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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 24ª UNIDADE

DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL DA COMARCA DE FORTALEZA/CE

Processo nº 3001217-40.2019.8.06.0221

ROBERTO LEAL DE OLIVEIRA, brasileiro, casado, desempregado, RG nº


9501508140 (SSP/CE), CPF nº 930.088.561-87, residente e domiciliado no
sítio Caiçara Zona Rural do Município de Várzea Alegre/CE, vem
respeitosamente à presença de Vossa Excelência, por seu advogado ao final
assinado, apresentar CONTESTAÇÃO à ação que lhe move HEITOR
RODRIGO PEREIRA FREIRE, pelos motivos de fato e de direito a seguir
aduzidos.

SINÓPSE DA DEMANDA

Alega o autor, em breve síntese, que o requerido, ao exercer seu direito de


liberdade de expressão, exacerbou-se, atingindo a sua honra, valendo-se da
internet e redes sociais virtuais para praticar “ações voltadas à calúnia, à
difamação e à injúria dirigidas contra a pessoa do proponente”.

No intuir de comprovar o que alega, junta à inicial prints isolados de postagens


aparentemente da rede social Facebook, pelos quais o ora demandado seria o
suposto responsável.

Ao final, requer liminar para determinar ao promovido que retire as postagens,


a condenação do requerido, a título de danos morais, em valor não inferior a 20
mil reais, e condenação do demando em obrigação de fazer consistente em
“postagem de um vídeo idealizado pelo demandante”.
PRELIMINARES

DA INCOMPETÊNCIA DO JUIZADO ESPECIAL FACE A NECESSIDADE DE


PROVA PERICIAL COMPLEXA

Nascida na esteira das importantes e revolucionárias conquistas obtidas com


aquela lei e sob o influxo da nova ordem constitucional estabelecida pela Carta
de 1988, a Lei dos Juizados Especiais é destinada, de acordo com o comando
do artigo 98, inciso I, da Constituição Federal, à conciliação, julgamento e a
execução de causas cíveis de menor complexidade, assim qualificadas aquelas
arroladas nos quatro incisos de seu artigo 3°.

Nesse sentido, é notória a importância da produção de prova pericial no


presente caso, uma vez que tal prova se mostra indispensável à constatação
dos fatos alegados pela parte autora.

Na exordial, sustenta o autor uma postura do requerido violadora do direito de


Liberdade de Expressão, consistente nos supostos comentários publicados
supostamente no Facebook.

Ocorre que as provas para tais alegações consistem apenas em prints de telas
supostamente do Facebook, sem que seja mencionado datas, horários, perfil,
contexto dessas postagens.

O próprio promovido já vasculhou pelo Facebook a procura dessas suas


supostas postagens, mas devido a imensidão dessa rede social e na falta de
maiores informações acerca delas, não conseguiu localizar nada.

Desta forma, como não se recorda das postagens mencionadas pelo autor, e
como não conseguiu localizá-las, o promovido refuta ser o responsável por tais
mensagens, sendo certo, portanto, a necessidade de perícia especializada
para averiguar a existência e a veracidade das postagens apresentadas
por prints pelo autor.

Desta forma, requer-se a extinção do presente feito sem resolução do mérito,


nos termos do art. 51, II da Lei n°9.099/95.
DA INCOMPETÊNCIA MATERIAL DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL.
ALEGAÇÃO NA INICIAL DE CALÚNIA, DIFAMAÇÃO E INJÚRIA.
COMPETÊNCIA DO JUIZADO ESPECAL CRIMINAL

Compete aos Juizados Especiais Criminais o processamento e julgamento dos


supostos delitos de calúnia, difamação e injúria, através dos quais o autor
fundamenta a sua demanda.

Ademais, em tendo sido supostamente praticados pelo promovido, que reside


na zona rural do município de Várzea Alegre, temos que a competência seria
do Juizado Criminal daquela Comarca.

Diante do exposto, requer-se a extinção do presente feito, eis que


incompetente o presente Juizado Especial Cível.

DA INCOMPETÊNCIA TERRITORIAL

Trata a presente demanda de ação de obrigação de fazer cumulada com


indenizatória. É certo que nas ações de obrigação de fazer, a competência é
estabelecida pelo lugar onde a obrigação deve ser satisfeita.

Em sendo o promovido o sujeito da eventual obrigação de fazer, e em residindo


ele na Comarca de Várzea Alegre, temos que a eventual obrigação será
satisfeita naquela Comarca, de modo que o foro competente para a presente
demanda é o da Comarca de residência do réu.

Ademais, ainda que se considere como competente o foro de domicílio do


autor, temos que a opção escolhida revela apenas o intuito de dificultar a
defesa do promovido, haja vista que o mesmo, desempregado e residente na
Zona Rural da pequena cidade Várzea Alegre, não tem condições de se
deslocar até a capital, distante quase 500 quilômetros.

Na presente demanda temos de um lado um deputado federal, com alta


remuneração e cujas despesas de deslocamento em sua quase totalidade são
custeadas pela instituição a qual integra, e de outro lado uma pessoa
desempregada, residente em pequeno sítio no interior do Estado, que
atualmente e temporariamente, espera-se, sobrevive através de pequena renda
auferida com cultivo e criação de subsistência.

Há, portanto, uma clara relação de hipossuficiência entre demandante e


demandado, de modo que entender que o demandado, lado hipossuficiente,
deve se deslocar quase 500 quilômetros de seu domicílio para se defender de
uma ação claramente infundada, é contrariar o senso de Justiça e os princípios
que regem os Juizados Especiais.

Portanto, requer o acatamento desta preliminar com a consequente extinção do


feito, sem resolução do mérito.

DO MÉRITO

Inicialmente, importante destacar que o promovido não reconhece como sendo


suas as supostas postagens apresentadas pelo autor na inicial, uma vez que
não se recorda das mesmas, tampouco conseguiu localizá-las no Facebook.

Ademais, pelo principio da eventualidade, analisando os prints apresentados


pelo autor, não se consegue verifica calúnia, difamação e injúria, como
pretende o promovente.

As provas apresentadas pelo autor consistem basicamente em 5 prints de


supostas postagens feitas supostamente na rede social Facebook.

A primeira e a segunda postagens não mencionam o nome do autor e não


apresentam nenhum conteúdo ofensivo.

A terceira postagem, ao que parece, está inserida dentro de um contexto de


debate, onde a suposta mensagem do perfil “Roberto Leal” rebate o perfil do
usuário “Agnaldo Cunha”, contra-argumentando alguma alegação deste e, a
título exemplificativo, afirma que se fosse seguir a metodologia de argumentos
apresentadas pelo debatedor, determinadas pessoas seriam “bandidos de
carteirinha”.

Veja-se que, mesmo sendo difícil analisar a mensagem fora de seu contexto, é
possível verificar com clareza que a postagem não afirma que o autor é
“bandido de carteirinha”. Apenas exemplifica que, se fosse para usar a
metodologia da análise do usuário “Agnaldo Cunha”, essa seria a conclusão
lógica.

Da simples análise deste terceiro print é possível se verificar que não houve
“acusações graves com o intuito de atingir a honra do demandante”. Trata-se
apenas de uma retórica argumentativa.

O quarto print trazido pelo autor mostra o compartilhamento de uma notícia


jornalística do site “Miséria”. Veja-se que não há qualquer menção ao nome do
autor, bem como o promovido não tem qualquer responsabilidade pelo
conteúdo produzido pelo referido site.

Por fim, o quinto o último print também não menciona o nome do autor,
tampouco há qualquer acusação contra uma pessoa específica.

Desta forma, tem-se que é forçosa a alegação do autor de que as referidas


postagens tenham sido dirigidas a ele, e mais forçoso ainda que isso tenha
atingido sua honra, uma vez que não há nexo de causalidade entre os prints
apresentados e a suposta mácula à honra do autor.

DA AUSENCIA DE DANO MORAL

Com o devido respeito às argumentações lançadas pela parte autora, estas


não merecem prosperar, vez que, conforme demonstrado, o alegado DANO
sofrido pelo Autor não restou caracterizado, tampouco comprovado, além de o
Réu não reconhecer essas supostas mensagens como suas.

Para caracterização do dever de indenizar outrem, grande parte da doutrina,


incluindo aqui o eminente Prof. Flavio Tartuce, prevalece o entendimento de
que são quatro as premissas da responsabilidade civil: a conduta (comissiva ou
omissiva), a culpa genérica, o nexo de causalidade e o dano.

No presente caso, temos inicialmente que o promovido não é responsável pela


autoria da suposta ação danosa que o promovente alega ter sofrido.
Compete ao Autor demonstrar a culpa do Réu, além de demonstrar o dano
ocasionado.

Analisando-se o suposto DANO, vemos que não há nos autos prova de


qualquer prejuízo sofrido pelo autor. Conforme minuciosamente analisado,
nenhum dos prints apresentados pelo Autor contém qualquer acusação ou
ofensa direta a sua pessoa. A bem da verdade, a maioria deles sequer
menciona o nome do autor. O único print em que há menção direta ao nome do
promovente diz respeito a um aparente debate, no qual um dos usuários, a
título de retórica, supõe uma situação exemplificativa.

O autor, por má-fé, excesso de imaginação ou mania de perseguição,


interpretou que as supostas mensagens postadas no Facebook eram para si, e
mais, que tinham o intuito exclusivo de lhe ofender a honra.

Ao analisar as mensagens, mesmo sem o contexto no qual estavam


inseridas, é possível concluir que não são direcionadas ao autor, não são
ofensivas, muito menos ofensivas a ponto de ocasionar dano moral. Não
há xingamentos ou utilização de expressões vexatórias, não há acusações
diretas e tampouco menção direta ao nome do autor, mas mera manifestação
de argumentação, exemplificação e retórica.

Não há como interpretar que toda e qualquer mensagem postada no Facebook


como sendo direcionada e ofensiva, pois, se assim o fosse, o Poder Judiciário
trabalharia única e exclusivamente para reparação civil decorrente de
mensagens postadas nas redes sociais, que não são poucas.

Não restando provado e comprovado o dano experimentado pelo Autor, não há


que se falar em reparação civil, pois ausente um dos requisitos para tanto, qual
seja, o DANO.

Neste sentido, são os reiterados posicionamentos dos Tribunais Pátrios:

APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS


MORAIS - AMEAÇAS E OFENSAS, INCLUSIVE POR MEIO DE
MENSAGENS EM REDE SOCIAL - NÃO COMPROVAÇÃO - DANO
MORAL - NÃO CONFIGURAÇÃO - IMPROCEDÊNCIA. - Não há que
se falar em indenização por danos morais se a parte autora não
comprova, nos termos do art. 373, I, do CPC/15, minimamente suas
alegações, tampouco os requisitos que ensejam a reparação por dano
moral, quais sejam: o ato ilícito, o dano e o nexo causal entre a
conduta do agente e o suposto dano sofrido.

(TJ-MG - AC: 10701150024704001 MG, Relator: Domingos Coelho, Data de


Julgamento: 16/08/2017, Câmaras Cíveis / 12ª CÂMARA CÍVEL, Data de
Publicação: 23/08/2017)

INDENIZATÓRIA POR DANOS MORAIS. OFENSAS PROFERIDAS


EM MENSAGENS DE TEXTO DIRECIONADAS A NÚMERO DE
CELULAR DA AUTORA E A REDE SOCIAL DA INTERNET, DA
QUAL PARTICIPAM AS PARTES. DANOS MORAIS NÃO
CONFIGURADOS. - Em primeiro lugar, não acolho a impugnação à
AJG trazida em contrarrazões, por se tratar de impugnação genérica e
que não dá mínimo indicativo de tranqüilidade financeira do autor, o
que também não se extrai do contexto que aportou no processo. - No
mérito, não prospera a irresignação dos demandantes, pois o que se
vê é que a discórdia entre as partes tem origem no término do
relacionamento do autor com a ré, tendo uma filha em comum,
ocorrendo uma discussão acerca do pagamento de pensão
alimentícia. - Portanto, trata-se de desavença familiar, sendo que o
desabafo da ré, na rede social Facebook, fl. 16, ocorreu em ambiente
de mensagens privadas, onde só tem acesso o usuário do perfil, não
publicizando o conteúdo. Da mesma forma, a mensagem enviada à
nova companheira do ex-marido da ré ocorreu para o número de
celular (fl. 17), onde obviamente o acesso é particular, não se
configurando hipótese de tornar pública alguma situação vexatória ou
constrangedora. Assim, tenho que o desentendimento, embora de
conteúdo pouco educado, não expôs os autores a situação de
humilhação ou que maculasse sua honra objetiva, pelo que a
condenação judicial de qualquer das partes, nesse sentido, só servirá
para animar o revanchismo familiar. SENTENÇA MANTIDA.
RECURSO IMPROVIDO. (Recurso Cível Nº 71004068821, Terceira
Turma Recursal Cível, Turmas Recursais, Relator: Carlos Eduardo
Richinitti, Julgado em 25/04/2013)

(TJ-RS - Recurso Cível: 71004068821 RS, Relator: Carlos Eduardo Richinitti,


Data de Julgamento: 25/04/2013, Terceira Turma Recursal Cível, Data de
Publicação: Diário da Justiça do dia 02/05/2013)
CIVIL E PROCESSUAL CIVIL - DANO MORAL – AUSÊNCIA DE
COMPROVAÇÃO DO ATO ILÍCITO IMPUTADO AO RÉU –
MENSAGENS OFENSIVAS PUBLICADAS EM REDE SOCIAL QUE
NÃO IDENTIFICAM A QUEM SE DIRIGE – RECURSO PROVIDO –
MAIORIA. Não cabe indenização por dano hipotético, sendo
necessário, em regra, a comprovação do prejuízo sofrido. A prova
dos autos não demonstra o cometimento de ato ilícito pelo réu a
ensejar a reparação pleiteada.

(TJ-DF - APC: 20140110110808, Relator: SILVA LEMOS, Data de Julgamento:


07/10/2015, 5ª Turma Cível, Data de Publicação: Publicado no DJE :
27/10/2015 . Pág.: 308) [grifos nossos]

Dessa forma, diante da inexistência de comprovação do dano sofrido pelo


Autor, requer seja julgado improcedente a presente demanda.

DA CONCLUSÃO E PEDIDOS

Ante ao exposto, requer o Réu:

1) Sejam acolhidas as preliminares de incompetência deste MM. Juízo;

2) Seja julgada TOTALMENTE IMPROCEDENTE a demanda, com a


condenação da parte Autora no pagamento das custas processuais e dos
honorários advocatícios;

3) Eventualmente, caso entenda existente o dano ocasionado a parte Autora, o


que desde já representa verdadeiro absurdo, requer seja atribuído valor
condizente e proporcional a situação financeira do réu;

4) Protesta provar o alegado por meio de todos os meios de prova em direito


admitidos, em especial a oitiva de testemunhas que oportunamente serão
indicadas.

Termos em que, pede deferimento.

Várzea Alegre/CE, 18 de outubro de 2019.

ANDRÉ COSTA TANAKA


OAB/CE 20.663