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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS

FACULDADE DE DIREITO DE ALAGOAS


CAIO LUCAS VALENÇA COSTA BUARQUE
EMANUEL VICTOR DUARTE BARBOSA
LEONARDO REGO QUIRINO
NERY TADEU MADEIRO TENORIO
RICARDO MELO

DIREITO ADMINISTRATIVO: RECONHECIMENTO DA EXISTÊNCIA DE


TETOS SEPARADOS

MACEIÓ
2018
CAIO LUCAS VALENÇA COSTA BUARQUE
EMANUEL VICTOR DUARTE BARBOSA
LEONARDO REGO QUIRINO
NERY TADEU MADEIRO TENORIO
RICARDO MELO

DIREITO ADMINISTRATIVO: RECONHECIMENTO DA EXISTÊNCIA DE


TETOS SEPARADOS

MACEIÓ
2018
Comentem tecnicamente e cientificamente a decisão em repercussão geral
do STF que reconheceu a existência de tetos separados no caso de acúmulo de
cargos permitidos na Constituição. Assim, um professor de uma federal ministro
poderá receber dois tetos, ou seja, 66 mil reais.

O Supremo Tribunal Federal, por maioria de votos, fixou tese de repercussão


geral, descrevendo que “Nos casos autorizados constitucionalmente de acumulação de
cargos, empregos e funções, a incidência do art. 37, inciso XI, da Constituição Federal
pressupõe consideração de cada um dos vínculos formalizados, afastada a observância
do teto remuneratório quanto ao somatório dos ganhos do agente público".

A tese foi discutida em contexto no qual o Plenário do STF negou provimento a


dois Recursos Extraordinários em que o Estado do Mato Grosso vinha a questionar
decisões do Tribunal de Justiça local, as quais seriam contrárias à aplicação do teto na
remuneração acumulada de dois cargos públicos exercidos pelo mesmo servidor.

Ao analisar os recursos em comento, o relator considerou inconstitucional a


interpretação em que o texto da Emenda Constitucional de nº 41/2003 passa a abranger
também situações jurídicas em que a acumulação é legítima. Segundo destacado pelo
ministro Marco Aurélio, pensar o contrário seria o mesmo que “o Estado dar com uma
das mãos e retirar com a outra”.

É fácil a percepção da importância da questão. Discussões envolvendo a


interpretação do limitador remuneratório estão presentes todos os dias na gestão dos
recursos públicos, nas mais diversas esferas da federação. Há evidente dificuldade da
Administração Pública em implementar controle efetivo da retribuição pecuniária dos
servidores públicos.

Ante os pilares da questão em comento, assume relevância fundamental o inciso


XI, do Art. 37, da Lei Fundamental, com alteração implementada, em 2003, pelo Poder
Constituinte Derivado:

“Art. 37. [...] XI - a remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e


empregos públicos da administração direta, autárquica e fundacional, dos membros
de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios, dos detentores de mandato eletivo e dos demais agentes políticos e os
proventos, pensões ou outra espécie remuneratória, percebidos cumulativamente
ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza, não
poderão exceder o subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal
Federal, aplicando-se como limite, nos Municípios, o subsídio do Prefeito, e nos
Estados e no Distrito Federal, o subsídio mensal do Governador no âmbito do
Poder Executivo, o subsídio dos Deputados Estaduais e Distritais no âmbito do
Poder Legislativo e o subsidio dos Desembargadores do Tribunal de Justiça,
limitado a noventa inteiros e vinte e cinco centésimos por cento do subsídio mensal,
em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, no âmbito do Poder
Judiciário, aplicável este limite aos membros do Ministério Público, aos
Procuradores e aos Defensores Públicos;”

Também assumem relevância os incisos XVI e XVII do artigo 37 do Diploma


Maior:

Art. 37. […]


“XVI - é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quando
houver compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no
inciso XI: a) a de dois cargos de professor; b) a de um cargo de professor com
outro técnico ou científico; c) a de dois cargos ou empregos privativos de
profissionais de saúde, com profissões regulamentadas.
XVII - a proibição de acumular estende-se a empregos e funções e abrange
autarquias, fundações, empresas públicas, sociedades de economia mista, suas
subsidiárias, e sociedades controladas, direta ou indiretamente, pelo poder
público;”

As dificuldades hermenêuticas do texto constitucional demandam soluções


harmônicas, a fim de que os dispositivos em jogo tenham a eficácia possível. Segundo o
Ministro Marco Aurélio, a regra do texto constitucional, relacionada ao teto
constitucional, revela um duplo objetivo.

Há, em primeiro plano, o intuito ético de impedir uma consolidação do que pode
ser visto como “supersalários”, sendo estes incompatíveis com o princípio republicano e
indissociável do regime remuneratório dos cargos públicos, em sua vedação à
apropriação ilimitada e individualizada de recursos escassos.
Entretanto, ainda seguindo posicionamento do Ministro Marco Aurélio, é
evidente a finalidade protetiva do Erário, com vistas a estancar o derramamento
indevido de verbas públicas. Portanto, o teto constitucional, quando observado e aliado
aos limites globais com despesas de pessoal, assume a relevante função de obstar gastos
inconciliáveis com a prudência no emprego dos recursos da coletividade.

O estabelecimento do teto constitucional e sua observância é, portanto, uma


busca à concretização dos princípios constitucionais sensíveis, além dos próprios
princípios administrativos positivados na Carta Maior.

Por outro lado, analisando-se hipóteses em que o legislador permite a


acumulação de cargos, é fato que estas não são estabelecidas em único benefício do
servidor, mas da coletividade. Ademais, em relação ao disposto no artigo 37, inciso XI,
da Lei Maior, relativamente ao teto, o mesmo não pode servir de desestímulo ao
exercício das relevantes funções mencionadas no inciso XVI deste. É uma ocasião que
repercute, até mesmo, no campo da eficiência administrativa.

O preceito concernente à acumulação estabelece que ela deve ser remunerada,


não admitindo a gratuidade, mesmo que parcial, dos serviços prestados. Ademais, ante a
potencial criação de situações contrárias ao princípio da isonomia, não se deve extrair
do texto constitucional conclusão a possibilitar tratamento desigual entre servidores
públicos que exerçam idênticas funções.

A própria incidência do limitador, tendo em vista o somatório dos ganhos, em


cargos legalmente acumuláveis, viabiliza retribuição pecuniária inferior ao que se tem
como razoável, presentes as atribuições específicas dos vínculos isoladamente
considerados e respectivas remunerações, sendo uma afronta à necessidade de proteção
dos valores sociais do trabalho.

O artigo 95, parágrafo único, inciso I, da Constituição Federal, veicula regras


quanto ao exercício do magistério por Juízes, de maneira que não se pode cogitar o
trabalho não remunerado ou por valores inferiores aos auferidos por servidores que
desempenham, sem acumulação, o mesmo ofício. Seria por demais ilógica a imposição
de exercício simultâneo, sem a correspondente contrapartida remuneratória.
Os argumentos apresentados figuraram como uma base sólida para que a tese de
repercussão geral sugerida pelo Ministro Marco Aurélio fosse aceita. Esta estabelece a
ideia de que “nos casos autorizados constitucionalmente de acumulação de cargos,
empregos e funções, a incidência do artigo 37, inciso XI, da Carta da República
pressupõe consideração de cada um dos vínculos formalizados, afastada a observância
do teto remuneratório quanto ao somatório dos ganhos do agente público”. Portanto,
extrai-se da tese uma própria declaração parcial de inconstitucionalidade sem redução
de texto, tal qual retira a incidência da expressão “percebidos cumulativamente ou não”,
presente no artigo 37, inciso XI, da lei das leis, na consideração que englobe situações
jurídicas a revelarem acumulação de cargos autorizada constitucionalmente. Entretanto,
continua existindo para cargos que não são acumuláveis sob a proteção da Constituição
Federal.