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O Crime de Extorsão e a Tentativa

I. Das infinitas questões que se disputam perante a barra


da Justiça Criminal, poucas apresentam mais dificuldade que
a tentativa de extorsão: art. l58 do Código Penal (1).
Contra expressiva corrente doutrinária, admitem-na
autores de boa nota, considerando tal crime de natureza
material, isto é, não se aperfeiçoa sem a efetiva lesão do bem
jurídico.
Os que a não reconhecem, porém, esses alegam que a
tentativa é incompatível com a extorsão, delito formal, ou de
consumação antecipada.
Valem-se também da letra da Súmula nº 96 do Colendo
Superior Tribunal de Justiça, que reza: “O crime de extorsão
consuma-se independentemente da obtenção da vantagem
indevida”.
Mas, afirmar de modo absoluto que repugna à extorsão
a figura do “conatus” não é senão afastar-se da verdadeira
exegese do texto legal e aplicá-lo em franco desacordo com
os preceitos da Justiça, a qual manda evitar sempre a
imoderação no castigo: “Interpretatio aequior, et benignior,
summenda est”. É de preferir a interpretação mais equitativa
e mais benigna.
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(1) Art. 158 do Código Penal:
“Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o
intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a
fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa:
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Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa.


II. A interpretação que atende à hipótese da tentativa no
crime de extorsão é a que, a nosso aviso, leva primazia entre
os penalistas.
Nélson Hungria, o Pontífice Máximo do Direito Penal
pátrio, escreveu, com efeito, em sua monumental obra:

“Apesar de se tratar de crime formal, a extorsão admite


tentativa, pois não se perfaz unico actu, apresentando-
se um iter a ser percorrido. Assim, toda vez que deixa
de ocorrer a pretendida ação, tolerância ou omissão da
vítima, não obstante a idoneidade do meio de coação,
ou, no caso de extorsão mediante sequestro, deixa este,
já em execução, de se ultimar (por circunstância alheia
à vontade do agente), não se pode reconhecer senão a
tentativa” (Comentários ao Código Penal, 1980, vol.
VII, p. 77).

E logo abaixo:

“Há que se identificar a tentativa punível ainda no caso,


não muito infrequente, em que a vítima, vencendo o
temor incutido, comunica a ameaça à polícia, e esta
predispõe as coisas de modo a surpreender o
extorsionário no ato de se apoderar da coisa
fingidamente consignada ou quando se apresenta no
lugar indicado para recebê-la” (ibidem).
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Doutrina é esta em que conspiram graves autores:

“Ocorre (tentativa de extorsão) quando o sujeito


passivo, não obstante constrangido pelo autor por
intermédio da violência física ou moral, não realiza a
conduta positiva ou negativa pretendida, por
circunstâncias alheias à vontade do autor” (Damásio
E. de Jesus, Código Penal Anotado, 18a. ed., p. 610).

Pelo mesmo teor, o insigne Heleno Cláudio Fragoso:

“Não se exige, para a consumação, que o agente tenha


conseguido o proveito que pretendia. O crime se
consuma com resultado do constrangimento, isto é, com
a ação ou omissão que a vítima é constrangida a fazer,
omitir ou tolerar que se faça e por isso pode-se dizer
que, em relação ao patrimônio, este é crime de perigo”
(Lições de Direito Penal, Parte Especial, 11a. ed., vol.
I, p. 217).

Ainda:

“Como no constrangimento ilegal, a tentativa é aqui


perfeitamente admissível, configurando-se quando,
apesar do emprego de meio idôneo, não consegue o
agente que a vítima faça, tolere que se faça ou deixe de
fazer alguma coisa” (ibidem).
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Afigura-se esta interpretação mais conforme ao direito e


à razão. Na real verdade, como quer que “interpretar, no
sentido jurídico, é procurar o pensamento contido na lei, a
significação das palavras, o alcance do texto, a explicação
da frase. Interpretar é descobrir a vontade da lei” (Vicente
de Azevedo, Apostilas de Direito Judiciário Penal, 1952, vol.
I, p. 56), não entra em dúvida que a todas se avantaja a
interpretação que deu ao texto legal seu próprio autor: Nélson
Hungria, que não somente lhe foi o principal colaborador e
artífice, mas também o supremo exegeta do Código Penal de
1940.

Na lição desses conspícuos autores é que nossas Cortes


de Justiça têm assentado sua jurisprudência:

a) “O crime de extorsão comporta a figura da


tentativa, em consonância com a doutrina, visto
que a ação delituosa foi tempestivamente atalhada
em sua execução, de maneira a permanecer a
conduta incriminada aquém da meta optata” (Rev.
Tribs., vol. 623, p. 313; rel. Emeric Levai);

b) “O enquadramento da extorsão entre os crimes


formais não impede que se reconheça a
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possibilidade da tentativa. A extorsão é delito


plurissubsistente, isto é, que se preenche com a
realização de vários atos. Destarte, a atividade
criminosa é perfeitamente cindível: tem um iter
criminis e, portanto, pode sofrer interrupção”
(Rev. Tribs., vol. 572, p. 356; rel. Silva Franco);

c) “Embora seja crime formal, a extorsão admite a


tentativa, porque não se perfaz com um só ato:
exige um iter criminis que o agente deve percorrer.
Ocorre a tentativa quando não se verifique
qualquer dos efeitos imediatos à coação (fazer,
tolerar ou deixar a vítima que se faça alguma coisa
que resulte ou possa resultar em prejuízo seu ou de
outrem)” (Rev. Tribs., vol. 555, p. 374; rel. Dirceu
de Mello; apud Alberto Silva Franco et alii,
Código Penal e sua Interpretação Jurisprudencial,
6a. ed., vol. I, t. II, pp. 2.574-2.575);

d) “Se a vítima da ameaça suportou um estado de


constrangimento, não entregando o dinheiro
exigido pelo réu por convocado o concurso da
polícia, tem-se caracterizado o crime de extorsão
na forma tentada, eis que o agente só não
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conseguiu seu desiderato por circunstâncias


alheias à sua vontade” (Rev. Tribs., vol. 799, p.
602; rel. Ricardo Dip).

A não ser assim, a figura penal da extorsão (art. 158)


não representaria mais que supérflua reduplicação do crime
de constrangimento ilegal (art. 146).

III. Pela suma autoridade que lhe reconhecem os cultores da


Ciência de Carrara, quer-se transcrita aqui a perspícua e
definitiva lição que, acerca do ponto, ministrou Damásio E.
de Jesus:

“Para nós, consuma-se a extorsão com a conduta


da vítima.
Diz-se o crime consumado quando nele se reúnem
todos os elementos de sua definição legal (CP, art. 14,
I). A consumação exige que, presente o elemento
subjetivo, o sujeito concretize todos os elementos
objetivos do tipo, havendo perfeita adequação entre o
fato concreto e o modelo legal. O iter criminis da
extorsão apresenta os seguintes elementos, que
consubstanciam três momentos típicos relevantes: 1º)
conduta de constranger o sujeito passivo mediante
violência ou grave ameaça; 2º) comportamento da
vítima, fazendo, tolerando que se faça ou deixando de
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fazer alguma coisa; 3º) intuito de obtenção da indevida


vantagem econômica.
A obtenção da vantagem indevida é dispensável,
uma vez que se encontra no âmbito da intenção do
agente (com o intuito de). Por isso o crime se diz
formal ou de consumação antecipada. Os outros
elementos, entretanto, de ordem objetiva, referentes ao
comportamento do sujeito ativo e à conduta da vítima,
são imprescindíveis à consumação. Se o agente, com o
elemento subjetivo próprio, constrange o sujeito
passivo mediante violência física ou grave ameaça, e
este porém não atende à coação, não se pode afirmar,
para fins de consumação, que no crime se reúnem todos
os elementos de sua definição legal. Está faltando a
elementar alternativa fazer, tolerar que se faça ou
deixar de fazer alguma coisa.
O crime formal antecipa a consumação ao
momento típico imediatamente anterior à produção do
resultado visado pelo agente. Considerando os três
momentos típicos da extorsão, consuma-se quando da
concretização do segundo, i.e., com a conduta da
vítima.
A adotar-se a tese de que a extorsão atinge a
consumação com o simples constrangimento, ter-se-á
de aceitar a consequência lógica de aplicá-la aos
crimes que apresentam a mesma construção típica. Em
outros termos, consumar-se-iam com o ato executório
do sujeito ativo todos os crimes em que a conduta do
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agente é seguida de comportamento coativo da vítima.


Assim, consumar-se-ia o constrangimento ilegal com a
violência ou grave ameaça (CP, art. 146). E como o
constrangimento ilegal é um crime subsidiário, o
princípio incidiria sobre todos os delitos em que ele
constitui meio de execução. Em face disso, v.g., o
atentado violento ao pudor, na hipótese de o
constrangimento visar a que a vítima pratique ato
libidinoso, atingiria o momento consumativo com a
simples violência ou grave ameaça” (Novíssimas
Questões Criminais, 2a. ed., pp. 21-22).

Enfim, o asserto de que a extorsão não conhece


tentativa (porque delito formal ou de consumação antecipada)
não consta da lei; tampouco o professam os mais reputados
mestres de Direito Penal, como Damásio E. de Jesus,
Heleno Cláudio Fragoso e aquele “che sovra gli altri
com’aquila vola” (2): Nélson Hungria.

CB

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(2) Dante, Inferno, IV, 96.