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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

PROCURADORIA DA REPÚBLICA NO ESTADO DO PARANÁ


2º OFÍCIO CRIMINAL E DE COMBATE À CORRUPÇÃO

PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA

Uma vez homologadas judicialmente as


cláusulas da colaboração premiada (a qual constitui um
negócio jurídico), há a expectativa de boa-fé por parte dos
contratantes. Conforme dispõe o art. 114 do Código Civil “Os
negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-
fé”.
A boa-fé, em sentido objetivo (denominada
boa-fé objetiva), constitui a expectativa de que as partes de
um negócio jurídico atuem com confiança e lealdade
recíprocas, seja na fase preliminar do negócio jurídico, na
fase de execução ou ainda na fase posterior ao término do
negócio1.
Um dos desdobramentos do princípio da boa-fé
objetiva é a proibição de venire contra factum proprium,
também conhecida como teoria dos atos próprios2. Essa teoria
tem como finalidade evitar que a parte de um contrato
pratique atos inequivocamente incompatíveis com os praticados
anteriormentes, afetando a expectativa – disposta em contrato
– da outra parte.
No caso específico da colaboração premiada,
há um dever geral de colaboração para com o Ministério
Público, o qual atinge todas as cláusulas do acordo,
inclusive aquela referente ao pagamento da multa extrapenal.

1
Lobo, Paulo. Direito Civil: Contratos. 4.ed. E-book. São Paulo:
Saraiva Educação, 2018.
2
Lobo, Paulo. Direito Civil: Contratos……2018.
RUA MARECHAL DEODORO, 933 – CENTRO – CURITIBA – PARANÁ – CEP: 80.060-010
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Assim, não pode o contratante aceitar o acordo (primeiro


comportamento) e, posteriormente, contrariá-lo, oferecendo
garantia real que não possui valor suficiente a ensejar o
pagamento da multa estipulada (segundo comportamento).
Portanto, verifica-se a clara violação da
proibição de venire contra factum proprium, porquanto a mesma
pessoa praticou atos distintos, sendo o primeiro contrariado
pelo segundo.
Ademais, conforme afirmado pela doutrina3 “O
princípio da boa-fé entende mais com a interpretação do
contrato do que com a estrutura. Por ele se significa que o
literal da linguagem não deve prevalecer sobre a intenção
manifestada na declaração de vontade, ou dela inferível”.
Nesse sentido, é relevante enfatizar que “O Direito moderno
não admite os contratos que os romanos chamavam de direito
estrito, cuja interpretação deveria se feita literalmente.
Tais contratos somente poderiam existir num sistema dominado
pelo princípio do formalismo. Uma vez que hodiernamente
vigora o princípio do consensualismo, são inadmissíveis”4.
Dessa forma, resta claro que a garantia
prestada pelo colaborador deve não somente ser uma garantia
real em sentido estrito, ou seja, formalmente cumprir os
parâmetros daquilo que comumente se denomina garantia real 5,
mas também, deve efetivamente possuir o condão de garantir o
pagamento da multa extrapenal, porquanto há uma expectativa –
gerada a partir do princípio da boa-fé objetiva – do
contratante (Ministério Público Federal) de que o outro

3
GOMES, Orlando. Contratos. 26.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009.
Atualização de: Antonio Junqueira de Azevedo e Francisco Paulo De
Crescenzo Marino. p. 43.
4
GOMES, Orlando. Contratos…… p. 43.
5
Conforme afirma GOMES “Direito real de garantia é o que confere ao
credor a pretensão de obter o pagamento da dívida com o valor de bem
aplicado exclusivamente à sua satisfação. Sua função é garantir ao
credor o recebimento da dívida, por estar vinculado determinado bem ao
seu pagamento. O Direito do credor concentra-se sobre determinado
elemento patrimonial do devedor” (GOMES, Orlando. Direitos Reais.
21.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2012. Atualização de: Luiz Edson
Fachin. p. 349 – 350).
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contratante (colocar o nome do colaborador) cumprirá com a


obrigação de realizar o pagamento da multa extrapenal
estipulada no acordo.

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