Metodologia de Pesquisa

Mestrado em Psicanálise Social

Metodologia de Pesquisa
Mestrando: Douglas Naegele Barbiratto Disciplina: Psicanálise Social

Conhecimento, Saber e Ciência Resumo:
Esclarecimento das noções de método e pesquisa como constituidoras do discurso científico. O surgimento do discurso científico e o método experimental em Galileu, Descartes e Newton. A relação entre saber e verdade no discurso científico. O sujeito da ciência e o sujeito do inconsciente. A relação entre ciência e psicanálise.

Abertura:
Em Conhecimento, Saber e Ciência, inicialmente, refletiremos sobre como organizamos os conhecimentos. Cientes de que o saber representa o recorte dado pela ciência no conhecimento, neste curso, buscaremos ainda identificar quais são os parâmetros que limitam essa ciência e o que caracteriza a postura investigativa. Aqui ressaltaremos o valor do método e da postura ética como princípios básicos a serem por nós observados quando nos envolvemos na produção de conhecimento. Sob esse foco, Conhecimento, Saber e Ciência está estruturado em quatro unidades, nas quais foi inserido o seguinte conteúdo... • • • • unidade 1 – curiosidade e conhecimento; unidade 2 – tipos de conhecimento; unidade 3 – limites da ciência; unidade 4 – postura científica;

Iniciaremos Conhecimento, Saber e Ciência refletindo sobre como organizamos os conhecimentos. Cientes de que o saber representa o recorte dado pela ciência no conhecimento, buscaremos ainda identificar quais são os parâmetros que limitam essa ciência e o que caracteriza a postura investigativa. Aqui ressaltaremos o valor do método e da postura ética como princípios Douglas Naegele Barbiratto 1 donabitto@hotmail.com

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básicos a serem por nós observados quando nos envolvemos na produção de conhecimento. Aqui algumas questões se farão presentes... Que conhecimentos são esses? Como classificá-los? Qual é o papel da curiosidade e da observação nesse processo?

UNIDADE 1

1 – Curiosidade e Conhecimento

“O essencial é invisível aos olhos, disse a raposa ao Pequeno Príncipe”. Mesmo que a raposa estivesse se referindo aos nossos sentimentos, essa frase descreve, liricamente, o quanto que o mundo a nossa volta permanece invisível aos nossos olhos, inacessível aos nossos sentimentos.

1.1

– Curiosidade

Por meio da história da humanidade, podemos, de alguma forma, percorrer uma outra história – a história da curiosidade do homem. A curiosidade – instigada pela busca de respostas e pelo desejo de dominar o universo –, além de nos ser específica, é necessidade nossa. O desejo de interpretar e dominar o real gera os conhecimentos. E os conhecimentos têm determinado o desenvolvimento da humanidade. Para que o conhecimento1 possa ser gerado, é necessária a articulação de três elementos: o sujeito – aquele que pensa, que reflete, que sistematiza o que apreendeu sobre seres e fenômenos do universo; o ser/fenômeno – alvo do interesse, da curiosidade do sujeito; a imagem – representação dada pelo sujeito ao ser/fenômeno e alvo de nosso interesse.

Saber obtido por meio de experiência, formação, observação ou investigação. Entendimento de um processo, uma prática ou uma técnica.

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Como peças determinantes desse processo, nem sempre – por nossa natureza curiosa – satisfazemo-nos com o conhecer, isto é, com a simples apreensão de informações do real. Ao contrário, dedicamo-nos, com freqüência, a traçar relações, a comparar, a analisar, a generalizar essas informações.

Médico e barbeiro de fama mundial

Metido num vagão ferroviário transformado em casa e consultório, o médico examinava o povo pobre de Lassance, lugarejo perdido no vale do Rio das Velhas, interior de Minas Gerais. Tinha sido mandado para lá pelo Governo federal para combater a malária que dizimava os operários de urna ferrovia. Porém, o desfile de doentes à sua frente convenceu-o de que, além da malária, havia ali um mal desconhecido. O jovem Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas estava prestes a realizar façanha inédita: a descoberta de uma doença com a descrição de causas, características patológicas, meios de transmissão e forma de prevenção – tudo feito por um só pesquisador.

No dia 22 de abril de 1909, aos 29 anos de idade e dois anos depois de ter iniciado sua pesquisa, Carlos Chagas anunciou a existência de uma nova doença causada por um protozoário do gênero Trypanosoma. Até então, conhecia-se a tripanossomíase africana, popularmente chamada de doença do sono. A variedade americana ficaria internacionalmente conhecida pelo nome de seu descobridor doença de Chagas em português; Chagas disease, em inglês; maladie de Chagas, em francês; Chagas Krankheit, em alemão. Embora apareça em todo o continente americano, é endêmica na América do Sul, especialmente nas áreas rurais de Brasil, Argentina e Chile, onde atinge 10% da população.

Chagas descobriu que o inseto transmissor da doença é o barbeiro, assim chamado por picar as pessoas no rosto para sugar-lhes o sangue. Vive nas frestas das paredes das casas de pau-a-pique. Examinando ao microscópio o intestino do inseto, o médico encontrou grande quantidade de protozoários de uma espécie desconhecida. Batizou o microorganismo de Trypanosoma cruzi, em homenagem a seu mestre e amigo Oswaldo Cruz. Como o barbeiro geralmente defeca ao sugar o sangue das vítimas, as fezes contaminadas pelos protozoários entram na corrente sangüínea.

O médico descobriu ainda que a doença apresenta as formas aguda e crônica. Na primeira, que ataca principalmente crianças, causa febre, anemia e Douglas Naegele Barbiratto 3 donabitto@hotmail.com

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inchação dos gânglios. Na segunda, que pode durar décadas, afeta o coração, geralmente matando suas vítimas por insuficiência cardíaca.

Carlos Chagas morreu em 1934, aos 55 anos. A doença que descobriu continua sem cura. Os medicamentos existentes servem apenas para tratar os sintomas. Assim, o único mecanismo eficaz ainda é a prevenção, com o combate ao inseto transmissor através do uso de inseticidas e da melhoria das condições de moradia nas áreas endêmicas, medidas propostas pelo próprio Chagas.

Fonte: MÉDICO e barbeiro de fama mundial. O Globo. Rio de Janeiro, n. 5, 1999. Globo 2000, p. 100.

1.1.1 – Inquietação

Fonte da produção de conhecimentos, a realidade também é seu alvo, já que, ao longo dos tempos, esses conhecimentos retornam a ela para torná-la menos inóspita, mais adequada a nossas necessidades. No entanto, à medida que dominamos e transformamos a realidade, criamos para nós novas necessidades. Não há como cessar esse círculo vicioso, pois, desse círculo, emerge nosso espírito científico. É essa nossa inquietação que possibilita a produção de conhecimentos.

1.2

– Observação

Como um dos focos da ciência2 é o mundo real, ela tem como meta o estudo dos fenômenos/eventos que podem ser vistos, sentidos e tocados. Dessa forma, aguçamos nossa sensibilidade para observar.

Conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, metodicamente observados e verificados, relativos a objetos de uma mesma natureza.

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A observação3 nada mais é do que a utilização de nossos canais sensoriais a fim de filtrarmos da realidade informações de nosso interesse. A observação nos ajuda a conhecer e melhor compreender os seres... Os fenômenos... Os eventos que nos cercam. Contudo, a observação não serve apenas à ciência. Como não podemos observar tudo ou muitas coisas ao mesmo tempo, temos de limitar, definir cuidadosamente aquilo que queremos estudar.

A padroeira das donas de casa “Clarence Birdseye era um rapaz esperto do Brooklyn, em Nova Iorque, que gostava de duas coisas aparentemente inconciliáveis: viver ao ar livre e ganhar dinheiro. Conseguiu o que queria ao trocar a faculdade, que não terminou, por uma vaga de biólogo de campo, emprego de nível médio oferecido pelo Governo americano num posto de observação avançado, nas proximidades do Ártico. Sem ter muito o que fazer além de observar, espantou-se com algo corriqueiro naquela região gelada: a técnica esquimó de conservar alimentos. Reparou que o peixe que traziam, e não consumiam na hora, congelava e endurecia rapidamente, bastando ficar exposto à baixíssima temperatura local e à ação dos ventos. Mais intrigante ainda é que, mesmo após semanas ou meses, ao ser descongelado e servido, o peixe não perdia nem o sabor nem os valores nutritivos. Birdseye havia passado pouco tempo na escola de biologia, mas tempo o suficiente para entender que a estrutura celular do pescado fora preservada. Farejando excelentes negócios, ele pegou o navio de volta para sua Nova York natal e desembarcou no mercado Fulton, em Manhattan, em setembro de 1922, para vender seu peixe cru. Dois anos depois desenvolveu o processo que lançou as bases da nova indústria: ainda usando barras de gelo, passou a acondicionar o peixe e outros alimentos pré-cozidos – legumes e hortaliças, basicamente – em caixas de papelão, sob pressão. Para realizar a segunda parte do sonho – faturar bastante – Birdseye arranjou meia dúzia de sócios capitalistas e montou a General Seafood Corporation. A novidade que mudaria a rotina das donas-de-casa e dos homens solteiros ou descasados no decorrer do século XX se espalhou nos anos 30 com a inclusão de 26 gêneros diferentes, inclusive frutas e outros tipos de carne, como a bovina.

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Exame, análise, em outras palavras, ato de reparar minuciosamente.

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O toque de Midas foi dado dez anos depois de sua entrada no mercado de congelados, quando, em 1934, Birdseye encomendou à indústria de refrigeração American Radiator a fabricação, a baixo custo, de grandes quantidades de um freezer rudimentar. Com grande estoque de aparelhos, a General Seafood Corporation alugava o equipamento aos varejistas por US$ 8,00 mensais mediante contrato que impedia a conservação, naquele freezer, de qualquer outro produto que não tivesse sua marca. Na década de 40, os produtos Birdseye começaram a viajar em vagões frigoríficos – sendo distribuídos em vários estados americanos – e no serviço de bordo das companhias de aviação. Século XX adiante, hambúrgueres e alimentos de baixo teor calórico foram acrescentados ao cardápio”.
Fonte: A PADROEIRA das donas de casa. O Globo. Rio de Janeiro, n. 10, 1999. Globo 2000, p. 222.

1.2.1 – Motivação da Ciência

No plano da ciência– motivada pela curiosidade –, a observação é o ponto de partida de um estudo; o meio para verificarmos e validarmos novos conhecimentos. Dada sua importância, as observações feitas no âmbito das atividades científicas também devem ser validadas isto é, devem ser criteriosamente descritas. A descrição exata de nossas observações possibilita que qualquer pesquisador possa repetir, de forma adequada, um experimento do qual a observação científica4 seja um dos procedimentos.

1.3

– Conhecimento

O conhecimento é apenas provável. Certezas são raras. Apreendemos a realidade por meio dos canais sensoriais.

Estudo feito a partir das possibilidades que a análise da realidade cotidiana oferece, aperfeiçoando-a, para proporcionar maior validade, fidedignidade e eficácia ao que é observado. Desse modo, feita de forma sistemática, os conhecimentos e as previsões que dela se originam podem ser generalizados, estando ainda pouco sujeitos a enganos ou erros.

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Conhecemos seres, objetos e fenômenos pelo olhar, pelo cheiro, pelo tato. O conhecimento – como compreensão da realidade – é produzido no momento de nossa confrontação com a realidade. Apesar do volume de conhecimentos produzidos pela humanidade ao longo de sua história, conhecemos muito pouco sobre a realidade, o mundo e o universo que nos cerca. O conhecimento é efêmero. Sua validade cessa no momento em que novos conhecimentos destituem seu valor.

Como Uma Onda no Mar “Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa,tudo sempre passará. A vida vem em ondas como um mar, num indo e vindo infinito. Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu a um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo. Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo. Agora há tanta vida lá fora e aqui dentro sempre, como uma onda no mar, como uma onda no mar, como uma onda no mar”.
Fonte: MOTA, Nelson. Como uma onda no mar. [S.l.: s.n.], [19--].

1.3.1 - Apreensão da Realidade

Ao ser apreendida, a realidade passa a ser simbolizada por nós por meio de imagens mentais as quais nos possibilitam reconhecê-la e falar sobre ela. Conhecer não se limita à relação entre um sujeito – aquele que conhece – e um objeto – aquilo que é conhecido. Esse processo é bem mais complexo, já que o sujeito se apropria do objeto – criando, a partir dele, uma imagem particular, uma imagem que só ele tem daquele objeto. Sob esse ângulo, o conhecimento é singular e próprio de cada um de nós.

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Sensopercepção Hoje não mais se admite, como acontecia no passado, que o nosso universo perceptivo resulte do encontro entre um cérebro simples e as propriedades físicas de um estímulo. Na verdade, as percepções diferem, qualitativamente, das características físicas do estímulo, porque o cérebro extrai dele informações e as interpretam em função de experiências anteriores com as quais ela se associe. Nós experimentamos ondas eletromagnéticas, não como ondas, mas como cores e as identificamos pautados em experiências anteriores. Experimentamos vibrações, mas como sons, substâncias químicas dissolvidas em ar ou água como cheiros e gostos específicos. Cores, tons, cheiros e gostos são construções da mente, à partir de experiências sensoriais. Eles não existem, como tais, fora do nosso cérebro. Assim, já se pode responder a uma das questões tradicionais dos filósofos: Há som, quando uma árvore desaba numa floresta, se não tiver alguém para ouvir? Não, a queda da árvore gera vibrações e o som só ocorre se elas forem percebidas por um ser vivo capaz de identificar tais vibrações como estímulos sonoros. A peculiaridade da resposta de cada órgão sensorial é devida à área neurológica onde terminam as vias aferentes provindas do receptor periférico. O sistema sensorial começa a operar quando um estímulo, via de regra, ambiental, é detectado por um neurônio sensitivo, o primeiro receptor sensorial. Este converte a expressão física do estímulo (luz, som, calor, pressão, paladar, cheiro...) em potenciais de ação, que o transformam em sinais elétricos. Daí ele é conduzido a uma área de processamento primário, onde se elaboram as características iniciais da informação: cor, forma, distância, tonalidade, etc., de acordo com a natureza do estímulo original. Em seguida, a informação, já elaborada, é transmitida aos centros de processamento secundário do tálamo. Se a informação é originada por estímulos olfativos, ela vai ser processada no bulbo olfatório e depois segue para a parte média do lobo temporal. Nos centros talâmicos, à informação se incorpora à outras, de origem límbica ou cortical, relacionadas com experiências passadas similares. Finalmente, já bastante modificada, esta informação é enviada ao seu centro cortical específico. A esse nível, a natureza e a importância do que foi detectado são determinados por um processo de identificação consciente a que denominamos percepção. O que percebemos? Na realidade, perguntas distintas podem ser feitas sobre essa questão: o que percebemos e o que sentimos. Para percebermos o mundo ao redor teremos de Douglas Naegele Barbiratto 8 donabitto@hotmail.com

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nos valer dos nossos sistemas sensoriais. Cada sistema é nomeado de acordo com o tipo da informação: visão, audição, tato, paladar, olfato e gravidade. Esta última ligada à sensação de equilíbrio. Portanto, vamos falar antes da Sensação e depois da Percepção. Sensação Em seu significado preciso, a sensação é um fenômeno psíquico elementar que resulta da ação de estímulos externos sobre os nossos órgãos dos sentidos. Entre o estado psicológico atual e o estímulo exterior há um fator causal e determinante ao qual designamos sensação, portanto, deve haver uma concordância entre as sensações e os estímulos que as produzem. As sensações podem ser classificadas em três grupos principais: externas, internas e especiais. As sensações externas são aquelas que refletem as propriedades e aspectos de tudo, humanamente perceptível, que se encontra no mundo exterior. Para tal nos valemos dos órgãos dos sentidos; sensações visuais, auditivas, gustativas, olfativas e táteis. A resposta específica (sensação) de cada órgão dos sentidos aos estímulos que agem sobre eles é conseqüência da adaptação desse órgão a esse tipo determinado de estímulo. As sensações internas refletem os movimentos de partes isoladas do nosso corpo e o estado dos órgãos internos. Ao conjunto dessas sensações se denomina sensibilidade geral. Discretos receptores sensitivos, captam estímulos proprioceptivos, que indicam a posição do corpo e de suas partes, enquanto outros, que recebem estímulos denominados cinestésicos, são responsáveis pela monitorização dos movimentos, auxiliando-nos a realizar outras atividades cinéticas, segura e coordenadamente. Os receptores dessas sensações se acham localizados nos músculos, nos tendões e na superfície dos diferentes órgãos internos. Portanto, esse grupo engloba três tipos de sensações: motoras, de equilíbrio e orgânicas. As sensações motoras nos orientam sobre os movimentos dos membros e do nosso corpo. As sensações de equilíbrio provêm da parte interna do ouvido e indicam a posição do corpo e da cabeça. As sensações orgânicas são, de fato, as proprioceptivas, e se originam nos órgãos internos: estômago, intestinos, pulmões etc. Seus receptores estão localizados na face interna desses órgãos. Outros sensores sutis são capazes de captar informações mais refinadas, tais como temperatura, excitação sexual e volume sanguíneo. A sensação especial se manifesta sob a forma de sensibilidade para a fome, sede, fadiga, de mal-estar ou bem-estar. Essas sensações internas vagas e indiferenciadas que nos dão a sensibilidade de bem-estar, mal-estar, etc., têm o nome de cenestesia. No processo do conhecimento e do auto-conhecimento objetivo as sensações ocupam o primeiro grau. São as sensações que nos relacionam com nosso próprio organismo, com o mundo exterior e com as coisas que nos rodeiam. O conhecimento do mundo exterior resulta das sensações dele captadas e quanto mais desenvolvidos forem os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso do animal, mais delicadas e mais variadas serão as suas sensações.

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Ainda que dois seres humanos dividam a mesma arquitetura biológica e genética, talvez aquilo que um deles percebe como uma cor ou cheiro, não seja exatamente igual à cor e cheiro que o outro percebe. Nós damos o mesmo nome a esta percepção mas, com certeza, não sabemos se elas relacionam à realidade do mundo externo exatamente da mesma maneira que a realidade percebida por nosso semelhante. Talvez nunca saberemos. O termo percepção designa o ato pelo qual tomamos conhecimento de um objeto do meio exterior. A maior parte de nossas percepções conscientes provém do meio externo, pois as sensações dos órgãos internos não são conscientes na maioria das vezes e desempenham papel limitado na elaboração do conhecimento do mundo. Trata-se, a percepção, da apreensão de uma situação objetiva baseada em sensações, acompanhada de representações e freqüentemente de juízos. A percepção, ao contrário da sensação, não é uma fotografia dos objetos do mundo determinada exclusivamente pelas qualidades objetivas do estímulo. Na percepção, acrescentamos aos estímulos elementos da memória, do raciocínio, do juízo e do afeto, portanto, acoplamos às qualidades objetivas dos sentidos outros elementos subjetivos e próprios de cada indivíduo. [...]
Fonte: BALLONE, G. J. Sensopercepção. In:______. Percepção e realidade - cognição. Disponível em: http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?sec=47&art=257

1.4

– Saber

Tanto o conhecimento quanto o saber são produtos do homem. Como seres pensantes, o conhecimento. Como seres sociais, o saber. Diferentemente do conhecimento – resultado da busca individual de compreensão da realidade o saber corresponde ao conjunto de conhecimentos que são metodicamente transmitidos por meio de processos de ensino. Ao ser incorporado pelo sujeito, o saber manifesta-se nos grupos sociais por meio de habilidades, de atitudes e de valores. Contudo, nem todo conhecimento se transforma em saber.

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São os interesses de determinadas classes sociais – em um momento histórico específico – que irão segmentar o conjunto de conhecimentos que deverá ser transformado em saber.

Relação educação e desenvolvimento

Seja como for, a visão do desenvolvimento humano parte de alguns pressupostos teóricos e metodológicos bastante pertinentes, tais como... a) É preciso distinguir acuradamente crescimento e desenvolvimento; enquanto o primeiro aponta para uma evolução tipicamente econômica, o segundo se volta para um olhar interdisciplinar, abrangendo todas as dimensões consideradas relevantes da sociedade. b) Para sinalizar mais concretamente essa distinção, a ONU optou pela definição de desenvolvimento como oportunidade, traduzindo, desde logo, sua face política como a mais estratégica, em vez das infra-estruturais, que, obviamente, dentro do horizonte estratégico, continuam essenciais, mas de teor instrumental. c) Esse enfoque valoriza naturalmente a educação como o fator mais próximo da gestação de oportunidade, seja no sentido de fazer oportunidade, seja no sentido ainda mais próprio de fazer-se oportunidade; ganha realce maior, imediatamente, a questão da cidadania. d) O adjetivo humano dispensa todos os outros classicamente usados, a começar pelo econômico, e mesmo o sustentável; assim, uma visão tipicamente interdisciplinar e complexa se instalou, indicando que o crescimento econômico não é apenas parte integrante, mas, sobretudo, é parte tipicamente instrumental: não vai, nisso, qualquer intento de secundarizar o econômico, mas de colocá-lo no seu devido lugar. e) Segue, daí, a proposta do ranking dos países em termos de desenvolvimento humano, tomando como indicadores básicos, em primeiro lugar, educação, porque é o fator mais próximo do conceito de oportunidade; em segundo lugar, expectativa de vida, porque oportunidade se correlaciona fortemente com quantidade e com a qualidade de vida; e, por fim, poder de compra, porque a satisfação das necessidades materiais é sempre componente central do desenvolvimento. f) Do ponto de vista estratégico, a educação é o fator mais decisivo, mas nunca de modo setorial e isolado: assim, esta idéia implica que os fatores do desenvolvimento se hierarquizam e se concertam ao mesmo tempo. g) Possivelmente, o resultado mais pertinente dessa postura categorial é a mensagem de que a pobreza política é mais comprometedora para as Douglas Naegele Barbiratto 11 donabitto@hotmail.com

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oportunidades de desenvolvimento do que a pobreza material; problema mais constrangedor é a ignorância, que inviabiliza a gestação de sujeitos capazes de história própria ao obstruir a cidadania individual e coletiva; mudanças provêm menos de um pobre que tem fome – o qual acaba facilmente se contentando com qualquer sorte de assistencialismo –, do que de um pobre que sabe pensar.

Fonte: DEMO, Pedro. Da relação educação e desenvolvimento. In:______. Educação e desenvolvimento. São Paulo: Papirus, 1999. p. 14-25.

1.4.1 – Seres pensantes versus sociais

O conhecimento é individual. O saber é coletivo. A posse do conhecimento é voluntária. A posse do saber depende de processos formais de ensino. Como seres pensantes: • • • somos instigados por nossas curiosidades; buscamos melhor compreender a realidade; somos tentados a partir de nosso conhecimento a mudar a realidade.

Como seres sociais: • • • utilizamos o saber para modificar nossa realidade; priorizamos saberes em função de nossos interesses; selecionamos os conhecimentos que devem ser transformados em saber.

UNIDADE 2

2 – Tipos de Conhecimento “as naturezas do conhecimento se distinguem pelo grau de sistematicidade, de exatidão e de subjetividade nelas registradas”.

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Metodologia de Pesquisa 2.1 – Diversidade de conhecimentos

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No curso de nossas vidas vivenciamos situações ímpares; presenciamos uma multiplicidade de fenômenos; deparamo-nos com uma diversidade de seres e objetos.

Dessa riqueza de experiências, de nossa curiosidade e observação, geramos conhecimento. Contudo esse conhecimento não é homogêneo, nem amorfo.

A conexão

Desde os anos 60, com a publicação da série de livros Hermes, o trabalho de Michel Serres tem se afirmado como uma das mais instigantes reflexões sobre a ciência de nosso tempo, sobre as relações entre a filosofia contemporânea e a sua história e sobre a história das ciências e as ciências atuais na conjunção de um pensamento ao mesmo tempo epistemológico, ético e estético. Sua obra constitui um desafio a certos dualismos básicos na cultura moderna, que separa as ciências humanas, a tradição dos estudos clássicos e as chamadas ciências duras.

Serres veio a São Paulo para abrir o 1º Congresso Internacional do Desenvolvimento Humano na Universidade São Marcos (16 a 18 de setembro) e para o lançamento, no Brasil, de seu livro de entrevistas Luzes, pela Unimarco Editora. Amanhã, participa do programa Roda Viva, na TV Cultura. Nesta entrevista, o filósofo francês fala sobre as perspectivas da relação entre as humanidades e as ciências duras.

Folha – As questões da comunicação, da educação e do desenvolvimento cultural formam o tema geral da conferência que você veio abrir e o ocuparam ao longo de suas obras. Como refletir sobre as novas possibilidades e os novos desafios que o desenvolvimento tecnológico apresenta neste final de século para as formas da educação e da comunicação e que impacto tem e terão na evolução (ou involução) das formas culturais?

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Serres – Primeiramente, como cada mudança de suporte de informação tem trazido na história transformações consideráveis nas maneiras de vida – por exemplo, a invenção da escritura ou dos processos de impressão –, devemos esperar mudanças igualmente radicais no futuro. Em segundo lugar, entre estas mudanças, as da educação e dos modos de pensar serão importantes, com outras funções da memória, da imaginação, da própria razão. E, finalmente, essa reflexão deve responder de maneira otimista às questões do futuro: realmente, eu penso que o ensino a distância, mais barato que o tradicional, poderá dar aos mais desfavorecidos acesso ao conhecimento.

Folha – O Sr. refletiu recentemente sobre a passagem de uma sociedade de informação para uma sociedade de formação contínua, uma sociedade pedagógica. Segundo o Iluminismo, o conhecimento libertaria a humanidade. Aparentemente, a sociedade que estamos construindo ao fim do milênio nega, na prática – não necessariamente na sua ideologia –, a equação de conhecimento e liberdade. A sociedade pedagógica correria o risco de confundir fins e meios, de perder de vista as metas de autonomia pessoal e liberdade social que são, ou deveriam ser, a finalidade do processo educacional?

Serres – Essa questão é provavelmente a mais importante, pois ela se refere ao nosso destino, hoje. Realmente, o conhecimento e o ensino serão decisivos para as pessoas e os grupos no mundo de amanhã. Como eu sempre me considerei herdeiro do Iluminismo, espero que o conhecimento seja ainda libertador. Caso contrário, podemos sempre tentar a ignorância! É claro que as pressões sociais que pesam sobre o conhecimento parecem fazer dele um espaço ordinário onde prevalece a lei do mais forte. Mas não é certo, primeiramente, que o conhecimento individual dependa completamente das condições institucionais. A história das ciências que eu pratico há muito tempo, mostra suficientemente que a invenção é com freqüência o produto de indivíduos solitários e, para dar um exemplo, uma porcentagem considerável de Prêmios Nobel obtém a honraria graças a invenções que a coletividade científica não quis financiar, julgando-as sem valor. A coletividade e as instituições são tão pesadas que elas encorajam tudo, exceto a inteligência.

O dogma de acordo com o qual as ciências avançam pelo debate e pelas querelas me parece freqüentemente falso, pois essas discussões desperdiçam mais tempo do que ganham e eu não conheço um caso onde a invenção se originou realmente dessa disputa. Por outro lado, o vencedor, nesse tipo de batalha, raramente é o mais inventivo ou mais produtivo, mas o gângster melhor dotado em política; não o mais forte na disciplina, mas o mais forte na polêmica. A vida acadêmica de hoje mostra claramente que os que dirigem nunca não são os que trabalham, ainda menos aqueles que inventam. Também aí, o mais forte é raramente o mais inventivo. De resto, as instituições poluem o conhecimento muito mais do que o condicionam. É então necessário, eu Douglas Naegele Barbiratto 14 donabitto@hotmail.com

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acredito, relativizar a sociologia das ciências, o neodarwinismo americano do qual você fala, como também o modelo dialético continental. Em resumo, o coletivo e a batalha eclipsam muito o conhecimento e o favorecem muito menos do que se crê. A luta de todos contra todos no conhecimento favorece a luta e não o conhecimento. Inversamente, a cultura permite a um homem culto não esmagar ninguém sob o peso de sua cultura. O saber permite aquele que sabe evitar fazer a guerra em nome do saber; caso contrário, não se trata de uma cultura ou do saber, mas somente de armas letais.

Outro exemplo: se você tem e me dá US$ 20, no final, eu tenho US$ 20 e você não tem mais nada. Se você sabe um teorema e me ensina, ao final eu tenho o teorema, mas você o conserva também. Então, o conhecimento não obedece às leis da troca mercantil, ele tem mesmo a virtude de fazer exatamente o oposto: em vez de um jogo de resultado nulo, ele suscita a multiplicação de seu valor. Desse modo, nós não podemos aplicar aqui lógicas em vigor na economia ou na seleção natural: o darwinismo social é uma ideologia de cunho fascista; o darwinismo intelectual seria algo melhor?

Existe então ainda lugar para o trabalho solitário do indivíduo, para uma cultura que faça da vida uma vida livre, para um compartilhar do conhecimento que o multiplique gratuitamente e não aumente a miséria. No momento, eu só vejo a via da formação e da educação para a libertação dos homens. Eu permaneço otimista em relação às novas tecnologias que, abrindo, no momento, um espaço sem direito legal estabelecido, oferecem a formação aliviando ao mesmo tempo as pressões financeiras e sociais. O custo de se ramificar na Internet é infinitamente menor que o de um campus, com laboratórios, bibliotecas e salas de aula. Mas, nessa questão que diz respeito ao futuro, a discussão permanece aberta.

Folha – Conectar as humanidades e as chamadas ciências duras tem sido um dos seus objetivos principais ao longo de toda uma vida de reflexão. Recentemente, o chamado caso Sokal mostrou que, pelo menos no que diz respeito à opinião pública, ou, mais corretamente, a um setor largo ou proeminente dos meios de comunicação de massas no EUA e Europa, o fosso entre as humanidades e as ciências é tão grande hoje como sempre foi: um obscuro professor de física de Nova York que ganhou celebridade imediata exibindo sua ignorância filosófica publicamente e atacando com ciúmes territoriais filósofos, principalmente franceses, que ousaram engajar, imaginar, representar ou interrogar as ciências em seus trabalhos filosóficos. No ambiente de meios de comunicação de massas de hoje, a reflexão e o pensamento especulativo tornam-se espetáculo. Em nome da verdade como espetáculo a filosofia é espetacularmente condenada, e os domínios do conhecimento salvaguardados. Com que resultado?

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Serres – Eu não conheço bem o caso Sokal, mas acredito sinceramente que terá produzido um benefício verdadeiro que consiste em recomendar prudência a todos os escritores ou jornalistas quando eles falam da ciência. Muitos filósofos, sociólogos ou outros especialistas falam de ciências, realmente, sem respeitar as regras elementares de treinamento e prática que elas implicam. De vez em quando, é necessário dizer isso a eles, até mesmo de maneira dura e, nesse ponto, Sokal não foi o primeiro; é necessário então primeiramente agradecê-lo por isso. Uma mudança de paradigma, como transformação da visão do mundo, vem freqüentemente de um pensamento filosófico. E as humanidades contêm um imenso tesouro de reflexão cuja ciência utiliza, às vezes muito tempo depois. Fazer a ponte entre os dois acelerará ainda a invenção. Finalmente, se a filosofia, como você diz, é condenada, eu ouso dizer que ela já está habituada a tanto, pois, na história, as instituições oficiais, guardiãs da verdade, sempre condenaram, de um modo ou de outro, a filosofia. Ela está sempre em vias de morrer para fazer nascer a ciência. Isso não é grave: precisamos nos consolar porque é o risco da profissão, e não há profissão sem risco.
Fonte: LIMA, Marcelo Guimarães. A conexão. Folha de São Paulo. São Paulo, 19 set. 1999. Mais, p. 5-11.

2.1.1 – Naturezas dos Conhecimentos

Naturezas distintas caracterizam tipos distintos de conhecimento. Tipos distintos de conhecimento, por sua vez, agregam-se a nosso cotidiano. Com eles convivemos, a eles recorremos, a partir deles selecionamos nossas palavras em diferentes momentos de nossa existência. Dos tipos distintos de conhecimento, fazemos instrumentos de nossa compreensão e transformação da realidade na qual estamos inseridos. O modo como o conhecimento foi produzido e a maneira como foi por nós incorporado irão definir sua natureza. As naturezas dos conhecimentos se distinguem pelo grau de sistematicidade, de exatidão, de subjetividade nelas registrado.

Questões tecnológicas na sociedade do (des)conhecimento

A vontade de dominar o conhecimento acompanha a trajetória humana. Nossos ancestrais bíblicos foram expulsos de seu hábitat original justamente

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pela atração fatal que lhes causou a aquisição do conhecimento – da’at tov vará –, materializado em uma particular árvore do Jardim do Éden. Em parcela expressiva de seus diálogos, Platão buscava compreender a natureza do conhecimento – episteme. A fé hindu percebia o conhecimento – jnana – como uma das três vias de acesso à divindade. A presença do conhecimento na história humana vai mais além das idéias e crenças. Na sua obra sobre a riqueza e a pobreza das nações, David Landes, professor emérito de história e economia da Universidade de Harvard, mostra de forma convincente que, nos últimos 600 anos, é a existência de uma sociedade aberta focalizada no trabalho e no conhecimento que explica porque alguns países ficaram muito mais ricos do que se poderia esperar a partir de suas dimensões ou de seu poder militar. Hoje percebemos com clareza que o conhecimento constitui o eixo estruturante do desempenho de sociedades, regiões e organizações. Difundem-se expressões que incorporam esse termo – sociedade do conhecimento, economia baseada em conhecimento, redes de conhecimento e trabalhadores do conhecimento – também chamados analistas simbólicos –, entre outras. Elas refletem a constatação de que a gestão competente do conhecimento é determinante da capacidade das sociedades, regiões, organizações e pessoas lidarem com o ambiente em acelerada transformação e crescente complexidade que caracteriza a passagem do milênio – pelo calendário ocidental.

Tecnologia, conhecimento e desenvolvimento

Aprimorar as competências de gestão do conhecimento é vital para os países que aspiram a acelerar o ritmo e aumentar a eqüidade do seu processo de desenvolvimento sustentável. O Relatório do Desenvolvimento Mundial de 1998-99 do Banco Mundial, que tem o sugestivo título de Conhecimento para o Desenvolvimento, é incisivo em indicar que países pobres – e pessoas pobres – diferem dos ricos não apenas por disporem de menos capital, mas também por terem menos conhecimentos. São identificadas ali duas classes de conhecimento e dois tipos de problemas que são críticos para os países em desenvolvimento. A primeira classe abrange os conhecimentos tecnológicos essenciais para a funcionalidade das sociedades contemporâneas, tais como nutrição, engenharia de software e administração. Ocorre que os conhecimentos dessa classe são assimetricamente distribuídos entre as nações e entre os estratos sócio-econômicos em cada nação. Essa assimetria tende a crescer. Em parte, porque a fluidez com que as tecnologias atravessavam fronteiras tem-se reduzido com a mundialização. Empresas de países centrais já não estão mais dispostas a repassar o seu melhor conhecimento para as empresas dos países periféricos, mesmo que por

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um preço razoável, pois consideram tais países como seu mercado potencial direto. Nesse contexto, o complexo tema da proteção do trabalho intelectual passou a ser tratado de forma cada vez mais reducionista, com viés predominantemente comercial. Situação que é agravada pela subordinação dos contenciosos às pressões de interesses empresariais e nacionais hegemônicos, pouco sensíveis até mesmo à miséria humana, como se percebe no momentoso caso do licenciamento internacional de tecnologias protegidas para a produção do coquetel anti-AIDS. A mundialização vem contribuindo, portanto, para uma distribuição desequilibrada dos conhecimentos tecnológicos. No caso das tecnologias de informação, os fatores lingüístico e cultural decorrentes da concentração de interesses e competências em um só país se somam a diversos outros, causando um alargamento paulatino da ‘brecha digital’. A segunda categoria focaliza os conhecimentos sobre atributos, tais como a qualidade de um produto – bem ou serviço –, a diligência de um(a) trabalhador(a) ou a credibilidade de uma organização. São esses problemas de informação, cuja resolução envolve mecanismos institucionais idôneos para a disponibilização de serviços tecnológicos, tais como os de normalização, certificação e avaliação.

Tecnologia, conhecimento e desconhecimento

O conhecimento tem, como contraponto, múltiplas categorias de desconhecimento. Há, evidentemente, o desconhecimento por ignorância, que afeta parcelas significativas das populações em quase todos os países. Esse é reparável, em grande parte, pela melhoria do acesso à informação e ao desenvolvimento de competências nos códigos – lingüísticos, telemáticos e operativos – que permitem localizar as fontes, bem como qualificar e tratar a informação. Requer-se, para tanto, acessibilidade melhorada ao ensino formal e informal de boa qualidade – tanto para crianças e jovens como para pessoas adultas, no conceito de aprendizagem permanente. A convergência das novas tecnologias multimídia e telemática, se adequadamente aplicadas à mediação do processo de ensino-aprendizagem, certamente pode contribuir para a universalização das oportunidades de crescimento da bagagem intelectual requerida para os cidadãos e cidadãs que pretendem adentrar e se manter na sociedade do conhecimento. Todavia, há outras categorias de desconhecimento, igualmente preocupantes, capazes de afetar mesmo as pessoas que tiveram acesso privilegiado ao sistema educacional, cursando instituições de ensino superior diferenciadas. Uma dessas categorias de desconhecimento está relacionada menos à falta de informação ou de tecnologia do que à sensibilidade adormecida das elites. Douglas Naegele Barbiratto 18 donabitto@hotmail.com

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É o caso do desafio da inclusão social. Há informações detalhadas sobre as agruras de outros seres humanos, inclusive em nosso meio próximo, que moram em sub-habitações, são fugitivos de regiões conflagradas ou apresentam algum tipo de desvantagem de condições de sobrevivência no modelo sócio-econômico baseado na competitividade. As políticas e práticas prevalecentes fazem com que os conhecimentos tecnológicos sejam então direcionados pelos governos e pelos segmentos privilegiados da sociedade do desconhecimento menos para atenuar as causas e conseqüências da exclusão do que para aumentar a altura de muros – concretos ou virtuais – e incrementar a sofisticação de sistemas de controle de acesso nas fronteiras, residências, locais de trabalho e centros de cultura e lazer. Restaura-se, em versão pós-moderna invertida – os excluídos e excluídas ficam do lado de fora –, a figura histórica do gueto, que marcou por séculos a paisagem urbana européia moderna. Há que reconhecer, em contrapartida, a emergência e disseminação do Terceiro Setor, que congrega as entidades de caráter privado que desenvolvem trabalhos de utilidade pública. Têm sido elas capazes de, crescentemente, mobilizar conhecimentos tecnológicos, levantar recursos financeiros e canalizar as energias criativas de pessoas e organizações dispostas a participar ativamente em processos que visam a inclusão social dos segmentos excluídos por fatores tais como gênero, idade, cor, etnia, deficiência, condição econômica e convicções religiosas ou políticas. Outra categoria de desconhecimento está associada ao não reconhecimento da natureza do empreendimento científico-tecnológico por pessoas educadas segundo seus princípios. Esse desconhecimento se manifesta de formas antípodas, ambas com forte carga ideológica. Por um lado, ocorre o endeusamento da ciência e tecnologia, em que se constrói uma imagem de que elas são capazes de prover os conhecimentos capazes, não apenas de acabar com os males da humanidade como, também, de oferecer uma antecipação dos prazeres do paraíso celestial. São estes materializados nos centros de compras virtuais, em que se pode adquirir de tudo – inclusive serviços eróticos, drogas e informações sobre como construir bombas mortíferas – a qualquer momento – no jargão publicitário, ‘24x365’ – e de qualquer lugar. Naturalmente é desejável, para satisfazer os desejos e pulsões, possuir pelo menos um cartão de crédito válido. Sacerdotes do estamento científico-tecnológico desconhecem, muitas vezes, a variedade e intensidade de efeitos deletérios do seu conhecimento. Entre eles está a redução da biodiversidade ambiental e cultural – esta simbolizada pela extinção de centenas de idiomas, incapazes de se manter por falta de densidade populacional, num ambiente cada vez mais conectado pela teia mundial – conhecida pelo acrônimo em inglês WWW – e no qual as próprias entidades internacionais deram legitimidade a apenas algumas poucas línguas. Despontam, ainda no plano cósmico, os crimes contra a humanidade, de que é símbolo o genocídio nazista, legitimado por cientistas e viabilizado pelo uso de tecnologias de logística – ou seja, de transporte mais conhecimento – avançadas para a época.

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No plano microcósmico, ocorre o desconhecimento generalizado das rupturas psicológicas de jovens e adultos, incapazes de lidar com a elevada taxa de mudança introduzida pela mundialização nos espaços econômico, social e cultural. Essa incapacidade, agravada pela insensibilidade dos arautos da modernidade aos saberes e práticas tradicionais, levam às drogas, ao terrorismo e, não com pouca freqüência, ao suicídio. O contraponto à santificação retromencionada é a demonização do conhecimento científico-tecnológico no mundo ocidental em pleno século XXI. Ela é exemplificada pela recente incursão, amplamente divulgada, que destruiu, pela força bruta, estações de pesquisa biotecnológica vegetal no Brasil. Foi ela comandada por um histriônico cidadão e morador de país rico que, curiosamente, é filho de um cientista destacado, que contribuiu para colocar a genômica brasileira na vanguarda internacional. A dramaturgia neoludita foi estimulada pela condição do comandante da invasão ao laboratório científico a céu aberto de ter sido convidado especial do Fórum Mundial de Desenvolvimento Social. Esse evento foi co-patrocinado por um jornal, publicado em seu próprio país, que se especializa em assuntos das relações internacionais. Verifica-se nesse episódio um desconhecimento aparente tanto da natureza do processo de gestação do conhecimento científico e da sua necessária refutabilidade, como do casamento de interesses entre o bloqueio ao avanço da ciência e o protecionismo do setor agrícola de países ricos. Essa crítica não reduz a legitimidade do questionamento do investimento que, nesse caso, o empreendimento científico-tecnológico faz não para promover mas sim para evitar a mudança. Tal esforço é polarizado por uma grande multinacional, que pretende disseminar plantas geneticamente modificadas, que lhe permita preservar o mercado para seus produtos pesticidas tradicionais.

Tecnologia, conhecimento e informação

A importância do conhecimento na sociedade contemporânea tem levado governos de diversos países a torná-lo um dos eixo diretores de sua visão de desenvolvimento. Esse é o caso do Brasil, que incluiu Informação e Conhecimento como uma das seis áreas que abrigam os programas finalísticos do seu plano estratégico plurianual 2000-2003, cognominado Avança Brasil. A condição necessária, ainda que não suficiente, para a constituição de uma sociedade do conhecimento é a existência de uma infra-estrutura informacional ampla e de boa qualidade. Essa percepção levou o Governo do Brasil a criar, no âmbito de seu Ministério de Ciência e Tecnologia, o Programa Sociedade da Informação - SocInfo. Ele constitui um conjunto de iniciativas coordenadas das esferas governamental federal, estadual e Douglas Naegele Barbiratto 20 donabitto@hotmail.com

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municipal, junto com a iniciativa privada, para viabilizar um novo estágio de evolução da Internet e suas aplicações, tanto na capacitação de pessoal para pesquisa e desenvolvimento quanto na garantia de serviços avançados de comunicação e informação. Com investimentos previstos de cerca de 2 bilhões de euros em quatro anos, tem por meta criar as bases para que aumente substancialmente a participação da economia da informação no Produto Interno Bruto, estimada no início do Programa em 10%. Pretende, outrossim, disseminar o uso do computador em todo o território nacional, contribuindo para reduzir as desigualdades sociais e regionais. O Programa Sociedade da Informação brasileiro está estruturado em oito linhas de ação e em nove áreas de atuação. As linhas de ação indicam a direção dos projetos: pesquisa e desenvolvimento em tecnologias-chave; prototipagem de aplicações estratégicas; implantação de infra-estrutura avançada para pesquisa e ensino; fomento a informações e conteúdos; fomento a novos empreendimentos; apoio à difusão tecnológica; apoio a aplicações sociais; e governança no mundo eletrônico. Já as áreas de atuação estabelecem um conjunto de objetivos globais, com prioridade para ciência e tecnologia, educação e cultura, considerados indutores dos demais. Os objetivos estão resumidos a seguir. 1 – Ciência e tecnologia – colaboração e condução de experimentos cooperativos e disseminação de informação científica e tecnológica. 2 – Educação – educação à distância de qualidade e bibliotecas temáticas digitais. 3 – Cultura – criação e difusão cultural, com ênfase nas identidades locais, seu fomento e preservação. 4 – Saúde – protótipos de serviços de referência em atendimento, telemedicina e de informação em saúde. 5 – Aplicações sociais: mundo virtual como habilitador de competências e participação social. 6 – Comércio eletrônico: ambientes de comércio eletrônico e transações seguras pela rede. 7 – Informação e mídia: meios, processos e padrões para publicação e interação; propriedade intelectual e negócios do conhecimento. 8 – Atividades de governo: integração e maximização de ações públicas para a cidadania; transparência das ações e melhoria da qualidade dos serviços. 9 – Educação para a sociedade da informação: treinamento e formação tecnológica e popularização da cultura digital.

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Outro marco para a democratização das oportunidades na base informacional requerida pela sociedade do conhecimento no Brasil é a instituição, no segundo semestre de 2000, do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações – FUST. Será ele alimentado por diversas fontes, principalmente por uma contribuição de 1% sobre a receita operacional bruta decorrente da prestação de serviços de telecomunicações nos regimes público e privado. Disporá, assim, de importante volume regular de recursos, que serão aplicados em programas, projetos ou atividades que contemplem, entre outros, os objetivos a seguir. 1 – Implantação de acessos individuais para prestação do serviço telefônico e para utilização de serviços de redes digitais de informação destinadas ao acesso público, inclusive da Internet, em condições favorecidas; elas focalizarão estabelecimentos de ensino, bibliotecas e instituições de saúde, beneficiando em percentuais maiores os estabelecimentos freqüentados por população carente. 2 – Instalação de redes de alta velocidade, destinadas ao intercâmbio de sinais e à implantação de serviços de teleconferência entre estabelecimentos de ensino e bibliotecas. 3 – Fornecimento de acessos individuais e equipamentos de interface a deficientes carentes e a instituições de assistência a deficientes.

Conhecimento, desconhecimento e universidade

A possibilidade de desconhecimento pelas elites formadas nas universidades é apontada por Jacques Marcovitch, atual Reitor da Universidade de São Paulo – USP. “É corriqueiro ver o aluno, enquanto universitário, extremamente solidário com os excluídos, para depois tornar-se dirigente de uma grande empresa e agir de forma oposta. Ali, vivendo nova cultura e desvinculado da cultura da universidade, ele pode passar a ser um reforçador da exclusão. A questão da exclusão e a questão da empregabilidade serão facilitadas quando se entender como comunidade universitária a comunidade alargada, incluindo os exalunos, e dela fazendo um espaço formulador de alternativas. O ex-aluno, articulado com aqueles que vivem a universidade de hoje, pode trazer algo de extremamente benéfico para a reflexão em torno desse tema”. A universidade brasileira dispõe de competência instalada para realizar uma ampla gama de programas mobilizadores em torno das questões sociais. A USP tem realizado iniciativas nessa direção. Cabe destacar as ações que resultaram na elaboração de um documento sobre as condições de vida do brasileiro afro-descendente, hoje incorporado ao projeto nacional em fase de estudos pelo governo da União”.

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A responsabilidade pelo benefício social do conhecimento, contemplada na dimensão da extensão universitária, que integra a sua missão tríplice, está expressa no conceito de universidade conectada e explícito nos textos de dirigentes das universidades públicas de pesquisa, tais como os seguintes... “A exclusão social é o maior problema da sociedade moderna, principalmente em nosso país. Não há como a universidade furtar-se ao debate dessa questão. (...) Cristovam Buarque, em seu livro A aventura da universidade, aponta várias questões cruciais da vida acadêmica. (...) O livro do ex-reitor da Universidade Nacional de Brasília é um referencial para a discussão de alguns pontos, entre os quais, por exemplo, o acesso ao ensino superior. Ele fixa, nessa direção, este conceito: ‘O que faz a universidade elitista não é o fato de que alguns pobres não terão filhos médicos, mas o fato de que os pobres não terão médicos para seus filhos’. (...) Na questão da exclusão social, uma primeira mensagem que a universidade tem que deixar muito clara é a do compromisso social amplo e permanente. (...) a universidade tem, simultaneamente, um compromisso com a coesão social e outro com a excelência”. Para atestar a consistência da prática da Universidade com essa mensagem de compromisso social, encontra-se disponível na Internet um catálogo denominado A USP frente ao desafio da inclusão social, expondo centenas de iniciativas regulares e permanentes nesse sentido. Tecnologia, conhecimento e cooperação O caminho do conhecimento não é trivial. A sabedoria hinduísta o apresenta com três portais – termo que ganha novo significado no ambiente contemporâneo da Internet –, pelos quais se tem que ingressar e caminhar. Cada um deles possui um guardião, uma divindade de aspecto duplo – um diabólico e outro angelical – simbolizando a natureza similar das características dificultadoras e facilitadoras do desenvolvimento pessoal. Em um outro portal, o do templo de Apolo em Delfos, local simbólico da prospecção sobre o porvir, encontra-se uma frase grega que indica um prérequisito específico para acesso ao conhecimento: conhece-te a ti mesmo. A questão de como realizar o auto-conhecimento ali preconizado foi elaborada, séculos depois, pelo filósofo judeu Martin Buber: não há EU em si, mas apenas o EU da palavra-princípio EU-TU e o EU da palavraprincípio EU-ISSO. Esta diz respeito ao mundo como experiência, enquanto a primeira fundamenta o mundo da relação, da reciprocidade. A ambivalência dos guardiães dos portais hinduístas e, em particular, a reflexão de Buber nos permitem ter uma percepção importante sobre a natureza da bissecção conhecimento/desconhecimento, que perpassa o presente trabalho. O conhecimento é ensejado pelo estabelecimento de relações de cooperação entre entes – pessoas ou organizações – que se reconhecem distintos, mas que percebem o potencial de desenvolvimento existente numa relação marcada pela reciprocidade. É esta a base para alguns dos arranjos mais frutíferos na sociedade do conhecimento: as comunidades de aprendizagem, as comunidades de praticantes de uma determinada tecnologia, as relações entre Douglas Naegele Barbiratto 23 donabitto@hotmail.com

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os atores dos sistemas nacional e local de inovação tecnológica – tais como a cooperação empresa-universidade-governo – e a cooperação científica, técnica e tecnológica internacional. O desconhecimento, por sua vez, resulta do tratamento dos interlocutores não como potenciais parceiros, mas como objetos a serem explorados oportunisticamente, a partir dos quais se pode obter vantagens unilaterais. A cooperação internacional ‘de fachada’ é uma ilustração dessa relação espúria. O diálogo franco entre entes informados e cônscios de sua identidade é, por conseguinte, a chave para uma cooperação que permita compartilhar, com benefícios recíprocos, os conhecimentos estruturados e tácitos de cada ser, nação e cultura.
Fonte: PLONSKI, Guilherme Ary. Questões tecnológicas na sociedade do (des)conhecimento. Disponível em: <http://www.campus-oei.org/revistactsi/numero1/plonski.htm>.

2.2 – Conhecimento Teológico

Situações misteriosas e aparentemente inexplicáveis sempre nos colocaram diante de impasses. Como explicar o que parece não ter explicações? Respostas a questões como essa geram um tipo singular de conhecimento... O conhecimento teológico. A partir do conhecimento teológico reconhecemos o mundo, assim como tudo que o constitui como resultado do ato de um criador divino, não questionamos a existência de entidades divinas, aceitamos, como verdades indiscutíveis, as revelações postas em nome de entidades divinas, concebemos os textos sagrados como expressão do conhecimento divino. O conhecimento teológico não discute a existência divina, uma vez que... • • a tem como fundamento; dela aceita, sem restrições, os dogmas5 de fé.

Gênesis

Ponto fundamental e indiscutível de uma doutrina, seja qual for sua natureza. Na Igreja Católica Apostólica Romana, é o ponto da doutrina que já fora por ela definido como expressão legítima e necessária de sua fé.

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A Criação

No princípio Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam os abismos e o espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz DIA, e às trevas NOITE. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia. Deus disse: faça-se um firmamento entre as águas, e separe ele uma das outras. Deus fez o firmamento e separou as águas que estão debaixo do firmamento daquelas que estão por cima. Assim se fez. Deus chamou o firmamento CÉUS. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o segundo dia. Deus disse: que as águas que estão debaixo dos céus se ajuntem num mesmo lugar, e apareça o elemento árido. E assim se fez. Deus chamou ao elemento árido de TERRA, e ao ajuntamento das águas MAR. E Deus viu que isso era bom. Deus disse: produza a terra plantas, ervas que contenham sementes e árvores frutíferas que dêem frutos segundo a sua espécie e o fruto contenha sua semente. E assim foi feito. A terra produziu plantas, ervas que contêm sementes segundo sua espécie, e árvores que produzem frutos segundo a sua espécie, contendo o fruto a sua semente. E Deus viu que isso era bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o terceiro dia. Deus disse: façam-se luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite; sirvam eles de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos; e resplandeçam no firmamento dos céus para iluminar a terra. E assim se fez. Deus fez os dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia, e o menor para presidir à noite e fez também as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos céus para que iluminassem a terra, presidissem ao dia e à noite, e separassem a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o quarto dia. Deus disse: pululem as águas de uma multidão de seres vivos, e voem aves sobre a terra, debaixo do firmamento dos céus. Deus criou os monstros marinhos e toda a multidão de seres vivos que enchem as águas, segundo a sua espécie, e todas as aves segundo a sua espécie. E Deus viu que isso era bom. E Deus os abençoou: frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o quinto dia. Deus disse: produza a terra seres vivos segundo a sua espécie animais domésticos, répteis e animais selvagens, segundo a sua espécie, os animais domésticos igualmente, e da mesma forma todos os animais, que se arrastam sobre a terra. E Deus viu que isso era bom. Então Deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda terra, e sobre Douglas Naegele Barbiratto 25 donabitto@hotmail.com

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todos os répteis que se arrastam sobre a terra. Deus criou o homem à sua espécie; criou-o a imagem de Deus, criou o homem e a mulher. Deus os abençoou: frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre os animais que se arrastam sobre a terra. Deus disse: eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirva de alimentos. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, tudo que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda erva verde por alimento. E assim se fez. Deus completou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o sexto dia. Assim foram acabados os céus, a terra e todo o seu exército. Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho. Ele abençoou o sétimo dia e o consagrou, porque nesse repousará de toda a obra da criação. Tal é a história da criação dos céus e da terra.
Fonte: BÍBLIA Sagrada. Gênesis. Tradução de: Monges de Maredsosus. São Paulo: Ave Maria, 1989. p. 49-50.

2.2.1 – Características do conhecimento Teológico

Predominantemente o conhecimento teológico é: • • • • • Dogmático, pois sua aceitação depende de atos de fé; Não é comprovável, pois suas evidências não são verificáveis; Valorativo, pois se calca em doutrinas constituídas de proposições sagradas; Não é terreno, pois sua revelação não depende do homem, mas de entidades divinas;´ Sistemático, pois explica a origem, o significado, a finalidade e o destino do mundo como obra divina.

2.3 – Conhecimento Filosófico

Ao longo dos séculos, questionamos – à luz da razão – nossa condição no universo.

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Ultrapassando os limites da realidade material esse questionamento se faz por meio de idéias, de articulações entre relações lógicas6. A partir do conhecimento filosófico7 indagamos a realidade em busca de respostas universais; formulamos concepções que unifiquem a complexidade do universo; interferimos, com nosso posicionamento, na mentalidade das épocas. O conhecimento filosófico, produto da razão, da busca de respostas, de algum modo, está presente em cada um de nós.

A matéria e a forma

Aristóteles, trazendo as idéias ao mundo das coisas, quer dar-lhes força genética ou geradora. Por isso estabelece em cada coisa uma distinção fundamental. Do mesmo modo que, na análise da coisa distingue a substância, a essência e o acidente, assim distingue agora na coisa esses dois elementos: a forma e a matéria. A que chama Aristóteles matéria? Aristóteles chama matéria a um conceito que não tem nada a ver com aquilo que em física chamamos hoje matéria. Matéria, para ele, é simplesmente aquilo de que é feito algo. E forma? Que significa a forma para Aristóteles? A palavra forma toma-a Aristóteles da geometria. A influência da geometria foi enorme, e Aristóteles entendeu por forma, primeira e principalmente, a figura dos corpos, a forma no sentido mais vulgar da palavra, a forma que um corpo tem, a forma como terminação-limite da realidade corpórea, vista de todos os pontos; a forma no sentido da estatuária, no sentido da escultura; isso foi o que Aristóteles entendeu primeiro e fundamentalmente por forma. Mas sobre esse acepção e sentido da palavra, por forma entendeu também Aristóteles – e sem contradição alguma – aquilo que faz que a coisa seja o que é, aquilo que reúne os elementos materiais, no sentido amplo referido antes, entrando também o imaterial. Aquilo que faz entrar os elementos materiais num conjunto, que lhes confere unidade e sentido, isto é que chama Aristóteles forma.

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Ligação de idéias ou proposições sobre a realidade baseadas na interdependência dessas, isto é, uma condicionando, de alguma maneira, a existência da outra. As relações lógicas são fruto do raciocínio humano que formula conceitos a partir de noções como causalidade, conclusão, conseqüência, oposição e contraste.

Saber oriundo do filosofar, ou seja, da tentativa de decifrar algum questionamento por meio de análise de idéias, relações conceptuais e lógica. Contrapõe-se ao conhecimento científico, uma vez que não se reduz a realidades materiais, considerando a observação sensorial e a reflexão, além de produzir conceitos subjetivos.

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A forma, pois, se confunde com o conjunto dos caracteres essenciais que fazem com que as coisas sejam aquilo que são; confunde-se com a essência. A forma, em Aristóteles, é a essência, aquilo que faz com que a coisa seja o que é. Pois bem: essas formas das coisas não são para Aristóteles formas ao acaso, não são formas casuais, não foram trazidas pelo ir e vir das causas eficientes na natureza. Longe do pensamento de Aristóteles, o mais longe possível, está nossa idéia de física moderna de que aquilo que cada coisa fisicamente é, seja o resultado de uma série de causas puramente físicas, eficientes, mecânicas, que, sucedendo-se umas as outras, chegaram a ser necessariamente aquilo que uma coisa neste momento é. Nada está mais longe do pensamento aristotélico do que isso. Pelo contrário, para Aristóteles cada coisa tem a forma que deve ter, quer dizer, a forma que define a coisa. Por conseguinte, para Aristóteles a forma de algo é aquilo que dá sentido a esse algo; esse sentido é a finalidade, é o telos, palavra grega que significa fim: daí vem esta palavra que se emprega muito em filosofia e que é telogia: teoria dos fins, o ponto de vista do qual apreciamos e definimos as coisas, não enquanto são causas mecanicamente, mas enquanto estão dispostas para a realização de um fim. Pois bem: para Aristóteles a definição de uma coisa contém sua finalidade, e a forma ou conjunto das notas essenciais imprimem nessa coisa um sentido que é aquilo para que serve. Desta maneira está já armado Aristóteles para responder à pergunta acerca da gênese ou produção das coisas. Se a matéria e a forma são os ingredientes necessários para o advento da coisa, então este advento em que consiste? Consiste em que à matéria informe, sem forma, se acrescenta, se agrega, se sintetiza com ela, a forma. E a forma, o que é? A forma é a série das notas essenciais que fazem da coisa aquilo que é e lhe dão sentido, telos, finalidade. Pois bem: que é isto se não a idéia platônica que vimos descer do céu para pousar sobre a substância e formar a totalidade e integridade da coisa real? Pois a essa idéia não dá Aristóteles tão-somente a função de definir a coisa, mas também a função de conseguir o advento da coisa. A coisa advém a ser aquilo que é porque sua matéria é informada, é plasmada, recebe forma, e unia forma que é a que lhe dá sentido e finalidade. Isto imprime uma capacidade dinâmica, uma capacidade produtiva às idéias trazidas aqui ao mundo sensível na figura de forma e sob o aspecto de forma. Nessas idéias está para Aristóteles o germe, o princípio informativo, criador, produtivo, da realidade de cada coisa. Em que implica isto? Implica evidentemente em que cada coisa é aquilo que é porque foi feita inteligentemente. Se a forma da coisa é aquilo que confere à coisa sua inteligibilidade, seu sentido, seu telos, seu fim, não há mais remédio que admitir que cada coisa foi feita do mesmo modo como o escultor faz a estátua, como o marceneiro faz a mesa, como o ferreiro faz a ferradura. Tiveram que ser feitas todas as coisas no universo, todas as realidades existenciais por uma causa inteligente, que pensou o telos, a forma, e que imprimiu a forma, o fim, a essência definitória na matéria.

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Fonte: MORENTE, Manuel Garcia. A matéria e a forma. In: _____. Fundamentos de filosofia: lições preliminares. São Paulo: Mestre Jou, 1978. p. 97-8.

2.3.1 - Características do Conhecimento Filosófico Predominantemente o conhecimento filosófico é: • • • abrangente, pois busca uma compreensão coerente da realidade, vista em sua totalidade; não é verificável, pois, por serem incompatíveis com confirmação, seus postulados não podem ser refutados; é especulativo, pois, ao se basear na dedução – que, por sua natureza antecede a experiência – prescinde de confirmação experimental.

2.4 – Conhecimento Empírico Ao longo de nossas vidas, adquirimos e acumulamos, assistematicamente, conhecimentos sobre o mundo que nos cerca. Por meio desse conhecimento – conhecimento empírico8 –, tentamos compreender os seres e os fenômenos que constituem nossa realidade. A partir do conhecimento empírico... • • • • • temos consciência de nós mesmos; incorporamos a experiência do outro; identificamos nossas idéias entre várias outras; reconhecemos aqueles com quem convivemos; apreendemos o conhecimento produzido por outras gerações.

Incorporamos – ao acaso – esse conhecimento a nosso cotidiano tanto a partir das experiências que vivemos quanto daquelas que nos são transmitidas por outras pessoas.

Tupinambá

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Saber obtido de ações não planejadas, ou seja, ao acaso. É adquirido sem reflexão ou aplicação de métodos. Surge no trato direto com as coisas e os seres humanos, sendo assimilado por tradição, experiências causais, ingênuas. Portanto, pode-se dizer que é superficial, sensitivo, subjetivo, assistemático e acrítico. Também é conhecido como conhecimento popular ou vulgar.

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Metodologia de Pesquisa A Criação do Mundo

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Monã criara o céu, a terra os pássaros e outros animais. A terra era uma planície sem montanhas nem mares, pois tudo isso surgiria depois. Os povos viviam em paz, gozando os benefícios da obra do criador; mas com o tempo, os homens se entregaram a tais desatinos que começaram a desprezar o próprio Monã, que residia entre eles. Ofendido, Monã se afastou dos homens e enviou à terra o fogo celeste que destruiu todos os seus viventes e revolucionou a crosta terráquea, formando montanhas e vales. No caos, salvou-se apenas Irin-Majé que, transportado para o céu, aplacou as iras de Monã; este se compadeceu dos homens e derramou na terra copiosas chuvas que extinguiram o fogo, criando os rios e outras águas. O mar ainda hoje conserva a salinidade produzidas pela combustão das rochas. Irin-Majé convencera a Monã de que nada lhe serviria viver sozinho num mundo desabitado. Diante disso, Monã deu uma companheira a Irin-Majé e do novo casal surgiu a atual humanidade. Então nasceu um grande profeta, homem sobrenatural a quem, por suas maravilhosas obras, foi dado o nome de Maire-Monã. Este, graças às mesmas metamorfoses e os mesmos poderes mágicos de Monã, de quem era servidor, encheu o mundo de animais diferentes para cada região. No entanto, apesar de tantas dádivas, logo depois os homens recaíram na integração; chegaram mesmo a pensar em aniquilar seu benfeitor, pois MaireMonã, com o seu poder de transformar gente em bicho, trazia os homens em desassossego. Para liquidá-lo, reuniram-se todos em certo local e ofereceram a Maire-Monã uma festa à qual o grande caraíba não tardou em comparecer, embora suspeitando das intenções de tal convite. Lá chegando, os homenageantes introduziram-no a transpor, sem queimar-se, três grandes fogueiras. O caraíba venceu a primeira prova. Mas ao saltar a segunda foi consumido pelo fogo. Sua cabeça, porém, explodiu, chegou até o céu, originando os raios e trovões, que são os símbolos de Tupã. Veio o dilúvio universal. E logo Maire-Monã subiu às nuvens e transformou-se em luminosas estrelas. Para os Tupinambá, esse Maire-Monã era um anacoreta ou solitário, embora vivesse rodeado de discípulos ansiosos por suas palavras e ensinamentos. Tinha poderes iluminados; dominava as forças naturais e conhecia profundamente os exorcismos mágico-religiosos. Ele introduziu entre os Tupinambá a cultura da mandioca e diversos costumes como a tonsurra, a epilação e os ritos dos nascimentos. Desaconselhou-os de comer os animais pesados e lerdos recomendado, ao contrário, a carne dos animais ágeis e valentes. Ao mesmo tempo, ensinou-os a distinguir entre os

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vegetais daninhos e úteis. E disseminou o uso do fogo que, até então, era conservado nas espáduas da preguiça. Contaram os Tupinambá que, sobrevivendo uma longa estiagem, Maire-Monã tomara, por compaixão, a forma de uma criança. Bastava bater nela para caírem chuvas que regavam as plantas esturricadas. Entre os descendentes de Maire-Monã houve um que se chamou Simmai, o qual teve dois filhos: Tamendonare e Ariconte, que eram inimigos. O primeiro era um pacífico pai de família, sempre entregue a sua lavoura; o outro, porém, só cuidava da guerra e sonhava reduzir à servidão os seus companheiros. Certo dia, Ariconte, cheio de arrogância, atirou na choça de Tamendonare um troféu de guerra e este, repelindo o agravo, pôs-se a golpear o chão, fazendo joviar uma impetuosa torrente. Quando o dilúvio provocado pelo jorro ameaçava cobrir a face da terra, subiram ambos, com suas esposas, ao cimo das árvores. Tamendonare escolheu a pindoba e Ariconte o jenipapeiro. Desses dois casais sobreviventes do dilúvio, provieram, respectivamente, os Tupinambá e os Temiminó.
Fonte: CASCUDO, Câmara. Tupinambá: a criação do mundo. In: _____. Antologia do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Vozes, 1963. p. 34.

2.4.1 – Características do Conhecimento Empírico

Predominantemente o conhecimento empírico é: • • • • • • particular, pois, não objetiva generalizações; é assistemático, pois, não exige comprovações; é valorativo, pois, está impregnado de subjetividade; é subjetivo, pois, é gerado a partir da experiência de cada sujeito; é superficial, pois, sem buscar as causas dos fenômenos/eventos, pautase na aparência; é efêmero, pois, ao ser transmitido de geração em geração, vai sendo continuamente modificado.

2.5 – Conhecimento Científico

Os desejos de conhecer, de compreender, de desvendar o universo e de dominar a natureza sempre foram necessidades nossas.

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Como resultado desse processo – transformação das dúvidas em certezas –, temos o conhecimento científico9. A partir do conhecimento científico ampliamos ou desfazemos verdades por meio da comprovação direta dos fatos; fragmentamos o real para compreendermos a função de cada um de seus constituintes; buscamos, por meio da confrontação, descrever a realidade para podermos agir sobre ela; preocupamo-nos em explicar porquês e comos na tentativa de melhorar as condições da vida humana. O conhecimento científico – de cunho racional, sistemático, exato e verificável – resulta de nossa tentativa de reconstituir teoricamente o universo. Contudo essa reconstituição nunca será definitiva.

Big bang, o universo começou com uma grande explosão Parece incrível, mas num passado remotíssimo toda a matéria que observamos hoje no Universo – distribuída em 100 bilhões de galáxias, cada uma com mais de 100 bilhões de estrelas, dentre as quais o nosso modesto Sol – pode ter estado tão extraordinariamente concentrada que caberia até com folga na ponta de uma agulha. Nesse mundo, além de toda imaginação, a densidade da matéria atingiria o valor de 1090 quilos por centímetro cúbico – um número que se escreve com o algarismo 1 seguido de noventa zeros. A densidade das rochas comuns existentes hoje na terra é de apenas alguns gramas por centímetro cúbico. O Universo, então, seria não apenas superdenso, mas também superquente: a temperatura atingiria o fantástico patamar de 1031 graus Kelvin – mais de um bilhão de bilhão de bilhão de vezes a temperatura média do Sol. Por mais inacreditáveis que estas cifras possam parecer, elas correspondem a uma teoria sobre a origem do Universo aceita em quase todos os meios científicos do mundo – a Teoria do Big Bang (Grande Explosão). De acordo com ela, o Universo teria se originado numa explosão apocalíptica entre 15 e 20 bilhões de anos atrás. A situação que descrevemos refere-se a um instante apenas 10 – 43 segundos após o Big Bang – o algarismo 1 precedido de 42 zeros depois da vírgula – chamado Tempo de Planck. Embora separado do instante inicial por uma fração ínfima de segundo, o Tempo de Planck não se confunde com o momento do Big Bang, porque a matéria energia passou por mudanças dramáticas naqueles pedaços infinitesimais de tempo que se sucedera à origem. O Tempo de Planck constitui o limite até onde chegam atualmente nossos conhecimentos teóricos numa viagem regressiva rumo ao marco zero. A partir daí, ou melhor, antes disso é impossível de ser descrita nos termos dos conhecimentos atuais da Física. Podemos especular que, à medida que nos aproximamos ainda mais desse instante inicial, chamado de estado de singularidade pelos cientistas, o volume do Universo tende a zero enquanto a
9 Tipo de conhecimento que se contrapõe ao conhecimento empírico, pois dá ênfase às causas e leis em detrimento dos efeitos. Teoricamente, é um saber ordenado e lógico, que possibilita a formulação de idéias, construindo um processo complexo de pesquisa, análise e síntese. É o conhecimento racional, sistemático, exato e verificável.

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densidade e a temperatura tendem ao infinito. A Teoria do Big Bang é uma das mais belas realizações intelectuais do século. Para o seu desenvolvimento contribuíram dois ramos do conhecimento que, há apenas algumas décadas pareciam muito distantes: a ciência do macrocosmo, o infinitamente grande, e a ciência do microcosmo, o infinitamente pequeno. A Cosmologia e a Astrofísica, por um lado, e a Física das partículas elementares ou Física subatômica, por outro. Curiosamente, os pais fundadores do Big Bang não eram nem astrônomos nem físicos de partículas. Um deles, Alexander Friedmann (1888-1925), era um meteorologista e matemático russo; o outro, o abade Georges Lemaitre (1894-1966), era um padre e matemático belga. Trabalhando cada qual por seu lado, como tantas vezes acontece na ciência, Friedmann e Lemaitre chegaram a conclusões muito semelhantes a partir de um desenvolvimento puramente matemático da Teoria Geral da Relatividade de Albert Einstein. Einstein acreditava que a atração gravitacional entre os corpos decorria de uma curvatura do espaço-tempo provocada pela presença da matéria. Friedmann e Lemaitre partiram das complicadas equações de campo gravitacional de Einstein e, como ele, adotaram a hipótese de um Universo, homogêneo no espaço. Mas, ousadamente, descartaram a idéia de Einstein de um Universo imutável no tempo. Isso lhes permitiu chegar, entre 1922 e 1927, a um conjunto de soluções simples para as equações. O Universo que essas soluções descreviam estava em expansão em todas as direções com as galáxias se afastando umas das outras. Essa expansão teria se originado a partir da singularidade, um ponto matemático de densidade infinita. Em 1929, o astrônomo norte-americano Edwin Hubble (1889-1953) fez uma descoberta sensacional que trouxe a primeira prova a favor da tese da Grande Explosão. Com o gigantesco telescópio do observatório do monte Wilson, na Califórnia, Hubble descobriu que o espectro da luz proveniente das galáxias distantes apresentava um red-shift – desvio para o vermelho – e que esse desvio era tanto maior quanto mais distante estivesse a galáxia, observada em relação à nossa própria galáxia, a Via Láctea. A explicação de Hubble era de que este fenômeno se devia ao efeito Dopler, bastante conhecido pelos físicos desde o século passado. A conclusão ficava evidente. Se a luz desviava para o vermelho era porque essas galáxias estavam se afastando de nós, e se esse desvio era tanto maior quanto mais longe estivesse a galáxia, isso significava que a velocidade de afastamento crescia com a distância. Para um astrônomo situado numa galáxia distante, também a luz emitida pela Via Láctea apresentaria um desvio para o vermelho. Pois é o Universo como um todo que está em expansão. Ora, se tudo está se afastando no Universo, é possível imaginar uma época remotíssima em que tudo estivesse extremamente próximo. Essa seria a época do Big Bang. Quando isso pode ter ocorrido? O termo que relaciona a velocidade de afastamento ou recessão das galáxias com a distância é conhecido como constante de Hubble. O tempo desde o início da expansão, calculado a partir da constante, dá algo entre 15 e 20 bilhões de anos. A descoberta de Hubble trouxe um poderoso argumento a favor do Big Bang. Não foi, porém, um argumento conclusivo. Tanto assim que, no final dos anos 40, houve quem propusesse um modelo alternativo, a Teoria do Estado Estacionário: em 1964, porém uma descoberta puramente acidental iria representar um golpe demolidor nesse modelo rival.

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Dois radiastrônomos, o germano-americano Arno Penzias e o norteamericano Robert Wilson, trabalhando com uma gigantesca antena de sete metros da Bell Telephone dos Estados Unidos descobriram um fraquíssimo ruído de rádio que vinha de todas as direções do céu ao mesmo tempo. Ao longo dos meses, embora 05 movimentos de rotação e translação da Terra voltassem à antena para todas as regiões do firmamento. O sinal mantinha sua intrigante regularidade. Finalmente, Penzias e Wilson tomaram conhecimento de que na prestigiosa Universidade de Princeton um grupo de físicos liderados por Robert Dicke havia deduzido teoricamente a existência de uma fraquíssima radiação de fundo, que deveria preencher uniformemente o espaço. Seria uma espécie de resíduo fóssil da superescaldante sopa cósmica de matéria e energia que, pela Teoria do Big Bang, constituía o Universo pouco tempo depois da Grande Explosão. Com a expansão do Universo, a densidade da energia teria diminuído progressivamente, o que provocou um resfriamento – pelo mesmo motivo que um gás, ao se expandir, resfria, até chegar a uma temperatura de aproximadamente três graus Kelvin, pouco acima do zero absoluto. Em condições normais, o átomo é formado por três partículas elementares: próton, elétron e nêutron. Delas porém, talvez apenas o elétron possa ser considerado realmente elementar; o próton e o nêutron seriam constituídos de partículas ainda menores – os quarks. Se fosse possível empreender uma viagem de volta à origem do Universo, quando se chegasse à cerca de 300 mil anos depois do Big Bang, as temperaturas já seriam tão altas que romperiam as estruturas dos átomos, arrancando os elétrons de suas nuvens em torno dos núcleos atômicos. Ao se ultrapassar, nessa contagem regressiva, o terceiro minuto depois do Big Bang, os próprios núcleos começariam a se desintegrar, liberando os prótons e os nêutrons neles aprisionados. Na marca de um milionésimo de segundo depois do Big Bang, até os prótons e nêutrons seriam fragmentados nos quarks que os constituem. Essa viagem de volta à origem termina por enquanto no Tempo de Planck, localizado, como vimos, apenas dez milionésimos de bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de segundo depois do Big Bang. Os físicos especulam, porém, que, quando seu arsenal teórico permitir ultrapassar a barreira do Tempo de Planck, talvez se encontre um Universo de insuperável simplicidade. Toda a matéria se apresentaria sob a forma de um único tipo de partícula e as quatro forças existentes no mundo atual – a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear forte e a nuclear fraca – estariam unificadas num mesmo tipo de força. A própria distinção entre partícula e força provavelmente não teria qualquer significado. Isso por ora é uma simples suposição. Mas a ciência tem dado passos concretos para verificar sua validade. A unificação entre a força eletromagnética e nuclear fraca, proposta teoricamente nos anos 60 pelos norte-americanos Steven Weinberg e Sheldon Lee Glashow e pelo paquistanês Abdus Salam – os três ganhadores do prêmio Nobel de Física de 1979 – foi confirmada em 1983, com a descoberta das partículas que transportam a força nuclear fraca, previstas pela teoria da unificação. Essa descoberta, que deu ao italiano Carlo Rubbia o Nobel de Física de 1984, foi obtida no gigantesco acelerador de partículas da Organização Européia de Pesquisas Nucleares (CERN), localizada em Genebra, Suíça, e envolveu um nível de energia igual ao que poderia ser encontrado no Universo primitivo Douglas Naegele Barbiratto 34 donabitto@hotmail.com

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dez bilionésimos de segundo depois do Big Bang. Assim, a teoria e a experimentação vão nos aproximando cada vez mais da origem do Universo. Nessa escalada do conhecimento, o zero é o limite. Fonte: ARANTES, José Tadeu. Big bang, o universo começou com uma grande explosão. – PUC – RJ.

2.5.1 – Novas Realidades

Ao descobrirmos e compreendermos uma realidade quase sempre nos deparamos com a necessidade de descobrirmos e compreendermos novas realidades. E, cada vez mais, a validade de um conhecimento dependerá de novos conhecimentos, de novas investigações... Não há como cessar esse movimento.

2.5.2 – Características do Conhecimento Científico

Predominantemente, o conhecimento científico é: • • • • • • • • orgânico, constituído de um corpo ordenado de postulados10, logicamente subordinados uns aos outros; metódico, por meio da experimentação ou da evidência dos fatos observáveis e controláveis, produz seus postulados; rigoroso, por meio de condições de intenso controle, propõe conclusões seguras; sistemático, não registra apenas os fatos, mas também a busca das causas que os determinam; contingente, as hipóteses que formula são consideradas válidas ou falsas por meio da experimentação; objetivo, não se submete a argumentos de autoridade, mas apenas à evidência e à comprovação dos fatos; universal, seus postulados e suas conclusões se aplicam a todos os fenômenos da mesma natureza; efêmero, por não serem definitivas, suas verdades estão sempre ameaçadas de serem questionadas por novas verdades.

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Princípio não demonstrado, mas anunciado como verdadeiro, constituindo, dessa forma, o ponto de partida de uma demonstração.

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É comum se dizer que poucas atividades criativas são tão antagônicas quanto poesia e ciência. Enquanto uma expressa a visão subjetiva e emocional do mundo, a outra expressa uma visão universal e racional. Enquanto uma é produto de inspiração e lirismo, a outra de dedução e análise. Marcelo Gleiser

3.1 – Significados da Ciência.

Podemos dar várias interpretações à ciência11, que pode significar... Conjunto de Conhecimentos – Os conhecimentos são sistematizados e verificáveis. Além disso, são acumulados pela humanidade por meio da utilização dos diferentes métodos. Conjunto de Métodos – Os métodos possibilitam o desenvolvimento e a validação do novo desenvolvimento. Conjunto de Valores – Os valores emergem das atividades científicas.

Empresa abre o livro da vida Companhia americana sai na frente e identifica todas as letras dos genes humanos A empresa americana de biotecnologia Celera anunciou ontem o seqüenciamento de 99% do genoma de uma pessoa e tomou a dianteira na competição entre governos e iniciativa privada para decifrar o primeiro DNA da espécie humana. A Celera seqüenciou, isto é, identificou os três bilhões de letras químicas que compõem cada um dos cerca de cem mil genes do homem. Agora, precisa colocá-las na ordem certa, para que façam sentido. É como se

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Conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, metodicamente observados e verificados, relativos a objetos de uma mesma natureza.

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tivesse todas as palavras necessárias para um livro e agora começasse a redigi-lo. A empresa estima que o trabalho estará concluído neste semestre. É ponto pacífico entre os cientistas que o conhecimento do genoma humano vai revolucionar a medicina e abrir um mercado de bilhões de dólares em tratamentos para doenças como a Aids e o câncer. O surgimento e o modo como progridem várias doenças está ligado às diferenças genéticas entre as pessoas. Celera disputa mercado bilionário A Celera entrou na corrida pelo genoma humano há menos de um ano e, com um método mais arriscado e rápido, ameaça chegar lá bem antes de seu principal concorrente – um consórcio internacional financiado com dinheiro público, o Projeto Genoma Humano. O vencedor será aquele que identificar primeiro a composição (o que foi feito agora), a localização e o papel dos genes. Ele terá nas mãos a receita completa para fazer um ser humano. A empreitada é a mais audaciosa investida da ciência desde a chegada do homem à Lua. – Agora que completamos o seqüenciamento do DNA de uma pessoa, vamos voltar nossos computadores para a tarefa de ordenar o genoma humano. Isso permitirá a pesquisadores e assinantes de nossos serviços usarem nossos dados para fazerem importantes avanços médicos – disse o presidente da Celera, o geneticista Craig Venter. Mas usar esse banco de dados não será tão simples. No mês passado, o presidente dos EUA, Bill Clinton, e o premier britânico, Tony Blair, pediram às empresas privadas que estudam o genoma humano acesso público aos resultados de suas pesquisas. A Celera pretende atender o pedido apenas em parte e deverá lucrar bilhões, vendendo acesso às informações. A empresa já cobra cerca de US$ 5 milhões para as empresas que desejem consultar seus dados preliminares. Ontem, Venter prestou esclarecimentos sobre o estudo a uma comissão parlamentar em Washington. A Celera é mais veloz porque deixa o mapeamento – isto é, a localização exata de cada gene dentro dos cromossomos – para depois. O Projeto Genoma Humano, lançado em 93, ordena todos os fragmentos antes de conhecer sua estrutura básica. A Celera – depois de picar o livro do DNA – se concentra em conhecer o que está escrito em cada pedaço. Com isso, obteve número muito maior de informações – ainda que elas continuem desconexas. Por enquanto, a Celera listou as bases que formam cada fragmento do genoma de um homem, não identificado. Para dar por conhecido o genoma da espécie, todavia, serão necessários os dados de outras pessoas. O plano da Celera é pesquisar o DNA de cinco indivíduos – três homens e duas mulheres, representantes dos maiores grupos étnicos. O Projeto Genoma Humano trabalha com o genoma de dez pessoas e deve divulgar um rascunho do genoma humano em junho. Seu mapa completo é esperado para 2003 e será divulgado de graça na Internet.

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Com o mapa do genoma em mãos, a Celera passará a cobrar ainda mais pelas consultas a seus dados. A empresa tem o segundo computador do mundo em capacidade de armazenamento. O primeiro é um computador do Governo americano que simula explosões nucleares. Com o anúncio de ontem, as ações da Celera subiram 19%, fazendo o Nasdaq e a bolsa de Nova York também subirem. Saiba mais sobre o dono do genoma Com uma vocação inegável para fazer lucro com pesquisa básica, Craig Venter, presidente da Celera, assusta muitos de seus colegas. Na corrida pelo genoma humano, trata seu maior concorrente com desdém. – Longe de sermos o império do mal, somos uma corporação que está dando a eles ferramentas para tentar competir conosco – costuma provocar. Quando fala em eles, Venter se refere ao Projeto Genoma Humano. Nós é a PE Corporation, que engloba a PE Blosystems, maior fabricante de máquinas de seqüenciamento de DNA, e a Celera, encarregada da decodificação. Em maio de 98, Venter surpreendeu propondo listar o genoma humano antes do consórcio publico. Entrou na corrida com cinco anos de atraso e hoje está convicto de que vai vencê-la. Foi o primeiro cientista a propor patentes de genes humanos. Às críticas a seu método, o pesquisador respondeu no mês passado, anunciando a decodificação do genoma da mosca-das-frutas. A aventura de Venter com a genética começou em 92, quando deixou o emprego no Instituto Nacional de Saúde dos EUA para fundar uma entidade de pesquisas, o Instituto para pesquisa Genônica. Lá, em 95, ele e Hamilton Smith mapearam o genoma de uma bactéria. A pesquisa deu-lhe condições de criar a PE Corporation em 98. Venter não vai parar no genoma humano. Também interessam à Celera insetos, outros primatas e gado.
Fonte: EMPRESA abre o livro da vida. O Globo. Rio de Janeiro, 7 abr. 2000. O Mundo, p. 34.

3.1.1 – História da Ciência

Cada um dos diferentes sentidos desenha um contorno próprio na história da ciência: a história da evolução do método científico; a história das teorias, descobertas e invenções12 dos grandes gênios da humanidade; a história dos

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Processo de criação, no campo da ciência, da tecnologia ou das artes, de meio ou expediente usado para alcançar um fim.

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valores, das normas e dois costumes próprios das atividades daqueles que fazem a ciência. Entretanto, seja qual for seu sentido não há como dissociarmos a ciência do contexto sociocultural13 em que ela se insere, já que a ciência interfere nas civilizações e estas, na ciência.

3.2 – Metas da Ciência

Verdades se extinguem quando surgem novos conhecimentos. E novos conhecimentos estabelecem novas verdades. A mais relevante meta da ciência é a compreensão – e, indiretamente, o domínio – da realidade. Para tal, além de descrever os fenômenos/eventos que constituem esse universo, a ciência identifica-lhes causas, mapeia-lhes relações em busca de princípios ou leis universais. Como as atividades científicas dependem tanto de velhos e novos conhecimentos quanto dos instrumentos de investigação disponíveis, seus resultados não são definitivos ou imutáveis. O surgimento de novos conhecimentos – de novos instrumentos de pesquisa – abala os princípios do conhecimento científico. Conseqüentemente, por mais estabelecidos que estejam, os princípios do conhecimento científico se revelam inadequados.

Poemas inconjuntos - 1

O ÚNICO mistério do Universo é o mais e não o menos. Percebemos demais as cousas – eis o erro, a dúvida.
Ambiente formado por um conjunto de características sociais – condições de vida e trabalho, escolarização, relações entre comunidades, aspectos econômicos, políticos, etc – e culturais – padrões e códigos presentes em uma sociedade que se manifestam em diversos aspectos da vida, bem como manifestações religiosas, artísticas, etc. Em síntese, é o plano de fundo da vida de uma sociedade responsável por sua caracterização e seu comportamento de forma geral.
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O que existe transcende para mim o que julgo que existe. A Realidade é apenas real e não pensada.
Fonte: PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio I: poemas completos de Alberto Caeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 116.

Poemas inconjuntos - 2

VERDADE, MENTIRA, certeza, incerteza... Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras. Estou sentado num degrau alto dos joelhos cruzados. Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza são as mesmas? Qualquer cousa mudou numa parte da realidade – Os meus joelhos já não são as minhas mãos. Qual a ciência que tem conhecimento para isto? O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos. Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual. Ser real é isto.
Fonte:PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio I: poemas completos de Alberto Caeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 105.

3.2.1 – Cristalização do Conhecimento

O conhecimento científico jamais se cristaliza, o que possibilita sua incessante renovação. Para a ciência, verdadeiro é aquilo sobre o que ela pode dispor naquele momento. A busca da verdade nada mais é do que uma tentativa de explicar a realidade.

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Na medida em que compreendemos essa realidade, mais condições temos para agir sobre ela. Sem dúvida, reconhecemos a efemeridade do conhecimento científico.

Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: preâmbulo

1) todos nós vivemos no mesmo planeta e somos parte da biosfera. Nós viemos para admitir que estamos em uma situação de crescente independência e que o nosso futuro está intimamente ligado ao sistema global de subsistência e à sobrevivência de todas as formas de vida. As nações e os cientistas estão convocados a compreender a urgência de se encontrarem, com a ajuda de todos, os campos da ciência, a maneira responsável para tratar das necessidades e aspirações, não fazendo uso desse reconhecimento de forma errônea. Nós procuramos colaboração ativa por meio de esforço em todos os campos científicos, isto é, nas ciências naturais, tais como a Física, nas ciências biológicas e da terra, nas ciências biomédicas e de engenharia, e nas ciências humanas e sociais. Enquanto a Estrutura para Ação enfatiza as promessas, o dinamismo, ela também enfatiza os efeitos potenciais e adversos que vieram com as ciências naturais, a necessidade de se compreender seus impactos, suas relações com a sociedade, o compromisso com a ciência, bem como os desafios e as responsabilidades demonstradas nesta Declaração, que se referem a todos os campos da ciência. Todas as culturas podem contribuir com o conhecimento científico de valor universal. As ciências devem se colocar a serviço da humanidade como um todo e devem contribuir para dar a todos um entendimento mais profundo da natureza e da sociedade, uma melhor qualidade de vida e um ambiente sustentável e sadio para as gerações presentes e futuras; 2) o conhecimento científico já ocasionou inovações notáveis, que têm sido de grande benefício para a humanidade. A expectativa de vida aumentou surpreendentemente e curas para muitas doenças têm sido descobertas. A produção agrícola tem aumentado significativamente em muitas partes do mundo para fazer face à necessidade da crescente população. Os desenvolvimentos tecnológicos e o uso de novas fontes de energia têm criado a oportunidade de libertar a humanidade do árduo trabalho forçado. Eles também têm tornado possível a geração de uma cadeia de produtos industriais e processos expansíveis e complexos. Tecnologias baseadas em novos métodos de comunicação, de manipulação de informação e de computação têm trazido oportunidades sem precedentes e desafio para o empenho científico e também para a sociedade como um todo. Quando, constantemente, melhoramos o conhecimento científico da origem, das funções e da evolução do universo e da vida, estamos fornecendo à humanidade uma abordagem conceitual e prática que influencia profundamente sua conduta e seus prospectos;

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3) além de seus benefícios demonstráveis, as aplicações dos progressos científicos, o desenvolvimento e a expansão da atividade humana têm também levado à degradação ambiental e a desastres tecnológicos que contribuem para o desequilíbrio ou para a exclusão social. Por exemplo, o progresso científico tornou possível a fabricação de armas sofisticadas, incluindo armas convencionais e armas de destruição em massa. Agora, é oportuno exigir uma redução no que se refere à fabricação de novas armas, encorajando a troca, ao menos parcialmente, da produção militar para a pesquisa das facilidades de uso civil. As Nações Unidas proclamaram o ano de 2000 como o Ano Internacional para a Cultura da Paz e, o ano de 2001, como o Ano das Nações Unidas para o Diálogo entre as Civilizações em direção a uma paz duradoura; a comunidade científica, juntamente com os outros setores da sociedade, pode e deve representar um papel essencial nesse processo; 4) hoje, enquanto os progressos sem precedentes nas ciências são previstos, há necessidade de um forte e esclarecedor debate democrático sobre o uso do conhecimento científico. A comunidade científica e os tomadores de decisões devem procurar o fortalecimento da confiança e do apoio públicos para a ciência por meio desse debate. Maiores esforços interdisciplinares, envolvendo as ciências naturais e sociais, são pré-requisitos para se lidar com os problemas ético, social, cultural, do meio-ambiente, de sexo, econômico e da saúde. Para que a participação da ciência aumente no sentido de se construir um mundo mais justo, mais próspero e mais sustentável, há a necessidade de um compromisso, no longo prazo, de todos os interessados públicos e privados. Esse compromisso se afirmaria por meio de um maior investimento, de uma revisão das prioridades do investimento e da participação do conhecimento científico; 5) a maioria dos benefícios da ciência é irregularmente distribuída. Isso é resultado das assimetrias estruturais entre países, regiões e grupos sociais, e entre os sexos. Da mesma forma que o conhecimento se tornou um fator crucial na produção de riqueza, sua distribuição também se tornou mais injusta. O que distingue o pobre do rico – sejam pessoas ou países – não é somente a quantidade de recursos. A questão é que os pobres são largamente excluídos da criação e dos benefícios do conhecimento científico; 6) nós fomos participantes da Conferência Mundial sobre A Ciência para o Século XXI: um Novo Compromisso, realizada em Budapeste, Hungria, de 26 de junho a 1º de julho de 1999, com o patrocínio da Organização Educacional Científica e Cultural das Nações Unidas (UNESCO) e do Conselho Internacional para a Ciência (ICSU).
Fonte: UNESCO. Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico. Disponível em: http://www.unesco.org.br/publicacoes/copy_of_pdf/decciencia.pdf

3.3 – Autonomia da Ciência

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Como a ciência não é imune às turbulências e às calmarias dos sistemas sociais não podemos negligenciar, em sua história, os fatores político-culturais do contexto em que ela se insere. Ainda que suas tradições sejam singulares, a ciência não deve ser considerada um fenômeno histórico particular nem um agente de mudança social completamente autônomo.

O porquê e o como

Volta e meia, leitores me perguntam sobre os limites da ciência, sobre até onde nós podemos chegar, munidos que somos de um cérebro finito. Afinal, como podemos responder a todas as perguntas se mal sabemos formulá-las? E, mesmo se soubéssemos, será que existe um limite máximo do conhecimento, uma espécie de barreira além da qual a nossa razão não pode penetrar? Será que é justamente a existência dessa barreira que justifica o nosso apetite por assuntos espirituais, místicos, que transcendem os limites da razão? Sem a menor dúvida, nos últimos 400 anos a ciência progrediu imensamente, revelando mundos absolutamente fantásticos e inesperados: com os microscópios, vislumbramos um mundo repleto de minúsculos seres vivos, de células, de estruturas minerais e cristais belíssimos. Em níveis ainda menores, descobrimos o mundo dos átomos e das partículas elementares, os tijolos fundamentais da matéria. Com os telescópios, vislumbramos mundos distantes, de estrelas e planetas a galáxias e buracos negros, alguns a bilhões de anos-luz de distância, mais velhos do que a Terra. Seria inútil tentar fazer justiça às nossas descobertas neste ensaio ou mesmo em outro muito maior. O próprio sucesso da ciência redefine os seus limites, como um horizonte que se afasta continuamente. Muitos acreditam que, devido a esse sucesso, um dia teremos todas as respostas. Eu não poderia discordar mais. O meu avô dizia, sabiamente, que, se usarmos um chapéu maior do que a nossa cabeça, ele cobrirá os nossos olhos. Acho importante manter isso em mente quando lidamos com os limites do conhecimento humano. Vamos começar de modo bastante abstrato, falando da quantidade total de informação: supondo que o Universo seja finito, ele tem uma quantidade finita de informação. Mesmo se ele não for finito (o que é bem mais provável), nós só podemos nos comunicar com a velocidade da luz (até que se prove o contrário), e, portanto, vivemos em uma ilha de informação limitada pela idade do Universo, de 14 bilhões de anos. Como a luz viaja a uma velocidade fixa no vácuo, no máximo podemos receber informação de um evento que ocorreu há 14 bilhões de anos. O problema é que a complexidade do Universo é tamanha e os arranjos de matéria, tão variados, que seria impossível poder armazenar conhecimento sobre tudo que existe, vive e ocorre no Universo. Portanto, só podemos ter informações aproximadas sobre o cosmo, jamais perfeitas e completas. Douglas Naegele Barbiratto 43 donabitto@hotmail.com

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Os cientistas sabem disso e constroem os seus modelos sobre os fenômenos naturais de forma aproximada, deixando de lado detalhes irrelevantes. Ou seja, os cientistas usam o mínimo de informação possível em sua descrição da natureza. Por exemplo, para modelar a órbita da Lua em torno da Terra não são necessários detalhes sobre a geologia dos dois corpos celestes. Bastam as suas massas e distância entre eles. Mais ainda, a ciência não se propõe a responder perguntas do tipo Por quê? Por exemplo, por que duas massas sentem uma força atrativa, que chamamos de gravidade? Não sabemos. Em 1687, o inglês Isaac Newton obteve uma fórmula descrevendo como dois corpos se atraem, com uma força proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado de sua distância. Mas ele não saberia dizer por que as duas massas se atraem. Em 1915, Albert Einstein propôs a sua teoria da gravitação, onde essa atração se deve à curvatura do espaço em torno das massas. Porém, ele também não saberia explicar por que a presença de uma massa encurva a geometria do espaço à sua volta. A ciência explica o como, não o porquê. Voltando à questão da barreira do conhecimento, eu não acredito que ela exista. Ou, se existe, ela tem uma fronteira móvel, que vai se alargando com o tempo: ecoando o grego Sócrates, quanto mais aprendemos sobre o mundo e sobre nós mesmos, mais aprendemos o quanto não sabemos. A natureza é muito mais esperta do que nós, com as nossas explicações de como isso ou aquilo funciona. Afinal, nós também somos produtos de sua criatividade, o que necessariamente implica que seremos sempre incapazes de compreendê-la em sua totalidade. Se existe algo de fascinante aqui é a nossa capacidade de aprender tanto sobre o mundo, dadas as nossas limitações. Algumas questões, especialmente aquelas ligadas a origens, desafiam a nossa imaginação: será que algum dia iremos entender como surgiu o Universo, a vida e a mente? Acredito que sim, mas não antes de surgirem outras questões impossíveis.

Fonte: GLEISER, Marcelo. O ‘porquê’ e o ‘como’. Folha de São Paulo, São Paulo, [2009].

3.3.1 – História da Humanidade

A ciência é apenas um dos movimentos que constituem uma história maior, uma história bem mais complexa – a história da humanidade. As atividades científicas, em qualquer época, não estarão limitadas apenas a sua própria tradição, estarão sujeitas às interferências dos outros vários movimentos que incidem sobre nossa história e a definem.

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Essa concepção abrangente de ciência é uma atividade específica, dotada de tradição, pautada em métodos próprios. Não só essa concepção abrangente de ciência interfere como sofre interferências do contexto em que se insere, permitindo uma visão unificadora dos processos que conduzem a história da humanidade.

Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: considerações

No que diz respeito à relação ciência e sociedade, devemos admitir... 1) onde as ciências naturais se encontram e onde elas estão liderando, qual tem sido seu impacto social e o que a sociedade espera delas; 2) que no século XXI, a ciência deve se tornar um benefício compartilhado por todas as pessoas, com base na solidariedade, que a ciência é um recurso poderoso para a compreensão dos fenômenos naturais e sociais e que o seu papel promete ser ainda maior no futuro, quando a complexidade crescente do relacionamento entre a sociedade e o ambiente for melhor compreendida; 3) a necessidade sempre crescente do conhecimento científico no momento de decisões pública e privada, incluindo notadamente o papel a ser representado pela ciência na formulação de política e decisões reguladoras; 4) que o acesso ao conhecimento científico para propósitos pacíficos, como era feito há muito tempo, é uma parte do direito à educação que todos os homens e mulheres têm, e que a ciência da educação é essencial para o desenvolvimento humano, para criar capacidade científica endógena e para criar cidadãos ativos e informados; 5) que a pesquisa científica e suas aplicações podem produzir retorno significativo em direção ao crescimento econômico, ao desenvolvimento humano sustentável, incluindo a diminuição da pobreza, e que o futuro da humanidade tornar-se-á mais dependente da produção eqüitativa e do uso do conhecimento como nunca foi antes; 6) que a pesquisa científica é a mais forte tendência em relação aos cuidados de saúde e sociais e que, ao se fazer maior uso do conhecimento científico, criase um grande potencial para melhorar a qualidade da saúde para a humanidade; 7) o processo atual de globalização e o papel estratégico do conhecimento científico e tecnológico dentro dele;

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8) a necessidade urgente de se reduzir o vácuo existente entre o desenvolvimento e os países desenvolvidos, no intuito de se melhorarem a capacidade científica e a infra-estrutura dos países em desenvolvimento; 9) que a revolução da informação e da comunicação oferece novos e mais eficientes meios para mudar o conhecimento científico e melhorar a educação e a pesquisa; 10) a importância para a pesquisa científica e para a educação com acesso amplo e claro a informações e dados de domínio público; 11) o papel representado pelas ciências sociais na análise das transformações sociais relacionado ao desenvolvimento científico e tecnológico e à procura por soluções do problema gerado no processo; 12) as recomendações das principais conferências conveniadas aos sistemas de organizações das Nações Unidas e outras organizações e os encontros associados com a Conferência Mundial sobre a Ciência; 13) que a pesquisa científica e o uso do conhecimento científico deveriam respeitar os direitos humanos e a dignidade do ser humano em concordância com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e com a ajuda dada pela Declaração sobre o Genoma Humano e Direitos Humanos;

14) que algumas aplicações da ciência podem ser prejudiciais ao indivíduo e à sociedade, ao meio ambiente e à saúde humana, e possivelmente até ameaçar o a continuidade da existência das espécies, e que a contribuição da ciência é indispensável à causa da paz, do desenvolvimento, da segurança global e da despreocupação global; 15) que os cientistas, juntamente com outros participantes mais importantes, têm a responsabilidade especial de procurar se prevenir contra as aplicações da ciência que estão eticamente erradas ou que têm um impacto adverso; 16) que necessitam praticar e aplicar as ciências em conformidade com os requisitos éticos apropriados, desenvolvidos com base em um intenso debate público; 17) que o propósito da ciência e o uso do conhecimento devem respeitar e manter a vida com todas as suas diversidades, bem como os sistemas de manutenção da vida de nosso planeta; 18) que há uma desigualdade histórica na participação dos homens e das mulheres em todas as atividades relacionadas com a ciência; 19) que há algumas barreiras que têm obstruído a participação total de outros grupos, de ambos os sexos, incluindo pessoas inaptas, nativas e minorias étnicas que, daqui por diante, serão referidas como grupos desfavoráveis;

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20) que os sistemas de conhecimentos locais e tradicionais como as expressões dinâmicas de percepção e compreensão do mundo podem dar, e historicamente têm dado, uma contribuição valiosa para a ciência e para a tecnologia, e que há uma necessidade de preservar, proteger, pesquisar e promover essa herança cultural e o conhecimento empírico; 21) que um novo relacionamento entre a ciência e a sociedade é necessário para enfrentar os problemas globais urgentes, como a pobreza, a degradação ambiental, a saúde pública inadequada, a insegurança no alimento e na água, e os associados, em particular, com o crescimento da população; 22) a necessidade de um forte comprometimento com a ciência por parte dos governos, da sociedade civil e do setor produtivo, assim como um forte comprometimento dos cientistas para com o bem-estar da sociedade.
Fonte: DECLARAÇÃO sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: considerações. [S.l.: s.n].

3.4 – Educação, Ciência e Desenvolvimento.

A produção do conhecimento – como tentativa de descrição do real – não é um processo definitivo e, por ter um caráter histórico, o conhecimento tem de ser revisto, retificado e substituído. Não há como estancar esse ciclo. Os dois fatores que interagem para a energização desse movimento cíclico são... Educação – A educação deve ser vista como transmissão e apropriação do conhecimento por meio das atividades de ensino. A educação nos tornará aptos, a não só aprender, como também aperfeiçoar o conhecimento até então produzido. A educação é central tanto para o desenvolvimento econômico e científico quanto para a própria cidadania. Desenvolvimento – A existência da sociedade com razoável grau de unidade e de soberania permite-lhes a sintonia com projetos sociais, vinculados aos projetos da ciência e tecnologia que servem aos seus interesses sociais.

O valor da ciência e da divulgação Por que pessoas inteligentes ignoram certos conhecimentos científicos modernos e se apegam a crenças pré-medievais?

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O sujeito (cientista), em seu relacionamento com o mundo (atividade científica), consigo mesmo e com o absoluto, nada encontra de firme. A existência é algo incerto e inseguro. (Kierkgaard) O conhecimento científico tem as qualidades de imperfeição e dúvida, por isso não há consenso na comunidade científica. Outra característica importante da atividade científica é a de que a ciência não é panacéia universal. Ocorre com freqüência o oposto: por exemplo, a aplicação dos princípios teóricos e tecnológicos para a elaboração de armas nucleares. Assim, muitos cientistas trabalham para a indústria militar, que por cruel ironia produz emprego e riqueza em certas nações, que, por conseqüência, dispõem de mais recursos para investir na atividade científica – este não é caso do Brasil, onde se produzem 80% das minas que mutilam africanos. Seres humanos são usados como cobaias para estudar certas doenças, como ocorreu em Tuskegee, Alabama, de 1932 a 1972. Nesse estudo, foi informado a um grupo de 309 negros com sífilis e outro com 210 sem a doença, que estavam com o sangue ruim. A todos foi prometido tratamento (penicilina), mas recebiam somente água com açúcar. Em 69, morreram 28, em 72, 74, e, em 97, apenas sete sobreviveram. Além disso, a ciência e tecnologia produziram talidomida, CFC – responsável por parte da destruição da camada de ozônio, gases que atacam o sistema nervoso, poluições diversas que podem arruinar o clima do planeta e extinguir espécies animais e vegetais. Tais imperfeições da prática científica têm justificado para alguns o aumento da propagação da crença em superstições ou explicações pseudocientíficas: se a ciência nem sempre está correta e não é uma fonte de riquezas morais, então o melhor é buscar uma ciência alternativa. Uma vez colocados em dúvida os conhecimentos científicos, abre-se o caminho para crenças sobre a vida emocional das plantas, continentes que emergem e afundam rapidamente, Terras ocas, canalização dos mortos, deuses astronautas, estupro astral, alienígenas entre nós, civilizações subterrâneas e criacionismo científico. Um dos responsáveis pelo apego a superstições é o desconhecimento de como a atividade científica é desempenhada. Antes, porém, algo deve ser dito sobre os que acreditam na ciência alternativa. Desde os gregos, sabemos que o desejo de conhecer o mundo é inerente à nossa natureza. Por isso, pessoas que pagam por crenças e superstições, em boas livrarias, não devem ser consideradas ignorantes. Elas desejam sinceramente compreender e sondar o mundo ao seu redor, mas, por não entenderem como o conhecimento científico é adquirido, caem no conto do vigário, crendo estar comprando livros com alguma informação sensata. A ciência tem muitas deficiências. Porém, para investigar fenômenos naturais e fornecer soluções para problemas concretos, o procedimento científico é o melhor de que dispomos.

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Além disso, os conhecimentos produzidos podem ser testados e, se necessário, corrigidos. O máximo que o cientista pode esperar é o aperfeiçoamento de seu conhecimento pela colaboração e crítica, inerentes ao conhecimento científico. Inversamente, a pseudociência produz certezas imunes à crítica e correções. Como debater ou corrigir o que não se tem acesso? A ciência moderna tem conseguido avançar em várias áreas. Doenças que vitimavam a humanidade têm sido curadas. A expectativa de vida na Europa Ocidental passou de 30 anos, na Idade Média, para 50, em 1915, e se aproxima dos 75 anos. Caso haja vontade política, já há meios eficientes e seguros de produzir mais alimentos nutritivos. Conhecemos muito da intimidade constitutiva da matéria e dispomos de boas hipóteses sobre a origem do Universo. O conhecimento da mais incipiente das ciências tem mais valor do que toda a história da astrologia. Prever eclipses com séculos de antecedência não é um problema difícil para a astronomia – mas em 11 de agosto de 1999 não ocorreu o fim do mundo! Por que pessoas inteligentes ignoram certos conhecimentos científicos modernos e se apegam a crenças pré-medievais? Uma das respostas é a de que o desconhecimento da capacidade explicativa limitada da ciência, abre caminho para a superstição. Quando uma pessoa adoece, ela pode tomar remédio, rezar ou ambos. Se ela reza e não toma o remédio é porque está convicta do poder curativo da reza e desconhece ou despreza um tratamento cientificamente comprovado. Esta dificuldade em se perceber o valor da ciência resulta da linguagem hermética dos cientistas. O conhecimento científico assim fica restrito às quatro paredes das Universidades e Institutos de Pesquisas. Apenas a democratização do conhecimento o tornará acessível e capaz de barrar o avanço da superstição e da pseudociência. Para mostrar que a divulgação científica é possível, basta citarmos Carl Sagan, Stephen Jay Gould, Edward Wilson e o brasileiro José Reis. Um livro árido como supostamente deveria ser um sobre história da Filosofia, esteve, há pouco tempo, na lista dos mais vendidos. Atividades de extensão e aperfeiçoamento de professores do ensino básico e fundamental podem ser realizadas por cientistas sem comprometer seu tempo de dedicação à pesquisa. Basta que mudem sua linguagem. É o mínimo que se espera numa democracia, onde as pessoas precisam se entender. Aliás, esse seria um serviço útil dos cientistas à própria compreensão da ciência que tanto prezam. Finalmente, se quisermos o apoio da sociedade às reivindicações de mais verbas para a pesquisa, devemos divulgar para o público, ou mesmo facilitar para que um jornalista o faça, o valor social da atividade que desempenhamos.

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Fonte: O VALOR da ciência e da divulgação. Jornal da ciência, Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, n. 420, set. 1999.

3.4.1 – Transformação Social

Não podemos inventar transformações sociais de qualquer maneira. A educação não provém apenas de instruções. Transformação social é o resultado de uma estratégia complexa, avassaladora, mas que encontra, na educação e na ciência, seu móvel principal. Em nosso mundo – cada vez mais barbaramente capitalista –, os benefícios da educação, do progresso científico e do progresso tecnológico estão cada vez mais distantes de um número proporcionalmente maior de seres humanos.

Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: resoluções Ciência para o conhecimento; conhecimento para o progresso 1) a função inerente do esforço científico é fazer uma averiguação compreensiva e completa na natureza e na sociedade que leve a um novo conhecimento. Esse novo conhecimento proporciona o enriquecimento educacional, cultural e intelectual, e conduz ao progresso tecnológico e a benefícios econômicos. Promover uma pesquisa fundamental e orientada é essencial para se conseguir o desenvolvimento endógeno e o progresso; 2) os governos, por meio da política da ciência nacional e agindo como catalisadores para facilitarem a interação e a comunicação entre os stakeholders, aqueles que investem dinheiro em apostas, deveriam identificar o papel-chave da pesquisa científica na aquisição do conhecimento, treinando cientistas na educação do povo. A pesquisa científica custeada pelo setor privado tem sido um fator crucial para o desenvolvimento socioeconômico, mas isso não pode excluir a necessidade da pesquisa pública. Ambos os setores (privado e público) deveriam colaborar juntos e em forma complementar para o financiamento de pesquisas científicas com objetivos a longo prazo; Ciência para a paz 3) a essência do pensamento científico é a habilidade de examinar os problemas de diferentes perspectivas e procurar as explicações dos fenômenos naturais e sociais, submetendo-os constantemente a uma análise crítica. Dessa forma, a ciência pode confiar no pensamento livre e crítico, que é o essencial no mundo democrático. A comunidade científica, compartilhando de uma Douglas Naegele Barbiratto 50 donabitto@hotmail.com

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tradição existente há muito tempo e que supera as nações, as religiões ou o etnicismo, deveria promover, como foi afirmado na Constituição da UNESCO, a solidariedade moral e intelectual da humanidade, que é a base da cultura da paz. A colaboração mundial entre os cientistas é uma contribuição construtiva e valiosa para a segurança global e para o desenvolvimento de interações pacíficas entre as diferentes nações, sociedades e culturas, e poderia estimular outras medidas para o desarmamento, inclusive o nuclear; 4) governos e sociedade, juntos, deveriam estar cientes da necessidade de se usarem as ciências, naturais e sociais, e a tecnologia como armas para chamar atenção para as causas mais urgentes e para os impactos dos conflitos. Os investimentos nas pesquisas científicas referidas acima deveriam ser aumentados; Ciência para o desenvolvimento 5) hoje, mais do que nunca, a ciência e suas aplicações são indispensáveis ao desenvolvimento. Os governos, em todos os níveis (social e cultural), e o setor privado deveriam prover um apoio maior para construírem, com a capacidade tecnológica e científica adequada e compartilhada por meio de programas apropriados de educação e pesquisa, um alicerce indispensável ao desenvolvimento econômico, social e cultural ambientalmente sadio. Isso é particularmente urgente para os países em desenvolvimento. O desenvolvimento tecnológico requer uma base científica sólida e precisa ser direcionado firmemente para uma produção segura, para uma maior eficiência no uso dos recursos e produtos menos agressores ao meio ambiente. Ciência e tecnologia também deveriam ser firmemente direcionadas ao objetivo de melhorar o uso, aumentando a competitividade e a justiça social. Deve-se aumentar o investimento na ciência e na tecnologia, ambas direcionadas para esses objetivos e para uma melhor compreensão e preservação da base de recursos naturais do planeta, a biodiversidade e os sistemas de manutenção de vida. O objetivo deve ser um movimento em direção ao desenvolvimento de estratégias sustentáveis por meio da integração econômica, social, cultural e das dimensões ambientais. 6) a educação da ciência, no amplo sentido, sem discriminação e incluindo todos os níveis e modalidades, é um pré-requisito para a democracia e para se garantir o desenvolvimento sustentável. Nos últimos anos, medidas difundidas mundialmente têm sido empreendidas para promover a educação básica para todos. É de suma importância que o papel fundamental representado pelas mulheres na aplicação do conhecimento científico para sustentar a produção e os cuidados com a saúde seja inteiramente reconhecido, e que esforços sejam feitos para fortalecer a compreensão delas nos avanços científicos nessas áreas. É sobre essa plataforma que a educação da ciência, a comunicação e a popularização precisam ser construídas. Especial atenção é ainda exigida para grupos marginalizados. Mais do que nunca, é necessário desenvolver e expandir a ciência literária em todas as culturas e em todos os setores da sociedade, bem como argumentar a habilidade, a destreza e uma apreciação de valores técnicos, a fim de melhorar a aplicação do novo conhecimento. O progresso na ciência faz com que o papel das universidades seja Douglas Naegele Barbiratto 51 donabitto@hotmail.com

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particularmente importante na promoção e na popularização da ciência do ensino, e na sua coordenação em todos os níveis da educação. Em todos os países, e em particular nos países em desenvolvimento, há uma necessidade de fortalecer a pesquisa científica na educação mais avançada e em programas de pós-graduação, levando em consideração prioridades nacionais; 7) a formação da capacidade científica deve ser sustentada pela cooperação regional e internacional para que ambas garantam o desenvolvimento eqüitativo, a expansão e a utilização da criatividade humana, sem discriminação de qualquer espécie contra países, grupos ou indivíduos. A cooperação entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento deve ser efetuada em conformidade com os princípios de total e livre acesso à informação, eqüidade e benefícios mútuos. Em todos os esforços de cooperação, deve ser dada a devida consideração à adversidade de tradições e culturas. Há a responsabilidade do mundo desenvolvido de aumentar as atividades de parceria na ciência com os países em desenvolvimento e países em transição. É especialmente importante para os estados pequenos e países menos desenvolvidos ajudar a criar uma maioria criteriosa de pesquisa nacional nas ciências por meio da cooperação regional e internacional. A presença de estruturas científicas, tais como as universidades, é um elemento essencial para o treinamento de quadro de funcionários no país, com vistas à carreira profissional subseqüente dentro do próprio país. Por meio desses e outros esforços, condições favoráveis devem ser criadas a fim de reduzir ou inverter o fluxo de técnicos especializados que se deslocam para outros países, buscando melhores oportunidades. Todavia, nenhuma medida deve restringir a livre circulação desses cientistas; 8) o progresso na ciência requer vários tipos de cooperação entre os níveis intergovernamentais, governamentais e não-governamentais, tais como: projetos multilaterais; pesquisa de trabalhos reticulares, incluindo o trabalho reticular do Sul-Sul; parcerias envolvendo as comunidades científicas de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento para encontrar a necessidade de todos os países e facilitar seu progresso; coleguismo, doações e promoção de junta de pesquisa; programas para facilitar o intercâmbio de conhecimentos; o desenvolvimento de centros de pesquisas científicas internacionalmente reconhecidos, particularmente nos países em desenvolvimento; acordos internacionais para a junta de promoção, avaliação e capital disponível para megaprojetos e amplo acesso para eles; painéis internacionais para a tributação científica de ordem complexa; e arranjos internacionais para a promoção de treinamento de pós-graduação. Novas iniciativas são necessárias para a colaboração interdisciplinar. O caráter internacional da pesquisa fundamental deve ser fortalecido, aumentado significativamente o apoio aos projetos colaborativos internacionais, especialmente aqueles de interesse global. A esse respeito, uma atenção particular deve ser dada para a necessidade de continuidade de apoio para a pesquisa. O acesso a essas facilidades pelos cientistas de países em desenvolvimento deve ser ativamente apoiado e aberto a todos sobre bases de mérito científico. O uso de informação e comunicação tecnológica, particularmente por meio do trabalho reticular, está para ser expandido como Douglas Naegele Barbiratto 52 donabitto@hotmail.com

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um meio de promover o fluxo livre do conhecimento. Ao mesmo tempo, deve-se ter cuidado para que o uso dessas tecnologias não leve a uma restrição negativa das riquezas das várias culturas e dos meios de expressão; [...] 10) os direitos de propriedade intelectual precisam ser devidamente protegidos em uma base global, e o acesso a dados e informações é essencial ao empreendimento do trabalho científico e para a tradução dos resultados da pesquisa científica em benefícios tangíveis para a sociedade. Medidas devem ser tomadas para aumentar aquelas afinidades entre a proteção dos direitos de propriedade intelectual e a disseminação do conhecimento científico, que são mutuamente sustentadas. Há uma necessidade de se considerar a extensão, o volume da aplicação dos direitos de propriedade intelectual em relação à produção eqüitativa, à distribuição e ao uso do conhecimento. Há também a necessidade de se desenvolver mais a estrutura legal nacional apropriada para acomodar os requisitos específicos dos países em desenvolvimento e o conhecimento tradicional, as fontes e os produtos, garantindo seu reconhecimento e a proteção adequada sobre as bases do consentimento dado pelos proprietários tradicionais ou usuais desse conhecimento; Ciência na sociedade e para a sociedade 11) a prática da pesquisa científica e o uso do conhecimento dessa pesquisa devem visar sempre ao bem-estar da humanidade, incluindo a redução de pobreza, o respeito à dignidade, aos direitos do ser humano e ao meio ambiente global, e levar inteiramente em consideração nossa responsabilidade em direção às gerações presentes e futuras. Deverá haver um novo compromisso para com esses princípios importantes para todas as partes interessadas; 12) um fluxo livre de informação para todos os usos possíveis e as conseqüências das novas descobertas e das tecnologias recentemente desenvolvidas devem ser assegurados de forma que os problemas possam ser debatidos de modo apropriado. Cada país deve estabelecer medidas convenientes para falar da ética, da prática da ciência e das aplicações do conhecimento científico. Essas medidas devem incluir o procedimento para tratar com discordâncias e dissidentes de uma forma justa e responsável. A Comissão Mundial sobre a Ética da Tecnologia e Conhecimentos Científicos da UNESCO pode proporcionar um meio de interação a esse respeito; 13) todos os cientistas devem se comprometer com altos padrões éticos, e um código de ética baseado em normas relevantes e consagradas nos instrumentos internacionais dos direitos humanos deve ser estabelecido para profissões científicas. A responsabilidade social dos cientistas requer que eles mantenham altos padrões de integridade científica e controle de qualidade, e compartilhem seus conhecimentos, se comuniquem com o público e eduquem as gerações mais jovens. As autoridades políticas devem adotar a ciência ética,

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bem como o treinamento em história, a filosofia e o impacto cultural da ciência; 14) as igualdades no acesso à ciência não são somente uma exigência ética e social para o desenvolvimento humano. São também uma necessidade de se realizar o potencial total das comunidades científicas em todo o mundo e para se orientar o progresso científico de encontro às necessidades da humanidade. As dificuldades encontradas pelas mulheres – que constituem mais da metade da população do mundo – ao entrarem, perseguirem e progredirem numa carreira no campo científico, e ao participarem do ato de decidir na ciência e na tecnologia devem ser resolvidas urgentemente. Há uma necessidade igualmente urgente de se tratar das dificuldades enfrentadas por grupos em desvantagem que impedem sua total e efetiva participação; 15) os governos e os cientistas do mundo devem tratar os problemas complexos relacionados à saúde e ao aumento da desigualdade nesse campo em países diferentes e entre as comunidades dentro do mesmo país com o objetivo de alcançar um aumento eqüitativo do padrão e um suprimento melhorado da qualidade da saúde de todos. Isso deve ser empreendido por meio da educação, usando os avanços científicos e tecnológicos, desenvolvendo parcerias sólidas e de longo prazo entre todos os interessados e canalizando programas para essas tarefas; 16) nós, participantes da Conferência Mundial de Ciência para o Século XXI: um novo compromisso, comprometemo-nos a fazer todo esforço para realizar a possibilidade de promover o diálogo entre a comunidade científica e a sociedade para remover toda discriminação relacionada à educação, para dispor, a seu favor, os benefícios da ciência, para agir eticamente e cooperativamente dentro de nossas próprias esferas de responsabilidades, para fortificar a cultura científica e sua aplicação pacífica através do mundo, para promover o uso do conhecimento científico para o bem-estar da população e para obter paz e desenvolvimento sustentáveis, levando em conta os princípios éticos e sociais ilustrados acima; 17) nós consideramos que o documento da Conferência Agenda da Ciência – Plano para Ação confere expressão prática no novo compromisso com a ciência e poderá servir de orientação estratégica para parcerias no Sistema das Nações Unidas e entre todos os interessados no empenho científico nos anos que virão; 18) nós adotamos, portanto, esta Declaração sobre a Ciência e o Uso do Conhecimento Científico e concordamos com a Agenda da Ciência – Plano de Ação como um meio de alcançar os objetivos demonstrados na declaração, objetivos estes assistidos pela UNESCO e ICSU para submeterem ambos os documentos à Conferência Geral e à Assembléia Geral respectivamente. Esses documentos ficarão também em posse da Assembléia Geral das Nações Unidas. O propósito é facilitar, para ambas as organizações, a identificação e a implementação das ações subseqüentes de seus respectivos programas, e mobilizar o apoio de todos os parceiros, particularmente aqueles do sistema das Nações Unidas, a fim de reforçar uma coordenação e uma cooperação internacional na ciência. Douglas Naegele Barbiratto 54 donabitto@hotmail.com

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Fonte: DECLARAÇÃO sobre a ciência e o uso do conhecimento científico: resoluções. [S.l.: s.n.]

3.5 – Ética

Pregamos que a ciência busca conhecer o universo de forma a beneficiar o homem. Tal premissa14 se centra no fato de que a ciência possibilita uma intervenção controlada e organizada no universo, obtendo, com isso, resultados determinados. Contudo, nem sempre o conhecimento produzido sobre a realidade beneficia a todos. Historicamente a ciência tem-se prestado, muitas vezes, às elites. Isto é evidente quando focalizamos a história...

Uma ciência para cidadãos Hiroshima, Chernobil, catástrofe da usina química Bhopal: o século XX foi marcado por eventos trágicos que semearam a dúvida sobre o papel emancipador da ciência. Esses horrores, que se acrescentam a outras catástrofes no mundo do trabalho – minas, transportes etc. –, suscitaram um certo desencanto em relação à ciência e à tecnologia. Esse fenômeno traduziu-se em uma escalada da militância antinuclear ou ecologista no Ocidente e pela proliferação de associações em favor de uma ciência cidadã. Na Índia, por exemplo, grupos como o Kerala Shastra Sahitya Parishad esforçam-se para divulgar a informação científica, estimular o espírito crítico da população e obter que os resultados das pesquisas sejam colocados a serviço das necessidades vitais. Para muitos, esse desencanto está ligado a outros fatores, particularmente graves nos países em desenvolvimento, que contribuem com menos de 10% das despesas mundiais em P&D. Esses países viram surgir com a globalização, no rastro das privatizações e do liberalismo econômico, uma nova concepção da ciência – agora considerada uma mercadoria. Uma vez que se aplicam os critérios do mercado para orientar e avaliar a pesquisa, a ciência é cada vez menos considerada um bem público. Certos sinais evidentes demonstram que as pesquisas mantidas a serviço desse ideal estagnaram ou retrocederam. O que não deixa de causar sérios problemas a países em desenvolvimento como a Índia, onde o Estado garante mais de 80% do financiamento de P&D.

Indício de onde se infere algo. Proposição anteriormente dada como certa, servindo, dessa forma, de base a um argumento.

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Os pesquisadores desses países, universitários ou não, têm a responsabilidade social fundamental de preservar a ciência dos interesses comerciais, estes baseados na idéia de que o conhecimento é um bem privado. Os Estados deveriam encorajar a ciência enquanto bem público até as sociedades terem absorvido os choques engendrados pelas forças do mercado. Certos avanços científicos e tecnológicos vão de encontro a valores éticos largamente partilhados. A revolução da informação ameaça a vida privada; a revolução biológica poderia subverter a natureza humana e questionar a unicidade do indivíduo. Há inovações científicas e tecnológicas mais temíveis que outras. Os agricultores utilizam maciçamente pesticidas e herbicidas mesmo conhecendo os perigos que estes representam a longo prazo para o ser humano. Fazem-se experiências cruéis com animais, principalmente para avaliar os perigos de certas substâncias químicas. Como observou o indiano Kamla Chowdry, especialista em meio ambiente, as tecnologias desenvolvidas pelas grandes potências para as indústrias de armas, agroalimentares e de bens de consumo são portadoras de violência e ameaçam valores como compaixão, ajuda mútua, respeito e espiritualidade. Novos mecanismos de decisão As questões da eqüidade e do consumo sustentado estão estreitamente ligadas aos aspectos hegemônicos e violentos da ciência e da tecnologia modernas. Não se pode falar de desenvolvimento sustentado sem se refletir sobre os modelos de consumo das sociedades contemporâneas. O problema crucial é saber se os países desenvolvidos estão dispostos a diminuir seu consumo de energia não-renovável. Essas reflexões conduzem sempre à mesma questão: que fazer para que a ciência e a tecnologia atendam às necessidades essenciais das sociedades, sobretudo nos países de baixa e média renda? Creio ser necessário desenvolver um processo democrático a fim de definir um novo contrato social entre ciência e sociedade. Para tanto, impõem-se quatro condições. Em primeiro lugar, o poder de decisão não deveria ser monopolizado por uma elite política e científica, com freqüência ligada aos interesses do setor privado. Os representantes de numerosos grupos de interesse, como os movimentos por uma ciência cidadã, e outros grupos de defesa dos direitos sociais, deveriam participar das decisões. A democracia não poderá funcionar se não trabalhar pelo bem-estar da população e se a distribuição da renda não for mais eqüitativa. Para democratizar o acesso às mudanças tecnológicas, é preciso criar novos mecanismos de decisão e elaborar redes de segurança. Por exemplo, sobre temas como a biodiversidade e a biotecnologia, as comunidades tribais isoladas dos países do Sul deveriam ser representadas no seio das comissões oficiais. Deve-se levar em conta seu ponto de vista para rever certos programas internacionais, sobretudo os que foram propostos pela Convenção das Nações Unidas sobre a Biodiversidade e pela Cúpula do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992. Nos países em desenvolvimento, onde as orientações das pesquisas seguem, sobretudo, as exigências e necessidades das elites privilegiadas, os governos devem estimular esses modos de decisão participativos. Eles deveriam ainda aumentar os orçamentos dos projetos de pesquisa ligados à segurança, sejam públicos ou privados. Douglas Naegele Barbiratto 56 donabitto@hotmail.com

Metodologia de Pesquisa O princípio de proximidade

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Segundo imperativo: conscientizar as pessoas quanto aos possíveis impactos da ciência e da tecnologia sobre a vida, a fim de combater o determinismo tecnológico. Nesse nível, os grupos de militantes que se interessam pela ciência, como os existentes na Índia, têm importante papel a cumprir. Deveriam ser mantidos por seus governos. Terceiro ponto: nos países em desenvolvimento, dever-se-ia perguntar por que as prioridades da pesquisa universitária são fixadas em função de problemas essencialmente ocidentais. A maioria das pesquisas é certamente importante para o avanço do conhecimento científico, mas não têm interesse imediato para os países em desenvolvimento. Enquanto isso, os laboratórios científicos e as universidades do Sul pouca atenção dão aos problemas que afetam diretamente seus cidadãos, como desnutrição, pobreza, poluição e riscos industriais. O efeito de proximidade deveria levá-los a dedicar parte de seus esforços a essas questões, em colaboração com especialistas das ciências sociais. Os representantes das comunidades locais poderiam muito associar-se a esse tipo de pesquisa, no âmbito de instituições conhecidas. Os valores científicos e democráticos estão estreitamente ligados. Para se usufruir os benefícios da democracia, é preciso que os cidadãos desenvolvam uma consciência científica – incluídos o ceticismo, a dúvida, o rigor e revisem seu conceito de interesse público.
Fonte: KRISHNA, V.V. Uma ciência para os cidadãos. Caderno Unesco, FGV: São Paulo, jul. 1999.

3.5.1 – Malefícios da Ciência

Embora as contribuições advindas da produção de conhecimento sejam ilimitadas, a grande maioria delas não beneficiou metade da humanidade. Além disso, o conhecimento continua sendo visto como propriedade de quem o produz. Se antes se limitava às elites, hoje o conhecimento se concentra nas chamadas nações de primeiro mundo, passando ao largo das demais, onde milhões de homens, mulheres e crianças ainda morrem de fome. Somando-se a essas restrições, sabemos que grande parte do conhecimento produzido pela ciência tem sido aplicado em artefatos que colocam em risco tanto o homem quanto seu meio ambiente. Embora se divulgue que, de alguma forma, os avanços obtidos com as aplicações científico-tecnológicas à indústria de guerra resultaram em benefícios para a humanidade, não podemos negar que o preço experimental da maioria dessas aplicações foi pago com milhões de vidas. Douglas Naegele Barbiratto 57 donabitto@hotmail.com

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3.5.2 – Ciência e Ética

São questões como estas que nos fazem refletir sobre a relação ética/ciência... As metas de um cientista seriam apenas estudar, investigar e experimentar? Deve se preocupar com o que será feito com suas descobertas e invenções? Ao optar pelar imparcialidade, o cientista já estará delegando a outros o poder de uso daquilo que produz? Até que ponto esse outro se importará com o uso adequado desse conhecimento?

Tudo por fama, glória e dinheiro

Em 23 de abril de 1984, uma descoberta atraiu a atenção até mesmo de quem não se interessa por ciência. Em Bethesda, cidade no estado americano de Maryland, o Instituto Nacional de Saúde anunciou que o vírus da Aids havia sido isolado pelo doutor Robert Gallo. Em 28 de maio do ano seguinte, os americanos registraram a patente do método de diagnóstico dos anticorpos por meio de exame sorológico. O problema é que o mesmo anúncio tinha sido feito, em 1983, pelo francês Luc Montagnier, do Instituto Pasteur de Paris. Começava, então, uma briga, por fama, glória e dinheiro, repleta de idas e vindas. De acordo com Montagnier, Gallo fizera seus estudos com amostras enviadas da França. Gallo negou. O francês, então, alegou ser possível que o americano não tivesse roubado a descoberta intencionalmente, apenas se precipitado ao divulgar os resultados de suas pesquisas. A longa briga envolveu periódicos científicos, como a revista Nature, em mais um capítulo intrincado, numa discussão que durou dez anos. Em 1985, o Instituto Pasteur iniciou um processo judicial contra seu congênere americano, pelo direito à patente do método de diagnóstico, que tentava registrar nos Estados Unidos desde 1983 e do qual havia perdido a prioridade. Gallo foi acusado de falsificar suas pesquisas para patentear o método de diagnóstico, que rende milhões de dólares em royalties. Em 1987, a querela ainda perdurava, e Montagnier e Gallo insistiam em reivindicar os direitos sobre a descoberta. Naquele ano, fariam um acordo, assinado também pelos presidentes dos Estados Unidos e da França, para serem declarados codescobridores e dividirem os US$ 6 milhões anuais em direitos.

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O acordo foi desfeito, em dezembro de 1992, depois de o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos julgar que Gallo mentira para tirar todo o mérito do trabalho de Montagnier. No ano seguinte, o Escritório para a Integridade das Pesquisas, ao qual caberia decidir se Gallo responderia pela acusação, considerou as provas insuficientes, aceitando a argumentação de que não ocorrera má-fé ou fraude. Na verdade, o americano foi salvo por um terceiro personagem, Mikulas Popovic. O tcheco, que trabalhava no mesmo laboratório de Gallo, era alvo de um processo paralelo, acusado de ser o principal fraudador das pesquisas. Posteriormente, o Departamento de Saúde admitiu que o processo contra Popovic foi conduzido de forma apressada e que não existiam evidências para incriminá-lo. Por não conhecer perfeitamente o idioma inglês, ele teria cometido erros de linguagem. Finalmente, em 1994, as autoridades americanas admitiram que a primazia da descoberta era dos franceses.

Fonte: TUDO por fama, glória e dinheiro. O Globo. Rio de Janeiro, n. 30, 1999. Globo 2000, p. 702.

Unidade 4 – Postura Científica

“O conhecimento só se diz verdadeiro quando exprime conformidade com a realidade. Falso, porém, enquanto apresenta discordância com essa realidade” Aristóteles

4.1 – Espírito Científico

Antes de mais nada, um cientista concentra-se na evidência dos fatos para estabelecer verdades. Contudo, ele não se contenta apenas em identificá-las. Sua meta é observá-las, analisá-las, questioná-las, julgar-lhes a validade. Tal conduta caracteriza o espírito científico, que resulta de: Douglas Naegele Barbiratto 59 donabitto@hotmail.com

Metodologia de Pesquisa • • • • • precisão; curiosidade; observação15; criatividade; discernimento.

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Do espírito científico resulta o conhecimento. No processo de geração de conhecimento as hipóteses formuladas por um estudioso equivalem a interpretações prévias da realidade, as quais orientam, em determinada direção, seus estudos e suas experimentações. Como qualquer direção pode ser válida, desde que fatos a validem, o espírito científico é marcado ainda pela prudência e pela cautela.

Os cientistas são de fato criativos?

Para constituir uma sociedade de mentes criativas e críticas, é preciso ter acesso democrático à boa educação formal “Alguns educadores e psicólogos de várias partes do mundo concluíram, independentemente, que crianças são cientistas natos porque têm a curiosidade que impele a criatividade dos cientistas. Antes de discutir por que as crianças perdem a curiosidade científica à medida que são educadas, interessa discutir por que os cientistas fazem ciência. Desprezamos desde já a mitificação do saber especial do cientista que transcende os limites humanos da ignorância e erro. Ao contrário, consideramos os cientistas pessoas comuns que desempenham um tipo de função que parece incomum para a maioria dos leigos. Isso acontece em parte porque, no transcurso da investigação científica, o cientista desenvolve uma linguagem particular, a qual limita a compreensão dos nãoiniciados. Esse isolamento funciona, às vezes, de modo corporativo, como escudo protetor a críticas. Ironicamente, o exercício da crítica, indispensável ao desenvolvimento do conhecimento científico, não ocorre sempre e, assim, não alcança os resultados que deveria por causa de reações emocionais contrárias de certos cientistas imaturos e inseguros da consistência dos seus argumentos. Basta uma rápida olhada na História da Ciência para verificar a formação de escolas científicas corporativas. Além disso, de Pitágoras a Einstein, a ciência tem seus folclores e fraudes. O grande astrônomo Kepler, por exemplo, datou a criação do mundo em 27/4/4977 a.C., imaginando estar corrigindo o erro do
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Exame, análise, em outras palavras, ato de reparar minuciosamente.

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bispo James Usher, que a havia fixado em 26/10/4004 a.C. Robert Millikan, Prêmio Nobel de Física de 1923, trapaceou selecionando os melhores resultados das medidas de carga do elétron. Suas experiências eram muito delicadas e ele classificava os resultados obtidos em excelentes, passáveis e rejeitáveis. Do total de 140 resultados, ele selecionou para publicação só 58! Essa trapaça figura claramente nos cadernos de laboratório de Millikan. O grande naturalista inglês Alfred Russel Wallace passou o final de sua carreira tentando comunicar-se com os mortos!! Portanto, o cientista também carrega todas as qualidades, todos os defeitos e todas as contradições comuns aos mortais. Apesar das fraudes, o que torna a ciência um empreendimento válido não é apenas o fato de que seus resultados sempre sejam corretos, mas o fato de que eles são passíveis de discussões e de rejeições por outros colegas experientes que os criticam antes de serem publicados em revistas científicas de boa qualidade.

Isso posto, interessa-nos agora discutir porque, à semelhança de um artista, o cientista cria modelos originais e engenhosos para descrever os fenômenos naturais. Consideramos que a criatividade, em qualquer campo do conhecimento humano, tenha os fundamentos biológico e cultural. A criatividade humana pode ter uma base biológica como qualquer outra atividade racional ou emotiva. A interação de seres humanos em desenvolvimento com o meio ambiente em constante modificação resulta na exteriorização de comportamentos individuais ou sociais, que dependem de atividades bioquímicas e biofísicas celulares. Admitimos também que o padrão dessas respostas seja variável em diferentes ambientes e contextos socioculturais, significando que o ambiente também pode influenciar na exteriorização da criatividade. O escritor José Saramago, por exemplo, associa sua admirável criatividade literária com o ambiente rural onde foi criado, sob forte influência de um avô que conversava com árvores. Associações de raciocínios científicos a paisagens, animais ou plantas podem estar presentes no processo criativo, porque interagimos muito fortemente com os demais componentes da natureza. Mesmo um químico como Kekulé, que passou a maior parte de sua vida em um laboratório, teve um sonho, no qual visualizou uma serpente que mordia sua própria cauda e, desse modo, assumia para ele a configuração química do conhecido anel hexagonal de benzeno, estrutura que o químico sugeriu ser básica em muitos compostos orgânicos. Diz-se, muitas vezes, que não pode haver uma explicação natural para a criatividade. Alguns afirmam, por exemplo, que as composições de Mozart não têm correção e que, portanto, as melodias devem ter saído da própria mente de Deus. No entanto, gênios são trabalhadores incansáveis. O gênio típico trabalha arduamente, noite e dia, por vários anos antes de dar alguma contribuição de valor permanente. Durante seu período de formação, mergulha em sua área de atuação, absorvendo centenas de problemas e soluções. Assim, nenhum desafio é completamente novo e ele pode recorrer a um vasto repertório de padrões e estratégias.

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O que é preciso para se constituir uma sociedade de mentes criativas e críticas é o acesso democrático à boa educação formal. O mundo atual exige maior criatividade das pessoas. Assim, para que seja estimulada a criatividade, um bom ensino deve ter duas qualidades básicas: guiar o aluno pelo caminho da disciplina exigida pelo trabalho intelectual e mostrá-la, de forma crítica, a diversidade e os contrastes de conteúdos do saber humano. Todavia, desconfiamos que a deficiência estrutural de muitas escolas e a formação dos professores possam inibir o desenvolvimento da criatividade nas crianças. Com a palavra, educadores e psicólogos educacionais!

Acreditamos que todos os seres humanos possam ser criativos. Muito embora, recentemente, tenham sido registradas diferenças na forma do cérebro de Einsten – mera variação individual! –, os cientistas não têm cérebros especiais com maiores capacidades de criar novas e boas idéias. Ao contrário, como acontece com qualquer um, os cientistas só às vezes têm boas idéias”.

Rogério Parentoni é professor de Ecologia do ICB/UFMG, e Francisco Coutinho é professor da Fafi-Sete Lagoas. Ambos são do Grupo de Estudos Interdisciplinares da UFMG.

Fonte: PARENTONI, Rogério; COUTINHO, Francisco Ângelo. Os cientistas são de fato criativos? Jornal da Ciência, Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, n. 419, ago. 1999.

4.1.1 – Competência

Se, no âmbito da ciência, a criatividade é medida pela capacidade de formulação de hipóteses, de condução de processos de investigação, de utilização de instrumentos específicos, o espírito científico se define também como competência. Conseqüentemente, ao planejar suas atividades, o cientista deve ter clareza sobre o que procura e como tem de proceder para encontrar respostas. Consciente de que um planejamento não impede o imprevisto, o cientista deve prevê-lo. Aproveitando-se da interferência do acaso, o cientista deve submeter também os imprevistos a seu controle. É dessa postura – espírito científico – que a ciência emerge.

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4.2 – Objetividade e Racionalidade

É a objetividade que torna o trabalho científico impessoal, possibilitando que uma mesma experiência possa, a qualquer tempo, ser repetida várias vezes, apresentando sempre um único resultado. Da mesma forma, é a racionalidade que determina uma postura que, na interpretação da realidade, prioriza a observação, a formulação de hipóteses, a análise e a teorização. A objetividade e a racionalidade são básicas para a ciência. O que importa para a ciência não é o que um determinado cientista imagina de uma determinada realidade. O que interessa para a ciência é o que a realidade realmente é.

4.2.2 – O interesse da ciência A ciência – independente da existência de uma definição da idéia de realidade – tem como um de seus interesses a investigação, a observação e a formulação de possíveis sistematizações relacionadas a tudo o que cerca nossa existência. Neste sentido, sabemos como há uma grande valorização da objetividade nos estudos científicos, o que coloca a subjetividade – constituída por opiniões e impressões individuais –, como algo dispensado pelo pensamento científico, uma vez que, de fato, não é suscetível de comprovação. A partir de tudo isso, compreendemos que o pensamento científico se baseia na racionalidade, na lógica, na mencionada objetividade e em uma coerência observável. Vale ressaltar, ainda, que o mesmo se direciona à busca de descobertas, à quebra de dogmas, ao questionamento de paradigmas, etc, estando muito relacionado, também, à idéia de avanços e inovações tecnológicas.

A coragem do jovem Einstein “As primeiras décadas do século XX foram marcadas por uma profunda revisão de nossos conceitos relativos à natureza física do mundo. Primeiro, a teoria da relatividade de Einstein reformulou a concepção de espaço e de tempo, mostrando como as definições então aceitas eram limitadas. Segundo a

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física newtoniana, o espaço e o tempo eram entidades absolutas, independentes do estado de movimento do observador. Einstein mostrou que existe uma inter-relação entre espaço e tempo, que são mais apropriadamente tratados como uma entidade única, o espaço-tempo quadridimensional – quatro dimensões: três para o espaço e uma para o tempo. Essa unificação do espaço com o tempo leva a conseqüências que contrariam nosso bom senso. Por exemplo, Einstein mostrou que objetos em movimento têm suas dimensões contraídas na direção do movimento – a contração espacial – e que relógios em movimento batem mais devagar – a dilatação temporal. Nós não vemos esses efeitos, pois eles só são perceptíveis quando os movimentos ocorrem a velocidades próximas à da luz – 300 mil quilômetros por segundo. Uma das conseqüências da teoria da relatividade é que nós vivemos em uma realidade aproximada, newtoniana, que esconde toda uma outra realidade relativística, onde comprimentos e intervalos temporais são sujeitos a mudanças”. “Mas a teoria da relatividade não foi a única a expandir as fronteiras de nossa realidade física. Uma outra revolução conceitual ocorreu quase que ao lado da que houve na compreensão da estrutura do espaço-tempo causada pela relatividade: a revolução em nossa compreensão da física do muito pequeno, a física quântica. Mesmo com a invenção do microscópio tendo, desde o final do século XVII, revelado um mundo diferente do nosso, povoado por células etc., este era ainda um mundo que seguia as leis newtonianas de movimento. Mas experiências no século XIX obtiveram resultados inexplicáveis pela física clássica. A explicação desses resultados experimentais forçou um realinhamento conceitual da física que pegou a maioria dos físicos de surpresa. A palavra forçou é mesmo muito adequada”. “Tudo começou quando o físico alemão Max Planck sugeriu, em 1900, que átomos não recebiam nem emitiam energia continuamente, mas em pequenos pacotes, ou quanta. Essa idéia era perturbadora; até então, a energia era tratada como uma quantidade contínua. Planck tentou, durante anos, explicar sua idéia de forma clássica, isto é, mostrar que a descontinuidade da energia era conseqüência de conceitos determinísticos baseados na física newtoniana. Mas seus esforços foram em vão: a interação entre átomos e radiação era mesmo efetuada por meio de pequenos pacotes de energia e seus múltiplos, da mesma forma que transações monetárias são feitas em termos de centavos e seus múltiplos. O centavo é o quantum monetário. As idéias de Planck inspiraram o então jovem Einstein a pensar mais profundamente sobre a natureza da radiação eletromagnética, cuja porção visível nos é familiar em forma de luz. No mesmo ano em que ele propôs a teoria da relatividade especial – 1905 –, Einstein publicou um artigo em que indica que a própria luz tem um comportamento dual, atuando ora como onda, conforme era aceito na época, ora como partícula. Como prova de sua conjectura, Einstein explicou um resultado experimental conhecido como efeito fotoelétrico, pelo qual a radiação ultravioleta pode remover elétrons de uma placa metálica eletricamente neutra, tornando-a carregada. O Prêmio Nobel que ele ganhou em 1921 não foi pela teoria da relatividade, mas pelo efeito fotoelétrico. Ambas as idéias demonstram a coragem intelectual do jovem Douglas Naegele Barbiratto 64 donabitto@hotmail.com

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Einstein que, aos 26 anos, lançou as sementes das duas grandes revoluções da física deste século. E essas não foram as únicas duas sementes que o jovem Einstein plantou então...”
Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro A dança do Universo. Fonte: GLEISER, Marcelo. A coragem do jovem Einstein. Folha de São Paulo, São Paulo, 11 abr. 1999. Especial para a Folha, p. 5-12.

4.2.2 – O papel do Cientista

Por não se satisfazer com posições subjetivas, o cientista: • • • • • • valida suas hipóteses por meio do controle de seus procedimentos; procura exprimir, com exatidão e clareza, o conhecimento por ele produzido; pauta-se em normas técnicas, cuja a aplicação obedece a regras preestabelecidas; persegue a exatidão por meio da observação, da investigação e da experimentação; busca generalizações por meio da construção de sínteses teóricas16 e da formulação de leis gerais; limita-se freqüentemente, ao fenômeno/evento isolado, esforçando-se para explicá-lo por meio de mapeamento de suas relações com outros fenômenos/eventos.

4.3 – Evidência e Certeza

A realidade, em si mesma, não é falsa nem é verdadeira. A realidade é o que ela é. Falsos e verdadeiros são os julgamentos que fazemos dessa realidade. Por nossos próprios limites, não conseguimos apreender a totalidade do real.
Produção textual de gênero acadêmico que se caracteriza por apresentar, de forma sintética, as idéias e os argumentos trabalhados ao longo de determinada obra. Em outras palavras, deve apresentar os diversos elementos que integram a fundamentação dos conceitos expostos. É uma importante ferramenta de suporte à atividade de pesquisa que permite, inclusive, o desenvolvimento e a apresentação de um posicionamento crítico com relação à obra
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Os julgamentos que fazemos desse real são restritos, são parciais. Já a certeza que se expressa pela adesão e pela convicção em determinados princípios. Enquanto não há certeza, resta a dúvida. Dúvida que resulta da análise incipiente de prós e contras. Dúvida enquanto ponto de equilíbrio entre afirmação e negação de alguma verdade. Para inspirarem certeza, os julgamentos devem traduzir uma conformidade entre aquilo que pensamos sobre a realidade; • • aquilo que a realidade evidencia; aquilo que a realidade é.

Nesse sentido, a certeza resulta... • • da evidência enquanto manifestação da realidade; da evidência determinante do grau de adesão aos julgamentos feitos sobre a realidade.

Havendo evidências, o real se manifesta e podemos fazer, sobre ele, julgamentos que irão gerar certezas.

Pavor e fascínio da cauda do Halley [...] “Em 1695, o astrônomo inglês Edmond Halley (1656-1742), ao aplicar a lei da gravitação universal de Newton, determinou a órbita do cometa de 1682, que já vinha sendo observado há pelo menos três séculos, mas cuja periodicidade não havia ainda sido determinada, e previu o seu retorno para 1759, o que realmente aconteceu. Desde então o cometa passou a ser denominado cometa de Halley. Diversos estudiosos, analisando os relatos de historiadores e cronistas, concluíram que sua passagem vinha sendo assinalada desde a mais remota antigüidade; seu registro histórico mais remoto datava de 467 a.C. No Brasil, a mais antiga observação do cometa foi a registrada em setembro de 1608, no Maranhão, pelo padre jesuíta português Luiz Figueira (1574-1643). Existem também registros de observações no Brasil, durante a aparição de 1835, em fins de outubro e em princípio de novembro daquele ano, pelo visconde de Araruama, José Carneiro da Silva (1788-1864).

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Depois da previsão de Halley, mostrando que os cometas obedeciam às leis da física e sobretudo depois da confirmação de que o cometa que hoje leva seu nome voltaria de 76 em 76 anos, aproximadamente – acreditou-se que todo o temor em relação aos cometas deveria cessar numa civilização racional e tecnologicamente desenvolvida. Em conferência no Collège de France, por ocasião da aparição do cometa de Halley em 1835, o astrônomo francês Jacques Babbinet (1794-1872) afirmou... Duvido muito que o cometa de Halley, em seu próximo retorno, em 1910, estimule ainda a imaginação popular. Infelizmente, o que ocorreu foi exatamente o contrário. Ao ser anunciado que a Terra atravessaria a cauda do cometa, uma onda de pânico se estabeleceu entre os povos de todo o mundo. Para agravar ainda mais o pavor, os astrônomos anunciaram a descoberta de cianogênio – gás mortífero – na cauda do cometa, alguns meses antes da passagem da Terra pela cauda, prevista para 18/19 de maio de 1910. À medida que se aproximava esta data, nos jornais de todo o mundo sucediam-se as mais alarmantes notícias provenientes dos EUA e da Europa, informando que os gases letais da cauda provocariam o extermínio de toda a população do globo terrestre, bem como a própria destruição do planeta. Também no Brasil se temia o fim do mundo, apesar do artigo do astrônomo francês Camille Rammarion (1842-1925), que desmentia a possibilidade dessa catástrofe, ter sido publicado em jornais cariocas. O próprio Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional, procurou esclarecer à população em artigos no Jornal do Commercio. Tudo em vão. No dia 18 de abril, por exemplo, a cidade parou para observar o cometa que, à luz do dia, aparecia ameaçador nos céus cariocas. Os jornalistas subiram o Morro do Castelo à procura dos astrônomos. Estes informaram que o astro visível era o planeta Vênus, próximo de seu máximo brilho. No dia seguinte, no Correio da Manhã, um jornalista concluiu: E aí está como a deliciosa Vênus embrulhou o rabudo Halley. Astúcias de mulher! No entanto, apesar dos equívocos e subseqüentes ironias jornalísticas, a passagem do Halley pela Terra em 1910 foi a mais espetacular do século. Realmente, nosso planeta atravessou a cauda do cometa, porém sem maior efeito que uma fraca luminescência no céu. Os astrônomos brasileiros Morize (1860-1930) e Costa (1882-1956) registraram suas impressões e determinaram a posição precisa do cometa em 1910, no morro do Castelo – atual Esplanada do Castelo –, onde estava instalado o Observatório Nacional do Rio de Janeiro. Esse cometa foi reobservado em 1986, quando uma enorme propaganda anunciou-o como o cometa do século, apesar ter sido previsto que essa aparição seria mais desfavorável do que a anterior. De fato, em 11 de abril de 1986, quando se deu sua aproximação máxima em relação ao nosso planeta, o cometa se encontrava à distância de 63 milhões de quilômetros, quase três vezes superior à distância mínima na passagem anterior – 23 milhões do quilômetros em 19 de maio de 1910.

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Sabe-se que a cauda de um cometa alcança a sua maior extensão no periélio – menor distância do Sol –, quando a atividade solar, agindo sobre o envoltório gasoso do núcleo, produz um aumento do seu brilho. Assim, é depois da passagem pelo periélio que os cometas se tornam mais belos e luminosos. Mas essa situação dura pouco: à medida que o cometa se afasta do Sol, começa a perder o brilho e sua cauda vai se reduzindo. Ora, em 1910 o cometa esteve próximo da Terra cerca de um mês depois do periélio – 10 de abril de 1910; em 1986, ele só esteve próximo da Terra em abril, dois meses depois do periélio – 9 de fevereiro de 1986. Por isso a passagem de 1986 foi muito inferior, em beleza, à do início do século. Além de sua posição e do brilho reduzido em relação à aparição de 1910, o marketing e o sensacionalismo da mídia, estimulados por alguns astrônomos, contribuíram para provocar uma grande decepção junto ao público leigo. Na realidade, a importância da passagem de 1986 estava na qualidade dos resultados que poderiam ser – e foram – obtidos com os sofisticados experimentos conduzidos pelas sondas espaciais russas, japonesas e européia. Como se esperava, elas foram incomparavelmente superiores às observações realizadas com telescópios convencionais. O grande espetáculo de 1986 foi dado pelos jornais e canais de televisão, através da divulgação das imagens geradas por cinco sondas espaciais: duas japonesas – planeta A e MS-T5 –, duas soviéticas – Vega 1 e 2 – e uma européia – Giotto. Enquanto as sondas Vega 1 e 2 passaram em 6 e 9 de março de 1986, respectivamente, a 8.890 e 8.030km do núcleo do Halley, obtendo imagens de baixa resolução através de câmaras de televisão equipadas com teleobjetivas especiais, a Giotto passou, em 14 de março de 1986, a 605km, transmitindo imagens do núcleo e da cabeleira interna do cometa, por intermédio de uma câmara de varredura construída para a ocasião. As imagens soviéticas revelaram que o núcleo possuía a forma irregular de uma batata com 14km de comprimento, 7,5km de espessura e 7,5km de largura. Nessas imagens, o núcleo se apresentou muito escuro, com um poder refletor da ordem de 4%, em oposição à idéia de que o núcleo fosse muito brilhante por ser constituído de gelo em sua maior parte. Na realidade, o seu solo parece revestido de uma camada de carbono que envolve o gelo subjacente. Além de muito irregular, sua superfície apresentava colinas e vales, assim como estruturas anulares de 500 metros – verdadeiras crateras por onde escapavam jatos de gases e poeiras. Presumia-se que o núcleo, ao ser aquecido pela radiação solar, liberasse rajadas de matérias que alimentavam a cabeleira. Dessas emissões, limitadas ao hemisfério iluminado pelo Sol, só nove jatos foram detectados. Apesar disso, novos modelos do interior do núcleo devem ser elaborados. O núcleo observado pelas sondas se apresentou muito poroso, pelo menos em determinadas regiões, com uma densidade média compreendida somente entre um décimo e um quarto da densidade do gelo. No estudo das emissões do núcleo, como se previa, verificou-se que os jatos eram dominados (80%) pelo vapor d'água. Na passagem da Giotto, o cometa emitia cinco vezes mais gás do que poeira. A produção gasosa foi estimada em 20 toneladas por segundo.

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Antes da passagem das sondas acreditava-se que a poeira liberada pelo núcleo era semelhante à dos meteoritos rochosos, como os condritos carbonáceos. As análises forneceram resultado muito diferente: algumas poeiras apresentam composição próxima à dos silicatos terrestres e outras são constituídas principalmente de carbono (C), hidrogênio (H), oxigênio (O) e nitrogênio (N), donde a sigla CHON empregada para designá-las. Outra surpresa foi a abundância de partículas muito pequenas, com massa de 10-17 gramas. As sondas permitiram finalmente um estudo minucioso da interação do cometa com o vento solar: a um milhão de quilômetros do núcleo, a Giotto já começou a registrar uma nítida perturbação no vento solar provocada pelo cometa. Depois de haver atravessado a cabeleira, os fluxos de poeira se tornaram menos homogêneos do que o previsto. A observação astronômica na superfície da Terra, apesar de toda a evolução tecnológica nesse intervalo de 76 anos, não conseguiu competir com as imagens das sondas. No início do século, poucos ousariam imaginar sondas interceptando o Halley. E, seguramente, os avanços serão muito superiores em 2061, data da próxima aparição. Talvez seja possível observar o cometa mesmo em sua posição mais afastada da Terra, nos limites do sistema solar. Em 1910 foram os telescópios. Em 1986, as sondas. Como será no Terceiro Milênio?”
Fonte: MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Pavor e fascínio da cauda do Halley. O Globo. Rio de Janeiro, n. 5, 20 jun. 1999. Globo 2000, p. 106.

4.4 – Verdade

A conceituação de verdade transita entre dois pólos • • as limitações a nós inerentes; a complexidade natural do universo.

Embora possa parecer que esteja sempre aberto o canal que nos sintoniza ao universo por mais que nos dediquemos a desvendar os mistérios desse universo, o conhecimento resultante desse processo é efêmero. Dessa forma, o universo, em sua totalidade, com toda a complexidade que encerra, jamais poderá ser captado em sua plenitude. O que é verdade? Podemos propor verdades definitivas? Como determinar o que é verdade, cientes de nossas limitações? Como determinar o que é verdade em universos extremamente complexos? Douglas Naegele Barbiratto 69 donabitto@hotmail.com

Metodologia de Pesquisa A rosa de Hiroxima “Pensem nas crianças mudas telepáticas. Pensem nas meninas cegas inexatas. Pensem nas mulheres rotas alteradas. Pensem nas feridas como rosas cálidas”. “Mas oh não se esqueçam da rosa, da rosa de Hiroxima A rosa hereditária A rosa radioativa, estúpida, inválida”. “A rosa com cirrose. A anti-rosa atômica. Sem cor, sem perfume. Sem rosa, sem nada”.

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Fonte: MORAES, Vinícius de. A rosa de Hiroxima. [S.l.: s.n.], 1946.

4.4.1 – Definição de Verdade

O que é então a verdade? Verdade é um momento em que conseguimos descrever e expressar uma faceta da realidade. Verdade é um momento em que há uma conjunção entre aquilo que expressamos e aquilo que a realidade manifesta. Verdade é um momento marcado por restrições, já que, por não conseguirmos aprender a totalidade da realidade, nunca conseguimos plenamente expressá-la.

4.4.2 – Erro

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Além de as verdades serem efêmeras e contestáveis, julgamentos errados podem ser feitos. Levados por falsas evidências, podemos emitir juízos precipitados que não correspondem à realidade. O erro, como julgamento falso do real, resulta com maior freqüência: • • • das atitudes precipitadas; do conhecimento parcial da realidade; do uso de instrumentos inadequados.

Temos aí o erro. Ao tentarmos descrever a realidade, podemos apreender os fenômenos/eventos tais como eles são ou apenas uma fração do que eles realmente significam. Da adequação ou inadequação de nossos julgamentos sobre a realidade é que resulta, em essência, a verdade ou o erro.

Escritos de Lacan: a Ciência e a verdade O status do sujeito na psicanálise, diremos que temos criado no ano passado? Chegamos ao fim de estabelecer uma estrutura que lhe dá o estado de divisão, na qual o psicanalista Spaltung ocorre em sua práxis. Esta divisão é detectada em um pouco por dia. Os apoios na base, uma vez que já só por reconhecer o inconsciente o suficiente para motivá-los, e uma vez que também te envolve, se eu posso falar, com sua demonstração constante. Mas você sabe o que acontece com a sua prática, ou apenas para a sua realização em conformidade com o que está acessível, não o suficiente para que essa divisão é para ele um fato empírico, mesmo o fato empírico de que se formou no paradoxo . Alguma redução é necessária, às vezes a realização de comprimento, mas sempre decisivo para o nascimento de uma ciência que está se reduzindo seu objeto. Epistemologia é o que está a definir em cada caso, como em outros lugares, sem ser mostrado aos nossos olhos, pelo menos, na altura da sua tarefa. Bem, eu não conheço nenhum plenamente realizado por este meio que a mutação crucial, por meio da ciência física fundamental no sentido moderno, ou seja, torna-se absoluto. Este ponto de vista da ciência é justificada por uma mudança radical no estilo de seu ritmo de progresso, como o inmixión desenfreada em nosso mundo de reações em cadeia que caracterizam o que chamamos de expansão de sua energia. Por tudo o que nós pensamos que é uma mudança radical em nossa posição de sujeito, no duplo sentido de estar lá de abertura e reforça a ciência cada vez mais. Koyré nosso guia está aqui e é conhecido por ser ainda pouco conhecido.

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Até agora eu não ter dado a passagem refere-se a vocação da ciência da psicanálise. Mas isso poderia ser visto como um segmento que fiz no ano passado algum tempo no assunto que eu considero como um complemento essencial da ciência: um momento histórico definido que talvez nós tenhamos que saber se estritamente experiência repetível, que Descartes inaugura e chamado cogito. Essa correlação, como agora, a garganta é uma rejeição de todo o conhecimento, mas pretende estabelecer uma ligação certa para o assunto a ser, o que para nós é o sujeito da ciência Ia, na sua definição, um termo que deve ser tomada no efeito porta estreita. Esta discussão não está nos guiou em vão, já que teve de fazer no final do ano a nossa divisão experimentada do sujeito, como uma divisão entre a saída e a verdade, incluindo a apresentação de um modelo topológico, a fita de Moebius, o que sugere que não é uma distinção de origem, que deve vir a partir da divisão em que as duas palavras vêm a convergir. Você confia em termos de Freud na técnica de leitura que tive de impor, quando foi simplesmente substituir cada um dos seus termos em seu calendário, você sabe Ichspaltung traçada a partir da morte em que o abade a mão itens sobre o fetichismo (1927) e perda da realidade (1924), para verificar os que retocarem a chamada doutrina não introduzir o segundo tema, nos termos do Ich, o überich, incluindo a certificação do equipamento não é mas um retorno à experiência como uma dialética que é definida como a melhor maneira que o estruturalismo pode agora desenvolver-se naturalmente: a saber, o sujeito eo objeto tomado em um componente dividido. Depois que o princípio da realidade perde a discordância que marca em Freud se deve, por uma justaposição de textos, divididos entre uma noção da realidade que inclui a realidade psíquica e que torna o correlato do sistema de percepção consciente . Deve ser lido como ele realmente significa: conhecer a linha de experiência que o sujeito da ciência sancionada. E basta pensar do mesmo modo que seu campo imediato destas reflexões que são proibidos por demais óbvios. Por exemplo, é impensável que a psicanálise como uma prática que o inconsciente, Freud, como a descoberta tivesse ocorrido antes do nascimento, no século que tem sido chamado de gênio do século, XVII, ciência, tendo tudo isto no sentido indicado anteriormente, o que significa que certamente não apagar o que foi instituído sob este nome antes, mas apenas para descobrir que o seu arcaísmo, puxando a linha para você de uma maneira que melhor mostra a sua diferença qualquer outro. Uma coisa é certa: se o sujeito está realmente lá, no cerne do litígio, qualquer referência humanista torna-se supérflua, uma vez que é o caminho que se fecha. Nenhum objetivo, ele disse que esta descoberta da psicanálise e de Freud, nesse acidente é porque os seus pacientes veio a ele em nome da ciência e do prestígio conferido pelo final do século XIX aos seus servidores, incluindo menor grau, Freud, assim, conseguiu criar a psicanálise, descobrindo o inconsciente.

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Dizemos, ao contrário do popular bordado em alegada violação de Freud, o cientista de seu tempo, o que é que os próprios cientistas se pretendem designar, em sua fidelidade aos ideais de Brücke, por sua vez transmitiu ao pacto um Helmholtz e Du Bois-Reymond se comprometeram a entrar na fisiologia e funções do pensamento considerado como incluído no em termos de termodinâmica matematicamente certa ligada à sua quase completa, no momento, o que levou Freud como evidenciado por seus escritos, para abrir a estrada que leva seu nome para sempre. Dizemos que esse caminho nunca está fora dos ideais do cientista, como eles chamam, e que a marca que diz que não é contingente, mas ainda é essencial. Essa é a marca que manteve o seu crédito, apesar dos desvios que tenham sido pagos, e que na medida em que Freud se opôs a tais desvios, sempre com segurança, sem hesitação e intransigente rigor. Prova de que a sua ruptura com o seu mais prestigiado adepto, Jung especificamente, apenas escorreguei em algo cuja função não pode ser definida como a tentativa de restaurá-lo como um sujeito dotado de fundo, este último termo no plural, o que significa um sujeito composto de uma relação com o conhecimento, chamada relação arquetípica que não iria ser cortado a ciência moderna, que permite a exclusão de qualquer outro, que nada mais é do que a relação que definiu no ano passado como oportuna e fading, que a relação com o conhecimento que seu tempo de abertura historicamente tem mantido o nome do cogito. Nesta origem indubitável, evidente em todos os trabalhos de Freud, a lição para nós, como chefe da escola, é o marxismo, que tem alcance e não conheço nenhum marxista que mostrou que para colocar alguma ênfase, desafiar o seu pensamento em nome de seus laços históricos. Eu quero dizer especificamente: a sociedade da monarquia dual, pelos limites judaizantes em que Freud se limita a sua aversão espiritual, com a ordem capitalista que determina o seu agnosticismo político (que de você, vamos escrever um ensaio digno de Lamennais, indiferença na política?) acrescentar: com a ética burguesa, em que a dignidade da vida é a de inspirar um respeito cheio inibir a função do seu trabalho é feito, se não o mal-entendido e confusão, o ponto de encontro dos homens de verdade só nos resta, o agitador revolucionário, o escritor que com seu estilo marca na língua, eu sei quem eu estou pensando, que pensa ser a renovação e cujo precursor nós . Você sentir a adrenalina que me surgiram a partir de tantas precauções tomadas para se referir a seus psicanalistas certezas, pelo menos discutível. Ainda tenho que voltar nele ainda, mesmo à custa de alguma prolixidade. Dizer que o assunto sobre o qual operamos em psicanálise só pode ser o sujeito da ciência pode parecer paradoxal. É aí que se você tomar uma fronteira sem a qual tudo é misturado e desonestidade começa uma chamada em outros lugares objetivo, mas falta de coragem e falta de ter detectado a fenda objeto. De nossa posição de sujeito somos sempre responsáveis. Chame-lhe o terrorismo onde quiserem. Eu tenho o direito

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de sorrir, não vai ser em um ambiente onde a doutrina é abertamente para as empresas que não fazer um medo obscuro que o erro de boa fé, entre todo o mais imperdoável. A posição psicanalista não deixa escapar, pois exclui a ternura da “bela alma”. Se este é também um paradoxo que talvez seja também o mesmo. Tudo o que eu argumentar que a tentação de qualquer tentativa, ou mesmo na teoria atual, que continua a ocorrer, além de encarnar o assunto é errante, sempre fecunda em erro e, como tal mal. Então, encarnado no homem, que retorna com ela para a criança. Então, este homem vai estar lá o original, que distorcem todo o progresso primário, assim como a criança o papel de subdesenvolvido, que mascaram a verdade do que acontece durante a infância, original. Em suma, o que Claude Lévi-Strauss foi denunciada como ilusão arcaica em psicanálise é inevitável não se manteve firme uma teoria sobre o princípio dissemos anteriormente: que é apenas um assunto é recebido como tal, quem pode fazer ciência. É o suficiente para mostrar que nós não acreditamos que a psicanálise mostra aqui qualquer privilégio. Não há ciência do homem, que deve ser entendida no tom mesmo a que não haja pequenas poupanças. Não há homens de ciência Dei, porque os homens da ciência não existem, mas apenas sob o seu. É bem conhecida a minha aversão habitual para o recurso das humanidades, que parece ter chamado a si mesmo da escravidão. É também o prazo é falso, ignorando a psicologia descobriu os meios para sobreviver nos serviços prestados à tecnocracia, ou mesmo como conclui com um humor verdadeiramente sensacional swiftiana um artigo Canguilhem: a deslizou de slide do cemitério para a Delegacia de Polícia. Assim, é ao nível da seleção de artistas no domínio da ciência, o recrutamento de investigação e de manutenção, onde a psicologia irá encontrar o seu fracasso. Como para todas as outras ciências desta classe, você vai ver facilmente que não são da antropologia. Levy Bruhl Examine e Piaget. Seus conceitos, chamada mentalidade pré-lógica, pensamento ou discurso supostamente auto-centrado, não, mas a referência alegada mentalidade, o pensamento arrogante, o próprio discurso do sujeito da ciência, não dizem que o homem de ciência. Assim também estão conscientes de que os limites, certamente pensou mentalmente fraco, provavelmente, o próprio discurso, um pouco confuso, o homem da ciência (que ainda está diferente) é para impedir essas construções, certamente não desprovido de objetividade, mas não estou interessado na ciência apenas na medida em que não contribuem em nada no mage, por exemplo, e pouco sobre magia, mas algo sobre suas músicas, e mesmo essas faixas são de um ou outro porque é Lévy-Bruhl que traçou o balanço, enquanto que no outro caso é mais grave: que não acrescentam nada à criança, pouco sobre o seu desenvolvimento, uma vez que falta o essencial, e que mostra a lógica, quero dizer que a criança de Piaget, Na sua resposta a um conjunto, cujo número é a prova, nada mais do que sua afirmação de que ele presidiu de ensaio, ou seja, o homem de ciência, onde a lógica, não nego que, ocasionalmente, manteve o seu preço.

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Ciência muito mais válida, mesmo se o seu título deve ser revisto para verificar se a ilusão proibida arcaica que se pode generalizar o termo de psicologização do sujeito, não trava de forma alguma a sua fertilidade. Exemplo disso é a teoria dos jogos, melhor estratégia de chamada, que tem o caráter de um assunto completamente calculável estritamente reduzida à fórmula de uma matriz de combinações significativas. O caso da língua é mais sutil, uma vez que deve integrar a diferença de formulação e enunciação, que é certamente o impacto que este momento do sujeito falante como tal (e não o sujeito da ciência). Então vai concentrar em outra coisa, ou seja, a bateria significante, a prevalência de efeitos significativos sobre aqueles que procuram garantir. Também é eficaz nesse lado onde estão as contradições, que são analisadas de acordo com o extremismo da posição na seleção do objeto. O que se pode dizer é que ela vai longe demais ao desenvolvimento dos efeitos da linguagem, pois ela pode ser construída sobre uma estética que nada deve à referência ao espírito do poeta, nem a sua encarnação. É ao lado da lógica, onde as taxas de contração são diferentes da teoria em relação ao sujeito da ciência. Eles são diferentes para o léxico de morfema sintático e sintaxe da frase. Se as diferenças teóricas entre Jakobson, Hjelmslev e um Chomsky. É a lógica aqui que enche o escritório do umbigo do sujeito, e como a lógica não é lógico, de qualquer modo ligados às contingências de uma gramática. Deve-se, literalmente, a formalização da gramática de um desvio em torno de que a lógica de se estabelecer com sucesso, mas o movimento do rebanho é registrado no mesmo estabelecimento. Indicamos mais tarde como a lógica moderna é colocada (terceiro exemplo). É inegável o resultado de uma tentativa estritamente determinado a sutura o sujeito da ciência, e mostra último teorema de Gödel que falha, o que significa que o assunto continua a ser a relação da ciência, mas como uma antinomia correlacionar ciência é mostrado definido pelo esforço bem-sucedido não ser fechado. Aqui você ganha a marca não deve ser desperdiçada estruturalismo. Entre em qualquer ciência humana “entre aspas, que conquista um sujeito muito especial, para a qual não encontramos um índice que não é topológico, dizem que o gerador de sinal de banda de Moebius que chamamos de interior oito. O assunto é, por assim dizer, em exclusão interna do assunto. Pertencente ao trabalho de Claude estruturalismo de Lévi-Strauss se manifesta só será aqui na nossa tese está feliz agora com a periferia. No entanto, é evidente que o autor afirma o melhor a extensão da classificação selvagem natural no mundo, especialmente com o conhecimento da fauna e da flora, como ele aponta, além de nós, como pode-se argumentar sobre alguma recuperação, que foi anunciada em química, física, de sabor

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e aroma, em outras palavras, uma correlação de valores perceptual com uma arquitetura de moléculas a que chegamos por meio de análise combinatória que contrário da matemática do significante, como em toda a ciência até agora. Sabendo que certamente aqui separado do sujeito como a linha correta, que não levanta hipóteses sobre o fracasso de seu desenvolvimento, que de outra forma seria muito difícil de provar. Há mais: quando Claude Lévi-Strauss, após a remoção do latente combinando as estruturas elementares do parentesco, atesta que a referida comunicação, para usar o termo de etnólogos, é perfeitamente capaz de desenhar o seu próprio levistraussiano gráfico, o que ele diz, mas também atraídos para o assunto em questão de análise combinatória, que em seu gráfico não tem existência denotação que o ego? Ao demonstrar o poder do dispositivo é analisar as mudanças mitema mitogênica, que, nesta fase, parece ser estabelecida em uma sincronicidade que é simplificado por sua reversibilidade, Claude Levi-Strauss não pretende se render a natureza da mitante. Aqui só sabe que seu informante, mas é capaz de escrever o cru e o cozido, exceto para o gênio que coloca a sua marca, embora não possa fazer sem sair do armário, que está no Museu do Homem, enquanto um número de instrumentos cirúrgicos, posto de outra forma ritual, que estabelecem a existência de um sujeito como mitante e sem que este depósito é rejeitada fora do campo da estrutura, que em outra gramática chamou o seu parecer favorável. (A la Grammaire de l’assentiment ["gramática do assentimento"] Newman, não força, não falta, embora tenha sido forjado para fins abomináveis, e talvez eu tenha de mencioná-lo novamente.) O objetivo do mitogênico, portanto, não vinculados a qualquer desenvolvimento, ou detenção, a pessoa responsável. É com este tema com o qual se relaciona, mas com o sujeito da ciência. E o gráfico será mais bem sucedido quanto mais próximo é o informante de reduzir a sua presença para o sujeito da ciência. Acho apenas que Claude Lévi-Strauss reservas sobre a inclusão na coleção de documentos, questionando inspirada pela psicanálise, seguido por uma coleção de sonhos, por exemplo, tudo o que vai alimentar a relação transferencial. Porque, se nós afirmamos que a nossa prática, longe de alterar o sujeito da ciência que só pode e quer saber, não prevê qualquer intervenção de direito que não tendem a ser realizada com sucesso, especialmente no campo Interessado? Será que isso significa, então, que um assunto não está saturado, mas calculável, que subsume o objeto, de acordo com as formas da epistemologia clássica, o corpo seria chamada ciência conjectural, que eu mesmo oposição ao termo das humanidades? Eu acho que o menos indicado que este tema como parte da situação que torna a ciência como um todo. A oposição das ciências exatas para as ciências não pode ser sustentada conjeturais desde o momento em que a conjectura é suscetível a um cálculo exato (probabilidade) e que a exatidão não é baseada apenas em um formalismo que separa os axiomas e as leis do agrupamento símbolos.

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No entanto, não poderia se contentar em observar um formalismo que tem, mais ou menos, bem sucedidas quando se trata, em última instância motivar seus vestir que não surgiu por milagre, mas é tão eficaz quanto renovada crise já parece ter encontrado neles uma segmento em linha reta. Vamos repetir que existe algo no estatuto do objeto da ciência que parece não elucidado já que a ciência nasceu. E lembre-se que, embora certamente levantar a questão agora, o objeto da psicanálise é revisitar a questão que temos feito desde nossa chegada a esta tribuna, a posição da psicanálise dentro ou fora da ciência, temos também indicou que o assunto não seja resolvido mas, sem dúvida, mudou a questão da objetividade na ciência como tal. O objeto da psicanálise (note a minha cor e você vê-lo chegar a ele), não é outro senão o que já foi avançado o papel que desempenhou no objeto a. “Conhecer o objeto a ser então a ciência da psicanálise? É precisamente a fórmula que procura evitar, já que o objeto a ser inserido, como sabemos, na divisão de onde o sujeito está estruturado em particular, que é onde nós começamos hoje, o campo psicanalítico. Por isso, foi importante para promover em primeiro lugar, e como um fato que deve ser distinguida da questão de saber se a psicanálise é uma ciência (se o campo é científico), o fato de que sua prática não significa que um outro assunto, mas da ciência. Deve ser reduzida a tal ponto que me permite ser induzida por uma imagem de abertura Ia sujeito da psicanálise, para captar o que ele recebe da verdade. Essa tendência, já deve ter adivinhado, envolve uma sinuosidade que tem algo de domesticação. Este item não está tranqüilo, ou deveríamos antes dizer: nós não podemos deixá-los quietos? e menos de um para aqueles que têm mais a ver com isso: Psicanalistas, que seria, então, aqueles que buscam eletivo em um ponto do meu discurso. É verdade. O ponto em que eu dei entrevista hoje, sendo um onde saiu no ano passado: a divisão do assunto entre a verdade eo conhecimento, é para eles um ponto familiar. É que, quando Freud convidá-los sob a chamada de: Wo Es war, soll Ich warden eu voltar para traduzir, mais uma vez acentuando aqui: onde ele estava vindo aí que eu me sujeito. Mas neste ponto eu mostro o tomando-o estranheza para trás, o que está aqui e não em trazê-los de trás para frente. Como ele estava sempre à espera de um negro ser viria a ser agregada a um derrame, mas não é desenhada de forma mais acentuada divisão do que eu posso saber sobre ele? É apenas em teoria, o que levanta a questão da dupla inscrição, ter causado a confusão na minha ex-aluno Laplanche e Leclaire poderia ter sido lido em sua própria divisão na forma de abordar o problema, sua solução. Não é em qualquer caso, Gestalt tipo, ou ser encontrada na placa onde a cabeça de Napoleão se encaixa na árvore. É simplesmente o fato de que a inscrição não terá o mesmo lado do pergaminho, provenientes da chapa de impressão de verdade ou conhecimento.

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Que essas entradas são misturadas deve ser resolvido simplesmente com a topologia: uma área em que o direito e as costas são em um estado para se juntar estava em toda parte na mão. No entanto, é muito além de um esquema intuitivo é estreito, por assim dizer, o analista em seu ser. Assim que esta topologia pode agarrar. Assim, se a outra parte, só pode ser uma fragmentação dos quebra-cabeças que você precisa em qualquer caso, ser reduzida a essa base. Portanto, é inútil repetir que na prova escrita: Eu acho que, “portanto eu sou”, com aspas em torno da cláusula segunda, lemos que o pensamento não é fundada apenas amarrar na palavra onde toda a operação está se aproximando da essência linguagem. Se a soma cogita nos é dado por Heidegger em algum lugar para os seus fins, é de notar que algebraizations a frase, e nós temos o direito de destacar o resto: cogito ergo, onde parece que nada é falado, mas confiando no caso. No entanto, esta causa é que as linhas da soll Ich, a fórmula freudiana I, que reverteu seu sentido, traz à tona o paradoxo de um imperativo que me insta a assumir minha própria causalidade. No entanto, eu não sou por causa de mim, e isso não porque a criatura. O mesmo se aplica ao Criador. Refiro-me sobre este ponto em seu De Trinitate Agostinho e no prólogo. A causa de Spinoza pode levar o nome de Deus. É outra coisa. Mas vamos deixar isso para as duas palavras que não vai jogar, mas acrescentando que é também aquele que a coisa toda, e que Deus, para não ser ainda um outro é o Deus do panteísmo. Você tem que captar no presente ego que Descartes acentuado pelo excesso do seu papel em alguns dos textos em latim (o tema da exegese deixo aqui para os especialistas), o facto é que ele pretende ser: sob a Deus religião. Curiosa queda de ergo, o ego é favorável a esta Deus. Estranhamente Descartes segue o movimento para preservar a ilusão de Deus, no qual é o seu parceiro para preservar a ponto de arrastar o privilégio exorbitante de não garantir as verdades eternas, mas sendo o seu criador. Esta comunidade de destino entre si e Deus, aqui mencionado, é a mesma de modo devastador profere contemporâneo de Descartes, Angelus Silesius abjurou em sua mística, e impõe a forma do dístico. Seria útil recordar que, entre aqueles que me acompanham, eu levei no apoio a estas aspirações, a Pilgrim Cherubic, levando-os na pista própria para a introdução do narcisismo como então segui meu caminho, o ano do meu comentário sobre o Schreber Presidente. Pode coxear-se nesse conjunto, é a passagem de beleza, mas você tem que apenas limp. E em primeiro lugar, disse que os dois lados não são sobrepostos.

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Então deixe-me sair de um momento para voIver de uma ousadia que foi a minha, e lembrando para não repeti-la. Em seguida, repeti-lo duas vezes, uma repetida poderia chamá-lo apenas no sentido de que este termo não significa que a mera repetição. Trata-se de “A Coisa freudiana,” o discurso que se lê um discurso segundo, por causa do tempo que ele tinha repetido. Entregue pela primeira vez (espero que esta insistência faz-nos sentir, na sua trivialidade, a repetição gera contrapé temporária), foi para um biógrafo vem me coloquei meu primeiro encontro com o que não tem escolha, mas para chamar o fundo no âmbito do mundo psicanalítico. Especialmente com um personagem cuja cultura e nível de responsabilidade responder ao exigido de um guarda-costas, mas pouco me importava, eu falei no ar. Ele queria simplesmente ser onde o centenário do nascimento de Freud ouvir a minha voz em sua homenagem. Isto não é para marcar o local de um lugar deserto, mas que rodeio, agora que o meu discurso. Que o caminho aberto por Freud não tem outro significado que retomei o inconsciente é a linguagem, que é agora admitida, já era para mim, como você sabe. Assim, em um movimento que desempenhou talvez um eco do desafio de Saint-Just elevar o céu conjunto com uma confissão pública de reunião a ser nada mais do que o que se passa à poeira, disse ele, “e que fala com você” , tive a inspiração que, vendo a maneira de Freud incentivou uma figura alegórica estranhamente e agitar com uma nova capa com nudez que leva a sair do poço, foi dar voz. “Eu, realmente, quero dizer…” e pomposidade continua. Pense na coisa inominável que você pode pronunciar estas palavras, que o ser da linguagem, ouvir como eles devem ser faladas no horror. Mas todo mundo coloca essa revelação que pode colocar. Deixe o drama sobre o seu crédito surdo, mas não menos ridículo, o tempo é preenchido com o texto que você vai encontrar o número 1 EvoIution L’psychiatrique 1956 sob o título: La Chose Freudienne. Eu não acho que, nesse horror que você tenha experimentado, devido à recepção bastante fria que dei o meu público repetidamente a transmissão do discurso, que reproduz o texto. Se era bom o suficiente para perceber a sua auto-valorização de seus olhos, sua surdez foi demonstrado neste particular. Não que a coisa (a coisa que está no título) terá chocado a platéia, não tanto como alguns dos meus companheiros bar naquele momento, eu quero dizer um bar onde passei, graças a eles pacientemente dez anos de convivência, narcisista ninharia para os nossos colegas naufrágio, com a compreensão jaspersiana malfeito e personalismo, com todas as dificuldades do mundo para nos salvar a todos que está sendo pintada com o alcatrão da liberal-alma para o coração. A coisa não é bem essa palavra, eu literalmente disse, não é simplesmente ir para estragar a felicidade do creme da unidade da psicologia, onde com certeza ninguém pensa objetivando?, Go!, Que confiou ? Nós pensamos que você estava na vanguarda do progresso, o homem. Você não vê um como ele é, e muito menos enfrentar filosófica embaixo das cobertas. Mas o suficiente. Para medir o equívoco em que conta, ao nível do meu público, então, vou tomar uma expressão que veio à luz mais ou menos na época, e poderia estar se

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movendo pelo entusiasmo que é: “Por que, diziam alguns, e que o tema continua a repetir-se, porque não dizer a verdade sobre a verdade? ” Isso demonstra quão vã estavam juntas minha fábula e pomposidade. Emprestar a minha voz para apoiar essas palavras intoleráveis: “Eu, realmente, quero dizer …” vai além da alegoria. Significa, simplesmente, tudo o que há de dizer a verdade, a única, ou seja, que não há metalinguagem (declaração de colocar todo o positivismo lógico), que nenhuma linguagem poderia ser dito sobre a verdade real, já que a verdade baseia-se no fato de que ele fala, e, uma vez que não tem outros meios para fazê-lo. É por isso que mesmo com o inconsciente, o que diz a verdade sobre o que é verdadeiro, é estruturado como uma linguagem, e que, quando eu ensiná-lo, eu digo a verdade sobre a Freud que foi capaz de sair, sob o nome de inconsciente, falar a verdade. Esta falta de verdade na verdade, você precisa de todas as quedas, que é a metalinguagem, em que ele tem de induzir em erro e, é claro, é propriamente o lugar de Uverdrängung, a repressão primária que atrai todos os outros, sem contar outros efeitos de retórica, para reconhecer que são apenas o sujeito da ciência. Assim, com efeito a contar com isso, usamos outros meios. Mas é fundamental que esses recursos aqui não pode estender a esse assunto. Seu lucro execuções, sem dúvida, o que está oculto. Mas, para cobrir esse ponto, há um verdadeiro viver na verdade, em vez de nomes, ou Freud, o meu, ou não porcaria de enfermeira molhada para ser cortado e testemunho indelével: a saber, uma verdade que o destino de todos é de rejeitar o seu horror, se não esmagar quando irrechazable, ou seja, quando um psicanalista, sob a escada rolante, cuja metáfora que usei ocasionalmente para recordar com uma outra boca para as pedras, quando necessário , também conhecido como mensagem. Talvez isso vá me julgar não ter encontrado justifica que se deslocam a questão que me preocupa, “Por que não dizer …?”, de alguém cuja inocência é questionável para o posto estava em casa no escritório de uma agência verdade e, portanto, têm preferido dispensar os serviços a serem envolvidos na mina, que não precisa de coralistas que sonho com sacristia … Se dissermos que precisamos saber outros tipos de conhecimento que a ciência, quando temos de lidar com a unidade epistemológica? E mais uma vez para trás do que é, que é de admitir que nós temos que dar em psicanálise que cada resposta certa o seu conhecimento? Este é o ponto de ruptura onde se depender do advento da ciência. Agora temos que fazê-los convergir, mas o sujeito da ciência. Pelo menos nos permitem, e ir além, a sua maneira: deixando-me sozinho com a Cosa discutir númeno, que eu acho que é liberada de repente, como se fala de uma verdade que tem pouco em comum com um númeno que, até agora como eu posso recordar a memória de qualquer razão pura, se fecha.

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Esta lembrança não é sem importância, uma vez que o médio vai servir a esta altura, você já viu me trazê-lo de um momento atrás. É a causa: a causa nenhuma categoria da lógica, mas também fazendo com que todo o efeito. A verdade como causa, não é, psicanalistas, se recusam a tomar a sua pergunta, quando é lá onde ele levantou a sua carreira? Se os praticantes para quem a verdade como tal é suposto ato, não é justo? Não se engane: em qualquer caso, é porque esse ponto é velado na ciência como você manter este lugar maravilhosamente preservado em que funciona como um vagrant esperança para acompanhar essa consciência coletiva, para as revoluções do pensamento. Lenin escreveu: “A teoria de Marx é poderosa porque é verdade” é o vazio deixado enormidade da questão que se abre a sua palavra: porque, se mudou para a verdade do materialismo, nas suas duas faces são apenas um histórico e dialético, por que sua teoria iria aumentar o seu poder? Responder pela consciência proletária e ação política marxista não parece suficiente. Pelo menos, é anunciada a separação de poderes entre a causa da verdade e do conhecimento como profissionais. Uma economia baseada na capital não conduz necessariamente à utilização como o poder da revolução, e a história parece necessitar de outros recursos além de uma dialética predicativo. Além desse ponto singular que não desenvolver aqui, e isso é que a ciência, se você olhar com cuidado, não tem memória. Esqueça as aventuras que ele nasceu, quando formado, caso contrário, a dimensão da verdade que a psicanálise oferece muito pratica aqui. Eu tenho que especificar, no entanto. Sabe-se que a teoria da física ou matemática, após cada crise que é resolvida no mesmo modo que o termo: teoria geral poderia de modo algum ser considerado o que significa a passagem para o geral, muitas vezes conservam a sua classificação como que generaliza, em sua estrutura anterior. Este não é o que dizemos. É o drama, o drama subjetivo custos cada uma das suas crises. Este drama é o drama dos sábios. Ele tem suas vítimas, nada indica que o destino está registrado no mito de Édipo. Vamos dizer que o problema não está completamente estudado. J. R. Mayer, cantor, não vou estabelecer um rolo de honra dos dramas que às vezes vêm à loucura onde vivem alguns nomes aparecem de repente quando eu acreditar que o drama do que acontece na psicanálise é exemplar. E aqui eu provar que eu não poderia incluir-se no Édipo, deixando de impugná-la. Você vê o programa que está estabelecido aqui. Nenhum bit fait para o revestimento. Mesmo antes vê-lo bloqueado. Eu prevejo que sabiamente, e hoje peço-vos a reconhecer a luz refletida a partir desta maneira de lidar com ele. Isso vai levá-los a outros campos que psicoanaIítico para reivindicar a verdade. Magia e religião, as duas posições de classe que se distingue da ciência, na medida em que foi situar-se a relação à ciência, ou diminuída como falsa ciência para a magia, como muito além de suas próprias fronteiras, ou mesmo em conflito verdadeiro para a

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ciência para a segunda: é preciso dizer, pois o sujeito da ciência, mais uma vez e são sombras, mas não para o sujeito que sofrem com o qual estamos lidando. Ele vai dizer aqui: “Nós somos. O que é que o sofrimento, mas um assunto do qual nós desenhamos nossos privilégios, e dá direito a seu IE intelectualizado? Vou deixar de responder a algo que eu encontrar em um filósofo recentemente coroado com a faculdade honras. Ele escreve: “A verdade da dor é a dor em si.” Nesta expressão de abandono, pelo domínio que explora hoje, voltar a dizer como a fenomenologia apresenta-se como um pretexto para o anti-verdade e do estatuto da União Européia. Agarrei-lo, mas para lhe fazer uma pergunta que os analistas: o que você faz, se é ou não afirmar que a verdade do sofrimento neurótico é ter a verdade como a causa? Eu proponho: Na magia deste ponto de vista que não deixa a nebulosidade na minha obediência científica, mas apenas uma definição estrutural. É responsável por uma resposta significativa ao significante como tal. O significante na natureza é chamado pelo significante do encantamento. A campanha mobilizou metaforicamente. A única coisa em que fala, responde às nossa repreensão. Assim, a ordem de classificação natural dos estudos que afirmam Claude Levi-Strauss deixou entrever na definição estrutural da ponte de correlação sobre o eficaz funcionamento é concebível, sob a mesma forma que ela foi concebida. Mas esta é uma redução que ignora o assunto. Todo mundo sabe que isso é essencial para indicar o assunto, xamanizante o assunto. Note-se que o xamã, por exemplo, a carne e o sangue, faz parte da natureza, e os assuntos da transação deve ser reduzida na sustentação do corpo. É, portanto, clipping, que está excluído do sujeito da ciência. Apenas seus correlatos estruturais na operação que você está situável, mas exatamente. Na verdade, é sob forma tão significativa como parece ser mobilizados na natureza: trovões e chuva, meteoros e milagres. Tudo foi ordenado aqui como relações antinomian é linguagem estruturada. O efeito da demanda, então tem que se perguntar lá para nós a idéia de verificar se eles podem encontrar a relação definida por nosso gráfico com o desejo. Só desta forma, que é discutido, e não uma abordagem para a utilização da analogia, aproximadamente, o analista pode ser qualificado com um a própria competência para dizer sobre magia. A observação de que a magia sexual tem sempre um preço aqui, mas não o suficiente para autorizá-la.

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Termino com dois pontos que merecem sua atenção: a magia é a verdade como causa sob o aspecto da causa eficiente. Sabendo que se caracteriza não só ser assegurada para o sujeito da ciência, mas disfarçado, como tal, tanto na tradição e no seu ato operatório. É uma condição de magia. Como eu digo sobre a religião é apenas indicar a mesma abordagem estrutural, e assim, momentaneamente, está em oposição de linhas de contorno dessa estrutura, que tem a sua fundação. Religião pode ser esperado para tomar ciência um status um pouco mais honesto? Durante algum tempo, há filósofos estranhos que dão as suas relações mais suaves definição, basicamente, considerou que se desenrolam no mesmo mundo, onde a religião é, portanto, vinculado posição. Quanto a nós, neste ponto delicado, que algumas pessoas pensam que para nos avisar da neutralidade analítica, podemos substituir o princípio de que ser amigo do mundo não é suficiente para preservar o local a partir do qual operam. Na religião, as estacas, a causa da verdade sobre o assunto, o tema religioso é entendido, é levado em uma operação completamente diferente. A análise do sujeito da ciência conduz necessariamente a fazer parecer que sabemos que os mecanismos da neurose obsessiva. Freud viu em um fulgurância de ter um objetivo que ultrapassa as críticas tradicionais. Pretender calibrar a religião não pode ser inadequado. Se você não pode começar a partir de observações como esta: que o papel da revelação em que se traduz como uma negação da verdade como causa, ou seja, recusando-se a cobrir o assunto é considerado como parte interessada, então há pouca chance dar o que é chamado de história das religiões quaisquer limites, isto é, algum rigor. Vamos dizer que Deus permite que a função religiosa da causa, mas que corta o seu próprio acesso à verdade. Então, ele é levado a se referir a Deus a causa de seu desejo, que é o próprio objeto do sacrifício. Seu pedido está sujeito à vontade de um Deus, é claro, então você tem que seduzir. O jogo do amor vem por aí. A verdade religiosa instalado aqui em um estado de culpabilidade. Segue-se uma desconfiança do saber, o mais sensível para os Padres da Igreja, mais dominante, como mostrado à direita. A verdade é referida que para uma vocação escatológica, ou seja, aparece apenas como uma causa final, no sentido de que seja transferido para uma visão do mundo. Daí a utilização obscurantista umidade penetrante científica do efeito. Notei, de passagem, o quanto temos a aprender sobre a estrutura da relação do sujeito com a verdade como uma causa na literatura dos Padres, mesmo na rápida tomada de decisões conciliares. Racionalismo pensamento teológico organizado não é de modo algum, como ele imagina o nivelamento, uma questão de fantasia.

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Se a fantasia é no sentido mais estrito de uma instituição que cobre a verdadeira realidade. Nós não pensamos em todos os inacessíveis a um tratamento científico que a verdade cristã tem sido através da insustentabilidade do desenvolvimento de um Deus uno e trino usa a Igreja para tão boa desânimo de pensamento. Antes de se acentuar tais impasses de mistério, é a necessidade de sua articulação do que é saudável para a mente e para ser medido. As questões devem ser tomadas no nível em que as falhas dogma contra as heresias da questão Filio que parece ser, em termos topológicos. A prisão estrutural deve ser a primeira e é a única que permite uma avaliação precisa do papel das imagens. O De Trinitate é aqui todos os personagens de uma obra de teoria e pode ser tomado por nós como um modelo. Se não fosse assim, eu aconselho meus alunos vão estar expostos a um encontro com uma tapeçaria do século XVI, que será aplicada no olho, na entrada para a exposição do mobiliário nacional, onde o esperado, ainda implantados por um ou dois meses. Três pessoas presentes em uma conversa identidade absoluta entre elas com uma facilidade perfeita nas margens cool da Criação, é simplesmente constrangedora. E o que uma máquina escondido tão bem feito, quando acontecer de você estar diante de um par de Adão e Eva no auge de seu pecado é, certamente, de uma natureza a ser proposto em um exercício de imaginação, das relações humanas ordinariamente além da dualidade. Mas, meus ouvintes para armar-se antes de Agustin … Então olhe, mas não define características das religiões na tradição judaica. Sem dúvida eles são feitos para demonstrar o seu interesse e conforto que tive de dar o link para o estudo da Bíblia a função do Nome-do-Pai. O fato é que a chave é a definição da relação do sujeito com a verdade. Eu poderia dizer que na medida em que Claude Lévi-Strauss vê o budismo como uma religião do tema geral, ou seja, envolvendo uma causa diafragmatizacão de verdade, infinitamente variável, que lhe faz o elogio da Utopia visão coerente com o reino universal do marxismo na sociedade. Talvez isso esteja fazendo muito pouco para atender as demandas do sujeito da ciência, e confiando demais em situação de emergência na teoria de uma doutrina da transcendência do assunto. Ecumenismo não parece encontrar as suas oportunidades, mas na base do recurso para os pobres de espírito.

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No que diz respeito à ciência, não posso dizer que é o que parece ser a estrutura das suas relações com a verdade como causa, uma vez que o nosso progresso deste ano deverá contribuir. Iremos abordar a observação estranho que a prodigiosa fertilidade de nossa ciência deve fazer em relação a esse aspecto em que a ciência diria: que a causa da verdade não gostaria de conhecer nada. Reconhece-se aqui a fórmula I do Verwerfung ou impedimento, o que viria a juntar-se aqui de uma série fechada de Verdrängung, repressão, Verneinung, negação [denegação], cujo papel na magia e da religião para reconhecê-lo passado. Sem dúvida que temos dito sobre as relações da Verwerfung com a psicose, especialmente no que Verwerfung do Nome-do-pai, aparentemente, vêm aqui para se opor a esta tentativa de detecção estruturais. No entanto, percebe-se que uma paranóia de sucesso também aparecem como o fechamento de ciência, a psicanálise se você fosse chamado a desempenhar esse papel, se por outro lado, reconhece-se que a psicanálise é essencialmente o que reintroduziu em consideração científica o Nome-do-Pai, mais uma vez encontrar aqui o mesmo impasse aparente, mas dá a impressão de que este impasse está a progredir, e pode ser desvinculada quiasma em algum lugar que parece impedi-lo. Talvez o ponto atual que é o drama do nascimento da psicanálise, e astúcia que ele se esconde para fazer o divertimento de entendimento astúcia dos autores, deve ser tido em consideração aqui, porque não fui eu quem introduziu a fórmula paranóia alcançados. Sem dúvida, vou ter que indicam que o impacto da verdade na ciência, porque deve ser reconhecida sob o aspecto da causa formal. Mas será para esclarecer que a psicanálise, assim, acentuar sua aparência em vez de causar material. Isso deve ser considerado como originalidade na ciência. Este material é propriamente o caso de impacto de forma significativa, o que eu definilo. Na psicanálise, o significante é definido como agir primeiramente como separar o seu significado. Este é o traço de caráter literal copulatório especificando o significante, o falo, onde decorrem os limites da maturação biológica do sujeito, impressa em vigor, livre para ser o sinal para representar o parceiro sexual existente, ou seja, seu sinal biológico; Recall nossas fórmulas que distinguir o significante e o signo. É manifesto o suficiente, de passagem, que, em psicanálise, a história é uma dimensão diferente de desenvolvimento, e aberração está tentando reduzi-la. A história continua, mas não recuo de desenvolvimento. Ponto de que a história como uma ciência talvez possa levar vantagem, se você quiser escapar da ameaça sempre presente de um desígnio providencial em andamento.

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Em suma, vamos encontrar aqui o sujeito do significante como no ano passado articulada. Transportado pelo significante em sua relação com o desenvolvimento de outros, devem tanto o indivíduo gravemente distinguir-se de significativas biológica e psicológica de todos os subsumido como um objeto de compreensão. É, em termos mais baixo, o papel atribuído à linguagem na teoria. Parece compatível com o materialismo histórico que deixa um vácuo lá. Talvez a teoria do objeto a encontrar o seu lugar lá. Essa teoria do objeto é necessário, como veremos, para uma integração adequada da função, com conhecimento e para o tema da verdade como causa. Eles foram capazes de reconhecê-lo, de passagem, nos quatro modos de refração acaba de ser criado aqui, o mesmo número e uma analogia reparação nominal, que pode ser encontrado na física de AristóteIes. Não por coincidência, uma vez que já não fisicamente marcado pelo seu logicismo que ainda tem o conhecimento e a sabedoria de uma gramática original.
Fonte: LACAN, Jacques. “A ciência e a verdade”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

4.5 - Método

Embora nem sempre tenhamos consciência, todos nós, de alguma forma, conhecemos e utilizamos alguns tipos de métodos17 em diferentes situações de nosso dia-a-dia. Método é um conjunto de ações, deliberadas ou não, que nos permite: • • atingir um determinado objetivo alcançar um determinado resultado

Simples e corriqueiros, muitos métodos nos definem uma seqüência de operações necessárias à obtenção de um determinado objetivo. Com freqüência, realizamos tais operações tão automaticamente que não temos consciência delas nem da seqüência em que foram executadas. Sabemos, entretanto, que, se algumas dessas operações não forem realizadas ou se essa seqüência não for respeitada, não chegaremos aonde desejamos.

17

Processo ou técnica pelo qual se atinge um objetivo. Ter método consiste em seguir regras. Uma regra aponta para uma ação a ser desencadeada ou para um comportamento a ser assumido. É necessário ainda que tal regra esteja associada à ideia de eficácia. Por meio dessas regras, pode-se também representar, com uma certa invariabilidade, a relação entre uma situação e um fim para o qual se tem uma resposta determinada.

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4.5.1 – Valor do Método

O método é o instrumento básico para a produção de conhecimentos. Por meio do método, traçamos, de forma racional e ordenada, nosso modo de proceder para atingir um objetivo preestabelecido. No campo tanto da ciência pura18 quanto da ciência aplicada19, o método – método científico20 – implica utilizar adequadamente a reflexão e a experimentação. A reflexão e a experimentação são evidenciadas em um conjunto ordenado de seqüências operacionais, essencial ao processo de investigação, imprescindível à produção de conhecimentos.

4.5.2 – Metas e Objetivos

Se a meta da atividade científica é, por meio da comprovação de hipóteses, explicar a realidade é o método científico que irá nos permitir, com segurança e economia, alcançar nossos objetivos. • • • • • Nossos objetivos devem envolver: Conhecimentos válidos e verdadeiros; Sinalização do caminho a ser seguido; Identificação de nossos erros; Pistas para a tomada de decisões.

Modalidade da ciência cujo interesse é a resolução de problemas mais gerais, sem um objetivo muito delimitado e, geralmente, sem nenhuma aplicação prática aparente, sendo, portanto, uma demanda interna da comunidade científica.
19 Pesquisa experimental conectada com uma pesquisa básica por meio de seu caráter experimental e uma base em princípios fundamentais. Essa pesquisa está diretamente dirigida por questões e problemas aplicados, mas não comprometida pelas limitações práticas ou pelos interesses imediatos de prestação de serviço em contextos aplicados.As ciências aplicadas buscam soluções em curto prazo, possuem objetivos mais delimitados e com uma aplicação direta em um dado problema, sendo, portanto, uma demanda externa à comunidade científica.

18

Conjunto de regras básicas para o cientista desenvolver uma experiência controlada. No método científico, a hipótese é o caminho que deve levar à formulação de uma teoria.

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Bibliografia: CPDOC. História da ciência no Brasil. Apresentação de: Simon Schwartzman. Rio de Janeiro: FINEP, 1985. CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A. Metodologia científica. São Paulo: Makron Books do Brasil, 2000. DEMO, Pedro. Conhecimento moderno: conhecimento. Rio de Janeiro: Vozes, 1999. sobre ética e intervenção do

GALLIANO, A. G. O método científico. São Paulo: Harbra, 2000. GUIMARÃES, R. Avaliação e fomento de C & T no Brasil: propostas para os anos 90. Brasília: CNPq, 1994. KOYRÉ, Alexandre. Estudos Galilaicos. Trad. Nuno Ferreira da Fonseca. Lisboa: Dom Quixote, 1986. _______. Do mundo fechado ao universo infinito. Trad. Jorge Manuel P. F. Pires. Lisboa: Gradiva, s/d.

NEGRA, C. A. S.; NEGRA, E. M. S. Manual de trabalhos monográficos de graduação, especialização, mestrado e doutorado. São Paulo: Atlas, 2003. SCHWARZMAN, Simon (Org). Ciência e tecnologia no Brasil: política industrial, mercado de trabalho e instituições de apoio. Rio de Janeiro: FGV, 1995. ______. Ciência e tecnologia no Brasil: a capacitação brasileira para a pesquisa científica e tecnológica. Rio de Janeiro: FGV, 1996. SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 22ª ed. São Paulo: Cortez, fev. 2003.

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