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UNIVERSIDADE SALVADOR

ESCOLA DE NEGÓCIOS, DIREITO E HOSPITALIDADE


CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO

MATHEUS PELETEIRO DA ROCHA

A PROLIXIDADE E A LINGUAGEM TÉCNICO-JURÍDICA COMO OBSTÁCULOS


AO DIÁLOGO ENTRE O CIDADÃO E O DIREITO

Salvador
2018
MATHEUS PELETEIRO DA ROCHA

A PROLIXIDADE E A LINGUAGEM TÉCNICO-JURÍDICA COMO OBSTÁCULOS


AO DIÁLOGO ENTRE O CIDADÃO E O DIREITO

Monografia apresentada ao curso de graduação


em Direito, Universidade Salvador, como
requisito parcial para obtenção do grau de
bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Ms. Vitor Moreno Soliano


Pereira.

Salvador
2018
TERMO DE APROVAÇÃO

MATHEUS PELETEIRO DA ROCHA

A PROLIXIDADE E A LINGUAGEM TÉCNICO-JURÍDICA COMO OBSTÁCULOS


AO DIÁLOGO ENTRE O CIDADÃO E O DIREITO

Monografia aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de bacharel em


Direito, Universidade Salvador – UNIFACS, pela seguinte banca examinadora:

Nome:______________________________________________________________
Titulação e Instituição:__________________________________________________

Nome:______________________________________________________________
Titulação e Instituição:__________________________________________________

Nome:______________________________________________________________
Titulação e Instituição:__________________________________________________

Salvador/BA, ____/____/2018
AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer, primeiramente, à minha mãe, por ter se esforçado para


me conceder a melhor educação e permitir que esta graduação fosse possível, se
consolidando, para mim, como um exemplo implacável, e por todo amor, apoio e
suporte.

Ao meu orientador, Vitor Moreno Soliano Pereira, pela assistência em meio a


tantas atribuições, pela sua atenção, suas correções e disposição para ajudar a
enriquecer o trabalho.

À professora Marcella Almeida, por instruir a turma com excelência e oferecer


auxílio e atenção para sanar todas as eventuais dúvidas.

À memória do falecido professor Edivaldo Boaventura, que dedicou uma vida


inteira à área acadêmica e tive a honra de ser aluno da sua última turma.

À minha família, por todo amor e apoio incondicional, na expectativa de que


esta conquista seja também deles.

A Amanda Quaresma, pelo amor, apoio e companhia durante a elaboração da


presente pesquisa, e por me impedir, através de gestos, de endurecer como as
cidades.

E a todos os amigos que estiveram ao meu lado durante esta caminhada.


“Deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento
de observações que não valem o esforço da leitura. ”

Arthur Schopenhauer
SINTESE

O direito ao acesso à justiça e a garantia à razoável duração do processo são


reconhecidos como direitos essenciais, sendo compreendidos, no Direito Brasileiro,
como princípios de natureza constitucional. No entanto, ocorre que, de maneira direta,
através da linguagem, fator endógeno nas atividades jurídicas, tais princípios são
postos em segundo plano. O presente trabalho tem como objetivo manifestar uma
crítica a linguagem jurídica e a sua utilização de forma antiquada em atos corriqueiros
e comuns, a evidenciar o distanciamento da sociedade em relação ao direito causado
por ela, ressaltando a sua importância no que tange ao acesso à justiça, e levando
em consideração um dos principais motivos que impedem tal relação: o emprego
insistente e desnecessário do “juridiquês” e seu caráter prolixo e obsoleto, tanto na
visão da sociedade, que deixa de conhecer seus direitos e as formas de reivindicá-
los, quanto para os juristas que monopolizam o conhecimento jurídico e perpetuam o
uso de uma linguagem inacessível aos cidadãos comuns.
Através de uma abordagem social embasada em teorias sociológicas, críticas
filosóficas e uma análise da tendência do direito a partir da perspectiva doutrinária e
do posicionamento de países que apresentam elevado grau de desenvolvimento
humano, importará, ao final do trabalho, a exposição do presente problema, com o
intuito de que os profissionais da área jurídica possam avistar a problemática exposta
e buscar tornar o direito mais claro para aqueles a quem a lei se impõe, de modo que
as barreiras que assolam o acesso à execução da justiça e o conhecimento acerca do
Direito sejam quebradas. Assim, permitindo que o direito acompanhe as constantes
transformações as quais a sociedade se insere.

Palavras-chave: Prolixidade. Linguagem técnico-jurídica. Linguística.


Sociologia. Juridiquês.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 01

2 O CONTEXTO HISTÓRICO DA LINGUAGEM JURÍDICA BRASILEIRA ............. 05


2.1 A HERANÇA PORTUGUESA .............................................................................. 08
2.1.1 Língua x Linguagem....................................................................................... 11
2.2 A LÍNGUA E SEU VALOR SOCIAL...................................................................... 13
2.3 A LINGUAGEM A PARTIR DA SEMIÓTICA DOS FILÓSOFOS E A NECESSIDADE
DA INTELIGIBILIDADE NO DIREITO ....................................................................... 18
2.4 A LINGUAGEM E O PARANOMA JURIDICO-SOCIAL CONTEMPORANEO .... 24

3 A LINGUAGEM JURÍDICA COMO OBSTÁCULO AO ACESSO À JUSTIÇA ....... 31


3.1 CONCEITO DE ACESSO À JUSTIÇA................................................................. 33
3.2 O PROBLEMA DA DURAÇÃO DO PROCESSO................................................. 35
3.3 OS FATORES EDUCACIONAIS E SOCIOECONÔMICOS ................................. 39
3.4 O JURIDIQUÊS E O DIREITO COMO UMA ATIVIDADE ELITIZADA ................. 41

4 O LINGUAJAR JURÍDICO E OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS ................... 45


4.1 O PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA ........................................................................... 48
4.2 O PRINCIPIO DA CELERIDADE ........................................................................ 50
4.3 O PRINCÍPIO DA IGUALDADE .......................................................................... 52
4.4 O PRINCÍPIO DO ACESSO À JUSTIÇA ............................................................ 54

5 A SIMPLIFICAÇÃO DA LINGUAGEM JURÍDICA ................................................. 57


5.1 O PLAIN LANGUAGE MOVEMENT .................................................................... 60
5.2 O SIMPLELEGIS ................................................................................................. 64
5.3 POSSÍVEIS REFLEXOS DA SIMPLIFICAÇÃO DA LINGUAGEM JURÍDICA E O
NOVO CPC ............................................................................................................... 66

6 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 69

REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 72
1

1 INTRODUÇÃO

O Direito, assim como qualquer outra ciência, possui uma linguagem técnica
que lhe é peculiar. Neste sentido, a partir do momento em que o estudante que opta
pelo ramo jurídico ingressa no ensino superior, se depara com uma linguagem até
então esdrúxula ao seu cotidiano; consistente na utilização de jargões jurídicos,
termos técnicos específicos do direito e outras expressões até então não habituais,
na maioria das vezes, derivadas do latim e do inglês.

Nessa perspectiva, mesmo aptos no vestibular para que iniciem os estudos no


curso escolhido, já na graduação do curso de direito se iniciam os problemas
relacionados à linguagem, haja vista que, além de não compreenderem perfeitamente
a linguagem jurídica, também não compreendem a sua importância e, tampouco, de
que maneira esta deverá ser empregada. Evidentemente, de forma ostensiva, esta
mesma incompreensão se reflete no que tange aos cidadãos tutelados pelo Estado,
que apresentam extremas dificuldades na compreensão das atas e ofícios através dos
quais atua o direito.

De maneira a não sanar esta deficiência, com base em pesquisas frustradas a


procura de materiais para estudo, e em decorrência da quase escassez de obras
sobre o tema no Brasil, é possível constatar que, por incumbência do pouco material
escrito e estudado sobre o assunto de tamanha importância, o mesmo se mantém
estagnado socialmente, distante da realidade e carente de atualizações que tragam à
tona os seus efeitos negativos, os seus efeitos positivos, e a importância do saber agir
em prol da coletividade através da linguagem.

Por conseguinte, o direito contemporâneo apresenta-se como uma ciência que


necessita de uma espécie de harmonia entre o discurso jurídico e as ciências sociais,
de modo a buscar a obtenção de maior universalidade e a promoção dos instrumentos
necessários e compreensíveis ao alcance da justiça por parte da coletividade. Afinal,
com o desenvolvimento do capitalismo, com a universalização do processo eletrônico,
e com o advento da valorização à eficiência no Poder Judiciário, a linguagem jurídica
tende a deixar de ser uma questão de requinte e se tornar simplificada por uma
exigência operacional.
2

Em virtude disso, o presente trabalho surge com o objetivo de realizar uma


crítica à aplicação e relevância do fenômeno aqui apresentado sob a denominação de
“prolixidade jurídica”, ressaltando as adversidades provocadas por esta e, dando
ênfase, especialmente, ao distanciamento dos cidadãos em relação ao acesso à
justiça provocado por ela. Para tanto, será feita uma análise semiótica, conforme
ordem lógica, sobre a aplicação do linguajar no direito sob um viés histórico, utilizando
também argumentos dos ramos da linguística, filosofia, sociologia, além de
conclusões práticas extraídas a partir de fundamentos oriundos da doutrina jurídica e
jurisprudência.

Importará em analisar também, como um dos motivos que obstruem tal relação,
o emprego insistente e desnecessário do “juridiquês” no Brasil, e seu caráter muitas
vezes prolixo e arcaico, seja sob a perspectiva da sociedade, que, desta maneira,
deixa de compreender os seus direitos e as formas de reivindicá-los, seja sob a ótica
de determinados juristas, que, muitas vezes, terminam optando, voluntariamente ou
não, pela monopolização do conhecimento jurídico, e a sua consequente perpetuação
do uso de uma linguagem inacessível aos cidadãos comuns, de forma a manter a
engrenagem do direito elitizada e restrita.

Para tanto, é preciso salientar que a prolixidade jurídica, tema que fora
despercebidamente abordado no novo CPC, dentro da qual, muitas vezes, se insere
também o “juridiquês”, corresponde ao cerne da problemática em questão, consistente
na falta de objetividade por parte dos profissionais da área jurídica, que se utilizam
excessivamente de palavras e termos desnecessários à compreensão das peças e
ofícios.

Já o termo “juridiquês”, é um neologismo hoje amplamente adotado, utilizado


para denominar o uso desnecessário e excessivo dos jargões jurídicos e de termos
técnicos de Direito. Embora sua conotação seja, em determinadas situações, tida
como pejorativa, a ideia de juridiquês como linguajar profissional tem se mantido
presente na sociedade letrada, sobretudo por causa de seu caráter aparentemente
impressionante quando declarado perante sujeitos não habituados com o mesmo.

No trabalho em questão, pretende-se analisar, por meio de fundamentos e


argumentos, a imprescindibilidade de um encontro entre a técnica jurídica e o senso
comum, de forma a estimular a compreensão do direito como uma ciência dotada de
responsabilidade social, deste modo, atribuindo à linguagem acessível, inteligível,
3

clara e concisa um meio de otimizar a busca pela efetivação do direito ao acesso à


justiça.

Com a finalidade de realizar um apanhado histórico que evidencie o processo


de obsolescência dos fenômenos descritos para que se chegue ao resultado
pretendido, em primeiro plano, o capítulo inaugural trará uma introdução ao tema
objeto da presente pesquisa, analisando a linguagem por meio de um contexto
histórico, ressaltando a herança do idioma Luso-Português, do Direito Português e
buscando as origens e os motivos que propiciaram o surgimento do referido
fenômeno, bem como, quais as principais críticas e elogios que permeiam a discussão
a respeito deste. Além disso, discorrer-se-á sobre a sua manutenção ao longo dos
séculos.

Como forma de sustento, o estudo sócio-filosófico viabilizará a identificação dos


fundamentos e argumentos necessários para reflexão de maneira ponderada, bem
como elucidará também sobre a vital necessidade do Estado de se adequar conforme
as mudanças sociais.

Em segundo plano, serão consideradas perspectivas jurídicas e linguísticas


que estimulem a compreensão da importância do juridiquês e do domínio dos
termos técnicos no meio jurídico, sempre defendendo a importância dos termos
específicos que enriquecem o direito com significados próprios e, reprovando o
diálogo social por meio de uma linguagem pomposa e ininteligível que nada
contribui para o esclarecimento geral e, além disso, torna o judiciário menos
eficiente.

No quarto capítulo, o objeto recorte do tema se desenha ao serem


apresentados direitos fundamentais solidificados a partir de princípios constitucionais,
sendo realizada uma comparação entre seus objetivos e os efeitos decorrentes de
determinada linguagem utilizada, tendo, estes princípios, seus conceitos
investigados a fim de realçar os impactos da prolixidade e do juridiquês desmedido.

Prosseguindo, já no quinto capítulo, serão apresentadas tendências de nações


mais desenvolvidas, sendo tratadas as maneiras com as quais atuam em relação a
linguagem, e indagado: será o emprego de uma linguagem jurídica simplificada, em
âmbito jurídico, um remédio para questões relacionadas à segregação social e
morosidade do judiciário? Assim, a partir de perspectivas doutrinárias e práticas, que
4

darão força a discussão em torno dos benefícios trazidos e buscados nessas


civilizações, a simplificação da linguagem será destrinchada em prol da coletividade,
analisando a relevância do domínio da linguagem técnico-jurídica e, ao mesmo tempo,
a importância de se alcançar aqueles tutelados pelo direito.

Por ser este um tema que surge como consequência da expansão da


globalização e da universalização da informação e do direito, devido a sua tremenda
importância, para analisar os efeitos dessa tendência pouco discutida em âmbito
geral, e com o intuito de que o trabalho em questão sirva de referência tanto para
os atuais bacharéis em direito, quanto para os futuros profissionais da área, durante
o trabalho, será considerada a perspectiva interpretativista, a qual busca o acesso
à realidade através da análise de construções sociais, tais quais a língua, a
consciência, e os significados que as pessoas lhe atribuem, visando, desta maneira,
compreender o contexto de determinado fenômeno em estudo, de modo a produzir
uma compreensão concreta acerca do alcance da influência do objeto em questão.

Posto isso, caberá, ao capítulo final, rematar o presente trabalho investigando


- ou mesmo evidenciando - o momento em que vivemos, considerando as
transformações sociais e a iminente necessidade de uma reforma substancial no
comportamento daqueles que praticam o direito. Neste momento, serão destrinchados
os principais argumentos e fundamentos aludidos, a constranger a prolixidade jurídica
quando a atuação do profissional estiver diretamente relacionada ao diálogo com a
sociedade.
5

2 CONTEXTO HISTÓRICO DA LINGUAGEM JURÍDICA BRASILEIRA

A linguagem é uma ferramenta que ocupa espaço primário na sociedade


moderna, dando espaço, inclusive, para a sua compreensão como uma ciência,
denominada Linguística, que tem por objeto o estudo da linguagem humana e seus
aspectos fonéticos, morfológicos, sintáticos, semânticos, psicológicos e, também,
sociais1 , que constituirá o foco do presente trabalho, e será devidamente tratado.

Além de ter sido essencial na cultura humana para promover a comunicação e


o compartilhamento de experiências e informações, com o decorrer dos séculos, sua
utilização alcançou uma posição tão enraizada na cultura humana, que se tornou
inconcebível até mesmo imaginar como se daria o compartilhamento de informações
sem ela. Em determinados momentos da história, algumas classes passaram até
mesmo a utilizar-se da língua como instrumento de dominação2.

Deste modo, a linguagem na contemporaneidade se apresenta como um


fenômeno dotado de características regionais, culturais e valores em sentido estrito,
servindo como uma expressão de identidade e instrumento de caracterização social
e, também, sendo útil, tanto para a manutenção e o desenvolvimento do coletivo que
ocupa determinada comunidade, como para o entretenimento e o desenrolar das
relações entre indivíduos3.

No Brasil, a língua se desenvolveu a partir do prisma da colonização


portuguesa, que, através dos movimentos colonialistas e de propagação do
catolicismo, difundiu no país a língua portuguesa, através dos jesuítas, que
catequisaram os índios e os escravos impondo-lhes as suas crenças religiosas e
ensinaram o seu idioma nativo para que fosse compelida a propagação de quaisquer
outros idiomas, ou seja, falsificações do que compreendiam com “língua verdadeira”4.

Em Portugal, todo o sistema jurídico se estabeleceu a partir do Direito Romano,

1 DUARTE, Vânia Maria do Nascimento. "Linguística"; Brasil Escola. Disponível em


<https://brasilescola.uol.com.br/portugues/linguistica.htm>. Acesso em 05 de out. de 2018.
2
OELSNER, Miriam Bettina Paulina. A linguagem como instrumento de dominação. 2002. Tese
(Mestrado em Literatura Alemã) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade
de São Paulo. São Paulo. Disponível em: <www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8144/.../00-
Miriam_Oelsner-2.3_Capitulo_I.pdf/> Acesso em 12 de ago. de 2018.
3
SANTOS, Wasley de Jesus. História da língua portuguesa: formação e implantação de uma língua
navegante. Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/portugues/0025.html>.
Acesso em: 07 jul. 2018.
4
TOMASI, Carolina e MEDEIROS, João Bosco. Português Jurídico. São Paulo: Atlas, 2010, pág. 9.
6

que, além de influenciar diretamente o Direito Português, terminou também


influenciando, indiretamente, o Direito Brasileiro. Em razão disso, as universidades
brasileiras foram constituídas com o idioma latim como matéria obrigatória em sua
grade curricular, visto que o mesmo havia se estabelecido como vital para o estudante
de direitos, em razão de ter estabelecido uma dependência estratégica em expressões
indicativas de institutos próprios à linguagem jurídica e em princípios jurídicos.

A justificativa dada para tal dependência dava-se por conta das raízes jurídicas
fincadas no Direito Romano, pois, em razão disso, o Direito que chegou ao Brasil teve
forte influência do Direito Canônico, fazendo com que Estado brasileiro apresentasse
estreitas relações entre os poderes constituídos e a Igreja Católica, desde o
descobrimento e a colonização, no século XVI, até a Proclamação da República, no
final do século XIX5.

Portanto, considerando que o português brasileiro é uma segmentação do


português de Portugal, pode-se dizer que a origem de nossa língua está ligada ao
latim – língua falada pelo povo romano. Conforme acentuou Wasley de Jesus Santos,
a influência do latim na língua portuguesa se deu “por consequência de conflitos, que
aconteceram por volta do século III a.C., quando os romanos ocuparam a Península
Ibérica por meio de conquistas militares e impuseram aos vencidos seus hábitos, suas
instituições, seus padrões de vida e, principalmente, sua língua 6”. Ou seja, o latim,
enquanto idioma, existia desde os tempos pré-históricos, porém, foi a partir do século
III a.C. que passou a adquirir uma forma gramatical, cuja consolidação, estima-se, se
deu por volta do século I a.C.

No Direito Brasileiro, a linguagem portuguesa formal – hoje tida como arcaica


– se uniu ao latim e deu origem a uma linguagem própria e naturalmente elitista, que
permitiu aos profissionais do ramo liberdade para segregar o direito e submeter todos
os tutelados pelo estado à sua égide a partir de uma linguagem ininteligível para o
cidadão comum7.

5
SANTOS, Op. Cit., Acesso em: 07 jul. 2018.
6 Ibidem.
7 SANTANA, Samene Batista Pereira. A linguagem jurídica como obstáculo ao acesso à justiça.

Uma análise sobre o que é o Direito engajado na dialética social e a consequente desrazão de utilizar
a linguagem jurídica como barreira entre a sociedade e o Direito/Justiça. In: Âmbito Jurídico, Rio
Grande, XV, n. 105, out 2012. Disponível em: <http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12316&revista_caderno=24>.
Acesso em 22 de out. de 2018.
7

Ocorre que, com o passar dos anos, o latim foi se tornando ultrapassado e, em
1964, o Brasil assinou um acordo entre o Ministério da Educação (MEC) do Brasil e a
United States Agency for International Development (Usaid), dos Estados Unidos, que
tirou do currículo educacional matérias consideradas obsoletas, conceito o qual o
idioma fora inserido8. Como consequência disso, somente os profissionais de idade
elevada continuaram a ter o domínio da língua, provocando, com isso, uma certa
admiração à erudição em face daqueles que dominam a língua por parte dos mais
jovens, além de um dever intrínseco de se utilizar do idioma, seja por conta das
correntes jurídicas nominadas de acordo com o idioma antigo, seja por conta da
suposta erudição que a sua utilização infere.

Apesar da retirada do teor obrigatório da matéria, o latim continuou a ser


utilizado desmedidamente até mesmo por aqueles que não possuíam o seu domínio,
comumente servindo de pretexto para a camuflagem de um mal argumento, e utilizado
como uma espécie de elemento-eruditizante, ou seja, um fator que, por si só, dá à
peça jurídica, ao texto, ou documento, um ar intelectual em razão de ser um idioma
clássico, que muitas vezes se superestima a partir da interpretação provinciana
proferida por um direito que ainda não se desvinculou completamente das suas raízes
primitivas9.

Desta maneira, observa-se que a linguagem no direito brasileira sempre fora


tida como um aspecto acessório à justiça, porém, à medida que uma ciência alcança
tamanha magnitude, ela, necessariamente, precisa ser encarada com a seriedade
corresponde aos reflexos sociais por ela provocados. Na definição do professor e
advogado argentino Luis Fernando Warat “a linguagem não só permite o intercâmbio
de informações e de conhecimentos humanos, como também funciona como meio de
controle de tais conhecimentos10”.

Neste seguimento, Marcos Bagno, estabelece uma ácida e pertinente crítica ao


desenvolvimento da linguagem ao escrever:

8 Latim E OSPB: conheça 5 disciplinas escolares de outra época. TERRA ON-LINE. São Paulo, 25 fev.
2015. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/educacao/latim-e-ospb-conheca-5-disciplinas-
escolares-de-outra-epoca,810075ea5f48b410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html/>. Acesso em: 01
jul. 2014.
9
RODAS, Sérgio. Linguagem jurídica é importante e não pode ser banalizada, defendem
especialistas. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2016-ago-11/linguagem-juridica-nao-
banalizada-defendem-especialistas>. Acesso em: 20 ago. 2018.
10 WARAT, Luis Alberto. O Direito e sua Linguagem. Porto Alegre: Fabris, 2ª ed, 1995, pág. 73.
8

A Gramática Tradicional permanece viva e forte porque, ao longo da


história, ela deixou de ser apenas uma tentativa de explicação
filosófica para os fenômenos da linguagem humana e foi transformada
em mais um dos muitos elementos de dominação de uma parcela da
sociedade sobre as demais. Assim como, no curso do tempo tem-se
falado da Família, da Pátria, da Lei, da Fé etc. como entidades
sacrossantas, como valores perenes e imutáveis, também a ‘língua’ foi
elevada a essa categoria abstrata, devendo, portanto, ser ‘preservada’
em sua ‘pureza’, ‘defendida’ dos ataques dos ‘barbarismos’,
‘conservada’ como um ‘patrimônio’ que não pode sofrer ‘ruína’ e
‘corrupção11.

Analisando a partir do evidente tom satírico utilizado pelo autor, é possível


notar, através da sua clara indignação com a utilização das línguas como instrumento
de poder, a magnitude que a linguagem alcançou, na medida em que, com as
constantes transformações sociais, evoluções doutrinárias e jurisprudenciais que
passaram a analisar e aplicar as leis sob um viés de interpretação mais ampla e
subjetiva, de forma a dialogar com a sociedade, a atenção dada à linguagem, seja a
respeito da interpretação de texto da lei, da celeridade processual, ou da integração
de indivíduos, passou, de uma posição de coadjuvante, nas relações de poder do
estado, à de protagonista.

2.1 A HERANÇA PORTUGUESA:

Como já brevemente mencionado, com a pretensão de que a prolixidade da


linguagem jurídica no Brasil possa ser o objeto investigado no presente trabalho, é
necessário, para compreender a sua formação, analisar os antecedentes linguísticos
que lhe deram origem. Posto isso, faz-se relevante remontar para a concepção do
Direito Brasileiro para que aquilo identificado como “o pedantismo cafona do
juridiquês12” pelo sociólogo Sergio Rodrigues possa ser devidamente analisado desde
o seu surgimento.

Para tanto, será necessário compreender o desenvolvimento do direito como


ciência a partir de seus costumes primordiais e de dois momentos: o primeiro referente

11 BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999, pág.
17.
12
RODRIGUES, Sérgio. Viva a língua brasileira!: uma viagem amorosa, sem caretice e sem vale-
tudo, pelo sexto idioma mais falado do mundo – o seu. 1a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016,
pág. 14.
9

ao período em que o Estado Brasileiro ainda não possuía o status de Estado, sendo
ainda somente uma colônia de Portugal, sujeita à suas leis e imposições, tendo todo
o seu ordenamento jurídico importado da metrópole lusitana; e, um segundo momento
referente ao período em que o Brasil se estabeleceu como Estado, deixou de se
posicionar sob a égide de Portugal, adquiriu liberdade jurídica e política e, com isso,
conquistou autonomia para que pudesse produzir as suas próprias leis13.

No primeiro período, o Direito Brasileiro plantou as suas primeiras sementes,


apesar da implantação de estruturas de aplicação de leis e do surgimento de
profissionais, que, na maioria das vezes, eram intelectuais profundamente
conservadores estudiosos do latim, haja vista a vigorosa influência cristã da época,
que escreviam prolíficos e prolixos textos na tentativa de concretizar o português como
uma língua difícil compreensão, o que acreditavam significar o mesmo que uma língua
rica14. Neste momento, as primeiras raízes verborrágicas se fincaram ao solo fértil de
um direito principiante e inexperiente, e deram origem à primeira safra de profissionais
adeptos ao verbalismo bacharelesco.

Já no segundo período, a sociedade brasileira, já composta por uma completa


miscelânea de povos vindos principalmente de países da África e da Holanda, deixou
de importar a legislação português e passou a redigir a sua própria, buscando atribuir
ao Direito Brasileiro uma identidade. Dentre as principais mudanças do período, que
se iniciou a partir da independência do Brasil em 1822, em um momento em que
estava estabelecida uma monarquia constitucional, se deu a mudança em torno do
respaldo do poder real, que deixou de lastrear numa divindade e passou a obedecer
uma constituição. No entanto, ainda que o Estado brasileiro tenha se libertado
juridicamente e politicamente de Portugal no período descrito, o mesmo não foi capaz
de se desvincular do que foi semeado e cultivado no Direito Brasileiro15,
principalmente por conta dos profissionais de direito que construíram as leis
brasileiras, os quais foram educados a partir do prisma português e o mantiveram.
Para isso, basta observar, que as leis portuguesas, como as Ordenações Filipinas, só
deixaram de dominar o cenário jurídico brasileiro com o nascimento do Código Civil

13
LEITE, Marisa Ribeiro. Construção de Direito no Brasil e suas relações de poder. Disponível
em: <https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/2464/Construcao-de-Direito-no-Brasil-e-suas-
relacoes-de-poder/> Acesso em: 05 de ago. de 2018.
14 Ibidem.
15 Ibidem.
10

de 1916, idealizado pelo cearense Clóvis Beviláqua16.

A partir disso, o Direito Brasileiro seguiu se desenvolvendo, passando a


dialogar com outros idiomas, sobretudo após o surgimento da internet, por meio da
globalização, que fez com que a intercomunicação fosse possível através dos meios
digitais independentemente das diferenças linguísticas. Contudo, ainda hoje, os
profissionais do direito no Brasil ainda não foram capazes de se desvencilhar das
obscuras raízes. Neste sentido, analisando este resquício, mas tratando da
contemporaneidade, pontuou o advogado Adacir Reis:

No Direito Brasileiro, carregamos uma tradição jurídica com raízes


lusitanas, a linguagem formal caracterizou-se pelo verbalismo
bacharelesco e pela expressão retórica. A busca da construção
estética se sobrepunha à preocupação com o resultado prático. O
mundo forense parecia se bastar. Quanto mais pomposas as
expressões, maior a presunção de saber. Assim, o parecer jurídico de
setenta páginas era visto, em si, como um “denso estudo”, pouco
importando se seria lido integralmente, ao passo que o outro, com
poucas laudas, poderia sugerir, até mesmo aos olhos do cliente, uma
pobreza de argumentos17.

No referido trecho, Reis, acidamente, aponta uma evidente questão


praticamente já ultrapassada em países como Estados Unidos e Austrália, no entanto,
ainda atual em Portugal. Coincidência? Não à toa, conforme depreende-se no artigo
intitulado “A situação da linguagem jurídica em Portugal – o processo de simplificação
das linguagens administrativa e legislativa”, da professora Maria da Conceição
Carapinha Rodrigues, especializada em Linguística Jurídica em Portugal, no momento
atual, a maioria dos profissionais do Direito ainda defendem a preservação desta
variedade linguística como está: prolixa, específica e supostamente não ambígua.
Como fundamento, os mesmos defendem que:

(...) os problemas de comunicação entre o universo jurídico e o exterior


não podem ser imputados à linguagem de especialidade em que o
Direito se move, mas sim à deficiente educação e literacia dos
cidadãos que deveriam melhorar a sua formação para aceder a
práticas linguísticas mais complexas18.

16 RODRIGUES, Julian. Advogado Brasileiro em Portugal, Advogado Português no Brasil: O


Regime de Reciprocidade. Disponível em: <https://o-tuga.com/educacao/direito-advogados-brasileiros-
em-portugal//> Acesso em: 06 de ago. de 2018.
17 REIS, Adacir. Simplificação da linguagem jurídica tornou-se uma exigência. Disponível em:

<https://www.conjur.com.br/2016-fev-15/adacir-reis-simplificacao-linguagem-juridica-exigencia>.
Acesso em: 07 jul. 2018.
18 RODRIGUES, Maria da Conceição Carapinha. A situação da linguagem jurídica em Portugal: o
11

Há quem compreenda o posicionamento de parte dos juristas portugueses


como lógico e coerente; há quem o compreenda como elitista e conservador e há,
também, aqueles que concordam com o argumento ora exposto, mas discordam
quanto à eficácia que atribuem, porém, é inevitável não notar, através da semelhança
problemática entre os dois países, a gritante conexão na semelhança entre os motivos
dos problemas de comunicação, acesso à justiça e morosidade judiciária entre ambos.

2.1.1 Língua x Linguagem x Linguística

Face ao que está sendo e será apresentado no presente trabalho, faz-se


necessário esmiuçar a distinção entre “língua”, “linguagem” e linguística”,
concernentes a algumas das expressões a serem utilizadas, as quais merecem
atenção especial quanto aos seus conceitos.

A linguagem, possuidora do mais abrangente dentre os três conceitos,


contempla um sistema utilizado para estabelecer uma comunicação. No que tange à
humanidade, constitui-se a partir da necessidade de comunicação por parte dos seres
humanos, e se constitui a partir da cultura de uma comunidade e da aprendizagem
social, sendo vital para a inserção de um indivíduo em determinada sociedade19. Nas
palavras do linguista francês Jean Dubois:

Linguagem é a capacidade específica à espécie humana de comunicar


por meio de um sistema de signos vocais, que coloca em jogo uma
técnica corporal complexa e supõe a existência de uma função
simbólica20.

Entretanto, faz-se necessário ressaltar a linguagem não se restringe somente


aos atos de fala, sendo a linguagem não verbal também dotada de relevância,
abordando aspectos como gestos, postura e outras formas de códigos que permitem
a comunicação visual21.

processo de simplificação das linguagens administrativa e legislativa. Disponível em:


http://valesco.es/justicia/wp-content/uploads/2013/11/A-situa%C3%A7%C3%A3o-da-linguagem-
jur%C3%ADdica-em-Portugal-VALENCIA.pdf/. Acesso em: 07 jul. 2018.
19 TOMASI, Carolina e MEDEIROS, João Bosco. Português Jurídico. São Paulo: Atlas, 2010, pág. 6.
20 DUBOIS, Jean et all. Dicionário de linguística. São Paulo: Cultrix, 1988, pág. 387.
21 TOMASI, Op cit., pág. 7.
12

De outro modo, a língua pode ser definida como um código que permite a
comunicação através de um sistema de signos e combinações, que concretiza-se
oralmente por meio de atos de fala e pela escrita22. Assim, enquanto a linguagem se
caracteriza como um mecanismo que trata das formas de interação em um panorama
geral, a língua se apresenta como um código verbal característico de um determinado
grupo, concretizado a partir de atos de fala23.

Neste sentido, quando se fala da análise da linguagem empregada no direito


na presente pesquisa, contempla-se a linguagem empregada através de palavras, ou
seja, a utilização da língua. Sobre este objeto, escreve Carolina Tomasi e João Bosco
Medeiros:

A língua portuguesa, portanto, é um sistema linguístico que abrange o


conjunto das normas que se concretiza por meio dos atos individuais
de fala. Ela é um dos sistemas linguísticos existentes dentro do
conceito geral da língua. A língua portuguesa compreende variações
diversas devidas a locais, fatores históricos e socioculturais que levam
à criação de variados modos de usar a língua que se constituem em
normas24.

Por fim, a linguística se solidifica como a área de estudo científico da linguagem


que contempla o estudo da linguagem em um panorama geral, analisando os efeitos,
meios e consequências do seu emprego em quaisquer contextos.

Posto isto, no presente trabalho a linguagem será tratada a partir da perspectiva


da linguística, seja através da sua forma falada, em situações específicas, ou escrita,
sendo seu estudo encarado como uma ferramenta de importância vital, não só à
interpretação daquilo que se deve dizer, mas também da maneira de dizer 25, buscando
perceber se a linguagem empregada é coerente e compatível com as hipóteses
trazidas e com todo o sistema jurídico constitucional.

22 Ibidem.
23 OLIVEIRA, Katyucha de. Diferença entre língua e linguagem; Brasil Escola. Disponível em
<https://brasilescola.uol.com.br/portugues/diferenca-entre-lingua-linguagem.htm>. Acesso em 03 de
nov. de 2018.
24
TOMASI, Carolina e MEDEIROS, João Bosco. Português Jurídico. São Paulo: Atlas, 2010, pág. 8.
25
COLARES, Virgínia (Org). Linguagem e direito. Ed. Universitária da UFPE, 2010, pág. 237.
13

2.2 A LINGUAGEM E SEU VALOR SOCIAL

Na sociedade moderna, tornou-se indiscutível a importância da linguagem


quando relacionada a questões que dialogam com o desenvolvimento de determinada
civilização. Basta observar a história para notar, desde o surgimento das guerras, que,
para que o poder de determinado povo fosse consolidado, era praticado o genocídio
do povo derrotado, de modo que pudesse ser imposta a língua do vencedor e, com
ela, as suas crenças, valores e cultura.

Quando indagado a respeito da forma com que os detentores do poder se


utilizaram e continuam a se utilizar da língua para se instalarem, o professor Marcos
Bagno, já referido anteriormente, pontuou:

No interior de cada país, de cada sociedade, há também uma nítida


divisão social por meio da linguagem: o estabelecimento de uma
“norma-padrão”, inspirado nos usos das elites e da literatura
consagrada, é um modo de separar os que “falam bem” dos que “falam
mal” ou que simplesmente “não podem falar”. A linguagem como
instrumento de poder é um fenômeno tão antigo quanto a espécie
humana26.

Nesta perspectiva, remontando-se às conquistas dos romanos – efetuadas a


partir da dizimação de centenas de povos na Europa - e observando a consequente
herança romana, a qual muitas nações carregam em sua estrutura até hoje, seja na
língua, na religião ou nos costumes, pode-se ilustrar de forma clara como o fenômeno
funciona, haja vista o desaparecimento da maioria das línguas dos povos dominados,
muitas vezes sem sequer deixar vestígios. Um elemento marcante trazido pelo
professor e magistrado Marcelo Dolzany é a relação entre as religiões tradicionais e
os rigores do judiciário. Para ele, um sacerdote e um juiz em suas vestimentas se
confundem por conta da roupa que vestem e do ar de superioridade que emanam,
como se ambos estivessem numa posição próxima à justiça, seja aquela proveniente
da legislação, ou aquela proveniente de uma divindade27.

26
BAGNO, Marcos. Conquistadores ou estupradores? Descobridores ou genocidas? A língua
como instrumento de poder. Disponível em: <http://www.socialistamorena.com.br/a-lingua-como-
instrumento-de-poder/>. Acesso em: 25 jul. 2018.
27 COSTA, Marcelo Dolzany da. O estudo da semiótica e a comunicação no Poder Judiciário.

Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2003-abr-


30/estudo_semiotica_comunicacao_judiciario?pagina=3/> Acesso em 06 de nov. de 2018.
14

No entanto, não somente na Europa o mencionado fenômeno se estendeu.


Durante o período das expansões marítimas, todos os continentes sofreram
alterações linguísticas em decorrência de invasões de outros povos. Na maioria das
situações, línguas europeias foram impostas a povos africanos, oceânicos,
americanos e asiáticos, submetidos ao controle das potências coloniais. Na América
do Sul e, mais precisamente, no Brasil, como se sabe, não foi diferente28. É possível
notar a interferência deste fenômeno no Brasil ao remontar ao surgimento das línguas
latinas, onde podemos vislumbrar, conforme trazido no tópico anterior da presente
pesquisa, o desenvolvimento do estado brasileiro a partir de um estigma cultural que
tinha a igreja católica como força maior, o latim clássico como língua erudita e Deus
como o mais elevado juiz.

Considerando o contexto trazido, se torna válido salientar que, assim como


pontuou Cintra e Stamford:

Quando nos referimos ao latim clássico, estamos nos referindo ao


latim da época de Cícero, César, Sêneca, ou seja, ao da época do
apogeu do império romano. No entanto, ao lado desta língua erudita,
castiça, falada e escrita pelas pessoas letradas, havia o latim popular,
que assumia formas mais livres e sem a precisão das regras
gramaticais, falada pelas pessoas do povo e, principalmente, pelos
soldados romanos, que participavam das guerras de conquistas29.

Ou seja, desde os primórdios a pirâmide social esteve instalada, utilizando


como base de sustento a linguagem, que cuidava de consolidar as condições ao
acesso ao poder, fosse em relação a ascensão social ou em relação ao direito e ao
acesso à justiça.

Em razão das invasões ocorridas, com o decorrer dos anos, se desenvolveu


um panorama em que os idiomas foram pré-definidos. Porém, ainda assim, a língua
não deixou de ser um instrumento de manipulação do poder. Quando os países já
possuíam um idioma pré-definido, já com uma linguagem culta capaz de evidenciar a
desigualdade social entre os favorecidos e os não favorecidos, surgiu então a

28
SANTOS, Wasley de Jesus. História da língua portuguesa: formação e implantação de uma língua
navegante Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/portugues/0025.html/>.
Acesso em 15 de jul. de 2018.
29
CINTRA, Renato J.; STAMFORD, Catarina. Latim Jurídico, 2002. Disponível em:
<http://www.stamford.pro.br/catarina/Artigos%20e%20Compilacoes/stamford-cintra-latim.pdf/>.
Acesso em 06 de nov. de 2018.
15

linguagem técnica como um novo instrumento de segregação a partir da língua.

Aproximadamente no final do século 19, a linguagem técnica surgiu a partir dos


matemáticos, que buscavam a composição de uma área de conhecimento específica
que permitisse a especialização dos profissionais do ramo, de maneira a esmiuçar
teorias, prevenir equívocos e valorizar os profissionais de mais vasto conhecimento.
A implementação se deu com sucesso ao longo das décadas e, hoje, o uso desta
linguagem se legitima, por exemplo, em congressos, livros e artigos que contemplam
quaisquer áreas de conhecimento específicas30.

A especificidade das linguagens indubitavelmente dão um caráter singular ao


conhecimento de determinado tema, permitindo que este desenvolva teorias próprias
e, com isso, também conceitos singulares, porém, alguns anos após o surgimento da
linguagem técnica e o seu desenvolvimento em áreas como o direito, notou-se que
diversos indivíduos de determinadas civilizações, passarem a ser excluídos do
domínio econômico e impossibilitados de compreender a linguagem culta, fosse em
razão das suas condições sociais, ou em razão de fatores especiais. Por conta disso,
a sua utilização por aqueles que a dominam nos meios acadêmicos se tornou uma
forma de comunicação cujos detentores são os mesmos que detém o poder
socioeconômico, de forma que a sua elitização promoveu a separação dos indivíduos
que possuíam este domínio e os demais31.

De acordo com estudiosos do tema, a exemplo do supracitado Dolzany, no


decorrer do século 20 duas ciências da linguagem finalmente foram enxergadas como
algo diferente de meros meios de comunicação, sendo elas definidas como: linguística
- ciência que se refere à linguagem verbal, já apresentada no presente trabalho e,
Semiótica - ciência que contempla toda e qualquer linguagem32.

Realizando uma síntese de seus conceitos é possível compreender que, ao


tempo em que a primeira busca estudar e investigar determinada linguagem verbal e

30
SANTANA, Samene Batista Pereira. A linguagem jurídica como obstáculo ao acesso à justiça:
uma análise sobre o que é o Direito engajado na dialética social e a consequente desrazão de utilizar
a linguagem jurídica como barreira entre a sociedade e o Direito/Justiça. Disponível em:
<http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12316&revista_caderno=24/>.
Acesso em: 06 de nov. de 2018.
31
Ibidem.
32
COSTA, Marcelo Dolzany da. O estudo da semiótica e a comunicação no Poder Judiciário.
Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2003-abr-
30/estudo_semiotica_comunicacao_judiciario?pagina=3/> Acesso em 06 de nov. de 2018.
16

seus efeitos, a segunda reconhece a existência de outras múltiplas formas de


comunicação capazes de traduzir e fundamentar o desenvolvimento de sistemas
sociais e históricos existentes há séculos33.

Ao tempo em que a primeira compreende o que é representado por palavras,


ou seja, o que está escrito ou é falado, englobando textos, livros e todas as formas de
comunicação verbal, como o próprio termo sugere, a segunda remonta ao status do
homem primitivo, que, por conta da falta de um idioma capaz de reproduzir uma
linguagem falada, recorria a gestos e expressões faciais para traduzir sinais de perigo
e demonstrar emoções.

É possível notar, portanto, a importância da linguagem verbal para a construção


de uma comunicação inteligível. Seja na forma falada ou escrita, a linguagem ora pode
ser usada como instrumento de dominação e manutenção do status proporcionado
pelo eruditismo da fala ou escrita, ou ainda da postura e comportamentos do sujeito,
ora pode ser instrumento democrático de inclusão e compreensão da justiça.

Na mesma entrevista que o professor Bagno anteriormente citou a antiguidade


da utilização da linguagem como instrumento de poder, respondeu, ao ser
questionado sobre quais setores da sociedade em que se nota o uso da língua desta
forma:

Em toda a sociedade, o tempo todo. Nas relações mais íntimas, por


exemplo, entre o poder masculino e o não-poder feminino, a
linguagem é instrumentalizada para definir os papéis e as hierarquias.
Assim também nas relações entre as etnias, as classes sociais, as
faixas etárias etc. A sociedade é hierarquizada e não se pode separar
linguagem de sociedade.34

Ao observar o direito sob esta ótica, é possível compreender que o mesmo é,


também, instrumentalizado para definir papéis e hierarquias, seja de maneira
consciente ou de maneira inconsciente.

O sociólogo francês, Pierre Bourdieu, deu respaldo à discussão em sua obra


“Poder Simbólico”, cujo título se refere à presunção de que os indivíduos de
determinada sociedade, ao edificarem o Direito que irá reger as suas relações sociais,

33Ibidem.
34 BAGNO, Marcos. Conquistadores ou estupradores? Descobridores ou genocidas? A língua
como instrumento de poder. Disponível em: <http://www.socialistamorena.com.br/a-lingua-como-
instrumento-de-poder/>. Acesso em: 25 jul. 2018.
17

aceitam como legítimo o poder que cria as normas e aceitáveis os conteúdos destas,
atribuindo à linguagem jurídica o caráter de manifestação de poder, constatando que
simples limitações às diversas formas de interpretação jurídica, representam, por si
só, uma forma de controle social. Podendo, o vocabulário jurídico utilizado na prática
e na comunicação ser inserido na crítica realizada35.

No universo jurídico, à linguagem é atribuído os atributos da persuasão e


convencimento. E, para fazê-lo com sensatez e responsabilidade, deve-se expor os
fatos de forma clara, demonstrando que a conclusão do raciocínio deve ser
razoavelmente compreensível para que o cidadão comum compreenda o processo do
qual faz parte de modo a ser exercido o contraditório. Neste ponto, é possível
perceber, no direito, a força do Poder Simbólico teorizado por Bourdieu, a partir da
observação de que os sujeitos dominados se submetem a uma forma de controle
através da linguagem por conta de uma crença comum e hereditária das massas de
crer naquilo que não compreendem36.

Sobre esta concepção, é destacada pelo filósofo russo Mikhail Bakhtin, a


necessidade de pertencimento à uma mesma comunidade linguística – o que não
necessariamente significa um mesmo idioma – entre o locutor e o interlocutor (sistema
jurídico e cidadão), visto que, para que tenham uma relação coerente e legítima é
indispensável que os dois indivíduos estejam integrados naquilo que dialogam37.

Portanto, realizando uma análise sob viés sociológico, deve-se perceber que a
linguagem, historicamente, vem sido manuseada como um instrumento de dominação
para a consolidação e manutenção de determinados poderes. No Brasil, não é preciso
muito esforço para observar que a linguagem técnica jurídica e o conservadorismo se
unem como instrumentos para que o poder seja mantido nas mãos daqueles que a
instalaram, de forma hereditária. Neste sentido asseverou Samene:

É fato que o conservadorismo e a dominação são reconhecidos pela


sociedade como identificadores da linguagem jurídica. As “regras”
deste tal “jogo” concebido por Bourdieu são cláusulas de exclusividade

35 SANTANA, Samene Batista Pereira. A linguagem jurídica como obstáculo ao acesso à justiça:
uma análise sobre o que é o Direito engajado na dialética social e a consequente desrazão de utilizar
a linguagem jurídica como barreira entre a sociedade e o Direito/Justiça. Disponível em:
<http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12316&revista_caderno=24/>
Apud. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 8ª ed. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 2005.
36 Ibidem.
37 ANDRADE, Op. Cit., Apud BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo:

Hucitec Anna Blume, 2002.


18

de um saber jurídico engessado. Uma das maneiras de reverter esse


quadro e estabelecer uma evidente reconquista do Estado pela
sociedade seria o Poder Judiciário refletindo na mudança de seu ato
comunicativo38.

Muitos dos reflexos da busca pela justiça em um país podem ser identificados
a partir da linguagem que o mesmo utiliza, neste seguimento, não sem explicações
persistem as graves barreiras de comunicação dentro das instituições jurídicas, sendo
a simplificação da linguagem jurídico no viés da prática uma forma de assegurar a
igualdade entre indivíduos. Vê-se então, o quão urgente é aproximar o discurso
jurídico do entendimento coletivo, favorecendo toda a sociedade e não somente um
pequeno grupo.

2.3 A LINGUAGEM A PARTIR DA PERSPECTIVA DOS FILÓSOFOS E A


NECESSIDADE DA INTELIGIBILIDADE NO DIREITO

Do mesmo modo que todo instrumento pelo qual se faz possível a extração de
conhecimento, durante a história da humanidade pós surgimento da filosofia, a
linguagem foi severamente discutida em âmbito filosófico, de modo que, se forem
analisadas as obras completas daqueles tidos como grandes filósofos, ou até mesmo
daqueles que alcançaram menor alcance, em todas elas serão encontradas
elucubrações e ponderações em torno da língua, seja no que diz respeito às suas
formas de utilização, à importância do seu papel, ou até mesmo em relação a sua
ideal forma de atuar.

No entanto, ainda assim, foram necessários séculos para que seu caráter vital
fosse reconhecido. A linguagem somente começou a ter os olhares voltados para ela
no final do século XIX e, somente no século XX, passou enfim a ocupar uma posição
de prestígio.

A partir desta perspectiva, surgiu o campo de estudo filosófico intitulado como


“filosofia da linguagem”, ramo instituído a partir de duas acepções principais, sendo,
a primeira delas, responsável pela análise da investigação filosófica acerca da

38
SANTANA, Op. Cit., Acesso em: 25 de jul. de 2018.
19

natureza e do funcionamento da linguagem, perpassando por pontos como a função


da linguagem, a maneira que somos capazes de nos referir às coisas por meio da
linguagem e a forma com que os seres humanos se comunicam uns com os outros
(também denominada de “análise da linguagem”) e, a outra, responsável por uma
investigação de abordagem crítica, orientada por uma análise sobre a língua, também
chamada de “crítica da linguagem”39.

Dentro destes conceitos se estabeleceram diversos nichos de vastas


segmentações, a partir dos quais foram desenvolvidas variadas teorias. Dentre elas,
faz-se necessário elucidar no presente trabalho a análise a partir das teorias do uso
da linguagem, que nasceram com o intuito de correlacionar a linguagem com as
transformações sociais, variando conforme o uso em diferentes comunidades,
associada, inicialmente, ao renomado filósofo austríaco, Ludwig Wittgenstein, que,
inspirado pelos conceitos de Arthur Schopenhauer e pelas elaborações lógicas de
Bertrand Russel40, influenciou diretamente a filosofia da linguagem.

A possibilidade do desenvolvimento de diferentes teorias do uso da linguagem,


permitiram que os filósofos elaborassem, a partir de análises empíricas e racionais,
as suas próprias compreensões sobre a forma com que os usuários de determinada
linguagem se comunicam com os outros, observando fatores que influenciam na
interpretação, inclusão e comunicação dos indivíduos. Para isso, a semiótica, estudo
dos signos intrinsecamente relacionados à comunicação, permitiu que as palavras
fossem interpretadas de acordo com o contexto linguístico onde foram empregadas,
sendo analisados pelos filósofos, sob o seu prisma, seus efeitos da utilização de
determinadas sequências de palavras. Este ramo de estudo, também estabelecido no
direito como semiótica jurídica, considera indissociáveis os aspectos sintáticos e
semânticos da linguagem e se preocupa em oferecer uma estratégia para a sua
investigação41.

39 BOZATSKI, Maurício Fernando. Entre o humano e a linguagem: um estudo sobre a filosofia de


Wittgenstein. 2002. Tese (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia e Ciências, UNESP –
Universidade Estadual Paulista. São Paulo. Disponível em: <https://www.marilia.unesp.br/Home/Pos-
Graduacao/Filosofia/Dissertacoes/bozatski_mf_ms_mar.pdf/>. Acesso em 13 de ago. de 2018.
40 DUARTE, Vânia Maria do Nascimento. "Linguística"; Brasil Escola. Disponível em
<https://brasilescola.uol.com.br/portugues/linguistica.htm>. Acesso em 05 de out. de 2018.
40 BOZATSKI, Op. Cit., Acesso em 13 de ago. de 2018.
41 ARAUJO, Clarice von Oertzen de. Semiótica jurídica. Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso

Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Teoria Geral
e Filosofia do Direito. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo Gonzaga, André Luiz Freire
(coord. de tomo). 1. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017. Disponível
20

Neste sentido, o filósofo americano Noam Chomsky, impulsionado por seu


caráter iconoclasta ao viver de acordo com um panorama social onde o senso comum
encarava a linguagem como um mero instrumento de comunicação responsável pela
transmissão informações, trouxe à tona ideia de que:

(...) é errôneo pensar no uso humano da linguagem como


caracteristicamente informativo, de fato ou de intenção. A linguagem
humana pode ser usada para informar ou desorientar, para clarificar
os pensamentos de uma pessoa ou para exibir sua habilidade, ou
simplesmente por brincadeira.42

Nota-se, portanto, no trabalho de Chomsky, sob um diferente prisma, a mesma


percepção que tiveram historiadores e sociólogos, a conceber à linguagem um objeto
mais amplo que o de viés comunicativo, podendo ela, ao olhar do filósofo, ser até
mesmo instrumento de persuasão.

Ocorre que, ainda que a filosofia da linguagem tenha sido classificada e


valorizada no século XX dando origem às chamadas teorias de uso da linguagem, é
no século XIX que se encontram, graças a Arthur Schopenhauer (1788-1860),
algumas das mais precisas análises à linguagem, compreendendo o seu vocabulário,
a sua inteligibilidade, o seu alcance e a sua efetividade. Neste sentido, o filósofo
estabeleceu uma precisa avaliação ao escrever sobre gritantes vícios de escrita, se
referindo a escritores sui generis, fossem de obras literárias ou científicas, afirmando
que:

Se eles apenas se dedicassem com honestidade à sua obra e


simplesmente quisessem comunicar o pouco e usual que de fato
pensaram, da maneira como pensaram, seriam legíveis e até mesmo
instrutivos dentro de sua esfera própria. Só que, em vez disso,
esforçam-se para dar a impressão de ter pensado mais e com mais
profundidade do que o fizeram realmente. Essas pessoas apresentam
o que têm a dizer em fórmulas forçadas, difíceis, com neologismos e
frases prolixas que giram em torno dos pensamentos e os escondem.
Oscilam entre o esforço de comunicar e o de esconder o que
pensaram. Gostariam de expor o pensamento de modo a lhe dar uma
aparência erudita e profunda, para que as pessoas achem que há, por
trás deles, mais do que percebem no momento. Assim, ora lançam os
pensamentos de modo fragmentário, em sentenças curtas, ambíguas
e paradoxais, que parecem significar muito mais do que dizem43.

em: <https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/96/edicao-1/semiotica-juridica/>. Acesso em: 06 de


nov. de 2018.
42 MARCONDES, Danilo. Textos básicos de linguagem: de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Jorge

Zahar Ed., 2009, p. 112.


43
SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 1ª ed, 2013, págs. 71-72.
21

Embora o julgamento em questão tenha sido realizada em desfavor à


linguagem aplicada a escrita de artigos e livros em geral por parte dos seus autores,
considerando a atual realidade prática contemporânea e o caráter universal dos
fundamentos, a presente crítica poderia facilmente ser adequada ao que se observa
do Direito Brasileiro, bastando que o termo “sua obra” fosse alterada para “suas peças
processuais e demais documentos jurídicos”, para que o seu apontamento fosse
adaptado com propriedade à conduta comumente praticada por parte dos exercentes
do direito. O que também se deduz dos seguintes trechos:

Além disso, essas pessoas também escrevem palavras, ou mesmo


frases inteiras, nas quais elas próprias não pensaram nada, contudo
esperam que um outro possa pensar ao lê-las. O motivo de todos
esses esforços não é nada além da aspiração incansável, buscada
sempre por novos caminhos, de vender palavras por pensamentos,
produzindo a aparência do talento por meio de expressões novas, ou
usadas em novos sentidos, com fórmulas e combinações de todos os
tipos, para suprir a falta de engenho que os faz sofrer44.

Neste sentido, o autor continua a enfrentar os escritores da sua época, indo de


encontro à crítica anteriormente trazida nas palavras do advogado Adacir Reis
(presente na pág. 9 do presente trabalho). Desta maneira, no trecho em questão,
basta que “um outro” (3ª linha) seja interpretado como o magistrado, e que o termo
“expressões novas” (6ª linha) seja alterada por “expressões antigas” para que as
críticas se coadunem.

Além disso, para finalizar a crítica à conduta que descreveu como detentora de
um tom exaustivamente prolixo, pomposo e esforçadamente erudito, Schopenhauer
escreveu:

Contudo, a máscara mantida por mais tempo é a da ininteligibilidade,


embora isso aconteça apenas na Alemanha, onde ela foi introduzida
por Fichte, aperfeiçoada por Schelling e finalmente alcançou seu
clímax em Hegel, obtendo sempre o maior sucesso. Não há nada mais
fácil do que escrever de tal maneira que ninguém entenda; em
compensação, nada mais difícil do que expressar pensamentos
significativos de modo que todos os compreendam. O ininteligível é
parente do insensato, e sem dúvida é infinitamente mais provável que
ele esconda uma mistificação do que uma intuição profunda.45

44
Ibidem, pág. 73.
45 Ibidem.
22

No presente texto, observa-se que o autor evidenciou um dos objetos principais


do presente trabalho, referente à incumbência transferida ao juiz, que passa a ter de
desvendar os prolixos textos escritos, ou até copiados sem compromisso algum com
o bem-estar comum, presentes em peças processuais ajuizadas por advogados que,
nos moldes do Código de Ética da Ordem dos Advogados do Brasil, se submeteram
a zelar pelo mesmo, porém, ainda que de forma involuntária, terminaram por
descumprir as suas promessas assim que iniciaram suas atividades.

Na contemporaneidade, assim como afirma o filósofo alemão Jürgen


Habermas, autor da Teoria do Agir Comunicativo, que se fundamenta a partir da união
da linguagem universal a uma sólida base ética moral, vivemos o momento filosófico
da virada linguística, o qual se constitui como um período ainda mais racional, onde
se busca a estruturação da razão e a óptica filosófica passa a se fundamentar não
mais na razão subjetiva, mas sim na linguagem46.

Assim, Habermas fundamenta o seu discurso em defesa do olhar filosófico para


a linguagem baseando-se nas ações humanas, observando sempre a realidade
prática do indivíduo e tendo como fator essencial o princípio discursivo de
universalização, o qual afirma só serem válidas e eficazes as normas em que todos
os possíveis afetados possam consentir como participantes, em prol da pretensão de
uma fundamentação moral e universal na qual todos sejam atendidos em seus
respectivos interesses pessoais, e estejam de acordo, para que, desta maneira, seja
possível uma normatização ética e moral47. Posto isto, sintetiza Juan Carlos Velasco:

O princípio básico do programa de fundamentação constitui no


denominado princípio discursivo de universalização, conforme o qual
só é válido aquelas normas em que todos os possíveis afetados
podem prestar seu consentimento como participantes nos discursos
racionais.48

Nessa perspectiva, a regulamentação de normas elaboradas visando a


universalidade deve levar em conta o contexto gerado por transformações sociais no
qual os envolvidos estão inseridos. Para isso, a atenção linguística é indispensável,

46 SAMENE, Op Cit., Apud. HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Trad. De
Guido de Almeida. Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro, 1989.
47 Ibidem.
48 VELASCO, Juan Carlos. Para ler a Habermas. Alianza Editorial. Madrid, 2003, p. 54.
23

pois, na situação, a linguagem opera de forma mediadora, sendo vital à conciliação


entre as pessoas. Desta forma, a linguagem, quando unida à um discurso ético sólido,
se mostra como um instrumento capaz de incluir todos os indivíduos,
independentemente de caráteres educacionais ou sociais, como acentuou o professor
Paulo Sérgio Rouanet: “para a ética discursiva, o homem é um ser plural, ele nasce
numa comunidade linguística e organiza as relações com seus semelhantes sobre o
pano de fundo de um mundo vivido intersubjetivamente compartilhado49”.

Assim, percebe-se que o autor, ao desenvolver tal análise, não se refere


especificamente à linguagem jurídica, o que, contudo, não impede que seja
perfeitamente aplicada aos atos jurídicos que se relacionam com o acesso dos
tutelados pelo estado à justiça.

De fato, assim como sociólogos e acadêmicos dos mais variados seguimentos,


o meio filosófico também compreende a importância de uma linguagem técnica, não
à toa os filósofos costumam ser tão prolixos e eruditos, no entanto, quando se dialoga
com a sociedade em busca da inserção destes sujeitos, determinados estigmas
precisam ser enfrentados, com o intuito de que aqueles que carregam maior
arcabouço científico possuam capacidade linguística para dialogar com as massas
quando requeridos. Neste sentido, Habermas escreve: “(...) todos nós sentimos que
temos que estar dispostos a reconhecer os interesses dos outros, inclusive quando se
opõem a nós, e a pessoa que age dessa forma, não está sacrificando a si mesmo e
sim adquirindo um (self) mais amplo50”.

Aplicando-se ao direito a premissa do autor de que as normas válidas têm que


merecer o reconhecimento por parte de todos os concernidos e não apenas ao exame
de alguns, é preciso observar que o reconhecimento por parte dos concernidos não
se fundamenta somente na vontade de um ou mais representantes que estes
indivíduos elegeram, pois, à medida que estes recorrem à proteção do estado, se
submetendo aos seus trâmites, é de imprescindível importância que a sua
compreensão seja, se não alcançada, ao menos buscada.

Nessa lógica, compreende-se que, seja numa perspectiva histórica, sociológica

49 ROUANET, Sérgio Paulo. Mal-estar na modernidade. 2º ed. São Paulo: Companhia Das
Letras,1993
50 HABERMAS, Jürgen. Teoria de la Acción Comunicativa Racionalidad de la acción y

racionalización social. Versión castellana de Manuel Jiménez Redondo. 4. edición. Tomo I. Madrid:
Taurus Humanidades, 2003, p. 136.
24

ou filosófica, todas as ciências humanas dialogam, na modernidade, na área


linguística, com a ideia de universalização da linguagem, indo de encontro a ideia de
que esta não deve possuir mais o status de instrumento de poder, e sim de fator aliado
à concretização de direitos subjetivos fundamentais, como o direito ao acesso à
justiça, amparado pela Constituição Federal Brasileira e pela Convenção
Interamericana sobre Direitos Humanos pactuada em São José da Costa Rica.

Desta feita, restará, nos subsequentes tópicos e capítulos, examinar a


problemática trazida a partir de um viés hodierno, analisando a praticidade dos
procedimentos jurídicos no Brasil.

2.4 A LINGUAGEM E O PARANOMA JURIDICO-SOCIAL CONTEMPORANEO

A partir da manutenção da assimilação do português arcaico e prolixo como um


aspecto eruditizante, a linguagem jurídica se manteve quase inalterada no decorrer
do desenvolvimento do direito brasileiro, contudo, ao longo das décadas, os
profissionais do direito deixaram de ser seletos estudantes de latim, o que afetou
substancialmente o domínio dos mesmos em sua utilização. Além disso, se o
advogado costumava redigir em máquinas de datilografar extensas peças “autorais”,
com o surgimento e popularização dos computadores a partir dos anos 2000, trazendo
recursos como o famigerado “copiar e colar”, a linguagem por parte dos profissionais
do direito se desvirtuou sem que estes percebessem o seu distanciamento51.

Assim, embora a linguagem jurídica tenha sofrido inevitáveis modificações com


o decorrer do tempo, tais modificações não foram suficientes para promover uma
mudança no panorama jurídico brasileiro, sendo ainda constante a existência de
profissionais que admiram e utilizam o juridiquês, acompanhado de citações
ornamentais e prolixas nas peças jurídicas para demonstrar uma suposta erudição,
ainda que, em determinados momentos, estejam apenas copiando e colando
fundamentos os quais, por vezes, sequer possuem conexão com o tema52.

Embora seja compreensível a relevância da riqueza de qualquer linguagem

51 REIS, Adacir. Simplificação da linguagem jurídica tornou-se uma exigência. Disponível em:
<https://www.conjur.com.br/2016-fev-15/adacir-reis-simplificacao-linguagem-juridica-exigencia>.
Acesso em: 07 jul. 2018.
52 Ibidem.
25

acadêmica, há de se considerar que, atualmente, conforme índice apresentado no


Senado Notícias, portal de notícias do Senado Federal, haviam cerca 100 milhões de
processos judiciais em trâmite em janeiro de 201853, número que, embora não possa
ser liquidado sem a tomada de variadas providências, poderia ser reduzido se os
profissionais de ambos os lados prezassem por uma escrita processual mais célere.

Defendendo que os termos técnicos são inevitáveis, mas, ao mesmo tempo,


compreendendo que a linguagem pomposa que nada contribui para o esclarecimento
da controvérsia merece reprovação, escreveu Adacir Reis, fazendo um breve
apanhado sobre o cenário que nos guiou até o constante momento de sobrecarga
judiciária:

Em nossa tradição jurídica, com raízes lusitanas, a linguagem formal


caracterizou-se pelo verbalismo bacharelesco e pela expressão
retórica. A busca da construção estética se sobrepunha à preocupação
com o resultado prático. O mundo forense parecia se bastar. Quanto
mais pomposas as expressões, maior a presunção de saber. Assim, o
parecer jurídico de setenta páginas era visto, em si, como um “denso
estudo”, pouco importando se seria lido integralmente, ao passo que
o outro, com poucas laudas, poderia sugerir, até mesmo aos olhos do
cliente, uma pobreza de argumentos.54

Na Itália, em 1935, o jurista Piero Calamandrei compreendeu isto, e escreveu


em seu renomado trabalho “Eles, os juízes, vistos por um advogado”, que: “O excesso
de doutrina, a excepcional ostentação de citações de autores, o refinado virtuosismo
dialético cansam o juiz. Se você escreve demais, ele não lê; se você fala demais, ele
não ouve; se você é obscuro, ele não tem tempo para tentar compreendê-lo55”. Nesta
senda, observa-se que argumentos a favor da simplificação linguística já eram
utilizados há algumas décadas, porém, supõe-se que a legitimação de uma elite
dominante, evidenciada no trecho escrito pelo advogado Adacir Reis não permitiu que
tais ponderações fossem consideradas.

Ainda assim, é sabido da importância da linguagem técnica jurídica, a qual, de

53 Proposta tenta desafogar o Judiciário, hoje com quase 100 milhões de processos. SENADO
NOTÍCIAS. Publicado em 11/01/2018. Disponível em:
<https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2018/01/11/proposta-tenta-desafogar-o-judiciario-
hoje-com-quase-100-milhoes-de-processos/> Acesso em: 05 de nov. de 2018.
54 REIS, Adacir. Simplificação da linguagem jurídica tornou-se uma exigência. Disponível em:

<https://www.conjur.com.br/2016-fev-15/adacir-reis-simplificacao-linguagem-juridica-exigencia>.
Acesso em: 07 jul. 2018.
55 CALAMANDREI, Piero. Eles, os juízes, vistos por um advogado. Ed. Martins Fontes, São Paulo,

1995, tradução de Eduardo Brandão, pág. 105.


26

modo algum, deve ser banalizada e desprezada, haja vista a existência de particulares
que somente termos específicos podem descrever de forma precisa, de maneira que
se possa remontar ao surgimento em outros tempos, como os termos remanescentes
do latim, por exemplo56. No entanto, como muitos juristas e acadêmicos de outras
áreas vem compreendendo, tal qual os professores Paulo de Barros Carvalho e Fabio
Brun Goldschmidt, citados na supracitada matéria, no cenário social globalizado e
corriqueiro é requerido, de forma imprescindível, que o direito acompanhe as
transformações da sociedade, que sugerem mudanças.

Ainda de acordo com a matéria escrita pelo jornalista, Barros Carvalho


ressaltou que a linguagem jurídica utiliza “vocábulos colhidos na ciência, buscando
obter comandos práticos, rigorosos e precisos”57, porém, ainda assim, reconheceu
que isso acaba produzindo resultados negativos, inteligíveis a leigos, podendo fazer
com que “a população não conheça seus direitos nem saiba exercê-los plenamente58”.

Neste sentido, para acompanhar as transformações, vem à tona a alteração da


linguagem utilizada em textos de leis e decisões judiciais, que passam a exigir uma
oralidade e escrita compreensível àqueles que não são profissionais do Direito,
simplificadas, mas, não por isso empobrecidas, a fim de garantir aos cidadãos
tutelados pelo Estado uma tutela plena, de maneira a evitar que lesões de direitos
ocorram em face do desconhecimento de leis e procedimentos judicias provenientes
da ininteligibilidade do seu texto. Neste sentido, Melo Filho sustentou:

(...) o hermetismo da linguagem jurídica é sintomático, pois o Direito,


por ser uma ciência, é investido de um método próprio que requer a
configuração de um vocabulário técnico, não facilmente apreendido
pelo homem comum59.

Por este ângulo, é inevitável não remontar à premissa de que a linguagem é


constantemente utilizada como instrumentação de dominação por um grupo. Na
modernidade, não é necessário ler mais do que três peças ou votos para perceber

56 RODAS, Sérgio. Linguagem jurídica é importante e não pode ser banalizada, defendem
especialistas. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2016-ago-11/linguagem-juridica-nao-
banalizada-defendem-especialistas>. Acesso em: 20 ago. 2018.
57 Ibidem.
58 Ibidem.
59 MELO FILHO, Hugo. Desemprego estrutural e aspectos críticos do acesso à justiça. Disponível

em <https://www.conjur.com.br/2006-mar-
09/tecnicidade_linguagem_afastar_sociedade_justica>Acesso em 17 de jul. de 2018.
27

que a linguagem jurídica utilizada nos procedimentos comuns judiciários não visa,
acima de tudo, um trabalho juridicamente bem desenvolvido, mas a manutenção de
um sistema em que a linguagem é utilizada por aqueles que detém o poder como
afirmação de cultismo, ou seja, a promoção do distanciamento entre cidadão e justiça.
Nesta perspectiva, novamente, é possível se atentar às palavras de Marcos:

No interior de cada país, de cada sociedade, há também uma nítida


divisão social por meio da linguagem: o estabelecimento de uma
“norma-padrão”, inspirado nos usos das elites e da literatura
consagrada, é um modo de separar os que “falam bem” dos que “falam
mal” ou que simplesmente “não podem falar”. A linguagem como
instrumento de poder é um fenômeno tão antigo quanto a espécie
humana60.

Neste sentido também salienta a socióloga Samene Batista:

A linguagem jurídica especificou-se para segregar. Segregar


conhecimento, o acesso à justiça, bem como ao judiciário, o “modo de
vida” dos indivíduos, as relações interpessoais e assim, definir-se
como forma de dominação. A linguagem simples, fora das convenções
arcaicas de manutenção do poder, seria a independência real do
Poder Judiciário, todavia, engessa-se o Direito sob o conceito de
ciência exata como se assim fossem as relações sociais.61

A compreensão do direito como uma ciência elevada que possui como


praticantes sujeitos de grau intelectual distante dos cidadãos comuns, aferida por
parte da própria sociedade sobre a qual o universo jurídico impera, repercutiu nos
profissionais jurídicos contemporâneos, que se apresentam, em sua maioria, a partir
da percepção de que os fenômenos sociais sob os quais incide o direito devem se
relacionar tão somente aos atores sociais que possuem contato com àquelas normas,
desconsiderando fatores externos como os aspectos subjetivos que dizem respeito à
compreensão por parte dos grupos que constituem a maioria dos tutelados pelo
Estado. Nesse diapasão, criticou Paulo Bonavides:

60 BAGNO, Marcos. Conquistadores ou estupradores? Descobridores ou genocidas? A língua


como instrumento de poder. Disponível em: <http://www.socialistamorena.com.br/a-lingua-como-
instrumento-de-poder/>. Acesso em: 25 jul. 2018.
61
SANTANA, Samene Batista Pereira. A linguagem jurídica como obstáculo ao acesso à justiça:
uma análise sobre o que é o Direito engajado na dialética social e a consequente desrazão de utilizar
a linguagem jurídica como barreira entre a sociedade e o Direito/Justiça. In: Âmbito Jurídico, Rio
Grande, XV, n. 105, out 2012. Disponível em: <http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12316&revista_caderno=24>.
Acesso em 22 de out. de 2018.
28

A doutrina constitucional pouco progresso fez com relação ao


reconhecimento consumado da “sociedade de grupos”. Politicamente
é essa sociedade pluralista a forma imposta pelas necessidades e
problemas oriundos da civilização tecnológica, onde esta já se
implantou ou peleja por implantar-se. Esse manifesto atraso com os
fatos ocasiona o pouco caso que os juristas têm feito dessa explosão
nos fundamentos do sistema representativo. Continuam eles a valer-
se de categorias tradicionais e obsoletas de raciocínio, sem nenhuma
diligência apreciável em prol da criatividade, em ordem a elaborar
nova linguagem que melhor sirva à compreensão do processo de
mudança em curso. Como reflexo talvez da lentidão dos juristas,
verifica-se igual atraso tocante à institucionalização da realidade
representativa nos termos do pluralismo de grupos, dentro do quadro
constitucional.62

Samene, novamente, foi precisa nessa análise:

Ainda sobre a valorização exacerbada e ludibriada da linguagem


empregada pelos juristas e operadores, Adilson de Carvalho (2006b)
diz que, parte da explicação para essa altíssima cotação e valorização
das atividades jurídicas no mercado simbólico da cultura brasileira,
estão no poder real que esse universo exerce na estrutura de poderes
do Estado brasileiro. Em um país com uma Constituição escrita, com
mais de trezentos artigos, mais um emaranhado de centenas de
milhares de leis, de cuja interpretação depende todas as relações
sociais, políticas e econômicas de toda a população, é evidente que o
universo jurídico representa, efetivamente, um espaço de extremo
poder. Como acontece em qualquer espaço de poder, o acesso a esse
universo não é franqueado a qualquer um. Por ter consciência da
importância do grupo de que fazem parte, aqueles que têm o privilégio
de pertencerem ao mundo jurídico fazem de tudo para que esse
“mundo sagrado” não seja profanado pela presença dos não-iniciados.
Na promoção dessa separação fundamental entre quem faz e quem
não faz parte do mundo jurídico, entra em ação um conjunto de
elementos, que são tão mais eficazes quanto menos são percebidos
como aparatos dessa segregação63.

Sobre o problema, Warat evidencia essa segregação, que se dá através da


linguagem através da fabulação, consistente na apresentação de termos e enunciados
com o único objetivo de persuadir e impedir a plena compreensão de determinado

62
BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. São Paulo: Malheiro Editores. 10ª Edição, 200, pág. 279.
Disponível em <http://unifra.br/professores/14104/Paulo%20Bonavides-
Ciencia%20Politica%5B1%5D.pdf> Acesso em 20 de ago. de 2018.
63
SANTANA, Samene Batista Pereira. A linguagem jurídica como obstáculo ao acesso à justiça:
uma análise sobre o que é o Direito engajado na dialética social e a consequente desrazão de utilizar
a linguagem jurídica como barreira entre a sociedade e o Direito/Justiça. In: Âmbito Jurídico, Rio
Grande, XV, n. 105, out 2012. Disponível em: <http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12316&revista_caderno=24>.
Acesso em 22 de out. de 2018.
29

sujeito em situações jurídicas. Neste sentido, afirma que a fabulação no direito se


apoia em uma ampla gama de recursos linguísticos, como as falácias, estereótipos,
tópicos, dentre outros, o que permite sugerir a inclusão do juridiquês e da prolixidade
desenvolvida para impressionar64.

Além disso, o autor também estabelece uma análise crítica sobre o tratamento
não isonômico, se opondo à forma de se comunicar do Estado ao escrever:

Um dos efeitos mais interessantes do uso fabulador é o que permite


proclamar a defesa abstrata de certos valores, para logo violá-los ou
empregá-los na consolidação de outros valores ou interesses
topicamente identificados com os que se defende. Assim, por vezes,
através da condição fabuladora de sentido, pretende-se fazer acreditar
que há uma proteção ao homem em abstrato, esquecendo-se suas
condições reais de existência. Estamos, desta maneira, diante da lei
como garantia formal, o que, por sua vez, não deixa de ser uma
engenhosa fórmula de fabulação. Em suma, mediante os atos
fabulatórios, é obtida a coisificação dos sujeitos sociais e a
consolidação do poder do Estado, sob a ficção de que seus atos e
discursos são realizados em nome de uma vontade geral - em nome
de todos os homens65.

Desse modo, paralelamente à aquisição de conhecimentos jurídicos, nos dias


atuais, sobretudo após a Constituição de 1988 que instituiu direitos subjetivos
universais com maior zelo, pode-se perceber que se faz imprescindível ao profissional
do Direito a elaboração de uma nova linguagem para se expressar, seja para defender
seus argumentos, seja para exprimir suas concepções acerca das tarefas do ofício.
Em razão disso, levando-se em conta que o Direito interfere diariamente e diretamente
na vida do cidadão, em suas mais variadas formas, garantindo-lhe direitos, deveres,
sanções, procedimentos e, observando que o vetor de ligação entre eles (sujeito e
direito) é a linguagem, que deve ser inteligível. Trata-se de condição essencial para a
própria eficácia da lei e acesso à justiça. Se a linguagem jurídica é complexa e
inacessível, a sociedade alienada se conforma com a segregação do conhecimento e
de seus direitos. Se, ao contrário, há a preocupação de aproximar esta sociedade ao
conhecimento jurídico, aproxima-a dos seus direitos e da própria justiça.

Contudo, o que se pode afirmar é que, em que pese os aspectos positivos e


negativos aqui elencados suscitem a discussão quanto à viabilidade de uma

64 WARAT, Luis Alberto. O Direito e sua Linguagem. Porto Alegre: Fabris, 2ª ed, 1995, pág. 68.
65 Ibidem.
30

transformação simplificativa na linguagem jurídica, é indiscutível que o direito se


revela carente de um olhar mais plural e uma análise a partir de perspectivas sociais,
observando as constantes transformações provenientes da globalização, para que
possa caminhar de forma plena em seu desenvolvimento. Para isto, torna-se
imprescindível uma discussão acerca das maneiras com que a linguagem interfere no
direito moderno, e das possíveis formas insurgir transformações a contemplar os
cidadãos de forma benéfica.
31

3 A LINGUAGEM JURÍDICA COMO OBSTÁCULO AO ACESSO À JUSTIÇA

Dentre as consequências negativas oriundas de questões relacionadas à


linguagem jurídica, a obstaculização ao acesso à justiça se configura como ponto
chave para justificar a problemática do presente trabalho, pois, em que pese o direito
ao acesso à justiça seja tido, constitucionalmente, como um Direito Fundamental, para
que este seja, de fato, alcançável para todo e qualquer cidadão tutelado pelo Estado,
é de vital importância que este cidadão possua condições tanto financeiras quanto
intelectuais, de modo que, não havendo uma delas, seja buscada uma maneira da
concretização de tratamento isonômico, que pode se dar através da via da linguagem.
Neste sentido, evidencia o problema Marcos Bagno:

O que muitos estudos empreendidos por diversos pesquisadores têm


mostrado é que os falantes das variedades linguísticas
desprestigiadas têm sérias dificuldades em compreender as
mensagens enviadas para eles pelo poder público, que se serve
exclusivamente da língua padrão66.

Nesse diapasão, é sabido que o poder público representa a soberania do


Estado, o qual, por tradição, é associado à linguagem padrão culta com o intuito de
legitimar a sua primazia, contudo, há que se considerar que o sujeito para quem estas
mensagens são enviadas, muitas vezes, é um sujeito que teve, por conta das mais
variadas razões, seus direitos fundamentais como educação inalcançados ou
alcançados de forma insatisfatória, o que não pode ser desconsiderado em face da
hegemonia do poder público, que é, em parte, o responsável por esse panorama, se
considerada a sua responsabilidade objetiva67. Assim, citando o linguista italiano
Maurizzio Gnerre, Bagno continua:

Como diz Maurizzio Gnerre em seu livro Linguagem, escrita e poder,


a Constituição afirma que todos os indivíduos são iguais perante a lei,
mas essa mesma lei é redigida numa língua que só uma parcela
pequena de brasileiros consegue entender. A discriminação social
começa, portanto, já no texto da constituição. É claro que Gnerre não
está querendo dizer que a Constituição deveria ser escrita em língua
não padrão, mas sim que todos os brasileiros a que ela se refere
deveriam ter acesso mais amplo e democrático a essa espécie de
língua oficial que, restringido seu caráter veicular a uma parte da

66 BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999, pág.
17.
67 SOUZA. Wilson Alves de. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011, pág. 28.
32

população, exclui necessariamente uma outra, talvez a maior.68

Observa-se que o mesmo sugere que seja facilitado o alcance para os cidadãos
em relação à denominada língua padrão e não a sua simplificação, porém,
conjecturando que há uma linguagem arcaica em uso, não seria necessária uma
linguagem não padrão para que os brasileiros pudessem compreender estes
documentos e, assim, fossem incluídos no sistema, mas, um simples bom-senso no
português utilizado, que preze pela simplicidade e universalidade da língua, sem
desconsiderar o contexto daqueles a quem o direito irá de encontro ou ao encontro.
Nas palavras de Cappelletti: "em muitíssimos casos os mais pobres nem sequer
sabem o mínimo a respeito da existência de certos direitos que possuem e da
possibilidade de fazê-los valer em juízo69".

O acesso à justiça consiste na possibilidade de promoção da busca pela justiça


social através da permissão concedida ao cidadão para que este recorra ao Estado
que, perante o território, possua soberania para resolver determinado conflito 70. No
entanto, este acesso se depara com barreiras acidentais, que contempla aspectos
comportamentais e práticos relacionados aos membros e funcionários do poder
público e privado que promovem um entrave linguístico, afinal, não é possível afirmar
que pode ser alcançada a justiça social por meio de um discurso jurídico não inteligível
e muitas vezes, inacessível e segregador.

Assim, o direito encara o excesso de formalismo na comunicação como um


obstáculo ao acesso à justiça, na medida em que ele impede a comunicação clara e
objetiva, dificultando o discernimento do cidadão comum, e influenciando de forma
também negativa na duração do processo, se mostrando alcançável somente para um
determinado nicho social, preenchido por aqueles que obtiveram acesso à melhor
educação, conforme tratar-se-á nos tópicos a seguir.

68 BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999, pág.
18.
69 CAPPELLETTI, Mauro e GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Tradução Ellen Gracie. Northfleet.

Porto Alegre: Fabris. 1988, pág. 100.


70 SOUZA. Wilson Alves de. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011, pág. 26.
33

3.1 CONCEITO DE ACESSO À JUSTIÇA

O acesso à justiça se constitui como um direito fundamental, responsável pela


garantia plena sobre os direitos subjetivos de cada cidadão. Em torno dele se
estabelecem as principais garantias destinadas à promoção efetiva da tutela dos
direitos fundamentais. Noutras palavras, o acesso à justiça corresponde a uma
maneira de fazer com que os tutelados pelo Estado possam buscá-lo para solucionar
litígios ou reivindicarem seus direitos.

Garantido constitucionalmente e também denominado como princípio da


inafastabilidade da jurisdição, o acesso à justiça está consagrado no artigo 5º, inciso
XXXV da Constituição Federal, que diz:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou
ameaça a direito71;

Além disso, o artigo 8º da 1ª Convenção Americana sobre Direitos Humanos de


São José da Costa Rica, da qual o Brasil é signatário, também garante:

Art. 8º. Toda pessoa tem direito de ser ouvida, com as garantias e
dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente,
independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na
apuração de qualquer acusação penal contra ela, ou para que se
determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista,
fiscal ou de qualquer natureza72.

Neste contexto, pode-se compreender o direito ao acesso à justiça não só como


uma garantia constitucional básica, mas também como uma prerrogativa subjetiva de
extrema importância, reconhecida internacionalmente como direito fundamental. Nas
palavras do constitucionalista brasileiro Uadi Lammêgo Bulos, o objetivo da garantia

71
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF:
Senado Federal: Centro Gráfico, 1988, pág. 10.
72 OEA - Organização dos Estados Americanos. Convenção Americana de Direitos Humanos, 1969.

Disponível em:
<http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/sanjose.htm/>. Acesso em
04 de out. de 2018.
34

ao acesso à justiça é “difundir a mensagem de que todo homem, independente de


raça, credo, condição econômica, posição política ou social, tem o direito de ser ouvido
por um tribunal independente e imparcial, na defesa de seu patrimônio ou liberdade73.”
Ocorre que, muitas vezes, este acesso, embora juridicamente vigente e teoricamente
acessível, não é alcançado por estes sujeitos em razão de fatores externos.

No Brasil, estes fatores externos que tornam o acesso ao universo jurídico falho
ou restrito a uma parte da população correspondem a questões de ordem econômica,
social, cultural, psicológica, legal e educacional. Tais problemas constituem uma
complicação de raízes profundas, sendo difícil e impreciso de se apontar possíveis
soluções, no entanto, é possível aferir que em quase todos eles uma atenção especial
à linguagem seria capaz de reduzir o imbróglio e contribuir positivamente. A questão
legal, por exemplo, muitas vezes se refere à incompreensão, e não meramente à
desinformação e falta de acesso ao conteúdo de lei; já as questões negativas de
ordem econômica, social, educacional e cultural também contemplam a dificuldade ou
até incapacidade que parte dos cidadãos possuem em relação a compreensão das
instruções e informações dadas para os procedimentos jurídicos.

Embora remonte à criação do Estado Brasileiro e tenha se postergado


hierarquicamente, o presente problema finalmente já começou a ser encarado, afinal,
a Constituição Federal de 1988 criou mecanismos para facilitar a acessibilidade ao
judiciário, tais como: defensoria pública; assistência judiciária gratuita; além de
autorizar também a criação dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais, onde vigoram
os princípios da oralidade, simplicidade, informalismo, economia processual e
celeridade74, no entanto, quando analisada a situação de afogamento judiciário no
país, pode-se perceber que este foi apenas um pontapé inicial na reformulação da
aplicação da linguística jurídica.

Na atualidade, o problema do acesso à justiça acomete a todos os operadores


do direito, sejam juízes, desembargadores e promotores dos mais renomados, ou
mesmo estudantes, como percebe-se na clarificante crítica abaixo, novamente

73 BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 482.
74 SANTANA, Samene Batista Pereira. A linguagem jurídica como obstáculo ao acesso à justiça.
Uma análise sobre o que é o Direito engajado na dialética social e a consequente desrazão de utilizar
a linguagem jurídica como barreira entre a sociedade e o Direito/Justiça. In: Âmbito Jurídico, Rio
Grande, XV, n. 105, out 2012. Disponível em: <http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12316&revista_caderno=24>.
Acesso em 22 de out. de 2018.
35

proferida pela socióloga Samene Batista:

A linguagem é extremamente eficaz em “proteger” o universo jurídico


do acesso de grande parte da população. Magistrados, advogados,
promotores e outros do ramo do direito têm utilizado a linguagem
jurídica de maneira tão específica que, a despeito de qualquer
argumento a favor, só tem servido para negar o acesso ao universo
jurídico à maioria da população. Os pareceres, sentenças, petições,
etc, são escritos de uma forma tal que se torna impossível a
compreensão desses textos por alguém que não faça parte do meio
jurídico. E esse parece ser mesmo o propósito dos produtores desses
textos: dificultar a compreensão para quem não teve a sorte ou
herança de fazer parte da “casta jurídica”. O fato é de que não há
argumentos convincentes para justificar a utilização de uma linguagem
pedante, barroca e afetada, recheada de expressões em latim ou em
outras línguas estrangeiras no meio jurídico. Deve-se buscar
justamente o contrário, sob um argumento simples e suficientemente
convincente: o acesso à justiça. Para isso, nada mais eficaz que uma
linguagem mais simples e objetiva75.

Assim, referenciando Alves de Souza, pode-se dizer que:


o conceito de acesso à justiça “não pode ser examinado sob o
enfoque meramente literal, vale dizer, não há lugar, na
atualidade, para a afirmação de que acesso à justiça significa
apenas manifestar postulação ao Estado-juiz, como se fosse
suficiente garantir ao cidadão o direito à porta de entrada dos
tribunais76.

Posto isso, o acesso à justiça se evidencia como um direito subestimado, na


medida em que, por estar legitimado em lei e, tendo as portas dos tribunais abertas,
ter os seus intuitos reais desconsiderados em prol da manutenção das engrenagens
do direito, quando, em busca do bem-estar comum, dever-se-ia, na realidade, buscar
considerar todos os seus aspectos, que vão muito além do seu conceito dogmático,
se relacionando também com o direito ao devido processo legal e ao julgamento justo
e eficaz em tempo razoável77.

3.2 O PROBLEMA DA DURAÇÃO DO PROCESSO

Não é novidade, em qualquer sistema judiciário, que um processo exija um

75 Ibidem.
76 DE SOUZA. Wilson Alves. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011. págs. 25-26.
77 Ibidem.
36

considerável decurso de tempo entre a busca de uma prestação jurisdicional e a


resolução do mérito, em função da necessidade do juiz de, comumente, ter de escutar
o réu, colher provas orais em audiência, realizar perícias, inspeções, escutar
testemunhas, etc., para solucionar a lide de maneira efetiva, salvo situação em que
se decida em prima facie.

No Brasil, lastreado no artigo 139 do recente Código de Processo Civil, o


magistrado se compromete ao comando de que “a todos, no âmbito judicial e
administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que
garantam a celeridade de sua tramitação” (CF, artigo 5º, LXXVIII), além de contar
também com a incidência do princípio da eficiência que orienta todo o poder público,
nos moldes do artigo 37 da Constituição Federal.

Entretanto, com o crescimento populacional em todo o mundo e a constante


extensão de direitos reconhecidos em face de transformações sociais, como aquelas
geradas pelos meios digitais, há também, dia após dia, um aumento significativo no
número de processos ajuizados, trazendo, neste sentido, uma carga excessiva de
processos aos juízes, o que protela o resultado dos julgamentos e obstaculiza a
eficiência jurídica.

Dentro da abordagem do grande problema da demora excessiva na resolução


dos processos, a doutrina estabelece diversas críticas, quase sempre pertinentes,
responsabilizando circunstâncias típicas, como as leis processuais, com seus
procedimentos que apresentam excesso de formalidades, por essa morosidade
excessiva. A esta abordagem, Wilson Alves de Souza foi brilhante ao escrever que:

Costuma-se colocar as leis processuais, com seus procedimentos


cheios de formalidades desnecessárias, como causa primeira, e até
mesmo única da demora excessiva dos julgamentos das causas,
passando-se a se clamar por reformas legislativas que, num passe de
mágica, serviriam como panaceia para resolver o grande mal da
morosidade da prestação jurisdicional. Esse discurso maniqueísta é
visivelmente distorcido, frágil e, se não malicioso, infantil. Não existe
lei boa para juiz que não sabe aplica-la ou, se sabe, quer aplica-la mal,
como também não existe lei ruim para juiz que sabe e quer dar a
solução mais apropriada, correta e justa ao caso. Obviamente que
essa assertiva não significa dizer que não devemos buscar reformar
legislativas no objetivo de aprimorar os sistemas jurídicos, na medida
em que leis boas facilitam a tarefa dos juízes com visão hermenêutica
mais aberta e dificultam as tarefas dos juízes com visão hermenêutica
mais fechada. O que se quer deixar claro aqui é que não devemos
escamotear problemas políticos, econômicos e sociais, para se querer
atribuir a deficiência do serviço jurisdicional apenas, ou
37

principalmente, ao fato da existência de leis que prescrevem


procedimentos excessivamente formalistas78.

Para concluir o pensamento, o magistrado citou também Donaldo Armelin, que,


numa perspectiva mais expansiva, salientou, com suas palavras, que este problema
“não será resolvido apenas através de leis, devendo mesmo se arredar tal enfoque,
que constitui marca de subdesenvolvimento, o de se pensar que problemas
marcadamente econômicos possam ter soluções meramente legislativas 79”,
fundamentando no sentido de que a mera alteração normativa no sistema jurídico
sozinha não é capaz de combater o problema da duração do processo, mas sim uma
busca entre todos os poderes que atuam no direito direta e indiretamente, em face de
uma conscientização social que contemple todos os envolvidos80.

Também existem críticas, como o próprio Alves de Souza depois inferiu, à


política econômica dos governos, que possibilitam conflitos e, com isso, maior
necessidade da atuação dos juízes, que se dá por conta de conflitos provenientes de
problemas de desigualdade social; da estrutura do sistema jurisdicional, que requer
um número maior de profissionais capacitados para suprir as constantes demandas e
dos instrumentos processuais81, principalmente no Âmbito do Direito Processual Civil,
que recentemente buscou alterar esse panorama por meio do novo Código, que trouxe
mudanças que visam a celeridade e eficiência.

Ocorre que, grande parte dos argumentos trazidos se manifestam de maneiras


pontuais. Somente um problema permanece em todos os ramos do Direito: o excesso
de extensos processos para um número relativamente baixo de magistrados atuantes,
quando considerada a demanda. Constantemente atribui-se a culpa à chamada
morosidade do judiciário, ao alto índice de ações ajuizadas ou até à chamada
“indústria de danos morais”, entretanto, embora os profissionais do direito muitas
vezes se queixem, alegando que tem seus trabalhos dificultados por conta da
extensão e prolixidade de peças e documentos, muitas vezes com julgados copiados
sem sequer possuir um texto que o adeque ao caso, reclamando da linguagem, talvez
por conta do medo de que soe um atestado de falta de intelectualidade, dificilmente

78
SOUZA. Wilson Alves de. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011. pág. 61.
79 Ibidem., APUD ARMELIN, Donaldo. Acesso à justiça, pág. 173.
80
SOUZA, Op cit., pág. 61.
81
Ibideim., pág. 62.
38

pode-se encontrar uma crítica fundamentada à linguagem utilizada.

Assim, a partir de uma perspectiva visionária e evolutiva que considera a


mutabilidade das relações sociais modernas, escreveu Adacir Reis:

Não há como o Brasil se desenvolver sem a funcionalidade do Direito.


Em uma sociedade caracterizada pela velocidade e pela cobrança de
resultados, os profissionais da área jurídica (para não usar o termo
“operadores do Direito”) têm o desafio de simplificar a linguagem
jurídica e harmonizá-la com a realidade de um país ansioso por
transformações.82

Além das questões relacionadas às transformações sociais, à cobrança


elevada e ao alto índice de demandas, a questão do problema da duração do processo
e a busca pelo seu controle não deve ser encarado somente como um problema que
aufere as do processo, mas também aos profissionais, que tem a eficiência do seu
trabalho prejudicada por fatores externos como a linguagem utilizada de forma
desnecessária. Afinal, conforme último relatório do Conselho Nacional de Justiça, no
ano de 2017 foram distribuídos 19.803.441 processos e julgados 20.737.514 no
Judiciário, demandando um grande esforço de todos os tribunais, resultando em um
gradativo aumento de produtividade, conforme apontou Fabiana Gomes, diretora do
Departamento de Gestão Estratégica do CNJ83. Neste sentido, ponderou Reis:

No mundo contemporâneo, marcado pela busca da produtividade e da


eficiência, não se pode desperdiçar o bem mais precioso do mercado,
e também da vida: o tempo. Parece fato incontroverso que todos que
atuam no Poder Judiciário nunca trabalharam tanto e também nunca
foram tão cobrados a prestar contas como nos dias atuais. 84

Portanto, é preciso compreender estas questões como opressoras de direitos


subjetivos fundamentais ao cidadão, que, para agir em nome próprio contra alguma
injustiça sofrida, necessita da tutela do Estado. Além do mais, o problema da
celeridade processual gera também um descrédito ao Poder Judiciário, tornando-o

82 REIS, Adacir. Simplificação da linguagem jurídica tornou-se uma exigência. Disponível em:
<https://www.conjur.com.br/2016-fev-15/adacir-reis-simplificacao-linguagem-juridica-exigencia>.
Acesso em: 07 jul. 2018.
83 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Relatório indica redução de processos em tramitação no

Judiciário. Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/86451-relatorio-indica-reducao-de-


processos-em-tramitacao-no-judiciario>. Acesso em: 01 set. 2018.
84 REIS, Adacir. Simplificação da linguagem jurídica tornou-se uma exigência. Disponível em:

<https://www.conjur.com.br/2016-fev-15/adacir-reis-simplificacao-linguagem-juridica-exigencia>.
Acesso em: 07 jul. 2018.
39

alvo de desdém por parte de indivíduos que deviam tê-lo como responsável pela
manutenção da lei.

Assim, pode-se concluir que, a morosidade dos processos, também gerada por
conta da prolixidade que causa lentidão nas análises e leituras de juízes sem razão
alguma, atrelado ao distanciamento da compreensão dos tutelados por conta deste
mesmo problema, atuam em conluio como obstáculos ao acesso à justiça, seja
dispersando o interesse através da lentidão e descrença, seja pela incompreensão
dos indivíduos ordinários, que devem ser tratados de acordo com o princípio da
isonomia, ou seja, de forma desigual na exata medida de suas desigualdades.

3.3 OS FATORES EDUCACIONAIS E SOCIOECONÔMICOS

“O problema do acesso à justiça começa no plano educacional85”, assim


assevera Alves de Souza. Neste sentido, o autor busca trazer a compreensão de que
a premissa básica para o cumprimento eficiente do acesso à justiça se fundamenta a
partir das condições educacionais alcançadas pelo cidadão, para que ele possa
conhecer os seus direitos e os mecanismos para exercê-los, partindo do pressuposto
de que, para defende-los, necessitarão, inevitavelmente, de informação e
conhecimento suficiente para sustentá-los.

De acordo com o último senso do IBGE, publicado em dezembro de 2017 no


jornal O Globo, O Brasil ainda tem cerca de 11,8 milhões de analfabetos86. A pesquisa
revela também que cerca de 51% da população brasileira de 25 anos ou mais tem
somente até o Ensino Fundamental completo. Além destes problemas, há também o
analfabetismo funcional, que, de acordo com matéria publicada no jornal Gazeta do
Povo, estima-se que acomete a 92% dos cidadãos brasileiros87.

Evidencia-se, portanto, que a realidade a qual o cidadão brasileiro se encontra,


a simples possibilidade de o sujeito estar autorizado e legitimado por lei a buscar a

85 SOUZA. Wilson Alves de. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011, pág. 26.
86 Brasil ainda tem 11,8 milhões de analfabetos, segundo IBGE. O GLOBO. Disponível em:
<https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/brasil-ainda-tem-118-milhoes-de-analfabetos-
segundo-ibge-22211755/> Acesso em 04 de ago. de 2018.
87 Analfabetismo funcional é resultado de ausência de políticas públicas. GAZETA DO POVO.

Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/analfabetismo-funcional-e-resultado-de-


ausencia-de-politicas-publicas-cfawiypv9sm9alpw4xevbuj0u/> Acesso em 04 de ago. de 2018.
40

justiça quando suprimidos determinados direitos é de uma eficiência irrisória, como


pontuou Alves de Souza:

(...) sobretudo na atualidade, quando o ambiente jurídico se torna cada


vez mais complexo, inclusive pelo fato da expedição de atos
normativos, a todo momento. Nesse contexto, pode-se dizer que não
é tão rara a hipótese de advogados prestarem má orientação aos seus
clientes, fazendo postulações manifestamente descabidas ou
deixando de postular direitos violados, ou juízes julgarem causas
aplicando leis revogadas ou deixando de aplicar leis em vigor, tudo por
mera ignorância88.

Vale ressaltar que, ainda que o problema seja evidente e real, ele também é
relativo, pois, nem sempre a falta de acesso à uma educação coerente torna o sujeito
incapaz de conhecer os seus direitos e tutelá-los juridicamente, afinal, o ser humano
possui a característica da subjetividade, o que possibilita que alguns indivíduos atuem
como autodidatas e consigam desenvolver o seu intelecto através de outros meios,
como os digitais, por exemplo. No entanto, é inegável que, normalmente, há uma
relação inata entre a possibilidade do conhecimento jurídico e a habilidade de buscar
a tutela coerente quando requisitada e o grau educacional de cada cidadão.

Contudo, o problema educacional brasileiro não só afeta os cidadãos na


medida em que o sujeito desprovido de educação muitas vezes não percebe quando
seus direitos foram violados, ou sequer sabe como tutelá-los nesses casos, mas
também em questões linguísticas, quando o sujeito é incapaz de compreender um ato
normativo ou até mesmo decisão judiciária que o tenha como parte.

Nessa acepção, a questão da linguagem surge como fator inato a partir da


percepção de que a questão educacional está diretamente relacionada à condição
socioeconômica das pessoas, que se evidencia a partir da disparidade entre o ensino
público e privado no Brasil, onde o privado, que custa uma importância comumente
elevada, oferece um serviço de muito melhor qualidade. Ainda na discussão da
linguística no cenário socioeconômico o termo “direitos linguísticos” foi consolidado
como ramo que compreende direitos prestacionais, na medida em que exige do
Estado uma proteção especial, obrigando o poder público a prestar serviços como

88 SOUZA. Wilson Alves de. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011. págs. 27-28.
41

educação e proteção do patrimônio cultural89. Neste sentido, asseverou Samene


Santana:

Há um ponto relevante sobre esse obstáculo que a linguagem jurídica


cria para o acesso à Justiça – os fatores sociais e econômicos. Trata-
se de um ciclo que o Brasil conhece bem; quanto menor o estado
socioeconômico do indivíduo, menor acesso ele terá à
informação/educação. E trazendo este quadro ao tema “acesso à
justiça”, óbvio é concluir a consequência dessa escala do “menor” - se
há menor acesso à informação, menor será a compreensão sobre o
Direito e sobre a justiça. Sobre isso, destaca Boaventura de Souza
Santos (1994) que estudos revelam que a distância dos cidadãos em
relação à administração da justiça é tanto maior quanto mais baixo é
o estado social a que pertencem e que essa distância tem como
causas próximas não apenas fatores econômicos, mas também
fatores sociais e culturais, ainda que uns e outros possam estar mais
ou menos remotamente relacionados com as desigualdades
econômicas. Em primeiro lugar, os cidadãos de menores recursos
tendem a conhecer menos os seus direitos e, portanto, têm mais
dificuldades em reconhecer um problema que os afeta como sendo
problema jurídico. Podem ignorar os direitos em jogo ou as
possibilidades de reparação jurídica.90.

Tal distanciamento pode ser realçado a partir da relação entre os fatores sócio-
econômicos-educacionais quanto à compreensão do uso do “juridiquês”, bem como o
quanto este promove reflexos negativos na compreensão por parte dos cidadãos
comuns, conforme observa-se no tópico a seguir.

3.4 O COMBATE AO JURIDIQUÊS E A PROLIXIDADE JURÍDICA

É evidente ao jurista a existência de termos técnico-jurídicos necessários, como


parte daqueles pertencentes ao chamado “juridiquês”. Nesta perspectiva, à presente
monografia, insta salientar, mais uma vez, que não é este o objeto da análise crítica
elaborada no vigente trabalho, afinal, é compreensível que os magistrados sintam a
necessidade de se utilizar de uma linguagem culta, porém, de outro modo, o que ora

89 COLARES, Virgínia (Org). Linguagem & direito: caminhos para linguística forense. São Paulo:
Cortez, 2016, pág. 79.
90 SANTANA, Samene Batista Pereira. A linguagem jurídica como obstáculo ao acesso à justiça. Uma

análise sobre o que é o Direito engajado na dialética social e a consequente desrazão de utilizar a
linguagem jurídica como barreira entre a sociedade e o Direito/Justiça. In: Âmbito Jurídico, Rio
Grande, XV, n. 105, out 2012. Disponível em: <http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12316&revista_caderno=24>.
Acesso em 22 de out. de 2018.
42

se busca combater é o vocabulário burocrático e desnecessário, a fim de ir de


encontro a eficiência e funcionalidade das leituras de documentos escritos que atuam
nos procedimentos jurídicos91. Aqui, não se desenvolve uma defesa à linguajar vulgar,
simplória, mas, sim, uma apologia à linguagem clara e compreensível ao homem
comum que possua razoável capacidade cognitiva e alguma escolaridade.

Como foi apresentado nos capítulos anteriores, por meio da burocracia


atribuída à linguagem técnico-jurídica, que se fundiu com uma herança prolixa arcaica,
o direito se manteve como uma atividade elitizada, muitas vezes, incompreensível -
se não inacessível - para aqueles que não estudaram o tema. Nessa linha de
pensamento, o combate ao juridiquês e à prolixidade jurídica ganham força.

Desta feita, compreendendo a linguagem do direito como uma linguagem de


variante burocrática, pontuou Tomasi e Medeiros:

A linguagem pragmática dos tribunais é representativa dessa variante.


É comum nesse tipo de variante linguística o uso de vocabulário
próprio. O jargão, o excesso de formalidade, contribuem para
burocratizar a linguagem e afastar o leitor comum de uma
decodificação rápida. A burocratização da linguagem advém do uso
frequente de perífrases, de jargão, de linguagem excessivamente
técnica, de formalidades de tratamento (...)92.

Embora a complexidade em determinadas situações exija maior embasamento


por conta da dedicação demandada, noutras, o vocabulário muitas vezes termina por
não dizer muita coisa e até confundir a concretização da mensagem, gerando a
manutenção de uma suposta deficiência no profissional da justiça93, responsável,
muitas vezes, pela morosidade judiciária. Neste sentido, em sua obra a contestar a
morosidade do Judiciário, escreve Jose Renato Nalini:

O pecado maior da justiça brasileira, repita-se quantas vezes se


mostrar necessário, é a lentidão. Morosidade incompatível com o ritmo
deste planeta. Veja-se o que ocorreu com as comunicações. Enquanto
as coisas acontecem e são veiculadas instantaneamente por todo o
planeta, o Judiciário continua a trabalhar com uma única dimensão de

91 ANDRADE, Valdeciliana da Silva Ramos; BUSSINGER, Marcela de Azevedo. A linguagem jurídica


como estratégia de acesso à justiça: uma análise do processo de interação lingüística entre o
magistrado e as partes. Panóptica, Vitória, ano 1, n. 1, set. 2006, p. 43. Disponível em:
<www.panoptica.org>. Acesso em: 10/10/2018.
92 TOMASI, Carolina e MEDEIROS, João Bosco. Português Jurídico. São Paulo: Atlas, 2010, pág.

19.
93
REIS, Adacir. Simplificação da linguagem jurídica tornou-se uma exigência. Disponível em:
<https://www.conjur.com.br/2016-fev-15/adacir-reis-simplificacao-linguagem-juridica-exigencia>.
Acesso em: 07 jul. 2018.
43

tempo: o passado.94

Nalini, no trecho destacado, discorre sobre os meios de incrementar velocidade


ao sistema Judiciário brasileiro. Para tanto, traz a compreensão de que “a verdadeira
arte do justo é errar com pressa95”, argumentando que, para que a celeridade possa
ser alcançada não só a decisão precisa ser exarada, mas toda a atuação do judiciário
deve atuar de encontro a ela, e, a partir de uma perspectiva crítica, a contemplar a
realidade social, conclui:

A justiça brasileira precisa abandonar a falácia da dicotomia


segurança/celeridade, quando procura justificar a impossibilidade de
uma decisão rápida. Os destinatários da Justiça não se iludem com a
promessa de uma decisão divina. Sabem que esta promessa não será
cumprida. Menos pretensioso, querem uma solução humana sensata.
Uma resposta compreensível para um problema concreto que os
aflige. Resposta simples, solução singela, para as questões humanas
que, em sua imensa maioria, não sofisticadas. Os temas levados à
apreciação do juiz merecem uma decisão calcada em bom senso. Não
necessariamente uma peça literária com utilização de termos
ininteligíveis para as partes envolvidas. As partes não precisam de
erudição elaborada até às raias da prolixidade. Decisão existe para
resolver problemas, não para encontrar espaço nos repertórios
jurisprudenciais96.

Nesta seara, as pesquisadoras Valdeciliana Andrade e Marcela Bussinger, ao


entrevistar magistrados com o intuito de descobrir a visão que possuem da própria
utilização da linguagem97, constataram que todos eles reconhecem a crítica acima
exposta, compreendendo, inclusive, que a linguagem técnica e a linguagem técnico-
jurídica alimentam um abismo entre os jurisdicionados e o magistrado, chegando,
assim, por meio de uma relação dialógica com os entrevistados, à conclusão de que
a linguagem, no direito, é um sinônimo de poder, sendo a sua simplificação um meio
capaz de tornar a comunicação entre estes mais eficaz98. Nas palavras de André
Tavares, “a interpretação da Constituição deve operar, sempre, o mais próximo

94 NALINI, José Renato. A Rebelião da Toga. Revista dos Tribunais, 2015, pág. 234.
95 Ibid., pág. 235.
96 Ibidem.
97 ANDRADE, Valdeciliana da Silva Ramos; BUSSINGER, Marcela de Azevedo. A linguagem jurídica

como estratégia de acesso à justiça: uma análise do processo de interação lingüística entre o
magistrado e as partes. Panóptica, Vitória, ano 1, n. 1, set. 2006, pág. 39. Disponível em:
<http://www.panoptica.org/seer/index.php/op/article/view/Op_1.1_2006_22-45>. Acesso em:
10/10/2018.
98 Ibidem, p. 43.
44

possível de seu povo. Portanto, a linguagem deve ser-lhe próxima, vale dizer, há de
se privilegiar o emprego da linguagem comum”99.

No entanto, não só no âmbito do Poder Judiciário a linguagem se apresenta


como um obstáculo à eficiência da justiça brasileira. Ao testemunhar sobre o que
observava nas sessões plenárias, a respeito da prolixidade da linguagem empregada
durante as deliberações do Poder Legislativo, observou Gilmar Mendes:

Nas sessões plenárias, muitas vezes o dia de trabalho é inteiramente


consumido com a leitura de um único voto. E a pauta se acumula. E o
pior: como qualquer neurocientista poderá confirmar, depois de certo
tempo de exposição, os interlocutores perdem a capacidade de
concentração e a leitura acaba sendo para si próprio100.

Portanto, pode-se depreender que são diversos os aspectos a serem tratados


para que estes problemas sejam amenizados e deixem de comprometer a eficiência
da justiça brasileira, porém, a partir dos pressupostos ora fundamentados, uma
revolução na linguagem, ou uma “revolução da brevidade101”, como nomeou o ministro
Gilmar Mendes, se fortalece como ponto de partida para que mudanças neste
panorama possam ser solidificadas.

99 TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. – 15. ed. rev. e atual, São Paulo:
Saraiva, 2017, pág. 200.
100 BARROSO, Luís Roberto. A revolução da brevidade. Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 jul. 2008,

p. A3.
101 Ibidem.
45

4 O PROBLEMA DO DISTANCIAMENTO SOCIAL E OS PRINCÍPIOS


FUNDAMENTAIS

Conforme apresentado nos capítulos anteriores, a linguagem técnico-jurídica


repercutiu como um mecanismo de segregação aplicada de forma a soar ininteligível
à maioria da população, para, assim, garantir o controle nas mãos de poucos e
dissimular sua real finalidade, que, como classificou o Doutor em direito José Reinaldo
de Lima Lopes, consistia em “persuadir e intimidar”102.

Ocorre que, lastreando-se nas previsões constitucionais expressas no artigo 5º


da Constituição Federal de 1988, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade”103. Por conta disso, incumbe ao Estado o dever de promover
instrumentos que lhes garantam tratamento digno e igualitário, o que, nas palavras do
Doutor Nélson Nery Jr., significa “tratar igualmente os iguais e desigualmente os
desiguais, na exata medida de suas desigualdades”104.

Além disso, no que tange a esta garantia do Estado sobre os seus tutelados,
coadunando com os valores sociais na contemporaneidade, é possível interpretar que
se solidificam também direitos fundamentais subjetivos, como, por exemplo, o bem
jurídico do tempo. Sobre ele, discorre André Gustavo Corrêa Andrade:

Muitas situações da vida cotidiana nos trazem a sensação da perda


de tempo: o deslocamento entre a casa e o trabalho, as filas para
pagamento em bancos, a espera de atendimento em consultórios
médicos e tantas outras obrigações que nos absorvem e tomam um
tempo que gostaríamos de dedicar a outras atividades. Essas são
situações que devem ser toleradas, porque, evitáveis ou não, fazem
parte da vida em sociedade. O mesmo não se pode dizer de certos
casos de demora no cumprimento de obrigação contratual, em
especial daqueles em que se verifica desídia, desatenção ou
despreocupação dos obrigados morosos, na grande maioria das
vezes, pessoas jurídicas, fornecedoras de produtos ou serviços, que
não investem como deveriam no atendimento de seus consumidores,
ou que desenvolvem práticas abusivas, ou, ainda, que simplesmente
vêem os consumidores como meros números de sua contabilidade105.

102 LIMA LOPES, José Reinaldo de. O direito na história. 3. ed. São Paulo: Atlas SA., 2008, p. 213.
103 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF:
Senado Federal: Centro Gráfico, 1988, pág. 9.
104 NERY JÚNIOR, Nélson. Princípios do processo civil à luz da Constituição Federal. São Paulo:

Revista dos Tribunais, 1999, pág. 42.


105 ANDRADE, André Gustavo Corrêa. Dano moral em caso de descumprimento de obrigação
46

Apesar da crítica de Andrade possuir o seu alvo direcionado às obrigações


contratuais, no mesmo sentido, pode-se considerar um ato tão lesivo quanto às
práticas descritas a demora e a consequente espera gerada por conta de questões
provenientes de uma linguagem empregada de forma irresponsável.

A partir desta acepção, o presente momento pode ser historicamente


caracterizado como aquele em que o maquinário jurídico não apenas atua como um
controlador, mas também como um regulador da isonomia nas relações interpessoais
e jurisdicionais em um Estado social, indo de encontro a considerar, para tanto, valores
provenientes das constantes transformações sociais durante a sua atuação. Sobre a
relação entre esses valores subjetivos e os princípios constitucional, escreveu Robert
Alexy:

Duas considerações fazem com que seja facilmente perceptível que


princípios e valores estão intimamente relacionados: de um lado, é
possível falar tanto de uma colisão e de um sopesamento entre
princípios quanto de uma colisão e de um sopesamento entre valores;
de outro lado, a realização gradual dos princípios corresponde à
realização gradual dos valores. Diante disso, é possível transformar
os enunciados sobre valores do Tribunal Constitucional Federal em
enunciados sobre princípios, e enunciados sobre princípios ou
máximas em enunciados sobre valores, sem que, com isso, haja perda
de conteúdo106.

Dando seguimento à fala de Alexy, é compreensível que haja certo receio em


tomar os princípios como passíveis de interpretação, em virtude do seu caráter de
equivalência normativa, porém, é também verdade que são pautados por valores, e,
sendo assim, estes precisam ser amplamente analisados e interpretados, com devida
sensatez e sopesamento de sua aplicação para que as garantias constitucionais
sejam devidamente legitimadas.

Sobre esta força proveniente da responsabilidade do Estado e do conteúdo dos


direitos fundamentais como fator constitutivo das estruturas básicas do Estado e da
sociedade, escreveu Alves de Souza:

contratual. Revista de Direito do Consumidor RT, v. 53, p. 54, jan. 2005.


106 ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. Tradução de Virgílio Afonso da Silva. São

Paulo: Malheiros Editores, 2008, pág. 145.


47

Entendemos que o costume é fonte do direito. Mais: é a mais autêntica


das fontes do direito, na medida em que emana da própria
comunidade e não das instâncias institucionalizadas, as quais muitas
vezes produzem normas sem a menor eficácia, exatamente porque
completamente fora da realidade social. O costume e os princípios
jurídicos são aceitos pela comunidade para valerem como normas
jurídicas e não apenas para servirem de inspiração ao legislador107.

Alves também diz que os direitos fundamentais constituem estruturas básicas


do estado da sociedade, ressaltando que há, em todo conteúdo constitutivo das
estruturas básicas, um grau de relatividade dos valores, sempre tendo em
consideração os movimentos históricos108. No entanto, Alves também pontua que, na
atualidade, período em que os direitos sociais evoluíram e ganharam espaço, se faz
forçoso compreender como vitais os direitos fundamentais, a exemplo da liberdade,
honra, etc109.

Em seguida, afirma que se faz necessária a previsão de direitos fundamentais


através dos procedimentos processuais, que, na sua concepção, devem atuar como
“mecanismos de tentativa de efetivação dos direitos fundamentais substanciais 110”, se
referindo, deste modo, a direitos garantidos por princípios, como o princípio do acesso
à justiça, da igualdade, os quais permitem que sejam incluídos também, no presente
contexto, os princípios da celeridade e da eficiência.

Portanto, visto que a linguagem, quando tratados problemas como o


rebuscamento de seu vocabulário e a extensão de seus documentos meramente por
conta da prolixidade textual do seu elaborador, se relaciona diretamente com questões
como celeridade, eficiência e igualdade, a prolixidade linguística se estabelece como
uma ofensa a alguns dos princípios que serão a seguir expostos.

Desta maneira, se utilizando deste panorama, o presente capítulo optará por


analisar princípios constitucionais específicos a partir da análise da influência de um
instrumento primordial em quaisquer áreas do direito: a linguagem. Assim, importará
verificar em que proporção o juridiquês e a verborragia jurídica interferem na
efetivação de princípios constitucionais, buscando verificar de que maneira a

107
SOUZA. Wilson Alves de. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011, pág. 87.
108 Ibidem, pág. 81.
109
Ibidem, pág. 82.
110
Ibidem.
48

linguagem poderia ser útil se fosse utilizada de forma conveniente e adequada.

4.1 O PRINCIPIO DA EFICIÊNCIA

Através da Emenda Constitucional nº 19, de 04 de junho de 1998, foi inserido


o princípio da eficiência entre os princípios da administração pública, exposto no artigo
37, caput, da Constituição Federal de 1988, conforme transcrito abaixo, ao lado de
outros 4 princípios, também de vital importância, os quais, porém, não se fazem
indispensáveis à presente pesquisa.

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos


Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios
obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência111.

O princípio em questão, de acordo com Rafael Oliveira, traz a ideia de eficiência


como responsável por suprir a necessidade de efetivação rápida das finalidades
públicas elencadas no ordenamento jurídico, citando, como exemplo, a duração
razoável dos processos judiciais e administrativos (art. 5.º, LXXVIII, da CRFB, inserido
pela EC 45/2004)112.

A respeito disso, discorrendo sobre a função deste princípio no Direito


Administrativo e, contemplando ideias que permeiam todo o sistema jurídico, Dirley
da Cunha Jr. escreve: “A atividade administrativa deve ser desempenhada de forma
rápida, para atingir os seus propósitos com celeridade e dinâmica, de modo a afastar
qualquer ideia de burocracia”113.

Neste sentido, em Santa Catarina, no ano de 2014, um juiz determinou que


fosse emendada uma petição inicial, e reduzida a um número em torno de dez laudas,
sob o fundamenta de considerá-la prolixa. O advogado, evidentemente, recorreu,
alegando ausência de argumentação legislativa, no entanto, o Tribunal de Justiça
manteve a decisão de primeiro grau, considerando-a amparada nos princípios da

111
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF:
Senado Federal: Centro Gráfico, 1988, pág. 20.
112 OLIVEIRA, Rafael Carvalho Rezende, Curso de Direito Administrativo. 6. ed. rev., atual. e

ampliada, Rio de Janeiro. Forense; São Paulo: MÉTODO, 2018.


113 CUNHA JÚNIOR, Dirley da. Curso de Direito Administrativo. 15ª ed. rev. ampl. e atual, Salvador:

JusPODIVM, 2016, pág. 46.


49

celeridade processual, da razoabilidade e da eficiência114.

Considerando o objetivo transcrito pelo Juiz Federal, se torna mais que


evidente o encaixe da linguagem técnico-jurídica no contexto sugerido, a qual
apresenta uma impregnada ideia de burocracia. Não à toa, finaliza a sua explanação,
afirmando, sobre a atuação da administração Pública:

Deve ser, outrossim, perfeita, no sentido de satisfatório e completa.


Uma administração Pública morosa e deficiente se compromete
perante o administrado com o dever de indenização pelos danos
causados e decorrentes da falta de rapidez e perfeição115.

Por este ângulo, reconhecendo o seu caráter inovador e a sua capacidade de


revolução no sistema institucional, pontua Di Pietro:

Trata-se de ideia muito presente entre os objetivos da Reforma do


Estado. No Plano Diretor da Reforma do Estado, elaborado em 1995,
expressamente se afirma que “reformar o Estado significa melhorar
não apenas a organização e o pessoal do Estado, mas também suas
finanças e todo o seu sistema institucional-legal, de forma a permitir
que o mesmo tenha uma relação harmoniosa e positiva com a
sociedade civil116.

Nesta acepção, confirmando essa tendência, o Código de Processo Civil de


2015 estabeleceu, em seu art. 8º, que: “ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz
deverá resguardar e promover a eficiência117”, assim, dando um primeiro passo em
busca da celeridade, ao permitir que critérios subjetivos fossem interpretados e
discutidos pela doutrina, para, gradativamente, o direito ir de encontro à uma realidade
jurídica eficiente e célere.

Assim, embora o princípio da eficiência não tenha surgido com relação


intimamente ligada à linguagem e possua raízes no Direito Administrativo, fica clara a
sua relação com o presente trabalho, podendo, a prolixidade linguística, ser encarada
como uma ofensa a tal princípio, a partir do momento em que se verifica que a justiça

114 TJ-RS. AGRAVO DE INSTRUMENTO: CCM. Nº 70069150860. Relator: Desembargador Carlos


Cini Marchionatti. DJ: 20/04/2016. Conjur, 2016. Disponivel em:
<https://www.conjur.com.br/dl/desembargador-carlos-marchionatti-tj-rs.pdf>. Acesso em: 14 out. 2018.
115 CUNHA JÚNIOR, Dirley da. Curso de Direito Administrativo. 15ª ed. rev. ampl. e atual, Salvador:

JusPODIVM, 2016, pág. 47.


116 PIETRO, Maria Sylvia Zanella Di. Direito administrativo. – 31. ed. rev. atual e ampliada, Rio de

Janeiro: Forense, 2018, pág. 151.


117 BRASIL. Lei nº 13.105, de 13 de março de 2015. Institui o Código de Processo Civil. Diário

Oficial da União, Brasília, 16 mar. 2015.


50

pode ser optimizada por meio de uma linguagem mais inclusiva e que demande de
menos tempo na sua elaboração, por meio do profissional responsável por atos
jurídicos administrativos ou não administrativos.

4.2 O PRINCIPIO DA CELERIDADE

Através da Emenda Constitucional nº 45 de 2004, que materializou a “Reforma


do Judiciário”, conforme denominado por parte da doutrina, foram acrescentados
direitos e garantias, expostos no art. 5º, inciso LXXVIII, da Constituição Federal,
fazendo com que muitas normas constitucionais e infraconstitucionais fossem
editadas, com o intuito de conferir maior celeridade na tramitação dos processos,
independentemente de viés judicial ou administrativo118. Abaixo, o artigo:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
LXXVIII - a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados
a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade
de sua tramitação119.

Assim, o princípio da celeridade se solidificou como um princípio intimamente


relacionado ao princípio da eficiência. Além disso, na expressa previsão, a garantia
da razoável duração do processo e a previsão de meios que garantam a celeridade
de sua tramitação, tornam possível perceber, conforme pontuou André Tavares, uma
referência constante à celeridade processual consagrada em duas perspectivas que
se complementam, sendo elas, a celeridade processual como direito fundamental e
como diretriz estrutural do direito120.

Em 2009, tal princípio ganhou força e aperfeiçoamento através da Proposta de


Emenda Constitucional nº 324, que criou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ),
confirmando, deste modo, uma das metas do II Pacto Republicano, concernente a um

118
DANTAS, Paulo Roberto de Figueiredo. Direito processual constitucional. 8. ed. São Paulo:
Saraiva Educação, 2018, pág. 20.
119
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF:
Senado Federal: Centro Gráfico, 1988, pág. 11.
120 TAVARES, André Ramos, Curso de direito constitucional. 15. ed. rev. e atual, São Paulo:

Saraiva, 2017, pág. 606.


51

Sistema de Justiça mais acessível, ágil e efetivo, atentando, inclusive, à redução da


desigualdade entre os diversos segmentos do Judiciário.121

Sob esta conjuntura, escreveu a advogada Virna Lima:

O descrédito que envolve as lides judiciárias se assenta diante da


marcha lenta no atendimento às demandas, pautadas pelo excesso de
formalidades que envolvem os tramites processuais em face da
inoperância (...) o que, por conseguinte contradiz, amplamente, a
celeridade imposta na Constituição Federal, que urge por
mudanças.122

Nessa lógica, é sabido que a morosidade processual vem se tornando


insustentável para os operadores do direito, porém, sendo dada continuidade à esta
perspectiva e análise, percebe-se uma burocratização exacerbada que expressa, nas
palavras de LIMA, Virna, “o caos do sistema judiciário atual, cujas lides processuais
se esmeram por lapso de tempo, sem a certeza da real tramitação no seu curso até
alcançar a decisão final, ainda que o processo tenha prazo razoável para início e
término, cabendo ao Juiz, contudo, dirimir o litígio de maneira mais célere e ágil, o
que, mormente ocorre123”, cabendo à doutrina, portanto, e aos aficionados ao direito,
a busca pelos caminhos ideais para contornar este cenário.

Assim, a partir da relação entre o princípio da celeridade, o princípio da


eficiência, e um único problema a ser solucionado, referente à morosidade e falta de
clareza para que seja dado prosseguimento aos processos em geral, a linguagem
jurídica e as questões as quais esta se põe a combater, se acentuam como
pertencentes a defesa de um mesmo objetivo, haja vista que a objetividade e a
brevidade decorrem diretamente dos princípios processuais da eficiência e
celeridade124, podendo ser considerado, portanto, a má utilização do vocabulário
técnico-jurídico um obstáculo a sua efetivação.

121 LIMA, Virna. A celeridade processual no novo CPC. Disponível em:


<https://virnalima20.jusbrasil.com.br/artigos/317221324/a-celeridade-processual-no-novo-cpc/>.
Acesso em: 17 out. 2018.
122 Ibidem.
123 Ibidem.
124 REIS, Adacir. Simplificação da linguagem jurídica tornou-se uma exigência. Disponível em:

<https://www.conjur.com.br/2016-fev-15/adacir-reis-simplificacao-linguagem-juridica-exigencia>.
Acesso em: 07 jul. 2018
52

4.3 O PRINCIPIO DA IGUALDADE

Embora o princípio da igualdade, também denominado “princípio da isonomia”,


não seja conceituado propriamente como um princípio constitucional processual, é
inequívoca a sua influência e incidência em todo procedimento jurídico125, haja vista a
constante busca por tratamento isonômico, nos moldes do caput do art. 5º
Constituição de 1988, que estabelece:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade126.

Como todo princípio que garante um direito fundamental, o referido princípio


contempla todos os cidadãos sob a égide da tutela estatal, porém, quanto a forma de
sua aplicação, foram desenvolvidas discussões a fim de obter máxima eficácia. Neste
sentido, pontuou Paulo Roberto:

Referido princípio dirige-se, devemos frisar, não só ao legislador, como


também ao aplicador do direito, e, ainda, ao particular. Quanto ao
legislador, o princípio em análise o compele a editar normas não
discriminatórias, que não estabeleçam diferenciações relativas à
idade, raça, condição social, sexo, religião e outras do gênero, a não
ser que haja permissão constitucional expressa, ou um fundamento
legítimo para tal diferenciação127.

Ocorre que, embora os seres humanos sejam todos semelhantes, a


desigualdade é uma peculiaridade própria da condição humana. Nas palavras do
romancista francês Honoré de Balzac “a igualdade pode ser um direito, mas não há
poder sobre a Terra capaz de convertê-la em um fato128”. Assim, conforme sustenta
parte da, pode-se dizer, que todos os seres humanos, sem exceções, são
particularmente diferentes129. Deste modo, apresentam uma desigualdade inevitável

125 DANTAS, Paulo Roberto de Figueiredo. Direito processual constitucional. 8. ed. São Paulo:
Saraiva Educação, 2018, pág. 27.
126 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF:

Senado Federal: Centro Gráfico, 1988, pág. 9.


127 DANTAS, Paulo Roberto de Figueiredo, op. cit., pág. 28.
128
BALZAC, Honoré de. A Comédia Humana: A Duquesa de Langeais; vol. 8 / organização, orientação,
introduções e notas de Paulo Rónai: tradução de Ernesto Pelanda, Gomes da Silveira e Vidal de
Oliveira; 3. Ed. – São Paulo: Globo, 2013, pág. 197.
129 SOUZA. Wilson Alves de. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011. pág. 104.
53

que se aprofunda a partir de aspectos culturais provenientes de condições culturais,


educacionais, sociais, econômicas, etc130. A respeito desta problemática e do que ela
enseja, escreveu Wilson Alves de Souza:

(...) a observância do princípio da igualdade que se exige do legislador


tem que transbordar do plano formal para o plano material, vale dizer,
os iguais devem ser tratados igualmente, enquanto os desiguais
devessem ser tratados desigualmente na medida dessa desigualdade
para se tentar a igualdade real. Sendo assim, devem ser comparadas
as diferenças e semelhanças entre as pessoas ante as situações e até
mesmo as circunstâncias em que elas estão envolvidas para que se
possa aplicar corretamente o princípio da igualdade.131

Assim, quando tal problemática é analisada sob a perspectiva da linguística,


que, como sugerido nos capítulos anteriores, em determinados momentos atua como
um mecanismo de segregação social, poderemos retomar esta ideia nas palavras de
Dionéia Monte-Serrat e Leda Tfouni, que, ao tratar do tema, concluem que “a atividade
da escrita leva à desigualdade na esfera individual e torna naturais as relações de
poder”132.

Além disso, Tfouni afirma também que “a dominação cultural faz‑se


principalmente com base na ‘força’, no ‘poder’ e na ‘autoridade’ das práticas escritas”,
defendendo, inclusive, que o discurso jurídico impõe uma autoridade de imposição de
quem o produz, e se caracteriza por ser monológico, ou seja, por não admitir múltiplas
leituras se constituindo como detentora de um nível intuitivamente abstrato e
sofisticado de uso da escrita133.

Como expressado pelo jurista baiano Ruy Barbosa na oração de paninfia aos
bacharelandos de 1920 da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo,
trazida por Alves de Souza:

(...) a regra da igualdade não consiste senão em quinhoar


desigualmente os desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta
desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se
acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do
orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais ou desiguais

130 Ibidem.
131 Ibidem, pág. 105.
132 MONTE‑SERRAT, D. M.; TFOUNI, L. V. Literacy and legal discourse. Todas as Letras, São

Paulo, v. 14, n. 1, 2012, pág. 157.


133 Ibidem, pág. 158, Apud TFOUNI, L. V. Perspectivas Históricas e A-Históricas do Letramento.

Cadernos de Estudos Linguísticos, v. 26, p. 49-62, 1994.


54

com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real134.

Por este ângulo, ao partir da premissa de que um há um princípio que visa a


garantia de um tratamento isonômico, e uma linguagem específica direcionada a todos
os sujeitos que compõe o Estado, indiscriminadamente e independentemente das
suas origens, pode-se afirmar que tal linguagem ofende o alicerce do princípio da
igualdade quando, ao fornecer um tratamento igualitário a todos os indivíduos e não
considerar uma utilização universal capaz de contemplar a todos, utilizando um
vocabulário que compreende um nicho específico da sociedade, acaba por beneficiar
aqueles socialmente, culturalmente e economicamente favorecidos, não permitindo
que a justiça seja plenamente alcançada, deste modo, por aqueles socialmente
desfavorecidos.

4.4 O PRINCÍPIO DO ACESSO A JUSTIÇA

O Direito Brasileiro, conforme demonstrado no Capítulo 3 do presente trabalho,


estabeleceu o acesso à justiça, também chamado como princípio da inafastabilidade
do controle jurisdicional, ou princípio do direito de ação, tido como um dos pilares do
Estado de Direito135, correspondendo a um direito cuja ofensa se constitui como
ofensa à dignidade da pessoa humana. Nesta acepção, a respeito de sua vitalidade,
escreve Alves de Souza:

Se não houvesse a garantia do acesso à justiça a solução de conflito


entre cidadão e Estado seria evidentemente imposta pela força por
parte de quem a detém, solução esta que se daria sem qualquer
conotação de simbolismo, sem se indagar a respeito de quem tem ou
não razão. Num contexto desse, falar em conflito seria força de
expressão, na medida em que o Estado sempre submeteria sua
vontade ao cidadão136.

Portanto, assim como compreendeu Marinoni sobre os objetivos do princípio,


“Primeiro, o sistema deve ser igualmente acessível a todos; segundo, ele deve

134 SOUZA. Wilson Alves de. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011. Apud BARBOSA, Rui.
Oração aos moços. Cit., pág. 39
135 TAVARES, André Ramos, Curso de direito constitucional. – 15. ed. rev. e atual, São Paulo:

Saraiva, 2017, pág. 603.


136
SOUZA. Wilson Alves de. Acesso à justiça. Dois de Julho, Salvador, 2011. pág. 93.
55

produzir resultados que sejam individual e socialmente justos137”. Porém, ocorre que,
para que ele seja acessível a todos, é preciso que seja dirigido a partir de uma
linguagem igualmente acessível a todos, o que não ocorre, embora uma única
linguagem seja igualmente direcionada a todos. Sobre isto, pontuou Valdeciliana
Andrade e Marcela Bussinger:

Uma queixa comum, existente na sociedade, é concernente à


distância que existe entre os jurisdicionados e os magistrados. Tal
distanciamento seria promovido, entre outros fatores, pela linguagem
jurídica, quer seja escrita quer seja oral, que estaria permeada de
termos técnicos, latinismos, enfim, uma linguagem erudita. Em razão
disso, as pessoas interessadas em uma ação judicial se viam
afastadas, de certa forma, da sua demanda138.

As pesquisadoras também constataram, em pesquisas de campo realizadas


com cidadãos comuns, não graduados em direito, que, quanto à leitura de sentenças,
somente 39% dos interrogados compreendiam o que estava escrito nas sentenças
por elas apresentadas, levando-as a considerar que há um claro impedimento de
compreensão proveniente da linguagem utilizada 139. Além disso, ao também
entrevistar magistrados, perceberam que os mesmos afirmavam perceber uma íntima
relação entre a linguagem e o acesso à justiça, reconhecendo que a linguagem
técnico-jurídica, o eruditismo desnecessário e a prolixidade promovem um
distanciamento entre os jurisdicionados e o magistrado140. Assim, chegaram a
conclusão:

Devido a esse quadro, tem-se falado em acesso à justiça, o qual pode


ser interpretado sob ópticas diversas. Há os que consideram o acesso
à justiça como correspondente ao exercício efetivo de cidadania,
outros acreditam que o acesso consiste na possibilidade de receber a
tutela jurisdicional do Estado, isto é, ter acesso ao poder judiciário e
as demais instituições capazes de viabilizar o direito à proteção, à
tutela jurisdicional competente. Para proporcionar ao homem uma
forma de acesso à justiça, é necessário permitir que esse cidadão
comum se torne menos dominado e mais respeitado, possibilitando
que ele esteja integrado ao universo de linguagem que o cerca141.

137 TAVARES, André Ramos, Curso de direito constitucional. – 15. ed. rev. e atual, São Paulo:
Saraiva, 2017, pág. 603
138 ANDRADE, Valdeciliana da Silva Ramos; BUSSINGER, Marcela de Azevedo. A linguagem jurídica

como estratégia de acesso à justiça: uma análise do processo de interação lingüística entre o
magistrado e as partes. Panóptica, Vitória, ano 1, n. 1, set. 2006, págs. 22-45. Disponível em:
<http://www.panoptica.org/seer/index.php/op/article/view/Op_1.1_2006_22-45>. Acesso em:
10/10/2018.
139 Ibidem.
140
Ibidem.
141
Ibidem.
56

Por esta perspectiva, se delimita a presente monografia, a partir da alarmante


necessidade de superar os anos de descaso contra o estudo linguístico na área
jurídica, e compreender a língua como um mecanismo de inclusão que, no presente
momento, pode simbolizar um resultado imediato em questões que se perpetuam
como a morosidade do judiciário e dificuldade no acesso à justiça.

Deste modo, percebe-se que a desatenção dada à linguagem, quando se


destrincha o que infere cada princípio, evidencia uma negligência, omissão e
imprudência legislativa, judiciária, executiva e, às vezes, até doutrinária, que,
coletivamente, permitem que passe despercebida uma questão intimamente
relacionada com os princípios mencionados, configurando uma ofensa a estes.
57

5 A SIMPLIFICAÇÃO DA LINGUAGEM JURÍDICA

Em variadas partes do globo, a linguagem e a sua relação com o mundo


jurídico, em algum momento, enfrentou – ou continua a enfrentar - problemas
relacionados à sua redação empolada e inacessível, e à sua utilização por parte de
oradores ou escribas prolixos, que comumente consomem o tempo alheio e
prejudicam a celeridade da justiça142, entretanto, em poucos países foram adotadas
medidas concretas rumo à modernização social do direito. Sobre o surgimento dessas
primeiras medidas, pontuou Colares:

No mundo de língua anglo-saxônica, a preocupação com a teorização


acerca da Linguagem & Direito tomou fôlego com o Plain Language
Movement dos anos 1970. Nos Estados Unidos, Inglaterra, Suécia,
Alemanha e Israel, vários estudos começavam a questionar o uso da
linguagem em contextos institucionais e o abuso no uso da linguagem
pelos detentores do poder, no exercício de suas atividades
profissionais143.

Como veremos nos seguintes tópicos, os fundamentos basilares do Plain


Language Movement fizeram com que este conquistasse espaço no mundo do direito
moderno e constituísse uma verdadeira revolução no cenário internacional, adquirindo
até mesmo fundamentação legal nos EUA, denominada Plain Writing Law. Em
Portugal, já em um período mais recente, no ano de 2010 se instituiu o Simplelegis,
que se firmou como um projeto de simplificação legislativa com o intuito de reduzir a
legislação, permitir o acesso das pessoas comuns à justiça e garantir uma aplicação
de leis mais eficazes através de manuais de instruções para que pudessem ser
compreendidos os objetivos da lei144.

No Brasil, onde se perpetua, conforme visto anteriormente, a morosidade


judiciária, o distanciamento do cidadão do acesso à justiça e da sua compreensão, a
ineficiência da garantia de princípios fundamentais e a elitização do meio jurídico
(ainda que gradativamente reduzida), o problema da linguagem não foi devidamente
tratado, sendo, ainda hoje, uma espécie de tabu sem devido reconhecimento da sua

142 BARROSO, Luís Roberto. A revolução da brevidade. Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 jul. 2008,
p. A3.
143 COLARES, Virgínia (Org). Linguagem e direito. Ed. Universitária da UFPE, 2010, pág. 10.
144 PORTUGAL. Direcção-Geral da Política de Justiça. Programa Simplegis. Disponivel em:

<http://www.dgpj.mj.pt/sections/politica-legislativa/anexos/avaliacao-do-
impacto/anexos9170/programa-simplegis/> Acesso em: 04 de nov. de 2018.
58

importância, porém, alguns doutrinadores e profissionais já defendem a mudança e


se manifestam com veemência sobre o tema. Nesta perspectiva, declarou Adacir Reis:

Não há como o Brasil se desenvolver sem a funcionalidade do Direito.


Em uma sociedade caracterizada pela velocidade e pela cobrança de
resultados, os profissionais da área jurídica (para não usar o termo
“operadores do Direito”) têm o desafio de simplificar a linguagem
jurídica e harmonizá-la com a realidade de um país ansioso por
transformações145.

É perceptível que esta revolução ainda possua caráter longínquo, porém,


podemos perceber que o direito finalmente se inclina a esta direção na medida em
que, o novo CPC, que entrou em vigor em 2015 e pode ser utilizado subsidiariamente
no âmbito trabalhista, eleitoral, administrativo etc., se posicionou de maneira a buscar
a celeridade através da unicidade de procedimentos, e defendeu princípios que
valorizam a eficiência e a celeridade, além de ter, também, facilitado as citações e
intimações através da adoção do endereço eletrônico nos procedimentos jurídicos 146.

Na perspectiva linguística, embora, no Brasil, tenham acontecido movimentos


de menor expressão, como a campanha pela simplificação da linguagem jurídica por
parte da Associação de Magistrados Brasileiros147, o tema não passou de uma
mobilização ideológica, não sendo constituída, por exemplo, teor normativo.

Sobre essa falta de reconhecimento no Brasil, relacionando a ausência de uma


matéria que estude a linguagem jurídica no Brasil como uma realidade provinciana,
escreve a estudiosa do tema e fundadora do grupo de estudos e publicações sobre
“Linguagem e Direito”, Virgínia Colares:

No Brasil, no âmbito acadêmico, não há ainda registro de cursos ou


programas de Linguística Forense em qualquer nível educacional nos
moldes oferecidos por universidades de outros países (Aston
University e Cardiff University, na Grã-Bretanha, Nebraska Wesleyan
University, nos Estados Unidos, entre outras), o que evidencia uma
área de estudos ainda pouco explorada no país. Além do notável
descompasso acadêmico e do ainda escasso número de linguistas
forenses ativos no mercado brasileiro, sob o ponto de vista social, há

145 REIS, Adacir. Simplificação da linguagem jurídica tornou-se uma exigência. Disponível em:
<https://www.conjur.com.br/2016-fev-15/adacir-reis-simplificacao-linguagem-juridica-exigencia>.
Acesso em: 07 jul. 2018.
146 LIMA, Virna. A celeridade processual no novo CPC. Disponível em:
<https://virnalima20.jusbrasil.com.br/artigos/317221324/a-celeridade-processual-no-novo-cpc/>.
Acesso em: 17 out. 2018.
147 ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS BRASILEIROS. AMB lança campanha para simplificar

linguagem jurídica. Disponível em: <http://www.amb.com.br/amb-lanca-campanha-para-simplificar-


linguagem-juridica/> Acesso em: 10 de out. de 2018.
59

que se contabilizar a perda para a sociedade brasileira ao não


desfrutar dos recursos da envergadura dos serviços supracitados
oferecidos por essa área.148

Segundo ela, em 2005, com edição de Maria Cristina Name e Paulo Cortes
Gago (um dos pesquisadores do Grupo Linguagem e Direito), foi lançada uma das
primeiras publicações acerca de pesquisas de linguistas que se dedicam ao estudo
da linguagem em contextos jurídicos, a revista da Universidade Federal de juiz de
Fora intitulada “Veredas - Revista de Estudos Lingüísticos”149, que serviu de pontapé
inicial para que o ramo da linguística forense, já sedimentado em outros países, se
movimentasse a fim de se solidificar no Brasil.

Assim, torna-se esperançosa a expectativa de uma revolução linguística na


posterioridade. Nesta perspectiva de esperança, o ministro Luís Roberto Barroso se
manifesta de forma otimista:

De fato, em outra época, falar difícil era tido como expressão de


sabedoria. Chamar autorização do cônjuge de “outorga uxória” ou
recurso extraordinário de “irresignação derradeira” era sinal de
elevada erudição. Hoje em dia, quem se expressa assim é uma
reminiscência jurássica150.

No texto, o ministro não só expressa o seu esperançoso otimismo, como também


discorre sobre de que modo essa transformação deverá ocorrer:

Nos dias atuais, a virtude está na capacidade de se comunicar com


clareza e simplicidade, conquistando o maior número possível de
interlocutores. A linguagem não deve ser um instrumento autoritário de
poder, que afaste do debate quem não tenha a chave de acesso a um
vocabulário desnecessariamente difícil.151

Diante panoramas similares, as estruturas de sistemas jurídicos de países que


apresentam elevado grau desenvolvimento promoveram transformações que repercutiram na
sua efetividade e modernização, proporcionando novos olhares à luz de alguns pressupostos
na perspectiva da pragmática linguística. Desta forma, maximizando as consequências
jurídicas da noção de texto, deixando de considera-lo como um “’produto (escrito)’ pronto e

148 COLARES, Virgínia (Org). Linguagem & direito: caminhos para linguística forense. São Paulo:
Cortez, 2016, pág. 265.
149 COLARES, Virgínia (Org). Linguagem e direito. Ed. Universitária da UFPE, 2010, pág. 14.
150 BARROSO, Luís Roberto. A revolução da brevidade. Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 jul. 2008,

p. A3.
151 Ibidem.
60

acabado com significado imanente, independente do contexto e funcionamento discursivo no


qual teve origem152”, conforme veremos nos tópicos a seguir, sendo, ao final do capítulo,
analisado de que maneira estas transformações podem ser enxergadas no contexto brasileiro.

5.1 O PLAIN LANGUAGE MOVEMENT

Ao tempo em que no Brasil uma gradativa adaptação linguística tem sido


procedida a passos lentos, diferentemente, países que apresentam índices de
desenvolvimento superior se anteciparam, notando a questão como um problema a
ser enfrentado. Como exemplo, se estabelece o Plain Language Movement, que, em
1970 ensejou, através dos profissionais do direito, confrontamentos ao problema da
prolixidade no direito e do legalês (termo que seria equivalente a “juridiquês” no Brasil),
em países como Alemanha, Suécia e EUA153, o qual, posteriormente, reconheceu o
problema e tratou por meio do sistema jurídico.

Nesta sequência, o Plain Language Movement, livremente traduzido no


presente trabalho como Movimento da Linguagem Clara, se iniciou a partir da
percepção de sociolinguistas de que as pessoas precisavam se opor à obscuridade
da linguagem dos advogados e dos outros profissionais que exerciam funções no meio
jurídico154, a perpetuando ao longo dos séculos, trazendo, como premissa principal, a
ideia de que os documentos legais deveriam ser mais simples e compreensíveis para
a pessoa média.

Na definição do advogado e doutrinador americano Bryan Garner, o Plain


Language Movement preza pela linguagem robusta e direta, que, de acordo com suas
palavras, significa:

(...) o oposto da linguagem vistosa e pretensiosa. Você consegue um


inglês simples quando usa a maneira mais simples e direta de
expressar uma ideia. Você ainda pode escolher palavras
interessantes. Mas você substitui os termos extravagantes por
substituições cotidianas que significam exatamente a mesma coisa155.

152
COLARES, Virgínia (Org). Linguagem e direito. Ed. Universitária da UFPE, 2010, pág. 14.
153 Ibid., pág. 10.
154
Ibidem.
155 GARNER, Bryan. From Legal Writing in Plain English, 2001, pp xiv. Tradução livre. Disponível

em: <https://www.plainlanguage.gov/about/definitions/bryan-garner-on-plain-english/>. Acesso em 13


de ago. de 2018.
61

Já o professor australiano Robert Eagleson, uma das maiores autoridades em


relação ao tema nos dias de hoje, conhecido mundialmente por ter sido encarregado
pela reescrita de documentos em linguagem clara na Austrália e no exterior, o
classificou como:

a utilização de expressões claras e diretas, usando apenas a


quantidade de palavras necessárias. É uma linguagem que evita a
obscuridade, o vocabulário inflacionado e a construção de sentenças
complicadas. Não é uma linguagem infantil, nem uma versão
simplificada da língua inglesa. Escritores de inglês claro permitem que
o público se concentre na mensagem ao invés de se distrair com uma
linguagem complicada. Ele garante que o público entenda a
mensagem com facilidade156.

Como pode-se exprimir do artigo “Plain Language: Beyond a Movement”,


escrito por Christopher Balmford, autor internacionalmente reconhecido como
especialista em tornar os documentos legais claros e precisos, nos Estados Unidos,
há centenas de anos as pessoas lamentam e contestam a ininteligibilidade dos
documentos legais, fazendo campanhas para torná-los mais claros. Tais
manifestações, inclusive, ganharam a força de um movimento, a ser denominado
como o “Movimento da Linguagem Clara", dando origem ao Plain Writing Law (Lei da
Escrita Simples) em 2010, que tomou a posição dianteira ao exigir que as agências
executivas federais utilizassem uma redação clara em cada documento que a agência
emitisse ou revisasse; treinassem funcionários para que dominassem a "escrita
simples"; fornecessem um mecanismo para que a agência receba e responda aos
comentários do público sobre a implementação da agência e os relatórios dela
exigidos pela Lei; entre outros157.

Sobre o a atenção e valorização ao tema, Cristopher infere que estas se deram


pois “na maioria dos países de língua inglesa, a profissão de advogado não mais
argumenta que é impossível que um documento seja: por um lado, claro e de fácil
leitura; e por outro lado, preciso, certo e preciso158”. Considerando que Balmford utiliza

156 EAGLESON, Robert. Short Definition of Plain Language. Tradução livre. Disponível em:
<https://www.plainlanguage.gov/about/definitions/short-definition/>. Acesso em 13/09/2018.
157 BALMFORD, Christopher. Plain Language: Beyond a Movement. Tradução livre. Disponível em:

<https://www.plainlanguage.gov/resources/articles/beyond-a-movement/>. Acesso em 13 de ago. de


2018.
158 Ibidem.
62

este argumento como basilar para a ocorrência do movimento em questão, se faz


primordial o reconhecimento da problemática, para que, então, seja ela discutida e
devidamente ponderada por parte dos profissionais da advocacia, os quais
representam, hoje, considerável parcela dos profissionais do direito.

Ainda segundo o autor, embora ainda exista muito a se melhorar no que tange
à clareza dos documentos legais, o movimento obteve um sucesso que repercutiu no
panorama jurídico internacional, notando-se, ao longo dos anos, alguns dos benefícios
sociais de uma comunicação legal e clara, como a rapidez gerada pela facilitação da
compreensão por parte dos magistrados e, mais recentemente, os benefícios
econômicos159, os quais Balmford classifica como principal interesse daqueles de
maior influência no tema, haja vista que a linguagem clara traz melhorias na eficiência,
eficácia e satisfação dos clientes.

Além disso, o autor traz à tona também o fato de que, em países como a
Austrália, escritórios de advocacia já se destacam por conta do domínio da linguagem
clara. A Mallesons Stephen Jaques, por exemplo, maior firma de advocacia da
Austrália e vencedora do “Best Australian Law Firm” em 2001, preparou na última
década contratos de consultoria e serviços de suporte para grandes empresas como
a Microsoft, que a buscou justamente por conta de sua reputação detentora de
domínio da linguagem clara, solidificando este tipo de linguagem como revolucionário
e futurista.

No entanto, ocorre que, embora o tema já tenha alcançado repercussão a ponto


de se tornar um movimento, sendo combatido há dezenas de anos nos Estados
Unidos, apesar do apoio cada vez maior ao uso de uma linguagem jurídica simples,
as mudanças ainda ocorrem de maneira demasiadamente lenta, se mantendo a
redação tradicional, repleta de sentenças inchadas na maior parte da legislação, nos
regulamentos e nos contratos do país160, o pode ser compreendido se levado em
consideração o quão impregnados estavam – e estão – os problemas provenientes
de costumes expostos no presente trabalho, embora em circunstâncias naturalmente

159Ibidem.
160
ADAMS, Cynthia. The Move Toward Using Plain Legal Language. Tradução livre. Disponível em:
<https://www.americanbar.org/groups/young_lawyers/publications/tyl/topics/writing/the_move_toward_
using_plain_legal_language/>. Acesso em 04 de out. de 2018.
63

diferentes. Discorrendo sobre os fatores que provocam essa continuidade, escreve a


professora da Indiana University Cynthia Adams:

Razões para essa persistência variam. Alguns escritores legais se


apegam ao mito de que a concisão e a clareza muitas vezes devem
ser sacrificadas para expressar a comunicação com a maior precisão
possível. Mas um escritor legal competente deve ser capaz de redigir
de forma clara e concisa, sem sacrificar a precisão do texto. Outros
escritores preferem o estilo tradicional à linguagem simples, pois
acreditam que ele implica em um tom solene que soa mais pomposo,
autoritário ou persuasivo. No entanto, o poder de uma comunicação é
diminuído ou perdido se o leitor se esforça para ler e entender a
mensagem. Além disso, um estudo recente publicado pelo Michigan
Business Journal mostra que os juízes consideram a linguagem clara
mais persuasiva do que a legalista. Talvez outra razão pela qual alguns
escritores continuem a usar um estilo tradicional é que estão ocupados
demais para fazer o contrário. Embora a redação em linguagem
simples possa parecer fácil, é preciso tempo e esforço para comunicar
ideias complexas de maneira clara, concisa e precisa. A recompensa
por isso, no entanto, pode ser considerável161.

Com isso, pode-se perceber o incontestável grau de necessidade do


direcionamento de olhares para o tema no Brasil, que, em algum momento, será
obrigado a combater essa irrefutável questão, encarando um árduo caminho que se
agrava a cada ano em razão da constante manutenção das heranças obsoletas e
protelatórias.

A referida evolução nos escritórios de advocacia australianos e americanos,


seja na Austrália ou nos EUA, se posiciona na vanguarda das inevitáveis
transformações que estão por vir. O interesse de clientes poderosos, como a gigante
Microsoft, em escritórios de advocacia australianos focados na prática da linguagem
clara evidenciam que as grandes corporações estão dispostas a pagar por serviços
jurídicos que apresentem uma linguagem de maior universalidade, sugerindo que este
será, em breve, o modelo de uma linguagem jurídica pautada na universalidade e no
acesso amplo à justiça.

161 Ibidem.
64

5.2 O SIMPLELEGIS

Ao tempo em que as mídias digitais expandem informações e os Estados são


induzidos a acompanhar as constantes transformações sociais de modo a buscar que
problemas jurídicos relacionados à celeridade, concretude e eficiência do judiciário
sejam otimizados, mais recentemente, até mesmo Portugal, país que influenciou e
plantou as primeiras sementes do sistema jurídico brasileiro, se rendeu à necessidade
da transformação linguística no direito.

No entanto, para que fosse dado o pontapé inicial nesta transformação, foram
necessários infindáveis embates em contraposição ao tema. As críticas ao teor
segregador da linguagem jurídica foram postos em evidência durante décadas até
que, enfim, ela fosse observada com a merecida atenção. Neste sentido, entre 1978
e 1980, magistrados publicaram na revista Fronteira diversos artigos em oposição à
linguagem judiciária. Em seu conteúdo, os artigos traziam críticas em busca de uma
ressignificação quanto a prática da magistratura, questionando o seu papel, a sua
imparcialidade a singularidade da linguagem utilizada, sob a crítica de que eram
responsáveis pelo favorecimento de um procedimento extremamente solene e
impenetrável162. Falando sobre esta linguagem no passado os seus efeitos previstos
na época, Maria da Conceição Carapinha Rodrigues escreveu:

Esta linguagem especializada transformaria, assim, os profissionais


forenses numa elite profissional que, de acordo com os magistrados
anteriores, se oculta e se protege sob uma capa de pretensa
especialização linguística. Ao impor, ao leigo, uma legalidade opaca e
incompreensível, uma lei “tornada tabu pelo seu elevado tecnicismo,
o universo judiciário acabaria por obstaculizar o acesso do leigo à
própria justiça163.

162
RODRIGUES, Maria da Conceição Carapinha. A situação da linguagem jurídica em Portugal – o
processo de simplificação das linguagens administrativa e legislativa. Disponível em:
http://valesco.es/justicia/wp-content/uploads/2013/11/A-situa%C3%A7%C3%A3o-da-linguagem-jur%C
3%ADdica-em-Portugal-VALENCIA.pdf/. Acesso em: 07 jul. 2018.
163 RODRIGUES, Maria da Conceição Carapinha. A situação da linguagem jurídica em Portugal –

o processo de simplificação das linguagens administrativa e legislativa. Disponível em:


http://valesco.es/justicia/wp-content/uploads/2013/11/A-situa%C3%A7%C3%A3o-da-linguagem-jur%C
3%ADdica-em-Portugal-VALENCIA.pdf/. Acesso em: 07 jul. 2018.
65

Ou seja, embora tenha sempre existido uma espécie de conexão hereditária


entre o direito português e o brasileiro, enquanto no Brasil a linguagem ainda é vista
com caráter secundário, lá, a sua modernização já é encarada com a devida
relevância. A linguagem legislativa, por exemplo, desde maio de 2010, sofreu um
processo de simplificação significativo através do programa SIMPLEGIS, que surgiu
com direcionamento especifico para a busca da concisão linguística em prol da
universalidade, com o intuito de que, deste modo, as pessoas possam compreender
melhor o conteúdo legislativo, sendo, assim, as informações transmitidas com clareza
e transparência para aqueles que aplicam o direito ou dele se beneficiam.

Com isso, espera-se que o conhecimento e a informação possam ser


alcançados por qualquer interessado, de modo que seja necessário somente a busca
por informação por parte do cidadão, para que ele compreenda de que maneira pode
agir. Além disso, o SIMPLELEGIS também sugere uma optimização da celeridade
judiciária, não tendo mais aqueles que emitem decisões de desvendar peças
desnecessariamente extensas, além da facilitação que uma linguagem menos prolixa
lhes proporcionará nas decisões, através de textos mais concisos.

Conforme argumentação extraída do website da Direção-Geral da Política de


Justiça (DGPJ) de Portugal, serviço central da administração direta do Estado, o
programa traz como objetivos: “simplificar a legislação com menos leis; garantir às
pessoas e às empresas mais acesso à legislação; e melhorar a aplicação das leis,
para que estas possam atingir mais eficazmente os objetivos que levaram à sua
aprovação164”.

É inegável que a discussão no país, principalmente se considerada a sua


tradição conservadora, prolixa e burocrática, inicialmente, foi alvo de certa resistência.
Neste sentido, a professora Maria da Conceição Carapinha Rodrigues relatou:

“Em Portugal, e no momento atual, a maioria dos profissionais do


Direito defendem a preservação desta variedade linguística tal como
está: prolixa, especializada, precisa e não ambígua. A fundamentação
desta escolha repousa na capacidade de esta linguagem permitir uma
célere, eficiente e rigorosa comunicação interpares (...) A ser assim,

164 PORTUGAL. Direcção-Geral da Política de Justiça. Programa Simplegis. Disponivel em:


<http://www.dgpj.mj.pt/sections/politica-legislativa/anexos/avaliacao-do-
impacto/anexos9170/programa-simplegis/> Acesso em: 04 de nov. de 2018.
66

os problemas de comunicação entre o universo jurídico e o exterior


não poderiam ser imputados à linguagem de especialidade em que o
Direito se move, mas sim à deficiente educação e literacia dos
cidadãos que deveriam melhorar a sua formação para aceder a
práticas linguísticas mais complexas”165.

Sobre esta percepção, conforme já debatido no presente trabalho, mais uma


vez, vale ressaltar que é inegável que tal especificidade linguística, através de termos
específicos e legislação exaustiva que impeça a existência de lacunas na lei, agregue
ao Direito caráter singular, porém, o que se sugere com a referida proposta não é a
não exaustividade e a extinção da linguagem jurídica, mas a facilitação do acesso à
justiça por parte dos profissionais do direito quando se dirigirem aos cidadãos comum,
que, no cenário contemporâneo, ainda se caracterizam, por distintas razões, dentre
as quais a maioria se relaciona com falhas na prestação de direitos fundamentais pelo
Estado, como o direito à educação, como um destinatário que precisa ter a sua
igualdade restaurada.

5.3 POSSÍVEIS REFLEXOS DA SIMPLIFICAÇÃO DA LINGUAGEM JURÍDICA E O


NOVO CPC

Conforme anteriormente mencionado, em ago. de 2005, a Associação de


Magistrados Brasileiros (AMB), lançou uma campanha para simplificar a linguagem
jurídica utilizada por magistrados, advogados, e outros operadores da área. Seu
objetivo era instigar, através de palestras, o apreço dos profissionais por uma
linguagem judiciária mais simples, direta e concisa, mais acessível ao cidadão
brasileiro166. Porém, a campanha não alcançou grandes proporções, e a linguagem

165
RODRIGUES, Maria da Conceição Carapinha. A situação da linguagem jurídica em Portugal – o
processo de simplificação das linguagens administrativa e legislativa. Disponível em:
http://valesco.es/justicia/wp-content/uploads/2013/11/A-situa%C3%A7%C3%A3o-da-linguagem-jur%C
3%ADdica-em-Portugal-VALENCIA.pdf/. Acesso em: 07 jul. 2018.
166
ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS BRASILEIROS. AMB lança campanha para simplificar
linguagem jurídica. Disponível em: <http://www.amb.com.br/amb-lanca-campanha-para-simplificar-
linguagem-juridica/> Acesso em: 10 de out. de 2018.
67

jurídica brasileira permaneceu estagnada na ideia da manutenção de uma herança


obsoleta.

No entanto, ocorre que, com a propagação da globalização e com a


universalização do processo eletrônico, que atuam como fatores promoventes da
prevalência da eficiência no Poder Judiciário, a simplificação da linguagem jurídica
está “deixando de ser uma questão de estilo para se tornar uma exigência
operacional167”, como bem acentuou o advogado Adacir Reis.

Nas palavras de Balmford:

Precisamos reposicionar a linguagem clara aos olhos dos tomadores


de decisões nas empresas, nos escritórios de advocacia e no governo.
Precisamos mostrar aos tomadores de decisões que, com uma
linguagem clara, os documentos da organização poderão satisfazer e
elucidar a todos que leem esses documentos. Isto é, se o leitor é um
cliente, um funcionário, um distribuidor, um fornecedor, um regulador,
um juiz, um investidor, um litigante ou alguém que esteja lendo a lei168.

Neste sentido, com o novo Código de Processo Civil recentemente


estabelecido, que trouxe mudanças ao cenário se estabelecendo como um código
moderno que preza pela evolução do sistema jurídico, um incômodo em face da
verborragia linguística perante tais transformações se evidenciou como uma causa a
ser combatida. Assim, em maio de 2016, o desembargador do Tribunal de Justiça do
Rio Grande do Sul, Carlos Cini Marchionatti, rejeitou um recurso alegando prolixidade
e falta de objetividade, criticando a falta de objetividade do advogado na petição
descrita pelo desembargador como possuidora de “14 pantagruélicas páginas, cheias
de adjetivos e citações de ementas e acórdãos, sem nenhuma necessidade”169.

Sob a ótica de Marchionatti, o novo CPC impõe, de forma indireta, limites às


petições. Na sua interpretação, argumenta que, com o novo código, estas e as
impugnações precisam descrever com exatidão as circunstâncias que devem motivar
as decisões judiciais, evitando qualquer equívoco proveniente de falta de clareza,

167 REIS, Adacir. Simplificação da linguagem jurídica tornou-se uma exigência. Disponível em:
<https://www.conjur.com.br/2016-fev-15/adacir-reis-simplificacao-linguagem-juridica-exigencia>.
Acesso em: 07 jul. 2018.
168 BALMFORD, Christopher. Plain Language: Beyond a Movement. Tradução livre do autor.

Disponível em: <https://www.plainlanguage.gov/resources/articles/beyond-a-movement/>. Acesso em


13 de ago. de 2018.
169 TJ-RS. AGRAVO DE INSTRUMENTO: CCM. Nº 70069150860. Relator: Desembargador Carlos Cini

Marchionatti. DJ: 20/04/2016. Conjur, 2016. Disponivel em:


<https://www.conjur.com.br/dl/desembargador-carlos-marchionatti-tj-rs.pdf>. Acesso em: 14 out. 2018.
68

fortalecendo a necessidade de que as peças jurídicas sejam escritas com exatidão e


clareza. Nas palavras de Cynthia Adams:

Clareza, concisão e precisão são marcas de excelência da escrita,


porém, há séculos que redatores de leis, documentos jurídicos e
contratos visam exatidão sem considerar se a escrita foi clara ou
concisa. Esse "estilo tradicional" da escrita legal é notório por suas
palavras desnecessariamente complexas, seu jargão jurídico e suas
frases complicadas que podem obscurecer o significado e criar
ambiguidade. Os leigos comumente criticam ou ridicularizam esse
estilo de escrita, afirmando que é difícil ler e compreender, o que
muitos juristas concordaram. O Juiz Learned Hand afirmou certa vez:
"A linguagem da lei não deve ser estranha aos ouvidos daqueles que
a obedecem"170.

Deste modo, ao fim deste capítulo, tendo como referência o desenvolvimento e


os resultados práticos dos países que apresentam alto índice de desenvolvimento
humano em questão, pode-se aferir que a discussão linguística em busca de uma
linguagem mais clara, concisa e sucinta certamente trará como consequência uma
primorosa celeridade aos procedimentos jurídicos e maior eficácia aos atos jurídicos,
devendo ser analisada não somente sob uma perspectiva que avalie a sua
necessidade, mas sob um prisma que busque investigar quando, e de que maneira
deverá ocorrer.

170ADAMS, Cynthia. The Move Toward Using Plain Legal Language. Tradução livre. Disponível em:
<https://www.americanbar.org/groups/young_lawyers/publications/tyl/topics/writing/the_move_toward_
using_plain_legal_language/>. Acesso em 04 de out. de 2018.
69

6. CONCLUSÃO

Certa vez, o escritor norte-americano Charles Bukowski, em um dos seus livros,


afirmou que “um intelectual é um homem que diz uma coisa simples de uma maneira
difícil, e um artista é um homem que diz uma coisa difícil de uma maneira simples171”.
A partir do momento em que à Constituição é dado o dever de criar regras na tentativa
de reduzir a complexidade do sistema jurídico e torná-lo mais seguro e eficiente172, ao
aplicador do direito cabe o dever de seguir a tendência deste preceito fundamental e
buscar ser o mais preciso e direto possível, de modo a não prejudicar a profundidade
de cada ideia, norma ou conceito.

Posto isso, com o atrevimento de trazer a linha de raciocínio do romancista ao


meio jurídico, ao final do presente trabalho, se faz proveitosa uma analogia à aludida
frase do autor, a fim de considerar que, ao operador do direito, na contemporaneidade,
incumbe o dever de atuar como uma espécie de artista, de maneira que, levando em
conta o número de processos que se multiplica a cada dia, este deva se adaptar a
uma linguagem prática menos prolixa, passando a escrever de forma simples, sucinta,
clara e universal ao redigir textos que careçam de interpretação. Deste modo, fazendo
com que a interpretação possa ser célere e compreensível a todos os indivíduos que
com estes textos se relacionem.

Embora reconhecida a importância das influências externas durante o


surgimento e desenvolvimento do direito no país, não deve ser permitido que a
linguagem jurídica brasileira adquira status de herança do direito português arcaico,
afinal, através dos séculos, tal linguagem adquiriu identidade, e, sendo o direito um
sistema de normas de conduta e princípios com o fim de regular as relações sociais
considerando as suas transformações, essa identidade adquirida deve,
necessariamente, ser enfrentada e compreendida, para enfim poder dialogar com a
legislação pátria e com todo o seu sistema jurídico, o qual, na prática, diversas vezes
afasta o entendimento do cidadão comum por conta de um vocabulário forçadamente
obsoleto.

A partir do que foi apresentado sobre a relação sociológica entre a linguagem

171BUKOWSKI, Charles. Notas de um velho safado. Editora L&PM, pág. 217.


172DIDIER JR, Fredie. A Reconstrução da Teoria Geral do Processo. 1ª edição, Salvador:
JusPODIVM, 2016, pág. 33.
70

e o direito, verifica-se que o direito é, de fato um instrumento vital e necessário para


que exista um convívio minimamente harmônico em qualquer sociedade, sobretudo
através do diálogo com os seus tutelados, contudo, a prolixidade linguística e a falta
de compreensão por parte destes, em virtude de razões socioeconômicas resultantes
de falhas na prestação de serviços básicos por parte do Estado, impede-o de exercer
de forma plena e adequada o seu papel.

Por outro lado, ao que tange à concepção de filósofos e linguistas sobre o tema,
compreende-se que os profissionais do direito devem sim possuir o domínio do
vocabulário técnico-jurídico, porém, a linguagem não deve ser utilizada como um
instrumento de segregação de poder, a compactuar com o estigma do praticante do
direito que opta por dedicar a sua formação profissional a perpetuar a figura
ultrapassada do intelectual de vocabulário ininteligível por puro capricho de ego.

Assim como já ocorreu ou está ocorrendo em países que apresentam elevado


grau de desenvolvimento humano, vivemos o momento ideal para promover
discussões a fim de evitar que o profissional do direito se torne apenas um precursor
de mera atividade intelectual. Deve ser considerado que o seu objetivo se dispersa
quando impede a universalidade da justiça, visto que, ao direito cabe a busca por uma
sociedade justa e igualitária, através da satisfação de direitos e interesses que
buscam a manutenção e otimização da justiça.

Neste sentido, com a atenção especial recentemente dada à questão da


celeridade no sistema judiciário brasileiro, como demonstram as inovações do mais
recente Código de Processo Civil, que permitiu até mesmo o indeferimento petições
iniciais por prolixidade, o acesso à justiça conquista a atenção da doutrina e da
jurisprudência. Questiona-se, entretanto, de que modo esta transformação pode ser
inserida à sociedade.

Verdade seja dita, o problema da prolixidade vem sendo gradativamente


superado por meio das novas gerações, que já não falam nem escrevem com a
obscuridade de antigamente, porém, deve-se ressaltar também que ainda é cedo para
afirmar se este fenômeno decorre de uma conscientização coletiva, ou da
incapacidade dos profissionais de manter o arcaísmo, haja vista que o estudo do latim
fora retirado da grade curricular do curso de direito há alguns anos.

Por este motivo, através do exposto, se clama por uma comoção que contemple
71

todo o meio jurídico, a fim de considerar a linguística jurídica uma matéria a ser
seriamente discutida; acompanhar as constantes evoluções sociais, que valorizam
cada vez mais o tratamento igualitário e a inclusão dos desfavorecidos, e agir de
acordo com as transformações e necessidades que surgem incutindo ao direito as
benesses de uma comunicação com clareza e simplicidade, a qual enseja um número
maior de interlocutores sob a sua alçada.

Neste sentido, a presente monografia se finda de forma contrária à pratica da


utilização de um vocabulário arcaico, recheado de termos obsoletos e antiquados em
desuso, na constante tentativa de apresentar um vocabulário elitista e quase
ininteligível para a população, deste modo, equivocadamente, acreditando estar
exibindo uma suposta erudição, muitas vezes sem sequer ter propriedade sobre estes
termos, ao tempo em que, não só é ignorado, como é desprezado o dever jurídico e
moral de se utilizar dos meios idôneos cabíveis para buscar a eficácia plena da justiça.

Alcança-se também, no presente trabalho, a percepção de que a sociedade


contemporânea se caracteriza por uma forte valorização à existência, despertando,
com isso, uma vigorosa valorização ao bem da vida, o que torna o tempo um dos bens
mais valiosos da atualidade. Nesta acepção, a sinteticidade textual adquire um viés
de necessidade após a constatação de que, todo tempo gasto em vão, seja na
duração de um processo ou no esforço realizado para compreender algo evidente que
foi mascarado, configura um dano à honra da outra parte, ao lhe subtrair tempo de
vida e ofender direitos fundamentais expostos no trabalho como o direito ao acesso à
justiça e à duração razoável do processo.

Conclui-se esta monografia, por fim, com o anseio de que estudos que
busquem a promoção de uma relação entre o Direito e a Linguística possam prosperar
no meio acadêmico de ambas as áreas, na expectativa de que a investigação aqui
realizada possa ser, de alguma forma, proveitosa a todos que se interessem em refletir
sobre o estudo da linguagem jurídica.
72

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