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UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


CURSO DE FILOSOFIA
DISCIPLINA: FILOSOFIA DA CIÊNCIA
PROFESSOR: ALTAIR FÁVERO
ACADÊMICA: BIANCA POSSEL

Fichamento

p. Ciência Senso Comum Epistemologia


SANTOS, Boaventura de Sousa. Ciência e senso comum. In: ____ Introdução a uma ciência pós-
moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989. p. 31-45

“A ciência constrói-se, pois, contra o senso comum, e para isso dispões de três atos
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epistemológicos fundamentais: a ruptura, a construção e a constatação. ”

Bachelard vai dizer que a ciência é tudo aquilo que é oposto as opiniões, pois a ciência
não é um objeto que surge do nada, mas sim um processo de construção. As ciências
naturais e sociais precisam passar pelo processo epistemológico, entretanto as sociais
sofrem um certo tipo de preconceito da ciência, porque além de seu objeto de estudo
ser através da linguagem, e não físico, a ciência, com seus instrumentos também busca
responder as mesmas questões do campo social.

“O senso comum é um ‘conhecimento’ evidente que pensa o que existe tal como existe

32 e cuja função é a de reconciliar a todo custo a consciência comum consigo mesma. É,


pois, um pensamento necessariamente conservador e fixista. ”

Boaventura a respeito da construção da ciência, diz que a mesma para ser de fato
ciência, precisa romper o pensamento conservador e fixista com um código de leitura
próprio, excluindo tudo o que for ideológico e derivado do senso comum, criando novos
códigos e objetos.

As rupturas que acontecem dentro das ciências sociais, são feitas a partir do princípio
de não-consciência, que necessita que ela negue a si própria como ciência para poder
investigar e modificar objetos do próprio contexto, e do princípio do primado das
relações sociais que nas palavras de Boaventura: “tem igualmente a sua origem em
Durkheim (1980) e estabelece que os fatos sociais se explicam por outros fatos sociais
e não por fatos individuais (psicológicos) ou naturais (da natureza humana ou outra).
Pelo contrário, a eficácia social dos fatos individuais ou naturais é determinada pelo
sistema de relações sociais e históricas em que se insere. ” Todavia, as rupturas
acontecem mais dificilmente do que se pensa, é necessária uma vigilância
epistemológica que consiga superar os obstáculos epistemológicos que impedem que
se faça uma ciência digna de ciência.

“O abandono dos conhecimentos do senso comum é um sacrifício difícil. A observação


cientifica é sempre uma observação polêmica e, por isso, a teoria do objetivo é
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construída contra o objeto ou, mais em geral, conhece-se contra um conhecimento
anterior. ”

“A ruptura epistemológica bachelardiana só é compreensível dentro dum paradigma

34 que se constitui contra o senso comum e recusa as orientações para a vida prática que
dele decorrem. ”

Esse tal paradigma acontece devido a fidelidade ao modelo racional da ciência


moderna, um paradigma que busca a perfeição, mas que acaba se anulando e virando
um discurso frio, sem imaginação, uma coisa robótica.

A epistemologia bachelardiana para poder romper, precisa entender muito bem o


paradigma da ciência moderna, e mesmo assim tem seus limites. Devido a esses limites
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originários do paradigma, que o próprio paradigma resolve crises sem ele mesmo entrar
em crise.

Para o paradigma entrar em uma crise, e assim poder ser rompido, existem 2 condições
necessárias para que isso aconteça: “A primeira foi avançada por Kuhn (1970) e
consiste na acumulação de crises no interior do paradigma quando as soluções que este

36 vai propondo para elas, em vez de as resolver, geram mais e mais profundas crises. A
segunda consiste na existência de condições sociais e teóricas que permitam recuperar
todo o pensamento que não se deixou pensar pelo paradigma e que foi sobrevivendo
em discursos vulgares, marginais, subculturais. ”

Segundo Boaventura o melhor e mais eficaz modo de fazer a ruptura do paradigma da


ciência moderna é através da epistemologia bacherlardiana, e após a ruptura
epistemológica, o ato de mais importância dentro do processo é conseguir romper
também com a própria ruptura epistemológica.

A história do conceito de senso comum surge no século XVIII com a tentativa burguesa
de derrubar a irracionalidade, porém, ao mesmo tempo que a sua valorização aconteceu,
devido ao progresso do poder burguês, a desvalorização por motivos de ser um

37 conhecimento superficial teve grande repercussão. Um ponto que a ciências naturais e


as sociais tem em contraste, é que as ciências naturais nunca precisaram da ajuda do
senso comum para se manterem como ciência. Já as ciências sociais nem sempre tem a
possibilidade de fazer, por mais que as grandes correntes façam a ruptura.

“Se o senso comum é o menor denominador comum daquilo em que um grupo ou um


povo coletivamente acredita, ele tem, por isso, uma vocação solidarista e transclassista.
Numa sociedade de classes, como é em geral a sociedade conformada pela ciência
moderna, tal vocação não pode deixar de assumir um viés conservador e
preconceituoso, que reconcilia a consciência com a injustiça, naturaliza as
desigualdades e mistifica o desejo de transformação. Porém, opô-lo, por essas razões,
à ciência como quem opõe as trevas à luz não faz hoje sentido por muitas outras
razões.”

Com tanto preconceito criado pelo paradigma da ciência moderna, visando sempre a
racionalidade, alguns pensadores começaram a se indagar a respeito. Será mesmo
necessário que tudo o que não for racional pode ser jogado no lixo como algo inútil,
sem valor? Foucault e Gadamer vão dizer que todas as coisas são constituídas de algum
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erro, erros são necessários para que se possa refletir em cima deles e também
compreendê-los. “A investigação sobre a inferência humana ou a escolha racionaç
revelam que uma ilusão pode conduzir à verdade, que porque corrige (e neutraliza) uma
ou outra ilusão, quer porque substitui uma inferência correta. ”

Ciência e senso comum, andam juntos, pois, senso comum não seria senso comum, no
pior sentido do termo, se não fosse pela ciência o caracterizar assim. Boaventura chama

40 toda essa negatividade atribuída ao senso comum de etnocentrismo cientifico, e diz que
se fizermos uma análise alternativa, ou seja, melhorada e esforçada, desse conceito,
poderemos chegar a resultados bem mais positivos do que os que já temos.
“A condição teórica mais importante é que o senso comum só poderá desenvolver em
pleno a sua positividade no interior de uma configuração cognitiva em que tanto ele
como a ciência moderna se superem a si mesmos para dar lugar a uma outra forma de
conhecimento. Daí, o conceito de dupla ruptura epistemológica: uma vez feita a ruptura

41 epistemológica com o senso comum, o ato epistemológico mais importante é a ruptura


com a ruptura epistemológica. [...] Com essa dupla transformação pretende-se um senso
comum esclarecido e uma ciência prudente, ou melhor, uma nova configuração do
saber que se aproxima da phronesis aristotélica, ou seja, um saber prático que dá sentido
e orientação à existência e cria o hábito de decidir bem.

Com essa ruptura, deseja-se encontrar um equilíbrio entre o conhecimento cientifico e


todos seus instrumentos de pesquisa e o senso comum, que por mais prático que seja,
42 não deixe assim de ser esclarecido. Através das redes de comunicação é possível isso
acontecer, e transformar o conhecimento enxuto e exclusivo, mais acessível a todos,
sem perder o caráter de ciência racional.

Através da hermenêutica da epistemologia, a dupla ruptura descontrói a ciência que se


orienta para “garantir a emancipação e a criatividade da existência individual e social,
valores que só a ciência pode realizar, mas que não pode realizar enquanto ciência. ”

A desconstrução é realizada por meio de três topos. O primeiro pode ser chamado de
desnivelamento dos discursos, Foucault diz que há discursos que na medida em que são
falados, desaparecem assim como aparecem, do nada e para o nada outra vez, ou seja,
discursos vulgares do senso comum; e há aqueles que quando falados, ficam marcados
permanentemente, e nunca concluídos, sempre tem algo a mais para ser acrescentado,
ou seja, discursos eruditos, que possuem muita carga de conteúdo.

Já o segundo topos procurar superar a dicotomia entre ação e contemplação: “os


critérios de verdade do conhecimento cientifico são interiores ao processo cientifico, e
a única ação relevante a esse nível é a ação da investigação e da experimentação. [...]
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Mas, por outro lado, o fosso que assim se cria entre a verdade científica da ciência (a
ciência em si) e a verdade social da ciência (a tecnologia) é um fosso falso; ainda que
ideologicamente separadas, as duas verdades pertencem-se mutuamente. ”

44 O terceiro topos busca o equilíbrio entre adaptação e criatividade. Hoje, com as


mordomias da tecnologia, onde tudo chega até nós pronto sem nenhum esforço físico
ou mental, causa um preço que, apesar de sermos os “seres racionais do pedaço”,
ficamos sem nossa liberdade de agir com autonomia. Achamos que o que estamos
fazendo tudo por conta própria, mas isso não passa de uma adaptação ao que é cômodo.
Por fim entrando em desequilíbrio.

E por isso é necessário encontrar um novo equilíbrio entre a adaptação e a criatividade


“e isso só será possível no contexto de uma práxis globalmente entendida e servida por
45 uma compreensão da ciência que, por privilegiar as consequências, obrigue o homem
a refletir sobre os custos e os benefícios entre o que pode fazer e o que lhe pode ser
feito.”