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BARREIRAS'À'COMUNICAÇÃO'HUMANA'

Fernando'Nogueira'Dias'

As#interacçõ es#sociais,#ao#n í vel#das#rela çõ es#face4 a4 face,#estã o#sujeitas# à #influ ência# de#um#conjunto#de#vari á veis#de#cará cter#manifesto#ou#latente,#que#lhes#determinam,#ou# pelo# menos# influenciam,# a# condu ção# dos# processos# comunicacionais.# Os# padrõ es# de# interacção#resultantes#das#rela çõ es#entre#os#indiví duos#s ã o#consequência,#por#um#lado,#da# aleatoriedade#humana#e,#por#outro,#da#previsibilidade#que#a#vida#em#sociedade#possibilita.## Comunicar# torna 4 se,# a ssim,# uma# arte# de# bem# gerir# mensagens,# enviadas# e# recebidas,# nos# processos# interaccionais.# Mas# n ã o# só .# O# tempo,# o# espa ço,# o# meio# f í sico# envolvente,#o#clima#relacional,#o#corpo,#os# factores#histó ricos#da#vida#pessoal#e#social#de# cada#indiví duo#em#presen ça,# as#expectativas#e#os#sistemas#de#conhecimento#que#moldam# a#estrutura#cognitiva#de#cada#actor#social#condicionam#e#determinam#o#"jogo"# relacional# dos#seres#humanos. # Conhecer#alguns# dos# factores# que# podem# constituir# barreiras# à # compreensão,#ao# sentir#e#ao#agir#dos#actores#sociais#que#pretendem#interagir# é#o#prop ó sito#que#nos#orienta.# Assim,#podemos#equacionar#uma#estrutura#de#vari áveis#interaccionais#que,#nos#processos# de# comunica ção# humana,# tanto# podem# facilitar# como# "barrar"# ou# constituir# fontes# de# "ru í do"# à s#rela çõ es#face4 a 4 face. #

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Factores'Pessoais'

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Factores# pessoais.# Compreendem# um# conjunto# de# aspectos# que# passamos# a# referir.# O# ní vel# de# profundidade# de# conhecimento# que# o# indiví duo# tem# e# revela# na# decorr ência# do# processo# conversacional,# ou,# o# n í vel# # de# conhecimento# que# os# outros# intervenientes# lhe# atribuem# ou# reconhecem# ter# sobre# o# assunto- a- tratar.# Este# aspecto# pode# conduzir# à # maior# ou# menor# credibilidade# a# atribuir# ao# emissor# e# trazer 4 lhe# um# estatuto#que#pode#marcar#o#desempenho#do#seu#papel#enquanto#comunicador. #

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Outro# aspecto# a# considerar# nos# factores# pessoais# diz# respeito# à # aparência # do# sujeito# enunciador# do# discurso.# Nã o# h á # nesta# matéria# aspectos# morais# a# considerar,# no# que# se# refere# a# padrõ es# de# referência.# Podemos,# no# entanto,# dizer# que# n ã o# é# an ó dino,# para# a#maioria# das# pessoas,# a# aparência# do# outro.#O# estar# "cuidado"# ou# n ã o,# o# parecer# este#ou#aquele#tipo#profissional,#o#estar#ou#n ã o#enquadrado#num#ou#noutro#grupo#marca#a# relação,# mais# que# n ã o# seja# pelas# expectativas# que# provoca,# sobretudo,# nas# primeiras# impress õ es.# Outro#aspecto#dos#factores#pessoais# é#a# postura-corporal .#Naturalmente#que,#nesta# matéria,# h á # sempre# posturas# pró prias,# eminentemente# individuais.#Mas# o# que# interessa# aqui#ressaltar#s ã o,#sobretudo,#as#posturas#corporais#que,#apesar#de#pessoai s,#fazem#parte# de#um#l éxico# social,# à s#quais# é#poss í vel#atribuir# significados# tamb ém# sociais.# É #o#caso#de# uma# postura# que,# em# determinados# contextos# se# espera# que# nã o# seja# excessivamente# rí gida#ou#excessivamente#descontraí da.#Determinados#grupos#têm#expectativas,#por#vezes# muito#fortes,#relativamente# à s#formas#que#o#corpo#deve#adoptar.#Caso#contrá rio,#corre4 se# o# risco# de# n ã o# ser# identificado# com# o# grupo# em# causa,# ou# ser# considerado# como# um# outsider. # Tamb ém# o# movimento- corporal # se# insere# nos# factores# pessoai s# que# podem# constituir#barreiras# à #comunica ção.#Sobretudo#em#grupos# fechados,#ou#em#comunidades# pouco# abertas# ao# exterior,# a# vigil â ncia# sobre# o# movimento# corporal# dos# indiví duos# é# exercida# de# forma# expectante.# Os# có digos,# por# vezes# rí gidos,# de# determinados # meios# sociais#coagem#os#indiví duos# à #moderação#ou# à #exuberâ ncia#a#que#o#corpo#deve#obedecer# nos# seus# movimentos.# Certos# movimentos# do# corpo,# ou# de# zonas# do# corpo,# podem# ser# interpretados#como#insinuaçõ es#de#ordem#sexual#em#determinados#meios,#enquanto#que# noutros#os#mesmos#movimentos#podem#ser#considerados#como#indicadores#de#agilidade# ou#de#graciosidade.#O#importante#a#reter# é#a#ideia#de#que#a#forma#como#o#corpo#ocupa#o# espaço#tem#um#significado#social#e#cultural#que,#em#determinados#contextos,#o#seu#valo r# pode#facilitar#ou#constituir#factor#de#obstru ção# à s#rela çõ es#entre#os#indiví duos. # O# contacto- visual # é# tamb ém# ele# um# factor# pessoal# que,# apesar# de# tudo,# pode# obstruir# a# interacção# e# provocar# momentos# de# embara ço# ou,# at é,# de# pâ nico.# O#

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direccionamento,#o#tempo,#o#contexto,#a#oportunidade,#a#intensidade,#o# status#de#quem# olha# ou# de# quem# é# olhado# imp õ em# um# quadro# interpretativo,# que# cada# cultura# se# encarrega# de# transmitir#aos# seus#membros,# pelo# processo# de# socialização.#Os#indiví duos# sabem,# por# intui çã o ,# os# parâ metros# que# condicionam# o# contacto# visual;# aprenderam# e# interiorizaram,# no# decorrer# do# tempo,# as# regras# e# os# mecanismos# de# censura# que# o# processo#do#olhar#implica#em#sociedade. # A# expressã o- facial # é# mais# um# factor# pessoal# com# repercuss õ es# no# campo# interaccional.#Os#có digos#sociais#e#culturais#tamb ém#aqui#se#fazem#sentir.#As#expectativas# e# as# previs õ es# comportamentais# que# os# indiví duos# fazem# uns# dos# outros# passam# pelas# mensagens#emitidas#pela#expressã o# facial.#A#expressã o# facial# é,# talvez,#um#dos#meios#de#

co municação# mais# importante# nas# relaçõ es# face4 a 4 face,# quer# para# confirmação# de# expectativas,# quer# para# afirmação# de# determinados# estados# de# esp í rito,# sejam# eles# espontâ neos# ou# engendrados.# A# import â ncia# dada# socialmente# à # express ã o# facial# pode# determinar,#po r#vezes,#a#vida#de#um#cidad ã o.#Em#determinados#contextos,#pode#ser#fatal# ou# fundamental# uma# expressã o# de# ó dio,# de# desprezo,# de# raiva,# de# desqualificação,# de# preocupa ção,#de#simpatia,#de#compreensã o,#de#alegria,#de#bem4 estar,#de#aceitação,#etc. # A# flu ência #com#que#os#indiv í duos# falam#ou#discursam,#bem#como#a#articula ção,#a# modulação,# o# ritmo# ou# o# timbre# que# emprestam# à # sua# voz# n ã o# escapam# à # observa ção# social# e# cultural# de# determinados# meios.# S ã o# indicadores# pessoais# que# os# restantes# actores#têm#em#conta#nas#relaçõ es#sociais#que#estabelecem.#As#matrizes#em#vigor#em#cada# sistema#social#dizem#aos#indiví duos,#muitas#vezes,#a#forma#como#devem#interpretar#n ã o#s ó # a#personalidade#como#tamb ém#o#cará cter#e#o#meio#social#de#origem#do#falante.#Claro#está # que,# neste# processo# de# adivinhação# muitos# erros# e# equ í vocos# condicionam# as# relaçõ es# interpessoais,#constituindo,#por#isso#mesmo#barreiras# à #comunica ção#n ã o#desprez í veis. #

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Factores'Sociais'

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Factores# sociais.# Temos# vindo# a# abordar# factores# de# origem# pessoal# que# podem# afectar#a#dimens ã o#social#das#rela çõ es.#Debrucemo4 nos#agora,#por#instantes,#sobre#alguns#

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factores#sociais,#cuja#origem#a#consideramos# tamb ém#social.# É #o#caso#da# flexibilidade #ou# da# rigidez#dos#sistemas#de#conhecimento,#que#impregnam#e#condicionam#as#formas#como# o s#indiv í duos#pensam#o#mundo. # Os# sistemas# de# conhecimento# condicionam# e# sã o# condicionados# por# uma# multiplicidade# de# factores.# A# educa çã o # é# um# deles,# ao# inculcar# nos# indiví duos# determinados# princí pios# como# certos# e# absolutos.# Nã o# se# pretende# com# isto# fazer# a# apologia# da# relatividade# axiol ó gica,# e# muito# menos# fazer# a# apologia# de# determinados# princ í pios# educacionais,# aqui# e# agora.# A# importâ ncia# desta# abordagem# permite4 nos# perceber,# de# forma# objectiva,# a# marca# que# podem# ter# os# # princí pios# e# os# valores# na# cosmovi s ã o#dos#sujeitos,#e#isso# é#importante#porque,#entre#outros#aspectos,#a#forma#como# cada# um# vê# o# mundo# pontua# as# sequ ências# comunicacionais.# Havendo# fortes# discrep â ncias#na#pontuação#das#interacçõ es#entre#os#indiví duos,#maior#a#probabilidade#de# ocorrência#de#equ í vocos#e#de#conflitos#nos#processos#de#comunicação. # Mas#n ã o#s ã o#s ó #os#princí pios#e#os#valores#da#educação#a#determinar#os#olhares#do# mundo.# A# cultura # que# marca# a# origem# de# cada# actor# social# d á # aos# indiví duos# uma# orientação# normativa# à s# suas# formas# de# p ensar,# de# sentir# e# de# agir,# assim# nos# refere# o# soci ó logo# americano# Talcott# Parsons.# Por# isso,# os# padr õ es# de# cultura# que# embebem# o# trajecto# pessoal# e# social# dos# indiví duos# geram,# frequentemente,# aproximação# ou# afastamento#entre# si.#Como# é# sabido,#a# d écalage# resultante#dos#padrõ es#culturais#pode,# em#casos#extremos,#redundar#em#conflitos#e#incompreensõ es,#devido#a#desfazamentos#na# interpretação#das#diferen ças#culturais.#Entendemos,#por#isso,#que#a#presen ça#f í sica#por#si# s ó # dos# indiv í duos# uns# com# os# outros# n ã o# evita# os# conflitos# interaccionais.# S ó # a# compreensã o,#mediante# processos# de# conhecimento,# das# caracterí sticas# de# cada# padrã o# cultural#permitem#uma# (re)aprendizagem#das#diferen ças,#as#quais#por#si#mesmas#podem# constituir#motivos#de#comunicação#e#conví vio,#sem#riscos#de#perda#de#identidade#cultural# e#social. # As#cren ças#ocupam#no#panorama#dos#factores#sociais#que#condicionam#os#sistemas# de#conhecimento#um#lugar#proeminente.#Pode#dizer4 se#que#as#cren ças#s ã o#princ í pio,#meio# e# fim# dos# sistemas# de# conhecimento.# Se# tivermos# em# conta# que,# sobretudo,# as# cren ças#

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que#assentam#na#ignorâ ncia#ou#que#tomam#como#certos#determinados#princ í pios#podem# gerar#guerras#ou#conflitos#dif í ceis#de#sanar,#perceber4 se4 á #a#sua#importâ ncia#nos#estudos# sociol ó gicos.#Mas#as#cren ças#podem#igua lmente#pontuar#os#ritmos#de#vida#pessoal#e#social,# ao# n í vel# dos#estilo# de#vida,# das#escolhas# de# parceiros,# de#métodos# relacionais#e,#at é,# de# decis õ es# de# vida# ou# de# morte,# pessoal# ou# de# familiares# dependentes# de# quem# toma# a# decis ã o.#As#cren ças#podem#igualmente#levar#certos#indiví duos#a#acreditar#que#n ã o#vale#a# pena# considerar#a# vida# como# um# bem,# j á # que#a# sua# passagem# pela# terra# é#ef émera,# ou# então#porque#ap ó s#a#morte#haverá #um#para í so#mais#agrad á vel#para#viver.#A#complexidade# das#cren ças#na#vida#das#pessoas# é,#pois,#um#dos# factores#que#mais# riscos#pode# trazer# à s# relaçõ es#interpessoais#e,#por#consequ ência,#barreiras# à #comunica ção. # As# normas-sociais#s ão#em#cada#sociedade#um#factor#de#duplo#sentimento:#amor#e# ó dio.# As# normas# sociais# parametrizam# os# comportamento s,# e# por# isso# d ã o# aos# actores# sociais#seguran ça#e#previsibilidade#nas#relaçõ es#entre#si.#Por#isso,#todas#as#sociedades,#com# maior# ou# menor# firmeza,# adoptam# mecanismos# de# controlo# e# de# san çõ es# para# a# observ â ncia#das#suas#regras.#As#normas#sociais,#atrav és#d o#processo#de#socializa ção,#dizem# aos#indiví duos#como#devem#estar#no#mundo,#ao#n í vel#orgâ nico,#ps í quico,#social,#cultural#e# simb ó lico.#A# coacção# que#as# normas# sociais#exercem# sobre# os#indiv í duos# provoca 4 lhes# o# receio# de# serem# ou# virem# a# ser# considerados# desviantes# do# sistema# em# que# estã o# inseridos.# Por# essa# raz ã o,# é# previsí vel# a# importâ ncia# que# têm# as# normas# sociais# nos# padrõ es# de# relacionamento# e# de# comunicação# entre# os# diferentes# agentes# e# actores# sociais. #

Os# dogmas# religiosos,# sobretudo# quando# rejeitam# tudo# o# que# possa# ir# contra# determinadas# convicçõ es,# sã o# um# dos# factores# sociais# que# podem# constituir# barreiras# à # intercompreens ão#humana.#A#Hist ó ria#est á #repleta#de#maus#exemplos#sobre#esta#mat éria# e,# apesar# dos# avan ços# tecnol ó gicos# de# comunicação,# ainda# n ã o# foi# poss í vel,# com# frequ ência# e# em# determinadas# zonas,# desenvolver# contextos# prop í cios# à # comunica ção.# o#est ã o,#naturalmente#em#causa#os#dogmas#em#si#mesmos,#visto#que#n ã o#h á # religi õ es# sem#dogmas.#Est ã o#em#causa#os#dogmas#que,#por#princí pio,#em#vez#de#co nstitu í rem#um#

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factor# de# aglutinação# e# desenvolvimento# humano,# provocam# a# desagrega ção# social,# o# subdesenvolvimento#e#a#ignorâ ncia,#que#só #trazem#infelicidade. #

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Factores'Fisiológicos '

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Factores# fisiol ó gicos.# Nem# todos# os# aspectos# da# fisiologia# humana# constit uem# barreiras# à #comunicação#e#nem# todos#os#indiví duos#valorizam#os#mesmos# factores#como# entraves# à #interacção.#Todavia,#sujeitos#h á #que,#portadores#de#determinado# handicap,#ou# têm# eles# mesmos# dificuldade# na# interacção# com# os# outros,# ou# s ã o# os# outros# que# lh es# provocam# dificuldades.# Estamos# perante# situaçõ es# de# dificuldade# comunicacional# com# origem# em# percep çõ es# marcadamente# pessoais# ou# com# origem# em# padrõ es# cognitivos# resultantes# de# determinados# meios# sociais# ou# culturais.# De# qualquer# forma,# interessa# salien tar# a# dificuldade# que# constitui# para# alguns# interlocutores# a# conversa# sobre# determinados#assuntos#que#versem,#de#forma#assumida#ou#tangencial,#a# defici ência #na#sua# comunicação. #

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Factores'de'Personalidade

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Factores#de#personalidade.#A#comunicação# é,#com# fre qu ência,#complicada,# sen ã o# mesmo# impossí vel,# quando# esta# procura# ocorrer# no# seio# das# chamadas# personalidades- dif í ceis. # H á,# neste# campo,# um# conjunto# de# aspectos# que# conviria# referenciar# como# potenciadores# de# bloqueios# à # comunica ção#entre# os#indiví duos.#Um# deles# diz# respeito# à #

conhecida# auto > sufici ência .# De# facto,# torna4 se# complicado# interagir# com# sujeitos# que# presumem#saber#tudo#sobre#determinado#assunto,#ou#entã o,#de#que#o#que#sabem#esgota# tudo#sobre#o#assunto#em#questã o. # Por# outro#lado,#a#ideia# que#alguns# sujeitos# têm# de# que# uma# palavra#aplicada# por# diferentes#pessoas#terá #de#ter,#natural#e#forçosamente,#o#mesmo#significado#entre#elas# é# uma#das#barreiras# à #comunica ção,#que#toma#a#designação#de# avalia çõ es-congeladas. #

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A# confus ã o #que#constantemente#alguns#sujeitos#fazem#entre#aquilo#que# é#do#foro# objectivo #e#aquilo# que# é# do# subjectivo # provoca# n ã o# s ó # dificuldades# de# compreensã o# por# parte#dos#outros#membros#do#sistema#comunicacional#como,#n ã o#raras#as#vezes,#conflitos.# Esta# confus ã o# entre# aquilo# que# é# eminentemen te# a# realidade# concreta# dos# factos# e# as# opini õ es# que# sobre# eles# se# possam# ter# é# raz ã o# mais# que# suficiente# para# provocar# paraliza çõ es#ao#processo#de#entendimento#entre#os#diferentes#actores.# Um# outro# aspecto# que# por# vezes# se# confunde# com# este# é# a# chamada# co nfusã o# entre# mapas- e- territó rios,- que# d á # pelo# nome# de - geografite. #Os# territó rios # dir ã o# respeito# aos#objectos,# à s#pessoas,# à s#coisas#e# à s#situaçõ es,#enquanto#que#os# mapas- dirã o#respeito# aos#sentimentos#do#indiví duo#que#se#pronuncia#sobre#os# territó rios ,#aos #seus#preconceitos# e# inferências.# Como# é# de# ver,# esta# tend ência# à # confusã o# entre# um# n í vel# de# realidade# e# outro# n ã o# deixa# por# certo# de# trazer# à # interacção# humana# as# maiores# dificuldades# e# equ í vocos#de#compreensã o. # Se#a#tudo#isto#juntarmos#a#chamada# tend ênci a- à -complica çã o #de#alguns#actores#na# cena#da#vida,#ficaremos#com#uma#ideia#de#qu ã o#complexas#s ã o#as#redes#comunicacionais#e# relacionais#dos#sistemas#sociais. #

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Factores'de'Linguagem '

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Para# al ém# de# tudo# o# que# j á # foi# dito# sobre# os# diferentes# factores# que# podem# constituir#dificuldades#ao#relacionamento#humano,#podemos#ainda#equacionar#os#Factores# de# linguagem.# Tamb ém# neste# cap í tulo# é# poss í vel# enquadrar# os# problemas# de# confus ã o #

entre# a# realidade # e# as# inferências # que# dela# se# fazem# para,# num# segundo# momento# discurs ivo,# mesmo# n ã o# tendo# eventualmente# observado# directamente# os# factos,# fazer# confusã o#entre#estes#dois#planos. # O#uso#constante#de# palavras-abstractas#por#parte#de#determinados#comunicadores# é#motivo#frequente#de#desorientação#e#equ í vocos#de#compreensã o#entre#os#indiv í duos. # Nã o# s ã o# tamb ém# raras# as# vezes# que# a# confus ã o# nos# processos# comunicacionais# tem#origem#no# desencontro-de-sentidos#que#cada#um#dos#interlocutores#atribui# à s#palavras#

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dos#outros#e# à s#suas#pró prias#mensagens.#Os#equ í vocos#de#compreensã o#oriundo s#destes# desencontros# n ã o# deixam# de# constituir,# por# isso,# mais# um# factor# de# barreiras# à # comunicação. # Quando# os# sujeitos# em# interacção# n ã o# conseguem# separar# as# coisas# entre# si# ou# aspectos# da# realidade# que# só # aparentemente# sã o# iguais,# estamos# perante# process os# comunicacionais#em#que#predominam#as#chamadas#indiscriminaçõ es. # Mas#as#perturbaçõ es#aos#processos#de#comunica ção#tamb ém#podem#ter#origem#no# uso#frequente#de# polariza çõ es #por#parte#de#um#ou#mais#intervenientes.#Com#efeito,#o#uso# sistemá tico# de# expressõ es # extremas# no# discurso# dos# indiví duos# pode# levar# à # desacreditação#do#emissor#de# tal#discurso.#Este#mecanismo#discursivo# é#uma#esp écie#de# tudo#ou#nada.#Para#tais#emissores,#a#realidade#das#situaçõ es#nunca#tem#um#meio#termo# 4 # tudo# é#maximizado#na#sua#linguagem. # Como# factores#de#linguagem# é#ainda#considerada#a# falsa-identidade-baseada-nas- palavras.- Numa# situação# destas,# o#emissor#está # crente# de# que# resume# numa# palavra# ou# expressã o# as# suas# cren ças,# atitudes# ou# avalia çõ es.# É # como# se# um# simples# r ó tulo# conseguisse# identificar# a# complexidade# dos# conteú dos# que# ele# expressa.# Como# se# depreende,#o#recurso#sistemá tico#a#este#mecanismo#de#simplificação,#apesar#de#constituir#

para# o# emissor# uma# forma# cognitiva# e# discursiva# econ ó mica,# corre# o# risco# de# provocar# reacçõ es#advers as#e#contrá rias#aos#seus#objectivos#comunicacionais. # Finalmente,#ainda#no#campo#dos#factores#de#linguagem,#a# polissemia #apresenta4 se4 nos# como# um# mecanismo# prop í cio# ao# desencontro# de# sentidos.# O# uso# sistem á tico# de# vocá bulos#com#dimens õ es#polissémicas#divers as#induz#nas#audi ências#uma#fonte#de#ru í do,#

à s#vezes#dif í cil#de#ultrapassar.#S ó #o#recurso#a#mecanismos#de#redund â ncia#pode,#por#vezes,# contrariar#as#perturbaçõ es#do#processo#de#comunicação. #

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Factores'Psicológicos '

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Factores# psicol ó gicos.# Há # nesta# matéria# uma# variedade# de# aspectos# que# podem# concorrer#para#o#desenrolar#dos#padrõ es#interaccionais.#O#chamado# Efeito-de-Halo # é#um#

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mecanismo# que# diz# respeito# ao# recurso# que# determinados# sujeitos# fazem# quando# se# referem#a#outra#pessoa.#Do#seu#discurso#emergem#palavras #ou#express õ es#que#remetem# para#a#generaliza ção#de#uma#pessoa,#a#partir#de#uma#s ó #das#suas#caracterí sticas.#Claro#est á # que,#nestes#casos#o#que#importa#salientar# é#o#enviesamento#da#informa ção,#o#qual#pode# distorcer#a#objectividade#da#comunicação. # Um# outro# mecanismo# de# dificuldade# interaccional# pode# ser# o# decorrente# do# designado# Efeito- L ó gico. # Neste# caso,# o# problema# centra4 se# na# tend ência# que# determinados# sujeitos# revelam# em# associar# duas# caracterí sticas# de# um# outro# indiví duo,# como# se# houvesse# uma# relação# causal# linear:# se# A,# ent ã o# B.# Ora,# sabendo# n ó s# que# a# realidade,# mesmo# a# f í sica,# nem# sempre# se# rege# por# esta# simplicidade,# muito# mais# prud ência# deverá # haver# no# estabelecimento# desta# relação# quando# se# trata# de# factores# comportamentais.# Os# processo# de# comunicaçã o# humana# n ã o# estã o# imunes# a# esta# dificuldade. # Quando#determinados#indiví duos# tendem#a#enquadrar#os#outros#em# tipos# sociais# ou#profissionais,#estamos#perante#os#chamados# tipos-pré> determinados. # É #um#mecanismo# a#que#todos#recorremos,#por#uma#quest ã o#de#econ omia#cognitiva,#ou#simplesmente#como# dimens ã o# lú dica,# em# tentar# adivinhar# ou# prever# o# outro.# O# problema# n ã o# reside# no# mecanismo# de# simplificação# que# este# processo# implica;# está,# sobretudo,# ao# n í vel# da# estigmatização,#que#por#vezes#se#projecta#no#outro#da#n ossa#rela ção. # A# tend ência,# ou# a# dificuldade,# que# alguns# sujeitos# revelam# em# situar# os# outros,# objectos#da#sua#apreciação,#em#valores#escalares#diversificados,#leva4 os#a#perspectivá 4 los# em#pontos#centrais,#medianos,#que#em#nada#corresponde,#por#vezes,# à #fid elidade#de#uma# apreciação.#Mais#uma#vez,#o#problema#maior#no#campo#da#interac ção#dir á #respeito# à#falta# de#objectividade#que#acaba#por#marcar#as#relaçõ es#interpessoais.#A#este#mecanismo#d á 4 se# o#nome#de# Efeito-de-Tend ência-Central. # Finalmente,# pertencente# ai nda# aos# factores# psicol ó gicos,# temos# a# tend ência# de# alguns# indiví duos# avaliarem# os# outros# e# situ á4 los# no# campo# extremo# da# escala# de# apreciação.#A#esta#deturpa ção#da#informa ção#no#processo#interaccional#d á 4 se#o#nome#de# Efeito-de-Polarizaçã o. -

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Palavras-chave
Palavras-chave
• Barreiras à comunicação • Factores de linguagem • Factores de personalidade • Factores fisiológicos
• Barreiras à comunicação
• Factores de linguagem
• Factores de personalidade
• Factores fisiológicos
• Factores pessoais
• Factores psicológicos
• Factores sociais
• Interacções sociais
• Processos comunicacionais
• Relações humanas

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Bibliografia'

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AAVV# (1990),# O# Nã o 4 verbal# em# Questã o ” # in# Revista- de- Comunicaçã o- e- Linguagens ,# Lisboa,#Edi çõ es#Cosmos.# Alvey,#John#(1995),#Formas-de-Comunicaçã o ,#Lisboa,#Teorema. # Berlo,#David#(1979),# O-Processo-de-Comunicaçã o ,#S ã o#Paulo,#Martins#Fontes#Editora. # Bitti,# Pio#et#al.#(1993),# A-Comunica çã o-como-Processo-Social ,#Lisboa,#Editorial#Estampa. # Dias,# A.# Fernando# Nogueira# (1989),# Juventude- e- Toxicodepend ência- > - Identificaçã o- de-

Algumas-Causas-Sociais,- Trabalho#de#Semin á rio#do#Curso#conducente#ao#Mestrado#em#

Sociologi a,#Lisboa,#Universidade#T écnica#de#Lisboa/ISCSP. #

Dias,# A.# Fernando# Nogueira# (1989),# Escola- e- Socializa çã o- > - Processo- e- Defici ências- nos- Jovens-Toxicodependentes,- Trabalho#de#Semin á rio#do#Curso#conducente#ao#Mestrado#

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