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DO MITO À RAZÃO: NASCIMENTO DA FILOSOFIA NA GRÉCIA ANTIGA transmitem os valores da cultura por meio das histórias dos deuses e

antepassados, expressando uma determinada concepção de vida. Por isso


Advento da Polis, nascimento da filosofia: entre as duas ordens de desde cedo as crianças decoravam passagens dos poemas de Homero.
fenômenos os vínculos são demasiado estreitos para que o pensamento As ações heroicas relatadas nas epopeias mostram a constante
racional não apareça, em suas origens, solidário das estruturas sociais e intervenção dos deuses, ora para auxiliar um protegido seu, ora para
mentais próprias da cidade grega. (Jean-Pierre Vernant) perseguir um inimigo. O homem homérico é presa do Destino (Moira), que é
fixo, imutável, e não pode ser alterado. Até distúrbios psíquicos como o
1. Introdução desvario momentâneo de Agamêmnon são atribuídos à ação divina. É nesse
Todos nós sabemos que os primeiros filósofos da humanidade foram sentido a fala de Heitor: "Ninguém me lançará ao Hades" contra as ordens do
gregos. Isso significa que embora tenhamos referências de grandes homens destino! Garanto–te que nunca homem algum, bom ou mau, escapou ao seu
na China (Confúcio, Lao Tsé), na Índia (Buda), na Pérsia (Zaratustra), suas destino, desde que nasceu!"
teorias ainda estão por demais vinculadas à religião para que se possa falar O herói vive, portanto, na dependência dos deuses e do destino,
propriamente em reflexão filosófica. faltando a ele a nossa noção de vontade pessoal, de livre-arbítrio. Mas isto
O que veremos é o processo pelo qual se tornou possível a não o diminui diante dos homens comuns. Ao contrário, ter sido escolhido
passagem da consciência mítica para a consciência filosófica na civilização pelos deuses é sinal de valor e em nada tal ajuda desmerece a sua virtude.
grega, constituída por diversas regiões politicamente autônomas. A virtude do herói se manifesta pela coragem e pela força, sobretudo
no campo de batalha, mas também na assembleia, no discurso, pelo poder
2. A concepção mítica de persuasão.
As epopeias O preceptor de Aquiles diz: "Para isso me enviou, a fim de eu te
Os mitos gregos eram recolhidos pela tradição e transmitidos ensinar tudo isto, a saber fazer discursos e praticar nobres feitos".2 Nessa
oralmente pelos aedos e rapsodos, cantores ambulantes que davam forma perspectiva, a noção de virtude não deve ser confundida com o conceito moral
poética aos relatos populares e os recitavam de cor em praça pública. Era de virtude como o conhecemos posteriormente, mas como excelência,
difícil conhecer os autores de tais trabalhos de formalização, porque num superioridade, alvo supremo do herói. Trata –se da virtude do guerreiro belo
mundo em que predomina a consciência mítica não existe a preocupação e bom.
com a autoria da obra, já que o anonimato é a consequência do coletivismo,
fase em que ainda não se destaca a individualidade. Além disso, não havia a A Teogonia
escrita para fixar obra e autor. Hesíodo, outro poeta que teria vivido por volta do final do século VIII
Por esse motivo há controvérsia a respeito da época em que teria e princípios do VII a.C., produz uma obra com características que apontam
vivido Homero, um desses poetas, e até se ele realmente teria existido (séc. para a época que se vai iniciar a seguir, com particularidades que tendem a
IX a.C.?). superar a poesia impessoal e coletiva das epopeias.
É costume atribuir-lhe a autoria de dois poemas épicos (epopeias): Mas mesmo assim, sua obra Teogonia (teo: deus; gonia: origem)
Ilíada, que trata da guerra de Tróia (Tróia em grego é Ilion), e Odisseia, que reflete ainda a preocupação com a crença nos mitos. Nela Hesíodo relata as
relata o retorno de Ulisses a Ítaca, após a guerra de Tróia (Odisseu é o nome origens do mundo e dos deuses, e as forças que surgem não são a pura
grego de Ulisses). Por vários motivos, inclusive pelo estilo diferente dos dois natureza, mas sim as próprias divindades: Gaia é a Terra, Urano é o Céu,
poemas, alguns intérpretes acham que são obras de diversos autores. Cronos é o Tempo, surgindo ora por segregação, ora pela intervenção de
De qualquer forma, as epopeias tiveram função didática importante Eros, princípio que aproxima os opostos.
na vida dos gregos porque descrevem o período da civilização micênica e
3. A concepção filosófica que a escrita tenha se tornado acessível a todos. Muito ao contrário,
. É no período arcaico que surgem os primeiros filósofos gregos, por permanece ainda grande o número de analfabetos. O que está em questão,
volta de fins do século VII a.C. e durante o século VI a.C. no entanto, é a dessacralização da escrita, ou seja, seu desligamento da
Alguns autores costumam chamar de "milagre grego" a passagem religião.
do pensamento mítico para o pensamento crítico racional e filosófico. A escrita gera uma nova idade mental porque exige de quem escreve
Atenuando a ênfase dada a essa "mutação", no entanto, alguns estudiosos uma postura diferente daquela de quem apenas fala. Como a escrita fixa a
mais recentes pretendem superar essa visão simplista e a-histórica, palavra, e consequentemente o mundo, para além de quem a proferiu,
realçando o fato deque o surgimento da racionalidade crítica foi o resultado necessita de mais rigor e clareza, o que estimula o espírito crítico. Além disso,
de um processo muito lento, preparado pelo passado mítico, cujas a retomada posterior do que foi escrito e o exame pelos outros - não só de
características não desaparecem "como por encanto na nova abordagem contemporâneos, mas de outras gerações - abrem os horizontes do
filosófica do mundo. Ou seja, o surgimento da filosofia na Grécia não foi o pensamento, propiciando o distanciamento do vivido, o confronto das ideias,
resultado de um salto, um "milagre" realizado por um povo privilegiado, mas a ampliação da crítica.
a culminação de um processo que se fez através dos tempos e tem sua dívida Portanto, a escrita aparece como possibilidade maior de abstração,
com o passado mítico. uma reflexão da palavra que tenderá a modificar a própria estrutura do
Algumas novidades surgidas no período arcaico ajudaram a pensamento.
transformar a visão que o homem mítico tinha do mundo e de si mesmo. São
elas a invenção da escrita, o surgimento da moeda, a lei escrita, o nascimento A moeda
da polis (cidade -estado), todas elas tornando-se condição para o surgimento Por volta dos séculos VIII a VI a.C. houve o desenvolvimento do
do filósofo. Vejamos como isso se deu. comércio marítimo decorrente da expansão do mundo grego mediante a
colonização da Magna Grécia (atual sul da Itália) e Jônia (atual Turquia). O
A escrita enriquecimento dos comerciantes promove u profundas transformações
Geralmente a consciência mítica predomina nas culturas de tradição decorrentes da substituição dos valores aristocráticos pelos valores da nova
oral, onde ainda não há escrita. É interessante observar que mythos significa classe em ascensão.
"palavra", "o que se diz". A palavra antes da escrita, ligada a um suporte vivo Na época da predominância da aristocracia rural, cuja riqueza se
que a pronuncia, repete e fixa o evento por meio da memória pessoal. Aliás, baseava em terras e rebanhos, a economia era antes da moeda e os objetos
etimologicamente, epopeia significa "o que se exprime pela palavra" e lenda usados para troca vinham carregados de simbologia afetiva e sagrada,
é "o que se conta". decorrente da posição social ocupada por homens considerados superiores
É bem verdade que, de início, a primeira escrita é mágica e e do caráter sobrenatural que impregnava as relações sociais.
reservada aos privilegiados, aos sacerdotes e aos reis. Entre os egípcios, por A fim de facilitar os negócios, a moeda, que tinha sido inventada na
exemplo, hieróglifos significa literalmente "sinais divinos". Lídia, aparece na Grécia por volta do século VII a.C. A moeda torna-se
Na Grécia, a escrita surge por influência dos fenícios e já no século necessária porque, com o comércio, os produtos que antes eram feitos
VIII a.C. se acha suficientemente desligada de preocupações esotéricas e sobretudo com valor de uso passam a ter valor de troca, isto é, transformam-
religiosas. se em mercadoria. Daí a exigência de algo que funcionasse como valor
Enquanto os rituais religiosos são cheios de fórmulas mágicas, equivalente universal das mercadorias.
termos fixos e inquestionados, os escritos deixam de ser reservados apenas A invenção da moeda desempenha papel revolucionário, pois está
aos que detêm o poder e passam a ser divulgados em praça pública, sujeitos vinculada ao nascimento do pensamento racional. Isso porque passa a ser
à discussão e à crítica. Apenas um parêntese esclarecedor: isso não significa emitida e garantida pela cidade, revertendo benefícios para a própria
comunidade. Além desse efeito político de democratização, a moeda A polis se faz pela autonomia da palavra, não mais a palavra mágica
sobrepõe aos símbolos sagrados e afetivos o caráter racional de sua dos mitos, palavra dada pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas a
concepção: muito mais do que um metal precioso que se troca por qualquer palavra humana do conflito, da discussão, da argumentação. O saber deixa
mercadoria, a moeda é um artifício racional, uma convenção humana, uma de ser sagrado e passa a ser objeto de discussão.
noção abstrata de valor que estabelece a medida comum entre valores A expressão da individualidade por meio do debate faz nascer a
diferentes. política, libertando o homem dos exclusivos desígnios divinos, e permitindo a
ele tecer seu destino na praça pública. A instauração da ordem humana dá
A lei escrita origem ao cidadão da polis, figura inexistente no mundo coletivista da
Drácon (séc. VII a.C.), Sólon e Clisteres (séc. VI a.C.) são os comunidade tribal.
primeiros legisladores que marcam uma nova era: a justiça, até então Portanto, o cidadão da polis participa dos destinos da cidade por
dependente da arbitrariedade dos reis ou da interpretação da vontade divina, meio do uso da palavra em praça pública. Mas para que isso fosse possível,
é codificada numa legislação escrita. Regra comum a todos, norma racional, desenvolveu-se uma nova concepção a respeito das relações entre os
sujeita à discussão e modificação, a lei escrita passa a encarnar uma homens, não mais assentadas nas suas diferenças, na hierarquia típica das
dimensão propriamente humana. relações de submissão e domínio. Ou seja, "os que compõem a cidade, por
As reformas provocadas pela legislação de Clístenes fundam a polis mais diferentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função, aparecem
sobre uma base nova: a antiga organização tribal é abolida e estabelecem-se de uma certa maneira "semelhantes" uns aos outros". De início a igualdade
novas relações, não mais baseadas na consanguinidade, mas determinadas existe apenas entre os guerreiros, mas "essa imagem do mundo humano
por nova organização administrativa. Tais modificações expressam o ideal encontrará no século VI sua expressão rigorosa num conceito, o de isonomia:
igualitário que prepara a democracia nascente, pois a unificação do corpo igual participação de todos os cidadãos no exercício do poder".
social abole a hierarquia fundada no poder aristocrático das famílias. O apogeu da democracia ateniense se dá no século V a.C., já no
período clássico, quando Péricles era estratego. É bem verdade que Atenas
O cidadão da polis possuía meio milhão de habitantes, dos quais 300 mil eram escravos e 50 mil
Jean-Pierre Vernant, helenista e pensador francês, vê no metecos (estrangeiros); excluídas mulheres e crianças, restavam apenas
nascimento da polis (por volta dos séculos VIII e VII a.C.) um acontecimento 10% considerados cidadãos propriamente ditos, capacitados para decidir por
decisivo que "marca um começo, uma verdadeira invenção", que provocou todos.
grandes alterações na vida social e nas relações entre os homens. Por isso, quando falamos em democracia ateniense, é bom lembrar
A originalidade da cidade grega é que ela está centralizada na agora que a maior parte da população se achava excluída do processo político.
(praça pública), espaço onde se debatem os problemas de interesse comum. Aliás, quanto mais se desenvolvia a ideia de cidadão ideal, com a
Separam–se na polis o domínio público e o privado: isto significa que ao ideal consolidação da democracia, mais a escravidão surgia como contraponto
de valor de sangue, restrito a grupos privilegiados em função do nascimento indispensável, na medida em que ao escravo eram reservadas as tarefas
ou fortuna, se sobrepõe a justa distribuição dos direitos dos cidadãos consideradas "menores" dos trabalhos manuais e da luta pela sobrevivência.
enquanto representantes dos interesses da cidade. Está sendo elaborado o Mas não resta dúvida de que, na fase aristocrática anterior, havia ainda outros
novo ideal de justiça, pelo qual todo cidadão tem direito ao poder. A nova tipos de privilégios. O que enfatizamos no processo é a mutação do ideal
noção de justiça assume caráter político, e não apenas moral, ou seja, ela político e o surgimento de uma concepção nova de poder.
não diz respeito apenas ao indivíduo e aos interesses da tradição familiar, O ideal teórico da nova classe dos comerciantes será elaborado
mas se refere a sua atuação na comunidade. pelos sofistas. Filósofos do século V a.C. (ver Capítulo 19 - O pensamento
político grego).
Para o pensador grego, só voltando-se para seu interior o homem chega à
O nascimento do filósofo sabedoria e se realiza como pessoa
A grande aventura intelectual dos gregos não começa propriamente
na Grécia continental, mas nas colônias: na Jônia (metade sul da costa O pensamento do filósofo grego Sócrates (469- 399 a.C.) marca uma
ocidental da Ásia Menor) e na Magna Grécia (sul da península itálica e Sicília). reviravolta na história humana. Até então, a filosofia procurava explicar o mundo
Os primeiros filósofos viveram por volta do século VI a.C. e, mais baseada na observação das forças da natureza. Com Sócrates, o ser humano voltou-
se para si mesmo. Como diria mais tarde o pensador romano Cícero, coube ao grego
tarde, foram classificados como pré-socráticos (a divisão da filosofia grega se
"trazer a filosofia do céu para a terra" e concentrá-la no homem e em sua alma (em
centraliza na figura de Sócrates) e agrupados em diversas escolas. Por
grego, a psique). A preocupação de Sócrates era levar as pessoas, por meio do
exemplo, escola jônica (Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, autoconhecimento, à sabedoria e à prática do bem.
Empédocles). Escola itálica (Pitágoras), escola eleática (Xenófanes, Nessa empreitada de colocar a filosofia a serviço da formação do ser
Parmênides, Zenão); escola atomista (Leucipo e Demócrito). humano, Sócrates não estava sozinho. Pensadores sofistas, os educadores
Os escritos dos filósofos pré-socráticos desapareceram com o profissionais da época, igualmente se voltavam para o homem, mas com um objetivo
tempo, e só nos restam alguns fragmentos ou referências feitas por filósofos mais imediato: formar as elites dirigentes. Isso significava transmitir aos jovens não
posteriores. Sabemos que geralmente, escreviam em prosa, abandonando a o valor e o método da investigação, mas um saber enciclopédico, além de
forma poética característica das epopeias, dos relatos míticos. desenvolver sua eloquência, que era a principal habilidade esperada de um político.
É interessante notar que, enquanto Hesíodo, ao relatar o princípio Sócrates concebia o homem como um composto de dois princípios, alma
do mundo (cosmogonia) e dos deuses (teogonia), refere-se a sua gênese ou (ou espírito) e corpo. De seu pensamento surgiram duas vertentes da filosofia que,
origem, as preocupações dos primeiros pensadores levam à elaboração de em linhas gerais, podem ser consideradas como as grandes tendências do
pensamento ocidental. Uma é a idealista, que partiu de Platão (427-347 a.C.),
uma cosmologia, pois procuram a racionalidade do universo. Isso significa
seguidor de Sócrates. Ao distinguir o mundo concreto do mundo das ideias, deu a
que, ao perguntarem como seria possível emergir do Caos um "cosmos" - ou
estas status de realidade; e a outra é a realista, partindo de Aristóteles (384-322 a.C.),
seja, como da confusão inicial surgiu o mundo ordenado -, os pré-socráticos discípulo de Platão que submeteu as ideias, às quais se chega pelo espírito, ao mundo
procuram o princípio (a arché) de todas as coisas, entendido este não como real.
o que antecede no tempo, mas enquanto fundamento do ser. Buscar a arché
é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas. Ensino pelo diálogo
A filosofia surgiu no século VI a.C. nas colônias gregas da Magna
Grécia e da Jônia. Só no século seguinte desloca-se para Atenas, centro da Nas palavras atribuídas a Sócrates por Platão na obra Apologia de Sócrates,
fermentação cultural do período clássico. o filósofo ateniense considerava sua missão "andar por aí (nas ruas, praças e ginásios,
que eram as escolas atenienses de atletismo), persuadindo jovens e velhos a não se
As respostas dos filósofos à questão do fundamento das coisas são as mais preocuparem tanto, nem em primeiro lugar, com o corpo ou com a fortuna, mas
antes com a perfeição da alma".
variadas. Cada um descobre a arché, a unidade que pode explicar a
Defensor do diálogo como método de educação, Sócrates considerava
multiplicidade: para Tales é a água; para Anaxímenes é o ar; para Demócrito
muito importante o contato direto com os interlocutores - o que é uma das possíveis
é o átomo; para Empédocles, os famosos quatro elementos, terra, água, ar e
razões para o fato de não ter deixado nenhum texto escrito. Suas ideias foram
fogo, teoria aceita até o século XVIII. Quando foi criticada por Lavoisier. recolhidas principalmente por Platão, que as sistematizou, e por outros filósofos que
conviveram com ele.
Sócrates, o mestre em busca da verdade Sócrates se fazia acompanhar frequentemente por jovens, alguns
pertencentes às mais ilustres e ricas famílias de Atenas. Para Sócrates, ninguém
adquire a capacidade de conduzir-se, e muito menos de conduzir os demais, se não
possuir a capacidade de autodomínio. Depois dele, a noção de controle pessoal se para ser cidadão e sábio devia começar pela educação do corpo, que permite
transformou em um tema central da ética e da filosofia moral. Também se formou aí controlar o físico.
o conceito de liberdade interior: livre é o homem que não se deixa escravizar pelos Já para a educação do espírito, Sócrates colocava em segundo plano os
próprios apetites e segue os princípios que, por intermédio da educação, afloram de estudos científicos, por considerar que se baseavam em princípios mutáveis.
seu interior. Inspirado no aforismo "conhece-te a ti mesmo", do templo de Delfos, julgava mais
Opondo-se ao relativismo de muitos sofistas, para os quais a verdade e a importantes os princípios universais, porque seriam eles que conduziriam à
prática da virtude dependiam de circunstâncias, Sócrates valorizava acima de tudo a investigação das coisas humanas.
verdade e as virtudes - fossem elas individuais, como a coragem e a temperança, ou
sociais, como a cooperação e a amizade. O pensador afirmava, no entanto, que só o Contexto histórico: Atenas, capital da democracia e do saber
conhecimento (ou seja, o saber, e não simples informações isoladas) conduz à prática
da virtude em si mesma, que tem caráter uno e indivisível. Sob o governo de Péricles (499-429 a.C.), a cidade-estado de Atenas,
Segundo Sócrates, só age erradamente quem desconhece a verdade e, por vitoriosa na guerra contra os persas e enriquecida pelo comércio marítimo, tornou-
extensão, o bem. A busca do saber é o caminho para a perfeição humana, dizia, se o centro cultural do mundo grego, para o qual convergiam os talentos de toda
introduzindo na história do pensamento a discussão sobre a finalidade da vida. parte.
Fídias, o arquiteto e escultor que dirigiu as obras do Partenon, o maior
O despertar do espírito templo da Acrópole, os dramaturgos Sófocles, Ésquilo, Eurípedes e Aristófanes e o
orador Demóstenes são nomes dessa época.
O papel do educador é, então, o de ajudar o discípulo a caminhar nesse O regime democrático ateniense - restrito aos cidadãos livres, deixando de
sentido, despertando sua cooperação para que ele consiga por si próprio "iluminar" fora estrangeiros e escravos - foi fortalecido por reformas que limitaram os poderes
sua inteligência e sua consciência. Assim, o verdadeiro mestre não é um provedor de da burguesia rica e ampliaram os da assembleia e do júri popular. A educação
conhecimentos, mas alguém que desperta os espíritos. Ele deve, segundo Sócrates, artística do povo foi estimulada pela exibição de obras de arte em locais públicos e
admitir a reciprocidade ao exercer sua função iluminadora, permitindo que os alunos pelas representações teatrais.
contestem seus argumentos da mesma forma que contesta os argumentos dos
alunos. Para o filósofo, só a troca de ideias dá liberdade ao pensamento e a sua Para pensar
expressão - condições imprescindíveis para o aperfeiçoamento do ser humano.
Ao eleger o diálogo como método de investigação, Sócrates foi o primeiro
O nascimento das ideias, segundo o filósofo filósofo a se preocupar não só com a verdade mas com o modo como se pode chegar
a ela. Eis por que ele é considerado por muitos o modelo clássico de professor.
Sócrates comparava sua função com a profissão de sua mãe, parteira - que Quando você prepara suas aulas, costuma levar em conta a necessidade de ajudar
não dá à luz a criança, apenas auxilia a parturiente. "O diálogo socrático tinha dois seus alunos a desenvolver procedimentos para que possam pensar por si mesmos?
momentos", diz Carlos Roberto Jamil Cury, professor aposentado da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. Platão, o primeiro pedagogo
O primeiro corresponderia às "dores do parto", momento em que o
filósofo, partindo da premissa de que nada sabia, levava o interlocutor a apresentar O filósofo grego previu um sistema de ensino que mobilizava toda a
suas opiniões. Em seguida, fazia-o perceber as próprias contradições ou ignorância sociedade para formar sábios e encontrar a virtude
para que procedesse a uma depuração intelectual. Mas só a depuração não levava à Na história das ideias, o grego Platão (427-347 a.C.) foi o primeiro
verdade - chegar a ela constituía a segunda parte do processo. Aí, ocorria o "parto pedagogo, não só por ter concebido um sistema educacional para o seu
das ideias" (expresso pela palavra maiêutica), momento de reconstrução do tempo mas, principalmente, por tê-lo integrado a uma dimensão ética e
conceito, em que o próprio interlocutor ia "polindo" as noções até chegar ao política. O objetivo final da educação, para o filósofo, era a formação do
conceito verdadeiro por aproximações sucessivas. O processo de formar o indivíduo homem moral, vivendo em um Estado justo.
Platão foi o segundo da tríade dos grandes filósofos clássicos, Platão defendia a ideia de que a alma precede o corpo e que, antes
sucedendo Sócrates (469- 399 a.C.) e precedendo Aristóteles (384-322 a.C.), de encarnar, tem acesso ao conhecimento. Dessa forma, todo aprendizado
seu discípulo. Como Sócrates, Platão rejeitava a educação que se praticava não passaria de um esforço de reminiscência - um dos princípios centrais do
na Grécia em sua época e que estava a cargo dos sofistas, incumbidos de pensamento do filósofo. Com base nessa teoria, que não encontra eco na
transmitir conhecimentos técnicos - sobretudo a oratória - aos jovens da elite, ciência contemporânea, Platão defendia uma ideia que, paradoxalmente,
para torná-los aptos a ocupar as funções públicas. "Os sofistas afirmavam sustenta grande parte da pedagogia atual: não é possível ou desejável
que podiam defender igualmente teses contrárias, dependendo dos transmitir conhecimentos aos alunos, mas, antes, levá-los a procurar
interesses em jogo", diz Sérgio Augusto Sardi, professor da Pontifícia respostas, eles mesmos, a suas inquietações. Por isso, o filósofo rejeitava
Universidade Católica do Rio Grande do Sul. "Platão, ao contrário, pensava métodos de ensino autoritários. Ele acreditava que se deveria deixar os
em termos de uma busca continuada da virtude, da justiça e da verdade." estudantes, sobretudo as crianças, à vontade para que pudessem se
Para Platão, "toda virtude é conhecimento". Ao homem virtuoso, desenvolver livremente. Nesse ponto, a pedagogia de Platão se aproxima de
segundo ele, é dado conhecer o bem e o belo. A busca da virtude deve sua filosofia, em que a busca da verdade é mais importante do que dogmas
prosseguir pela vida inteira - portanto, a educação não pode se restringir aos incontestáveis. O processo dialético platônico - pelo qual, ao longo do debate
anos de juventude. de ideias, depuram-se o pensamento e os dilemas morais - também se
Educar é tão importante para uma ordem política baseada na justiça relaciona com a procura de respostas durante o aprendizado. "Platão é do
- como Platão preconizava - que deveria ser tarefa de toda a sociedade. mais alto interesse para todos que compreendem a educação como uma
exigência de que cada um, professor ou aluno, pense sobre o próprio pensar",
O ideal da escola pública diz o professor Sardi.

Baseado na ideia de que os cidadãos que têm o espírito cultivado Estudo permanente
fortalecem o Estado e que os melhores entre eles serão os governantes, o
filósofo defendia que toda educação era de responsabilidade estatal - um A educação, segundo a concepção platônica, visava a testar as
princípio que só se difundiria no Ocidente muitos séculos depois. Igualmente aptidões dos alunos para que apenas os mais inclinados ao conhecimento
avançada, quase visionária, era a defesa da mesma instrução para meninos recebessem a formação completa para ser governantes. Essa era a finalidade
e meninas e do acesso universal ao ensino. do sistema educacional planejado pelo filósofo, que pregava a renúncia do
Contudo, Platão era um opositor da democracia - há estudiosos que indivíduo em favor da comunidade. O processo deveria ser longo, porque
o consideram um dos primeiros idealizadores do totalitarismo. O filósofo via Platão acreditava que o talento e o gênio só se revelam aos poucos.
no sistema democrático que vigorava na Atenas de seu tempo uma estrutura A formação dos cidadãos começaria antes mesmo do nascimento,
que concedia poder a pessoas despreparadas para governar. Quando pelo planejamento eugênico da procriação. As crianças deveriam ser tiradas
Sócrates, que considerava "o mais sábio e o mais justo dos homens", foi dos pais e enviadas para o campo, uma vez que Platão considerava
condenado à morte sob acusação de corromper a juventude, Platão corruptora a influência dos mais velhos. Até os 10 anos, a educação seria
convenceu-se, de uma vez por todas, de que a democracia precisava ser predominantemente física e constituída de brincadeiras e esporte. A ideia era
substituída. criar uma reserva de saúde para toda a vida. Em seguida, começaria a etapa
Para ele, o poder deveria ser exercido por uma espécie de da educação musical (abrangendo música e poesia), para se aprender
aristocracia, mas não constituída pelos mais ricos ou por uma nobreza harmonia e ritmo, saberes que criariam uma propensão à justiça, e para dar
hereditária. Os governantes tinham de ser definidos pela sabedoria. Os reis forma sincopada e atrativa a conteúdos de Matemática, História e Ciência.
deveriam ser filósofos e vice-versa. "Como pode uma sociedade ser salva, ou Depois dos 16 anos, à música se somariam os exercícios físicos,
ser forte, se não tiver à frente seus homens mais sábios?", escreveu Platão. com o objetivo de equilibrar força muscular e aprimoramento do espírito.
Aos 20 anos, os jovens seriam submetidos a um teste para saber
O aprendizado como reminiscência que carreira deveriam abraçar. Os aprovados receberiam, então, mais dez
anos de instrução e treinamento para o corpo, a mente e o caráter. No teste
que se seguiria, os reprovados se encaminhariam para a carreira militar e os
aprovados para a filosofia - neste caso, os objetivos dos estudos seriam
pensar com clareza e governar com sabedoria. Aos 35 anos, terminaria a De todos os grandes pensadores da Grécia antiga, Aristóteles (384-
preparação dos reis-filósofos. Mas ainda estavam previstos mais 15 de vida 322 a.C.) foi o que mais influenciou a civilização ocidental. Até hoje o modo
em sociedade, testando os conhecimentos entre os homens comuns e de pensar e produzir conhecimento deve muito ao filósofo. Foi ele o fundador
trabalhando para se sustentar. Somente os que fossem bem-sucedidos se da ciência que ficaria conhecida como lógica e suas conclusões nessa área
tornariam governantes ou "guardiães do Estado". não tiveram contestação alguma até o século 17. Sua importância no campo
da educação também é grande, mas de modo indireto. Poucos de seus textos
Um império em decadência específicos sobre o assunto chegaram a nossos dias. A contribuição de
Aristóteles para o ensino está principalmente em escritos sobre outros temas.
Platão nasceu meses depois da morte de Péricles, o estadista mais As principais obras de onde se pode tirar informações pedagógicas
identificado com a democracia de Atenas, e morreu dez anos antes da são as que tratam de política e ética. "Em ambos os casos o objetivo final era
conquista do mundo grego por Felipe da Macedônia. Sua vida coincide em obter a virtude", diz Carlota Boto, professora da Faculdade de Educação da
grande parte com a decadência do império ateniense. Platão construiu uma Universidade de São Paulo. "Em suas reflexões sobre ética, Aristóteles afirma
obra voltada para épocas anteriores. Foi por meio de seus escritos em forma que o propósito da vida humana é a obtenção do que ele chama de vida boa.
de diálogos que as ideias de Sócrates puderam ser sistematizadas e Isso significava ao mesmo tempo vida? Do bem? E vida harmoniosa." Ou seja,
divulgadas, já que ele não havia deixado nenhum texto escrito. Nos diálogos, para Aristóteles, ser feliz e ser útil à comunidade eram dois objetivos
usualmente, Sócrates e um pensador sofista debatem um assunto até uma sobrepostos, e ambos estavam presentes na atividade pública. O melhor
conclusão. Uma vez que Platão não se coloca como personagem, restou a seus governo, dizia ele, seria "aquele em que cada um melhor encontra o que
intérpretes póstumos distinguir as ideias de Sócrates das do próprio Platão. A necessita para ser feliz".
obra platônica foi sistematizada no início da era cristã. Os títulos mais
célebres são O Banquete e A República. Cultivo da perfeição
O cristianismo na Idade Média se apropriou do pensamento platônico
por se identificar, entre outras, com a ideia de que em todas as coisas há uma "A educação, para Aristóteles, é um caminho para a vida pública",
essência, que se encontra num plano supra real. prossegue Carlota. Cabe à educação a formação do caráter do aluno.
Perseguir a virtude significaria, em todas as atitudes, buscar o "justo meio". A
Para pensar prudência e a sensatez se encontrariam no meio-termo, ou medida justa - "o
que não é demais nem muito pouco", nas palavras do filósofo.
Platão acreditava que, por meio do conhecimento, seria possível Um dos fundamentos do pensamento aristotélico é que todas as
controlar os instintos, a ganância e a violência. O acesso aos valores da coisas têm uma finalidade. É isso que, segundo o filósofo, leva todos os seres
civilização, portanto, funcionaria como antídoto para todo o mal cometido vivos a se desenvolver de um estado de imperfeição (semente ou embrião) a
pelos seres humanos contra seus semelhantes. Hoje poucos concordam com outro de perfeição (correspondente ao estágio de maturidade e reprodução).
isso; a causa principal foram as atrocidades cometidas pelos regimes Nem todos os seres conseguem ou têm oportunidade de cumprir o ciclo em
totalitários do século 20, que prosperaram até em países cultos e sua plenitude, porém. Por ter potencialidades múltiplas, o ser humano só será
desenvolvidos, como a Alemanha. Por outro lado, não há educação feliz e dará sua melhor contribuição ao mundo se desfrutar das condições
consistente sem valores éticos. Você já refletiu sobre essas questões? Até necessárias para desenvolver o talento. A organização social e política, em
que ponto considera a educação um instrumento para a formação de homens geral, e a educação, em particular, têm a responsabilidade de fornecer essas
sábios e virtuosos? condições.

Imitação, o princípio do aprendizado


Aristóteles, o defensor da instrução para a virtude
Márcio Ferrari Aristóteles não era, como Platão, um crítico da sociedade e da
democracia de Atenas. Ao contrário, considerava a família, como se
constituía na época, o núcleo inicial da organização das cidades e a primeira silogismo é o seguinte. Todos os homens são mortais. Sócrates é um homem.
instância da educação das crianças. Atribuía, no entanto, aos governantes e Portanto, Sócrates é mortal. Isso não basta, porém, para que a lógica se torne
aos legisladores o dever de regular e vigiar o funcionamento das famílias para ciência. Um silogismo precisa partir de verdades, como as contidas nas duas
garantir que as crianças crescessem com saúde e obrigações cívicas. Por proposições iniciais. Elas não se sujeitam a um raciocínio que as demonstre.
isso, o Estado deveria também ser o único responsável pelo ensino. Na Demonstram-se a si mesmas na realidade e são chamadas de axiomas. A
escola, o princípio do aprendizado seria a imitação. Segundo ele, os bons observação empírica - isto é, a experiência do real - ganha, assim, papel
hábitos se formavam nas crianças pelo exemplo dos adultos. Quanto ao central na concepção de ciência de Aristóteles, em contraste com o
conteúdo dos estudos, Aristóteles via com desconfiança o saber "útil", uma pensamento de Platão.
vez que cabia aos escravos exercer a maioria dos ofícios, considerados
indignos dos homens livres. O início da Época Helenista
Ninguém nasce virtuoso Aristóteles era um jovem estudante da Academia de Platão, em
Atenas, quando, em 359 a.C., Felipe II, da Macedônia, interveio militarmente
A virtude, para Aristóteles, é uma prática e não um dado da natureza na Grécia. Uma tardia reação dos gregos foi sufocada quase 20 anos depois,
de cada um, tampouco o mero conhecimento do que é virtuoso, como para com a vitória de Felipe na batalha de Queronéia - marcando o fim das
Platão (427-347 a.C.). Para ser praticada constantemente, a virtude precisa cidades-estados na Grécia. Enquanto Aristóteles educava Alexandre, filho de
se tornar um hábito. Embora não se conheça nenhum estudo de Aristóteles Felipe, tentava incutir no aluno os ideais dos heróis de Homero e o dever de
sobre o assunto, é possível concluir que o hábito da virtude deve ser adquirido combater os povos considerados "bárbaros" (todos aqueles que não eram
na escola. gregos nem haviam recebido influência grega). Embora Alexandre tenha mais
Grande parte da obra que originou o legado aristotélico se tarde defendido a Grécia dos persas e Aristóteles tenha gozado até o fim da
desenvolveu em oposição à filosofia de Platão, seu mestre e fundador da vida de apoio material dos governantes macedônios, o imperador não reteve
Academia ateniense, que Aristóteles frequentou durante duas décadas. muitos ensinamentos do mestre.
Posteriormente, ele fundaria uma escola própria, o Liceu. Uma das duas Alexandre foi um tirano dedicado à conquista de territórios pelas
grandes inovações do filósofo em relação ao antecessor foi negar a existência armas, princípios opostos à autodeterminação democrática das cidades,
de um mundo supra- real, onde residiriam as ideias. Para Aristóteles, ao defendida pelo filósofo. Com a Grécia incorporada ao império de Alexandre,
contrário, o mundo que percebemos é suficiente, e nele a perfeição está ao Atenas perdeu importância como produtora de conhecimento, mas a cultura
alcance de todos os homens. A oposição entre os dois filósofos gregos - ou helenística ganhou centros de difusão fundados pelo imperador, como
entre a supremacia das ideias (idealismo) ou das coisas (realismo) - marcaria Alexandria, no Egito. Grande parte da extensa obra de Aristóteles se perdeu
para sempre o pensamento ocidental. e o que restou foi reorganizado (e talvez deturpado) por pensadores de outras
épocas. A obra aristotélica só voltou a circular na Europa na Idade Média, por
A verdade científica intermédio dos invasores árabes, que haviam preservado seus livros.

A segunda inovação de Aristóteles foi no campo da lógica. De acordo Para pensar


com o filósofo, determinar uma verdade comum a todos os componentes de
um grupo de coisas é a condição para conceber um sistema teórico. Para a Aristóteles acreditava que educar para a virtude era também um
construção de tal conhecimento, Aristóteles não se satisfez com a dialética modo de educar para viver bem - e isso queria dizer, entre outras coisas, viver
de Platão, segundo a qual o caminho para chegar à verdade era a depuração uma vida prazerosa. No mundo atual, nem sempre se vê compatibilidade
dos argumentos e pontos de vista por intermédio do diálogo. entre a virtude e o prazer. Ainda assim, você acredita que seja possível
Aristóteles quis criar um método mais seguro e desenvolveu o desenvolver em seus alunos uma consciência ética e, ao mesmo tempo, a
sistema que ficou conhecido como silogismo. Ele consiste de três proposições capacidade de apreciar as coisas boas da vida?
- duas premissas e uma conclusão que, para ser válida, decorre das duas
anteriores necessariamente, sem que haja outra opção. Exemplo clássico de