enquanto que.3% eram alfabetizados e em 1928 este índice ascendeu a 32. novos pala- 617 Ver mais detalhes acerca da educação no capítulo 9. o número de seus membros alfabetizados multiplicou-se por duas vezes e meia. no período. O trabalho voluntário no crescimento de alfabetizados. o número de alfabetizados na cidade cresceu 58%. Se acrescentarmos os mixtos teríamos os africanos representando pouco mais de 26% da população alfabetizada da cidade. em 1928. caixeiros e outros. como uma espécie de reserva de mercado. bem como ampliarem sua presença no mercado de trabalho e. quer para cada um dos segmentos raciais. há um crescimento proporcionalmente maior de negros e mestiços alfabetizados. Interessante é verificar que. 225 .

graças ao tirocínio e à arte. se não eram tão luxuosos como os utilizados pelos brancos. porém utilíssimos. uma profissão artesanal que emergia na Colônia como resultante das demandas criadas com a colonização e que. vivia nas franjas da produção industrial. A profissão de funileiro é paradigma desta situação. majoritariamente. além dos produtos e profissões artesanais seculares como a de esteireiros e cesteiros ___ que certamente existiam mas não foram levadas em conta pelo Censo de 1912 ___. mais sofisticado. pratos. e. praticidade e resistência. cuja aquisição exigia somas maiores. sapateiro. instrumentos e utensílios domésticos: bacias. eram negros. como se sabe. transformando-as numa infinidade de pequenos. por conseguinte. uma vez que todos os vinte e cinco funileiros. certamente não deixavam de ter como sua principal finalidade atender aos membros de seu próprio segmento. baldes. relojoeiro. carroceiro. surgiram negros dedicados a profissões como as de alfaiate. cumpriam adequadamente as funções a que se destinavam. vendedor ambulante. lamparinas. candeeiros. do lixo produzido pelo consumo. panelas. por serem frutos da reciclagem de embalagens de produtos industrializados oriundos. além. trata-se da arte de trabalhar folhas e chapas finas de metais variados. ralos. O trabalho voluntário dares pediam o pão. até mesmo garfos e facas. eram cerca da metade dos empregados públicos e dos empregados em tarefas administrativas e comerciais e constituíam dois terços dos estudantes e dos pro- 226 . ferreiro. quer da iniciativa privada. em 1928. eram baratos. existia como um subproduto desta mesma colonização e parecia ter nascido e ser uma profissão autenticamente local. que embora pudessem atender a pessoas de outros segmentos raciais. ferrador. quer do funcionalismo. representavam mais de um terço dos trabalhadores especializados e dos comerciantes. que dão nome à profissão. da população branca. cobrador. assim. canecas. nova relação com o tempo popularizava os relógios e. Todos os setores que reuniam as profissões mais importantes na hierarquia sócio-profissional. padeiro. é claro. continuavam a ser apanágio de brancos: embora representassem menos de um quarto de toda a população. de funis. além de reunirem características que os utensílios de barro e madeira não possuíam.4. A funilaria constituía. Tais mercadorias facilmente encontravam mercado pois. tais como durabilidade. cortador. É preciso sublinhar ainda que o crescimento da participação de negros e mixtos no mercado de trabalho urbano não quer dizer que os brancos tenham deixado de exercer o controle sobre o mesmo.

28 1929 69 1. cujo fôlego.28 nd nd nd nd nd nd 06 0. advogados. dentistas. A crise de 1929. ou mais de três quartos dos condutores de elétricos.5 1932 363 2.0 07 1. Os dados da tabela abaixo mostram esta curva crescente de desempregados por segmento racial: Desempregados em Lourenço Marques. telegrafistas. gerentes de empresas e ainda somavam em torno de. Africanos N Ind.4. dos fiéis de armazém. conforme indicam os números dos anos subsequentes618. 14/01/1928 e Anuá- 227 . engenheiros. O Brado Africano. N Ind. agrimensores. durou somente três anos e não permitiram que a Colônia. ocupavam não só a cúpula.57 1931 159 3. 1927 189 nd 24 nd 14 nd 1928 47 0.46 10 2.02 Os números relativos a 1927 foram publicados pelo O Brado Africano. intimamente atrelada que estava aos interesses da indústria mineira. o que nos leva a perguntar se a grande queda nos números de desempregados. e dos anos que lhe seguiram.* N Ind. dos despachantes.05 99 7. e. assim como cerca de dois terços de todos os empregados de escritório. como também eram brancos cerca de nove em cada dez marceneiros. É preciso atentar que os 618 Esta incerteza quanto a fidelidade dos números realtivos a 1927 levou-nos a tomar como parâmetro os de 1928.07 1933 406 1.97 20 3. os demais foram obtidos a partir de publicação oficial. o crescimento do emprego teria sido resultante do impacto imediato das medidas nacionalistas levadas a cabo pelo Estado Novo. Todos os construtores.97 104 1. dos médicos. Os dados referem-se à situação em 31/12 de cada ano.6 04 0.11 98 0. segundo raça .22 50 0. O trabalho voluntário fissionais liberais e em cargos de direção e supervisão.86 569 2.58 193 3. saísse ilesa da tormenta que abalava a economia mundial.94 614 1.43 50 0. um aumento do desemprego. provocou uma forte estagnação nos negócios da cidade e. neste caso.05 1934 176 0. que informou tê-los recebido da Repartição de Estatística. guarda-freios. por conseqüência.57 06 0.47 297 1. se deve a erros de publicação. 49 nd 14 0. Como já dissemos.1927-1935 Raças Europeus Indianos Mixtos Anos N.07 289 0. banqueiros. maquinistas ferroviários. contramestres. maquiagem contábil ou se são reais. mas a maioria dos melhores e mais estáveis cargos públicos.01 *índice de variação em relação ao ano anterior.16 01 1 Total N Ind 276 nd 70 0.51 62 0. entretanto. em 1928.94 63 1. Ind.75 1930 40 0.42 06 1 01 0.33 14 3.2 04 0.05 47 0.25 86 1.59 1935 186 1. dos agentes de empresa. oficiais da marinha mercante eram brancos.24 05 0.28 101 5.

em sua maioria brancos. e onde o impacto da crise foi maior. como nãoindígenas. o índice de desemprego entre os brancos era cerca de oito vezes maior do que o registrado em 1928. Isto nos indica claramente que. como se fizera anteriormente. 1932/33. a crise não os atingia com a mesma intensidade e esta conjuntura fazia com que o racismo já existente ganhasse maior amplitude e fizesse com que os empregadores. ano imediatamente anterior à crise de 29. entre os indianos ele era cerca de vinte vezes mais elevado e entre os mixtos chegou a ficar vinte e seis vezes mais alto. 17/04/1926. entretanto. Lourenço Marques. e não refletem necessariamente o número total de desempregados na cidade. pois os números apontam os poucos africanos considerados. o desemprego disparou e atingiu seu ápice em 1933. Dos indígenas. à luz da legislação. O que mais chama a atenção é a possibilidade de decompor estes números de acordo com os vários segmentos raciais. O trabalho voluntário números se referem aos desempregados registrados junto à Repartição de Estatística. Enquanto que nos anos mais graves da crise. Não tenho como asseverar. Note-se que nenhum amarelo foi arrolado e que não há a tradicional distinção entre indo-portugueses e indo-britânicos. à administração privada e pública e ao setor ferro-portuário. por exemplo. que atuava como central de emprego. 228 . por ocasião da greve dos ferroviários de 1926619. 619 O Brado Africano. por serem estrangeiros. Em termos absolutos. os brancos eram maioria entre os desempregados registrados e isto certamente deve-se ao fato de que eram eles também os que ocupavam parte expressiva dos empregos ligados ao comércio. os mais importantes da cidade. igualmente. entretanto.4. embora tenham. A partir de trinta. privilegiasse outros brancos em detrimento dos não brancos. quando os números chegaram a ser cerca de nove vezes mais altos do que os de 1928. particulares ou públicos. usado o fantasma do desemprego para comprimir salários e controlar as reivindicações também dos operários brancos. Imprensa Nacional. tornou-se agudo nesses anos de crise. O confronto pelo emprego que já se fizera observar em momentos anteriores. mas é possível que tanto os amarelos quanto os indo-britânicos (monhés) mantiveram-se ou foram mantidos à margem do registro. mas não envolveu dire- rio Estatístico da Colónia de Moçambique referentes aos anos de 1929 e 1935. apesar de todos estarem submetidos aos seus efeitos. cuidava a Secretaria dos Negócios Indígenas e para estes. particularmente no que tange à categoria africanos. admitir o próprio desemprego significava tornar-se candidato virtual a sanções que iam do engajamento no trabalho forçado à prisão. 1930 e 1936 respectivamente. o crescimento do índice de desemprego foi maior entre os indianos e mixtos.

promovia o enfraquecimento da coletividade e. 04/06 e 10/09/1927. O Brado Africano. como demonstra um anúncio publicado em abril de 1927 pelo O Brado Africano.4. também não a sabiam. a disputa pelos empregos prosseguia. os negros e mixtos. contra-argumentando que tantos uns quanto outros eram tão portugueses quanto os metropolitanos e que. Como não podia deixar de ser. opôs sobretudo. de um lado. quer os profissionais fossem brancos ou negros. nascidos em Portugal. além do mais. 229 . muitos dos colonos. os indo-portugueses. as frustrações e as esperanças das pessoas e grupos sociais envolvidos em sua luta quotidiana. contra os pequenos colonos e funcionários brancos. sendo o sintoma alarmante de alienação mental621. embora não o devessem ser. Antes mesmo da ocorrência da Crise de 1929. a imprensa mostra-se como uma fonte privilegiada para compreender esses conflitos. se não falavam a língua portuguesa. que tinha publicado nota contra o predomínio dos negros e indo-portugueses na construção civil. com domínio e manejo da língua e dos referentes culturais do colonizador. para ali declararem suas habilitações e o tempo em que se achavam em tal condição620. que se encontravam desempregados. trabalhadores braçais. conclamando sócios e não sócios do Grémio Africano. Infelizmente não encontramos mais referências para saber se esta conclamação atraiu aderentes ou se o Grémio reverteu tal lista em alguma ação concreta destinada a minorar o desemprego. até mesmo. menos preparados profissionalmente que aqueles e. muitas vezes. alfabetizados. pois refletia de forma direta e desabrida os anseios. A prática de excluir os africanos dos benefícios estendidos aos europeus é exemplar no que tange aos enfermeiros negros. 09/04/1927. acrescentava. O trabalho voluntário tamente os indígenas. o jornal criticou a atitude de O Emancipador. as expectativas. mas os enfermeiros negros eram considerados indígenas. Esta prática de tentar excluir os não brancos era tida pelo O Brado Africano como “uma comédia representada por péssimos actores”. traía a Pátria. No mês seguinte. analfabetos. como um ato que semeava a discórdia na nação. com alguma especialização e agora aliados ao seus antigos inimigos. não raro. a culpa não era deles e. Exigiam-se os mesmos conhecimentos. conforme denunciava O Brado Africano em 1927. De qualquer a forma. já que a lei classificava como tal aqueles indivíduos que “não se distinguiam 620 621 O Brado Africano. o desemprego já era preocupante.

4. A Repartição de Saúde. então. 22/01. enquanto aos enfermeiros negros pagava-se somente £. £. o PCFLM abriu inscrições para recrutar operadores de guindastes e estabeleceu. 23/07 e 17/09/1932 O Brado Africano. o que não era o caso dos enfermeiros. declarassem que não eram assimilados e que eram “indígenas e seguidores dos ritos do comum da sua raça”623. entregadores e estivadores de cargas. mas a lei era simplesmente ignorada e aos enfermeiros brancos recebiam. quando a administração do Porto e Caminho de Ferro de Lourenço Marques (PCFLM) editou uma Circular. O trabalho voluntário do comum da sua raça”. além de contra-marcas e capatazes. 17/03/1928.12 e mais nada. em visita. Já em outras vezes a discriminação era explícita. que consistia tal prática622. mensalmente. da imensa maioria dos indígenas. em 1932. Armindo Monteiro. entretanto. 29/01 e 05/02/1927. 230 . seus efeitos suspensos. mas para dar amparo legal à prática discriminatória: a partir de 1933 passou a exigir que os negros. como ocorreu. o juiz 622 623 O Brado Africano. denunciando o Estado. portanto. antes de serem admitidos nos cursos de enfermagem. de quem se exigia não só o conhecimento da língua portuguesa como também habilidades e qualificações específicas que os distinguiam. novamente. o Grémio Africano. Situações semelhantes já tinham levado O Brado Africano a dedicar vários artigos. Uma artimanha para impedir que os negros e mulatos tivessem acesso ao empregos públicos era a exigência que se fazia aos interessados para que apresentassem um certificado de serviço militar. A direção do Grémio Africano foi ter com o Governador Geral José Cabral e este assegurou não ter dado instruções para a referida Circular. mas não por muito tempo. diante destas pressões. 02/07/1927 e 04/03/1933. tinham. 624 O Brado Africano. O jornal não cansava de denunciar tal situação e.25 além de regalias. como os nascidos na colônia eram isentos e não possuíam tal documento. agiu não para suprimir tal tratamento disparatado. a Moçambique. como passagens gratuitas para os próprios e seus familiares. quando foi recebido em audiência pelo Ministro das Colónias. estipulando que todos os arrumadores. 625 O Brado Africano. Em 1929. Julgava que este último deveria ser o árbitro. como pré-requisito. deveriam ser portugueses europeus e somente a estes seriam passadas cédulas de trabalho. vedada sua participação nos concursos públicos624. que teve. que os candidatos fossem brancos e de nacionalidade portuguesa625. apresentou-lhe a flagrante ilegalidade. em 1927. obviamente.

no 20 de 24/05/1930. por mais tempo e mais barato do que os brancos628.Lourenço Marques . dois terços das vagas deveriam ser preenchidas por operários de nacionalidade portuguesa. Mas o que caiu como uma bomba na cidade foi a postura municipal. fazendo retroceder as conquistas obtidas no mercado de trabalho por parte dos negros. pois o Governo não levava em conta os direitos de igualdade entre metropolitanos e coloniais.3%) e os dez mixtos (11. mulatos e indo-portugueses durante as duas décadas anteriores.4. das quais. O trabalho voluntário imparcial. mesmo de profissões braçais como a de estivador627. ou seja 72%. # Uma outra profissão em que os brancos queriam retomar posições era a de motorista. deveriam ser reservadas para brancos629. em carta enviada ao O Brado Africano. que procurou dar base legal para a criação de uma reserva de mercado aos brancos. ao fixar a obrigatoriedade de que. ignorando os valores individuais e preferindo “classificações artificiais feitas de ódio e doutras fraquezas que não facilitam o progresso das raças nem as felicitam. contesta tais alegações. 629 Publicada no Boletim Oficial.”626 Quanto mais a situação do desemprego se agravava. no mínimo a metade. argumentando que os motoristas nativos eram mais cuidadosos. Como não temos dados para 1930. conforme o quadro abaixo: Distribuição profissional na construção civil . menos sujeitos às doenças e portanto podiam trabalhar melhor. queriam expulsar os onze negros (12. 05/05/1928. Ver também a tentativa de restringir a presença de motoristas não brancos em O Africano. sessenta e quatro das oitenta e nove vagas. obtidas pelo Censo de 1928. O Brado Africano.2%) sob o argumento de que estes eram os causadores do grande número de acidentes rodoviários que se verificava na Colônia. 628 O Brado Africano. as informações acerca da distribuição profissional na construção civil. votada pela Câmara. previstos em lei. consoante os segmentos raciais. com algumas restrições. em todas as obras de construção civil. e não o principal incentivador de discriminações e atos de exclusão racistas. Um motorista negro. Não contentes em ocuparem. mais os trabalhadores brancos queriam expulsar os negros e reconquistar terreno. 19/01 e 29/06/1927. mais aptos ao clima. 05/04/1930. 231 . conforme aponta o Censo de 1928.1928 Raças Profissões N Total % Europeus N % Africanos N % Amarelos N % Indo-Brit N % Indo-Port N % Mixtos N % 626 627 O Brado Africano. 11/04/1917. vamos tomar como referência.

Luiz V.3 25 7 10 42 7. amarela e negra”. legalmente portugueses.0 86. mas sim para os portugueses brancos já que.8 8.5 100 18. Álvares. esta proporção se manteve. O trabalho voluntário Carpinteiros Aprend.4 14 0.1 64 64 18. feitas as pazes. coarctava a liberdade de trabalho para os operários coloniais de “cor parda. polemizara virulentamente em defesa dos goeses. ela estava voltada. tais discriminações. em 1928. um amarelo.1 50.3 100 21. que rompera com seu sucessor O Brado Africano e criara O Oriente de onde.5 2 3. 134 indoportugueses e 38 mixtos. que neste conjunto. ou cerca de 84% das vagas existentes. certamente.2 18 0. levando o desemprego aos lares dos trabalhadores “portugueses” de outros segmentos raciais.4.9 127 5 20 63 117 2 334 37. portanto. eles ocupavam 22% e.0 37.4 Como o quadro acima não nos apresenta as variantes que permitiriam relacionar profissão e nacionalidade vamos lançar mão das informações que oferece acerca de raças e nacionalidades630. às páginas de O Brado Africano para repelir com veemência. Teríamos então.9 134 2. ocupariam 650. na construção civil. A gritaria foi imediata.5 4. contra quem. ao instaurar uma “odiosa selecção de cores. 332 africanos. era garantir empregos não para todos os trabalhadores.3 100 41. que tinha sido antigo colaborador de O Africano. em 1930. Argumentava que a medida da Câmara instituía “uma regalia para uma casta branca na plena luz do presente século Democrático”.6 26. tão bons operários portugueses quanto os portugueses brancos e que. de maneira aproximada.3 4. Eletricistas Estucadores Pedreiros Pintores Calceteiros Vidraceiros Total 340 5 48 1 242 135 2 1 774 43. indo-português. mostrado pela tabela acima.0 8 2. voltava agora. aparentemente. O objetivo oculto.3 14.6 6. com a medida aprovada.4 1. no princípio da década.2 122 1.1 1 31. das vagas existentes.6 100 43. condenada pelos comícios e pela República” tal medida tornava-se inconstitucional por contrariar o princípio da igualdade entre os cidadãos portu- 630 É preciso observar também que. teriam asegurados para si reservada o dobro da fatia do mercado de trabalho que ocupavam. os trabalhadores considerados como de nacionalidade portuguesas seriam integrados por 145 brancos.0 2 1.2 44 17.Carp. parte dos profissionais listados trabalhavam nas Oficinas 232 .1 10.2 24 1 3 2 30 7.9 92 0.1 1 100 170 27.2 0.1 5.5 17. ou seja. em editoriais. Se. a citada medida da Câmara de Lourenço Marques não teve impacto sobre os estrangeiros.

que conseguiu com uma dívida ou como fruto do seu trabalho”632. Os trabalhadores brancos. decente e baratíssimo feito pelos nativos desta colônia ou Indo-portugueses”. perguntava-se. além do mais. 631 Vã ilusão. sintomaticamente. comunistas e socialistas?”633 Tais editoriais são verdadeiros exercícios de contorcionismo argumentativo: primeiro. 05/07/1930. pois considerava que “o Socialista é coerente em seu princípio igualitário de querer sol e chuva. ao final. se a Câmara obrigava um proprietário privado a empregar este e não aquele trabalhador. 09/08/1930. por que razão se deveria recusar “os colorados operários de nacionalidade portuguesa que fazem a ‘oferta de trabalho barato e muito melhor’” e empregar os operários brancos portugueses cujos salários eram elevadíssimos e que muitas vezes eram homens “incompetentíssi-mos com agravante de alguns deles terem cérebros eivados de idéias anarquistas. Ora. o editorialista. O Brado Africano. foi elaborada em nome dos Caminhos de Ferro e não diretamente na construção civil. isto constituía uma violência contra a propriedade privada e. teriam “escrúpulos em sua consciência para a aceitação de tal benefício exclusivista”. e o autor rapidamente assestou suas baterias em outra direção: a dos proprietários. por serem cidadãos de uma “República Fraterna e Democrática” ou por serem socialistas. digno. para colorados e brancos”. também coarctava a liberdade do proprietário de “proteger seu capital. os ideais socialistas seriam os aliados. 631 233 . Liberdade do trabalho era por Álvares concebida como indissociável da propriedade privada e qualquer restrição à primeira significaria fortes ataques e perdas à segunda. O trabalho voluntário gueses.4. 21/06/1930. acreditava. Segundo o editorialista a medida camarária. daí comparar a medida da Câmara às medidas comunistas e socialistas que queriam ver destruídas a liberdade de propriedade. esses mesmo ideais tornaram-se os fantasmas. constituiriam os laços que amarrariam a solidariedade de classe contra a discriminação e. diante de sua inexeqüibilidade. que os operários portugueses brancos. Tais editoriais contra a manutenção da postura municipal acabaram por suscitar uma representação ao Governo Geral que. ao limitar o emprego “bom. para o articulista. para santos e pecadores. contra os quais era preciso lutar e cuja ameaça era apontada na busca de aliados para por fim à situação de exclusão. fizeram-se de surdos a tais apelos à consciência e à solidariedade. 633 O Brado Africano. principais beneficiários da nova lei. Ingenuamente. 632 O Brado Africano.

“esses homens ___ ___ ao contrário do que nos querem fazer acreditar a maioria sem profissão e sem meios de vida. Mas não foram somente vozes goesas que protestaram contra a situação. os principais contribuintes. reivindicava que. que cursavam as mesmas escolas que seus colegas europeus. ou se excluíram. que procurava descrever com exemplos a situação a que estavam sendo submetidos os africanos: as repartições públicas estavam pejadas de funcionários europeus e excluíam os africanos. 234 . torciam os fatos636. Se no início dos anos vinte. apelava aos seus conterrâneos para que não tornassem os seus filhos vítimas de sua inércia. ou seja. e cujo salário inicial era três vezes maior do que o de um africano com cinco ou mais anos de casa635. fixados em 634 635 Foi publicada integralmente e ocupou quatro colunas da edição de O Brado Africano de 25/10/1930. os enfermeiros africanos. com o advento da República. mas sim [vêem] avolumar mais a miséria. de participar de tal iniciativa634. Edmundo Benedito da Cruz. um negro assíduo colaborador de O Brado Africano. uma simples falta. em menos de dez anos tal sonho ruía como um castelo de cartas como reafirmava um articulista ___ ___ Chico. O Brado Africano reclamava que. daí. alguns ainda acalentavam a ilusão de que a presença dos brancos traria algum benefício. os demais trabalhadores colorados tinham sido excluídos. de Quelimane . o que dispensaria o recurso a intérpretes que. durante a polêmica com os goeses. servia de pretexto para que os patrões despedissem os africanos. os vencimentos dos professores das escolas rudimentares. que conheciam a língua local. O Brado Africano. na Colônia. emigrantes da Europa e da Ásia o que só fazia piorar a sua situação. ainda que este tivesse que aprender o ofício ou arte. restringira-se ainda mais o acesso aos cargos do funcionalismo e. 05/07/1930. pois dia a dia crescia o número de metropolitanos que vinham à África em busca de emprego e. não raras vezes. O trabalho voluntário dos “portugueses de Diu” e contava com 190 assinaturas desses. por mais insignificante que fosse. pelo menos na Secretaria dos Negócios Indígenas e nos serviços administrativos que tinham contato com o público. não trazem nenhum benefício a África.4. “já de si desgraçada”. segundo afirmava. argumentava. falando em nome dos africanos. pondo em seu lugar um patrício branco. Era preciso agir e reagir. barcos e mais barcos depejavam. quiçá a fome que grassa em muitos lares nativos” já que. recebiam menos da metade destes. deveria ser dada prioridade aos naturais.

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600$00 escudos, colocava “esta classe na mais degradante miséria”; nas Cias Zambezianas, privadas, punham-se na rua dezenas de africanos sob pretexto de economia e, em seu lugares, contratavam-se europeus com salários três vezes maiores; por fim, o articulista via, admirado e magoado que, “padres, que deixando de lado a doutrina de Cristo, que se baseia na igualdade de todos os homens, se entreteem em dividir raças dentro duma república democrática, semeando ódios entre filhos de uma mesma Nação.” Quando o autor escreve, entretanto, Portugal já não era, desde o golpe de 1926, uma democracia embora mantivesse, nominalmente, a forma republicana. O interessante é que o autor, ao concluir seu artigo, superou a prática de simplesmente atribuir tais males aos brancos; não pediu providências ao Governo, como era habitual, e terminou seu arrazoado enfatizando que, se esta situação se perpetuava era também por culpa de seus pares, “dos patrícios que nada faz[iam] pela união”, pelo fortalecimento dos Grémios Africanos de Quelimane, Lourenço Marques e Luso-Africano, da Ilha de Moçambique637. Mas nesta corrida aos empregos emerge uma outra categoria, além das tradicionais, negros/ mulatos/ africanos, indianos/ goeses/ monhés, amarelos e europeus/ brancos: a de naturais da colônia. O termo, tal como era usado na década de vinte, tinha um sentido difuso, embora, como era utilizado principalmente pelo O Brado Africano, este queria designar os negros e mulatos nascidos em Moçambique638. Acontece porém que havia um outro tipo de naturais da colônia que não eram negros nem mulatos: eram os filhos brancos dos colonos europeus que, em 1928, já representavam um terço de todos os brancos presentes em Lourenço Marques e, em 1940, já superavam um quarto dos brancos presentes em toda a Colônia de Moçambique639. Este grupo se encontrava numa situação sui generis, pois toda legislação colonial falava em europeus e não em brancos e, caso fosse estritamente observada, excluiria esta parcela de brancos das regalias concedidas aos nascidos na metrópole. Os dois termos, europeus e brancos, foram sempre tomados como equivalentes, tanto pelos próprios organismos oficiais, veja-se os casos

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O Brado Africano, 24/01/1931. O Brado Africano, 19/09/1931. 638 Ver por exemplo O Brado Africano, 17, 24/09/1921, 21/07/1928 e 24/01/1931. 639 Censo da População não indígena em 1928. Op. cit., p. 309:10 e Censo da População em 1940 - I População não indígena. Op. cit. p. xxix.

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dos Censos, quanto no dia a dia laurentino e, ao que pude apurar, a tentativa de dissociálos, e de definir quem seriam os naturais, só será uma questão posta em razão da crise dos anos trinta. Em dezembro de 1930 circularam pela cidade panfletos apócrifos, pedindo que o governo demitisse “os naturais da colónia” para dar seus lugares aos europeus, mas sem esclarecer de quem se queria tomar os empregos: se dos negros e mulatos, se de outros brancos640. Passados alguns anos, em fevereiro de 1933, foi realizado um comício para defender a preferência que deveriam ser dadas “aos naturais da Colónia na ocupação de cargos para os quais tenham as habilitações exigidas em lei”. Outra vez não se fica sabendo quem eram os naturais que participaram do tal comício, mas é de supor que o termo já não designava somente negros e mulatos, pois a Liga de Defeza e Propaganda da Colónia de Moçambique, que o Anuário de Lourenço Marques 1932, classifica como uma corporação política, enviou telegrama a Lisboa reivindicando que tal preferência fosse restrita aos naturais, filhos de colonos, e não aos naturais em geral641. Os negros e mulatos não ficaram calados e, através de José Cantine, então diretor de O Brado Africano, apelaram ao governo para que, na legislação que se pretendia elaborar para garantir certos cargos aos naturais das colónias, não fossem excluídos os “pretos instruídos e os mulatos” os quais, segundo o articulista, normalmente eram “excluídos não pela lei mas por uma política surda que parece existir contra o nativo” e que os levava ao desemprego. Terminava argumentando que todos eram filhos da Colônia, que se abrigavam sob a mesma bandeira, que falavam a mesma língua, compartiam os mesmos usos e costumes e que, por isto, achavam-se no direito justo de pedir que as leis de proteção dada aos “filhos da Colónia” saíssem sem restrições que “sempre envergonham a nossa nacionalidade.” 642 Foi uma batalha perdida. A cada dia, sob o Estado Novo, os negros e mulatos perdiam terreno de tal modo que em janeiro de 1935 foi criada a Associação dos Naturais da Colónia de Moçambique, congregando

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O Brado Africano, 13/12/1930. Clamor Africano, 25/02/1933. #O Clamor foi publicado somente por dois meses para substituir o O Brado Africano que havia sido suspenso por decisão do Tribunal de Relação devido a uma condenação resultante de uma querela movida por Marciano Nicanor da Silva contra Karel Pott, conforme noticiou o próprio Clamor, na edição de 31/12/1932. O Anuário de Lourenço Marques, de 1932, aponta em sua página 203, o seguinte quadro diretor da Liga: presidente: Ten-Cel. Viriato Lopes Ramos da Silva, vice-presidente: Dr. Alexandre Sobral de Campos, Sec. Geral: Acácio Augusto Pereira da Silva, Tesoureiro: Aníbal Duarte da Silva e os vogais: Vicente Ribeiro e Castro, Pedro Viana, Edmundo Kelvin de Magalhães Felipe, Carlos de Souza Ribeiro e Guilherme Shirley.

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apenas os filhos dos colonos brancos que, diante da crise, estavam cada vez mais convencidos de que, na prática, já vigorava uma distinção entre o que significava ser branco e ser europeu; afirmaram que estavam se sentindo como “portugueses de segunda”, tal como se sentiam os negros e mulatos e, pior, estavam sendo tratados como brancos de segunda. A disputa pelos empregos era tanta que até mesmo os mais baixos cargos eram cobiçados pelos brancos, como ilustra uma ordem de serviço emitida pela direção do Porto e CFLM, a qual revela que, já em 1930, europeus estavam se oferecendo e sendo contratados pelos agenciadores que operavam na Ponte-Cais, para trabalharem na carga e descarga de navios como se fossem trabalhadores indígenas. A direção do Porto, embora não explicite seus motivos, alerta que não fará pagamento por tal trabalho senão a indígenas. O Brado Africano resume a situação: o trabalhador branco não se importava em “passar por preto, conquanto que coma!”643. Nos anos que se seguiram, a diminuição do movimento marítimo em função da crise mundial, associada ao uso intensivo de força de trabalho chibalo, fez com que os trabalhadores voluntários, na área do porto, não conseguissem trabalho senão dois ou três dias por semana. A administração do complexo ferro-portuário procurou aproveitar-se desta situação e cortou cinqüenta centavos ___ $50 era o mesmo que $500 réis no padrão monetário antigo ou ainda uma quinhenta como se falava em Moçambique ___ do salário dos trabalhadores voluntários, que era, até então, de 12$50 escudos diários644. A atitude provocou, em 28 de agosto de 1933, uma paralisação que ficou conhecida como a greve da quinhenta. Os trabalhadores, que comiam em cantinas próximas ao cais, decidiram, após saírem para almoçar, que não voltariam ao trabalho enquanto não se restabelecesse o pagamento nas bases anteriores; e permaneceram reunidos nos jardins do mercado municipal, nos arredores do porto. As autoridades negociaram, prometendo o restabelecimento da quinhenta, mas o clima de descontentamento continuou, embora tenha havido o retorno ao trabalho na mesma tarde. Daí em diante, mesmo sob o protesto dos cantineiros, as autoridades proibiram os trabalhadores de saírem para comer, fechando as portas da Alfândega. Como o restabelecimento da quinhenta não ocorria, a 04 de setembro os trabalhadores ensaiaram

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O Brado Africano, 15/04/1933. O Brado Africano, 15/03/1930.

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novo movimento grevista, que abortou devido à pressão policial e ao medo de serem todos compelidos ao chibalo, e passassem a receber a metade do salário que recebiam como voluntários. Os patrões entretanto, com o apoio da Secretaria dos Negócios Indígenas, aprofundaram o arrocho salarial sob a alegação de que não tinham trabalho suficiente e lançaram mão do expediente de empregarem mulheres voluntárias, pagando-as à razão de 5$00 por dia, ou seja, até menos do que se pagava aos trabalhadores chibalo645. O Brado Africano, que no passado já tinha dito não apoiar as greves, mas concordava que estas eram inevitáveis porque ainda não se inventara outra maneira dos trabalhadores reivindicarem os seus direitos, assim se manifestou diante da questão indígena que por vezes agitava a África do Sul e que, vaticinava, havia de em Moçambique aparecer: “Bom seria, irem pensando muito bem no que acontecerá amanhã, quando o preto estiver mais unido, instruído e conhecendo os seus direitos e deveres, que cheios de razão e com a barriga vazia, se encontrem frente a frente com os patrões da Ponte Cais, agaloados, bem comidos e cheios de dinheiro.” 646

Estava explícito neste alerta a certeza de que os desmandos e miséria criados pelo colonialismo levariam os trabalhadores a um novo patamar organizativo, que poderia vir a se constituir numa ameaça à ordem econômica e política. Aliás, este foi o último texto publicado com semelhante teor, não só porque, a partir de 1934, a censura salazarista passara a agir com rigor, mas porque o próprio jornal tomava posições políticas de alinhamento ao regime, que não comportavam mais tais análises. De qualquer modo, esta antevisão de O Brado Africano só se concretizaria quatro décadas depois e por outros meios. A greve da quinhenta se esvaziou, mas o descontentamento persistiu e na noite de passagem para o Ano Novo de 1934, nas áreas brancas da cidade, os “vivas” e o tilintar das taças de champagne silenciaram-se quando centenas de trabalhadores negros, aos gritos, irromperam atacando pessoas e bens que encontravam pelo caminho. Nada semelhante ocorrera desde a conclusão do domínio militar sobre a Colônia. A amplitude

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O Brado Africano, 09/09/1933. O Brado Africano, 28/10/1933.

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e o caráter de tal acontecimento ultrapassou seu móvel imediato
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a greve fracassada

e foi fruto do descontentamento generalizado e de acumuladas frustrações e humilha-

ções a que estavam submetidos sob o jugo colonial. Ocorrera na virada do ano velho como que a querer romper com as práticas vigentes e inaugurar uma nova era com o raiar do novo ano. A reação da população branca foi histérica e a da polícia extremamente violenta, como aliás já o fora em relação a outros protestos e incitamentos contra o cumprimento das leis647. O próprio O Brado Africano assustou-se com a manifestação e pôs-se em campo para, segundo dizia, desfazer mal entendidos, murmúrios e “balelas”, que corriam pela cidade, insinuando que os indígenas queriam a expulsão dos brancos, o que só contribuía, na opinião do jornal, para que os governos olhassem “com olhos de desconfiança o pobre negro”. O artigo em questão, escrito por José Cantine, significativamente, intitulava-se “Sem o branco não podemos passar” e afirmava que devido a “este pequenino acontecimento praticado por ‘mufanas’, toda a gente que tem cabeça só para por chapéu ficou a supor que o preto quer sacudir-se do branco... Quem pode pensar tal coisa é só um doido tarado”, pois, dizia Cantine que o negro precisava e sempre precisaria do branco, para que este o educasse, instruísse e desenvolvesse a sua terra que, desde “Adão, jazeu inculta e abandonada, até que por graça do Espírito Santo os europeus resolveram em 1884, dividí-la entre si afim de desenvolvê-la e trazer o facho da civilização às populações negras” e, acrescentava, se os negros peticionavam por justiça, educação e desenvolvimento, era porque se tinha acertado, na mesma conferência, que cabia às potências coloniais oferecer tais coisas em sua tarefa de “conduzir os povos bárbaros do continente negro, à perfeição”. Numa leitura própria e enviesada da história colonial, Cantine afirmava que, nem mesmo naquelas colônias onde os negros gozavam de maior liberdade política, “nunca nenhum negro lembrou-se de insurgir-se contra o branco”, pois, afinal, o branco era necessário na África, e assim o seria “enquanto o mundo [fosse] mundo”, na medida em que possuía tudo o que era necessário ao bem

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O Brado Africano, 09/09/1933. Ver, por exemplo, o auto-crime e a proposta de desterro, entre 08 e 10 anos, a Marrameja ô Maérrula, cabo de terra de Morrumbene, Inhambane, que incitou ao não pagamento do imposto de palhota e à evasão. AHM-DSNI - Imposto de Palhota, pasta ano 1915 - Nota 566/141, Processo 216, do Governo do Distrito de Inhambane para Secretaria dos Negócios Indígenas, de 19/04/1915 e Auto-crime, anexo.

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estar do homem: “artes, instrução, educação, civilização, ciência divina, etc.” e, quanto às “idéias de independência, só [podiam] caber na cabeça dum preto inculto ou dum tarado”648. Se Cantine tinha ou não razão, se era ou não coisa de mufanas incultos ou produto da imaginação de mentes taradas, o certo é que a ditadura estado-novista acionou seu aparato policial, para impedir que este exemplo se propagasse e, a cada dia, apertou a vigilância, no intuito de controlar mais estritamente os homens e a expressão de suas idéias, tema que desenvolvo em capítulos mais à frente. Após a greve da quinhenta, passaram-se trinta anos até que nova greve viesse a ocorrer na Lourenço Marques colonial e já às vésperas do desencadeamento da luta armada de libertação nacional, em 1964; mas paralelamente às greves, os trabalhadores lançavam mão de uma série de táticas e iniciativas de sobrevivência649. Uma das mais interessantes destas práticas foi a dos trabalhadores da empresa concessionária dos serviços de limpeza pública e coleta do lixo, entre os anos dez a trinta. Eram nomeadamente da etnia chopi e criaram uma rede de vínculos pessoais mantendo, praticamente, o monopólio da tarefa de coletar o lixo das áreas urbanas brancas, mesmo sob o regime do chibalo. Devido às características do trabalho podiam, a seu critério, coletar o lixo o mais rapidamente possível e depois dedicarem-se a biscates diversos: jardineiros, lavadores, etc. Como os padrões de consumo eram diferentes, nem tudo o que era lixo para os brancos também o era para a população pobre dos subúrbios; os coletores, sabendo disto, retiravam do lixo recolhido objetos que julgavam passíveis de aproveitamento ou que necessitavam de pequenas reparações, e os vendiam nas áreas suburbanas da cidade. Inventaram também um sistema de gorjetas, segundo o qual cuidavam bem da recolha do lixo das casas cujos donos cooperavam, e tratavam com desleixo a dos demais. Quando a empresa queria estender a jornada de trabalho ou a área de recolha, sabotavam a coleta, deixando lixo cair pelas ruas, o que provocava reclamações dos moradores brancos à municipalidade, que multava ou ameaçava com o rompimento do contrato a empresa concessionária do serviço650.

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O Brado Africano, 03/03/1934. JOSÉ, Alexandrino Francisco. A greve dos carregadores da estiva do porto comercial de Lourenço Marques, em agosto de 1963, no contexto da luta de libertação nacional de Moçambique e alguns problemas na reconstrução da História do operariado moçambicano. tese de licenciatura apresentada ao Departamento de História da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, 1987, mimeo. 650 PENVENNE, J. History of African Labor..., Op. cit., pp. 162 e segtes.

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Ao longo das décadas e a partir da implantação do sistema ferro-portuário, que era o mais importante empregador de Lourenço Marques, os trabalhadores, consoante o tipo de atividade desenvolvida, buscavam com sua criatividade formas de contornar ou ao menos amenizar sua situação diante dos magros salários que lhes eram pagos. Quando estavam submetidos a turnos de trabalho com horário definido, procuravam trabalhar apenas no ritmo necessário para não despertar a atenção de algum supervisor mais rigoroso, mas não o suficiente para esgotarem suas energias durante o turno regular. Se estavam trabalhando por tarefas, procuravam realizá-las o mais rapidamente possível, para buscarem outras, ou possíveis horas-extras onde o trabalho era um pouco melhor remunerado. Caso soubessem que não haveria horas-extras, planejavam a distribuição do trabalho ao longo do turno para não se sobrecarregarem e, ao mesmo tempo, de maneira a não dar nas vistas dos sipaios e supervisores651. Nos longos quarenta anos sob os olhares vigilantes da polícia política da ditadura salazarista, o descontentamento teve de ser expresso sob formas mais difusas. Nas cidades, além destas formas cotidianas, o movimento associativista, de fachada cultural, a imprensa e a literatura passaram a ser os principais canais de expressão da parcela assimilada que revoltava-se contra sua condição, enquanto que no campo diversas manifestações de descontentamento e revolta foram eclodindo de maneira dispersa no território e com implicações distintas, embora, em geral, associadas ao cultivo obrigatório do algodão. Todas estas práticas de dominação política, de imposição de impostos, de expropriação de terrenos e, principalmente, o chibalo, o cultivo obrigatório, a migração para as minas e para as cidades em busca do trabalho assalariado, que drenavam homens jovens em plena capacidade produtiva e reprodutiva, criaram um profundo desequilíbrio na relação numérica homens/mulheres adultos, o que era facilmente notado pelos europeus652. São eloqüentes, por exemplo, os números das circunscrições do Distrito de Lou-

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Ver por exemplo entrevistas realizadas por Jeanne Penvenne e arquivadas no Centro de Estudos Africanos/U.E.Mondlane, Maputo, com trabalhadores de várias áreas do complexo ferro-portuário. Incluem-se trabalhadores chibalo, voluntários e indunas (encarregados de policiar diretamente o trabalho): Francisco Simango, Silvestre José Zuana em 17/06/1977; Timóteo Comiche, José Mahandulane Cossa e Eugênio Langa em 18/06/1977; Sozinho Jelene Manhiça em 01/07/1977; Muzuanfo Tiago Muchanga em 02/07/1977; Pequenino Langa Mufana e Ernesto Muianga em 04/07/1977 e Alfeu Tualofo Cumbe em 07/07/1977. 652 CRUZ, Pe. Daniel da. Op. cit., p. 90.

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renço Marques, em 1912653:
População, segundo gênero - Distrito de Lourenço Marques - 1912
Circunscrições Adultos Masc. Fem. F/M* Manhiça 5.655 13.105 231,74 Maputo 8.887 12.301 138,41 Bilene 8.795 16.798 190,99 M’Chopes 18.379 30.320 164,97 Guijá 4.186 7.957 190,08 * no de mulheres para cada 100 homens. Masc. 9.388 6.453 8.022 11.869 5.031 Crianças Fem. 8.595 5.874 8.106 12.203 4.324 F/M* 91,55 91,02 101,04 102,81 85,94

Note-se que entre as crianças há um certo equilíbrio natural entre os sexos e, em média, temos 94,47 meninas para cada cem meninos; já o gritante desequilíbrio entre os adultos (83% a mais de mulheres) acrescido de restrições aos meios de sobrevivência, materiais e espirituais, impediam a plena realização de muitas das práticas rituais, norteadoras da ação individual e coletiva, que funcionavam como regras para o bom convívio social. Embora a maioria das tarefas domésticas e agrícolas fossem atribuições femininas, os homens eram responsáveis pela abertura de novas machambas, pela confecção e manutenção de utensílios domésticos, exceto os potes, um atributo feminino, faziam e consertavam as palhotas, secadores e celeiros para os grãos, eram responsáveis pelo manejo do gado, pela caça e pesca654. Como toda a vida era concebida como fruto da complementaridade entre pólos “masculinos” e “femininos”, a presença dos homens era fundamental para a consecução de rituais que possibilitassem o sucesso no desempenho das mais cotidianas tarefas655. A ausência masculina, portanto, tinha profundas implicações quer na produção econômica familiar, quer na reprodução cultural e social das comunidades. Em tese, a superioridade numérica das mulheres poderia induzir ao alastramento da poliginia, entretanto, como o preço do lobolo era controlado pelos chefes e mnumuzanes que o mantinham alto, as mulheres acabavam homens quer, pela indispo-

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Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques -1911-1912. Lourenço Marques, Imprensa Nacional, 1913. As demais circunscrições não forneceram as variantes aqui utilizadas. Notese que entre as crianças há um equilíbrio entre os sexos. 654 JUNOD, Henrique A. Usos e Costumes... Op. cit., tomo I - Vida Social, pp. 319:33; tomo II - Vida Mental, pp. 21:135; FELICIANO, José Fialho. Op. cit. pp. 182:5; CRUZ, Pe. Daniel da. Op. cit., p. 96 e principalmente 170:5. e HARRIES, Patrick. Work culture and identity... Op. cit.; p. 147. 655 FELICIANO, José Fialho. Op. cit. particularmente pp. 376:388.

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nibilidade, quer pela ausência do maridos, que por vezes, ficavam anos nas minas656. As mulheres casadas ou prometidas, com o adiantamento de parte do lobolo, tinham a sua sexualidade controlada pelos parentes de seu marido e pelos seus próprios, na medida em que o adultério feminino era encarado como roubo de mulheres, com implicações no equilíbrio do sistema de lobolo e fonte de conflitos; além disso, com os maridos, filhos, pais e irmãos distantes, as mulheres passaram, paulatinamente e cada vez mais, a assumir também as tarefas normalmente atribuídas aos homens, sem que entretanto houvesse um equivalente aumento de seu poder ou o rompimento com a situação de inferioridade social vivenciada657. Esta situação da mulher indígena e a supressão ou manutenção do lobolo foi uma preocupação latente que diversas vezes emergiu, nas páginas de O Africano e O Brado Africano, ao longo das três primeiras décadas deste século. Como era de se esperar, as posições acerca do assunto estavam longe de serem concordantes, ou de se manterem inalteradas ao longo dos anos. Em 1912, por exemplo, ainda que por motivos diferentes, parece que havia concordância quanto à manutenção de tal prática. Um colaborador anônimo de O Africano, afirmava: “A mulher indígena em face do lobolo é como que um objecto que se compra ou se troca para fins de procriação e trabalho”, entretanto o “seu estado de mentalidade, por enquanto, não pode aspirar a outra coisa”658; outro afirmava que o lobolo deveria ser mantido, pois era “o único laço que une os cônjuges indígenas e que por todos é respeitado; por isso, deve ser conservado e também respeitado por todas as autoridades que orientam o destino desta gente”, pois sua supressão abriria o “caminho da prostituição para a mulher indígena”659. Outros argumentavam que “a mulher indígena não é, em regra de se casar com um homem contra a sua von-

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Mnumzanes: chefes locais de pequenas povoações formadas pelas casas de seus filhos casados e agregados. Sobre seu papel no controle do mercado de casamento, ver HARRIES, Patrick. Work culture and identity... Op. cit.; pp. 90:100. 657 CRUZ, Pe. Daniel da. Op. cit., p. 94:96; YOUNG, Sherilynn. “Fertility and Famine: Womens’Agricultural History in Southern Mozambique.” In: PALMER, Robin & PARSON, Neil (eds). The roots of rural poverty in Central and Southern Africa. Berkeley, University of California Press, 1977 e EARTHY, E. Dora. Valenge Women: The Social and Economic Life of the Valenge Women of Portuguese East Africa. London, 1933, particularmente pp. 22:7. A situação de inferioridade social atribuída às mulheres e o controle de sua sexualidade exercida quer pelo marido quer pelos parentes deste e pela comunidade como um todo estão amplamente ilustradass em JUNOD, Henrique A. Usos e Costumes..., Op. cit., particularmente o tomo I - Vida Social. 658 O Africano, 21/06/1912. 659 O Africano, 25/07/1912.

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tade; há excepções exactamente como entre os europeus” e que, se o lobolo não era um bem, não era com certeza um mal, mas sim um costume muito antigo, não havendo vantagens em destruí-lo pois, além do mais, sob outros nomes e designações, era uma instituição universal. Argumentava-se ainda que não era conveniente suprimí-lo, porque era “sabido que o único motivo que leva[va] um indígena a procurar trabalho [era] o arranjar um dote para casar”660. Alguns anos depois, João Albasini, invectivando contra o que julgava ser uma atitude de complacência das autoridades coloniais diante das instituições indígenas, reafirmava seus antigos argumentos, ao dizer que “o lobolo não é um casamento; é uma compra, é a ‘escravatura’ nua e descabelada sob a proteção das autoridades cristãs, constitucionais e ultraliberais!”661. Se bem que o autor destas palavras fosse imensamente respeitado entre a pequena burguesia negra e mulata, nem todos pactuavam com elas. Ainda que o tema não tenha desaparecido das páginas de O Brado Africano, ele voltou com mais freqüência em 1929 numa polêmica que envolveu outros periódicos662. Nesta altura, o O Brado Africano, em editorial, expressou claramente sua posição, afirmando concordar com o lobolo, pois via nele uma forma de legitimação do casamento e não como uma compra formal da mulher pelo homem. Dizia que o dote oferecido pelos pais da noiva, na Europa, era muito mais corrupto que o lobolo e que, se este viesse a acabar, não seria por decreto, mas “pela educação tanto do homem quanto da mulher indígena, que percebendo seus direitos e deveres diante da Lei civil, que desconhecem por não terem educação e instrucção, deixarão de praticálo”663. Estes parecem ter sido os argumentos que daí em diante pautaram as ações do Grémio Africano e de O Brado Africano. Quaisquer que fossem os argumentos, o fato é que parecem não ter contribuído para mudar a situação de subordinação real que as mulheres enfrentavam diante dos homens; Covane afirma que, até 1996, momento em que escreveu seu trabalho, era comum ouvir em Shangana, as pessoas se referirem às mulheres casadas através do lobolo, como “ti-homu ta mina leti” ou “ti-mpondo ta mina leti” o que significa “este é meu gado ou esta é minha cabeça de gado” e “estas são minhas

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O Africano, 15/06/1912. O Africano, 15/07/1916. Já usara tais argumentos no editorial “Levantai hoje de novo...” em O Africano, 29/03/1912. 662 Ver opinião oposta manifesta em várias edições do Notícias do mesmo ano. 663 O Brado Africano, 06/04/1929.

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libras”. Os maridos diziam que tinham desperdiçado dinheiro quando, eventualmente, casavam com uma mulher que não lhes dava filhos, que não era hábil cozinheira ou boa no manejo das machambas. Quer nas canções por ele coletadas, quer em outras que integram o acervo sonoro da Rádio Moçambique reforçam esses valores negativos. Mulheres casadas eram comumente vistas como uma parte integrante da propriedade masculina e delas era esperado que agissem como tal664. Em outras palavras, a ausência dos homens pela via do trabalho migrante contribuiu não só para dissolver algumas práticas culturais e sociais, mas também para criar outras: incrementou a carga de trabalho e a responsabilidade econômica e social das mulheres, mas ao mesmo tempo, muitas vezes, significou a ampliação de uma severa repressão sexual sobre as mesmas665. Quanto à ação do Estado colonial em relação ao cotidiano dos colonizados, podemos dizer que, embora se esforçasse por controlar mais estritamente possível a movimentação e a vida dos indígenas, a administração colonial portuguesa não era panóptica e onipresente. Sua fraqueza relativa a impedia de fiscalizar cotidianamente os milhares de trabalhadores urbanos e os milhões de camponeses. Como o poder não é algo pronto e acabado, mas que se estrutura nas relações sociais concretas que se estabelecem entre pessoas e sob certas circunstâncias, é preciso ter claro que os trabalhadores moçambicanos retinham alguma autonomia, mesmo que fossem os atores dependentes dessas relações. Embora os patrões detivessem os meios materiais, legais e mesmo ilegais, para exercer pressão quer com o exercício concreto da violência, quer com a sua possibilidade latente, os trabalhadores desenvolveram mecanismos para contornar ou mesmo desobedecer as ordens que lhes parecessem absurdas, que não lhes agradassem ou que lhes causassem danos físicos e morais. Ainda que espoliados das melhores terras, os camponeses mantinham o controle sobre este meio de produção, além disso o trabalho familiar e a incapacidade da autoridade colonial em se fazer presente diuturnamente em todos os rincões do interior ou dos subúrbios, possibilitava certa margem de manobra quanto à utilização do tempo de trabalho e quanto às formas de conduzir suas vidas individuais e coletivas. Nas cidades, estratégias se multiplicaram neste sentido. As frases constantemente repetidas entre os colonos, de que os “indígenas são vagabundos”

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COVANE, Luís António. Migrant labour and agriculture... Op. cit., pp. 36, 80:1. HARRIES, Patrick. Work culture and identity... Op. cit.; p. 159.

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Petrópolis. acabam por instituír rotinas. adaptar-se e. 1989. Famine and the Peasantry in Northern Nigeria. resultando de iniciativas pessoais. lutar para permanecer fora do universo do tra- 666 É ampla a bibliografia teórica acerca das formas e significados da resistência cotidiana dita “oculta”. Berkeley. sua alimentação. Todas estas estratégias e táticas cotidianas. Rio de Janeiro. Silent Violence: Food. burlar. É sempre fruto de situações específicas. 1985 e do mesmo autor Domination and the Arts of Resistance: Hidden Transcripts. Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. manter o poder de decidir quando. em casos extremos. 246 .. SCOTT. ou ainda como a sua forma de se inserir na economia de mercado. difícil. University of California Press.4. Paz e Terra. “Everyday methaphors of power” In: Theory and Society. 1990. Sidney. senão impossível. ou o espaço da desobediência. O trabalho voluntário “preguiçosos”. pp. num contínuo processo de estruturação de relações sociais.1990. Timoty. são indicativas de que muitos desses indígenas não estavam preparados para as tarefas que lhe eram impostas. WATTS. consoante conjunturas e forças distintas em ação. Yale University Press. particularmente 205:237. 19. Campos da violência: escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro. São Paulo. “incapazes de aprender” e outras do gênero. não estavam interessados em aprendê-las. CHALHOUB. New Haven. Parece-nos que o que os trabalhadores mais queriam era poder controlar seu tempo e ritmo de trabalho.. ISAACMAN. 1990. James.. In: African Studies Review. dinâmicas. nos moldes da sociedade não-capitalista. nem mesmo em realizá-las ao gosto dos patrões ou capatazes. Vozes. cuja concretização se dá no universo da prática cotidiana. 1988. São Paulo. muitas vezes. Novas formas. 1988. de ser mensurada. Companhia das Letras. Yale University Press. é sempre resultante de um jogo de forças mais ou menos negociado. seus rituais. cit. Michael. gestos. ritmos e referências de comportamento entre as partes e até mesmo por serem institucionalizadas. Weapons of the Weak: Everyday forms of Peasant Resistance. A eficácia no cumprimento das ordens. pp. Cito apenas alguns: MITCHELL. ALGRANTI. do que como mecanismos de enfrentamento que expressariam uma consciência anti-capitalista ou anti-colonial666. Sílvia Hunold. Não sendo especialista no tema. 33. 1983. 01:20 e do mesmo autor Cotton is the mother of poverty. New Haven. entretanto. tenso. permeado pela leitura que cada uma das partes faz sobre a outra. não ser descabido mencionar aqui alguns títulos da mais recente bibliografia acerca das formas de resistência cotidiana sob o regime escravista no Brasil: REIS. Eduardo. LARA. devem ser vistas muito mais como a busca da manutenção da autonomia e do controle sobre suas vidas. novos padrões podem conviver ou serem criados ou recombinados de múltiplas maneiras. 1750-1808. Leila Mezan. Visões da Liberdade. João José & SILVA. Allen. 5. por quanto tempo e sob quais condições vender sua força de trabalho ou seus produtos agrícolas ou então fugir. Companhia das Letras. levadas a cabo pelos trabalhadores. novas regras. Op. 545:570. julgo porém. 1990. O feitor ausente. marcando os limites da ação de cada uma das partes envolvidas. “Peasants and Rural Protest in Africa”.

obrigados a realizar tarefas agrícolas e domésticas que rompiam com seus valores culturais. num ambiente social específico. do convívio cultural e ritual. com o tempo e a própria noção de trabalho. nas plantations de cana. Nas machambas dos colonos. Edward Palmer. o dia de trabalho e a produção eram pautadas por estes referenciais. na Europa dos tempos modernos. do descanso. portanto. mas para responder a coerções externas. do que um objetivo de vida. se desenrolou pelo menos ao longo de três séculos. ao longo de séculos. “Tiempo. resultaram numa série de pequenos obstáculos aos seus desígnios e. Os trabalhadores assalariados. o trabalho era ritmado pelo ciclo da natureza. No sul de Moçambique. agora o tempo era dividido em horas. Disciplina de Trabajo y Capitalismo Industrial”. ao menos ajudaram a moldar suas características e os termos das relações que se estabeleceram entre colonos e colonizados. O trabalho voluntário balho assalariado e não transformá-lo ou minar as bases do sistema colonial capitalista que o impunha. já não eram considerados válidos e respeitados nos novos espaços e 667 Sobre estas transformações na Europa e as novas concepções de tempo ver o já clássico: THOMPSON. estavam dissociados os espaços e os tempos do trabalho. eram coagidos a trabalhar dia após dia num ritmo cadenciado e monótono imposto pela implacável lógica mecânica do relógio. seu tempo já não era marcado pelo desenrolar dos eventos naturais e espirituais.4. o trabalho era muito mais uma necessidade social. semanas e meses de trabalho. revu- 247 . a obedecer a ordens impessoais e realizá-las sob a vigilância de capatazes. dias. O trabalho já não era mais para atender a necessidades naturais. tendiam a perder sua relação natural com o espaço. que pautavam os momentos de descanso e a duração das jornadas e dos contratos. os eventuais excedentes acabavam por ser socialmente consumidos em festas e presentes e. separados de suas mulheres e família. e transmitidos no seio da comunidade. em seus vários destinos. não se pode negar que estas estratégias de não conformismo ao projeto colonial. os trabalhadores. o sol. In: Tradición. Este processo que. cuja lógica era a da eficiência e da acumulação. que obedecia a ritos específicos. Nesta nova situação. o ciclo biológico das plantas e animais é que fazia entrecortar os períodos de trabalho duro e intenso e os de descanso e lazer. a chuva. se não o questionaram. Os valores até então produzidos. nem o enfrentaram diretamente. em Moçambique se processou em décadas e mesmo em alguns anos667. ou nas minas de Kimberley e do Rand. se não detiveram o seu avanço. De qualquer modo. em Moçambique ou no Natal.

certamente. que lhes propiciassem a necessária inteligibilidade frente à desestruturação de valores vivenciada. homossexualismo e. contudo. nem todos conseguissem re-situar-se e reconstruir laços de solidariedade e convivência. era inevitável que. e. Muitos procuraram novos caminhos mágico-religiosos ou de inserção social. cuja face mais evidente manifestava-se nos centros urbanos.. 668 elta y consciencia de clase. 1979. cit. muito embora. principalmente. as pessoas vivenciassem um período de aguda desorientação. constrangidos pela situação colonial668. e não um produto de fácil consumo que se adota ou se abandona espontaneamente. O trabalho voluntário tempos. embora o fizessem. acrescento. Crítica. pois os trabalhadores negros se apropriaram. p. num processo de interação com as novas referências culturais exógenas. e. mobilizaram e forjaram uma variedade de símbolos culturais. asiáticas ou mesmo de outros povos africanos. pp. fossem elas européias. uma nova gama de valores foram paulatinamente emergindo. neste novo contexto. desarmados de seus instrumentos de defesa.4. Barcelona. Muitos. sucumbiram de forma impiedosa ao impacto dos novos valores: adultério. Patrick. 248 . HARRIES. Work culture and identity. como a cultura é fruto de um longo aprendizado e internalizações. numa tentativa de construir um mundo que lhes fosse familiar e seguro. excluídos cultural e socialmente. nem como uma simples justaposição entre as culturas européias e africanas. prostituição e alcoolismo passaram a fazer parte do cotidiano neste universo em rearticulação. os Grémios. Op.. 49.. esta nova situação não deve ser entendida. os clubes de futebol e igrejas cristãs africanas etiópicas e zionistas representam um tipo de síntese em busca de novos valores sociais e espirituais. 239:293. nem como a imposição de uma cultura dominante sobre um proletariado desenraizado. As associações culturais. Como destaca Patrick Harries.

ESPAÇO BRANCO? .PARTE II XI-LUNGUÍ NE: ESPAÇO URBANO.

problemas metodológicos. tese apresentada à Faculdade de Filosofia. Centre de Recherches Africaines. a partir do último quartel do século passado. Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para a Comemoração dos descobrimentos Portugueses. 1830-1890. o crescimento urbano de Lourenço Marques deveu-se. A cidade. ou que nela se fixaram para servirem de intermediários nos negócios com o hinterland: 669 Claro que esta generalização não substitui as análises de processos específicos da formação urbana colonial e nem nega a preexistência de cidades africanas antes da dominação colonial. 74:97.5. e do mesmo autor: “Luanda: Coexistência e ruptura do espaço africano e do espaço europeu . A existência de Lourenço Marques como núcleo urbano. Lisboa.1989. Joel Frederico da. como aliás ocorreu com outras cidades coloniais litorâneas.” In: CAHEN. Fernando Augusto Albuquerque. sobretudo. no espaço. CASTRO HENRIQUES. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Ver entre outros: MOURÃO.Bourgs et Villes en Afrique Lusophone. Michel (Introd. SILVEIRA. Concretamente. diferentemente das cidades européias. à corrida mineira que se desencadeou na região do Transvaal. como o resultado da articulação entre as regiões onde estão localizadas com o mercado mundial e representam a concretização. Paris. de um poder político e econômico exterior. A FORMAÇÃO DO ESPAÇO URBANO Chamo cidade a esta luta e labuta ao vozear maravilhoso das línguas-mães ao deambular constante dos pés descalços e também à minha cabeça encarapinhada onde a própria cidade se dividide Calane da Silva. 1988. abaixo indicados. e Org.” In: Actas do Colóquio Construção e Ensino da História de África. pp. Universidade de Paris I. como um imperativo de forças e interesses econômicos e geo-políticos externos. relacionados ao tema. pp. surge. viu.). anteriormente um pequeno vilarejo semi-fortificado. Ver ainda os demais títulos. “La spatialisation d’un rapport colonial: Bissau (1900-1960). 1995. como ponto de intersecção e. Harmattan. Continuidade e descontinuidades de um processo colonial através de uma leitura de Luanda. com a corrida ao ouro. radicalmente modificada sua face com a chegada de centenas de estrangeiros de todas as raças e nacionalidades a caminho do Transvaal. 429:442. 1985. frutos de um longo processo interno de transformações no mundo rural. 250 . cercado de mangues e pântanos. Vilas et Cidades . São Paulo. Commerce et pouvoir en Angola au XIXeme siècle: Imbangala et Tchokwe. que se exercia sobre as sociedades africanas preexistentes669. com maioria de moradores africanos e uns poucos brancos enfraquecidos pela malária. Isabel.

Instituto Nacional de Estatística. gregos. após 1886. 1948 e História do presídio de Lourenço Marques.] esbarra-se numa muralha feita de mercadorias. p. Centro de Estudos Demográficos .. austríacos. Lourenço Marques. A População de Lourenço Marques em 1894 (Um censo inédito). todos constituíam “a fauna movediça” que sempre aflui febril para a regiões onde se ouve falar em ouro. passa-se por alguma brecha praticada nessa muralha. marítimos e artesãos especializados. belgas. pé aqui pé acolá. holandeses. e. Carlos Santos.5. 138 e pp. ceden- 670 LOBATO. In: Boletim Official.. espanhóis. dedicados a profissões diversas. p. para que navios cada vez maiores pudessem nele operar de tal modo que. com uma esperança na alma” 670. Lisboa. russos e ainda australianos. que se ligou ao Transvaal em 1895. 251 . Para se desembarcar. cit. o porto de Lourenço Marques já arrecadava mais que o da Ilha de Moçambique. as atividades do porto e do Caminho de Ferro. s/ed. 671 LIESEGANG. Sociedade de Geografia de Lisboa. “gente exótica e estranha. nórdicos. Gerhard.1 A TEIA DA ARANHA Rapidamente foram construídas as obras básicas de infra-estrutura para servirem ao novo e desconhecido fluxo comercial. franceses. agora saltando por cima de um monte de caixas de biscoutos Huntly & Palmers. O Distrito de Lourenço Marques no presente e no futuro: breves apontamentos. Xilunguíne. árabes. conforme nos narra um contemporâneo: “[. 459. suíços. Op. então capital da colônia671. como a área ao redor do porto era alagadiça e pantanosa. amanuenses. “Relatório do Governador de Lourenço Marques no ano económico de 1876 a 1877”. Alexandre. 1877 e REIS. mas em sua maioria caixeiros. I e II. Op. Ed. as mercadorias transbordavam dos armazéns e atulhavam ruas e passeios. 75:87 e ainda do mesmo autor: História da fundação de Lourenço Marques. italianos. Lisboa. chineses. bancários. alemães. melhoraram-se as condições de navegabilidade da baía com a instalação de faróis e empreenderam-se obras no porto. CASTILHO. Iniciou-se a construção dos caminhos de ferro ligando o porto ao Transvaal. era preciso praticar verdadeiro malabarismo. vols. logo sujando o fato em latas de tinta. Revista Lusitânia. [Junta de Investigações do Ultramar].. 1973. 1949 e 1960. serralheiros. dominavam a paisagem urbana e. cit. negociantes.. 1880. trazida no sonho da aventura. A cidade fervilhava de pessoas e mercadorias rumo ao eldorado transvaaliano. norteamericanos e até mesmo brasileiros. Lisboa. 5. indianos. Lisboa. A formação do espaço urbano ingleses. no 45. Augusto de.

VITERBO. 09 travessas e uma praça. e quando afinal se desemboca na praça ainda é preciso aguardar a passagem de um combóio. 27 de zinco. 2a ed. perde-se a paciência. rumo ao altiplano. permaneciam os imemoriais caminhos tortuosos. recebe-se no peito a cotovelada dum açodado canarim guarda de alfândega. a da Picota673. 672 252 . A princípio basta ter cuidado em não tropeçar nos rails que cortam longitudinalmente o tabuleiro. que em 1894 possuía. 50 cobertas de telhas e 04 de madeira. que se descompõem em veemente rongá. da Suécia. 218. um palmo de terra que não esteja coberto pelas toneladas e toneladas de vigas. e Frases que em Portugal antiguamente se usárão. para não ter que atravessar um ajuntamento de carregadores. onde os criminosos erão expostos á vergonha. 673 “Pelourinho com suas cadêas. somente 31 casas com terraço. pp. 1945. de pranchas. Frei Joaquim de Santa Rosa de. que vai girando no ar suspenso de correntes que guincham. anda-se por cima de uma pilha de tabuado. perto da estação. Lisboa. tressua-se. ed. chega-se à linha férrea. que cantarolam acarretando saca de arroz ou caixotins de ‘condensed milk’. e que hoje regularmente se ignorão. traçados a pé posto. que acarreta madeiras para certo depósito improvisado lá para os lados das dunas. António. ENNES. tomo segundo. Elucidario das Palavras. atolam-se os pés em melaço que escorreu das barricas. de tábuas. que obedeciam à lógica indígena em nada compatível com a racionalidade dos novos tempos. e argolas. Typographia Regia Silviana. que oscila debaixo dos pés. de barrotes. Pela ponte é pior ainda. além das palhotas. penetra-se numa rua que leva à praça de ‘Sete de Março’. A cidade não tinha iluminação. da América. as ruas.. costeando um barracão. atravessa-se por entre vagões que carregam barricas de cimento. p. passa-se quási por baixo de algum fardo de algodões. para se não ser esmagado por um vagão que rola transportando telha de Marselha. 32:3. tropeçase num novelo de arame farpado. Era a Picota sinal de Jurisdicção. espera-se que passe um piano encaixotado que vinte indígenas arrastam com atroadora algazarra. não sem ter antes cortado três ou quatro bichas de pretos. 1799. Lisboa. e. distribuídas em cinco ruas. A formação do espaço urbano do depois o passo a barris de vinho que vão rolando. rodeados de montões de carga desordenada. Pântanos rodeavam a pequena língua de terra em que se resumia a cidade. que cada dia desembarcam com destino ao Transval!”672 Esta sua condição de porta de entrada para o Transvaal e catalisador de atividades capitalistas modernas convivia ainda com a desordem da antiga cidade: fora da pequena área da antiga fortaleza.” Cf. Gama.5. da Austrália. por não haver já. batem-se caneladas em pilhas de zinco para coberturas. mas logo adiante estreitam o caminho dois enormes guindastes a vapor. Termos. A guerra de África em 1895.

Estas novas ordens só seriam adequadamente instituídas. o lixo e os animais mortos eram despejados fora da linha de defesa674. quando foi elevada à categoria de cidade. Tip. quer com a natureza e o ambiente urbano. 1895. W. Carlos Santos. Tal desordem não cabia nas mentes prenhes de cartesianismo positivista dos homens. que domaria os pantânos. se executadas de maneira centralizada e articulada ___ já não seriam os comerciantes-caçadores que estabeleceriam termos de convivência com os potentados locais. enfrentar a questão das languas pestilenciais e da ampliação do aglomerado urbano. Tinha como tarefa construir. as casas não tinham números. Imprensa Nacional. depois Governador Geral676. Lourenço Marques. A formação do espaço urbano sem nome nem calçamento. na maioria de formação militar. é que se empreendeu o primeiro plano de urbanização. Lisboa. NORONHA. embora fosse obra humana. O surto do saneamento urbano que se alastrou pela Europa do século XIX também atingiu Lourenço Marques. Lisboa. Centro 253 . O Distrito de Lourenço Marques e a África do Sul. Contrariando alguns de seus contemporâneos que apregoavam a 674 675 Anuário de Lourenço Marques .5. que já contava com 250 edifícios. alguns prédios públicos e. como prevalecera em passado recente. Lourenço Marques foi elevada da categoria de presídio à de vila em 19/12/1876 e a foros de cidade em 10/11/1887. mais uma vez. a ordem disciplinadora sobre a natureza. focos de paludismo e outros miasmas675 e o reordenamento do espaço físico urbano que. p. também não seriam os múltiplos e conflitantes interesses individuais que pautariam as relações quer com os indígenas. 677 REIS. 126. Em 1877. e cujo crescimento estava limitado pelo pântano que o isolava do planalto circundante677. eram tomadas pelo mato. iniciaram-se obras de aterro sobre os pântanos para torná-la minimamente salubre. 1932. que acabaria militarmente com a soberania dos potentados locais. Doravante estes seriam assuntos de Estado e como tal tratados. Eduardo de. mas somente em 1887. A População de Lourenço Marques em 1894 (Um censo inédito). A. em alvenaria. Para eles era preciso que a ordem substituisse este caos a todo custo: a ordem política sobre o território. obedecia a uma lógica ancestral que parecia-lhes ter qualquer coisa de irracional. encarregados de implantar a Civilização em terras inóspitas e selvagens. 676 Governou a colónia entre 19/06/1889 e 11/07/1891e depois por mais cinco meses. não havia açougue nem mercado. os corpos dos hinduístas que morriam eram cremados a céu aberto. entre maio e outubro de 1900. Bayly. pois não havia forno crematório.1932. executado por uma expedição das Obras Públicas especialmente enviada de Portugal e chefiada pelo capitão de engenharia Joaquim José Machado.

ordenadora. esboçava jardins. entre 1853-70. descrevia rotundas. com ares mais salubres678. 680 CHEVALIER. fazer a natureza curvar-se à ciência. “Lógica e Dissonância . numa palavra fazia de uma vila insignificante e tortuosa. Na Europa. das mercadorias e das pes- soas”679. O espírito renovador e as políticas de intervenção no ambiente urbano que atingiam Lourenço Marques eram inspiradas nas idéias que orientaram as reformas na Inglaterra e. pp. ciência. 678 254 . 52. 39. mas sim a intervenção racional. 679 BRESCIANI. 1984 e ORTIZ. representada pelos indígenas680. Michel. ventilada e formosa. p. 1981. A formação do espaço urbano mudança da cidade para o planalto e o abandono do velho assentamento pestilento. que embora não tivesse sido palco de revoltas e motins urbanos. 84. também obedeceu à “teoria dos fluídos ___ propiciar circulação do ar. da água. p.Geografia de uma cidade colonial. com base no trabalho indígena forçado. Em 1931 Lourenço Marques tinha doze arruamentos com extensões entre dois mil e quatro mil metros. pp. Cf. pp. da luz. 681 NORONHA. Instituto de Investigação Científica Tropical. Louis. depois.200 metros de comprimento e. p. integrando-o e direcionando o crescimento para as terras altas. Anuário de Lourenço Marques. como veremos.”681 À vista do observador não era a própria atividade urbana que fazia de Lourenço Marques uma cidade. Renato. Hachete-Pluriel. MENDES. conquistou ao pântano mais de 550. Joaquim José Machado decidiu. set. à técnica e à determinação humana: mandou construir. 1932.1985/fev. 1985. a sua classe perigosa. aberta. em consonância com o espírito da época. o de Estudos Demográficos .Sociedade de trabalho: lei.5. mas não de todas as pessoas. ao transformar o tortuoso em linear. Graal. Paris. Brasiliense. In: Revista Brasileira de História. Foi esta expedição que concluiu o projeto de ampliação que deu à cidade-cimento de Lourenço Marques a sua atual conformação cartesiana e racional. com aterros. Maputo antes da independência .. Eduardo de. Maria Stella Martins. 90:1. as reformas expulsariam. no 11.000 m2 de área. a abertura de largos boulevards e de avenidas amplas impossibilitavam a velha prática das barricadas. Classes laborieuses et classes dangereuses à Paris: pendant la première moitié du 19e siècle. 1973. largas ruas transversais de vinte metros de largura. 28 e FOUCAULT. Lisboa. “O nascimento da Medicina Social”. São Paulo. alargava praças. cit. Rio de Janeiro. Op. Cultura e Modernidade. Maria Clara. 1991. cit. 6. e as expulsavam para os subúrbios. larga.. v. um dique de cerca de 1.Instituto Nacional de Estatística. p. assim também em Lourenço Marques.Op. In: Microfísica do Poder. O plano de urbanização “cortava artérias. que antes deixavam sob o controle das classes perigosas áreas inteiras da cidade. uma cidade ocupando uma área de cento e tantos hectares. as de Haussmann em Paris. abria avenidas de vinte metros de largura e 2000 de extensão. 189:256.1986. para longe. disciplina e resistência operária”.

debruadas a rendas”.] Os seus enormes leitos. Em 1894 Lourenço Marques contava com 1059 habitantes e 400 edifícios distribuídos em 33 arruamentos. pp. Em 1895. as ruas tinham nomes e os edifícios números. o feio em formoso. um indício de ordem: a balbúrdia anterior parecia ter sido domada. tribunais. Com o correr dos anos. delimitada pela linha de defesa ___ removida com as reformas de 1887 ___ e subia as encostas. mas a existência da maioria delas apenas é atestada pelos letreiros pregados em estacas. desdobram-se até o Maé. largos como os das alamedas do ‘Bois-de Boulogne’ ou de ‘Hyde Park’. e convertem-se.. lançou mão de uma imagem da natureza. a Machaquene. a cidade crescia febrilmente e. significativamente. Álvares Cabral. quando chove.. orlam vastos terrenos reservados para coisas grandiosas como palácio do govêrno. 33:4. António. descrevendo a cidade racional. A formação do espaço urbano fechado em aberto. mas. com terraço. Luciano Cordeiro ___ trepam pelas ladeiras que vão à Ponta-Vermelha. mesmo inacabadas. cit. na cidade velha. e as construções de 682 122:3. o que lhe conferiria um caráter citadino em oposição à insignificância vilareja. o estagnado em ventilado. paços episcopais. ENNES. “com varandas aramadas em ferro a bordado aberto. mesmo por parte de autoridades coloniais.5. cruzam-se umas com as outras. de uma obra natural que. Entretanto. deixava paulatinamente a antiga baixa. que de quando em quando assinalam os extremos de uma espécie de aceiros de areia sôlta abertos nos matagais. habituado a confortos metropolitanos. 255 . a climas e paisagens físicas e humanas que julgava mais amenas. tais largas e belas avenidas. catedral. ruas e praças ficaram por longos anos só no papel e foram objeto de ironia. Manuel. ainda são no tempo sêco umas tiras do deserto do Sáara. em que os pés se cravam na areia sôlta e moída e se desencravam com o calçado queimado.”682 Apesar deste clima que parecia desolador aos olhos de um europeu recémchegado. Vasco da Gama. é tão perfeita que parece obra de engenharia humana: Lourenço Marques lembrava-lhe uma corpulenta aranha metida no canto de uma teia de avenidas e arruamentos: “As avenidas. agora. ao cemitério.. as antigas casas rés-ao-chão. em viçosos prados onde se deitam bois a pastar. por seu equílibrio de formas geométricas e tessituras padronizadas. decoradas com pomposos nomes históricos ou aspirantes à história ___ D. Op. António Ennes. foram sendo substituídas por prédios comerciais com dois ou três pisos. [.

dezenas de lojas de tecidos e moda. cortava a Ponta-Vermelha. barbeiros. Op. imitando nórdicos caixotões da Europa. Carlos Santos. que. quatro hotéis. restaurantes. novamente na cidade baixa. a autoridade portuguesa era nominal e restringia-se ao núcleo urbano. ao menos até 1896. como a Fazenda. alfaiates. carroceiros. tanto que. A formação do espaço urbano pedra e cal misturavam-se às de madeira e zinco e às de ferro pré-fabricadas: “Colunas. em 1894. três farmácias e drogarias. despachantes. a cidade não podia deixar de ter bancos. Bank of Africa. pois a febre dos negócios não podia esperar por construções demoradas. asnas. militar e administrativo da região pois. cit. naturalmente. p. Xilunguíne. empreiteiros públicos. António. ourives. ou com belos desenhos da época”683. até os tectos. Diante de tal expansão dos negócios cerca de 75% da população ativa684 ___ ___ o setor dos serviços ocupava.5. Toda esta diversificada quantidade de estabelecimentos soa como excessiva diante de uma população tão minguada mas parece ser o indicativo seguro de um pulular econômico que ultrapassava as fronteiras do núcleo urbano. balaústres. mercearias e armazéns. Op. pp. contava já com filiais de quatro estabelecimentos ___ Banco Nacional Ultramarino. mobilizando e canalizando as riquezas do hinterland. p. 138:9. Obras Públicas. REIS. nos pântanos junto à estação do Caminho de Ferro685. depois pela divisa do Mahé e terminava. relojoeiros. um fotógrafo e. dezenas de bares. 39:40 e LIMA. vigas. A guerra de África em 1895. à moda vitoriana inglesa. cit. seguia pelo Maxaquene. a chamada área de circunvalação da cidade. 685 ENNES. 40 e 43:50. Alfredo Pereira. era imprescindível ter pleno e efetivo controle político. tabacaria. em 1894. Lourenço Marques. mais de uma dezena de empresas de importação e exportação. padarias. controladas por baneanes. Hospital Militar e Civil. em placas quadradas de ferro moldado. não ultrapassando. A autoridade 683 684 LOBATO. agências de seguro e navegação marítima.. expoentes desta febre de expansão capitalista. como os bancos. Alexandre.. passava pelo Cemitério. Além dos órgãos públicos. formavam a paisagem duma belle époque colonial. Porto e Caminhos de Ferro e outros. parapeitos de janelas e varandas em rendas de ferro fundido. em muito. seleiros-correeiros. dezenas de pequenas oficinas de artesãos e prestadores de serviços: ferreiros. uma frágil linha de defesa constituída de arame farpado que começava junto às dunas. “Os fun- 256 . National ___ Bank of South Africa e Standard Bank of South Africa . importadas da Inglaterra e prontas para aparafusar. uma empresa funerária. estavam dominadas pelo capital inglês. açougues.

à E. Sob tais argumentos. Até o final dos anos dez. a iluminação era extermamente precária. sob a promessa de dotar a cidade de água tratada obtida do Rio Umbeluzi. F.2 LUZ NAS TREVAS A primeira concessão para o fornecimento de energia elétrica em Lourenço Marques foi entregue à firma Jones e Gubler & Co. contavam diante da autoridade portuguesa. tendo-os sob sua soberania. 19:28. e por dez anos. face à inoperância desta. Em 1917 o contrato foi trespassado à Delgoa Bay DCL. a Cia tinha instaladas nas residências cerca de quatro mil lâmpadas. foi a energia elétrica que deu à cidade ares de modernidade cintilante. para fornecer energia às indústrias laurentinas. Antes de findo. além disso. e particularmente o Império de Gaza. 5. pp. já concessionária da água e dos eléctricos. mas não o monopólio. 10/11/1967. porque a água de subsolo da cidade baixa fosse salobra. damentos da transferência da Capital para Lourenço Marques”. Embora o fornecimento de água potável fosse importante. In: Boletim Municipal. Imprensa Nacional. foi repassada por cinqüenta anos à Compagnie Générale d’Eléctricité. o contrato foi trespassado à Delagoa Bay Development Corporation Limited que. Mas. mas fez com que se concedesse. Lourenço Marques. Tissot o monopólio no fornecimento de água potável para as residências. ao substituir por lâmpadas incandescentes a tênue e bruxuleante luz dos lampiões. conseguiu novo monopólio por cinqüenta anos. e outras setecentas e cinqüenta nas vias públicas686. Em 1907. 01. As preocupações com a salubridade não se limitaram aos aterros e à abertura e alargamento de ruas. cuja disponibilidade poderia sofrer limitações com a existência de poderes políticos paralelos exercidos por tais potentados. em 1895. que tinha o privilégio de fornecer luz elétrica dentro dos limites da cidade e autorização. a 29 km de distância. desencadeou-se uma ampla operação militar que aniquilou a autonomia com que esses potentados. repartições públicas e para navios surtos no Porto. A formação do espaço urbano portuguesa precisaria consolidar-se sobre os regulados e potentados negros da região para que. em 1897.5. pudesse opor-se às pretensões inglesas. os novos negócios exigiam o fornecimento de uma força de trabalho barata e permanente. 257 .

o espaço branco estava razoavelmente iluminado e seu significado transcende o aspecto do conforto material proporcionado ___ iluminação traz consigo também um conforto espiritual. os quais lhes pareciam cercados de magias. eram de uma insensata inuma- 686 687 SOUZA RIBEIRO. vários com mais de uma e cerca de 20 mil lâmpadas de 30 watts instaladas em casas particulares. 689 DELUMEAU.5. em 1932. 690 DELUMEAU. vol. p. cujo espaço privilegiado é o noturno. Op. Jean. principalmente porque o pouco que a população branca conhecia da cultura indígena eram seus aspectos mais salientes. o que equivalia a Esc. 1977. pp.1932. São Paulo. atmosfera pestífera quase venenosa e seus povos. à sensação de isolamento causado pelo cair da noite. principalmente páginas 96:106. deve-se acrescentar o isolamento da população branca.Ver Era Nova. 288:9.200 postes com uma lâmpada. O serviço parece ter melhorado nos anos vinte e trinta pois. 1989.. p. a iluminação pública estendia-se por cerca de 30 km de ruas. Ver ainda o verbete nuit em CHEVALIER.1908. Desnecessário dizer que tal benefício concentrava-se nas áreas da cidade de cimento. Mesmo um intelectual como Hegel fez eco às seculares formulações de que a África era o continente negro. Tradução: Maria Lúcia Machado. Reclamavam também das contas altas da água fornecida pela mesma Companhia. Tradução das notas: Heloísa Jahn. 695. p. No imaginário ocidental. 103 e 100. feitiçarias. Jean e GHEERBRANT. a escuridão trazida pela noite é o momento do “sinistro encontro dos animais mais ameaçadores. 17/11/1910 e 02/02/1911. com uma vegetação luxuriante. 688 Anuário de Lourenço Marques . Jean. de poderes sobrenaturais. Paris.. cit. Numa cidade colonial. O medo no Ocidente: 1300-1800 Uma cidade sitiada. Seghers. crendices. Companhia das Letras. segundo o Anuário de Lourenço Marques. Op. além de ser “suspeita. tendo mais de 1. tendo pacto com os debochados. 31$25 por mês. cujos moradores podiam pagar a taxa mínima obrigatória de 6 shillings e 3 pences. 258 . enfim. A formação do espaço urbano interrompia-se várias vezes por dia e os usuários reclamavam contra a baixa potência da energia particular e pública687. animais ferozes. livrando o homem de seu secular medo da noite e dos perigos objetivos e subjetivos por ela representados689. De qualquer modo. embora fortes. 148. os ladrões e os assassinos”690. da morte e dos espectros. Op. Mais que menosprezo. em 1932688. III. tornando-a tão ou mais bem iluminada do que muitas cidades sul-africanas e européias de igual porte. este mundo desconhecido provocava o temor. Alain. fora de sua terra. cit.. Annuário de Moçambique . especialmente aqueles dos danados”. cercada por uma maioria cuja língua e universo cultural lhe era quase que totalmente desconhecidos. cit. Dictionnaire des Symboles.

vol. 04:06 e Regulamento de Polícia dos Serviçais e Trabalhadores Indígenas em Lourenço Marques. formando terríveis multidões. também em Lourenço Marques. cit. pp. 136. História do Colonialismo Português em África. 284. Ver por 259 . Mas. selvagens. p. J. cit. Revista de Occidente. 694 Regulamento de Serviçaes e Trabalhadores Indígenas no Distrito de Lourenço Marques. pp. 1. 99. As estruturas antropológicas do imaginário. Lecciones sobre la Filosofia de la História Universal. mas essas qualidades infantis não se transformam em faculdades intellectuaes superiores”696. F. Este medo enraíza-se num passado longínquo: já em 1545. desassossego. a mobilidade. furiosas hordas negras691. mas mesmo iluminada.Cronologia dos séculos XV-XVIII. Gilbert. sedição. Op. Domar essas fontes de perigo. A energia elétrica trouxe também um dos símbolos da modernidade: o cinematógrafo. 692 DURAND. proibiu-se a circulação noturna de indígenas. proibiu-se em 1920. Presença. principalmente aquelas cenas de crime. Como o “preto” era considerado. 1989. 693 DELUMEAU. t. um alvará estabelecia que qualquer escravo encontrado à noite nas ruas lisboetas seria chicoteado695. Lisboa. G. p. fogo posto. p. Imprensa Nacional. pancadarias e roubos. acrescenta Durand. associando a escuridão noturna com o continente das trevas e com a negrura da pele de seus habitantes. A noite. I . 1979. 696 OLIVEIRA MARTINS. 1946. “a precocidade. Estampa. posto em vigor pelo Decreto 312 de 04/12/1922. ou seja. P. temendo que os indígenas pudessem ser influenciados pelo já vislumbrado poder sedutor das imagens 691 Sobre os qualificativos atribuídos por Hegel à África e aos africanos veja: HEGEL. 1904.. Pedro Ramos de. insegurança e esconjurar o medo das sombras foram preocupações constantes e. Lisboa. W. na Colônia. e estas mesmas imagens certamente enraizavam-se profundamente no inconsciente da maioria dos colonos. não se pouparam esforços para “fazer recuar o domínio da sombra e prolongar o dia por meio de uma iluminação artificial”693. recolhe na sua substância maléfica todas as valorações negativas: “as trevas são sempre caos e ranger de dentes”692. Op. criando uma síntese de perigos reais ou imaginados. Buenos Aires. a agudeza próprias das creanças não lhe faltam. 66. posto em vigor pelo Dec. Jean. de. Suas palavras fizeram escola e ecoaram. Lourenço Marques. como em outras cidades. congenitamente. bárbaros. que indígenas fossem admitidos em sessões de cinema quando fossem projetados filmes que retratassem brancos em situações que pudessem compremeter o respeito que lhes era devido e. uma criança adulta. publicado no Boletim Oficial no 45/1904. 180:4. pp. este também era um espaço segregado. 09/09/1904. sem civilização. como se a conjunção escuridão noturna/escuridão da pele dosse duplamente perigosa694. A formação do espaço urbano nidade e crueldade repugnante.5. seguindo-se uma prática implantada pela Cia de Moçambique. 695 ALMEIDA.

afinal. viu chegar os primeiros bondes elétricos.. Assim. Esta portaria causou ainda maiores problemas e protestos porque queriam aplicá-la a todos os indígenas sem distinguir aqueles com “cérebros cultos e equilibrados que se não deixam arrastar por uma exibição animatográfica de qualquer crime”. com a necessária rapidez. 700 Brado Africano. além disso. O Brado Africano. ainda que educados. os diversos espaços especializados. Assim como praticamente todos os serviços públicos de infra-estrutura. 26/06 e 23/07/1920. 07/08/1926. os brancos não eram invencíveis. exclusivamente. próprios de uma cidade moderna e progressista que não podia mais conviver. tinham relembrado aos colonizados que. que deixavam malcheirosos sinais de sua passagem. não era uma questão de raças698. os negros. Os protestos pouco valeram. pois se os mulatos educados conquistaram o direito de acesso aos cinemas.3 BONDES. 697 260 . 26/06/1920. Op. 5. 699 O Brado Africano. Albert. 114. NEGROS E CÃES O alargamento da cidade para fora da área restrita da Baixa. 698 O Brado Africano. apesar de toda empáfia assente num potencial recurso à sua superioridade militar. encontravam grandes problemas para fazer valer igual direito700. mas podiam ser postos para fora da sala de projeção. depois de longa gestação. no único. meios precários e símbolos de arcaísmo. exigiam meios de transporte urbano que integrassem.5. que seus uniformes e casacas não os tornavam invulneráveis às balas e mesmo às baionetas697. Lourenço Marques. carros de bois. à força de pancadas. cit. o ser- exemplo SCHWEITZER. os cine-jornais da Guerra Mundial recém terminada. com cavalos. a separação física das áreas de residência e trabalho e o dinamismo do comércio. p. em 1904. e rickshaws. no meio da sessão. continuava O Brado Africano. A formação do espaço urbano cinematográficas. Enfim os indígenas não podiam assistir a cenas de pancadaria no cinema. tanto o negro quanto o branco poderiam deixar-se influenciar. 09/04/1927. quando no filme havia cenas que lhes eram interditas699. carroças.

empresa criada em Londres. Salomão. ao que se pode depreender de seus estatutos. com a pompa que a circunstância pedia. entretanto aqueles eram movidos a vapor e. A velocidade dos vapores e do trem ferroviário já eram conhecidas em Lourenço Marques.1920”. à Delagoa Bay DCL. mas essencialmente porque alterava noções de espaço e tempo. portanto. eletricidade e águas. grande capitalista e principalmente intermediador de negócios. mas sobretudo. comemorar com um lunch oferecido pela Companhia702. ao Transvaal desde 1895. Apud VIEIRA. bancos. para explorar em Moçambique negócios que passavam pelos ramos de terrenos. especialmente para adquirir a concessão dos tramways. na cidade Baixa. estavam presentes ao ato o Governador Geral e toda a alta burocracia colonial. obtendo.5. o Quartel na Ponta Vermelha ___ que também era o melhor acesso à praia da Polana ___ e o Quartel da Polícia no Mahé. Uma vez sob o controle do novo concessionário. por ferrovia. pois não assentou um único trilho e transferiu a concessão. Na verdade este concessionário parece ter ganho a concorrência simplesmente para especular. a vapor ou de tracção animal para o transporte de passageiros e suas bagagens”701. mais lentos que os elétricos. nos extremos da cidade Alta. no 9. em princípios de 1903. além do corpo diplomático e a direção da Companhia concessionária. a garantia de que o Estado não permitiria “nova concessão de tramways eléctricos. As informações que se seguem no texto devem-se basicamente a este artigo. pois a cidade era servida de linhas de navegação internacionais e estava ligada. A obra marcou a cidade. em fevereiro de 1903. por 50 anos a partir de 1900. que entraria com o dinheiro para as obras. O primeiro concessionário foi Francisco de Mello Breyner. as obras iniciaram-se imediatamente e. A formação do espaço urbano viço de tramways foi implantado com capitais privados com base em concessões do poder público. In: Arquivo (Boletim do Arquivo Histórico de Moçambique). que desfilaram pela cidade no novo meio de transporte e foram. principalmente na Baixa. p. os primeiros trilhos foram assentados. “Os eléctricos de Lourenço Marques I: 1900 . As linhas ligaram os principais pontos da cidade: Praça do Caminho de Ferro e Praça 7 de Março. Inauguradas em 16 de fevereiro de 1904. 261 . não só pelo rebuliço causado. 702 O Progresso de Lourenço Marques. minas. 18/02/1904. abril de 1991. 9. embora transportassem passageiros ___ viajantes a negócios e lazer para o 701 Cláusula 22 do Contrato firmado pela Câmara Municipal de Lourenço Marques e Francisco de Mello Breyner em 1902. nesse exato momento. depois de discursos e vivas aos reis de Portugal e Inglaterra.

também em Lourenço Marques. irregulares. animatógrafos e teatros. 704 O Futuro. com ele o que contava era a regularidade. surgem como uma novidade. Op. sua capacidade não se media em tonelagem transportada. a velocidade e o tempo cotidiano ___ a própria energia que o movia era abstrata. Cf. sintomaticamente. com destino fixo. mesmo entre a população européia que. Ponta Vermelha e Polana tornaram-se rapidamente acessíveis. agora os preços e roteiros estavam préestabelecidos. quer na manhã. foram sucessivamente desaparecendo os velhos meios de transporte. os rickshaws703. lentos e dependentes de força física muscular: galeras. quer na hora do almoço. já que. cit. ia-se e voltava-se célere para a loja ou escritório. 262 . alterando-se hábitos alimentares e de convívio familiar. dedicavam-se majoritariamente à carga de mercadorias. por último. A formação do espaço urbano Tranvaal. a um só tempo. os antes distantes bairros do Mahé. não exigia tratativas. para o qual sobrava mais tempo. uma vez que na Metrópole. que além de suplantar a velocidade do trem. só o Porto. a impessoalidade. tanta facilidade certamente ia alterando sorrateiramente hábitos e comportamentos. fascínio e estranhamento nos laurentinos que passaram a exigir medidas de segurança para fazer face ao que achavam “imprudentíssimo”704. impalpável e fugaz como o tempo ___ antes. agora se podia prolongar o lazer noturno na Praça 7 de Março ou nos bars. num lugar prédeterminado e apanhar o eléctrico que cumpriria um trajeto estável. a traziam para o coração da cidade. trens e demais carros de tração animal e. desde 1895 e Lisboa a partir de 1901. que causaram. 19/01/1904. Com a chegada dos elétricos. garis. em sua maioria. bastava esperar à hora certa. Guilherme. segundo 703 Em 1912. Tais precauções não eram totalmente infundadas. tornava-se verdadeiro o slogan time is money. os eléctricos. em vagões de 3a classe. desconhecia tão moderno meio de transporte.5. bem como magaíças. era preciso tratar a corrida com o condutor dos veículos de tração a- nimal ou com o puxador de rickshaw. mas foi justamente “a enorme velocidade” ___ o grande diferencial em relação aos outros veículos ___ com que os elétricos circulavam. AZEVEDO. Lourenço Marques ainda contava com 30 negros puxadores de rickshaws. contavam com tal modernidade. Os compromissos passavam a ter hora certa. afinal. para as minas do Rand. Mas o eléctrico não era só mais um meio de transporte cuja lógica obedecia aos ditames econômicos tradicionais. A ferrovia não era um meio de transporte cotidiano e assim.

senão de sérios desastres futuros”710. problemas operacionais causando atrasos. 09/09. 23/10/1904 e 263 . 170. 25/02/1904. Veja o descontentamento manifesto. 707 LOBATO. por exemplo. do telefone. Lourenço Marques. Apesar do enorme movimento na cidade baixa. 710 O Progresso de Lourenço Marques. não houve o mais pequeno incidente. dia de trabalho. Xilunguíne. Essas críticas parece não terem tirado às pessoas o fascínio exercido por tal símbolo de modernidade ___ ao lado do telégrafo sem fio. no 48 de 1904. dos quais a européia não passava de 4. 08/06. em 1904. Ninguém queria perder ou mesmo deixar para o dia seguinte a sensação de andar no novo meio de transporte e tal euforia está estampada na crônica da época: “as 9 horas começaram a afluir passageiros para todos os carros andando sempre estes repletos de gente até à meia noite. Alexandre. 39. O mês de março de 1904 presenciou. irregularidade nos horários. Alexandre. não durou muito.691 pessoas e. descarrilamentos. A formação do espaço urbano a imprensa. vendidas como sucata”706. 23/06. ainda que fosse uma terça-feira. entretanto. considerando-se que os indígenas sofriam restrições para andar nos elétricos. 10/03/1904 e 16/06/1904.”708 Em 1904. eram “carripanas que.849 habitantes. Nove dias depois de inaugurado. Ao que nos dizem foram vendidos durante o dia e noite 7000 bilhetes em todos os carros. sendo de louvar o serviço do pessoal que o dirige. “o melhoramento há tanto tempo desejado se vai tornando numa fonte de descontentamento. p. Lourenço Marques.5. Xilunguíne. onde a tarde se tornava difícil o ingresso. nas edições de O Progresso de Lourenço Marques de 10/03. “o material circulante é ordinaríssimo e há quem suponha que é velho mas muito bem envernizado” e que “esfacela-se a todos os momentos”705. do rádio e do aeroplano ___ que passava “estridente na linha assente em cimento. o número acima apontado parece um pouco exagerado. 03/10. 708 O Futuro. falta de cortesia e bebedeira por parte dos condutores e guarda-freios. principalmente à noite e de todos querer[em] aproveitar dos carros. p. 20/02/1904. tal- 705 706 Respectivamente em O Progresso de Lourenço Marques. do animatógrafo. como veremos adiante. no dia em que o serviço foi aberto ao público. os cinco carros andaram repletos. tinham vindo já velhas do Cairo. embora denote o entusiasmo com que a imprensa e a população receberam a novidade709. o que é realmente importante. Tal euforia. a população total de Lourenço Marques era de 9. chiando a desconjuntado como um possesso”707. 709 Cifras extraídas do Boletim Oficial. já a imprensa apontava as mazelas do serviço: uma linha já havia sido suprimida. LOBATO. se dizia. do automóvel.

nos elétricos também se reproduziam as relações sociais e raciais excludentes: logo após o início do serviço. conforme denunciavam usuários indignados: “Prevenimos os chefes de família que se munam de um belo cacete para escovarem um marmanjo de galão que por aí vagueia. 711 264 . 22.. em março de 1904. cuja fumaça invadia “casas danificando-as bem como às mobílias”711. a Câmara. onde algumas. 19/06 e 09/09/1905. punham em dia as novidades.. a população curvou-se ao novo conforto propiciado pelos 16.”714 Como mais um espaço social. Mas além de um veloz meio de transporte. o eléctrico era também um novo espaço social onde. 712 Anuário de Lourenço Marques . conversavam.5. p. provocando toda e qualquer mulher em público. Cf. cit. Apesar dos protestos. encontravam conhecidos e habitués e.1932. Aliás. cit. dezenas foram as vezes que a Câmara discutiu assuntos relacionados à atividade da Cia Concessionária dos elétricos. aproveitando-se da lotação. deixavam emergir recônditos comportamentos.854 metros de linha dos elétricos: as distâncias já não pareciam nada e o simples fato de não ter mais de suar às bicas. em seu artigo 5o que “os indígenas e asiáticos só podem transitar nas imperiais e em lugar o Diário de Notícias de 14/04. decidiu. as pessoas se mostravam. 148. os quais demonstram impudicamente o desrespeito pela moral e pela decência. apesar de uma certa impessoalidade. sob o tórrido sol laurentino. a primeira manifestação ecológica em Lourenço Marques: moradores da Av. 15/06. 713 O Progresso de Lourenço Marques. ao elaborar o Regulamento de Exploração dos Tramways Eléctricos. 18/04. VIEIRA. pareciam argumentos mais que suficientes para a adesão incontinenti ao novo veículo712.. A formação do espaço urbano vez. Op. Este galã freqüenta muito os carros eléctricos [.]”713 [crianças] “queixam também dos actos pouco decentes de que são víctimas nos carros eléctricos quando se dirigem para as escolas. Central peticionaram à Câmara para que esta obrigasse a Cia dos elétricos a aumentar a altura da chaminé de sua central elétrica. Salomão.. p. 26/10/1908. com os sapatos ou as duras rodas das galeras e carroças atoladas nos areais da cidade alta. Op. Os tais passageiros levam a sua descarada lascívia ao ponto de colocarem meninas entre as pernas (mas só as meninas) e expandem palavras impróprias e gestos libidinosos que seriam reprovados pela última das rameiras. por parte de certos passageiros. desde que ela fosse mãe.

P. The Hill]. asseadíssimas” eram obrigadas a viajar de pé. A comunidade nativa parece não ter reagido de imediato. “fazendo um contraste vergonhoso com imundos baneanes que teem a liberdade de sentarem dentro dos carros”718. Salomão. mas setores da imprensa e a Associação Comercial reagiram e a Câmara acabou por sugerir ao Conselho Administrativo de Lourenço Marques que o artigo passasse a ter a seguinte redação716: “Os indígenas e asiáticos ou quaisquer outras pessoas não podem transitar dentro dos carros eléctricos sem que se apresentem decentemente vestidos à européia”717.. 07/05/1904. 717 Cf. 16/04 e 12/09/1904. deixando ao arbítrio dos funcionários da Companhia decidir quem estava decentemente trajado à européia. D. D. Struik. 30/09/1911. 1976. Nyeleti em ronga significa Estrela da Manhã e era o pseudônimo com que Franco Martins. 4 Helvellyn Road. Passenger transport in Durban. 23/08/1930 e 06/01/1934. London. Agradeço a Keith Tankard informações acerca do funcionamento do sistema implantado em East London (comunicação pessoal de 11/11/1997) e a Peter Coates (comunicações pessoais mantidas entre 12 e 17/11/1997) pelas informações acerca de Cape Town e pela bibliografia que permite um estudo comparativo com a África do Sul: COATES. brancos sujos sentados dentro. 718 O Africano. HOWARTH. O Futuro. Tramway Company. 32. 1957. são obrigados a sentar Deus sabe onde. 24/11/1928. Kimberley.. Sabatini. Johannesburg. Zacarias Bakar. Tony. SPIT. E. um passageiro negro. conforme reclamava. questionava a razão pela qual as “mulheres decentemente vestidas com ‘capulanas’. United Kingdom. 02/08/1920. A formação do espaço urbano especial determinado pela Companhia”715. em 1928. SPRAY. Diário de Notícias. Omnibus society.”719 714 715 O Emancipador. Johannesburg tramways: a history of the tramways of the City of Johannesburg. [1979]. O contraste não era somente com baneanes. Cf. não podendo viajar senão na plataforma externa traseira. Ver ainda a propósito da discriminação O Brado Africano. 265 . Light Railway Transport League. s/d. Des Howarth. Richard. além disso. Track and trackless: omnibuses and trams in the Western Cape. Salomão. Op. 23/08/1930 e 06/01/1934. Cape Town.5. Nyeleti perguntava nas páginas de O Africano porque razão então deveriam os indígenas pagarem a mesma importância pelas passagens e. D. 07/04. 1976. VIEIRA. W. Op. ao passo que alguns africanos decentes e bem vestidos e civilizados como eu. 1971. O Brado Africano. p. mandasse por uma aviso para os pretos saberem onde se devem sentar. VIEIRA. Port Elizabeth tramways: a short history of Port Elizabeth’s road passenger transport services. com certa ironia: “Estimaria imenso que V. Port Elizabeth. anos depois. 1985. SABATINI. ativamente colaborava com O Africano. Tenho visto nos carros. Kimberley tramways: a history of Kimberley’s tramways 1887-1985. Exa. SHIELDS. na traseira dos carros. cit. 716 Ver por exemplo: O Districto. cit. Graham. [privately published by W. branco português. Tramway systems of southern Africa: historic notes and extracts. p. 31. H. Peter R. Os asiáticos conquistaram o direito de viajarem dentro dos tramways mas os passageiros negros continuaram a ser discriminados. líder ferroviário. 14 e 18/04/1905. 719 O Brado Africano.

tinha-o entregue ao moleque. mas não podemos levar à paciência admitir que um moleque andrajoso e sujo. não viajava na plataforma do carro [. 722 Cf. A mamã. apesar dos seus andrajos. 723 Jornal do Comércio. criada em 1932 para estudar o sistema. viaje nos carros. afirmava que os condutores. amarelas. continuava. pois afinal. Guilherme.. Vinha da praia. e este. A exclusão também atingia os funcionários. somente quatro eram pardos. Tal discriminação repercutia na imprensa e O Brado Africano perguntava-se se tais bilhetes eram exclusivos para o período escolar não deviam ser aceites e. engrossando o coro da crescente onda racista que assolava Lourenço Marques na década de vinte: “Já não é a primeira vez nem a segunda vez que presenceamos que na parte central dos carros eléctricos são admitidos moleques a pretexto de talvez acompanhar crianças.] Não é que sejamos ferozes apologistas das selecções de cores. em 1926. seja a que pretexto for. era a imprensa que fazia-se vigilante na observância da exclusão.”723 A população indígena estava de tal modo excluída do sistema de transporte público que uma Comissão. Discriminavam também as crianças negras: não paravam quando só estas estivessem na parada e não aceitavam seus bilhetes escolares durante as férias. dos trinta e dois condutores e guarda-freios empregados pela Companhia em 1912.cit. em nada influía na explora- 720 721 Notícias. o que faziam com os dos alunos brancos. todas as crianças deveriam ter as mesmas regalias fossem “brancas. concluiu que tal população. 03/02/1923. Da última vez que tal vimos. o Notícias. O Brado Africano. A formação do espaço urbano Além disso. “isto ainda é português e quem quizer adotar costumes ingleses que vá para as terras inglesas e deixe-nos em paz. 17/04/1926. o moleque. faziam ouvidos moucos e “olho de mercador ao sinal do preto e o resultado é o desgraçado dar um trambolhão mais retumbante que a queda de um ministério!”720. pardas. como grande senhor. Quando os condutores mostravam-se mais tolerantes. AZEVEDO..5.”721. encarnadas ou pretas”. 266 . quando um passageiro negro queria descer. 24/08/1923. se o fossem. sujo e roto até causar nojo acompanhava uma criancinha e desceu na paragem do Clube Hotel. nenhum asiático ou negro722. para se ver livre do empecilho. tanto na África do Sul quanto em Lourenço Marques. no lugar destinado a pessoas decentes. Op .

p. pondo fim ao contrato celebrado em 1900.] só por ser preto”728. 35:38. não queriam saber do asseio nem da educação do indivíduo. cit. Op. dezenas de casos de atropelamentos de cães e alguns de indígenas. VIEIRA. para eles tudo estava na cor e. Xilunguíne. nos primeiro anos de operação dos eléctricos. quando eram visíveis lugares disponíveis729.5. 16/08/1930. Op. o serviço dos eléctricos. Face à “torrente infindável dos automóveis”726 e. com a intenção de fazer circular novamente os elétricos. foram extintos definitivamente em 1936727. 728 O Brado Africano. 170 727 Anuário de Lourenço Marques .. p.1932. 26/01/1929. A Câmara Municipal de Lourenço Marques ao retomar. Op. Cf. Salomão. diziam que o mesmo estava lotado. Embora não pudessem usufruir do novo meio de transporte. Ver ainda 23/08/1930 e 06/01/1934. em tais veículos. como eram chamados estes primeiros autoomnibus particulares. o monopólio dos transportes urbanos. 726 LOBATO. os condutores não diminuiam a velocidade quando percebiam um cão ou indígena na linha?725 De qualquer modo. Para não deixar entrar os negros. Alexandre. “por mais limpo que se apresente um preto não é admitido [. suas principais vítimas.. os indígenas foram. Edmundo Benedicto da Cruz. um professor negro. p. Como explicar essa ocorrência? Seria por que os cães ainda não haviam assimilado a nova velocidade. Outro colaborador. A formação do espaço urbano ção da “viação urbana”724. principalmente os trabalhadores sazonais chibalos. juntamente com os cães. cit. mas nenhum acidente deste tipo envolvendo brancos. acostumados que estavam com veículos de tração animal? E quanto aos indígenas? Seria por que não estavam habituados. também ___ e ninguém duvide disto ___ muleques e paxiças de outras cores que melhor fariam tomando 724 725 Cf. 35.. deu dois anos de prazo para a extinção dos serviços de auto-omnibus prestados por particulares. Lourenço Marques. à concorrência dos auto-omnibus particulares. p. 148. o certo é que a imprensa revela. VIEIRA. Salomão. cit.. então. que. os condutores dos camions. entretanto. segundo a imprensa da época. em 1926. argumentava que o público em Lourenço Marques era composto por uma miscelânea tal. ou por que. Segundo José Cantine.. há. 267 . a Delagoa Bay Development Corporation abandonou. 729 O Brado Africano. principalmente. ao ritmo e às regras de circulação no meio urbano. que só era aceitável distinguir os indíviduos pela sua capacidade moral e nunca pela sua cor: “Se o preto (muleque ou paxiça) é indigno de viajar dentro dum machimbombo.

segundo um contemporâneo. que se assustam do macio dos marroquins e que se atrapalham ao premir o botão eléctrico do timbre ___ muitas vezes só auxiliados pelo conductor ___ ou a puxar a arreata do chocalho de alguns machimbombos.1932.. Mas esses. A estação telegráfica. Estava equipado com uma central geradora de eletricidade. Quanto ao porto. o que expressa o dinamismo dos negócios que os uniam. e no entanto são brancos. sua rede passou. a estação telegráfica e o moderno equipamento do porto da cidade. Op. beneficiavam uma pequena minoria da população. Em 1931 Lourenço Marques já contava com 980 números telefônicos e. a estar integrada com a África do Sul. tinha cerca de uma milha de comprimento e capacidade para acomodar simultaneamente doze navios de grande tonelagem. 140. Basta dizer que já tenho viajado com individuos que se quedam boquiabertos ante assentos almofadados. pois praticamente assegurava a confidencialidade das comunicações e. Anuário de Lourenço Marques . em 1931. Um telegrama.5. via-terrestre. pp. faça-se-lhes justiça. em dezembro daquele mesmo ano. ambos produtos em trânsito do Transvaal. Tudo isto fazia com que fosse considerado o “mais belo e moderno das costas oriental e ocidental da África”731. 144:5. movimentou cerca de 800 mil toneladas de mercadorias e embarcou e desembarcou cerca de setenta mil passageiros. eram a rede telefônica. o governo português poderia vangloriar-se de possuir a única estação deste tipo que ligava o continente africano à Europa. o mais importante. empregava o sistema de ondas curtas dirigidas.. cit.”730 Outros ícones da modernidade. Contava com treze grandes armazéns secos. o maior para sessenta toneladas. que os contemporâneos faziam questão de destacar. instalada em 1927 pela empresa Rádio Marconi. ficando praticamente restritas ao usufruto dos colonos brancos ou aos comerciantes indianos. A formação do espaço urbano um ronceiro rickshaw como meio de transporte. tão brancos como pergaminho. 20/12/1930.. considerado então o mais moderno e eficiente. para cidades da pró- 730 731 O Brado Africano. ainda não estão de todo civilizados. O porto laurentino registrou. com vinte e três guindastes elétricos de variada capacidade. além de docas secas para reparos. a presença de 770 barcos mercantes.. Todas estas modernidades. equipadas com o mais moderno equipamento.. 268 . entretanto. um frigorificado com capacidade de armazenar até trinta mil caixas de cítricos e uma zona carvoeira...

Um espelho distante. In: Boletim Oficial do Governo Geral da Província de Moçambique. quando. ligado ao Grémio Africano de Lourenço Marques. em 1897. próspera. se expedido viarádio Marconi. dos quais 1. o salário mensal de um indígena.4 AS MURALHAS INVISÍVEIS Mal terminadas as operações militares. que associavam a desordem social 732 733 Idem.902 habitantes. as quais permitiram um ordenamento social subseqüente. na altura. empregado como trabalhador rural. Barbara Wertheim. uma vez destruídas a linha de defesa e a vala de circunvalação. que pretendiam isolar a cidade dos perigos externos. Mappa estatístico da população da cidade de Lourenço Marques. tradução de Waltensir Dutra. assim. de até doze palavras. referido a 31 de Dezembro de 1897. Mais uma vez veio à tona a retórica dos reformistas sociais do sec. ainda assim não bastavam obras físicas para darem à cidade sua feição moderna. civilizada. pp. custava $50 em escudos-ouro e. custava $10 escudos-ouro por palavra. Embora os potentados da região tivessem finalmente sido submetidos e não representassem perigo à presença colonial. com 4. 913 asiáticos e 2. que pudesse oferecer segurança à população branca contra este inimigo derrotado com quem era preciso conviver. no 12-1898. Rio de Janeiro. Como o “homem tem medo daqueles que transforma em vítimas”734.5. era cerca de 100$ escudos. somente quarenta serviam a comerciantes indianos e o único africano que pude identificar como possuindo tal conforto foi o mulato e advogado Karel Pott. A formação do espaço urbano pria Colônia. era preciso também controlá-lo no espaço social mais amplo.747 eram africanos. XIX. era preciso construir mecanismos que criassem uma muralha invisível. 270:318. 5. 734 TUCHMAN.242 europeus e americanos733. apta a receber capitais e capitalistas estrangeiros. mas efetiva. Lourenço Marques. a cidade de Lourenço Marques já contava. 1898. o ordenamento físico urbano foi acompanhado de um ordenamento jurídico da população em categorias claramente discerníveis. Dos 980 telefones instalados. O Grémio e o próprio jornal O Brado Africano não tinha uma linha telefônica732. Não bastava controlar e disciplinar o indígena no universo do trabalho. sem equivalência a ouro. Administração do Conselho de Lourenço Marques. 269 .

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à doença, que seria oriunda não só da sujeira, como também da má distribuição dos corpos no espaço e, por esta lógica, cada indivíduo deveria ocupar um lugar específico na divisão do trabalho e na hierarquia social e a cada segmento desta hierarquia corresponderia um espaço territorial próprio para circulação, lazer e moradia735. Em Lourenço Marques, a criação destes espaços segregados calcou-se basicamente sobre critérios raciais e tencionavam facilitar o controle, a repressão, aprofundar a dependência e consolidar a submissão dos dominados, contribuindo para ampliar a ilusão de uma pretensa superioridade branca.

5.4.1 A MORADA DO HOMEM E O MUNDO DA MULHER ...

O crescimento da cidade planejada rumo às terras altas do planalto, praticamente já criara três espaços distintos: a cidade baixa, a cidade alta e os subúrbios e tal divisão se acentuará a partir da década de dez com o aumento da migração e a maior presença de mulheres brancas cujo percentual em relação à população branca na Colônia descreve uma curva ascendente desde o final do século XIX 736. A Baixa tornava-se o espaço do trabalho e dos negócios; era um espaço público, masculino, que no fins de tarde e às noites transfigurava-se em espaço de lazer e prazer para brancos. Somente o enclave dos monhés, na rua da Gávea e travessas, destoava desta vocação, pois estes resistiam à separação entre trabalho e moradia, uma das características da cidade moderna, e continuavam a residir nos fundos das casas de comércio. Em 1912, das 2.965 pessoas brancas exercendo alguma profissão arrolada pelo

José Olympio, 1989, p. 103. Ver a respeito as formulações de FOUCAULT, Michel. O Nascimento da Clínica. Rio de Janeiro, Forense, 1980 e Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Graal, 1981. 736 Lourenço Marques tinha em 1894 uma população total de 591 indivíduos brancos, dentre os quais 131 (22,1%) pessoas brancas de sexo feminino; em 1912, de um total de 5562, as mulheres brancas eram 1768 (31,7%). Em 1928 temos 9001 brancos, dos quais 3515 (39%) são mulheres, em 1935 temos 12162 pessoas brancas e as mulheres são 5225 (42,9%), e finalmente, em 1940, temos que de um total de 14400 brancos, 6338 (44%) são mulheres. Ver REIS, Carlos Santos. Op. cit., AZEVEDO, Guilherme de. Relatório sobre os trabalhos do recenseamento da população de Lourenço Marques e Subúrbios, referido ao dia 1 de Dezembro de 1912. In: Boletim Oficial de Moçambique. no 12/1913, suplemento. pp. 177:193, SOUZA RIBEIRO. Anuário de Moçambique, 1940. Lourenço Marques, Imprensa Nacional, 1941, p. XVI e ainda Censo da População em 1940 - I - População não indígena. Colónia de Moçambique - Repartição Técnica de Estatística, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Mo735

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Censo, 2.860 (96,5%) eram homens e somente 105, ou 3,5% do total, eram mulheres e, destas, poucas eram aquelas ligadas diretamente às atividades comerciais que se desenvolviam na Baixa: três telefonistas, uma telegrafista, dez empregadas do comércio, quatro industriais, uma farmacêutica e cinco modistas737. Passados dezesseis anos, em 1928, de uma população branca ativa de 4.687 pessoas, os homens somavam 4.220, o que equivalia a 90%, e as mulheres somente os 10% restantes, índice que se manteve mesmo passados outros 12 anos, quando o Censo de 1940 reporta que Lourenço Marques contava com uma população branca ativa de 13.218 pessoas, das quais somente 1.191 eram mulheres738. Estes números indicam que, embora as mulheres brancas, praticamente, tenham triplicado a sua presença no mercado de trabalho urbano em cerca de quinze anos, ainda continuaram a representar uma fatia residual, de modo que o espaço do trabalho e o espaço público ainda permaneciam esmagadoramente masculinos. A cidade nova, nas terras altas onde residia a maioria dos colonos, era o espaço da mulher branca ___ esposas e filhas ___ recolhida ao recato do lar, longe do burburinho do centro com suas levas de homens, notadamente, as mangas de trabalhadores indígenas. No período aqui estudado, a casa foi quase que exclusivamente o espaço em que a mulher circulava e no qual os afazeres domésticos consumiam monótonamente os seus dias. As mais pobres, além da faina doméstica, desenvolviam, em casa, atividades tipicamente domésticas
___ ___

costureiras, lavadeiras e bordadeiras

para reforçarem o min-

guado orçamento, e aquelas que perderam o sustentáculo representado pelos maridos ou pais, como é o caso das viúvas e orfãs, procuravam realizar fora de casa tarefas assalariadas que, na verdade, eram extensões daquelas desenvolvidas no próprio lar, empregando-se como criadas, ou cozinheiras; mas a grande maioria das mulheres brancas ficava em casa, dando ordens e supervisionando os seus serviçais domésticos africanos. Em 1894, das 109 mulheres brancas adultas, duas eram lavadeiras, oito eram comerciantes/negociantes, uma era padeira, outra criada e seis eram irmãs enfermeiras no Hospital739. A esmagadora maioria, ou 91 delas (83,5%) eram domésticas. Em 1912, quando já se obedecia claramente aos parâmetros de segregação espacial e racial, a cidade e os

çambique, 1942. AZEVEDO, Guilherme de. Op. cit. 738 Censo da população não indígena em 1928. In: Boletim Económico e Estatístico. série especial no 10, Colónia de Moçambique, Repartição de Estatística, Lourenço Marques, Imprensa Nacional, 1930 e Censo da População em 1940 - I - População não indígena. Op. cit..
737

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subúrbios contavam com 1.767 mulheres brancas, das quais 42 (2,4%) eram estudantes, 105 (6%) eram assalariadas e 872 (49,3%) domésticas, embora não seja de se estranhar que muitas donas de casa brancas tenham sido arroladas entre as 728 mulheres brancas (41%) apontadas como não tendo profissão ou de profissão indeterminada, aqui incluídas as crianças pequenas740. Em 1928, das 3.515 mulheres brancas existentes na cidade, 467 ou 13,3% delas foram apontadas como tendo alguma profissão ou atividade de caráter remunerado, uma vez que, além do Estado, as demais empresas privadas começaram a lançar mão do trabalho feminino que, embora sendo pior remunerado, abria brechas para a mobilidade social das mulheres. A Fábrica Nacional de Tabacos anunciava em 1921, não só empregos para “meninas” para trabalharem como empacotadeiras de cigarros, como também uma vaga para uma “senhora” dirigir a oficina de empacotamento. As mulheres abriram, ainda que timidamente, a partir de então, um espaço em atividades consideradas como exclusivamente masculinas
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gerentes de empresa, balconistas,

funcionárias do Estado ___ e ocuparam totalmente as vagas de novas profissões terciárias como telefonistas, estenógrafas e datilógrafas, embora tenham sido mantidas afastadas, por exemplo, da nascente função de comissárias de bordo. O que chama a atenção é que neste Censo de 1928, o primeiro depois da implantação da ditadura em Portugal, as chamadas domésticas não receberam arrolamento próprio; desse modo, a grande maioria das 1.551 mulheres brancas casadas e das 606 jovens moças solteiras, sem funções assalariadas fora do lar, juntamente com as crianças, foram incluídas entre as 3.048 mulheres apontadas como sem profissão ou profissão ignorada e, os censos de 1935 e de 1940 considerou-as como inactivas.741 Esta desconsideração do trabalho doméstico, por parte dos elaboradores do Censo de 1928, já seria indício de uma reação aos ares modernizadores, uma expressão da ofensiva familiarista levada a cabo pelos movimentos fascistas que, com o apoio explícito da Igreja Católica, cuja influência em Portugal estava num crescendo, recorriam às Encíclicas Papais para afirmarem que o lugar da mulher era o lar? A Rerum Novarum, de 1891, por exemplo, afirmava que “a natureza destinou antes

739 740

REIS, Carlos Santos. Op. cit.. Não se atinge 100% pois estes números padecem de defeitos: embora estejam arroladas 1.767 mulheres brancas, vinte delas deixam de estar distribuídas nos mapas de atividade. AZEVEDO, Guilherme de. Op. cit. 741 Estas informações constam da análise sumária dos resultados que acompanha o Censo da População em 1940 - População não-indígena. Colónia de Moçambique, Repartição Técnica de Estatística, Lourenço Marques, Imprensa Nacional, 1942, p. xxiii.

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a mulher aos trabalhos domésticos, que protegem eficazmente a honestidade de seu sexo fraco e encontram a sua justa compensação na educação dos filhos e no bem-estar do lar” 742; ora, se o lar era o seu lugar natural por que se deveria considerar as atividades domésticas como trabalho, principalmente em África, onde os trabalhos domésticos dos lares brancos eram executados por homens negros assalariados? Mas quando foi que esta associação entre trabalho doméstico e mulher emergiu como integrante de uma suposta ordem natural? Jean e John Comaroff fazem um pequeno balanço da produção historiográfica e afirmam que a emergência de um domínio doméstico ___ associado com mulher, trabalho não pago, cuidado com os filhos e “privado”___ foi o corolário do capitalismo industrial; que domesticidade estava integrada ao culto da modernidade e presente no âmago da ideologia burguesa e que, longe de ser uma instituição natural ou universal, ganhou maturidade com a ascenção do sistema de fábrica, que implicava na reconstrução das relações de produção, da individualidade, de classe e genêro. Entretanto, foi somente após 1841, com a pregação que se deu na Europa para a retirada da mulher do mundo da fábrica, é que a doutrina da domesticidade feminina começou a expandir-se para fora dos limites da burguesia e permear as classes trabalhadoras743. Este não foi, entretanto, um fenômeno uniforme e desprovido de resistência. Em Lourenço Marques, Florinda Rego, uma mulher branca, esposa de Fortunato Rego e, como ele, ardorosa militante socialista, opunha-se obstinadamente ao que parecia ser o fado destinado à mulher. No artigo “Questões sociais: a Mulher”, publicado na primeira página da edição de 04 de outubro 1913 de O Africano, assim expressava-se contra o machismo reinante: “Desde sempre, o homem, director espiritual da mulher, exerce sobre esta uma acção opressiva e tirânica, não a educando nunca na sã moral, mas pervertendo-a e impondo-lhe di742

Na Casti Connubü, de 1930, Pio XI afirmava em relação ao trabalho feminino: “Isto conduzirá certamente a uma corrupção do espírito da mulher, da sua dignidade maternal e a uma catastrófica inversão das relações familiares; porque se a mulher descer do trono verdadeiramente real onde o Evangelho a colocou, junto do lar, estará em breve reduzida à antiga escravidão e tornar-se-á, como no mundo pagão, um puro instrumento entre as mãos do marido.”. No ano seguinte, 1931, novamente Pio XI volta à carga com a Quadrigesimo Anno: “É no lar, aí onde os trabalhos de dona de casa a prendem às diferentes ocupações domésticas, é nesse ambiente que é necessário repor a ocupação de família”. Apud MACCIOCCHI, Maria Antonietta. “As mulheres e a travessia do fascismo”. In: Elementos para uma análise do Fascismo. Lisboa, Bertrand, 1977, pp. 107:108. 743 COMAROFF, Jean & John L. “Home-Made Hegemony: Modernity, Domesticity and Colonialism in South Africa”. In: HANSEN, Karen Tranberg (ed.). African Encounters with Domesticity. Op. cit., p. 48.

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tatorialmente missão contrária à que devia ser a de toda a mulher livre e consciente. A imposição referida, porém, longe, mas muito de beneficiar o ditador e carrasco, ao mesmo tempo perde-o; perde-nos, dizendo melhor! [...] O egoísmo ferino do macho-homem entronou-o e fê-lo senhor absoluto da sua fêmea, da sua víctima, que por seu lado o vitima também. [...] mas a a mulher tem que ser livre e independente pela educação, pela instrucção e pelo trabalho....”744

Embora seu discurso denuncie a opressão, ao atribuir ao homem a responsabilidade pelo descaminho e perversão da mulher, Florinda acaba por assumir a preeminência masculina, ao considerar os homens como guias espirituais, ainda que argumentasse que a mulher não deveria permanecer passiva diante de tais atitudes; ela deveria ir à luta, organizar-se e participar ativamente das lutas sociais que também lhe diziam respeito. Em discurso proferido na Sessão Solene do Centro Socialista de Lourenço Marques por ocasião do dia 1o de Maio de 1913, afirmava: “não são apenas os homens que devem unir-se. A mulher, o sexo fraco, como se lhe chama, precisa também pugnar pela reivindicação daquilo a que tem jus. É preciso que todas comecem a perceber que não podem continuar a ser eternas escravas! Dizem que as mulheres não devem meter-se em política! Por que? A mulher deve e tem por obrigação frequentar os Centros [socialistas], dedicar-se às questões que se lhe interessam e que interessam à humanidade em geral.”745 Tal discurso poderia, sem acrescentar uma vírgula, ter sido pronunciado em qualquer reunião socialista da Europa. Nele não há nenhuma referência ao universo colonial; ele simplesmente eclipsa a variante racial e a situação da mulher negra e mulata. Não haveria, porém, especificidades na tessitura das relações entre homens e mulheres brancos, em virtude da forma opressiva de convivência que se estabelecia entre estes e seus congêneres colonizados? Ora, se tal viés da realidade escapava à compreensão de uma mulher esclarecida e militante socialista, certamente, o mesmo se dava entre os colonos em geral, cujo nível de conhecimento e politização estava muito aquém do de Florinda.

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O Africano, 04/10/1913.

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Nos anos vinte, com a expansão dos serviços e negócios, também expandiu-se, como vimos, a presença feminina no mercado de trabalho laurentino e, com ela, uma agressiva reação masculina nas páginas dos jornais. Mesmo o O Brado Africano que sucedera a O Africano, em cujas páginas Florinda Rego tivera inúmeros artigos prontamente publicados, mudou seu posicionamento a respeito do papel reservado às mulheres, certamente porque os membros da pequena burguesia negra e mulata, cujos interesses representava, temiam que o ingresso de mulheres brancas, apadrinhadas por esposos, parentes e amigos influentes, acirraria ainda mais a concorrência por postos de trabalho e contribuiria para limitar-lhes as chances ou mesmo para expulsá-los dos poucos empregos que conseguiam manter face à crescente onda racista. Rapidamente o O Brado Africano acolheu raivosos articulistas que imprecavam contra a presença das mulheres brancas no mercado de trabalho e, particularmente, nas funções públicas, como era o caso do colaborador que assinava sob o pseudônimo de Leopardo, para quem “lugar de mulher é cosendo meias”746, ou de Luiz V. Álvares, um indo-português, que já tendo ensaiado suas idéias em artigos publicados no ano anterior, publica em 1921, sob o título de “A Mulher”, artigo no qual continua sua arenga: “a mulher é arrastada pelas suas tendências sentimentais para estar em casa, para ser dona da sociedade doméstica, para exercer a inata aptidão simpática e meiga que tem para criar os filhos, para trabalhar tranqüilamente no retiro do lar, esforçando-se para agradar o seu esposo, com as suas obras, com a sua formosura e graça [...] e não insuportável como a impaciente Xantipa que injuriava o pobre Sócrates... nem como a mulher educada à moderna, que com ânsia sempre crescente de prazeres entrega os seus filhos a crear, a uma ama, e passeia todo o dia engalanada, ou gasta o tempo na leitura dos deleitosos romances sensuais, ou freqüenta as repartições ou os lugares públicos e civis como dactilógrafa, como advogada, como delegada... ansiosa de, com a sua demasiada beleza feminina, encantar e enlouquecer os rapagões, aliás activos e enérgicos trabalhadores. Empregar para o serviço público, civis e militares e comerciais as mulheres ou raparigas é inverter a ordem natural que as destinou, pela vocação ordinária, para a nobilíssima missão da maternidade. [...] Tais raparigas que sem freio da Regra da Moralidade, nos

745 746

O Africano, 07/05/1913. O Brado Africano, 03/01/1920.

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seus portes, nas suas vestes, nas suas audácias, nas suas intenções, que se exteriorizam, de tendência para se socializarem... são amostras contagiosas para a educação dos indígenas que vão facilmente imitando a imoralidade que se arrasta por toda parte...”747 A sociedade doméstica, advogada pelo autor, compreende dois planos conceituais: primeiro um grupo social, a família, em cujo seio se expressaria a divisão sexual do trabalho, cabendo à esposa criar filhos, laborar e esperar sorridente e meiga a chegada do marido e, segundo, um espaço físico privado, cujas fronteiras eram claramente definidas e no qual circularia a mulher. A crer em suas palavras, a existência social da mulher estaria determinada ainda pelas condicionantes biológicas naturais e qualquer comportamento que não se enquadrasse estritamente nesta regra acabaria por corromper não só a si própria, mas também aos homens. O trabalho, ao desviar a mulher de sua “nobilíssima” “vocação”, a um só tempo masculinizaria a mulher e efeminizaria os homens, acabando por inverter os papéis sexuais que o autor julga naturalmente definidos. Os pobres homens, “activos e enérgicos trabalhadores”, cairiam como vítimas indefesas e ao elouquecerem com esta exposição pública, só faltou dizer lúbrica, das mulheres, negariam a sua própria essência que é a de serem racionais e equilibrados. O porte, as vestes, o comportamento e os gestos seriam os sinais indiciários e sintomáticos de uma deterioração da mulher e pior que tudo, acabariam, tal como uma lepra moral, por contagiar os indígenas, justamente a quem se deveria, como missão civilizadora do branco, dar os melhores exemplos. Excetuando-se uma pequena minoria de índole ou formação mais liberal, ou aquelas empurradas pela necessidade cotidiana de sobrevivência, as mulheres brancas pareciam concordar com a tese de que “a morada do homem é o mundo, e o mundo da mulher é o lar doméstico”748, de onde raramente saíam e quando o faziam eram acompanhadas dos muleques, para cuidarem dos filhos e carregarem pacotes e, em geral, pelos vigilantes maridos; afinal, pregava-se que a mulher não deveria se “apresentar na sociedade só e independente, mas ao lado do varão e como auxiliar dele”749. Aos domingos e dias santos podia-se encontrá-las na igreja, uma vez ou outra na praia da Pola-

747 748

O Brado Africano, 19/03/1921. Idem, Ibidem. 749 Novamente palavras de Luiz V. Álvares em O Brado Africano, 27/09/1930.

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na ou em algum tea meeting organizado por uma das associações recreativas e, particularmente, nas atividades da Associação Católica, única entidade formada e dirigida por mulheres750. Podia-se ainda ver algumas junto ao Cais a “esperar o barco” da Europa, em busca das novidades da moda ou na Baixa, em visitas às lojas chiques, por exemplo, da Rua D. Luís que, depois, com a República, passou a ser denominada Consiglieri Pedroso, e onde podiam comprar na Casa Bayly as últimas partituras, discos ou perfumes chegados d’além mar. Junto com seus maridos iam dar vivas ao novo Governador ou assistir aos films e peças teatrais próprias às famílias, ou ainda, nas noites de quartas e domingos, iam fazer o footing e abancarem-se na Praça Sete de Março, centro da cavaqueira, onde, até às onze da noite, a banda militar apresentava “trechos clássicos mais conhecidos, um ‘paso-doble’ e outras peças vulgarmente regimentais”751; mas apesar destes pequenos deleites, o comportamento geralmente esperado das mulheres era concordante com as idéias preconizadas por Luiz V. Álvares que, aliás, como sabemos, não estava só em sua cruzada; além das Encíclicas mencionadas, suas palavras ecoavam nas de muitos outros escritores coetâneos como Loffredo, um dos filósofos do fascismo, que em 1938 afirmou que “a mulher que abandona o lar para ir trabalhar, encontrando-se em promiscuidade com o homem enquanto se passeia pelas ruas, toma o eléctrico ou o autocarro, frequenta as oficinas e os escritórios, esta mulher deve ser objecto de reprovação”752. Esta insistência em naturalizar o espaço e a atividade da mulher insere-se num processo mais amplo de construção de uma nova ordem moral, na qual os mecanismos da disciplina estariam silenciosamente internalizados no seio da família e do lar que atuariam como reprodutores dos valores desta nova ordem. Mas, e quanto às mulheres de outros segmentos raciais? Em 1894 somente oito mulheres africanas exerciam alguma atividade de tipo assalariada, das quais cinco eram criadas, uma cozinheira, uma governanta e uma serviçal. Somente uma mulher asiática estava empregada, como criada; todas as demais, de ambos os segmentos raciais, eram domésticas, ou seja, donas de casa. Em 1912 a situação pouco se altera: de um total de 5.979 mulheres pretas, vivendo na cidade e subúrbios, somente três eram costureiras e duas eram proprietárias; das 703 mulheres classificadas como pardas, sete dedicavam-

750 751

Anuário de Lourenço Marques - 1932. p. 220. LOBATO, Alexandre. Lourenço Marques, Xilunguíne. p.38. 752 LOFFREDO, Ferdinando. Politica della Famiglia. Milano, Valentino Bompiani, 1938, apud MAC-

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5. A formação do espaço urbano

se à costura, seis eram proprietárias e três eram comerciantes nos subúrbios da cidade. As demais foram indicadas como sem profissão, ou como donas de casa, ou ainda como exercendo tarefas domésticas assalariadas, conforme tratamos acima. Em 1928 o quadro era o seguinte:

Profissões - mulheres não-brancas - Lourenço Marques, 1928
Profissões Funcionárias do Estado Assalariadas do Estado Contratadas do Estado Agricultoras Caixeiras de balcão Comerciantes Contínuas Costureiras Cozinheiras Criadas Datilógrafas Gerentes de Empresa Modistas Parteiras Proprietárias Trabalhadoras Vendedoras Ambulantes Total > de 14 anos (A) Total com profissão (B) B/A em % Africanas 01 14 203 02 04 96 426 01 07 02 17 5.661 773 13,6% Indo-Port. 02 01 02 14 02 01 251 22 8,7% Mixtas 01 02 02 02 13 05 41 02 01 01 02 495 72 14,5%

O que se nota é que o percentual de mulheres exercendo alguma atividade remunerada é extremamente baixo e a esmagadora maioria das não-brancas, com alguma atividade assalariada, estava realizando tarefas de caráter doméstico, como criadas e cozinheiras; pouquíssimas exerciam funções tipicamente urbanas como datilógrafas, comerciantes ou caixeiras, ou de poder, como gerentes e, neste caso, nenhuma era africana. Embora o Censo não o explicite, o termo proprietárias refere-se a proprietárias de casas de aluguel. Ainda que timidamente, o Estado estava começando a empregar mulheres não-brancas, inclusive africanas e, embora não se indique as funções que exerciam no aparelho do administrativo, é de se supor que fossem as mais baixas, já que a maioria era assalariada e não tinha estatuto de funcionárias públicas, reservado aos cargos médios e altos do escalão administrativo e ocupados, em sua esmagadora maioria, por homens brancos. Nenhuma mulher classificada como amarela e indo-britânica exer-

CIOCCHI, Maria Antonietta. Op. cit., p. 147.

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cia qualquer atividade assalariada. No segmento das mulheres classificadas como africanas, 67,5% eram assalariadas domésticas, 26% eram agricultoras e somente 2,2% eram vendedoras ambulantes. Sobre o significado de seu ingresso ou não no mercado de trabalho doméstico, já comentamos anteriormente. O elevado número de agricultoras refere-se certamente às mulheres que, nos arredores da cidade, faziam hortas para fornecer produtos ao mercado urbano. Mas o que nos surpreende é o pequeno número de vendedoras ambulantes, já que se tem afirmado que esta era uma das principais atividades femininas753. O Censo aponta 56 homens africanos nesta atividade e somente 17 mulheres. Certamente trata-se de um viés na coleta das informações que pode não ter incluído, entre outras, as agricultoras arroladas, embora fosse comum que estas vendessem, pelas ruas e nos mercados populares, as hortícolas por elas produzidas. O que é certo é que em Moçambique o controle sobre o afluxo de mulheres africanas para a cidade sempre mereceu atenção especial das autoridades administrativas, que temiam que seu afastamento das tarefas agrícolas poderia por em risco a manutenção do sistema de usufruto de uma força de trabalho masculina sazonal e barata, quer para as minas quer para os serviços internos à colônia e, ao mesmo tempo, abalar os mecanismos de reprodução biológica e social das comunidades. Como acrescenta Jeanne Penvenne, a mentalidade de então, entre colonos e africanos, não supunha a mulher africana como estando na cidade; a ela cabia, sob os cuidados e proteção de um homem, suprir as necessidades destes e de seus filhos nas áreas rurais, a ela cabia o trabalho agrícola, a machamba e não vender seu trabalho por salário754. Além disso a presença de mulheres na cidade podia contribuir para, sob o ponto de vista da administração, uma indesejada fixação dos homens e formação de famílias negras, o que fatalmente desaguaria na necessidade da ampliação dos serviços urbanos, escolas e serviços de saúde, ainda que mínimos, para atendê-los, além é claro, do medo potencial que representaria uma maior população negra. Pressionadas pela autoridade masculina dos chefes e parentes a permanecerem nas aldeias sob as normas de conduta social ali vigentes e constrangidas pelos regulamentos urbanos coloniais, a presença feminina em Lourenço Marques , até a década de 40, sempre foi pequena, embora, os números apontados pelas estatísticas oficiais devam ser vistos com restrições, tanto por seu eurocentrismo, quanto pelo
753 754

PENVENNE, Jeanne Marie. African Workers... Op. cit. PENVENNE, Jeanne M. “Seeking the Factory for Women” Op. cit., p.27.

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5. A formação do espaço urbano

ser vistos com restrições, tanto por seu eurocentrismo, quanto pelo androcentrismo. Eram em sua maioria originárias da periferia da própria cidade e se dedicavam principalmente às pequenas machambas no entorno urbano. As mulheres migrantes, conforme aponta Penvenne, podiam ser divididas em dois grupos: o primeiro, formado pelas mulheres que acompanhavam seus maridos, com quem viviam e de quem dependiam monetariamente, continuavam a cultivar suas machambas na perferia da mesma maneira que o faziam nas áreas rurais. O segundo grupo era formado pelas mulheres que chegavam sozinhas e que, embora algumas casassem ou vivessem com homens, asseguravam seu próprio dinheiro dedicando-se ao pequeno comércio, aos serviços e buscando trabalho assalariado que lhes permitissem viver no meio urbano755. A partir da metade dos anos quarenta, e paulatinamente, um número crescente de mulheres foi para Lourenço Marques em busca de condições de vida que o campo já não lhes oferecia, impelidas por uma série de fatores que associam a expansão da oferta de trabalho assalariado às crises ecológicas
___

secas alternadas com enchentes, e problemas sociais e econômicos, tanto

decorrentes da diminuição do acesso à terra produtiva, ocasionado pela expansão da presença de colonos brancos, quanto pela competição por terras entre a produção agrícola voltada para atender o mercado exportador e a produção alimentar, para sustentar a família. De qualquer modo, os fatores que impeliam as mulheres à busca de um trabalho urbano, ainda que sujo, pesado e mal remunerado, particularmente na indústria de transformação da castanha do cajú, não eram as luzes da cidade ou o acesso aos pretensos confortos urbanos. Penvenne, aponta números mas, destaca que o que levava estas mulheres a arriscarem-se num meio hostil e desconhecido, era a associação desses fatores ecológicos e econômicos, agravados por problemas de ordem pessoal: a perda do acesso à terra, como decorrência da perda dos maridos e dos laços matrimoniais; a morte dos pais; a gravidez fora do casamento; o adultério; o incesto ou bebedeira; a rejeição e violência dos maridos, ou ainda discordância de que estes pretendessem ter uma segunda mulher756. A maioria destes fatores de índole pessoal referem-se a situações vivenciadas por mulheres casadas, ou melhor, de alguma maneira, tornadas sozinhas. Se isto se verifica, entre as trabalhadoras da indústria do cajú, no final dos anos quarenta, o mesmo parece não ter ocorrido na década anterior. O Censo de 1928 aponta que, do total de

755 756

Idem, Ibidem, pp. 13:4. Idem, Ibidem, p. 21.

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apesar das proibições legais. basicamente realizado por mulheres área do Xipamanine ___ ___ que desde há muito se realizava na numa tentativa de obrigar a população negra a comprar das mãos de comerciantes brancos.5%) eram menores de quinze anos e a esmagadora maioria do contingente feminino era composta por 3. não é de todo improvável que. 281 . embora sucessivos regulamentos procurassem cercear sua circulação. como as divorciadas e viúvas. Esta tática esteve fadada ao fracasso porque.2 JAQUETÃO. a polícia realizava rusgas nos subúrbios para impedir a existência deste comércio informal. era prática corrente a mudança dos pontos de venda. os números apontam que eram as mulheres jovens que estavam na cidade e não aquelas que.744 (23. alimentando este mercado marginal. muitos informantes tenham informado. que ofereciam de porta em porta nas áreas brancas. Este seu caráter informal e a prática de subornar sipaios e fiscais propiciavam as condições para que a atividade pudesse continuar se realizando. mas até o segmento mais pobre da população branca.1%) eram divorciadas. não raro.623 (28. temendo que se tratasse de um arrolamento de palhotas.. que representavam 63% de todas as mulheres com idade acima de quinze anos. os clientes rapidamente tomavam conhecimento através da eficiente rede de informação oral.1%) viúvas e somente oito (0. A formação do espaço urbano 7.6%) eram casadas. O certo é que. como sendo filhas solteiras. por um motivo ou outro. as suas esposas mais jovens. muitas mulheres indígenas tinham como uma de suas atividades a venda de lenha e carvão. aos recenseadores. em busca das mercadorias desejadas. 5.571 mulheres solteiras. 1. outros concederam monopólios de corte de madeira exclusivamente a brancos e. encontravam nos seus fornecedores negros preços abaixo dos praticados no Mercado Municipal Vasco da Gama e enviavam os seus moleques aos subúrbios. as diferenças entre os números são suficientemente latas para que possam ser atribuídas exclusivamente a esta estratégia. considerando-se cada mulher casada como uma unidade tributável. Após as rusgas. apesar deste quadro. pois como o imposto de palhota era cobrado. não só os negros e mulatos. 1. cuja nova localização. tinham vivenciado o esgarçamento de seus laços matrimoniais.5. De qualquer modo. RENDAS E CAPULANAS. com freqüência.405 mulheres presentes em Lourenço Marques..4. Mesmo com estas ressalvas. Estes números devem ser vistos com certa restrição. 459 (8.

171. anéis.). pp. caixeiros. de gola fechada. sobre os vastos penteados armados [levavam pela mão suas filhas arrumadas com] tranças com lacinhos brancos nas pontas. pela roupa que se usava. In: Poe: Ficção completa. Nova Aguilar. 1985. os casacos frescos de alpaca. ainda que com ares cosmopolita. Xilunguíne. Rio de Janeiro. Walter Benjamin. espartilhados. passear e frequentar os lugares certos não era. p. pp. cruzava com algum “abastado mercador de fez vermelho. jóias. Alexandre. São Paulo. caprichavam no vestir: “os cavalheiros de ‘badine’ e jaquetão longo até o joelho. guias enceradas no bigode [e as senhoras] elegantíssimas nas saias compridas caindo em pregas ondulantes sobre as pontas das botinas.. “A Paris do Segundo Império em Baudelaire”. pequenos funcionários públicos. BENJAMIN. Walter. Lourenço Marques. A formação do espaço urbano Devido ao exíguo meio urbano. 392:400 758 LOBATO. sobrecasaca. Os demais brancos. 1986. amanuenses entre outros. de palhinha à cabeça. para reafirmarem seu locus social. momentos em que as “pessoas de qualidade” queriam mostrar-se e serem vistas e. e os linhos. na provinciana Lourenço Marques. Gente tão elegante certamente demonstrava certo estranha- mento e mesmo desdém quando. usando também.. como ocorria. Flávio R.758 Este era o trajar da gente mais rica. chapéu mole cinzento de aba virada. dos capitalistas locais e dos gerentes das casas comerciais estrangeiras. posto com voltas caprichosas em torno e por entre as pernas. Ática. 757 Ver p. 44:122 e POE. como no Chiado. corpos cintados. bota de camurça. com as pernas envoltas num pano alvo. p. cordões de ouro com retratos de família em esmalte ao peito” 759. enquanto que suas mulheres seguiam “a moda provinciana de saias e blusas. muito mais facilmente que nas metrópoles européias e. pelas ruas da Baixa. as sedas cruas [. gravata larga de seda pregada com brilhantes.5. Poesia & Ensaios. 282 . tufado. Edgar Allan. 759 Idem. podia-se adivinhar profissões. eram ocasiões festivas. ex. ostentando primorosos chapéus floridos nos tules com véus atados ao queixo. (org. 170:1. colarinho alto de goma. e bonitos chapéus de flores”.] a sarja branca impecávelmente engomada dos típicos casacos coloniais fechados”. nas ‘blouses’ faustosamente bordadas e fechadas com jóias largas na garganta. riqueza e outros indicativos sociais. um simples flanar incógnito. ibidem. preta ou cinzenta. “O Homem das Multidões”. nas cidades da Europa757. dos funcionários graduados. In: KOTHE. por entre a multidão anônima. “preferiam além dos fatos brancos e laço à ‘lavaliére’. gravata.

bengalas e guarda-sóis. O Africano assim descreveu um destes homens: “botas mirabolantes. pelo corpo vários penduricalhos se amontoavam. A formação do espaço urbano calçando chinelas a bater. No alto da cabeça equilibrava um capacete militar ___ que o judeu jurou haver pertencido a Lord Roberts no tempo da guerra. ibidem. porém sem meias”. a que o vulgo chama ‘bate-estacas’ [. colares de falsas pedras brilhantes. com polainas de papelão. p. É imitador como o macaco e o seu modelo. pela vestimenta: botas sem meias e por vezes sem calças. tingido muito democraticamente de encarnado e verde. Assim como o caso das mamanas que. não hesitavam em usar o soutien por cima da blusa. o que esta gente bem vestida mais evitava era aproximar-se dos indígenas. prontamente reconhecidos pelo alegre alarido e. apito e guizos. mas com capulanas garridas. paga a peso de ouro. que se expressavam no O Africano. fazendo lembrar um cabide de pau preto onde em dia de entrudo as máscaras houvessem pendurado toda a sorte de quinquilharias e lantejoulas com que se enfeitassem para a folia estúpida do dia. canetas. no dorso envergava uma rica pelica de príncipe russo. relógios. de ventas rombas. conjunto que compunha o quadro que tanto chamava a atenção. a camisa sem colarinho fechada ao pescoço por um botão de ouro. tauxeadas. é 760 Idem. chapéus e bonés de diversos modelos e feitios. e mesmo dosnegros e mulatos educados. braceletes reluzentes. 283 . principalmente.. cruzavam e entrelaçavam.’cofió’ de cor e desenhos lavradros consoante a casta e a profissão. muito vistosas.. naturalmente. Mas. vendidas como pele de porco.” Espanto causaria certamente ver um. sandálias ou sapatos. 194:5. fraques. coletes sem camisas. isto parecia um desfile de boçais jinotas óltramarinos. “velho magro e ascético passar envolto em fantasma num pano. panos de cores e estampas vivas. esta forma dos mineiros se vestirem era tida como uma desajeitada imitação do branco e eles eram vistos com arrogância e desprezo: “O preto é janota.”761 Aos olhos dos brancos. como lençol enrolado”760. anéis. já então raro. ou quando passasse um outro de “fralda comprida por fora das calças. objecto que se abria ao comprimir duma mola e armava em chapéu de sol ou chuva. na mão ostentava um estranho objecto com campainha. pelas ruas da cidade. nos dias e horários de chegada dos trens carregados de magaíças. coberto com um pano de vintém a jarda.5.] uns calções de Jockey. gosta imenso de se enfeitar. Evitava-se a área da estação dos Caminhos de Ferro.

com clareza. pondo em risco a pretensa legitimidade ideológica da diferença entre brancos e negros. símbolos de seu sucesso. cit. entre dominadores e dominados. 10/03/1915. era que os indígenas muitas vezes atribuíam significados distintos ao uso das roupas. o Dr. A formação do espaço urbano o branco”762. que isto comprometeria o respeito devido aos civilizados. 1995. Seattle. acima para manterem-se na moda e comportarem-se como civilizadas763. Brito Camacho. Estas palavras escritas em 1926 pelo Ex-Governador Geral de Moçambique. p. por considerá-los mais leves. a máquina fotográfica. Além disso. a máquina de escrever. o relógio com imponente corrente. Os europeus e assimilados ridicularizavam tais roupas. a harmônica. a caneta e. O que os colonos não percebiam. as mulheres afirmaram que passaram a usar soutien.5. Renne aponta que. que consideravam vergonhosa a exposição dos seios. University of Washington Press. chegar em suas povoações com produtos desconhecidos de seus parentes ou de uso corrente entre os brancos. para que seus peitos se tornassem planos como os dos homens e não devido a qualquer valor moral de origem européia.. mais uma vez descortina impiedosamente um tema recorrente do imaginário do colonizador que associava o comportamento dos africanos ao bestiário. as mulheres Bunu. Cloth That Does Not Die: The Meaning of Cloth in Bunu Social Life. p. 763 RENNE. o que aliás parece ter ocorrido também em outras regiões da África. 182 e segtes. ainda que usados de uma maneira que os europeus consideravam imprópria. 284 . Para os usuários indígenas estas roupas e objetos. por vezes. “A preguiça indígena”. Elisha P. traziam consigo os elementos simbólicos do conhecimento adquirido e das novas relações estabelecidas com o lazer. um povo do nordeste do território Yorubá. Em estudo sobre o impacto da introdução dos tecidos importados sobre a vida social dos Bunu. aos europeus. 193. optaram pelos tecidos importados. por exemplo. CAMACHO. poderia parecer-lhes. mais confortáveis e fáceis de amarrar e costurar mas. marcava sua bem sucedida passagem por este mundo distinto. o gramofone His Master’s Voice. Op. para o qual a tecelagem era extremamente importante. significados que os europeus sequer podiam imaginar. médico de profissão e dito socialista por filiação. constituíam um sinal distintivo de sua nova situação social. se os indígenas usassem as roupas dos europeus e da maneira como estes a usavam.. Brito. com o 761 762 O Africano. secularmente envolvidas com a tecelagem e a confecção. pois sentiam que o traje funcionava como um forte mecanismo na demarcação de fronteiras sociais e. Elisha P.

De torso invariavelmente semi-nus.5. Work culture and identity. bem como nas mamanas. cit. todos tinham que mostrar um comportamento subordinado em relação aos brancos.223. Pe. aconselhando-as a trajarem-se de maneira simples. já que eram indispensáveis como meio de transporte. A resposta de Adelina Pais. uma blusa até à cinta e um barrete encarnado na cabeça”766. compatíveis com o gosto de quem usufría de seu suor: “usam quase sempre um uniforme especial e característico. escreventes e mensageiros767. entretanto não mediam esforços para parecerem europeus. não tardou a aparecer e. Porto. à categoria dos puxadores foi exigido que trabalhassem com roupas distintivas. como imitação descabida. Em terras de Gaza. 766 CRUZ. as quais vendiam os seus cozidos preparados especialmente para atender o gosto de sua clientela. Gazeta das Aldeias. estes indígenas causavam aversão imediata aos engomadinhos engravatados e mesmo aos colonos mais relaxados ou pobres. Patrick. publicou artigo no qual condenava.. vestidos com arremedos de camisa e envoltos em panos ou calças rotas. 1910. 14/06/1914. só caía bem às européias. gênero e classe. Hansen. nas proximidades do Porto. mais do que o artigo de Conrado. segundo ele. para comer nas barracas e cantinas circundantes. é reveladora das preocupações com o traje. que não lhes permitia gastar muito. mas independentemente de atividade. Os membros da pequena burguesia negra e mulata padeciam com a precariedade de recursos. Daniel da. o fato das mulheres africanas quererem trajar-se segundo a moda européia que. O Africano. mas que causavam repugnância aos gostos e paladares pretensamente mais refinados dos brancos765. que envol- 764 765 HARRIES. suados e cobertos de fuligem de carvão. Em 1927 emergiu nas páginas de O Brado Africano uma polêmica acerca deste assunto. em alarido. Como bem observa Karen T. era vista como um perigoso momento de contágio: os trabalhadores da Ponte-cais e das carvoeiras saíam.. um enfermeiro negro do Hospital Miguel Bombarda. Os de Lourenço Marques vestem ordinariamente um calção de panno branco até o joelho. Augusto Conrado. Como era impossível afastar-se totalmente dos puxadores de rickhaws.. Op. A formação do espaço urbano tempo e com o saber764. 285 . A hora do almoço. genêro e classe que circunscreviam as atividades dos africanos eram explicitadas nos diferentes uniformes para distintas categorias de criados. p. uma mulata de Inhambane. idade. balconistas. 174. em Lourenço Marques. p. as linhas de raça.

embora não raro surrado. educadas como européias.). procurava. que trajam à moda. dançar batuques em lugar de valsar nas salas do Grémio. vivendo como eles. em que só quem melhor educação mostrar ter. contrariamente ao desejo de Adelina Pais. Conrado despido do seu escandaloso papo sêco. não nos importando que alguma de nós fique mal.. já em 1911. Karen Tranberg (ed. uma gravata. Op. até mesmo nas audições de música na Praça Sete de Março eram barrados pela polícia. um chapéu de feltro e um sapato no pé. O Brado Africano.”768 E. gostaríamos de ver o sr.. que não podia trajar-se com a elegância de Augusto Conrado.5.] Como protesto da imitação. substituindo tudo isso por uma capulana. trajar à moda de D. melhor acolhimento terá na sociedade?”. e como eles procedendo e vestindo. depositando esperanças no trajar-se à européia. o que lhes permitiam participar de alguns dos costumeiros eventos públicos urbanos embora. filhas de europeus. João IV nem embrulharmo-nos em panos como fazem as pretas propriamente ditas. decreto ou portaria que permitisse tal abuso policial. enfim a dormir na esteira sebenta em lugar da cama. além de tudo. asiáticos e mulatos.. somos obrigadas a imitar os costumes dos nossos pais. ao menos. p. uma camisa limpa. ou a de João Albasini no seu impecável traje de linho branco. das suas gravatas de seda e do seu penteado. Na maioria das vezes eram também discriminados. [. Sendo a maior parte das mulheres africanas. A maioria. A formação do espaço urbano via os membros desta pequena burguesia filha da terra: “Nós não temos nada com que as européias digam ou possam dizer de nós quando nos veem vestidas com todo o rigor da moda em voga nem podemos. 11. a dar consultas de cuxu cuxu em lugar de dar injeções. uma camisola e uma argolas nas pernas em lugar de sapatos. O Brado Africano. entretanto. African Encounters with Domesticity. conclui com uma pergunta: “sem imitarmos costumes europeus onde nós iríamos parar nos tempos que vão correndo. nem sempre a sua educação e o seu traje lhes permitiam ter um melhor acolhimento no meio social. vestir-se com um fato bem engomado. com o receio de nos qualifiquem de macacas. 286 . lembrava ao Comissário de Polícia que Lourenço Marques “ainda” não era território inglês ou americano e que a constituição portuguesa não distinguia cores e que “tanto uns como outros pagam. 05/11/1927. para a música tocar” e. não havia qualquer lei. contra 767 768 HANSEN. cit.

Mesmo nos anos quarenta a tatuagem ainda era comum entre as mulheres. mais tarde. só paulatinamente a prática de seu uso se disseminou. quanto às roupas. Op. Sobre tais práticas ver JUNOD. Também os negros e mulatos educados. assim. marginalizada porque não tinha como trajar-se à européia. durante o dia a Baixa podia ser considerada um território multirracial. excetuando-se os soldados e membros da banda militar em função noturna. 771 O Brado Africano. referindo-se à recepção do novo Governador Geral. O certo é que a maioria da população negra. estendendo-se sobre a aparência física global. assimilados. pp. 772 O Brado Africano. passaram a sofrer mais diretamente a discriminação. porque alguns de nós não têm botas. não hesitaram em apelar às autoridades coloniais no sentido de obrigar o uso de calças aos homens e de kimau (blusa) às mulheres indígenas ou. 18/08/1923. Henri. 100 e 172:4. 20/11/1915. O Africano. A praça pública. fazer campanhas de convencimento para que as mulheres assim se vestissem. 16/09/1911 e O Brado Africano de 24/12/1948. quer porque as pessoas não quisessem vestir-se de tal maneira. Estes membros da pequena burguesia filha da terra estavam convencidos de que a vestimenta à européia era uma forma de inserção no leito civilizatório com seus peculiares valores morais e sua relação com o corpo e com o pudor. Em 1915. vivendo na cidade. Tais apelos parecem não ter surtido efeito. Ainda que com algumas exclusões. outros não têm calças pode descer à baixa ___ e ainda outros não têm chapéu”772 . como a levada a cabo por Joaquim Swart a partir do final da década de vinte770. 287 . era. mais uma vez. O Brado Africano assim argumentava: “Não comparecemos à parada. quer porque os salários recebidos não permitissem tais compras. todos os demais indígenas estavam proibidos de circular sem um passe específico que lhes permitisse tal movimentação. Mas a preocupação em parecer civilizado não se esgotava no trajar à européia. Assim. tanto no que tange às tatuagens. 08/03/1919. e quanto às roupas européias. também cobravam das autoridades a proibição da prática ancestral de limar os dentes. tomo I. A formação do espaço urbano indígenas “decentemente vestidos”769.5. civilizados. mas a noite trazia consigo a barreira da cor. é certo. não só quanto ao acesso aos empregos. afinal. Mas não eram exclusivamente os indígenas que se evitava. não era tão pública assim. mas também quanto à sua presença ___ de capulana não se 769 770 O Brado Africano. cit. como esta da vestimenta. Usos e Costumes dos Bantos. Álvaro de Castro. furar orelhas e tatuar o corpo que consideravam “todo um horror de selvagerias”771.

5. já que os indígenas não educados. Também com o consentimento do Governador Geral. guardas fiscais e grande número de pescadores pés-descalços. enfurecidos artigos contra a legalização do jogo. pois o ar “não costuma escolher a cor das narinas por onde entra”. nos Caminhos de Ferro. a elite européia composta de policiais. mas também o cassino público. o que provocou. trabalhadores e disciplinados. acusava O Brado Africano em 1922. argumentava o autor. 06/05 e 22/07/1933. os condutores começaram a separar vagões especiais para europeus e não-europeus. como não há outros no mundo. então diretor de O Brado Africano. Aliás. pudessem ir às plataformas para se despedir. 775 O Brado Africano. que mais se assemelhavam a vagões de gado e onde pagavam tarifas mais caras do que pagavam os europeus nos vagões de primeira classe773. fora aventada a idéia de se instalar divisórias especiais para europeus. Nos Correios estabeleceu-se. 22/10/1932.. uma série de artigos contra tal prática discriminatória pois. O Brado Africano. 06/04/1929. para estender aos negros e mulatos assimilados a discriminação. não só os cassinos clandestinos. por ordem do Governador Geral José Cabral. 03/04/1915. nas quais estaria vedada a entrada ou mesmo o trânsito de nativos. esses desgraçados e inofensivos seres. por parte de Karel Pott. argumentando que o povo pedia empregos e pão e o Governo escancarava-lhes as portas que o levavam “às roletas e aos 773 774 O Africano. mas de cor” continuava. o estabelecimento do “critério cromático para cercear regalias e restringir direitos dos africanos portugueses. e na outra. que fossem viajar. 29/07/1922. sem bancos. em várias edições de O Brado Africano. devido à passividade destes776. principalmente mamparras e magaíças. Karel Pott mostrava-se de tal modo indignado com mais esta manifestação de racismo que dedicou. mas brancos”775. Proibiu-se até mesmo que as famílias de negros. A crescente onda racista.. privilégio reservado aos brancos774. O Brado Africano. 288 . que as edições de O Brado Africano dedicavam mais de cinqüenta por cento de seu espaço a denúncias de tais práticas: na Imprensa Nacional. sempre foram empurrados para os vagões de 3a classe. alastrou-se indiscriminadamente entre particulares e serviços públicos de tal modo. segundo afirmava com ironia. em 1933. principalmente a partir de meados dos anos vinte. A formação do espaço urbano nos espaços urbanos. “duas bichas: uma para os Africanos. a situação estava de tal modo tornando-se grave na Colônia que os negros e mulatos só não eram discriminados na hora de respirar. em parte. proibiam a entrada de “pretos civilizados”.

Pott julgava que a iniciativa de abrir cassinos em Lourenço Marques. 780 O Brado Africano. nas quais. para atacá-lo. Cabral. de estradas e hospitais e o Governo dava-lhes “casas de tavolagem” e. poucos meses antes. argumentava que. numa audiência que transcorreu em clima áspero. ao centrar suas edições na questão do jogo em Lourenço Marques. ao próprio Governador Geral. 22/07/1933. que. tinha sede de cultura. afinal. à ruína e à desonra”. 22/07/1933. o “o nativo quer colaborar na obra do Império Colonial Português” mas. o O Brado Africano desviava-se de sua orientação de defesa dos indígenas e dava espaço a um problema que não os afetava diretamente. de escolas. além de tudo. José Cantine. o que determinava o lugar social e físico de cada um na sociedade 776 777 O Brado Africano. era resultante de uma decisão pessoal. de moral. 778 O Brado Africano. Por que tais elogios? Não se dera conta. por exemplo. mas que em nada resultou. pessoalmente. a Colônia tinha sede e fome. 289 . do Governador Geral e. se praticava abertamente o racismo778. Oliveira Salazar. com as práticas racistas. “o Govêrno impõe-lhe usos e costumes do Império Colonial Inglês!”777 Karel Pott protestou. A cada dia tornava-se mais claro que já não era o suposto grau de civilização. carácter honesto e íntegro. A formação do espaço urbano bacarats. 19/06/1933. mas a cor da pele. desajuizada. em 1926. a posição assumida por Karel Pott em relação ao jogo não era pactuada por todos os articulistas do jornal. argumentava. de instrução. já que estes não tinham dinheiro para gastar em tais casas de azar780. 22/10/1932. então Ministro das Colônias e “ao eminente estadista Dr. para atrair dinheiro dos turistas da vizinha União Sul-Africana. era um dos paladinos? De qualquer modo. duma rigidez moral conhecida desde os bancos das escolas e cuja política tem sido encaminhada para uma finalidade saneadora de toda vida político-social portuguesa”. julgava Pott. 779 O Brado Africano. tecia loas a Armindo Monteiro. que o acusava de por em perigo a unidade e a ordem na Colônia779? Não se tinha dado conta de que José Cabral fora posto à frente do governo da Colônia.5. não pactuaria com a iniciativa de manter casas de tavolagem. 22/07/1933. pelas forças que naquele mesmo ano tinham dado um golpe e implantado a ditadura em Portugal e da qual ele. O Brado Africano. de que ele próprio tinha sido “saneado” e que estava tendo coatada sua liberdade de expressão através de processos tais como o movido pelo ministério público.

como apregoava a publicidade colonial do Estado Novo782. como o espaço público. nos cinemas e teatros. Para os subúrbios. Nos subúrbios. no máximo. o fator raça sobredeterminava a classe. Diante de tamanha segregação. sobre ele temos poucas informações. 290 . 06/01/1934. justamente por isto. Ainda no calor da conquista militar do 781 782 O Brado Africano. classes distintas. no Porto ou no Caminho de Ferro. O Brado Africano. à noite. Além dos espaços de negócios e de moradia para os brancos. iam recolher-se nas suas palhotas ou em quartinhos nos fundos das cantinas. se de fato eles eram “os negros mais bem tratados do mundo”. após mais uma jornada na cidade. em 1934. não podiam tomar banho na praia da Polana. era o dos subúrbios. os bares mistos e os prostíbulos. 5. não tinham acesso aos vagões europeus nos CFLM. em artigo sugestivamente intitulado “Colonização”. perguntava. tinham sessões à parte ou.4. o convívio. os negros e mulatos ouviam em toda parte781. as palhotas indígenas. tinham turmas diferentes nas escolas. havia um terceiro espaço que configurava a cidade. não ficavam nas mesmas bichas nos correios e outras repartições. onde a maioria da população era negra e. foram alvos de especial atenção do projeto disciplinador em curso. Soares Franco. principalmente nos anos trinta. A formação do espaço urbano colonial laurentina: os africanos passaram a ser vistos como um todo indistinto. os trabalhadores. localizado nos subúrbios e cuja freguesia era quase exclusivamente indígena. etc. assim.3 CHAPAS E PASSES As primeiras medidas de tal projeto disciplinador foram no sentido de controlar o que julgavam ser a ameaçadora presença negra. Os lugares que dificultavam a concretização plena deste agudo processo de segregação espacial. Não podiam sentar-se lado a lado com brancos nos elétricos e eram recusados nos ônibus. as cantinas. 23/08/1930. exceto no Lusitano. as festas e as relações eram pautadas por valores distintos daqueles imperantes na cidade branca. “Não pode entrar” era a expressão que. numa política que não levava em conta as diferenciações sociais.5.

regulou-se o acesso e permanência em Lourenço Marques de tal forma. Era preciso que Lourenço Marques fizesse jus ao nome que lhe davam os indígenas: Xi-Lunguíne. posto em vigor em 1904784. a partir de 1898. estar a serviço de particulares de passagem pela cidade. já não era só mais uma cidade qualquer. presa ao braço direito. Seus artigos procuravam regulamentar estritamente a circulação e permanência de indígenas na área da cidade. A formação do espaço urbano sul de Moçambique. Joaquim.5. 1898. publicado no Boletim Oficial no 45/1904. Lisboa. 291 . 646:7. mas a capital da colônia. deveriam ser portadores de uma guia expedida pelos administradores das circunscrições. possuir licença passada pela administração para procurar emprego. 784 Regulamento de Serviçaes e Trabalhadores Indígenas no Distrito de Lourenço Marques. possuir documentos que comprovassem autorização para ir à cidade resolver assuntos pessoais ou para vender produtos. ser serviçal. Imprensa Nacional. na condição de requisitados ou não. que comprovasse esta sua condição e que usassem. O mais sistemático controle. operário ou jornaleiro de particulares e devidamente identificados. 785 Ver Portaria Provincial 312 de 04/12/1912 que punha em vigor o Regulamento de Polícia dos Serviçais e Trabalhadores Indígenas e a Portaria Provincial 1198 de 10/09/1913. p. A idéia de que era necessário marcar os nativos com uma chapa ou distintivo também já havia sido discutida na Co___ a $100 réis 783 MOUSINHO DE ALBUQUERQUE. que a partir de 1913 passou a indicar o número de inscrição do indígena junto ao Comissariado de Polícia785. que reiteram as restrições contidas no Regulamento de 1904. contudo. exigia-se que requeressem uma autorização. 09/09/1904. O Regulamento de 1904 proibia ainda que os indígenas circulassem após as vinte e uma horas sem autorização escrita dos patrões e penalizava os infratores com prisão e penas de trabalho diários e comida ___ que podiam variar de quinze dias a três meses. trabalhavam na cidade. uma chapa metálica. sob pena de punição àqueles que transitassem sem a mesma783. Lourenço Marques. Imprensa Nacional. que. de forma mais permanente. posto em vigor pelo Dec. pp. que todos os indígenas que se dirigiam à cidade para prestar serviços. Para gozar de tal prerrogativa o indígena deveria encontrar-se em uma das seguintes situações: ser proprietário de bens imóveis ou de estabelecimentos comerciais ou industriais. Providencias publicadas pelo Comissário Régio na Província de Moçambique de 1 de Dezembro de 1896 a 18 de Novembro de 1897. cidade dos brancos. pp. publicada no Boletim Oficial no 37/1913. foi introduzido pelo Regulamento de Serviçaes e Trabalhadores Indígenas no Distrito de Lourenço Marques. 1904. Aos que. 29. estar a serviço do Estado ou do município. 4:6.

através de uma caderneta com foto. na verdade até propunha que fossem identificados. numa irônica referência ao seu idealizador Albano Seiça Moncada. isto é. O curioso é que a técnica de identificação. 31/12/1913 e 27/03/1915. instituiu. mas sob base moderna. O Africano. mesmo estando só temporariamente desempregados. Esta obrigatoriedade da chapa foi inúmeras vezes ironizada pelo O Africano. onde era corrente associar trabalhador e pobre ao crime. então administrador de distrito em Bengala. a partir de 1877. queimar a ferro ou tatuar os criminosos ___ identificar. sujeitar-se a quaisquer trabalhos que lhes fossem oferecidos. 292 .). todos lhes pareciam ter a mesma cara.] and the public to protect itself against stock thefts”. sir William Herschel. para Herschel e a maioria dos colonos. Os indígenas registrados.5.. A formação do espaço urbano lônia do Cabo em 1899 e o intuito era o mesmo: melhor controlar786. em exceto um. sob pena de serem considerados vadios e submetidos ao trabalho prisional. Não que o jornal fosse contra qualquer identificação dos indígenas. mas da apropriação de um saber indígena por parte do dominador colonial: em 1860. obrigatoriamente. em suas páginas. Na Europa do século XIX. aqueles indivíduos que pudessem representar riscos à integridade da sociedade burguesa. de maneira racional ___ já que não se concebia mais amputar membros. na qual fossem lançados os dados identificadores e o emprego do indígena788. Saul (eds. chamava-a de Chapa Moncádica. teriam que. Vários foram os mecanismos engenhosamente pensados para dar conta de tal tarefa mas. que criticava as autoridades por procederem com pessoas da mesma maneira com que se identificava animais e. cujos valores hegemonizavam-se.P. não de especulações científicas européias. a obrigatoriedade de que todos os nativos sob sua administração fossem assim 786 “Whe must earmark the native [. Schreimer em Cape Times. Maynard W. Routledge. 1900-09. foi o resultado. então Intendente dos Negócios Indígenas e de Emigração787. p.” In: BEINART. apud SWANSON. 787 Por exemplo. todos foram relegados ao esquecimento.. Segregation and Apartheid in Twenty-Century South Africa. 1995. as autoridades procuraram mecanismos que pudessem. London.. “The Sanitation Syndrome: Bubonic plague and urban native policy in the Cape Colony. notou que era hábito entre os bengaleses assinarem seus documentos apondo sua impressão digital sobre os mesmos. 32.. dentre a multidão das cidades. que acabou por tornar-se universal. Palavras do Primeiro Ministro W. 27/07/1899. de resto. os nativos constituiam um perigo em latência e.] a badge or ticket [possibilitará] employers to protect themselves against loafers [. para honra e glória de sua alteza britânica. William e DUBOW. depois de longas e detalhadas experiências. o diligente administrador. Como. e que portanto estavam autorizados a permanecer na cidade.

In: Mitos. observe-se que o Recenseamento da População da cidade de Lourenço 788 789 O Africano. 1991. permitindo uma flexibilidade que. suas idas. por outro lado. Ver GINZBURG. com o sistema da chapa numerada. sem exagero. com a prática tradicional da atribuição de nomes. por que as autoridades coloniais portuguesas não lançaram mão. A necessidade do poder colonial de criar uma identidade fixa para cada indígena chocava-se. a vigilância era ampliada. resguardam. a chapa numerada pode aqui ser vista. em 1913. que era bastante instável e conjuntural. o serviço de emissão de passes para trabalhadores indígenas no Transvaal introduziu a impressão digital como método de identificação que. conforme já dissemos. aos olhos do colono. tornou-se obrigatória para todos 293 . seus menores movimentos. ambas estavam bastantes disseminadas e certamente eram de seu conhecimento?790 Embora estas modernas formas de identificação tornem mais precisa e científica a ação normativa e controladora do poder policial e administrativo. Com estes mecanismos. Carlo. certamente. sua mobilidade estaria coatada. não era nada operacional do ponto de vista do sistema jurídico europeu e particularmente inadequada às práticas de vigilância e controle. Ainda que se possa fazer restrições à confiabilidade a ser dedicada às fontes estatísticas devido à multiplicidade e variedade de critérios que nortearam os recenseamentos. ao alcançe do braço e dos rigores da lei.5. parecia constituir uma multidão anônima de indígenas na cidade. seus percursos podiam ser acompanhados no emaranhado urbano. conforme se menciona adiante. 790 Desde 1901. “Sinais: Raízes de um paradigma indiciário”. Mas. 143:179. e mesmo outros indígenas. sinais: morfologia e história. ainda que fosse possível buscar certas táticas de burla. quer da técnica proposta pelo O Africano. quer do sistema datiloscópico já que. como um sucedâneo da marca de ferro dos escravos e praticamente tirava a possibilidade de que o indivíduo pudesse confundir-se e ser confundido no meio do que. todos os colonos. o indivíduo poderia ser interpelado exclusivamente pelos agentes da autoridade e a sua vigilância dependeria da ação persecutória destes. A formação do espaço urbano identificados789. emblemas. Estes códigos e normas de controle podem ser entendidos como resultantes de certa inquietação face ao desequilíbrio numérico representado pela população negra da cidade e arredores. tornavam-se potenciais agentes delatores. Cia das Letras. até certo ponto. pp. suas vindas. São Paulo. a partir de 1911. doravante estariam permanentemente submetidos a olhares atentos. a identidade e a privacidade do indivíduo face ao público em geral. 21/10/1911 e 18/07/1914. todos estariam ao alcance do olho perscrutor do colono e das autoridades.

.5% eram negras. 294 .595 pretas. a cidade contava.5. temos um total de 26.25 km2.. ou seja a média de um policial para cada 194 habitantes. os trabalhadores negros. com 102 policiais brancos e 32 negros. Op.. 180:1. Work culture and identity. Patrick. nesta altura. 1. vigiar e fazer cumprir toda esta parafernália legislativa. das quais 236 eram brancas.87%.43% amarelas e cerca de 21. 10. HARRIES. compreendendo uma área circunvizinha de 41. temos que os negros representavam 42. Para controlar. 771 pardas e 11.2% e os amarelos 2. No cômputo geral do que poderíamos chamar de aglomerado urbano. das quais 66. com cerca de 6.649 pretas. 69 amarelas.75% pardas.3% brancas.353 pessoas. 304 amarelas.726 pessoas.64%. Mesmo considerando-se apenas o perímetro restrito da chamada cidade. das quais 5. 2. cit. A formação do espaço urbano Marques e Subúrbios. os pardos 15.27%.079 pessoas. p.4 km2 ___ contava com uma população de 13.030 pardas e 5. tinham uma população total de 12. aponta que a cidade ___ assim definida a área urbana propriamente dita. Os chamados subúrbios. de 1912. Cf.324 eram brancas. os brancos 39.

1912 18000 negros 16000 14000 12000 10000 8000 6000 4000 2000 0 cidade subúrbios ambas brancos pardos amarelos Estas cifras populacionais ganham significado especial. 1984. que levaram à efetiva conquista do território: em 1894. De qualquer modo este acelerado crescimento da população negra denota não só o febril crescimento em torno e em função de seu porto e caminho de ferro. com absoluta segurança. mas também o grau de desestruturação das 791 792 REIS. ainda que ___ devidos às lacunas dos levantamentos ___ não se possa afirmar. 295 . Maria Stella Martins. representando 55. a população da cidade de Lourenço Marques cresceu cerca de vinte e cinco vezes. 2a ed. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. cit. BRESCIANI. Para se ter uma idéia deste ritmo alucinante.5.8% do total791. temporariamente na cidade. entretanto. Carlos Santos. Brasiliense. Passados dezoito anos. p.059 habitantes. enquanto que Paris cresceu em 50% entre 1851 e 1866792. se os pretos. compare-se-a com Londres e Paris. os brancos somavam 591. de um total de 1.. Op. A formação do espaço urbano População de Lourenço Marques . 50 e 74. eram moradores ou simplesmente trabalhadores chibalo. São Paulo.cidade e subúrbios. incluídos no total. a população branca cresceu menos de nove vezes e meia. A disparidade numérica entre brancos e negros era enorme. se comparadas com as disponíveis para o período imediatamente anterior ao desencadeamento das operações militares. cujos crescimentos são destacados por historiadores: a metrópole inglesa dobrou sua população nos trinta anos entre 1821 e 1851 e novamente dobrou nos cinqüenta anos subseqüentes.

como chibalo. incluindo-se os que aí trabalhavam para empresas privadas793. pela conquista militar e pela implantação colonial. Para o modelo de identificação proposto. era forçoso ampliar e atualizar os mecanismos de controle sobre esta crescente presença. o número de palhotas possuídas. depois alterada pela criação da Caderneta de Identificação Indígena e Trabalho. 795 O Africano. publicada no Boletim Oficial de Moçambique no 50/1942 e pelo Regulamento de Serviçais Indígenas posto em vigor pela Portaria no 5565 de 12/06/1944. publicada no Boletim Oficial no 23/1926. de lés a lés.000. pelo interior afora. 530. além dos dados pessoais.000 homens e. esta por sua vez reforçada pela Portaria no 4950 de 19/02/1942. número de mulheres e filhos. tempo de permanência no exterior. no 24/1944. cerca de 1. mesmo assim. saindo ou permanecendo dentro da cidade de Lourenço Mar- 793 794 O Africano.Curadoria e Negócios Indígenas. expropriação de terras ___ foram eficientes neste sentido. reforçaram-se exigências estipuladas em leis anteriores. criaram-se novas formas de identificação.Secção B . A expansão acelerada dos serviços urbanos e o crescimento do complexo ferroportuário e da população branca. pasta ano 1914. Existe vasta documentação sobre o assunto. 296 . Proc.5. cx. 05. trabalhavam. estabelecida pela Portaria Provincial 332 de 05/06/1926. com todos os seus antecedentes e. arriscava-se a ser agarrado arbitrariamente em alguma das muitas rusgas que constantemente assustavam. Somente no Porto de Lourenço Marques. publicada no Boletim Oficial de Moçambique. chibalo. 08/11/1913 e 31/08/1918. autorizações de emigração. Ver Artigo 1o da Portaria Provincial no 908 de 21/09/1918 e caixas 530-541 do AHM-DSNI. Continuamente novos diplomas legais sucediam-se na tentativa de controlar a mobilidade da força de trabalho negra e da população em geral: proibiu-se a mudança do local de moradia sem autorização. 19/07/1911 e O Brado Africano. mas só adotado pela Portaria Provincial 1. situação penal e assentamentos relativos ao pagamento do imposto de palhota794. do comportamento. o indígena tinha que portar uma verdadeira folha corrida. 01/12/1923. conforme se tratou em capítulos anteriores. ver particularmente AHM-DSNI. entrando. informações acerca do cumprimento da obrigação do trabalho.185 de 24/05/19. A formação do espaço urbano relações econômicas e sociais provocadas. avaliava-se que este número atingia 2. onde constavam. Sob a ótica da administração colonial. provocaram uma crescente demanda de mão-de-obra indígena e os mecanismos para criá-la ___ imposto de palhota. A impotência relativa do Estado em exercer um efetivo controle e sua determinação na busca de mecanismos que pudessem coatar a liberdade de movimentação dos indígenas era recorrentemente reconhecida pelas próprias autoridades: “A liberdade excessiva que o indígena hoje goza. Enfim. em 1918. os subúrbios da cidade795. em 1913.

se munirem de papéis que os distinguam dos outros. Seguindo o espírito da Portaria dos Assimilados. que ficou conhecido como lei dos passes e compounds. a existência de uma vigilância apertada. considerados indígenas. cx. dos outros indígenas pela qualidade dos passes e dos não indígenas por deverem mostrar o papel ao polícia.5. inspirando-se na vizinha África do Sul. pela Câmara de Comércio e Hermínio G. um ‘controle’ rigoroso sôbre a sua maneira de viver nos centros populosos onde temporariamente vem residir”798. cx. Brito Camacho.”796 Assim. representados pelo O Brado Africano e. pequenos funcionários e comerciários. ano 1922 . 297 . buscando ampliar o controle sobre toda a população negra e não exclusivamente sobre os trabalhadores braçais e criados. ao instituir a obrigatoriedade dos passes a todos os indígenas. A partir de então passava a haver a “obrigatoriedade de os nativos civilizados e sem precisão de servirem como criados domésticos ou carregadores. Esta estratégia atingia em cheio a camada social representada por negros e mulatos urbanizados e escolarizados. neste caso. Carneiro. ficando-lhe quási assegurada a impunidade quando praticam qualquer delito ou faltam às obrigações contraídas. pois seus autores estavam convencidos das “vantagens que aos indígenas hoje traz. o que os outros não fazem”799. 797 AHM-ACM.Parecer da comissão de elaboração do Projeto de Regulamento de Polícia dos Serviçais e Trabalhadores Indígenas em Lourenço Marques. sob o ponto de vista moral. dá como resultado a impossibilidade de sobre eles se exercer qualquer espécie de fiscalização. livre de qualquer sistema de identificação. 991. O Regulamento foi posto em vigor pelo Decreto 312 de 04/12/1922. a grita foi imediata: denunciaram as autoridades portuguesas que. em 1922. 798 AHM-SNI. no qual procurou estabelecer novos mecanismos de identificação e controle. Curadoria dos Negócios Indígenas. pela Secretaria dos Negócios Indígenas e Paulino dos Santos Gil.Parecer da comissão de elaboração do Projeto de Regulamento de Polícia dos Serviçais e Trabalhadores Indígenas em Lourenço Marques. instituiu-se com o Regulamento uma carteira de identidade também para os assimilados. Secção B. cx. A formação do espaço urbano ques. publicou uma portaria regulamentando o trânsito e a mudança dos indígenas de um lugar para o outro e a seguir editou o Regulamento de Polícia dos Serviçais e Trabalhadores Indígenas em Lourenço Marques797. queriam “adaptar leis exóticas num meio de vida e de costumes diferentes” e principalmente porque queriam fazer com que “‘o indígena civilizado não [estivesse] fora de 796 AHM-DSNI. Os autores foram Antonio Augusto Pereira Cabral. documento de 20/10/1922. ano 1922 . que constituíam a base social do Grémio Africano de Lourenço Marques.

5. tal como os narros. era tomada como uma afrontra à liberdade individual. quer e manda nos nativos. à mercê dos poderes discricionários: “a polícia pode. será. Se somos da mesma Pátria. 09/08/1930. como aos demais cidadãos não se pedia qualquer identidade. porque sempre foi pretensão dos medianos não encarar bem a elevação. Era inevitável a comparação com a Monarquia: “Meus senhores. 11/08/1928. Assim. 298 . Na prática contudo. Pode ser um pacato cidadão passando 799 800 O Brado Africano. Tem todas as cartas nas mãos. se todos eram cidadãos.”800 Num momento em que. se todos nós contribuímos para a prosperidade da República porque motivo há-de haver distinções?”801 Ora. 801 O Brado Africano. Os pretos educados também estavam agora. É a polícia a senhora da liberdade de qualquer nativo desta Província. o Grémio Africano e O Brado Africano argumentavam que o Decreto era inconstitucional pois. nada mudou pois “o acto de exigir o passe é feito sem exceção. quer seja preto educado quer seja boçal os senhores da Polícia não querem saber senão da cor!”804. Ainda as edições de 11/08/1928. As pressões haviam conseguido isentar os não serviçais e os serventuários do Estado da obrigação do passe. 802 O Brado Africano. mas não da obrigação de portarem documentos803. 13/01/1923. 20/01/1923. se os assimilados eram considerados cidadãos e. a identidade e a cidadania ainda eram definidas pelas relações do indivíduo com a comunidade da qual o Estado era a simples emanação. argumentava O Brado Africano. não criminosos e não doentes. tão opressiva? Se isto acontecer é porque dentro da República não há liberdade. 803 Portaria Provincial no 352 de 20/01/1923. A formação do espaço urbano sua alçada’. de qualquer condição social. seguindo os princípios republicanos. 16/04/1932. como se fosse forasteiro. qualquer tentativa de registrar os cidadãos. se no tempo dos déspotas não existia isto. por que motivo a polícia não agia da mesma maneira para com “o monhé e o baniane e até para com o próprio português. O Brado Africano. sem ferir a Constituição e os princípios republicanos que a nortevam. 13/01/1923. branco?”802. liberdade. tanto não há que o cidadão português tem que andar com documentos dentro do bolso pra transitar na sua terra. igualdade e independência de ninguém. surja uma lei desta natureza. então não se poderia pedí-las aos primeiros. agora no meio da República.

pois incompatível com a moral e os bons costumes que a cultura européia exigia. alimentos estranhos. como uma doença social contagiosa que ameaçava o ideal de ordem e progresso social e que.”805 As autoridades também procuraram coibir o exercício de pequenos biscates exercidos por indígenas na área urbana e um dos expedientes para tal fim era proibir a sua circulação. p. 20/11/1915. que era a forma tradicional com que se vestia a imensa maioria da população indígena. também em Lourenço Marques. deveria ser mantida à distância. 30. tinha que ser enfrentada. 299 . vistoriado pelo Comissariado de Polícia. Vol. Ver ainda. oculta. preparava e comia. JONES.. na baixa. Todas estas 804 805 O Brado Africano. Setembro de 1984/Abril de 1985. era tolerada mas não desejada. Gareth Stedman. disciplinada. Penguin Books. principalmente as mulheres806. tinha outros padrões familiares e referentes morais. 808 STORCH. Outcast London: A Study in the relationship between Classes in Victorian Society. pois não compartia dos mesmos padrões culturais europeus: habitava em palhotas. onde a presença de uma multidão de trabalhadores miseráveis.] que não se livra de ser interrompido pelo sr. Robert D. fora disto. In: Revista Brasileira de História. 806 O Africano. London. conforme indica O Brado Africano de 16/04/1932.. violência e alcolismo endêmicos era percebida em termos neodarwinistas. O Brado Africano. A formação do espaço urbano por uma rua qualquer [.5. Como na Inglaterra vitoriana. ou melhor andava semi-nu. 30/04/1923. A sanha controladora era tal que se chegou a emitir passes para crianças que circulassem por Lourenço Marques807. “Policiamento do Cotidiano na Cidade Vitoriana”. no 8/9. e só podia ser consentida enquanto tivesse atendendo às necessidades dos colonos e empresários brancos. de cortiços. 1971. A presença de uma força de trabalho africana na cidade era fruto da necessidade. vestia-se. 807 Por exemplo: em 1932 a Missão de São José de Lhanguene emitiu passe. exercia ofícios e práticas profissionais sem atender às normas jurídicas estabelecidas. ou seja na área da cidade. portanto. disciplinada. tinha um comportamento considerado inaceitável. com as mãos. 5. entre outros. oficialmente autorizada e vigiada. regulada. com capulanas. enfim. para se criar “uma sociedade urbana ordenada. 09/08/1930. a um garoto de 9 anos. da pobreza. dedicava-se a práticas religiosas e atividades lúdicas consideradas suspeitas. a edição de códigos atinentes à presença negra indicava que a população indígena da cidade era vista como um obstáculo à plena concretização de um projeto modernizador. uma sociedade em que o permitido ou o tolerado em público reduzia-se enormemente”808. guarda policial e ser conduzido ao calabouço e retido pelo tempo que muito bem entenda.

“Ministering to the White Man’s Needs: The Development of Urban Segregation in South Africa. Lisboa. A formação do espaço urbano práticas. Philip. tornando-se o dogma central da segregação urbana e modelo para a criação das cidades de homens brancos na África do Sul. 3a ed. Lendas da India. Editado por A. GASPAR CORREA. Paris. org. de. parecia estar cientificamente comprovada810. 1989. Agência Geral das Colónias. foram depois consubstanciadas na chamada doutrina Stallard. 4a ed. p. por exemplo ZURARA.4. Portugália.” In: Crítica da Antropologia. Liquor.” In: African Studies. tomo I-III. havia sido construída ao longo dos séculos. Alfredo. RICH. por Rodrigo José de Lima Felner. aumentada. com este outro. temia algo que ela própria construíra e exigia: um exército de trabalhadores. (1a edição é de 1837). “Seeking the Factory for Women”. 5. Lisboa. nas últimas décadas do século XIX.. 1949. Athens. P. Gomes Eanes da. Seuil. no 2 (1978). Nous et les autres. Emanuel. and the Search for Social Control in an East Rand Town. J. Coimbra. Dias Dinis. 1749.1983 (1a edição: 1853). Gallimard. “Backs to the Fence: Law. Henrico di Portogallo fruto de viagens realizadas entre 1455/63). Fund. 1920 (1a ed: 1880) e ainda do mesmo autor: Elementos de anthropologia.. formulada pelo membro do parlamento. HEGEL. G. 507:55. publicada em Vicença. W. Lecciones sobre la Filosofia de la História Universal. Parceria Antonio Maria Pereira Livraria editora. Revista de Occidente. TODOROV.5. pp. Gérard. O comportamento da população branca era marcado pela contradição: ao mesmo tempo em que demandava crescentemente por uma força de trabalho barata. GOES.4 MONHÉS & CHINAS 809 PENVENNE. Ed. a quem considerava inferior.” In: CRUSH. desde os primeiros contatos e. OLIVEIRA MARTINS. GOBINEAU. Calouste Gulbenkian. 1984. 1973. 300 .(A 1a edição é de 1507. pp. 180:2. o quanto a cidade branca. t. 1992. por um lado. Imprensa da Universidade. Viagens. Stallard. Vol. 1913-1923. Lisboa. Op. temia conviver com esta população de valores culturais diferentes. Liquor and Labor in Southern Africa. o quanto as leis anteriores eram burladas e. coronel C. Lisboa. Lisboa. 13:20. Itália. Paris. MARGARIDO. Colloque Internacional d'Études Humanistes). 1929-1942. F. As raças humanas e a civilização primitiva. Esta imagem desvalorizada do outro tirava-lhe qualquer legitimidade e fortalecia as representações de superioridade que tinham de si mesmo os brancos dominadores. Lisboa. civilizada. “A concepção das sociedades não ocidentais no século XIX. pp. As sucessivas reelaborações de códigos cerceadores da população indígena em Lourenço Marques indicam. CADAMOSTO. Jeanne Marie. 177:191 e BONNER. Lisboa. Jonathan and AMBLER. F. 07. Charles (eds). B. 1922-1931. Chronica do felicissimo rey D. In: Le Humanisme Portugais et l'Europe (Actes du XIXe. Estampa. “La vision de l'autre (africain et indien d'Amérique) dans la renaissance portugaise”. Arthur de. Essay sur l’inegalité des races humaines. baratos e disponíveis. Paris. pp. (A 1a edição é de 1566/7). s/d. por outro. Buenos Aires. Damian de. J. Luís de. Crônica dos feitos da Guiné. sob o título: Aloysio de Cadamosto libro della prima navigatione per Oceano alla terra dei Negri et della bassa Ethiopia per commandamento del infante D. traduzidas nos South Africa’s Urban Areas Acts de 1923 e 1937809. 1946. correntes também entre as colônias vizinhas. 1. cit. 810 A bibliografia é vasta e vai dos primeiros viajantes e cronistas do século XV até às modernas reflexões historiográficas sobre este outro. Esta inferioridade do outro profundamente introjetada na alma dos colonos.5a ed. O Brazil e as Colónias Portuguezas. Veja-se. Parceria Antonio Maria Pereira Livraria editora. 37. Tzvetan. P. LECLERC.

milhares de trabalhadores (coolies) foram recrutados mais ou menos compulsoriamente na Índia. “Union Immigrants Regulation Acts” de 1913 e as emendas de 1921 e 1922. Em Lourenço Marques. geralmente comerciantes muçulmanos. Op. que disseminaram-se pelas demais províncias. a lei não era tão restritiva. 15:19. 813 “Indian Immigration (Amendment) Act” de 1895. Jean & John L.. poucos voltaram para o território de origem.. para servirem nas plantações de cana do Natal. p. Carlos Santos. vieram também emigrantes livres. “Transvaal Immigrants Restriction Act”. mas acabaram por concorrer. criando. a partir de 1895. cit. e numericamente mais importante. Bill. Embora nas terras portuguesas não fosse menor o preconceito. 1910-1990. Portsmouth.. a comunidade cresceu em números absolutos: em 1912. à edição de sucessiva legislação restritiva à presença indiana. Na leva dos coolies. cit. A formação do espaço urbano A hierarquização consoante a raça e a cor promovia as condições para uma separação territorial dos corpos.. Op. O Censo realizado em 1894 já aponta a existência de 245 indianos total ___ ___ 23. Principalmente listas anexas. tornando-se criados domésticos.5. 814 Dados baseados em REIS. comerciários ou empregando-se nos caminhos de ferro e obras públicas. particularmente caps. Sua presença no sul de Moçambique dá-se por duas vias: a primeira como uma extensão. cit. 01 a 03. dos interesses mercantis estabelecidos na costa norte desde há séculos. Lourenço Marques contava com 848 in- 811 812 COMAROFF. Esta conjuntura levou. Cf. Ver LEITE. criaturas e corpos. particularmente no Transvaal. 301 . o que. 13:8 e FREUND. “Cape Immigration Act” de 1902 e 1906.. o que Comaroff considera como as condições e atitudes de limpeza para construir um mundo no qual todas as coisas. Em torno da presença indiana em Moçambique. Heinemann. A partir de 1860. assim. Joana Pereira. cit. no comércio retalhista. LEITE. Findo os contratos. Em torno da presença indiana em Moçambique. 64. estariam em seu próprio lugar811. que viriam a formar a União Sul Africana. Insiders and Outsiders: The Indian Working Class of Durban. pp. com os comerciantes ingleses e judeus. e passaram a servir não só à comunidades de contratados. e a segunda. embora seu peso proporcional em relação à população total tenha diminuído. 1995. A partir da década de dez.14% da população dos quais 151 eram maometanos e 59 hinduístas814. contribuiu para uma maior transferência destes para terras laurentinas813. província também sob domínio britânico. uma das mais segregadas comunidades era a dos monhés. pp. “Immigration Act” de 1908 e sua emenda de 1911. está associada à articulação da região sul à economia das colônias britânicas e boers vizinhas812. de 1907. Op. certamente.. Op. Joana Pereira. para sul.

antigos. este número ascendeu a 1. com a mercadoria por entre a família. nos remete ainda hoje a um clima oriental. Bairro Caminho de Ferro. 302 . da Laranjeira e da Fonte. e a forrar as prateleiras da loja. com pequenas portas para os pátios estreitos onde. 817 LOBATO. embora pequena. só três eram negros ___ e 02 (0. cit.76%) no chamado Bairro Indígena ___ no qual. Malanga. era mais um gueto conseguido que imposto e cuja “divisória assentava na religião. entre os muros. Op. Muitos prédios são ainda primitivos. se abrem poços fundos. cit. referido ao dia 1 de Dezembro de 1912. Central. Alto da Maxaquene. da Catembe.. por entre papaeiras e plantas aromáticas de jardim. 193. É na rua da Gávea que se encontra também a velha mesquita que. Xilunguíne. Guilherme de. e Censo da população não indígena em 1928. paredes grossas de pedra. Os outros três bairros não tinham nenhum habitante de origem indiana816. Alto Mahé. frestas altas gradadas da rua para os quartos escuros.13% deles. portas grossas com ferrolhos enormes. cubículos anexos. Cf. cit. Op. REIS. Alcandoram-se. hinduístas e maometanos.5.82%) moravam no Maxaquene-Ponta Vermelha. Alexandre. na Baixa. onde residiam 189. Os muros dos saguões são todos altos. por vezes. A formação do espaço urbano dívíduos indo-britânicos e em 1928. como em Diu. 816 Lourenço Marques tinha na verdade oito bairros ___ Baixa. Relatório sobre os trabalhos do recenseamento da população de Lourenço Marques e Subúrbios. Carlos Santos. Mas já não há palmeiras compondo os ambientes frescos.”817 Se o território constituído pela Rua da Gávea e arredores. a área foi assim descrita por um cronista: “Paira no ambiente um cheiro doce e forte a especiaria. Lourenço Marques. onde era calma a existência secular em negócio para a rua na sala de entrada e vida para o pátio nos quartos de trás. p. Os demais distribuíam-se assim pela cidade: 35 (14.. Apesar das reformas urbanas que descaracterizaram o trecho da Baixa onde o velho bairro tinha sido erguido por “baneanes e mouros de Diu”. dos 23 moradores. que os orientais cultivam sempre. curiosamente. que diferençava os 815 Ver respectivamente AZEVEDO. As travessas e a rua são estreitas e debruadas de estreitíssimos passeios. dum só piso com cimalha. da Linha. dos cozinhados do Oriente que se preparam nos telheiros dos quintais acanhados. da Porta.974 pessoas815. Bairro Indígena ___ que foram agrupados em seis. Op. Ponta Vermelha. janelas estreitas com taipais antigos e cadeados da Índia. 19 (7. Embora se tratasse de duas comunidades distintas. ou 77. 55.29%) residiam no Bairro Central. terraços e varandins. escadinhas. encontravam-se circunscritos à Rua da Gávea e nas travessas da Palmeira. por Carlos Santos Reis. p.

em seus aspectos físicos e hábitos. um collete muito curto e estreito. de 10/06/1907. e não usam meias. ordinariamente de panno branco e ligeiro.. Na cabeça trazem um pequeno bonet. As suas habitações. Uma calça larga. Xilunguíne.5. Daniel da.Fomento e Colonização. Moçambique: Relatório . discriminada em vários momentos. 820 CRUZ. António José. Ver por exemplo as investidas da Associação Comercial de Lourenço Marques contra a presença dos asiáticos no comércio local em AHM-ACM. p. Lourenço Marques.”820 Descrito o tipo. Juntamente com infinita variedade de mercadorias amontôam os móveis domésticos. membros delgados e flexíveis. pequeneníssimas e immundas. de hábito talar. os catres. fora sempre vista com restrições. 303 . Secção D . cx 61: Do Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar ao Governador Geral de Moçambique. O Pe. O seu calçado são geralmente umas sandálias muito ligeiras. cabello d’azeviche.. Op. que desce até abaixo do joelho. Daniel da Cruz nos dá uma síntese daquilo que era a opinião corrente no meio colonial de Moçambique acerca dos “fanáticos do Profeta”: “Altura regular. cxs. Sobre a importância comercial ver a opinião de António Ennes que desenvolve tal argumento.. do mesmo panno. A formação do espaço urbano sistemas de pensar e de viver”818. p. ENNES.] O seu vestuário é todo característico. o que tudo fazem por uma sórdida economia. 305. uma espécie. Pe. côr morena. Comércio e Licenças para cantinas.Fomento e Colonização. são duma psychologia notavelmente 818 819 LOBATO.. verdadeiras luras repelentes onde habitam grande número de pessoas. Secção D . por cima das mercadorias que dormem patrões e empregados. rosto comprido. ou grande camisa. 58 a 61. eis todo o seu vestuário. são sempre nos sítios mais escusos. de linho ou algodão.51:8 e ainda AHM-ACM. e durante a noite é no pavimento. cit..198. um grande turbante ou o bonet característico dos turcos e outros orientaes. não é menos verdade que tal população. [. Alexandre. mais retirados e esquecidos. sem botões. sem ar nem luz. Op. bordado a galão. exatamente porque sua cultura destoava da cultura européia dominante. às vezes de seda e muito rico. nariz aquilino. sofrendo perseguições devido à sua forte presença no comércio e só não foi expulsa justamente porque tal atividade a tornava interessante sob o ponto de vista fiscal819. nos balcões. torna-se mais interessante ainda a descrição que nos dá daquilo que o padre considera serem os elementos característicos do caráter e comportamento dos monhés: “De gênio bastante servil e adulador. cit. traços correctos. pp. em serviço duma cupidez insaciável e mesquinha.

] São muito pacífico e soffredores.. De espírito concentrado. eram seres que. como quem procura desde já identificar-se com Nirvana. e as doutrinas de Budha tanto lhes prohibe matar a vacca. linhas pouco definidas. Em 1894.” [. hediondas. de olhos pequenos. A partir de então. um pouco achatado e sem expressão. são geralmente baixos de estatura.. sendo por isso não raras vezes victimas de doestos e opressões da parte de colonos deshumanos e cruéis.] As suas habitações são ainda mais hediondas que as dos monhés.. Daniel da Cruz: “Raça muito inferior à precedente.. com o cresci- mento urbano. cidade e subúrbios contavam com 550 homens e 23 mulheres chineses. assim os retrata.. no imaginário branco. lânguidos. como o microscópico parasita que lhes atormenta o corpo. objecto dum culto particular. pp. formas arredondadas. uma mulher e duas crianças chinesas ___ representando 3. achassem legítimo assacar-lhes insultos e imputar-lhes responsabilidades múltiplas? Outra minoria também marginalizada. [.. ibidem. desenvolve uma extraordinária habilidade na escamoteação de quantas pequenas moedas sonha no bolso dos indígenas. nem luz.. efeminados.].] sem ar. Indolentes e apáticos [. viviam em luras acanhadas. como animais. era a dos chinas. e aspecto lânguido e efeminado. nariz pequeno. proporcionalmente à população total. Lourenço Marques tinha somente 36 adultos homens. ibidem. cúpidos.68% da população total. pretos e vivos. astutos. imundas e insalubres. Idem. mesquinhos. não seria de supor que os colonos. a comunidade diminiu. são duma psychologia muito acanhada e dum senso moral inferior ao dos monhés.. Astuto e de grande esperteza para o pequeno commércio. broncos e analfabetos. Se um padre. nem limpeza de casta nenhuma. 306:7. 304 . São duma sordidez sem igual. ávidos. repelentes e..”821 Dos baneanes assim nos fala o Pe. para piorar. Em 1912. e seu 821 822 Idem. [. côr muito trigueira e baça. e que se mantinha fechada.5. Os adjetivos empregados não deixam dúvidas: trata-se.”822 Tais considerandos expressam em que conta as duas comunidades eram tidas entre os colonos brancos. insaciáveis. degenerados. A formação do espaço urbano acanhada e dum moral muito degenerado. cabeça pequena. verdadeiros focos de insalubridade e immundície. educado e ilustrado. de seres sórdidos.

vistos como servis..1932. dos quais 119 eram carpinteiros825. dedicavam-se principalmente aos trabalhos artesanais especializados e ao comércio: 22 eram carpinteiros.cx. vol. 1907. “Chinese extraction group in Mozambique. a abastecer-se nas tais hortas. Ora. Em 1894. apesar de hábeis artesãos. ao qual 128 pessoas se dedicavam. sujos e imundos e. Guilherme de. em 1907. excetuando-se uma pessoa. Domingos José. 01 cozinheiro e uma única mulher estava empregada. 02 eram agricultores. em 1935 este número voltou a subir para 483 e em 1940 chegou a 570 indivíduos823. cit. 319 . pp. a tendência profissional continuava sendo o comércio. como os monhés e baneanes. 823 Cf. 1940. 39. 826 Era Nova. Embora. 10 comerciantes. Anuário de Moçambique. por longos anos e até esta data. não sei da existência de qualquer outro estudo sobre esta comunidade. 09/02/1911. AHM-GG . o Cônsul chinês em Lourenço Marques reagiu. 1926 e ainda a defesa da comunidade chinesa assumida pelo Brado Africano de 19/06/1926 e Anuário de Lourenço Marques . 824 REIS. cit. 305 . fossem os principais fornecedores de hortícolas à cidade.Saneamento de Lourenço Marques . Exceto pelo artigo REBELO. Op. apesar das condenações. 1970. culinária e hábitos sociais próprios de sua cultura. ainda por muitos anos.cx. até que. Apesar do número de seus membros em Moçambique nunca ter ultrapassado a casa do milhar.5. a população branca continuara. Em 1912.Documento do Cônsul da China em Lourenço Marques. 02 ferreiros. 825 AZEVEDO. Lourenço Marques tinha 314 chineses. vestimenta. Às restrições opostas à comunidade. XVI. pp: 21:28. Os chinas. manterem sua língua. em 1931. 128. 322. 827 AHM-ACM . ao lado das mulheres africanas. Carlos Santos. somente 16 dedicavam-se a tal tarefa. mas o tema das hortas permaneceu como sendo uma questão de higiene pública. e a construção civil. Imprensa Nacional. como doméstica824. foram marginalizados e. certamente influenciada por uma imprensa que pintava-os como agricultores imundos. 1941. que punham em permanente risco a salubridade pública. ao cultuarem sua religião. que empregava 132 trabalhadores. cit. p. não se justifica tal lacuna na historiografia moçambicana. p.” In: Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique. número bem inferior ao que inicialmente pode ser suposto a partir da imagem que deles reteve a memória popular. Lourenço Marques. A formação do espaço urbano número absoluto oscilou bastante: em 1928. todos moravam ou na Baixa (23 deles) ou no Bairro Central (15 deles). SOUZA RIBEIRO. Op. isto significava que. Op. a Câmara Municipal extinguiu suas machambas827.Hortas Chinas. sempre foram alvo da perseguição da população branca laurentina que os acusava de usarem as fezes recolhidas na cidade para adubarem suas hortas que eram consideradas “verdadeiros focos de infecção”826. 100:134. geralmente cantinas.

quer para propiciarem momentos de convívio que reforçassem seus laços culturais e. mas também pelo gênero de vida a que se encontravam obrigados em função de tais normas829. na construção civil. 1979. em 1922. a Associação dos Operários de Construção Civil. qualquer outro alimento simplesmente tocado por indivíduo de casta inferior ficava. “Moçambique e os naturais da Índia portuguesa”. a Academia Recreativa Mocidade. como nos aponta o Anuário de Lourenço Marques de 1932. não só por razões de pureza ou impureza. Os infratores estavam sujeitos a excomunhões. Cf. a sua Câmara de Comércio Indiana que. a Casa dos Trabalhadores. Instituto de Investigação Científica Tropical/ Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga. a Associação de Foot-Ball de Lourenço Marques. Buenos Aires. 1985. a Liga Nacional de Defesa dos Animais. A formação do espaço urbano Embora os indianos tivessem grande presença no comércio e os chineses. 424:5 e de 1932. Os indianos baneanes criaram. transplantaram a prática de isolamento residencial. 12/1925. 508:510. segundo seus estatutos. Filosofías de la India. recreativas e políticas laurentinas tais como a Associação de Fomento Agrícola. a Associação dos Empregados do Comércio e Indústria. 2a ed.1928. a Associação Comercial dos Lojistas. até a expulsão do seio da casta e da própria família. automaticamente. a União dos Trabalhadores de Moçambique. Editorial Universitaria de Buenos Aires. pp.5. não se davam ao proseli- Seus estatutos foram aprovados em alvará de 27/11/1922 publicado no Boletim Oficial no 50. reunir os comerciantes indianos. 829 Assim Rita-Ferreira resume as principais situações nas quais um hindu ficava conspurcado. a Liga de Defeza e Propaganda da Colónia de Moçambique. conspurcado. In: II Seminário Internacional de História Indo-Portuguesa. como a Câmara de Comércio. para tal. Excluídos ou auto-isolados. de 16/12/1922. o Grémio de Lourenço Marques. etc. quanto das demais associações de classe. que tinham pleno controle de seu corpo diretivo. Pelos próprios princípios orientadores de sua religião. Para a composição dos corpos diretivos ver os Anuários de Lourenço Marques . os conspurcados por nascimentos e falecimentos recentes. criaram suas próprias associações. o Orfeão Portuguez. A. a Sociedade Humanitária Portugueza Cruz do Oriente. 625 e ZIMMER. a Associação dos Velhos Colonos.. portugueses e estrangeiros. Heinrich. Os hinduístas contavam ainda com a Nova Associação Hindú de Lourenço Marques.”. 200. p. p. c) tocasse em indivíduos impuros. como os párias. RITA-FERREIRA. ambas as comunidades estavam excluídas tanto das associações que reuniam os comerciantes. efetivamente reunia os hinduístas. os muçulmanos. embora pretendesse. Devido à sua obediência às normas de casta. o Grémio Náutico. cívicas. quer para manterem-se coesos face às agressões. b) comesse com pessoas de castas inferiores. se: a) ingerisse comidas e bebidas impuras. pp. os estranhos à verdadeira religião. Ver ainda Boletim Oficial no 8. 1a série. particularmente o capítulo V “La Fi828 306 . hinduístas e chineses procuravam organizar suas próprias comunidades.Além da interdição da carne bovina e porcina. criada em 1925828. que podiam ir da proibição de se comunicarem com membros da mesma casta ou assistirem às cerimônias religiosas. beneficientes. Lisboa.

em 1890. no Pagode Chinez (Associação Chineza). com nomes portugueses e ocupando funções no aparelho administrativo. Op. Assim. A formação do espaço urbano tismo e nem mesmo procuravam contatos extra-comerciais com a população nativa ou européia. Annuário de Moçambique . Ver SOUZA RIBEIRO.Intervenção do Grémio Africano na sociedade de Lourenço Marques. 199:223. além do terreno que custara 100$000 réis. a maioria cristãos. 831 SOUZA RIBEIRO. em 1903. em sua maioria sunitas. a comunidade fundou. Boletim Oficial no 44. que rendiam £. um templo dedicado a Buda.550.1932. o Kuo Min Tang. Em defesa da causa africana . XIX e XX. 1989 e AHM-ACM.5.Agremiações Regionais de Recreio. pp. Era um edifício quadrangular de madeira e zinco e sem carac- losofia del deber”. além do aluguel das quatro lojas na fachada da mesma. além de reunirem-se no Club Sportivo Indo-Português.36 mensais. os goeses criaram o Instituto Goano para defender seus interesses e. Mantinham ainda um recinto vedado. Secção A. os artífices e operários também goeses. 324:5. o que não se aplicava. embora poucos. pp. Universidade Nova de Lisboa. pp. Além de sede de culto. mesmo assim. 01-03 . a União Indiana831. 379:82 e Boletim Oficial no 3. Des830 307 . mantinham uma representação do Partido Nacionalista Chinez. Já os oriundos de Diu e Damão criaram. 01/1925 e ainda NEVES. 4. a mesquita da Rua da Gávea. também construído por subscrição. das multas de 1$000 réis contra a não observância da regra de se fechar o comércio às sextas feiras. no Club Chinez de Lourenço Marques e. criaram a Associação de Mútuo Auxílio dos Operários Indianos. edificaram com contribuições da comunidade. 1908-1938. Olga Maria Lopes Serrão Iglésias. a mesquita servia para hospedar. em 1887. e o cemitério. variavam de um a cinco shillings. como Goa. em 1921. em 1905. Os chineses. Estas atividades eram sustentadas pelas receitas provenientes de cotas que. Anuário de Lourenço Marques . já os maometanos. 10/1921. reuniam-se no Club Fiel Observante do Direito (Chee Kung Tong). em 1908. sofriam discriminações mas. contudo. a comunidade fez construir. onde se realizavam as festas do Ramadã. às mulheres negras. Defesa.. 321. os muçulmanos pobres e como local de instrução. em 1925. Diu e Damão. Os hinduístas não mantinham prédios destinados aos seus cultos. cit. para dar sustentação a estas atividades. custou £. cuja construção.. Op. onde os fiéis tinham sepultamentos gratuitos e. até mesmo. Associação Mahometana830. transplantando para Lourenço Marques as divisões culturais de sua terra de origem. 128:147. Para seus cultos. cxs. pp. pagas pelos fiéis da cidade e distrito. não constituíam uma comunidade unida.1908. Dissertação de mestrado em História do Séc. cit. temporariamente. Mesmo os nativos das possessões portuguesas na Índia.

sem maiores explicações832. em 1914.. na verdade. AHM-ACM. Op. ficando. 08 e ainda NORONHA. Já muito cedo. no 6. cit. Augusto de. quando a população branca em pouco ultrapassava cem pessoas e depois de um incêndio que destruíra grande parte da cidade. para isto. dali em diante. A formação do espaço urbano terísticas arquitetônicas chinesas. as atenções das autoridades coloniais.5 CANIÇO. Em 1897. Defesa. O Distrito de Lourenço Marques. cxs.. em 1875. determinou que os ocupantes apresentassem uma declaração circunstanciada de sua posse e. os estatutos da Associação do Templo Chinês. obrigado a construir. 1929. 1895. pp. cit. em 1878. Lisboa. no prazo de seis meses a um ano. Secção A. para aprovação do governo. 5. ZINCO E ALVENARIA Apesar da segregação imposta a estas comunidades. Desporto e Estudo. recreativas e culturais e Anuário de Lourenço Marques . uma casa porto e Estudo. O Distrito de Lourenço Marques e a África do Sul. Associações desportivas. Mousinho de Albuquerque autorizou a Câmara de Lourenço Marques a regularizar a posse dos terrenos urbanos da cidade e. In: Boletim Económico e Estatístico .4. as palhotas foram banidas da área urbana sob o argumento de que eram facilmente inflamáveis e.série especial. era de 114 pessoas. assim. a Associação d’Operários Chinezes Beneficiente “Boa União” que. que a população branca da cidade.500 m2. mudou seu nome para Chinese Republic Association of Lourenço Marques. recreativas e culturais. Imprensa Nacional. pois mesmo as edificações de pedra ou de barro eram ordinariamente cobertas de caniço833. lhes seriam arrendados um ou vários talhões com 2. em 1911. 01-03 .. p. mecanismos que não se esgotavam nas medidas legais apontadas acima e que limitavam sua movimentação. estavam muito mais voltadas para a criação de mecanismos de controle da população negra. Criaram. 98. Op.Agremiações Regionais de Recreio..5. Mário Augusto Costa informa em seu “Da população de Moçambique”. 832 308 . 210:1. Associações desportivas. obrigou-se a substituir por telhas. 833 CASTILHO. submeteram. pelo prazo de dezenove anos e meio. terraço ou folhas de zinco a cobertura das casas. para alinhar-se com o novo regime estabelecido na China em janeiro de 1912. Em 1915. p. cuja criação não foi autorizada pelas autoridades coloniais. Eduardo de. o arrendatário. Lourenço Marques.1932.

que podia ainda contar com 834 Decreto de 08/10/1897. além de explicitar um desejo. paulatinamente. Os proprietários indígenas sofriam tanto pressões diretas dos colonos interessados em seus terrenos. por casas de madeira. por exemplo. não poderiam ser cumpridas pelos proprietários negros. Supplemento. O Regimen provisório para a concessão de terrenos do Estado na província de Moçambique. cit. mesmo que oculto. de 1909. Op. finalmente. não significava somente a troca de material construtivo. reparar. 836 Anuário de Lourenço Marques . a prática era muito mais excludente que a lei. construídas com troncos. que acabavam por vender seus lotes abaixo do valor de mercado. tida como própria de povos dito evoluídos. geometricamente reestruturada. quanto pressões indiretas emanadas dos regulamentos municipais de urbanização que foram. cit. totalizando 29 páginas. de madeira desaparelhada e coberta com zinco ou palha836. porque. Pagava-se ainda a contribuição predial anual de 0$20 por m2 para casas de alvenaria e de 0$25 para as mais simples. pintar. Joaquim. varas. o novo padrão induzia a novos hábitos de higiene e salubridade e a transformações no modo de vida da população indígena. era proibido construir.. Está claro que esta medida discriminava os indígenas que viviam na cidade. porque não reuniam recursos financeiros suficientes para construírem as tais casas exigidas e. conta com 226 artigos e dezenas de anexos.5. In: MOUSINHO DE ALBUQUERQUE. Em 1932. Op. 407:412. mantinha tais exigências e limitava aos indígenas a posse de no máximo 400 m2 de terrenos urbanos835. ampliar. porque não lhes era reconhecida qualquer forma de direito ancestral sobre a terra.. de fazê-los submeterem-se aos padrões culturais e familiares europeus. 835 Decreto de 09/07/1909 publicado pelo Boletim Official do Governo Geral da Província de Moçambique. Entretanto. conservar qualquer imóvel sem autorização da Câmara Municipal. Para se construir palhotas. em detrimento daqueles secularmente neles arraigados. p. sabia-se de antemão.1932. pp. protocolar e pagar as licenças antes de qualquer obra. primeiro. eram analfabetos de quem se exigia que fizessem declarações por escrito. em sua maioria. este novo padrão implicava numa nova ordem simbólica. consideradas primitivas. alvenaria e zinco. o que equivale dizer que se tinha que preencher uma série de papéis. segundo a qual a forma circular.. Providéncias. 591:3. A substituição das palhotas. barro e caniço. segundo. estabelecendo padrões e normas para a construção que. tida como própria dos povos ditos primitivos. 309 . as quais. bastava somente o investimento de força física do próprio morador. de 02/09/1909. A formação do espaço urbano de habitação em cada um dos talhões recebidos834. era substituída pela retangular..

encontrava-se a árvore que era o tronco místico da povoação e.5. Finalmente.. ficava a palhota das jovens solteiras (nhango) e. Entre os Thongas. Usos e Costumes dos Bantos.”838 A distribuição das construções pelo espaço físico encontrava-se imbricada. a dos rapazes solteiros (lao) cabendo a estes fechar a porta principal da povoação. do sul de Moçambique. ou depois da refeição da noite”. composta pelo chefe e pelos velhos que estão a seu cargo. à noite. do lado esquerdo. ver JUNOD. círculo fechado de palhotas. Pelo contrário era. o pátio comunitário (hubo). filhos casados e filhos e filhas solteiras. se cultuavam os antepassados. no dizer de Junod. ibid. Do lado direito da entrada da povoação. De fato. Henri. 97:104. Defronte à casa do chefe. 310 . as palhotas das esposas do chefe ocupando a parte oposta à entrada do círculo. 299. cabendo ao homem cortar as varas e esteios. p. é um orga- 837 Sobre os procedimentos construtivos. Op. As povoações tongas (múti) não eram aglomerados nas quais as pessoas viviam de maneira aleatória. e contam-nas aos filhos. 838 Idem. cuja função era proteger o espaço das forças mágicas malignas. por suas mulheres. e as dos seus irmãos casados espalhadas ao redor. o curral dos bois no centro da povoação. conclui Junod. havia uma divisão sexual em tal tarefa. irmãos mais novos e mulheres destes. A formação do espaço urbano o apoio familiar e comunitário para ir cortar e transportar as varas e caniço e para a edificação. sob a qual. As palhotas eram circulares. enquanto a comida coze. indicava a centralidade e importância deste animal na vida thonga. com toda a simbologia mágica associada ao círculo. [era] uma família ampliada. a “aldeia tonga. quer com as atividades e hábitos sociais. quer com o universo mágico: estava rodeada por uma sebe baixa. em volta das palhotas de moradia havia um pátio circular cercado (ndango) que podia envolver três ou quatro casas e era o espaço privilegiado da mulher: lá se encontrava o fogão e onde “as mulheres contam umas às outras as tradições da tribo. entretecer o teto e paredes e às mulheres extrair o barro. como de resto circulares eram as povoações. misturá-lo ao esterco de gado bovino e prencher a parede com esta massa fazendo um reboco837. “um organismo social de estrutura bem determinada e regulamentada por leis definidas. tomo II. a construção de palhotas exigia certos ritos especiais. sombreado por árvores. pp. cit. havia um espaço reservado para a reunião dos homens (bandla). tomo I. já os abrigos para as cabras e os galinheiros estavam localizados entre as palhotas e a sebe.

pois eram verdadeiras estufas842. constrangidos pela presença dos pais. “A vida da povoação”. assim. nas aldeias.. Usos e Costumes dos Bantos. 842 O Africano. construções. pois era “uma habitação relativamente fácil de construir. fruto de um conhecimento secularmente acumulado e transmitido de geração a geração.5.”839 As casas de madeira e zinco deveriam obedecer a um traçado retangular e eram construções para atender à família unicelular: reuniam. ibid. os quais. pp. tinha que trabalhar mais ainda no mercado assalariado. tal como a distribuição mútua de um pouco de comida entre as mulheres da povoação840. para ter onde morar e. e segundo O Africano. 840 Idem. a esposa e os filhos solteiros.98. forçando agora a dispersão das eventuais outras esposas e dificultando. conseqüentemente. aos olhos da pequena burguesia negra e mulata. vigas. eram bem piores que as palhotas. Henri. fresca nos dias ardentes.. na medida em que rompiam a espacialidade anterior. evidentemente. O morador perdia. ibid. deveria ser acrescido o da mãode-obra. tinham que alterar comportamentos até então próprios aos jovens solteiros que. pp. entretanto. mesmo que adolescentes. além de tudo. A presunção de que as palhotas eram símbolo de atraso. Op. 841 JUNOD. Os materiais necessários e o processo construtivo das palhotas era de domínio da maioria da população. impermeável à chuva e muito engenhosamente combinada”841. Ver particularmente o capítulo II. A formação do espaço urbano nismo vivo. até a década de trinta. tomo II. pp. o marido. 15/05/1915 311 . cit. para fazer frente aos novos custos. viviam separados dos pais. o controle sobre o processo de construção e passava a ter que pagar. até então satisfeitos com os materiais e técnicas construtivas de que dispunham. é bom lembrar. tais casas impeliam à monogamia. segundo Junod. sob o seu teto. já o novo padrão exigia saberes distintos e. tomo I. elidia a perspectiva de se ver tais contruções segundo as necessidades de seus usuários. enquanto as novas moradias eram “hediondos telheiros de zinco”. importados. . pregos e chapas de zinco para a cobertura. práticas rituais e sociais próprias da poliginia. Para se construirem casas de madeira e zinco ___ o padrão mínimo exigido para edificações na área restrita definida como cidade ___ era necessário comprar os materiais essenciais: tábuas.. ao custo dos materiais. ecologicamente apropriadas. este era um preço 839 Idem. 303 e 305. 299:315. sendo que estes dois últimos itens eram.

. negros. que trabalham nas cargas e descargas no porto. Em 1912.. concebidos como territórios negros. na cidade.4%) eram palhotas construídas de caniço..] E quem é que dentro das fórmulas de civilização não sua e não agoniza?. procurando mais uma vez afastar do núcleo central da urbe as construções e os moradores mais simples. Embora o número de casas construídas em madeira e zinco ainda fosse bem superior ao das de alvenaria.54% de sua população845. de propriedade do Estado e de particulares. Estão agora aqui..378 (64.4%) em alvenaria.5%) construídas em madeira e zinco. industriais e administrativos. referido ao dia 1 de Dezembro de 1912. pp. o número de habitantes negros ainda superava ligeiramente o dos brancos.75% dos brancos. onde também viviam 95. e logo desaparecem. no 1913. particularmente negros e mulatos844.110 (55. sendo 1. Apesar destas tentativas de restringir o acesso a este espaço urbano estrito.. contavam com 3. só foram permitidas novas edificações em alvenaria. duas em madeira e uma em ferro. a civilização triunfa e isto nos basta.137 edificações. 845 Dados elaborados a partir de AZEVEDO. A formação do espaço urbano a se pagar: “substituir a palhota primitiva pela barraca de zinco é uma das manifestações de civilização [.7% destas localizavam-se na área urbana restrita. a fim de preservá-lo como um território branco ___ a cidade de cimento. Para o paulatino processo de expulsão das construções em madeira e zinco. 1. 09/02 e 15/06/1912.690 (44.5. Não está claro se a categoria “casas” utilizada pelo autor referia-se tão somente aos edifícios residenciais ou incluía os comerciais. em oposição aos territórios negros ___ a cidade de caniço. compondo-se na sua grande parte de patchisses que se empregam em transportes. Relatório sobre os trabalhos do recenseamento da população de Lourenço Marques e Subúrbios. 312 . a área da cidade contava com um total de 2. Regulamento de Salubridade Urbana de Lourenço Marques. 98. Guilherme de. todos proprietários de casas nos subúrbios assim a descreve: “de todos é sabido que a população dos suburbios da cidade é muito flutuante. 15/05/1915. suplemento. veja O Africano. publicado no Boletim Oficial de Moçambique. Os subúrbios. por seu turno. pois também o Estado e a Câmara Municipal possuíam imóveis residenciais.. 756 (35.25%) em alvenaria.810 casas. 177:193.. Os subúrbios..35%) em madeira e zinco e apenas 10 (0. por seu turno. Mas. mulatos e asiáticos. na área de circunvalação. In: Boletim Oficial de Moçambique. realmente o eram: os negros perfaziam 91. das quais 2. A partir de 1910. Foram para o Rand transformar o 843 844 O Africano. Mas quem formava esta população? Uma petição dirigida ao Governador Geral e assinada por brancos. de 28/12/1910.” 843. no 50/1911. Muitos vêm para ganhar o suficiente com que paguem o imposto de palhota nas suas terras.

528 novas casas e. e onde exerciam ou pretendiam exercer sua hegemonia. como era o caso das estradas da Malanga. da Zixaxa e do Marracuene. da Matola. tinham nomes europeus. dos quais 61. quatro praças. acabou por possibilitar aos indígenas. a criação de um espaço próprio no qual podiam. como foi o caso do Maxaquene. com o sentido de rudes. das Mahotas. dez travessas. entre 1922 e 1929 foram construídas. entre 1930 e 1931.039 metros asfaltados. Todos estes melhoramentos estavam restritos às áreas ocupadas pelos brancos e excluíam os subúrbios847. 107. que mudavam conforme os humores dos governantes e as mudanças da política metropolitana. as ruas. excluídos do território branco.794 metros lineares estavam macadamizados e empedrados.”846 Apesar da crise que abalava a economia local. não tinham nomes e todos perdiam-se no anonimato do bairro que os englobava. ou vão cumprir o serviço militar. A criação destes espaços urbanos distintos. de Umbeluzi. em 1931. contava com trinta e nove avenidas. permaneciam com seus antigos nomes ou recebiam novos nomes africanos. o que os contemporâneos consideravam uma fase intensiva de construções. 313 . já aqueles de fato controlados pelos negros. além de 13. Assim. assim também lhes pareciam tais vielas que formavam os aglomerados de palhotas: Mahotas. longe dos olhares prescrutores dos colonos. Maé. dois largos e sete estradas. Exceto as mais importantes saídas para o hinterland. cx. Malanga. donde se não volta nunca. temporariamente. ainda que se tenha dado através de mecanismos coativos diversos. Xipamanine e outros. Se aos olhos europeus todos os indígenas pareciam indistintos. A formação do espaço urbano seu suor em oiro e voltam ___ quando voltam! ___ a transformar o oiro em líquido. na área da cidade. Patchisses é uma forma pejorativa para referir-se aos indígenas. Indicativo destes espaços urbanos distintos é a própria nomenclatura que recebiam: os espaços “reservados” aos brancos. foram edificadas mais 199 residências e 61 prédios destinados a estabelecimentos comerciais.5.634 metros de passeios. mais propriamente caminhos e passagens. A cidade. se ainda persistiam nomes indígenas para alguns dos bairros ocupados por colonos. todas as ruas da cidade receberam nomes europeus. esquecerem-se de sua situação de inferiorizados e no 846 AHM-GG.580 eram arruamentos endurecidos. 57. de Hulene. Petição ao Governador Geral. brutos e sem educação. ou fazem a jornada final. 8. de 01/05/1917. quarenta e nove ruas. Mafalala. nos subúrbios.

As restrições à edificação afetavam principalmente a parcela mais estável da força de trabalho negra e mulata. previstos e planejados. no meio urbano848. Tais projetos contaram sempre com uma persistente e aguerrida oposição dos cantineiros. o governo tenha decidido adjudicar a José de Sousa e Silva a construção de albergues com cinco dormitórios (compounds). as amizades. 126:7. onde todos os trabalhadores negros. A formação do espaço urbano qual desenvolviam sociabilidades próprias e novas. que não dependem cotidianamente da sociedade do colono.000 indígenas. como tais. que foram sendo paulatinamente construídos nos subúrbios. para o que arrecadava taxas e mais taxas. veriam minguar suas fontes de renda: a venda do vinho colonial e o aluguel de quartinhos nos fundos dos quintais. fruto da presença de pessoas de origens culturais distintas. festas e batuques obedeciam a uma lógica própria e eram realizadas com referentes cosmogônicos que não eram os do colonizador. pois se os trabalhadores indígenas fossem retidos nos compounds e impedidos de circular. 1932. mortes. por problemas que variavam da pretensa falta de verba até a 847 848 Anuário de Lourenço Marques. pp. cuja arrecadação reverteria para a construção de bairros indígenas e compounds. que se articulavam contra sua concretização. os casamentos. Por exemplo. outros 500 réis pela renovação anual obrigatória para ambos. nascimentos. comportando um total de 3. de propriedade dos empregadores. as normas de convívio social. 5. além de multas en- 314 . publicada às páginas 646-7 do Boletim Oficial no 37/1913. mantidos em compounds. em 1932.. em seus artigos 9 e 16. após a jornada de trabalho. voluntários ou chibalos. No “caniço”. 250 réis pelo Bilhete de Identidade.4. a Portaria Provincial 1198 de 10/09/1913. deixando de circular. temporários. cit. Por estas pressões ou não.5. estatuiu o pagamento de 500 réis pela “chapa”.6 COMPOUNDS E BAIRROS Todos os regulamentos de polícia e de trabalho aplicados à cidade de Lourenço Marques cobravam taxas diversas na emissão de documentos para indígenas. deveriam ser alojados. pois o grosso dos trabalhadores eram chibalos e. ainda que este tentasse discipliná-los e que aqueles não permanecessem totalmente imunes às pressões e influências. o certo é que a municipalidade nunca construiu os tais compounds públicos. Op. muito embora. que nunca aliás nunca foram construídos.

por vezes. Proposta de João Albasini à Intendência de Negócios Indígenas de 09/06/1913 e cx. 853 CALLINICOS. sem qualidades higiênicas”852. 17/11/1910. ou à WNLA (Witwatersrand Native Labour Association) que mantinha em Lourenço Marques compounds com capacidade para cerca de mil trabalhadores. Os que existiam. iluminação e arejamento. cx. 19/02/1927. representado pelas cidades casernas européias do século XIX. trabalhadores chibalo “alojados num alpendre que [era] um verdadeiro chiqueiro. com os valores e sensibilidades destes. que nos lembram as condições em que viviam os trabalhadores europeus do século XIX. Mesmo homens que lutavam contra as práticas arbitrárias e a violência dos colonos e da administração colonial. 43:57. Gold and Workers. de 12/01/1914. proc. pertenciam aos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques ou a particulares. saindo para ir. rumo às minas. 57/1. centenas de trabalhadores compelidos em péssimas condições de alojamento. Nestes locais.Confidencial-Urgente. Principalmente pp. B/3. Ravan Press. Luli. Secção B . a seu serviço. Em 1927. da Secretaria dos Negócios Indígenas para o Chefe da Repartição de Saúde. Proc. isto até terminarem seus contratos ou serem redespachados para a África do Sul. nos quais alojava os mineiros com destino ao Transvaal. onde alojavam-se os trabalhadores chibalo. ano 1913.5. Informação da Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas ao Governador Geral de 05/07/32. sob vigilância. chovia por toda parte e as camas destinadas ao trabalhadores indígenas eram “um aglomerado de prateleiras sobrepostas umas às outras até o tecto da casa” 851. ainda que os de Lourenço Marques fossem menores que os de lá853. 20/01/1923 e 20/03/1927 e AHM-DSNI. Eram grandes barracões nos quais se aglomeravam dezenas e. mantinha. 851 Era Nova. 850 O Africano. 11/10 e 31/12/1913. como João Albasini. ao trabalho e voltar ao fim da jornada. de onde. se importara o modelo. os mamparras850. Na caserna da Capitania dos Portos. os trabalhadores ficavam confinados. quando se tratava de controlar e isolar o trabalhador chibalo: tre 1$000 e 5$000 réis pela desobediência aos seus termos e O Africano. 59 . onde novamente ficariam confinados em compounds. aliás. em geral fora da área da cidade. 1980. e portanto fora da vista dos brancos. 528. Johannesburg.Curadoria e Negócios Indígenas.. 1886-1924. uma das princi- pais e mais antigas empresas de capitais britânicos estabelecidas na cidade. Os compounds era a expressão colonial do sistema similar de controle. 849 315 . 852 O Brado Africano. a Delagoa Bay Co. pactuavam. A formação do espaço urbano completa insalubridade e impropriedade dos terrenos comprados849. 25/07/1912 e AHM-DSNI. O Africano. imposto sobre a classe operária.

traduz a contradição vivenciada pela população civilizada. Se até aqui o cidadão pacato tinha que trilhar um bocado de areia para ir ver o descalabro da nossa administração fora dos marcos da cidade. Ver ainda a edição de 21/10/1911. de maneira a não se perder muito tempo com as idas e vindas dos trabalhadores. Indígena apanhado sem chapa de Compound era preso. os sentimentos de repulsa que. nos leva a empurrar de nós como crápula que convém afastar. por outras palavras: devia-se regular e determinar de modo que das circunscripções os pretos que procurassem serviço viessem com guia para a Intendência ___ a quem devia estar subordinado o Compound.”854 Apesar das restrições da autoridade sanitária. provocou protestos nas páginas de O Africano: “Moralidade do caso: Temos o chiqueiro dentro da cidade com sua legião de cantinas. agora para tonificar a alma com um fartote de pitoresco nauseabundo. sendo o salário estipulado.. A formação do espaço urbano “ao Governo compete fazer. 15/12/1911. de outro..”855 O mesmo João Albasini.. Uma vez o indígena entrado e registado no Compound sairia deste quando fosse requisitado por alguém. um compound oficial em sítio não muito afastado da cidade.”856. mais uma vez. De um lado. O Africano.. o imundo contágio da bruta animalidade do magaíça” e..] o nosso ponto é regular a entrada de indígenas. da desordem. ficando aquele afinal. Editorial assinado por João Albasini. [. em 1911. não tem que ir longe: Onde acaba o macadame começa a imoralidade!. o que. 856 O Africano.. 16/09/1911. da aniquilação metódica de si mesmo. em sua relação com os indígenas. a pretendida transferência do compound dos CFLM para uma área mais próxima dos negócios.] assim não entraria na cidade um indígena de quem não soubesse a proveniência. a Câmara de Lourenço Marques autorizou. dentro dos chamados marcos da cidade. Não 854 855 O Africano. “cheios de nojo. compound que comportasse o número de pretos calculados para as necessidades da cidade. 316 . para trabalhar aos dias.. 06/06/1914. [. os interesses econômicos imediatos.. que permitem “que na cidade se construam compounds ladeados ou limitados por cantinas onde o indígena tem liberdade plena para ingerir o germem da desorganização. firma comercial ou particular. passados três anos. garantir um stock para as necessidades e proteger o preto.5. antes de mais nada. semanas ou mês.

a sua contribuição predial. de 09/01/1917. estavam sujeitos a uma dupla tributação. editorial. cujo contato era preciso evitar. e que obtivessem o alvará de assimilado858. já próximos dos indígenas por sua cor. pagando. Esta sua condição. Assim reagiu O Africano: 857 858 O Brado Africano. estupidez. inundície e animalidade eram atributos dos indígenas. todas as casas habitadas por indígenas. Portaria Provincial 362. formada por negros e mulatos. sob pena de um indesejado contágio. se aproximava daquele que povoava as mentes dos colonos brancos: ignorância. por isso. este contágio muitas vezes parecia-lhes mais alarmante. e disto. o imposto de palhota: “o indígena possuindo casa de madeira e zinco.5. nestes casos. para efeito fiscal. Os compounds estavam associados. sendo preso. não raro. mas normalmente tinham casas nos subúrbios. não lhes dava maior segurança face à ação excludente movida pelas autoridades coloniais e. Ganhando um pouco melhor que os trabalhadores chibalo. embriaguez. alugavam casas e vagas fornecidas pelos cantineiros brancos e asiáticos. a Fazenda cobrava-lhes o imposto predial urbano e a circunscrição de Marracuene. A formação do espaço urbano estaria melhor dito por um colono. e com certa liberdade de trânsito. que distinguia indígenas de assimilados. seriam consideradas palhotas. da qual João Albasini era o lídimo representante. iniquamente. ou fazê-los todos indiferenciados ao olhar do colonizador. estes voluntários. 317 . não raro. ao trabalho chibalo e a proposta de que todos os trabalhadores deveriam ser neles confinados também encontrou oposição entre os trabalhadores voluntários. Sobre a legislação acerca da assimilação ver capítulo 10. 02/12/1922 e O Africano. em Moçambique. 05/02/1916. de 05/02/1917. prenhe de contradições e conflitos. independentemente dos materiais usados em sua construção. brutalidade. só estariam isentos os que cumprissem as exigências da Portaria Provincial 317. preguiça. segundo a qual.”857 Em fevereiro de 1917 o Governador Geral Álvaro de Castro publicou legislação. compelido ao pagamento de imposto de palhota. O imaginário social desta pequena burguesia filha da terra. no caso de usar do direito de recusa. quando não eram originários da cidade. Aos olhos desta pequena burguesia emergente. previsto e admissível por lei. pois poderia fazê-los regredir à condição daquele muito mais rapidamente. com terreno figurando na matriz predial como contribuinte. é descaroavelmente. entretanto.

argamassados ou de tijolos. 7$00. ou seja. 16/05/1917. enquanto as casas de madeira e zinco. Thomé A. o imposto de palhota era de uma libra-ouro. Op. 21 e 24/02/1917. João Albasini. que os constrangia. sob o argumento de que não “deve ser. destinado aos indígenas.1932. Estes são o que o uso constante e geral quer que sejam. teriam que arcar com custos maiores. 6$00862. 100$00. a categoria. 861 O Africano. Wilfred Mulhanga. de Esc. $075 por metro quadrado. 4$00861 e tal diferença foi sendo agravada com o tempo: por exemplo. era então indígena e o imposto previsto para os indígenas era o imposto de palhota. com pavimentos térreos. 156 e 407. já que o imposto de palhota. Na verdade. nos termos da lei. 16/06/1917. Agora são ameaçados com prisões se não pagarem o ‘imposto de palhota’ por casas de ‘zinco’ que lhe não pertencem!”859 Tal medida uniu proprietários “europeus uns.Petição ao Governador Geral. ou eram obrigados a pagar o imposto de palhota. pp. Indireta- 859 860 O Africano. O Estado usava uma lógica impecável: se o indivíduo não era assimilado. pagavam anualmente somente Esc. Mussa Ussene e Jorge Massabalana. Fornasini. Rodrigo José da Cunha Amaral. a qualidade ou a raça do morador que serve de bitola para a classificação dos edifícios de habitação.5. João Thomas Chembeni. era superior à contribuição predial de Esc. 318 . Ibrahimo Dauda Cassamo. que equivalia em média a Esc. Estevan Duarte Niocuama. sem forro. para moradia ou comércio. tal silogismo escondia a intenção de forçar os assimilados a se decidirem: ou aceitavam a legislação e tiravam o alvará de assimilados. Sabemos de indígenas que vivem em barracas alugadas a brancos e monhés e pelos quais pagam rendas mensais. de 01/05/1917 e O Africano. Caso não se submetessem. A formação do espaço urbano “há coisas que pareceriam imbecilidades se não fossem revoltantes actos de abuso de autoridade. 862 Anuário de Lourenço Marques .”860 Dentre os aborígenes estavam Antonio João Sibanhana. asiáticos outros e aborígenes os demais”. AHM-GG. todos colaboradores freqüentes das páginas de O Africano e membros do Grémio Africano. Álvaro de Castro indefiriu a petição em 26/06/1917. Jack Hassan. uma casa com 80 m2 pagaria somente Esc.. cx 107 . representado por seu presidente. Lindstron Matite. Michael Cumbula. localizadas na cidade de Lourenço Marques. o que os humilhava. que entregaram uma representação com 137 assinaturas contra a Portaria. cit. Apesar da representatividade do abaixo assinado. André de Mello. em 1931.

Proc. em que a arrecadação entrou para o orçamento geral da Colônia. cuja finalidade era construir os bairros indígenas. o Comissário de Polícia relatou ter prendido.052. do British Consulate-General of Lourenço Marques. cuja função segregadora está claramente explícita em seu Art.Corpo de Polícia Civil de Lourenço Marques ao Director dos Serviços da Administração Civil. o que até aquele momento não se tinha feito866. rede de água. Os recursos para tais construções também viriam das taxas de identificação e das demais licenças cobradas aos indígenas desde 1904. O boicote surtiu efeitos: de uma população negra. Os recursos arrecadados eram transferidos para a Câmara Municipal. rede elétrica. Curadoria dos Negócios Indígenas. e o início das obras de construção dos bairros indígenas era indefinidamente postergado865. Bairros e Povoações Indígenas. cx. nos subúrbios. estabelecia que 80% dos valores arrecadados seriam revertidos para a construção de bairros indígenas. estava sendo submetida à dupla tributação863. B/3. Pasta 1922. segregando-as do espaço branco. Para estes trabalhadores voluntários. em 1916.271 pessoas e outras 1. Em 1915. cx.2 resultantes de tal arrecadação. de 10/09/1913. foi arrecadado para a construção da dita albergaria o valor de Esc. 980 . A formação do espaço urbano mente operava-se mais um mecanismo de expulsão dos indígenas da cidade. tinha a administração colonial previsto a construção de bairros indígenas. temerosos de perder inquilinos.572$09 e £. no 1859/6/22.000$00.Curadoria e Negócios Indígenas. cujo número girava em torno de 17.587$22. nos subúrbios. 4.7. doc. 9 da Portaria Provincial 1198 de 10/09/1913. cujos edis eram brancos e priorizavam a construção de obras que beneficiassem o segmento racial que os elegiam e do qual faziam parte: calçamento de ruas.000 pessoas na cidade de Lourenço Marques. em 1915. embelezamento urbano. mais estáveis. Secção B. cuja casa de madeira e zinco. 528. se juntaram ao protesto e até mesmo o influente Cônsul Britânico interveio a favor de um funcionário do consulado. pois em ambos os textos tinham sido mantidas as cobranças de taxas. Entre 1923 e 1932. 2. e à Portaria Provincial no 1198.5. 865 Entre 1913 e 1922. proc. AHM-DSNI. doc. excluindo-se 1926/7. 30. 863 319 . Secção B . 14. 13/01/1915.892. com a finalidade de ali instalar famílias negras. 565/5/37 de 13/05/1938. pois a sobrecarga do imposto de palhota tornava onerosos os aluguéis urbanos e é justamente por isto que os proprietários brancos e asiáticos. pelo não cumprimento das AHM-DSNI. foi entregue à Câmara Municipal o montante de 253. 864 O Art. etc.200. nativo do Nyassalândia. de 1913. mas tais construções eram sempre adiadas864. Ver AHM-ACM. Informação da Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas ao Governador Geral de 05/07/32 e O Africano. Cada um dos cinco Compounds previstos estava avaliado em 1. O Africano incitou o boicote ao Regulamento do Trabalho Indígena dentro da Província de Moçambique.547.

O bairro não contava com rede de água. A forma das casas impunha comportamentos e necessidades de consumo. Assim. Mesmo a água. que nos fontanários da área de cimento era gratuita.1932. aos quais pretensamente se destinavam estas moradias. 22/02/1936. com um. 416. Ou seja. que ficou conhecida como cidade de cimento. a água canalizada. lhe permitia suportar tais aluguéis e seus reajustes869. O aluguel fixado pela municipalidade era proibitivo: as menores custavam. um pouco mais altos e cotados em base-ouro. 43$00 por mês. tornando-se a cada mês mais alto e inviável o pagamento de tais aluguéis por parte dos trabalhadores voluntários.25 por mil litros. entre Esc.. Imprensa Nacional.5.Op. População estimada a partir de AZEVEDO. sendo portanto atualizado mensalmente. 1915-1916. 05/05/1915. que estava sendo expulsa paulatinamente do centro da cidade e cujos salários. em 1932. 30$00 e Esc. a municipalidade passou a cobrar dos moradores do Xipamanine à base de $10 centavos por lata de vinte litros870. 320 . 16-20. 20/01/1923. as casas acabaram sendo ocupadas pela pequena burguesia negra e mulata. 871 O Brado Africano.. Entre 1918 e 1921 edificou-se. 03/11/1923. não estavam atrelados à libra e não acompanhavam tais atualizações cambiais. impu- 866 867 O Africano. 868 O Brado Africano. nas áreas da cidade de cimento custava Esc. inclusive de móveis de estilo europeu. Guilherme. a metade delas. J. conforme indica o Anuário de Lourenço Marques . Esc. Op. A formação do espaço urbano normas estabelecidas em tal regulamento867. entre 30% e 60% em libras868. eletricidade ou outros serviços urbanos destinados à área branca da cidade. a Câmara aumentou o aluguel. entretanto. numa área suburbana já ocupada por negros. Foram construídas trinta e três casas em alvenaria cobertas de zinco que contavam. numa área inundável ___ ___ o segundo bairro teve sua construção era a extensão físico-espacial do racismo imperante na sociedade colonial. Era a expressão visível de uma sociedade segregada. A construção dos bairros indígenas iniciada em 1938. 75$00 mensais. 1918. os salários. Op. Embora o aluguel fosse pago em escudos. “a la Transvaal”871. Lourenço Marques. 22/05/1920 e PENVENNE. o chamado 1o bairro indígena: o Xipamanine. quando o salário mensal de um trabalhador semiespecializado do setor ferro-portuário girava. os arruamentos retangulares. com dois quartos e a outra metade. p. cit. quando dez anos depois.. pp. cit. cit. 869 O Brado Africano. pp.5$00 por mil litros. no mesmo período. em 1923. 870 O Brado Africano. $11. Relatório do Corpo de Polícia Civil de Lourenço Marques In: Relatórios do Distrito de Lourenço Marques. seu valor era estabelecido em libras.. History of African Labor. 273:9. em 1922. Além disso.

Umberto. distinta da lógica ancestral obedecida nas povoações locais. 1559. 1993 e ainda ECO. em 1907. II. Numa alusão ao cerco imposto à cultura pela ditadura salazarista. estudos e crônicas. Em 1658 a região de BadajozElvas foi atingida por uma epidemia de tifo exantemático. publicadas na imprensa entre os anos 60/70. O Castelo Branco. 873 Também impregnou aqueles que nesta cultura foram formados. Acabaram por tornar-se a representação espacial da situação da emergente pequena burguesia negra e mulata que ali passou a residir: não eram mais indígenas para viver em palhotas e tampouco eram europeus para que pudessem viver no meio dito civilizado. Livraria Académica. Rio de Janeiro. Lourenço Marques. epidemias haviam assolado Portugal que não escapara das grandes pandemias européias dos séculos XIV-XVIII. Em 1569-70. 1975. vol. liberando força de trabalho que. 1973 e vol. Gallimard. em 1721-3 a febre amarela 872 Veja por exemplo as obras de ficção: CAMUS. e mesmo há não muito tempo. dali em diante se encontraria reunida num único espaço. A formação do espaço urbano nham uma lógica cultural. foi outro momento que se mostrou propício a este movimento de segregação. Ao longo dos séculos. Paris. Daniel. I.5. Orhan. mais de 50 mil pessoas. Rio de Janeiro. cerca 50% de sua população. Porto Alegre. 1510-14. A imagem dos horrores ocasionados por tal doença certamente entranhava-se profundamente na mentalidade da maioria dos colonos em Moçambique873. dificultava a manutenção de práticas religiosas e mesmo de atividades agrícolas. havendo novos surtos em 1579-81. em 1480 uma grande epidemia se alastrou por praticamente todo o Reino e manteve-se. A Ilha do Dia Anterior.4. tornando mais fácil a tarefa de fiscalizar e controlar seus movimentos. 321 . DEFOE. Record. 1598-1603 e 1645.7 NEGROS MALES A ocorrência de peste em Lourenço Marques. 1523. sobretudo em Lisboa. depois. novos surtos emergiram em 1503. Um Diário do Ano da Peste. Record. Epidemias sucederam-se: Lisboa fora fortemente atingida pela peste bubônica em 1415. 1505. 1995. l987. o moçambicano Eugénio Lisboa atribuiu à coletânea de seus ensaios. só em Lisboa. PAMUK. o sugestivo título de Crónica dos anos da peste. conforme acima se disse. 1947. 5. Sabemos o quanto o medo da peste enraizou-se na mentalidade coletiva dos europeus ao longo dos tempos e a literatura bem o expressa872. por dezessete anos. La Peste. Portugal foi atingido por uma “Peste grande” que matou. 1527. Albert. L&PM.

“A Reforma Urbana e seu Avesso: algumas considerações a propósito da modernização do Distrito Federal na virada do século”. 876 Apud TUCHMAN. “‘uma peste que ceifa os jovens. 877 DELUMEAU... Op. Lilian. onde viviam milhares de imigrantes portugueses com fortes vínculos familiares em Portugal. Ai de mim. Maynard W. por exemplo. a crueldade. e o Rio de Janeiro. Além dos surtos portugueses. 63. p. I: Cronologia dos séculos XV-XVIII e vol. 88. a pobreza. p. um caroço nas axilas! Lateja. Sua erupção é feia como ‘as sementes de ervilhas negras. as ameaças. uma imagem sobrenatural e aterradora. cit. vol. em 1832 e.. os uivos. os gestos de desespero.. 139:195. os apelos. vol. cinzas das cascas da nigela dos trigos. Além disso. a dor. que havia eclodido no sul da China em meados do século.] uma saliência dolorosa e irritada [. certamente os ecos das doenças vindas das áreas vizinhas ou mesmo distantes. Ver por exemplo o pioneiro SWANSON. finalmente.. publicado originalmente em 1977. os ungüentos.. Pedro Ramos de. o pavor. uma praga negra como as negras moedas de meio pence. um fantasma sem raízes que não tem pena da beleza.5. a fome. No século XIX.. quando a África do Sul vivia em meio à guerra Anglo-Boer.” Op. novamente a peste bubônica. os lazaretos. 5.. Op. 322 . a memória social certamente guardava das epidemias e.] os primeiros ornamentos da peste negra.] uma coisa atroz de cor acinzentada’. os medos. a sede. pelo cólera e febre amarela. Porto e Lisboa foram fortemente atingidas pelo cólera. cit. particularmente. em 1856/7. pp. atacou no Porto..] uma cabeça que dói e provoca gritos [. as angústias. ver entre outros PECHMAN. cit. foi abalado por sucessivos surtos epidêmicos nas duas últimas décadas do século XIX e princípios do século XX875. In: Revista Brasileira de História. Barbara W. não deixavam de afetar o insconsciente social: as cidades portuárias de Cape Town. as lágrimas.] Grande é o ardor como uma cinza candente [. pp. deixando 112 mortos conhecidos874. II: século XIX.. dos moribundos. Port Elizabeth. no 8/9. a miséria. do mal e dos gritos. da peste bubônica.. Op. as prisões. os castigos. as operações. os roubos. “The Sanitation Syndrome. os carbúnculos. a solidão. 25:40.. Jean. os bubões. em 1899.. as suspeitas. No passado. Setembro de 1984/abril de 1985.’”876 [Vivia-se em meio a] “confusão dos mortos. os desfalecimentos”877 874 875 ALMEIDA.. Sérgio e FRITSCH. fragmentos de carvão de pedra [. East London e Durban foram atingidas em cheio. Para o Rio de Janeiro. A formação do espaço urbano grassou em Lisboa. terrível [.. em 1900.. as pessoas viram a morte chegar como negra fumaça. como favas. cit.

”880 Este medo aterrador da doença contagiosa foi muito bem captado por Miguel Torga. “O Leproso”. O nascimento da Medicina Social. de uma sugestiva lista de 76 santos protetores. além do sofrimento pessoal. que nos oferece um anônimo autor português do século XVIII. Miguel. Chapel Hill. cit. o governo político desarticulado. Op. 5a ed. cit. D. “History of a 323 . entre todas as calamidades desta vida. Coleção Documentos. Op. danado. aumentada.5. MICHEL. Coimbra. University of North Carolina Press. Barbara Wertheim. nada menos que 19 deles podiam ser invocados para proteger e curar contra “sezoens. 1967. de fato tenha contribuído para seu fortalecimento879. os ofícios param. A formação do espaço urbano No passado. Julião. Veja ainda TUCHMAN. Michel F. Rio de Janeiro. na ausência de explicações materiais para tão assustadora doença e.. In: Novos Contos da Montanha. Desde que se acende num reino ou numa república esse fogo violento e impetuoso. pp. João Evangelista em Portugal. olhado como 878 Veja-se: SANTOS. English Law in the age of the Black Death . s/ed. ainda que. 93:5 e PALMER. José Olympio. Tudo é ruína. principalmente. 881 TORGA. Robert C. Frei de Santa-Maria. 880 Frei de Santa-Maria. sem meios físicos para curá-la ou mesmo dela se safar. História das sagradas congregações dos cônegos seculares de S. assim escreveu em 1697: “A peste é. Apud DELUMEAU. sem nenhuma dúvida. ao descrever o comportamento da população da pequena aldeia de Loivos diante de um seu conterrâneo atingido pela lepra881: da noite para o dia. Sobre a lepra ver ainda: LECHAT. Um espelho distante. por exemplo. ao contrário. “encontrou-se só. Tudo fica reduzido a uma extrema confusão. tinha sido praxe recorrer aos santos protetores e curadores para buscar alívios dos sofrimentos físicos ou espirituais e.. Jorge em alga de Veneza e de S. 1993. Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Lisboa. vêem-se os magistrados atordoados. S. Eugénio. Jean.1348-1381: a transformation of Governance and Law. refletindo sobre os surtos de peste em Portugal. A justiça não é mais obedecida. as famílias perdem sua coerência e as ruas. 65:82. no 03. revista. sua animação. o leproso. 1989. só restava a intercessão sagrada. série Jaime Cortesão. 1992. 879 Ver. excomungado. O Homem Português perante a doença: atitudes e receituário. e GOKHALE. 1697. p. FOUCAULT. Pois não há sobre a terra nenhum mal que seja comparável e semelhante à peste. Mas. a mais cruel e verdadeiramente a mais atroz. São Paulo. É com grande razão que é chamada por antonomásia de o Mal. a peste pusera e poderia novamente por em risco a própria existência do poder político como gestor da sociedade. Pois tudo é atingido e revirado pelo peso e pela grandeza de uma calamidade tão horrível. 121. 271. principalmente pp. as populações apavoradas. escritor e médico português. p. febres e achaques” típicas dos empestados878.

não era uma doença que inspirava solidariedade884. sorrateiros e apavorados”887. purificar-se da peçonha. seja porque foi preciso. p. negavam-lhe trabalho. p. cit. sem piedade. “começou a devassa cautelosa ao número exacto dos consumidores do veneno. Jean. invadidos de nojo. p. todos fugiam da “praga negra”. recusavam-se a dar-lhe esmolas. em primeiro lugar.. a terra queria saber ao certo quem era puro ou impuro [.76 886 Idem. ibidem. era o tempo da “solidão forçada” de que nos fala Delumeau888. Prudente... ibidem. 71. calados.5. as entranhas. vomitar no mesmo instante a lepra de que já se sentiam contaminados”885.. cruel e friamente”882.77. Em Moçambique. cit.. 883 Idem. Miguel.. p. Jean.”889 [. Op. 08:11. Op. p. 123.] batiam-lhe com a porta na cara. depois do pânico inicial. p.49. agoniados [. isolá-los para a periferia do grupo ___ como os leprosos ___. p. Op. May-June 1996. 91. que reagiram prontamente. cit. Idem. A formação do espaço urbano inimigo repelente [. referindo-se às pestes medievais. pp. Mas quem era o portador de tão devastador mal mandado pela ira divina? Delumeau. afirma que os culpados potenciais são. Ao descobrirem-se como possíveis consumidores da “negregada mixórdia” ___ azeite supostamente contaminado por Julião ___ ficavam “petrificados. 887 Idem. assim como a peste. por evidentes razões. todos “aqueles que não estão bem integrados a uma comunidade. as palavras do Frei de Santa-Maria pareciam ecoar com particular profundidade nas cabeças das autoridades coloniais. 140. 68. cit.] e cada denúncia aumentava o monturo intangível dos condenados”886.. envenenadores das águas bebidas pelos cristãos: assim os imaginam freqüen- disease: leprosy”.] “Usurários ferozes. 885 TORGA. além deste medo aterrador que consumia a mente das pessoas comuns. 884 TUCHMAN. seja porque não querem aceitar suas crenças ___ é o caso dos judeus ___ . seja simplesmente porque vêm de outros lugares e por esse motivo são em alguma medida suspeitos.] queriam arrancar o estô- mago. ibidem.. ibidem. In: World Health.. 889 DELUMEAU. no 3. 882 324 . e cada qual a si mesmo. Op. Sua lepra.. 888 DELUMEAU. O medo fazia as pessoas “vigiarem-se mútuamente. v. não queriam admitir que em sua terra “cresciam tão negros males”. sanguessugas dos pobres. Barbara W. “corriam-no do afecto e das portas como um cão danado!”883.

Essa estranheza suspeita e tenaz aponta-os como bodes expiatórios em tempos de crise. R.” Op.. no segundo caso. de um estilo de vida diferente daqueles da comunidade que os recebe. Veja ainda TUCHMAN.”893 Foucault afirma que a intervenção e controle do Estado sobre as doenças criaram dois modelos distintos.5. 892 DURAND. Op. 279. Estes três últimos eram majoritariamente estrangeiros: os indígenas. contituídos por não-cristãos. G. pp. todos quatro segmentos. de purifica- 890 891 Idem. Op. cit. mentalmente pregado na substância.”890 Para a situação colonial de Lourenço Marques. cit. para entender porque estes foram as principais vítimas892. no substantivo.. assim. Gilbert. cit. Teríamos. em sua maioria. na África do Sul. quer dizer. cit.. Eles [os judeus] são a própria imagem do “outro”. p. e GREGORY. “o adjectivo aparece.. 102:9. monhés e baneanes. aparenta-se aos grandes esquemas verbais que constituem a subjectividade do imaginário. de forma religiosa. atitudes e comportamentos pois. SWANSON. Op. 122. do estrangeiro incompreensível e obstinado em uma religião. E os adjetivos empregados são fundamentais para traduzir conceitos. India and East Africa. quer dizer. de exílio. estes segmentos raciais também sofriam perseguições diversas associadas ao flagelo da Índia891. tidos como estrangeiros em sua própria terra e. a adjetivação calcada na cor negra atribuída às pestes européias e à lepra no texto de Miguel Torga. Pela mesma época. mas os indígenas. dos comportamentos. cit. os adjetivos usados por Hegel para caracterizar o continente africano e a série de ligações isomórficas em torno da negrura que a valorizam negativamente. Todos tinham hábitos sociais e culturais que os tornavam marginais em relação ao padrão cultural europeu e foram os alvos da sanha saneadora. 325 . p. como meio de purificação e. Quanto aos indígenas. consoante se tratasse de lepra ou de peste: à primeira aplicava-se o mecanismo de expulsar o leproso do espaço urbano. e nota 813 acima. chinas. 893 DURAND. não se excluía o doente. como epicatate. Ibidem. Maynard W. A formação do espaço urbano temente os burgueses e povo miúdo urbano no final da Idade Média. 67. não eram os judeus os culpados.. pela razão muito simples que o adjectivo é mais geral que o substantivo. como afirma Gilbert Durand. Op. Gilbert. “The Sanitation Syndrome. basta ver. na sua génese psicológica. de um lado “o velho esquema médico de reação à lepra que é de exclusão. p. por exemplo. Barbara W.

ACM Secção A . cx. significava expulsão do espaço urbano. um “fogo 894 895 FOUCAULT. Jean e GHEERBRANT. Se a peste era. não mais o agrupamento no exterior da cidade. vol. também brancos vivessem em palhotas e casas de madeira e zinco. doc. Recorrer ao fogo como elemento purificador é prática corrente do Ocidente ao Oriente. quanto o apelo às medidas de purificação que.saneamento da cidade. Op.Administração. e sob o argumento da defesa da salubridade pública. o poder colonial agiu rápido. A formação do espaço urbano ção da cidade. cit. ano 1907. de bode expiatório. o registro permanente. BACHELARD. serão desinfectadas. a análise minuciosa da cidade. cx. Op. Alain. por exemplo. principalmente nos subúrbios. O nascimento da Medicina Social. 896 Em sânscrito puro e fogo são uma única palavra. não mais a exclusão.”894 O comportamento das autoridades coloniais em Moçambique entretanto foi uma soma destes dois procedimentos: diante dos casos de doença surgidos na cidade. Cf. exceto para os brancos. c) Prohibir temporariamente a passagem de indígenas e asiáticos de Lourenço Marques para o Maputo. nas palavras de Frei de Santa-Maria. AHM-ACM. prática cuja ancestralidade perde-se na origem dos tempos896.5. p. Ver ainda: AHM. 05. controle e fiscalização nos moldes militares. foram tomadas as seguintes medidas propostas pelo médico.1907. do Secretário Geral ao Administrador do Concelho de Lourenço Marques. conforme parecer aos médicos sanitários. a análise individualizante. 309:314. mas o internamento. no 146 (urgente/ confidencial/ reservada). mas ao contrário. verbete feu em CHEVALIER. 354 . Diversos Confidenciais. mas militar. 89.”895 Embora a doença não se restringisse ao segmento negro e asiático e que. MICHEL. cit. La psy- 326 . então. tanto o recurso às medidas de registro. b) Destruição nas mesmas condições de todas as palhotas circunvizinhas das primeiras num raio de maior ou menor extensão. levantando-se-lhes o telhado para não poderem ser habitadas durante longo prazo de tempo. Se as casas de indígenas forem de zinco. a única medida prevista que afetava estes últimos era a recomendação de que mantivessem maior rigor na higiene e o uso de desinfetantes nos baldes de coleta de fezes. Gaston. ver ainda. d) Construir palhotas para os indígenas que ficarem sem habitação por esta ter sido destruída. E o esquema suscitado pela peste. II. Temos aqui. não mais um modelo religioso. chefe do Serviço de Saúde: “a) Destruição pelo fogo de todas as palhotas onde se derem casos suspeitos. pp.

perscrutar espaços domésticos e inspecionar corpos. 327 .. impetraram dezenas de recursos às decisões da Comissão de Melhoramentos que. I . como prevenção. 899 Ver FOUCAULT. de braçadeiras amarelas. para livrar-se do leproso que ali se refugiara e purificar-se do mal por ele representado. tanto pelo custo da construção. transformando sua autoridade fundada no conhecimento científico sobre a vida. Augusto. as palhotas de caniço não eram mais insalubres do que as casas de madeira e zinco. limpar a cidade branca da presença de uma parcela da população considerada indesejada897.” In: Actas do Colóquio Construção e Ensino da História de África. Tomé.5. Rio de Janeiro. pp. A formação do espaço urbano violento e impetuoso” que se alastrava pela cidade. “Salubridade. Na realidade. Gallimard. Estes. Mais uma vez Miguel Torga ilustra esta prática: a população de Loivos incendeia o bosque. mulatos e asiáticos. que era o de expulsar os indígenas dos terrenos urbanos que se valorizavam com o crescimento da cidade e limpar a vizinhança. quando a Comissão de Melhoramentos Sanitários de Lourenço Marques mandou demolir casas ocupadas por indígenas. cx. ainda que de madeira e zinco e ainda que de propriedade de brancos. particularmente. Para dar conta de sua tarefa fiscalizadora. cit. cit. NASCIMENTO. queimava-se. acabaram por serem mantidas898. em poder disciplinador899. 897 Medidas similares foram posteriormente aplicados a S. enquanto este agia basicamente para disciplinar o espaço público. Tomé. Michel. Esta Polícia Sanitária tinha maiores poderes que o Comissariado de Polícia. Secção A . pp. 169:181 e DURAND.A vontade de saber. ou seja. Op. Paris. pp. 120:22. Graal. 23. pois. que contava com seis brancos e seis auxiliares indígenas que. 898 Ver por exemplo: AHM-ACM. Reclamação da Associação dos Proprietários de Lourenço Marques ao Governador Geral. tendo seus interesses imediatos prejudicados. aquela contava com poderes para invadir lares. de 17 de janeiro de 1908. Op. as palhotas infectadas para controlar o mal e purificar a área. Cf. a priori considerados imundos e marginais às normas do bem viver à chanalyse du feu. tal argumento pretendia esconder o seu real objetivo. 1990. Era o saber. Urbanismo e Ordenamento Social em S. muito embora tão dedicada tarefa não se estendesse a todos: a privacidade dos lares e a sacrossanta intimidade da burguesia estava isenta de investigações. em Lourenço Marques. o Serviço de Saúde organizou uma Polícia Sanitária. percorriam ruas e becos. História da Sexualidade. 1985. ano 1908.Requerimentos e Petições. Gilbert. seus alvos eram as casas e corpos negros. 411:428. entretanto. quanto pela cessação do aluguel recebido dos indígenas. Este objetivo fica claro.

figura a de que “os pretos devem dormir afastados das residências dos brancos”901. tais como varrer o lixo para longe das casas. 901 Era Nova. Item e. cortar o mato circundante. 15/12/1910. ano 1907. certamente. mudavam de lugar. como era evidente. 05.” Op. Mafalala e Malanga que. em 1910. cx. pp. Na esteira do pânico da peste. considerados de “baixa categoria social”903. 328 . Se. o Serviço de Saúde fez publicar orientações a serem seguidas pela população. o objetivo e o fim acabaram por ser os mesmos: o isolamento sob o pretexto da peste acabou por criar uma permanente prática de isolamento desta população902. A antiga área passaria a estar disponível para construções autorizadas. evitar a formação de águas paradas e manter à distância materiais em decomposição. Relatório anexo ao Boletim Oficial no 232 de 1908. perseguidos. em que se encontravam anteriormente. no 1. In: Arquivos de Higiene e Patologias Exóticas. republicado como OLIVEIRA. chineses e indianos. A formação do espaço urbano européia. 89:191. 2. pretendendo-se assim 900 AHM-ACM. ou seja. como o paludismo e. Em realidade. tais como as cantinas. vol. O inverso. “The Sanitation Syndrome. entre as medidas propostas.. as de proprietários brancos não o foram e. 903 “Casos da peste em Lourenço Marques”. Secretário Geral ao Adminsitrador do Concelho de Lourenço Marques. ao espaço da moradia. 902 SWANSON. a menor concorrência lhes foi benéfica. particularmente aquelas transmitidas pelos mosquitos. Diversos Confidenciais. contudo. que foram paulatinamente empurrados para áreas menos cobiçadas e fora da área de circunvalação que definia os primitivos limites urbanos. A reconstrução das palhotas queimadas não se faria no mesmo local infecto. 1909. bares e principalmente os batuques nos bairros africanos da Munhuana. “Casos de peste em Lourenço Marques: Novembro a Dezembro de 1907”.. as medidas tomadas pelas autoridades sanitárias não chegaram ao extremo de se remover maçicamente a população africana para reservas ou residential locations. eram visados. para que se evitassem as doenças. no 46 (urgente/Confidencial/ reservada). Maynard W. As medidas profiláticas não se restringiram. mas não deixavam de animar as noites900. jamais sequer foi cogitado. em Lourenço Marques. como ocorreu na Cidade do Cabo.5. Partia-se do princípio de que os corpos negros eram depositários natos da doença e que sua proximidade poderia criar condições para que esta se trasladasse para os sadios corpos alvos através das democráticas picadas de mosquito. António Alves de. também os espaços circundantes e os espaços do prazer mais tipicamente africanos. a peste serviu de forte pretexto para uma sistemática demolição de casas de moradia e comerciais ocupadas por negros. cit. de brancos. Se as cantinas asiáticas eram tidas como imundas e foram destruídas.

pois não obtiveram os resultados esperados. iniciada em 1920 e que começou a funcionar em 1922. com os confortos modernos.8 AREIAS BRANCAS. Para hospedar os turistas endinheirados. 5. amplas salas de chá.5. Em 1932. ordenada e salubre ficasse entregue ao deleite burguês branco e à especulação imobiliária e se tornasse um espaço no qual a população negra chegaria de manhã e partiria ao anoitecer. restando somente as corridas e touradas organizadas por amadores. p. 329 . A formação do espaço urbano que a cidade asseada. de tennis e carreira de tiro. além de ser o porto mais acessível. quadras de tênis e outras comodidades e ficava localizado no alto de encosta defronte a um dos principais 904 905 Anuário de Lourenço Marques . das corridas de cavalos. como se sabe. foram logo abandonadas. e sem “nenhum em Portugal com tamanha grandesa”. como também um Grémio de sport nautico. em outubro de 1922. cabine telefónica e telefone nos quartos. além do Jockey e da Praça de Touros. “sem rival nas colónias vizinhas”. salas de jogos diversos. era obra de 400 mil libras. ponies e galloways e a realização de quatro swepstakes anuais. que se instalou junto à estrada para Marracuene. Como outras obras de melhoramento.4. este vendeu seus direitos ao Delagoa Bay Turf Sporting Club. jantar e bailes. 132 e 155. por quinze anos. Havia na cidade “bons campos de golf. o exclusivo para a exploração. onde mandou construir também uma Praça de Touros. a Cidade estava se tornando “um esplêndido lugar de repouso e recreio”905 e a administração pública não poupava esforços nem despesas para garantir que assim fosse. Op. era também um grande balneário para os sul-africanos do Transvaal. Idem. p. a Frederic Caesar Decimus d’Arcy. estava também em andamento a construção do Jardim Zoológico. cit. construiu-se o Polana Hotel. A primeira corrida de cavalos realizou-se em 08 de agosto de 1925 mas. estação telegráfica e postal. Enfim.. residente em Johannerburg.1932. tanto estas quanto as touradas. ÁGUAS NEGRAS Lourenço Marques. 133. o governo da Colônia concedeu. lindamente situado”904. Tinha 150 quartos finamente decorados.

o melhor edifício no género em toda a costa da África do Sul”907 e em cuja construção o Conselho de Turismo da cidade gastara 20 mil libras.. de Maio a Outubro ali vão passar agradavelmente algumas horas de repouso. Construiram-se ainda.5. assim conclui o Anuário de Lourenço Marques de 1932: “É esta praia não só muito frequentada durante todo o ano por banhistas. O recinto de banhos era cercado com rede para impedir a eventual aproximação de tubarões e contava com plataforma para saltos. de águas plácidas e mornas906. O autor do texto do Anuário esquece de mencionar que. p. Uma vez na Ponta Vermelha. 330 . p. oito chalés de aluguel a partir dos quais atingia-se um palmar. ao longo da orla. situada no sopé da Ponta Vermelha. Terras de África . servindo como atracadouro para barcos de lazer e plataforma de pesca. mas também de banhar-se nas mesmas 906 Idem. s/d [1925]. A praia. feito com força de trabalho chibalo. Op. p. Pedro. barracas de aluguel com todos os apetrechos para o bom desfrute do lazer. construída após a conclusão dos aterros dos pântanos do Maxaquene. 132. 133 e MURALHA. de acordo com o Regulamento das Praias. balouços. etc. elaborado pela Comissão de Praias e mantido pelo seu sucessor. Na praia havia uma ponte que avançava para o mar. a banda do Quartel General tocava no Pavilhão Quiosque. como também por quási toda a população e pelos visitantes da cidade que durante a ‘season’. cit. podia-se apanhar o eléctrico para a Baixa e outros destinos ou ir pela pitoresca estrada marginal. “lugar cheio de atractivos para ‘pic-nics’ e passeios” com todos os confortos necessários.30. o Conselho de Turismo. 907 Idem. p.”908 Mas tão maravilhosos confortos estavam disponíveis a todos? A palavra chave para a resposta é o quási da frase citada acima. 132. Lisboa. Para que o deleite fosse completo.Moçambique e Rand. Em frente ao recinto dos banhos erguia-se “uma magestosa casa de chá que [era]. p. Publicitas. sem dúvida. Enfim. na cidade alta. A formação do espaço urbano pontos turísticos da cidade: a praia da Polana. As crianças encontram lá campo e esplêndido espaço para brincar. Na margem. 908 Idem. os negros e mulatos estavam impedidos não só de ocupar tais recintos. à qual se tem acesso por uma sinuosa estrada e por um caminho de pedestres ao longo do qual bancos sob carramanchões permitem o confortável desfrute de uma deslumbrante vista para o mar. aos sábados.30:1. Ver também MURALHA. Pedro.

331 . de moral e progenitora duvidosas. energicamente. mesmo assim. construir obras de luxo e higiene para o nosso aproveitamento exclusivo. esta discriminação tinha suscitado fortes protestos. india- nos empregados públicos. A formação do espaço urbano águas que os brancos909. entretanto. O Africano. Edgar Allan. orgão que representava os capitais de origem inglesa em Moçambique. eram mulatos ___ filhos de ingleses. nas palavras de O Brado Africano. 23/12/1916. que chegou a ser condecorado devido ao elevado 909 910 O Brado Africano. Já em 1916. “O Lago”. afirmava que os tais banhistas de cor. que diziam sentirem-se incomodadas com a presença de “gente de cor” no recinto da praia. O Guardian. mencionados pelo Guardian. por recearem “a Morte na água envenenada”?913. principalmente dos estrangeiros. publicou algumas cartas de mulheres brancas banhistas. propôs que fossem excluídos do recinto de banhos somente os indígenas não civilizados911. porco. como este missivista logo se declarou não conceber nenhuma sociedade sem diferenças sociais. O Africano. Nova Aguilar. quando muito. O Africano publicou cartas de colonos brancos: um dos missivistas. não permitindo o seu gozo àqueles que o constrói?” mas. enfim. 06/01/1934. o que ele não queria era que o critério racial fosse usado para “proibir o uso do recinto a coloniais tão civilizados quanto esses tais ingleses. 06/12/1916. 912 Idem. negociantes asiáticos e “rapazes das escolas”. que se assina “um português”. 913 POE. Poesia & Ensaios. 911 O Africano. além disso. reagiu. Para reafirmar seus argumentos. um “nosso patrício”. podiam adentrar aos recintos de apoio ao banhista na qualidade de muleques. pergunta se era “lícito com o dinheiro do preto. padecia de brechas: o salva vidas que ali atuava em 1928 era.5. quando estivessem cuidando de crianças brancas e. Rio de Janeiro. isto é. não se tratando de muleques ou de patchices910. só pelo privilégio de ter outra cor na cara. não podiam entrar na água. que não previa tais distinções e. O Africano não era contra uma discriminação de cunho social. afirmando que o jornal inglês estava fazendo apologia ao desrespeito à Constituição Portuguesa. In: Ficção completa. acerca de tal reivindicações. Será que os colonos de Lourenço Marques repudiavam tal convívio por temerem que os perigos e imundícies associadas à pele negra fossem solúveis e que esta água negra pudesse corromper a brancura das alvas peles e mentes européias.”912 As crianças negras. podendo porém gozar essa regalia qualquer branco iletrado. Este visceral temor. Em suma. um outro artigo pedia que se proibisse tal presença e.

[.. 933.. imputar-lhes a responsabilidade pelas práticas discriminatórias vigentes em Lourenço Marques era uma mera estratégia de escamoteamento do racismo com o qual os colonos brancos concordavam e que estava entranhado na sociedade colonial. ou seus filhos brancos915. portanto. foi proibida a entrada de muleques de ambos os sexos ___ ___ leia-se empregados domésticos negros no Jardim Municipal. quando não estives- sem acompanhando os patrões. Como constitui mais um espaço social e. Esta aparente contradição só pode ser entendida no contexto das práticas racistas mais amplas: os brancos que viam a praia como um locus de lazer.’”916 Embora os interesses econômicos ingleses. a verdade é que. 02/08/1916. 07/04/1909. com ampla capacidade de pressão. 916 O Brado Africano. nele também deveriam valer as regras que regiam o espaço social em geral: aos brancos caberia mandar e aos negros obedecer e trabalhar. e que habita o seu mais nefando recanto. A formação do espaço urbano número de pessoas que salvara do afogamento914. para salvar-lhes a vida. 04/08/1928.] Em qualquer ponto em que estejam ingleses. numa das nossas maiores Províncias Ultramarinas. mas por obrigação. os tais boers. e sul-africanos. p. quando as vezes pretendemos entrar nalguma diversão. sob pena da danação de suas qualidades intrínsecas. muitas vezes piores que o negro mais boçal da África. vive-se copiando aos nossos vizinhos da União. dominassem os setores mais dinâmicos da economia local. desfrute e prazer não podiam admitir que esta tivesse o mesmo significado para os negros. lado a lado com os brancos. O argumento explicitado para justificar tais práticas era o de não contrariar os ingleses do Transvaal. O Brado Africano. criado pelas relações humanas. não podem entrar porque vocês compreendem que estão ingleses e eles estranham gente de cor. a exclusão dos negros dos deleites marinhos parecia-lhes seguir uma ordem natural: os negros podiam nadar não por diversão. Protesto com igual teor já havia sido publicado em O Africano. 914 332 . esses ingleses degenerados. embora fossem convictos segregacionistas.. a que nós vulgarmente denominamos boers (fregueses da banana) ouvimos freqüentemente estas palavras. Seguindo-se a mesma lógica. 26/08/1933. assim. também em 1916.5. Esta tentativa de escamotear tal racismo pode ser en- 1986. etc: ‘Tenham paciência. onde campeava o racismo mais exacerbado: “Aqui.. 915 O Africano.

Aventura e Rotina. Sá da Costa. José Olympio. 1. Achiamé. não podia conviver com indígenas. 333 . Ver entre outras as seguintes obras críticas efetuadas por africanos.uma contribuição para a releitura da situação colonial sob dominação portuguesa”. Mário Pinto de. Pierre-Jean Oswald. A bibliografia que a critica é ampla. da África e do Atlântico. In: Studia Africana. Op. MEDEIROS Maria Alice de Aguiar. Lisboa. oct-nov 1955. eclodiram em mais de uma ocasião. Não podia. um tanto grosseira. pp. O Mundo que o Português criou. 515:27 e CASTRO HENRIQUES. pp. da qual a cidade asseada era a expressão. acompanhada de conferências e discursos proferidos em Portugal e em terras lusitanas e ex-lusitanas da Ásia. 27:38. brasileiras e portuguesas: ANDRADE. Basil. Rio de Janeiro. entretanto. pp. “A situação actual dos estudos africanos no Brasil” In: Actas do Colóquio Construção e Ensino da História de África. Ver FREYRE. “Q’est-ce que le ‘luso-tropicalism’?” Présence africaine. 1940. Uma sociedade higienizada. pp. . ZAMPARONI. Paris. As preocupações com o ordenamento urbano não se esgotavam na higienização e no controle da mobilidade da população negra.03:10. Barcelona. portanto. Rio de Janeiro. 1984. Rio de Janeiro. José Olympio. cujas atitudes e comportamentos pareciam degenerados e degradantos. 1953. na prática social. alardeando uma suposta cordialidade do homem português e. incompatíveis com os princípios tidos como civilizados e com a modernidade reivindicada. das teses pretensamente científicas que emergirão décadas depois. Rio de Janeiro. de se evitar que aflorassem conflitos e manifestações de descontentamento que. por extensão. 917 Gilberto Freyre foi o inspirador e lídimo paladino de tais teses. pp. “Da virtuosa brandura do branco à preguiça pecaminosa do negro .Introdução a uma possível luso-tropicologia. era também uma maneira. Valdemir. Um Brasileiro em Terras Portuguesas. A Libertação da Guiné. conviver com locais em que tais manifestações pudessem se expressar com mais freqüência: cantinas e prostíbulos. 1975. 1990. cit. 4. José Olympio. vii:xv. de suas práticas coloniais no trato com o africano que resultariam numa inédita e peculiar harmonia social e racial imperante nas colônias917. relendo Casa Grande & Senzala. o prefácio de Amílcar Cabral em DAVIDSON. 1958.sugestões de uma viagem a procura das constantes portuguesas de caráter e ação. Gilberto.5. O Elogio da Dominação. A formação do espaço urbano tendida como uma antecipação. Impunha-se também um controle de natureza moral. 1953.. 24:35 e do mesmo autor o prefácio à sua Antologia da Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Isabel.

assinado por um “Mulato”.1911-1912. Um Governo em África. argumentava o autor. 1907. da Empreza da História de Portugal. que confundiam-se. no termo monhés. Assim como os muçulmanos. o que provocou um artigo na imprensa. cobertas de folhas de palmeiras e esteiras. p. haviam restrições à sua participação nestas atividades pelo interior. em 1912. ligavam-se a outros mais poderosos na Índia. sem mobílias. Estes comerciantes indo-britânicos estavam ligados por laços familiares e de dependência econômica com estabelecimentos grossistas do litoral. I. cit. de Almeida. os filhos das Colônias eram tão bons portugueses como os naturais da Metrópole. vol. Lourenço Mar- 334 . Lisboa. procura atrair e explorar por todos os modos o negro”. Pertenciam algumas a portugueses brancos e a mestiços. Op. 20/02/1925. Typ. p. Maputo e Bilene. mas a esmagadora maioria pertencia a baneanes e mouros. COPOS E CORPOS: A DISCIPLINA DO PRAZER Mas o que eram as tão mal afamadas cantinas? Pelo sertão. nas circunscrições da Manhiça. pois cobria-lhes a mesma bandeira. 68 pertenciam a brancos europeus e 123 a indianos de nacionalidade portuguesa e inglesa. igualdade e fraternidade”. no qual defende a igualdade de direitos entre proprietários europeus e negros de terem “o direito de explorar um estabelecimento de compra dos produtos indígenas e venda de artigos de uso comum aos indígenas” já que. que lhes asseguravam fornecimentos e capitais que. A. 921 Cf. Tomemos um exemplo: das 191 cantinas existentes. “gloriosamente hasteada no dia 5 de Outubro em que as regalias de excepção foram banidas por estes dogmas: Liberdade. como reconhecia o Governador Geral Freire de Andrade919. 09 e GARRETT. Embora na mesma data alguns negros e mulatos se dedicassem a tal atividade em Lourenço Marques e subúrbios. onde o cantineiro se instala com dois ou três barris de vinho. Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques . e sentado a fumar. Clamou em vão.6. em geral. A. dogmas. na boca do povo. por sua vez. 98 920 O Brado Africano. mal armadas.. com a preta ao lado. Inhambane 1905-1906. Em geral os comerciantes brancos ou indo-britânicos tinham duas ou mais cantinas espalhadas pelo interior921. os indo-britânicos. que aliás davam título ao artigo920. “indivíduos 919 FREIRE DE ANDRADE. em nada se distinguindo de palhotas ou então eram “apenas meia dúzia de folhas de zinco. Th. eram construções precárias feitas de barro.

In: Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques . 80 caixas . é claro. principalmente. colheres. descreve o volume dos negócios das 51 “casas commerciaes” do território sob sua jurisdição: “A importação durante o anno foi: 2. Op. 15 kilos . Imprensa Nacional. açúcar. era a sua maior fonte de lucros924.cerveja.Vida Mental. cit.gallinhas. 131.sardinhas para pretos. pp.580 . quando se tratou de ganhar dinheiro vendendo-o ao indígena. querosene. 922 335 .esteiras. 68:9.sal. 620 sacas . arames.vinho colonial Bucellas. Copos e Corpos: a disciplina do prazer pertencentes a seitas que lhes não permitte o uso do vinho nem nelle mexer.500 peças .‘corned beef’. 10.6.vinho de pasto. “6a Circumscripção . que não pode e nem deve deixar-se entregue a si própria”. churundos. nas cidades.gêneros diversos para europeus. A exportação foi: amendoim.capulanas diversas.Bilene” In: Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques .assucar. João Antonio Paes de Matos. 15 caixas . Arthur Borges Pinto. tem monopolizado o commércio do interior. 1913.280 sacas . Vendiam capulanas e uma ampla variedade de tipos e padrões de tecidos.tabaco. não tiveram a menor dúvida em desprezar tal preceito.arroz.1911-1912. 295. cuja atividade básica era servir de intermediários entre os centros urbanos e o sertão.”922 Os cantineiros asiáticos eram vistos com desconfiança e desprezo pelos administradores e autoridades coloniais. anéis.000 litros . quer na aquisição de produtos agrícolas das machambas indígenas com destino às cidades e à exportação.. 30. 180 volumes. tijelas. facas. 4. panelas. 15 sacas . PIMENTEL. O administrador da Circunscrição da Manhiça. Pedro de Mesquita.milho. 8 caixas . 80 ancoretas . pa- ques. do vinho colonial ou vinho para pretos que. Acreditavam que suas atividades deveriam ser coatadas pois “deslealmente concorre com o europeu” e que “nem um ceitil emprega em benefício do país em que. “4a Circumscripção . tomo II .farinha. p. quasi se pode dizer. p. quer como centro de recrutamento para as minas no Witwatersrand e no fornecimento de produtos consumidos pela população indígena.Magude”. em relatório sobre o ano de 1911. 826 sacas .042 caixas de vinho do Porto para pretos . Henri. 120 caixas . 2. correntes. 923 HOMEM.”923 No interior as cantinas eram pequenos estabelecimentos comerciais. 400 caixas . 600 rolos . óleos perfumados e uma miríade de quinquilharias além. 78 sacas .tabaco. 924 JUNOD.1911-1912.salmão. como “uma raça sem escrúpulos.enxadas cafreaes. 110 sacas .

o escoamento dos excedentes. as cantinas funcionavam como centros que atraíam a população indígena. o mesmo ‘mulungo’ cantineiro branco ou monhé vende-lhe a saca por 5 a 6 mil réis!”926. além de tudo.. Deixar de vender a um deles. medidas e algarismos utilizadas. quer no ato das vendas. tinha sempre disponível o colonial. II. cit. tomo II . ou ao efetuarem o câmbio das libras. JUNOD. quer nas cidades. “2a Circumscripção . entroncamentos de caminhos. quer pelo sertão afora e. João Antonio Paes de. geralmente por meios precários ou mesmo nas costas. que na página 584 apoia-se em Junod. cebollas. Eram acusados de burlarem também nas contas.cesto de forma cônica conforme NOGUEIRA. não havia outro comprador senão eles próprios. 1960. subúrbios. bem ou mal.6. nas redondezas. Dicionário Ronga-Português. 6 a 10 tostões por cada 90 quilos” mas quando “não tem um bago de milho para seu sustento. p. garantia o fornecimento nos momentos de crise ecológica. p. e vários productos hortícolas e peixe sêco. 19:20. não era recomendável criar milandos com o cantineiro pois além do maior poder de pressão deste junto às autoridades. 925 336 . trazidas das minas. pareciam não perceber a importância das cantinas e dos cantineiros como agentes disseminadores de valores culturais e de merca- MATOS.Manhiça. pequenas povoações. Na 2a edição em português da mesma obra de Junod apresenta-se a grafia chiúndjo e chirundjo para referir-se a este cesto. em geral. 01/08/1911. pela moeda portuguesa. Copos e Corpos: a disciplina do prazer nellas. Os cantineiros tinham a fama de agirem de má fé no momento das transações com os produtos agrícolas nativos. já que não podiam instalarse dentro das aldeias por determinação legal. etc. por mais que fosse evidente a burla. Os administradores coloniais. Instituto de Investigações do Ultramar. onde pudessem atrair maior quantidade de fregueses: rotas de retorno das minas. aproveitavam-se das oscilações entre oferta e demanda: quando os africanos traziam produtos agrícolas para vender em momentos de abundância “o ‘mulungo’ dá. Lisboa. pp.Vida Mental.120: “um cesto xi-rjundju também se trocava por galinhas”. aproveitando-se quer da pouca familiaridade das pessoas com os pesos.113. Henri. quer do fato de que. por muito favor. Moeurs.”925 Por esta característica. instalavam-se nos lugares. era ele que. o acesso a bens manufaturados e.” In: Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques -1911-1912. Como intermediários. Cf. De qualquer modo. 100 toneladas. Rodrigo de Sá. significava ter que transportar seus produtos por longas distâncias. geralmente. Centro de Estudos Políticos e Sociais. Op. Churundos é uma corruptela aportuguesada da palavra ronga xi-rjundju . 926 “No país da bebedeira” de João Albasini publicado em O Africano.

a syphilis. É interessante notar. 30. acrescidos do fato de serem. Administrador da Manhiça ao Secretário Geral.6. o casal. AHM-ACM. que neste discurso. Não era a agricultura moderna e capitalizada. para evitar que a concorrência desmedida baixasse “de tal forma o preço de tão nefasto producto. p. valores profun- 927 928 PIMENTEL. Pedro de Mesquita. Copos e Corpos: a disciplina do prazer dorias européias. cit. 30. 930 MATOS. 931 PIMENTEL. Terra e família. de um modelo pré-revolução industrial e bastante romantizado da pequena propriedade portuguesa. estrangeiros e que mandavam suas economias para a Índia. “com a organização que tem tido até hoje é de per si sufficiente para anniquilar todos os emprehendimentos civilizadores que se tentem”930 e que “todas as cantinas que vendem do tal vinho colonial.. ao recomendarem que só se concedessem licenças a famílias constituídas. o ‘delirium tremens’. a tuberculose”927 e o cantineiro.. mas a pequena agricultura. 29. p. de 27/03/1910. 929 PIMENTEL. João António Paes de. em sua maioria. Op. a manufatura ou a indústria que simbolizariam progresso e civilização. O que certamente passava pela cabeça destes administradores reformistas era a transposição para terras coloniais. que os proprietários de cantinas fossem obrigados a cultivar uma área de tamanho variado para servir de incentivo aos indígenas. cx. Op. havia meios para reduzir o seu número e mesmo afugentálos de tal comércio. 337 . a prostituição. De João António Paes de Matos. Op. estes administradores propunham uma remodelação completa no sistema comercial. Pedro de Mesquita. Para eles. Se não era possível mexer com os interesses do “senhores omnipotentes” do “Poço do Bispo”.. cit. os asiáticos. Concluía que era preciso tomar uma série de medidas para coibir tal situação e que. p. as cantinas eram antros onde se desenvolvia “à vontade. p. sobrando-lhes defeitos que amesquinham e aviltam”928. que fosse reduzido o número de concessões e aumentada a taxação. são estabelecimentos que em nome da civilização e da humanidade deviam ser prohibidos”931. mesmo o português. não tem qualidade que se imponha.. Op.19. segundo o administrador. o comércio é fonte de degeneração e a agricultura é invocada como o modelo de vida sã e honesta.Fomento e Colonização. tinham os mesmos defeitos dos portugueses. centrada na família. 59. A cantina. era “estúpido e mau. ao menos quanto aos asiáticos. num inequívoco sintoma da permanência de valores enraizados desde o medievo. diziam. Secção D . Pedro de Mesquita. cit. em pleno século vinte. escolhido na ralé dos colonos. cit. [evitando-se assim] que o anniquilamento dos negros seja um facto consumado em pouco tempo”929.

” In: Bantu Studies. por exemplo. as cantinas continuaram a ter no vinho colonial uma de suas principais mercadorias. Albert. “The Social Significance of Beer among the Balobedu.” In: Bantu Studies. pp. 1932. 1934.Vida Mental. reforçavam as ligações entre o passado e o presente. Estupefacientes.. O Padre Daniel da Cruz assim descreve esta prática social: 932 933 Ver. mortes ___ e da comunidade. tomo II . CRUZ. Op. pp.” In: Kyoto University African Studies. pp.6. Pe. não raro. KRIGE. os ritos de passagem na vida do indivíduo nascimentos. 534:549. HELLMAN. 6. Daniel da.. cit. Apesar de todas estas perorações morais. “Beer Drinking and Festivals amongst the Hide. pelos europeus. consumo e hábitos associados entre a população Thonga ver JUNOD. “The Importance of BeerBrewing in an Urban Native Yard. seus processos de fabricação.. incluindo mulheres e. casamento. SCHWEITZER. Thomas. 9. pp. Arquivo Histórico de Moçambique. crianças932. S. Robert McC. Ivan & BIRD. P. os momentos de trabalho e de descanso. Vol. E. NETTING. Henri. Explorations in African Systems of Thought. constituiriam os ícones do colonialismo: é como se dissessem que a família cristã ocidental seria a base de sustentação do domínio colonial e que cultivação seria sinônimo de civilização.1 VINHO COLONIAL & BEBIDAS CAFREAIS Uma dos aspectos da vida da populações africanas que mais chamava a atenção de viajantes.. Sobre as várias bebidas ditas cafreais. p. 69:90. 8. pp.” In: 338 . pp. particularmente 29:30 e 47:51. cit. Vol. autoridades européias e missionários era a bebedeira que por vezes tomava conta de comunidades inteiras.” In: American Anthropologist. 1975. Op. cit.” In: KARP. Valenge Women. Ver a documentação no AHM-ACM.).136:7. EGUCHI. cit. estavam integradas nos diversos rituais que revigoravam os laços de identidade comunitária. Bebidas moçambicanas de fabrico caseiro. Bebidas Destiladas e Fermentadas. Eduardo. Copos e Corpos: a disciplina do prazer damente enraizados na cultura ocidental. C. Op. mas não eram assim entendidas pelos brancos933. Bloomington. “Beer as a Locus of Value among the West African Kofyar. Ellen. 37:43 e 565:9. “Beer Drinking and Cattle Theft in Ukaguru: Intertribal Relations in a Tanganyika Chiefdom. 4. caixas 66 a 68. EARTHY. 1961. Vol. Vol. Para uma análise dos significados das bebidas locais em outras sociedades africanas ver por exemplo: BEIDELMAN. 83:119. 1988. “Beer Drinking and Social Experience in an African Society: An Essay in Formal Sociology. Ivan. pode-se consultar: MEDEIROS. 63. K. 1980. Analisaremos a seguir a importância de tal produto no comércio colonial e nas sociedades locais. Jensen E.Alcool. entre ancestrais e vivos enfim. KARP. p. (eds. 39:60. 1903-1962. 343:357. Dora. Op. 109. Maputo.. cafreais marcavam os ciclos agrícolas.. Sobre tais bebidas em Moçambique e ainda a principal bibliografia sobre o assunto. Essas bebedeiras comunitárias ditas.

1973. passou a ter grandes dimensões e a envolver múltiplos interesses que iam do produtor. Porto. 66. pp. Copos e Corpos: a disciplina do prazer “A embriaguez é o mais feliz estado a que um preto aspira continuamente. [.6. José.) Society. D. ao importador.] e quietação. (eds. 51. pp. 936 Elaborada a partir de LIESEGANG. 934 CRUZ. CAPELA. o vinho colonial bebida especialmente destinada aos indígenas ___ ___ uma se tornou numa das principais merca- dorias da pauta de exportação portuguesa.”934 Os colonos e.” In: PITTMAN. 106:7. 935 CAPELA. O preto embriaga-se por luxo. The Luso-Brazilian Alcohol. Op. p. Walter H. 06:21. C. perceberam estas práticas como uma boa oportunidade de negócio. a partir da virada para o século XX. É admiravel o effeito mágico que produz nos cérebro destes pobres selvagens a mais pequena gotta de alcool.. por voluptuosidade. as autoridades coloniais e metropolitanas. particularmente o capítulo um: “Palm Wine and Beer: Alcohol in the societies of West Central Africa during their early contact with europeans”. Capela indica. José. aumentou a presença européia no continente e. Daniel da. cit. em Portugal.. Mahir. 1964. depois. dos intermediários e do govêrno. pp.” In. O Vinho. SAUL.. Culture. a exportação disparou e. para ser feliz e bem-aventurado durante algumas horas. New York. cit. no século XIX. depois do domínio militar. país vinícola que era. cit. 26:60. SANGREE. que elle ordinariamente passa a dormir no maior socego [sic... para as colônias? O álcool já entrara como produto de troca no comércio da escravatura mas quando. possuía grandes excedentes e potencial para expandir tal produção e por que não exportá-lo. nisto gasta tudo quanto tem.936 American Anthropologist. como era chamado este vinho. pp. 505:6. Gerhard. 1981. 746:764. Afrontamento. p. entre 1897 e 1914. cit. Op. 1962. O Vinho para o Preto.. & SNYDER.. números um pouco diferentes. S.. José Carlos. em condições vantajosas. sem nunca se saciar plenamente. Pe. Cf. and Drinking Patterns. A tabela da página seguinte refere-se à quantidade de vinho importado pelo porto de Lourenço Marques. Op. não só portuguesas. pp. particularmente. por vaidade. “Beer. 339 . Sorghum and Women: Production for the Market in Rural Upper Volta. apud CURTO. distribuidor grossista e ao cantineiro na colônia935. Op.] O preto não sonha senão com a ‘ku-pusa’ ___ o beber. Africa (London). Vol. “The Social Functions of Beer Drinking in Bantu Tiriki. 156:7. dando-nos uma idéia da importância de tal comércio. Portugal. 375:384. J. para os anos 19011906. O négocio do colonial. Vol.

404 Arroz 4.273 1. O III Império Português (1825-1975).740.895.956.601 929.321 311.483.388 219.761.000 7. Cf.681 131.040.191 2.000 8.000 6.907 7.616 172.697.851 4. 340 .000 7.000 2.256 7.060 476.81% 54.157 282.779 29.150 511.799 294.000 5.66% B .901.518 48.849.682.455 116.278.000 7.031 5. CLARENCE-SMITH.063 75.818 Total B 3.133 5. s/d [1990].204 Máquinas Agr.659. quase exclusivamente vinho937 e. 99.658 3.650.Mercadorias Portuguesas Azeite de oliveira 272.325 120.723.766 Vinhos 5.699 6.071.351 101.869 342.728 % vinho/total C 23.623 3. e Ind.77% 12.637 267.755 88.900 291.474 7.384 n.629.040 6.147.065 Total Geral: C= A+B 24.90% 12.099.823 311.002 Carvão mineral (ton. mesmo no virar para a década de trinta.618.400.686 84.171.532.936 2.588 8.208.740.866 Sabão 415.319 5.330 152.-ouro A . 676.558 337.083 75.000 5.715.-ouro Qtidades Esc. Marques.484.764.120. ficando abaixo somente do valor dos texteis estrangeiros importados938: Principais Mercadorias Importadas pela Colônia de Moçambique.87% 52.105 260.040.277.57% 23.633 Farinha de trigo 4.000 6.852 1. quer em quantidade.442 286. Gervase.Mercadorias Estrangeiras Aços e ferros 4.101 557.319 320.774 8.441 5.114 85.000 n/d 2.884 Total A 7. Moçambique consumia 43% das exportações portuguesas de bebidas.790.009 Carnes/Peixe secos(1) 255. p.452.87% 14% (1) não está incluído o bacalhau Qtidades Anos Mercadorias/Kg 937 Angola consumia 30% e São Tomé 18%.959 6.667 663.023.040 381.033.738.758.d.000 9.980 324.07% 24. Copos e Corpos: a disciplina do prazer Vinho importado para L.995 125.6.983.586.000 6.432 27.106 Tecidos 226.7% 77.709 n.000 6.032 Calçados (pares) 49.421 307.456.437. n.663 % do vinho/total A 82.623 5.-ouro Qtidades Esc.d.000 Anos 1906 1907 1908 1909 1910 1911 1912 1913 1914 litros 8.982 594.000 Em 1909. quer em valor e o segundo valor das importações totais da colônia.) 129.624.48% 79. 1929-1931 1929 1930 1931 Esc.215 4.000 4.749 1.397.917. 1897-1914 Anos 1897 1898 1899 1900 1901 1902 1903 1904 1905 litros 3. 151.366 3.497.031 3.596 854.47% 53.690.741.004 Tecidos 3.060 365.552 132. 615.977 299.047 38.000 4.515 263.518.d.913 837.451. o vinho continuava a ser a principal mercadoria metropolitana exportada para Moçambique.206 123. Lisboa.232.545.215 3.881.052 5. Teorema.484.147.

não apreciava. seguindo alvitres de seu antecessor. adquirir o vinho que a metrópole lhe enviava? Não. Copos e Corpos: a disciplina do prazer Para servir aos interesses da indústria vinícola portuguesa. cit.. em 1902939. Imprensa Nacional. Rio de Janeiro. cit. ibidem. como cães de caça. Nova Fronteira. cujos vencimentos seriam diretamente proporcionais às apreensões e destruições realizadas942. Op. 341 . sem meios de sobre elle exercer fiscalisação. p. fabricar a bebida sua predilecta. 182. de maneira que os cofres da Fazenda viram entrar 7.1907 a 1909. e tornando n’um papel sem valor a lei que tal fabrico lhe prohibia!”941 Segundo este argumento.Relatório do Governador . Entretanto a lei não surtia o efeito desejado: “o que fazia o indígena? Vinha às estradas. proibindo sua produção. A proibição começou a vigorar com Lei de 07 de maio de 1902 e Regulamento específico de 10 de outubro do mesmo ano. reeditando o que já se fizera no século XVI no Brasil e que resultou em várias revoltas da cachaça940. as arbitrariedades e mesmo as fraudes cometidas pela polícia foram aumentando à medi- 938 939 Dados obtidos a partir do Anuário de Lourenço Marques . 940 Ver o tratamento teatral do evento em CALLADO. 1983. Augusto Melo Pinto. era preciso tomar medidas concretas. às povoações cabeças de commando.690$000 réis. Durante o biênio 1907/09. Limitava-se a esconder-se no primeiro matto próximo. Como era de se esperar. a destruição de inúmeras panelas e barro e garrafões e a imposição de multas na importância de 10. uma operação assim concebida não podia dar em outra coisa: “as violências. Augusto Cardoso. os policiais e sipaios.335$300 réis. 1909. 943 CARDOSO.6. as autoridades coloniais. 941 GARRETT. Lourenço Marques. 215:6. de fabrico local. pp. em busca de fabricantes clandestinos e o resultado “foi a apreensão de 2. de contribuições industriaes. Os canos de espingardas eram utilizados na destilação com a função de serpentina. Antonio.. ali. zombando de portarias provinciaes. Assim incentivados. p. sob o argumento da salubridade e para forçar o indígena a consumir uma bebida que. destruindo equipamentos e utensílios utilizados para este fim. A operação custou 2. o Governador de Inhambane. e. percorriam as povoações.025$300 réis”943. Th. organizou um corpo policial especialmente para reprimir a fabricação das bebidas cafreais. procuraram coibir o consumo de bebidas cafreais. invadindo casas. dirigido por um europeu e com 20 sipaios africanos. 942 Idem.136. Op. 91. p. 119. inicialmente. de Almeida.1932.496 canos de espingarda. Distrito de Inhambane . 77. a coberto das vistas da auctoridade. A revolta da cachaça.

”946 A proliferação do colonial. Sr. a autoridade pressurosa açula os auxiliares de faro prodigioso. Cf. a destilação clandestina foi diminuindo”944. Eduardo.. mapira (sorgo). Op. mais violento e mais injusto para um preto do que outro preto revestido de alguma autoridade”945. [. embora originalmente se tratasse de uma bebida cerimonial. 946 O Africano. é tudo reduzido a cacos e os costados marcados a golpes do código de justiça..... Preparada exclusivamente por mulheres. Nos arredores da cidade vive-se da exploração da bebedeira. [. aliás. Também na capital da Colônia eram comuns as rusgas com o objetivo de perseguir os produtores independentes de bebidas. Ibidem. [.. ou vendem: tudo à imagem e semelhança.. o que acabou por tornar-se uma prática corrente. não como o resultado lógico e intrínseco à própria lei que pretendia abolir práticas seculares e ao modus operandi por ele mesmo estabelecido.. pelo Governador. Bebidas moçambicanas. os civilizados: fabricam as suas bebidas.] . cavalo marinho.] A lei proibiu o uso de bebidas cafreais para que o indígena só bebesse vinho ___ “do tal”. cit. A violência era entendida. entretanto. mas a mexoeira. 342 .. 15:9. p.. As velhas e os inválidos que os há em grande quantidade. Editorial Ó Glória de mandar! de João Albasini. a farinha de mandioca e mesmo a farinha de trigo podem ser utilizados. MEDEIROS.. Intendente dos Negócios Indígenas.6.. esta violência era uma característica racial já que. Embora não o diga explicitamente. mandou suspender a fiscalização nos meses em que se cobrava o imposto de palhota. o farelo de arroz. quando o clamor dos cantineiros sobe.. e ai das pretas que tem panelas do‘uputcho’ ... imitam simplesmente. vulgo. 22/03/1912. Copos e Corpos: a disciplina do prazer da que. é fermentada à base de milho.] Imita o único exemplo produtor de dinheiro que tem visto dos colonizadores: vender bebidas. provocava também descontentamentos: os 944 945 Idem. em virtude do seu exercício... bebem-nas. de acordo com ele. a quem na mocidade não ensinaram nada de útil e prático para que a velhice fosse menos vergonhosa não tendo meios de vida própria.78. Temeroso das repercussões negativas que tais práticas teriam na arrecadação. “é bem sabido que ninguém é mais bárbaro. mas à ganância dos sipaios. O Africano assim ironizava a situação: “Exmo. Ibidem. A violência não era restrita às áreas do sertão ou resultado da decisão aleatória de um ou outro administrador colonial... o jornal dá-nos a entender que o wuputsu era vendido. pp. Idem.

foram frontalmente atingidos pela Lei de 1902. protestava. 136:148. A ânsia para ampliar e assegurar um extenso mercado consumidor para o colonial era de tal monta que chegou a circular em Moçambique a notícia de que se cogitava editar uma lei mandando cortar todos os cajueiros de cujo fruto se faziam diversas bebidas. a Cia do Boror. O Afri- 947 948 Sobre os fabricantes de sópe em Inhambane ver: GARRETT. encontrava adeptos entre os demais reclamantes e entre eles as empresas e associações representantes dos interesses capitalistas instalados na Colônia: em 1921. por sua vez. sua bebida tinha alto teor alimentício e baixa graduação alcoólica. geralmente brancos e indianos instalados no Distrito de Inhambane. portanto. produtores do sópe ___ fermentado da cana de açúcar. cit. os indígenas reclamavam porque lhes era proibido o fabrico de bebidas tradicionais. a produzí-lo. um Requerimento pedindo o fim da importação do vinho colonial. também ignoraram as autoridades: continuaram. os grandes produtores rurais viam na “mixórdia”. Sua reação. por ser fermentada do caldo da cana sacarina. a Cia da Zambézia. porque via no alastramento do colonial uma fonte de corrupção moral e física de toda a raça negra. cx. que era o vinho colonial. ditas cafreais. Seus lucros eram altíssimos e podiam variar. clandestinamente.6. viram sua produção proibida. Requerimento de 21/09/1921. de 400% a 900% sobre o capital investido. a Associação Comercial da Zambézia e a Associação Agrícola de Quelimane enviaram ao Alto Comissário. O argumento de que as bebidas cafreais eram menos nocivas que o vinho colonial. a Société du Madal. Foram ignorados e. Copos e Corpos: a disciplina do prazer colonos de Inhambane. e a pequena burguesia filha da terra. Op.. Requerimentos e Petições. fizeram petições e mandaram delegações a Lourenço Marques para negociar com o Governador Geral ___ alegavam que. a Empresa Agrícola do Lugela. foi proporcional ao lucro: ensaiaram lockouts. 343 . Brito Camacho. de Almeida. consoante fossem ou não produtores da cana a ser moída. um verdadeiro perigo à integridade de sua força de trabalho. sendo por estas razões menos prejudicial que o colonial e que a proibição de seu fabrico resultaria na falência de amplo setor da agricultura e do comércio colonial. pp. Cada um reagia à sua maneira: os fabricantes de sópe. fecharia cantinas e jogaria na miséria dezenas de famílias européias ___ um verdadeiro desserviço à obra colonial portuguesa947. Inúmeros artigos publicados em O Africano concordavam com esta tese e denunciavam tal proibição. Ver AHM-ACM. Th. que julgavam “muito mais nocivo que a mais nociva bebida cafreal”948. 880 .

em 1913. Apesar das constantes desavenças e mesmo da campanha que por vezes o O Africano movia contra as missões estrangeiras. noite e dia. morrendo de fome quando ela aperta. 344 . 22/07/1916 O Africano. como neste editorial: “onde devia haver escolas industriais e agrícolas montou Portugal uma série de tanques com bombas. na entrada do quarto ano de existência de O Africano: “Quatrocentos anos de domínio e três duma República democrática cheia de cores. onde corre. dirigia petições e abaixo-assinados aos sucessivos governadores gerais. perguntando em artigo dirigido ao Ministro das Colônias.”951 O Grémio Africano de Lourenço Marques. com que direito “se ordenam atentados como este de derrubar árvores de fructo para beneficiarem industriais assassinos que envenenam uma raça?”949 Se verídica ou não. que assumia pela terceira vez o comando da Colônia. um líquido envenenado para matar pretos. em 1913. Copos e Corpos: a disciplina do prazer cano reagiu a tamanho desvario. Em 1914.. na esperança de que fossem tomadas medidas concretas para coibir a venda “do tal”. 951 O Africano. 15/11/1913 e 31/10/1912. que muitas vezes afirmavam ser a venda do vinho colonial o único fim e significado da presença portuguesa em Moçambique. dirigida ao Governador Geral Joaquim José Machado. dessedentando-se nas cantinas com o ‘vinho’___ esse néctar e bálsamo dos portugueses é por ora a única manifestação visível de sua colonização. educação e justiça ___ termos que de tanto ouvir nada significam ___ ainda não deram ‘nada de útil’. felizmente. As bebidas e particularmente a nocividade do vinho colonial eram temas recorrentes nas páginas de O Africano e de O Brado Africano. esta petição contou com o apoio das missões Suíça e Metodista Wesleyana que promoveram ampla campanha de coleta de assinaturas por toda a região a região do Sul do Save ___ Louren- 949 950 O Africano. que congregava a pequena burguesia negra e mulata e da qual os jornais eram porta-vozes. para trazer dinheiro. esta alucinante proposta nunca se concretizou. Esta a colonização!”950. perene. Estes povos continuam de boa ou má cara fazendo rapa-pés. 23/02/1912. pagando impostos. o certo é que. pão. publicou-se uma petição. molhando-se quando a chuva cai dos altos céus. ou ainda o irônico balanço que João Albasini fez da colonização portuguesa.6.. 19/07/1913. originalmente escrita em ronga. mutilando-se nas minas do Rand. promessas e projetos de liberdade.

como se denominava em Lisboa. que provem da terra dos brancos. pois. o grande pezadume de coração. em janeiro de 1916. Uns dizem que não é ‘vinho direito’. que ‘não há um só branco que beba tal vinho’! Que alimento é este. mas que elles brancos não ingerem? Tal ‘vinho’ quem é que o bebe então lá na terra dos brancos?”954 De fato. em tom irônico. a dizer-vos o que é que peza e oprime o coração da maioria de nossa gente. cx. Pai e Senhor. porque queima como carvão aceso”. A S.6. pretendia informar ao Governador Geral “[. Inhambane ___ e entre os mineiros moçambicanos trabalhando na região de Johannesburg952. 345 . é porque assistimos à dissolução da nossa raça e da nossa terra. Joaquim José Machado. 954 AHM-DSNI. A petição. O Africano. com 2457 assinaturas. quer de próprio punho. Era um “veneno pérfido e repugnante de que V. 06. Tal ‘Vinho’. dizia em tom de pilhéria O A- 952 953 AHM-DSNI. Este abaixo-assinado foi entregue à Secretaria dos Negócios Indígenas. 06. 29/10/1914 e 19/01/1916..). não raro. Agora porém. admirados. recebia nas cantinas novas misturas com os mais variados ingredientes para torná-la mais rentável. tendo sido republicada em O Africano953. pois vinha das mãos dos brancos e devia ser bem melhor do que as nossas habituais bebidas. os nossos olhos estão abertos: Vimos bem que tal bebida é apenas o factor poderoso da nossa destruição. com o máximo de 19o de graduação alcoólica ___ os vinhos normais têm cerca de 11/12o ___ e que.cx. não deve fazer uso nem mesmo para a extração de calos. excedendo-as em paladar e qualidades nutritivas. Copos e Corpos: a disciplina do prazer ço Marques. 68. de 02/10/1914. Exa o Sr. era uma mistela aguardentada que saía de Portugal. devida à acção deletéria do ‘Vinho Colonial’! Ao princípio julgamos que tal ‘Vinho’ era qualquer alimento saudável e bom. Secção A .] das nossas maguas. não sabemos como é feito. Nunca nos revelaram a verdade. oficialmente. que lhe deitam mais coisas. este vinho para pretos. (tradução livre. A causa primária. não é feito da ‘vinha’. do nosso mal estar. Exa. Nós não sabemos. Proc. que os brancos trazem para nós. Unicamente na nossa imensa tristesa constatamos. Gaza. quer com digitais ou a rogo. Governador Geral da província de Moçambique.. Senhor.

entre outros. a virilidade e entra a sofrer da tísica (ndéré) e a vida vai-se! Outras vezes embriagam-se a pontos de travarem luctas entre si azagaiando-se. A medicalização da raça: médicos. para mais de um milhão de litros em 1890. num crescimento estonteante de mais de mil por cento em quatro anos. Copos e Corpos: a disciplina do prazer fricano em manifesto dirigido ao Governador Geral Álvaro de Castro.] muita de nossa gente morre por causa do ‘Vinho’. víctimas do ‘Vinho Colonial’. e. o tino e prestígio de auctoridade tudo se funde e afunda [. outrora vigorosa957. MARQUES. 346 . Cf. a inteligência. outros ainda há que cahem já sem consciência. à mercê de quem passa. dos nossos filhos.] As cantinas vivem e medram das nossas mulheres. O tema do alcolismo entre os indígenas e da degradação por ele provocada não era um assunto exclusivo das colônias portuguesas e mereceu atenção por parte das metrópoles coloniais que. nota 954. o governo colonial português elevou a taxação sobre os destilados. Quando. proibiram a importação de alcool para o continente africano somente acima do paralelo 22o Sul. freando o seu consumo. que perde as forças. nos caminhos. ahí. vai a caminho da perdição. já não teem medo de nada! [. para diante. entretanto.600 litros. das nossas filhas. 957 Ver.”956 Seguindo a ótica eugenista os paladinos de O Africano viam o vinho como o principal veículo para a degradação física dos indíviduos e esta não era senão o prenúncio de uma degeneração moral que inevitalvelmente lhe seguiria e que levaria à extinção da raça negra. o que garantia que as populações das regiões fornecedoras de força de trabalho para a indústria mineira e que ganhavam melhores salários... morreremos todos. inertes. Tal droga era vista a um só tempo como agente de degradação física e moral de pessoas e instituições: “[. Desapareceu a moral. na Conferência de Bruxelas de 1890. Vera Regina Beltrão. O adultério é moda corrente... são tentados pelo vício às cantinas para beber. 1994.. pois é onde se embebedam.. propiciando altíssimos lucros com tal comércio: as bebidas destiladas importadas pelo porto de Lourenço Marques passou de 91. o fez com a intenção bem sucedida de i- 955 956 O Africano. ficassem excluídas desta proibição. 20/11/1915. em 1886. EdUnicamp. o espírito. em 1892. senhor. educadores e discurso eugênico.] A nossa terra. Se isto continua assim. Campinas. em 1915955.6. Os nossos régulos que frequentemente teem dinheiro. e.

a partir de 1920. 1. . um quarto dos salários 958 959 Cf.. Esta prática de pagamento parcelado era resultante de uma contradição básica: o vinho era importante fonte de lucros. enquanto os comerciantes do interior. Grã-Bretanha. cujos interesses eram antagônicos.6% delas. estabeleceu a interdição da importação e venda dos álcoois especial- mente produzidos para indígenas. p. pedindo que a totalidade do pagamento continuasse a ser feito nas aldeias. Copos e Corpos: a disciplina do prazer nundar o mercado com o vinho colonial. e neste caso os da Manhiça. deixando os trabalhadores praticamente sem dinheiro enquanto cumpriam seus contratos. com assento no Conselho de Govêrno. acabaram por ser parcialmente atendidos e. os indíces do Comissariado de Polícia de Lourenço Marques demonstram o impacto do alcoolismo sobre uma população crescentemente desterritorializada e espoliada material e culturalmente: das 2. entretanto. recebiam somente um quarto de seus já minguados salários e o restante quando voltavam às suas terras959. Op. Ocorrências Policiais em Lourenço Marques nos anos de 1926. que a venda e o consumo dos álcoois importados progredisse958. ao Secretário dos Negócios Indígenas para que pelo menos metade do salário fosse pago em Lourenço Marques.Vida Mental. Se os argumentos denunciando a degradação física e moral dos consumidores do vinho colonial parecem retórica proveniente dos defensores da temperança. Em setembro de 1919. tornou-se ponto de disputa entre os cantineiros estabelecidos em Lourenço Marques e os do interior. etc. ou seja 84. mas diminuía-se a venda de vinho colonial. Nada disso impediu. tomo II . 1927 e 1928. em 1911. cit. falavam mais alto e mais perto do ouvido do Governador Geral que em última instância decidia tais questões. mas os interesses dos comerciantes urbanos. Henri. isto apesar do fato de que os trabalhadores chibalo não tinham muito dinheiro disponível já que. assegurava-se um mínimo de sobriedade. proibição da destilação nas colônias. como não podia deixar de ser. mas a bebedeira podia comprometer a qualidade da força de trabalho.087 prisões de indígenas efetuadas entre 1926/1928. Japão. enquanto estavam na cidade. Esta questão da forma de pagamento. In: Anuário Estatístico 347 . impostos altos para os demais destilados. foram motivadas por embriaguez. a Convenção de SaintGermain-en-Laye EUA e Itália ____ ____ ratificada pela França.766. Portugal. Bélgica. 566.6. JUNOD. contrargumentaram. A Associação Commercial dos Lojistas de Lourenço Marques peticionou. Seus argumentos preponderaram por cerca de uma década. mais organizados.

59. e que. Copos e Corpos: a disciplina do prazer passou a ser pago na cidade.. Até mesmo o argumento da economia colonial era utilizado para tentar coibir o colonial. pp. o Distrito de Lourenço Marques da Colônia de Moçambique. do Secretário dos Negócios Indígenas aos Comerciantes da Manhiça.Vida Mental. 41:2. principalmente quando se tratava do fabrico e consumo de bebidas destiladas. 12. de 14/04/1911 e ainda AHM-DSNI. de Almeida. Eduardo. em 1908. 1926-1928. cit. 962 PENVENNE. Op. onze dos doze conselheiros eram. e JUNOD. em capulanas e em pagodes”. 963 GARRETT. O vinho. Shikhokhiyana é uma bebida fermentada cuja fórmula foi trazida para Lourenço Marques pelos magaíças das minas do Rand. 259. devido à repressão e ao caráter clandestino de sua fabricação. de 16/04/1911. Bebidas moçambicanas. Cf. e era resultante da mistura de uma calda de açúcar. protegido. portanto. diretamente aos trabalhadores960.. Op. 961 O Africano. 67.. cit.. cx. O que ocorreu é que.. que gastavam o dinheiro obtido com sua venda “em bugigangas.”961 Nem tais apelos e argumentos. não havia legislação e/ou fiscalização que pudesse ser onipresente no recôndito das aldeias e palhotas e que pudesse de fato suprimir a fabricação e o consumo das bebidas cafreais963. aumentando as condições de insalubridade e oferecendo riscos crescentes à saúde de seus consumidores. Th. MEDEIROS. p. 119. separados por milhares de quilômetros das decisões metropolitanas e que nem mesmo influiam nas decisões do Conselho Municipal em Lourenço Marques. já por volta de 1906. Op. “The Cantina vs. dezoito armazéns de vinhos encarregavam-se de distribuir para os cantineiros de Lourenço Marques a tão preciosa mercadoria e. Qualquer decisão metropolitana ou local estava assim comprometida nesta trama de interesses vinícolas. doc. “muito ao contrário do [dinheiro do] Colonial que vai para o Poço do Bispo. Lourenço Marques. misturada com lúpulo ou uma mistura alimentar que se vendia para engorda de gado. proc. contudo. cit. 03. por volta de 1909. nem a proibição às bebidas cafreais surtiram efeitos: primeiro porque a economia portuguesa era extremamente frágil e o poder de pressão da indústria vinícola era mais efetivo e atuante que os reclamos de alguns dos capitalistas coloniais e de indígenas educados. do qual. não parava de alargar mercados: em 1932. Em segundo lugar. golden syrup. cx. the Compound. tomo II . 24/12/1913. 960 348 . p. Jeanne. Dizia-se que a produção e venda de shikhokhiyana e de outras bebidas cafreais era uma atividade de pretos.6. 03.” p. p. 1929. o dinheiro giraria na própria colônia. 37. as bebidas cafreais passaram a ser produzidas em instalações provisórias e de forma cada vez mais precária. importadores e atacadistas de vinho962. Petição da Associação Commercial dos Lojistas de 16 de janeiro de 1911 e Petição dos Comerciantes da Manhiça. AHM-DSNI. Henri.. Imprensa Nacional.

sendo que 669 dedicavam-se exclusivamente à venda de bebidas e. Registro de Mappa Estatístico. parece irreal: em 1899 havia uma cantina para cada vinte habitantes e em 1907. Op. doc. 966 Ver Relatório das Circumscripções do Districto de Lourenço Marques -1911-1912. vol. não só pela perseguição desencadeadas contra as mesmas. com mais vigor nas cidades. estando portanto. CRUZ.. o mesmo Governador deu resposta negativa a todos os recursos a ele interpostos por comerciantes que tiveram negadas. AHM-ACLM.. não sendo erro estatístico. pareçam exageradas e seus números discrepem de outras fontes. Diversos (recursos). pelos administradores. uma para cada catorze966. Em 1912. as bebidas locais eram de uso ritual e dependiam da existência de excedentes de cereais e da sazonalidade da produção de frutos. Lourenço Marques. Mas o álcool importado e nomeadamente o vinho colonial foi substituindo paulatinamente. venderem bebidas variadas. A. 15/16. 387 eram cantinas que estavam licenciadas para vender exclusivamente vinho colonial. etc. somente em cinco das circunscrições de Lourenço Marques (Manhiça. ou seja. É preciso considerar que o vinho colonial entrou no gosto de consumo da população. Apud PENVENNE.6. Maputo. Daniel da. às páginas 340:1. de somente 87 cantinas. seguramente o número de cantinas era bastante elevado pois. aponta. que na edição referente a 1908 de seu Annuário de Moçambique. que remetia ao universo simbólico dos hábitos de consumo mais sofisticados associados à cultura européia. licenças para abrirem cantinas em Lourenço Marques e em Chai-Chai965. sua disponibilidade sujeita a oscilações climáticas que nem sempre permitiam o acúmulo de excedentes.429 estabelecimentos entre cantinas. Pe. a existência. 1913. dos quais 1032 estavam reunidos na cidade de Lourenço Marques e arredores. 09. M’Chopes e Guijá). cit.. AHM-ACLM. Copos e Corpos: a disciplina do prazer contava com 2. as bebidas ditas cafreais. Imprensa Nacional.381 homens e mulheres adultos.maço de Recursos Comerciais. entre outros gêneros. the Compound. armazéns. a copo964.I. em 1910. 301 cantinas para uma população de 126. cx. Cf. A. quer por se tratar de uma bebida de brancos e importada. ano 1910 . Gaza tinha em 1907 mais de duas mil cantinas. 08-09. bares. Acrescente-se ainda o fato de 964 965 FREIRE DE ANDRADE. Embora estas cifras. quer por um motivo bem mais prático e banal: contrariamente às bebidas importadas que eram fruto de um excedente externo. uma cantina para cerca de 420 adultos e na cidade de Lourenço Marques seu número era tão elevado que. Jeanne. As demais circunscrições não forneceram as variantes aqui utilizadas. existiam. 271. indicadas pelo Governador Geral Freire de Andrade. Os números referidos por Freire de Andrade contradizem os de Souza Ribeiro. pp. licenciados para. Bilene. destes.. em Lourenço Marques.” p. 349 . “The Cantina vs.

distribuição e comercialização967. cit. Cf. 969 O Africano. mas além de cama. cit. In: Estudos AfroAsiáticos. p. transporte. 63:73. armazenamento. BRANCAS NOS BARS As cantinas tornaram-se o principal meio de se “arrancar dinheiro ao preto”. Op. Daniel da. dava-se de maneira também sazonal. Op. mas também um importante elemento de socialização. a maior parte das bebidas locais eram resultantes da fermentação simples e. “Antologia de textos do jornal ‘O Africano’ (1908-1919)”.. corrompidas do inglês e ronga: “muito bom para vocês terem muita força”. tinham sua vida útil para consumo extremamente curta.. Bebidas moçambicanas de fabrico caseiro. comida e vinho ____ que no dizer dos cantineiros era “maningue muxle wenes ter maningue estaleca”969 ____. em Lourenço Marques tinham nos fundos. 10/03/1915. cit. Paulo & ZAMPARONI. Valdemir. 967 350 . bastando ter-se dinheiro para comprá-las. impedindo a formação de estoques reguladores. Linguajar típico dos cantineiros que integrava palavras de origem portuguesa. José Carlos. Copos e Corpos: a disciplina do prazer que. The LusoBrazilian Alcohol. Assim.. 6. A mesma situação encontrava-se na área ocidental da África Central conforme CURTO. Op.. principalmente. cit. SOARES. p. 22. 39 e 55. pelo contrário.”970 Op. Eduardo. que propicia momentos de prazer e alegria por parte de quem bebe. embora se praticasse a destilação. 157. quer o colonial. estavam sempre disponíveis. como querem os reformistas morais. Já o vinho colonial e as demais bebidas importadas. Bebia-se antes da presença colonial e continuou-se a beber. Cf. tornando seu consumo possível o ano todo. MEDEIROS.6. Não é demais lembrar que o vinho e as outras bebidas não são só elementos de destruição.. embora parecesse exagerado aos olhos estrangeiros. pequenos quartos que eram alugados a trabalhadores indígenas. p. As localizadas nos centros urbanos e.2 NEGRAS NAS CANTINAS. 219. 968 CRUZ. set/1992. rara era a cantina que não contava com algumas mulheres negras para atraírem e melhor arrancar “ao narro. pp. seu consumo. p.. os retornados de seus contratos em minas sul-africanas968. quer as bebidas cafreais. tanto dos trabalhadores urbanos quanto dos magaíças. Pe. como não eram submetidas à pasteurização e/ou aguardentação ou aditivação de conservantes. a quinhenta. 176.

trazer outro elemento de sedução e descobriram as menores. Nos quintais de algumas cantinas há rapariguitas de 10 a 14 anos. 07/07. para substituir as pretas que por dilatadas já não atraíam tanto.. 07/02. e estes. Op. o meio a negra e o fim é comer daqueles dois elementos chafurdando como suínos na lama imunda do tasco.. O Mignon. quanto os batuques dentro da cidade.] entrou como base primordial. [. havia 28 europeus.. como indicam as campanhas movidas na imprensa laurentina para que tais atividades fossem afastadas do centro da cidade. 10/10.... já que vinho e prostituição sempre aparecem juntos.BEBIDAS . em março de 1916. ora no caso o princípio é o magaíça. 351 . O Futuro. Secção A . Petição de indígenas de Manjacaze ao Director dos Serviços e Negócios Indígenas. embora fosse difícil suprimí-las. 17/11/1904. 17/02. O Districto.cx. 06/06/1914 e 02/06/1917. localizadas nas principais concentrações de indígenas 970 AHM-DSNI. mas sempre restaram brechas espertamente aproveitadas pelos cantineiros ___ as seguidas portarias e determinações legais normalmente isenta- vam da expulsão as mulheres negras dos cantineiros.Auto de averiguação da presença de mulheres indígenas nas cantinas. O Progresso de Lourenço Marques. O Africano. Copos e Corpos: a disciplina do prazer nhenta. 10. rugindo de cio.6. 24/07 e 16/08/1906. Em inquérito mandado proceder pelo Corpo de Polícia de Lourenço Marques. 17/12/1913. esquentando a cabeça. cit. 1589. 07 . 21/04 a 19/05/1905. 03/03/1905. de 27/03/31. Secção M . 19/05 e 23/12/1909. 28/02. calcinando os estômagos com frequentes doses de ‘colonial’ com a sua mistura de pontas de cigarro e piri-piri!. os bares inter-raciais e as casas de jogos freqüentadas por negros fossem deslocadas para os subúrbios973. 971 O Africano. como a forma mais eficiente e rápida de se ganhar dinheiro972. na Baixa. 14/04. 23/01.. 02/03 e 09/03/1905. estes continuavam a existir. casavam-se com as melhores prostitutas para continuarem a tocar o negócio974. 25/12/1908.Tribunais Indígenas. Em 1906 conseguiu-se que as prostitutas negras. 21/04/1908. 27/01. A Rusga. p. 26/04.”970 “[. 04/05 e 10/06/1902. esta fórmula: de que ‘todos os meios são bons para alcançar os fins’. então. por exemplo. 06/01. 974 AHM-DSNI. O Africano de 02/09/1911. 972 Ver entre outros: MAVULANGANGA. artigo Devassidão de João Albasini. 1912. Uma perfeita bandalheira!”971 Embora desde o princípio do século fossem proibidos tanto a venda de bebidas aos indígenas. cx.] Resolveram pois. 29 indianos e 13 chineses que diziam viver maritalmente com as mulheres indígenas que serviam em suas cantinas. 973 Diário de Notícias. na crónica jornalística da época.Administração ... Ver ainda.

nas cantinas. Cf. verduras. etc. Estas. aldeamento dos bairros indígenas. com capitais sul-africanos e ingleses.21/10/1911. O Africano propôs. segundo o jornal. drenagem do pântano no Sommershield. alegando que a legislação deixava brechas para tal procedimento975. principalmente a partir das décadas de vinte e trinta. Copos e Corpos: a disciplina do prazer nos subúrbios da cidade: Malanga. que a mulher honrada e honesta era aquela que se confinava no recato do lar e que a simples presença ou ingresso no ambiente das cantinas já seria suficiente para corromper a moral e o espírito imaturo das mulheres que. As autoridades intervieram no sentido de expulsar as cantinas para os subúrbios pois. Op. comidas. certamente prefeririam não apreciar tanta bandalheira977. Mahotas. quando a cidade investiu em novas obras de melhoramento urbano. a presença de menores e mulheres. não teriam discernimento ou capacidade crítica para aquilatarem perigos e tomarem livremente suas decisões. Secção A . O argumento do casamento não convencia nem mesmo o Secretário dos Negócios Indígenas. para sustentar a família. Julgava. Chamanculo e Zixaxa e arredores das estradas da Matola. montagem da rede de esgotos. p. 977 Entre as obras podemos mencionar: demolição do bairro operário.1932. Anuário de Lourenço Marques . construção. 127:9. de Marracuene. não deveriam ser aceitas nem como empregadas nem como freguesas. O objeti- 975 976 Ver AHM-DSNI. construção do Jardim Zoológico. Munhuana. acompanhadas de homens da sua família976. lenha. cit. mesmo assim. de Lindemburg. durante a season. frutas. mandou arquivar o processo. estavam prontos para reafirmarem a condição inferior do sexo feminino e. pasta a/5/1.cx. imbuídos de preconceitos raciais. já em 1911. urbanização de praças. era conveniente mantê-las afastadas das vistas.Administração . do Hotel Polana.. inevitavelmente. etc. de Anguane. ampliação e calçamento de ruas. por serem núcleos aglutinadores de indígenas. O Africano. Homens que questionavam as teorias da desigualdade biológica e social entre raças. de Hulene.6. esquecendo-se de que. em consonância com os valores burgueses. como os menores. A situação era tal que. as cantinas. pareciam querer enquadrar a mulher indígena moçambicana neste padrão burguês. além de tudo. voltadas para atrair crescente volume de turistas sul-africanos que. esta mulher desempenhava nas cidades uma série de atividades ___ vendedoras ambulantes de carvão. invadiam suas ruas e praias e que. ___ cujo espaço de atuação eram as ruas e. 352 . Mafalala. 1916. salvo nas cantinas onde se vendiam tecidos e. mais uma vez. 10. que entretanto. que se coibisse o quanto possível a venda do vinho colonial e que não se permitisse.

aos olhos burgueses. contudo.”978 Mais do que interditar. Lourenço Marques. escritórios e bancos ali instalados979. no silêncio da noite. pelas carroças. mas “à tardinha recolhiam os carros às cocheiras. além da sodomia que se alastra também em larga escala. de 18/04/1927.Informação da Secretaria dos Negócios Indígenas. Xilunguíne. antiga dos Mercadores. em pleno coração da baixa da cidade e próxima do Porto e dos CFLM. marinheiros e comerciantes. e perseguí-las inseria-se no conjunto de medidas mais amplas levadas a cabo para segregar as classes perigosas. Salisbury. 980 LOBATO. cx. REIS. p. a noite fazia emergir um novo território que a luz do dia 978 979 AHM-DSNI. fechavam-se os escritórios. a fim de se evitar que “os ataques às mulheres brancas tornem-se freqüentes. para nascer ao crepúsculo o sortilégio que a animava como um serralho à noite inteira. e tornava-se misteriosa e interdita. A rua aparentemente morria. pois bebida e prostituição eram percebidos como eficientes mecanismos de alívio das tensões sociais e raciais. mas não reprimir seriamente. as obras de modernização não desfiguraram completamente o velho centro da cidade. animavam-se os quiosques da Praça. Bulawayo.. um estorvo à moral e principalmente aos negócios. como sucede por exemplo em Johannesburg. estava pejada de bares e prostíbulos para servirem aos brancos. poupando assim a sensibilidade e a moral das famílias européias de presenciarem cenas e práticas lúdicas e sexuais que consideravam degradantes. 140 353 . como a Araújo. que Lourenço Marques tinha em média quinze mil indígenas sem família e que era necessário certa tolerância. 61:2. Cantinas e prostitutas negras constituíam. Op. Ruas. Lourenço Marques. pelo vai-e-vem de gente apressada. ano 1927 . com a prostituição.6. Alexandre. como cristais finos atirados ao lixo da rua. aqui representadas pelos indígenas. Copos e Corpos: a disciplina do prazer vo era afastar. e animavam-se os ‘bars’ e cervejarias que havia pelo caminho. estas medidas visavam disciplinar e ocultar. O Comissário de Polícia argumentava. particularmente. em 1927. charretes e rickshaws que disputavam espaço com os transeuntes e a primazia para levar e trazer mercadorias e papéis para as principais casas comerciais.”980 Num aparente paradoxo. de onde afluíam tanto mercadorias quanto ricos sertanejos. cit. para lá das portas fechadas e as cortinas corridas que filtravam alegres gargalhadas de mulher. Diferentemente de outras cidades. que acabou entregue ao comércio e aos prazeres do corpo. de dia eram tomadas pelo bulício dos escritórios. Carlos Santos. p.

39.6. espanholas. p.. cujos nomes já eram indicativos de sua proce- 981 DELUMEAU. Copos e Corpos: a disciplina do prazer ocultava. 354 . No dizer de Delumeau. prostitutas. ainda que por efêmeros momentos. oferecendose em finos ‘maillots’ cor de carne a quem desse mais libras”982.. Carlos Santos. imaginarem-se em Lisboa. 982LOBATO. Op. criaturas abandonadas e belas que se vendiam elas próprias em leilão. cit. Tívoli. ou tinham apenas as pretas. Alexandre. Paris ou Londres: “Num café. em que entrámos. Bars havia cerca de 35 e nomes como International Music Hall. 62. p. cit. p. 143. Sundown. Lourenço Marques. Trocadero. 983 REIS. Bohemian Girl. as mulatas e as brancas degredadas”984. que é como quem diz para todos os paladares. Xilunguíne. por consciência ou temor”981.”985 Com algumas libras. Lisboa. Lourenço Marques. condição de libertação das peias e apoquentações do cotidiano: “a escuridão nos subtrai à vigilância de outrem e de nós mesmos e é mais propícia que o dia aos atos que nos reprimimos de encarar. Op. Ana Vidra. Mascote e Bulawayo Café983 faziam a alegria de homens que “tinham dinheiro e não tinham mulher. fomos servidos por camareiras de várias nacionalidades. Xilunguíne. Op. Empresa do Occidente. Nestes alegres ambientes. podia-se comprar o sorriso das dezenas de criadas e camareiras e mesmo das bar-maids que respondiam pelos nomes de Bianca Berg. 985 ALBERTO. francesas e inglesas. Helen Drysdale. Alexandre. dançarinas. Caetano. Premier Tea Room. Era com o cair da noite que as “audácias inconfessáveis” e os prazeres secretos. Kitty Lindstrom. interditos à luz do dia. portuguesas. 984 LOBATO. o cair da noite atenuava os “‘redutores’ da atividade imaginativa” e a liberação desta permitia confundir “mais facilmente do que durante o dia o real e a ficção”. A par da música do piano ouvia-se o estoirar de rolhas de botijas de cerveja e champanhe por entre o fumo do tabaco que enchia a casa. p. estes homens com dinheiro podiam. Jean. Chandos. vieram centenas de homens solteiros mas também “canconetistas. 139. 99. 1896. Sarah Pepper. Russian Bar. Fanny Scheff. Era grande o movimento de criados e camareiras que serviam os fregueses. Dolly. em cima das mesas dos bars. despertavam. A Campanha d’África contada por um sargento. cit. p. Cecília Laventer e Emilie Kaiser. Com o comércio intenso e com a corrida ao ouro. Blanche Dummond.

bebiam. notadamente as artistas. assim como eram refinados e estrangeiros a cerveja. era a um só tempo proprietária e mercadoria.. cantavam. Para o colono. às pretas e mulatas da terra. havia “a juventude das gaivotas errantes que faziam ‘tournée’ por todos os portos de África”. embora podendo ser de todos. 148:9. era uma fugaz escapada do mundo real no qual estava imerso. alheias à política e ao mundo dos negócios. 988 A este respeito ver RAGO. se era comprável. rudes e ignorantes. vestidas com a última moda européia. Xilunguíne. com o Barbeiro de Sevilha. Op. decidia quando. Copos e Corpos: a disciplina do prazer dência986. e se possível estrangeira. e aquelas. representavam de um lado a figura da mãe mas. não era propriedade de ninguém. suas relações no mercado do prazer e. em oposição às esposas brancas. em muitas circunstâncias. a sua vida afetiva988. Lourenço Marques. Contrariamente à esposa. Carlos Santos.. tinham gestos delicados. a prostituta. a quem e por qual preço se faria vender. 62 987 LOBATO. Alexandre. que tanto cativava os espíritos da época. principalmente. Série de artigos no Notícias . Alfredo Pereira Lima. inaugurado em 1923. tradicional centro do teatro de revista lisboeta. podia ser possuída e comprada por muitos. em 1931. com corpos jovens e esbeltos. Lourenço Marques. inaugurado em 1913. gordas. era introduzir-se novamente no leito civilizatório do qual saíra. conversavam desembaraçadamente e sobre assuntos diversos. traziam troupes e pequenas companhias teatrais do Parque Mayer. Os prazeres da noite: prostituição e códigos da sexualidade 355 . estas. ir para a cama com uma européia. As esposas-mães. rodeadas de filhos. consumir a mulher estrangeira era um ato de refinamento. Pedras que falavam. As prostitutas européias. de outro. e o Scala. sujeito e objeto do prazer. neste imaginário. Além das permanentemente instaladas nos bares e cafés e das coristas do Teatro Varietá. Margareth. Tal como uma mercadoria da indústria moderna.6. eram vistas como portadoras de hábitos civilizados e da modernidade. fumavam. o Teatro Gil Vicente. pp. ícones da estagnação: viviam recolhidas aos afazeres domésticos. contudo não era de propriedade exclusiva de ninguém. uma mercadoria que podia gerir. cit. e que “assentavam arraiais e abasteciam de amantes caras e luxuosas os homens ricos e poderosos. Op. cercado de corpos negros dos quais ar- 986 LIMA. Além disso. 1971-72. apud REIS. mais ou menos autonomamente. a champagne e o uísque que animavam as rodas de amigos e as noitadas boêmias. o Cine-Teatro Variedades. ou influentes da cidade”987. Era um tipo de mercadoria especial que. gerindo no máximo os empregados e serviçais domésticos. p. No imaginário masculino laurentino. cit.

na verdade. Op. máscaras brancas. Alexandre. Xilunguíne. Paráfrase de FANON. Copos e Corpos: a disciplina do prazer rancava suas economias. amanuenses e operários que não podiam pagar pelas vivas estátuas gregas das companhias teatrais. européia e refinada. 149.6. Em 1931. Lourenço Marques. Os pequenos funcionários. 310:349. atirou com altos funcionários para a cadeia. Se. Mas tudo isto era restrito a alguns homens brancos. por outro era tolerada na medida em que. 989 356 . 74:76. 992 LOBATO. cit. quando era preciso ir à Paris para se ver no palco uma mulher dançar nua. com prestígio e dinheiro. Lourenço Marques. Alexandre. Gilbert. com seus amantes. pp. muitas mulheres choraram e sofreram a miséria dos lares e a desonra dos maridos”991. A teia armada por estas dominadoras femme fatale990. parecia ser uma perigosa aranha que enredava seus amantes na teia da sedução e exigia-lhes jóias e presentes cada vez mais valiosos para manter suas ligações e satisfazer-lhe os desejos. 991 LOBATO. por exemplo. neste universo impregnado de valores cristãos. Frantz. oscilava entre a da escrava do sexo. 1991. contra a qual poucos ousavam atirar a primeira pedra. envolveu em seus liames “respeitáveis chefes de família constituída na cidade. podia contribuir para manter os sacrossantos valores familiares. a civilização e a dignidade brancas se fizessem de novo suas989. vítima das circunstâncias. ficavam com feminina em São Paulo. p. Pele negra. se por uma lado a imagem da prostituta era associada ao fantasma da perversão dos bons costumes e da moralidade cristã e burguesa. nua como uma serpente. DURAND. cit. pp. julgava-se. Era como se nos seios brancos que suas mãos ubiqüitárias acariciavam. e a da escravizadora de homens. 143. 990 Sobre o arquétipo da femme fatale e sua associação com a aranha veja-se. para deslumbre dos homens que podiam pagar e desespero das esposas992. que invertiam. Op. ao funcionar como fornecedora de prazeres inimagináveis no casamento. 95. a esposa era associada à imagem da Maria bíblica. Xilunguíne. assistia à divina Mafalda. Op. A. assim. a imagem da prostituta. no lugar de solapar. 37:42. Paz e Terra. s/d. resguardava as esposas e filhas dos arroubos instintivos da libido masculina e. Jean. p. cit. Ferreira. Porto. porém a quem considerava inferiores. Entretanto. Rio de Janeiro. e. afundou e arruinou empregados considerados. transformado em Paraíso. Lourenço Marques. durante mais de meio século. No meio colonial. ver ainda DELUMEAU.. tidas como demoníacas devoradoras de corações e fortunas. p. 1890-1930. estupefata. a tradicional fragilidade feminina. pp. exibir-se no palco do Varietá. levou outros ao suicídio. a prostituta seria a Madalena.

posto em vigor pelo Dec. publicado no Boletim Oficial no 45/1904. pois não se tratava de uma Colônia inglesa e sim portuguesa. Os bars. ou ainda nos animados quintais de suas manteúdas mulatas. idealizando o passado. porém. o O Brado Africano publicou. pp. e se as prostitutas brancas eram impelidas a exercer suas funções no seu interior. Até mesmo no universo marginalizado. os coloniais de qualquer raça eram recebidos em toda parte. Imprensa Nacional. como o da prostituição. Segundo ele. pois partia-se do princípio de que todos eram cidadãos portugueses. 09/09/1904. O articulista. Tal delimitação do 993 Regulamento de Serviçaes e Trabalhadores Indígenas no Distrito de Lourenço Marques. de tal modo que “hoje ao preto. ou seja da África do Sul. mas aos indígenas. artigo de José Cantine no qual narra que um seu amigo foi proibido de entrar num café por ser negro. 1904. ainda que educados e instruídos. negros e mesmo mulatos instruídos não tinham. quiosques e cafés recusavam-se a servir negros e mulatos. estava se tornando cada vez maior. que era educado e instruído. Lourenço Marques. segundo ele. não eram impedidas de circular pela cidade baixa e nem eram sistematicamente perseguidas pela polícia. direitos de cidadania e que o racismo vigente não era mera influência de quem quer que fosse. 04:06 e Regulamento de Polícia dos Serviçais e Trabalhadores Indígenas em Lourenço Marques. Os preços altos era o que impedia os brancos pobres de usufruírem de tais deleites. 357 . Apelava ao Governo para que este obrigasse tais estabelecimentos racistas a “entrar nos eixos”. sob o título “Num Café”. por mais instruído que o seja não é sequer permitido um café ou hotel onde estejam europeus”. posto em vigor pelo Decreto 312 de 04/12/1922. o amigo explicara ao proprietário que ele “não era um simples indígena. afirma que este hábito de discriminar pela cor não existia “vinte anos atrás”. Copos e Corpos: a disciplina do prazer as mais modestas dos bars ou ainda subiam as areentas ruas rumo aos subúrbios para deleitarem-se nos braços negros das prostitutas das cantinas.6. Em maio de 1930. o racismo era marca dominante. em Lourenço Marques. somava-se a lei do passe e o crescente racismo para os impedir de circular em tais espaços993. mas inerente à própria dominação colonial. a influência da legislação e práticas do vizinho. onde varavam noites de batuque e copos. para as autoridades portuguesas. além do dinheiro. José Cantine não se dava conta de que. mas o homenzinho do Café declarou que só queria saber da cor”. em cuja legislação não havia nenhuma lei que distinguia cores e sim o grau de civilização de cada cidadão994. Os bares dispunham de discretas simpatias de seus freqüentadores influentes que os punham à margem da ação policial. de fato.

. A crônica colonial só reteve os nomes daquelas mulatas que viviam em concubinato com brancos importantes. Xilunguíne. Só na década de quarenta do século XX é que. nada se sabe. Ver ainda 23/08/1930. enfim. das demais. cabarets e dancings que paulatinamente estavam substituindo os bars como centros de lazer e prostituição. Op. Copos e Corpos: a disciplina do prazer espaço de trabalho da prostituta branca visava tirá-la da rua. podendo viver como amantes e prostitutas com o beneplácito e para benefício do templo ao qual estavam ligadas e que lhes fornecia moradia e terras agrícolas997. pp.6. empurradas para o anonimato dos quartinhos das cantinas. mas acredito que usa aqui o termo genérico e popular com que os hindus eram conhecidos em Lourenço Marques. para os night clubs. a quem passava na rua. e depois as negras. eventualmente. resguardar as aparências da moral pública. p. as danças requintadas dos templos do Oriente”996. inclusive sexual. puderam vir para a baixa. Além das prostitutas européias. impedir o trottoir. Os próprios bares pareciam. Se algumas cocottes e divas brancas foram absorvidas pela incipiente burguesia colonial e influenciaram nas modas e comportamentos. Negava-se-lhes a própria identidade individual: eram prostitutas negras. “Moçambique e os naturais da Índia portuguesa”. Op. e. As bailadeiras do templo constituíam. Xilunguíne. limitar as influências que estas mulheres alegres pudessem exercer sobre o comportamento social e a libido de esposas e filhas. eram mandadas vir da Índia. A. Alexandre. 997 RITA-FERREIRA. p. somente as mais desprezíveis dentre as bailadeiras aceitavam relacionar-se sexu- 994 995 O Brado Africano. Zanzibar ou Mombaça por algum baneane mais rico. mas não reprimir suas atividades. indígenas e isto bastava. servidas com toda a compostura”995. 149:50. nos frescos ambientes interiores.. apenas botequins vulgares com bebidas geladas. Lourenço Marques. Na Índia. pertenciam a uma das dezessete castas dos sudras e eram as únicas mulheres hindus que gozavam de liberdade. 144. paulatinamente. que se deleitava vendo-as dançarem nuas “vestidas de falsas pedrarias. 996 A. 358 . 626. 22/07/1933 e 06/01/1934. cot. cit. Neste espaço as mulheres negras e mulatas não podiam circular. “casas tranquilas de aparência inocente. na Índia. Mas não eram só os corpos das prostitutas brancas e negras que estavam segregados. LOBATO. particularmente das prostitutas. Cf. uma das muitas castas existentes. LOBATO. as prostitutas negras e mulatas foram empurradas para os subúrbios. Alexandre. bordéis de baixo meretrício. Lobato fala que quem as traziam eram monhés. 31/05/1930. Em Goa. Lourenço Marques. negras e mulatas havia as bailadeiras que. as mulatas. as leis do passe as impediam.

quando vigia a escravatura. cantinas. os loucos. como ocorria pouco tempo antes. Ver O Brado Africano. um trabalhador negro. pouca influência teve no meio laurentino a presença das bailadeiras. era nos calabouços do Comissariado de Polícia onde aplicavam-se os corretivos. 1000 Em 1923. São Paulo. involuntariamente. teria contato com tais perigos contagiantes. no 56.6. geralmente com palmatórias e cavalo marinho e onde se podia espancar até à morte sem causar horrores e sem despertar atenções1000. compounds. ao menos nos centro urbanos. Esta série de mecanismos excludentes não foi acatada tal como seus apologistas e executores gostariam que fossem. Michel. no isolamento territorial do Hospital. vagões. filas. com suas estritas regras sociais e religiosas. ninguém. que não integravam o sistema de castas e. Assim isolados em territórios. A sensibilidade burguesa não mais permitia conviver harmoniosamente com estas condições de vida desviantes e degradantes: a disciplina dos trabalhadores e/ou rebeldes já não era imposta no pelourinho. pp. manteve-se fechada socialmente à comunidade circundante. etc.83:105. tidos como inferiores e portadores de malefícios potenciais. Perspectiva. pode ser associado ao processo de segregação de todas as situações e práticas que pudessem oferecer riscos à sanidade da comunidade999. 10/02/1923. São Paulo. “Fidalgos portugueses e bailadeiras indianas. por exemplo. ainda que fossem fidalgos e nobres na Europa998. História da Loucura. Charles R. De qualquer modo. do cemitério e da gafaria. à vista de todos. assim também as cantinas. os trabalhadores buscaram formas de sobrevivência adequadas às situações e não era pequena a resistência 998 Ver BOXER. Séc. bancos. era o exemplo limite do isolamento proposto: localizava-se na Ilha dos Elefantes. Este processo de ocultamento do indígena e dos negros e mulatos. 1961. evitavam ter deles filhos. Petrópolis. os mortos e os criminosos tinham que ser retirados do convívio social e tal exclusão se traduzia na distância em que se localizariam. 1977. 999 Ver FOUCAULT. agora. 1976 e Vigiar e Punir. as prostitutas negras. subúrbios. de ambos os sexos. havia sido torturado até a morte nos calabouços da polícia . A gafaria. os doentes. 359 .. como a comunidade hindu. os planejados compounds e bairros indígenas. acusado de ter roubado um relógio de um inglês. XVII e Séc. Vozes. na expulsão para os subúrbios das cantinas e. mesmo assim. cujos doentes traziam explícita a decomposição dos corpos e o perigo máximo do contágio. em relação ao centro de Lourenço Marques. In: Revista de História. XVIII”. na cidade como nos campos. Copos e Corpos: a disciplina do prazer almente com os impuros europeus. os leprosos.

por exemplo. etc1001.849 delas. p. não era difícil que parentes ou amigos se cotizassem e pagassem uma única licença ou obtivessem uma única chapa que era usada por aquele que precisasse ir à cidade. uma das estratégias da qual se lançava mão para burlar. o Comissariado de Polícia registrou 9.6. mas a regulamentação e a organização da vida urbana cotidiana”1003. a um só tempo. as estatísticas oficiais apontam a dimensão do desrespeito cotidiano à legislação. principalmente em casos de vadiagem. Independentemente de boicotes organizados. tomemos. transgressões a posturas. Op. nos anos dez e vinte. Como não havia. Robert D. também em Lourenço Marques. 1927 e 1928. um eficiente sistema de identificação pessoal. 259. necessariamente. 1002 Ocorrências Policiais em Lourenço Marques nos anos de 1926. cit. Op. em Lourenço Marques. das 24. De qualquer 1001 Censo da população não indígena em 1928. 360 . Para se ter uma idéia desta situação. eram resultantes de infrações ao Regulamento dos Serviçais Indígenas1002. quer para a forte pressão disciplinadora representada pelo aparato policial. cit. a produção e venda de bebidas cafreais nos subúrbios. agressões. Além do jeitinho que se dava para manter o comércio de genêros alimentícios.4%. desordem. neste mesmo ano. como exemplo. o que indica que o objetivo de tais códigos. Isto não quer dizer.30. In: Op.410 africanos de ambos os sexos. 1003 STORCH. de qualquer modo. cit. Claro que esta tática funcionava de forma limitada e somente para aqueles que não trabalhavam cotidianamente na cidade e que a ela só ocasionalmente tinham que ir. quer para a resistência interposta à mesma. “não era primordialmente a detecção e a punição de crimes graves. registradas em Lourenço Marques nos anos de 1926. Note-se que não há registro de nenhuma autuação por assassinato. distinguindo-a dos mixtos. estes números apontam. Copos e Corpos: a disciplina do prazer ao efetivo cumprimento dos diversos regulamentos e posturas legais que limitavam a livre atividade da população indígena em Lourenço Marques. tal como o patrocinado pelo O Africano em 1915. 21. Mais ilustrativo ainda é que. já que um mesmo indivíduo poderia ter sido autuado inúmeras vezes. 1927 e 1928.560 ocorrências policiais envolvendo indígenas. com idades entre 15 e 80 anos e. abuso de confiança. o pagamento das taxas era fazer passar-se por outrem. que 43% da população indígena tenha tido algum caso de envolvimento com a polícia.293 ocorrências envolvendo indígenas. p. 14. ou 60. embriaguez. o ano de 1928: o Censo realizado neste ano indicou que viviam.. Embora o seu título diga tratar-se do Censo da população não indígena na verdade inclui toda a população africana.

Daniel da. segundo a qual cada indivíduo deve ter um único nome que o acompanhe ao longo da vida. a outro ‘Fongüe-tambara’ ___ ‘gallo irrequieto’. Negar-lhe este atributo do eu e reinvestí-lo de um novo nome. enfim. embora conseguisse exercer um poder coercitivo contra manifestações explícitas de descontentamento. 1004 CRUZ. nome de um pequeno quadrupede de focinho comprido e de hábitos perscrutadores. davam o nome de ‘Muhambahleka’ ___ ‘o que anda a rir’. era. na língua do colonizado. opondo-se abertamente à lei. A um commissario de policia chamaram ‘Mturu’.6. dando ordens e contraordens e mettendo-se em tudo. era um exercício de inversão das relações de poder que se pretendiam estabelecidas. era um ato de sabotar a ordem jurídica européia. tomava inciativas que burlavam ou contornavam a rigidez da norma. apesar dos esforços disciplinadores. 361 . se não resistia. nome que. genio alegre e folgazão. A partir dos anos trinta. um ato simbólico fundamental: dar nome às coisas é um ato fundador. Uma destas práticas antigas era a atribuição aos colonos de nomes e apelidos que traduzissem seus traços físicos ou comportamentais: “Um celebre portuguez que por aqui andou muitos annos e que entre outras façanhas conta a de matar dois pretos indefesos. para o europeu. buscando sempre formas alternativas de vida e disputando sorrateiramente espaços pretendidos pelos brancos como reservados a seus pares. cit. tais ocorrências policiais indicam que. nada podia contra a continuidade de práticas cotidianas que se enraizavam no passado e que continuavam a florescer. a repressão se acentuou com a entrada em ação da polícia política salazarista que. geralmente satírico.. chamavam ‘Kabidanküia’ ___ ‘o que nunca se ageita bem’. outro portuguez que entre elles era alvo das mesmas sympathias que o milhafre entre as pequenas aves.103:4. Op. Copos e Corpos: a disciplina do prazer modo. A um portuguez altamente collocado numa das cidades desta costa. ‘Nhakuvatua’ ___ ‘serpente venenosa’. entretanto. traduz a sua própria identidade individual. p. a população negra e mulata não se deixava moldar ao bel prazer das autoridades coloniais. Pe. era conhecido em toda a parte pelo nome de ‘Mamburaia’ ___ ‘matador de gente’! A Diocleciano das Neves.”1004 Tal prática era bastante interessante porque implicava na negação em aceitar o nome próprio do dominante. por andar sempre de um lado para o outro.

pp. trabalho sem receber Eu quero parar e ir para casa Estou cansada. 51. coro: Trabalha.I.O que devo fazer homem branco? coro: Trabalha. homem branco Eu quero parar e ir para casa Meu marido [também] trabalha Eu quero parar e ir para casa Eu trabalho sem receber. 1006 Cantada por Madalena Mandlazi. 1981. 181:218. traduzida e transcrita por MANGHEZI. Metodologia e pré-história da África. mesmo quando não compreendidas pelos brancos. filho da puta! coro: Trabalha. homem branco coro: Trabalha. 362 . O restante da população não permanecia passivo e desenvolvia formas cotidianas de expressar seu descontentamento e. 1982. não lamentes. não fujas! O sol está a queimar-me. . São Paulo. A tradição viva. p. Ática/UNESCO.). In: KI-ZERBO. não fujas!”1006 1005 HAMPATÉ BÂ. denunciavam a opressão sofrida: “Homem branco pague-me e deixe-me partir Eu quero parar e ir para casa Pague-me. “A Mulher e o Trabalho”. Joseph (Coord.Hei Homem branco. Copos e Corpos: a disciplina do prazer um ato de poder1005. tenho medo de fugir. In: Estudos Moçambicanos. as canções de trabalho que. História Geral da África . não fujas! . Alfheus. 3. entre elas.6. A.

PARTE III A EMERGENTE PEQUENA BURGUESIA FILHA DA TERRA .

semi-proletarizada ou em fase de o ser. O próprio uso da noção de África deve ser questionado. políticas e econômicas a um único denominador. fruto da crescente presença colonial e do acelerado desenvolvimento urbano. Impõe-se nos. NOTAS SOBRE CLASSE EM ÁFRICA Na virada do século. Ainda que epistemologicamente afastados. notadamente européias e ocidentais e de não fácil transposição a realidades distintas. em conflito com as crescentes práticas racistas que nortearam a ação colonial. uma certa identidade diante da multiplicidade. Este segmento ganhará. para efeitos didáticos. organizações sociais. conclui: “todos os níveis da produção tem certos pontos comuns que o pensamento retém como gerais. reivindicando sua identidade. mas as condições ditas gerais de toda produção são elemen364 . paulatinamente. Marx. e daí querer extrair generalizações pretensamente válidas para o universo África. O estudo de África tem gerado. consciência de sua especificidade frente à estrutura social existente. uma série de polêmicas quanto à utilização de conceitos elaborados com vistas ao estudo de outras realidades. encontramos em Lourenço Marques a emergência de um segmento social embrionário distinto. portanto. uma pausa para refletirmos. muito pouco contribui para o aprofundamento de conhecimentos acerca de cada uma das realidades específicas. referindo-se à produção em geral e à produção historicamente situada. quer da massa de indígenas.7. Isto nos leva ao problema de como caracterizar tal segmento: quais conceitos e/ou noções podem a ele ser aplicados para melhor traduzir sua situação específica? Poderíamos tratá-lo como uma espécie de “elite”? Constitui-se numa “classe média”? Estas e outras perguntas semelhantes levam-nos também a discutir a aplicabilidade dos conceitos a realidades distintas daquelas para os quais foram elaborados. embora seja uma prática constante na busca de inteligibilidades. Marx e Weber aproximam-se quanto ao perigo da generalização conceitual. Submeter as diferentes culturas. quer dos colonos brancos. nos Elementos Fundamentais para a Crítica da Economia Política. não raro. nos últimos quarenta anos. Não se pode falar de um todo unitário e toda cautela é pouca quando se tenta buscar traços comuns que permitam estabelecer. sob o ponto de vista racial e cultural.

K. “La ‘objetividad’ cognoscitiva de la ciencia social y la política social.”1008 A generalização indiscriminada dos conceitos. ainda que modestamente. Amorrortú. já que para conter o comum ao maior número possível de fenômenos deve ser o mais abstrato possível e. além disso. Ambos os procedimentos. Paris.1 A QUESTÃO “CLASSE” VISTA PELOS “PAIS DA PÁTRIA”. Nesta perspectiva. que estudam a realidade africana. generalização universalizante e empirismo descritivo. são extremos a se evitar como único caminho que permite avançar. Tem ampla gama de defensores entre os intelectuais não-marxistas e. a uma indesejável descontextualização em relação às tramas mais complexas do qual faz parte. no conhecimento de realidades históricas. alertava para o fato de que “quanto mais amplo é o campo de validade de um conceito genérico ___ sua extensão ___. Max. 69. acompanharemos a discussão em torno do conceito de classe. 17. vol. 365 . WEBER. em conseqüência. é justamente a sua antítese e se expressa em variados matizes do pensamento marxista. O abandono radical de quaisquer referenciais teóricos ___ ___ se é que isto seja objetivamente possível pode le- var-nos à apologia do empirismo descritivo e à fragmentação excessiva do objeto de estudo e conduzirá.”1007 Weber. mas principalmente referenciar os seus eixos centrais. tanto mais nos desvia da riqueza da realidade. no seu texto A objetividade cognosciva da ciência social e da política social. como decorrência. Este cuidado metodológico não pode ser absolutizado. p. o mais pobre em conteúdo. a aplicabilidade de tal conceito ao estudo de África. Notas sobre classe em África tos abstratos que não permitem compreender qualquer estágio histórico real da produção. certamente. foi muito afagada por certos líderes políticos. 1973. 7. inclusive de tendência socialista. Fondements de la Critique de l’Économie Politique. s/d. ___ ___ antropólogos. Buenos Aires. sociólogos.” In: Ensayos de Metodología Sociológica. pode nos remeter a estudos igualmente genéricos e universalizantes. A outra.7. portanto. numa operação circular de mero exercício acadêmico. Não temos a pretensão de sintetizar todas as posições envolvidas em tal polêmica. p. I. 1007 1008 MARX. que tem envolvido de políticos a investigadores etc. Uma aproximação com a literatura acerca do assunto revela duas tendências básicas envolvidas na polêmica: uma nega a existência de classes no presente ou no passado africanos e. Anthropos. historiadores.

tornando-os arautos de um novo devir para a África: Leopold Sedar Senghor. Senghor. Após a dissolução da Federação. p. procurou lançar as bases teóricas de um novo projeto sócio-político. visando não só a resolução de seus problemas imediatos. du Chêne. e que 1009 A efêmera Federação do Mali englobou entre 17 de janeiro de 1959 e 20 de agosto de 1960 a então República Sudanesa ___ ex-Sudão Francês e atual Mali ___ e o Senegal. Sua argumentação assenta-se na defesa de uma especificidade filosófica africana que orientaria toda a vida social. pois. A partir de sua formação filosófica. 60. Keita tornou-se presidente do Mali e Senghor do Senegal. Marcel. Présence Africaine. na onda das independências da década de 60. Excetuando os países cuja independência foi fruto de uma prolongada luta armada. mas que a suplantaria por integrar valores espirituais ausentes nesta última. SENGHOR. inspirando ações políticas. Modibo Keita. ao reivindicarem uma especificidade tipológica para o socialismo em África. Ahmed Sekou-Touré e Kwame Nkrumah. diante dos desafios impostos pela árdua tarefa de criação duma nação federada saída do colonialismo1009. e a partir da qual se edificaria a via africana do socialismo. e COLIN. mas também que servisse de alternativa e estivesse voltado para as sociedades africanas recém-independentes. ou em vias de sê-lo.. negavam tanto o capitalismo quanto o socialismo. era o Presidente da Assembléia Nacional e dirigente do Partido da Federação Africana. no curso da qual assumiram uma perspectiva marxista. Leopold S. Lieu d'eu. 366 . Paris. à luz da realidade africana. ambos eram exógenos à realidade africana. Para melhor compreender este tipo de formulação vamos acompanhar aqui o pensamento de quatro grandes líderes africanos. La Philosophie bantoue. argumentavam. procurou analisar suas contribuições e limites e estabelecer uma síntese. notadamente franceses. Leopold S. Respaldando-se em obras de pesquisadores franceses1010. Roland. afirma que a filosofia negro-africana seria uma filosofia existencialista e humanista. Paris. do Senegal. Placide. podemos dizer que esta foi a tese hegemônica naquele momento.7. que chamaria de a via africana do socialismo. Notas sobre classe em África Muitos dirigentes africanos. Um Caminho do Socialismo. ed. tal como a filosofia socialista. Les Contes de l'Ouest Africain. Os postulantes do socialismo africano. Présence Africaine. GRIAULE. do conhecimento que detinha das obras de Marx e Engels e de outros teóricos socialistas. 1010 Cita-os textualmente: TEMPELS. cujas idéias extrapolaram as fronteiras de seus respectivos países. tiveram a tendência a negar a existência de classes sociais em África. Paris. Julius Nyerere. da República Sudanesa. era o Primeiro-Ministro e Leopold Senghor.

nortearia a construção da nação. Senghor apoiado em André Vène. A perseguição do ideal nacional. Portanto. prefere traduzir Klassenkampf por “guerra de classes” e não aceitar a já clássica forma “luta de classes”. A via africana do socialismo exigia que o Estado. inspirado no igualitarismo da vida comunitária. conclui. que serviu de guia teórico ao projeto político tanzaniano. ajudando-o a recuperar suas dimensões espirituais. marca sua especificidade ao centrar-se mais no grupo que no indivíduo. 44. 60:61. mas que igualmente se opunha ao socialismo doutrinário. Vie et doctrine de Karl Marx. dirigente do Tanghanica African National Union (TANU) e primeiro presidente da Tanzânia independente.. funcionários públicos. levou-o a reafirmar que. “não existem classes em guerra. 1013 Id. Ver. na sociedade negro-berbere. afirmava que tal socialismo se opunha ao capitalismo. Ibid.. de la Nouvelle France. empregados e trabalhadores formassem “uma classe que oprima. Estas mesmas leituras permitiram a Senghor concluir que a sociedade africana era “uma sociedade coletivista.7. Ibidem. A mesma tese é retomada à p. o que lhe permitia concluir que se tratava de uma sociedade comunitária. pescadores e artesãos. É esta concepção de sociedade comunitária que. pastores e artesãos”. pp. A edificação da nação exigia que o partido majoritário e a oposição se engajassem num objetivo comum que era o de impedir a “cristalização de grupos sociais em classes antagonistas”. Op. impusesse freios aos conflitos sociais e labutasse pela “coexistência e desenvolvimento harmônico” dos grupos sociais1013. assente na exploração do homem pelo homem. pastores. p. já se praticava o socialismo. 100 e 98. 108:9. Ed. em relação ao socialismo: nosso dever é renová-lo. de resto para ele “a mais sólida realidade do século vinte”. mais exatamente comunitária. enganando. Julius Nyerere. p. não permitindo que profissionais liberais. cit. porque formada de uma comunhão de almas mais do que uma agregação de indivíduos” na qual. 105. SENGHOR. mas unicamente grupos sociais lutando pela influência”1012. Para Senghor os primeiros são burgueses se comparados aos camponeses. na medida em que este assenta a construção de sua sociedade perfeita sobre a tese de que o conflito 1011 1012 Idem. 315. em seu projeto. afirmava Senghor. 98. p. Id. Ibid. pp. mais na solidariedade e na comunhão de pessoas do que em sua autonomia. Notas sobre classe em África as forças vitais constituiriam a “tessitura do mundo e que este mundo é animado por um movimento dialético”. em seu texto UJAMAA: Ou o fundamento do socialismo africano. pp. antes da presença européia. 367 . Cf. os camponeses.”1011 A sociedade negro-africana.

para finalizar. e ‘dominados’ de outro”. Elites et Changements en Afrique et au Sénégal. afirmava que as profundas divisões de classe que existiam na Europa não tinham lugar no socialismo africano e nem paralelo nas sociedades africanas: “Não havia problemas de classes na sociedade tradicional africana e não os há entre africanos hoje em dia. “Démocratie et Partie Politiques”. justificando a existência de um regime de partido único. Op. de 1962. mas contra os ocupantes estrangeiros e. p. Présence Africaine. única suscetível de nos conduzir à virtualidade de nosso destino”1017. Sekou. 368 . 1983. 1959. 48. “De l’objectivité des classes sociales an Afrique Noire”.. que seria seguido de democracia. então secretário geral da Unión Générale des Travailleurs d’Afrique Noir (UGTAN) afirmou que rejeitava o princípio da luta de classes. 1017 TOURÉ. do que pela necessidade de “salvar a todo custo a solidariedade africana. ORSTOM. “UJAMAA: ou le fondement du socialisme africain”. 1015 Idem. Julius K. como estes partiram após a independência. In: Socialisme. Claude. Nyerere. Gilles. Démocratie. 1016 Citado por BLANCHET. Paris. na África. e concluía que. Apud RIVIÈRE. 1970. Sekou Touré. Os partidos europeus e americanos seriam conseqüência das divisões sociais e econômicas existentes no seio daquelas sociedades. Quatro anos mais tarde. XLVII. portanto. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. cit. p.. não havia a necessidade de serem convertidos ao socialismo.. 27.7. jul/dec. Congrès génerale de l’UGTAN”. Notas sobre classe em África entre os homens é inevitável. menos por convicção.”1016 Em 1959. Démocratie et Unité Africaine.. o socialismo africano moderno deveria tirar de sua herança tradicional o reconhecimento da ‘sociedade' como um alargamento da célula familiar de base” 1014 Em Democracia e Partidos Políticos. assim. mas de quaisquer antagonismos sociais existentes no passado: 1014 NYERERE.”1015 E. Vol. o partido único representaria “os interesses e as aspirações de toda a nação.96. já os partidos africanos não foram formados para lutar contra um grupo dominante de suas próprias sociedades. Présénce Africaine. parecia estar convicto não só da inexistência da luta de classes. pois tanto um como outro estavam “enraizados em nosso passado ___ na sociedade tradicional que nos deu origem” e. “Rapport d'orientation et douctrine. Paris. já não havia mais “divisão entre ‘dominantes’ de um lado. p. procurou estabelecer as diferenças entre os partidos africanos e aqueles existentes na Europa e América e o faz assentando seus argumentos nas diferenças qualitativas entre tais sociedades. 1969. Paris. In: Socialisme.

7. antagonismos ou clivagens sociais. na fraternidade. p. As idéias de Nkrumah coincidem com as de Nyerere acerca do partido único. segundo uma hierarquia fundada sobre a unidade social e de acordo com um nível econômico dado. Conakry. Claude. p. p. pois o “sistema multipartidário existente nos países ocidentais é de fato o reflexo da clivagem social e tal sistema de classes não existe nos países africanos. antes de ter sido devastado pelo colonialismo. 1964. Do ponto de vista da ação política para a independência. que considera como sendo a tendência natural em se tratando de uma sociedade igualitária. excluindo portanto. conflitos. 1o trimestre. Accra. Apud RIVIÈRE. 1963. de 1964. Os costumes. Kwame. Notas sobre classe em África “As diversas camadas sociais superpostas. no trabalho comunitário. construir uma nação homogênea. 81.”1020 Os exemplos acima mostram que há uma matriz de pensamento que os une. que tinha que preservar sua ordem interna. toda forma de exploração. mas decorriam das necessidades de uma sociedade tornada estática. Para a edificação do socialismo africano. Dizia que o socialismo que desejava deveria buscar suas conexões no igualitarismo e no passado humanista dos povos africanos. deveria recorrer-se a tal passado e. Classes et stratification sociales en Afrique: Le cas guinéen. em sua obra Consciencism. Consciencism. este discurso pode ter surtido algum efeito unificador. p. na qual a solidariedade nacional suplantaria e sufocaria quaisquer outros conflitos.”1018 Kwame Nkrumah. na igualdade entre todos seus membros. que as dividiam em castas nobres e castas inferiores não resultavam de contradições sociais. manter sua organização e a harmonia de suas relações econômicas e sociais. hoje absurdos. ver o número especial de Présence Africaine (no 85. uma vez eliminadas as influências do domínio colonial e das idéias exógenas. Baseiam sua argumentação no retorno a um passado mítico. ao rejeitar a existência de uma cliva- 1018 Idem. líder da independência ganense. 369 . La Révolution guinéenne et le progrès social. 1978. 21. 106. London. nunca foram antagônicas. 1019 NKRUMAH. defendia a mesma linha de pensamento ao definir o projeto político que desejava ver implantado em Ghana. A história do passado tradicional não apresentaria conflitos sociais importantes. como era a africana. O período pré-colonial é visto e apresentado como o reino da harmonia. o comunalismo seria o ancestral político e social do socialismo e este sua expressão moderna1019. 1973) dedicado à sua memória. PUF. 1967. In: Axioms of Kwame Nkrumah. 297. onde as relações sociais baseavam-se na ajuda mútua. Thomas Nelson. Paris. Sobre a importância política e o pensamento de Nkrumah.

ao recorrerem ao passado como fonte de inspiração e legitimação. 1020 1021 Idem. entre os itens da declaração de fé da TANU se reconhece. como se propalava com o fito de mobilizar para a independência. repentinamente. Cambridge University Press. 1996. Ora. Após a independência. Estas formulações querem se fazer passar por históricas. enfrentados por alguns desses líderes. se este foi cruel. Notas sobre classe em África gem de classe e. mas acabam por se constituir em sua antítese. Enrico. 420 e segtes. o discurso passou a considerar como antagonismo fundamental a existência de nações capitalistas ricas em oposição a povos e nações proletárias1021 e. quando se proclama que caberia ao Estado intervir ativamente na vida econômica a fim de assegurar o bem estar de todos os cidadãos e “prevenir a exploração de um indivíduo por outro ou de um grupo por outro. a negação da própria história. para o nível das contradições que opunham colonizados a colonizadores. querer identificar tal passado com o presente é.7. freqüentemente. pp. esteve presente no discurso mussolinista inspirado na obra de CORRADINI. “Sessional Addres to the National Assembly . de que existiu uma África pré-colonial isenta de conflitos sociais e vivendo em idílica harmonia social. pilar fundamental na edificação do socialismo africano. violento. 1916. bastante questionável. 71. de per si. como uma fina camada de pó facilmente removível. Na Declaração de Arusha. a fim de impedir igualmente toda acumulação de bens.I February 1966”. impuseram retificações. a ideologia do nacionalismo africano professado por Sekou Touré. negar este mesmo processo e considerá-lo como um mero parênteses. Kwame Nkrumah e Leopold S. como demonstrou recentemente Frederick Cooper. 370 . é preciso negar o peso do domínio colonial. cit. A própria história acabou por provocar mudanças em tal projeto. La Marcha dei produttore. Roma. transferir os conflitos e antagonismos sociais internos. a existência do conflito social em termos de classe. Para sustentar tal argumento. implicitamente. Frederick. Mesmo que se aceite a argumentação. Decolonization and African Society: The Labor Question in French and British Africa. subsumindo-as no projeto nacional e tornando os sindicatos em filiais dos partidos políticos no poder1022. p. É curioso que tenham recorrido a tal formulação que. efetivo e devastador de formas sociais anteriores. ainda que os conflitos sociais internos tenham se aprofundado. L’Italiana. Senghor. Os conflitos sociais reais. In: Op. 1022 COOPER. Cambridge. sob a qual se redescobriria intacta a verdadeira comunidade africana. de janeiro de 1967. não se pode. procurava esvaziar as lutas políticas sindicais por direitos econômicos.

“Déclaration du Secretaire général du PDG.1027 Apesar de sua radicalidade. 371 . em definitivo. La lutte des classes en Afrique. cit. Ainda hoje é possível encontrá-lo de maneira mais ou menos explícita nos discursos de líderes africanos. Julius. já num novo contexto político. 1025 NKRUMAH. Paris. nesta nova obra. Présence Africaine. p. RIVIÈRE. Entretanto. In: Revue RDA. 1023 1024 NYERERE. no qual a luta armada. que na África pré-colonial. p. dez. em 1968. do que o fruto da análise da realidade que os rodeia. Notas sobre classe em África em contradição com a existência de uma sociedade sem classes”1023. 08/11/1966”. 1026 Id. e expressa muito mais o desejo de ver concretizado um projeto de futuro. 11. 18. onde fez uma revisão explícita de todo o projeto anterior: a luta contra o poder colonial criara uma aparente unidade nacional. 1027 Id. 1970. 12. orientada por concepções político-teóricas marxistas. se alastrava pelos últimos bastiões coloniais e quando já havia passada a euforia dos primeiros anos da independência. tal romantismo mitificador do passado. Sekou. acabou por “aportar confusão ao espírito dos verdadeiros militantes socialistas” e servir a certos dirigentes africanos que.”1024 A virada mais radical foi operada por Kwame Nkrumah. esta crítica não sepultou. 23. p. existiam já os embriões da clivagem de classes1026 e a negritude. cit. Kwame. o socialismo pragmático e o socialismo africano. sob as mais diversas formas de organização social. Sekou Touré. teleologicamente determinado. e ao se reivindicar uma forma de socialismo reservado à África. p. 1978. p. 80. afirmava que a “única clivagem que a revolução reconhece para sua sobrevivência e desenvolvimento é o das classes sociais antagonistas. ao negarem tal realidade. Op.. perpetuando a dependência ao capitalismo internacional.7. Seis anos após Consciencism. Nkrumah publicou o seu A Luta de Classes na África. p. inspirando a tese segundo a qual a África “não conhecia divisões sociais e que não se podia por a questão da luta de classes em uma sociedade tradicional africana comunitária e igualitária”1025. argumentava. Ibid. K. apud C. Ibid. 1966. In: Op. 1972. revendo suas posições. TOURÉ. La Declaration d'Arusha. ao adotarem tal projeto revestido duma retórica marxizante.25. 29. mascaravam a ausência de uma verdadeira orientação socialista de seus países.

Penguin. état des travaux). 1978. p. na sociedade africana colonial. BAKARY. para estes. Paris. 1967 1030 NADEL. com graus e refinamentos diversos. Op. uma ou várias elite(s)1028. C.. S. e o de elite do poder. particularmente. as transcrições ipsis literis feitas às páginas 17 e 22 de seu texto com as páginas 72 e 73 do referido texto de Claude Rivière. Bakary. Centre d'Etude d'Afrique Noire.2 INTELECTUAIS CONTRA “CLASSE”. Harmondsworth. Tessy. de C. 1031 Id. Le cas guinéen. 372 . 1993. Bordeaux. 22. Os intelectuais que se opõem ao uso do conceito de classe muitas vezes optam pelo de estratificação social e/ou elite e. Jeffrey D. “La Notion d'élite sociale”. W. 30:2. Belle époque tropical : Sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. Nesta linha. culturais e profissionais. 1029 LLOYD. 1990. Esta categoria social só se torna uma elite ao tomar 1028 Não pretendemos fazer aqui um detido estudo acerca da noção de elite. 419 e RIVIÈRE. define o termo elite como referindo-se a pessoas e grupos que. Claude.U. P. Ibid. Classes et Stratifications Sociales en Afrique. em decorrência do poder que detêm ou da influência que exercem. que é o mais atualizado roteiro acerca da produção bibliográfica sobre o assunto. P. etc. Companhia das Letras. p.U. P. cuja existência estaria baseada no controle sobre o aparelho administrativo. 1956. embora decalque seus argumentos basicamente sobre os de Claude Rivière desenvolvidos em Classes et Stratifications Sociales en Afrique. são criadores ou herdeiros de ideologias que lhes são próprias e têm distintos graus de consciência de sua existência enquanto grupo. aspirações e interesses específicos.1029. Paris. Mills. neste caso.7.. 8. idéias e sentimentos à ação histórica de uma comunidade1031. F. méthodologie. assentando-se sobretudo em F. a diferenciação social africana deve ser vista em termos de estratificação ou de grupos de status: chefes. e nem sempre credite a autoria deste. pp. cotejem-se a propósito. cit. mas de como seus defensores opõem-se à validade do conceito de classe. S. mesclando. contribuem por suas decisões. remeto a D. Estes diversos grupos têm suas próprias características econômicas. Ibid. de Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca.F. pp. 275:80. e a título de exemplo. Veja ainda para a situação brasileira num período semelhante ao aqui estudado: NEEDELL. Le cas guinéen. os conceitos de elite governante. In: Bulletin International des Sciences Sociales. Nadel e numa paráfrase de Claude Rivière1030. p. elites. 1978. Africa in Social Change. sociais. militar e educacional. 73. formada pelas autoridades políticas tradicionais. ou seja. Notas sobre classe em África 7.F. Tessy D. São Paulo. Afirma que. 1032 Id. Haveria. podem ser identificadas quatro “elites”1032: a) elite tradicional.. Les Elites Africaines au Pouvoir (Problématique. Para os interessados na ampla bibliografia acerca da noção de elite e sua possível aplicação à África.

fez emergir uma nova elite e subelites em torno desta. “Repercussões sociais da dominação colonial: novas estruturas sociais”. 1035 Idem. Adiele Eberechukuwa. Adu (coord. ações organizadas de reivindicações. Notas sobre classe em África consciência de sua especificidade. 1991. se caracteriza por uma formação intelectual de tipo ocidental e sob o plano profissional. 373 . Ática/UNESCO. Há quem a caracterize como constituindo uma aristocracia do saber1033. em razão de sua função de intermediária entre os colonizadores e os colonizados. ou seja. 3:5. o subseqüente processo de implantação da estrutura administrativa colonial com seus instrumentos e conseqüências ___ ___ cristianização-educação e urbanização .7. Alguns provinham até da classe servil e de imigrantes ainda não assimilados”1035. Constituíam o núcleo relativamente estável no seio de uma massa assalariada movente. a nível do Estado. História Geral da África . 499:517. In: BOHAEN.A África sob dominação colonial. 509. além dos marcos locais. comerciantes. pp. pp. empreiteiros e empresários de transporte. “Les langues européenes et les mandarins noirs”. das companhias comerciais e empresas coloniais. porém nem todos os membros desta nova elite deviam sua condição à escolarização. p. outros integraram a elite porque dirigiam organizações de 1033 Ver entre outros o artigo de VAN DEN BERGHE. São Paulo. 1034 AFIGBO. Pierre. étnicos ou regionais. pouco numerosa durante o período colonial. A. Particularmente na África Ocidental muitos “penetraram nessa classe porque enriqueceram na agricultura ou nos negócios de grande escala”. seus membros. porta-voz destes e herdeira do poder colonial.). Seria a elite por excelência. vol. quando conseguiam certa instrução. e empreende. Boa parte desta nova elite “provinha da classe considerada plebéia antes da colonização. 68. cuja característica é concentrar a maior parte dos rendimentos superiores e a totalidade das rendas mais importantes. d) elite bem sucedida economicamente. onde era tradicionalmente significativa. fornece os quadros subalternos dos serviços administrativos. VII. Afirma ele que a conquista militar européia em África afetou profundamente o poder da elite política tradicional. que apresenta grande diversidade e compreende grandes plantadores. 1880-1935. In: Présence Africaine. Ainda que formuladas de maneira distinta. Afigbo1034. tais teses já eram defendidas por Adiele E. b) elite instruída. de seus interesses próprios. Ibidem. muito cedo. tendiam a mudar de emprego e a integrar-se na elite instruída. c) elite operária. aí incluídos os detentores de poderes mágico-religiosos e. oct/1968.

Ibidem. que atendiam às necessidades urbanas. verdadeiras “concentrações de operários que viviam de salário”. Os termos classe e elite. entretanto. embora não avance. ser considerados proletários1039. Os “artífices autônomos”. 515. nas cidades. Ibidem. julga que identificar que “nível e que espécie de possibilidades educacionais e econômicas eram oferecidos às pessoas e até que ponto essas pessoas os utilizavam com eficiência”. p. p. nas suas fileiras. passando pelas “oligarquias” crioulas. a serviço das necessidades coloniais. mas não podiam. 374 . 511. 1038 Idem. ocupavam uma posição privilegiada em relação à maioria 1036 1037 Idem. Os “crioulos” ___ entendidos como referindo-se. até a parte inferior deste segmento social. 507. 509. Ibidem. utiliza a noção de “elite crioula” como uma categoria sócio-cultural que englobaria vasta gama de elementos heterogêneos. e os “trabalhadores qualificados e não-qualificados”. Classe é utilizado ainda para designar estamentos. numa clara perspectiva funcionalista. em virtude de sua riqueza e educação. Idem. Notas sobre classe em África massa. da maneira empregada por Afigbo.7. brancos ou “mestiços”. p. geralmente empregados no comércio. também. [com] homens saídos de diferentes classes da sociedade. Ibidem. ao referir-se a Angola. minas e comunicações. Justamente porque essa “nova elite contava. quer aos “africanos destribalizados” ___ constituíam uma elite porque. como julga que assim o querem os analistas marxistas. composta por meia dúzia de famílias que procuravam manter-se o mais branca possível. engrossado por milhares de artífices e operários especializados. que constituíam. Jill Dias. origem e mesmo raças. 1039 Idem. ora o primeiro descreve uma situação que precede a existência social descrita pelo segundo. quer aos descendentes de europeus nascidos na colônia. é difícil falar simplesmente em conflito entre ‘homens novos’ e os dirigentes tradicionais” ou seja. permitiria compreender o “surgimento de uma nova classe em qualquer povo africano da época colonial”1037. Para Afigbo. ora se equivalem. os membros da velha elite1038. compreendendo desde uma “aristocracia” fundiária. como os sindicatos1036. qualquer argumento que sustente tal ponto de vista. de ascendência predominantemente negra. quer economicamente quer racialmente. p. a diversidade de qualificações torna difícil definir esta nova elite. não faziam parte desta elite.

cit. em certa medida. na Europa1045. “Uma questão de identidade: Respostas intelectuais às transformações económicas no seio da elite crioula da Angola portuguesa entre 1870 e 1930”. Op. Jill R. Notas sobre classe em África da população1040. p. 1043 D. Rivière prefere falar em elite como composta pela minoria de pessoas que detêm o poder numa sociedade e usufruem as vantagens daí advindas. 70. a ação do Estado enquanto instituição depende muito do pessoal que o dirige1043. 1044 BALANDIER. In: Revista Internacional de Estudos Africanos. que detém poderosos meios econômicos. Claude. uma sub-elite faria a transição com as massas1042.. p. e aum. a natureza das relações com a economia e o poder material1044. Rivière vai mais adiante e afirma que se pode mesmo dizer que as relações com o poder ocupam. “Problematique des classes sociales en Afrique noire”. 375 . a classe dirigente. significa desconsiderar a pluralidade das elites. Op. mais que em qualquer outra parte. que encarnaria os ideais. enfim. Raymond & BOURRICAUD. 1045 RIVIÈRE. e que. Op. p.73. 1042 RIVIÈRE. PUF. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. prejulgar que haja uma harmonização de valores e comportamentos centrados neste grupo e. 1965. Claude.70. afirmava ser o acesso e a luta em torno do poder o que contribuía para a formação da única classe bem constituída na África. Claude. 1040 DIAS. pp. 1041 RIVIÈRE. 2a ed. 1986. François. Paris. cit. o papel que ocupam as relações de produção. p. Para os limites das teses de Pareto ver: BOURDON. Tessy. p. Classes et Stratifications Sociales Op. I. de grupos sociais distintos e hierarquizados: no cume. 61:94. XXXVIII. goza de grande influência cultural e exerce uma liderança generalizada que lhe dá mais força e eficácia e. 225:6. a posição do indivíduo em relação ao aparelho estatal podia condicionar o estatuto social.7. In: Dictionnaire Critique de la Sociologie. rev. pois. p. cit. a “determinação de elite deriva dos julgamentos subjetivos do observador sobre aquilo que ele mesmo estima serem as melhores qualidades da sociedade da qual ele trata”1041. segundo suas formulações. haveria o risco da extrema “inobjetividade”. 141. Ecoa. interesses e modelos de conduta mais característicos de uma cultura ou povo ___ pois considera que assumí-las. postular uma forte integração. Pela própria diversidade de natureza e de grau de seu poder. a elite se compõe. janeiro/junho 1984. 4. há um quarto de século. George. abaixo deste. em África. Bakary afirma que em África. Rivière afasta-se das teses de Pareto ___ para quem a elite seria uma fração mais representativa da população. “Elite(s)”. nas definições pareteanas. BAKARY. as idéias de George Balandier que. um núcleo dirigente que preenche as funções políticas. além disso. cit.

p... a terra. não existiria nem burguesia nem proletariado1049. Ou seja. etc. p. muito contribuíram as análises de inspiração estalinista. Elites et Changements en Afrique et au Sénégal. 1049 LLOYD. o capital. A clivagem elite-massas não corresponderia à oposição de duas classes. p. BAKARY. “The study of Elite”. cit. Peter C. Sem dúvida que. Se o conceito de classe não se refere só às relações dos agentes com os meios de produção. cit. 1966. o outro. Gilles. BAKARY. Tessy. no interior do grupo de elites1048. faz com que Bakary envolva-se em algumas confusões. BAKARY. Claude. quer como uma realidade concreta quer como instrumento teórico válido para África. pois. Op. Tessy. 17. considera que a ausência de “análise detalhada dos ‘critérios’ de diferenciação de classes e da ‘apreciação objetiva’ da consciência de classe”1047. tanto durante quanto após o período colonial. 1050 D. quando isto parece inverossímil. 34. Paris. Op. cit. afirma: “se sabe que os maiores conflitos pelo poder situam-se. Ibid. A definição de classe não poderia ser aplicada à África pois. um dos meios de produção básicos. 96. atribui ao conceito marxista o que certamente filia-se ao funcionalismo: definir classe como querendo designar “categorias profissionais ou ainda um grupo de indivíduos situados num mesmo nível social pela lei ou pela opinião pública”1046. então podemos considerar as afirmações de Lloyd e de Bakary como sendo. 1048 Id. In: The New Elites of Tropical Africa. não constituiriam uma classe na medida em que são heterogêneas. 18. p. conduz os estudos marxistas a uma dicotomização social. 18. Op.. falta-lhes a unidade de consciência. London. p. opondo burguesia a proletariado ou. camponeses a citadinos. um reducionismo esquemático da análise marxista a um âmbito estritamente econômico e dualista. Assim. D. ao governo ou às companhias estrangeiras. p. Grifos meus. mas indica os efeitos do conjunto da estrutura no campo das relações sociais1051. exploradas ou dominadas. Oxford Univ. Op. esposadas por par- 1046 1047 D. ORSTOM. Press. e vontade de ação comum1050. o espírito de comunidade. Notas sobre classe em África Certa pressa em negar classe. 1983. e parafraseando superficialmente Claude Rivière. 2. 17 e RIVIÈRE. 376 . As “massas populares”. apud BLANCHET. p. cit. estas sim. pertence às massas e. Tessy. Inspirado em idéias positivistas. e se não é a consciência a priori que define classe. para a difusão de tais estereótipos. em todos os países africanos.7. rechaça como marxista o que constitui a essencialidade de sua própria classificação das elites africanas.

Immanuel. o que não foi feito. por exemplo. 1054 Ver: SWAI. Anna Maria et alii. em tese. o acesso à força de trabalho e. etc. visa a um só tempo camuflar. p. 36. quer por ele quer por outros. a tese de Lloyd abstrai a existência da propriedade e/ou posse privada da terra. bois e bens de prestígio. podendo ser considerados. pp. nem sempre as terras mais férteis eram acessíveis a todos os membros. 7. 375 1053 FELICIANO. “a maior riqueza destas sociedades. como por serem produtoras de produtores”1053. por 1051 1052 POULANTZAS. ISCTE-UTL. a acumulação se dê muito mais no sentido de favorecer o clã. 265:6. Mesmo para o período pré-colonial. Bonaventure. no sentido que o termo adquire sob o capitalismo. exigiria uma demonstração cabal. manter e reproduzir as diferenciações sociais existentes1055 e. Generalizar um fenômeno. 1972. desenvolveram-se claras diferenciações sociais. às mulheres. vol. 1980. Também nas sociedades litorâneas da costa oriental. “Class and Class-Conflict in Contemporary Africa”. Lisboa. cit. Para o período colonial e pós-colonial. O recurso à ideologia comunitária. Op. a propriedade das terras pelas massas. como tecidos e missangas. 255. . Franco Angeli. 1055 DEPELCHIN. por sua maior idade ou sua função social ___ chefes. não é suficiente dizer que o principal meio de produção era abundante e que. portanto. lotte e conscienza di classe nello Zaire coloniale”. os territórios de caça e os bens de prestígio. F. principalmente. a linhagem ou o grupo étnico. para se concluir que não havia diferenciações sociais. Maspero. feiticeiros.7. igualitário. Jacques. WALLERSTEIN. mágicos. Op. até a década de setenta. Paris. depois. In: Canadian Journal of African Studies. Milano. Dissertação de Doutoramento. HAFKIN. policopiada. Notas sobre classe em África te dos africanistas ligados ao Partido Comunista Francês1052. Africa come Storia: Elementi del dibattito sulla natura della transizione nelle società e nei sistemi africani. 1973. cit. ainda que em tais sociedades. Nicos. Nancy Jane. da mesma forma que não o eram os bois. cuja atividade central estava assente no comércio marítimo. Antropologia Económica dos Thonga do Sul de Moçambique. p. acabam por acumular mu- lheres. legalmente. Embora. entendida como igualitarismo e mesmo comunismo. In: GENTILI. como o faz Lloyd. Pouvoir Politique et Classes Sociales. não havia propriedade privada. José Fialho. tanto por serem produtoras inseridas na divisão sexual do trabalho. há indivíduos que. calcadas em sólidos mecanismos de extração e concentração de excedentes nas mãos do grupo detentor do poder político e/ou de uma classe mercantil1054. 3. geralmente. 377 . em relação aos demais membros da comunidade. primeiro pelos colonos brancos e. “Formazione delle classi. ___. p. ricos1056. o acesso à terra constituisse um direito comunitário gerido pelos mais velhos e. 1989.

que impediria a emergência de outras classes.. formariam uma classe. estes sim. In: Canadian Journal of African Studies. seria o único elemento possível para o estabelecimento de uma identidade social em África. Assim. Recentes reflexões epistemológicas. porém não único. Tal monismo reducionista e generalizante. caberia também lembrar que. 1987. se é correto afirmar que em alguns países o Estado. Nairobi. reforçada por um etnocentrismo que faz cada grupo querer imporse e considerar seus membros como superiores aos demais. Desta identidade étnica somente escaparia a classe dirigente na medida em que herdou o poder dos europeus que. 381. toda a estratificação social. “Political Stratification in Tropical Africa”. Oxford University Press. Etnia. pela base. tais como as burguesias nacionais e os proletariados. sua identidade se dá nos quadros dos grupos étnicos. Contrariamente ao que afirma Lloyd. na África. acerca de etnia. De qualquer modo.). Ahmed Idha (Ed. Robert H. senão uma casta. não se pode ignorar a existência de uma pequena burguesia investidora. não extingue.). as relações sociais de tipo capitalista. necessariamente. não se pode falar senão em etnia. mina. mostram os limites de tal 1056FELICIANO. como demonstraram alguns estudos de caso1057. Esta tese afirma que a onipresença contínua das divisões étnicas. considera etnia como uma realidade fixa. não dinâmica e a-histórica. segundo esta corrente. de modo a realizar-se a acumulação. impede que venham à tona novos elementos de identidade. Ver por exemplo: SALIM. exerce forte domínio sobre a atividade econômica. seria o baixo grau de industrialização e. pp. p. 1058 JACKSON. vol. Notas sobre classe em África africanos integrados no mercado e.7. 1984 e MARKOVITZ. como bem demonstrou a realidade dos países do leste europeu. Heinemann. embora exista o campesinato. 261:271. 378 . cit. cuja origem remontaria a momentos anteriores à presença colonial e à penetração capitalista e cuja solidez lhe permitiu resistir a estas e. Op. ainda hoje. Studies in Power and Class in Africa. o Estado não paira acima das classes. New York. são sociedades de classe única: a dos governantes1058. bem as instaura sob novos moldes. Há quem argumente que. 7. excetuando-se a classe dirigente do aparelho estatal. O principal fator. 3. nos moldes capitalistas como são os casos mais gritantes da Nigéria e da África do Sul. em outros. 1057 José Fialho. as sociedades africanas contemporâneas. estrangeira ou estatal dos meios de produção. State Formation in Eastern Africa. atual ou colonial. senão que mais. 1973. a propriedade. Irving Leonard (Ed.

). referida em nota do capítulo 1. p.ethnies. “Hutu et Tutsi au Rwanda et au Burundi”. sua cólera ou suas dificuldades numa linguagem tribal. à luz da história e de uma antropologia dinâmica. Jean-Loup & M'BOKOLO. que as sociedades locais devem ser vistas não como monadas voltadas para si mesmas mas. a propósito dos