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"Estamos nos tornando uma teocracia",

diz Harold Bloom


MARCELO PEN
Crítico da Folha de S.Paulo

Com uma voz cansada e melodiosa, que busca angariar afeição; expressando
arrependimento por nunca ter visitado o Brasil e alegando que agora, aos 75 anos
recém-completados, a longa viagem seria muito difícil, se não impossível: é assim que o
crítico Harold Bloom atende ao telefonema da Folha, em sua casa de New Haven,
Connecticut.

Mas que o leitor não se engane. O americano tranqüilo, que chama o entrevistador quase
o tempo todo de "meu querido" ("my dear"), é um crítico furioso. Dispara bem mais do
que farpas contra o que ele chama de "fascismo de direita e de esquerda" nos Estados
Unidos, um tipo de "puritanismo" que teria origem em Platão.

A contracultura --hoje a "cultura oficial"-- estaria promovendo uma caça às bruxas,


deitando à fogueira autores como Emerson e Shakespeare, enquanto louva outros por
causa de "pigmentação da pele e a orientação sexual", dentre fatores menos literários.
Entrementes, George, ou, melhor dizendo, "Benedito" Bush, lidera a "plutocracia"
americana em sua sanha contra o que é minimamente dotado de inteligência --seja no
Oriente Médio, seja em sua terra natal.

Parte dos ataques está em "Onde Encontrar a Sabedoria?" (Objetiva, tradução de José
Roberto O'Shea, 320 págs., R$ 44,90), conjunto de ensaios que procura retomar o
debate sobre a suposta incompatibilidade entre filosofia e literatura, em voga pelo
menos desde que Platão expatriou Homero (e os poetas) de sua República utópica.

E a polêmica nos Estados Unidos deve continuar, conforme prevê o próprio Bloom, com
o lançamento por lá de "Jesus e Jeová", que sugere que os últimos dois mil anos de
religião ocidental, no mínimo, estiveram baseados numa impostura. Segurem os cintos.

Folha - Ao referir-se ao "Eclesiastes", o senhor diz que, após os 70, poucos deixam
de sentir um calafrio diante do ritmo repetitivo desse texto bíblico. Certas obras de
arte só podem ser inteiramente apreciadas com a idade?

Harold Bloom - Fiz 75 anos este verão e um dos meus alunos me perguntou isso,
quando estava ensinando Walt Whitman. Eu havia dito que, ao ficar mais velho,
adquiria um entendimento cada vez mais profundo do motivo pelo qual sua grande
elegia é tão vibrante e poderosa. Não acho que seja a consciência da mortalidade
próxima. Creio que é simplesmente um tipo de "perspectivismo" que ocorre quando
envelhecemos --que não resulta do processo de envelhecimento, mas do fato de termos
mais tempo acumulado de leitura, de releitura, de coisas memorizadas. É como ocorre
com pessoas que conhecemos há muito tempo e, de repente, vemos algo nelas que não
vimos antes. Assim também é com os livros.

Folha - Poderia explicar o que quer dizer com a "Era do Ressentimento"?


Bloom - No mundo de língua inglesa, desde o final dos anos de 1960, os estudos
literários ficaram mais politizados. O que ocorre nas universidades, hoje em dia, da
Austrália aos Estados Unidos, da Grã-Bretanha à Nova Zelândia, é que as obras
literárias utilizadas para o estudo são escolhidas, não porque são esteticamente mais
poderosas ou porque são mais sábias. O intelecto, a sabedoria e a beleza são substituídos
por considerações acerca da orientação sexual, gênero, pigmentação da pele, etnicidade
e assim por diante. É isso que quero dizer quando me refiro a Ressentimento com "R"
maiúsculo. Obviamente, estou jogando com o uso que Nietzsche fez do termo francês
"ressentiment", as instâncias do "ressentiment".

Folha - O senhor sugere que há um legado de Platão nessa ideologia.

Bloom - Ah, sim, é o tipo de puritanismo que hoje percorre as instituições de ensino. É
hipócrita, é claro. A campanha contra o abuso sexual, por exemplo. Em última instância,
tudo tem origem em uma grande figura, cognitiva e esteticamente forte em sua beleza e
sabedoria como nenhum outro escritor jamais foi, que é Platão. Profundamente
ressentido contra Homero, porém, desde "A República" até as "As Leis", foi se tornando
cada vez mais puritano, cada vez mais moralista, mais e mais depreciador do estético
em sua tentativa desesperada de exilar os poetas da república, porque acusa Homero de
contar mentiras, de não ensinar aos cidadãos do Estado as virtudes apropriadas. Em
resumo, embora possa parecer que quero fazer uma indevida relação com o século 20,
Platão tornou-se mais fascista. O que acho muito ruim sobre os Estados Unidos hoje em
dia é o fato de termos um fascismo de direita e um fascismo de esquerda. Temos o
fascismo da contracultura que hoje se tornou a cultura oficial e que insiste em fazer seus
julgamentos com base num slogan, que ela chama de pós-colonialismo. Por outro lado,
temos, é claro, um regime belicoso, nos Estados Unidos, que devasta o Iraque, explora
os cidadãos pobres, especialmente os negros. Não foi por acaso que toda aquela pobre
população desesperada, sem carro, que não pôde fugir de Nova Orleans, fosse composta
por negros. Não que o Brasil seja muito diferente, em relação a este último ponto, pelo
que me contam meus amigos brasileiros, pois parece haver uma grande população
negra, explorada e miserável, no seu país. Na verdade, nunca fui ao Brasil, a despeito
dos vários convites que recebi, e me arrependo disso, pois agora estou muito velho para
ir. Não sei se vocês, em sua arena política, tenham alguém que seja tão péssimo quanto
o presidente Bush.

Folha - Talvez não tão poderoso.

Bloom - Pelo que sei seu presidente reformista mostrou-se um tanto dúbio, não é?

Folha - As notícias sobre a crise política brasileira chegaram ao senhor?

Bloom - Receio que haja uma longa tradição de coisas como essas ocorrendo em nossos
países. A corrupção grassa em qualquer lugar. Creio que aí foi corrupção financeira.
Com raríssimas exceções, um presidente é sempre mais trapaceiro do que o anterior. É
muito triste ter ocorrido isso num momento em que o Brasil precisa tão
desesperadamente de um reformista. Aqui, nunca nos livraremos deste.

Folha - Por quê?


Bloom -- Acho que em janeiro de 2009, nosso novo presidente da Suprema Corte [John]
Roberts se postará radiante perto do primeiro presidente Bush, do segundo presidente
Bush e da sacrossanta mãe Barbara, todos igualmente radiantes, enquanto Jeb Bush, o
governador da Flórida, sagrar-se-á presidente. Os Estados Unidos são hoje uma
oligarquia e plutocracia, pior do que qualquer coisa possa haver no Brasil. E também
estamos nos tornando uma teocracia.

Folha - Em seu livro, o senhor afirma que a oligarquia e a plutocracia tomaram o


lugar da democracia.

Bloom - A verdadeira perspectiva do que hoje ocorre na América foi prevista pelo
governador e senador da Louisiana no final dos anos de 1920 e início de 1930, Huey
Long. Pouco antes de morrer, assassinado, em 1935, ele disse: "Claro que teremos
fascismo na América, mas nós a denominaremos democracia". É isso o que está
ocorrendo aqui. Gosto de me referir a nosso presidente atual como Benito Bush.

Folha - O senhor parece ter dúvidas sobre pensadores de corte moral como Platão
e Pascal. Acha que eles sempre se dispõem contra a natureza humana, tal como é
descrita por Montaigne e Shakespeare?

Bloom - Você pode pôr Shakespeare em oposição a Platão e Montaigne em oposição a


Pascal. Shakespeare e Montaigne são verdadeiros humanistas, ao passo Pascal não se
importa com a liberdade humana; para ele, tudo é Deus, assim como para Platão,
embora o deus platônico seja um tanto estranho.

Folha - Acha que a sabedoria passa melhor sem a moral?

Bloom - O ideal seria se as duas pudessem coexistir. Mas, como está, acho que todos
nós passaríamos bem melhor se pudermos manter a sabedoria ideal o mais longe
possível tanto da religião quanto do moralismo.

Folha - O senhor é religioso?

Bloom - Creio que sou religioso, mas de um modo herético. Acho que em algum lugar,
além deste reino, além do nosso cosmo, haja um sonho em exílio, um princípio divino, e
acho que há um fragmento disso em cada ser humano, mas este se acha enterrado tão
fundo, tão oculto no cerne pétreo do ser, que é impossível de ser escavado. Venho
meditando bastante a esse respeito, pois há um livro meu que vai me causar problema
quando for lançado, em duas semanas. Chama-se "Jesus and Yahweh: The Names
Divine" (Jesus e Jeová: Os Nomes Adivinham).

Folha - Qual será a polêmica?

Bloom - Em essência, o livro defende que não há relação nenhuma entre o mais ou
menos histórico Jesus de Nazaré; o deus grego holístico dos mistérios, o teológico Jesus
Cristo, e o demasiado humano Deus hebraico Jeová. Isso significa que os últimos dois
mil anos de religião ocidental são uma farsa, sobretudo nos EUA, porque somos cada
vez mais uma sociedade tão teocrática quanto a do Irã.

Folha - Por que afirma que o livro de Freud, "O Mal-Estar na Civilização" pode
estar ultrapassado?

Bloom - Não está ultrapassado como análise de nossos papéis como seres humanos, mas
parece fora do contexto social, que estava ainda embebido na cultura de Goethe, a idéia
de crescimento individual, de moldar o caráter e o intelecto por meio da educação: acho
que isso acabou quase em definitivo. A idéia do crescimento humanista do indivíduo por
meio do conhecimento, a possibilidade de uma cultura mais alta, o aumento da
civilização, isso tudo tem muito pouco a ver com o século 21. O que "Bildung" significa
hoje nos Estados Unidos, que elegeu ... chamá-lo semi-analfabeto seria um elogio, não
acho que ele tenha lido um só livro em toda a vida? Na verdade estamos na Idade da
Tela: os jovens crescem vidrados na tela da TV, na tela do computador, do cinema. Na
Idade da Tela, as pessoas não lêem de modo profundo e sério. E se não se lê profunda e
seriamente, não se raciocina muito bem. O pensamento depende da memória e o que
iremos lembrar se não lembramos o melhor do que foi escrito? Não sei quantos jovens
no Brasil hoje lêem Camus, quantos jovens italianos lêem Dante, quanto jovens alemães
lêem Goethe ou quantos jovens aqui lêem Walt Whitman. Acho que algo está ruindo. É
todo esse horrível fenômeno "Harry Potter", que não tem nada a ver com leitura. Parece
que estamos resvalando para o barbarismo, e esse fenômeno é universal.

Folha - Por que o senhor escolheu voltar a Jesus e a Santo Agostinho no final do
livro?

Bloom - Trata-se do Jesus heterodoxo do "Evangelho de Tomé". Agostinho decerto é


bastante ortodoxo, mas o que mais me interessa nele é o fato de ele ser o maior teórico
ocidental (maior do que Nietzsche ou Freud, nesse sentido) da natureza da leitura, do
que ocorre quando lemos, do papel da memória durante a leitura. É Santo Agostinho
como leitor que me fascina.

Folha - Foi por isso que o senhor resolveu comentá-lo no final.

Bloom - Sim, porque ele fornece o modelo da leitura, a qual corremos o risco de perder.

Especial
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