Você está na página 1de 19

Anotações de Aula

Introdução ao Estudo do Direito

Prof. Rodolfo Arruda


Curso de Direito
Faculdade de Americana - FAM

Americana - 2008
Observação preliminar:

Estas anotações, feitas em caráter de esboço, tem como objetivo tão somente orientar e complementar
os conteúdos apresentados em sala de aula, de modo a explicitar as matérias abordadas e servir como
um guia para os estudos dos alunos. Não devem, portanto, substituir a leitura e o aprofundamento dos
livros já indicados. Por conta de sua natureza provisória, o trabalho também está sujeito a imperfeições
e desde já assumimos a necessidade de futuras correções e complementações.
Sugestões, complementações, críticas e correções são muito bem vindas e podem ser enviadas para o e-
mail:

rodolfoarruda1@yahoo.com.br
Natureza da Disciplina de IED

Cabe neste início de curso trazer algumas definições que explicam e explicitam a natureza e o
objeto de estudo da disciplina de Introdução ao Estudo do Direito.

Podemos citar quatro características que nos informam as linhas gerais do conteúdo da
disciplina e de sua proposta constitutiva.

Uma disciplina propedêutica –

A palavra propedêutica indica ensino preparatório, conjunto de atividades preparatórias para um


ofício ou estudo. De modo semelhante, podemos dizer que a disciplina de IED tem a mesma função, ou
seja, que a sua proposta é auxiliar o ingresso do estudante no universo jurídico, oferecendo uma visão
ampla do Direito que possa ajudá-lo em outros estudos mais específicos. Desta maneira, a disciplina
apresenta conceitos, divisões e discussões comuns ao Direito, de modo a familiarizar o estudante na
terminologia do universo jurídico e apresentar elementos que possam facilitar o entendimento de outros
ramos do Direito. Na definição de Diniz1:

é uma disciplina que visa fornecer uma noção panorâmica da ciência que cuida
do fenômeno jurídico, propiciando a compreensão dos conceitos jurídicos
comuns a todas as disciplinas do curso de direito (Diniz, 2001).

Não possuí Objeto de estudo específico–

Diferente de outros ramos específicos do Direito, tais como Direito Penal e Direito
Constitucional (que possuem objeto específico de estudo, como, por exemplo, Direito Penal: a pena e o
conceito de crime; Constitucional, a Constituição e a organização do Estado), IED não possuí um
objeto específico de estudo, uma matéria própria que ela cuida. Em sentido diverso, ela estuda
materiais de outras áreas tentando compreender o que existe de científico nos outros saberes de modo a
elaborar uma compreensão ampla da ciência jurídica (Diniz, 2001).

1
Maria Helena Diniz. Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. 13ª edição. Rio de Janeiro, Saraiva, 2001.
Enciclopédica e Epistemológica –

Tal como as enciclopédias, ela reúne conhecimentos de todas as áreas, basicamente com
definições de termos, conceitos e princípios que informam o universo jurídico.
Epistemológica, porque discute cientificamente como se formam esses saberes jurídicos (avalia
do ponto de vista filosófico se os conceitos do direito estão de acordo com definições lógico-científicas,
se eles estão estruturados de modo a formar um conjunto de conhecimentos, ou seja, de saberes
sistematizados).

Justifica-se por seu caráter didático –

Na medida em que coloca o estudante em contato com a terminologia jurídica de modo crítico,
no modo como visa oferecer uma visão de conjunto do direito, na maneira com que chama a pensar o
Direito com rigor lógico e sistemático.

Conceitos Jurídicos Fundamentais

Após a apresentação destas características mais amplas da disciplina, prosseguimos na matéria


da disciplina abordando alguns dos conceitos jurídicos que são considerados fundamentais no estudo
do Direito nos cursos de IED.

O conceito de Direito

Como afirma M. H. Diniz (2001), todo conhecimento jurídico necessita de um conceito de


Direito. Isto significa que, para iniciarmos um estudo sobre o Direito, temos que possuir, previa e
necessariamente, um conceito ou uma idéia qualquer que nos informe o significado do Direito, ainda
que esta noção seja por demais vaga ou se demonstre equivocada num estágio mais avançado do
estudo.

Por ser uma palavra com múltiplos e infinitos significados, um conceito único e universal de
Direito não existe. Porém, mesmo diante desta limitação, é possível analisar alguns elementos que
compõem o termo que nos auxiliam a expandir o entendimento do seu significado.
Partindo de algumas noções comuns acerca do Direito, podemos visualizar, dentre muitos
significados, que o termo Direito ora designa a “norma”, ora a “autorização ou permissão” dada pela
norma de ter ou fazer o que ela não proíbe, ora a “qualidade do justo” (Diniz, 2001), dentre muitos
significados possíveis.

De modo mais exemplificativo teríamos:


a norma (ex: leis – artigos);
autorização, permissão para fazer algo (ex: habilitação para dirigir veículos);
qualidade de justo (ex: decisão ao caso concreto que foi considerada justa ou injusta);
ordem da autoridade (ex: pague e declare imposto de renda).

Todos são exemplos de usos possíveis para o termo Direito, mas temos ainda outras divisões
interessantes. Montoro (2005), por exemplo, realiza sua investigação do conceito de Direito a partir da
origem da palavra, também chamada de etimologia.

Nos diferentes idiomas Droit (francês), Diritto (italiano), Derecho (espanhol), Recht (alemão) e
Right (inglês), em todos os termos, como se pode observar pela semelhança, podemos encontrar uma
origem comum em um vocábulo do latim: directum ou rectum, que significa o que é conforme a uma
régua.

Ao lado deste conjunto de palavras, também temos a palavra jus, que dá origem ao termo
Direito, mas possuí outro conjunto de significados. Jus pode ser considerado uma variação de Justum,
que corresponde àquilo que é justo, ou conforme à justiça.

Como é possível notar, na própria origem do termo Direito, encontramos novamente noções
semelhantes que nos indicam as idéias de um ordenamento ou regramento, e a de justiça. Esta
diversidade de significados nos permite perceber o Direito como uma área do saber que possui não
apenas uma pluralidade de acepções, mas também uma multiplicidade de níveis de análise.

Seguindo a sugestão de Montoro, podemos indicar três níveis de análise:

• O Direito enquanto uma Teoria do Direito: a investigação que busca definir de forma ampla e
conceitual em que consiste o fenômeno jurídico;
• O Direito enquanto Técnica: o estudo das regras contidas no Direito que determinam o modo
como devem ser resolvidos e regulados os conflitos e os desequilíbrios da vida social;
• O Direito enquanto Ciência Normativa, enquanto um ramo específico das Ciências Humanas
que discute o sentido e o conteúdo das normas jurídicas, no sentido de regular condutas
humanas2.

Estabelecidos todos esses planos e diversidade de significados, podemos, em caráter didático


imposto pela disciplina, definir o Direito como:

o conjunto de normas que objetivam regulamentar o comportamento das


pessoas na sociedade. Essas normas são editadas pelas autoridades
competentes e prevêem, em caso de violação, a imposição de penalidades
pelos órgãos do Estado (Dimoulis, 2007).

Direito Positivo e Direito Natural

Uma das definições mais antigas que se apresenta ao estudo do Direito se dá entre Direito
Positivo e Direito Natural. Iniciamos por esta definição pois ela nos ajuda a delimitar nosso foco de
estudo.

Direito Positivo

O Direito Positivo é o conjunto de normas estabelecidas pelo poder político que se impõem e
regulam a vida social de um dado povo em determinada época. Também é entendido como o Direito
posto, ou seja, todo o conjunto de leis, regras, normas, conceitos e entendimentos que compõem o
arcabouço jurídico de uma sociedade.

Também se costuma atribuir ao Direito Positivo a qualidade de norma heterônoma. Uma norma
heterônoma é uma Lei que se impõe a toda a sociedade, mas que não depende diretamente da vontade
dos membros que estão a ela submetidos. É o caso do Estado, que produz normas que são válidas para

2
Esta distinção será explorada com mais profundidade em estágio mais avançado de nossa disciplina.
toda a sociedade.

Direito Natural

É o campo do Direito que cuida de discutir os princípios, os fundamentos que conformariam a


base do surgimento e da legitimação dos Direitos como um todo. O campo do Direito Natural investiga
qual a origem dos Direitos, em que fundamentos reside a sua legitimidade e qual a origem do poder
político da sociedade. Esta matéria é tratada de forma preferencial na disciplina da Filosofia do Direito.

Direito Objetivo e Direito Subjetivo

Dentro do campo do Direito Positivo, podemos encontrar uma divisão bastante tradicional que
classifica os Direitos em Objetivos e Subjetivos.

A distinção tem a sua razão de ser na medida em que na incidência das normas do ordenamento
jurídico nem sempre estão claramente definidas: quando podemos dizer que um indivíduo possui um
Direito, ou possui uma prerrogativa de agir por conta de uma Lei existente no ordenamento jurídico?

Direito Objetivo - é o complexo de normas jurídicas que regem o comportamento humano,


prescrevendo uma sanção no caso de sua violação. É a norma propriamente dita, com vigência e
eficácia.

Direito Subjetivo – é a permissão, dada por uma norma jurídica válida, para fazer ou não fazer alguma
coisa, para ter ou não ter algo, ou ainda, a autorização para exigir, por meio dos órgãos competentes do
poder público, o cumprimento da norma infringida, ou reparação do mal sofrido (Diniz, 2001).
É a prerrogativa colocada pelo direito objetivo, a disposição de um sujeito de direitos.
Também é chamado de facultas agendi – Faculdade de Agir

Exemplo: A Lei do Inquilinato é uma norma contida no Direito Objetivo. Num caso em que o inquilino
não paga o aluguel, essa infração gera um direito para o proprietário de pedir o despejo. O proprietário
possui a faculdade (Direito Subjetivo)– ele não é obrigado a agir de uma forma ou de outra.

M.H. Diniz também divide os Direitos Subjetivos em espécies:


• Comum da Existência: não dependem de violação do direito objetivo: Direito ao nome, ao
domicílio, ir e vir;
• Defender Direitos: são prerrogativas asseguradas pelo Direito de resistir contra a ilegalidade, a
faculdade de fazer respeitar os seus direitos subjetivos.

Direito Público e Direito Privado

A distinção entre Direito Público e Direito Privado surgiu inicialmente no Direito romano3. Para
os romanos, o Direito Público era o concernente aos negócios do Estado romano, enquanto o Direito
Privado era aquele, de caráter residual, que regulava o interesse entre particulares.

A divisão entre Direito Público e Direito Privado sempre foi objeto de divergência nas doutrinas
jurídicas. Até hoje não se encontrou um critério único e universalmente aceito para esta divisão.

Apesar da impossibilidade de se atingir tal critério, a divisão entre Direito Público e Direito
Privado é importante para estruturar o modo como o Direito é organizado. Ele é um critério que
contribui para a estruturação dos diversos ramos do Direito, ajuda a definir o campo de atuação de cada
um deles e fornecer uma visão ampla do conteúdo jurídico.

O critério inicialmente proposto pelos romanos era identificar o interesse ou utilidade do que era
regulado.

Interesse – utilidade:
• pública – visa a coletividade, diz respeito aos assuntos do Estado;
• privada – de interesse dos particulares, segue a vontade das partes, o Estado não tem interesse
em interferir.

3
Para uma referência sobre o Direito Romano, vide José Carlos Moreira Alves, Direito Romano Vol. I, II. Como referência
ao período histórico, podemos citar a maior compilação da experiência jurídica romana, o Corpus Júris Civilis, que data de
534 (século VI) e foi retomado como objeto de estudo a partir do século XI na Itália, e, posteriormente na Alemanha,
sobretudo no século XIX.
A principal crítica referente à distinção romana encontrava-se nos casos em que o critério não
funcionava.

Há situações em que o critério da utilidade ou interesse pode aparecer nas duas partes, casos em que
o interesse pertence tanto à coletividade quanto aos particulares. O critério falha porque existem
situações nas quais não é possível decidir quem é o interessado na parte.

Ex: no Direito de Família, existe tanto um interesse dos particulares em regular a relação, como há
interesse do Estado em definir normas a estes particulares.

Vejamos então os critérios que foram utilizados para distinguir direito público e direito privado e
que tipo de críticas esses elementos sofreram:

Quanto ao conteúdo:

• Quando objeto da relação jurídica é de interesse público, visa a coletividade


• Quando prevalece o interesse particular

Neste critério é importante observar o objeto da relação jurídica. Um exemplo é o caso dos serviços
de Telefonia, de Energia Elétrica e Saneamento Básico. Por se tratar de serviços fundamentais a
toda a coletividade, devem ser regulados por normas de Direito Público.

Quanto à forma:

• relação de coordenação – as partes se encontram numa situação de igualdade


Ex: contrato de compra e venda entre particulares, as partes buscam realizar a sua vontade sem
interferência do Estado.
• relação de subordinação – uma das partes possui uma posição de superioridade
Ex: Direito Tributário: o Estado ocupa uma posição superior, ele exige um comportamento dos
particulares, não há negociação entre as partes.

A tendência atual é que a divisão seja feita com critérios que articulam estes dois critérios,
dando ênfase na natureza das partes e no papel em que elas ocupam na relação jurídica.

Ex: o Estado que atua como particular numa relação de compra e venda não pode se beneficiar
de sua natureza de ente jurídico superior – deve seguir o direito privado no que toca ao contrato
específico no qual ele toma parte.

Com base nestes critérios, podemos apresentar as seguintes definições:

Direito Público – é aquele que regula relações em que o Estado é parte, regendo a organização e
atividade do Estado considerado em si mesmo, em relação a outro Estado e em suas relações com
particulares, quando procede em razão de seu poder soberano e atua na tutela do bem coletivo.

Direito privado – é o que disciplina relações entre particulares, nas quais predomina, de modo
imediato, o interesse de ordem privada.

Ramos do Direito

Cumpre nesta etapa do curso expor de forma esquemática alguns dos principais ramos do Direito. Esta
atividade tem a função tanto de fornecer uma visão panorâmica dos conteúdos do Direito, como serve
também para ilustrar a própria discussão sobre a classificação entre Direito Público e Direito Privado
que acabamos de realizar.

Quadro da Distinção:

• Direito Público

o Direito Público Interno


Direito Constitucional
Direito Administrativo
Direito Tributário
Direito Processual
Direito Penal

o Direito Público Externo


Direito Internacional Público
Direito Internacional Privado

• Direito Privado
o Direito Privado Comum
Direito Civil

o Direito Privado Especial


Direito Comercial
Direito do Trabalho

Direito Público

Direito Público Interno

De modo geral, é entendido como o conjunto de normas que regulam internamente a estrutura
básica e funcional do Estado, disciplina a sua organização, modo de funcionamento e estrutura política.

Direito Constitucional

O Direito Constitucional consiste no conjunto de normas que regem e estruturam a forma, o


funcionamento e a organização do Estado.

Visa regulamentar a estrutura básica do Estado, disciplinando a sua organização ao tratar da


divisão dos poderes, das funções e limites de seus órgãos e das relações entre governantes e
governados, ao limitar suas ações (M.H. Diniz).

Dentre outros pontos, a matéria regulada pelo Direito Constitucional aborda:


A Disciplina e a Forma do Estado e seu regime político.
Exemplo: Art. 1° da Constituição Federal: “A República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de
Direito...”.
Dispõe sobre a organização dos Poderes do Estado e sua competência – Ex: quando fixa a
estrutura e a competência dos Órgãos do Estado: Supremo Tribunal Federal, Superior Tribunal de
Justiça, Tribunais Regionais Federais, etc.

Direitos e Garantias Fundamentais – Ex: art. 5.º da Constituição Federal: direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança, à propriedade, e demais.

Questões de Constitucionalidade – matéria que trata de casos de inconstitucionalidade das leis


e/ou incompatibilidades na hierarquia das leis.

Direito Administrativo

Ramo do Direito autônomo que se desdobrou do Direito Constitucional, destinado a regular a


atividade de administração da esfera pública. Incide sobre os atos administrativos praticados por
agentes do Estado.

Desdobra-se em diversos setores, dentre eles:


Normas de organização administrativas, cujo objetivo é disciplinar a atividade dos órgãos da
Administração Pública, em seus diversos níveis: Federal, Estadual, Municipal, Autarquias, etc.
Normas relativas a serviços públicos e de utilidade pública: regulamentação, fiscalização,
permissão ou concessão de serviços públicos.
Regulamentação dos direitos e deveres dos servidores públicos, enquanto sujeitos que possuem
direitos e obrigações adicionais face aos cidadãos comuns, no que compete ao seu status diferenciado.

Direito Tributário

O Direito Tributário é o ramo que tem por objeto de regulamentação as despesas e as receitas do
Estado. É também o ramo do Direito destinado a tratar com toda matéria que aborda tributos: sua
instituição, arrecadação e fiscalização.
Consiste num ramo autônomo que se desmembrou do Direito Administrativo (Montoro, 2005),
devido a sua importância e grau de especialização.

Tem como principal instrumento de sua realização as Leis Orçamentárias, cujas diretrizes estão
fixadas em Seções próprias da Constituição Federal (art. 165)

Direito Processual

É o ramo do Direito que compreende as normas destinadas a regular a atividade do Poder


Judiciário. É constituído pelas normas de organização judiciária, que regulam, dentre outros tópicos, as
condições da ação, o exercício e a competência dos Juízes, definição de Jurisdição, etc.

Neste ramos encontramos normas processuais que regulam a ordem dos atos sucessivos de um
processo, disposição sobre prazos, despesas judiciais, etc.

Ex: em Processo Civil, dentre outros assuntos, temos: petição inicial, citação, contestação,
provas, audiência de instrução, julgamento, sentença. Em Processo Penal: ação penal, interrogatórios,
julgamento, execução da sentença.

Direito Penal

Ramo do Direito Público que regula a atividade repressiva do Estado, definindo crimes e
determinando penas e medidas de segurança aplicáveis.

É considerado um ramo de Direito Público porque regula uma atividade essencialmente pública,
que é o poder repressivo, ou, chamado de outra forma, o Direito de Punir.

O poder repressivo é uma atividade pública porque somente o Estado é o titular legítimo do
Direito de Punir.

Direito Público Externo: é o conjunto de norma disciplinadoras das relações entre os Estados. São
normas que têm a intenção de valer para todos os Estados, de forma igualitária.
Direito Internacional Público

É o conjunto de normas consuetudinárias, ou seja, aquelas normas oriundas da tradição ou do


costume a respeito de um assunto, que regem as relações entre Estados e organismos internacionais
(ONU, UNESCO, OIT, etc.). Por valer de forma igual a todos os membros, seu modo de regulação
consiste em relações de coordenação, uma vez que, pelo menos do ponto de vista de seus princípios,
todos os Estados possuem um mesmo status.

É formada principalmente pelo conjunto de Tratados, Acordos, Convenções Internacionais,


assim como por costumes e tradições das relações internacionais entre os diversos países. É importante
frisar que estas normas não podem ser consideradas Leis em stricto senso, uma vez que não existe um
Órgão de soberania internacional que seria capaz de regular nos moldes convencionais a ação dos
Estados enquanto atores particulares, tais como os Estados regulam seus membros em caráter interno.

Direito Internacional Privado

Regulamenta as relações do Estado com os cidadãos pertencentes a outros Estados, dando


soluções para os conflitos de leis no espaço.

Englobam principalmente os conflitos de jurisdição, que tratam questões de nacionalidade,


domicílio da pessoa, determinar que Leis de determinado Estado devem valer para situações
envolvendo sujeitos de diferentes países.

Obs: a inclusão do Direito Internacional Privado no campo do Direito Público Externo é


controversa. Outros autores preferem classificá-lo como um ramo do Direito Privado Especial
(Montoro, 2005), ou como Direito Público Interno (Dimoulis, 2007). Adotamos aqui o posicionamento
de M.H. Diniz, por considerar que muitas das suas normas são imperativas de ordem pública.

Direito Privado

O Direito Privado é o ramo que tem por função principal regulamentar a situação jurídica e as
relações entre particulares (pessoas físicas e pessoas jurídicas de direito privado) (Dimoulis, 2007). Os
princípios que o estruturam são: a igualdade entre os sujeitos que participam da relação jurídica privada
e a primazia da liberdade individual.

Direito Privado Comum

Direito Privado Comum é assim denominado porque disciplina as relações jurídicas ou os


direitos e deveres de todas as pessoas, enquanto pessoas, e não na condição especial de comerciante,
consumidor, empregado, estrangeiro, etc. (Montoro, 2005).

Direito Civil

É, pois, o ramo do direito privado destinado a reger relações familiares, patrimoniais e


obrigacionais que se formam entre indivíduos encarados como tais, ou seja, enquanto membros da
sociedade (Diniz, 2001).

São relações pessoais (relativas à pessoa, enquanto sujeito privado de direitos) relativas ao
estado e à capacidade do indivíduo de criar, modificar, contrair, extinguir relações jurídicas.

É comum a todas as pessoas, por disciplinar o seu modo de ser e agir, sem quaisquer referências
às condições sociais ou culturais específicas.

Ex: em diversas profissões, os indivíduos possuem estatutos especiais (comerciantes, industriais,


funcionários públicos, médicos, advogados, etc), mas todos possuem uma natureza comum a todos os
homens, e estão, portanto, submetidos ao direito civil. Casamento, nascimento, morte, etc. são
exemplos de fenômenos regulados pelo direito civil que constituem atividade elementares da vida
humana.

Alguns princípios basilares que norteiam o conteúdo do Direito Civil, segundo M.H. Diniz:
personalidade, autonomia da vontade, liberdade de estipulação negocial, propriedade individual,
intangibilidade familiar, legitimidade da herança e do direito de testar, solidariedade social.
Direito Civil
• Parte Geral
o Pessoas
o Bens
o Fatos Jurídicos em sentido amplo4

Segunda M.H. Diniz, podemos ressaltar três funções para a parte geral:

a) fixar conceitos, categorias e princípios que possuem reflexos em todo ordenamento jurídico. são
conceitos que, na ausência de normas específicas, regulam a atividade jurídica dos fatos sociais.

b)contém normas relativas ao sujeito, ao objeto e ao modo de criar, modificar e extinguir direitos

c) estabelecer os pressupostos da relação jurídica e de sua validade, existência e modificação.

4
A parte Geral do Código Civil que cuida do Fato Jurídico visa abordar o modo como surgem, se modificam e se extinguem
os direitos. Apenas de modo ilustrativo apresentamos o quadro para fornecer um panorama desta regulamentação.

• Fato Jurídico (em sentido amplo):

o Fato jurídico stricto sensu – não dependem da vontade humana


Ordinário – morte, nascimento, menoridade, aluvião, avulsão;
Extraordinário
• Força maior
• Caso fortuito;

o Ato Jurídico – dependem da vontade humana: surge do efeito da lei em relação a atos praticados por
particulares no exercício de sua vontade;
Negócio Jurídico – é o poder de auto regulação dos interesses que contém a enunciação de um
preceito – contrato, testamento – as partes buscam realizar o interesse e revestem o seu ato de
formalidades que dão validade ao ato;
Ato Jurídico em sentido estrito
o Ato Ilícito : atos praticados que estão em desacordo com a ordem jurídica, que violam o direito subjetivo
de outrem, que criam o dever de reparar a situação.
Atos lesivos que não são ilícitos
• Legítima defesa
• Exercício regular de um direito
• Estado de Necessidade

Fonte: Maria Helena Diniz (2001), Compêndio de Introdução à Ciência do Direito.


• Parte Especial

o Direito de Família

o Direito das Coisas

o Direito das Obrigações

o Direito das Sucessões

Além das partes Geral e Especial, compõe a matéria do Direito Civil o estudo da Lei de
Introdução ao Código Civil.

A Lei de Introdução do Código Civil (também referida como LICC) contém normas sobre
normas, regulando a maneira de aplicação e entendimento, predeterminando as fontes de direito
positivo, indicando-lhes as dimensões espaço-temporais (Diniz, 2001).

Dentre as funções da LICC, M.H.Diniz destaca:

• Regulam a vigência e eficácia da norma, oferecer soluções para o conflito de normas no tempo
e no espaço;

• Critérios de hermenêutica;

• Mecanismos de integração de normas;

• Garantir a eficácia, a certeza, a segurança e a estabilidade da ordem jurídica.

É importante frisar que muitos autores (Diniz, 2001; Reale, 2007) consideram que a LICC é
considerada uma Lei que ultrapassa o âmbito do Direito Civil, dando embasamento para outros ramos
do Direito.
Direito Privado Especial

São considerados Especiais por estabelecer critérios específicos para ramos e atividades
próprias no campo do Direito Privado.

Direito Comercial

Disciplina a atividade negocial, de pessoa física ou jurídica, destinada a fins de natureza


econômica, habitual e dirigida à produção de resultados patrimoniais.

Atos de Comércio: há mediação e objetivo de lucro nas relações jurídicas – a princípio são relações
jurídicas civis que, por sua especificidade, ganham estatuto de comerciais.

há diversas teorias que visam explicar o correto entendimento do conceito de Atos de Comércio.

destacam-se neste ramo a natureza econômica (não é de consumo próprio, por exemplo)
habitual e dirigida para resultados patrimoniais.

Direito do Trabalho

Disciplina as relações de trabalho (entre empregador e empregado) relativas à organização do trabalho


e da condição social do trabalhador.

Este é um exemplo que alguns autores classificam o ramo do Direito do Trabalho de Direito Difuso.

O Direito Difuso é considerado um direito pertencente à coletividade: ele não se caracteriza como um
Direito Público de caráter estatal, nem como um privado pertencente aos sujeitos privados.

Ele atua como um princípio geral que limita a capacidade de contratar dos sujeitos na esfera privada.

Exemplo: normas referentes à categorias profissionais que garantem um piso salarial: são princípios
que não são considerados de Direito Público (não representam o interesse do Estado) e não são
considerados de Direito Privado, pois não são direitos de particulares. Eles atuam de modo a limitar a
vontade das partes, mitigando o princípio da autonomia da vontade no direito civil.