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A DESCOLONIZAÇÃO: NO TESTEMUNHO DE

FRANTZ FANON À FICÇÃO EM OS


TRANSPARENTES DE ONDJAKI
Zina Grangeiro PINHEIRO
 
 

• Graduanda do Curso de Letras - Língua e Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras –


FLET, da Universidade Federal do Amazonas – UFAM; E-mail: zinashalom@gmail.com.
Bibliotecária graduada pela Universidade Federal do Amazonas- UFAM
• Gestora Biblioteca Pe. Agostinho Caballero que pertence a Faculdade Salesiana Dom Bosco em
Manaus
 Esta comunicação tem o apoio da Universidade Federal do
Amazonas – UFAM, do Grupo de Estudos e Pesquisas em
Literaturas de Língua Portuguesa – GEPELIP, Poesia em
Língua Portuguesa no qual sou cadastrada.
Objetivo proposto:

A Independência de Angola foi em 11


de novembro de 1975, há 43 anos.
Em “Os Transparentes”, pode-se
imaginar uma voz que emerge dos
musseques para o registro literário.
Analisar o testemunho subjacente na ficção “Os
transparentes” de Ondjaki tomando como base o livro
A literatura contribui no sentido de de “Os condenados da terra” de Frantz Fanon que
trazer a conhecimento público as trata da visão do descolonizado.
particularidades de regiões
desconhecidas e silenciadas, suas
tensões sociais e culturas subjacentes.
Pontuar os aspectos na narrativa que
falam da herança colonialista sob a luz
de Frantz Fanon.
Musseques: são assentamentos informais em Angola,
principalmente associados às favelas da capital, Luanda.
 A imobilidade a que está condenado o colonizado não
pode ser impugnada, senão quando o colonizado decide
pôr termo à história da colonização, à história da
pilhagem, para fazer existir a história da nação, a história
da descolonização. (FANON,1968)
Uma independência pautada em “um programa de
desordem absoluta” (FANON,1968, p.26 ).

Portugal dominava sobre extensas áreas do


território africano: Angola, Moçambique,
Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-  Segundo Alfred Sauvy:
Bissau.
 Enquanto EUA e a “ex” URSS (1947-1991),
O acordo de Arvor entre o governo
português e os a principais movimentos de
travavam lutas diplomáticas pelo poder, os países
libertação de Angola, em Janeiro de 1975 Africanos, parte da Ásia, Índia e Oceania estavam
estabelecia propósitos de limitar o poder em situação de colônia, lutando em meio a
entre os três movimentos: movimentos nacionalistas para sair dessa
• MPLA- Movimento Pela Libertação de condição.
Angola
 economista, demógrafo e sociólogo francês. É o autor da
• FNLA-Frente Nacional de Libertação expressão terceiro mundo, que utilizou num artigo para o jornal
de Angola L´Observateur em 1952.
• UNITA-União Nacional para
Independência Total de Angola.
Ecos da descolonização na narrativa de Ondjaki

• A ficção aproxima-se da
realidade com intuito de
produzir no leitor alguns  Sobre o livro e seu enredo:
questionamentos.
 No nível discursivo representam o cotidiana e a
• A ficção também provoca a
mistura de dialetos em Luanda.
aproximação do universo da
obra à estruturas mentais de  Contexto realista.
certos grupos sociais (D  No nível fabular a leitura flui em descrições
´ONOFRIO,1999).
poéticas, diálogos e imagens que despertam a
• E a obra exige imaginação do leitor, como as águas que correm
necessariamente a presença do misteriosamente pelas paredes do primeiro andar
artista criador (CANDIDO, do prédio onde mora boa parte dos personagens.
2006, p.33)
No nível atorial cada personagem traz um drama particular, e suas características são anunciadas no
próprio nome como:
• MariaComForça, VendedorDeConchas, JoãoDevagar, Paizinho,
• DomCristalino- por estar a muitos anos envolvido com questões aquáticas, estava prestes a vencer
a privatização da água, trabalhava a muito tempo no MinstérioDaIndústria, passando por outros
postos do falecido SocisalismoEsquemático. (p.155)
• ManRiscas ou ArturArriscado- radialista que cobriu a guerra civil e passou por diversas situações
arriscadas. (p.80)
• Odonato- o personagem central que entra em um processo de invisibilidade porque decide não
comer, e decreta um jejum social. Odonato que remete a uma libélula transparente que voa, o que
de fato ocorre no final da trama.
• Feixes de luz viajantes de distância e imensidão sideral, atravessavam o corpo daquele homem sem
obedecer aos limites lógicos da sua anatomia. (p.31)
• Enfim, cada personagem está ligado ao seu papel social na obra.

 
 No nível reflexivo a atmosfera vai da melancolia ao bom humor, os conflitos entre o
moderno e as tradições africanas. Entre esses conflitos os problemas sociais da falta de
água, da corrupção nas esferas publicas, as relações de poder, subserviência e ativismo
político.
 Um eclipse representa uma expectativa mística de mudança, uma esperança que viria do
céu.
A literatura como testemunho

 A diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita. Tudo que o homem diz ou escreve,
tudo que fabrica, tudo que toca pode e deve informar sobre ele (BLOCH,2001,p.58).
 Segundo D´Onofrio:
 A crítica sociológica considera a literatura, ao lado de outras atividades artísticas, como
produto e expressão da cultura e da civilização nas diversas fases de seu desenvolvimento.
(1999, p.35)
 Além de, presentes na Literatura Angolana a discursividade coloquial do universo da
sociedade crioula, hábitos, costumes e a estratificação social, é latente a crítica social.
 Dentre as questões sociais, a fome que grassa nessa sociedade é uma consequência do
agravamento da situação social, o número de famílias em situação de pobreza, indigência e
miséria, o distanciamento entre os pobres e os ricos, são situações em comum entre esses
países periféricos.
A literatura como testemunho

 Fome e subjugação na narrativa de Ondjaki, estão descritas em vários momentos na narrativa.


As famílias que moram no prédio tentam sobreviver com poucos víveres que conseguem.
 No jejum social de Odonato, como se fosse “ecos de vozes que emudecem”
(BENJAMIM,1987) encontramos um sentido subjacente, uma fala silenciosa, um reflexo do
agravamento de uma realidade de fome em Luanda.
 Odonato observa as mãos e os alimentos: tudo oferecido ou encontrado nos restos do
supermercado onde algum conhecido trabalhava. (ONDJAKI, 2013,p.22)
 Nessa narrativa onisciente, vê-se um exaurido Carteiro que não faz mas distinção entre fome e
cansaço:
 a fome que traz aos humanos as mais bizarras sensações e as mais improváveis ações, a fome
que inventa capacidades motoras e ilusões psicológicas, a fome que desbrava caminhos ou
promove desgraças[...](ONDJAKI, 2013,p.25).
A literatura como testemunho
 A fome atravessa o período pós-colonialista como uma herança do colonizador.
 No período colonial atribuía-se preguiça e agressividade aos autóctones como
características de enfermidades mentais(FANON, 1968). No entanto, era a fome em
consequência de extrema subjugação, produzindo fraqueza e irritabilidade.
 Fanon descreve com clareza o que testemunhou sobre um povo subjugado e faminto:
 A cidade do colonizado é uma cidade esfomeada, por falta de pão, de carne, de sapatos, de
carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade agachada, de joelhos, a chafurdar.
(FANON,1968)
 [Com]Sonhos de possessão.
 Exposto a tentativas de assassinato quotidianas: fome, expulsão do quarto que não pagou, o
seio maternal vazio, as crianças esqueléticas, as obras paradas, os desempregados que
pululam ao redor do gerente como corvos, o indígena chega a ver o seu semelhante como
um inimigo implacável (FANON,1968, p.253).
A literatura como testemunho

 A descolonização não passa nunca despercebida, dado que afeta o ser, modifica
fundamentalmente o ser, transforma os espectadores esmagados pela falta do essencial em
atores privilegiados, amarrados de maneira quase grandiosa pelo correr da História.
Introduz no ser um ritmo próprio, provocado pelos novos homens, uma nova linguagem,
uma nova humanidade. A descolonização é realmente a criação de homens novos. Mas esta
criação não recebe a sua legitimidade de nenhuma força sobrenatural: a «coisa» colonizada
converte-se, no homem, no próprio processo pelo qual ele se liberta ( FANON,1968,
p.121)
A literatura como testemunho
 Protagonista de sua história, o homem transformado pelo processo de liberdade, ao qual se refere
Fanon, deveria criar homens novos, com novas perspectivas, considerando a busca pela equidade
social uma das mais relevantes nesse processo.
 Esse contexto de equidade social está subjacente na narrativa. No diálogo do jornalista
PauloPausado com a autoridade responsável pelo abastecimento de água na cidade, o assessor
politico SantosPrancha:
 - falta água em Luanda, demasiadas vezes, o abastecimento está completamente irregular [...]
 - ah sério? não tinha sentido nada [...]
 -mas a população já sente há algum tempo, senhor Assessor. é como lhe disse, a oposição
começa a falar [...]
 –a falar?[...]-bem-sorriu o assessor SantosPrancha – eu entendo pouco de água – abanou o copo
de whisky na direção do jornalista (ONDJAKI, 2013, p.93).
 A opressão colonial se transformou em opressão econômica,
 
A literatura como testemunho
 A desfaçatez da autoridade diante dos mínimos sociais reclamados pelo jornalista, não é
somente uma voz a reclamar os direitos negados a uma população empobrecida são como
“ecos de vozes emudecidas”(BENJAMIM, 1987)
 Fanon, traz um conceito extremamente atual para o contexto angolano: “esses chefes de
governo são os verdadeiros traidores da África, porque a vendem ao mais terrível dos seus
inimigos: a ignorância”( 1961, p.121).
 A dinâmica da linguagem literária reflete um contínuo principiar dos fatos, o livro reúne
um arcabouço de informações a serem amplamente estudadas e investigadas.
 Importante não só como uma investigação literária, mas como testemunho histórico de
uma civilização que recentemente saiu da dominação colonial.
Referências
 BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da
cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet; prefácio Jeanne Marie Gagnebin. 3. ed. São Paulo:
Brasiliense, 1987. (Obras escolhidas; v.1).
 BLOCH, Marc. Apologia da história: ou o Oficio de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2001.
 CANDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade .9ed.Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul,2006.
 D´ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto1. São Paulo: ed. Ática, 1999.
 FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Ed.Civilização Brasileira, 1968.
 ONDJAKI. Os Transparentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 408 p. FOUCAULT,
Michel, 1926-1984. Tradução Salma Tannus Muchail. As palavras e as coisas: uma
arqueologia das ciências humanas. 8 ed. São Paulo : Martins Fontes, 1999.(Coleção tópicos).
 SAUVY, Alfred. Terceiro mundo. In: FARIAS, Caroline. InforEscola. Disponível em:
<infoescola.com>.Acesso: 28 de jun 2017.