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PARTE ESPECIAL

TITULO II. DOS CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

CAPÍTULO II – DO ROUBO E DA EXTORSÃO

EXTORSÃO – ART. 158 DO CP

Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o


intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a
fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa:

Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.

A característica básica do crime de extorsão é que o agente coage a vítima


a fazer (ex: entregar-lhe dinheiro), não fazer (ex: não efetuar uma cobrança), ou
tolerar que se faça algo (ex: não impedir que se lhe rasgue um título de crédito),
mediante o emprego de violência ou grave ameaça. Em suma, estamos diante
de uma forma do crime de constrangimento ilegal, acrescida, contudo, de uma
finalidade especial do agente, consubstanciada na vontade de auferir vantagem
econômica.

Objetividade jurídica: Cuida-se de um crime complexo, que tem como


objeto jurídico a tutela do patrimônio, assim como a liberdade individual do
cidadão.
Obs: Ao contrário do que ocorre no furto e no roubo, entretanto, não é só a
coisa móvel a ser objeto do crime; pode ocorrer a extorsão obrigando-se a vítima
a transferir a propriedade de um imóvel ao agente ou terceiro.

Sujeito ativo: Qualquer pessoa pode praticar o crime de extorsão.


Obs: Sendo o agente funcionário público, a simples exigência de uma
vantagem indevida em razão da função caracteriza o delito de concussão (art.
316 do CP). Todavia, o agente da autoridade que constrange alguém, com o
emprego de violência ou grave ameaça, para obter proveito indevido, não incorre
unicamente nas penas do delito de concussão; vai mais adiante, praticando
extorsão.

Sujeito passivo: Qualquer pessoa pode ser vítima do crime em estudo. É


vítima aquele que é sujeito à violência ou ameaça, o que deixa de fazer ou
tolerar que se faça alguma coisa e, ainda, o que sofre o prejuízo econômico.

Conduta: Vem representada pelo verbo constranger, que significa coagir,


forçar, compelir, obrigar alguém a fazer (ex: quitar uma dívida não paga), tolerar
que se faça (ex: permitir que o agente rasgue um contrato) ou deixar de fazer
alguma coisa (ex: obrigar a vítima a não propor ação judicial contra o agente).
Há primeiramente a ação de constranger realizada pelo coator, a qual é seguida
pela realização ou abstenção de uma ato por parte do coagido.
Obs: É diferente do roubo, cujo núcleo é subtrair, demonstrando que o
agente prescinde da colaboração da vítima, pois tem o bem ao seu alcance.

Meios de execução:
O constrangimento pode ser exercido mediante o emprego de violência ou
grave ameaça, os quais podem atingir tanto o titular do patrimônio quanto a
pessoa ligada a ele. A lei não se refere ao emprego de qualquer outro meio, ao
contrário do crime de roubo, de modo que se o constrangimento ilegal é
realizado, por exemplo, mediante o emprego de álcool, substância entorpecente,
poderá configurar-se o delito de roubo, estelionato etc.

A ameaça pode constituir-se na promessa de revelar um segredo. Nas


palavras de HUNGRIA: “Uma das mais frequentes formas de extorsão é a
praticada mediante ameaça de revelação de fatos escandalosos ou difamatórios,
para coagir o ameaçado a comprar o silêncio do ameaçador. É a chantagem,
dos franceses, ou blackmail, dos ingleses.”

Segundo já se decidiu, constitui crime a ameaça de revelar segredo (RT


554/377), de aplicar elevada multa industrial (JTACrSP 24/218), de depor em
juízo em declarações desfavoráveis (JTACrSP 24/171) e de prisão por falso
policial (RT 331/100).

Mensagens eletrônicas: ou pela Internet, são aptas à configuração do


crime.

Falso sequestro: pode caracterizar o crime de extorsão. Ex: por telefone,


o agente constrange a vítima a dar-lhe dinheiro a pretexto de libertar familiar que
se encontra por ele sequestrado, não existindo efetivamente o sequestro.

Diferença entre os crimes de roubo e de extorsão:


Na extorsão, a vítima tem um mínimo de escolha, podendo optar entre
ceder ou não ao constrangimento do agente. No roubo, de outro lado, a
eventual resistência da vítima de nada aproveitaria, já que o agente poderia
tomar-lhe a coisa de qualquer modo. No roubo, o agente toma a coisa da vítima
ou a obriga a entregá-la. Na extorsão, a vítima pode optar entre entregar a coisa
ou não, oferecendo resistência.

Assim, se a vítima pratica um ato que o agente poderia realizar em seu


lugar, o crime é de roubo (ex: entrega da carteira), ao passo que se a vítima
pratica um ato que o agente não poderia cometer em seu lugar (participação
decisiva da vítima), o delito é de extorsão (ex: preenchimento de um cheque).
Diferença entre os crimes de extorsão e de concussão:
Embora sejam figuras típicas semelhantes, demandando a obtenção de
vantagem ilícita, é certo que a extorsão pode ser praticada por qualquer pessoa,
enquanto a concussão somente pode ter como sujeito ativo o funcionário
público.

Na extorsão a conduta é constranger, empregando o agente violência ou


grave ameaça, enquanto na concussão a conduta é exigir, inexistindo emprego
de violência ou grave ameaça por parte do funcionário público, muito embora,
em geral, prenuncie um mal futuro. Assim, se houve emprego de violência ou
grave ameaça por parte do funcionário público em razão da função, ao exigir a
vantagem indevida, estará configurado o crime de extorsão e não o de
concussão.

Elemento subjetivo: É o dolo. O elemento subjetivo do tipo (dolo


específico) é a vontade de obter uma vantagem econômica ilícita, constituindo
esta corolário da ameaça ou violência.
Obs: Na ausência de um fim econômico, o delito será outro (ex:
constrangimento ilegal etc.)

Consumação:
Há duas orientações quanto à consumação do crime:

a) A extorsão é crime formal ou de consumação antecipada. Assim se


denomina o tipo penal que não exige a produção do resultado para a
consumação do crime, embora seja possível a sua ocorrência. Basta
que a vítima, constrangida pelo emprego de violência ou grave ameaça,
faça, tolere que se faça ou deixe de fazer alguma coisa para que o
crime se repute consumado; não exige a obtenção da indevida
vantagem econômica pelo agente. Esse é o entendimento que
prevalece na doutrina. Nessa esteira o Superior Tribunal de Justiça
editou a Súmula 96: “O crime de extorsão consuma-se
independentemente de obtenção da vantagem indevida”;

b) A extorsão é crime material. Consuma-se com a produção do resultado,


qual seja, a obtenção da indevida vantagem econômica.

Tentativa: É admissível.
Obs: Ocorre a tentativa quando a ameaça não chega ao conhecimento da
vítima (RT 338/103), quando esta não se intimida (RT 525/432) ou quando o
agente não consegue que ela faça, tolere que se faça ou deixe de fazer alguma
coisa (RT 481/363, 498/357; JTACrSP 32/332).
Causa de aumento de pena (um terço até metade):

§ 1º - Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com


emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade.

Crime qualificado pelo resultado lesão grave ou morte:

§ 2º - Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o disposto no


§ 3º do artigo anterior.

Crime qualificado pelo resultado lesão grave:

É uma das hipóteses de delito qualificado pelo resultado, que se configura


pela presença do dolo na conduta antecedente (extorsão) e dolo ou culpa na
conduta subsequente (lesões corporais graves – art. 129, §§ 1º e 2º, do CP).

Crime qualificado pelo resultado morte:

Também se exige dolo na conduta antecedente (extorsão) e dolo ou culpa


na conduta subsequente (morte). É considerado crime hediondo (Art. 1º, III, da
Lei 8.072/90).

Nos termos do art. 9º da Lei dos Crimes Hediondos, se a vítima se


enquadrasse em qualquer das hipóteses do art. 224 do CP, a pena seria
acrescida de metade, respeitando o limite máximo de 30 anos. Ocorre que o
art. 224 do CP foi revogado expressamente pela lei 12.015/2009 e as
condições nele previstas integram tipo autônomo específico (art. 217-A – estupro
vulnerável), que não tem aplicação genérica sobre outros delitos, não há mais
que se cogitar na incidência da referida causa de aumento de pena nos
delitos patrimoniais (arts. 157, §3º; 158, §2º; 159, caput e seus §§ 1º, 2º e 3º).

CRIME QUALIFICADO: “SEQUESTRO RELÂMPAGO”:

Recentemente, a Lei nº 11.923, de 17 de abril de 2009 acrescentou um


§3º, segundo o qual

“Se o crime é cometido mediante restrição da liberdade da vítima, e


essa condição é necessária para a obtenção da vantagem econômica, a
pena é de reclusão, 6 (seis) a 12 (doze) anos, além da multa; se resulta
lesão corporal grave ou morte, aplicam-se as penas previstas no art. 159,
§§ 2º e 3º, respectivamente”.

Assim, a partir dessa inovação legal, o “sequestro relâmpago”, em


que o agente restringe a liberdade de locomoção da vítima, conduzindo-a
até caixas eletrônicos, a fim de obrigá-la a entregar-lhe o cartão magnético
e a fornecer-lhe a senha, para sacar numerário, configurará o crime de
extorsão na forma qualificada.

Ação penal: é pública incondicionada.

EXTORSÃO MEDIANTE SEQUESTRO – ART. 159 DO CP

Art. 159 - Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para


outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate:

Pena - reclusão, de oito a quinze anos.

Objetividade jurídica: Trata-se de um crime complexo (sequestro ou


cárcere privado + extorsão), que tem como objeto jurídico a tutela do patrimônio.
Já o fim do agente é a vantagem econômica, bem como a liberdade individual, a
integridade física e a vida do cidadão.

Sujeito ativo: Qualquer pessoa pode praticá-lo.


Obs: O sujeito ativo do crime não é apenas aquele que realiza o sequestro
da pessoa, mas também quem vigia a vítima do local do crime para que ela não
fuja e também aquele que leva a mensagem aos parentes da vítima.

Sujeito passivo: Além da pessoa sequestrada, é sujeito passivo do crime


aquele que sofre o prejuízo econômico.

Conduta: Vem representada pelo verbo sequestrar, que significa cercear


ou privar a liberdade

Finalidade do agente: Deve ser a obtenção de qualquer vantagem


(sempre econômica, vez que se trata de crime contra o patrimônio), como
condição ou preço de resgate.

Elemento subjetivo: É o dolo. O elemento subjetivo do tipo (dolo


específico) é o desejo de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem.

Consumação:
Cuida-se de crime formal, e, portanto, o crime se consuma com o
sequestro, ou seja, com a privação da liberdade da vítima, independentemente
da obtenção da vantagem econômica, que constitui mero exaurimento do crime.
Ademais, trata-se de crime permanente, cujo momento consumativo se prolonga
no tempo, enquanto a vítima é mantida no cativeiro. A cessação do crime
depende única e exclusivamente da vontade do agente. A prisão em flagrante
pode ser realizada a qualquer momento, enquanto a vítima ainda se encontra
sob o poder dos sequestradores.
Tentativa: É admissível.
Exemplo seria o da prisão do agente quando procura arrastar a vítima para
o automóvel que a levará para o outro local. Enquanto não se possa dizer que a
vítima está, efetivamente, privada da liberdade, existirá tentativa.

Formas qualificadas:

§ 1o Se o sequestro dura mais de 24 (vinte e quatro) horas, se o


sequestrado é menor de 18 (dezoito) ou maior de 60 (sessenta) anos, ou se
o crime é cometido por bando ou quadrilha.

Pena - reclusão, de doze a vinte anos.

Sequestro que dura mais de vinte e quatro horas: Tem consideração a


maior lesão ao direito de locomoção da vítima, maior dano à sua liberdade e
maior sofrimento por parte dos familiares.

Sequestrado menor de dezoito anos: O agravamento da pena dá-se em


razão da menor resistência que possa oferecer a vítima. A data a ser
considerada é aquela da conduta.

Sequestrado maior de sessenta anos: Tal qualificadora foi incluída pelo


art. 110 da Lei n. 10.741/2003 — Estatuto do Idoso.

Sequestro cometido por bando ou quadrilha: A caracterização do


bando ou quadrilha deve dar-se nos termos do art. 288 do Código Penal. Nada
obsta, todavia, que possa haver concurso material entre o crime de bando ou
quadrilha (art. 288 do CP) e o crime de extorsão mediante sequestro qualificado
por quadrilha ou bando. Não há que falar em bis in idem, pois o bando ou
quadrilha existe como crime autônomo, anterior, que não exige a prática de
outros delitos para sua caracterização, bastando a finalidade de cometer crimes.

Crime qualificado pelo resultado:

§ 2º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave:

Pena - reclusão, de dezesseis a vinte e quatro anos.

É uma das hipóteses de delito qualificado pelo resultado, que se configura


pela presença do dolo na conduta antecedente (extorsão mediante sequestro) e
dolo ou culpa na conduta subseqüente (lesões corporais graves – art. 129, §§ 1º
e 2º, do CP).

§ 3º - Se resulta a morte:

Pena - reclusão, de vinte e quatro a trinta anos.


Também se exige dolo na conduta antecedente (extorsão mediante
sequestro) e dolo ou culpa na conduta subseqüente (morte).

Crime hediondo: A extorsão mediante sequestro constitui delito hediondo


tanto na sua forma simples (art. 159, caput) quanto as qualificadas (art. 159, §§
1º, 2º e 3º do CP), nos termos do art. 1º, IV, da Lei 8.072/90.

Causa de diminuição de pena (de um a dois terços):

§ 4º - Se o crime é cometido em concurso, o concorrente que o


denunciar à autoridade, facilitando a libertação do sequestrado, terá sua
pena reduzida de um a dois terços.

Cuida-se da chamada delação eficaz ou premiada. São requisitos


necessários:
• Prática de um crime de extorsão mediante sequestro;
• Cometido em concurso;
• Delação feita por um dos coautores ou partícipes à autoridade;
• Eficácia da delação (ou seja, é imprescindível a efetiva libertação da
vítima).

Ação penal: é pública incondicionada.

EXTORSÃO INDIRETA – ART. 160 DO CP

Exigir ou receber, como garantia de dívida, abusando da situação de


alguém, documento que pode dar causa a procedimento criminal contra a
vítima ou contra terceiro:

Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.

Objetividade jurídica: Trata-se de um crime complexo, que tem como


objeto jurídico a tutela do patrimônio, assim como a liberdade individual, já que a
vítima, diante da necessidade econômica, é obrigada a fazer o que a lei não
manda.

Sujeito ativo: Pratica o crime quem exige ou recebe o documento como


garantia da dívida. Em regra, é o credor.

Sujeito passivo: A pessoa que cede à exigência do agente ou oferece o


documento como garantia da dívida. Secundariamente, pode também ser vítima
terceira pessoa contra a qual pode ser instaurado procedimento criminal.
Conduta: Cuida-se de crime de ação múltipla. O tipo penal contém duas
ações nucleares: a) exigir: obrigar, impor, reclamar (a iniciativa parte do sujeito
ativo); e receber: aceitar, tomar, apanhar. Aqui o agente, como garantia de
dívida, aceita o documento fornecido por iniciativa da própria vítima.

Vale salientar que, a conduta deve ser praticada abusando da situação


de alguém, que pode ser o sujeito passivo ou outra pessoa, indicando que o
sujeito ativo deve aproveitar-se da situação de necessidade de alguém.

Quanto ao documento, este pode ser público ou particular, devendo ser


apto a dar causa a processo criminal contra a vítima ou contra terceiro.

Exemplo: Imagine-se a situação daquele que, necessitando muito de um


empréstimo e pretendendo convencer a pessoa que lhe emprestará quantia de
que irá pagar, entrega, voluntariamente, nas mãos do credor um cheque sem
suficiente provisão de fundos. O simples fato de o credor aceitar tal oferta já
configura o delito, pois sabe que, no futuro, poderá apresentar o cheque e
enquadrar o devedor na figura do estelionato.

Elemento subjetivo: É o dolo. O elemento subjetivo do tipo (dolo


específico) é a finalidade de garantir uma dívida.

Consumação e tentativa:
Na modalidade exigir, trata-se de crime formal; logo, consuma-se com a
simples exigência do documento como garantia da dívida. Neste caso, a
tentativa somente será possível se a exigência for realizada por escrito e não
chegar ao conhecimento da vítima por circunstâncias alheias à vontade do
agente. Na modalidade receber, o crime é material, portanto, consuma-se com a
efetiva entrega do documento ao agente. A tentativa, no caso, é perfeitamente
possível.

Ação penal: é pública incondicionada.

CAPÍTULO III – DA USURPAÇÃO

ALTERAÇÃO DE LIMITES – ART. 161 DO CP

Suprimir ou deslocar tapume, marco, ou qualquer outro sinal


indicativo de linha divisória, para apropriar-se, no todo ou em parte, de
coisa imóvel alheia:

Pena - detenção, de um a seis meses, e multa.

Objetividade jurídica: Tutela-se de forma direta a posse, e indireta, a


propriedade dos bens imóveis.
Sujeito ativo: É o dono do imóvel ao lado daquele (vizinho) que terá a
linha divisória alterada

Sujeito passivo: O proprietário ou possuidor do imóvel que teve a linha


demarcatória modificada.

Elemento objetivo do tipo: Suprimir (retirar, eliminar, fazer desaparecer)


ou deslocar (mudar do local onde se encontrava originalmente) tapume (cerca
ou vedação feita com tábuas ou outro material), marco (qualquer sinal natural ou
artificial) ou qualquer sinal indicativo de linha divisória (símbolo para demonstrar
fronteira) para apropriar-se, no todo ou em parte, de coisa imóvel alheia.

Elemento subjetivo: É o dolo. O elemento subjetivo do tipo (dolo


específico) é a finalidade de se apropriar se coisa alheia imóvel.

Consumação
Quando ocorrer a supressão ou o deslocamento de marca divisória.

Tentativa: É admissível.

Ação penal: é privada se a propriedade for particular e não houver


emprego de violência (§3º).

USURPAÇÃO DE ÁGUAS – ART. 161, §1º, I, DO CP

I - desvia ou represa, em proveito próprio ou de outrem, águas


alheias;

Objetividade jurídica: Tutela-se a posse das águas consideradas


patrimônio imobiliário (art. 79 do Código Civil). O objeto material é a água alheia.

Sujeito ativo: Aquele que desvia ou represa águas alheias.

Sujeito passivo: O proprietário ou o possuidor do imóvel da água


desviada ou represada.

Elemento objetivo do tipo: Desviar (mudar de direção ou o destino de


algo) ou represar (deter o curso das águas), em proveito próprio ou de terceiro,
águas alheias. A pena é de detenção, de um a seis meses, e multa.

Elemento subjetivo: É o dolo. O elemento subjetivo do tipo (dolo


específico) é a finalidade de se apropriar de águas alheias, para si ou para
outrem.

Consumação
Consuma-se com o ato de desviar ou represar a água.
Tentativa: É admissível.

Ação penal: é privada se a propriedade for particular e não houver


emprego de violência (§3º).

ESBULHO POSSESSÓRIO – ART. 161, §1º, II, DO CP

II - invade, com violência a pessoa ou grave ameaça, ou mediante


concurso de mais de duas pessoas, terreno ou edifício alheio, para o fim
de esbulho possessório.

Objetividade jurídica: Tutela-se a inviolabilidade patrimonial, sobretudo a


posse do bem imóvel. Tutela-se também a integridade física e liberdade da
vítima, vez que a invasão do imóvel alheio pode ser realizada mediante o
emprego de violência (física ou moral) ou concurso de mais de duas pessoas.

Sujeito ativo: Qualquer pessoa.

Sujeito passivo: O indivíduo que legitimamente detém a posse do bem


imóvel, por exemplo, proprietário, locatário, usufrutuário, arrendatário etc.

Elemento objetivo do tipo: Esbulhar significa privar alguém de alguma


coisa, indevidamente, valendo-se de fraude ou violência. No presente caso, tem
por fim o tipo penal punir aquele que toma a posse de um imóvel de outra
pessoa. Por isso, o verbo é invadir (entrar à força, visando a dominação), com
violência ou grave ameaça à pessoa, ou mediante concurso de mais de duas
pessoas (não se trata de uma circunstância qualificadora ou agravante, mas
inerente ao próprio tipo básico). A pena é de detenção, de um a seis meses, e
multa.

Elemento subjetivo: É o dolo. O elemento subjetivo do tipo (dolo


específico) é a finalidade de tomar a posse de imóvel alheio (note-se que a mera
turbação não é penalmente relevante como delito autônomo, mas pode ser
tentativa de esbulho).

Consumação
Quando ocorrer a invasão, independentemente de conseguir a inversão da
posse.

Tentativa: É admissível.

Ação penal: é privada se a propriedade for particular e não houver


emprego de violência (§3º).
SUPRESSÃO OU ALTERAÇÃO DE MARCA EM ANIMAIS – ART. 162
DO CP

Suprimir ou alterar, indevidamente, em gado ou rebanho alheio,


marca ou sinal indicativo de propriedade:

Pena - detenção, de seis meses a três anos, e multa.

Objetividade jurídica: Tutela-se a posse e a propriedade dos


semoventes, em especial o gado ou o rebanho. O objeto material é o gado ou
rebanho alheio (note-se que o delito exige o coletivo, não bastando um animal).

Sujeito ativo: Qualquer pessoa, ou seja, aquele que suprime ou altera a


marca ou sinal indicativo de propriedade aposta em gado ou rebanho.

Sujeito passivo: O proprietário do gado ou rebanho marcados.

Elemento objetivo do tipo: Suprimir (fazer desaparecer ou eliminar) ou


alterar (transformar ou modificar), indevidamente (ilicitamente), em gado ou
rebanho alheio, marca (desenho, um emblema ou um escrito qualquer se serve
para identificar alguma coisa ou algum trabalho) ou sinal (expediente usado,
através de meios visíveis ou auditivos, para dar alerta sobre alguma coisa)
indicativo de propriedade. Implica na indispensável existência de sinal ou marca
previamente colocados nos animais. A pena é de detenção, de seis meses a três
anos, e multa.

Elemento subjetivo: É o dolo.

Consumação
Quando ocorrer a supressão ou alteração da marca ou sinal,
independentemente de conseguir a inversão de posse dos animais.

Tentativa: É admissível.

Ação penal: é pública incondicionada.

CAPÍTULO IV – DO DANO

DANO – ART. 163 DO CP

Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia:

Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.


Objetividade jurídica: Tutela-se a propriedade e a posse de coisas
móveis e imóveis. O objeto material é a coisa que sofre a agressão do agente.

Sujeito ativo: Aquele que destrói, inutiliza ou deteriora coisa alheia, ou


seja, qualquer pessoa, salvo o proprietário do bem.

Sujeito passivo: É o proprietário ou possuidor do bem.

Elemento objetivo do tipo: As ações nucleares do tipo consubstanciam-


se nos verbos: a) Destruir: demolir, desmanchar, exterminar, desfazer a própria
coisa, de modo que esta perca a sua essência. Só ocorre quando houver perda
da identidade da coisa (Por exemplo: matar um porco, romper a vidraça, cortar
uma árvore etc.); b) Inutilizar: tornar inútil, inservível, de modo que a coisa não
perca sua individualidade mas torne-se, total ou parcialmente, inadequada à sua
finalidade (por exemplo, quebrar um revólver, castrar um reprodutor etc.); c)
Deteriorar: reduzir o valor da coisa (por exemplo: alterar uma obra de arte sem
destruí-la, tirar os ponteiros de um relógio etc.). A pena é de detenção, de um a
seis meses, ou multa.

Elemento subjetivo: É o dolo.

Consumação
Ocorre com o efetivo dano à coisa alheia, ainda que parcial

Tentativa: É admissível.

Formas qualificadas (pena de detenção, de seis meses a três anos, e


multa) - Parágrafo único - Se o crime é cometido:

I - com violência à pessoa ou grave ameaça;


Obs: Trata-se de violência física ou ameaça séria voltada contra a pessoa,
e não contra a coisa.

II - com emprego de substância inflamável ou explosiva, se o fato não


constitui crime mais grave
Esta é a natureza nitidamente subsidiária da qualificadora. Ex: se o agente,
para destruir objeto alheio, provocar uma explosão que coloque em risco
terceiros, responde pelo crime do art. 251 do CP.

III - contra o patrimônio da União, Estado, Município, empresa


concessionária de serviços públicos ou sociedade de economia mista;
Quem danifica bem público deve responder mais gravemente, pois o
prejuízo é coletivo, e não individual.
IV - por motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima:

Quem danifica patrimônio alheio somente para satisfazer um capricho ou


incentivar um desejo de vingança ou ódio pela vítima deve responder mais
gravemente pelo que faz. Ex: o agente destrói a motocicleta do colega de classe
somente para ser o único da turma a ter aquele tipo de veículo.

Quando o delito de dano provoca na vítima um prejuízo de elevado custo,


sendo esta a intenção do agente, é preciso puni-lo mais gravemente. Assim, por
exemplo, é a conduta daquele que destrói a casa do inimigo, causando-lhe
imenso transtorno e vultosa diminuição patrimonial.

Pena - detenção, de seis meses a três anos, e multa, além da pena


correspondente à violência.

INTRODUÇÃO OU ABANDONO DE ANIMAIS EM PROPRIEDADE


ALHEIA – ART. 164 DO CP

Introduzir ou deixar animais em propriedade alheia, sem


consentimento de quem de direito, desde que o fato resulte prejuízo:

Pena - detenção, de quinze dias a seis meses, ou multa.

Objetividade jurídica: Tutela-se a inviolabilidade da posse ou propriedade


do bem imóvel contra ações danosas de animais que nele são introduzidos, os
quais destroem as plantas ou vegetações, cercas etc.

Sujeito ativo: Aquele que introduz ou deixa animais em propriedade


alheia.

Sujeito passivo: O possuidor ou proprietário do bem imóvel.

Elementos objetivos do tipo: Introduzir (fazer entrar) ou deixar (largar ou


soltar) animais, em propriedade alheia, sem consentimento de quem de direito.

Elemento subjetivo: É o dolo.

Consumação: Quando ocorrer o prejuízo efetivo, a partir da introdução


dos animais na propriedade alheia.

Tentativa: Não é admissível, pois o delito é condicionado (“desde que o


fato resulte prejuízo”).

Ação penal: é privada (art. 167 do CP)


DANO EM COISA DE VALOR ARTÍSTICO, ARQUEOLÓGICO OU
HISTÓRICO – ART. 165 DO CP

Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa tombada pela autoridade


competente em virtude de valor artístico, arqueológico ou histórico:

Pena - detenção, de seis meses a dois anos, e multa.

Objetividade jurídica: É o patrimônio artístico, arqueológico ou histórico


do Estado.

Sujeito passivo: É, principalmente, o Estado que determinou o


tombamento; em segundo plano, está o proprietário da coisa.

Sujeito ativo: Qualquer pessoa, inclusive o proprietário da coisa.

Elementos objetivos do tipo: Ressalta-se, no entanto, que lei especial,


tratando mais amplamente deste delito, revogou, tacitamente, o art. 165 do CP.
Lei 9.605/98 - Art. 62. Destruir, inutilizar ou deteriorar: I - bem especialmente
protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial; II - arquivo, registro,
museu, biblioteca, pinacoteca, instalação científica ou similar protegido por lei,
ato administrativo ou decisão judicial: Pena - reclusão, de um a três anos, e
multa. Parágrafo único. Se o crime for culposo, a pena é de seis meses a um
ano de detenção, sem prejuízo da multa.

Elemento subjetivo: É o dolo.

Consumação: ocorre com o efetivo dano à coisa, ainda que parcial.

Tentativa: Admite-se.

Ação penal: é pública incondicionada.

ALTERAÇÃO DE LOCAL ESPECIALMENTE PROTEGIDO – ART. 166


DO CP

Alterar, sem licença da autoridade competente, o aspecto de local


especialmente protegido por lei:

Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa.


Objetividade jurídica: É o patrimônio histórico, cultural, ecológico,
paisagístico, turístico, artístico, religioso, arqueológico, etnográfico ou
monumental do Estado.

Sujeito passivo: É, principalmente, o Estado que promoveu a proteção;


em segundo plano, está o proprietário da coisa.

Sujeito ativo: Qualquer pessoa, inclusive o proprietário da coisa.

Elementos objetivos do tipo: Há lei especial que revogou, tacitamente,


este delito, por disciplinar integralmente a matéria. Art. 63 da Lei 9.605/98:
Alterar o aspecto ou estrutura de edificação ou local especialmente protegido
por lei, ato administrativo ou decisão judicial, em razão de seu valor paisagístico,
ecológico, turístico, artístico, histórico, cultural, religioso, arqueológico,
etnográfico ou monumental, sem autorização da autoridade competente ou em
desacordo com a concedida: Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.

Inexistência de licença da autoridade: deve inexistir licença da


autoridade competente.

Elemento subjetivo: É o dolo.

Consumação: ocorre com a alteração do aspecto do local.

Tentativa: Admite-se.

Ação penal: é pública incondicionada.

Art. 167 - Nos casos do art. 163, do inciso IV do seu parágrafo e do


art. 164, somente se procede mediante queixa.

Ação penal pública incondicionada: a regra nos crimes de dano é a


ação penal pública incondicionada.

Ação penal privada: a ação penal será privada nos seguintes casos:

- crime de dano simples, previsto no art. 163, caput, do CP;

- crime de dano praticado por motivo egoístico ou com prejuízo


considerável para a vítima (art. 163, parágrafo único, IV, do CP);

- crime de introdução ou abandono de animais em propriedade alheia (art.


164 do CP).