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BOBBIO, Norberto. Presente E Futuro Dos Direitos do Homem.

In: A ERA DOS


DIREITOS. 7ª reimpressão, Tradução de Carlos Nelson Coutinho, Ed. Elsevier, Rio de
Janeiro, 2004.

Norberto Bobbio no texto que tem por título: Presente E Futuro Dos Direitos
Do Homem, faz uma discussão em torno do “Fundamento dos Direitos do Homem”
enfatizando que o problema dos dias atuais não se refere necessariamente ao
fundamento desses direitos, mas a garantia de sua concretização, isto é, a efetivação de
uma maior proteção, tendo em vista que esses direitos estão diretamente ligados ao
desenvolvimento global da civilização humana.
Segundo Bobbio, o problema não é mais filosófico e sim jurídico e mais
precisamente, político. Ou seja, a questão não é mais saber se esses direitos são naturais
ou históricos, qual sua natureza, seu fundamento, se é absoluto ou relativo, mas o centro
da questão é garantir os meios mais seguros para a efetivação desses direitos. Isso não
significa dizer que o problema do fundamento é uma questão resolvida, mas que é
possível considerar que o fundamento dos direitos humanos já teve sua solução na
Declaração Universal dos Direitos do Homem aprovada pela Assembleia Geral das
Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948. A Declaração Universal dos Direitos do
Homem é uma declaração que abarca valores que se apoiam no consenso e que justifica
o seu fundamento, ou seja, um valor é mais fundado quando ele é mais aceito e,
portanto, segundo Bobbio, trata-se de um fundamento histórico e por ser histórico não é
absoluto. Assim, é a primeira vez na história que um sistema de valores universal, é
explicitamente declarado.
Na história da formação das declarações de direitos podem-se distinguir três
fases: A primeira de cunho filosófico, na figura, por exemplo, de John Locke que
defendia que o verdadeiro estado do homem não e o estado civil, mas o natural, ou seja,
o estado de natureza no qual os homens são livres e iguais. Essa ideia ainda que
“abandonada”, está presente na Declaração Universal dos Direitos do Homem: “Todos
os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Para Bobbio, a liberdade e a
igualdade dos homens não são um dado de fato, mas um ideal a perseguir, pois se trata
de um valor, um dever. Enquanto teorias filosóficas é a expressão de um pensamento
individual, mas universais em relação ao seu conteúdo, na medida em que se dirigem a
um homem racional fora do espaço e do tempo, e ainda, extremamente limitadas em
relação à sua eficácia na medida em que são propostas para um futuro legislador.
O segundo momento consiste na proteção desses direitos, ou seja, são
autênticos direitos positivos, mas válidos somente no âmbito dos Estados que os
reconhecem. Com a Declaração de 1948, tem início a terceira e última fase, na qual a
afirmação dos direitos é, ao mesmo tempo, universal e positiva. Universal no sentido de
que os destinatários dos princípios são todos os homens; positiva porque põe em
movimento a efetiva proteção até mesmo contra o próprio Estado que os tenha violado.
No final desse processo, a Declaração Universal contém a síntese de um movimento
dialético, que começa pela universalidade abstrata dos direitos naturais, transfigura-se
na particularidade concreta dos direitos positivos, e termina na universalidade não mais
abstrata, mas concreta dos direitos positivos universais, proclamando os princípios não
como normas jurídicas, mas como um “ideal comum a ser alcançado por todos os povos
e nações”.
Contudo, uma coisa é a consciência do meio, outra é a sua realização. O
problema real é a efetivação desses direitos. A comunidade internacional se encontra
diante do problema não só de fornecer garantias válidas para aqueles direitos históricos,
mas também de aperfeiçoar continuamente o conteúdo da Declaração, articulando-o,
especificando-o, atualizando-o, de modo a não deixá-lo cristalizar-se e enrijecer-se em
fórmulas solenes e vazias, e aqui, a primeira dificuldade depende da própria natureza da
comunidade internacional, isto é, do tipo de relações existentes entre os Estados e entre
cada um deles com a comunidade internacional. Bobbio se refere ao desprezo pelos
direitos do homem no plano interno e o escasso respeito à autoridade internacional.
Por fim, o autor salienta que não se pode instituir um direito em favor de uma
categoria de pessoas sem suprimir um direito de outras categorias de pessoas, ou seja,
direitos fundamentais não são absolutos, mas relativos, pois a delimitação do âmbito de
um direito fundamental do homem é extremamente variável e não pode ser estabelecida
de uma vez por todas. O problema do qual estão hoje os países em desenvolvimento é o
de se encontrarem em condições econômicas que, apesar dos programas ideais, não
permitem desenvolver a proteção da maioria dos direitos sociais. Ou seja, o problema
não é filosófico e nem moral, tão pouco jurídico, é um problema que depende de certo
desenvolvimento da sociedade que desafia até a Constituição mais evoluída e põe em
crise até mesmo o mais perfeito mecanismo de garantia jurídica.