Você está na página 1de 5

www.psicologia.

pt
ISSN 1646-6977
Documento produzido em 07.11.2015

DELIRIUM E DELÍRIO

2015

Gustavo Luis Caribé Cerqueira


Psicólogo, docente da Faculdade Maurício de Nassau

E-mail de contato:
gustavocaribeh@gmail.com

RESUMO

Estudantes de psicologia e profissionais de saúde em geral tendem a apresentar dificuldades


em compreender a diferença entre o Delírio e o Delirium. O Delirium é um transtorno de base
orgânica associado a alterações quantitativas de consciência, possibilitando o desenvolvimento de
estado “confusional”. Enquanto o Delírio é uma alteração do juízo de realidade caracterizado por
apresentar uma convicção subjetivamente irremovível e crença inabalável; além de apresentar
insuscetibilidade às influências de correções quaisquer e; impossibilidade de conteúdo plausível

Palavras-chave: Delírio, delirium, nosologia

INTRODUÇÃO

A cátedra e a atuação clínica oferecem o desenvolvimento de experiências bem singulares


que permitem ao psicólogo desenvolver-se como clínico e como mediador do processo de
aprendizagem. Ao longo dos anos no ofício desta ocupação/profissão percebo que muitos alunos,
e profissionais de saúde, apresentam dificuldades em compreender a diferença entre o Delírio e o
Delirium. Neste sentido, percebe-se a necessidade de esclarecer tais conceitos à luz da
psicopatologia descritiva e dos manuais de psiquiatria. Porém, antes de discutir apenas seus
conceitos, se faz necessário apresentar sua etiologia e principalmente, quais estruturas psíquicas
estão comprometidas no desenvolvimento de cada uma.

Gustavo Luis Caribé Cerqueira 1 Siga-nos em


facebook.com/psicologia.pt
www.psicologia.pt
ISSN 1646-6977
Documento produzido em 07.11.2015

DELIRIUM

Apesar da semelhança na sonoridade das palavras o Delirium é bem diferente do Delírio, na


psiquiatria o Delirium foi uma das primeiras doenças mentais descritas na literatura médica com
trabalhos datados há mais de 2.500 anos, com inúmeras referências ao conjunto de sintomas que
hoje é caracterizado de Delirium (Wacker, 2005).
Os critérios diagnósticos do DSM-IV (American Psychiatric Association, 1994)
compreendem o Delirium como comprometimento da consciência passando considerado-lo como
seu aspecto principal. Neste sentido, o Delirium não está associado exclusivamente aos transtornos
psiquiátricos, mas também, a outras condições orgânicas crônicas (como, por exemplo, as
síndromes demenciais, infecção, encefalopatia hepática, intoxicação por drogas e evento cirúrgico
de grande porte) (Santos, 2005; Wacker, 2005).
O DSM-IV subdivide o Delirium de acordo com sua etiologia, definindo-o como:
(1) delirium por condição médica geral; (2) delirium devido à intoxicação por sustâncias;
(3) delirium devido à abstinência de substâncias; e (4) delirium devido a múltiplas etiologias; além
(5) delirium sem outras especificações.
Os critérios diagnósticos do DSM-IV (American Psychiatric Association, 1994) se
aproximam dos critérios diagnósticos da 10ª revisão da Classificação Internacional de Doenças
(CID-10) e compreendem o Delirium como uma disfunção cerebral aguda caracterizada por
alterações do estado de consciência transitórias e flutuantes, acompanhadas de compromisso
cognitivo, apresentando rebaixamento do nível de consciência e consequentemente da atenção
com confusão mental, pensamento ilógico e desorganização do discurso, agitação psicomotora,
porém, existem casos que podem ocorrer, também, retração, hipersonolência e lentificação motora
(Dalgalarrondo, 2000), além das alterações sono-vigília, como insônia no período noturno e
sonolência no período diurno. Seu início é geralmente agudo, variando de algumas horas até poucos
dias (Wacker, 2005).
Quando associado a condições médicas gerais o Delirium afeta, com frequência, doentes
internados em unidades de cuidados intensivos (UCI), especificamente idosos (Faria e Moreno,
2013; Salluh, 2012; Carvalho et al. 2015; Coulson e Almeida, 2002). Muito se sabe dos fatores
predisponentes do Delirium, tais como pré-existência de demência, idade avançada e precipitantes
comuns. Sendo uma das principais consequências associadas a permanência hospitalar prolongada,
aumento nos custos com cuidados médicos e maior morbidade e mortalidade entre idosos
(Coulson, 2002). Entretanto, a simples listagem dos fatores de risco, não explica, completamente,
porquê pessoas idosas são mais vulneráveis em desenvolver Delirium do que indivíduos jovens
(Santos, 2005).

Gustavo Luis Caribé Cerqueira 2 Siga-nos em


facebook.com/psicologia.pt
www.psicologia.pt
ISSN 1646-6977
Documento produzido em 07.11.2015

DELÍRIO

O Delírio é uma alteração relacionada à formação de juízos, sendo um erro do processo de


ajuizar que tem origem na doença mental (Dalgalarrondo, 2000). É o desenvolvimento de um
conjunto de juízos falsos em consequência de condições patológicas preexistentes e que não se
corrigem por meios racionais (Paim, 1986).
As principais características do Delírio são: (1)uma convicção extraordinária; (2)não são
susceptíveis à influência e; (3)possuem um conteúdo impossível (Cheniaux, 2011). É através dos
juízos que discernimos o que é real do que é fruto da nossa imaginação (Cheniaux, 2011). Neste
sentido, compreende-se o Delírio ou idéias delirantes como juízos patologicamente falsos.
O Delírio é categorizado em três tipos: delírio primário (ou ideia delirante), delírio
secundário (ou ideia deliróide) e idéia sobrevalorada. O delírio primário é caracterizado como juízo
falso deve apresentar três características básicas: 1 - deve apresentar-se como uma convicção
subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável; 2 - deve ser impenetrável e
incompreensível para o indivíduo normal, bem como, impossível de sujeitar-se às influências de
correções quaisquer, seja através da experiência ou da argumentação lógica e; 3 - impossibilidade
de conteúdo plausível (Cheniaux, 2011; Paim, 1986; Dalgalarrondo, 2000). Todos os casos que
não satisfazem essa tríade não podem ser considerados delírios verdadeiros ou delírios
primários (podem ser idéias deliróides ou delírios secundários).

O delírio secundário ou ideia deliróide tem origem compreensível em estados


psicologicamente alterados, como nos transtornos do humor, alterações da sensopercepção e
rebaixamento do nível de consciência (Cheniaux, 2011). Podem também ser compreendidos como
equívocos passageiros provocados por percepções enganosas e outras desse tipo (Paim, 1986). Por
exemplo: as idéias de ruína e de culpa na depressão, idéias de perseguição no delirium tremens, as
idéias de grandeza na mania (Cheniaux, 2011).

E a idéia sobrevalorada é uma idéia errônea por exagero afetivo em que a carga afetiva muito
intensa afeta o julgamento da realidade (Cheniaux, 2011) e a idéia passa a preponderar sobre as
demais, de forma pouco racional, afetando o comportamento do indivíduo (Dalgalarrondo, 2000).

CONCLUSÃO

Gustavo Luis Caribé Cerqueira 3 Siga-nos em


facebook.com/psicologia.pt
www.psicologia.pt
ISSN 1646-6977
Documento produzido em 07.11.2015

Dentre as diferenças apresentadas do Delirium e Delírio a principal delas é que o Delirium é


um transtorno psiquiátrico de base orgânica, mas também, pode ocorrer em outras condições
orgânicas crônicas. Associado a alterações quantitativas de consciência, possibilitando o
desenvolvimento de estado “confusional” acompanhadas de comprometimento cognitivo,
pensamento ilógico e desorganização do discurso, agitação psicomotora, além de, retração,
hipersonolência e lentificação motora com alterações sono-vigília. Enquanto o Delírio é uma
alteração do juízo de realidade caracterizado por apresentar uma convicção subjetivamente
irremovível e crença inabalável; além de apresentar insuscetibilidade às influências de correções
quaisquer e; impossibilidade de conteúdo plausível. Este distúrbio da consciência da realidade pode
ser primários ou secundário, de acordo com a psicopatologia descritiva. No Delírio não há
perturbação da inteligência nem da consciência, quando estado de consciência está
momentaneamente alterado, havendo um distúrbio da consciência produzindo alterações de juízo,
é denominado "Delirium".

Gustavo Luis Caribé Cerqueira 4 Siga-nos em


facebook.com/psicologia.pt
www.psicologia.pt
ISSN 1646-6977
Documento produzido em 07.11.2015

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Carvalho João Pedro Lins Mendes, Almeida Antônio Raimundo Pinto de, Gusmao-Flores
Dimitri. Escalas de avaliação de delirium em pacientes graves: revisão sistemática da literatura.
Rev. bras. ter. intensiva [Internet]. 2013 June [cited 2015 Oct 10] ; 25( 2 ): 148-154.

Cheniaux Junior, Elie. Manual de psicopatologia / Elie Cheniaux. – 4.ed. – Rio de Janeiro :
Guanabara Koogan. 2011.

Coulson Brett S, Almeida Osvaldo P. Delirium: moving beyond the clinical diagnosis. Rev.
Bras. Psiquiatr. [Internet]. 2002 Apr [cited 2015 Oct 10] ; 24( Suppl 1 ): 28-33.

Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre:


Artmed. 2000.

Faria Rita da Silva Baptista, Moreno Rui Paulo. Delirium na unidade de cuidados intensivos:
uma realidade subdiagnosticada. Rev. bras. ter. intensiva [Internet]. 2013 ; 25( 2 ): 137-147.

Paim, I. Curso de psicopatologia. 10a ed. São Paulo: Editora Pedagógica Universitária. 1986.

Salluh Jorge Ibrain Figueira, Pandharipande Pratik. Prevenção do delirium em pacientes


críticos: um recomeço?. Rev. bras. ter. intensiva [Internet]. 2012 Mar; 24( 1 ): 1-3.

Santos Franklin Santana. Mecanismos fisiopatológicos do delirium. Rev. psiquiatr.


clín. [Internet]. 2005 June; 32( 3 ): 104-112.

Wacker Priscilla, Nunes Paula V., Forlenza Orestes V.. Delirium: uma perspectiva histórica.
Rev. psiquiatr. clín. [Internet]. 2005; 32( 3 ): 97-103.

Gustavo Luis Caribé Cerqueira 5 Siga-nos em


facebook.com/psicologia.pt