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JOGOS NA ALFABETIZAÇÃO: BRINCAR PARA ESCREVER

Justificativa: O uso de jogos na alfabetização são ferramentas essenciais para compreender e


dominar a escrita alfabética e substituir o aprendizado mecânico. Criança joga para alfabetização.
Atividades lúdicas facilitam o domínio das relações letra-som. Em todas as culturas, a condição de ser
criança está associada ao brincar. A defesa por uma educação que garanta aos pequenos o direito à ludicidade já
se tornou bandeira de luta comum no País, de modo que muitos se preocupam com que, na Educação Infantil e
nos anos iniciais do Ensino Fundamental, seja garantido às crianças o direito de, diariamente, brincar na escola.
Considerando que o mesmo deve ser pensado para etapas menos iniciais da educação básica, temos buscado, já
há algumas décadas, a ajuda de jogos variados, quando a tarefa docente é ensinar aos principiantes o sistema de
escrita alfabética.
Expectativas de aprendizagem: Reconhecer unidades fonológicas ou morfológicas como sílabas,
rimas, prefixos ou desinências; Compreender o sistema de escrita alfabética grafando sílabas que contenham
dígrafos e encontros consonantais. Desde os anos 1980, temos defendido que, ao lado dos jogos e brincadeiras
que já fazem parte de nossa cultura popular, quando está em questão a alfabetização, precisamos lançar mão de
jogos especiais.
Como temos lutado para abandonar os velhos métodos, que tratavam – e ainda tratam – o
aprendizado da escrita alfabética como uma atividade mecânica e repetitiva, limitada à cópia e à memorização,
temos buscado jogos que, numa direção contrária, ajudem as crianças a refletir.
Isso é, a aprender refletindo, compreendendo como nosso alfabeto funciona e se apropriando, de
modo consciente, de suas convenções letra-som.
Nessa trajetória, temos visto que os jogos na alfabetização podem ser classificados em dois grupos.
Por um lado, estão aqueles que se adéqua, principalmente, para ajudar quem ainda está precisando compreender
as propriedades do sistema alfabético.
Certos jogos fonológicos se prestam especialmente a essa finalidade: ao propor a reflexão sobre
partes das palavras orais (sílabas, rimas e outros segmentos), juntamente com sua forma escrita, ajudam os
principiantes a compreender que a escrita nota (registra) a pauta sonora das palavras que pronunciamos e não
outras propriedades (como a forma, o tamanho ou a finalidade) dos objetos que elas denominam.
Se a criança já alcançou uma hipótese alfabética, isto é, se já compreendeu que as letras registram os
pedaços sonoros das palavras menores que as sílabas orais, é hora de ajudá-la a consolidar as correspondências
letra-som de nossa língua.
Nessa nova etapa, que não pode ser negligenciada, e que, desejavelmente, já deve ocorrer, de forma
sistemática, para a quase totalidade dos alunos no segundo ano do Fundamental, é hora de lançarmos mão dos
jogos na alfabetização, que envolvem a leitura e a escrita de palavras. Sem deixar de trabalhar diariamente com
leitura (e/ou produção de textos), o recurso a jogos em que os aprendizes leem e escrevem palavras escolhidas,
porque contêm determinada relação letra-som, é fundamental para que se tornem autônomos, leitores e
produtores de textos.
A Caixa Jogos de Alfabetização, que o Centro de Estudos em Educação e Linguagem da Universidade
Federal de Pernambuco produziu e cedeu para o MEC, e que, há pouco, chegou a escolas de todo o Brasil, contém
bons exemplos desses jogos. Neles, para ajudar as crianças a pensar sobre as partes sonoras e escritas das
palavras, temos proposto que brinquem de:

• Identificar palavras que têm “pedaços” (sílabas, rimas, fonemas iniciais) parecidos;
• Contar a quantidade de sílabas, para descobrir entre duas palavras qual a maior;
• Identificar a presença de palavras no interior de outras palavras.

O Caça-rimas, como o nome indica, propõe que os alfabetizandos emparelhem as figuras cujos
nomes terminam de forma parecida.
Organizando a turma em até quatro equipes, distribuímos para cada grupo uma cartela com seis
figuras cujos nomes terminam com determinadas rimas que estão presentes em 20 “fichas” (que são, na verdade,
outras figuras cujos nomes contêm aquelas rimas).
Vence o jogo o grupo que primeiro parear as seis rimas possíveis. Com o mesmo espírito, fazemos
também o Bingo dos sons iniciais, desafiando os aprendizes, agora, a pensar sobre “pedaços” (sílabas) iniciais das
palavras que a mestra vai “cantando” ao longo do jogo.
Já na Palavra dentro de palavra, as crianças trabalham com cartelas contendo figuras cujos nomes,
escritos abaixo, contêm outra palavra (por exemplo, tucano, casa), e figuras, em outras fichas, que trazem as
palavras “contidas” (por exemplo, cano e asa).
Como o objetivo é promover a consciência de que uma sequência de sons que constitui uma palavra
pode estar contida em outras, os participantes (2, 3 ou 4 jogadores ou grupos) recebem iguais quantidades de
fichas com as palavras “grandes” e vão retirando, de um monte, as palavras “contidas” emborcadas.
Vence quem primeiro formar pares com todas as cartelas que recebeu. Em algumas ocasiões,
criamos o desafio de descobrir mais palavras dentro das palavras grandes (por exemplo, tu e Tucá, dentro de
tucano, ou cá, dentro de casa).
Sempre que possível, deve-se flexibilizar os desafios quando fazemos essas brincadeiras
especificamente com alunos que estão em diferentes níveis de compreensão da escrita. Também criamos
variações nos repertórios de fichas dos jogos para que não percam o poder motivador por ter tornado-se fáceis
demais, graças à memorização. Inspirados no clássico jogo de dominó (com peças equivalentes a 0, 1, 2, 3, 4, 5 e
6), criamos um Silabó e um Rimanó, nos quais os alunos trabalham com grupos de palavras que compartilham
sete segmentos iniciais ou finais idênticos.
Como assumimos a necessidade de alfabetizar letrando, defendemos que as atividades de leitura e
de produção de textos tenham um lugar cativo na sala de aula, todos os dias, de segunda a sexta. Mas, sabemos
hoje, nossas crianças precisam desenvolver, tão cedo quanto possível, um bom automatismo no uso das
correspondências letra-som.
Sem tal domínio, como poderão compreender com autonomia os textos que leem e como virão a
escrever, sozinhas, pequenos textos, possíveis de ser lidos por aqueles com quem convivem? Os jogos aqui
descritos, ao lado de outras atividades e situações didáticas, são recursos valiosos e motivadores para que, de
forma autônoma, nossos alunos possam exercer práticas letradas.

*Artur Gomes de Morais é professor do Centro de Estudos em Educação e Linguagem da Universidade Federal
de Pernambuco.