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ATIVIDADE FÍSICA PARA

POPULAÇÕES ESPECIAIS

Fazemos parte do Claretiano - Rede de Educação


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Meu nome é Paulo Augusto Costa Chereguini. Sou


Doutor e Mestre em Educação Especial pela UFSCar
com formação em Análise Aplicada do Comportamento.
Sou membro pesquisador do LAHMIEI e especialista
em Ciência do Exercício Físico na Promoção da Saúde
e Personal Trainer. Minha graduação é em Educação
Física, tanto Bacharelado quanto Licenciatura.
Possuo estágio em Centro de atendimento escolar
para crianças e jovens com desabilidades sociais e
educacionais, em Riverside - CA (EUA) e, atualmente,
sou docente no curso de Pós-graduação Lato Sensu em Análise do Comportamento Aplicada
ao Autismo, pela UFSCar em cursos de graduação em Educação Física do Claretiano - Centro
Universitário de Batatais e do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos/
UNIFEB. Tenho experiência como treinador personalizado, professor de Judô, Jiu-Jitsu e Defesa
Pessoal. Fui, também, professor efetivo da rede pública do estado de São Paulo. Meus principais
interesses em pesquisa são nas áreas de Educação Física e Psicologia com ênfase em Análise do
Comportamento Aplicada ao atendimento de pessoas com autismo, com síndrome de Down,
com deficiência intelectual e crianças pré-escolares.
E-mail: paulochereguini@hotmail.com
Prof. Dr. Paulo Augusto Costa Chereguini

ATIVIDADE FÍSICA PARA


POPULAÇÕES ESPECIAIS

Batatais
Claretiano
2015
© Ação Educacional Claretiana, 2015 – Batatais (SP)
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do autor e da Ação Educacional Claretiana.

Reitor: Prof. Dr. Pe. Sérgio Ibanor Piva


Vice-Reitor: Prof. Ms. Pe. José Paulo Gatti
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Pró-Reitor de Extensão e Ação Comunitária: Prof. Ms. Pe. José Paulo Gatti
Pró-Reitor Acadêmico: Prof. Ms. Luís Cláudio de Almeida
Coordenador Geral de EaD: Prof. Ms. Evandro Luís Ribeiro

CORPO TÉCNICO EDITORIAL DO MATERIAL DIDÁTICO MEDIACIONAL


Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves
Preparação: Aline de Fátima Guedes • Camila Maria Nardi Matos • Carolina de Andrade Baviera
• Cátia Aparecida Ribeiro • Dandara Louise Vieira Matavelli • Elaine Aparecida de Lima Moraes •
Josiane Marchiori Martins • Lidiane Maria Magalini • Luciana A. Mani Adami • Luciana dos Santos
Sançana de Melo • Patrícia Alves Veronez Montera • Raquel Baptista Meneses Frata • Rosemeire
Cristina Astolphi Buzzelli • Simone Rodrigues de Oliveira
Revisão: Cecília Beatriz Alves Teixeira • Eduardo Henrique Marinheiro • Felipe Aleixo • Filipi
Andrade de Deus Silveira • Juliana Biggi • Paulo Roberto F. M. Sposati Ortiz • Rafael Antonio
Morotti • Rodrigo Ferreira Daverni • Sônia Galindo Melo • Talita Cristina Bartolomeu • Vanessa
Vergani Machado
Projeto gráfico, diagramação e capa: Eduardo de Oliveira Azevedo • Joice Cristina Micai • Lúcia
Maria de Sousa Ferrão • Luis Antônio Guimarães Toloi • Raphael Fantacini de Oliveira • Tamires
Botta Murakami de Souza • Wagner Segato dos Santos
Videoaula: José Lucas Viccari de Oliveira • Marilene Baviera • Renan de Omote Cardoso
Bibliotecária: Ana Carolina Guimarães – CRB7: 64/11

INFORMAÇÕES GERAIS
Cursos: Graduação
Título: Atividade Física para Populações Especiais
Versão: ago./2015
Formato: 15x21 cm
Páginas: 142 páginas
SUMÁRIO

CONTEÚDO INTRODUTÓRIO
1. INTRODUÇÃO..................................................................................................... 9
2. GLOSSÁRIO DE CONCEITOS................................................................................ 13
3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................... 19
4. E-REFERÊNCIAS.................................................................................................. 19

Unidade  1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO


ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E PANORAMA DE ATUAÇÃO
1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 23
2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA.................................................................. 23
2.1. PANORAMA E PROBLEMÁTICA ATUAL DE ATENDIMENTO ÀS PESSOAS
COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO............................................................. 23
2.2. PARADIGMAS HISTÓRICO-SOCIAIS DE ATENDIMENTO ÀS PESSOAS
COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: DA EXCLUSÃO À INTEGRAÇÃO........... 29
3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR..................................................................... 45
3.1. REABILITAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E O DESPORTO
ADAPTADO.................................................................................................. 46
3.2. ATIVIDADE FÍSICA E A QUALIDADE DE VIDA DE PESSOAS COM
DEFICIÊNCIA................................................................................................ 49
3.3. ATIVIDADE FÍSICA ADAPTADA E O CURRICULO FORMATIVO DO
PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA ........................................................ 51
4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS............................................................................ 53
5. CONSIDERAÇÕES................................................................................................ 55
6. E-REFERÊNCIAS.................................................................................................. 56
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................... 56

Unidade  2 – PARADIGMA DA INCLUSÃO E PERSPECTIVAS ATUAIS


DE ATUAÇÃO
1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 59
2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA.................................................................. 60
2.1. PARADIGMA HISTÓRICO-SOCIAL DA INCLUSÃO DE ATENDIMENTO ÀS
PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO.............................................. 60
2.2. PERSPECTIVAS ATUAIS DE ATENDIMENTO ÀS PESSOAS COM
DESENVOLVIMENTO ATÍPICO NO CAMPO DA EDUCAÇÃO FÍSICA............... 67
2.3. EDUCAÇÃO FÍSICA SOB A PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO ESPECIAL............. 68
3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR..................................................................... 71
3.1. ESPORTES ADAPTADA E A EXPANSÃO DO MERCADO DE ATUAÇÃO DO
PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA ........................................................ 71
4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS............................................................................ 73
5. CONSIDERAÇÕES................................................................................................ 74
6. E-REFERÊNCIAS.................................................................................................. 75
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................... 75

Unidade  3 – CONSIDERAÇÕES ACERCA DO DESENVOLVIMENTO


ATÍPICO
1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 79
2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA.................................................................. 79
2.1. INTRODUÇÃO AO ESTUDO SOBRE O ATENDIMENTO ÀS PESSOAS
COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO............................................................. 79
2.2. DESENVOLVIMENTO SENSORIAL ATÍPICO ................................................. 81
2.3. DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL ATÍPICO .............................................. 88
2.4. DESENVOLVIMENTO MOTOR ATÍPICO ....................................................... 101
3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR..................................................................... 108
3.1. OLIMPIADAS INTERNACIONAIS ESPECIAIS................................................. 108
4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS............................................................................ 109
5. CONSIDERAÇÕES................................................................................................ 110
6. E-REFERÊNCIAS.................................................................................................. 111
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................... 111

Unidade  4 – PLANEJAMENTO E PROCEDIMENTOS DE ENSINO


1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 114
2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA.................................................................. 117
2.1. PRINCIPIOS BÁSICOS DE ATENDIMENTO.................................................... 117
2.2. DIRETRIZES NORTEADORAS PARA PLANEJAMENTO DO ATENDIMENTO ............ 123
2.3. ESTRATÉGIAS DE ATENDIMENTO................................................................ 130
3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR..................................................................... 139
3.1. ANÁLISE DO COMPORTAMENTO APLICADA A EDUCAÇÃO FÍSICA E
PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO.............................................. 139
4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS............................................................................ 140
5. CONSIDERAÇÕES................................................................................................ 141
6. E-REFERÊNCIAS.................................................................................................. 142
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................... 142
CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

Conteúdo
Função do conteúdo curricular e princípios do atendimento.
Paradigmas histórico-sociais de atendimento às pessoas com
desenvolvimento atípico. Aspectos éticos, legais e políticos.
Perspectivas de atuação: educação especial e educação inclusiva.
Linhas gerais para avaliação, planejamento de intervenções,
registro de dados e controle da eficácia do tratamento.
Procedimentos de ensino. Considerações acerca de aspectos:
motores/físicos, cognitivos, sensoriais, sociais e da comunicação.

Bibliografia Básica
MAUERBERG DE CASTRO, E. Atividade física: adaptada. Ribeirão Preto: Tecmedd, 2005.
MARTIN, G. Consultoria em psicologia do esporte: orientações e práticas em análise do
comportamento. Campinas: Instituto de Análise do Comportamento, 2001.
WINNICK, J. (Org.) Educação física e esportes adaptados. Barueri: Manole, 2004.

Bibliografia Complementar
COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez,
1992.
DIEHL, R. M. Jogando com as diferenças: jogos para crianças e jovens com deficiência.
São Paulo: Phorte, 2006.
GORGATTI, M. G., da Costa, R. F. Atividade física adaptada: qualidade de vida para
pessoas com necessidades especiais. Barueri: Manole, 2005.
MAZZOTTA, M. J. S. Educação especial no Brasil: história e políticas públicas. São Paulo:
Cortez, 2005.

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CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

RODRIGUES, D. (Org.). Atividade motora adaptada: a alegria do corpo. São Paulo: Artes
Médicas, 2006.

Palavras-chave:–––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Educação Física; Esporte; Desenvolvimento Atípico; Deficiência; Populações
Especiais.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

É importante saber
Esta obra está dividida, para fins didáticos, em duas partes:
Conteúdo Básico de Referência (CBR): é o referencial teórico e prático que deverá
ser assimilado para aquisição das competências, habilidades e atitudes necessárias
à prática profissional. Portanto, no CBR, estão condensados os principais conceitos,
os princípios, os postulados, as teses, as regras, os procedimentos e o fundamento
ontológico (o que é?) e etiológico (qual sua origem?) referentes a um campo de
saber.
Conteúdo Digital Integrador (CDI): são conteúdos preexistentes, previamente sele-
cionados nas Bibliotecas Virtuais Universitárias conveniadas ou disponibilizados em
sites acadêmicos confiáveis. São chamados "Conteúdos Digitais Integradores" por-
que são imprescindíveis para o aprofundamento do Conteúdo Básico de Referên-
cia. Juntos, não apenas privilegiam a convergência de mídias (vídeos complementa-
res) e a leitura de "navegação" (hipertexto), como também garantem a abrangência,
a densidade e a profundidade dos temas estudados. Portanto, são conteúdos de
estudo obrigatórios, para efeito de avaliação.

8 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

1. INTRODUÇÃO
Prezados alunos, sejam bem-vindos!
Iniciaremos o estudo de Atividade Física para Populações
Especiais, por meio do qual você obterá as informações
necessárias para o embasamento teórico da sua futura profissão
e para as atividades que virão.
Os conteúdos aqui apresentados formam um produto
carregado de significados e valores relacionados não somente
a uma grande conquista pessoal bem como de possibilidades
de contribuição (ou retribuição) para a sociedade e, mais
especificamente, para a área da Educação Física. Empenhamo-
nos em planejar e escrever esta obra muito em função dos
anseios em compartilhar com a comunidade envolvida com a
prática e prescrição de exercício físico uma nova perspectiva
de atendimento – a de equiparação de oportunidades de
aprendizagem. Em tese, vocês poderão imaginar que esta
proposta de perspectiva de atendimento não é assim tão “nova”,
mas, em termos aplicados e verdadeiramente compreendida
pelos profissionais, é sim e, ao longo do estudo desse material
vocês entenderão o motivo pelo qual isso acontece.

Educação física e pessoas com desenvolvimento atípico:


conceitos, ética e panorama de atuação
Embora nos dias atuais o público mais clara e diretamente
beneficiado com a produção desse material envolva as pessoas
com deficiência, que é o público alvo da Educação Especial, o
propósito maior previsto para que você alcance no final do
estudo deste trabalho é a melhor capacitação para atender
quaisquer “pessoas”. Dizemos “pessoas” no sentido mais amplo

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 9


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

e humano, considerando particularmente suas potencialidades


e dificuldades, seus interesses pessoais e restrições, sejam
estas pessoas com ou sem deficiências. Em outras palavras, o
propósito maior é que toda a sociedade seja beneficiada a
partir da produção, estudo e aplicação dos conteúdos aqui
apresentados. Trataremos, neste texto, das características que
pessoas podem apresentar e não, especificamente, as "pessoas
com deficiência" apresentam. Se assim for possível entender este
material, valorizando a “diversidade individual” em detrimento
do atendimento segregado, é possível que, em médio e longo
prazo, não haja mais a necessidade de categorizar pessoas com e
sem deficiência e tampouco haverá a necessidade de existir essa
obra específica.
Esta análise pode parecer confusa ou ainda sem qualquer
novidade, mas ao longo das primeiras unidades de estudo
será possível compreender a necessidade de repensar sobre o
currículo de atendimento e ensino das pessoas em qualquer
âmbito de atuação do profissional de Educação Física e, então, a
proposta ficará mais clara.
Na Unidade 1 entenderemos um pouco sobre os termos
relacionados, o panorama atual e histórico-social de atendimento
às pessoas com desenvolvimento atípico e o propósito desta
obra dentro do currículo do profissional de Educação Física. A
Unidade 2 apresentará as principais perspectivas de atuação e
estratégias gerais e diretrizes para elaboração das intervenções.
As duas unidades subsequentes darão suporte conceitual,
técnico, científico e aplicado para que os futuros profissionais
atuem com qualidade no mercado existente e, também, sejam
capazes de explorar novos campos de atuação.

10 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

Educação física adaptada


Para entender as possibilidades de explorar novos
mercados devemos entender, dentre outros aspectos, o mercado
atual relacionado à atuação do profissional de Educação Física
com pessoas com deficiência. Para iniciar este entendimento
é preciso refletir: quais pessoas com deficiência você já viu ou
ouviu dizer que o profissional de Educação Física atende? Se já
viu ou ouviu, em quais lugares isso acontece?
Você já deve ter ouvido ou até mesmo visto basquetebol em
cadeiras de rodas, futebol para cegos, natação para deficientes ou
voleibol adaptado, certo? Este contexto é chamado de Educação
Física Adaptada e foi criado dentro de um contexto histórico-
social específico. Influências políticas e econômicas permitiram
um crescimento no número de modalidades semelhantes a estas
descritas.
Continuemos a reflexão sobre estes contextos: nestas
modalidades esportivas, são atendidas pessoas somente com as
mesmas deficiências ou também com diferentes deficiências?
Pessoas com deficiência são atendidas no mesmo ambiente que
pessoas que não apresentam deficiências? Aliás, qual é o termo
que devemos utilizar quando é necessário se referir a alguém
que não tem deficiência?
Pois então, embora a terminologia ainda utilizada
atualmente para nos referirmos às pessoas com desenvolvimento
atípico não seja a mais humanamente adequada, existem
termos cientifica e academicamente mais aceitos e usuais. Por
instante, a terminologia que utilizaremos para nos referir às
pessoas que serão diretamente atendidas a partir dessa obra
será "pessoas com deficiência". De qualquer forma, os principais
conceitos e terminologias relativos ao contexto da deficiência

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 11


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

serão dialogados e contextualizados à luz de aspectos políticos,


históricos, éticos, científicos e profissionais.
Com os conteúdos aqui apresentados será possível
desenvolver argumentos realmente confiáveis para selecionar
a modalidade mais adequada para determinadas pessoas,
sejam elas com deficiência ou com desenvolvimento típico.
Serão apresentadas estratégias de avaliação e de prescrição de
exercícios físicos e esportes, procedimentos de ensino de novas
habilidades e de correção de habilidades aprendidas de forma
incompatível com o bom desempenho e como estabelecer
estratégias de alto desempenho individual e coletiva. No
entanto, tão importante quanto estas questões são os conteúdos
de cunho reflexivo que lhe permitirão decidir sobre as diretrizes
de atendimento às pessoas com deficiência.

Campos de atuação: "Educação Física para populações


especiais" e "Educação Física e populações especiais"
Se por um lado já há um mercado bastante explorado
no campo da Educação Física que é o atendimento voltado
especificamente para pessoas com deficiência (que exatamente
dá o nome a essa obra), por outro lado tentaremos aqui, mostrar
que é possível atender de diferentes maneiras as pessoas até o
ponto de não precisarmos mais usar a terminologia "deficiência".
Por exemplo: se em um dado contexto uma pessoa com
deficiência auditiva possa necessitar de auxílio especializado
para se comunicar com seu professor de musculação no
primeiro dia de aula e, neste caso, o atendimento se deu por
conta da "deficiência", em outro dia esta mesma pessoa pode
não precisar de auxílio especializado e assim descaracterizando
a necessidade de usar aquele termo. Vejamos: neste outro dia,

12 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

em outro contexto, aquela mesma pessoa provavelmente não


precisará de auxílio especializado para se comunicar se as outras
pessoas atendidas no mesmo local também não ouvirem. Em
contrapartida, se nessa comunidade de pessoas com deficiência
auditiva aparecer uma pessoa acostumada a se comunicar por
meio da linguagem oral, a maneira tradicional de comunicação
é que será, neste caso, o alvo de ser categorizada como
"deficiência". Confusa essa análise? Fique tranquilo, embora seja
um conteúdo ousado, o seu estudo será altamente gratificante.
Vamos iniciar esse desafio? Convidamos você a percorrer
as unidades de estudo, sem esquecer da grande responsabilidade
que terá de agora em diante em trabalhar pela evolução do
atendimento de qualidade para todas as pessoas e, em especial,
às pessoas com desenvolvimento atípico.

2. GLOSSÁRIO DE CONCEITOS
O Glossário de Conceitos permite uma consulta rápida
e precisa das definições conceituais, possibilitando um bom
domínio dos termos técnico-científicos utilizados na área de
conhecimento dos temas tratados.
1) Exercício Físico: segundo a resolução nº 046/2002
do Conselho Federal de Educação Física - CONFEF
(2002), exercício físico é conceituado como “sequência
sistematizada de movimentos de diferentes segmentos
corporais, executados de forma planejada, segundo
um determinado objetivo a atingir.” Além disso,
exercício físico caracteriza-se por uma das formas de
atividade física, estruturada e repetitiva, e que deve
ter como objetivo o desenvolvimento da aptidão física,

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 13


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

do condicionamento físico, de habilidades motoras ou


reabilitação orgânico-funcional, definidos conforme
diagnóstico de necessidade ou carências específicas
do praticante, nos diversos contextos sociais.
2) População Especial: faz referência ao conjunto de
pessoas que por motivos históricos e sociais requerem
apoio ou atendimento especializado em diferentes
fases da vida e/ou contextos sociais em que vivem.
Reflexão: apesar da palavra "População Especial"
apresentar uma pressuposição de que há pessoas
"especiais" e, neste sentido, então que haveria
pessoas "não especiais", devemos ter clara a análise
de que "especial" deve, na verdade, fazer referência
ao atendimento "incomum ou menos usual" ofertado
a determinadas pessoas e em determinados contextos
sociais e não às pessoas em si. No entanto, atualmente
tanto este termo quanto o termo “Pessoas com
Necessidades Especiais” não são mais comumente
utilizados e têm sido substituídos pelo termo “Público
Alvo da Educação Especial”.
3) Educação Especial/Público Alvo da Educação Especial
(PAEE): Enquanto Educação Especial é definida como
uma modalidade de ensino transversal à educação
regular, o PAEE é justamente a população atendida em
todos os níveis e etapas por essa modalidade de ensino.
Segundo o Decreto nº 6.571/2008 – Resolução CNE/
CEB nº4/2009 art. 4º, compreende-se o PAEE sendo
os alunos com deficiência, os alunos com transtornos
globais do desenvolvimento e os alunos com altas
habilidades/superdotação. Neste sentido, para atender
o PAEE no âmbito escolar, de forma complementar ou

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CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

suplementar e não substitutiva às classes comuns,


a Educação Especial deve disponibilizar recursos e
serviços especializados, tais como o Atendimento
Educacional Especializado (AEE). Alguns tipos de AEE
são: as salas de recursos multifuncionais, tradutores e
intérpretes de Língua Brasileira de Sinais e Educação
Física Adaptada.
4) Pessoa com deficiência: refere-se à pessoa que
apresenta alguma alteração permanente e incomum (ou
atípica), seja de natureza física, sensorial ou intelectual
em comparação às características do desenvolvimento
comum das pessoas da comunidade em que ela
vive. O termo "deficiência" também apresenta uma
pressuposição incorreta, a de que a deficiência está
na pessoa e não na relação entre as características da
pessoa e as condições de vida e de atendimento que
lhes são oportunizadas. Assim, atualmente não é a
terminologia ideal e ainda requer periódicas reanálises
do seu significado e função. Considerando aspectos
legais, políticos e didáticas atuais, “Pessoa COM
deficiência” (que pode ser motora, física, intelectual,
auditiva ou visual) é o termo que será utilizado neste
material em oposição aos termos que não devem ser
usados: “deficiente”, “pessoa deficiente”, “anormal”
ou “retardada”.
5) Pessoas com desenvolvimento típico: se refere às
pessoas que apresentam desenvolvimento humano
mais próximo às características comuns da maioria da
população ao que se referem aos aspectos, motores,
sensoriais, intelectuais e sociais. Assim, este é outro
termo que será utilizado neste material de estudo e

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 15


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

que deve ser recomendado em substituição àqueles


que a população leiga comumente usa: "pessoa sem
deficiência", "pessoa normal" ou mesmo "pessoa típica"
(que não devem ser utilizados). Para conhecimento
geral, sinônimos da palavra "típica" são: comum, da
maioria ou predominante. Devemos, então, saber
diferenciar as palavras "típica e comum"de "normal".
6) Pessoas com desenvolvimento atípico: contrariamen-
te ao anterior termo definido, pessoas com desenvol-
vimento atípico são aquelas que apresentam uma ou
mais características, em termos motores, sensoriais,
intelectuais ou sociais, que difere do desenvolvimen-
to humano da maioria da população em que vive, ou
seja, que difere do desenvolvimento típico/comum.
Trata-se de um termo mais geral e mais amplo do que
o termo "pessoa com deficiência", pois envolve não
somente as características físicas, intelectuais e senso-
riais permanentes do indivíduo, mas também a análise
das características ambientais e sociais que alteraram
o grau do seu desenvolvimento (seja atrasado ou avan-
çado) em comparação ao desenvolvimento comum da
maioria da população. Deve-se ainda usar este termo
em substituição ao termo "pessoas com necessidades
especiais".
7) Educação Física Adaptada: há algumas interpretações
diferentes sobre esse mesmo campo de atuação, por
diferentes pesquisadores, mas aqui nós limitaremos
a tratá-lo como um campo de atuação independente
daquele relacionado à tradicional Educação Física. Se-
gundo Costa e Souza (2004), este termo começou a ser
usado por volta da década de 1950. A American Asso-

16 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

ciation for Health, Physical Education, Recreation and


Dance, então, a definiu como um programa diversifica-
do que envolve tanto atividades desenvolvimentistas
quanto jogos e ritmos, mas que é paralela à Educação
Física Geral ou tradicional (Pedrinelli, 1994). Em outras
palavras, ela é planejada para atender aos interesses,
às capacidades e também as limitações das pessoas
com deficiência que, no ambiente escolar, não se en-
gajam e não participam de forma irrestrita, segura e
bem-sucedida em atividades vigorosas da tradicional
Educação Física. Neste sentido, podemos entender
que enquanto historicamente a tradicional Educação
Física atendeu apenas pessoas com desenvolvimento
típico, a criação da Educação Física Especial possibi-
litou atender específica e separadamente as pessoas
com desenvolvimento atípico, que antes não tinham
qualquer sucesso no campo da Educação Física. Lem-
brando que Educação Física Especial é um dos recursos
do Atendimento Educacional Especializado e também
é um formato de atendimento possível em todo o cam-
po de atuação do Profissional de Educação Física com
formação em bacharelado.
8) Educação Física na perspectiva da Educação Inclusiva: se
por um lado a Educação Física Adaptada atende especifica
e separadamente às pessoas com desenvolvimento
atípico, a Educação Física na perspectiva da Educação
Inclusiva é a proposta de atendimento no campo
de Educação Física que possibilita atender tanto as
pessoas com desenvolvimento típico quanto as com
desenvolvimento atípico em um mesmo ambiente
e não separadamente. Se refletirmos sobre esta

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 17


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

proposta, podemos concluir que deveríamos resumir


todo esse nome longo apenas de "Educação Física",
não é verdade? Isto realmente deveria ocorrer, mas não
é o que acontece porque historicamente, o formato
tradicional de Educação Física que tem sido oferecido
atende apenas às pessoas com desenvolvimento
típico. Por este motivo, atualmente, esse é o termo
que enfatiza a necessidade de atendimento na área
da Educação Física voltado a todas as pessoas em um
mesmo ambiente, independente das características do
seu desenvolvimento.
9) Atendimento Equalitário: este é o nome dado
ao princípio de atendimento que deve orientar a
Educação Física na perspectiva da Educação inclusiva
e que possibilita atender de forma ótima, ou seja, com
o máximo de qualidade possível aos interesses, às
capacidades e às limitações particulares e coletivas de
todas as pessoas atendidas no ambiente comum. Para
tanto, a metodologia envolvida, os materiais, as regras
e o grau de apoio oferecido devem ser ajustados de
forma particularizada. A finalidade ultima deste tipo
de atendimento é o benefício máximo, segundo os
propósitos planejados para a atividade, particulares e
coletivos dos envolvidos.
10) Atendimento Igualitário: ao contrário do termo
anterior, o atendimento igualitário apresenta em geral
a mesma metodologia, materiais, regras e grau de
apoio para todos e, por estes motivos, acabam não
atendendo com o máximo de qualidade cada pessoa
envolvida. Por outro lado, gera benefícios apenas

18 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

para àqueles que se adaptam ao formato padrão de


atendimento oferecido.

3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MAUERBERG DE CASTRO, E. Atividade Física: Adaptada. Ribeirão Preto. Tecmedd,
2005.
PEDRINELLI, V. J. Educação física adaptada: conceituação e terminologia. In:
PEDRINELLI,V. J. Educação física e desporto para pessoas portadoras de deficiência.
Brasília: MEC/Sedes, 1994.

4. E-REFERÊNCIAS
CONSELHO FEDERAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA. Resolução no 046/2002 do CONFEF.
Disponível em: <http://www.confef.org.br/extra/resolucoes/conteudo.asp?cd_
resol=82>. Acesso em: 6 jul. 2015.
COSTA, A. M., SOUSA, S. B. Educação física e esporte adaptado: história, avanços e
retrocessos em relação aos princípios da integração/inclusão e Perspectivas para
o século XXI. In: Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 25, n. 3, p.
7-160, maio 2004. Disponível em: <http://rbce.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/
view/236> Acesso em: 6 jul. 2015.

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 19


© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS
UNIDADE 1
EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM
DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS,
ÉTICA E PANORAMA DE ATUAÇÃO

Objetivos
• Compreender o panorama de atendimento às
pessoas com deficiência no campo da Educação
Física.
• Relacionar os tipos de tratamentos oferecidos
às pessoas com deficiência com aspectos
histórico-sociais.
• Identificar os paradigmas histórico-sociais de
atendimento às pessoas com desenvolvimento
atípico e vigentes até os dias atuais.

Conteúdos
• Panorama de atendimento às pessoas com
deficiência e terminologias atuais.
• Paradigmas histórico-sociais de atendimento às
pessoas com desenvolvimento atípico.

21
UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

Orientações para o estudo da unidade


Antes de iniciar o estudo desta unidade, leia as orientações
a seguir:
1) Não se limite ao conteúdo desta obra. Busque outras
informações em sites confiáveis e/ou nas referências
bibliográficas, apresentadas ao final de cada unidade.
Lembre-se de que, na modalidade EaD, o engajamento
pessoal é um fator determinante para o seu
desenvolvimento humano e acadêmico.
2) Busque identificar os principais conceitos apresentados.
Siga a linha gradativa dos assuntos até poder observar
a evolução do estudo sobre o atendimento às pessoas
com desenvolvimento atípico.
3) Durante o estudo, faça anotações e procure identificar
modelos de exercícios físicos e esportes que se
enquadrem nas características principais de cada um
dos paradigmas histórico-sociais apresentados.
4) Saiba mais! Explore os materiais complementares
descritos no Conteúdo Digital Integrador.

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

1. INTRODUÇÃO
Vamos iniciar nossa primeira unidade de estudo. Você está
preparado?
Nesta unidade, entraremos no denso universo dos
diversos tipos de atendimentos sociais e educacionais que,
historicamente, as pessoas com desenvolvimento atípico foram
expostas. A estes modelos de atendimentos históricos dá-se o
nome de paradigmas histórico-sociais, mas antes de apresentar
e discutir cada um deles, será apresentado o panorama atual de
atendimento e que possibilita as pessoas fazerem julgamentos
discriminatórios e pejorativos às pessoas com deficiência.
Ao discutirmos as diversas fases da história mundial e
brasileira é importante que você comece a refletir sobre o
currículo acadêmico e humano que você, futuro profissional de
Educação Física, deve construir em curto, médio e longo prazo.

2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA


O Conteúdo Básico de Referência apresenta, de forma
sucinta, os temas abordados nesta unidade. Para sua compreensão
integral, é necessário o aprofundamento pelo estudo do Conteúdo
Digital Integrador.

2.1. PANORAMA E PROBLEMÁTICA ATUAL DE ATENDIMENTO


ÀS PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO

Ainda que nos dias atuais nós possamos nos deparar com
pessoas com deficiência nos mais variados ambientes sociais,
sejam eles relacionados diretamente à prática de atividade

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

física (por exemplo: clubes, academias e praças para lazer)


ou indiretamente (por exemplo: bancos, cinemas, escolas e
bibliotecas), as condições de acesso a estes ambientes nem
sempre foi assim ao longo do tempo para todas as pessoas.
Opostamente, de maneira geral, ao longo dos diferentes
momentos da história da humanidade, o atendimento oferecido
às pessoas com deficiência foi bastante limitado, às vezes negado,
em comparação as pessoas que apresentavam desenvolvimento
típico.
Grande parte das dificuldades de acesso a atendimentos
de qualidade que as pessoas com deficiência têm nos dias atuais,
seja no âmbito esportivo, para qualidade de vida, da educação
ou do lazer, pode ser entendida como um grande problema
construído historicamente. Muitas vezes essas condições
limitadas de acesso a atendimentos de qualidade são evidentes,
mas em outras são muito sutis. Vamos entender um pouco
mais sobre esses problemas antes de nos aprofundarmos nas
questões históricas.

Contextualização dos problemas enfrentados atualmente


Ao entrar em uma academia de musculação, para
exemplificar, mas poderia ser qualquer outro contexto esportivo
ou de prática de exercícios físicos, a maioria das pessoas com
desenvolvimento típico pode escolher chegar de carro, de moto
ou de bicicleta e escolher um local para estacionar entre a
maioria das vagas mais próximas da entrada da academia, caso
esteja atrasado, ou ainda estacionar um pouco mais longe para
caminhar um pouco mais e gastar um pouco mais de calorias ou
mesmo para passar em frente a algum banco, lanchonete ou loja.
Podemos também escolher ir a pé, ir de ônibus ou de metrô. Na
maioria das vezes é mais ou menos isso, não é verdade? Agora

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

imagine as possibilidades de escolha para uma pessoa que não


enxerga. Se ela escolhe ir andando, as ruas e calçadas nem
sempre permitem acesso minimamente seguro. De ônibus ou de
metrô, se a pessoa vai com amigos, eles geralmente precisam
sentar em lugares separados porque normalmente há apenas um
ou dois lugares exclusivos para pessoas com deficiência. Enfim,
essas condições aumentam ou diminuem as chances de a pessoa
com deficiência desistir de ir para a academia?
Reflita também sobre as possíveis vias de acesso que
uma pessoa cadeirante ou uma pessoa com dificuldades
de comunicação teriam neste mesmo contexto de ir para a
academia. Não são as mesmas condições, são? Na verdade,
nem precisariam ser as mesmas condições se houvesse outras
condições que lhes permitissem escolher.

Sugerimos aqui um filme nacional de 1987, “Feliz Ano Velho”,


com roteiro baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva. A obra
apresenta possibilidades de reflexão sobre as dificuldades
enfrentadas por um jovem que adquire uma deficiência física –
tetraplegia. Outro filme sugerido sobre este contexto é “Meu Pé
Esquerdo” (em inglês: My Left Foot), premiadíssimo no Oscar
de 1909 com as categorias de melhor ator principal (Daniel
Day-Lewis) e melhor atriz coadjuvante (Brenda Fricker). Com
relação à categoria que envolve Deficiência Visual, sugiro o
filme/documentário: “A Janela da Alma.” Veja mais detalhes das
três obras no tópico Conteúdol Digital Integrador no final desta
Unidade

Talvez alguns leitores desse material de estudo ainda


possam pensar que estas não são questões que devem ser
refletidas pelo profissional de Educação Física, especialmente
com formação em bacharelado. No entanto, acredite que sim,
estas são questões muitíssimo importantes como, por exemplo,

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PANORAMA DE ATUAÇÃO

para um futuro dono de academia que se preocupa com acesso e


permanência de seus potenciais clientes em seu estabelecimento
comercial. De qualquer forma, avancemos mais um pouco neste
assunto que logo ficará mais clara a importância desta reflexão
para qualquer futuro profissional que almeje uma formação
acadêmica e humana de qualidade.
As restrições de acesso e a falta de acessibilidade adequada
(Barreiras Arquitetônicas) tornam-se uma limitação significativa
para que uma parcela da população possa praticar exercícios
físicos, mesmo que estas pessoas tenham conhecimento e
interesse em participar. Neste contexto, as normas nacionais que
estabelecem as condições de acessibilidade são descritas pela
ABNT. Estas normas devem apresentar tanto os padrões desejáveis
quanto os critérios a serem seguidos. A finalidade destas normas
é possibilitar às pessoas em condições de locomoção atípica (que
em muitos casos é reduzida em comparação com pessoas com
desenvolvimento típico), adequações e segurança para acesso
e circulação independente. As adequações mais comuns são
em banheiros, portas, corredores e rampas que possibilitam
transferência e aproximação minimamente segura aos locais
desejados. Cabe aqui adiantar uma reflexão que será retomada
adiante, mas que é importante começar a observar. Estas
medidas e normas descritas pela ABNT certamente caracterizam
um avanço no acesso às pessoas com deficiência aos diferentes
locais no sentido de permitir a elas mais independência, certo? E
com relação a autonomia, estas medidas também os possibilita?
Avancemos um pouco mais na análise das atuais condições
de acessibilidade para depois retomar essa discussão entre
independência e autonomia.
Se as pessoas com deficiência visual, motora, auditiva ou
intelectual conseguirem chegar ao local, entrar na academia

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

e ainda houver chances possíveis de comunicação com as


atendentes, quais são os possíveis aparelhos ou aulas de ginástica
acessíveis? Na grande maioria das vezes, quais são as condições
de acesso às instalações? Façamos a análise em paralelo: quais
as chances de escolha que alguém com desenvolvimento típico
e alguém com deficiência teriam para, por exemplo, escolher
o melhor horário da aula para praticar, escolher a turma que
tenha as pessoas com maior afinidade ou a professora mais
animada, escolher a modalidade da aula ou o aparelho que mais
lhe interessa para treinar determinada musculatura. Se para a
pessoa com desenvolvimento típico há quase sempre mais de
uma possibilidade de escolha em cada uma dessas condições,
para as pessoas com deficiência quase sempre há nenhuma ou
no máximo uma possiblidade de escolha de horário, modalidade
de aula ou professora para lhe oferecer atendimento.
Diante dessa análise anteriormente feita, alguma pessoa
leiga nesse assunto ou mesmo algum profissional despreparado
poderia apresentar, pelo menos, um destes três questionamentos
a seguir:
1) "Em academias normais há aparelhos e aulas normais,
ou seja, planejados para o público em geral, mas não
há para atender as pessoas diferentes. Os aparelhos
são caros e não é viável comprar aparelhos diferentes
e mais sofisticados porque quase nunca aparece aqui
uma pessoa com deficiência e, se aparece alguém,
geralmente ela não fica na academia mais do que uma
ou duas semanas".
2) “Nesta academia e em qualquer outra normal não
tem aparelhos adaptados e ninguém especializado
para atender pessoas com deficiência. No entanto, já
ouvi dizer que há um lugar adaptado para prática de

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

exercícios físicos só para pessoas com deficiência e lá


tem um profissional especializado. Então, estas pessoas
não têm porque reclamar. Elas têm à disposição um
lugar para malhar e deveriam ir para lá ou mesmo
contratar um treinador personalizado”.
3) "Se as pessoas com deficiência quiserem fazer
musculação ou aulas de ginástica aqui, elas terão que
se adaptar ao sistema que já existe. Os professores
e os aparelhos são bons, ninguém nunca reclamou,
mas não há como atender todo mundo. Não tem
como contratar um professor para cada pessoa com
deficiência. Então, quem for diferente precisa se
adequar ao que já existe aqui. Não há outra forma".

Muito provavelmente, quem trabalhou por algum tempo em


uma academia já deve ter ouvido alguns destes questionamentos
ou coisa semelhante, certo? Você já ouviu frases diferentes, mas
com os mesmos sentidos que estas apresentadas? De certa
forma, podemos categorizar de Barreiras Atitudinais tanto estes
questionamentos descritos quanto outras atitudes pejorativas
e discriminatórias semelhantes, que dificultam, privam ou
ridicularizam socialmente uma pessoa por conta de alguma de
suas características do desenvolvimento humano.
Embora os três questionamentos anteriormente
apresentados possam ser interpretados por pessoas leigas sobre
este assunto como sendo todos eles formas de "exclusão", isso
não é verdadeiro. Além disso, nem tudo que não é exclusão deve
ser chamado de inclusão. Cada um dos três questionamentos
citados, caracteriza a influência de momentos históricos e
condições sociais diferentes e chamamos esses contextos de

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

paradigmas histórico-sociais de atendimento às pessoas com


desenvolvimento atípico. O primeiro questionamento remete ao
paradigma da Exclusão, o segundo ao paradigma da Segregação
e o terceiro ao paradigma da Integração.
Antes de apresentar cada paradigma histórico-social,
vejamos a definição de paradigma pelo dicionário Aurélio:
Definição de Paradigma: 1. Algo que serve de exemplo geral ou
de modelo; 2. Conjunto das formas que servem de modelo de
derivação ou de flexão; 3. Conjunto dos termos ou elementos
que podem ocorrer na mesma posição ou contexto de uma
estrutura.

Então, afinal, o que aconteceu em cada um desses


momentos histórico-sociais que de alguma forma ainda
influencia o atendimento e a forma de pensar atual? Eu preciso
mesmo entender e refletir sobre esses paradigmas para ser um
profissional de Educação Física? – A resposta é: Sim. Embora
o mais importante atualmente talvez seja saber o que e como
fazer atendimento adequado, é preciso também compreender
um pouco sobre o processo histórico-social de atendimento a
essa parcela considerável da população. Esta compreensão irá
possibilitar argumentos que lhe capacitem autonomia para
escolher eticamente sobre os diversos tipos de atendimento
possíveis na área da Educação Física.

2.2. PARADIGMAS HISTÓRICO-SOCIAIS DE ATENDIMENTO ÀS


PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: DA EXCLUSÃO À
INTEGRAÇÃO

Serão apresentados nesta unidade três dos quatro


paradigmas histórico-sociais: Exclusão, Segregação e Integração.
Estes três primeiros citados já foram relacionados anteriormente

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

neste texto com cada um dos exemplos de questionamento. O


quarto paradigma é o da Inclusão, que você já deve ter ouvido ou
lido em algum lugar e será abordado na Unidade 2.
Historicamente estes quatro paradigmas, que alguns
profissionais da área também chamam de fases ou estágios, se
apresentam predominantemente em uma sequência cronológica.
Assim, em cada época histórica e em diferentes culturas houve a
ênfase em um dado formato e características de atendimento (ou
falta dele), mas não necessariamente a sua exclusividade e por
isso dá-se o nome de paradigma. Mas, afinal, o que caracterizam
os paradigmas histórico-sociais da exclusão, da segregação e da
integração que até hoje influenciam nossas atitudes, costumes e
hábitos cotidianos?

Paradigma histórico-social da Exclusão


O paradigma da exclusão é também conhecido como
fase da negligência e a sua característica mais marcante é a
ausência de atendimento. Exclusão total é quando a pessoa
não tem qualquer tipo de atendimento, em todos os sentidos
relacionados às condições de vida, saúde, educação, convívio
social e moradia. A exclusão total é justamente a condição
marcante na Antiguidade e no período pré-cristão no que tange
às pessoas com desenvolvimento atípico.
Por outro lado, embora o paradigma da exclusão marque
enfaticamente a época da Antiguidade, infelizmente, ainda hoje
há muitas pessoas em condição de exclusão nos mais diversos
âmbitos possíveis de atendimento (neste caso, ausência de
atendimento) como, por exemplo, social, ao lazer, esportivo,
escolar, cultural e à saúde. Assim, ainda nos dias atuais é possível
verificar que há pessoas em condição de exclusão esportiva ou

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

ao lazer, por exemplo. Considerando esta situação específica,


uma criança com atraso no desenvolvimento da comunicação e
que apresenta comportamentos agressivos e autolesivos muito
provavelmente não tem acesso a clubes esportivos, academias,
escolinhas de iniciação esportivas e, às vezes, nem mesmo isso
ocorre dentro de centros de atendimento especializado. Ao
retomar, então, àqueles três questionamentos apresentados
no início da unidade, o primeiro deles se caracterizou
essencialmente ao que se chama, comumente, de condição de
exclusão esportiva e que, infelizmente, ainda ocorre por forte
influência do paradigma da exclusão.
Mas, então, como era essa condição de vida das pessoas
com desenvolvimento atípico nos períodos da Antiguidade e pré-
cristão que justifica a compreensão desta fase sob o paradigma da
exclusão? Este paradigma influencia mesmo até hoje os hábitos
preconceituosos e de desprezo de muitas pessoas? Veremos!
Na antiguidade, as pessoas que nasciam com algum
tipo de deficiência ou com alguma característica social ou de
comunicação que fosse bastante incomum eram negligenciados
pela maior parte da sociedade/tribo. Estas características
marcantes do desenvolvimento atípico de algumas pessoas eram
exatamente os motivos que justificavam e que legitimavam o
abandono até a morte por inanição ou mesmo a eliminação via
perseguições cruéis daqueles que eram considerados anormais.
Devido ao estilo de vida nômade, pessoas que nasciam com
uma deficiência física como, por exemplo, sem parte de uma
das pernas, ou mesmo que perdiam o movimento de um dos
membros ao longo da vida, eram consideradas “defeituosas”.
Neste sentido, a eliminação desta pessoa "com defeito" ou
“incapacitada” era legitimada pela comunidade em que ela
estava inserida em função da sua improdutividade para caçar,

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

pescar, defender a si próprio e aos outros e, além disso, por


potencialmente colocar a tribo em maior risco de ataques por
predadores.
Na Grécia antiga, a perda ou mutilação de qualquer parte
do corpo era inaceitável e impedida por questões de valorização
da beleza e força física. Em Esparta, qualquer pessoa que nascesse
com uma deficiência era proposital e publicamente eliminada
porque eram reconhecidas como "criaturas subumanas" e que
não se enquadravam culturalmente nos perfis atléticos, saudáveis
e fortes. Assim, quaisquer bebês que não apresentassem o
perfil ideal, seja por baixo peso, fragilidade, prematuridade ou
“deformadas”, não mereciam ser preparados para guerrear e,
portanto, eram descartados e jogados em abismos a fim de que
não contribuíssem com a impureza ou fraqueza da sociedade. O
filme 300 retrata uma cena desse contexto (AMIRALIAN, 1986).
Aspectos políticos e econômicos contribuíram muito para
o estabelecimento desse quadro de negligência. Ao povo não era
permitido ascensão a qualquer poder político, econômico, social
e, além disso, eles deveriam servir e obedecer aos pertencentes
da nobreza, os senhores com poder social, político e econômico.
Portanto, a vida daqueles que viviam em meio ao povo não
tinha valor “humano” e, assim, muitos eram obrigatoriamente
envolvidos em lutas de defesa ou de conquista em benefício não
de si próprios, mas de uma minoria numérica - a nobreza.
Se por um lado conseguimos atualmente ver com clareza
que na Antiguidade essas atitudes de exclusão total não eram
atitudes humanas, por outro será que conseguimos notar
atitudes que ocorrem de formas mais sutis e discretas, mas ainda
de exclusão, que acontecem nos dias atuais? Em quais contextos
essas condições ocorrem? Qual o grau de influência que essas

32 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

condições de exclusão implicam na atuação do Profissional de


Educação Física? Embora ouçamos através da mídia televisiva e
da internet que a grande maioria das pessoas é contra a exclusão,
será que realmente fazemos algo para mudar essa condição?
O profissional de Educação Física tem (ou deveria ter) alguma
responsabilidade em mudar esse panorama de atendimento?
Há leis e metodologias de ensino que o profissional de Educação
Física deveria saber para atuar com ética, responsabilidade social
ou mesmo para inovar com um novo sistema de atuação em um
mercado pouquíssimo explorado? Pois bem, estas são algumas
perguntas que todo profissional (ou aquele em processo de
formação) deveria refletir. Você concorda com esta afirmação?
Discutiremos mais sobre as possibilidades de atuação no
que se refere a este contexto de mercado na próxima unidade.
Por instante, vamos prosseguir com a análise de outro paradigma.

Paradigma histórico-social da Segregação


Este paradigma marca o período histórico da Idade Média
e parte da Idade Moderna e sofre grande influência tanto das
concepções religiosas vigentes quanto do início dos estudos das
ciências.
Ainda que a igreja, nesta época, atribuísse a ocorrência
da deficiência à divindade, era comum o povo relacionar o
nascimento de pessoas com “deformidades” ao pecado, ou seja,
a causas sobrenaturais, como se fossem seres possuídos por
demônios (CARMO, 1991). Havia a superstição em determinadas
civilizações que a deficiência estava associada a uma possível
"desarmonia" ou ao "pecado" muito em função de práticas de
punição vigentes que previam a amputação de segmentos do
corpo como um castigo. Transtornos comportamentais também

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

eram associados à bruxaria e, portanto, as possibilidades de


sobrevivência das pessoas que apresentavam estas características
de desenvolvimento eram muito pequenas.
Além disso, por força da crença cristã de que todos eram
“filhos de Deus” e então possuidores de alma, o extermínio já
não era mais tão enfático como ocorria na Antiguidade, mas o
atendimento social e educacional às pessoas com deficiência
ainda era ausente e o seu tratamento se caracterizava por
caridade e tolerância ou por castigo (PESSOTTI, 1984). Em ambas
as condições, estas pessoas viviam à margem da sociedade
e, assim, na tentativa de evitar que estes “impuros de alma”
contaminassem outras pessoas, foram então criados orfanatos,
manicômios, prisões e outros tipos de instituições estatais para
guardá-los. Este caráter assistencialista, de "acolher" a pessoa
com deficiência, tinha como um dos objetivos a "salvação da
alma" com fins divinos e, para tanto, surgiram as Santas Casas
de Misericórdia. Devido a esse caráter de separação entre
às pessoas "anormais" das "normais" é que se dá o nome ao
paradigma de segregação, que tem como sinônimos: separação,
marginalização, distanciamento e isolamento. Mesmo que
elas não tivessem atendimento educacional, as pessoas com
desenvolvimento atípico eram colocadas à margem da sociedade
ora com a finalidade de não "contaminar a alma" dos demais, ora
com a finalidade de "salvar suas almas".
Com os primeiros avanços da ciência no período
renascentista, entre o final do século 14 e o final do século 16,
os valores relacionados à deficiência como algo "sobrenatural"
começam a ser substituídos pela compreensão de deficiência
como doença. No entanto, mesmo com essa nova concepção, uma
visão organicista da deficiência, as pessoas com desenvolvimento
atípico continuaram por um longo tempo a serem segregadas

34 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

em instituições, seja para não "contaminarem" outras pessoas


com a doença, seja para cuidar daqueles que eram considerados
doentes. Desta maneira, acreditava-se que as pessoas com
deficiência eram uma ameaça por colocarem em perigo a saúde
e a ordem da sociedade.
Segundo Amiralian (1986), no final do século 18 ocorreram
determinados fatos que sinalizavam os primeiros formatos de
atendimento de cunho humanitário às pessoas com deficiência.
Um destes fatos se refere à modificação da estrutura de hospitais
psiquiátricos, "soltando das correntes os loucos internados", pelo
médico francês Philippe Pinel (1745 - 1826), que é considerado
por muitos o pai da psiquiatria.
Enfaticamente na França, mas também em outros países
Europeus, que foram iniciadas entre o final do século 18 e o
início do século 19, nas instituições especializadas, os primeiros
atendimentos de cunho educacional (MAZZOTTA, 2005):
• Instituição de "surdos-mudos", fundada em 1770 por
Charles M. Eppée, que possibilitou o desenvolvimento
da linguagem de sinais.
• Instituto Nacional dos Jovens Cegos, fundada em 1784
por Valentin Hauy, que naquela época já utilizava letras
em alto relevo como uma estratégia de ensino.
• Considerado por muitos como sendo o precursor da
Educação Especial, o médico Jean Marc Itard, em 1800,
iniciou a aplicação de métodos sistematizados para o
ensino de pessoas com deficiência intelectual e social.
Em especial, Itard passou por uma experiência de
ensino incrível que durou aproximadamente cinco anos
com uma criança, Vitor - 12 anos de idade, que havia
sido capturada na floresta de Aveyron. Esta experiência

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

foi representada em um filme – "O menino selvagem de


Aveyron".
Já no século 20, nos EUA, foram criadas as primeiras
classes especiais nas escolas públicas e, por volta de 1940 e
1950, começaram também os movimentos civis dirigidos ao
atendimento educacional de crianças com paralisia cerebral e
com deficiência intelectual, sendo muitos deles organizados
pelos próprios pais e que paralelamente objetivavam pressionar
os órgãos estatais a desenvolverem leis, pesquisas e treinamento
profissional especializado.
Em termos de atendimento às pessoas com deficiência
física, após a segunda guerra mundial, por conta da grande
quantidade de soldados que voltavam mutilados e debilitados
aos seus países de origem, houve uma expansão na quantidade
de instituições especializadas, inclusive no âmbito esportivo,
para promoção da saúde, recuperação motora e lazer deles.
Estes últimos acontecimentos possibilitaram um contexto de
aproximação social, por conscientização e sensibilização, acerca
das diferenças entre os atendimentos voltados às pessoas com
desenvolvimento típico e aqueles segregados – para pessoas
com desenvolvimento atípico (MENDES, 2006).
No Brasil, em 1854, é fundado o Imperial Instituto dos
Meninos Cegos (que passa a se chamar Instituto Benjamin
Constant em 1891) e, em 1857, D. Pedro II funda o Imperial
Instituto dos Surdos-Mudos. Em 1926 é criado na cidade de
Porto Alegre o Instituto Pestalozzi, então especializado em
atender "deficientes mentais". Em 1950 é fundada a Associação
de Assistência à Criança Defeituosa (AACD) e sete anos depois,
em São Paulo, é fundada a primeira Associação de Pais e Amigos
do Excepcional (APAE).

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

Antes de finalizar a descrição deste paradigma, vale


estimular algumas reflexões: em quais contextos que envolvem
a atuação do profissional de Educação Física há atendimento
segregado de pessoas com desenvolvimento atípico? Quais as
possíveis vantagens e desvantagens (históricas, sociais, políticas,
econômicas e éticas) da criação e promoção de esportes
voltados especificamente para pessoas com deficiência? Quais
os princípios que atualmente direcionam (ou que deveriam
direcionar) o currículo e a formação acadêmica dos futuros
profissionais para atuarem com Educação Física Adaptada e com
esportes paraolímpicos?

Paradigma histórico-social da Integração


A vigência do paradigma da integração teve origem em
alguns países da Europa e nos EUA a partir de 1960, inicialmente
no contexto escolar, impulsionado por movimentos sociais
e leis que pleiteavam à algumas pessoas com deficiência os
mesmos direitos de acesso a locais públicos e atendimento
social e educacional que as pessoas com desenvolvimento
típico. A Declaração dos direitos das pessoas deficientes, de
1975, caracteriza talvez o principal marco legal de início desse
paradigma e que, em seu artigo 3º, estabelece que as pessoas
com deficiência tenham os mesmos direitos fundamentais que
seus concidadãos da mesma idade e o direito de desfrutar uma
vida decente, tão normal e plena quanto possível (MENDES,
2006).
No Brasil, campanhas e debates acerca da necessidade da
escola pública popular se iniciam em 1960, por forte influência
dos EUA que já avançavam na criação de recursos e de serviços
educacionais coletivos, mas o paradigma da integração começa

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

a ser de fato incorporado social e educacionalmente a partir de


Constituição Federal de 1988. Este documento traz como um dos
seus objetivos fundamentais: "promover o bem de todos, sem
preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras
formas de discriminação". Será possível ver, a seguir, que a questão
crucial sobre a integração prevista na lei descreveu particularmente
o contexto do atendimento escolar, mas as consequências
do mesmo atendimento extrapolaram depois para os demais
contextos da sociedade. A lei prevê a educação como um direito
de todas as pessoas e estabelece a "igualdade de condições de
acesso e permanência na escola", sendo dever do Estado ofertar
atendimento educacional especializado (AEE) e preferencialmente
na rede regular de ensino (BRASIL, 2007). Em outras palavras, a
lei estabelece que as pessoas com desenvolvimento atípico que
"se adequarem" ao tradicional ensino ofertado na escola com
auxílio do AEE (a palavra "preferencialmente" permite então esta
interpretação) devem então ser atendidas educacionalmente no
mesmo ambiente regular de ensino.
Talvez a característica mais marcante do paradigma da
integração seja o princípio da normalização do atendimento social
e educacional. Em linhas gerais, se por um lado este princípio
de atendimento permitia a algumas pessoas com deficiência a
experiência do convívio e atendimento social e educacional nos
mesmos ambientes que as pessoas com desenvolvimento típico,
por outro lado, as pessoas com deficiência deveriam se adequar
ao tradicional sistema de atendimento. Em outras palavras, era
permitido às pessoas com deficiência o acesso aos serviços em
bancos, academias de ginástica, escolas e aos recursos coletivos
de transporte e de saúde, por exemplo, desde que a "sua
deficiência" se ajustasse ao tradicional atendimento já existente
(ARANHA, 2001).

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

Assim, a demanda social imposta às pessoas com deficiência


de terem que se modificar para, então, se assemelhar na máxima
medida possível aos padrões estéticos, sociais e intelectuais da
maioria da comunidade gerou um estereótipo de normalidade:
normais versus anormais; iguais versus diferentes e; eficientes
versus deficientes. Além disso, por meio do princípio da
normalização, reforçou-se socialmente a ideia de que o motivo
pelo qual algumas pessoas não tinham acesso aos recursos e
serviços de atendimento comuns é justamente a deficiência.
Neste sentido, a pessoa com deficiência passou a ter sua imagem
única e exclusivamente associada aos termos pejorativos:
deficiente, incapaz, anormal, diferente e "pessoa especial"
pelo fato delas não "serem capazes" de se "aproximarem" dos
padrões de normalidade (ARANHA, 2001).
No âmbito escolar, aqueles alunos com deficiências
que apresentavam "grau de adaptação incompatível" com as
condições de atendimento que o tradicional sistema de ensino
permitia eram, então, apenas inseridos (integrados) no ambiente
comum. Em termos práticos, mesmo que integrados ao ambiente
de ensino comum, o atendimento de grande parte das pessoas
com deficiência era restrito às classes especiais.
A partir da normalização do atendimento, todas as pessoas
envolvidas (com desenvolvimento típico e atípico) são então
expostas em ambiente comum a Igualdade de oportunidades,
nos mais variados âmbitos de atendimento possíveis: esportivo,
educacional, ao lazer, ao transporte público, ao trabalho e
outros. Mas será que receber as mesmas oportunidades, seja
ela esportiva, de ensino, de lazer, de transporte, de trabalho ou
de outra forma, é realmente vantajoso a muitas pessoas com
desenvolvimento atípico? Vamos refletir: Se em uma turma de
ginástica aeróbica são atendidas, por exemplo, há 15 alunos e

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 39


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

dentre eles há uma pessoa com deficiência visual, uma pessoa


com surdez, uma pessoa com autismo e 12 pessoas com
desenvolvimento típico. Então, ainda que seja dado o direito
às pessoas com deficiência de receberem a mesma aula, com
o mesmo professor, no mesmo local e materiais, o mesmo
procedimento de ensino e as mesmas informações que todos da
turma, estas mesmas condições de atendimento possibilitariam
aprendizado a todos? A resposta muito provavelmente é não,
porque certamente algum aluno não deverá conseguir ver os
movimentos, outro aluno não conseguirá ouvir o que o professor
disse a todos sobre como realizar os movimentos e, ainda,
hipoteticamente um outro aluno possivelmente poderá ficar no
canto da sala balançando o corpo, tapando os ouvidos e sem
prestar atenção na aula.
A Figura 1, mostrada a seguir e representada com animais,
faz analogia com muitos tipos de atendimentos igualitários que nos
deparamos em nosso cotidiano. Nesta figura, todos estão sendo
atendidos em um mesmo ambiente e recebendo igualmente as
oportunidades para desempenhar a mesma tarefa, no caso uma
seleção, mas uns se "adequam" à instrução (e são beneficiados) e
outros não (prejudicados). Em vez do procedimento de ensino ou
de atendimento se adequar às características da pessoa, ocorre o
inverso: ocorre aprendizado ou qualquer outro tipo de benefício
se a pessoa se adequa ao atendimento normalizado. Ainda que
as desvantagens deste tipo de atendimento fiquem mais claras
quando pensamos em exemplos que envolvem pessoas com
deficiência, esta condição normalizadora é também prejudicial a
todos aqueles que por quaisquer motivos não aprendem através
das estratégias de ensino padronizadas e tradicionais, sejam as
pessoas com deficiência ou não.

40 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

Figura 1 Representação de atendimento igualitário e análogo ao paradigma na


integração.

Contudo, o processo de integração social e educacional


das pessoas com deficiência via determinações legais não foi
adequadamente acompanhado de melhor formação profissional,
de suporte estrutural e pedagógico e tampouco de políticas de
incentivo à educação (JANNUZZI, 2004). Reações contrárias a
este processo de integração (às vezes "mascarado" com o título
de inclusão) surgiram em diversos contextos sociais, tais como:
• de muitos responsáveis por estabelecimentos comerciais
(que incluem donos de academias, escolinhas e clubes
esportivos, por exemplo), que foram legalmente
obrigados a fazer adaptações arquitetônicas, oferecer
acessibilidade e a garantir vagas de acesso para
funcionários e clientes e;
• de muitos professores e coordenadores (maioria
ligados às escolas públicas, mas também os de escolas
privadas e ainda os treinadores de modalidades
esportivas), que se depararam com as dificuldades

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 41


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

de atender, em ambiente comum, pessoas que não


aprendiam à partir das metodologias padronizadas que
eles estavam acostumados a aplicar para pessoas com
desenvolvimento típico;
• de muitos pais de crianças com deficiência, que
acreditavam que o atendimento social e educacional
que seus filhos recebiam nas instituições especializadas
(segregadas) era melhor que aquele oferecido nas
escolas públicas e nos serviços coletivos;

Assim, para que consigamos avançar na elaboração de


novas e eficientes estratégias sócio-político-educacionais de
atendimento a todas as pessoas, é imprescindível que haja
debates que considerem sérias críticas às ações político-sociais
que caracterizaram o paradigma da integração. Estes debates
devem considerar tanto a maneira legalmente impositiva quanto
a desorganização econômica e educacional que não permitiram
melhores formações humanas e acadêmica de todos atendidos em
ambientes comuns. Entretanto, paralelamente há a necessidade
de se refletir sobre possíveis aspectos positivos gerados a partir
de todo esse processo de aproximação no atendimento social
e educacional das pessoas com desenvolvimento atípico (antes
atendidas em ambiente segregado) com aquelas pessoas com
desenvolvimento típico.
Portanto, será que atualmente todos nós (responsáveis
pelos estabelecimentos, professores e coordenadores, pais de
crianças com deficiência e demais pessoas com desenvolvimento
típico) estaríamos realmente tão suscetíveis a debater sobre
melhores formas de atendimento às pessoas com deficiência se
todo esse processo de integração não tivesse ocorrido? Será que

42 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

as atuais concepções sociais que almejam a reestruturação dos


diferentes serviços não beneficiariam também o atendimento
das pessoas com desenvolvimento típico ou seriam apenas
em benefício das pessoas com deficiência? Será que essa
aproximação social gerada a partir do atendimento de pessoas
com deficiência em ambientes comuns não permite a toda
a sociedade um rompimento (ou quebra) desse paradigma
baseado na normalização, que está tão fortemente estabelecido
em nossas atitudes e estilo de vida?
Vale também refletir: será que o currículo acadêmico
tradicional dos profissionais de Educação Física, tanto daqueles
já formados quanto daqueles ainda em formação, tem sido
orientado pelos princípios da normalização? Temos sido treinados
a "montar inúmeros planos de aula" antes mesmo de conhecer
as características de aprendizagem dos alunos envolvidos?
Será que historicamente temos sido preparados para elaborar
padrões de aulas que possibilitam atendimento somente das
pessoas com desenvolvimento típico? E, portanto, é por este
motivo que temos tido dificuldades de atender coletivamente
pessoas com desenvolvimento atípico no contexto da Educação
Física e do Esporte?
Diante desses últimos questionamentos fomentados, talvez
possamos considerar a possibilidade de alterar a concepção de
atendimento: “iguais versus diferentes” (os “iguais” devem ter
tratamento “X” enquanto os “diferentes” devem ter tratamento
“Y”) para uma nova concepção: "todos nós apresentamos
diferenças individuais" (e para cada um de nós deve ser elaborado
o treino com características “X”, “Y”, “Z”, “W” ou “n”...). Assim,
cada treino, aula ou atendimento adequado e ajustado conforme
nossas diferenças. Tais ajustes deveriam, então, considerar
nossos interesses, necessidades e limitações particulares. Caso

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 43


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

esta última concepção então pudesse começar a vigorar, talvez


não precisássemos mais usar o termo "deficiência", pois seria
justamente a compreensão do "princípio de diferença que todos
temos e somos" que caracterizaria todos nós como iguais. Já
pensou nisso?
A partir desta problemática gerada com as críticas
ao paradigma da integração que discussões internacionais
entre órgãos governamentais e não governamentais tem sido
periodicamente realizadas. Estas discussões têm permitido o
estabelecimento de um novo paradigma histórico-social para
os dias atuais – o paradigma da inclusão, que será abordado na
Unidade 2 deste material de estudo.
Por fim, vale lembrar a informação que enquanto um
paradigma possa estar vigente em determinados países como,
por exemplo, em países desenvolvidos, o mesmo paradigma pode
predominar em outros países apenas em períodos históricos
posteriores. Contudo, a sequência de predominância desses
paradigmas quase sempre foi invariável. Além disso, embora em
um dado país possa vigorar um determinado paradigma histórico-
social como, por exemplo, o da integração, é muito provável
que no mesmo país ainda ocorra frequentemente atitudes que
caracterizam outras condições de paradigmas anteriores, tal com
de exclusão e de segregação.

Antes de realizar as questões autoavalitivas propostas


no Tópico 4, você deve fazer as leituras propostas nos Tópicos
3.1, 3.2 e 3.3 para compreender melhor a importância deste
conteúdo para um bom currículo e formação humana e acadê-
mica do profissional de Educação Física.

44 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR

Conteúdos disponíveis na internet:


• MARQUES, F. R. F, DUARTE, E., GUTIERREZ, G. L.,
ALMEIDA, J. J. G., MIRANDA, T. J. (2009). Esporte
olímpico e paraolímpico: coincidências, divergências
e especificidades numa perspectiva contemporânea.
Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/rbefe/
v23n4/v23n4a06>. Acesso em: 10 jul. 2015.

Sites oficiais:
• COMITÊ PARALÍMPICO BRASILEIRO. Disponoível em:
<http://www.cpb.org.br/>. Acesso em: 10 jul. 2015.
• ADD. ESCOLA DE ESPORTE ADAPTADO. Disponível
em: < http://www.add.org.br/escolaEsporte.asp#.
VaAiJl9VhHw>. Acesso em: 10 jul. 2015.
• INEP. INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS
EDUCACIONAIS ANISIO TEIXEIRA. Disponível em:
<http://portal.inep.gov.br/web/educacenso/educacao-
especial>. Acesso em: 10 jul. 2015.

Outros conteúdos didáticos/pedagógicos pertencentes ao


acervo do Claretiano – Centro Universitário (Biblioteca Virtual
Claretiana)
• ARAÚJO, Paulo Ferreira de. Desporto adaptado no
Brasil: origem institucionalização e atualidade. Brasília:
INDESP, 1998. 147 p. (Série Esportes para pessoas
portadoras de deficiência).
• GORGATTI, Márcia Greguol, & DA COSTA, Roberto
Fernandes. Atividade física adaptada: qualidade de

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 45


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

vida para pessoas com necessidades especiais. Barueri:


Manole, 2005. 589 p.
• TEIXEIRA, Luzimar. Atividade física adaptada e saúde:
da teoria à prática. São Paulo: Phorte, 2008.

Filmes sugeridos:
• A JANELA da Alma. Direção e produção: João Jardim. Co-
Direção e Fotografia: Walter Carvalho. Ravina Filmes.
Brasil, 2002. 73 min.
• FELIZ Ano Velho. Direção: Roberto Gervitz. Produção:
Cláudio Kahns. Roteiro baseado no livro de Marcelo
Rubens Paiva. Brasil, 1987. 111 min.
• MEU PÉ Esquerdo (em inglês: My Left Foot). Direção:
Jim Sheridan. Roteiro baseado na autobiografia de
Christy Brown. Reino Unido, 1989. 100 min.
• O GAROTO selvagem. Direção: François Truffaut.
Produção: Marcel Berbert. França: LesProductions
Artistes Associes, 1969. 88 min.

O Conteúdo Digital Integrador representa uma condição


necessária e indispensável para você compreender integralmente
os conteúdos apresentados nesta unidade.

3.1. REABILITAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E O


DESPORTO ADAPTADO

Nas últimas décadas tem-se notado um aumento


considerável no que se refere à prática de atividade física adaptada.
Alguns autores têm utilizado a terminologia Atividade "Motora",

46 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

em vez de "Física", considerando aspectos cinéticos, culturais


e humanos relacionados aos movimentos e não simplesmente
a aspectos estéticos. Por influência dos movimentos sociais
inclusivos e da popularização das paraolimpíadas na mídia, mais
pessoas com deficiência têm se engajado em esportes de alto
rendimento e, consequentemente, se preocupado com aspectos
relativos à prevenção de lesões e à reabilitação motora. Neste
contexto, aspectos motivacionais que possibilitam a escolha de
uma ou outra modalidade se contrapõem com as chances maiores
ou menores de estarem expostas a riscos de lesões. Para orientar
pessoas com deficiência a fazer estas escolhas, o profissional de
Educação Física deve compreender estas variáveis motivacionais,
aspectos metodológicos dos esportes e ainda estar atento às
implicações que a prática de determinados esportes tem sobre o
risco de lesões, considerando as características motoras de seus
alunos.
Embora a prática esportiva seja vista, via influência da
mídia e também por senso comum, como sinônimo de bem
estar físico e locomotor, a realidade de praticantes de médio e
alto nível não é bem essa e no contexto do desporto adaptado a
situação não é diferente. Contudo, é possível considerar aspectos
positivos da prática esportiva em termos de reabilitação física,
psicológica e social para praticantes que apresentem algum tipo
de deficiência. Para tanto, a atuação do profissional de Educação
Física é novamente solicitada quando há necessidade de realizar
modificações nas metodologias, nas regras ou nos materiais
tradicionalmente utilizados a fim de aumentar a probabilidade
de prática esportiva por pessoas com deficiência.
Além disso, o profissional de Educação Física deve ficar
atento a todas estas variáveis nos diferentes momentos de
prática esportiva da pessoa com deficiência, desde a iniciação

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 47


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

até a aposentadoria. Este é um campo de atuação que tem


um potencial muito grande tanto no mercado nacional quanto
internacional e que ainda pode ser mais explorado pelos
profissionais de Educação Física brasileiros. Ainda que não
tenhamos significativos investimentos em termos financeiros,
acadêmicos, tecnológico, de pesquisa e de visibilidade
na mídia, esse quadro tem sido cada vez mais favorável a
partir de iniciativas públicas e privadas. Se o profissional de
Educação Física estiver academicamente preparado para
entender boa parte destas variáveis anteriormente descritas e
relacioná-las com aspectos mercadológicos, ele possivelmente
poderá desenvolver mecanismos próprios e autônomos para
estabelecer novos mercados e campos de atuação no que
se refere ao atendimento e a reabilitação de pessoas com
deficiência no contexto esportivo.
Fique atento! Embora alguns artigos sugeridos ainda
utilizem expressões como "pessoa deficiente", "pessoa
portadora de deficiência", "cadeirante", “pessoas com
necessidades especiais”, estes não são mais usuais e foram
substituídos por "pessoas com deficiência (motora, física,
intelectual, visual ou auditiva)". Assim, ainda que estes termos
sejam citados nos artigos a seguir, você não deve repeti-los
nas atividades previstas desta obra e tampouco em outros
contextos. Para tanto, acesse:

• BOAS, M. S. V., BIM, R. H., BARIAN, S. H. S. Aspectos


motivacionais e benefícios da prática do basquetebol
sobre rodas. 2001. Disponível em: < http://
eduem.uem.br/ojs/index.php/RevEducFis/article/
viewArticle/3464>. Acesso em: 13 jul. 2015.

48 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

• CARDOSO, V. D. A reabilitação de pessoas com


deficiência através do desporto adaptado. Disponível
em: <http://www.scielo.br/pdf/rbce/v33n2/17.pdf>.
Acesso em: 13 jul. 2015.
• BRAZUNA, M. R., MAUERBERG-DeCASTRO, E. A
trajetória do atleta portador de deficiência física no
esporte adaptado de rendimento: uma revisão da
literatura. Disponível em: <http://www.rc.unesp.br/ib/
efisica/motriz/07n2/Brazuna.pdf>. Acesso em: 13 jul.
2015.

3.2. ATIVIDADE FÍSICA E A QUALIDADE DE VIDA DE PESSOAS


COM DEFICIÊNCIA

Apesar de nos dias atuais ser possível verificar cada vez


mais pessoas praticando as mais variadas modalidades esportivas
e exercícios físicos com a finalidade ganhos para a qualidade de
vida, há ainda uma parcela da população, dentre elas muitas
pessoas com deficiência, que está privada destes benefícios.
O desconhecimento sobre as possibilidades e locais de prática
esportiva coletiva e a má formação de profissionais que possam
orientar a prática de exercício físico para pessoas com deficiência
são alguns tipos de barreiras arquitetônicas e atitudinais. Estas
barreiras levam a um distanciamento entre a prática regular de
exercícios físicos e pessoas com deficiência que tenha interesses
de ganhos para a qualidade de vida.
Um fator crucial para que ocorram ganhos em termos
de qualidade de vida é o aumento no grau de satisfação físico,
intelectual e social para aquele que pratica o exercício físico.
Se bem orientada a prática de exercícios físicos para pessoas

© ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 49


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

com deficiência, seja em ambiente segregado ou coletivo,


o praticante pode perceber benefícios já em curto prazo.
Benefícios sociais e físicos, por exemplo, podem ser medidos
por meio de questionários e testes de avaliação das capacidades
físicas. O impacto em longo prazo da prática de atividade física
para pessoas com deficiência também tem sido investigados e os
resultados têm servido de motivação para aumentar o número
de adeptos.
Entretanto, avanços científicos e melhor formação
acadêmica nesta área de estudo ainda são bastante requeridos
principalmente para que não seja divulgada a ideia de que
qualquer prática de atividade física, mesmo sem orientação
e prescrição, deve ser realizada. Se o profissional de Educação
Física não se apropriar desse campo de atuação com dedicação,
muitas pessoas podem não ter os benefícios em curto e longo
prazo previstos, muito provavelmente gerando menor grau de
satisfação e, consequentemente, menor adesão a prática de
exercício físico e diminuição deste mercado de trabalho. As
leituras a seguir contribuirão para o avanço sobre estas reflexões.
Ao ler os artigos, procure identificar se os autores fazem
corretamente referência aos termos inclusão, interação e outros
tratados nesta unidade de estudo. Muitos artigos recentes nessa
área, mesmo publicados cinco a sete anos atrás, apresentam
discussões interessantes, mas usavam terminologias que hoje
estão ultrapassadas. Além disso, lembre-se: embora alguns
artigos ainda utilizem expressões como "pessoa deficiente",
"pessoa portadora de deficiência", "cadeirante", estes não são
mais usuais e foram substituídos por "pessoas com deficiência
(motora, física, intelectual, visual ou auditiva)".

50 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

• BOAVENTURA, R. S., CASTELLI, M. S., BARATA, T. C. R.


Os benefícios da atividade física para a pessoa com
deficiência. 2009. Disponível em: < file:///C:/Users/
Paulo/Downloads/136-1136-1-PB.pdf>. Acesso em: 10
jan. 2015.
• INTERDONATO, G. C, GREGUOL, M. Qualidade
de vida e prática habitual de atividade física em
adolescentes com deficiência. 2011. Disponível em:
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0104-
12822011000200011&script=sci_arttext&tlng=es>.
Acesso em: 13 jul. 2015.
• NOCE, F., SIMIM, M. A. M., MELLO, M. T. A percepção
de qualidade de vida de pessoas portadoras de
deficiência física pode ser influenciada pela prática
de atividade física? 2009. Disponível em: <http://
www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid
=S1517-86922009000300002>. Acesso em: 13 jul. 2015.

3.3. ATIVIDADE FÍSICA ADAPTADA E O CURRICULO FORMATIVO


DO PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA

Ao longo desta unidade, discutimos muitas questões


relacionadas aos diferentes atendimentos das pessoas com
deficiência, tanto no contexto da Educação Física quanto em
outros contextos sociais. Contudo, cabe ao futuro profissional
de Educação Física refletir qual é o seu papel na atuação dentro
deste campo de mercado. Se pode ou não atuar, como deve fazer
isso se pode contribuir para expandir ou mesmo gerar novos
mercados. Estas reflexões devem envolver aspectos éticos,
humanos e também econômicos.

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

Entretanto, embora este seja um campo de atuação em


expansão desde os anos 80 no Brasil, especialmente em academias
de ginástica e musculação, muitos profissionais e alunos em
formação acadêmica ainda se deparam com limitações sérias, que
vão desde o desconhecimento conceitual sobre a deficiência até
sobre os procedimentos de atendimento adequados para cada
característica da pessoa com deficiência, que muitas vezes os
impedem ou os desanimam de investir neste mercado.
Para tanto, torna-se muito importante entender os
fatos que marcaram a formação curricular do profissional de
Educação Física nas últimas décadas. A compreensão destes
fatos nos possibilitará repensar qual deve ser o currículo do
novo profissional. Certamente há conteúdos mais importantes
para estudar que apenas aqueles que tratam das especificidades
médicas das pessoas com deficiência. Os artigos citados a seguir
apresentam análises feitas recentemente, mas ainda assim em
tempos diferentes: 1, 4 e 10 anos atrás. Diante destes artigos,
procure analisar as diferentes perspectivas que os profissionais e
pesquisadores envolvidos tinham sobre o mercado que envolve
a prescrição de exercício físico para pessoas com deficiência e o
respectivo currículo formativo.
Repito a importância de se atentar para o possível uso
inadequado e ultrapassado de expressões como, por exemplo,
“pessoa deficiente” e "portador de deficiência".
• BORELLA, D. R. Atividade física adaptada no contexto
das matrizes curriculares dos cursos de Educação Física
Dissertação de Mestrado. 2010. Disponível em: <http://
www.bdtd.ufscar.br/htdocs/tedeSimplificado//tde_
busca/arquivo.php?codArquivo=3809>. Acesso em: 13
jul. 2015.

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

• RIBEIRO, S. M., ARAÚJO P. F. A formação acadêmica


refletindo na expansão do desporto adaptado:
uma abordagem brasileira. 2004. Disponível em:
<http://rbce.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/
viewFile/238/240>. Acesso em: 13 jul. 2015.
• VARGAS, L. S., NETO, J. F. P., CARVALHO, N. O.,
FERRACINI, R. M. A. Formação e o conhecimento
dos graduandos em Educação Física Bacharelado
para atuar com cadeirantes em academias. 2014.
Disponível em: <http://congressos.cbce.org.br/index.
php/7csbce/2014/paper/viewFile/5977/3247>. Acesso
em: 13 jul. 2015.

4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para
você testar o seu desempenho. Se encontrar dificuldades em
responder às questões a seguir, você deverá revisar os conteúdos
estudados para sanar as suas dúvidas.
1) Qual das situações abaixo enfaticamente caracteriza a perspectiva da
exclusão?
a) Judô para pessoas com deficiência visual.
b) Pessoas com deficiência que foram impedidas de jogar Futebol.
c) Recreação envolvendo pessoas com desenvolvimento típico e atípico.
d) Goalball.

2) O paradigma da segregação no campo da Educação Física pode ser carac-


terizado por:
a) Basquetebol em Cadeira de Rodas.
b) Futebol Tradicional.
c) Jogos aquáticos envolvendo pessoas com desenvolvimento típico e
atípico.
d) Voleibol de areia.

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

3) Um atendimento na área da Educação física sob a perspectiva da integra-


ção pode ser caracterizado por:
a) Esgrima em Cadeira de Rodas.
b) Queimada só com pessoas com desenvolvimento típico.
c) Pessoas com deficiência visual tentando jogar futebol com pessoas
com desenvolvimento típico, considerando as mesmas regras e mate-
riais tradicionais.
d) Natação para pessoas com paralisia cerebral.

4) O princípio da Normalização faz referência a qual paradigma histórico-


-social de atendimento?
a) Inclusão.
b) Segregação.
c) Educação Física Adaptada.
d) Integração.

5) As implicações sociais geradas a partir da promulgação da Constituição


Federal de 1988 marcam a passagem de um paradigma histórico-social
de atendimento às pessoas com desenvolvimento atípico para outro no
âmbito nacional. Quais são elas?
a) Da exclusão para a inclusão.
b) Da segregação para a exclusão.
c) Da Educação Física Adaptada para a Atividade Motora Adaptada.
d) Da segregação para a integração.

Gabarito
Confira, a seguir, as respostas corretas para as questões
autoavaliativas propostas:
1) b.
2) a.
3) c.
4) d.
5) d.

54 © ATIVIDADE FÍSICA PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS


UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

5. CONSIDERAÇÕES
Chegamos ao final da primeira unidade, na qual você teve
a oportunidade de compreender as principais características de
três dos quatro paradigmas histórico-sociais. Vimos, também,
a importância do papel do profissional de Educação Física na
sociedade atual que permite mudanças dos rumos de processo
histórico de atendimento. Além disso, foram apresentadas
discussões e reflexões que se relacionam às dificuldades e às
vantagens que o profissional de Educação Física pode ter nos dias
atuais para atuar junto com alunos e clientes com deficiência.
Discutimos a respeito das imposições políticas e legais, tanto na
esfera nacional quanto internacional, que alteraram os formatos
de atendimento esportivo para pessoas com deficiência e
também indiretamente daquelas com desenvolvimento típico.
Muitos questionamentos e críticas apresentadas por donos
de academias, professores ou mesmo de pessoas leigas neste
assunto podem ser explicados por fatores históricos. Embora
o panorama de atuação descrito nesta unidade não seja muito
favorável, veremos nas unidades seguintes novas e ricas
propostas de atendimento, especialmente acerca do paradigma
da inclusão.
Na próxima unidade, você aprenderá as características
principais do paradigma de atendimento da inclusão e os
mecanismos possíveis para extrapolar este mercado de
trabalho.

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UNIDADE 1 – EDUCAÇÃO FÍSICA E PESSOAS COM DESENVOLVIMENTO ATÍPICO: CONCEITOS, ÉTICA E
PANORAMA DE ATUAÇÃO

6. E-REFERÊNCIAS

­­­­­­­­­Lista de figuras
Figura 1 Representação de atendimento igualitário e análogo ao paradigma na
integração. Disponível em: <http://blog.panhoteis.com.br/fatos-e-tendencias/index.
php/2014/04/08/meritocracia-a-palavra-mais-ouvida-no-forum-panrotas-2014/#.
VZhyAxtViko>. Acesso em: 13 jul.. 2015.

Site pesquisado
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Especial. Política nacional de
educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2007.
Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/politica.pdf>. Acesso em:
13 jul. 2015.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMIRALIAN, M. L. T. M. Psicologia do excepcional. Clara Regina Rappaport (Coord.).
São Paulo: E.P.U., 1986.
ARANHA, M. S. F. Inclusão. In: MARQUEZINE, M. C.; ALMEIDA, M. A.; TANAKA, E. D. O.
(Eds). Perspectivas multidisciplinares de educação especial. Londrina: EDUEL, 2001.
v. 2.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Assembleia Nacional
Constituinte. DF: Senado Federal/Secretaria Especial de Editoração e Publicações,
1988.
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