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ESCOLA DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO MINHO Direito Processual Civil Declaratório. 19.05.2017 Duração: 2H

Os alunos do TESTE PARCELAR devem responder apenas às seguintes questões: Do Grupo I todas menos à 1ª e ao Grupo II.

Os alunos do TESTE GLOBAL devem responder apenas às questões do Grupo I.

NOTA: AS PROVAS ESTÃO COTADAS EM QUALQUER CASO PARA 19 VALORES, UMA VEZ QUE EXISTE UM VALOR DEIXADO À PONDERAÇÃO GLOBAL

I.

No dia 15 de novembro de 2016, A., português, residente em Londres, e B., francês, residente em Paris, celebraram um contrato de arrendamento de um imóvel (arts. 1022.º e segs. CC) sito em Lisboa, no valor de € 2.000.000,00 (dois milhões de euros), e com uma renda mensal no valor de € 5.000,00 (cinco mil euros), porquanto B. pretendia reformar-se em França e passar a viver em Lisboa, No dia 12 de maio de 2017, A. instaura uma ação judicial contra B., pedindo a

anulação do contrato de arrendamento do referido imóvel sito em Lisboa, alegando que fora coagido a celebrá-lo, tendo-lhe sido apontado um revólver à cabeça, razão pela qual intenta esta ação também contra C., português, residente em Paris, pedindo- lhe uma indemnização no valor de € 10.000,00 (dez mil euros) pelos prejuízos sofridos, pois tinha sido C. a apontar-lhe o revólver à cabeça no momento da celebração do contrato de arrendamento. B. defende-se invocando que não existiu qualquer coação, e aproveita para pedir ao tribunal a condenação de A. no pagamento de benfeitorias no valor de € 50.000,00 (cinquenta mil euros) correspondente a reparações urgentes que teve de efetuar no imóvel arrendado devido ao mau estado de conservação em que a mesma se encontrava. Já C. não apresenta contestação. Por seu turno, A. nega a realização de quaisquer benfeitorias no imóvel.

1ª- Identifique fundamentadamente o Tribunal ao qual endereçaria a petição

inicial desta demanda caso a patrocinasse A. (4 valores)

- Noção de relação jurídica plurilocalizada;

- Princípio do primado: primazia do direito comunitário sobre o direito interno (art. 8.º, n.º 4, da CRP);

- Aplicação do Regulamento n.º 1215/2012:

- Âmbito temporal (art. 66.º) encontra-se preenchido, já que está em causa uma ação judicial intentada após 10 de janeiro de 2015;

- Âmbito objetivo (art. 1.º) encontra-se preenchido, já que se

trata de um litígio em matéria civil ou comercial, não estando o mesmo excluído pelo art. 1.º, n.º 2;

o réu tem (França).

- Âmbito subjetivo (arts. 4.º e ss) encontra-se preenchido, já que domicílio ou sede num dos Estados-Membros da União Europeia

- Pelo art. 4.º, seriam competentes os tribunais franceses;

- O art. 5.º permite a aplicação das regras especiais constantes das secções 2 a 7 do capítulo II do Regulamento;

- Nos termos do art. 24.º, em matéria de arrendamento sobre

imóveis, têm competência exclusiva os tribunais do lugar onde se

localize o imóvel;

- No caso em concreto, dado que o imóvel localiza-se em Portugal, seriam internacionalmente competentes os tribunais portugueses.

- Na ordem jurídica interna, a competência reparte-se em razão da matéria, do valor, da hierarquia e do território;

(matéria)

- Art. 64.º CPC: São competentes os tribunais judiciais;

- Art. 65.º CPC e 81.º da LOSJ: Poderá ser competente um juízo de competência especializada;

(valor)

- Art. 298.º, n.º 1, CPC: nas ações de despejo, o valor da causa é o

da renda de dois anos e meio, acrescido do valor das rendas em dívida ou do valor da indemnização requerida, consoante o que for superior;

- No caso em concreto, apesar de não estar em causa uma ação de

despejo, mas antes uma ação destinada a apreciar a validade do contrato

de arrendamento, deve aplicar-se o mesmo critério (cfr. o ac. do TRL de 12.03.2009, proc. 8145/2008-6, in www.dgsi.pt);

- Tendo em conta que o valor da ação seria de 160.000,00, será

competente o juízo central cível (art. 117.º, n.º 1, al. b), da LOSJ);

(hierarquia)

- Art. 67.º CPC: é competente o tribunal de comarca;

(território)

- Art. 70.º, n.º 1, do CPC: é competente o tribunal do lugar do imóvel, isto é, o tribunal judicial da comarca de Lisboa.

Assim, a petição inicial teria de ser endereçada ao Juízo Central Cível de Lisboa.

2º- Aprecie a admissibilidade do(s)objeto(s) processual (is) apresentado por A.

na ação judicial (4 valores)

Pedidos e causas de pedir de A.:

a) Anulação do contrato de arrendamento em relação a B. - pedido constitutivo

(arts. 10.º/1/1.ª parte, 10.º/2/in fine e 10.º/3/c) CPC); valor do pedido: art.

301.º/1 CPC); causa de pedir: a celebração do contrato de arrendamento e os

factos que subjazem à coação moral (o facto de C. lhe ter apontado um revólver

à cabeça no momento da celebração do contrato);

b) Condenação de C. no pagamento de uma indemnização no valor de € 10.000,00

- pedido condenatório (arts. 10.º/1/1.ª parte, 10.º/2/2.ª parte e 10.º/3/b)

CPC); valor do pedido: art. 297.º/1 CPC); causa de pedir: a celebração do

contrato de arrendamento, os factos que subjazem à coação moral (C. apontou

um revólver à cabeça de A. no momento da celebração do contrato, o que

originou danos no valor de €10.000,00).

Identificação da coligação passiva e análise dos seus requisitos de

admissibilidade: (i) conexão objetiva (causa de pedir é a mesma e única - art. 36.º/1/1.ª

parte CPC; ou os factos estão numa relação de prejudicialidade art. 36.º/1/2.ª parte

CPC; ou ainda a procedência dos pedidos dependa essencialmente da apreciação dos

mesmos factos - art. 30.º/2/1.ª parte CPC); (ii) compatibilidade substantiva (art.

555.º/1 CPC por analogia); (iii) compatibilidade processual: compatibilidade das

formas de processo (arts. 37.º/1/1.ª parte e 37.º/2 CPC) e competência absoluta do

tribunal: competência internacional, e competência interna em razão da hierarquia e da matéria (art. 37.º/1/in fine CPC)

3ª - Analise a defesa apresentada por B. (2 valores) Quando B. alega que “não existiu qualquer coação”, está a impugnar os factos que subjazem à coação (ou seja, está a dizer que não lhe apontou um revólver à cabeça no momento da celebração do contrato de arrendamento). Trata-se de uma defesa por impugnação de facto (art. 571.º/1/1.ª parte e 571.º/2/1.ª parte CPC).

Quando B. “aproveita para pedir ao tribunal a condenação de A. no pagamento de benfeitorias no valor de € 50.000,00”, está a formular um pedido contra A., ou seja, uma reconvenção (art. 266.º/1 e 583.º CPC) Análise dos requisitos de admissibilidade da reconvenção: (i) conexão objetiva (art. 266.º/2/b) CPC); (ii) compatibilidade processual: compatibilidade das formas de processo (art. 266.º/3 CPC) e competência absoluta do tribunal: competência internacional, e competência interna em razão da hierarquia e da matéria (art. 93.º/1 e 2 CPC)

4º- Indique as consequências da falta de contestação de C. (2 valores)

Consequências da falta de contestação de C.:

a) Revelia absoluta C. não apresenta contestação, não constitui mandatário nem intervém de qualquer forma no processo (art. 566.º CPC); b) Revelia operante, ou seja, consideram-se confessados os factos articulados pelo A. (art. 567.º/1), exceto os factos impugnados por B. (ou seja, os factos que subjazem à coação), pois a defesa de B. por

impugnação aproveita a C. (art. 568.º/alínea a) CPC).

-Suponha que o único exemplar do contrato de arrendamento em causa neste litígio se encontra na posse de B., e que este, apesar de notificado para o efeito, se recusa a juntá-lo ao processo. Adicionalmente, na audiência prévia, B. vem requerer:

a inquirição de D. e E. (suas primas) como testemunhas e a deslocação do juiz à moradia, de modo a verificar o estado em que a mesma se encontrava.

Aprecie a recusa de B. e admissibilidade dos meios de prova por si requeridos (4 valores) Análise da recusa de B. em entregar ao tribunal (foi notificado para o efeito, provavelmente a pedido de A. art. 429.º/2 CPC) o único exemplar do contrato de arrendamento urbano, sendo que o ónus de prova da sua celebração incumbia à outra parte (A.): violação do princípio da cooperação, sendo-lhe aplicado o disposto no art. 417.º/2 CPC, ex vi o art. 430.º CPC: é condenado em multa, e como B. é parte, o tribunal aprecia livremente o valor da recusa para efeitos probatórios, sem prejuízo da inversão do ónus da prova decorrente do preceituado no artigo 344.º/2 do Código Civil (no caso de inversão do ónus da prova, este deixa de recair na esfera jurídica de A., e passa para B.). Acresce que o tribunal pode ordenar a apreensão do documento e condenar B. em multa, se este não tiver efetuado a entrega, nem tiver prestado nenhuma declaração, ou quando declarar que não possui o documento, o requerente provar que a declaração é falsa (art. 433.º CPC). Necessidade de contrato escrito - (art. 364.º/2 CC)

Meios de prova requeridos por B.: o rol de testemunhas e o requerimento

probatório a solicitar a inspeção judicial deveria ter sido apresentado por B. no final da contestação (art. 572.º/d) CPC).

a) Se o rol de testemunhas tiver sido apresentado na contestação, B. pode aditá-lo ou alterá-lo até 20 dias antes da data de realização da audiência final, sendo A. notificado para usar de igual faculdade, no prazo de 5 dias (cf. art. 598.º/2 CPC). Neste caso, incumbe à parte (B.) a apresentação das testemunhas indicadas em consequência do aditamento ou da alteração ao rol (art. 598.º/3 CPC). Mas se B. não tiver apresentado o rol de testemunhas na contestação, já não poderia fazê-lo agora na audiência prévia, pois seria extemporânea a sua apresentação.

b) Se a inspeção judicial tiver sido requerida na contestação (art. 552.º/2 aplicável ex vi o art. 583.º/1 CPC, pois a inspeção visava preencher o ónus de prova dos factos alegados por B. na reconvenção), ainda assim o juiz poderá entender que não justifica a perceção direta dos factos pelo tribunal, face à natureza da matéria, e pode incumbir técnico ou pessoa qualificada de proceder aos atos de

inspeção de coisas ou locais ou de reconstituição de factos e de apresentar o seu relatório trata-se das verificações não judiciais qualificadas previstas no art. 494.º CPC. Já se B. não tiver requerido a inspeção judicial na contestação, seria extemporâneo requerê-la na audiência prévia.

- Admita que na sentença, o juiz julga totalmente improcedente a ação de A., por não se ter provado os factos que subjazem à coação moral. E em relação ao pedido de B., condena A. no pagamento da quantia de € 50.000,00 (cinquenta mil euros) e ainda no valor de € 1.000,00 (mil euros) a título de juros de mora vencidos, à taxa legal. Analise o teor da sentença (4 valores)

Em face dos articulados apresentados, importa verificar quais os factos essenciais alegados e a provar por A. e por B. (ónus de alegação e ónus de prova): A. tem o ónus de provar (i) a celebração do contrato de arrendamento através de documento escrito (art. e 364.º/2 CC - formalidade ad probationem) e (ii) o facto de apenas ter celebrado o contrato porque tinha um revólver apontado à cabeça (empunhado por C.), ou seja, por coação moral (art. 342.º/1 CC petição inicial); já B. tem o ónus de provar os problemas de conservação em que se encontrava o imóvel e que justificaram o pagamento de €50.000,00 (cinquenta mil euros) em reparações (art. 342.º/1 CC - reconvenção).

Da sentença resulta que A. não conseguiu preencher o ónus de prova em relação aos factos que subjazem à coação moral, o que é suficiente para justificar a decisão de considerar improcedente o pedido de A., pois a decisão deve ser desfavorável em relação à parte que não conseguiu preencher o ónus de prova.

Mas a sentença omite os fundamentos de facto e de direito que justificam a condenação de A. no pagamento da quantia de € 50.000,00 (cinquenta mil euros) e ainda no valor de € 1.000,00 (mil euros) a título de juros de mora vencidos, o que, por um lado, viola o princípio do processo equitativo (art. 20.º/4 CRP), do qual emana o direito ao recurso, o qual só pode ser exercido de forma cabal se o juiz cumprir o dever de fundamentação da decisão. Tanto mais que A., ao ter negado a realização de

quaisquer benfeitorias no imóvel, se o fez na réplica (art. 584.º/1 CPC), preencheu o ónus de impugnação em relação ao pedido reconvencional de B. (art. 574.º, aplicável ex vi o art. 587.º CPC), o que deveria impedir o juiz de dar o facto admitido por acordo. A falta de especificação dos fundamentos de facto e de direito que justificam a decisão constitui uma causa de nulidade da sentença (art. 615.º/2/b) CPC).

Por outro lado, o facto de o juiz ter condenado B. no pagamento de € 1.000,00 (mil euros) a título de juros de mora vencidos, à taxa legal, apesar de A. não ter formulado tal pedido (e poderia faze-lo até ao encerramento da discussão em 1.ª instância, nos termos do art. 265.º/2, o que constituiria uma cumulação de pedidos sucessiva subsidiária imprópria ou simples/real), constitui uma violação do princípio do dispositivo, pois o juiz deve ater-se à factualidade alegada e provada e respeitar os limites do efeito prático-jurídico pretendido (art. 609.º/1 CPC), e origina a nulidade da sentença por excesso de pronúncia (art. 615.º/2/d) e e) CPC).

5ª- Admita, agora, em hipótese diversa da anterior que naquela sentença o juiz julga totalmente improcedente a ação de A., por não se ter provado os factos que subjazem à coação moral. E em relação ao pedido de B., condena A. no pagamento da quantia de € 48.000,00 (quarenta e oito mil euros). Analise as hipóteses de recurso de A e de B e as implicações da interposição e admissão dos mesmos. (3 valores)

Trata-se de uma sucumbência bilateral. Identificação das decisões em causa.

Decisões

que

põem

termo

ao

processo

admitem

recurso

legitimidade por quem nelas sucumbe.

de

apelação

e

Contudo, o valor da sucumbência apenas permite recurso de apelação independente a A. Este pode recorrer quer da parte da sentença que absolveu B , quer da parte da sentença que o condenou parcialmente no pedido reconvencional, uma vez que o valor da ação o permite e o da sucumbência também.

B não pode apelar de modo independente uma vez que apenas sucumbiu em 2000, 00 euros e teria de ter sucumbido em mais de metade da alçada de primeira instância (+ de 2500,00). Contudo, se A. recorrer da decisão de condenação no pedido reconvencional B poderá interpor apelação subordinada. (distinguir recurso

independente e subordinado e indicar princípio da igualdade das partes como fundamento para esta solução)

O efeito de qualquer um dos recursos é devolutivo (explicar o que significa), exceto se o juiz fixar efeito suspensivo em função do prejuízo que o A. possa alegar ter com os efeitos imediatos da decisão (de condenação), mas para o lograr terá de prestar caução.

II.

Comente a seguinte afirmação: A solução da inversão de contencioso é determinada pelo reconhecimento de que num processo sumário o decisor também pode atingir uma convicção segura sobre a existência do direito acautelado. Mas é precisamente por haver consenso neste ponto de partida que temos grande dificuldade em perceber e aceitar a solução

oferecida com esta técnica.(4 valores)

Explicar em que consiste a técnica da inversão de contencioso, incluindo todos os pressupostos.

Explicar que o processo cautelar é um processo sumário e quais os traços caraterísticos de um processo sumário.

Explicar que no processo sumário é possível atingir vários graus de convicção, designadamente a certeza. (prova stricto sensu)

Explicar que atingida a certeza (convicção segura sobre a existência do direito acautelando) nada mais há que reste para um processo de cognição plena, pelo que é inútil a instauração de uma ação subsequente ainda que pela mão do requerido e não do requerente. Duplicação de meios processuais; possibilidade de critica da convicção do juiz nesse processo por outro juiz da mesma hierarquia.

Comparação com outras soluções processuais mais eficazes. (antecipação da decisão do mérito causa em processo cautelar)