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ISSN1413·389X Tema5em P$ico l ogia~a S BP ·2000.

Vo I 81·3,25J·m

Representações e práticas sociais:


contribuições teóricas e dificuldades metodológicas
Angela l\laria de Oliveira Almeida l
Unirersidade de Brm'ilia

l\fa ri a de Fátima de Souza Santos!


Universidade Federal de Pernamhui:o

Zeidi Ara újo Trindade J


Univenidade Federal do Espírito Santo

Resumo
Focali7.llndo particularidades da T~oria das Representaç""s Sociais (TRS), este artigo pretende empreender
uma reflexão sobre as contribuições da TRS, priori7.ando a relação entre práticas e representações sociais e
examinando os desafios metodológicos parol a apreensão de5tas práticas. Com esse objetivo, discute-se a
importância do conceito de práticas sociais no âmbito da teoria e as possibilidades/dificuldades
metodológicas implicadas em sua investigação. Propõe-se que, tendo legitimidades própria, as práticas
sociais deveriam também ser cOll5truídas como objetos de estudo singulares

Palams-çhave: r~pre,enlações sociais, prálicas sociais, eSlmlégias melodológica~.

Re,resentation and socialpractice:


theoreticalcontributionsandmethodo!omica!dilficulties
Abslml
TItis paper aims at coru;idering lhe contributions ofthe Social Representation Theory, wilh the cmphasis on its
panicular aspccts highlighting lhe re!ationship between praclices and social representalions and cxamining
lhe melhodological challenges involved in lhe apprehension ofsuch praetices. With Ihis objeclive, we discuss
lhe importance oflhe conccpl of social praclice in the rcalm oflhe Iheory IIIld lhe melhodological possibililies
and difficulties implied in its investigalion. We also propose thal lhe social pmdicc ,huuld b" seeT1 as a
singularobjcct oflhe study, due to its sclt~1egilimacy.

KeY'Iwds:social representation, social praclice,melhodologieal stralegies

No XXVI Congresso Interamericano de Social.DentreasmaisdelOOcomunicaçÕCSncssaárea,


Psicologia, realizado em 1998, em São PauiolBrasil, uma parte significativa abordava problemas sociais
destacou-se uma expressiva produçao em Psicologia com os quais a América Lali na tem se deparado,

I. Departamento de Psicologia Escolar c do Dcsenl'OlvimcnlO,lnslituto de Psiculogia, Programa de Pós-Graduação em


Psicologia, Universidade de Brasília, e-mail: aalmcida@unb.br
2. Departamento de Psicologia, Pós-graduação em Serviço Social, Universidade Federal de Pernambuco,
e-rnai!: rnfsanlos@npd.ufpe.br
3. Departamenlo de Psicologia Social e do Desenvolvimento. Programa de Pós-GrJduaçoo em Psicologia, Universidade
Federal do Espírilo Sanlo, e-mail: zeidi@uoJ.com.br
.l ... I.AIIII"" .... i.S.s.!ull..llridi4t

evidenciando uma busca de respostas satisfatórias para Ateoria das re~resentações sociais
os mesmos, por parte dos intelectuais (Rateau e
Rouquette, 1998). Ao mesmo tcmpo, destacou-se Vários são os modos do ser humano produzir
também a força que a Teoria das Representações conhecimento. Tomandocomoexemplo a questãoda
Sociais (TRS), desenvolvida no âmbito da Psicologia origem do universo, observa-se a coexistência de
Social, tem alcançado na América Latina. o que Icva a diferentes teorias cientificas quc, no cntanto, nllo
uma reflexão sobrc o valor hturistico dcsta teoria para esgotam as possibilidades explicativas. De modo
os probltmas sociais cotidianos. semelhante, encontram-sc verdadeiras "teorias" no
A TRS tem fornecido subsidios para a âmbito da religião, além de inúmeras outras "teorias"
compreensão de diferentes realidadcs sociais e trazido populares, no âmbito do senso comum. Trata-se de
à tona aspectos até então desconhecidos dessas conhecimentos produzidos pelo homem, em busca
realidadcs. Entretanto, em que pese o número de de respostas sobre a natureza de suas relaçõcs com o
pesquisas realizadas no âmbito da TRS, muito ainda mundo. Tais conhecimentos organizam-se em
há que realizar para explicitar conceitos, clarear conjuntos de idéias articuladas, fornecendo "mode-
definições e estabelecer articulações com outros los explicativos" acerca de uma detenninada reali-
conhecimentos produzidos, tanto no intcrior da dade.
própria Psicologia quanto em outras areas do Dentre as várias fonnas de conhecimento, o
conhecimento, particularmente com aquelas que senso comum, o conhecimento popular será o foco de
pertencem ao domínio das ciências humanas e sociais. atenção nesta seção. Isto porque, somos, como
Após um longo período de objetivismo, e porque não afinna Moscovici (1984), uma "maioria de leigos"
de obscurantismo, tem-se assistido nas ciências em um mundo que valoriza o conhccimento
sociais, sobretudo a partir dos anos 60, a recuperação cientifico. No mundo contemporiineo, conhecimento
da preocupação com a subjetividade, enfatizando a científico e conhecimento do senso comum são
construção de significados através da inserção do tratados de fonna polarizada, como conseqüência de
homem na cultura.
Ao buscar compreender os significados criados
pelos homens a = do mundo e de si mesmos e os "sociedade bifurcada: uma minoria de es-
processos neles imbricados, tal abordagem tem sido pecialistas e uma maioria de amadores,
profícua, nos ultimos anos, na antropologia, na consumidores do conhel:imento absor.·ido
lingUística. na sociologia, na história e na psicologia, o através de uma educação sucinta ou através
que vem exigir uma maior articulação entre esses da midia. A oposição entre o pensamcnto
diferentes ramos do saber, articulação que também standard e o que não o é, entre o pensamen-
dcve ser empreendida no âmbito da própria Psicologia, to instroído do cientifico e o pensamento
como já têm feito alguns aUlorcs 4. Cabe, além disso, 'ingênuo' do homem da roa é, definniva-
maior atenção para as particularidadcs da própria teoria, mente, menos de ordem lógica ou orgânica
procurando consolidar conceitos e evidenciar do que de ordem social" (Mo~l:ovici e
difkuldades. como fOlma de aprimoramento. Hewstone, 1984, p_541)
Com este objetivo, refletir sobre as contribui-
ções da TRS, priorizando a relação entre práticas e Para Moscovici (1984), no entanto, o
representações sociais (RS), bem como examinar os conhecimento do senso comum não se contrapõe ao
desafios metodológicos para a apreensllo destas conhecimento cientifico. Trdla-se apenas de uma
práticas serão os eixos deste trabalho. outra ordcm de conheçimento da realidade, de uma

4. A aniculaç!lo entre a TRS e a pcrspeçtiva de Tajfel (1982), por exemplo. é concretizada por Breakwell (1993), abordando
o conceito de Identidade Social e por Moscovici e Pere" (1997), f'lCali,.ando o preconceito.
lep/lsllltlçNll,itiullKiais 'li

fonna de saber dif",n:m:iado tanto no que se refere a Ou ainda, como afinna Abril: (1994), "a
sua elaboração como na sua função. 5 representação funciona como um sistema de
O tenno Representação Social foi proJXlSto por interpretação da realidade que rege as relações dos
Moscovici (1961) justamente para designar um indivíduos com seu ambiente físico c social, ela vai
conjunto de fenômenos e processos relativos ao detcnninar seus comportamentos ou suas práticas"
conhecimento do senso comum, ao pensamento leigo, (p. I ).
"ingênuo", até então considerado como uma fonna de Em um estudo sobre as RS do desenvolvimento,
conhecimento "desarticulada", "fragmentada", na perspectiva do life spain, jWltO a educadores que
"pré-lógica" em oposição ao conhecimento cientifico. exercem suas atividades pedagógicas com crianças,
Ao procurar entender como é assimilada a psica- adolescentes, adultos e idosos, Cunha (2000) constata
nálise pelo leigo, enquanto discurso científico, Mosro- que a noção de desenvolvimento humano traçada pela
vici (1961) não tinha como objetivo discutir a teoria psi- Psicologia, não só é reiterada pela socicdade como
canalítica, mas tentar compreender como o saber cientí- também prescreve os componamentos dos indivíduos
fico enraizava-se na consciência dos indivíduos e dos nas diren:ntes fases da vida, particulannente no espaço
grupos. Ao estudar como o leigo se apropria de um inslitucionalil.3do da escola. Em teóricos como ,'iaget,
saber científico, ajustando-o a representações anterio- Vygotsky e Wallon, em maior ou menor grau,
res e construindo assim uma representação social da encontramos uma noção de desenvolvimento que
psicanálise, Moscovici estudava cientificamente o obedece a critérios de nom13tividade, de caráter
"senso comum". Esse estudo implicava, pois, na aná- eSSCl1cialmente teloológico. na qual o desenvolvimento
lise das fonnas culturais de expressão dos grupos, na é compreendido como sinônimo de progresso, de
organização e transfonnação dessa expressão além da caráter irreverslvel e de uma complexidade crescente.
análise de sua função mediadora entre o indivíduo e a
sociedade. "(. .. ) encontramos teóricos como I'iaget,
A proposta básica do estudo da representação que defende a trans ição do estágio
social é pois a busca de compreensão do processo de sensório-motor para o operatório fonnal;
construção social da realidade, para retomar a Vygotsky, que enfatiza a constmção dos
expressão de Berger e Luckmann (1973). processos superiores de pcnsamcnto, e
Ao definir as reprcsentaçôcs sociais, Jodelet
Wallon, que acredita no desenvolvimento
(1984) afmna que elas são conhecimentos socialmente
da inteligência rumo a uma dif",ren~iação
claOOrddos e compartilhados que têm como objetivo
cada vel.maiselara e objetiva da realidade"
"compreender e explicar os fatos e idéias (Cunha, 2000, p.133).
que povoam nosso universo de vida ou que
De forma semelhante às teorias psicológicas, os
nele surgem, atuar sobre e com as pessoas,
educadores, independente da idade dus alunos com os
situar-nos com relação a elas, responder às quais trdbalhavam, consideraram o desenvolvimento
perguntas que nos coloca o mundo, saber o "como um fluxo de crescente aquisição (... ). Isso
que significam as dcscobertas científicas e pressupõe não somente a divisão do processo
o dcvenir histórico para a conduta de nossa descnvolvimental em estágios, como tanlbem uma
vida (... ) cm outros termos, trata-se de um visãu progres.'óista, segundo a qual o desenvolvimento
conhecimento prático da realidade" estaria ordcnado rumo a niveis cada vez mais
(Jodelet, 1984, p. 360) (grifos nossos) avançados" (Cunha, 2000, pp.133- 134)

5. BangerteT( 1995, p_ 63) tra>; uma importante oontribuição ao assinalar que a referência aO senso comum não implica em um
tipo de saber oompartilhado por todas as pessoas, acrescentando que senso comum seria melhor definido "como aquilo qUI! é
comum a todos 0.1 ml!mbro$ de uma certa cultura, entendendo a pa/a"ra cultura em um sentido mia I!specíjico considerando.
par exemplo, o conjunto de l'onhecimenlo COmum dI! um pequl!no "rupa".
'li lM.•. AI. . . ,II.F.S.S.••uLA.I.....

Tais "teorias" defincrn, ainda, o lugar que a Essa constataçao parece simples e atéredun-
sociedade, em suas práticas e relações S(M;iais, dante, a princípio, porém traz em si um forte çom-
reserva aos sujeitos: às crianças o espaço da plicador, tanto do ponto de vista teórico quanto
brincadeira e da descoberta; aos adolescentes a metodOlógico, o que talvez motive a pouca atenção
indcfiniçào/prcparnçãopara urn futuro profissional; dada às práticas no âmbito da TRS. Em um número
aos adultos o trabalho, a produção c a perpetuação especial da Revue In/ema/ionofe de Psychofogíe
estável da sociedade e 30$ velhos, colaboradores Socíofe, totalmente consagrado às representações s0-
"marginais", o repasse, quando solicitado, de uma ciais, Jodelet e Moscovici (1990) advertem para o
sabedoria acumulada ao longo da vida. fato de que as práticas sociais são estudadas aquém
A harmonia entre as RS c as normas e valores do desejado pela Psicologia Social, apesar de sua
culturais referentes a um dado objeto social não importànçia teórica. Ao mesmo tempo em que os
Significa,cntrctanto,apenascrislalizaçãoou autores nos oferecem uma definição de prática
permanência. Como observado por Trindade social,elesobservamque
(1998a), se por um Jado a maior parte das práticas que
"considera-se, geralmente, que as re-
estudamos silo práticas de reprodução, o que cabe
também pam as teorias do senso comum, por outro, presentações sociais são associadas a
elas não implicam em homogeneidade. Na gênese de comportamentos atomizados, sem laços
uma teoria do senso comum emerge também a sociais, freqüentemente sob a forma de
gênese da contradição. Ao lado de práticas e legitimação,dandosentidoaosatosquelhe
representações dominantes e resilientes, estudos são anteriores 011 independentes. Negli-
mostram a face da ruptura,donovo e do inesperado. gencia-seo fato que as práticas são siste-
No que se refere às re lações entre pensamento mas de ação socialmente estruturados e
e açao, entre dizere fazer, entre representaçõcs e instituidos em relação com as regras"
práticassodais,duasquestõessecolocam:(I)Quala (Jodelet e Moscovici, 1990, p. 287)
natureza das relaçõcsentre RS e práticas sociais? (2)
Como evitar as armadilhas do relativismo, cuja A anál ise de estudos fundamentados na TRS,
indeterminaçllo nos conduz a resultados do tipo focalizando as práticas sociais,-mostra a existência
de pelo menos três questões problemáticas: (I) a
quafquer coisa serve?
(in)definição do conceito; (2)a naturezadllS relações
entre representações e práticas e (3) as dificuldades
Representações epraticas sociais metodológicas para a slIa apreensão. Apesar da
intima relação entre os três tópicos, eles serão
Ainda que as práticas sociais nllo constituam considerados separadamente para efeito de clareza.
um fcnômcno de interesse exclusivo dos estudiO/ios da
TRS, um dos pontos centrais dessa teoria, confirmado
pela literatura em inúmeras ocasiões, é a rclaçilo entre
oconuito.eprátiussoci,is.
representações e práticas sociais. Focalizando Quanlo à defin ição de prática social, Sá (1994)
especificamente a TRS, Trindade (1998a, p.21) ressalta a ambigüidade do conceito e seu uso
salienta a relevância do estudo das práticas, indiscriminado entre os pesquisadores que adotam a
justificandoque·'arelaçlioprática-representaçiloé TRS. Trindade (1998b), ao fazer um mapeamento do
um dos pressupostos da teoria das representações uso dos conceitos "práticas sociais'·, "práticas
sociais, o que atribui às práticas o estatuto de socioculturais" e"prátieas cotidianas'.6, no periódico
elemento fundamental da construção teórica". Papers on Sociol Representa/íons 7,

6. A autora oonsiderou que est3S expres5ÕeS slo utilizadas de forma cquiva Jente em diversos contextos
7. Foram utiliudos os periódicos publicados noperiodo comprcendido cntre 1992 e 1996.
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apenas quatroautores 8 que definiam sua concepção obra publicada em 1987, Abrie ilustra, com vários
de "práticas sociais". A autora argumenta quenãuse trabalhos, como a representação da situaçllo
pode atribuir à negligencia dos pesquisadores essa determina o comportamento. Nesses trabalhos a
indefinição sobre um conceito fundamental na TRS, natureza das representações de si, do outro ou da
mas que tudo se passa como se houvesse um tarefa incidem diretamente sobre o comPQrtamento
"'consenso implícito', onde todos (ou quase) sabem dos sujeitos na situação experimental.
que todos têm a mesma compreensão sobre as Outras pesquisas citadas PQr Abric também
configurações das práticas sociais, sendo, PQrtlInto, colocam em evidência como as representações dos
um exercido de redundância a tentativa de defini· Ias. grupos determinam as relações intergrupais. O
É a naturalização das práticas sociais" (Trindade, trabalho clássico de Jodelet (I 989a), Folies et
I 998b, p. 3). representations sociales, constitui-se em mais um
A partir das definições encontradas, Trindade exemplo das representações sociais determinando as
(1998) concluiu que existem, ao menos dois práticas frente á doença mental. Em seu trabalho em
requisitos comuns entre os autores: (I) as práticas uma comunidade terapêutica francesa onde os
sociais referem- se a conjuntos de ações; (2) "as doentes vivem com as familias, lodelet permite-nos
açõcs se apresentam com organização encadcada e vislumbrar como as representações acerca da
padronizada"(p.4). Esta autora, entretanto, ressalta "loucura" - diferenciando dois tiPQs de doentes -,
que apesar dos requisitos comuns, há priorização, por atuam como verdadeiros guias de ação em relaçllo
parte dos pesquisadores, de aspectos diversos das aos doentes mentais. Nessa comunidade, seus
práticas. Ora enfatizam-se os aspectos mais membros aceitam dividir a mesa ou a privacidade de
subjetivos PQr se considerar que as práticas sociais seu lar com os "doentes do cêrebro", enquanto
são atividades significativas para os sujeitos, ora as excluem de uma relaçllo mais próxima os "doentes
práticas são remetidas à noção de papel social. dos nervos".
A indcfinição do conceito de prática social se 1. As prúticas sociais determinam U"
liga diretamente ás polêmicas que envolvem a representaçlJes. Tomar as práticas sociais como
questilo das relações entre representações e práticas condicionantes das representações tem sido
sociais (Abric, 1994). São elas interdependentes ou entendido, no âmbito da TRS, como uma concepção
haveria uma relaçllo de determinação de uma sobre a radical, oriunda das teses marxistas, que pressupõe
outra? que apenas as condições materiais e objetivas de
existências podem detenninar as ideologias ou as
representações. Tal tese seria uma das resPQnsáveis
AsrllaçiinenlIlrepreseataçDlsl,ráticassoti:lis pelos entraves sofridos pela TRS, em seus
primórdios. Como afinna Abric (1994, p. 218, grifos
Retomando as reflexões desenvolvidas por Abric
do autor), "essa posição se acompanhava ,
(1994), algumas evidências podem ser apresentadas,
geralmente, ate a uma epoca recente. ( ..) de uma
apontando as relações entre representações e práticas (/en:unflança e de uma recu~'a da noçdo de
sociais em três diferentes direções:
represenlação tal como nÓ.!" a utilizamos ". Nesse
I. As representaçóes determinam as prúticas
sentido. completa o autor, "nossa concepção de um
sociais. APÓS a publicação da obra La psychanal}'se,
sujeito ativo e. então. imerpretada como uma das
son imoge et son public (Moscovici, 1961), foram
manifestações de uma dissimulação ideológica
realizadas pesquisas experimentais buscando
visando ocultar o papel determinante das re!açõe.<
evidenciar que os comportamentos dos individuosou
de produção, das quais este Iujei/o é totalmcme
gruPQs não eram detenninados pelas características
dependente". Ou, como observa ladeIe! (1989b,
das situações e sim pelas RS dessas situações. Em

8. Echebania(l994),Sá(l994),Abrie(1994)c Duvecn(i994).
A. 11. I .AlilIiu. 11. F.S. Sa••uL A. I " "

p.39), "(.) um modelo marxista, cuja concepçiio "li]: As representações detenninam


mecanicistaderelaçàesentreinfraesupra-estrutura as práticas sociais em situações nas quais a
negava toda legitimidade a este campo de estudo, cargaafctivaêforteenasquaisareferência
povoodo de puros reflexos ou idealismo". - explídta ou não · à memória coletiva e
Apesar de não contestar o papel essencial das necessária para manter ou justificar a
condições materiais sobre a elaboração, evolução e identidade, a existência ou as práticas do
transfonnação das RS, Abric (1994), advene para a grupo'. (p. 231).
necessidade de que estudos dessa natureza ··Hz: As representações assumem,
considerem três outros fatores que detenninam as
igualmente, um papel determinante sobre
RS, ao mesmo tempo em que encerram toda
as práticas em situaçõcsnas quais o ator
atividade prática: (I)os fatores culturais que atuam
dispõe de uma autonomia - mesmo que
como ·'matrizes culturais de interpretação" das
relativa - em relação às restrições da
práticas; (2) os fatores ligados aos sistemas de
situação ou daquelas resultantes das
nonnas e de valores, que intervêm como elementos
relações de poder" (p. 231)
denegociaçãoentreaspráticaseasrepresentaçõese
(3) os fatores ligados à atividade dos sujeitos, tais '"H): Emsituaçõtscornforterestriçllo
como as atividades de decodificação, os sistemas de - social OI.ImatcriaJ - aspráticassociaise as
expectativas,antecipaçõcsec3tegorizaçãoqueeslão representações sllo interativas. Nessas
associadosãs representações das práticas. situaçõcs, a implementação de cenas pciticas
3. As repnselllllfões e as prtiticIIJ sociais é suscetível de engendrar transformaçõcs
como pólos ;nterdepelldentes. Os argumentos completas nas reprcscntaçõcs" (p. 234).
teóricoseasevidênciasempiricas,coletadasapartir
de estudos desenvolvidos por pesquisadores adeptos Essas três formas de se compreender as
da TRS, tal como a literatura nos atesta, parecem relações entre representações e práticas sociais
fortalecer a noção de que as práticas sociais slo demonstram o grau de difkuldade com o qual nos
detenninadas pelas reprcsentações.9 Entretanto,essa confrontamos ao tentar "definir", de fonna absoluta,
mesma literatura reconhece que as representações a natureza de tais relaçõcs.
constituidas têm, muito pro\·avclmcnte, suas raizes Observa-se atualmente o predomínio da idéia
em práticas coletivas areaicas, as quais definiram, de interdependência. As RS regulam as práticas
certamente, a natureza das relações sociais entre sociais dos sujeitos, porém, ao mesmo tempo, elas
individuos e grupos e foram asseguradas pela tradição emergem das diferentes práticas sociais, da diversi-
e comunicação oral. Tal constatação acaba resultando dade das práticas no cotidiano. Ao assinalar a com-
na aceitação de uma relação de reciprocidadeentTC plexidade do tema, Rouquette (1998) contesta a afir-
representaçõcs e práticas sociais, assumindo-se o mação de mera reciprocidade de influências entre
caráter dialético dessa relação, na qual cada um dos práticas e representações, ponderando que não existe
pólos constitui uma totalidade indivisível, atuando, equivalência nas duas "influências" e completando
ambos, como um sistema que gera,justifica c legitima que "convêm tomar as representações como uma
condição das prcilicllJ, e as práticas como um agente
Frente a essa constatação, Abric (1994) de tran.i forma,ão das representações" Cp. 43, grifos
propõe três hipóteses explicativas para a relação do autor).
entrc representações e práticas sociais, definidas a Aponta-se aqui para a necessidade de um
partir da natureza da situação com a qual os aprofundamento acerca da relaçlloentrc rcprescntações
indivíduos e os grupos se deparam: e práticas sociais, acreditando nas contJibuições que o

9. Seria con~en]eme, no cnlanto, uma análise dos objetivos e dos delineamentos das pesquisas cujos resultados slo utilizados
pararef~aressaidéia
",rlmuçilll,rítiwllCiais
'"
desvendamento das práticas pode oferecer ã Ainda,naperspeçtivadeumafilosofiamarxista
comprecnsãodasreprescntaçõe5eambas,àconstrução ortodoxa, a representação, ou melhor dizendo, a
da realidade social. Essa posiçlio obriga a retomada da ideologia, como já assinalamos anteriormente,
discussão sobre o conceito de práticas sociais, constitui-se em um reflexo direto do modo pelo qual a
considerando a pennanente polêmica entre ideali~"lllo e sociedade organiza suas condições maleriais e
materialismo. objetivas de existência. Portanto, sc há uma
representação, ela apenas pode se configurar corno
sendo determinada pelo tipo de prática social
Oa indeterlinaçã, dotonteilo h armadilh.u do rtlalmsllo engcndrada pelas relaçõcs sociais de produção.
O tenno prática social, na acepção adotada
Em nosso idioma pode-se usar indistintamente pela TRS, não se refere nem ao ato desprovido de
as palavras práxis e prática, se bem que a primeira interpretação - aIo utilitário -, e nem pressupõe a
seja de uso mais restrito ao vocabulário filosófico ea superação do senso comum, como reivindica a
segunda ao uso cotidiano. O tenno práxis, de origem filosofia marxista. Ligadas à idéia de um pensamento
grega, designa uma ação, a qual se refere ao ato em si social,práticas e represcntaçõcs se unem, sendo estas
mesmo, sem que a ação redunde na produção ou últimas organizações significantes da realidade,
criação de algo. Já o tenno prática, refere-se, em construídas através da cultura que, com seus sistemas
muitas das vezes, li atividade prática humana no interpretativos, dá significado à ação. Por essa raLão,
sentido utilitário: homcm prático, resultados práticos a TRS, como o próprio Moscovici afirmou, podc ser
etc. De fato, á açlio que cria algoextemo ao sujcito e compreendida como uma teoria colltemporunea do
ao seu próprio ato, o vocábulo correspondente em senso comum.
grego é a PQiési! que "significa literalmente Sem negligenciar o valor das RS como urna
produção ou fabri<;ação, ou seja,oatode produzir ou fonna de conhecimento que participa da construção da
de fabricar algo" (Vázquez, 1977, pp. 4-5), o qual realidade social c, sem negara legitimidade de seu
incorpora a idéia de criação, de ação refletida pelo estudo, na medida em que pode revclar os processos
pensamento. cognitivos, sociais e afetivos que atuam na construção
Com a propagação do marxismo e de sua dessa realidade, apontando para as inovações, para
filosofia materialista-histórica, o termo práxis uma vida social que csta sc realizando, pode-se
incorpora o significado da poiesis, assimilando a questionar as conseqüências, os efeitos dos esrudos
criação ao ato material da atividade social humana. É realizados no âmbito dessa teoria. Não há, nos
com esse novo significado que o tenno práxis se insere pressupostos da TRS, preocupação com a distinção
na~ produçõcs científicas c filosóficas, buscando,
entrepraticaepráxis,naacepçãomarxistadotenno,e,
sobretudo, elevar a atividade humana a um novo por conseguinte, o comprometimento explícito de
patamar, que humaniza sua pnitica pela possibilidade perseguir a superação de uma consciência ingênua,
de superação do senso-comum, através da elaborada no âmbito do "universo consensual",
incorporaçliodeumpensamentofilosóficoecientifico favorecendo adesnaruralizaçlio das relações sociais
a essa atividade. Portanto, nessa perspectiva, sem uma Mesmo porque, no âmbito da TRS o conhecimcnto do
superação da consciência ingênua e oomum não se "sábio amador'" não deve ser invalidado como uma
atingirá jamais o vcrdadeiro scntido da pnixis, a qual fOrnla de conhecimcnto falso ou errôneo.
pressupõe uma íntima unidade entre teoria e prática. Não se correria, então, o risco de cair nas
"(... ) a destruiçlio da atitude própria li consciência annadilhas do relativismo absoluto, cuja indeterminaçllo
comum é condição indispensável para superar toda nos cooduz a resultados do tipo qualquer coisa serve?
consciência mistillcada da práxis e ascendera um Será que nlio se deveria explicitar claramente o "Iugar"
ponto de vista objetivo, cientifico, a respeito da social de onde se está falando ao apresentar resultados de
atividadepniticahumana"(Vázquez,1977,p.8). pesquisas? Com que tipo de "verdade" ou, melhor
A.M.U,Nlma,M,f,$.SHlOS,u..Trill.1dl
'"
dizendo, com qual prática social o pesquisador esta à presellça do obj~to em questão. Como lembra
comprometido, ou quer se comprometer, ao dcsçrevcr Trindade, ao tomar como referência as práticas
pucessos e conteúdos de representações acerca de lUll religiosas, os estudos centram-se cm práticas na igreja,
dado fenômeno social? A história tem mostrado que nem nos grupos de oração e similares, como se "elas
sempre a culturn humana encontra soluÇÕC5 hwnanas fossem desvinculadas de outras práticas construídas
parn os problemas hWlJanos pclo~ sujeitos e sem existência (ou relevância) em
outros momentos de suas vidas" (p. 20).
Est~s pontos remetem à discussão sobre a

Ouestães metodológicas nosesludos das práticas sociais diversidade de praticas sociais, articuladas nu
cotidiano, orientando-as RS dc um dado objeto,
Após as consideraçõcs acima, o que se pode como moslrar~m Santus e Belo (2000). Essas autoras
afirmar é a necessidade de se explicitar, mais verificaram que as práticas relativas ao trabalho, à
cuidadosamente, o que se entende por prática social. familia, aos movimentos sociais contribuiam para as
sempre que for considerada corno relevante par-" a representaçiks construídas sobre a velhice. Do
compreensão das RS, até para alcançar maior mesmo modo, remetem a discussão sobre a
coerência do ponto de vista metodológico. Quando o articulação de diversas representa"ões na orientação
pesquisador se refere à importância das práticas na de práticas relativas a um dado objeto, como
fOnTIação das representaçõcs. de que prática está ilustr~do no caso dos técn ieos e educadores de rua em
falando? Qualquer prática social tem relevância para suas práticas com meninos de rua, em pesquisa
a emergência da representação social de um objeto desenvolvida por Campos (1998). Como bcm
específico? Ao estudar uma dada representação salienta Abric (1994, p.8), "o estudo das rela"õc:s
social, como o pesqui8ador limitaria o \:ampo das entre representações e práticas enfrenta o problema
"práticas relevantes" no seu estudo? da artiCllbç~u e da interação elllre os difcrelllcs
Analisando a construção da RS como ohjeto de campos constitutivos da realidade soeia!".
pesquisa, Sá (1998) comenta sobre as possíveis A questão fundamental parece ser como
dificuldades para se estabelecer a existência ou não de delinear metodnlogicamente as práticas de interesse,
RS de objetos de inten:sse entrt: um detcrnlÍnado sem negligenciar os possiveis aportes teóricos que
grupo, principalmentc para o pesquisador iniciantc, poderiam contribuir para sua compreensão. Mesmo
alenando que o par sujeito-objeto deve estar ligado consideramlo que u ubJeto de pesquisa é sempre um
por "um saber efetivamente praticado, que não deve ubjetu construído, é importante para o pesquisador
ser apenas suposto, mas sim detcctado em não perder de vista as possíveis artieulaçõcs de
comportamentos e comunicaçõcs .. ". O autor diferentes práticas cotidianas na construção da
acrescenta que "não podemos nos basear em representação do objeto a s~r estudado. Não basta
espcçulaçõcs a respeito de 'represcntaçocs virtuais', apoiar-se na d~S(;ri~ao de práticas ou na inferência de
ou seja, em suposü,:ões quanto à existência do articulações, mas construir instrumcntos que
fenômeno") (p. 50). Cabe a transposiç~o da análise permitam uma coleta mllis próxima do contexto
para as práticas sociais como objeto de estudo: as concr~to em que elas se desenvolvem, pennitindo
práticas não devcm ser apenas supostas, baseadas em enmpreender os significados que vão adquirindo em
especulações que melhor as definiriam como praticas contextos diversos.
virtuais. De acordo com as propo~ições de Moscovici
Ainda sobre a configuração das praticas, (1984), as representaçõcs são construídas c mantidas
Trindade (1998a) S<11ienlll que, embora os estudos que no curso das comunicações cotidianas, que não
fn<:alizam "práticas circunscritas li detenninados implicam apenas em conversações. Este é o desafio
espaços/atividades" sejam importantes "( .. .) tais metodológico para que se obtenha os elemento~ mais
cstudos parecem pressupor que essas praticas só importantes tanto das representações como das
ocorrem em ambientes propícios" (p. 20) circllilScritos práticas sociais. Como conseguir extratos dessas
h prllllUçMllpritimmilis
lO'
comunicaçÕt::s? o problema consiste em conseguir partir de uma perspectiva construcionista, a autora
"obter matcrial de amostras de conversações opta "pelas conversas do cotidiano como recurso
normalmente trocadas em uma sociedade" (p. 52) merodofógico ··(p.224). As conversas obtidas situa-
como sugere Moscovici, propondo que ·'0 cstudo das ram-s e nos mais diferentes contextos: clínica fisiote-
represen(a~ões sociais requer que retomemos aos rápica, mesa de bar e conversas ouvidas em ônibus, e
métodos de observação"(p. 67). a riqueza de conteúdo conseguida é im;ontestável.
Esta última proposição parece se aplicar Mas esta técnica de coleta de dados também implica
principalmentt: ~o estlldu das prdticas sociais. Sem em dificuldades, como alerta a aUlora, "dificuldade
dúvida, foi atravcs dcuma multiplicidade de técnicas, de registro, clareza sobre os limitcs da análise possi-
incluindo a observação, que Jooelet (1989a) pode veleposturaética"ll.
apreender dados nào explicitados verbalmente sobre As práticas sociais se referem aum processo
representações e práticas relativas ao "contágio" da inlerativoem que sujeito, objeto e gropo social nl10
doençam ental JO . podem ser considerados isoladamt:nte. É no jogo
A metodologia derivada da Teoria do Núcleo dessas interações que as práticas se consolidam,
Central, proposta por Abric (1998), também parece adquirem significados e s1io re-significadas, impreg-
bastante interessante, na medida em que possibilita nadas por valores e afetos, contribuindo para a
de1imitar os elementos estruturantes da representação, construção e transformação das diferentes teorias
portanto, os significadros fundamentais que , psicológico-populares que pcnnciam o imaginário
retomando Rouquelte (1998), seriam a condição para de determinado grupo soeial.
a construção das práticas sociais. Entretantu, uma das E importante salienllrr, finalmente, que a opção
questõcs quc sc coloca é a de como as propostas entre urna abordagem pluri-mctodológica c a utilizaç1io
metodológicas que decorrem de tal teoria conseguem de métodos especifieos esta intrinsecamente vinculada
apreenderas diferentes tcnsõcs entre significados eas aos objetivos do pesquisador no curso de um dado
tensões que emergem das relações sociais durante as trabalho. Apreender, ao menos em parte, a dinâmica de
comunicaçõcs cotidianas. Essa dinâmica parece ser uma rt:alidad~ complexa requer, pur vt:Z<:S, "olhar" o
melhor apreendida por abordagcns antropológicas. objeto de pesquisa em ângulos diversos. Da mesma
Do ponto de vista metodológico, os instru- forma, a tentativa de responder a uma pergunta mais
mcntos mais utiliT..ados nas pesquisas sobre RS são específica implicará em uma verticaliz.açâo do "olhar",
instrumentos interrogativos c/ou associativos (Abric, o que remete a metodologia~ também específicas. De
1994),que são descrições verbais das pniticasadota- qualquer fonna, os pontos comuns nas defmiçÕt:S d~
das. Apesar de alcançarem resultados, estes ins- práticas sociais encontrados por Trindade (1998b)
trumentos parecem limitados em algumas situaçõcs e permitem sugerir que todas as definiçOes cireuns-
outras estratégias complementares devem ser adota- crevem pelo menos parte de um mesmo fenômeno, mas
das. Seriadificil, por exemplo, apreendcrastcnsõcs quc, compreendido sob a ótica particular do pesqui-
~xistentesnasrepresentaçõcsepráticasqueenvolvem sador, integrando suas preferências teóricas e meIo-
asrelaçõcssociais efamiliarcsdcmulhercsinfértcis dológieas, incorporará em sua conceituação este ou
atr3vc:s de técnicas interrogativas. aquele elemento, priorizará este ou aquele aspecto,
Um caminho par.! uar conta das "amostras de pnxluzindoconcepçõcsasmaisdivClSas.
conversações" indicadas por Moscuvici (1984) pode Um cuidado especial se coloca quando é gran-
ser a proposta instigantc de Menegon (1999).lnvcsti- dc a proximidadc com o objcto dc estudo,cstando o
gando a produção de sentidos sobre a menopausa, a pesquisador imerso também nas teorias do senso

lO. Foi a obscf\lação, e não os relatos verbais, que pcnnitiram à pesquisadora identificar práticas diferenciadas das mães de
Camília com rel~çãl) à s~cr~ç1Io e à excreção dos doentes.
11. o texto é parte da dissertação de mestrado da autora e rclatacorn detalhes as etapas pcrcorridas para a análise de
resultados das conversas
'"
comum e nas práticas sociais que constituem seu as explicações delimitadas pelo campo de estudo da
cotidiano. Apesar de não focalizarem as práticas psicologia popular.
sociais, dois autores exprimem com predsão exigên- Em 1971, Faucheux e Moscovici afinnavam
cias de cautela que julgamos pertinentes. Falando que "A psicologia social, como ciência e prática, é,
sobre RS, Sá (1998) observa que seu estudo só é indiscutivelmente política: ela tem um alcance
proveitoso quando construídas "como objeto de político... " (p. 63, grifos nossos). Trinta anos depois
pesquisa no universo reificadoda prática científica", pennanece a dificuldade em articular as instâncias
concluindo que, mesmo sendo tentador "uma apTo- dos conhecimentos teórico e prático na Psicologia
priaçãoingênua dasrepresentaçOes sociais de tentar Social, assim como em reconhecer sua faceta
captá-las em seus pr6prios tennos correntes" este política. Talvez o estudo comprometido das práticas
ti!)O de procedimento resultaria "apenas em sua sociais evidencie novos caminhos, mostrando que a
duplicação como representaçOes de representações, TRS pode colaborar nilo só para a compreensão dos
de pouco valor para o entendimento psicossociolc.. clamorosos problemas sociais da atualidade, como
gico do fenômeno" (p. 17). também para a intervenção que contribua com sua
Por outro lado, analisando um lema complexo solução.
pelas paixões que mobiliza, a dominaçllomasculina,
Bourdieu (1999) adverte para os riscos da militância
quando se sobrepõe à análise científica. Reclamar nmnÉNCIASBIBlIOGnÀFICAS
direitos e:l:clusivos sobre um objeto
Abric, J-C. (1994). [ntroduction. Em J-C. Abric (Org.),
Pro/;quusocw.leJe/represento/iorIJ(pp.7-9).Paris:
"pelo fato de ser ao mesmo tempo sujeito e PressesUnivcrsitairesde France.
objeto, e mais predsamente, de ter expe-
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cicntificamenle, é importar para o campo representaçõo s(KiaJ (pp. 27-3g). Goiânia: AS
cientificoadefesapoliticadeparticularismos
queautorizawnadesconfiançaaprioriepõc Bangerter, A. (1995). Rethinking the relation bet"cen
em qucstllo o universalismo que, através science and common scnse: A Commen! on lhe cWTent
sobretudo do direito de acesso a todos os staleorsocialrepresenlalÍontheory.PapersonSocial
RepruenlaliOrIJ,4(1),6J_78.
objetos, é um dos fundamentos da República
da ciência" (Bourdieu, 1999, p. 137). Berger, P. e Luckmann, T.(1973).A cornlnlçõosocw.1 da
realidade (F. S. Fernandes, Trad) Rio de Janeiro:
V07.cS (Trabalhooriginalpub[icadoem 1966)
Como já se apontou, as práticas sociais não são
urn fenômeno de interesse exclusivo dos estudiosos da Sourdieu, P. (Im). A daminaçlJo masculina (M. H.
TRS e do um campo sub-estudado no âmbito da KUhner, Trad) Rio de Janeiro: Bertrand Brasil
(Trab,alhoorigina[publicadoem 1998)
própria Psicologia SociaL No caso da TRS, a
necessidade de melhor conhecer as práticas parece Brcakwell,G.M. (1993). Socia[representationsandsocial
sempre fundamentada na preocupação com as identity. Popers on SoClol Representa/ionJ, 2(3),
198-217.
contribuições que o desvendamento das práticas pode
oferecer à teoria. Invertendo a equação, propõe-se Campos, P.lI.F. (1998). PrOliqueJ, reprbenta/ians
que, tendo legitimidade própria, as práticas sociais socia/u e/ exc/usian Jociale: Le Cas de.< educo/eurs
du enfams de rue au Brbil Tese de Doutorado,
deveriam também ser construídas como objetos de
Université de ProvencelAi:l:-Marscille [, france
estudo singulares, que podem se beneficiar de
diferentes aportes teóricos originados no dominio da Cunha, G. G. (2000). Brincadeiras. sauahdade, Trabalho
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111

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