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Ensino de gêneros: progressão curricular

16-Jan-2008

Autor: Heloisa Amaral

A equipe do Programa Escrevendo o Futuro vem trabalhando, desde 2002, para


disseminar a proposta de ensino de língua materna com o uso dos gêneros textuais como
instrumento e sequências didáticas como metodologia.

Essa abordagem do ensino de língua foi desenvolvida, inicialmente, pelos pesquisadores


da Universidade de Genebra, Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly. No Brasil, Roxane
Rojo e outros pesquisadores vêm trabalhando nessa perspectiva desde meados dos anos
90.

Atualmente, passados mais de dez anos, muitos professores estão organizando seu
trabalho nessa perspectiva, reconhecendo as vantagens de trabalhar de forma integrada
com ensino de leitura, escrita, oralidade.

É importante notar que nessa perspectiva se considera que leitura e escrita são
conteúdos a serem ensinados, ultrapassando a idéia de que todos os que aprendem a
decifrar palavras têm condição de ler qualquer gênero textual e que basta saber copiar
palavras corretamente, do ponto de vista ortográfico, para escrever textos que tenham
significação.

Esse modo de ver o ensino de língua considera que a leitura e escrita são conteúdos
procedimentais, porque são procedimentos ou ações usados na escola para aprender
conteúdos conceituais da própria disciplina Língua Portuguesa e de todas as demais
disciplinas.

Assim, procedimentos como ler, calcular, escrever, desenhar, expor um assunto


oralmente ou por escrito, resumir um texto, desenvolver um raciocínio são
considerados objetos de ensino como qualquer conteúdo conceitual.

Ao reconhecer que procedimentos de leitura, escrita e oralidade precisam ser ensinados,


as atividades organizadas para o ensino da disciplina Língua Portuguesa tornam-se mais
dinâmicas e mais complexas do que atividades de gramática e ortografia pensadas como
conteúdos únicos. Essa complexidade deve ser analisada para ser compreendida e bem
explorada na organização curricular da Educação Básica.

Prosseguindo com essa reflexão, vamos considerar que, ao ler e escrever na vida
cotidiana, em diferentes situações de comunicação, usamos procedimentos básicos de
linguagem em qualquer gênero textual, oral ou escrito.

São procedimentos básicos de uso de linguagem ou capacidades de linguagem: narrar,


relatar, expor, descrever/ regular ações próprias ou alheias, argumentar.

Ou seja, se a situação de comunicação é uma consulta médica, o profissional de


medicina vai regular as ações de seu paciente por meio da receita médica; se um
repórter de um jornal deseja publicar uma notícia, vai relatar – respeitando a veracidade
– um fato que chame a atenção dos leitores; se, nesse mesmo jornal, um autor de ficção
escreve para o entretenimento dos leitores, criará uma crônica que, ao narrar um fato
cotidiano, podendo valer-se da ficção.

Para dominar os procedimentos de linguagem, os alunos precisam desenvolver


capacidades de linguagem equivalentes.

Para Dolz e Schneuwly, uma possibilidade de organização seria a de selecionar gêneros


que contemplem as capacidades de linguagem dominantes e distribuí-los nas séries do
Ensino Básico.

Para isso, sugerem que os gêneros a serem ensinados sejam agrupados de acordo com
essas capacidades (narrar, relatar, argumentar, expor, descrever ações), para garantir-se
que os alunos terão ocasião de desenvolver cada uma delas.

Os gêneros escolhidos para compor cada um dos agrupamentos devem seguir uma
progressão ao longo dos anos escolares, isto é, uma distribuição vertical que parta dos
mais simples para chegar aos mais complexos. Por exemplo, qualquer professor
experiente sabe que pode iniciar um trabalho com narrativas, já no 1º ano, com contos
acumulativos e de fadas mas não pode trabalhar com romances.

Como exemplo, organizamos uma tabela com diferentes gêneros textuais distribuídos em
progressão pelas séries finais do Ensino Fundamental.

A partir dessa sugestão, os colegas podem criar inúmeras propostas.

Capacidades Descrever
Narrar Relatar Argumentar Expor
/Séries ações
Narrativa Diário Receita
Carta de Verbete de
5º de pessoal ou médica e
solicitação enciclopédia
viagem de bordo culinária
Narrativa
Resumo de Anúncio
6º de Biografia Debate oral
texto didático publicitário
aventura
Conto de Carta de
7º Notícia Entrevista Folder
mistério Leitor
8º Crônica Reportagem Editorial Comunicação Catálogo de
oral sobre um moda
assunto
pesquisado
Artigo de
Relato de
Artigo de divulgação de Manual de
9º Romance experiência
opinião experiência instruções
vivida
científica

A organização do trabalho ao longo do ano letivo pode assumir a forma de diversas


sequências didáticas isoladas, uma para cada gênero, ou de um projeto que interligue as
diversas sequências didáticas de gênero, que pode ser, inclusive, um projeto
interdisciplinar.

No exemplo da tabela acima, o 5º ano terá 5 sequências didáticas, uma para cada um dos
agrupamentos de gêneros segundo as capacidades de linguagem neles dominantes:

Capacidades Descrever
Narrar Relatar Argumentar Expor
/Séries ações
Recita
Narrativa Relato de Carta de Verbete de
5º médica e
de viagem experiência solicitação enciclopédia
culinária

É possível integrar as cinco sequências com um projeto que tenha como centro uma
viagem ou passeio que a turma fará na aula de Ciências, supostamente em um lugar onde
a natureza esteja mais preservada.

O professor de Língua Portuguesa poderia propor, previamente, uma narrativa de viagem


para leitura, como Robson Crusoé, por exemplo, e levar os alunos a imaginar como
qualquer pessoa que saia de seu ambiente conhecido tem que desenvolver estratégias
para sobreviver em um lugar diferente.

Para obter autorização da escola para fazer o passeio de Ciências, os alunos teriam que
escrever uma carta de solicitação pedindo autorização para a direção; no final, poderiam
escrever um relato sobre a experiência vivida; esse relato, ficcionalizado, poderia tornar-
se uma narrativa de viagem quando usariam a imaginação para extrapolar “o real
vivido”; cada um dos alunos ficaria encarregado de escrever um verbete, digamos, sobre
cada uma das espécies animais e vegetais encontradas no passeio; também poderiam
fazer pesquisas sobre lugares distantes e organizar, por exemplo, um livro com receitas
exóticas.

Cada um dos gêneros textuais seria trabalhado com sequências didáticas mais ou menos
extensas: o relato de experiência exigiria uma sequência curta; a leitura e produção de
narrativas de viagem exigiriam uma sequência longa.

O exemplo acima é apenas uma ilustração de como o professor pode organizar, em


qualquer série, trabalhos envolventes e criativos com o ensino de língua, usando gêneros
textuais como instrumento e sequências didáticas como metodologia.
Para saber mais sobre as questões que este artigo possa trazer, leia também:

Concepções de escrita, texto e gênero textual em relatos de aula de língua materna

Sequências didáticas

Gêneros textuais

Concepções de língua e de ensino de língua

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