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Mestrado em Supervisão Pedagógica RELAÇÕES INTERPESSOAIS : A GENTES , I NTENCIONALIDADES E C ONTEXTOS

Mestrado em Supervisão Pedagógica

RELAÇÕES INTERPESSOAIS:

AGENTES, INTENCIONALIDADES E CONTEXTOS EDUCATIVOS

Projecto de Intervenção

Para a Promoção

De uma Cultura de Convivência

Num Contexto Específico

Docente: Prof. Luísa Aires

Mestranda: Andreia Moreira

Julho 2011

Índice

Introdução:

3

Identificação do Problema

3

Justificação e Enquadramento do Projecto

4

Projecto Plano de Convivência

5

Constituição do Projecto:

5

Objectivos do Plano:

5

Intervenientes:

6

Acções a Desenvolver (Dinâmicas):

6

Directora de Turma aulas de Formação Cívica

6

Directora de Turma

7

Professor tutor:

7

Alunos:

7

Serviços de Psicologia e Orientação:

7

Avaliação do Projecto:

8

Cronograma:

8

Considerações Finais

9

Referências Bibliográficas

10

Introdução:

Este trabalho é uma proposta de um projecto de intervenção para a promoção de uma cultura de convivência e reporta-se a caso real em contexto escolar.

Palavras-chave: violência, família, convivência, conduta anti - social

Identificação do Problema

A Maria de 14 anos foi para o 7º ano de escolaridade e foi integrada numa turma de 25 alunos, 13 do sexo masculino e 12 do sexo feminino, muito unida, apresentando elevado companheirismo e excelente relacionamento. A inclusão da Maria nesta turma deveu-se ao facto de esta ter um perfil adequado à integração e aceitação desta aluna, que trazia consigo um historial afectivo complicado, apresentando também muitas dificuldades no plano escolar.

A Maria tinha sido vítima de violência doméstica, era a mais velha de seis filhos de uma família desestruturada, que desde muito cedo foi institucionalizada com os cinco irmãos mais novos, por decisão judicial. Devido ao facto de terem sido sujeitos a desumanidades físicas e psicológicas graves foram retirados do seu meio familiar. Os miúdos foram maltratados desde muito novos pelo pai que era alcoólico e havia a suspeita nunca confirmada que tinha a Maria tinha sido violada pelo pai. A mãe doente, também vítima da mesma violência e constantemente agredida pelo marido foi incapaz de tomar qualquer atitude para proteger as crianças, e foi neste contexto que a Maria desenvolveu a sua personalidade.

Aos 10 anos foi adoptada juntamente com o seu irmão mais velho por um casal sem filhos, que lhes dava toda a atenção e carinho, mas a Maria recorria frequentemente à mentira e ao furto, e havia historial de tentativa de fuga de casa dos pais adoptivos. Este cenário engloba um conjunto de atitudes características de uma conduta anti social, que apesar dos esforços os “novos” pais ainda não tinham encontrado a melhor forma de ajudar a Maria a colmatar os danos psicológicos, atitudes de revolta e adversidade que esta menina manifestava. Saliente-se que os outros 4 irmãos permaneciam na instituição, situação que a deixava muito desconsolada.

Como era de esperar logo no início do ano lectivo foram detectadas dificuldades no plano relacional que se manifestavam em atitudes de isolamento, medo, vergonha,

desconfiança, apatia e tristeza. A aluna não se integrava na turma, não comunicava, recusava-se a trabalhar em grupo, a realizar actividades no âmbito da disciplina de Educação Física e participar em tudo o que envolvesse comunicação e cooperação, tais como festas da escola, da turma, viagens de estudo, desporto escolar, entre outras.

Ao nível dos conhecimentos e das competências adquiridas, esta aluna revelava lacunas graves, muitas dificuldades de concentração e pouco interesse e empenho pelas actividades lectivas.

Estávamos perante um problema entre a aluna e a turma motivado pela falta de convivência, que afectava particularmente a aluna e o seu desempenho escolar, mas interferia também com os restantes elementos da turma, conduzindo à criação de um conflito.

Justificação e Enquadramento do Projecto

As escolas são espaços privilegiados para o desenvolvimento de competências em termos de educação e formação de jovens, propiciando relações de empatia e de convivência.

É na escola que se relacionam alunos, professores, funcionários, pelo que é também este, um espaço que favorece o desenvolvimento de conflitos e adversidades. A convivência entre pessoas com conjunturas sociais, temperamentos e culturas diferentes, torna-se condição essencial para um clima de aprendizagem saudável. Mas por vezes, por diferentes razões, surgem conflitos que afectam as relações sociais, profissionais e interpessoais, pondo em causa a motivação e o desempenho académico, comprometendo o sucesso escolar.

De acordo com Costa e Matos (2006), a base para a melhoria das relações interpessoais é a compreensão de que, cada pessoa tem uma personalidade própria que precisa ser respeitada, que esta acarreta necessidades sociais, materiais e psicológicas que precisam de ser satisfeitas e que o seu comportamento é influenciado por este conjunto de factores.

Assim, podemos encarar as relações interpessoais como sendo uma disposição interior, uma aceitação do outro que se manifesta na forma de comunicar, na atitude e, principalmente, na forma de agir adequadamente.

Num projecto de convivência escolar é indispensável representar a realidade de

forma a se compreender a situação para a posteriori se criarem medidas que incentivem

e promovam o desenvolvimento de capacidades comunicativas (incentivar o diálogo) e de competências ao nível da resolução de conflitos.

Projecto Plano de Convivência

Constituição do Projecto:

Depois de identificado o problema, a Directora de Turma com a colaboração dos serviços de psicologia e Orientação (SPO), desenvolveu algumas acções de intervenção primária, utilizando as aulas de Formação Cívica.

No entanto, com o objectivo de abordar o conflito perspectivando uma solução

efectiva, proponho um projecto de intervenção Plano de Convivência, onde são delineadas estratégias a um nível mais profundo, perspectivando-se a resolução de conflitos, resultantes de violência física e psíquica em seio familiar. Estas estratégias podem ser um caminho profícuo para fomentar o diálogo e a participação objectivando

a promoção das relações interpessoais, em contexto educativo.

Objectivos do Plano:

Reconhecer a importância, compreender, valorizar e utilizar as regras de convivência;

Reconhecer solidariedade, respeito, colaboração e convivência, como valores universais;

Interagir com os outros em diferentes grupos, em diferentes situações, expondo suas ideias e respeitando as ideias dos outros;

Ser capaz de procurar soluções para os problemas, individualmente e em grupo;

Saber ouvir os outros em diferentes situações;

Actuar com mais autonomia nas actividades e nas interacções com o grupo turma, desenvolvendo as capacidades de tomar iniciativa e estabelecer relações afectivas e de respeito;

Colaborar na planificação e realização das actividades de grupo, respeitando pontos de vista contrários, associando seus interesses com os dos outros, assumindo o seu lugar e suas responsabilidades no grupo;

Estabelecer relações construtivas com os colegas, comportando-se de maneira solidária, valorizando as diferenças;

Compreender a importância do diálogo entre os elementos da família.

Intervenientes:

Neste projecto serão envolvidos os seguintes elementos:

Directora de Turma

Professores do Conselho de Turma

Serviços de Psicologia e Orientação (Psicóloga e Assistente Social)

Professor Tutor

Auxiliares de Acção Educativa

Alunos

Pais adoptivos

Acções a Desenvolver (Dinâmicas):

Directora de Turma aulas de Formação Cívica

Elaborar em grupo um quadro contendo as principais regras de “Boa convivência”.

Debater questões e valorizar as intervenções alusivas:

Aos diferentes tipos de violência presentes no quotidiano da escola e da

sociedade;

Aos diversos sentimentos vivenciados pelas pessoas que promovem e

sofrem actos de violência, tais como: vergonha, humilhação, medo, insegurança,

poder, etc.

Realização de um estudo sobre violência à comunidade educativa, no sentido de aferir ao conhecimento dos inquiridos sobre o tema:

Elaboração em grupo das questões a inserir no questionário;

Tratamento das respostas e apresentação dos resultados;

Apresentação das conclusões à comunidade, elaborando um artigo para inserir no jornal da escola.

Directora de Turma

Auxiliar os encarregados de educação propondo formas de actuação concertadas com as acções desenvolvidas na escola.

Coordenar e avaliar as acções que cada elemento do Conselho de Turma desenvolve junto da aluna e turma.

Incentivar e realizar a auto avaliação de todas as actividades realizadas pelos alunos, quer nas aulas de formação cívica, quer das acções desenvolvidas com o professor tutor.

Professor tutor:

Desenvolver actividades que permitam:

Trabalhar a sua integração em contexto escolar;

O seu relacionamento com os pares e;

Promover do aumento da sua autoestima.

Com estas acções pretende-se criar uma relação de vinculação que ajude ao sentido de segurança emocional, conferindo protecção e permitindo a sobrevivência (Costa e Matos, 2006:46).

Alunos:

Desenvolver acções de integração e aceitação:

Escolher a Maria para integrar a equipa em Ed. Física

Promover clima agradável e de “à vontade” nos balneários;

Convidar para os acompanhar em idas à biblioteca, ao bar etc;

Escolhê-la para fazer parte dos trabalhos de grupo, incentivando-a e apoiando-a;

Encorajar e reforçar positivamente.

Serviços de Psicologia e Orientação:

Prestar apoio de natureza psicológica e psicopedagógica;

Apoiar no processo de desenvolvimento vocacional, realizando actividades de

orientação;

Promover a auto estima e autonomia.

Fazer a “ ponte” escola – Encarregados de Educação, na orientação em relação à

forma de actuar em função das situações e em parceria com os outros actores

envolvidos no projecto.

Avaliação do Projecto:

A avaliação deste projecto será feita em Conselho de Turma, após análise:

do progresso da aluna nas diversas áreas de intervenção;

do relatório de avaliação psicológica;

dos resultados da intervenção do tutor;

da evolução da participação em actividades, quer em contexto de sala de aula

como extracurriculares;

dos documentos de auto avaliação dos alunos.

Cronograma:

 
 

Dimensão

     
 

Acções a

Intervenientes

Contexto

Calendarização

desenvolver

(Costa e Matos

 

(2006:52)

 

Elaboração das regras de “Boa convivência”.

     

1º Período

Realização de um

 

estudo sobre violência à comunidade educativa

Directora de

Sala de aula

1º / 2º Período

Relação

Turma

Aulas de

Debate de ideias sobre

 

Alunos

formação Cívica

 

violência / sentimentos associados e valorizar as intervenções.

2ª / 3º Período

Auxiliar os

       

encarregados de educação propondo formas de actuação concertadas com as acções desenvolvidas na escola.

Construção

Directora de

Atendimento

Ao longo do ano lectivo

de

Turma

Identidade

Encarregados de

semanal

 

Educação

Coordenar e avaliar as

 

Professores da

   

acções que cada elemento do Conselho de Turma desenvolve junto

turma

Reuniões de

1º, 2º e 3º período Final do ano lectivo

Directora de

Conselho de

Turma

Turma

 

da aluna e turma.

       

Incentivar e efectivar a auto avaliação de todas

Professores da

No final de cada actividade / acção (ao longo do ano lectivo)

as

actividades realizadas

-

turma

Sala de aula

pelos alunos, quer nas aulas de formação cívica, quer das acções desenvolvidas com o professor tutor.

Directora de

Aulas de

Turma

formação Cívica

Alunos

 

Promover :

 

Professor tutor

Reuniões semanais com o tutor e SPO Relações entre pares no dia-a-dia Na sala de aula, espaços exteriores, bibliotecas, refeitório, etc

 

A integração

Serviços de

Ao longo do ano lectivo

relacionamento com os pares aumento da autoestima.

Relação

Psicologia e

Orientação

Alunos

 

apoio de natureza

psicológica e

psicopedagógica e

Construção

de

Serviços de

Psicologia e

Orientação

Reuniões

semanais

Ao longo do ano lectivo

desenvolvimento

Identidade

vocacional

 
   

Directora de

   

Turma

Professores do

Conselho de

Reunião de

Final do Ano lectivo

Avaliação do Projecto

-

Turma

Conselho de

Serviços de

Turma

Psicologia e

 

Orientação

Professor Tutor

Considerações Finais

A criança e o adolescente são indivíduos em fase de desenvolvimento e para que isso aconteça de uma forma equilibrada é preciso que o ambiente familiar propicie condições salutares de desenvolvimento, nomeadamente boa e equilibrada relação familiar, ancorada em laços afectivos, diálogo, respeito. Um ambiente familiar hostil e desequilibrado, pode afectar seriamente não só a aprendizagem como também o desenvolvimento físico, mental e emocional de seus membros.

A conduta anti social está associada a uma complexidade de factores que influenciam o comportamento humano aos vários níveis: psicológicos, sociológicos e biológicos. Segundo Kazdin e Buela Casal (2001), os factores genéticos associados

aos pais, alcoolismo, práticas disciplinares duras e inconsistentes, violência nas relações

familiares, são factores que colocam as crianças em risco de ter distúrbios de conduta.

Costa e Matos (2006), referem que as perturbações da personalidade nos jovens

não são apenas o reflexo das dificuldades em fases iniciais do desenvolvimento, mas

são “o produto do jogo dinâmico e complexo entre histórias de vida anterior e as

circunstâncias de vida actuais” (ibidem:51).

A história de vida da Maria enquadra-se nestes pressupostos e a implementação

deste projecto pretende alterar comportamentos e atitudes, promovendo a boa

convivência em contexto escolar.

É importante destacar que, embora as mudanças nas relações entre pares se

antevejam significativas, nem todas as questões de convivência ficam plenamente

resolvidas apenas com as práticas aqui indicadas. Estamos cientes que a aprendizagem

do diálogo em si e a resolução democrática de conflitos são processos que não se

esgotam num ano lectivo. Promover e trabalhar a convivência democrática são

procedimentos que não se restringem simplesmente numa prática isolada, mas

abrangem outros actores, nomeadamente a própria organização da escola.

Referências Bibliográficas

Costa, M. e Matos, P. (2007). Abordagem Sistémica do Conflito. Lisboa: Universidade Aberta.

Costa, M.E. & Vale, D. (1998). A violência nas escolas. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional.

Yves

Editores.

Tyrode

&

Stéphane

Bourcet,

(2002):

Os

adolescentes

violentos.

Climepsi

Alan E. Kazdin & Gualberto Buela Casal, (2001). Conduta anti social. Editora McGraw Hill.