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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ

ESCOLA DE DIREITO
CURSO DE DIREITO

ANA PAULA ALVES CORREIA


LILIAN CRISTINA DA SILVA
LUAN DE SOUZA PIRES
LUCAS SALMORIA

DIREITO CIVIL - FAMÍLIAS


Tutela, Curatela e Tomada de Decisão Apoiada

Trabalho destinado à disciplina ​Direito Civil -


Famílias, s​ ob orientação da professora Fernanda
Letícia Soares Pinheiro, para obtenção de nota
parcial bimestral do segundo semestre do ano
presente.

CURITIBA
NOVEMBRO - 2018
I. INTRODUÇÃO

Tenciona-se apresentar com o presente trabalho, uma análise crítica


consistente dos temas ​tutela​, ​curatela ​e ​tomada de decisão apoiada. Os três
institutos, com suas particularidades, mostram-se caros ao direito de famílias e,
desenvolvidos seus limites e alcances ao longo do tempo em nosso ordenamento
jurídico com a inspiração e debruçamento necessários de inúmeros doutrinadores
desse campo, pretende-se fazer uma abordagem sistemática do essencial atinente a
cada tema de modo a explorar seu conceito, quiçá breve relato histórico, bem como
suas principais nuances.

II. TUTELA

Em sede de intróito, insta salientar que o instituto jurídico da ​tutela possui


suas disposições legais no Código de Direito Civil brasileiro (Lei 10.406/02 - CC/02),
precisamente no Livro IV, Título IV, Capítulo I, artigo 1728 ao 1766. Também o
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90 - ECA) quando estabelece
alguns parâmetros para a guarda da criança e do adolescente, possui a subseção III
específica para tratar de questões relativas à tutela. A inserção do instituto replicada
no ECA é de suma importância para enfatizar a necessidade de uma interpretação
conjunta e sistêmica entre as disposições contidas no ECA e no CC/02.
O objetivo precípuo da tutela (e sua maior distinção relativamente à ​guarda​), é
o de conceder um representante legal à criança ou ao adolescente que não o possui
quando da incidência das hipóteses do artigo 1728 do CC/02, senão vejamos:

Art. 1.728​​. Os filhos menores são postos em tutela:


I - com o falecimento dos pais, ou sendo estes julgados ausentes;
II - em caso de os pais decaírem do poder familiar.

Corroborando e realizando incremento ao nosso entendimento, à lição do


doutrinador Silvio de Salvo Venosa, entende-se por tutela:
“a tutela e a curatela são institutos que objetivam suprir incapacidades de
fato e de direito de pessoas que não as têm e que necessitam de proteção.
Para agir na vida civil, reclamam a presença de outrem que atue por elas”1.

O instituto tutelar é pensado sempre como medida de proteção, visando


atender aos interesses do tutelado, e não dos adultos. Enquanto a criança ou o
adolescente contarem com ao menos um de seus pais, e este estiver no pleno gozo
do poder familiar, não há que se falar de tutela.
Acerca deste instituto, tem-se o entendimento do Supremo Tribunal de Justiça
que a concessão da tutela só pode ser deferida desde que observados os
pressupostos previstos no art. 1.728 no CC/02:

DIREITO CIVIL. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE.


TUTELA. NECESSIDADE DE PRÉVIA SUSPENSÃO OU DESTITUIÇÃO
DO PODER FAMILIAR. GUARDA JUDICIAL QUE NÃO IMPORTA EM
TAL EFEITO. RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO. 1. ​O deferimento
da tutela pressupõe a prévia decretação da perda ou suspensão do poder
familiar, ex vi do art. 36, parágrafo único, do Estatuto da Criança e do
Adolescente e art. 1.728 do Código Civil. 2. In casu, aduz a apelante, em
síntese, que possui a guarda do menor, condição que, segundo seu
entendimento, implicaria na suspensão do poder familiar do genitor. 3. o
referido argumento, contudo, não merece prosperar, tendo em vista que a
guarda judicial não importa na destituição do poder familiar, tampouco sua
suspensão. 4. Por todo o exposto, acostando-me ao brilhante parecer
exarado pela Douta representante do Ministério Público, tem-se por
incensurável a sentença que julgou improcedente o pedido de tutela em
comento, imerecendo qualquer reparo em seus termos. 5. recurso
conhecido e improvido. Sentença mantida em todos os seus termos.
(STJ - Resp: 465930 CE 2014/0004835-6, Relatora: Ministra MARIA
ISABEL GALLOTTI, Data da Publicação: DJ 18/06/2015). (Grifos
nossos).

É efetivamente válido recordar que a simples guarda, a despeito de atribuir ao


guardião a condição de responsável legal pela criança ou adolescente, não confere
o direito de representação do infante nos atos da vida civil, excetuando-se a ocasião
do artigo 33 do ECA, pela sua própria particularidade e ​vi iuris​.
Quando aquele que é tutelado alcança a maioridade civil, ou quando de sua
emancipação, a tutela cessa de pleno direito, por força do disposto no artigo 1763 do
CC/02. Na eventualidade da persistência da incapacidade do tutelado após
completados os 18 anos de idade, existindo uma das hipóteses do artigo 1767

1
VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil Vol. 6: ​Direito de Família. ​13. ed. São Paulo - Sp: Atlas,
2013. p. 457​.
(hipóteses para a concessão da curatela - e, que veremos adiante), deverá o
anteriormente tutelado ter sua interdição decretada recaindo sobre ele o instituto da
curatela que possui por legítimo direito.
Ao contrário do que figura com a guarda, a tutela e o poder familiar são
incongruentes, ou bem vigora um ou bem vigora outro. Conclui-se, portanto, que é
pressuposto da tutela a suspensão destituição ou extinção prévia do poder familiar.
Entende-se ser imprescindível que resida com o tutor nomeado pelo Juízo, a
criança ou o adolescente. O tutor deverá prover toda a assistência material, moral e
educacional de seu tutelado, assim como representá-lo ou assisti-lo nos atos
inerentes à vida civil em comum e na sua em particular. Insta dizer que também são
naturais deveres dos tutores os encargos previstos nos artigos 1740, 1741, 1747 e
1748, como bem afirmam os promotores de justiça paranaenses, Ildeara e Murillo
Digiácomo2.
Do que fora exposto, não significa dizer que é vedado ao tutor pleitear, em
Juízo, por alimentos ao seu tutelado em face de seus pais. O dever de alimentos,
ainda que suspenso, destituído ou extinto o poder familiar persiste e impera, vez que
é determinado pelo grau de parentesco.
O tutor é nomeado pelo Juízo e supervisionado pela mesma jurisdição. É
detentor de um ​múnus ​público (uma ​delegação do Estado - c​ omo Venosa gosta de
sintetizar), sua função é personalíssima e irrenunciável, em princípio. Somente uma
pessoa pode ser nomeada tutor, é unipessoal portanto.
É natural que toda pessoa que administre bens cuja propriedade é alheia,
preste contas na forma da lei. Assim, mesmo que os pais do tutelado isentem o tutor
da prestação das contas, como preconiza o artigo 1755 do CC/02, a obrigação se
inaltera. Ao cabo de cada ano administrando os bens alheios, o tutor submete seu
balanço à apreciação do Juízo para posterior chancela. Além da prestação anual de
contas, deverá também dar conta bienalmente, outrossim, sempre que deixar de
exercer a tutela e quando o juiz julgar por bem analisar os balanços. A falta de
prestação ou mesmo a desaprovação em Juízo destas, impele e motiva à destituição

2
​DIGIÁCOMO, Murillo José; DIGIÁCOMO, Ildeara de Amorim. ​Estatuto da Criança e do
Adolescente; anotado e interpretado​​. Curitiba: SEDS, 2013. p. 42.
do tutor, assim como enseja no consequente aforamento de ação indenizatória em
favor do interessado, pelo Ministério Público.
Por fim, importa dizer que a destituição da tutela é medida aplicável ao tutor
que somente pode ser decretada pelo Juízo, em procedimento contencioso,
observando-se sempre a ampla defesa e o contraditório. Quanto a tal procedimento,
estabelece as normas o Código de Processo Civil (CPC/15), dos artigos 1194 ao
1198.

III. CURATELA

A curatela consiste no estabelecimento de um curador para administração dos


bens daqueles que são incapazes – seja por alguma enfermidade psicológica,
temporária ou definitiva, ou vício toxicológico. Este instituto está previsto no CC/02
do art. 1767 até o 1783, tendo um capítulo próprio dentro do Título IV “Da Tutela, da
Curatela e da Tomada de Decisão Apoiada”, ainda se divide em três seções: “Dos
Interditos”; “Da Curatela do Nascituro e do Enfermo ou Portador de Deficiência
Física”; “Do Exercício da Curatela”.
A curatela assemelha-se com tutela, destinadas o mesmo fim – proteção de
incapazes. As duas também estabelecem as mesmas responsabilidades para o
responsável pelos bens do incapacitado. O próprio art. 1774 CC/02 define
aplicações das mesmas regras de tutela, mas com algumas alterações. O
doutrinador Roberto Carlos Gonçalves faz um quadro de semelhança:

A curatela assemelha-se à tutela por seu caráter assistencial,


destinando-se, igualmente, à proteção de incapazes. Por essa razão, a ela
são aplicáveis as disposições legais relativas à tutela, com apenas algumas
modificações (CC, art. 1.774). Ambas se alinham no mesmo Título do Livro
do Direito de Família devido às analogias que apresentam. Vigoram para o
curador as escusas voluntárias (art. 1.736) e proibitórias (art. 1735); é
obrigado a prestar caução bastante, quando exigida pelo juiz, e a prestar
contas; cabem-lhe os direitos e deveres especificados no capítulo que trata
da tutela; somente pode alienar bens imóveis mediante prévia avaliação
judicial e autorização do juiz etc.3

3
​GONÇALVES, Carlos Roberto​. Direito civil brasileiro – Direito de família. ​Vol. 6. 14° edição. São
Paulo: Editora Saraiva, 2017, p. 687.
Contudo, as duas ainda apresentam diferenças que as distinguem quanto a
aplicação. Segundo o mesmo doutrinador, podem ser apontadas quatro diferenças:
curatela é destinada a maiores de idade, diferente da tutela, mas há exceções para o
nascituro; tutela sempre é diferida pelo magistrado; curatela não engloba a
administração da pessoa necessariamente, podendo ser voltada somente para os
bens; por fim, os poderes do curador não têm a mesma extensão do tutor.
Antes de apresentar as características dessa intervenção é importante
apontar que o Estatuto da Pessoa com Deficiência, Lei 13.146/2015 trouxe
alterações importantes. A pessoa com deficiência é considerada plenamente capaz
pelo art. 6 desta lei, ela só será decretada a sua interdição quando houver
necessidade, conforme do art. 84, § 1 estabelece, como medida extraordinária - § 3,
do mesmo artigo. Portanto, ao analisar este instituto jurídico deve-se considerar
tanto o Código Civil quanto o estatuto. Jurisprudência do TJ-RS exemplifica o caso:

APELAÇÃO. DIREITO CIVIL. INTERDIÇÃO. DEMANDADA PORTADORA


DE DEFICIÊNCIA MENTAL, EM CARÁTER DEFINITIVO, PERMANENTE E
IRREVERSÍVEL. Ainda que reconhecida a incapacidade relativa do
interditando o mesmo manterá a sua autonomia quanto aos atos da sua vida
civil, na medida em que a deficiência não afeta a plena capacidade civil da
pessoa. Sentença mantida. RECURSO DESPROVIDO.
(TJ-RS - AC: 70078543915 RS, Relator: Liselena Schifino Robles
Ribeiro, Data de Julgamento: 16/08/2018, Oitava Câmara Cível, Data de
Publicação: Diário da Justiça do dia 24/08/2018)

Roberto Carlos Gonçalves define cinco características para curatela. Os fins


assistenciais pela administração dos bens de outrem. Caráter ​publicista​, pois é dever
do Estado proteger este incapaz, mas se delega esta responsabilidade ao curador –
este aspecto é visto com necessidade de decretação do curador pelo magistrado. O
curador tem um papel ​supletivo​, ou seja, pode substituir o curatelado em todos atos
da sua incapacidade – podendo ser relativa ou absoluta. Esta intervenção é
temporária,​ só persistirá enquanto condição da incapacidade prolongar. A última
característica é a ​certeza para implementação, a curatela é implementada por
processo de intervenção (art. 747 CPC/15), portanto a incapacidade deverá ser
comprovada.
O art. 1767 estabelece aqueles que podem ser submetidos a curatela,
atualmente só há três casos no Código Civil:

Art. 1.767. Estão sujeitos a curatela:


I - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir
sua vontade;
II - (Revogado);
III - os ébrios habituais e os viciados em tóxico;
IV - (Revogado);
V - os pródigos.

O Estatuto alterou consideravelmente este artigo retirando hipóteses como


indivíduos que sofrem de alguma enfermidade mental, ou deficiência mental.
Contudo, como apresentado anteriormente há possibilidade de curatela, mas esta
será extraordinária, e não a regra. Nos três casos do Código Civil é importante fazer
alguns apontamentos: o primeiro inciso determina aqueles que não podem “exprimir
sua vontade” devido alguma condição, mas aqueles que podem se expressar por
modos não verbais ainda podem exercer a sua capacidade. No terceiro inciso
aponta viciados seja por alcoolismo ou tóxicos, por causa da dependência não
conseguem ter liberdade e assim ter totalidade das suas capacidades. O quinto
inciso trata-se dos pródigos aqueles que não possuem autocontrole e dilapidam todo
o patrimônio, correndo risco de estar na miséria – como a curatela é decretada pelo
magistrado, este deverá ter o cuidado para analisar se não trata somente de
irresponsabilidade ou problema real. Esta interdição do pródigo só o privará dos atos
de administração dos bens – art. 1782 CC/02.
Último caso que se deve apontar é do nascituro, previsto no art. 1779 CC/02.
Embora este esteja sobre a proteção da mãe e do pai, ele ainda tem direitos e
garantias assegurados. Portanto, caso o pai morra e mãe perda ​o poder familiar, ou
os sob interdição, o nascituro deverá ser curatelado.
O curador pode ser cônjuge caso o interditado esteja casado. Se não, pai e
mãe serão próximos, seguindo para descendentes, primeiro com os mais próximos
para os mais distantes. Se não houver nenhum, o magistrado escolherá um curador.
Estas determinações estão previstas no art. 1775 e seus três parágrafos do CC/02.
As responsabilidades do curador são semelhantes aos do tutor, art. 1781,
com a diferenças feitas pelo art.1772 do CC.
O processo de interferência é um procedimento especial previsto no art. 747
ao 758 do CPC. Os habilitados para procedê-lo estão previstos nos incisos do art.
747: cônjuge ou companheiro; parentes ou tutores; o representante da entidade que
abriga aquele que será interditado; por fim, o próprio Ministério Público. O
interditando poderá realizar defesa nesse processo por advogado escolhido, se não,
o magistrado nomeará um. Este processo possui algumas fases que não podem
deixadas de ser cumpridas, como a entrevista que juiz realizará com o interditando
após a sua citação (art. 751 CPC) - o próprio código especifica temas que deverão
ser discutidos para verificar se há limitações: “vida, negócios, bens, vontades,
preferências e laços familiares e afetivos e sobre o que mais lhe parecer necessário
para convencimento quanto à sua capacidade para praticar atos da vida civil,
devendo ser reduzidas a termo as perguntas e respostas”. A entrevista é bastante
importante para o procedimento podendo ter todo o processo anulado com a sua
falta:

AÇÃO DE ESTADO - INTERDIÇÃO - RITO ESPECIAL - AUSÊNCIA DO


INTERROGATÓRIO DO INTERDITANDO - SUPRIMENTO POR LAUDO
PERICIAL - INVIABILIDADE - NULIDADE QUE SE DENOTA
EVIDENCIADA. - Constitui a interdição uma ação de estado, a qual se
reveste de caráter excepcional e rito especial cercado de inúmeras
formalidades procedimentais, em razão das sérias consequências advindas
à esfera jurídica do interditando. - Neste contexto, o interrogatório do
interditando constitui uma fase procedimental obrigatória e indispensável
com o fito de o julgador aferir, pessoalmente, a incapacidade dele para os
atos da vida civil, a qual não pode ser suprida com a apresentação de laudo
pericial. - Logo, a ausência do interrogatório do interditando constitui causa
apta para ensejar a anulação do processo e a cassação da sentença.
(TJ-MG - AC: 10521130022663001 MG, Relator: Paulo Balbino, Data de
Julgamento: 22/11/2016, Câmaras Cíveis / 8ª CÂMARA CÍVEL, Data de
Publicação: 06/12/2016)

O juiz também deverá pedir produção de prova pericial (art. 753), após o
prazo de impugnação de 15 dias do interditando, contado após a entrevista. O laudo
especificará quais atos necessitam de curatela.
Com o seguimento desses procedimentos e produção de provas, o
magistrado julgará a interdição - estabelecendo o curador e quais especificamente
atos estarão sob sua responsabilidade (arts. 754 e 755). Deve-se relembrar que é
temporal esta interdição, o prazo pode ser estabelecido pelo juiz, e a curatela poderá
ser revisada por ato do interdito, curador ou MP - sendo nomeada equipe médica
para avaliar, podendo ser levantada parcialmente (art. 756).

IV. TOMADA DE DECISÃO APOIADA

A Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da Organização


das Nações Unidas - ONU que é uma norma de natureza constitucional no Brasil,
tendo seu processo legislativo formalmente observado e ratificado. Trouxe a
observação de cumprimento de seu art. 124 que visa o reconhecimento de igualdade
perante a lei, das pessoas com deficiência, e para elas, que fossem asseguradas
medidas de apoio necessárias ao exercício pleno da sua capacidade civil. Quando
preciso, a pessoa com deficiência poderá se apoiar em pessoas à sua escolha por
vínculo de proximidade e confiança para que tomem decisões em conjunto com ele e
ele exerça de fato determinados atos da vida civil antes negados, e o Estado deve
objetivar para ela todos os meios para o alcance de sua plena autonomia. Isso
reserva o direito do deficiente gerir a própria vida em muitos atos da sua vida civil,
sendo apenas reservados apenas alguns dos quais ele não se sinta confortável e
seguro em exercê-los requerendo esses dois apoiadores para ajudá-lo.
Antigamente usava-se o instituto da curatela para assegurar alguns direitos,
mas não era plena como atualmente.
Denominada Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência ou Estatuto
da Pessoa com Deficiência a Lei 13.146/20155 que alterou drasticamente o
entendimento da incapacidade civil, alterando os artigos 3º e 4º do CC/026, tornando
absolutamente incapaz apenas os menores de 16 anos.

4
​BRASIL: ​Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência de 13 de dezembro de 2006.
Ratificada e Publicada no Brasil através do Decreto nº 6.949 de 25 de agosto de 2009. Art. 12.
Disponível em: <​https://bit.ly/2szn0vS​>. Acesso em: 20 de outubro de 2018.
5
BRASIL: Lei 13.146 de 06 de julho de 2015. ​Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com
Deficiência ou Estatuto da Pessoa com Deficiência. Disponível em: <​https://bit.ly/2numMRn​>.
Acesso em: 20 de outubro de 2018.
6
BRASIL: Lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002. ​Código Civil. Arts. 3º e 4º. Disponível em:
<​http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm​>. Acesso em: 20 de outubro
de 2018.
Art. 3º. São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da
vida civil os menores de 16 (dezesseis) anos.

E relativamente incapazes os do art. 4º do CC/02:

Art. 4º. São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os


exercer:
I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos;
II - os ébrios habituais e os viciados em tóxico;
III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem
exprimir sua vontade;
IV - os pródigos.
Parágrafo único. A capacidade dos indígenas será regulada por legislação
especial.

A título de conhecimento devo mencionar em que circunstâncias o art. 5º do


CC/027 prevê a cessação da menoridade para os com 16 anos completos nas
seguintes situações:

Art. 5º. A menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa
fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil.
Parágrafo único. Cessará, para os menores, a incapacidade:
I - pela concessão dos pais, ou de um deles na falta do outro, mediante
instrumento público, independentemente de homologação judicial, ou por
sentença do juiz, ouvido o tutor, se o menor tiver dezesseis anos completos;
II - pelo casamento;
III - pelo exercício de emprego público efetivo;
IV - pela colação de grau em curso de ensino superior;
V - pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de
emprego, desde que, em função deles, o menor com dezesseis anos
completos tenha economia própria.

Foi regulada a tomada de decisão apoiada no art. 1.783-A do CC/02 no qual


indica um rito próprio dos procedimentos para consumá-la. Vejamos:

Art. 1.783-A. A tomada de decisão apoiada é o processo pelo qual a pessoa


com deficiência elege pelo menos 2 (duas) pessoas idôneas, com as quais
mantenha vínculos e que gozem de sua confiança, para prestar-lhe apoio na
tomada de decisão sobre atos da vida civil, fornecendo-lhes os elementos e
informações necessários para que possa exercer sua capacidade.
§ 1º. Para formular pedido de tomada de decisão apoiada, a pessoa com
deficiência e os apoiadores devem apresentar termo em que constem os
limites do apoio a ser oferecido e os compromissos dos apoiadores,
inclusive o prazo de vigência do acordo e o respeito à vontade, aos direitos
e aos interesses da pessoa que devem apoiar.

7
​BRASIL: Lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002. ​Código Civil. Arts. 5º, I ao V e 1.783-A, §1º ao §11º.
Disponível em: <​http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm​>. Acesso
em: 20 de outubro de 2018.
§ 2º. O pedido de tomada de decisão apoiada será requerido pela pessoa a
ser apoiada, com indicação expressa das pessoas aptas a prestarem o
apoio previsto no caput deste artigo.
§ 3º. Antes de se pronunciar sobre o pedido de tomada de decisão apoiada,
o juiz, assistido por equipe multidisciplinar, após oitiva do Ministério Público,
ouvirá pessoalmente o requerente e as pessoas que lhe prestarão apoio.
§ 4º. A decisão tomada por pessoa apoiada terá validade e efeitos sobre
terceiros, sem restrições, desde que esteja inserida nos limites do apoio
acordado.
§ 5º. Terceiro com quem a pessoa apoiada mantenha relação negocial pode
solicitar que os apoiadores contra-assinem o contrato ou acordo,
especificando, por escrito, sua função em relação ao apoiado.
§ 6º. Em caso de negócio jurídico que possa trazer risco ou prejuízo
relevante, havendo divergência de opiniões entre a pessoa apoiada e um
dos apoiadores, deverá o juiz, ouvido o Ministério Público, decidir sobre a
questão.
§ 7º. Se o apoiador agir com negligência, exercer pressão indevida ou não
adimplir as obrigações assumidas, poderá a pessoa apoiada ou qualquer
pessoa apresentar denúncia ao Ministério Público ou ao juiz.
§ 8º. Se procedente a denúncia, o juiz destituirá o apoiador e nomeará,
ouvida a pessoa apoiada e se for de seu interesse, outra pessoa para
prestação de apoio.
§ 9º. A pessoa apoiada pode, a qualquer tempo, solicitar o término de
acordo firmado em processo de tomada de decisão apoiada.
§ 10. O apoiador pode solicitar ao juiz a exclusão de sua participação do
processo de tomada de decisão apoiada, sendo seu desligamento
condicionado à manifestação do juiz sobre a matéria.
§ 11. Aplicam-se à tomada de decisão apoiada, no que couber, as
disposições referentes à prestação de contas na curatela.

A tomada de decisão apoiada é bem menos drástica que a interdição porque


ela reserva ao deficiente a atos da vida civil que ele possa gerir com o apoio de duas
pessoas idôneas como o caput do art. 1.783-A do CC/028 prevê.
É de jurisdição voluntária como a curatela, então o particular interessado leva
o interesse privado ao judiciário para que ele tome conhecimento, só polo ativo
porque não é uma lide, onde o juiz que representará o Estado vai se manifestar.
Será dirigida uma petição ao juiz da vara de família e sucessões para que o
requerente obtenha uma permissão de ser acompanhado em suas decisões para
exercer a igualdade de condições com as demais pessoas em todos os fatos da vida
(conforme o art. 84 do Estatuto da Pessoa com Deficiência)9, pois a interdição de
direitos sempre foi um obstáculo para os portadores de deficiência mental (saúde

8
​BRASIL: Lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002. ​Código Civil. Art. 1.783-A. Disponível em:
<​http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm​>. Acesso em: 20 de outubro
de 2018.
9
​BRASIL: Lei 13.146 de 06 de julho de 2015. ​Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com
Deficiência ou Estatuto da Pessoa com Deficiência. Art. 84. Disponível em:
<​https://bit.ly/2numMRn​>. Acesso em: 20 de outubro de 2018.
mental), ou intelectual (déficit cognitivo), e a porta que agora se abre é de que eles
podem sim ter vontades satisfeitas, com o apoio daqueles que ele escolher, para
decidir sobre direitos negociais e patrimoniais, assistido por uma equipe
multidisciplinar nomeada pelo juiz prevista no §3º do art. 1.783 do CC/02. A lei não
fala quais profissionais, mas podem ser o psicólogo, o assistente social, um médico
da área da deficiência, que irão dizer se o pedido é compatível com o estado e a
deficiência daquela pessoa, também o juiz vai ouvir o Ministério Público e só após,
tomar a sua decisão sobre o pedido do deficiente.
Para isso deve haver necessariamente uma deficiência do apoiado com um
impedimento na esfera física, intelectual ou mental; é necessário também que nesta
petição seja delimitado quais serão estes atos passíveis de decisão dos apoiadores
em prol do apoiado §1º do art. 1.783 do CC/02, como por exemplo gerir um benefício
previdenciário ou uma conta bancária que são atos da vida patrimonial do deficiente.
Também o prazo de vigência também deve ser formalizado, pois não pode ser
permanente a lei prevê esta vedação no mesmo parágrafo, mas nada impede que se
peça uma prorrogação ou que se repita o pedido após o término do prazo estipulado.
Então os atos praticados pelo apoiado geram efeitos com relação à terceiros
§4º do art. 1.783 do CC/02, à exemplo os negócios firmados por ele, e serão estes,
válidos e eficazes. Tanto é assim que aquele que negocia com o apoiado (o terceiro)
pode exigir a assinatura dos apoiadores no negócio firmado como se observa no §5º
do art. 1.783 do CC/02.
Se houver uma discordância entre os apoiadores e o apoiado a lei prevê que
só pode levar a juízo de houver prejuízo ou um risco ao apoiado conforme o § 6º do
art. 1.783 do CC/02 para que o juiz resolva a questão. E se houver negligência ou se
um dos apoiadores não cumprir com a obrigação ou até mesmo se eles
pressionarem o apoiado a (realizar ou não) um negócio o §7º do mesmo artigo diz
que o próprio apoiado ou qualquer pessoa pode denunciar o fato ao juiz ou ao MP
para que tomem as decisões cabíveis. Se confirmada a denúncia o juiz ouve o
apoiado e depois pode substituir o apoiador dele (§ 8º do mesmo artigo).
Também é possível conforme prevê o §9º do artigo 1.783 do CC/02, a
qualquer tempo o apoiada pedir pra ser cessada a tomada de decisão apoiada,
como também pode o apoiador pedir pra ser excluído, basta que o juiz concorde
através de decisão e substituição dele. (§10 do mesmo artigo).
Como essa lei é nova como também seus efeitos na jurisprudência ainda são
novos, pode-se verificar em alguns julgados que a parte entrou com pedido de
decisão apoiada e o juiz ​a quo julgou interditando a pessoa e concedeu a curatela da
pessoa para um de seus apoiadores (fato ocorrido que foi para apelação e o TJ-SP
reformou a decisão) porque haviam laudos suficientes no processo de que aquele
deficiente tinha meios de gerir a própria vida através de decisão apoiada.
Vejamos a referida decisão:

TOMADA DE DECISÃO APOIADA – Decisão que deferiu, liminarmente,


curatela provisória ao requerente – Inconformismo deste – Alegação de que
suas restrições limitam-se a aspectos físicos causados por males
associados à diabete, não sendo ele um incapaz, de forma que a curatela
lhe é medida desproporcional – Acolhimento – Atestado médico trazido pelo
requerente aos autos e estudo psicossocial realizado pelos setores técnicos
auxiliares do juízo indicam estar o requerente com suas faculdades
cognitivas integralmente preservadas, sofrendo apenas de limitação de
locomoção e de visão, além de restrições decorrentes do analfabetismo –
Quadro do requerente que se afasta da incapacidade civil que enseja a
interdição – Deficiência que importa apenas em limitações no exercício do
autogoverno – Constatada, ademais, existência de relação de afeto e mútua
confiança entre o requerente e as duas pessoas indicadas como
apoiadoras, sua companheira e sua filha – Evidenciada a probabilidade do
direito invocado, de forma a afastar a curatela provisória e permitir a
nomeação das indicadas como apoiadoras provisoriamente, até o desfecho
da demanda, nos termos do art. 300 do Código de Processo Civil –
Contexto fático que, a princípio, compatibiliza-se com as previsões do art.
1.783-A do Código Civil - Recurso provido.
(TJ-SP - AI: 20497357520178260000 SP 2049735-75.2017.8.26.0000,
Relator: Rui Cascaldi, Data de Julgamento: 18/09/2017, 1ª Câmara de
Direito Privado, Data de Publicação: 18/09/2017)

V. CONCLUSÃO

Diante do exposto, observa-se a grande importância da aplicação dos


institutos da tutela, curatela e tomada de decisão apoiada às pessoas que deles
necessitem.
Com base nas exposições, verifica-se que diante de cada caso concreto,
deve ser levado em consideração pelo juiz e pelas partes as peculiaridades de cada
caso, bem como a observação minuciosa dos requisitos para concessão de cada
instituto.
Havendo a concessão das referidas medidas aos que necessitarem, deve-se
buscar sempre a proteção integral, considerando a vulnerabilidade destes a fim de
praticarem os atos da vida civil.
Por fim, observou-se que, a doutrina, a jurisprudência bem como as normas
legais vêm se atualizando em conformidade com as necessidades que atualmente
estão surgindo na sociedade, visando sempre a aplicação do princípio da dignidade
da pessoa humana.

VI. REFERÊNCIAS

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dezembro de 2006. ​Ratificada e Publicada no Brasil através do Decreto nº 6.949 de 25 de
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Deficiência ou Estatuto da Pessoa com Deficiência. Art. 84. Disponível em:
<​https://bit.ly/2numMRn​>. Acesso em: 20 de outubro de 2018.
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decisão apoiada? – 2016. Disponível em: <​https://bit.ly/2S56aPI​>. Acesso em: 20 de
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