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EXCELENTÍSSIMO JUIZ DE DIREITO DA _ VARA

CRIMINAL DE...

Autos nª...

NOME, nacionalidade, estado civil, profissão, portadora do RG


sob n..., e inscrita no CPF sob n..., residente e domiciliada na rua
(endereço completo), vem, respeitosamente, por intermédio de
sua advogada que infra subscreve, oferecer

ALEGAÇÕES FINAIS POR MEMORIAIS


Com fulcro no artigo 403, § 3º, do Código de Processo Penal,
nos autos de ação penal que lhe move o Ministério Público, com
base nos fundamentos de fato e de direito a seguir expostos.

I. DA SÍNTESE FÁTICO-PROCESSUAL
A ré foi denunciada pelo Ministério Público pela prática, em tese,
do delito de lesão corporal – eis que teria, em tese, agredido a
suposta vítima Carolina na data de 01/03/2014, quando esta
estaria grávida.

A audiência de instrução ocorreu em 20/08/2015 e o processo


teve regular tramitação.

O Ministério Público apresentou seus respectivos memoriais e


os autos foram remetidos à defesa para oferecer a presente.

II. DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS


II. I. PRELIMINARMENTE

A) DA DECADÊNCIA
Preambularmente se faz necessário esclarecer que o direito de
queixa já havia decaído na época em que foi noticiada à
autoridade policial o suposto crime.
Isso porque, conforme preleciona o art. 103 do Código Penal, o
ofendido decai de seu direito de queixa ou representação se não
o exerce dentro de seis meses, contados a partir do momento em
que conhece a identidade do ofensor. Efetivamente, o delito em
tese cometido ocorreu em 01/04/2013 e foi noticiado em
18/10/2014, ou seja, muito depois do prazo legal.
Assim, verifica-se que o presente processo não deve prosseguir
– sequer teve fundamento para o oferecimento da denúncia –
uma vez que se embasa em direito de queixa decaído.

B) DA COMPETÊNCIA DO JUIZADO ESPECIAL


CRIMINAL
Ainda preliminarmente, deve-se observar que o processo
reveste-se de nulidade ante a incompetência do Juízo – eis que,
em razão da pena máxima cominável em abstrato ao delito, os
autos deveriam ter sido remetidos ao Juizado Especial Criminal.

Isso porque o delito pelo qual a ré responde é o delito de lesão


corporal, cuja pena máxima é de um ano, o que se enquadra no
conceito de “crime de menor potencial ofensivo” disposto no
artigo 60 da Lei n. 9.099 de 1995 – Lei que institui os Juizados
Especiais.
Assim, considerando que, nos termos da referida Lei
n. 9.099/1995, são de competência dos Juizados Especiais
Criminais os delitos “de menor potencial ofensivo”, e que o
crime pelo qual a defendente responde tem previsão de pena
máxima de um ano, devem os presentes autos serem remetidos
aos Juizados Especiais Criminais da comarca.
II. II. NO MÉRITO: DA AUSÊNCIA DE PROVAS DE
AUTORIA
Caso não seja acolhida a preliminar, insta analisar a suposta
autoria e materialidade do crime.

Na situação em tela, verifica-se que não subsistem provas cabais


que indiquem que foi a ré a autora das agressões – que sequer
restaram comprovadas. Não há nos presentes autos laudo
pericial que ateste as lesões, tampouco testemunhas oculares do
crime – só há depoimento de alguém que nem ao menos
presenciou a suposta ação delituosa.
Nesse sentido já entendem os tribunais:

“APELAÇÃO CRIMINAL - ART. 157, § 2º, INCISOS I, II E V (1º


FATO) E ART. 157, § 2º, INCISOS I E II (2º E 3º FATOS), C/C
OS ARTS. 29 E 71, TODOS DO CÓDIGO PENAL - DECISÃO
SINGULAR CONDENATÓRIA - RECURSOS DEFENSIVOS
PUGNANDO PELA ABSOLVIÇÃO COM ESTEIO NA
INEXISTÊNCIA DE PROVAS QUANTO À AUTORIA (APTES 1
E 2) - PROCEDÊNCIA ARGUMENTATIVA RECURSAL -
EVIDENTE FRAGILIDADE PROBATÓRIA - PRESUNÇÃO DE
CULPABILIDADE - IMPOSSIBILIDADE - APLICAÇÃO DO
PRINCÍPIO IN DUBIO PRO REO - ABSOLVIÇÃO - RECURSOS
PROVIDOS. "A condenação criminal, com todos os seus
gravames e consequências, só pode apoiar-se em prova cabal e
estreme de dúvidas, pois presunções e meros indícios não
ostentam aquelas qualidades de segurança e certeza, pelo que
não servem para fundamentar um decreto condenatório"
(TACRIM/SP - Rel. Pires Neto - RJD 13/145)”. (TJ-PR -
Apelação Crime ACR 7392376 PR 0739237-6 (TJ-PR)- Data de
publicação: 19/05/2011).
Assim, considerando não haver provas cabais do delito e apenas
alegações genéricas – o que é insuficiente para a condenação,
levando-se em conta o princípio do in dubio pro reo, e com
fulcro no art. 386, inc. I, do Código de Processo Penal, deve a ré
ser absolvida.
III. DA DOSIMETRIA DA PENA
Caso a tese anterior não seja acolhida e a acusada venha a ser
condenada – o que se considera apenas em sede de
argumentação jurídica – deve ser analisada a dosimetria da
pena.

1ª Fase da dosimetria:

Na primeira fase da dosimetria da pena, a pena-base deve ser


mantida em seu mínimo legal. Isso porque, ao se atender ao
art. 59 do Código Penal, não há nos presentes autos
informações sobre a conduta social ou personalidade da
defendente, nem mesmo sobre possíveis repercussões do
suposto delito, razão pela qual deve-se interpretar de maneira
mais favorável (in dubio pro reo) e manter a pena base no
mínimo legal.
2ª fase da dosimetria:

Na segunda fase, deve ser afastada a circunstância agravante


considerada como “delito cometido contra mulher grávida”,
previsto no art. 61, inciso II, h, uma vez que, como demonstrado,
não restaram comprovadas as lesões, tampouco se demonstrou
que a suposta vítima estava grávida à época dos fatos, razão pela
qual deve a agravante ser afastada.
Ainda, deve ser afastada a circunstância agravante da
reincidência, uma vez que, a despeito do que alega o ilustre
membro do Ministério Público, a ré não apresenta contra si
nenhuma condenação criminal transitada em julgado (único
feito jurídico apto a ensejar reincidência), mas apenas ostenta
outro processo criminal em curso. Note-se que considerar outro
processo penal em curso como apto a ensejar a reincidência fere
o princípio da presunção de inocência previsto na Constituição
Federal (art. 5º, inciso LVII).
Nesse sentido, raciocina renomado doutrinador:

“A redação conferida pelo legislador constituinte ao dispositivo


do art. 5º, LVII (‘ninguém será considerado culpado...’)
privilegia o denominado princípio da presunção de inocência
sob o enfoque da regra de tratamento que os agentes
incumbidos da persecução penal devem adotar perante o
acusado. Proíbe-se, nessa perspectiva, toda e qualquer forma
de tratamento do sujeito passivo da persecução que possa
importar, ainda que implicitamente, a sua equiparação com o
culpado”. (CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal – parte
geral. Ed. Saraiva, 15ª edição, 2011)
Por fim, deve ser considerada em favor da ré a menoridade
relativa (consoante o art. 65, inciso I, do Código Penal), pois ela
tinha apenas 19 anos na época dos fatos.
Não havendo causas de diminuição ou aumento da pena
aplicáveis ao caso, pugna a defesa pela observância do regime de
pena o mais favorável possível, qual seja, o aberto.

IV. DO PEDIDO
Ante todo o exposto, requer a defesa:

1) A anulação do processo uma vez que o direito de queixa da


suposta ofendida se encontrava decaído à época da queixa-
crime, nos termos dos artigos 103 do Código Penal;
2) A remessa dos presentes autos ao Juizado Especial Criminal,
ante a competência deste Juízo, conforme o art. 60 da
Lei 9.099 de 1995;
3) Subsidiariamente, requer a absolvição ante a total ausência
de provas de autoria, com base no artigo 386, inciso I, do Código
de Processo Penal;
4) Na dosimetria da pena, requer a defesa que seja a pena
cominada em seu mínimo legal, sopesada em favor da ré a
menoridade relativa e afastadas as causas de aumento e
agravante do crime cometido contra mulher grávida e
reincidência, previstas, respectivamente, nos artigos 65, inciso I,
e 61, incisos Ie II, alínea h, todos do Código Penal;
Pugna, ainda, caso a defendente venha a ser condenada, pelo
regime inicial de cumprimento de pena o mais favorável possível,
qual seja, o aberto.

Termos em que pede e aguarda deferimento.

Foz do Iguaçu, xx de MÊS de 2017.

Advogada...

OAB-PR...