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UNIDADE 2

ELEMENTOS DO CONTEXTO
HISTÓRICO-FILOSÓFICO
EDUCACIONAL MODERNO E
CONTEMPORÂNEO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade você será capaz de:

• reconhecer o contexto histórico e filosófico no qual os principais pensa-


dores da época renascentista e do Iluminismo formularam e defenderam
suas ideias e teorias;

• identificar o impacto de instituições como as corporações de ofício, univer-


sidades, o movimento da reforma religiosa, a formação do Estado laico e a
Revolução Industrial ao contexto educacional;

• relacionar as principais concepções teórico-filosóficas e metodológicas que


passaram a ser defendidas e legitimadas em meio à comunidade científica,
nas instituições políticas e educacionais da época moderna;

• abordar as principais escolas e pensadores da educação do século XX, bem


como o contexto político, econômico e sociocultural que propiciaram as
condições para que as mesmas se desenvolvem.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. Em cada um deles são feitas su-
gestões de filmes, sites, leituras para que você enriqueça seus conhecimentos,
aprofunde e contextualize de forma mais completa e ampla seus estudos.

TÓPICO 1 – DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECI-


MENTO DO HUMANISMO MODERNO

TÓPICO 2 – A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCI-


DENTE CONTEMPORÂNEO

TÓPICO 3 – OS DESAFIOS EDUCACIONAIS NO CONTEXTO DA PÓS-


MODERNIDADE

Assista ao vídeo
desta unidade.
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UNIDADE 2
TÓPICO 1

O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO


E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO
MODERNO

1 INTRODUÇÃO

Caro acadêmico! Os fundamentos do processo educativo no contexto


histórico e filosófico que transcorreram entre o Renascimento e o Iluminismo
podem ser compreendidos cronologicamente como baixa Idade Média, que
transcorreu entre os anos finais do século XV e que se estendeu até os últimos anos
do século XVIII.

Algumas alterações e invenções ocorridas nos últimos 400 anos foram


responsáveis por uma nova forma dos seres humanos viverem. Antes do século XV,
vivíamos num mundo encravado, isto é, não havia trocas humanas e comerciais
perenes entre os diversos continentes. Porém, no século XV, as viagens de Cristóvão
Colombo, encontrando em sua rota o continente americano, e Vasco da Gama,
achando um novo caminho marítimo para alcançar as Índias, são os reflexos de um
mundo que se transformou, iniciando um processo de ocidentalização do mundo
(CHAUNU, 1978).

Em outras palavras, a partir do século XVI, os países da Europa Ocidental


começaram a impor as suas formas de organização social para os demais povos
da Terra, em um sistema de exploração colonial. Porém, outras transformações
ocorreram também nos campos político, religioso, artístico e cultural. No campo
político, tivemos o fim do Império Bizantino com a queda de Constantinopla
em 1453, tomada pelos turcos otomanos, o que significou um avanço da religião
islâmica nas fronteiras da Europa Ocidental.

No campo religioso, a Reforma Protestante, simbolizada pelos líderes


Martinho Lutero e João Calvino, rompeu com a autoridade do papa em todos
os países europeus, autoridade mantida apenas nos países da Europa no qual
a Reforma não prosperou, como nas penínsulas ibérica e itálica. No tocante aos
aspectos artísticos e culturais, o maior símbolo destes novos tempos no mundo
ocidental foi o Renascimento artístico e cultural, que teve como principal local a
Itália dos Bórgia e dos Médici, as principais famílias que patrocinavam as artes, o
denominado mecenato artístico.

A partir do movimento do Iluminismo, somado às transformações que


ocorreram a partir do século XVIII, ou da chamada Idade Moderna, caracterizada
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especialmente pelos eventos da Revolução Francesa e a Independência dos Estados


Unidos da América e a Revolução Industrial, eis que se instaura uma nova forma
de pensar a vida em comunidade e de produzir o saber. Agora a composição do
Estado é laica, ou seja, ausente de integrantes do clero. A produção do conhecimento
deixou de ser tutelada e financiada pela Igreja, posição que vai ser ocupada pelos
grupos econômicos da burguesia, que vai favorecer que os estudos de cunho
científico e não mais sobre os dogmas religiosos e as questões teológicas.

Segundo Ghiraldelli Jr. (1999), a filosofia da educação moderna consistiu em


uma aliança entre a filosofia do sujeito e a educação humanista, cuja preocupação
residiu em que o processo educativo garantisse a formação do sujeito racional,
autônomo e consciente, o que, por sua vez, foi forjado por meio de uma educação
monológica, verticalizada e autoritária, que valorizava métodos e concepções
teóricas frente à experiência e prática cotidiana.

Ao longo de mais de quase três séculos ocorreram muitas transformações


do ponto de vista político, econômico, social e cultural, assim como no que diz
respeito à mentalidade e ao imaginário, dos modos de viver, de morrer, de
transformar e elaborar as matérias-primas, o transportar, negociar e consumir os
produtos, de explicar os fenômenos da natureza e as questões da origem, sentido
e da finitude humana.

No campo das ideias pode-se relacionar a invenção da imprensa e as práticas


de leitura: Trovadorismo, Renascença, Reforma, Contrarreforma, a superação
dos regimes de monarquia (antigo regime) pelos de repúblicas democráticas,
os primeiros processos de independência de colônias de metrópoles (E.U.A), a
Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos Humanos, a laicização do Estado, a
secularização da sociedade (enfraquecimento das explicações sagradas/religiosas),
fortalecimento das ideias racionais, o princípio da dúvida, as investigações, os
métodos científicos, a abordagem dialética, as concepções de tese, antítese e síntese.

No contexto filosófico registrou-se o recuo do pensamento escolástico e o


avanço de um pensamento menos especulativo e contemplativo. A partir da época
moderna, o campo filosófico dedicou-se às questões práticas e almejava aplicação
em meio à sociedade daquele tempo, o que fez com que a teologia e a filosofia
tradicional passassem a considerar outras áreas do conhecimento, tais como as
ciências exatas e naturais. A partir da época moderna, os experimentos científicos, o
uso de métodos, os processos de observação, a formulação de hipóteses e registros
de deduções se fizeram cada vez mais presentes na produção do conhecimento, ou
seja, prevaleceu a visão científica e mecanicista do mundo.

Caro acadêmico! Ao longo desta unidade de estudos ilustraremos


e teceremos maiores definições e exemplificações sobre este quadro que foi
brevemente apresentado. Prossiga na leitura com atenção e concentração.

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2 O IMPACTO DAS GRANDES NAVEGAÇÕES E DA PRENSA


DE GUTTENBERG NO CENÁRIO EDUCACIONAL, POLÍTICO E
SOCIAL
Nas áreas técnicas e científicas ocorreram mudanças significativas, como no
campo da navegação, o processo de manufatura e industrialização da produção, a
substituição do trabalho servil pelo trabalho assalariado, a troca natural e escambo
pelo comércio financeiro, a gradual migração para as cidades da população que
residia no campo.

Por outro lado, pertencem ao mesmo período as práticas de colonização


por parte das nações europeias em regiões como a América, regiões ainda mais no
interior da África e Ásia, que, por sua vez, forneceriam matérias-primas e artigos de
luxo. Um dos processos de transformação do mundo ocidental durante a ruptura
da Idade Média para a Idade Moderna foi o perene desenvolvimento de contatos
entre os europeus e os povos americanos, africanos e asiáticos. Uma das razões
apontadas seria a existência, no sul de Portugal, de uma escola de navegadores, a
afamada “Escola de Sagres”.

É atribuída ao infante português D. Henrique (1394-1460) a idealização da


escola. Não se tratava de uma escola formal, foi uma escola que levava o lema
de “O talento de bem-fazer”. No estaleiro de Lagos, região de Algarve, se dava
a construção de embarcações. Toda vez que uma expedição era feita, relatórios
e registros deveriam ser redigidos a fim de servir de referência a melhorias e
ampliações ao que já existia em Sagres.

Chaunu (1978) apresenta que ocorreu forte especulação sobre a existência


da Escola propriamente dita e cogitava-se que tal escola não tenha existido, pois
acredita-se que as navegações foram possíveis pelo desenvolvimento empírico
(experimental) dos navegadores. A ideia de escola, porém, pode ser compreendida
de um modo amplo, isto é, um modo próprio dos portugueses em navegar pelos
oceanos.

As navegações ibéricas constituíram uma ação social que envolvia


aprendizado constante entre aprendizes-marinheiros e mestres de navegação.
Em geral, este aprendizado, na época, não era feito em uma escola de aprendizes-
marinheiros, mas sim no cotidiano de bordo em alto-mar. Além destes personagens,
podemos destacar os cosmógrafos, autores dos mapas que representavam as
descobertas marítimas.

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DICAS

1492 - A Conquista do Paraíso. Ridley Scott, França/Espanha,1992.


Filme que retrata a era das grandes navegações, a corrida marítima entre Portugal e Espanha,
os investimentos das cortes daqueles países na descoberta, conquista e exploração de novas
terras. A produção ilustra, em especial, a trajetória de Cristóvão Colombo, o contato com as
populações no novo mundo e os choques e encontros culturais.

Johannes Guttenberg, por volta dos anos de 1450, foi responsável pela
invenção da imprensa, que superou os problemas que haviam até então para com
as atividades de registro e comunicação de informações, documentos e demais
conhecimentos. Gumbrecht (1998) explica que a invenção da prensa possibilitou a
produção e a reprodução de livros em maior quantidade, em menor tempo, além
de descentralizar esta tarefa que antes somente era feita por copistas, domínios
que se resignavam no interior de mosteiros e igrejas.

Outras consequências podem ser deduzidas ainda, como a confecção das


bíblias que foram utilizadas na difusão da Reforma Protestante, agora traduzidas
e impressas fora dos domínios católicos. Por outro lado, logo a prensa foi utilizada
na emissão de notas bancárias, cédulas, cartas de crédito, normas, leis, salvo-
condutos, entre outros.

A prensa de Guttenberg a que a história atribui o mérito principal, não só


pela ideia dos tipos móveis, “a tipografia”, mas também pelo seu aperfeiçoamento,
já era conhecida e utilizada para cunhar moedas, espremer uvas, fazer impressões
em tecido e acetinar o papel. Pode ter sido na Casa da Moeda do arcebispo de
Mogúncia, onde tanto o pai como o tio eram funcionários, que Gutenberg aprendeu
a arte da precisão em trabalhos de metal.

Nos primeiros documentos impressos e produzidos contam-se várias


edições do “Donato” e bulas de indulgências concedidas pelo Papa Nicolau V. No
início da década de 1450, Guttenberg iniciou a impressão da célebre Bíblia de 42
linhas (em duas colunas), publicada cinco anos mais tarde. Das cerca de 300 cópias
da Bíblia então produzidas, ainda existem cerca de 40.

Com a ocorrência de guerras, a imprensa se difundiu amplamente. O


primeiro livro impresso por Guttenberg foi uma Bíblia em latim, em uma versão
impressa da Vulgata de São Jerônimo, tradutor da Bíblia Católica ainda no século
IV. Porém, não foram apenas livros religiosos que passaram a ser publicados.
As possibilidades de se reproduzir diversos compêndios sobre as mais variadas
questões, nos campos do Direito, da Teologia e da Medicina, eram incalculáveis.
Outra questão importante que significou uma profunda alteração no modo do
homem ocidental lidar com o conhecimento era relacionada à forma de se instruir.

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A forma de as autoridades civis e eclesiásticas lidarem com os livros


também foi sendo alterada. Isto porque a difusão de conhecimento proporcionada
através dos livros poderia abalar os pilares ideológicos da sociedade ocidental.
Instrumentos organizacionais de censura foram desenvolvidos nas diversas
monarquias. Este órgão em Portugal tivera o nome de Mesa de Consciência e
Ordens, e visava impedir a publicação ou circulação de livros subversivos à ordem
pública tanto no reino quanto nas colônias. O Vaticano criou uma relação de livros
que os fiéis não deveriam ler. O Índex papal era um dos símbolos máximos de
intolerância do catolicismo em relação à liberdade de pensamento e fé. Liberdade
esta que também não era presente nos países protestantes.

A resposta da Igreja Católica diante do movimento de impressão de livros


e compêndios fora de seu controle foi lançar mão de algumas estratégias de
censura que visavam impedir a publicação e a circulação de livros considerados
subversivos aos dogmas religiosos e à ordem pública. Uma das formas de controle
foi a publicação do Index Librorum Prohibitorum (Índice de Livros Proibidos),
mais conhecido como Index, lista expedida pelo Vaticano, pelo papa Paulo IV, no
ano de 1559, em que constavam os livros considerados proibidos.

A lista foi modificada ao longo do tempo, mas já estiveram inscritas


nela obras de pensadores e cientistas como Galileu Galilei, Nicolau Copérnico,
Giordano Bruno, Nicolau Maquiavel, Erasmo de Roterdã, Baruch de Espinosa, John
Locke, Denis Diderot, Blaise Pascal, Thomas Hobbes, René Descartes, Rousseau,
Montesquieu, entre outros escritores e romancistas.

UNI

CURIOSIDADE: INDEX
O Index deixou de existir no ano de 1966, com o Papa João Paulo VI, mas até hoje é prática
do Vaticano publicar uma notificação quando determinado livro fere os principais dogmas
da instituição. Dentre as obras que recentemente foram notificadas pelo Vaticano tem-se os
livros dos escritores Dan Brown e J. K. Rowling.

A título de síntese, cabe ressaltar que um dos principais benefícios que a


imprensa trouxe foi a maior circulação de conhecimento através dos livros. Com
isto, se processou, no Ocidente, uma alteração nas práticas de leitura. Pois, com os
antigos pergaminhos, as leituras em geral eram feitas em voz alta, sendo o ato de
ler uma ação comunitária. Com a imprensa, a ideia de uma leitura individualista
ganhou corpo. Pois, em grande parte, o livro passou a ser lido de forma silenciosa.

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3 ELEMENTOS DO CONTEXTO FILOSÓFICO E CIENTÍFICO


DA RENASCENÇA

A Renascença corresponde ao momento histórico, intelectual e artístico que


se desenrolou entre as épocas medieval e moderna. Alguns estudiosos estabelecem
em termos cronológicos o período transcorrido entre os anos de 1300 e 1650. Como
o nome já sugere, tratou-se do renascimento dos antigos valores e modelos de
civilização que foram hegemônicos no passado, no passado da Grécia e Roma
clássica. O retorno aos padrões da antiguidade clássica significa a invocação e
valorização dos ideais do humanismo (Homem) e da natureza, em detrimento das
concepções dogmáticas do teocentrismo, do divino e sobrenatural.

Corvisier (1976) explica que o teocentrismo almejava justificar pela vertente


religiosa e divina as atividades e pesquisas científicas e eruditas ao longo da Idade
Média. A nomenclatura de teocentrismo comporta a nominação de Theo, que
significa Deus (Theo – em latim) era o centro de todas as preocupações intelectuais.
A partir do renascimento, entre os séculos XIV-XVII, os intelectuais passaram a se
preocupar com o entendimento cada vez mais natural do homem, como um ser,
uma espécie da natureza.

Foi neste período que as escolas filosóficas cada vez mais estabelecem
suas teses e demarcam suas fronteiras, passando a exercer hegemonia em relação
às demais vertentes do pensamento; em especial, o tomismo e a escolástica
passam a ser criticados. No interior do pensamento religioso católico ocorria
o enfraquecimento do domínio papal, e, se não bastasse, no seio da própria
Igreja ocorriam divergências, como foi o caso dos impasses entre franciscanos e
dominicanos.

Aquino (2013) aponta que na baixa Idade Média a filosofa aristotélica já


se difundia em meio à Inglaterra, sendo que Roger Bacon (1214-1294) foi um dos
primeiros a manifestar simpatia. Bacon defendia que teologia e conhecimento
científico deveriam ser vistos como indissociáveis, e que, por sua vez, se fazia
necessário demonstrar interesse sistemático, total e absoluto, observação direta
da realidade, acompanhada de raciocínios, o que posteriormente possibilitou a
formulação de métodos experimentais.

Fatores históricos podem ser elencados como favorecedores deste cenário


de mudanças no campo filosófico, tais como os impasses entre França e Inglaterra
que foram levados a cabo por meio da Guerra dos Cem Anos, epidemias como a
da peste bubônica e uma série de transformações políticas e econômicas, entre elas
o renascimento comercial.

Os “homens do Renascimento” reuniam interesses e preocupações para


com muitas áreas do conhecimento, tais como engenharias, astronomia, física,
anatomia, artes, filosofia e política, ou seja, um indivíduo que percebia a natureza e
a realidade e a procurava compreender e explicar pelo viés da interdisciplinaridade,
por meio da associação de conhecimentos das mais diferentes áreas, a título de

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exemplo é possível citar o italiano Leonardo da Vinci, que atuou e deixou projetos
na pintura, escultura, arquitetura, na engenharia, recursos de guerra, entre outros.

Uma das condições para que o Renascimento ocorresse foi o fato da prática
do mecenato. No caso italiano, o mecenato foi empreendido especialmente pela
Igreja católica. A Igreja Católica Apostólica Romana foi responsável por patrocinar
os artistas tais como Rafael, Leonardo da Vinci, Michelangelo, que produziram
obras para a decoração e preenchimento dos espaços no interior das Igrejas,
capelas, mosteiros e conventos em diversas cidades da Itália. Quando a hegemonia
dos dogmas católicos foi contestada, os patrocinadores das artes foram a nobreza
e a burguesia.

Burg, Fronza e Silva (2013) explicam que entre os séculos XV e XVI surgiu
uma nova espiritualidade e relação para com as coisas visíveis e não visíveis, os
fenômenos da natureza e do espírito. Um dos estudiosos que se destacou nesta
perspectiva do conhecimento e da ciência foi Giordano Bruno, que por meio do uso
de um microscópio, conseguiu propor que o planeta terra possuía forma redonda.
Porém, foi vítima da perseguição dos sensores da Igreja Católica, pois as teorias de
Giordano Bruno, contestavam os dogmas católicos, e estes o julgaram no tribunal
da Santa Inquisição e condenaram à morte na fogueira.

Nicolau Maquiavel foi outro grande nome do Renascimento italiano, foi


responsável por escrever a obra O príncipe, que discorre sobre as maneiras mais
adequadas pela qual um príncipe deve conduzir, administrar e manter o poder.
Trata-se de uma obra que ultrapassou a época renascentista e seguiu ao longo da
época moderna e contemporânea como um dos principais documentos acerta da
política e governabilidade de estados laicos.

Entre as principais teses contidas na obra de Maquiavel encontra-se a de


que um príncipe e/ou um governante devem estar atentos aos adversários, aos
companheiros e aliados, pois estes sem distinção, possuem ambições pelo poder e
facilmente podem conspirar contra o príncipe; uma guerra jamais deve ser adiada
e que em nome dos fins, dos benefícios que são oferecidos, os meios não serão
questionados, pois todos compreendem e perdoam os custos que possam ter
exigido.

Aranha (1996) destaca também o francês Michel de Montaigne, que viveu


ao longo do século XVI. Também é reconhecido como um dos grandes nomes do
Renascimento. Em suas obras foi responsável por refletir sobre a natureza humana
e deixou três escritos sobre os temas educacionais que são: da afeição dos pais
pelos filhos, da pedantia e da educação das crianças. A autora relaciona também os
escritos de Erasmo de Roterdã, que foi responsável por escrever Elogio da loucura
e Manual do soldado cristão, obras em que exercitava seu pensamento crítico
com relação à sociedade feudal. Fez críticas ferrenhas ao clero e às hierarquias no
interior da Igreja, e advogava a favor dos valores humanistas, e na compreensão
do homem não meramente como um pecador, mas como um ser em processo de
conscientização e capaz de melhoramentos.

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Curto (1993) explica que os estudos e escritos de Erasmo ganharam


amplos alcances e adeptos. Martinho Lutero foi um dos leitores de Erasmo de
Roterdã, mesmo tendo rompido com seu pensamento anos depois. Em Portugal,
o pensamento de Roterdã se fez presente por meio de alguns intelectuais no
Colégio das Artes em Coimbra, que sem demora foram descobertos e rapidamente
foram censurados e expulsos do local. A substituição dos sacerdotes erasmistas
foi procedida com sacerdotes oriundos da ordem jesuítica recém-criadas a fim de
difundir os ideais religiosos católicos.

Outro estudioso renascentista, amigo de Erasmo de Roterdã, foi Thomas


Morus, intelectual inglês responsável por redigir a obra A utopia, na qual descrevia
uma sociedade imaginária desprovida de desigualdades sociais. A partir de a
A utopia foi possível designar como ‘utópicas’ ideologias, crenças, sociedades,
correntes de pensamento que almejavam alcançar estágios de sociedade e posturas
do ser humano diferentes dos registros históricos de guerra e das experiências
de injustiça, ignorância, opressão e dominação. No caso específico da educação
é possível reconhecer como utópicas as propostas educacionais que foram feitas
pelos pensadores do século XVI, em que estava presente as concepções de virtude,
bondade, justiça, equidade, liberdade, tolerância, amor e ética.

3.1 AS UNIVERSIDADES, AS CORPORAÇÕES DE OFÍCIO, AS


GRAMÁTICAS E O DECLÍNIO DO LATIM

As universidades e as corporações de ofício revelam quanto o processo


educativo medieval era estanque. Existia uma forte divisão entre o trabalho
braçal e o trabalho mental, assim como uma forte divisão entre as classes sociais.
Com as preceptorias ou nas antigas corporações de ofício, a relação de ensino-
aprendizagem era autoritária, pois de um lado tínhamos um personagem detentor
do saber – o mestre – e de outro lado um receptor de instruções – o aprendiz. O
exemplo cotidiano do mestre era a principal forma de o aprendiz poder aprender o
seu ofício. Porém, com a imprensa, a relação de saber começou a ser alterada, pois
os livros poderiam auxiliar os professores na tarefa educacional.

Teixeira (1977) explica que as corporações eram destinadas ao trabalho


manual. As universidades, ao trabalho intelectual. Porém, estas duas instituições,
separadas, se uniram em uma nova forma de pensar a universidade e a produção
de conhecimento. Este processo de união entre o saber mecânico e o conhecimento
acadêmico ocorreu no movimento intelectual conhecido como Renascimento.

Na Renascença ocorreu o declínio do latim e o fortalecimento das línguas


nacionais nas universidades e instituições governamentais dos países nascentes.
Em grande parte, os países surgem do declínio da frágil unidade representada pelo
Sacro Império Romano Germânico. Porém, as diversas regiões dos distintos países
falavam diferentes dialetos. Por isso, o fato de se ter um único idioma nacional foi
também uma disputa política entre as províncias.

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TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

Burg, Fronza e Silva (2013) explicam que no final do século XV e meados do


século XVI foram redigidas gramáticas significativas na Península Ibérica, como
por exemplo a Gramática da Língua Castelhana, escrita por espanhol Antônio
Nebrija, em 1492, e a Gramática da Língua Portuguesa escrita por Fernando
Oliveira em 1536. A publicação e a difusão das gramáticas nacionais foram
responsáveis pela retomada do ensino nas línguas nacionais, e por outro lado pelo
desprestígio e detrimento do latim. Nos países protestantes, o declínio do latim foi
também agravado pelas questões teológicas e dogmáticas. Como já explicamos,
as alterações e influências religiosas no ensino ocorridas nos séculos XVI e XVII
ocorreram devido às transformações nas diretrizes religiosas oriundas da Reforma
Protestante.

O latim foi a língua oficial do papado e de toda a ritualística católica


enquanto a Igreja católica era hegemônica no campo das ideologias religiosas. O
latim foi utilizado em cerimônias religiosas até o século XX, especialmente nos
países católicos. No chamado Antigo Regime, era comum o chamado direito
divino dos reis. Portanto, nos campos do direito e da administração, o latim se
tornara um idioma ainda muito solicitado, especialmente com uso de conceitos e
termos jurídicos e administrativos.

DICAS

TERMOS LATINOS
Modus operandi: modo de operar, modo de proceder
Sine qua non: condição sem a qual, indispensável, essencial
Curriculum vitae: carreira de vida
In loco: no próprio local
In natura: de acordo com a natureza
Status quo: situação das coisas, estado atual
Tabula rasa: falta de experiência.

Como pudemos estudar, o conceito de Renascimento remete à ideia de


retomada dos valores greco-romanos da época clássica, porém agora, no que
diz respeito às línguas em que os conhecimentos eram ministrados, ocorreu a
substituição do latim e do grego, tidas como línguas universais até então, pelas
línguas dos países europeus emergentes da Idade Média, como o francês, o alemão,
o inglês, entre outras. Assim, pode-se interpretar que ocorria todo um movimento
político de valorização das línguas nacionais e que desabilitava a ideia de uma
única língua que tendia ao internacionalismo como idioma e língua oficial.

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UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

PARA REFLETIR:
Caro acadêmico! Nos tempos atuais, em meio à sociedade globalizada,
observa-se o enfraquecimento das línguas nacionais e/ou regionais e, em
contrapartida, o fortalecimento do idioma inglês como ferramenta de inclusão
e acesso dos indivíduos à internacionalização; porém, em outras sociedades e
épocas históricas o panorama se apresentava de forma diferente, outras línguas
foram hegemônicas. No caso do latim, pode-se dizer que ele permanece presente
no campo da teologia católica e do direito, que muito se utilizam ainda de
expressões deste idioma.

3.2 IMPLICAÇÕES DA REFORMA PROTESTANTE E


DA CONTRARREFORMA NO CAMPO RELIGIOSO E
EDUCACIONAL
A Reforma Protestante foi um movimento religioso que ocorreu na Europa
do século XVI. Para melhor compreendermos este evento ligado às questões da
fé, devemos compreender o contexto social que possibilitou a alteração das ideias
dos indivíduos em relação às suas crenças. As principais questões conjunturais
ocorreram décadas anteriores. Trata-se da invenção da imprensa por Johannes
Gutemberg, que permitiu uma maior circulação de livros, da queda do denominado
Império Bizantino, conquistados pelos turcos otomanos, a conquista de Granada
pela Espanha e a Descoberta da América, o que possibilitou aos europeus uma
nova consciência em relação a sua presença no mundo.

Como já apresentamos anteriormente, a imprensa foi inventada por


Johannes Guttenberg, que desenvolveu uma máquina tipográfica que republicava
diversas folhas impressas, não sendo assim mais necessárias as ações dos copistas
medievais, que reproduziam os escritos com a sua caligrafia pessoal. Em um
universo de mentalidade fortemente cristã é simbólico que o primeiro livro
publicado por Guttenberg tenha sido justamente a bíblia. A impressão possibilitou
uma maior e mais ágil circulação de informações na Europa da segunda metade
do século XV.

Assim, as formas pelas quais os europeus passaram a compreender o mundo


estavam se alterando de forma rápida. Esta alteração das sensibilidades, porém,
não foi acompanhada por uma profunda alteração na teologia da cristandade
latina. No ocidente, grande parte do ensino ministrado pela Igreja continuava o
mesmo que em séculos anteriores. Com isto, novas formas de teologia e filosofia,
para além da escolástica e do nominalismo foram criadas ao longo dos séculos XVI
e XVII.

O evento principal a desencadear a Reforma foi a publicação, pelo monge


agostiniano Martinho Lutero, de 95 teses, na qual ele criticou alguns postulados
católicos romanos, em especial a venda de indulgências. O contexto para tal crítica

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TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

se relaciona à visita de um representante papal aos territórios de língua alemã,


Tetzel, que vendia o perdão dos pecados, a indulgência. Neste debate sobre a
salvação das almas, se desencadeou um processo de profunda alteração da vida
social, política e econômica de todo o mundo.

Em relação à Reforma Protestante, temos alguns vetores explicativos. O


mais popular, do lado católico, afirma ter sido a Reforma uma revolta cometida
por um padre que desejava fugir do voto de celibato, causando grande desonra
ao ocidente cristão. Por sua vez, explicações de senso comum, do lado protestante,
afirma ter sido a Reforma uma ação comandada por um servo de Deus, Martinho
Lutero, contra a corrupção e luxúria da igreja católica, cujo principal símbolo de
degradação seria o Vaticano e sua vida suntuosa. Tais explicações de senso comum
nos impedem de compreender as motivações da Reforma Protestante assim como
da Reforma Católica ou Contrarreforma.

Um segundo vetor explicativo indica a Reforma como um processo que é


explicado apenas pelo viés econômico e político da formação e fortalecimento de
Estados Nacionais ao longo do século XVI. Tal vetor explicativo é frágil, pois os
principais países envolvidos na Reforma e Contrarreforma, a Itália e a Alemanha,
tiveram sua unidade política apenas quatro séculos após o movimento reformador.
Portanto, a melhor compreensão da Reforma, segundo alguns especialistas
católicos, como Jean Delumeau (DELUMEAU; 1989), ou protestantes, como
Timothy George (GEORGE 1993), é compreendermos a teologia proposta pelos
reformadores e suas consequências políticas, sociais e econômicas.

Quatro foram os principais reformadores. Martinho Lutero, João Calvino,


Ulrico Zwinglio e Meno Simons. Duas foram as principais formas de relação
com o Estado: a reforma Radical e a Reforma Magisterial. E quatro as famílias de
igrejas que surgiram do movimento reformador: luteranos, anglicanos, calvinistas
e batistas.

FIGURA 17 - MARTINHO LUTERO FIGURA 18 - JOÃO CALVINO

FONTE: Disponível em: <www.luteranos. FONTE: Disponível em: <www.brasilescola.


com.br>. Acesso em: 13 fev. 2017. com.br>. Acesso em: 13 fev. 2017.

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UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

FIGURA 19 - ÚLRICO ZWINGLIO FIGURA 20 - MENO SIMONS

FONTE: Disponível em: <www.wikipedia. FONTE: Disponível em: <http://


com.br>. quotesgram.com/menno-simons>.
Acesso em: 13 fev. 2017.

Começando nossa narrativa pelos reformadores, Martinho Lutero foi


o principal líder a iniciar o movimento. Sua principal proposição teológica está
exposta no pequeno livro Da Liberdade Cristã (LUTERO, 2001). Nele, apontou
as principais proposições teológicas seguidas pelas principais correntes do
protestantismo. Infalibilidade da bíblia, sacerdócio de todos os crentes, justificação
pela fé e salvação pela graça. Isto é, a bíblia, e não a tradição da igreja, deve ser o
guia de fé dos fiéis, deste modo, todo o cristão é capaz de compreender a bíblia, e
não somente os sacerdotes.

A salvação é uma graça imerecida concedida por Deus, sendo impossível


o homem chegar próximo a Deus se não tiver fé. Estes postulados teológicos são,
até o presente, as principais características das doutrinas das igrejas protestantes
ao redor do globo. Também todo o aspecto exterior da fé foi abolido, como as
rezas decoradas, a intercessão pelos santos, a realização de jejuns periódicos e
peregrinações a lugares santos, que não são presentes no protestantismo.

João Calvino foi um reformador que atuou na França e na Suíça, mais


especificamente na cidade de Genebra, da qual foi um dos principais líderes
ao longo de sua vida. Calvino escreveu uma das principais obras da teologia
protestante do século XVI, As Institutas da Religião Cristã.

Sua principal formulação foi a denominada teologia da predestinação.


Por ela Calvino afirmou que alguns cristãos foram escolhidos por Deus para a
salvação, devido a Deus tudo conhecer. Deste modo, a graça irresistível de Deus
seria a principal diferença entre os escolhidos e os rejeitados pela cólera divina. Em
oposição à teologia de Calvino, no século XVII, surgiu o teólogo Jacob Armínio,
para quem a predestinação não ocorreria do modo explicado por Calvino, pois

78
TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

Deus dotou o homem de livre-arbítrio. O debate entre calvinistas e arminianos se


estende através dos séculos.

Ulrico Zwinglio e Meno Simons são dois grandes nomes na formulação da


teologia protestante, porém, não tiveram o mesmo destaque que Lutero e Calvino.
Zwinglio era suíço e foi contemporâneo de Lutero. Suas teologias eram próximas,
porém discordaram no que tange à Ceia do Senhor, sendo a presença real de Cristo
no pão e vinho da celebração litúrgica o ponto crucial do debate.

Meno Simons era holandês e esteve vinculado ao movimento anabatista.


Para os anabatistas, a principal discordância com Lutero e Calvino era em relação
ao batismo de crianças, fato pelo qual os menonitas e demais grupos anabatistas
discordavam, afirmando que apenas adultos poderiam ser batizados. Porém, a
principal diferença entre os anabatistas e os demais reformadores estava vinculado
à relação com o Estado.

A relação igreja Estado é fundamental para uma aprofundada compreensão


da Reforma, pois o termo protestante foi cunhado na Dieta de Espira, em 1529, na
qual os príncipes alemães protestaram à perseguição de Lutero. Assim, a relação
igreja e Estado é importante para a compreensão da Reforma, que foi dividida em
dois grandes grupos pelo erudito George Willians: reforma magisterial e reforma
radical. Pela reforma magisterial se compreendem os reformadores que tinham
apoio dos magistrados. Isto é, dos juízes e em grande parte dos príncipes. Neste
grupo estão Lutero e Calvino.

Para a reforma radical, cujo grupo mais simbólico foram os dos anabatistas,
tivemos uma oposição radical ao Estado, sendo o grupo de reformadores radicais,
liderados por Tomaz Munzer, responsável por ações violentas nos principados
alemães, buscando efetivar o fim dos privilégios feudais. O movimento anabatista
teve dura perseguição dos príncipes, que apoiados por Lutero, dizimaram a espada
os radicais anabatistas. Mesmo Meno Simons, que vivia nos Países Baixos e era
pacifista, sofreu forte perseguição.

Além destes grupos, outro importante polo da Reforma Protestante foi a


Grã-Bretanha. Nela tivemos o anglicanismo, o presbiterianismo, o metodismo e o
denominado puritanismo. A fundação da Igreja Anglicana está ligada ao fato do
rei inglês Henrique VIII desejar o divórcio de Catarina de Aragão, não autorizado
pelo papado. Em grande parte, a Igreja Anglicana manteve os rituais próximos da
igreja católica, com o diferencial dos padres contraírem matrimônio.

Na Escócia, um líder religioso, John Nnox, coordenou a fundação da Igreja


Presbiteriana, profundamente inspirada nos escritos de João Calvino. Entre os
povos de língua inglesa se destacou um grupo especial, os puritanos, que devido
à perseguição religiosa imigraram para os Estados Unidos da América. No século
XVIII, no interior do anglicanismo, surgiu um grupo reformador liderado pelos
irmãos John e Charles Wesley, que foram os inspiradores da igreja Metodista.
Também da Inglaterra, um grupo de refugiados ingleses partiu para a Holanda
em 1608, fundando a Igreja Batista.
79
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

O movimento de reforma cristã teve um profundo impacto na história e na


filosofia da educação. Isto porque a teologia da infalibilidade bíblica e do sacerdócio
universal, além da ampla divulgação das sagradas escrituras gerou um impulso por
alfabetização nos países europeus que aderiram à Reforma. Deste modo, Lutero
afirmou ser dever do príncipe garantir a educação de todos os cidadãos. Com isto,
a alfabetização das massas ganhou um grande impulso. Outro impulso ocorreu
em relação ao ensino universitário, em especial nos países de língua inglesa. Pois,
parte das principais universidades dos Estados Unidos da América, como o caso
da prestigiada Universidade Harvard, surgiu como centro de estudos na área de
teologia. Deste modo, os países de maioria protestante tiveram um maior capital
cultural na disputa com os países que não passaram pelo movimento reformador.

Contudo, a afirmação acima não implica afirmar que os povos de


maioria católica não se preocuparam com as questões educacionais. Todavia, as
preocupações eram teologicamente motivadas em um sentido oposto. Para melhor
compreender a relação dos católicos com a educação, se faz necessário compreender
o catolicismo que foi formulado no Concílio de Trento.

A Igreja Católica Romana respondeu teologicamente às proposições dos


reformadores. Em relação à proposição da infalibilidade da bíblia, os teólogos
católicos apontaram que as escrituras deveriam ser interpretadas pelo magistério
da igreja. Assim, não havia sentido em se traduzir a Vulgata de São Jerônimo (versão
da bíblia católica) do latim para os idiomas nacionais. Em relação à salvação como
fruto da graça mediante a fé, a igreja compreendeu que graça e fé deveriam ser
acompanhadas de obras. Tal compreensão de vida de fé fora seguida de algumas
reformas, como a instituição de seminários para a formação do clero, além do
estabelecimento da primeira comunhão enquanto rito de iniciação da criança nas
lides da fé.

As principais articulações da relação entre fé e educação estavam ligadas às


ordens religiosas, pois foram as ordens dos agostinianos, beneditinos, franciscanos,
dominicanos e jesuítas as principais divulgadoras dos ideais religiosos católicos
ao redor do mundo nos séculos subsequentes ao Concílio Tridentino, os jesuítas,
ordem fundada por Santo Inácio de Loyola, com grande destaque na América
Portuguesa, em especial na catequização dos Indígenas.

A principal cidade brasileira, São Paulo, surgiu como um colégio jesuítico


fundado para catequizar os indígenas. Não apenas na América Portuguesa os
Jesuítas tiveram grande destaque na educação. Também grande parte da elite dos
países europeus tivera educação jesuítica. Dentre estes, podemos nos lembrar que
René Descartes foi aluno de escola jesuíta na França do século XVII (SEBE, 1982).

80
TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

FIGURA 21 - SANTO INÁCIO DE LOYOLA

FONTE: Disponível em: <http://arquidiocesedenatal.org.br>. Acesso


em: 13 fev. 2017.

Ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII surgiram novas ordens religiosas
na Europa. Algumas, como reformulação de antigas ordens, como os capuchinhos,
reformadores da ordem franciscana, e os agostinianos recoletos, reformadoras da
Ordem de Santo Agostinho. Também é deste período a Ordem do Oratório.

Entre os principais educadores católicos ligados à educação temos o nome


de João Batista de Lassale. Sacerdote francês, que fundou escolas para alfabetizar
crianças pobres, sendo considerado o padroeiro dos professores primários.

Em análise comparativa, tanto os países católicos quanto os países


protestantes investiram em educação. A principal diferença está na ênfase.
Enquanto países católicos investiram apenas na educação das elites, os países
protestantes investiram em educação para todos os indivíduos. Com isto, o número
de analfabetos entre os protestantes tendia a ser menor que dentre os católicos,
com repercussões grandes no desenvolvimento social e político dos países.

As disputas entre católicos e protestantes na Europa fora intensa ao


longo dos séculos XVI e XVII. Estas disputas, porém, se tornaram menores com
a denominada Pax de Wetsphalia, na qual encerraram as Guerras de Religião na
Europa. Também as disputas entre católicos e protestantes foram questionadas
pelo pensamento iluminista.

Caro acadêmico! No sentido de aprofundar os conteúdos e contextualizar


a trajetória de Lutero enquanto reformador religioso, procure assistir ao filme que
sugerimos a seguir:

81
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

UNI

SUGESTÃO DE FILME:
LUTERO. Eric Til. Estados Unidos: 2004. 124 min
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=PlP-Xt4LLNg>. Acesso em: 2 out. 2016.

4 PRINCÍPIOS CIENTÍFICOS E FILOSÓFICOS DA ÉPOCA


MODERNA

Burg, Fronza e Silva (2013) explicam que mesmo diante de um quadro


desanimador com relação ao acesso e a real democratização do ensino que
perdurou até o século XIX, as transformações sociopolíticas ocorridas a partir do
século XVI, forneceram as condições necessárias para que a escolaridade média da
população fosse ampliada, uma vez que boa parte da população analfabeta, agora
pode ter acesso à alfabetização.

Durante os séculos XV a XVIII, a humanidade passou por uma verdadeira


revolução do conhecimento, pois, em grande parte, os principais paradigmas
que o homem do Ocidente medieval se utilizava como verdades absolutas foram
desmentidos. Uma visão mítica do mundo se transformou de uma visão teocêntrica
em uma visão antropocêntrica. Isto é, ao invés de enxergar a presença divina em
todos os campos de atuação humana, os pensadores passaram a considerar apenas
a razão como forma máxima de se alcançar a verdade dos fatos.

Podemos afirmar que houve um primeiro momento pelo qual o homem


ocidental passou a questionar as verdades estabelecidas pelos eruditos medievais.
Durante os séculos XV e XVI, alguns eruditos questionaram algumas verdades
cristalizadas. Podemos citar alguns homens que realizaram algumas façanhas.
Harwey e Miguel Servetto foram estudiosos pioneiros da anatomia humana, ao
dissecarem alguns cadáveres e descobrirem o processo de funcionamento da
corrente sanguínea humana. Servetto foi perseguido na Espanha por suas crenças
religiosas. Fugiu para Genebra, na Suíça, onde foi condenado à pena de morte por
João Calvino, devido à sua crença antitrinitariana. Isto é, Servetto não acreditava
na ideia de trindade.

Nicolau Copérnico e Galileu Galilei afirmaram que a Terra era redonda. O


que estes cientistas revelaram eram afirmações científicas contrárias às ideias de
Lactâncio, erudito do século IV, para quem a Terra era plana. Com a Viagem de
Circunavegação de Fernão de Magalhães, se teve uma comprovação empírica de
que a Terra era uma esfera.

Em relação à astronomia, um dos principais cientistas foi Kepler, autor da


lei de gravitação dos planetas. Isto é, este astrônomo compreendeu que alguns
planetas giram em torno de outros, formando elipses, e muitos dos diversos
82
TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

planetas das distintas galáxias giram em torno de diversas estrelas. Um exemplo


é a Lua, que gira ao redor do planeta Terra, que por sua vez, assim como outros
planetas, gravita ao redor do Sol, que por sua vez é uma estrela que irradia a luz
que mantém a vida em nosso planeta.

A ciência moderna se desenvolveu e consolidou ao longo dos séculos XVII,


XVIII e XIX, tratou-se de um conhecimento obtido de forma natural, independente
e desarticulado das dimensões sobrenaturais, mitológicas, mágicas e fantásticas da
realidade. É quando se acentua o distanciamento entre o campo da fé, do espiritual,
do religioso, do sagrado e do eterno (poder invisível) e o campo do temporal, do
método, do racional, do profano e do leigo (poder visível).

A ciência acabou por se tornar uma ideologia dominante – o cientificismo,


uma forma de saber superior, criada pelo positivismo no século XIX. A ciência
resumia-se na busca pela verdade a qualquer custo, almejava extrair todos os
segredos que houvesse na natureza, e para tanto deveria proceder a uma rigorosa
observação empírica, lançando mão da imaginação, dos sentimentos e das emoções
quando investigava tanto os seres da natureza como os fatos e acontecimentos
humanos.

A obra que ocupa o posto de marco-fundante da ciência ocidental sem


sombra de dúvidas foi o Discurso do método, redigida por René Descartes, que
foi educado em um colégio jesuíta e foi membro oficial do exército francês. Nesta
obra, o autor trata da forma como se deve proceder quando que se quer alcançar
a verdade através dos recursos da razão. A obra de Descartes trata em especial
de como o homem pode ser sujeito responsável pela resolução dos próprios
problemas, agora sem precisar recorrer as explicações divinas e bíblicas. Discurso
do método foi publicado no século XVII e até os dias atuais permanece como sendo
a célebre obra do pensamento racional e científico ocidental.

Caro acadêmico! No sentido de identificar de forma sistematizada o


pensamento de René Descartes, observe com atenção o quadro a seguir:

QUADRO 1 - SÍNTESE DO PENSAMENTO DE RENÉ DESCARTES

OBRA PRINCÍPIOS
RENÉ DESCARTES F R A G M E N TA R , F R A C I O N A R ,
DISCURSO SOBRE O MÉTODO
(1596-1650) PARTES, REDUZIR, DIVIDIR.
VERIFICAR: se existem evidências reais e
indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada.
ANALISAR: dividir ao máximo as coisas, em suas
unidades mais simples e estudar essas coisas mais
simples.
SINTETIZAR: agrupar novamente as unidades
O MÉTODO estudadas em um todo verdadeiro.
ENUMERAR: as conclusões e princípios utilizados,
a fim de manter a ordem do pensamento.

Fonte: Os autores

83
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Talvez o principal personagem da Revolução Científica que a Idade Moderna


vivenciou foi Isaac Newton. Assim como Miguel Servetto, Newton possuía profunda
fé religiosa e era antitrinitariano. Seu principal livro sobre questões religiosas trata
sobre as profecias de Daniel e do Apocalipse sobre o final dos tempos. Porém, não
foram as suas reflexões teológicas as principais contribuições ao pensamento no
Ocidente, mas sim suas reflexões sobre a natureza (CORVISIER, 1976).

Uma das lendas sobre a descoberta da lei da gravidade indica que Newton
estava debaixo de uma macieira e uma fruta madura havia caído sobre a sua cabeça.
Este fato havia funcionado como um despertar para a elaboração de suas descobertas
científicas: as leis da física. A palavra física significa em grego “natureza”. O que
Newton observou foi que a natureza possui mecanismos que se repetem. A estes
eventos repetitivos denominou lei. A lei da gravitação é uma das mais conhecidas,
assim como a lei de ação e reação.

Alguns movimentos sociais, políticos e religiosos foram responsáveis pela


valorização da educação no mundo ocidental. Entre estes, já abordamos a Reforma
Protestante. Outro movimento que motivou alterações sociais e educacionais foi o
Iluminismo. De maneira geral, o Iluminismo, ou século das luzes ou da ilustração,
foi um movimento intelectual e cultural do século XVIII, que almejava libertar o
homem das crenças mitológicas e de toda herança dogmática da época medieval.
Defendia os princípios da razão crítica, do progresso, da autonomia dos indivíduos
e da liberdade de pensamento.

O Iluminismo não foi uma invenção da sociedade de sua época propriamente


dita, sustentava-se em bases teóricas que já haviam sido defendidas ainda na
Antiguidade e também na época da Renascença, porém encontrou no século
XVIII o melhor momento de alcance e amplitude. Dentre os principais intelectuais
iluministas, podemos nos lembrar de alguns nomes, como Voltaire, Rousseau,
Diderot, entre tantos outros pensadores.

Abbagnano (2007) descreve que é possível entender o Iluminismo como


uma linha filosófica que defende a razão como crítica e guia a todos os campos da
experiência humana. Kant (1724-1804) defende que o Iluminismo contou com o
empirismo como um grande aliado, ambos garantiram a abertura do domínio da
ciência e, em geral, do conhecimento, que por sua vez favoreceu à crítica da razão, no
sentido de que toda verdade poderia e deveria ser colocada à prova, e eventualmente
modificada, corrigida ou abandonada.

Os fundamentos teóricos que favorecem a ancoragem do movimento


do Iluminismo podem ser encontrados na física e sistematizados na obra de I.
Newton (1643-1727), ‘Princípios matemáticos de filosofia natural, publicada em
1687; nas pesquisas de Boyle (1627-1691), que encaminham a química como ciência
positiva; na obra de Buffon (1707-1788) e de outros naturalistas, que assinalam
as ciências biológicas como responsáveis por explicar as etapas fundamentais de
desenvolvimento.

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TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

O empirismo foi o ponto de partida e o pressuposto da filosofia defendida,


por exemplo, por Voltaire (1694-1778), Diderot (1713-1784) e D'Alembert (1717-
1783). A Enciclopédia continha o pensamento contrário aos privilégios que foram
reclamados posteriormente na Revolução Francesa, defendia a felicidade ou o bem-
estar do gênero humano, alcançados e desfrutados através de práticas tolerantes e
com fé no progresso. Estas noções enfraqueceram a ideia de fatalidade histórica que
impedia qualquer iniciativa de transformação da realidade.

Em relação às questões ligadas à educação, podemos compreender que o


autor que possuiu maior destaque dentre os filósofos iluministas foi Rousseau. Este
destaque se deve ao seu principal livro relacionado à temática educacional, Emílio
(GADOTTI, s.d., p. 87-89). Uma das principais teses defendida por Rousseau é a de
que o homem nasce bom, porém o meio o corrompe. Esta ideia, a de que o homem
nasce bom e é corrompido pelo meio foi uma das maiores influências do iluminismo
para as ideias pedagógicas nos séculos posteriores.

Isaac Newton, físico, matemático, filósofo e teólogo inglês, ficou amplamente


conhecido com os três volumes de ‘Princípios matemáticos da filosofia natural’, nos quais
constam as famosas Leis de Newton, que compõem os princípios da mecânica e de
todo o pensamento moderno. As Leis de Newton contêm o princípio de ‘inércia’,
em que todo corpo continua em seu estado (repouso ou movimento) a menos que
seja forçado a mudar; o princípio de ‘dinâmica’, em que a mudança é proporcional
à força atribuída; e o princípio de ‘ação e reação’, em que para toda ação há sempre
uma reação oposta e em igual proporção.

Immanuel Kant (1724-1804) tem sua produção intelectual e filosófica


denominada de filosofia crítica, idealismo transcendental, que tinha como finalidade
estabelecer um método cognitivo e uma doutrina da experiência pelo uso da razão
que suplantasse a metafísica racionalista dos séculos XVII e XVIII, que ele chamava
de sono dogmático. Kant foi leitor de Isaac Newton (1643-1727), John Locke (1632-
1704), Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) e David Hume (1711-1776).

Nos estudos de Kant percebe-se o forte afastamento da noção de que a


Providência divina representava um fator determinante da História, a ampla defesa
da ideia de racionalidade e de télos (fim/alvo) e de progresso, de que, se há passos
contínuos, conduziriam a humanidade à emancipação plena. A história, guiada pela
razão, seria a fonte maior a partir da qual se alcançaria a liberdade e a perfeição
humana. Estas intenções contagiariam a humanidade e se realizariam em escala
universal. A ideia de uma história universal se realizaria na conjugação das forças
do homem de posse e uso da razão apoiado nas disposições da natureza.

Martinazzo (2010) explica que para Kant o sujeito, por meio da educação,
pode sair da menoridade na qual se encontra, e a educação seria a arte de transformar
homens em homens. Pelo processo educativo o “homem torna-se homem” com
capacidade reflexiva e autônoma para decidir com liberdade e sem depender
de condições exteriores para tal. Segundo Kant, a educação deveria durar “até o
momento em que a natureza determinou que o homem se governe a si mesmo”
(KANT, 1999, p. 32).
85
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

A finalidade da educação moderna esteve centrada na construção de


sujeitos livres, autônomos e responsáveis, com plena capacidade de poder escolher
racionalmente os fins adequados e, de forma livre e consciente, submeter-se aos
mesmos. Nas concepções modernas de educação, a busca da autonomia seria o
objetivo máximo da educação, e esta deveria ser fundamentada na razão.

Um dos mitos criados ao redor dos cientistas dos séculos XVI, XVII e XVIII é
que eles fossem ateístas. O que podemos observar nos seus escritos e nas suas ações
sociais é que possuíam profunda fé em Deus e em geral eram cristãos convictos.
A que por vezes se opuseram foi contra o obscurantismo das elites eclesiásticas,
universitárias e políticas, que enxergavam nas descobertas do processo de
funcionamento do corpo humano ou da natureza que os circundava uma oposição
ou mesmo um risco ao poder que possuíam.

Estas mesmas elites eclesiásticas eram capazes de condenar diversas pessoas


à pena de morte por motivos fúteis, como se apresentou em muitos autos de fé da
Santa Inquisição. Muitos outros homens e mulheres foram acusados de bruxarias ou
de práticas diabólicas, mas se tratavam apenas de pessoas com pensamento distinto
do que os dispositivos de poder ensinavam como correto.

O contexto filosófico que diz respeito à época moderna compreende pouco


mais de 200 anos, pode-se dizer que está circunscrito ao intervalo de tempo entre
os séculos XVI e XVIII. Franciotti (2009) argumenta que as formulações filosóficas
que foram propostas neste período acabaram de ultrapassar a cronologia e o
próprio campo da filosofia, tais como ‘penso, logo existo’, de Descartes; ‘o homem
é naturalmente bom, é a sociedade que o perverte’, proposta por Rousseau; e ‘o
coração tem razões que a própria razão desconhece’, formulada por Pascal.

No campo da compreensão e da postura do ser humano forja-se o conceito de


subjetividade como dimensão epistêmica do sujeito, como uma forma de consciência,
capaz de constituir as certezas, as verdades em todas as instâncias:

A subjetividade pode ser descrita por meio de “formas de consciência”:


o eu, a pessoa, o cidadão e o sujeito epistemológico. O eu é a identidade,
formada das vivências psíquicas; é a forma de consciência mais singular,
pois as vivências psíquicas são o que se tem de menos compartilhável. A
pessoa é a consciência moral; é o sujeito como juiz do certo e do errado,
do bem e do mal. O cidadão é a consciência política; o sujeito como o
juiz dos direitos e deveres da vida na cidade. O sujeito epistemológico é a
consciência intelectual. O sujeito como juiz do verdadeiro e do falso; o
detentor da linguagem e do pensamento conceitual; trata-se da forma
de consciência mais universal (GHIRALDELLI JR., 1999, p. 23).

Entre os principais conceitos defendidos pelos pensadores modernos


pode-se relacionar a razão matemática, na condição de proporção e da relação das
grandezas entre si; a visão científica e mecanicista do mundo. Entre as preocupações
dos pensadores da época moderna estava a ideia de como conhecemos as coisas, a
realidade e o mundo; e, por sua vez, o limite das faculdades e sentidos humanos,
que poderia ser sanado com o uso de métodos rigorosos e a razão no campo do

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TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

raciocínio explicativo, que foram consolidados por meio das escolas filosóficas do
empirismo e do racionalismo.

Observe no quadro a seguir como as duas escolas filosóficas que perpassaram


o contexto educacional da época moderna podem ser sistematizadas:

QUADRO 2 - SÍNTESE DAS PRINCIPAIS CORRENTES FILOSÓFICAS MODERNAS


PRINCÍPIOS PRINCIPAIS REPRESENTANTES
O conhecimento advém das experiências.
São consideradas as evidências,
John Locke
descobertas por meio de experiências.
EMPIRISMO George Berkeley
Almejava resultados práticos, úteis e que
(Sec. XVII e XVIII) David Hume
pudessem ser aplicados no domínio da
Immanuel Kant
natureza.
O raciocínio é a principal operação
mental e o principal caminho à verdade.
Tudo que existe possui uma causa
RACIONALISMO inteligível.
René Descartes
Privilegia a razão diante da experiência,
(Sec. XVII e XVIII) Baruch Spinoza
e a dedução como o principal caminho
Gottfried Wilhelm Leibniz
das investigações filosóficas.

Fonte: Os autores

Outra vertente dos pensadores foi a dos contratualistas, porém agora com
preocupações mais específicas do campo jurídico, político e da organização da
sociedade propriamente dita, no sentido de que a sociedade moderna, o Estado
civil, as constituições, as leis, os contratos forneciam as condições necessárias
que garantiriam a vida pacífica, sem discórdia, em justiça e liberdade entre os
indivíduos e as sociedades. Observe que a seguir procuramos relacionar de
maneira esquemática o pensamento contratualista e quais foram os principais
simpatizantes:

QUADRO 3 - SÍNTESE DO PENSAMENTO CONTRATUALISTA


PRINCÍPIOS PRINCIPAIS REPRESENTANTES
NATUREZA: guerra, violência, vitória do
mais forte, incertezas e insegurança.
CONTRATO: fundamento do poder
político e dos governos;
LEIS: capazes de garantir a liberdade
e a justiça.
PACTO SOCIAL: reconhecimento dos T. Hobbes
governos, do conjunto das leis, e dos John Locke
regimes políticos como fundamentais
CONTRATUALISMO Jean-J. Rousseau
à vida em sociedade.
(Séc. XVII e XVIII)
ESTADO CIVIL: reconhecimento de
uma autoridade absoluta.

Fonte: Os autores

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UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Thomas Hobbes (1588-1679) parte do conceito do Direito natural (Jus


naturalismo), cujo preceito ensina que todo homem tem direito à vida e ao que
é necessário para mantê-la, também (principalmente) à liberdade. Para ele, todos
são livres, ainda que uns sejam fracos e outros fortes. Um contrato social, conforme
o Direito Romano, só tem validade se ambas as partes forem livres e iguais e, por
vontade própria, consentem ao que está contratado, pactuado.

Para Hobbes, há três motivações intrínsecas no ser humano: a competição,


a desconfiança e a glória (a vaidade). O estado natural de guerra é porque todos
se imaginam poderosos, perseguidos e traídos, para tanto o Estado Civil moderno
regulamentaria a vida, as regras do jogo/guerra e da liberdade, permitindo a todos
condições iguais na competição.

Caro acadêmico! Os autores das duas correntes filosóficas modernas


ainda serão analisados com maior profundidade ao longo desta unidade. Para
potencializar seu conhecimento, esteja atento e reúna o maior número de elementos
e argumentos possíveis sobre cada um deles.

4.1 ELEMENTOS DO CONTEXTO EDUCACIONAL MODERNO:


A EDUCAÇÃO REALISTA DO SÉCULO XVII
Brug, Fronza e Silva (2013) explicam que a partir do século XVI, teólogos
católicos e os protestantes, teceram profundos debates, todavia foi o momento
em que os intelectuais idealistas entram no debate e passam a fundar escolas sob
sua orientação educacional. O italiano Vitorino Feltre, em 1428, foi convidado a
ministrar aulas junto à universidade de Veneza e Pádua, pelo príncipe de Mântua,
na qual pode fundar uma escola e permanecer nela até o seu falecimento.

Monroe (1979) descreve que Vitorino Feltre não chegou a deixar seus
ideais educacionais e pedagógicos registrados, porém é reconhecido como um
dos educadores renascentista pioneiros. Algumas das escolas que foram fundadas
na época da renascença destinavam-se especialmente à nobreza e podiam ser
encontradas nas cidades de Pádua, Veneza e Florença. Em outras regiões da
Europa como a Alemanha, passaram a existir escolas infantis que eram tuteladas
diretamente pelas cortes, leia-se: escola às elites; por outro lado ocorriam também
os ginásios, cujo fundador foi João Sturn.

A Idade Moderna foi o momento histórico de muitas transformações no que diz
respeito ao cenário político, econômico, científico, intelectual e educacional. Em meio
a este contexto as primeiras escolas de alfabetização e educação primária, que eram
novidade no cenário educacional europeu, não passaram ilesas. As primeiras escolas,
nas quais a maior parte da elite europeia se alfabetizou, contavam com preceptores,
que supervisionavam, orientavam e acompanhavam as atividades escolares.

O século XVI no campo intelectual é conhecido como humanista-


renascentista, já no campo artístico é reconhecido como o período barroco, já no
campo educacional se desenvolveu a tendência do realismo pedagógico.

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TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

Caro acadêmico! Não se esqueça de que os pensadores do Renascimento


foram chamados de ‘utópicos’, ou seja, que lançavam e almejavam teorias
idealizadas e de difícil realização. Logo o século seguinte, o século XVII, foi de
compensação pelo aspecto racional, metódico e realista, embasado pelo pensamento
dos pesadores como John Locke, João Amós Comenius e Francis Fenelon.

John Locke (1632-1704), filósofo e pensador britânico, preceptor dos


filhos do conde de Shaftesburg, foi um estudioso que contribuiu na produção
do conhecimento que pretendia superar a tradição medieval. Se destacou nas
áreas da filosofia, da economia, política, religião e educação. Seus estudos se
inserem no contexto histórico e filosófico do pensamento pedagógico moderno
e seus pensamentos ganharam importância, pois foi o estudioso que defendeu
o empirismo, ou seja, que acredita que o conhecimento seja consequência da
experiência, que não existem ideias inatas, ou seja, ideias com as quais nós já
nascemos; ao invés disso, propôs que o que sabemos aprende-se tudo pelo caminho
da experiência. Criticou enfaticamente as ideias medievais, o descaso atribuído às
línguas vernaculares e aos cálculos, e ênfase atribuída ao latim.

Na obra de quatro volumes ‘Ensaio sobre o entendimento humano’, pensamentos


sobre a educação, apresentou a expressão latina pela qual ficou muito conhecido,
que é a de tábula rasa, que procurava explicar que o ser humano nasce como um
papel em branco e que vai sendo preenchido ao longo de sua vida. Foi defensor da
separação de poderes entre Igreja e Estado, ou seja, defendeu o Estado laico.

UNI

CONCEITO: ESTADO LAICO:


Casanova (1994) refere-se, histórica e normativamente, à emancipação do Estado e do
ensino público dos poderes eclesiásticos e de toda referência e legitimação religiosa, à
neutralidade confessional das instituições políticas e estatais, à autonomia dos poderes
político e religioso, à neutralidade do Estado em matéria religiosa (ou a concessão de
tratamento estatal isonômico às diferentes agremiações religiosas), à tolerância religiosa e
às liberdades de consciência, de religião (incluindo a de escolher não ter religião) e de culto.

Cambi (1999) explica que Locke teoriza sobre uma educação que se
destinava tanto a homens como a mulheres e que tinha por objetivo endurecer,
regular e moldar a delicadeza e os demasiados cuidados, que seria obtida por
meio de uma espécie de “educação do corpo”, este entendido como um vaso de
argila (como se exprime Locke), que impunha ajustes desde os modos de vestir,
que deveriam parecer nem leves nem pesados, ao mesmo tempo a robustez e a
possibilidade da vida "ao ar livre", válida tanto para os rapazes como para as
moças” (CAMBI, 1999).

89
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Para Locke, as capacidades e as competências do ser humano são inatas,


mas o conhecimento e as habilidades são construídos. Defendendo estas ideias,
colocava-se contrário às noções de dom artístico.

Para Locke, o pensamento e a memória humana consistem em uma espécie


de tábula rasa a ser preenchida e o corpo como um vaso de argila, passível de
moldagem. Os estudiosos apontam que seus estudos e teorizações no campo
da educação destinam-se à Educação Física e recebe diversas críticas, pois seu
pensamento sugeria uma espécie de controle e atos de mutilação com relação ao
corpo com justificativa educativa.

QUADRO 4 - SÍNTESE DO PENSAMENTO DE JOHN LOCKE

OBRA PRINCÍPIOS
Ensaio sobre o entendimento Homem: sujeito.
humano (1690). Natureza: fonte de conhecimento.
Alguns pensamentos sobre a Conhecimento: por empirismo e
JOHN LOCKE educação (1693). experiência.
(1632-1704) A conduta do entendimento (1706). Verdade: processo histórico.

Fonte: Os autores

Francis Fenelon (1567-1622) foi um bispo católico francês. E, assim como


Locke, trabalhou como preceptor de uma família nobre. No caso, Fenelon foi o
responsável pela instrução de um dos netos de Luiz XIV, o “Rei Sol”. Seu destaque
foi propor uma pedagogia para as mulheres. Como retrato da mentalidade da
época, acreditava que as moças deveriam se dedicar a conhecimentos religiosos
e morais, que as capacitassem para bem desenvolver suas funções sociais como
esposas e mães de famílias. As escolas para mulheres foram desenvolvidas na
França, sendo a de Saint-Cry um símbolo da educação feminina da monarquia
francesa antes da Revolução Francesa (ARANHA, 2006).

Outro importante pensador presente na história da educação ocidental é o
tcheco João Amós Comenius (1562-1670). Formado em Teologia, não conseguiu ser
ordenado sacerdote devido aos problemas políticos oriundos na Europa durante
a Guerra dos Trinta Anos, um dos conflitos militares oriundos das disputas
territoriais entre príncipes católicos e protestantes.

As suas reflexões sobre educação são marcadas por sua perspicácia em


relação ao amadurecimento dos seres humanos. Seus principais livros foram
Pródomus da Pansofia, no qual propunha a organização e ampliação do acesso ao
ensino como um modo de pôr fim às guerras. Em Porta aberta às línguas, propôs uma
inovadora metodologia para o ensino do latim. Porém, sua principal contribuição
para a tarefa educacional foi a Didática magna (1657) ou Grande didática. Comenius
compreendia o homem e suas fases de desenvolvimento da seguinte forma:

Portanto, o que é inicialmente o homem? Uma massa informe e bruta.


Depois, assume o contorno de um pequeno corpo, mas sem sentidos e
movimento. A seguir, começa a movimentar-se e por força da natureza
vem à luz; pouco a pouco manifestam-se os olhos, os ouvidos e os

90
TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

outros sentidos. Após um certo tempo manifesta-se o sentido interno,


quando ele percebe que vê, ouve e sente. A seguir será manifestado
o intelecto, apreendendo as diferenças entre as coisas; finalmente, a
vontade, dirigindo-se a alguns objetos e fugindo de outros, assume papel
de governante (COMENIUS, 1997, p. 44).

Para Comenius (1997, p. 58), “nossa mente não apreende só as coisas


próximas, mas também aproxima de si as distantes (em lugar e tempo), alça-se
às mais difíceis, indaga as ocultas, descobre as veladas, esforça-se por investigar
também as imperscrutáveis: é algo infinito e sem limite”. Portanto, dedicou-se
em formular um método universal que facilitaria o ensino do maior número de
conteúdos e conhecimentos, ensinar tudo e a todos (Omnes Omnia Omnimo), em
que os objetivos e os resultados seriam alcançados rápida e solidamente e de modo
satisfatório, e que se destinaria a um amplo público de interessados.

Criticava as formas enfadonhas e tortuosas de ensino e aprendizagem,


bem como a especialidade e restrição a determinados saberes e ofícios, assim
como as restrições de sexo (homens e mulheres), de classes sociais (agricultores,
comerciantes, operários, administradores) e aos que apresentavam sinais de
deficiências (mental e outras debilidades), que acompanhavam as instituições
escolares da época. Enfatizava a necessidade de se subdividir o processo de ensino
em níveis e graus mediante a faixa etária dos estudantes, bem como abordava
questões de falta de interesse e motivação por parte dos estudantes.

Para Comenius (1997), a educação deveria observar os seguintes preceitos:


I. Começar cedo, antes da corrupção das inteligências.
II. Fazer a devida preparação dos espíritos.
III. Proceder às coisas gerais para as coisas particulares.
IV. Proceder às coisas mais fáceis para as mais difíceis.
V. Não sobrecarregar ninguém com demasiados trabalhos escolares.
VI. Proceder de forma lenta.
VII. Não constranger os espíritos a fazer aquilo que não desejam, permitir que seja
de forma espontânea, tendo em vista método e a idade ideal.
VIII. Ensinar todas as coisas, colocando-as imediatamente sob os sentidos.
IX. Dar ênfase à utilidade imediata dos conhecimentos.
X. Utilizar sempre com um só e o mesmo método.
XI. Prezar por um andamento suave e agradável das atividades.

Comenius defendia que se devia saber tudo, mas não nos aspectos
superficiais e vulgares dos saberes, antes os fundamentos, os princípios, as razões
e os objetivos dos principais conhecimentos da natureza e daqueles que o homem
foi responsável. Para tanto, classificou as coisas em três naturezas: objetos de
observação: o céu, Sol, Lua, as rochas, as estrelas, os fenômenos naturais, entre
outros; objetos de imitação: a ordem que rege o mundo, a natureza e o homem;
objetos de fruição: o não palpável, o metafísico, o imaterial, o divino, de natureza
simbólica e espiritual.

91
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

O que podemos compreender nestes pensadores realistas é a ideia da


importância da educação para o desenvolvimento humano. Porém, não apenas do
ponto de vista da utopia, do sonho de se viver em uma sociedade marcada pela
perfeição. A ideia educacional principal era um pouco mais prática, uma noção
da necessidade da educação na alteração de comportamentos e pensamentos no
cotidiano dos discentes. Muito mais que um sonho de sociedade, os autores em
análise tiveram em suas experiências pessoais a principal motivação para escrever
seus livros.

As experiências pessoais de Fenelon e Locke como preceptores os motivaram


a pensar uma educação para as moças e de melhor qualidade. As dificuldades de
vivenciar uma guerra motivaram Comenius a escrever sobre a paz universal. Estas
são as razões principais de as reflexões destes intelectuais não serem teóricas, mas,
sim, metodológicas. Isto é, o método de ensino, as faixas etárias apropriadas para
o ensino de determinados conteúdos e quais os conteúdos a se ensinar foram os
pontos principais das reflexões dos pedagogos seiscentistas.

4.2 OS MANUAIS DE ETIQUETA E DE BONS COSTUMES


Burg, Fronza e Silva (2013) explicam que os manuais de etiqueta, as dietas
e cardápios variados e refinados representam uma novidade aos homens do
Renascimento, mas a partir de então fazem parte das preocupações da vida pública
e privada da sociedade ocidental até os dias atuais. Por meio das expressões,
comportamentos e posturas nos momentos festivos, em meios aos baquetes e no
cotidiano no interior dos palácios, as elites econômicas e políticas afirmavam-se
por meio da demonstração de modos refinados, sofisticados e elegantes.

Elias (1993) explica que os autores renascentistas que já mencionamos antes


nesta unidade, Leonardo da Vinci e Erasmo de Roterdã foram, além de outras
coisas, já mencionadas anteriormente, autores de manuais de etiqueta e cardápios
gastronômicos. Nos manuais constavam desde noções de como os nobres deveriam
se portar e apresentar à mesa assim como cuidados higiênicos que deveriam ser
observados no cotidiano. A título de exemplo tem-se que não era de bom tom
escarar na mão direita e usar a mesma mão para pegar algum pedaço de carne.
Neste contexto não se pode negligenciar a informação de que os artefatos de garfo
e faca representavam utensílios raros, que muitas vezes eram objetos de disputas
em heranças de pai para filho.

Ribeiro (1990) explica que além das questões de etiqueta e bons costumes,
havia também segregações e distinções sociais que eram obtidas pelas questões de
honra, ou melhor pelas noções de status quo, ou seja, que se baseava na importância
e no reconhecimento que a família obtinha em meio à sociedade. O status era
obtido pela demonstração de boa apresentação nos bailes, cafés, museus e
galerias, por meio do uso de trajes elegantes, perucas, vestidos e demais acessórios
enobrecedores.

92
TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

Burg, Fronza e Silva (2013) explicam que foi nas confrarias duelistas, que
funcionavam nos castelos e palácios da nobreza, que as regras de etiqueta e bons
costumes eram aprendidas; destinavam-se especialmente aos integrantes da elites
e nobres praticantes de esgrima. Além das atividades de esgrima, a montaria
representava outra atividade, quem quisesse se distinguir deveria apresentar
conhecimentos e demostrar habilidade.

Caro acadêmico! Observe com atenção o texto "Escolas Filosóficas: um


panorama", escrito pelo professor Kevin Daniel dos Santos Leyser, pois contempla
explicações sobre as correntes filosóficas que compõem a matriz do pensamento
ocidental e o pano de fundo filosófico em que se desenvolveram os autores que já
foram mencionados até aqui e que ainda serão mencionados ao longo das próximas
unidades. Mas, para saber mais, prossiga na leitura.

LEITURA COMPLEMENTAR

ESCOLAS FILOSÓFICAS: UM PANORAMA

Kevin Daniel dos Santos Leyser

As escolas filosóficas podem ser sistematizadas em quatro correntes de


pensamento, que são o idealismo, o realismo, o pragmatismo e o existencialismo.
O idealismo e o realismo derivam dos pensamentos e escritos dos antigos filósofos
gregos, Platão e Aristóteles, que por sua vez já foram discutidas na Unidade 1.
As outras duas são mais contemporâneas, o pragmatismo e o existencialismo. No
entanto, os educadores que compartilham um desses conjuntos distintos de crenças
sobre a natureza da realidade atualmente aplicam cada uma dessas filosofias
gerais em salas de aula. Vamos explorar cada uma dessas escolas metafísicas de
pensamento:

1- Idealismo: é uma abordagem filosófica que tem como princípio central que as
ideias são a única realidade verdadeira, a única coisa que vale a pena conhecer.
Em busca da verdade, beleza e justiça que é duradoura e eterna, o foco está
no raciocínio consciente na mente. Platão, pai do idealismo, abraçou esta visão
cerca de 400 anos A.E.C., em seu famoso livro A República. Platão acreditava que
havia dois mundos. O primeiro é o mundo espiritual ou mental, que é eterno,
permanente, ordenado, regular e universal. Há também o mundo da aparência,
o mundo experimentado através da visão, do toque, do cheiro, do gosto e do
som, que está mudando, imperfeito e desordenado. Esta divisão é muitas vezes
referida como a dualidade da mente e do corpo. Reagindo contra o que ele
percebia como um foco excessivo na imediação do mundo físico e sensorial,
Platão descreveu uma sociedade utópica na qual a educação para o corpo e a
alma seria toda a beleza e perfeição da qual são capazes como um ideal. Em sua
alegoria da caverna, as sombras do mundo sensorial devem ser superadas com
a luz da razão ou da verdade universal. Para compreender a verdade, é preciso
buscar o conhecimento e identificar-se com a Mente Absoluta. Platão também
93
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

acreditava que a alma está totalmente formada antes do nascimento e é perfeita


e em harmonia com o Ser Universal. O processo de nascimento verifica essa
perfeição, de modo que a educação exige que à consciência sejam trazidas ideias
latentes (conceitos totalmente formados).

No idealismo, o objetivo da educação é descobrir e desenvolver as


habilidades e a excelência moral de cada indivíduo para melhor servir à sociedade.
A ênfase curricular é assunto da mente: literatura, história, filosofia e religião.
Os métodos de ensino centram-se no tratamento de ideias através de palestra,
discussão e diálogo socrático (um método de ensino que utiliza o questionamento
para ajudar os alunos a descobrir e clarificar o conhecimento). Introspecção,
intuição, insight e lógica são usados ​​para levar à consciência as formas ou conceitos
que estão latentes na mente. O caráter é desenvolvido através da imitação de
exemplos e heróis.

2- Realismo: Os realistas acreditam que a realidade existe independentemente


da mente humana. A realidade última é o mundo dos objetos físicos. O foco
desta perspectiva está no corpo/objetos. A verdade, portanto, é objetiva – aquilo
que pode ser observado. Aristóteles, um estudante de Platão que rompeu com
a filosofia idealista de seu mentor, é chamado o pai do realismo e do método
científico. Nesta visão metafísica, o objetivo é compreender a realidade objetiva
através do escrutínio diligente e imparcial de todos os dados observáveis.
Aristóteles acreditava que, para compreender um objeto, sua forma última
deveria ser entendida, aquilo que não mudava. Por exemplo, uma rosa existe
se uma pessoa está ou não consciente dela. Uma rosa pode existir na mente
sem estar fisicamente presente, mas em última análise, a rosa compartilha
propriedades com todas as outras rosas e flores (sua forma), embora uma rosa
pode ser vermelha e outra amarela. Aristóteles também foi o primeiro a ensinar
a lógica como uma disciplina formal, a fim de ser capaz de raciocinar sobre
eventos e aspectos físicos. O exercício do pensamento racional é visto como o fim
último da humanidade. O currículo realista enfatiza o assunto do mundo físico,
particularmente a ciência e a matemática. O professor organiza e apresenta o
conteúdo sistematicamente dentro de uma disciplina, demonstrando o uso de
critérios na tomada de decisões. Os métodos de ensino centram-se no domínio
dos fatos e das competências básicas através da demonstração e da recitação.
Os alunos também devem demonstrar a capacidade de pensar criticamente
e cientificamente, usando observação e experimentação. O currículo deve ser
abordado cientificamente, padronizado e baseado em disciplina distinta. O
caráter é desenvolvido através da formação nas regras de conduta.

3- Pragmatismo (Experiencialismo): Para os pragmáticos, apenas as coisas que são


experimentadas ou observadas são reais. Nesta filosofia americana do final do
século XIX, o foco está na realidade da experiência. Ao contrário dos realistas
e racionalistas, os pragmatistas acreditam que a realidade está em constante
mudança e que aprendemos melhor através da aplicação de nossas experiências
e pensamentos aos problemas, à medida que surgem. O universo é dinâmico e
evolutivo, uma visão do mundo "tornando-se". Não há uma verdade absoluta

94
TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

e imutável, mas sim, a verdade é o que funciona. O pragmatismo deriva do


ensinamento de Charles Sanders Peirce (1839-1914), que acreditava que o
pensamento deve produzir ação, em vez de ficar na mente e levar à indecisão.
John Dewey (1859-1952) aplicou a filosofia pragmatista em suas abordagens
progressivas. Ele acreditava que os aprendizes deviam adaptar-se uns aos outros
e ao seu ambiente. As escolas devem enfatizar o assunto da experiência social.
Toda aprendizagem depende do contexto de lugar, tempo e circunstância.
Diferentes grupos culturais e étnicos aprendem a trabalhar em cooperação e
a contribuir para uma sociedade democrática. O objetivo final é a criação de
uma nova ordem social. O desenvolvimento do caráter baseia-se na tomada de
decisões de grupo à luz das consequências.

Para os pragmatistas, os métodos de ensino se concentram na resolução


de problemas práticos, experimentação e projetos, muitas vezes fazendo com
que os alunos trabalhem em grupos. O currículo deve reunir as disciplinas para
se concentrar na resolução de problemas de forma interdisciplinar. Ao invés de
passar corpos de conhecimento organizados para novos alunos, os pragmatistas
acreditam que os alunos devem aplicar seus conhecimentos a situações reais por
meio de pesquisas experimentais. Isso prepara os alunos para a cidadania, vida
diária e carreiras futuras.

4- Existencialismo: A natureza da realidade para os existencialistas é subjetiva e


está dentro do indivíduo. O mundo físico não tem nenhum significado inerente
fora da existência humana. A escolha individual e os padrões individuais em vez
de padrões externos são centrais. A existência vem antes de qualquer definição
do que somos. Nós nos definimos em relação a essa existência pelas escolhas
que fazemos. Não devemos aceitar o sistema filosófico predeterminado de outra
pessoa. Em vez disso, devemos assumir a responsabilidade de decidir quem
somos. O foco é sobre a liberdade, o desenvolvimento de indivíduos autênticos,
tal como fazemos o significado de nossas próprias vidas.

Existem várias orientações diferentes dentro da filosofia existencialista.


Sören Kierkegaard (1813-1855), ministro e filósofo dinamarquês, é considerado
o fundador do existencialismo. Sua orientação era cristã. Outro grupo de
existencialistas, em grande parte europeu, acredita que devemos reconhecer a
finitude de nossas vidas neste pequeno e frágil planeta, em vez de crer na salvação
por meio de Deus. Nossa existência não é garantida em uma vida após a vida,
então há tensão sobre a vida e a certeza da morte, da esperança ou do desespero.
Ao contrário das abordagens europeias mais austeras onde o universo é visto
como sem sentido quando confrontado com a certeza do fim da existência, os
existencialistas americanos têm se concentrado mais no potencial humano e na
busca de significado pessoal. O esclarecimento de valores é uma consequência
desse movimento. Após o período sombrio da Segunda Guerra Mundial, o filósofo
francês Jean-Paul Sartre sugeriu que, para a juventude, o momento existencial
surge quando os jovens percebem pela primeira vez que a escolha é deles, que eles
são responsáveis ​​por si mesmos. Sua pergunta se transforma em "Quem sou eu e
o que devo fazer?”

95
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Em relação à educação, o tema das aulas existencialistas deve ser uma


questão de escolha pessoal. Os professores veem o indivíduo como uma entidade
dentro de um contexto social em que o aluno deve confrontar os pontos de vista
dos outros para esclarecer o seu próprio. O desenvolvimento do caráter enfatiza
a responsabilidade individual pelas decisões. Respostas reais vêm de dentro do
indivíduo, não de autoridade externa. Examinar a vida através do pensamento
autêntico envolve os alunos em experiências de aprendizagem genuínas. Os
existencialistas se opõem a pensar nos alunos como objetos a serem medidos,
rastreados ou padronizados. Esses educadores querem que a experiência
educacional se concentre na criação de oportunidades para autodireção e
autorrealização. Eles começam com o aluno, e não com o conteúdo do currículo.

Observe no quadro abaixo como estas escolas podem ser sistematizadas e


quais foram os principais estudiosos que as seguiram:

COMO
O QUE
ESCOLA IMPLICAÇÕES DEVEMOS EXEMPLOS
DEVEMOS
FILOSÓFICA EDUCACIONAIS ENSINAR? HISTÓRICOS
ENSINAR?

O idealismo é Os idealistas
centrado na ideia As crenças enfatizam
IDEALISMO ao invés de no educacionais dos os métodos
(Séc. V a.C; XVIII, sujeito ou na idealistas incluem de leitura,
XX) criança porque o uma ênfase no discussão e
ideal, ou a ideia, estudo de ideias imitação. Eles
Considera ideias é o fundamento ou grandes obras acreditam
ou conceitos como de todas as que persistem ao que pensar
a essência de coisas. O idealista longo do tempo. com clareza · Platão
tudo o que vale a acredita que a Eles também e precisão é · Sócrates
· Immanuel
pena conhecer. O aprendizagem enfatizam a fundamental
Kant
mundo espiritual vem do interior importância para descobrir · Jane Roland
é eterno e não está do indivíduo, e de grandes as grandes Martin
sujeito a mudanças não do exterior. líderes para nós ideias que
porque é perfeito Portanto, o imitarmos. Para explicam o
(metafísica). Ênfase verdadeiro os idealistas, o universo. Há
no raciocínio, mas crescimento professor é um uma ênfase em
não na investigação mental e espiritual modelo para o questões que
científica. ocorre quando é aluno. despertam o
autoiniciado. pensamento.

96
TÓPICO 1 | O DECLÍNIO DO PENSAMENTO CRISTÃO E O FORTALECIMENTO DO HUMANISMO MODERNO

Importância
Os realistas é colocada
acreditam que sobre o papel
REALISMO
o objetivo final do professor.
(Séc. IV a.C. XVII e Realistas
da educação O professor
XIX) reconhecem
é o avanço apresenta
Sustenta que leis universais.
do raciocínio conteúdo
a realidade, o Enfatizam a
humano. O de forma
conhecimento e investigação e o
currículo sistemática e
o valor existem desenvolvimento
seria centrado organizada.
independentemente científico. O · Aristóteles
no sujeito e Os professores
da mente humana. currículo realista · John Locke
encorajaria o realistas
O realismo contrasta irá utilizar testes · Alfred North
aprendizado enfatizam a Whitehead
com o idealismo. padronizados,
através da importância
Realistas endossam livros-textos e
observação e das técnicas
o uso dos sentidos currículo em que
experimentação. experimentais e
e a investigação as disciplinas são
Os professores observacionais.
científica (razão) áreas separadas de
teriam Os realistas
para encontrar a investigação.
conhecimento sustentam testes
verdade no mundo
extenso sobre um cuidadosos do
físico.
assunto. conhecimento
dos alunos.

Os pragmatistas
enfatizam a
aplicação de
ideias de uso do
Os pragmatistas
conhecimento
acreditam que
como
aprendemos
instrumentos
melhor através da
para a resolução
PRAGMATISMO experiência, mas
Os pragmatistas de problemas
(Séc. XIX, XX, XXI) que a experiência
favorecem a (epistemologia).
muda tanto o
resolução de Os pragmatistas
Desenvolvido nos aluno como
problemas através veem a escola
Estados Unidos o mundo. O · Charles
da interação com como uma
no final de 1900. professor ajuda os Sanders Peirce
o ambiente de comunidade
O pragmatismo alunos a aprender · William
forma inteligente de aprendizes.
enfatiza a evolução a questionar o James
e reflexiva. Como o
e a mudança ao que é e a resolver · John Dewey
Ensinar os alunos processo de · Richard
invés do ser, a problemas
a usar métodos resolução de Rorty
crença em um como ocorrem
de investigação problemas é
universo aberto naturalmente.
científica é uma mais importante
que é dinâmico, A abordagem é
alta prioridade. do que ensinar
em evolução e em interdisciplinar e
assuntos
estado de tornar-se. reúne disciplinas
específicos,
curriculares
o uso de
para resolver
problemas
problemas.
centrados no
aluno como um
foco de ensino é
preferido.

97
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

O estudante
existencialista
A filosofia teria uma
existencialista Os existencialistas atitude
sustenta a acreditam que a questionadora
importância de educação deve e estaria
EXISTENCIALISMO
os seres humanos ser um processo envolvido em
(Séc. XIX, XX e XXI)
desenvolverem centrado nos uma busca
suas identidades estudantes contínua pelo
Centra-se na
pessoais e se tornarem eu e pelas
importância do · Jean-
determinarem autoatualizados. razões da
indivíduo em vez Paul Sartre
o que é e não A discussão é existência.
de nos padrões ·
é significativo encorajada, uma O professor
externos. A Friedrich
e digno. Os vez que todos existencialista
realidade nada mais Nietzsche
existencialistas estamos na iria oferecer ·
é do que a existência
acreditam que a mesma situação projetos que Maxine
vivida. Não há
maioria das escolas sem sentido, para incentivam Greene
nada absoluto, nem
são como símbolos que possamos os alunos a se
mesmo a mudança.
corporativos que aprender com as tornarem o que
Não há princípio ou
transformam preocupações, eles próprios
significado último.
os indivíduos perguntas e querem se
em objetos a escolhas dos tornar. O valor
serem medidos, outros. chave é que os
quantificados e seres humanos
processados. são livres para
fazer escolhas
(Axiologia).

98
RESUMO DO TÓPICO 1
Ao longo do Tópico 1, você estudou que:

• O renascimento consistiu na retomada dos valores e padrões estéticos, filosóficos


e culturais da antiguidade clássica greco-romana, que por sua vez colocavam o
homem no centro das preocupações.

• Entre os antecedentes que propiciaram as mudanças nos fundamentos do


pensamento pedagógico ocorridas na época renascentista e moderna estão as
invenções técnicas da prensa e da era das grandes navegações.

• A invenção da imprensa por Guttenberg impactou a cultura letrada, facilitando o


acesso a livros e proporcionando melhorias nos campos educacionais, assim como a
leitura individualizada e não mais intermediada e guiada por uma terceira pessoa.

• As grandes navegações possibilitaram o contato com regiões, matérias-primas e


culturas que até então não haviam sido exploradas e colonizadas.

• A Reforma Protestante estimulou a alfabetização da população europeia, bem como


a tradução de documentos nas línguas regionais e que até então somente eram
conhecidos nas línguas latinas e gregas.

• Os principais nomes da Reforma Protestante foram Martinho Lutero e João Calvino.

• A Contrarreforma, que foi empreendida pela Igreja Católica, prestigiou novas


ordens religiosas ligadas à educação, como a Companhia de Jesus, a Ordem do
Oratório e as iniciativas educacionais de Jean Batista de La Salle.

• Os intelectuais do século XVI pensavam a educação de um modo utópico,


idealista; já os intelectuais do século XVII pensavam a educação de modo realista,
demonstrando uma profunda preocupação metodológica.

• Entre os teóricos do realismo pedagógico estava Comenius, que com seus estudos
e teorias almejava fornecer um método universal que facilitaria o ensino do maior
número de conteúdos e conhecimentos, transmitidos de forma sólida e que
alcançaria o maior número de pessoas possível.

• John Locke defendeu em seus estudos que o homem constitui um sujeito, que a
natureza é fonte de conhecimento e que este deve ser adquirido por meio do
empirismo e da experiência.

• René Descartes, enquanto cientista e estudioso, propunha que um método deveria


ser seguido para obter a verdade na ciência, que, por sua vez, compreendia os
passos de ‘verificar’, ‘analisar’, ‘sintetizar’ e ‘enumerar’.

99
AUTOATIVIDADE

1- De que maneira é possível associar a Reforma Protestante e o processo de


alfabetização em massa de setores da população europeia?

2- É correto afirmar que no contexto de transformações de mudança da


sociedade feudal em sociedade moderna se deu a substituição dos discursos
religiosos pelos científicos e racionais em meio às concepções e mentalidades
e no imaginário da época; ao mesmo tempo, ocorreu o fenômeno de
laicização do Estado. Quais foram as implicações da composição de Estado
laico na formação dos governos? Analise as sentenças atribuindo V para as
verdadeiras e F para as falsas:
( ) A laicização consistiu na separação, emancipação política, institucional e
jurídica entre religião (Igreja) e política (Estado).
( ) O Estado passou a atuar de forma neutra, como um juiz de fora, o que por
sua vez não governa nem de forma favorável nem em prejuízo a qualquer
tradição religiosa.
( ) A laicização possibilitou a livre prática religiosa e de culto, e assim a prática
da religião católica deixava de ser obrigatória nos espaços escolares.
( ) O processo de laicização do Estado consistiu na criação de feriados, festas
e comemorações a partir da organização religiosa cristã.

Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:


a) V – V – V – V.
b) V – F– V – V.
c) V – V – F – V.
d) V – V – V – F.
e) F – V – V – V.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 1

Assista ao vídeo de
resolução da questão 2

100
UNIDADE 2 TÓPICO 2

A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO


NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

1 INTRODUÇÃO
A ideia de Estado sem religião oficial se estruturou e legitimou a partir
as revoluções liberais ocorridas ao longo do século XVIII. Burg, Fronza e Silva
(2013) explicam que quando o fato de o Estado ser laico significa que Igreja
não compõe mais o governo, outras esferas e instâncias da sociedade como a
educação, permaneceram sob o controle e tutela da Igreja, o que mudou a partir
da época moderna é que a Igreja não possuía mais o monopólio hegemônico
sobre a educação. O que passa acontecer também é que as instituições religiosas
precisavam se adaptar às exigências e normas do governo, que prescreviam os
conteúdos mínimos que deveriam ser ministrados. Isso implicava que as escolas
mesmo sendo confessionais deveriam ministrar os conteúdos de caráter científico,
ou seja, escolas religiosas ensinar sobre a Teoria da Evolução das Espécies proposta
por Charles Darwin.

O século XVIII foi um dos principais períodos em que a sociedade humana


viveu transformações profundas, verdadeiramente revolucionárias: o Iluminismo,
uma revolução no campo das ideias; a Revolução Industrial, uma verdadeira
transformação no campo da economia; a Revolução Francesa, uma transformação
no campo da política; e a Revolução Americana, que simbolizou uma alteração na
relação entre os países do mundo.

A sociedade estamental e o antigo sistema colonial eram os dois principais


pilares da dominação econômica e social. Por sua vez, a ideia de um direito divino
dos reis em comandar a plebe, e os resquícios de dominação feudal, com a maioria
da população vivendo nos campos, explicam quão revolucionários foram os eventos
que estudaremos. Pois teremos, com a Revolução Francesa, o fim da Sociedade
Estamental, com a Revolução Americana o fim do Antigo Sistema Colonial e, com
o Iluminismo, o fim da legitimação divina do poder real.

2 A SUPERAÇÃO DO ANTIGO REGIME E DO SISTEMA


COLONIAL E AS IMPLICAÇÕES NA EDUCAÇÃO

Uma primeira importante revolução existiu no campo das ideias e


a conhecemos por Iluminismo. Este influenciou a Revolução Francesa e a
Independência dos Estados Unidos da América.

101
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Uma das principais revoluções sociais ocorreu quando os Estados Unidos


da América se tornaram uma nação independente da Inglaterra. Tal revolução
é explicada pelo fim do Antigo Sistema Colonial. Isto é, as colônias americanas
deveriam ser submissas às metrópoles, sendo elas fornecedoras de lucros aos
europeus. Com o exemplo norte-americano, as antigas colônias espanholas e
portuguesas também se tornaram independentes das suas metrópoles, o que
ocasionou uma grande consequência para a história da educação. Pois, estes
Estados Nacionais que surgiram na América Latina tiveram de implantar um
sistema nacional de educação. Pela primeira vez, as elites políticas ibero-americanas
tiveram de se responsabilizar pela instrução de sua população.

A Revolução Francesa teve incomensurável importância para


compreendermos as transformações educacionais. A mesma se iniciou em 1789,
quando da Queda da Bastilha, um símbolo do Antigo Regime Monárquico e
termina quando Napoleão Bonaparte assume o poder francês e expande algumas
das ideias revolucionárias para os demais países europeus.

DICAS

FILME
Um filme interessante sobre a Revolução Francesa é Darton – o processor da revolução.
Estrelado pelo principal ator francês de sua geração, Gerard Depardieu, trata-se de uma
visão sobre a revolução tendo como protagonistas seus principais e opostos líderes: Darton
e Robespierre.

Uma das principais questões da Revolução Francesa que alterou a forma


de organização social foi o fim do sistema estamental do Antigo Regime, no qual a
sociedade era dividida em três estados. O primeiro, composto pelo clero, o segundo,
pela nobreza e o terceiro, pelos demais membros da sociedade, independente da
renda que possuíam. Mesmo que alguém fosse rico, teria menos direitos políticos
e sociais que os membros dos estamentos superiores. A Revolução Francesa aboliu
com este sistema de organização social, estabelecendo um processo de igualdade
de todos os indivíduos perante a lei, o que ficou explicitado no Código Civil
Napoleônico.

O fato de todos os seres humanos serem considerados iguais foi uma


revolução político-social de grande tamanho, com óbvios reflexos no campo
educacional, pois todos teriam direito de ter acesso à educação formal, não apenas
os que possuíssem dinheiro ou fossem membros da nobreza e clero. Deste modo,
após a Revolução Francesa se observa a construção de uma sociedade na qual o
acesso às carreiras de Estado, como o magistério, a justiça, as forças armadas e a
diplomacia, é tido através de méritos educacionais, simbolizados nos concursos
públicos. A Revolução observou grande importância à educação. Liderados por

102
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

Condorcet, os revolucionários estabeleceram comitês de educação pública. Após a


Revolução, se observou o aumento da oferta de educação para todos os cidadãos,
tanto na França quanto nos demais países do mundo.

Uma das revoluções já citadas foi a Revolução Industrial. Iniciada na


Inglaterra do século XVIII e originalmente ligada à indústria têxtil, a mesma se
expandiu ao longo dos séculos XIX e XX aos demais países do mundo, açambarcando
outras áreas da produção de objetos e máquinas, como a indústria metalúrgica,
avançando no presente momento a áreas tecnológicas de extrema complexidade,
como a informática e a nanotecnologia. A Revolução Industrial também possuiu
fortes implicações educacionais. Isto porque ela acabou por alterar a vida cotidiana
da maior parcela da população ocidental, pois, anteriormente, a mesma vivia
majoritariamente no campo, tendo um contato direto com a natureza. Nestes tipos
de comunidades rurais, a aprendizagem para o trabalho era mimética, ocorrendo
em contato com os pais e demais parentes que ensinavam às crianças as lides rurais.
As escolas, em geral ligadas às paróquias das igrejas, tinham como principal função
ensinar a ler e escrever, além de instruir as quatro operações matemáticas básicas.

A Revolução Industrial modificou a estrutura educacional do ocidente,


desde a pré-escola até o ensino de pós-graduação. Isto porque, antes da Revolução
Industrial, a educação da elite era realizada por preceptores (professores
particulares) em seu nível elementar, e nas universidades, ao longo do ensino
superior. Porém, a educação das elites foi profundamente alterada, com a
popularização de escolas elementares e colégios secundaristas. Ao mesmo tempo,
a educação das massas também foi alterada, com a criação de institutos de ensino
técnico, que visava à formação de mão de obra para as indústrias. A Revolução
Industrial também criou empregos de classes médias ligados diretamente às
fábricas, como técnicos industriais e engenheiros mecânicos.

Como podemos observar, as denominadas revoluções atlânticas foram as


principais propulsoras da alteração da relação do Estado Nacional com a educação,
pois, tiveram o impacto de forçar aos países ofertar educação para todos os cidadãos,
independente do credo religioso, posição social ou situação econômica.

3 OS PRINCIPAIS INTELECTUAIS E O PENSAMENTO DOS


EDUCADORES LEIGOS
Com a implantação do Estado moderno se instaurou todo um contexto de
políticas de fomento à popularização da arte e da cultura, que estas fossem de
fácil assimilação, circulação e consumo, bem como democratizar os espaços de
arte e cultura, museus, galerias, exposições, no sentido de aproximar o público dos
artistas, os produtores dos consumidores, ou oportunizar que a arte e a cultura
fossem de acesso ao maior número possível de indivíduos. Durante o século XVII,
coleções de curiosidade, difundidas por toda a Europa, receberam espaços em
museus, gabinetes ou câmaras de curiosidades. Nesses locais, que não pertenciam

103
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

mais somente à nobreza, encontravam-se quadros, esculturas, livros, instrumentos


científicos, objetos vindos de terras que estavam sendo exploradas, peças do
mundo natural, curiosidades em geral.

Um dos principais sinais do processo de laicidade da formação dos


sistemas educacionais das diferentes nacionalidades foi a exclusão de intelectuais
ligados diretamente a igrejas cristãs. Como afirmamos, temos a presença de
intelectuais leigos, isto é, não sacerdotes, porém, muitos dos pensadores da
educação nos séculos XIX e XX eram pessoas que tinham fé cristã. O fato de não
serem sacerdotes possibilitou a eles uma maior liberdade, por poderem inovar
em matéria educacional sem o perigo de sofrerem punições pelas hierarquias
eclesiásticas das igrejas que professavam suas crenças.

O princípio de uma divisão entre a Igreja e o Estado foi uma ampla


tendência no século XIX, pois a religião, que no Antigo Regime deveria ser expressa
publicamente pelos indivíduos, em rituais nos quais o poder político era legitimado
pelos clérigos, deixou de ser uma obrigação social. Por sua vez, a educação, que era
algo reservado à esfera privada e que não era considerada uma obrigação, passou
a ser uma das preocupações dos dirigentes sociais.

O amplo desenvolvimento das distintas ciências durante os novecentos


possibilitou uma nova forma de pensar o ser humano e suas relações sociais.
O evolucionismo, o socialismo, além do desenvolvimento da sociologia e da
psicologia enquanto ciências, possibilitaram aos homens uma nova forma de
pensar a realidade, uma nova sensibilidade em relação à infância e a possibilidade
do desenvolvimento de uma ciência voltada ao progresso educacional dos
indivíduos, materializada em escolas que seguiam novos conceitos educacionais.

Podemos compreender o surgimento de intelectuais que trabalharam com


temas educacionais como um indício da emergência histórica do laicismo, de uma
separação radical entre as questões da fé e as questões da política. Os intelectuais
a seguir citados não são gênios isolados, mas professores que souberam adequar a
tarefa educacional aos desafios de suas épocas.

Ao longo dos séculos XIX e XX, muitos intelectuais refletiram sobre as


transformações que a sociedade estava passando. Alguns destes pensadores
refletiram, sobre a importância da educação se adequar à nova sociedade
que estava sendo formada após as grandes transformações simbolizadas pela
Revolução Industrial e Francesa. Dentre os vários pensadores, neste momento,
iremos destacar três que tiveram maior relevância nos últimos duzentos anos:
Froebel, Pestalozzi e John Dewey (GADITTI, s.d.).

Froebel foi um dos importantes teóricos da educação moderna. As


suas ideias tiveram reflexos até o presente no que se concebe sobre as políticas
educacionais do ocidente. Froebel partiu do princípio que todo o ser humano nos
primeiros anos de vida é uma semente, que deve ser regada e fortificada para
poder crescer e ser um bom indivíduo. Por isso, ele foi o criador dos jardins de
infância, as unidades de educação infantil no qual as crianças têm a possibilidade
104
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

de serem socializadas protegidas pelos adultos, sem interferências do mundo


externo, que poderiam ser a elas uma má influência. Assim, o jardim de infância
é uma das principais ferramentas para a construção de um futuro melhor para
toda a sociedade, ao proteger as crianças das influências maléficas e possibilitar a
formação de pessoas com melhor saúde, caráter e inteligência.

Outro importante intelectual da educação do século XIX foi Pestalozzi,


educador suíço de grande destaque entre os intelectuais da educação. Uma
importância da revolução que Pestalozzi produziu na história da pedagogia foi sua
insistência em afirmar que mais importante que a acumulação de conhecimentos, a
educação deve ser capaz de formar indivíduos de forte caráter. (ARANHA; 1996)
O que hoje é um dado comum, porém, isto significou uma verdadeira revolução
em sua época.

FIGURA 22 - FROEBEL PESTALOZZI

JOHN DEWEY

FONTE: Disponível em: <http://c250.columbia.edu/c250_celebrates/


remarkable_columbians/john_dewey.html>. Acesso em: 13 fev. 2017.

105
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

No Século XX, tivemos vários intelectuais de destaque que pensaram as


questões educacionais. O destaque maior cabe ao estadunidense John Dewey.
Este intelectual foi o formulador do denominado escolanovismo. Este movimento
educacional tinha como uma das principais bandeiras o ensino integral. Isto é,
em um momento da história humana na qual os pais e as mães faziam parte do
mercado de trabalho, as crianças poderiam ficar o dia inteiro em escolas nas quais,
além da educação formal, receberiam atenção de educadores que forneceriam
alimentação, práticas esportivas e o contato com a tecnologia desenvolvida pelos
homens.

O escolanovismo teve uma preocupação justa com a qualidade da educação


e sua popularização, mas também em utilizar dos inventos do século XX nas escolas,
como o gramofone, o cinema e as projeções eletrônicas de imagens, como os slides.
Isto é, ao invés de se ter a tecnologia como uma inimiga das tarefas pedagógicas
cotidianas, os escolanovistas tiveram a percepção que estes inventos poderiam ser
utilizados como aliados no ato de ensinar às novas gerações o conhecimento.

John Dewey também se destacou como importante filósofo, ao propor uma


nova forma de pensar a realidade, o denominado pragmatismo. Para os filósofos
que seguem tal perspectiva de análise, as ideias deveriam ter sua relevância medida
por sua possível utilização prática. Na atualidade, Richard Rorty é o principal
seguidor no campo da filosofia das teorias pragmáticas.

4 O EXEMPLO DE HEGEL
Georg W. Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão, foi influenciado
pelas obras de Heráclito (353 a.C - 475 a.C), Espinoza (1632-1677), Kant (1724-
1804) e Rousseau (1712-1778), assim como pela Revolução Francesa e Napoleão
Bonaparte. Dedicou-se aos estudos do Idealismo Absoluto, procurou investigar
a relação entre mente e natureza, sujeito e objeto do conhecimento. Para tanto,
empreendeu estudos em história, arte, religião e filosofia.

Com a obra “Fenomenologia do espírito”, pretendeu mostrar que a ideia não


é seguir o acumular do desenvolvimento histórico da humanidade na dimensão
do tempo, mas de colher os momentos estratégicos, de vicissitudes e ideais
que são responsáveis por conferir desenvolvimento ao espírito. Para Hegel, o
desenvolvimento da realidade passa por três momentos fundamentais: o da ideia,
o da natureza e o do espírito.

O espírito é o absoluto, o complemento de todas as coisas, o ponto extremo


de síntese para a qual tende toda filosofia, ciência, religião e cultura. O espírito não
é transcendente em relação ao mundo, mas constitui seu complemento interno e
sua essência que é a liberdade. Para Hegel, o espírito subjetivo e o espírito objetivo
são a via pela qual se vai elaborando o espírito absoluto, cujas formas são a arte, a
religião e a filosofia.

106
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

Hegel apresenta também a unidade dos opostos, como princípio fundador


de uma nova lógica, no sentido de que esta é imanente, de modo que aquilo que
é real deve ser caracterizado pela unidade dos opostos. Para Hegel, o homem se
apresenta como um animal que não tem uma natureza determinada, mas que se
forma incessantemente. Seguindo este raciocínio, a história do passado não é capaz
de ensinar alguma coisa de útil ao momento presente, o que coloca Hegel distante
da doutrina “Historia magistra vitae”, que foi proposta desde os historiadores da
época antiga, como Heródoto, Tucídides e Cícero.

A história apresenta uma racionalidade própria, mas não deve apresentar


uma tendência na direção de um telos (fim, alvo) específico. Para Hegel, os ‘meios’
são mais importantes que os ‘fins’; ou seja, o navio, o automóvel e o trem são
mais importantes do que alcançar e chegar do outro lado do oceano, na cidade, e
qualquer destino traçado. Uma vez que se conta com tais recursos, pode-se trilhar
novos caminhos, percorrer outras distâncias, chegar a diferentes lugares.

A grande tese de Hegel reside na defesa de que o finalismo “ad usum


hominis” (para uso humano) não existe na natureza e, que quando existe na história,
não é por virtude da Divina Providência, mas unicamente pelos feitos das ações
humanas. E o fato de propor a relação de prioridade dos meios diante dos fins
distanciava-se do pensamento que havia sido proposto desde Maquiavel (1469-
1527), Voltaire (1694-1778) até Herder (1744-1803).

Para Hegel, a racionalidade está por trás de tudo no mundo e a filosofia


tem o poder de compreender a racionalidade da história. O pensamento capta
a racionalidade, mas substitui a noção de progresso linear por uma filosofia da
contradição, da dialética. O percurso dialético que resulta disso pressupõe uma
visão unitária e uma síntese do espírito por meio de suas múltiplas concretizações.

5 O CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO DE
DESENVOLVIMENTO DAS CIÊNCIAS E DISCIPLINAS
AUXILIARES
A partir da época moderna, a ciência alcançou uma autonomia e
emancipação nunca observadas em outros tempos históricos. As revelações,
verdades e metáforas religiosas, ou de senso comum ou mitologias e folclores que
desfrutavam de prestígio e autoridade no interior das sociedades, passam a ser
abordadas a partir do princípio da dúvida, do questionamento e das hipóteses
formuladas no campo da ciência e da racionalidade.

O percurso metodológico foi instaurado como o único procedimento


básico para alcançar a verdade, ou seja, o caminho do laboratório, da observação,
da análise, da descrição, da dedução, da comparação, da interpretação, da síntese,
da antítese e da tese seria o garantidor da veracidade dos novos conhecimentos
que estavam sendo produzidos.

107
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Os testes, os experimentos, tratamentos e medicamentos preventivos,


simulações, supervisionamentos, monitoramento, o isolamento e o controle em
laboratório, as cirurgias, as amputações, as incisões, as transfusões, as combinações,
os enxertos, os hibridismos, a criação de ambientes artificiais, as induções, o uso
de paliativos, isto tudo foi possível a partir da ciência moderna e possibilitou a
verificação específica, profunda e restrita tanto de objetos, fatos e fenômenos.

Como resultado deste cenário, obtiveram-se as descobertas e as invenções
do termômetro clínico, lentes de A. Fresnel (1788-1827), a anestesia, a teoria da
evolução das espécies de Charles Darwin (1808-1882), teoria microbiana de L.
Pasteur (1822-1895) e P. V. Gautier (1846-1908), teoria atômica de J. Dalton (1766-
1844), e a teoria psicanalítica de Sigmund Freud (1856-1939).

As interpretações estatísticas e demográficas foram responsáveis por


servir de base de dados e desencadear ações e práticas aos estados em termos de
saneamento básico, como oferecer água encanada, canalização de esgotos, controle
de epidemias e doenças, construção de hospitais, laboratórios, escolas, orfanatos,
asilos, cemitérios, entre outros.

O desenvolvimento de ciências auxiliares para a educação foi um dos sinais


que ganhou importância e prestígio social, em especial no final do século XIX e
na primeira metade do século XX. Duas delas são de importância incalculável
para o desenvolvimento de melhores formas de educar os jovens: a sociologia e a
psicologia da educação.

O termo “ciências auxiliares”, por vezes, é criticado, pois alguns autores


observam que existe uma multiplicidade de temas educacionais e que somente uma
abordagem interdisciplinar poderia realmente ser capaz de vencer os diferentes
desafios da educação na contemporaneidade. Todavia, o que se pretende ao ainda
utilizarmos o conceito “ciências auxiliares”, é observar a importância da educação
como forma de estudo para diferentes áreas das ciências humanas e sociais.

5.1 SOCIOLOGIA: A CIÊNCIA DA SOCIEDADE


O surgimento da sociologia enquanto ciência ocorreu no século XIX. Augusto
Comte, formulador da filosofia positivista, foi o autor da ideia de uma nova ciência
de estudar a sociedade, o “sócio-logos”, que em sua origem etimológica define sua
função, pois logos, no grego, quer dizer justamente conhecimento, estudo ou ciência
sobre algum tema. Todavia, os estudiosos reconhecem três grandes fundadores da
sua especialidade: Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim.

Augusto Comte (1798-1857) foi politécnico organizador, bem como hostil ao


pensamento socialista/marxista e de quem fosse inimigo da propriedade privada.
Possuía como objetivo fundar uma ciência social, que deveria ser chamada de
física social ou sociologia. No pensamento de Comte, somente com a síntese das
ciências e com a criação de uma política positiva se daria conta de analisar conflitos
e as contradições sociais e propor reformas e soluções.
108
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

O principal ponto de partida residia no próprio século XIX, que almejava


superar a tradição teológica e favorecer a transição a uma sociedade científica
e industrial. Os principais temas que interessaram a Comte foram a filosofia da
História, a classificação das ciências e física social ou sociológica. Para tanto,
escreveu as obras Curso de filosofia positiva – seis volumes (1830-1842), Discurso
preliminar sobre o espírito positivo (1844) e Sistema de política positiva – quatro volumes
(1851-1854).

Comte defendeu a lei dos três estados os quais o espírito humano percorre
em seus estágios de desenvolvimento: estado teológico ou fictício (fenômenos
sobrenaturais); estado metafísico ou abstrato (fenômenos da natureza); e o estado
científico ou positivo (fatos e leis que determinavam a realidade): maneira de
pensar positiva. Vamos analisar com mais detalhes como funcionava a filosofia
histórica das ‘leis dos três estados’ que Comte formulou e procurou explicar.

O conhecimento positivo se caracterizou pela previsibilidade; o “ver para


prever” que funcionou como lema da ciência positiva. A previsibilidade científica
permitiria o desenvolvimento da técnica e, assim, o Estado corresponderia ao pleno
desenvolvimento industrial, no sentido de exploração da matéria-prima (recursos
naturais) e do trabalho do homem. Neste estado, Comte determinou que o poder
do conhecimento passaria para os sábios e cientistas e o poder material para as
indústrias e os industriais, configurando assim o desenvolvimento científico e
tecnológico.

No pensamento positivista de Comte, a civilização material só poderia


se desenvolver se cada geração produzisse mais do que o necessário para sua
sobrevivência, transmitindo assim à geração seguinte um estoque de riqueza maior
do que o recebido da geração anterior.

Comte foi um organizador que desejava manter a propriedade privada e


transformar seu sentido, para que, embora exercida por alguns indivíduos, tivesse
também uma função social (catolicismo social).

Para Comte, as ciências libertavam o espírito humano da tutela exercida


sobre ele pela teologia e pela metafísica, e que a partir de então tendia a se prolongar
indefinidamente. Consideradas no presente, elas deveriam servir, seja pelos seus
métodos, seja por seus resultados gerais, para determinar a reorganização das
teorias sociais. Consideradas no futuro, constituiriam a base espiritual permanente
da ordem social, enquanto durar a atividade da nossa espécie no planeta.

Karl Marx (1818-1883) foi um dos mais influentes pensadores surgidos


no século XIX, a ponto de surgir um Estado nacional, a União Soviética, que foi
desenvolvida em torno de suas ideias. A principal obra de Marx foi o livro "O
capital", no qual demonstrou o desenvolvimento da economia capitalista. Outro
livro importante foi o "Manifesto do Partido Comunista", no qual revelou seu ideal
de sociedade, no qual as diferenças entre as classes sociais não mais iriam existir.

109
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

O marxismo inspirou grandes pedagogos em diversos lugares no mundo.


No caso específico do Brasil, podemos citar os nomes de Paulo Freire e Darcy
Ribeiro, como profissionais da educação influenciados pelo ideal do denominado
materialismo dialético. A principal ideia de Marx é que a história humana se
transforma através da luta de classes. No tocante à educação, a ideia de que a
educação escolar nos países capitalistas está a serviço do poder político-econômico
foi a grande denúncia marxista em relação à área educacional (GADOTTI, s.d).

O centro do pensamento de Karl Marx reside em compreender e denunciar


as contradições do regime capitalista. As principais influências teóricas de Marx
são as do idealismo alemão de Hegel e seus seguidores, os estudos de economia
política inglesa feitos por Adam Smith (1723-1790), Jean-Baptiste Say (1767-1832)
e David Ricardo (1772-1823), o socialismo utópico francês representado por Saint
Simon (1760-1825), Jean-Baptiste Fourier (1768-1823) e Robert Owen (1771-1858).

Quando Marx entra na universidade, o universo acadêmico e científico


da época era dominando pelas ideias de Hegel. Foi da tese de Hegel de que “a
consciência é que determina a existência”, que Marx retirou a sua principal chave
de entendimento e explicação do seu momento histórico, mas agora, com Marx, na
perspectiva inversa, a de que é “a existência que determina a consciência”.

Para Hegel, a racionalidade está por trás de tudo no mundo e a filosofia tem
o poder de compreender a racionalidade da história, ou seja, o pensamento capta a
racionalidade da história. Para Marx, Hegel e todos os filósofos estavam alienados
e poderiam ser chamados de a-históricos, e, segundo suas teses, as características
da história seriam sempre as mesmas em todas as épocas, a natureza humana
era somente crítica; procuravam mudar, transformar o mundo com filosofias e
teorias. Marx, em contrapartida, defendia que o mundo não se transforma com
o pensamento, com críticas, o mundo se transforma pela ação politicamente
orientada, que ele preferiu chamar de práxis, e que se faziam necessárias tanto a
explosão como a revolução das antigas estruturas.

Marx, ao longo da vida intelectual e financeira, contou com a ajuda de


Friedrich Engels (1820-1895). No livro "A ideologia alemã", de 1846, ambos abordam
as bases do materialismo histórico e procuram, ao longo da obra, defender que o
homem é fruto do seu trabalho e das relações de produção, e não da vida espiritual
e intelectual que leva. Para Marx, o trabalho é o que diferencia e distingue os seres
humanos de outras espécies.

A concepção de História defendida por Marx e Engels residia no fato de


que estão na vida material, no modo de produção e na estruturação da sociedade
civil as chaves de entendimento de todo o processo histórico, e que ao invés de
resultar em ‘emancipação e autonomia’ do homem, como foi defendido pelos
iluministas e idealistas, o que ocorre é a exploração e a ‘alienação’ dos indivíduos.
Com a defesa destes termos, Marx e Engels foram responsáveis por tecer as críticas
mais expressivas às teorizações defendidas anteriormente tanto por Kant como
por Hegel.

110
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

UNI

SÍNTESE
De forma resumida, o paradigma marxista apresenta a seguinte perspectiva de história:
• a realidade social é mutável;
• a mudança está submetida a leis que se encaixam em outras leis históricas;
• as mudanças tendem a momentos de equilíbrio relativo.

Platão (428-347 a.C) e Aristóteles (384-322 a.C) já discutiam a noção de dialética,


sob a nomenclatura de a ‘arte da conversação’, mas restringiam-se ao universo
especulativo e idealista que trata do movimento universal e de transformação
constante das coisas, que já havia sido contemplado nos estudos de Hegel.

A concepção de ‘materialismo dialético’ que Marx e Engels desenvolveram


é oriunda dos estudos de Ludwig Feuerbach (1804-1872) presentes nas obras
“Essência do cristianismo” e “Pensamentos sobre a filosofia do futuro”, escritos entre
1841-1843; que, somada à tradição de antagonismo social latente desde a Revolução
Francesa, ao contexto de industrialização, da formação dos movimentos operários
(cartismo e ludismo), forneceu a base de referências para que Marx e Engels
desenvolvessem a questão com propriedade.

Marx e Engels aproveitam os elementos racionais da dialética de Hegel,


negam a dimensão idealista e a adaptam à práxis social, reconhecem a vida cotidiana
e o modo de produção como responsáveis pela transformação da consciência e
da subjetividade dos indivíduos. Os fenômenos materiais e mecanicistas passam
a ser entendidos como os verdadeiros responsáveis pelo desenvolvimento das
atividades humanas; tendo em conta estes pressupostos, acabavam por refutar
tanto a tradição idealista como a tradição moral religiosa, que visavam meramente
observar e constatar os fenômenos sociais.

A pauta da discussão do materialismo dialético residiu na proposta de


que o método utilizado para compreender os fenômenos da natureza e gerar
conhecimento deveria ser o dialético, e a interpretação, a base conceitual de
verificação deste conhecimento, de natureza materialista. A noção central residia
no fato de que o desenvolvimento de qualquer atividade humana se dava a partir de
contradições. No caso dos estudos do marxismo, os elementos que protagonizavam
esta contradição foram o proletariado e o capitalista/burguês.

Para ilustrar esta abordagem da realidade, Marx e Engels partiam do


raciocínio de que o homem tem necessidade de comer e beber, ou seja, de sobreviver
antes de filosofar ou expressar-se artisticamente; o restante (Estado, instituições
civis, religiões, cultura...), se desenvolveria no prolongamento. Primeiro os homens
almejavam satisfazer suas necessidades básicas: a vida material determina a vida
intelectual; o ser social determina a consciência social; o material determina o
espiritual e os assuntos sociais.
111
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

A sociedade, os fatos e os acontecimentos sociais deveriam ser tomados


na sua totalidade; a economia entendida como a responsável por organizar as
estruturas básicas da sociedade; a política e a cultura estabeleciam as formas
históricas de gestão econômica. Em meio a este contexto de determinações, o
materialismo dialético serviria como referência tanto como categoria de análise,
como de orientação teórica à ação prática da política revolucionária.

Outro intelectual alemão a ser considerado cofundador da sociologia foi


Max Weber, autor de dois livros basilares no tocante à sociedade contemporânea.
Segundo Weber (1982), cada indivíduo age levado por um motivo e se orienta
pela tradição (conduta social orientada pelas tradições), o que quer dizer que cada
indivíduo mobiliza suas ações e interesses racionais e se realiza pelo campo da
emotividade e da subjetividade. Logo, um pesquisador deveria lançar mão do que
é de natureza particular, daquilo que permite identificar na sua peculiaridade na
configuração panorâmica da cultura, e para tanto deveria lançar mão do método
compreensivo, isto é, um esforço interpretativo que percebe as tradições e sua
repercussão nas sociedades contemporâneas.

Em A ética protestante e o espírito do capitalismo, relaciona o ideal de


salvação das igrejas protestantes, vinculadas à vida sóbria, ligadas a ideias como
moral elevada e trabalho, que estão em afinidade com os valores do capitalismo,
dependente de funcionários competentes, pontuais e ordeiros. Este aspecto foi
denominado por Weber como ascese laica ou ascetismo intramundano, pois, se o
catolicismo pregava que para ter uma vida santa, longe dos prazeres pecaminosos,
o cristão deveria se isolar do mundo, vivendo em um convento, o protestantismo
afirmava que o ideal de santidade deveria ser perseguido no confronto cotidiano
com o mundo.

Outras duas questões apontam afinidades do cristianismo protestante com


o capitalismo. O primeiro é: para o catolicismo, o lucro é um pecado denominado
usura. Para o protestantismo, este pecado não existe, pois, como afirmava Calvino,
as relações comerciais que envolvem lucro não são conquistadas através de
coação, mas sim através da troca. Também, para o protestantismo, a prosperidade
econômica não era um sinal de contradição com a fé, mas sim o sinal de uma
bênção divina.

Em relação à educação, a principal contribuição weberiana foi o estudo


sobre a burocracia. Pois, para Weber, é a burocracia um dos sinais da sociedade da
modernidade, pois o racionalismo que a burocracia emprega depende em muito
da formação escolar de uma classe de técnicos capacitados para gerir os bens
públicos ou privados. Uma classe gerencial, que Weber definiu como Estamento
Burocrático, é a principal camada dirigente das instituições privadas ou estatais
contemporâneas. Isto em parte explica a importância que as classes dirigentes
ofertam para a educação, pois será entre os que receberam maior instrução, os
melhores cargos. Esta perspectiva formou um verdadeiro ethos educacional nas
sociedades do Ocidente.

112
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

O último dos sociólogos que iremos citar, neste tópico, foi um dos mais
importantes para o estabelecimento da sociologia da educação como disciplina do
conhecimento humano. Émile Durkheim foi o principal formulador da sociologia
como ciência, ao possuir uma cátedra desta ciência na Universidade de Paris-
Sorbonne e ser o escritor do livro As regras do método sociológico. Sua importância
para a história da educação se mede ao ser Durkheim o principal formulador
da sociologia da educação enquanto ciência humana. Hoje, jamais se pensaria
a educação apartada das realidades nas quais as famílias e as escolas estão
presentes. Porém, a influência iluminista e cristã de alguns teóricos do século IX
não compreendia que as diferenças sociais são parte importante ao se pensar a
educação na contemporaneidade (GADOTTI, s.d. 113-115).

Para o autor, o indivíduo na fase da infância nada mais é do que uma tábula
rasa e diante disto a escola, as instituições de ensino e o sistema educacional devem
atuar no sentido de preencher aquela criança de forma adequada ao convívio em
sociedade de forma mais integrada e adequada possível. Estudiosos analisam estas
ideias de Durkheim e o nominam de conservador, no ponto em que compreendia
a escola como simplesmente uma instituição de ajuste e não de transformação da
sociedade.

A disciplina de sociologia da educação tem contribuído de forma


significativa no sentido do reconhecimento e da importância do fazer educacional.
Os estudiosos da sociologia se esforçam em fazer análises e trabalhos críticos
que indicam os limites e impasses no campo educacional. Na atualidade têm-se
os trabalhos do estudioso argelino Pierre Bourdieu, que se dedica a denunciar os
mecanismos e modelos de ensino que tendem a tornar a escola um mero local
reprodução dos conteúdos

Como os estudiosos da filosofia foram responsáveis por formular escolas


filosóficas que ultrapassam os tempos históricos, os estudiosos da sociologia
também contribuíram com a formação de correntes sociológicas que perpassam o
pensamento filosófico, social, histórico e educacional. Para facilitar o entendimento
das principais correntes sociológicas e a relação que possuem com as demais áreas
do conhecimento, atente para o quadro a seguir:

113
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

QUADRO 5 - PRINCIPAIS CORRENTES SOCIOLÓGICAS

CORRENTES PRINCIPAIS
PRESSUPOSTOS
SOCIOLÓGICAS REPRESENTANTES
* Toda sociedade é um sistema constante
e estável de elementos (hipótese de
estabilidade).
* Toda sociedade é um sistema de
equilíbrio de elementos (hipótese de
equilíbrio).
* Cada elemento dentro da sociedade
contribui ao funcionamento dela (hipótese
Augusto Comte
do funcionalismo);
Émile Durkheim
* Cada sociedade se mantém graças ao
Talcott Parsons
consenso de todos os seus membros acerca
POSITIVISMO/ Niklas Luhmann
de determinados valores comuns (hipótese
FUNCIONALISMO Louis Althusser
do consenso).
(Séc. XIX)
* Valoriza as instituições, as funções, a
estrutura, a ordem social.
* Visão dialética que privilegia o aspecto da
mudança histórica, dos processos sociais.
* Toda sociedade e cada um de seus
elementos serão submetidos em todo
o tempo à mudança (hipótese da
historicidade).
* Toda sociedade é um sistema de
elementos contraditórios em si e explosivos
(hipótese da explosividade e revoluções).
Karl Marx
* Cada elemento dentro da sociedade
MARXISMO- Friedrich Engels
contribui para sua mudança (hipótese da
SOCIOCRÍTICA Antonio Gramsci
disfuncionalidade).
(Séc. XIX e XX) Karel Kosik
* Toda sociedade se mantém graças à
Georges Snyders
coação que alguns de seus membros
exercem sobre os outros (hipótese da
dominação).

114
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

* A realidade consiste em uma totalidade


inter-relacionada, interdependente,
multidimensional, que propõe a conquista
de uma nova percepção sistêmica, pós-
cartesiana, ainda em gestação.
* O universo é uma totalidade integrada
na qual tudo está conectado, e onde o todo
é mais que o conjunto das partes que o
compõem.
* Superação da dicotomia entre as ciências
naturais/sociais; observador e objeto
observado.
* O homem como ser indiviso,
multidimensional cérebro/espírito/mente e
corpo. Anthony Wilden
* Todo conhecimento visa constituir-se em Edgar Morin
senso comum, principalmente com aquele Isabelle Stengers
construído no cotidiano, que busca orientar Fritjof Capra
COMPLEXIDADE
e dar sentido à vida. Humberto Maturana
(Séc. XX e XXI)
* O senso comum integra ação e
intencionalidade; é prático, transparente,
interdisciplinar.
* O senso comum reinterpretado pelo
conhecimento científico pode ser a porta
para a nova racionalidade.

FONTE: Os autores

5.2 A PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO


A psicologia e a psicanálise, enquanto ciências surgiram num contexto
semelhante ao da sociologia, dentro os teóricos que foram responsáveis por
formular o estatuto, o campo de estudos, de pesquisa e de atuação destas ciências
foram Sigmund Freud e Jacques Lacan. Estes autores se preocuparam em pensar
o ser humano, na dimensão de seu comportamento, atitudes, sentimentos e as
estruturas psíquicas tendo como referência métodos e procedimentos científicos e
não mais a moral religiosa cristã.

Freud, que é considerado o pai da psicanálise foi responsável por escrever


"O mal-estar da Civilização" e a "Interpretação dos sonhos". Um dos temas em que se
debruçou foi a pulsão sexual, que é fundamental no sentido de compreender a
construção da personalidade das pessoas. Para Freud existe o estágio oral, que
se desenvolve desde o nascimento até 1 ano de idade e a zona erógena é a boca; a
fase anal, que se desenvolve entre 1 até 3 anos de idade, que possui as entranhas
e a bexiga como regiões erógenas, a fase fálica, entre os 3 e 6 anos de idade, em
que a zona erógena são os genitálias; a fase de latência, entre 6 anos e o início da
puberdade, em o libido fica em grande parte numa posição secundária; fase genital,
da puberdade à morte, quando que ocorre o interesse e a escolha sexual. Segundo
Freud, a pulsão sexual, a libido propriamente dita, compreende um desejo íntimo
e uma das principais forças vitais do ser humano.

115
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

No que diz respeito à psicologia da educação, os principais teóricos que


teceram teses e estudos aos temas pertinentes foram Vygotsky e Piaget. Os dois
autores pesquisaram a capacidade de abstração e pensamento especulativo,
primordial ao desenvolvimento humano.

5.3 O IMPASSES DO PROCESSO DE LAICIZAÇÃO E DA


RACIONALIZAÇÃO
O processo de implantação das ideias iluministas, modernas, laicas e
racionais não se deu de forma pacífica e de aceitação unânime, e formas de
resistência podem ser registradas tanto em países católicos como em países
protestantes. O século XIX foi um momento histórico em que diversas formas de
resistência à modernização e racionalização foram registradas, um exemplo pode
ser o do sacerdote católico Dom Bosco (1815-1888), que contribuiu na formulação
da rede salesiana de ensino, que visava atender crianças e jovens que origem
humilde e que se encontravam em condições de abandono e violência na Itália.

Nas regiões de maior presença das tradições protestantes, ocorreram


conflitos no campo escolar onde se dava o ensino da origem do homem, sendo que
as unidades escolares ministravam as teorias evolucionistas de Charles Darwin.
Nos Estados Unidos da América, cuja articulação religiosa era forte e politicamente
legitimada, ocorreu um caso peculiar, o professor de ciências John Scopes sofreu
processo por ensinar as teorias onde atuava. Neste caso, o professor obteve a vitória
e seu exemplo foi utilizado como inspiração em outras nações (OLSON, 2001).

O processo de laicização do Estado e da sociedade foram responsáveis


para contribuir no sentido de ampliar o alcance da educação e da alfabetização.
Na atualidade, este modelo apresenta limites, e as questões religiosas não são o
centro dos debates e sim como melhor ensinar, as melhores formas de promover
aprendizagem, pois os desafios são muitos, em especial os que são oriundos
do mundo do trabalho, que se encontra em constante transformação, as novas
realidades sociais, as diferentes configurações de família entre outras questões.

5.3.1 O Movimento do romantismo


O Romantismo, ao se expressar, utilizou-se de metáforas que eram
oriundas do campo da natureza, da poesia, do fantástico e do encantado, do
folclore e do místico. Com estes recursos procurava denunciar o rigor da razão,
do academicismo, do classicismo, dos regulamentos, normas, condutas, das
demais regras e imposições que vinham ganhando espaço desde o Iluminismo e a
Revolução Industrial.

Conforme Abbagnano (2007), o significado comum do termo "romântico",


que significa "sentimental", valorizou o sentimento, que fora ignorado na

116
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

Antiguidade Clássica e que foi reabilitado pelo Iluminismo do século XVIII, no


sentido de que se fazia necessário conciliar razão e fé, conteúdo e forma, matéria e
espírito, experiência e sentido. O movimento do Romantismo estava relacionado ao
sentido de valorizar os aspectos do inconsciente, os instintos, o lirismo, o melódico,
o dramático, a liberdade criativa, a paixão, o desejo por ideais e pelo inatingível, do
misticismo, indianismo, da boemia, vida noturna, entre outros hábitos.

Esta corrente artística foi inserida em um momento em que ocorreram outras


mudanças no contexto da sociedade dos séculos XVIII e XIX, entre elas, o processo
de massificação da leitura e da palavra escrita. As produções de intelectuais – como
Karl Marx – apresentavam novas formas de compreender e denunciar a realidade
social, numa perspectiva de preencher o ambiente crítico e que tendeu proceder
a uma leitura crítica e dialética da sociedade, e esta foi feita contra a promessa de
progresso e felicidade pura e simples contida na modernidade. O Romantismo
reuniu adeptos das mais diversas áreas do conhecimento, da literatura, da música,
das artes plásticas. Enquanto Marx descobria o socialismo, na Paris de 1840, T.
Gautier (1811-1872) e Flaubert desenvolviam sua mística da “arte pela arte”.

5.3.2 O exemplo de Friedrich Nietzsche


A laicização no campo político e público afetou as relações humanas, com
a natureza e as dimensões espirituais, que por sua vez favoreceu o processo de
secularização da sociedade, que consistiu no movimento da distinção, separação,
distanciamento entre o campo da fé, do espiritual, do religioso, do sagrado e do
eterno (poder invisível) em relação ao campo do temporal, do método, do racional,
do profano e do leigo (poder visível e palpável). O pensador Friedrich Nietzsche
(1844-1900) procurou definir como “a morte de Deus” e “o advento do niilismo”.
Nietzsche (2012, p. 125) afirma que:

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!
Como haveremos de nos consolar, nós, os algozes dos algozes? O que o
mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu
exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse
sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo,
que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato
não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios
deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais
grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte,
mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!

Nietzsche (2012) discutiu que sentimento de niilismo deve ser entendido


juntamente com as noções de “desvalorização dos valores” e “a morte de Deus”, que
foi ocasionada pelo afastamento dos valores sagrados e espirituais das explicações
e formulações humanas, e em especial a dissociação entre o mundo visível e
sensível, com a supervalorização do primeiro diante do segundo, produzindo
assim uma espécie de vazio existencial.

117
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

DICAS

CONCEITO
O Niilismo está relacionado aos sentimentos de descrença e desengajamento diante da
promessa de progresso e realização/felicidade humana, contidos no interior dos projetos
modernos globalizantes/totalizantes ou grandes narrativas que se pretendiam e apresentavam
como atemporais e universais, nos esquemas de verdade, liberdade e igualdade, história,
progresso e felicidade, razão, revolução e redenção, ciência, industrialismo e bem viver. Que
por sua vez desabilitavam as experiências históricas contidas no passado e reconheciam
somente como campo e horizonte do presente e do futuro como o terreno de realização
humana primordial.
Nietzsche empregou o conceito também para qualificar sua oposição radical aos valores
morais tradicionais e às tradicionais crenças metafísicas, na qual o niilismo não é somente
um conjunto de considerações sobre o tema “tudo é vão”, não é somente a crença de que
tudo merece morrer, mas consiste em colocar a mão na massa, em destruir. E o filósofo
aponta que as gerações que sucederam a geração da modernidade nasceram em meio a
esta noção de sociedade.
A noção de niilismo causava certo deslocamento nas formulações mentais de sentido do
ser humano, causando certa secura espiritual e existencial.

5.4 TRANSFORMAÇÕES DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL NO


CONTEXTO EDUCACIONAL
Com relação ao contexto histórico desta época, pode-se afirmar que a
Revolução Industrial foi marcada pela produção capitalista, que introduziu a
máquina a vapor, a modernização dos métodos de produção, desintegrou costumes
e introduziu novas formas de organização da vida social. Por outro lado, ocorreu
a transição da produção artesanal para a manufatureira e desta para a produção
fabril, a migração do campo para a cidade; o fim da servidão; o desmantelamento
da família patriarcal; a introdução do trabalho feminino e infantil. O crescimento
demográfico das cidades sem a devida infraestrutura básica favoreceu a formação
de cortiços e favelas, o aumento das condições degradantes de vida, da prostituição,
suicídio, alcoolismo, violência, epidemias. O aparecimento do empresário
capitalista, que concentrou as máquinas, as terras e as ferramentas de trabalho; e
do proletariado, que foi submetido a severa disciplina, como novas classes sociais.

A produção capitalista, que introduziu a máquina a vapor, e a modernização


dos métodos de produção desintegraram costumes e introduziram novas
formas de organização da vida social: a transição da produção artesanal para a
manufatureira e desta para a produção fabril; a migração do campo para a cidade;
o fim da servidão; o desmantelamento da família patriarcal; a introdução do
trabalho feminino e infantil. O crescimento demográfico das cidades sem a devida
infraestrutura básica (cortiços, favelas, entre outros) proporcionou o aumento da
prostituição, o suicídio, o alcoolismo, a violência, as epidemias etc.

Observe no quadro abaixo, outras invenções que acompanharam o processo


de revolução industrial:

118
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

QUADRO 6 - INVENÇÕES E INVENTORES DE TECNOLOGIA

ANO APROX. INVENTOR INVENÇÃO


1855 Isaac Merritt Singer Patenteia a máquina de costura
1855 Georges Audemars Inventa o Rayon
1866 Alfred Nobel Inventa a dinamite
1868 Christopher Latham Sholes Inventa a máquina de escrever
1868 George Westinghouse Inventa o freio a ar
1868 Robert Mushet Inventa o aço
1873 Levi Strauss Inventa a calça jeans
1869 Dmitri Mendeleyev Monta a Tabela Periódica
1876 Alexander Graham Bell Telefone
1877 Eadweard Muybridge Inventa a câmera de filmagem
Lâmpada Elétrica – inventa a lâmpada
1879 Thomas Alva Edison
com filamento de carbono incandescente
Vacinas – produz vacina contra o antraz
1881 Louis Pasteur
e a raiva
1888 Heinrich Hertz Produz as primeiras ondas de rádio
1900 Ferdinand von Zeppelin Primeiro dirigível de estrutura metálica

FONTE: Os autores

UNI

CURIOSIDADE: MUSEUS
O primeiro museu público, o Asmoleum Museum, foi aberto em 1683, na Inglaterra e
encontrava-se vinculado à Universidade de Oxford, mas possibilitava visitação somente a
artistas e estudiosos. Foi a partir da Revolução Francesa, no século XVIII, que os museus
ganharam caráter popular propriamente dito, em especial surgem os grandes museus
nacionais, voltados à educação e esclarecimento do povo. O Museu do Louvre foi aberto na
França em 1793. Em 1810, surge o Altes Museum, de Berlim, na Alemanha, o Museu do Prado,
na Espanha, em 1819, e o Museu Hermitage de Leningrado, na Rússia, em 1852.

As manifestações de revolta dos trabalhadores foram da destruição das


máquinas, sabotagem, explosão de algumas oficinas, roubos e crimes, formação
de sindicatos. Nesta trajetória, produziram jornais e literatura, exercendo a crítica
à sociedade capitalista e inclinando-se para o socialismo como alternativa de
mudança. A tarefa dos pensadores deste período foi a de racionalizar a nova ordem,
encontrando soluções para o estado de ‘desorganização’ existente, conhecendo as
leis que regem os fatos sociais.

Determinados pensadores da época estavam imbuídos da crença de que era


necessário introduzir uma certa ‘higiene’ na sociedade e fundar uma nova ciência.
A sociologia assumia como tarefa intelectual repensar o problema da ordem social,

119
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

enfatizando a importância de instituições como a autoridade, a família, a hierarquia


social, destacando a sua importância teórica para o estudo da sociedade.

Sabe-se que a capacitação intelectual não cessou de avançar ao longo dos


últimos 200 anos, quando carrega um processo de declínio das ocupações única e
exclusivamente braçais e, em contrapartida, a legitimação do processo produtivo
mecanizado, automatizado e robotizado (ARANHA, 1996). Foi no contexto
da Revolução Industrial que cada vez mais foi dada ênfase à educação técnica.
Durante o denominado Antigo Regime Europeu, período que inicia na baixa Idade
Média e finda com a Revolução Francesa, os objetos eram produzidos através das
corporações de ofício.

Portanto, algumas profissões tradicionais existiam, como as de sapateiros,


relojoeiros, carpinteiros etc. Com o incremento da produção industrial destes
objetos fabricados por estes artífices citados, como sapatos, relógios e móveis para
o lar, o aprendizado para o ingresso em uma indústria passa a ser realizado não em
corporações, nas quais aprendizes aprendiam com mestres mais antigos no ofício,
até que se especializavam e, deixando de ser aprendizes, se tornavam oficiais e
posteriormente mestres.

A formação necessária à preparação do trabalhador da indústria solicitava


a realização em escola técnica, na qual o aluno aprende as rotinas industriais,
até ser capaz de atuar como técnico qualificado para determinada função, pois a
mecanização da produção é uma tendência constante no capitalismo, sendo assim
presente a necessidade de técnicos que cuidem das máquinas, que substituíram a
tração animal ou o braço humano na confecção dos mais distintos produtos. Em
geral, o ensino técnico é voltado para as camadas mais baixas da população dos
diferentes países industrializados, pois muitos observam no trabalho industrial
especializado uma chance de ascensão para a classe média.

DICAS

LITERATURA
Para melhor compreender o contexto histórico das mudanças na sociedade, nas áreas política
e cultural, iniciadas na época moderna, observe as sugestões de livros e filmes que fazemos
abaixo:
Os miseráveis, escrito por Victor Hugo (existe em filme também)
Germinal, de Emile Zola (existe em filme também)
Madame Bovary, de Gustave Flaubert (existe em filme também)
Senhores e camponeses, de Leon Tolstoi (existe em filme também).

120
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

5.5 OS IMPACTOS DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL NO ENSINO


SUPERIOR
O ensino superior sempre representou um ponto de grande disputa entre os
mais diferentes indivíduos da sociedade, por ser uma das condições pelas quais o
indivíduo consegue galgar outras posições sociais. Em especial, quando os índices
de abandono escolar são registrados no ensino médio, e quando o ensino médio é
concluído de forma satisfatória mediante de custeio familiar. Outro fator agravante
reside no fato de que os estudos universitários são oferecidos em horários como o
matutino e vespertino o que inviabiliza que trabalhadores os frequentem. Diante
disto, eis que o ensino superior acaba sendo uma condição acessada somente
por pessoas oriundas de grupos sociais abastados. Diante da necessidade de
especialização da mão de obra no interior das fábricas e indústrias, em especial nas
áreas da engenharia, surgem núcleos de inovação e desenvolvimento tecnológico.

DICAS

INSTITUIÇÕES
No Brasil, a educação técnica é presente em diversos Estados, tanto com Institutos Federais
e estaduais, que formam técnicos nos mais diversos ramos da indústria e dos serviços, como
o sistema “S” (SESI, SENAI, SENAC etc.), que primam pela qualificação da mão de obra.
Inclusive, um ex-presidente da República, Lula, frequentou uma destas escolas de formação
profissional.

5.6 A EDUCAÇÃO NOS PAÍSES AUTORITÁRIOS: O


COMUNISMO E O NAZI-FASCISMO
O século XX foi marcado por inúmeras situações que colocaram em xeque
o processo de desenvolvimento que se havia alcançado, entre elas encontram-se as
guerras mundiais e as péssimas condições de vida das populações em determinadas
regiões do mundo. As dificuldades também alcançaram as instâncias políticas e
econômicas, em que diversas crises abalaram governos e sociedades inteiras.

Os modelos de política e sociedade autoritários acabaram se aproveitando


do contexto de crise de determinados países de se instalar e para se manter no
poder se utilizaram de estratégias que restringiam o acesso às informações, em
especial alterando as formas de ensinar e censurando conteúdos de disciplinas que
possuíam potencial crítico-reflexivo diante da realidade.

A título de exemplo, o modelo comunista de educação é pouco conhecido,


porém bastante mencionado, tanto em situações positivas como negativas, mas o
que se pode reconhecer como prioridade é a ampliação de vagas no ensino básico,
o que conseguiu melhorar os números de analfabetismo que eram registrados
121
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

naqueles países. No que diz respeito ao ensino superior, em algumas universidades


dos países, como Cuba e Rússia, os estudos e pesquisas nas áreas médicas e da
saúde foram responsáveis por encontrar inúmeros tratamentos e curas a doenças
que até então pareciam invencíveis. A crítica a estes países ainda recai sobre os
aspectos da liberdade de expressão dos cidadãos, em especial, quem se manifestava
contrário à adoção do regime.

Mas não foram os únicos países e nações que impuseram a restrição à


liberdade de pensamento e expressão a seus cidadãos, o fascismo de Mussolini
na Itália, de Franco na Espanha, de Salazar em Portugal, o nazismo de Hitler
na Alemanha, não foram diferentes. Ao ponto que professores universitários
fugiam de seus países de origem ou cometiam suicídio a fim de não colaborar
com o governo imoral que havia se instalado. A título de exemplo podemos citar
Albert Einstein (1879-1955), notório pelos seus estudos e pesquisas no campo da
física, que em fuga das perseguições religiosas que o governo nazista empreendia,
refugiou-se nos Estados Unidos (ARANHA, 1996).

UNI

PARA REFLETIR:
Einstein (1981), em seus escritos e reflexões sobre ciência e conhecimento, tecia as seguintes
orientações:
Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Por que se tornará assim uma máquina
utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso
prático daquilo que vale a pena ser aprendido, daquilo que é belo, do que é moralmente
correto. A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a
um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida.
Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias
para determinar com exatidão seu lugar em relação a seus próximos e à comunidade.
Estas reflexões essenciais, comunicadas à jovem geração graças aos contatos vivos com os
professores, de forma alguma se encontram escritas nos manuais. É assim que se expressa
e se forma de início toda a cultura. Quando aconselho com ardor “as humanidades”, quero
recomendar a cultura viva e não um saber fossilizado, sobretudo em história e filosofia.
Os excessos do sistema de competição e de especialização prematura, sob o falacioso pretexto
da eficácia, assassinam o espírito, impossibilitam qualquer vida cultural e chegam a suprimir
os progressos nas ciências do futuro. É preciso, enfim, tendo em vista a realização de uma
educação, desenvolver o espírito crítico na inteligência do jovem.
Ora, a sobrecarga do espírito pelo sistema de notas entrava e necessariamente transforma a
pesquisa em superficialidade e falta de cultura. O ensino deveria ser assim: quem o receba o
recolha como um dom inestimável, mas nunca como uma obrigação penosa.
Adaptado de: Einstein, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

As ideologias nazistas e fascistas transformaram o sistema escolar


em mecanismos cujos valores e preceitos eram deturpados, que condenavam
indiscriminadamente o povo judeu, homossexuais, ciganos e outras minorias.
Nos países latino-americanos ocorreu algo semelhante nos anos de 1970, quando
se instauraram as ditaduras militares que passaram a perseguir estudantes e

122
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

professores que manifestavam pensamento crítico diante a realidade política do


país. Foi o momento também em que pesquisadores e professores das áreas da
física, química, sociologia e antropologia foram fazer estudos, ministrar aulas
e participar de projetos científicos em instituições e universidade de países de
primeiro mundo.

Os países que passaram por períodos em que formas autoritárias de poder


foram implantadas também foram países nos quais a educação sofreu fortes projetos
de sucateamento e desvalorização em termos estruturais e no reconhecimento
social e profissional dos professores.

5.7 O EXEMPLO DA ESCOLA DE FRANKFURT


Foi um grupo de estudiosos que na primeira metade do século XX
encontrava-se congregado ao Instituto de Pesquisa Social da Universidade de
Frankfurt, na Alemanha. Possuem forte influência marxista, mas não se resumiam
aos dogmatismos e ao marxismo tradicional do século XIX, atuaram como críticos
tanto das ideologias do capitalismo e liberalismo internacional como do socialismo
soviético. E o que os identificava com mais coerência era lançar mão de alternativas
que promovessem o desenvolvimento e o bem-estar social, para tanto dedicaram-
se em proferir análises e críticas às mais diversas áreas, como a educação, a ciência,
o Estado, o cinema, a música, o sistema de produção e consumo.

Na primeira leva de integrantes da Escola estavam Max Horkheimer,


Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Friedrich Pollock e Erich Fromm. Na segunda
geração participaram Jürgen Habermas, Franz Neumann, Albrecht Wellmer.
Outros estudiosos, como Walter Benjamin, Siegfried Kracauer, Karl A. Wittfogel,
participaram associando-se temporariamente ao Instituto. Os estudiosos da Escola
de Frankfurt inspiravam-se nas concepções teórico-filosóficas e metodológicas
legadas nos escritos de Immanuel Kant, Hegel, Karl Marx, Sigmund Freud, Max
Weber e George Lukács.

5.8 O EXEMPLO DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Tratou-se de um movimento religioso cristão originado do Concílio


Vaticano II, realizado na cidade de Medellín, na Colômbia, no ano de 1968, mas
é atribuído ao padre peruano Gustavo Gutiérrez o pioneirismo do movimento. A
Teologia da Libertação priorizava o trabalho aos pobres e desvalidos e defendia
toda uma reinterpretação analítica e antropológica da fé cristã, ou seja, a viabilidade
prática dos princípios e valores cristãos. Tal orientação ideológica da Teologia da
Libertação foi responsável por provocar críticas de caráter político, que por sua vez
interpretavam o movimento como uma vertente marxista de organização político-
social.

123
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

O movimento foi reprovado nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI,


porém recentemente recebeu reconhecimento favorável do Papa Francisco. Entre
os integrantes da Teologia da Libertação pode-se relacionar os brasileiros Leonardo
Boff e Rubem Alves, Jon Sobrino de El Salvador, o equatoriano Leônidas Proaño e
o uruguaio Juan Luis Segundo.

O movimento seguiu aos anos de 1970 e 1980 com grandes ações e


movimentos em meio à sociedade, porém, a partir dos anos de 1990 passou a
declinar, em especial pela falta de renovação das lideranças, tanto em meio às ações
de base no interior das comunidades como na esfera de orientação intelectual.

DICAS

No filme A VIDA É BELA, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, existe


uma bela sátira das intervenções dos funcionários fascistas no sistema escolar, feita por um
observador da vida social e personagem principal do filme, que por fim acaba sofrendo as
agruras de um campo de concentração ao lado da esposa e do seu filho.
A VIDA É BELA. Roberto Benigni. Itália/EUA. 1997. 116min. Cor

LEITURA COMPLEMENTAR

A FRAGILIDADE DOS LAÇOS HUMANOS: AMOR LÍQUIDO

Os tempos modernos e, agora, os tempos contemporâneos são marcados


por um estado de fusão líquida da sociedade humana, e a transformação se deu
do estado sólido para o líquido. A metáfora “líquido mundo moderno” evidencia
um dos principais conceitos propostos pelo pensador e pode ser entendida como
sendo oriunda de um contexto semelhante ao da frase que foi proposta por Marx:
“tudo o que é sólido desmancha no ar”, proposta ainda no século XIX, quando a
modernidade estava em pleno curso. Esta mesma serviu de base interpretativa a
Bauman (1925-2017), que foi utilizada ao longo desta obra.

O livro Amor Líquido reúne uma reflexão crítica do cotidiano do homem


moderno, e preocupa-se em analisar a sociedade contemporânea e ressaltar
“a fragilidade dos laços humanos”. Encontra-se dividido em quatro capítulos:
Apaixonar-se e desapaixonar-se; Dentro e fora da caixa de ferramentas da
sociedade; Sobre a dificuldade de amar o próximo; convívio destruído. Ao final das
análises e reflexões, o autor pontua que o “cidadão da líquida sociedade moderna”
constitui um homem sem vínculos e inserido em um quadro e esboço imperfeito
e fragmentado.

124
TÓPICO 2 | A FORMAÇÃO DO SISTEMA LAICO DE ENSINO NO OCIDENTE CONTEMPORÂNEO

Nos dois primeiros capítulos, Bauman (2004) analisa a fragilidade que o


“líquido mundo moderno”, de certa forma, impôs ao relacionamento humano. Em
“Apaixonar-se e desapaixonar-se”, o autor atrela amor à cultura consumista e de
mercado. O sentido de que amar tornou-se como um passeio no shopping center,
visto “tal como outros bens de consumo”; neste contexto a vida deve ser consumida
instantaneamente, despreocupadamente (não requer maiores treinamentos nem
uma preparação prolongada); é usada uma só vez, sem preconceitos, receios e
critérios, a experiência da vida deve ser fluida e deliberadamente flexível.

A cultura consumista do amor, então, serve de cenário para o segundo


capítulo, “Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociedade”. Neste momento, o
autor discute que o sentimento do imediatismo e rapidez oferece consequências e
custos à “líquida, consumista e individualizada sociedade moderna”, e o resultado
de intensificação da velocidade globalizante é o de que a dimensão da solidariedade
da vida e das relações humanas perde valor, e sobre estas passa a ocupar espaço e
a triunfar o mercado consumidor’.

Quem seria, portanto, o responsável por este contexto de mudanças? De


acordo com Bauman (2004), é o próprio homem, mediante a (des)configuração que
este sofreu diante das exigências competitivas do mundo moderno. Hoje, mais
do que nunca, o homem necessita de produtos pré e/ou fabricados, e em função
destes são programadas as demais necessidades do homem, como o tempo livre,
os horários de intervalo, as refeições, as férias, entre outras.

Em “Sobre a dificuldade de amar o próximo”, o autor remonta a atmosfera


que ronda os relacionamentos humanos e a interpreta à luz do conceito bíblico
de amar ao próximo como a si mesmo. Segundo Bauman (2004), o amor próprio
é construído a partir do amor que é oferecido e atribuído por outros. Ou seja, a
construção de amar a si mesmo somente é possível quando o mesmo sentimento
é manifestado pelos outros, que “devem nos amar primeiro para que comecemos
a amar a nós mesmos”. Assim, o amor e o cuidado de si e autovalorização e
autoestima, bem como o amor gratuito e incondicional que poderia ser oferecido
aos outros, não fazem mais sentido neste contexto.

No quarto e último capítulo de “Amor líquido”, o autor reflete sobre a


vertiginosa indústria do medo que criou um novo espectro: o da xenofobia, ou
seja, a aversão ao estrangeiro. Os imigrantes passam a ser acusados como sendo
os principais causadores da epidemia financeira do líquido mundo moderno, que
estas ainda fornecem à sociedade atual as ameaças reais aos Estados-nação. Assim
instaura-se uma indústria do medo com relação aos imigrantes, entendidos como
criminosos, configurando um cenário favorável ao sensacionalismo e à especulação
aos meios de comunicação. A pauta, dentro dessas redações, é e continuará
sendo a mesma. Roubos, assassinatos, e principalmente, atentados terroristas são
reflexos da invasão imigratória de indivíduos oriundos de países periféricos e/ou
miseráveis.

Atualmente e cada vez mais os seres humanos buscam contatos com


seus pares numa espécie de irmandade, construída a partir do mundo virtual, e
125
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

procuram substituir e compartilhar fracassos, frustrações, desequilíbrios e solidões


com a agilidade, praticidade e velocidade da internet.

Bauman (2004) utiliza como reflexo da metamorfose da relação humana o


testemunho de um universitário polonês que afirma categoricamente que dentro
do líquido mundo moderno tudo se resolve na base do delete, do bloqueio – um
simples toque no mouse é tal como um passe de mágica, os problemas desaparecem.
Basta limpar a lixeira, ocultar as ações e alterar as configurações de privacidade e
tudo estará resolvido. É nítido e avassalador o contato físico e em especial o recuo
dos momentos e espaços de real sociabilidade. O resultado não poderia ser outro
e está anunciado no subtítulo do livro de Bauman (2004): “a fragilidade dos laços
humanos”.

A partir do momento em que os verdadeiros cidadãos perceberem o


tamanho do labirinto onde se encontram, e moverem-se no sentido de buscarem
saídas, alternativas e soluções ao problema real e complexo que os envolve, é que
se poderá avançar rumo à retomada da vida humana na sua dimensão individual,
social, integral ao universo. Caso contrário, permanecerá aprofundando o
isolamento, confundindo coisas/produtos/mercadorias com seres/existências/
experiências/histórias e multiplicando os ambientes virtuais.
FONTE: Adaptado de: FERNANDES, Jorge Marcos Henriques. A fragilidade dos laços humanos.
Revista Ciências Humanas, Taubaté, v. 11, n. 2, p. 173-174, jul./dez. 2005. Disponível em: <http://
www.fesppr.br/~daiane/Sociologia%20Jur%EDdica/bauman.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016.

126
RESUMO DO TÓPICO 2
Ao longo desta unidade de conteúdos você pôde estudar que:

• A época moderna foi forjada em meio à desagregação da sociedade feudal, à


consolidação da civilização capitalista, política imperialista das nações europeias
sobre as demais nações e povos do mundo.

• A cidade passou a ocupar o status de excelência em termos de espaço e da


sociabilidade e realização de modernidade, e diante disto, ocorreu o gradual
abandono das regiões agrícolas e a subsequente concentração da população nas
imediações das cidades e centros industriais.

• Os movimentos de independência dos Estados Unidos da América, a Revolução


Francesa, a Revolução Industrial, a revolução da técnica e tecnologia, a
urbanização da população, os estudos da sociologia e da psicanálise, os regimes
autoritários, as guerras mundiais compõem o contexto no qual se desenvolveram
o pensamento, a ciência e a educação da época contemporânea.

• A educação técnica, científica e laica passa a ser favorecida por políticas de


governo, e estas almejavam formar mão de obra às indústrias e aos setores do
governo, agora denominado de Estado Laico.

• Pestalozzi foi um pedagogo iluminista, influenciado pelo pensamento de


Rousseau, em especial no que diz respeito à influência do meio e da sociedade
sobre a formação do homem.

• Froebel foi um pedagogo que se inspirava na natureza e no desenvolvimento


natural para compreender e explicar o cuidado e a forma como se deveria
conduzir a educação das crianças, que, conforme compreendia, necessitavam
de cuidados e proteção especial.

• Dewey foi um pensador norte-americano que propôs a chamada ‘Escola Nova’,


que defendia a importância da escola integral, cuja organização de currículo e
conteúdos deveria contemplar os conhecimentos específicos e experiências de
sociabilidade.

127
AUTOATIVIDADE

1. Construa um texto explicando como é possível afirmar que a educação no


Ocidente é predominantemente laica e qual foi o principal ponto de divergência
que ocorria em relação aos conteúdos ministrados pelas instituições religiosas.

Construa um texto apresentando o que caracteriza o pensamento de cada um


dos pensadores da educação moderna: Pestalozzi e Froebel:

128
UNIDADE 2
TÓPICO 3

CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO
EDUCACIONAL CONTEMPORÂNEO

1 INTRODUÇÃO
No decorrer da época Moderna e Contemporânea, dentre as ações de
governos foram elencados como prioridade os problemas e fatos sociais modernos,
como erradicação do analfabetismo, doenças, epidemias, que representavam
pontos nevrálgicos ao desenvolvimento. O fortalecimento e a realização destes
projetos foram alcançados com a colaboração de entidades, instituições, centros
educacionais e profissionais, universidades, laboratórios de pesquisas.

Em 1789 ocorreu a publicação da Declaração dos Direitos do Homem e


do Cidadão, que foi resultante do processo da Revolução Francesa. Trazia em
seu conteúdo os ideais de liberdade e igualdade; delegava ao homem moderno
uma relação de deveres e de direitos, que seriam responsáveis por conduzi-lo
à categoria de cidadão e indivíduo emancipado. Implanta-se a democracia, na
qual homens e mulheres, independentemente de cor, raça, classe social, venham
a requerer condições de concorrer, apoiar, eleger e ser eleito no campo político,
econômico e social.

Martinazzo (2010) explica que o paradigma moderno concebeu a estrutura


do universo como algo estável, linear, simétrico e previsível e que, pela via dos
métodos hipotético-dedutivo e indutivo-experimentalista, o homem pode acessar
à realidade e representar mentalmente suas leis e funções. Conhecer é representar
o real, onde a consciência de si, como sujeito epistêmico, é condição sine qua non
para a apreensão e consciência do objeto.

Desde a época moderna instauraram-se as ideias de progresso, de


democracia, de inclusão, de liberdade, na capacidade do homem em intervir em
seu meio e destino. Para alcançar estas pretensões, empreendeu suas ações obtendo
o suporte do industrialismo, com emprego de novas técnicas e tecnologias; de
teorias, métodos, invenções, máquinas, ferramentas, utensílios, entre outros. Os
campos teórico e material combinaram-se para que a modernidade se cumprisse.
(DIEHL; TEDESCO, 2001).

Os meios de comunicações foram responsáveis por anunciar os novos


inventos e descobertas e comunicar às demais regiões que se encontravam distantes
das metrópoles modernas. E nesse sentido, o rádio conseguiu superar, não tornar
obsoleto ou deslegitimar o alcance da imprensa tradicional, que era representada
pelos jornais e folhetins, muito em voga nos séculos XVIII e XIX.
129
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Agora acabamos de nos despedir do século XX e assistimos ao descortinar


do século XXI e nos encontramos, no exercício de qualidade de humanidade,
diante de um acúmulo de problemas sociais, políticos, econômicos e ambientais,
que nos deixam um tanto perplexos, desorientados e, em especial, desconfiados
com o que nos aguarda caso não repensarmos e mudarmos nossos valores, hábitos
e costumes enquanto indivíduos e sociedade.

2 A FILOSOFIA NO CONTEXTO EDUCACIONAL


CONTEMPORÂNEO
Severino (1990) descreve que o campo da filosofia, ainda na Grécia clássica,
apresentava forte preocupação e intenção pedagógica e com a formação do ser
humano. Observe a citação que apresentamos:

Ela já nasceu Paideia! Para não citar senão o exemplo de Platão,


em momento algum o esforço dialético de esclarecimento que
propõe ao candidato a filósofo deixa de ser simultaneamente um
esforço pedagógico de aprendizagem. Praticamente todos os textos
fundamentais da filosofia clássica implicam, na explicitação de seus
conteúdos, uma preocupação com a educação (SEVERINO, 1990, p. 19).

Porém, chegamos aos dias atuais e nos deparamos com o fato de que as
áreas da educação, da filosofia, da história, da sociologia e das demais disciplinas
reflexivas encontram-se desprestigiadas, são anunciadas como campos menores
do saber. Para Severino (1990), os caminhos da filosofia da educação na nossa
época são preocupantes, pois:

Parece ser a primeira vez que uma forte tendência da filosofia se


considera desvinculada de qualquer preocupação de natureza
pedagógica, vendo-se tão somente como um exercício puramente
lógico. Essa tendência desprendeu-se de suas próprias raízes, que se
encontravam no positivismo, transformando-se numa concepção
abrangente. Denominada neopositivismo, que passa a considerar a
filosofia como tarefa subsidiária da ciência, só podendo legitimar-se
em situação de dependência frente ao conhecimento científico, o único
conhecimento capaz de verdade e o único plausível fundamento da
ação. Desde então, o qualquer critério do agir humano só pode ser
técnico, nunca mais ético ou político. Fica assim rompida a unidade do
saber (SEVERINO, 1990, p. 19).

No campo social supervalorizam-se as sociedades que apresentam alta


urbanização, arsenal metalúrgico, industrial, científico, bélico, os regimes políticos
com maior tempo de experiência política de república e democracia, ou seja, as
sociedades/nações que circundam o Mar Mediterrâneo e a costa norte do Oceano
Atlântico, que recebem o status de “nações civilizadas”.

Por outro lado, desvalorizam-se os indivíduos e as sociedades/comunidades


tradicionais, as quais se encontram regidas por princípios milenares, que estão

130
TÓPICO 3 | CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL CONTEMPORÂNEO

fixadas em regiões rurais, sustentadas em atividades agrícolas, artesanais e


manufatureiras; que apresentam coesos sistemas morais e religiosos, que se
localizam no Oriente Médio ou no interior dos continentes da Ásia e África e
América, que acabam por ser interpretadas e traduzidas como ‘bárbaras e/ou
incivilizadas’, retrógradas.

Em meados dos séculos XXI, a crise econômica nos Estados Unidos e na


União Europeia, os regimes totalitários na Coreia do Norte e na China, a perpetuação
das situações de fome, miséria, a exploração humana pelo sistema econômico,
entre outros, atestam que os descaminhos do progresso da humanidade do século
passado ainda não foram superados, fazendo com que uma sensação e sentimento
de mal-estar, desconforto e até mesmo de desencanto se instaure no imaginário e
nas expectativas dos indivíduos do tempo presente.

Eis que o campo da filosofia da educação pode contribuir na identificação


e solução profunda de tais contextos e realidades, em especial, no ponto em que
Severino (1990) afirma que a educação precisa estar comprometida com a finalidade
de atribuir sentido à existência cultural da sociedade histórica.

3 O CONTEXTO EDUCIONAL EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO:


DO CÓDEX À TELA
O códex consistiu nos manuscritos gravados em madeira no formato de
livro, que foram muito utilizados no final da Idade Média, a partir do século XV.
Significou a superação dos antigos pergaminhos, e em contrapartida o códex foi
substituído pelos livros em papel, e agora, mais recentemente, os livros impressos
em papel passaram a ser substituídos pelos e-books e demais versões de livros
digitais.

Uma das principais alterações que a humanidade vivenciou no fim do século


XX e início do século XXI foi a ampliação do acesso à informação proporcionado
pelos computadores, em especial, pela internet, que possibilitou uma melhoria
em vários aspectos do desenvolvimento intelectual humano, pois as informações
científicas e o acesso a bibliotecas e museus pode ser viabilizados de forma virtual.
Um estudante no Brasil, por exemplo, pode acessar a seção de obras raras da
Biblioteca de Lisboa. Todavia, esta alteração na relação do conhecimento que foi
provocada pela internet nos posiciona a outra questão: a autoridade do professor.

Durante os últimos séculos, o professor era considerado o dono do


conhecimento. Hoje, os educadores não mais possuem este papel, pois as alterações
e descobertas científicas provocam questões nas quais as verdades científicas
são questionadas diariamente nos periódicos, das mais distintas disciplinas
do conhecimento humano. Neste sentido, os professores são muito mais os
mediadores das relações educacionais, despertando curiosidades e desenvolvendo
determinadas sensibilidades dos educandos em relação ao mundo que os rodeia.

131
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Com relação aos acúmulos alcançados pela ciência, bem como os alcances e
formas de acesso ao conhecimento, leia com atenção as reflexões que Durant (2009,
p. 9) tece:

O conhecimento humano tornou-se incontrolavelmente vasto; cada


ciência gerou uma dúzia de outras, cada qual mais sutil que as demais;
o telescópio revelou estrelas e sistemas em número tal, que a mente do
homem não consegue contá-los ou dar-lhes nomes; a geologia falou
em termos de milhões de anos, quando os homens, antes dela, haviam
pensado em termos de milhares; a física descobriu um universo no
átomo, e a biologia encontrou um microcosmo na célula; a fisiologia
descobriu um mistério inesgotável em cada órgão, e a psicologia, em
cada sonho; a antropologia reconstruiu a insuspeitada antiguidade
do homem, a arqueologia desenterrou cidades e estados esquecidos,
a história provou que toda história é falsa e pintou uma tela que só
um Spengler ou um Eduard Meyer podia ver como um todo; a teologia
desmoronou, e a teoria política rachou; a invenção complicou a vida e a
guerra, e as doutrinas econômicas derrubaram governos e inflamaram
o mundo; a própria filosofia, que antes havia convocado todas as
ciências para ajudá-la a formar uma imagem coerente do mundo e fazer
um retrato atraente do bem, achou que sua tarefa de coordenação era
prodigiosa demais para a sua coragem, fugiu de todas essas frentes
de batalha da verdade e escondeu-se em vielas obscuras e estreitas,
timidamente a salvo dos problemas e das responsabilidades da vida.
O conhecimento humano tornara-se demasiado para a mente humana.

O ensino a distância também passou por profundas transformações nos
últimos anos, graças às inovações da informática, pois uma primeira geração de
ensino a distância acontecia com os cursos por correspondência. Uma segunda
geração, pelos cursos que utilizavam o rádio e a televisão como mediadores do
ensino. Hoje, com os computadores, a facilidade do acesso à informação possibilitou
uma nova forma de ensino, com cursos a distância de graduação em diversas áreas
do conhecimento humano.

No que tange à educação em todos os níveis, o que os computadores estão


proporcionando são alterações nos hábitos de leitura (CHARTIER, s.d). Pois, temos
uma geração que está se formando que não são migrantes digitais, mas nativos
digitais. Isto é, ao invés de leitores de livros que passam a se habituar à internet,
existem jovens que já possuem na internet seu principal hábito de leitura. Um
aspecto interessante e revolucionário foi a do fim da leitura de jornais impressos,
que passam por dificuldades para se manter. Alguns jornais importantes não mais
circulam em meios impressos, como o Jornal do Brasil.

Outra prática de leitura que se transformou foi a utilização de enciclopédias,


hoje substituídas pelos sites de busca. O declínio de livros impressos não é
necessariamente um problema educacional, porém, as atuais gerações não possuem
uma carga de leitura considerável comparada a gerações anteriores.

A internet e os computadores ainda são, muitas vezes, concorrentes dos


professores em seu cotidiano escolar. Cabe às atuais gerações de educadores, que
se formam nas universidades, vencer o desafio de transformar a tecnologia em
uma poderosa aliada da educação no Brasil.
132
TÓPICO 3 | CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL CONTEMPORÂNEO

As universidades, em sua origem etimológica, significam justamente


pensamento universalizado. Como podemos observar, as universidades, desde o
seu surgimento na Idade Média, estão relacionadas às relações de poder no interior
das fronteiras dos Estados Nacionais. Isto porque o conhecimento sempre foi uma
arma poderosa nas relações de poder.

As diversas ciências que surgem com o desenvolvimento secular das


universidades nos apresentaram para a humanidade melhorias incalculáveis na
qualidade de vida cotidiana, no desenvolvimento das condições de saúde das
pessoas. Também são frutos do desenvolvimento técnico-científico em geral,
relacionados às universidades, os terríveis armamentos que podem dizimar a vida
humana por diversas vezes.

4 IMPLICAÇÕES DA PÓS-MODERNIDADE NO CONTEXTO


EDUCACIONAL
As reflexões de Fromm (1987) se fazem pertinentes no ponto em que ele
discute que a técnica nos tornou onipotentes (pode-se tudo); a ciência nos fez
oniscientes (sabe-se tudo). O homem moderno e contemporâneo encontra-se
ávido e sedento por mais, e alcançar cada vez níveis mais específicos, profundos
e complexos; a partir de então, a natureza, os corpos e os materiais tinham de ser
‘acossados em seus descaminhos’, ‘obrigados a servir’ e ‘escravizados’. O comando
foi o de ‘reduzir à obediência’, e o objetivo do cientista foi de ‘extrair da natureza,
sob tortura, todos os seus segredos’ (CAPRA, 1982).

A visão do mundo e da vida moderna e que ainda prevalece nos tempos


contemporâneos foi conduzida a partir de duas distinções fundamentais, entre o
conhecimento científico e o conhecimento do senso comum, por um lado, e entre
a natureza e a pessoa humana, por outro, ambos completamente dissociados
(SANTOS, 1995).

No campo metodológico da construção do conhecimento foi observada


uma espécie de aversão à dúvida, a precipitação nas respostas, o pedantismo
cultural, o receio de contradizer, a parcialidade, a negligência na pesquisa social, o
fetichismo verbal, a tendência a dar-se por satisfeito com conhecimentos parciais,
o que impediu o entendimento humano de estabelecer uma relação profunda e
conciliadora com a natureza das coisas, e foram, em vez disso, responsáveis por
constituir uma ligação com conceitos fúteis, amorais e experimentos não planejados
(ADORNO; HORKHEIMER, 2000).

Na modernidade, o objetivo da ciência era o domínio e o controle da


natureza, afirmando que o conhecimento científico podia ser usado para tornar
o homem o senhor e dominador da natureza. O rigor científico encontrava-
se fundado no rigor matemático, um rigor que quantifica e que, ao quantificar,
desqualifica, um rigor que, ao objetivar os fenômenos, os objetualiza e os degrada,
que, ao caracterizar os fenômenos, os caricaturiza (SANTOS, 1999).
133
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Nestes termos, o conhecimento ganhou em rigor, mas perdeu em riqueza,


relevância e justificativa social; por outro lado, a retumbância dos êxitos da
intervenção tecnológica escondeu os limites da nossa compreensão do mundo, e
reprimiu a pergunta pelo valor e sentido humano e científico.

A pós-modernidade é um conceito em debate nas ciências humanas e


pretende classificar o mundo da atualidade, no qual as antigas estruturas sociais,
com o Estado, as indústrias, as famílias, que eram instituições sólidas, verdadeiros
pilares na sociedade ocidental, vêm sendo profundamente questionadas. Alguns
teóricos apresentam o mundo atual como um processo de transformação rápida
e veloz das estruturas sociais, no qual a pluralidade de ideias, ações e práticas se
revela uma realidade presente.

É difícil estabelecer uma data de início da pós-modernidade. Mas, de toda


forma, o pós-guerra e as transformações nos costumes vivenciadas nos anos 1960
nos demonstram um mundo que não mais crê nos valores iluministas, pois uma
ideia universalizante, na qual o Estado é tripartite como no modelo de Montesquieu,
mostra limites devido à descrença nos políticos, devido aos constantes escândalos
de corrupção.

As tendências pós-modernas trouxeram em sua essência aspectos que


tratam da heterogeneidade, fragmentação, subjetividade e relatividade, que
podem ser entendidos como o estágio e a metamorfose mais sublime da época
moderna (DIEHL; TEDESCO, 2001).

No campo cultural, a pós-modernidade se caracterizou por projetos


que revisitaram outras épocas e períodos históricos; de onde trouxeram para o
momento presente e de forma atualizada estilos, conceitos; outro projeto também
foi o de repaginar um determinado cenário e contexto, muito distante e diferente
do que foi e como existia no original. Muitas vezes, neste processo, o que ocorre é
a perda da essência, a coerência e a capacidade de originalidade das manifestações
artísticas atuais.

No campo dos movimentos sociais é possível relacionar, dos anos de 1960,


o feminismo, os panteras negras e movimentos ecológicos, os chamados “novos
movimentos sociais”, juntamente com as revoltas estudantis, de contracultura
e antibelicistas, que reclamavam pelo retorno às lutas pelos direitos civis, os
movimentos revolucionários do terceiro mundo, as questões pela paz, entre outros.

Nestes movimentos pode-se indicar que o feminismo contribuiu para


o reconhecimento de outros grupos no interior da sociedade e da política, mas
também favoreceu diretamente a fragmentação conceitual do sujeito, nas relações
que se estabeleciam do campo público ao privado, do trabalho ao lar, da vida
profissional à vida pessoal, divisão doméstica do trabalho; no campo de atuação
política, da família, da sexualidade, ao cuidado das crianças, entre outros aspectos,
no ponto em que tomou para si a luta específica das mulheres, desarticulado de
uma luta maior de melhoria das condições e dignidade humana; bem como o
movimento ambientalista, que tem suas ações pautadas somente nas questões que
134
TÓPICO 3 | CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL CONTEMPORÂNEO

dizem respeito à natureza, desarticuladas de uma preocupação maior para o ser


humano que também compõe o mesmo meio.

O desenvolvimento das máquinas artificiais rumo à autonomia crescente


e à auto-organização e o desenvolvimento futuro das inteligências artificiais
fazem-nos imaginar a era das metamáquinas que, associadas às micromáquinas
nas nanotecnologias, liberariam os seres humanos de todas as obrigações
secundárias e tarefas subalternas, permitindo-lhes viver poeticamente, dedicar-se
ao desenvolvimento moral e espiritual. Mas percebe-se a permanência de sistemas
totalitários, a concentração de renda e riqueza, a exploração do trabalho, a violação
dos direitos humanos, intolerâncias religiosas, questões raciais e de gênero cada
vez mais acirradas (MORIN, 2007).

Ideias e valores absolutos são relativizados. O relativismo é uma das


principais marcas do nosso tempo, no qual os valores sociais, como o trabalho
e a família, já não são considerados absolutos, mas, por vezes, preteridos por
valores como o lucro fácil e a fama, a popularidade. Estes valores relativistas a que
muitos estudantes foram formados revelam um choque com os antigos conceitos
educacionais.

O modelo de educação escolar tradicional vem sendo criticado nos últimos


30 anos por diversos intelectuais, das mais distintas correntes teóricas. Uma espécie
de mal-estar docente invade as salas de aula pelo país. Em grande parte, devido às
distintas formas de ensinar em um mundo em que a velocidade de informação é
maior que as atualizações curriculares.

Um dos primeiros intelectuais a diagnosticar este problema foi o sociólogo


marxista francês Louis Althusser. No livro "A ideologia e os aparelhos ideológicos
de estado", afirmava a escola como um local no qual os professores eram os
propagadores das ideias que mantinham o Estado como um agente da classe
burguesa, ao inculcar ideias de submissão dos seres humanos. Uma submissão
ao patrão, ao padre da paróquia, ao oficial do serviço militar, que nasceu de uma
submissão incontida aos professores nas escolas.

Um sociólogo argelino, Pierre Bourdieu, com base na tese de Althusser,


buscou ampliar sua percepção. No livro A reprodução, afirmava não ser a escola
um lugar pensante, mas um mero centro reprodutor de informações aos quais os
alunos deveriam apenas memorizar, sem a ela apresentar reflexão. Esta excessiva
memorização não levaria à construção de cidadãos conscientes, mas de homens e
mulheres obedientes aos ditames do Estado.

As temáticas abordadas por Foucault favoreceram contemplar a


subjetividade, os modos de viver e fazer, os hábitos, os costumes, os valores e
as tradições; deixando de lado a partir de então os grandes temas/pesquisas da
História política, econômica e/ou as grandes sínteses da História Social (DIEHL,
1993).

135
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Na obra de Foucault encontra-se uma forte crítica aos processos de


modernização da sociedade, bem como as estruturas dos governos que procuravam
racionalizar de forma esmagadora os indivíduos. Diante disto, pesquisou a história
do ensino, do saber, a epistemologia das palavras, a hermenêutica; a história da
loucura, as teorias psiquiátricas, os espaços de manicômios, asilos, hospitais; as
teorias penais e a arquitetura de prisões, o nascimento da biopolítica, o Estado
regulador, o controle sobre o território e a população, do final do século XVIII e
início do XIX, e as apresenta como instituições disciplinares das condutas e dos
comportamentos sociais.

Para o filósofo Michael Foucault, a escola era um local, assim como os


quartéis, que visavam à construção de corpos dóceis. Por corpos dóceis busca-
se compreender a relação de submissão que os homens possuem perante as
instituições do Estado, um dos fatores a explicar a convocação para os exércitos,
ou mesmo, a relação de entrega de um paciente perante um médico. A função
da escola enquanto instituição, de formar corpos dóceis, seria a de internalizar a
disciplina, não apenas como valor abstrato, mas como uma expressão cotidiana
dos homens e das mulheres quando adultos.

Entre os pensadores da escola podemos destacar Perrenoud, que escreveu


o livro "As 10 novas competências para ensinar". Buscou este educador suíço lembrar
a importância do professor como um agente que lidera o desencadeamento do
processo educativo.

Em Portugal, por meio da Escola da Ponte, na Vila das Aves, surgiu uma
proposta educacional diferenciada, tendo como formulador o professor José
Pacheco, que buscou criar, na Escola da Ponte, uma nova fórmula de ensino, na
qual os estudantes possuem maior liberdade na escolha dos conteúdos e temáticas
a serem desenvolvidos, ou seja, em que a autonomia dos estudantes foi levada a
cabo.

O fato de vivermos uma verdadeira revolução em matéria de informações,


mais um problema, se torna um salutar desafio aos docentes das mais distintas
disciplinas, pois, ao invés de se trabalhar com a excessiva memorização, o acesso
a informações permite ao professor construir e incentivar atitudes reflexivas nos
educandos. Como veremos, estas transformações atingem diversos níveis de
ensino.

136
TÓPICO 3 | CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL CONTEMPORÂNEO

DICAS

EDUCAÇÃO INTEGRAL
Para maiores informações sobre o projeto de José Pacheco, acesse o site que indicamos
a seguir:
Centro de referência em Educação Integral:
Disponível em: <http://educacaointegral.org.br/experiencias/escola-da-ponte-radicaliza-
ideia-de-autonomia-dos-estudantes/>.

DICAS

FILME
AO MESTRE COM CARINHO é um clássico do cinema de Hollywood e retrata o cotidiano
de um professor comprometido com os seus alunos. Obras cinematográficas como esta
nos revelam a noção de quanto o engajamento de um educador pode mudar a realidade
de muitos estudantes.

DICAS

LIVRO
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. 22. ed. São Paulo: Cultrix, 1992. 447 p.
Capra é um estudioso da física, ciência e das questões ambientais contemporâneas. Nesta
obra, o autor discute a crise dos paradigmas modernos, os modelos de Newton e Descartes,
as concepções mecanicistas da sociedade, os problemas econômicos mundiais, o lado
sombrio do crescimento, as concepções alternativas de vida e sociedade.
O livro encontra-se na íntegra e em pdf disponível em:
<http://pt.scribd.com/doc/5014979/O-ponto-de-mutacao>.

DICAS

FILME
O ponto de mutação/Mindwalk. Bernt A. Capra, Estados Unidos, 1990. Cor
O longa-metragem é dirigido por Bernt A. Capra, irmão de Fritjof Capra, autor do livro de
mesmo nome, que foi publicado em 1982.
Através dos personagens de um poeta (angustiado com o sentido e a falta de sentido da vida
humana), um político liberal (que experimenta uma crise por não ter vencido as eleições)
e uma física (que se encontra frustrada por ver suas experiências e conhecimentos sendo
pervertidos e utilizados para fins militares e de destruição), o filme aborda a trajetória e
as implicações do conhecimento humano a partir das teorias científicas do século XV no
âmbito da física, economia, política, psicologia, ecologia etc., que serão implementadas na
modernidade e que se encontram ainda em voga na atualidade.
O filme encontra-se disponível com legenda em português em: <http://www.youtube.com/
watch?v=7tVsIZSpOdI>.

137
UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

Caro acadêmico! Atente para a leitura complementar. Trata-se de um


texto que contempla as principais abordagens que se encontram no pano de
fundo do fazer educacional. As abordagens filosóficas educacionais encontram-
se relacionadas com as filosofias gerais, que foram apresentadas na leitura
complementar do Tópico 1 desta unidade. As abordagens filosóficas educacionais
são colocadas em prática no momento de transpor o conhecimento científico para
a realidade das salas de aula. Para tanto, vamos conhecer melhor cada uma delas,
reforce a atenção e prossiga na leitura:

LEITURA COMPLEMENTAR

ABORDAGENS FILOSÓFICAS EDUCACIONAIS

Kevin Daniel dos Santos Leyser

Dentre as abordagens filosóficas educacionais prevalecem o Perenialismo, o


Essencialismo, o Progressismo e o Reconstrucionismo. Essas filosofias educacionais
fornecem elementos essenciais do que se deve ensinar e são fundamentais no que
diz respeito aos componentes curriculares escolares. Vamos estudar e aprofundar
cada uma delas:

1- Perenialismo

Para os perenialistas, o objetivo da educação é garantir que os alunos


adquiram compreensão sobre as grandes ideias da civilização ocidental. Essas
ideias têm o potencial para resolver problemas em qualquer época. O foco é ensinar
ideias que são eternas, para buscar verdades duradouras que são constantes e não
mudam, como os mundos naturais e humanos em seu nível mais essencial não
mudam. Ensinar esses princípios imutáveis ​​é crítico. Os seres humanos são seres
racionais, e suas mentes precisam ser desenvolvidas. Assim, o cultivo do intelecto
é a mais alta prioridade de uma educação que vale a pena. O currículo exigente
centra-se na obtenção de alfabetização cultural, enfatizando o crescimento dos
alunos em disciplinas duradouras. As realizações mais sublimes da humanidade
são enfatizadas – as grandes obras da literatura e da arte, as leis ou os princípios da
ciência. Advogados dessa filosofia educacional são Robert Maynard Hutchins, que
desenvolveu o programa Grandes Obras em 1963, e Mortimer Adler, que avançou
ainda mais este currículo baseado em 100 grandes obras da civilização ocidental.

2- Essencialismo

Os essencialistas acreditam que há um núcleo comum de conhecimento


que precisa ser transmitido aos alunos de forma sistemática e disciplinada. A
ênfase nesta perspectiva conservadora é sobre padrões intelectuais e morais que
as escolas devem ensinar. O núcleo do currículo é conhecimento e habilidades
essenciais e rigor acadêmico. Embora essa filosofia educacional seja semelhante,

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TÓPICO 3 | CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL CONTEMPORÂNEO

de certa forma, ao perenialismo, os essencialistas aceitam a ideia de que esse


currículo pode mudar. A escolaridade deve ser prática, preparando os alunos para
se tornarem membros valiosos da sociedade. Ela deve se concentrar em fatos – a
realidade objetiva lá fora – e "o básico", a formação dos alunos para ler, escrever,
falar e calcular clara e logicamente. As escolas não devem tentar definir ou
influenciar as políticas. Aos alunos devem ser ensinados o trabalho, o respeito pela
autoridade e a disciplina. Os professores devem ajudar os alunos a manter seus
instintos não produtivos sob controle, como a agressividade ou a insensatez. Esta
abordagem desenvolveu-se em reação às abordagens progressistas prevalentes
nas décadas de 1920 e 1930. William Bagley desafiou as abordagens progressistas
no periódico que ele inaugurou em 1934. Outros proponentes do essencialismo
são: James D. Koerner, H. G. Rickover, Paul Copperman e Theodore Sizer.

3- Progressismo

Os progressistas acreditam que a educação deve se concentrar em toda a


criança, e não no conteúdo ou no professor. Esta filosofia educacional enfatiza que
os alunos devem testar ideias através da experimentação ativa. A aprendizagem
está enraizada nas questões dos alunos que surgem ao experimentar o mundo.
É ativa, não passiva. O aluno é um solucionador de problemas e pensador que
faz sentido através de sua experiência individual no contexto físico e cultural.
Professores eficazes fornecem experiências para que os alunos possam aprender
fazendo. O conteúdo do currículo é derivado dos interesses e perguntas dos alunos.
O método científico é usado por educadores progressistas para que os alunos
possam estudar a matéria e os eventos sistematicamente e em primeira mão. A
ênfase está no processo – como se conhece. A filosofia da educação progressiva foi
estabelecida na América desde meados da década de 1920 até meados dos anos
1950. John Dewey foi seu principal proponente. Um de seus princípios era que a
escola deveria melhorar o modo de vida dos nossos cidadãos através da experiência
da liberdade e da democracia nas escolas. A tomada de decisão compartilhada, o
planejamento de professores com alunos, os tópicos selecionados pelos alunos são
todos aspectos desta abordagem. Os livros são ferramentas, e não autoridade.

4- Reconstrucionismo/Teoria Crítica

O reconstrucionismo social é uma filosofia que enfatiza o tratamento de


questões sociais e uma busca para criar uma sociedade melhor e uma democracia
mundial. Educadores reconstrucionistas se concentram em um currículo que
destaca a reforma social como o objetivo da educação. Theodore Brameld (1904-
1987) foi o fundador do reconstrucionismo social, em reação às realidades da
Segunda Guerra Mundial. Ele reconheceu o potencial para a aniquilação humana
através da tecnologia e crueldade humana ou a capacidade de criar uma sociedade
beneficente usando a tecnologia e a compaixão humana. George Counts (1889-
1974) reconheceu que a educação era o meio de preparar as pessoas para criar essa
nova ordem social.

Os teóricos críticos, como os reconstrucionistas sociais, acreditam que os

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UNIDADE 2 | ELEMENTOS DO CONTEXTO HISTÓRICO-FILOSÓFICO EDUCACIONAL MODERNO E CONTEMPORÂNEO

sistemas devem ser mudados para superar a opressão e melhorar as condições


humanas. Paulo Freire (1921-1997) foi um brasileiro cujas experiências vivendo
na pobreza o levaram a defender a educação e a alfabetização como veículo de
mudança social. Em sua opinião, os seres humanos devem aprender a resistir
à opressão e não se tornar suas vítimas, nem oprimir os outros. Para isso são
necessários o diálogo e a consciência crítica, o desenvolvimento da consciência
para superar a dominação e a opressão. Ao invés de "ensino bancário", no qual
o educador deposita informações nas cabeças dos alunos, Freire viu o ensino e a
aprendizagem como um processo de investigação em que a criança deve inventar
e reinventar o mundo.

Para os reconstrucionistas sociais e teóricos críticos, o currículo concentra-


se na experiência dos alunos e na ação social em problemas reais, como a violência,
a fome, o terrorismo internacional, a inflação e a desigualdade. As estratégias para
lidar com questões controversas (particularmente em estudos sociais e literatura),
inquérito, diálogo e múltiplas perspectivas são o foco. A aprendizagem baseada na
comunidade e a inserção do mundo na sala de aula são também estratégias.

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RESUMO DO TÓPICO 3
Ao longo do tópico, você pôde compreender que:

• Entre os principais desafios educacionais da época contemporânea estão os de


erradicar o analfabetismo, doenças e epidemias, atuar na garantia dos direitos
humanos, na emancipação e realização humana.

• Os espaços considerados formadores e de referência em educação são governos,


autoridades, unidades escolares, instituições de ensino nos mais diferentes
níveis, instituições não escolares, organizações não governamentais, entidades e
a sociedade civil.

• Os ideais de progresso, democracia, inclusão, liberdade são traduzidos como


resultantes do trabalho, consumo e do domínio de tecnologias.

• A realidade dos primeiros anos do século XXI é de concentração de renda,


desigualdades sociais, exploração humana, destruição da natureza, crises
econômicas e problemas políticos.

• Ocorre ampla valorização dos modelos científicos. A matéria e a tecnologia são


valorizadas como saberes populares, dissociação com a natureza e o homem, em
que o homem é responsável por predar, dominar e extrair da natureza tudo o
que é necessário.

• Os governos, as indústrias, as famílias e a Igreja deixaram de ser referências


sólidas e, em contrapartida, novas estruturas e movimentos sociais têm
emergido, tais como movimentos étnicos, feminista e ambientalista.

• O relativismo de valores culturais e sociais, e a legitimação dos princípios de


lucro fácil, sucesso financeiro e material, prestígio midiático e fama.

• Para Michael Foucault, a escola contribuiu para a formação de corpos dóceis,


semelhante à disciplina no interior de quartéis e da relação entre pacientes e
médicos.

• Os computadores, a internet e os aparelhos telefônicos móveis estão muito


presentes no cotidiano escolar, porém ainda não foram implementadas soluções
eficientes de ensino e aprendizagem com eles.

141
AUTOATIVIDADE

1- Na época contemporânea, vários fatos marcam a luta de sujeitos,


grupos e categorias que até então não haviam tido vez e voz no interior da
sociedade e das instituições políticas. Os novos grupos que agora alcançaram
representatividade são indicados como responsáveis por promover uma
espécie de ‘política das identidades’ e acabaram por formar guetos, redutos,
separatismos e unidades específicas e circunscritos a uma causa somente. Que
grupos/movimentos são estes?

a) ( ) Movimentos pacifistas, ambientalistas, antirracistas e feministas.


b) ( ) Grupos de peregrinos e romeiros que almejam difundir os dogmas
religiosos.
c) ( ) Movimentos que se expressam por meio das mídias eletrônicas e
aplicativos em celulares.
d) ( ) Grupos de guerrilheiros e comandos armados que detém o controle de
determinada região e população.

2 A pós-modernidade foi responsável por atribuir inúmeras transformações


ao contexto da educação e do ensino da nossa época. A pós-modernidade é
interpretada como um período que ganhou expressão a partir dos anos de
1960, ficou marcada por promover mudanças e fazer problematizações às ex-
plicações e instituições da época moderna, que ainda se perpetuam em meio à
sociedade atual. Diante disso, disserte sobre as repercussões e os impactos das
concepções pós-modernas no campo educacional contemporâneo.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 1

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