Você está na página 1de 5

1

Pós-Graduação em Filosofia Contemporânea


Da Modernidade à Pós-modernidade

Professora: Renata Drumond Flecha


Aluna: Bruna Coutinho Silva

ASPECTOS DA MODERNIDADE

1) Renascimento

De acordo com Abbagnano (2007), o Renascimento foi um movimento artístico, cultural


e filosófico originário das cidades italianas que tratou de retomar as bases clássicas, greco-
romanas, em contraposição1 às referências medievais e religiosas, e que ocorreu entre o final
do século XIV até o final do século XVI2. Como características fundamentais, têm-se: a)
humanismo – crença no valor do homem e de que este se realizou mais plenamente na era
clássica, por isso sua retomada; b) renovação religiosa – interesse em se reestabelecer as bases
do cristianismo originário; c) renovação das concepções políticas – retomada das instituições
sociais originárias, pressupondo uma origem natural das sociedades; e d) naturalismo –
investigação da natureza e suas manifestações.
Segundo Silva e Silva (2009), o norte da Itália apresentava características que
permitiram a emergência do Renascimento de modo mais expressivo. Nessa região, havia ainda
resquícios da influência romana, como a língua latina e a arquitetura. Além disso, era composta
por burgueses em ascensão, em cidades ricas e já avançadas em urbanização e em polos
artísticos, como Veneza, Roma, Nápoles, Florença, Milão.

1
Atualmente, considera-se que o Renascimento não foi um movimento de ruptura, mas de continuidade da Era
Medieval, através da promoção de um encontro entre esta e a Antiguidade Clássica (SILVA; SILVA, 2009).
2
Ou de meados do século XV a meados do XVII, conforme Japiassú e Marcondes (2008).
2

2) Humanismo

Enquanto característica do Renascimento, o Humanismo tem sua origem na mesma


época, em meados do século XIV. Conforme Abbagnano (2007), suas bases consistem no
reconhecimento da totalidade, da historicidade, do valor e da naturalidade do homem. Este é
um ser destinado a ser plenamente desenvolvido de corpo e alma e a dominar o mundo. Nesse
sentido, o homem assume uma centralidade no seu destino e também enquanto objeto
fundamental das ciências, das artes e da filosofia, o que pode ser compreendido como
antropocentrismo.
Outro aspecto interessante a se destacar é a associação desse movimento à educação. Os
estudos eram predominantemente concentrados na Teologia, através da Hermenêutica, e por
pessoas altamente qualificadas, geralmente vinculadas às universidades. Com o
desenvolvimento da burguesia e seu acesso à educação formal, com o apoio dos primeiros
humanistas como Petrarca e Valla, outros conhecimentos, retomados da tradição clássica,
começaram a se apresentar como campo de estudos, como a linguística e a crítica histórica,
associados à difusão dos livros impressos (SILVA; SILVA, 2009).

3) Individualidade/ Individualismo

A noção de individualidade ganha corpo gradualmente, na medida dos grandes


acontecimentos que marcaram a modernidade, como o Renascimento, a Reforma Protestante,
apenas para citar exemplos. O antropocentrismo humanista concedeu ao ser humano maior grau
de autonomia no pensar e no agir, instituindo gradualmente a compreensão de uma instância, a
do “eu”, separada das demais instâncias, seja de Deus, seja da comunidade. Além disso, a
individualidade na modernidade esteve associada aos princípios iluministas, de igualdade e
liberdade, ao mesmo tempo em que assegurava o entendimento da singularidade, o que
diferencia entre os seres humanos (OLIVIA-AUGUSTO, 1994).
O individualismo, por outro lado, está intrinsecamente relacionado à doutrina do
Liberalismo, caracterizando-se pelo primado do indivíduo sobre os coletivos a que pertence. O
denominado jusnaturalismo àquele se relaciona na medida em que busca estabelecer direitos
naturais e universais aos indivíduos, que não podem ser violados. O liberalismo, por sua vez,
em sua principal vertente, a econômica, visa o combate à gerência do Estado sobre as questões
econômicas, apregoando mais liberdade individual na condução das mesmas através da livre
iniciativa (ABBAGNANO, 2007).
3

4) Capitalismo

O capitalismo é um modo de produção econômica que tomou corpo na Europa Ocidental


a partir do século XV. Sua emergência está associada ao declínio do Feudalismo enquanto
sistema socioeconômico e político, que se baseava na servidão de camponeses ao clero; e
também está associado ao advento da burguesia, que promoveu o crescimento dos espaços
urbanos e do comércio livre.
Há historiadores que fazem uma divisão quanto às fases do capitalismo, a saber:

Historicamente, o Capitalismo assumiu diversas fases. Surgiu como Capitalismo


comercial, fase chamada de mercantilista, entre os séculos XVI e XVIII, e sobre a
qual alguns autores discordam se constituiu de fato uma etapa propriamente capitalista
ou se deve ser interpretada apenas como um período de transição entre estruturas
feudais e estruturas capitalistas; a segunda fase do Capitalismo é o momento em que
ele atingiu com vigor a produção industrial. Era o Capitalismo industrial de livre
concorrência, característico dos primeiros avanços da Revolução Industrial na
Inglaterra de fins do século XVIII e grande parte do século XIX. A seguir, surgiu o
Capitalismo monopolista, típico do imperialismo dos anos 1870-1914, e caracterizado
pela concentração de capitais, pela luta por mercados e pelo protecionismo das Nações
em competição. Por fim, ainda no mesmo período emergiu o Capitalismo financeiro.
Nessa fase, grandes bancos concentravam os capitais advindos do crescimento
econômico, e as bolsas de valores negociavam ações das empresas. Hoje, no início do
século XXI, com o fenômeno da globalização, analistas julgam que entramos em uma
nova fase do Capitalismo. Cada uma dessas etapas foi caracterizada por avanços
científico-tecnológicos que impulsionaram o desenvolvimento das empresas
capitalistas. Atualmente, os avanços no campo da informática e da eletrônica vêm
tendo imensas repercussões na produção capitalista, nas relações comerciais e nas
relações sociais de trabalho (SILVA; SILVA, 2009, p. 43, grifos nossos).

As implicações desse sistema para a vida social foram analisadas em profundidade por
vários teóricos, dentre eles, Karl Marx e Max Weber. O primeiro destaca que o modo de
produção capitalista se assentou sobre o pressuposto da desapropriação dos meios de produção
dos trabalhadores pelos capitalistas, o que leva ao princípio da exploração da mão-de-obra
assalariada. Nesse sentido, todo o sistema é estruturado a partir do conflito entre as duas grandes
classes sociais, o proletariado e a burguesia. O segundo reconhece na ética protestante,
sobretudo a partir da influência do calvinismo, a fonte cultural para o que denomina “espírito
do capitalismo”. Ou seja, os ideais protestantes de valorização do esforço e do trabalho, da
necessidade de poupar e de levar uma vida simples e honesta, foram fundamentais para que
esse modo de produção fosse incorporado e naturalizado na vida cotidiana, culminando no
modo de vida burguês. Além disso, a peculiaridade desse modo de produção é sua base racional,
tecnológica e científica (SILVA; SILVA, 2009).
4

5) Reforma Protestante

A reforma protestante foi um importante movimento que emergiu no contexto religioso


cristão, no século XVI, cujas implicações contemplam aspectos educacionais e sociais. Martin
Lutero, monge católico alemão, era crítico à conduta do clero, que, além de extremamente
privilegiado em termos de riquezas e posses, cobrava altos impostos, vendia indulgências e
exercia forte influência nos aspectos econômicos e políticos do país (Alemanha). Essa
indignação levou Lutero a elaborar as 95 teses, afixadas na catedral de Wittenberg. A ideia
originária era promover uma reforma da religiosidade cristã, em termos de um retorno ao
cristianismo primitivo, mais próximo do povo, menos intelectual e institucionalizado. A
renúncia à autoridade que não fosse proveniente de Deus e das escrituras; a livre interpretação
dos textos bíblicos, enfatizando a condição humana de liberdade subordinada à sua conexão
direta com Cristo; a salvação unicamente pelo ato de fé – foram aspectos fundamentais da
doutrina luterana (VALENTIN, 2010).
Em se tratando das repercussões educacionais e sociais da reforma protestante, a
compreensão da Bíblia passa a ter uma centralidade na espiritualidade protestante, de modo que
a educação geral da população para leitura foi amplamente incentivada, chagando a influenciar
a reestruturação do ensino na Alemanha e a criação de escolas e universidades protestantes.
Ademais, após a reforma, diversas outras denominações religiosas emergiram, como o
calvinismo, o puritanismo, o anglicanismo, o metodismo, muitas delas, inclusive, associadas à
nobreza, ou seja, às monarquias (VALENTIN, 2010).
5

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de Filosofia. 5. ed. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. 2.


ed. São Paulo: Contexto, 2009.

OLIVA AUGUSTO, Maria Helena. O moderno e o contemporâneo: reflexões sobre os


conceitos de indivíduo, tempo e morte. Tempo Social, São Paulo, v. 6, n. 1-2, p. 91-105,
1994. Disponível em: <http://www.periodicos.usp.br/ts/article/view/85113/88012>. Acesso
em: 21 fev. 2018.

VALENTIN, Ismael Forte. A Reforma Protestante e a educação. Revista de Educação do


Cogeime, Belo Horizonte, a. 19, n. 37, p. 59-70, jul./dez. 2010. Disponível em:
<https://www.redemetodista.edu.br/revistas/revistas-
cogeime/index.php/COGEIME/article/view/66>. Acesso em: 20 fev. 2019.