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Resumo Carnavais Malandros e Heróis. Roberto DaMatta

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CENTRO UNIVERSITÁRIO UNICURITIBA DIREITO NOTURNO TURMA 1º F

ALINE MANNES JULIANA JOAQUIM THOMASI LARISSA MATIOSKI BRASIL

Carnavais, malandros e heróis, Para Uma Sociologia Do Dilema Brasileiro DaMatta, Roberto.

Trabalho apresentado para a disciplina de direito e sociedade, com orientação do professor Guilherme Bauer.

CURITIBA, 2010

O livro começa apresentando uma classificação dos eventos sociais de acordo com a sua ocorrência. São divididos em eventos cotidianos, e aquele fora do dia-a-dia (festas, bailes, reuniões etc.). Esses eventos do dia-a-dia acabam por reunir pessoas de grupos que ocupam o mesmo âmbito social. Já os eventos fora do dia a dia são feitos para a sociedade e pela sociedade estando enquadrados nas normas e regras sociais, sendo os denominados rituais. DaMatta ainda faz uma subdivisão dos eventos entre formais e informais. Um exemplo utilizado para fazer analise desses tópicos são o carnaval (considerado como informal) e o dia da pátria (considerado formal). Quanto às vestimentas eles se diferenciam pelo significado do papel expresso por cada uma das duas. No caso do Carnaval, as fantasia representam, para Damatta, como a vontade interior do individuo e não carrega consigo o peso da sua função real. Já no caso do dia da pátria, as fardas representam uma hierarquia e o não uso delas não exclui a responsabilidade de sua função. Quanto aos rituais, não são momentos aparte do cotidiano, e sim, modos de salientar aspectos do mundo diário. Há três tipos de realizar essa salientaçao: reforço (paradas militares), inversão (carnaval) e neutralização (igreja). Como diz o autor: “os rituais seriam, assim, instrumentos que permitem maior clareza as mensagens sociais.” O capitulo II apresenta uma forma utilizada para transformar um simples objeto em um símbolo, isso se dá através do deslocamento, ou seja, quando deslocamos um objeto de seu lugar originário, este torna-se então um símbolo. Por exemplo: uma espada quando usada na guerra é apenas uma espada, mas quando pendurada em uma parede torna-se um símbolo que caracteriza o dono do ambiente. Há então, duas formas de deslocamento: a peregrinação e a procissão. A primeira nos remete a idéia de busca por um fim, como uma cura, benção, salvação, etc. Faz também uma generalização do homem, considerando-os como todos filhos de Deus. Já a procissão, os fiéis não vão até o santo, e sim, o santo ao passar pelas ruas, vai até os fieis. Diluem-se assim as barreiras entre casa-rua (espaço de descanso, intimo, aonde de encontra paz- espaço de trabalho, publico,luta diária). Faz-se então uma analise profunda sobre o carnaval, e todas as suas formas de apresentação: o carnaval de rua, os blocos, os clubes e as escolas de samba. O carnaval de rua é caracterizado por ser de bairro, familiar e aberto ao publico. Os chamados blocos são sólidos e estruturados, não tem a necessidade de causar impacto e reforçam a vizinhança. Já as escolas de samba, apresentam uma forte hierarquia, suas apresentações são sempre luxuosas e exaltam a imagem do nobre. No entanto, os clubes são sempre lugares privados, algumas vezes com venda de ingressos, tornando-o publico, mas só para aqueles que puderem pagar. O autor faz uso do método comparativo para analisar o carnaval americano, mais especificamente o de Nova Orleans, com o carnaval brasileiro. O questionamento básico, feito com relação à esse estudo, seria se encontramos o mesmo fenômeno nesses dois tipo de carnavais, em sociedades completamente diferentes. O carnival americano é mais do que uma situação, e sim um lugar, onde sexo deixa de ser considerado pecado e a hierarquização do mundo e das pessoas faz parte da ideologia popular. A primeira distinção entre esses dois modelos a ser destacada seria o fato de o carnival ser localizado, enquanto o carnaval é generalizado. Enquanto no Brasil este período é caracterizado por liberdade e anonimato, em Nova Orleans é realizado como sendo exclusivo de uma única classe e sendo dividido em várias Krewes que servem de modelo para a ordem carnavalesca. É importante ressaltar que o carnival é diferenciado para brancos, negros de classe média e alta e por fim negros pobres. Já no Rio de Janeiro o carnaval se divide em duas categorias: os de rua, formadas por blocos, e o de clubes, que são organizações de classe média à alta. No momento do desfile, a escola de samba é assemelhada a Krewes de Nova Orleans, porém, nestas os ricos sempre permanecem juntos, enquanto naquelas há uma união de negros favelados, marginais ou suburbanos indicando uma alta capacidade de organização. Nelas os pretos e pobres são os “doutores” e os “professores” da ginga, da dança, da criatividade. São eles que manifestam essa superioridade da raça, e são considerados privilegiados por isso, como cita o próprio autor. O carnaval brasileiro pode ser considerado como inclusivo, aberto e “democrático” (grifos do autor), ao contrário do carnaval americano que é exclusivo, aristocratizante e discriminativo. O grande questionamento proposto pelo autor, e que acreditamos que melhor define o motivo pelo qual esses objetos estão sendo estudado, seria:

“como é possível ter um carnaval aristocrático numa sociedade igualitária e ter- no caso brasileiro- precisamente o inverso, ou seja: um carnaval igualitário, numa sociedade hierarquizada e autoritária?” Para fazer a comparação entre esses dois modelos, de modo que a pesquisa se tornasse válida, foi preciso associá-los aos seus devidos contextos, problemas e valores. No caso americano observa-se uma tentativa clara de recolocar um princípio de diferenciação em um meio social onde o “credo oficial o exclui legal e juridicamente”. Já no Rio, há uma inversão carnavalesca onde ficam suspensos temporariamente classificações exatas de pessoas, coisas, categorias, grupos, etc. O autor propõe então uma comparação entre os símbolos de ambos, no caso americano o Rex, símbolo da aristocracia, estando deslocado em tempo e espaço, o que o faz tornar-se símbolo. No Brasil, o símbolo do carnaval é o malandro, o qual afronta a idéia de que em nosso mundo burguês individualista somos sempre ordenados por eixos únicos, fazendo-nos acreditar em outras dimensões e eixos. Assim, encontra-se no mundo social brasileiro as chamadas equações compensatórias, por exemplo, ricos mas infeliz, burro mas belo, inteligente mas chato, etc. A inversão que ocorre no carnaval brasileiro é então, considerada oposta ao do americano, pois os marginais e inferiores (chamados de indivíduos), se transformando em pessoas e vice-versa. Entra então a necessidade de se explicar o motivo da diferenciação dos dois termos feita pelo autor, onde a concepção de “indivíduo” esta associada à idéia de alguém sem ninguém e sem posição social, no entanto, “pessoa” é um titular de direitos, um alguém no contexto social. Através de seu estudos, DaMatta analisa o rito do “sabe com quem está falando”, o qual implica sempre em uma separação radical e autoritária de duas posições sociais real ou teoricamente diferentes. Ele é a negação do “jeitinho”, da “cordialidade” e da “malandragem”. Temos, então, dois traços caracterizando a expressão: o aspecto escondido e a vertente indesejável da cultura brasileira. Se o escondemos é porque o rito revela conflito, e somos avessos às crises. Já no caso da vertente indesejável é porque estamos inseridos em um sistema social extremamente preocupado com o “cada qual em seu lugar”, isto é, com hierarquia e com autoridade. Assim, temos um sistema social com aspectos conhecidos, mas não reconhecidos pelos seus membros. Observa-se que tudo o que diz respeito ao inclusivo é por nós manifestadamente adotado. O contrário é valido para o exclusivo, freqüentemente escondido ou falado em voz baixa. Estas pesquisas realizadas no mostram o quanto nós hierarquizamos as coisas infinitamente, ou seja, patrões são classificados como bons ou maus, felizes ou infelizes, ricos ou pobres, etc. Isso seria então a base para as tais equações compensatórias e complementares, pois elas nos servem para diferenciar os iguais. Enquanto o “sabe com quem está falando” é utilizado aqui no Brasil para situar alguém em uma posição superior, sendo um rito autoritário de separação de posições sociais, o “Who do you think you are?” é, inversamente, um rito igualitário. Em todos os exemplos dados pelo autor no capitulo IV, nota-se claramente que o “sabe com quem está falando” implica em passagem de um papel universalizante para outro muito mais preciso, capaz de localizar o interlocutor dentro do sistema que se toma como dominante. Em alguns casos específicos relatados pelo autor, o “sabe com quem está falando” serve como um ritual de reforço, forma de trazer a consciência dos atores aquelas diferençar necessárias às rotinas sociais em situações de intolerável igualdade. Pode-se dizer, então, que o “sabe com quem está falando” opera como um mecanismo de devolução das pessoas aos seus devidos lugares. Ele permite também estabelecer a pessoa onde antes só havia um indivíduo. DaMatta faz então um distinção entre aquilo que chama de individuo e pessoa. Faz ainda uma ressalva de que a mascara social não é algo que possa ser retirado, como uma farda ou vestimenta, mas uma cicatriz, um corte, um furo, sinais de prerrogativas sociais que geralmente são marcadas por uma ideologia complementar e fundadas na reciprocidade. No capitulo V o autor se refere aos carnavais como rituais coletivos de inversão da ordem social, e modo de ação e reação coletiva. Para ele a sociedade é diferente porque em cada formação social certo numero de dramas é levado a efeito, se temos dramatizações regulares, também temos personagens recorrentes. É destes personagens que estes dois capítulos irão falar na tentativa de mostrar como eles são coerentes as nossas formas cerimoniais mais básicas.

DaMatta se refere aos problemas da dicotomia que seria um conflito tanto em questão ao indivíduo/sociedade assim como indivíduo/mundo. A respeito da questão indivíduo/sociedade descobrimos que essa oposição do individuo ao coletivo só é possível de ser enfrentada em seus termos políticos e sociais onde o individuo ganha um peso especial, passando ser fiel da balança pela qual se mede o coletivo. Quando falamos de certos padrões de comportamento social, de certos mecanismos específicos usados e até abusado por uma dada sociedade, estamos falando de atores que vivem tais padrões ou estão submetidos a certas linhas de forças vigentes nesta sociedade. O autor fala que no Brasil assim como em outras sociedades, o personagem nunca deve ser um homem comum, com uma rotina chata e desinteressante. Mas pelo estudo dos “carnavais” o herói deve ser sempre um pouco trágico para ser interessante, com uma trajetória cheia de tragédias e desmascaramentos. A promessa que temos nos nossos dramas raramente e feita por adquirir felicidade, sempre ficamos fascinados com os contos de enriquecimento e elevação social do herói. A base do drama e fazer o herói terminar com o dobro de bens adquiridos no começo. O autor fala que nós nos identificamos com esse fato do “herói se dar bem”. Já quando se fala em indivíduo/mundo seria a oposição entre casa e rua, onde o mundo da rua é cruel e exige luta, temos assim, o herói em plena existência num universo cruel e hostil, usando somente as suas forças para chegar a um porto seguro. O autor dá a entender que vivemos num eterno futuro porque estamos sujeitos ao passado. Só podemos ser o que queremos porque somos fiéis àquilo que fomos. O Brasil, um país do futuro e da esperança porque, assim como acontece com seus heróis, é uma sociedade ligada ao passado. O autor se refere aos heróis do carnaval como marginais de todos os tipos, pode ser porque estão situados nos limites do tempo histórico, como gregos, romanos, aristocratas... Ou então situados nos pontos extremos das nossas fronteiras, como havaianas, baianas, chineses. Sendo assim, se fosse para reunir todos esses tipos em uma categoria eles seriam definidos malandros. Malandro é um ser deslocado das regras formais, excluído do mercado de trabalho e individualizado pelo modo de falar, andar, e vestir-se. Sendo assim criar um “carnaval” seria desempenhar um papel de malandro. Pedro Malasartes é o modelo do chamado malandro, freqüentemente vestido com sua camisa listrada, anel com efígie de São Jorge e sapatos de duas cores. O personagem oposto ao malandro seria o ator das paradas militares e dos rituais da ordem: o Caxias. O nome veio do patrono Duque de Caxias. Para DaMatta quem fica entre o malandro e o caxias, ou seja, entre a ordem e desordem seria o renunciador, aquele que rejeita o mundo social como ele se apresenta. O problema do renunciador não seria nem mandar, nem sobreviver, e sim criar outra realidade. Sendo assim, seus instrumentos com o mundo são as rezas, em vez de discursar ou cantar e dançar, o renunciador reza e caminha. Enquanto o malandro promete uma vida de “sombra e água fresca” em que a realidade interior vale mais que o mundo. O renunciador procura juntar o interno com o externo e criar um universo alternativo e novo. Malandros e Caxias prometem carnavais e paradas, o renunciador um mundo novo, um universo social alternativo. Assim o papel social de renunciador também está à disposição de todos nós, o renunciador tem de se haver com suas vaidades seu orgulho, deve abandonar o mundo social com suas riquezas e explorações. Fica bem clara a associação dos três rituais com três personagens dominantes; o malandro, o caxias e o renunciador. Pode-se dizer que o Caxias esta dentro da ordem e se preocupa com regras sociais. Sendo assim, o caxias não é um tipo social simples, mas sim um seguidor de regras de conduta, leis, de lealdade absoluta, honesto e com o desejo de ver o país melhorar. Já o malandro utiliza de um espaço social onde encontramos desde o simples gesto sagaz que pode ser realizado por qualquer um, ate um golpe profissional. O campo do malandro vai, numa gradação, da malandragem socialmente aprovada e vista entre nós como esperteza, ao ponto mais pesado do geste desonesto. E quando o malandro passa a viver de um jeito desonesto vivendo golpes e até virando um marginal ou um bandido. Da mesma maneira que o Caxias corre o risco de virar um palhaço, o malandro corre o risco de virar o marginal. Cabe

observarmos também que nossos três heróis, o Caxias, o malandro, e o renunciador, existem tanto na chamada “consciência popular” quanto no que se chama “alta cultura”. O malandro por sua vez, povoa tanto a cultura popular quanto as paginas de nossa ficção. O autor se aponta que os fenômenos estudados na obra são desconhecidos da nossa sociologia oficial. Sendo importante observar as aventuras de Pedro Malasartes como uma narrativa que se espalhou Brasil afora. Os contos de Pedro Malasartes são situações no qual Pedro engana pessoas de posições sociais com poder. Deparamo-nos então com um “herói sem caráter”,que tem por intuito converter as desvantagens em vantagens. Na linguagem moderna do Brasil Pedro, acima de ser um herói sem caráter, é um perseguidor dos poderes, pra vingar a falta de um relacionamento social mais justo entre o rico. Comparando a narrativa de Malasartes com a outras, observa-se que nela tudo se passa de maneira inversa. O herói também um pobre, mas sua vida e marcada por uma recusa de posições de poder, mesmo depois de ter derrotado o patrão. O mito de Malasartes também pode ser visto como o mito do trabalhador brasileiro, que sempre busca aquilo que não possui: a busca por um bom trabalho, com um bom patrão que os ancore na estrutura social. E para tanto tem de realizar uma caminhada em direção ao mundo e à “dura realidade da vida”, deixando para trás suas famílias e lares. Em outras palavras, quem é pobre precisa “ganhar a vida”, expressão usada no conto e na vida diária, que mostra a necessidade de viver: o trabalho e o patrão. Onde pobreza= atividade, trabalho, mudança. Sendo que quem está rico não precisa de movimentação alguma, logo o estado de riqueza=inatividade. . Ganhar a vida, portanto, significa “ter que se mexer”. A narrativa mostra um grupo social representando o mundo dos pobres e apenas um homem, o fazendeiro, como representante do mundo dos ricos. Segundo Damatta, na narrativa, observa-se uma “Mediação pela honestidade”, aonde a pobreza conduz a busca de trabalho. O conto apresenta também um ponto crucial, onde o fazendeiro, que está economicamente certo, por sua vez, está moralmente errado. Aqui, sem duvida, a narrativa chama a atenção para as leis econômicas, em contraste com as relações pessoas, estabelecendo uma ligação entre o contrato de trabalho e a impessoalidade desse contrato e as relações que gera o caráter mau do fazendeiro. A desonestidade do fazendeiro está ligada ao seu modo se ser negativamente um mau patrão. O capitulo V termina com uma pergunta: Pedro Malasartes acaba moralmente e economicamente com o fazendeiro, mas porque não fica no seu lugar? Pedro não ocupa o seu lugar porque não pode fazer com ele o que ele fazia com seus empregados, ou seja, para não reproduzir o sistema, já que sua intenção era somente a vingança. Há ainda uma diferenciação entre Pedro e um bandido, porque enquanto o bandido destrói o patrão fisicamente, Pedro é diferente, destrói moralmente, e ainda, pelo mesmo método que o patrão usa para explorar seus empregados. Ele opta por uma estrada ambígua, do nem lá nem cá. E inventa o que parece ser uma característica básica do mundo social brasileiro. O VI e último capítulo começa com uma indagação: o que seria de um carnaval sem malandros e malandragem, e de uma procissão sem penitentes, rezas santos e renunciadores? Damatta apresentou os atores ou heróis do mundo social brasileiro, visto por suas dramatizações. Foi visto que o carnaval, as paradas e às procissões correspondia a três personagens sociais paradigmáticos, onde cada um pertencia ao universo social brasileiro. Os personagens seguiam um drama social rico, marcado por zonas onde a nação é possível, com

poucos entreatos, quando o espectador descansa e de novo se da conta que esta de volta ao mundo da realidade. A diferença entre este capítulo e o anterior é que no anterior foi analisado o malandro, agora será analisado o renunciador. Outra diferença básica também é que agora estamos tratando de uma obra literária, já no primeiro caso o nosso herói era visto através de um texto sem assinatura ou autor. Trata-se a mostrar uma analise da novela de João Guimarães Rosa A hora e a vez de Augusto Matraga. Onde se observa um momento da vida social brasileira, no mesmo plano de uma etnografia. O discurso etnográfico se diferencia por certas particularidades: uma etnografia sempre assume uma posição de estranhamento diante de seu objetivo, etnografia pode ser considerada parte do discurso cientifico e objetivo justamente porque nela o autor deve existir como criador da realidade, mas como tradutor. Sendo assim, o etnógrafo não inventa, situandose como aquele que permite a transformação do exótico em familiar ou do familiar em distante. Damatta também se refere ao êxtase, como forma possível de exprimir a cultura e a sociedade. Deste modo, a literatura se afasta do mito na medida em que o gênero literário representa uma visão removida do cotidiano. Rituais e mitos, portanto, correspondem a visões removidas do mundo cotidiano. O mito por sua vez, não e o discurso de uma classe especifica, mas a visão de toda a coletividade, sendo assim, o problema de uma sociedade complexa como a nossa. Neste capítulo é feita a analise de duas obras de Poe, O gato preto e O diabo no campanário. No caso do primeiro conto o autor fala de um animal que foi morto sem motivo, e que determina a descoberta de um crime de um assassinato, o gato, portanto, não só revela o crime com também decide o destino do dono. Para o autor o gato serve como elemento articulador entre o homem e o destino de sua mulher, que fora assassinada. Porém o gato só pode denunciar, falar quando vira um gato mágico, e quem se refere a gato mágico está se referindo de uma historia fantástica, poética. Já no segundo caso, O diabo no campanário, a sociedade que Poe descreve, é totalmente oclusa e sem historicidade. Uma aldeia com sessenta casas e com um grande relógio tenta ser uma comunidade sem tempo. Sua desgraça é encontrar um demônio, que vem de outro mundo, onde a sociedade se desfaz, ficando de fato arruinada com ao desmembramento do seu sistema social. Poe faz uma analise humorística das sociedades tribais do Brasil. Damatta tentou mostrar com esse trabalho, que o espírito humano trabalha sem suspeitar, as mesmas formas como problemas universais. As soluções coletivas e individuais, limitadas a um grande problema são de certa forma parecidas. No caso de Augusto Matraga, o nome Matraga, não quer dizer nada, pois é o outro lado de Nhô Augusto, os três nomes se referem a um só personagem, são os passos da travessia de um homem ao encontro de seu destino, buscado e construído na dor, mas também na alegria, no encontro com o sagrado e no desfrute do mundano, sua hora e sua vez. Nhô Augusto era dono de gado e de gente. Mas, numa virada da vida, perdeu tudo, incluindo a mulher que fugiu com outro, levando-lhe a filha junto. A partir desse ponto a narrativa poderia decorrer da cobrança de uma dívida de honra, como aconselhou o empregado Quim- eu podia ter resistido, mas era negócio de honra, com sangue só para o dono. No entanto, Nhô Augusto renuncia à vingança, mas não à honra, e se regozija ao fim, radiante, ao se deparar com a hora e vez de ser Matraga, o homem que escolheu ser. Homem capaz de agir com coragem, justiça, fraternidade e compaixão.

O autor fala que os três nomes tem significado: Augusto; divino- um nome imperial com nascimento em Roma, fonte de poder e domínio. Nhô Augusto- um classificador social e de poder, O terceiro nome, Matraga, corresponde a última etapa na trajetória do herói. A mudança de nome, corresponde a mudança na hierarquia social, por exemplo, a criada obscura se transforma em Cinderela , Silva ferreira, em Lampião, Edson Arantes do Nascimento, em Pelé, e Nhô Augusto, em Matraga. Portanto o nome pode ser sinônimo da posição na hierarquia, ou de degradação, desmerecimento, desta forma o nome pode ficar preso a certas posições, de tal forma, que pronunciar o nome sem o necessário respeito pode ofender uma pessoa. Já foi falado anteriormente que Matraga é um instrumento de renúncia, no caso dos renunciadores existe uma progressiva individualização, rompendo-se irremediavelmente os laços que ligam o personagem à sua formação social original, renunciadores abrem novos espaços sociais, heróis reforçam os papeis sociais já existentes. Como vimos, a narrativa de Rosa, fala de personagens do universo brasileiro, introduzindo um elemento importantíssimo no mundo social brasileiro que às vezes, passa por despercebido nos estudos que visam entender o universo. No caso dos renunciadores, ele estão separados por elos com o mundo social original, de maneira que a renuncia gera a negação da vingança. Ao desistir d vingança, Matraga apresenta uma saída pessoal para o problema da luta social no mundo brasileiro, e gera uma possibilidade dada pelo sistema de rejeitar tudo. Temos então dois modelos de interação social. Onde num deles pode-se usar a vingança e as hierarquias. Temos também dois modelos de vingança, a realizada por meio da astúcia, com a humilhação servindo de arma principal, como é o caso de Malasartes, e outro modo utilizando a violência física, como no caso o banditismo social. Temos assim, mais malandros –que se vingam por meio e musica ou relação jocosa- do que bandidos. Outra maneira em que a rejeição pode ser vista é o caminho da renúncia, que no caso de Matraga é uma forma poderosa de agir contra a ordem estabelecida, porque a renúncia e uma total rejeição, já que o fato não é mais tentar vencer o fazendeiro que é malvado e forte, mas sim criar condições para a implementação de algo muito mais complexo, sendo que o renunciador decide não mais voltar à ordem social, e sim se liberta do seu passado e abre as portas para o futuro, criando e inventando novos espaços sociais. Enfim podemos dizer que tanto malandros quanto bandidos e renunciadores trazem a luz do dia as possibilidade de realizar um caminho criativo, mas contrario, dentro da estrutura social

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