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A Relação entre a Economia, Educação e Capital


Humano – Contribuições para Angola
03-07-2018 | Fonte: Valor Económico (Ivan Negro Njinga

As ciências económicas têm estudado o efeito da educação na criação de capital humano,


enquanto factor decisivo para o desenvolvimento das sociedades. No final da década de
1980, ROBERT LUCAS desenvolveu um modelo de crescimento, sublinhando a educação
como uma das forças motoras do progresso tecnológico. 

Apesar de relacionadas, as noções de educação e de capital humano não são


inteiramente coincidentes. A educação, traduz-se no conjunto de hábitos, costumes,
comportamentos e valores de uma determinada sociedade, que são transferidos de
geração para geração, de acordo com a evolução da colectividade, já o capital humano
consiste no conhecimento adquirido, na maioria das vezes, através do investimento na
educação, formação profissional e autodidatismo. 

Dito de outro modo, o investimento na educação produz, afinal, o capital humano.


Determinados modelos explicam e comprovam a correlação positiva entre a educação e
capital humano. De acordo com EDWARD DENISON, educar é a principal fonte de
crescimento económico. No seu estudo, que aborda o período de 1929 a 1982, conclui que
cerca de um quarto do valor da taxa de crescimento anual médio do PIB dos EUA, de 1,48
por cento, ficou a dever-se a aposta na educação. 

De forma similar, o crescimento verificado nos Tigres Asiáticos (The East Asia Miracle:
economic growth and public policy – Main report de 1993), provém da melhoria no sistema
de educação. ROBERT BARRO, chegou a igual conclusão, afirmando que cada ano
adicional de escolaridade média proporciona um crescimento económico ao nível do PIB
per capita. Os efeitos económicos da educação também se reflectem no aumento da taxa
de vacinação, na redução da criminalidade, no grau de associativismo e civismo, por parte
dos cidadãos e cidadãs que tiveram acesso à instrução, no nível de poupança e de
investimento directo estrangeiro.

Por regra, as nações mais desenvolvidas são aquelas que mais investem na educação e
oferecem produtos diversificados, separando e qualificando os níveis educacionais. De
igual modo, os Estados com maior PIB per capita (os mais ricos) são aqueles que
oferecem um nível educacional mais elevado. Por exemplo, a média de anos de
escolaridade nos países desenvolvidos é de 11,1, enquanto, que nos países em vias de
desenvolvimento é de 3,9 anos. Em Angola, a média de anos de escolaridade é de 1,5
anos no total. As mulheres em média têm 1 ano e os homens 2 anos de escolaridade. 

Na República Democrática do Congo a média dos anos de escolaridade é de 2,1 anos.


Neste país, quando analisado o género, as mulheres em média atingem 1,1 anos e os
homens, 3,1 – Organização das Nações Unidas (ONU), Human Development Report,
1994. De acordo com a UNICEF, a África Subsariana investiu em 1990, menos 50 por
cento do montante aplicado em 1970 para a educação primária. Estima-se que 40 milhões
de crianças desta região não receberam qualquer tipo de instrução e que tal valor
aumentou para 70 milhões em 2015. Por seu turno, Angola tem verificado uma explosão
demográfica, com cerca de 30 milhões de habitantes, na sua maioria, sem acesso à
educação.

 Apenas em 2018 estima-se que mais de 2 milhões de crianças tenham ficado fora do
ensino obrigatório. O cenário é pior porque neste país africano milhares de crianças não
são registadas, logo, não constam dos dados oficialmente avançados. Por conseguinte,
Luanda deverá, caso pretenda atingir níveis de desenvolvimento aceitáveis, investir neste
sector. Pode, nomeadamente, utilizar a experiência ocidental, adaptando-a a realidade
local. 

Como exemplo, a reforma colonial de 1962, concebida por Amadeu Castilho Soares cujo
plano de escolarização e ensino, designado por “Levar a Escola à Sanzala”, integrava a
formação de professores, o ensino escolar nas comunidades tribais do território, a
elaboração de manuais didáticos para apoio aos professores e a criação de livros de
iniciação à leitura, para o ensino da Língua Portuguesa. A revolução operada no ensino
primário teve repercussão internacional, sublinhando o prestigiado "The Economist" que,
de 1961 a 1963, o número de angolanos a beneficiarem de escolarização duplicara; e
comentando que "não podendo os alunos ir à escola, a escola vai agora até eles". Do
mesmo modo, o Centro de Estudos Estratégicos da Universidade de Georgetwon, de
Washington, assinalava quer a africanização dos livros escolares.

Tendo em conta o crescimento das zonas urbanas, a transumância e gentrificação, tal


como estratificação das classes com elevados níveis de iniquidade, Angola deve repensar
o dilema provincial e aplicar o paradigma regional e local redutor da paralaxe, com uma
escola urbana, suburbana, rural e de transição.

 
Segundo a OCDE - Organização da Cooperação e Desenvolvimento Económico, relatório
anual Education at a Glance 2014, numa média de 34 países, o Estado, ao nível do ensino
público, gasta em média, 6.213,00 Euros por aluno e em cada ano, em todo o ciclo pré-
universitário e 10.876 Euros por aluno por ano em todo o ensino universitário.

Os Desafios de Angola

Em Angola, 65 por cento dos cidadãos tem menos de 24 anos e 55 por cento, menos de
18 anos. O país cresce, demograficamente, a taxa de 3,4 por cento por ano, com seis
nascimentos por mulher, ou seja, todos os anos a população angolana acresce bem perto
de um milhão de habitantes. Entre a população com 18 a 24 anos, apenas 25 por cento
completa o segundo ciclo do ensino secundário e 5 por cento entre a população acima dos
24 anos, consegue concluir o ensino superior – Censo 2014. 

Se Angola adoptasse políticas próximas do padrão OCDE, teria de investir um total de


88,9 biliões de Euros para o grupo etário com idade inferior a 18 anos, e 28,3 biliões de
Euros para o escalão com idade compreendida entre os 18 e menos de 24 anos,
perfazendo um total de 117,1 biliões de Euros por ano. Como se regista um aumento de
um milhão de habitantes por ano, haveria que contabilizar um acréscimo de 6,2 biliões de
Euros por ano. Uma medida eficaz para reduzir as despesas com a educação, no cenário
actual, prende-se com o controle da natalidade, reforçando a educação das mulheres e
inserindo-as no processo produtivo de forma activa e na liderança.

O Quadro Docente

A falta de professores e de escolas, especialmente nas zonas mais isoladas é uma


realidade incontornável. Além da escassez de investimento massivo nesta área, a carreira
e o papel do docente, em especial nas zonas mais carenciadas, merecem atenção. A título
de exemplo, o Relatório Eurydice sobre os “Vencimentos dos Professores na Europa”, de
2016, fornece contribuições, dando conta de que os professores podem auferir salários
brutos anuais tabelados entre os 28 e os 46 mil Euros em Espanha, entre os 31 e os 64 mil
Euros anuais na Bélgica, na Alemanha entre os 43 mil e os 70 mil Euros anuais e em
Portugal entre 21.960 e 42.377 Euros. Na determinação do salário dos professores, estes
países têm como referência o PIB per capita local.

 
Tendo por base os valores avançados, que podem servir de ponderador na contratação do
quadro docente angolano, teríamos a remuneração dentro de um intervalo mínimo
equivalente a 50 por cento e máximo correspondente a 130 por cento do PIB per capita de
cada Estado. No caso de Angola, buscando inspiração na experiência ocidental, o salário
dos professores pode ser fixado em 100 por cento acima desta variável, promovendo um
salário mínimo de 6220 Euros por ano, 518 Euros por mês, com as devidas e regulares
atualizações do câmbio. 

A estratégia para a educação em Angola, passa ainda pela Elaboração de um Programa


de Indicadores dos Sistemas Educacionais – INES – com o objetivo de apresentar a coleta
de dados ligados a educação e em temas como o impacto da aprendizagem (a África-do-
Sul participou neste estudo em 2017), o investimento financeiro, o acesso à instrução, o
contexto de aprendizagem, a organização das escolas, entre outros. Existem paradigmas
interessantes, tais como: (a) o modelo Estados Unidos, Austrália e Canadá, em que se
partilha o custo da educação entre governo, famílias e empresas privadas; (b) Chile, Japão
e Coreia, que têm propinas muito elevadas e fracos sistemas de apoio aos alunos e,
finalmente, (c) os sistemas com baixas propinas e fracos sistemas de apoio aos alunos,
verificado na Áustria, Bélgica, Confederação Helvética, Espanha e Portugal.

Por último, o Estado deve também promover uma estratégia de acção social, assente na
criação de bancos sociais que passem a fomentar e gerir refeitórios escolares, programas
para o fornecimento de leite (distribuição diária e gratuita de 20cl de leite às crianças que
frequentam a educação pré-escolar e aos alunos do 1.º ciclo do ensino básico, ao longo de
todo o ano letivo), livros, gestão de experiências piloto com elevada participação familiar e
das comunidades, tal como apostar componente infraestrutural, de modo a reabilitar e
construir o parque imobiliário escolar. É a aposta na componente holística e inserção de
uma vertente institucional no debate em torno da educação, central para a edificação de
um Estado inclusivo e de uma nação de vanguarda na produtividade.
 

A execução de uma política educativa de excelência é o garante por parte de todo e


qualquer cidadão angolano de uma verdadeira independência.

 
 

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Comentários
Miguel : Um artigo que todos os nossos dirigentes deviam ler obrigatoriamente e de preferência num
lugar fechado e vigiados, para verem que rumo eles tem dado ao pais, em contrapartida da era colonial
em que mesmo sendo colonizados ousou-se pensar o pais. Belo de ler e analisar-

Lda (Lda): Em Angola faltam princípios, seriedade e rigor. Falta de docentes é uma falsidade falsiforme.
Assim nunca resolvem o problema. Organizam e participam em eventos, palestras, conferências e
escrevem artigos inúteis só para aparecer vosso nombre e enriquecer CV.

Anónimo : Tudo bem tudo certo belíssimo pensamento.AGORA PÔR EM PRATICA EM ANGOLA


(IMPOSSÍVEL)
Rui Camilo - Washigton DC : Este é melhor artigo de um todo que eu pude ver neste portal. Somente os
visionário é que reconhecerão o valor do mesmo. Visão profunda e já a tanto que aguardava por um
artigo como este. Os meus parabéns, e que o caminho é para frente. Angola Avante!!!!

carlos silva (kapopasilva@gmail.com): Pode-se economizar muito se construirmos Escolas com


materiais locais. A utilização do adobe está mais que aprovada e a cobertura de capim também já provou
eficácia. A população interessada não regateará colaboração na força de trabalho necessária, porque é
também local. É claro que a "vontade política" é determinante.

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