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As principais lesões no tênis

Saiba reconhecê-las para poder prevenir e tratar


adequadamente
Ricardo Takahashi em 6 de Abril de 2019 às 11:00

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Dono de um estilo de jogo físico, o espanhol Rafael Nadal convive


com as lesões. Na foto, registro do atendimento médico antes de
precisar abandonar o duelo com o argentino Juan Martin del Potro na
semifinal do US Open 2018. Foto: USTA/Darren Carroll

O número de praticantes de tênis vem crescendo


consideravelmente nos últimos anos e, consequentemente,
o número de lesões também aumenta. Elas podem
resultar em diminuição do rendimento ou até afastamento
da quadra e dos treinos por longos períodos. Por isso, é
importante que todos os envolvidos (técnicos, professores,
preparadores físicos, pais e atletas) tenham conhecimento
das lesões mais frequentes e suas implicações para que
seja possível um tratamento com qualidade.
Um estudo realizado em 2012 reuniu todas as lesões
ocorridas em tenistas participantes do US Open desde
1994 até 2009 e confirmou a lesão muscular como sendo a
mais frequente durante o torneio. A taxa de mazelas em
membros inferiores foi superior às de tronco (coluna) e
membros superiores, sendo o tornozelo a articulação mais
acometida, seguida por joelho e pé.
Leia mais;
+ Conheça as três lesões mais comuns que acometem
os punhos dos tenistas
+ Recupere-se da entorse no tornozelo
Uma revisão epidemiológica publicada em março deste ano
teve o objetivo de investigar as principais lesões no tênis e
ressaltou a dificuldade de se estabelecer um padrão para
tal definição, pois cada estudo classifica o termo “lesão” de
diferentes modos e avalia diferentes grupos de praticantes
(por exemplo, atletas recreativos, amadores ou
profissionais). Mesmo assim, esse tipo de estudo nos
fornece informações valiosas que serão descritas a seguir.

LESÕES NO TÊNIS
Como dito anteriormente, a incidência e prevalência de
lesões pode variar consideravelmente devido às diferentes
definições para lesão, idade do grupo estudado, ou até
mesmo pelo nível do praticante (recreativo, amador,
profissional).
Em atletas de alto rendimento com idade inferior a 18 anos,
a taxa de lesões varia de dois a 20 a cada 1.000 horas de
prática do esporte. Quando considerados todos os níveis
de atletas, a incidência de lesões é de três por 1.000 horas
de prática, levando-nos a acreditar que atletas mais jovens
sofrem mais lesões do que os que praticam há mais tempo
o esporte devido à baixa experiência.

Localização das Lesões


A maioria das lesões acontece em membros inferiores
(entre 31% e 67%), seguido pelos membros superiores
(20% – 49%) e por último, o tronco (3% – 21%). As regiões
mais atingidas dos membros inferiores foram o tornozelo e
a coxa, com a entorse de tornozelo sendo a mais
específica ocorrida. Já nos membros superiores, o ombro e
o cotovelo foram as articulações mais acometidas, com a
epicondilite lateral sendo a mais prevalente.
Algo importante a se ressaltar é que a maioria das lesões
em membros inferiores é de característica aguda e mais
frequente, enquanto as em membros superiores são de
caráter crônico com menor incidência.
O japonês Kei Nishikori passa por atendimento médico durante sua
partida contra o sérvioNovak Djokovic no Australian Open 2019. Por
conta da sequência de jogos longos, ele precisou desistir da
competição. Reprodução: Twitter/Australian Open

Prevalência de lesões específicas no tênis


O backhand com duas mãos pode ajudar uma criança em
relação à força e também evitar o temido Tennis
Elbow (cotovelo de tenista), mas tênis não é força e sim
técnica. O backhand com duas mãos, quando executado
com os braços encolhidos junto ao tronco, pode
sobrecarregar a coluna a ponto de provocar uma fratura por
estresse. Portanto, cuidado.
Ombro
Um estudo com atletas de alto rendimento entre 12 e 19
anos mostrou que a dor no ombro está presente em 24%,
aumentando em até 50% dos praticantes quando chegam à
meia idade, ou seja, um número bastante expressivo e
preocupante. Quando consideramos todos os níveis de
atletas, as lesões de ombro variam de 4% a 17%.
Essas mazelas normalmente ocorrem por uso repetitivo e
podem estar relacionadas com o movimento anormal da
escápula, chamada de discinesia escapular; lesões do
manguito rotador, que é um conjunto de músculos que
atuam como a principal estabilização do ombro; ou pelo
chamado GIRD (Glenoumeral Internal Rotation Deficit),
que é a diminuição ou déficit do movimento de rotação
medial do ombro dominante em relação ao membro não
dominante. Por isso é importante para os fisioterapeutas
conhecer tais fatores de risco para um tratamento
compatível com as lesões de ombro.

Dor Lombar
A dor lombar (lombalgia) é muito frequente em atletas
ativos, atingindo até 85% de praticantes de forma aguda ou
crônica, podendo afastar o praticante das quadras e de
torneios.
As causas da dor lombar são inúmeras, mas, quando
falamos de tênis, o saque parece ser um dos principais
fatores, devido à sobrecarga da coluna de forma repetitiva.
Estudos mostram que o serviço com topspin sobrecarrega
mais a lombar em comparação ao com slice (underspin) e
ao flat (sem efeito). Por isso, ensinar o topspin para atletas
muito novos pode aumentar o risco de dor e lesões
lombares, como a espondilólise (fratura por estresse de
uma parte das vértebras) ou espondilolistese
(escorregamento vertebral).

Lesões Musculares
Está entre as lesões musculares mais frequentes no tênis a
da panturrilha, ou perna do tenista (tennis leg). Além
dessas, as lesões dos músculos relacionados ao ombro,
quadril e lombar também são frequentes.
Epicondilite Lateral
A epicondilite lateral é uma das lesões mais comuns no
tênis, caracterizada pela sobrecarga de tendões,
principalmente em jogadores recreativos. Não há diferença
entre gêneros, ou seja, homens e mulheres parecem ser
acometidos na mesma proporção.
A incidência dessa lesão vai de 35% a 51% e, apesar de
não estar cientificamente comprovado, acredita-se que ela
ocorre em menor número de praticantes que realizam o
backhand com as duas mãos, pois permite que a mão não
dominante absorva mais impacto, diminuindo o risco de
falhas mecânicas do punho.
Acredita-se que o uso de antivibradores diminuía a
incidência de epicondilite lateral no tenista, no entanto,
estudos não suportam essa hipótese. O que vem sendo
associado a ela é a experiência do tenista, já que a
prevalência é maior em praticantes menos experientes e
que não possuem uma boa técnica.

Quadril
As lesões de quadril correspondem de 1% a 27% de todas
as lesões em tenistas. Estudos reportam incidência de 0,8
por 1.000 exposições e prevalência de 1,3 lesão a cada
100 tenistas juvenis competitivos.
O britânico Andy Murray sofreu com dores nos últimos anos que o
fizeram cogitar a aposentadoria. Na foto, o bicampeão olímpico
aparece esgotado durante sua estreia no Australian Open 2019.
Foto: Photo: Ben Solomon/Tennis

Uma pesquisa investigou o tamanho de músculos do


quadril em tenistas profissionais e encontrou diferenças
no trofismo (tamanho) deles quando comparado o lado
dominante com o não dominante do atleta. Foi possível
observar que o lado não dominante possui músculos com
maior trofismo, e que isso pode levar a dores no quadril a
partir de bursites e tendinites. Concluindo, tenistas estão
mais susceptíveis a lesões no quadril não dominante em
relação ao dominante.
Além disso, foi encontrada uma correlação entre jogadores
de tênis e osteoartrite (doença progressiva e degenerativa
de desgaste da cartilagem óssea, popularmente conhecida
como artrose) de quadril. Um grande estudo verificou que
ex-atletas de tênis possuíam 250% mais sinais de desgaste
do quadril em relação a pessoas que não praticavam
esportes.
Joelho
As lesões de joelho são muito frequentes no meio esportivo
em geral, e no tênis não é diferente. Estudos chegam até a
reportar que lesões no ligamento colateral lateral (LCL) e
do menisco medial são mais frequentes no tênis em
comparação a outras modalidades. A lesão do ligamento
cruzadoanterior (LCA) também possui incidência relevante,
com 10% a 13% de todas as lesões que ocorrem no joelho.
Além dessas mazelas, a dor patelofemoral (também
conhecida como síndrome da dor patelofemoral – SDPF) e
a tendinopatia patelar (doença do tendão patelar) são
comuns em tenistas. Devido a essa alta incidência de
lesões no joelho, diversos programas preventivos vêm
sendo elaborados a fim de evitar que elas ocorram.
Existe grande polêmica em relação à participação no
esporte e a osteoartrite de joelho. Enquanto alguns
pesquisadores associam o esporte à degeneração precoce,
outros afirmam que atividade moderada não está associada
a essa doença.

FRATURA POR ESTRESSE


Essa lesão possui uma incidência de aproximadamente
13% em atletas de tênis, afetando em maior parte o
navicular (osso do pé), vértebras, metatarsos (osso do pé)
e a tíbia (osso do perna). Atletas com idade inferior a 18
anos foram mais atingidos em comparação aos adultos.
Diversas são as causas e, dentre elas, o erro de gesto
esportivo, erro de pegada na raquete e sobrecarga de
treinamento estão como principais fatores causadores que
precisam ser corrigidos.

Fatores de Risco
Existem alguns fatores de risco que podem predispor a
lesões relacionadas ao tênis, mas, ao mesmo tempo,
algumas características que são ditas como predisponentes
para lesão não são comprovadas cientificamente. Então,
vale comentar um pouco sobre esses fatores de risco.
Idade
Apesar de muitas pessoas acreditarem que indivíduos com
a idade mais avançada têm mais chance de sofrer lesão,
estudos comprovam que isso não verdade, até o presente
momento.
Gênero
Acredita-se, por vezes, que as mulheres são mais frágeis
do que os homens ou que os homens são mais expostos
ao esporte e que isso contribui para surgimento de lesões,
mas ambas as informações também não foram
comprovadas. Assim, não existe predominância de lesões
entre os gêneros masculino e feminino.
Volume/Intensidade de Treino e Jogo
A intensidade de treino está diretamente relacionada com o
surgimento de lesões. Estudos mostraram que atletas com
epicondilite lateral treinavam cerca de 8 horas semanais
enquanto os que não tinham a lesões treinavam, em média,
5,5 horas.
Nível do Praticante
O nível do tenista não tem interferência no surgimento de
lesões, no entanto, jogadores menos experientes sofrem
mais lesões por estresse no punho e cotovelo devido à
vibração gerada pela raquete, consequência de erros de
técnica. Já os profissionais estão submetidos a uma carga
maior de treinamento, o que tende a igualar a quantidade
de lesões adquiridas em comparação aos mais novos.
Empunhadura
A empunhadura que o tenista utiliza na raquete pode
influenciar no desenvolvimento de lesões no punho e mão.
Em geral, as pegadas do tipo Western e semi-Western
geram lesões de sobrecarga nos tendões que estendem o
punho e lesões de cartilagem; enquanto a pegada do tipo
Eastern leva a lesões de sobrecarga dos tendões do
polegar e que fletem o punho.
Transmissão de Vibração
As propriedades das raquetes interferem na transmissão da
vibração para os braços, porém não há estudos que
comprovem que a vibração pode ter relação com o
surgimento ou agravamento das lesões.
Tipo de Quadra
Estudos avaliaram o número de jogos interrompidos por
lesões em partidas de Grand Slam e verificaram que os
confrontos realizados em grama tiveram menores índices,
enquanto os jogos em quadra rápida apresentaram maior
número de partidas incompletas.

Dica
Sempre use uma corda sintética, fina e com tensão de, no
máximo, 50 libras. Crianças deveriam usar 40 libras
quando encordoadas em máquinas eletrônicas ou 45 libras
quando encordoadas em máquinas analógicas.
Abrams GD, Renstrom PA, Safran MR. Epidemiology of
musculoskeletal injury in the tennis player. Br J Sports Med.
2012 Jun;46(7):492-8.Referências Bibliográficas
Sell K, Hainline B, Yorio M, Kovacs M. Injury trend analysis
from the US Open Tennis Championships between 1994
and 2009. Br J Sports Med. 2012 Aug.
Colaboradores:
Renan Higashi e Gustavo Toledo