A TRAJETÓRIA DAS MULHERES NEGRAS E AFRO RELIGIOSAS NO BRASIL Os caminhos que nos trouxeram até aqui remonta de um histórico

de um passado não muito distante de negação dos direitos humanos elementares para a sobrevivência de um povo, vindo de um continente distante, diferente, rico de diversidades culturais e conhecimentos científicos. Arrancados de diversas regiões da África e escravizados no Brasil, estes Negros e Negras foram os responsáveis pelo desenvolvimento econômico da colônia e de seus colonizadores. Sabe-se que milhões de Negros e Negras foram dizimados por esse processo escravocrata que sempre foi embasado na afirmação de que uma Raça Superior pode dominar, oprimir, mercantilizar uma outra raça denominada de inferior, o que costumamos chamar de Racismo. A mão de obra gratuita dos Negros e Negras foram utilizados em todos os setores da economia, exercendo todos os tipos de funções que começavam com os trabalho nos engenhos de cana de açúcar, nas lavouras e plantações agrícolas, na pecuária, na extração de ouro e pedras preciosas, e terminavam com os afazeres domésticos da Casa Grande. Além dos trabalhos árduos que eram impostos aos negros e negras, estes ainda eram vitimas de maus-tratos, torturas e péssimas condições de vida. A escravidão tirou-lhes a condição de seres humanos, reduzindo-os à condição de objetos, meros instrumentos de trabalho, sem direito algum. A Lei que decretou a “Abolição da Escravatura”, não trouxe nenhum beneficio para a População negra, simplesmente jogo-a a outra escravidão, levando-a a um processo de marginalização sem precedentes. Sem Emprego, sem escola, sem moradia, sem as condições mínimas de sobrevivência. Este legado perdura até os dias atuais, pois a grande massa da população negra no Brasil ainda busca resgatar, a Cidadania que lhe fora negada por muito tempo. As condições precárias de vida dos negros e negras no Brasil é evidenciada pela total falta de mobilidade social e o profundo racismo enraizado nas relações sociais, o mito da democracia racial perdura até os dias atuais, fortalecendo a idéia errônea de que não existe racismo no Brasil, afirmando que a situação de miséria em que vive a maioria dos negros e negras é produto da sua incapacidade intelectual, à preguiça e indolência próprios da raça, justificando, inclusive, uma representação social negativa sobre os negros e negras. Sabe-se que esse mito é o resultado das ideologias racistas pregadas pelas classes dominantes deste país que insistem em continuar oprimindo, dominando e determinado nas esferas do poder os seus posicionamento.

mascarando a opressão e a submissão para ganhar contornos de permissividade. à educação. afirmando os valores ancestrais trazidos do velho continente e os resignificados. No período da escravidão. sendo forçada a conviver em um estado de violação permanente. determinaram como essa situação afetou e afeta ainda hoje as novas gerações. quando engravidavam não lhes destinavam nenhum tratamento especial. negando-lhes a maternidade e. pois para os senhores eram muito mais lucrativas por serem detentoras de potenciais produtivos e reprodutivos. tinham que conviver durante o desenvolvimento da gravidez em condições sub humanas. transformando-a em objeto sexual dos seus senhores.E se tratando das Mulheres Negras e Afro Religiosas a situação foi muito mais agravante. sendo forçadas a trabalhar arduamente como todos os outros escravos. emprego e uma maternidade digna. incorporando-a como peça importante para a reprodução da família branca. Mas a estas mulheres negras foram reservado o papel de “amas-de-leite”. de negação dos direitos humanos fundamentais. reduzindo a dignidade de pessoa humana a valores mínimos. desenvolvimento econômico. servindo ainda para enriquecerem os seus senhores que as alugava ou as vendiam por serem eximes amas de leite. infanticídios e morte das mesmas durante o parto. E assim. primeiro por ser mulher. a mulher negra tinha mais valor para a produção do que o homem negro. além da falta de acesso a uma saúde de qualidade. no enfrentamento ao o Racismos exacerbado praticado de todos os moldes e por fim pobre e afro religiosa. Ao analisar o curso da historia vamos perceber que essas Mulheres Negras e Afro Religiosas tiveram um papel relevante na organização e luta do Movimento Negro Nacional em busca da preservação cultural. o que conseqüentemente eram as causas de aborto. além de que a gravidez e a maternidade era motivo para serem molestadas por parte dos seus “donos”. Para falar sobre a situação atual da Mulher Negra e Afro Religiosa no Brasil é imprescindível avaliar as situações que marcaram profundamente a vida dessas mulheres que foram marcadamente massacradas por um sistema autoritário e desumano. ao utilizar a mulher negra como propriedade privada. filhos dos senhores. Alguns aspectos são pertinentes e seus efeitos no campo sócio-político e econômico. tendo que suportar as ideologias machistas que impregnava todo a sociedade.social e resistência histórica destas populações. que amamentou e cuidou de milhares de crianças brancas. A escravidão também deixou marcas irreparáveis à condição feminina. eram forçadas a abandonar as suas crianças negras. segundo por ser Negra. as “mães-pretas”. .

está exposta à violência. educacionais e de saúde. pág. maniçobas.No passado. cocadas. da saúde. Os poucos estudos realizados revelam um dramático quadro que se arrasta há anos. tacacás. abarás. produzidas por um capitalismo selvagem e explorador. ainda. à pobreza. Fundaram Terreiros de religião de matriz africana. as mulheres negras representam 32. secretárias e recepcionistas. abarás. ln: Revista Teoria e Debate. político e econômico. Secretaria Nacional de Combate ao Racismo DNPP. buscando romper com a opressão e a exploração impostas por uma sociedade racista. Já no serviço doméstico. Sua dramaticidade não está só nas péssimas condições sócio-econômicas. mas também na negação cotidiana da condição de ser mulher negra. do trabalho. A mulher negra está exposta à miséria. 19. . No campo sócio-econômico os problemas são de larga extensão. A idéia discriminadora da “boa aparência” restringe a participação da mulher negra em certos setores do mercado de trabalho. a exemplo das funções de vendedoras. Maria Aparecida Silva. O resultado é o sentimento de inferioridade.2% das referidas funções. panos da costa. passando pelo campo dos direitos. onde as negras ocupam apenas 2. moquecas de peixes e mariscos. 1994. carurus. vatapás. a maior vítima da profunda desigualdade racial vigente em nossa sociedade. sandálias etc. político e social. machista e preconceituosa. feijoadas. São Paulo. à falta de atendimento nos serviços assistenciais. ao longo de nossa história. Maria Aparecida Silva Bento (1994) chama a atenção para o fato de que “há décadas as mulheres negras vêm sendo apontadas como aquelas que vivem a situação de maior precariedade na sociedade brasileira. cozinheiras e 1 BENTO. Encarte Faça a Coisa certa! O Combate ao Racismo em Movimento. Nº 31. da educação. A maioria não usufrui dos bens e serviços existentes e. demonstrando que esse segmento é isolado politicamente e as mulheres acabam por viver uma realidade absolutamente dramática1” A situação de máxima exclusão pode ser percebida quando analisamos a inserção da população feminina negra em diferentes campos – social. Na atualidade A mulher negra tem sido. "Mulheres Negras e Branquitude". atingindo profundamente as novas gerações. “Em atividades como serventes. através do racismo e do sexismo que permeiam todos os campos de sua vida.5%. se organizaram em confrarias e irmandades. de incapacidade intelectual e a quase servidão vivenciada por elas. ao analfabetismo. resultando desta situação o seu aniquilamento físico. tornaram-se empreendedoras ímpares nas vendas de acarajés. à violência. vestidos..

de regiões metropolitanas. os nossos direitos e de toda a população negra. IPEA: ffio de janeiro. Das bandeiras de luta empunhadas pelo movimento de mulheres negras. yálorixá.. O quadro de participação de crianças e adolescentes. devido ao sistema sócio-político e econômico vigente 2 Idem. Ricardo Paes de. raça e classe Atualmente milhares de negros e negras vivem na pobreza ou estão em situação de indigência. o processo de organização se efetivou e tomou novos rumos. princípios como: respeito às diferenças. 3 BARROS. a importância de sua luta. Desde 1988 até os nossos dias. Elas são as guardiãs de nossas tradições e de nossas vidas. empunhando bandeiras que expressam.lavadeiras/passadeiras. que residem em domicílios cuja renda mensal familiar per capita é de até 1/2 salário mínimo. "Determinantes da Participação de Menores na Força de Trabalho. desde os primórdios.do ser mulher – à dimensão coletiva e comunitária . entre 10 a 17 anos. Seguimos fortalecidas. Texto para discussão n' 200. 1990 . pois estão aí conjugadas individualidade e coletividade O futuro nos pertence.6%)2.do ser mãe.. organizando-nos coletivamente para afirmar a nossa identidade. Esta situação gera um outro problema: a inserção precoce de crianças e adolescentes no mercado de trabalho para o sustento da família ou complementação da renda. é o seguinte3: O Movimento de Mulheres Negras e suas organizações específicas. cumprem papel fundamental no enfrentamento das questões estruturais que oprimem e exploram o povo negro. MENDONÇA. A vida começa e termina com elas. 499. destaquei aquelas que me pareceram essenciais. a dimensão individual . Rosane Silva Pinto. Por isso. à dignidade. São elas: O enfrentamento e o fim da opressão e da exploração de gênero. pag. nov. apesar da riqueza que este movimento comporta. Pois está nas mãos das mulheres negras o futuro de nosso povo. sobretudo. buscando o direito de escrever a nossa própria história. o percentual para negras é o dobro em relação às brancas (16% contra 7. ao direito à vida. Conjugando aí.

as mulheres negras estão mobilizadas para a conquista do seu corpo. ao respeito. em 1988. da vida dos homens negros jovens e adultos. dos péssimos serviços de saúde. Rio de Janeiro. buscando dar visibilidade a sua condição e a sua afirmação com ser humano. nos falta liberdade. Por isso. Ainda no bojo desta questão. diferentes grupos vêm se inserindo através dos fóruns para a organização das mulheres. a partir de lutas para a melhoria das condições de vida e pela dignidade do povo negro. dos adolescentes e dos homens negros. Hoje. já temos saldo positivo no combate à esterilização em massa e na realização de outras aspirações. mas ainda é pouco. principalmente. Como estratégia. Tendo como marco de luta o I Encontro Nacional de Mulheres Negras realizado em Valença. à individualidade e sobretudo o direito de sermos o que somos: mulheres negras. onde demos o primeiro passo para a construção de uma organização consistente e eficaz. dignidade e respeito. principalmente aqueles voltados para a saúde reprodutiva e sobretudo. o sexismo e a opressão de classe formam o tripé que sustenta este sistema excludente e explorador. Visibilidade da mulher negra e realização dos seus direitos À mulher. o direito ao nosso corpo. que nos têm sido negados através da esterilização em massa das mulheres negras. Desde aquela data. Outro passo fundamental para romper com a opressão e a exploração é tirar do anonimato e do silêncio milhares de mulheres. Além disso. Mobilizaçào e fortalecimento das organziações de mulheres negras Desde a década de 70. . o extermínio das crianças. as mulheres negras têm buscado enfrentar conjuntamente estes elementos. faz-se necessário destacar os direitos à vida e ao corpo. duplamente explorada e oprimida. O racismo. são as vítimas preferenciais de uma política de extermínio que tem dado cabo. O Encontro foi um marco decisivo para a visibilidade da mulher negra e para o impulsionamento das reflexões e ações para o combate ao racismo e ao sexismo. cabe-nos evidenciar a nossa situação apontando as nossas necessidades e lutando para a realização dos nossos direitos. Direitos estes que nos têm sido negados desde quando o primeiro navio negreiro aportou no Brasil. e também fazendo valer os seus direitos.no país. dos seus direitos e dos direitos de sua comunidade. continuaremos lutando pela efetivação de nossa cidadania. agora definida em lei. à nossa dignidade.

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COPPE/UFRJ. aluna do Curso do Mestrado de Engenharia de Produção . formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1984.A AUTORA Lúcia Maria Xavier de Castro é Assistente Social. .

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