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“Carta aos Irmãos”

A doutrina dos Três Mil Mundos num Instante Momentâneo da Vida revelada no quinto

volume do Grande Concentração e Discernimento é especialmente profunda. Se propagá-

la, os demônios surgirão sem falha. Se isso não acontecesse, não haveria maneira de saber que esse é o ensino correto. Em uma passagem do mesmo sutra consta: “Conforme

a prática progride e a compreensão aumenta, os três obstáculos e as quatro maldades se

manifestam de forma confusa, competindo uns com os outros para interferir

não deve ser nem influenciada nem amedrontada por eles. Se for influenciada, a pessoa será conduzida para os maus caminhos. Se ficar amedrontada, sua prática será obstruída.”

Cenário Histórico

A pessoa

Nitiren Daishonin escreveu Carta aos Irmãos em Minobu, em abril de 1275, aproximadamente um ano após retornar da Ilha de Sado. Esta é uma escritura longa em comparação com muitas das cartas pessoais de Nitiren Daishonin e incorpora seu empenho ilimitado para encorajar dois de seus seguidores, os irmãos Ikegami, que se encontravam numa situação crítica. Os dois irmãos, ambos samurais, viviam num local chamado Ikegami, na Província de Musashi, onde atualmente se localiza Tóquio. O mais velho chamava-se Munenaka e o mais novo, Munenaga. Acredita-se que Munenaka tenha se tornado seguidor de Nitiren

Daishonin por volta de 1256, mais ou menos na mesma época que Shijo Kingo. Seu irmão mais novo, Munenaga, converteu-se logo depois. Provavelmente, os irmãos conheceram os ensinos de Nitiren Daishonin por meio do sacerdote Nissho, tio deles e um dos mais antigos discípulos de Daishonin, posteriormente designado como um dos sacerdotes seniores.

O pai deles, Yasumitsu, servia como diretor do Departamento de Construção e Reparos

do governo Kamakura. Sendo devoto do sacerdote Ryokan, do templo Gokuraku-ji, ele se opôs asperamente à crença dos filhos. Ryokan, um dos líderes da seita Shingon-Ritsu, era uma figura proeminente nos círculos religiosos e muitos o reverenciavam como um buda vivo. No entanto, ele temia a crescente influência de Daishonin e incitou as autoridades governamentais a tomarem medidas contra ele. As intrigas de Ryokan, no final, levaram ao atentado contra a vida de Nitiren Daishonin em Tatsunokuti e seu subseqüente banimento para Sado. Não há informações sobre os irmãos nos aproximadamente vinte anos que se passaram desde sua conversão até a época em que esta carta foi escrita. Contudo, como afirma a passagem de Carta aos Irmãos, Cada um dos senhores tem mantido sua fé no Sutra de Lótus, podemos presumir que eles tenham dado prosseguimento à sua prática apesar das pressões oficiais contra os seguidores de Daishonin durante os anos de seu exílio em Sado. Agora que Daishonin havia, a despeito de todas as expectativas contrárias, voltado são e salvo do exílio, os irmãos enfrentavam uma nova crise pessoal. Em 1275, seu pai, Yasumitsu, repentinamente renegou o irmão mais velho, Munenaka, por causa de sua fé. Deserdar um filho, no Japão do século XIII, acarretava terríveis conseqüências sociais e econômicas, difíceis de imaginar hoje. A ética confuciana exigia obediência aos pais; e a

família, não o indivíduo, era soberana. Propriedades, cargo e ocupações governamentais eram geralmente hereditários. A deserdação poderia facilmente condenar não somente o indivíduo envolvido, mas também sua família e descendentes à pobreza e à desgraça.

Mesmo sendo conhecido o desagrado de Yasumitsu com relação à religião de seu filho, é difícil imaginar que ele tenha decidido subitamente, após vinte anos, tomar um passo tão sério sem uma razão adicional. Daishonin suspeitava que Ryokan o estivesse pressionando. Como não conseguiu atingir o próprio Nitiren Daishonin, esse sacerdote parecia pretender prejudicar seus seguidores (por exemplo, influenciando Lorde Ema contra Shijo Kingo.)

O pai de Munenaka o perdoou em 1276, para repudiá-lo novamente em 1277. Munenaga

vacilou durante algum tempo. Daishonin continuou a incentivá-los durante esse período. Graças a esse encorajamento, os dois irmãos uniram-se e perseveraram na fé. Em 1278, 2 anos após, eles converteram o pai, Yasumitsu, ao Budismo de Nitiren Daishonin.

Comentários

A doutrina dos Três Mil Mundos num Instante Momentâneo da Vida revelada no quinto

volume do Grande Concentração e Discernimento é especialmente profunda. Se propagá- la, os demônios surgirão sem falha.

Neste trecho, Nitiren Daishonin enfatiza que aqueles que praticam e propagam o ensino correto do Budismo irão invariavelmente encontrar obstáculos e que a aparição destes

obstáculos serve para validar este princípio. Este é um princípio fundamental do Budismo

e o ponto principal desta carta.

A “doutrina dos três mil mundos em um único momento de vida” mencionada na

primeira frase é a suprema realização filosófica do Grande Mestre T’ien-t’ai (538-97) da China. Esta descrita na Grande Concentração e Discernimento, uma compilação dos profundos discursos de T’ien-t’ai para seu discípulo mais próximos, Chang-an. Baseada no Sutra de Lótus, a doutrina dos três mil mundos em um único momento de vida esclarece a complexidade da harmonia entre a realidade absoluta (estado de Buda) e o mundo dos fenômenos (meio-ambiente.) Um momento de vida refere-se à realidade ou verdadeiro estado de uma vida em cada momento; e três mil refere-se à diversidade de estados potenciais ou condições que podem vir a assumir nestes momentos. T’ien-t’ai explica que um momento de vida possui dentro de si os Dez Mundos, sua possessão mútua (perfazendo 100 mundos), os dez fatores (perfazendo 1.000 fatores) e os três mundos (perfazendo 3.000 mundos). Com esta teoria, T’ien-t’ai demonstra que todos os fenômenos – corpo e alma, essência e meio- ambiente, seres animados e inanimados, causa e efeito – estão integrados em um único momento de vida de um mortal comum. Uma vida em cada momento na verdade contêm toda a realidade e extende-se a todo o universo. No entanto, os três mil mundos em um único momento de vida de T’ien-t’ai refere-se em teoria ao estado de Buda latente que possuem todas as pessoas. Por isso, é chamado de teoria dos três mil mundos. Entre outras coisas, três mil mundos em um único momento de vida, descreve o Budismo de Nitiren Daishonin, refere-se ao significado de manifestar

o estado de Buda como uma realidade presente na vida de todas as pessoas. Por isso é chamada de três mil mundos reais.

Na passagem acima, Nitiren refere-se aos três mil mundos em um único momento de vida revelado no quinto volume da obra Grande Concentração e Discernimento porque ele deseja reforçar o princípio dos três obstáculos e quatro maldades descritos no mesmo

volume. Porém, em termos de nossa própria prática,poderíamos entender que ele se refere

a Nam-myoho-rengue-kyo das Três Grandes Leis Secretas, e não à teoria dos três mil

mundos em único momento de vida de T’ien-t’ai. Nam-myoho-rengue-kyo – “a doutrina dos três mil mundos em um único momento de vida – é o ensinamento que habilita pessoas comuns, não iluminadas a tornarem-se Budas. Por isso, nada mais natural que grandes obstáculos surjam nesta prática e propagação. Ultrapassando os três obstáculos e quatro maldades através da prática e propagação da Lei é a ferramenta para acabar como sofrimento que se origina de nossa escuridão fundamental. No The World of Nitiren Daishonin’s Writings, o presidente da SGI Daisaku Ikeda explica que “reduzir o efeito cármico significa colocar um fim, nesta existência, ao ciclo intermitente de miséria e infelicidade que carregamos em nossa vida

desde o distante passado até o presente. Perseguições e obstáculos são uma maravilhosa oportunidade para chegar à iluminação. Eles são um trampolim para uma grande expansão de nosso estado de vida. Isto é o que Daishonin escreve, “O sábio se alegra enquanto o tolo foge diante dos obstáculos” (WND-1, 637)” (vol.4, pág.73.) Através de uma prática corajosa é que transformamos a fonte de nosso sofrimento e trazemos força para seguir e ultrapassa-los. Quando a transformação de nossa escuridão fundamental toma lugar no contexto da propagação da Lei, nossa natureza de Buda torna- se extremamente forte e confiamos na vitória. Por vencer incacreditáveis perseguições e austeridades, Nitiren provou para todos nós que uma pessoa comum pode atingir o estado de Buda através de uma prática dedicada e propagação. Ele declara “Aqui, um simples indivíduo é usado como exemplo, mas o mesmo exmplo pode ser aplicado da mesma maneira para todos os seres-humanos” (The Unanimous Declaration by the Buddhas”, WND-pág.2,844). Usando Nitiren como um modelo, porém, não significa que nós experimentaremos a mesma perseguição e austeridade que ele sofreu. Em seu seu discurso sobre “A Abertura dos Olhos”, presidente Ikeda diz:

“Relacionado a este ponto, recordo que Tsunesaburo Makiguti, o primeiro presidente da Soka Gakkai, traçou a diferença entre a posição de um sábio ou merecedor que descobre

a verdade e ensina a outros e a nós, pessoas comuns que criamos mérito acreditando e

praticando esta verdade. Ele explica este ponto: “O processo empregado pelos sábios pioneiros para revelar os ensinamentos, depositaria nossa fé nesses ensinos, e o processo que as pessoas comuns adotam é em sua vida diária – que é o processo pelo qual nos faz crer nos ensinos, ser guiados por eles e pelo qual nos empenhamos em uma vida de suprema felicidade baseado neste ensino – o que torna-os completamente diferentes. Notamos, porém, que existem aqueles que seguem transmitindo os ensinos dos sábios ou merecedores, exigindo que as pessoas sigam o mesmo processo. Mas fazer isso, ele declara, é um grande engano e uma inútil perda de tempo.” (Dezembro 2004 Living Buddhism, pág. 24.)

“Os três obstáculos e quatro maldades aparecerão de forma confusa”

As várias formas em que os obstáculos e impedimentos aparecem são categorizados como “três obstáculos e quatro maldades” são: (1) o obstáculo dos desejos mundanos, ou os obstáculos advindos dos três venenos da ira, estupidez e arrogância que se apresentam como estados da mente débil e tornam-se obstáculos. Os desejos mundanos podem obstruir nossa prática budista e interferir na nossa fé; (2) o obstáculo do carma, ou obstáculos advindos do mau carma criado por cometer maus atos. Este obstáculo também

é interpretado como uma oposição imposta por companheiros e filhos; e (3) obstáculo da

retribuição, obstáculo devido à dolorosa retribuição pela ação dos três maus caminhos. Esta categoria também indica os obstáculos causados por soberanos, pais ou outras pessoas que exercem algum tipo de autoridade. As quatro maldades são: (1) A maldade dos cinco componentes, isto é, os impedimentos causados pelas funções físicas e mentais. Quando os componentes agem como função demoníaca, eles causam disarmonia do corpo e da mente, tiram os benefícios e a força vital adquiridas através da prática budista. Doenças físicas e mentais estão incluídas nesta categoria.; (2) Impedimentos dos desejos mundanos que surgem dos três venenos, roubam o conhecimento e destroem a fé; (3) Impedimentos causados pela morte. Devido ao medo e ao sofrimento que ela vincula, pode obstruir a prática do budismo; e (4) Impedimento causado pelo Demônio do Sexto Céu. Esta maldade é comumente manifestada na forma de opressão por homens de poder.

Desenvolendo a sabedoria para enxergar além das funções negativas

Existe, com certeza, algo que se sobrepõe entre estas categorias. O ponto desta classificação não é fazer um ranking de nossos problemas e sim ajudarnos a reconhecer como funcionam os obstáculos e maldades. Somente quando falhamos em reconhecer que estas funções tentam obstruir nosso progresso na fé é que somos atingidos por elas, e somente quando permitimos que elas se coloquem entre o Gohonzon e nós é que caímos

nos baixos estados de vida. Porém, se conseguirmos reconhecer os tipos de impedimentos como eles são, poderemos rapidamente encontrá-los em nossa vida e termos o desejo de mudá-los. Eles já não terão poder sobre nós; da mesma forma, entender que “Se isso não acontecesse, não haveria uma maneira de saber se este ensino é correto,” podemos ter a prova de que estamos praticando o Budismo corretamente. Por ser importante entender este ponto, Nitiren Daishonin alerta, “Respeitosamente, faça deste ensino o seu, e transmita-o às gerações futures como uma importante lição” (WND- vol.1, pág 501.) Para resumir, desde que estejamos determinados a atingir a iluminação, e ajudemos outras pessoas a fazer o mesmo, certamente os obstáculos aparecerão em nossa vida. Temos a tendência de pensar que os benefícios visíveis são a prova que estamos praticando corretamente, mas à luz da passagem acima, a aparição de obstáculos também

é uma prova extraordinária de nosso progresso na prática da fé. O que devemos lembrar

então é “não ser atingido ou influenciado por eles” como ensina Nitiren. Uma vez que, resolvemos ultrapassá-los, adversidades podem ser um ótimo ensino e um ótimo meio

para levarnos à purificação da fé, força e um elevado estado de vida. Quando nos deparamos com um sério problema, muitas vezes parece que permaneceremos nele por um longo e interminável tempo. Mas, na realidade, nenhum

problema dura para sempre. A fé no Gohonzon, por um lado, nos faz despertar para a parte de nossas vidas que é eterna. Estudar os ensinos de Nitiren sobre essas funções negativas ajuda-nos a desenvolver a força para avançar sobre elas. Não é um exagero dizer que este é um dos grandes objetivos de se estudar o Budismo. Não há outro modo para combater as funções demoníacas que vêm da nossa escuridão fundamental e então manifestar o estado de Buda que existe dentro de nós. Para manifestar este estado, não outro modo senão recitar Nam-myoho-rengue-kyo. Praticar o Budismo é empreender uma batalha contra as funções demoníacas. Desafiar as funções demoníacas para revelar o estado de Buda é a essência do Budismo. Nossa iluminação e o Kossen-rufu podem ser provados somente quando estivermos preparados para ultrapassar os obstáculos e as funções demoníacas.

Living Buddhism material de estudo maio/junho págs. 52 - 57