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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA DISCIPLINA: ARTE, RITOS SOCIAIS E

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA DISCIPLINA: ARTE, RITOS SOCIAIS E PATRIMÔNIO IMATERIAL PROFESSORA: LARA AMORIM

João Pessoa, 19 de agosto de 2014 Cicera Tayane Soares da Silva.

TURNER, Victor W. O processo ritual. Petrópolis: Vozes, 1974.

Cap. I- PLANOS DE CLASSIFICAÇÃO EM UM RITUAL DA VIDA E DA MORTE (Pág. 19).

No primeiro capítulo do livro inicia-se com o diálogo entre Turner e Morgan acerca da religião. De acordo

com Turner (2013), Morgan vislumbrava a religião como imaginativa e emocional, discorrendo ainda, as

religiões primitivas seriam consideradas para Morgan como sendo algo grotesco e inteligível. No entanto,

para Turner, não existe povos mais simples ou mais avançados que outros, o que existe de fato, são

tecnologias mais simples do que a nossa. Para ele, a vida do homem assim como a sua própria religião são

sistemas complexos que merecem ser analisados de modo significativo. Dessa forma, a vida humana é

rodeada por elementos complexos, onde não se trata de falar de uma mentalidade que se opõem a nossa, mas

ressaltar, sobretudo, que existe “uma idêntica estrutura cognoscitiva, articulando experiências culturais

muito diversas” (TURNER, 2013. Pág. 20). O autor não se propõe a adentrar no campo da teologia, em vez

disso, procura-se compreender os simbolismos presentes nas propriedades ritualísticas da população

ndembu. Discorrendo ao longo do capítulo, o autor começa a enfatizar os simbolismos presentes nos ritos

dos povos africanos, no qual pesquisou por um período de tempo. Os povos ndembus têm sua origem na

matrialineagem e combinam a agricultura de enxada com a caça, estes tendo um forte valor ritual. O autor

afirma a complexidade dos ritos de iniciação ocorrentes em tal localidade. Após ser levado pelo “batuque

dos tambores” como o autor afirma, o mesmo foi levado a se desprender dos preconceitos e passar a

considerar o sistema ritual dos ndembu como o campo de significância e com alta complexidade. O autor

continua o capítulo fazendo uma descrição minuciosa sobre seu campo de pesquisa. Passamos então a alguns

achados importantes.

A partir de observações e comentário foi possível extrair uma estrutura (pág. 26)

Ritual relacionado com momentos de crise na aldeia (pág. 26);

Descrição do ritual Isoma- busca-se explorar a semântica dos símbolos (pág. 26);

Importância do ritual para vida da população ndembu (pág. 26);

Insatisfação dos Deuses (pág. 27);

Conexão entre conflito social e ritual (pág. 26);

Finalidade dos ritos- dissipar os efeitos das sombras (pág. 31);

O ritual abrange referências simbólicas e influencia a todos da aldeia ( pág. 34);

Local sagrado onde realiza-se o ritual (pág. 34);

Diferentes planos de classificação (pág. 52);

Polissemia dos símbolos (pág. 53);

Símbolos envolvidos em propriedades rituais são revestido materialmente, forjando-se na experiência vivida (pág. 53);

Os símbolos não são apenas um conjunto de classificação, mas dispositivos canalizadores de emoções poderosas, que são domesticadas (pág. 53);

Cap. II- OS PARADOXOS DA GEMELARIDADE NO RITUAL NDEMBU (Pág. 55)

Neste capítulo, Turner considera outro ritual realizado entre os povos ndembus, dessa vez, sendo um ritual para fortalecer a mulher que espera ou que já teve filhos gêmeos. Seu interesse central baseia-se nos referentes sociais dos símbolos. O rito é realizado em prol do excesso, uma vez que para os ndembus o nascimento de filhos gêmeos é um paradoxo. Turner terce alguns comentários sobre povos que também elaboram ritos envolvendo a problemática da gemelaridade e qual a função desses gêmeos na sociedade em que se encontrava. Segundo o autor, cada ritual é composto de símbolos, tendo estes propriedades de polarização, unificação e condensação. Logo se percebe que um único símbolo ritual pode desenvolver variadas significâncias de acordo com cada ritual. São esses símbolos que organizam e ao mesmo tempo instiga a condução do ritual.

Cap. III- LIMINARIDADE E COMMUNITAS (Pág. 97)

Seguindo o pensamento de Van Gennep, no capítulo três Turner elabora uma discussão sobre os ritos de passagem. Para ele, esses ritos servem para marca as mudanças dos indivíduos na sua estrutura social. Essa passagem envolve a morte e o renascimento, onde o indivíduo após concretizar o seu rito de passagem morre para sua antiga vida e nasci para outra, com novas regras e novos status. Para mudar o status do indivíduo que passou por esse rito de passagem se faz necessário em primeiro lugar o afastamento do mesmo do seu convívio cotidiano, em segundo lugar o mesmo passa por um processo de marginalização, ou seja, o sujeito ritual encontra-se a margem da sua estrutura social, não tendo posição social especifica e sendo de difícil caracterização, em último lugar o indivíduo retorna ao convívio social, agora gozando de novas atribuições. O capitulo segue discorrendo sobre essas três concepções de liminaridade ou seres liminares, communitas e estrutura. Turner faz uso do rito de investidura para demonstrar a importância do ritual para a sociedade, demostrando as inversões de papéis proveniente a partir dos ritos de passagem. Ao descrever o rito de investidura, o mesmo demonstra as fases que o chefe tem que passar até chegar ao ponto mais alto da hierarquia e que quem estar em cima deve experimentar o que significa estar em baixo. Passamos a pensar alguns conceitos essenciais no texto.

Liminaridade (Pág. 98).

A liminaridade, ou fase liminar, é o período intermediário que marca a transição da sociedade estruturada

em regras, para uma sociedade organizada em communitas. Neste momento, o sujeito ritual encontra-se no limiar da estrutura social, ou seja, nem fora, nem dentro. Durante os períodos de liminaridade, que acontecem com os rituais de passagem, as característica da estrutura são invertidas e os atributos ficam temporariamente suspensos. Dessa forma, os sujeitos rituais escapam das redes de classificação.

Communitas (Pág. 99).

A

communitas é o estado onde se encontra o indivíduo em processo de liminaridade ritual. Neste momento,

as

regras sociais baseadas em oposições binárias são anuladas, perdendo toda a razão. Enquanto que na

sociedade estruturada em regras prevalecem os laços individualizantes, na communitas aproveitar-se os laços totalizantes. A communitas surge onde não há estrutura, só se tornando possível em justaposição a aspectos da estrutura social (pág.123). Atributos da Communitas: Surge no período de liminaridade; não estruturado; não há separação dos indivíduos em classe; indivíduos iguais que se submetem as mesmas

regras.

Estrutura

A sociedade como sistema estruturado, pressupõe um sistema hierárquico de posições políticas, jurídicas e

econômicas definidas. Neste modelo, os indivíduos têm obrigações e deveres a serem desempenhados. Neste caso, existe uma separação que não ocorre nos períodos de communitas, ou seja, os homens são separados de acordo com as noções de “mais” ou de “menos”. Com isso, a estrutura serve como um conjunto de classificação, que ordena a vida pública (pág. 123).

Distinção entre communitas e estrutura

Algumas diferenças surgem nestes dois modelos. Em primeiro lugar, a distinção entre sagrado e mundano, modelos estruturados em regras com padrões definidos ou modelos onde há inversões de lugares e posições. No entanto, segundo Turner (2013) esse dois modelos são essenciais para concretização e fortalecimento da sociedade. Há assim, uma necessidade da dialética desses dois modelos, havendo uma alternação da experiência dos indivíduos entre modelo estruturado e a communitas.

Atributos das entidades liminares (Pág. 102).

Na fase liminar os atributos são invertidos, com isso, pessoas comuns com poderes fracos são revestidas por forças ritualmente potentes. Durantes o processo do ritual os atributos das pessoas envolvidas ficam temporariamente suspensos e os mesmos devem exercer postura de submissão e humildade. (pág. 103, 104). Neste momento as relações sociais são simplificadas e os mitos e rituais são complexificados. São atributos da liminaridade: características ambíguas; furta-se ou escapa das redes de classificação expostas socialmente; não se situa nem aqui nem lá; rica variedade de símbolos; comparado à morte; estar no útero; não possui status; comportamento passivo e humilde; ambiente simbólico.

Liminaridade confrontada com o sistema de posições sociais (Pág. 106).

O modo de transitoriedade proveniente da liminaridade está presente em outras religiões e sociedades. No

entanto, o que nas sociedades tribais consistia em rituais de passagem nas sociedades letradas passou a ser

institucionalizadas. A transição tornou-se nesse caso, uma condição permanente da sociedade. (pág. 107).

O perigo místico e os poderes dos fracos (Pág. 108).

Os seres liminares possuem propriedades mágico-religiosas, são esses seres que garantem a manutenção da estrutura social, uma vez que, não se tem como manter a estrutura se não for com esses rituais onde os indivíduos que na sua vida rotineira são potencialmente fracos invertem seus papeis. Esses ritos e essas pessoas são contaminadores e perigosos. (pág. 108, 109).

A liminaridade, a baixa condição social, e a communitas (Pág.121).

a baixa condição social, e a communitas (Pág.121). ESTRUTURA RITOS DE PASSAGEM COMMUNITAS ESTRUTURA A sociedade

ESTRUTURA

condição social, e a communitas (Pág.121). ESTRUTURA RITOS DE PASSAGEM COMMUNITAS ESTRUTURA A sociedade precisa

RITOS DE PASSAGEM

COMMUNITAS

(Pág.121). ESTRUTURA RITOS DE PASSAGEM COMMUNITAS ESTRUTURA A sociedade precisa de leis que organizaram a

ESTRUTURA

A sociedade precisa de leis que organizaram a estrutura social, no entanto, necessita-se que as necessidades

dos seres humanos sejam satisfeitas. Com isso, a imediaticidade da communitas cede espaço para que a estrutura venha a ser estabelecidas. O papel do ritual consiste então, em aliviar as tensões dos indivíduos que são postos na sua vida rotineira (pág. 124, 125). Frente a isso, existe uma relação adequada entre a communitas e a estrutura, onde os indivíduos devem aceitar cada período para viverem em um fluxo de vida

(pág. 134).

Cap. IV- COMMUNITAS: MODELOS E PROCESSO (pág.127)

Neste capítulo o autor irá abordar modalidades de communitas, bem como reforçar o que já vinha sido

trabalhado ao longo do livro. Para ele, a communitas consistiria em uma relação concreta entre indivíduos concretos, não estando segmentados em funções sociais, defrontando-se entre si em uma relação dialógica.

A estrutura social, por sua vez, é composta por relações sociais existentes entre posições, funções e cargos.

Desse modo, os sistemas de posições sociais são estruturados e segmentados. No entanto, a sociedade não está dividida apenas em modelos estruturado, mas na consonância entre estrutura e communitas. Passamos a pensar as modalidades de communitas.

COMMUNITAS

entre estrutura e communitas. Passamos a pensar as modalidades de communitas. COMMUNITAS HOMÔGENIA NÃO ESTRUTURADO

HOMÔGENIA

entre estrutura e communitas. Passamos a pensar as modalidades de communitas. COMMUNITAS HOMÔGENIA NÃO ESTRUTURADO

NÃO ESTRUTURADO

Communitas espontânea- Momento fugaz que passa, perdão dos defeitos de cada um, surgido de forma imprevisível em qualquer tempo, carregado por sentimentos, sobretudo de prazer (Pág. 132)

Communitas normativa- Necessidade de mobilização, influência do tempo, situa-se dentro do domínio da estrutura, caracteriza a fase liminar dos ritos de iniciação (Pág. 128).

Communitas existencial- Organiza-se em um sistema social duradouro (Pág. 128).

Communitas ideológica- Rótulos aplicados de modelos utópicos da realidade, baseado na communitas existencial (pág. 129).

Vida na estrutura baseada em dificuldades, tomada de decisões, sacrifícios dos desejos;

Necessidade das pessoas terem suas ações mecânicas regeneradas (Pág. 134);

Relação adequada entre estrutura e communitas ambas deve existir (Pág. 134);

Os modos de viver em communitas passam por momentos de estruturação (Pág.141);

Communitas de afastamento- renunciar total ou parcialmente (Pág. 146).

Cap. V- HUMILDADE E HIERARQUIA: A LIMINARIDADE DE ELEVAÇÃO E DE REVERSÃO DE STATUS (Pág. 155)

Neste capítulo o autor nos privilegia com discussões sobre a liminaridade de elevação e reversão de status, trazendo para a conversa Van Gennep e suas considerações sobre os ritos de passagem e os aspectos pré- liminar e pós-liminar. Turner terce contribuições acerca da liminaridade como um tempo e um lugar de retiro, onde os modos normais da vida rotineira se tencionam e sede lugar para relações simplificadas. O mesmo faz uma analogia dos ritos das sociedades tribais e os ritos pertinentes às religiões cristas. Faz-se também, uma descrição sobre os rituais que acontecem nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. O autor explora solenemente questões pertinentes aos ritos de crise de vida e os ritos fixados pelo calendário. O primeiro consiste em ritos que envolvem os indivíduos e seus ritos de passagem tais quais: nascimento, puberdade, casamento e morte. Já o segundo estaria ligado à fase grupal, onde são realizados em momentos bem assinalados, geralmente para assinalar a escassez ou abundância. Os ritos de reversão de status são ofertados para reafirmar a ordem da estrutura e restaurar as relações entre os indivíduos que ocupam uma posição dentro da estrutura. O mesmo afirma que todas as sociedades são estruturadas em communitas e estrutura existindo simultaneamente. Utilizando-se de movimentos e figuras religiosas o autor enfatiza a intrínseca relação entre aspectos estruturantes e aspectos advindos da communitas. Concluindo o capítulo o autor elabora a seguinte afirmação:

Um comentário final: a sociedade (societas) parece ser mais um processo do que uma coisa, um processo dialético com sucessivas fases de estrutura e de communitas. Pareceria haver- se é lícito empregar um termo tão controvertido- uma necessidade humana de participar de ambas as modalidades. As pessoas famintas de uma delas em suas atividades funcionais diárias procuraram-na na liminaridade ritual. Os indivíduos estruturalmente inferiores aspiram à superioridade simbólica estrutural no ritual; os estruturalmente superiores aspiram à communitas simbólicas e submetem-se a penitências para conquista-las (TURNER, 2013. Pág.

Ritual

185).

Pré-liminar

Separação
Separação

Liminar

Pré-liminar Separação Liminar Margem Pós-liminar Regeneração  Estrutura social- instituições especializadas,

Margem

Pós-liminar

Regeneração
Regeneração

Estrutura social- instituições especializadas, organização institucional;

Communitas- relações sociais simplificadas;

Liminaridade- tempo e lugar de retiro (Pág. 155);

Comparação da Liminaridade nas tribos e nas igrejas cristãs;

Liminaridade que caracteriza os ritos de elevação de status- sujeito ritual conduzido ao lugar mais baixo para após alcançar o topo da hierarquia (Pág. 156);

Liminaridade de inversão de status- onde os inferiores assumem temporariamente outro status que não são utilizados no cotidiano (Pág. 156);

Rito de crise de vida- nascimento, puberdade, casamento, morte e ingresso em novos status pode se dá através da coletividade, no entanto, torna-se mais comum em um único indivíduo (Pág. 156);

Ritos fixados no calendário- em boa parte dos casos referem-se a grandes grupos, sendo realizada em momentos bem assinalados, passagem da escassez para abundância (Pág. 157);

Símbolos rituais- servem para despertar, canalizar e apaziguar as emoções (Pág. 160);

Utilidade representacional das máscaras (Pág. 160);

Os rituais mascaram os fracos com força e pedem aos fortes que sejam pacientes (Pág. 162);

Ritos de reversão de status- acontecem adequadamente em pontos fixos no ciclo anual, sobretudo, quando uma calamidade ameaça a comunidade inteira, reafirmam a ordem da estrutura, pois restaram as relações sociais entre os indivíduos que ocupam posições na estrutura (Pág. 163);

Estrutura purificada pela Communitas;

A Communitas não pode exercer controle social sem deixa de ser Communitas e tornando-se estrutura (Pág. 182);