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Poder Familiar

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Portanto, sob a égide de uma Constituição que defendia a igualdade de todos

perante a lei, numa sociedade predominantemente rural, em que a família era tida

como uma entidade patriarcal, hierarquizada, matrimonializada e patriminializada, o

primeiro Código Civil brasileiro, instituído pela Lei 3.071, de 01 de janeiro de 1916,

constituiu a família sob o princípio da unidade de direção.19

A respeito disso é mister

18

COMEL, Denise Damo. Do poder familiar. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003, p. 23.

19

COMEL, Denise Damo. Do poder familiar. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003, p. 26.

17

observar as considerações de José Lamartine Corrêa de Oliveira e Francisco José

Ferreira:

O modelo de família que o legislador teve em vista, ao elaborar o Código Civil em

sua versão original, corresponde a uma família dominada pelo princípio da

unidade de direção. A família tem um chefe: o marido. Sua estrutura é

diferenciada, baseada no princípio de repartição de funções e hierarquizada.20

Nota-se, sobretudo, no artigo 233 que “o marido é o chefe da sociedade

conjugal”, ou seja, a ele reservada, de forma solene, a função de chefe da família,

sendo confirmada tal investidura pelo fato de a mulher casada ser considerada como

relativamente incapaz, portanto, sob o domínio do marido, também denominado poder

marital.21

Portanto o Pátrio Poder previsto no Código Civil de 1916 seguiu a tradição

das legislações anteriores ao reservar, prioritariamente, ao marido a prerrogativa de

chefiar a família, ou seja, exercer o Pátrio Poder de forma exclusiva. A respeito disso

Lafayette Rodrigues Pereira tinha uma interessante opinião:

Não poderia a sociedade conjugal subsistir regularmente, se o poder de dirigir a

família e reger-lhes os bens não estivesse concentrado em um só dos cônjuges,

uma vez que os conflitos diários, não encontrando pronta solução, criariam na

família perpétua perturbação.22
.

Entretanto, no Código Civil de 1916, à mulher já era reservado a

participação em assuntos da sociedade conjugal, devendo-se afastar qualquer atitude

arbitrária do marido, pois segundo próprio Beviláqua, apesar da preeminência

concedida ao marido, os dois cônjuges se acham no mesmo plano jurídico, e não

20

OLIVEIRA, José Lamartine Corrêa de; MUNIZ, Francisco José Ferreira. Direito de Família. Porto Alegre:

Fabris, 1990. p. 302.

21

COMEL, Denise Damo. Do poder familiar. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003, p. 26.

22

PEREIRA, Lafayette Rodrigues. Direitos de família..., cit., p.125

18

exerce o homem autoridade sobre a mulher.23

Esta visão pode ser entendida se

considerado o artigo 240 do Código Civil de 1916.24

Portanto à mulher, apesar de ter, ainda que de forma tímida, conseguido

espaço nos assuntos conjugais, somente era reservado o exercício do Pátrio Poder, na

morte do marido, em seus impedimentos legais, ou no não reconhecimento, em se

tratando de filhos ilegítimos, conforme observava o artigo 38325

A respeito deste ponto, somente estavam sujeitos ao Pátrio Poder os filhos

que podiam ser reconhecidos, pois sem reconhecimento não há que se considerar a

autoridade paterna.26

Portanto estavam sujeitos ao Pátrio Poder os filhos naturais, os

legítimos, os legitimados, os legalmente reconhecidos e os adotivos, excluindo-se os

incestuosos, os adulterinos e os espúrios.

Quanto a questão patrimonial o Código Civil de 1916 conferia aos pais a

administração27

e o usufruto28

de seus bens, com algumas restrições.29

A respeito da extinção do Pátrio Poder de acordo com o código Civil de

1916, esta somente poderia se dar com a morte dos pais ou do filho; pela emancipação;

pela maioridade, fixada em 21 anos; pela adoção.30

23

BEVILÁQUA, Clóvis. Código Civil..., cit., p. 99-100.

24

CC/1916, art. 240: “A mulher assume, pelo casamento, com os apelidos do marido, a condição de sua
companheira, consorte e auxiliar nos encargos da família.”

25

CC/1916, art. 383: “O filho ilegítimo não reconhecido pelo pai fica sob o poder materno. Se, porém, a mãe não
for reconhecida, ou capaz de exercer o pátrio poder, dar-se-á tutor ao menor.”

26

CC/1916, art. 379: “Os filhos legítimos, os legitimados, os legalmente reconhecidos e os adotivos estão
sujeitos ao Pátrio Poder, enquanto menores.”

27

CC/1916, art. 385: “O pai e, na sua falta, a mãe são os administradores legais dos bens dos filhos que se achem
sob seu poder, salvo no disposto do art. 225.”

28

CC/1916, art. 389: “O usufruto dos bens dos filhos é inerente ao exercício do pátrio poder salvo a disposição

do art. 225.”

29

CC/1916, art. 390: “Excetuam-se (do usufruto): I – Os bens deixados ou doados ao filho com a exclusão do
usufruto paterno; II – Os bens deixados ao filho, para fim certo e determinado.”
CC/1916, art. 391: “Excluem-se assim do usufruto como da administração dos pais: I – Os bens adquiridos pelo
filho ilegítimo, antes do reconhecimento; II – Os adquiridos pelo filho em serviço militar, de magistério, ou em
qualquer outra função pública; III – Os deixados ou doados ao filho, sob a condição de não serem administrados
pelos pais; IV – Os bens que ao filho couberem na herança (art. 1.599), quando os pais forem excluídos da
sucessão (art. 1602).”

19

A dissolução da sociedade conjugal, independente da forma, seja pelo

desquite, seja pela anulação, não alterava a titularidade do Pátrio Poder, exceto quanto

a questão da guarda, sendo que, no caso de desquite amigável, deveria ser considerado

o que for pactuado entre os cônjuges31

. Já no desquite judicial era previsto três

possibilidades distintas: a) Havendo cônjuge culpado, os filhos deveriam ficar com o

inocente; b) Sendo a culpa recíproca, adotou se como critério a lei do sexo, ou seja, até

os seis anos, os filhos ficariam com a mãe, após esta idade, os meninos passariam a

ficar sob a guarda do pai, enquanto que as meninas deveriam permanecer com a mãe,

para Comel este critério atendia o conservadorismo machista da época.32

Entretanto

ressalva-se, no artigo 327, a possibilidade de o juiz, em qualquer caso, estabelecer a

guarda dos filhos sem obedecer a essas regras, baseando-se no interesse e bem estar

dos filhos.33

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