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Paidéia, 2003,12(24), 125-138

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UMA REVISÃO /DISCUSSÃO SOBRE A FILOSOFIA DA CIÊNCIA
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Reinaldo Furlan
FFCLRP - Universidade de São Paulo

RESUMO: O objetivo deste artigo é introduzir e estimular a reflexão sobre a natureza do conhecimento
científico. A intenção não é dogmática, no sentido de dizer o que é a metodologia científica, mas apresentar
questões que estão na base da discussão de sua fundamentação e que rompem com a aparente certeza do
senso comum sobre a natureza do conhecimento científico: a relação entre história da ciência interna e externa,
a crítica à noção de indução, o papel da teoria na observação, o princípio de verificação. Privilegia-se nessa
apresentação as duas principais teorias que polarizaram as discussões da filosofia da ciência nas últimas
décadas, as teorias de Popper e de Kuhn sobre os fundamentos da metodologia científica.

Palavras-chaves: filosofia da ciência; metodologia científica.

ONE REVISION/DISCUSSION ABOUT THE PHILOSOPHY OF SCIENCE

ABSTRACT: The objective of this paper is to stimulate the reflection on the nature of scientific knowledge.
The intention is not dogmatic, in the sense of saying what is scientific methodology, rather to present the
following points that are the basis for the discussion of its foundation and break up with the apparent certainty
of the common sense on the nature of scientific knowledge: (1) the relationship among internal and external
science history, (2) the critic to the induction notion, (3) the role of theory in observation, (4) the principle of
verification. In that presentation it is privileged the two main theories that polarized the discussions of philosophy
of science in the last decades: the theories of Popper and Kuhn on the scientific methodology foundations.

Key-words: philosophy of science; scientific methodology

A História da Ciência procura analisar na sua conhecimento em determinadas áreas, mas este obe-
seqüência os fatos científicos: os contextos das des- dece a uma lógica própria que independe desses e de
cobertas, as crises teóricas, as substituições e de- outros fatores externos a sua racionalidade. Os adep-
senvolvimento de teorias. É comum serem encontra- tos da história externa, em contrapartida, advogam
das duas perspectivas contrárias de análise do de- que a lógica ou racionalidade científica não apresen-
senvolvimento histórico do conhecimento científico, ta razões suficientes para o desenvolvimento do co-
uma que corresponde à história interna e outra à ex- nhecimento, que em última instância repousa em fa-
terna. A título de introdução, pode-se dizer que os tores psicossociais presentes no seu exercício.
adeptos da história interna concebem o desenvolvi- Pretende-se mostrar que a História da Ciên-
mento do conhecimento a partir de questões intrínse- cia não pode mais ser vista como uma coleção de
cas à racionalidade científica, e concedem à história práticas e de teorias bem sucedidas e acumulativas,
externa apenas o papel de circunstanciá-lo. Pressões uma imagem freqüentemente passada pelos manu-
externas à evolução da Ciência, como a alocação de ais, mas que a ciência está prenhe de questões filo-
recursos para áreas de interesses econômicos ou sóficas, tanto quanto a reflexão filosófica é banhada
sociais, podem limitar ou promover a construção do de História, e que não se deve nem reduzir a História
da Ciência à Filosofia - quando se trata de explicitar
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Artigo recebido para publicação em 05/2002; aceito em 10/ o sentido disso que se chama ciência - nem de recu-
2002
2
Endereço para correspondência: Reinaldo Furlan, Departamento
sar, em contrapartida, a discussão filosófica de seus
de Psicologia e Educação, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras termos. Espera-se que a exposição e discussão de
de Ribeirão Preto, USP, Av. Bandeirantes, 3900, Monte Alegre, alguns dos termos freqüentemente associados à prá-
Ribeirão Preto, SP. Cep 14040-901, E-mail: reinaldof@ffclrp.usp.br
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tica científica possam servir de ilustração e incenti- Popper (1959, 1999) não foi o único, nem o
var a reflexão. primeiro, a realizar a crítica do princípio da indução
O foco estará nas ciências naturais, particu- na explicitação do método científico, mas a sua tal-
larmente a física, cujo sucesso histórico fez dela o vez seja a mais popular entre nós. O autor aceita, do
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modelo mais destacado . E há um ganho geral em ponto de vista lógico, a crítica de Hume ao princípio
iniciar a reflexão a partir da noção mais canônica de de indução, isto é, de que a partir da observação da
ciência, a concepção mais aceita de conhecimento. regularidade de determinados eventos, não é possí-
vel prever com alto grau de certeza a mesma suces-
A Crítica ao Conceito de Indução são de eventos. Do ponto de vista lógico, não é ne-
cessário que assim seja: não é porque se viu 1000
Um dos termos mais usados para distinguir a gansos brancos que o próximo também será branco,
ciência de outras atividades seja o de que o seu co- não é porque o sol se levanta e se põe a cada dia, que
nhecimento está baseado em observação. se pode prever que amanhã o mesmo ocorrerá. Tais
Francis Bacon, teórico lembrado freqüente- fatos não são necessários do ponto de vista lógico,
mente, dizia que o método científico é um método de uma vez que do particular (ocorrências datadas e si-
observação, que deveria ser rigorosa e isenta de pre- tuadas) não se pode inferir com necessidade o uni-
conceitos. Bacon identificava quatro estados ou ati- versal, que é o que interessa à ciência na elaboração
tudes perniciosas ao conhecimento científico: 1- a das leis da experiência.
tendência à generalização apressada, própria da na- Isso fica bem claro na crítica de Hume à no-
tureza humana, a que deu o nome de ídolos da Tribo; ção de causalidade, um dos pontos interessantes e
2- atitudes referentes aos fatos, provenientes da edu- duradouros de seu pensamento na Filosofia da Ciên-
cação, a que deu o nome de ídolos da Caverna; 3- as cia. Embora Popper não concorde com a análise psi-
distorções dos significados das palavras no uso vul- cológica humeana da experiência, pois assinala que
gar, a que deu o nome de ídolos da Praça do Merca- com animais e crianças basta uma única experiência
do; 4- os dogmas e métodos provenientes da filoso- para se estabelecer o vínculo de sucessão entre al-
fia, aos quais deu o nome de ídolos do Teatro. guns eventos; o fato é que o desafio de Hume aos
Bacon acreditava na possibilidade de uma ex- racionalistas da época continua vivo até hoje, isto é a
periência despida dessas interferências que distorciam impossibilidade de descobrir baseado apenas na ra-
seu verdadeiro sentido, a ser conquistado pela atitude zão porque o evento " B " sucede sempre ao evento
científica. Cautela na observação, suspensão das idéi- "A", porque, por exemplo, os corpos se atraem, ou a
as recebidas da educação, cautela e precisão no uso cafeína dilata as artérias, ou tal vírus de determinada
da linguagem, e o desenvolvimento de experiências composição química é nocivo ao organismo, ou o
criadas especificamente para atender aos fins da in- amido é assimilado pelas células. Tudo o que se sabe
terrogação científica (o que, se não representava uma é que assim tem ocorrido, mas não porque tem que
novidade estrito senso na época, marcaria cada vez ser assim. Em outros termos, se o pensamento pu-
mais a prática da ciência posterior), eram os ingredi- desse descobrir as razões intrínsecas à sucessão dos
entes do receituário baconiano para a atitude científi- eventos, estabeleceria, dadas ás mesmas condições,
ca. A partir dessas observações a ciência deveria in- leis necessárias; na sua falta, apenas se apoia no
ferir gradualmente os princípios mais gerais da natu- costume, de que de fato as coisas têm se sucedido
reza. Sendo assim, o conhecimento científico poderia assim.
ser certo e seguro, e por isso ele não admitia hipóteses Mas a crítica interessante de Popper ao prin-
na Ciência, sobretudo aquelas da metafísica que visa- cípio de indução não parece ser essa do ponto de
vam às razões últimas das coisas, e que ultrapassa- vista lógico, porque a crença na regularidade neces-
vam as passíveis de experimentação. sária dos fenômenos, fundada ou não logicamente, é
1
a condição de possibilidade da própria ciência. Fos-
A abordagem das ciências humanas demandaria a investigação de
outro tipo de material que ultrapassaria os limites deste artigo. A sem os eventos sempre aleatórios na sua sucessão,
biologia mereceria também uma discussão à parte, mas pela mesma não caberia estabelecer lei alguma, e talvez a própria
razão fica de fora.
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vida não acontecesse. O caos se encontra, nesse indução colocado por Hume, de que não é possível
sentido, na antípoda da ciência, cuja existência de- inferir proposições universais de experiências parti-
pende, pois, de se poder estabelecer (arbitrariamen- culares, ao mesmo tempo em que separa enuncia-
te ou não, do ponto de vista lógico) a ordem dos fe- dos científicos de não científicos. O aspecto da críti-
nômenos. É isto que leva a propor enunciados uni- ca, pois, a ser enfatizado é esse de que o método
versais da ciência que se testa, depois, através da indutivo estaria na origem das teorias científicas, igno-
experiência. rando a importância da presença de hipóteses e teo-
A crítica mais interessante consiste em afir- rias para a organização da experimentação.
mar que a indução é um mito, não apenas do ponto Hempel (1981) também aponta para isto,
de vista lógico, mas da prática científica. Popper diz embora de forma mais condescendente com o mé-
que não se espera a repetição ou a sucessão de even- todo indutivo, enfatizando que os dados empíricos só
tos para, então, indutivamente, chegar a conclusões podem ser relevantes para uma hipótese, e não para
sobre os problemas. Salta-se para hipóteses arrisca- um problema, o que fica claro quando ele analisa a
das que são testadas depois passo a passo. Sobretu- investigação da febre puerperal pelo médico húnga-
do, diz ele, a experiência científica não consiste na ro I. Senemelweis no hospital geral de Viena entre
observação aleatória e genérica do que acontece - o os anos de 1844 a 1848.
que não levaria a parte alguma -, mas ela diz respeito Tratava-se de uma doença, geralmente fatal,
à organização de experimentos que visam responder após o parto na maternidade do hospital, que conta-
às perguntas e testar as hipóteses. va com duas alas na maternidade, uma atendida por
É a razão, portanto, que se adianta na formu- professores e alunos de medicina, e outra por enfer-
lação de questões, de hipóteses e no planejamento meiras parteiras, sendo os números significativamente
de experimentos para a sua solução. Ou seja, nin- maiores na ala dos médicos e estudantes. Curiosa-
guém inicia uma observação científica sem uma teo- mente, mulheres que davam à luz a caminho da ma-
ria, e basta a seleção de alguns elementos que se ternidade, para depois serem atendidas na ala dos
considera relevantes para o problema, para indicar a m é d i c o s , em geral não c o n t r a í a m a doença.
sua presença, ainda que rudimentar. A possibilidade Senemelweis começou a investigar as diferenças
de uma experiência pura, na qual as idéias surgissem entre as duas alas, para descobrir a causa do mal.
das impressões sensíveis, independentes de qualquer Não aceitava, naturalmente, que a causa estivesse
interpretação, é um mito, e nele se apoia o princípio no médico simplesmente pelo fato de ser médico, e
da indução no conhecimento científico. Ora, segun- não uma enfermeira. O problema da doença encon-
do Popper, a motivação para esse mito decorre da trava-se, assim, na presença de inúmeros dados
intenção de se demarcar o conhecimento científico empíricos que, na ausência de hipóteses, represen-
de enunciados pseudo-científicos, apoiando-os na tavam apenas uma multiplicidade de informações sem
observação. Mas, segundo ele, a Astrologia também nexo.
se baseia na observação (dos astros) e nem por isso Várias hipóteses foram consideradas. A pri-
seus enunciados são considerados científicos. Um meira foi referente ao padre estar sempre na ala dos
critério de demarcação deve existir, de modo a con- médicos, solicitado para dar a extrema-unção, ou seja,
tornar o problema lógico da indução, isto é, não se a presença do "símbolo da morte" poderia ser noci-
pode logicamente inferir proposições universais a va à recuperação das outras pacientes; eliminou-se
partir de particulares, mas é possível deduzir propo- a passagem do padre, mas o problema persistiu. Em
sições particulares de universais. Assim, a ciência seguida, investigou-se a questão da diferença na po-
consiste de conjecturas ou enunciados universais na sição de realização do parto, já que na ala dos médi-
solução dos problemas, e a partir deles fazer a dedu- cos, ele era sempre feito com a paciente deitada, e
ção da ocorrência de. fatos que, caso não ocorram, na outra ala, geralmente de cócoras; eliminada a di-
contradizem o enunciado geral, falsificando a teoria ferença não houve mudança no aparecimento da
proposta. doença. Certo dia, um colega médico acidenta-se com
Popper contorna, assim, o problema da o bisturi, realizando a autópsia de uma das vítimas, e
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morre (não se conhecia, na época, o papel dos muito, mas é irrefutável e não pode ser testada ou
microorganismos nas doenças). Senemelweis pensa, confrontada. O marxismo, ao contrário, fixou as con-
então, na hipótese de que o bisturi utilizado nas au- dições em que sua teoria seria refutada, através da
tópsias e nas aulas (o que não ocorria na ala das en- necessidade de desenvolvimento do modo de produ-
fermeiras, e nem era o caso para a maioria das mu- ção capitalista para a ocorrência da revolução socia-
lheres cujos filhos nasciam a caminho da maternida- lista; no entanto, a união soviética pulou essa etapa, o
de) era o agente transmissor da doença, causada por que teria refutado a teoria. Mas, segundo Popper, os
"matéria cadavérica contaminada". A higienização marxistas fizeram modificações ad hoc para aco-
dos bisturis ocasionou a redução do número de mor- modar a teoria aos fatos, alterando hipóteses básicas
tes, mas a diferença entre as alas ainda permanecia que comprometeram o seu caráter lógico-dedutivo.
significativa, até se descobrir, finalmente, que mesmo Para Popper existe a possibilidade de criação
pacientes contaminados podiam transmitir a doença, de hipóteses auxiliares, na tentativa de se salvar uma
e que os bisturis deveriam ser higienizados para cada teoria, mas as alterações devem levar à previsão de
paciente. Chegou-se à conclusão que a causa da do- fatos novos (falseáveis) e não ao enfraquecimento
ença seria a "matéria pútrida ou contaminada retira- da estrutura lógica da teoria. Um dos exemplos na
da de um organismo vivo ou morto". história da ciência, nesse sentido, foi a confirmação
Hempel chama' a atenção para o fato de que, da teoria newtoniana da gravitação com a descober-
sem a criação de hipóteses, o método indutivo não ta do planeta Netuno. Segundo Chalmers (1993)
pode ser operante, isto é, que ele depende de hipóte-
ses que discriminam elementos relevantes para o pro- "as observações do século XIX sobre o mo-
blema, para então verificá-las indutivamente. vimento do planeta Urano indicavam que sua
Mas, como para Popper a passagem das ex- órbita se afastava consideravelmente da que
periências (ou problemas) para as teorias não pode fora prevista com base na teoria gravitacional
ser justificada indutivamente (lógica da descoberta), de Newton, colocando assim um problema
jamais se garante que as teorias sejam verdadeiras, para esta teoria. Numa tentativa de superar
mesmo depois de sua aprovação através de testes a dificuldade, foi sugerido, por Leverrier na
realizados para sua avaliação, uma vez que o proble- França e por Adams na Inglaterra, que exis-
ma da indução se colocaria novamente: seria preciso tia um planeta que ainda não fora detectado
a realização de todos os casos que colocassem em nas adjacências de Urano. A atração entre o
teste a teoria, o que é impossível de ser feito (ter-se- planeta hipotético e Urano deveria explicar o
ia que abarcar o universo em sua extensão e dura- afastamento deste último de sua órbita pre-
ção), restando assumir que enquanto os testes ou vista inicialmente. Esta sugestão não era ad
experiências não contrariam as teorias, elas continu- hoc, como os eventos demonstrariam. Seria
am valendo como conhecimento. possível calcular a adjacência aproximada do
O critério popperiano de demarcação da ciên- planeta conjectural se ele tivesse um tama-
cia passa, assim, a exigir que toda teoria com preten- nho razoável e fosse responsável pela per-
são de cientificidade possibilite a dedução de propo- turbação da órbita de Urano" (p.82).
sições que, se ocorrerem, a falsifiquem, ou, que pro-
íba o aparecimento de certos fatos, sendo tanto me- A descoberta de Netuno, nesse sentido, não
lhor quanto mais proíbe, ou maior seu conteúdo só corroborou a teoria, como trouxe um conhecimento
empírico. novo. Em síntese, não há para Popper lógica da des-
É por não especificar condições de falsifica- coberta científica, já que se nega o princípio da
ção que a Psicanálise, aos olhos de Popper, não é indução, há apenas a da justificação. O processo de
ciência, aproximando-se mais da linguagem dos mi- descoberta é objeto para ciências empíricas (psico-
tos, e não é virtude, visto que seu poder de explica- logia ou sociologia), não para uma epistemologia que
ção não é acompanhado da proibição da ocorrência cuida apenas do caráter lógico da teoria. Tudo vale
de fatos que a falsifiquem. A Psicanálise explica na formação de teorias: insights, intuição, imagina-
A Filosofia da Ciência 1 2 9

ção, observações controladas, e até mesmo sonhos cas, do que propriamente para os fundamentos lógi-
que sugerem soluções para o problema pesquisado, cos de suas teorias. Os críticos de Popper o acusam
como teria sido d caso da descoberta da fórmula quí- de propor um padrão m e t o d o l ó g i c o que não
mica do benzeno, por Kekulé. Embora Popper pro- corresponde à prática da ciência e ele, por sua vez,
cure enfatizar o caráter ativo e organizador da razão, insistia no papel ativo da crítica metodológica como
não é objeto da epistemologia perguntar como se contribuição da epistemologia à pratica da ciência.
chega às hipóteses e conclusões, mas distinguir enun- Esse caráter explícito de orientação não se encontra
ciados científicos de pseudo-científicos através da na obra de Kuhn, que se propõe, sobretudo a um re-
lógica da justificação: pode-se deduzir de enunciados lato histórico do desenvolvimento da ciência. É ver-
gerais os particulares (ocorrência de fatos) e dade que Feyerabend (1977) levanta a questão de
confrontá-los com a experiência. A grande questão saber se a obra de Kuhn aconselha ou não o cientista
da epistemologia é a da demarcação do conhecimento, à determinada conduta, afirmando que ele é ambí-
e só uma lógica da justificação pode fornecer a solu- guo quanto a isso. De fato, ao julgar que é um sinal
ção desse problema. de maturidade da ciência a ausência de discussões a
O pensamento de Popper é uma das expres- respeito de suas teorias, o que propicia o desenvolvi-
sões contundentes da passagem da física newtoniana mento exaustivo do paradigma, (a acumulação de co-
para a de Einstein. O Deus de Descartes, que garan- nhecimento sobre a realidade no interior de determi-
tia como critério de verdade a evidência do pensa- nada visão de mundo), Kuhn parece incentivar a ati-
2
mento, foi substituído por uma noção de conhecimento tude acrítica do cientista . De qualquer forma, não
mais dinâmico e provisório, sendo o conhecimento hu- se encontra em Kuhn, como em Popper, a declara-
mano também limitado, mas noutro sentido: de um lado ção de intenção de orientação da prática científica
porque existem coisas que o entendimento não pode através da análise metodológica. Ou seja, a obra do
conhecer com clareza, como, por exemplo, a união da primeiro é de caráter mais histórico ou descritivo do
3
alma e do corpo, e de outro porque o conhecimento é que a do segundo. No posfácio de 1969 , Kuhn
inesgotável dada a infinitude do universo a conhecer. enfatiza, inclusive, que se tivesse que rescrevê-la,
Mas, o que se sabe de forma clara e distinta é certo e começaria pela análise das estruturas das comunida-
indubitável, o que implica em ter o conhecimento con- des científicas, o que merecia cada vez mais a aten-
cebido como uma construção progressiva de certe- ção dos historiadores e sociólogos da ciência.
zas. Ora, o conhecimento científico questionou justa- A obra de Kuhn pode ser vista como uma crí-
mente a idéia de verdades adquiridas, de forma que tica à visão popperiana de ciência. Três pontos po-
parecem se multiplicar as possibilidades de variação dem ser destacados: 1) a tese da incomensurabilidade
das perspectivas sobre o real, conquanto se possa, ain- das teorias, vista por seus críticos como uma afirma-
da, sustentar a idéia de um progresso no conhecimen- ção do relativismo ou do irracionalismo na história da
to. Em outros termos, a história da ciência não podia ciência, 2) a necessidade da ciência normal, que re-
mais ser vista como um processo de acumulação sem presenta a possibilidade de exploração máxima de
sobressaltos e rupturas. um paradigma, isto é, de seu desenvolvimento teóri-
co e instrumental 3) a presença constante de ano-
A Razão Científica em Questão malias nas teorias científicas, com o que se critica,
do ponto de vista histórico, a metodologia falsificado-
Um dos teóricos proeminentes do século XX, ra da ciência.
que enfatizou as rupturas na história da ciência, foi Antes de tudo, é preciso deixar clara a noção
sem dúvida Thomas Kuhn. Seu pequeno, mas esti-
2
Como diz Feyerabend no Colóquio Internacional sobre Filosofia
mulante livro A Estrutura das Revoluções Científi-
da Ciência, realizado em Londres em 1965, que entre outros temas
cas (1992), constituiu-se em um marco de referência se propunha, justamente, a discutir as diferenças entre os
para filósofos e historiadores da ciência e sua obra pensamentos de Kuhn e Popper sobre ciência (Feyerabend, apud
Lakatos & Musgrave, 1979). N o m e s m o colóquio, o título da
representa, em relação à de Popper, um enfoque mais intervenção de Popper é no mesmo sentido: "A Ciência Normal e
voltado para as práticas das comunidades científi- seus Perigos".
3
a publicação original é de 1962
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que popularizou Kuhn na história das ciências, que é solucionar quebra-cabeças, é um empreen-
a de "paradigma", que representa o pressuposto co- dimento altamente cumulativo, extremamen-
mum de uma comunidade científica, que envolve de- te bem sucedido no que toca ao seu objetivo,
terminada concepção de mundo e um conjunto de a ampliação contínua do alcance e da preci-
regras de procedimentos de pesquisa. A concepção são do conhecimento científico" (idem, p.77).
de mundo abarca desde uma visão mais geral acerca
da realidade, até teorias específicas da área de pes- Portanto, uma opção metodológica que se re-
quisa. Os manuais de ciência são um bom exemplo velou frutífera. Kuhn alude, mais à diante, a um cri-
dessas teorias compartilhadas pelos membros de uma tério mais racional do que esse na justificação dessa
comunidade científica, que todo ingressante deve opção:
assimilar naturalmente em sua formação. Regras de
procedimento são aquelas aceitas, como metodologia
"Uma vez que a natureza é muito complexa
de coleta de dados, apresentação de resultados, utili-
e variada para ser explorada ao acaso, esse
zação de instrumentos. Em síntese, o paradigma é a
mapa é tão essencial para o desenvolvimen-
base comum de acordo da comunidade científica, a
to contínuo da ciência como a observação e
partir da qual se desenvolvem suas pesquisas e a dis-
a experiência" (p.143).
cussão de suas questões, e é o que Kuhn chama de
teoria, no sentido amplo do termo, para enfatizar que
a ciência normal não a toma como foco, isto é, não A profusão de teorias e de discussões
está interessada em discuti-la, mas em resolver que- metodológicas representaria apenas o período pré-
bra-cabeças que são questões presentes no desen- paradigmático de uma ciência, que só se desenvolve
volvimento da aplicação do paradigma à realidade. com o estabelecimento de um paradigma e a cessa-
Kuhn (1962,1992) diz: ção dessas discussões, isto é, a partir do consenso
sobre o método e a natureza do objeto de estudo.
"A ciência normal não tem como objetivo tra- Como o objetivo da obra de Kuhn é, em pri-
zer à tona novas espécies de fenômeno; na meiro lugar, a apresentação histórica do caráter geral
verdade, aqueles que não se ajustam aos limi- do desenvolvimento da ciência, críticas à sua apre-
tes do paradigma freqüentemente nem são vis- sentação da ciência normal teriam de ocorrer na
tos (...) Em vez disso, a pesquisa científica discussão da própria história. D e fato, o que se
normal está dirigida para a articulação daque- contrapõe à sua visão é que, a despeito de tocar
les fenômenos e teorias já fornecidos pelo em aspectos importantes, ela ignora ou elide a ocor-
paradigma (...) Talvez essas características rência de discussões teóricas no exercício da ciên-
sejam defeitos. As áreas investigadas pela ci- cia. Feyerabend (apud Lakatos & Musgrave, 1-979)
ência normal são certamente minúsculas; ela
cita, contra o monopólio do paradigma, a prolifera-
restringe drasticamente a visão do cientista.
ção de teorias na história da ciência, com pontos
Mas essas restrições, nascidas da confiança
de vista diferentes, incompatíveis e até incomensu-
no paradigma, revelaram-se essenciais para o
ráveis, cuja interação pode promover a emergência
desenvolvimento da ciência. Ao concentrar a
atenção numa faixa de problemas relativamen- de outras tantas. É o que acontece, segundo ele,
te esotéricos, o paradigma força o cientista a entre os pontos de vista da mecânica, da teoria do
investigar alguma parcela da natureza com calor e da eletrodinâmica que derrubaram a física
uma profundidade e de uma maneira tão deta- clássica. Portanto, Kuhn teria visto mais ordem do
lhada que de outro modo seriam inimagináveis" que de fato existe naquilo que chamou de ciência
(P-45) normal. Mas, algo muito importante levantado por
ele e imediatamente aceito pelos historiadores e te-
Nesse sentido, óricos da ciência, foi a presença comum de anoma-
"a ciência normal, atividade que consiste em lias nas teorias científicas, sem que isso represen-
A Filosofia da Ciência 131

tasse uma crise; tanto erros de precisão quantitati- Seu eventual sucesso assinalaria um novo
va na medição dos fenômenos, quanto qualitativa, passo na direção do progresso da física"
no sentido de incompatibilidade da teoria com a (idem,p.76-77).
4
experiência E nada disso representa, necessaria-
mente, uma crise e teria sido u m a das críticas mais Daí a insistência de Popper nas tentativas de
importantes ao modelo metodológico de desenvol- falsificação de teorias bem estabelecidas, pois ela é
vimento das ciências proposto por Popper que a responsável pelo avanço do conhecimento. Ou seja,
enfatiza a tentativa de falsificação de uma teori a como um falsificador não está interessado em preservar
a mola propulsora do desenvolvimento da ciência. teorias, mas em refutá-las.
Enquanto conselho metodológico, a idéia pode ser Não é difícil notar que Popper privilegia os
muito atraente, mas a questão é saber e m que m e - momentos de crise ou ruptura na história das ciênci-
dida ela expressa o desenvolvimento histórico da as. Como ele enfatiza no prefácio de Conjecturas e
ciência, e mesmo se o propicia, caso seja aceita. Refutações (1963, s/d), aprende-se com os erros, e é
assim que a ciência progride. Kuhn, por sua vez, fez
O lado atraente - Popper salienta dois aspec- notar primeiro que, dessa forma, elide-se o cotidiano
tos no desenvolvimento da ciência: a) conjecturas teó- da prática científica, muito mais voltada para ativida-
ricas arriscadas b) refinação de teorias estabelecidas. des "corriqueiras" de solução de quebra-cabeças no
5
Chalmers (1993) afirma que não se aprende, ou se interior do paradigma, o que ressalta a importante
aprende muito pouco., com conjecturas cautelosas, relação da ciência com o desenvolvimento de
6
tecnologias .Em segundo, que os grandes aconteci-
porque estas mais confirmam o conhecimento atual
mentos na história da ciência não são decisivos no
do que possibilitam avanços significativos nas teorias;
sentido em que Popper procura mostrar, não sendo o
elas são sempre conservadoras. Conjecturas arrisca-
destino de uma teoria científica jogado "em uma ou
das, ao contrário, rompem com a maneira comum de
duas rodadas de cartas", mas muito comum a pre-
pensar, e por isso, quando confirmadas, representam
sença de anomalias na sua comparação com a reali-
avanços significativos. Assim, quando as previsões de
dade, interpretadas ora como um problema de que-
Einstein sobre a curvatura da luz sob efeito de forte
bra-cabeças, isto é, solucionáveis no interior do pró-
atração gravitacional foram confirmadas por Eddington, prio paradigma, ora simplesmente ignoradas e que
a teoria passou por um importante teste de falsifica- portanto não existem experimentos cruciais no
ção que corroborou o seu avanço em relação à con- desenvolvimento da ciência.
cepção anterior. Na refinação das teorias a relação se
Esse ponto da teoria de Kuhn foi muito bem
inverteria, isto é a negação das arriscadas não ensina
desenvolvido por Lakatos, que propôs, em substitui-
nada, obviamente, mas quando ocorre a refutação das
ção ao critério popperiano de falseabilidade, a idéia
bem estabelecidas, que passaram por muitos testes de
de programas de investigação como metodologia
"verificação", Chalmers (1993) diz que: 7
das teorias científicas , que consiste em um núcleo
"um novo problema, auspiciosamente bem teórico que deve orientar as pesquisas futuras para o
distante do problema original resolvido, emer- seu d e s e n v o l v i m e n t o . Esse direcionamento é
giu. Este novo problema pede a invenção de indicativo e proibitivo ao mesmo tempo. A heurística
novas hipóteses, seguindo-se a crítica e tes- positiva representa o primeiro aspecto, e dirige as
tes renovados" (p.73) pesquisas no sentido de aplicação da teoria à realida-
de, conduzindo, se o programa tem êxito, à desco-
Assim,
5
Cuja obra, aliás, representa uma introdução muito clara das várias
"a falsificação da teoria de Einstein perma- vertentes contemporâneas de d i s c u s s õ e s da metodologia e do
desenvolvimento histórico da ciência.
nece um desafio para os físicos modernos. 6
(Em outros termos, Popper dirige os "holofotes" para grandes
acontecimentos em detrimento do cotidiano da história)
7
4
(Feyerabend, em Contra o Método, 1977, explora com particular "O Falseamento e a Metodologia dos Programas de Pesquisa
atenção essas inconsistências). Científica" (Lakatos & Musgrave, 1979)
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berta de fatos novos e ao desenvolvimento de teorias nosso físico considera que o desvio era proi-
auxiliares. A heurística negativa diz respeito ao as- bido pela teoria de Newton e portanto que,
pecto 2, e consiste na proibição de se questionar o uma vez estabelecido, refuta a teoria N? Não.
núcleo básico da teoria, representando a tenacidade Ele sugere que deve haver um desconhecido
do programa, sua persistência, a despeito das ano- planeta p ' , que perturba o percurso de p. Ele
malias ou incongruências com a experiência. A teo- calcula a massa, órbita, etc. de seu hipotéti-
ria não é falsificável no núcleo básico, está protegida co planeta e pede então a um astrônomo ex-
por um cinturão de hipóteses auxiliares, "que tem de perimental que teste sua hipótese. O planeta
suportar o impacto dós testes e ir se ajustando e rea- p ' é tão pequeno que mesmo os maiores te-
justando, ou mesmo ser completamente substituído, lescópios disponíveis não podem observá-lo;
para defender o núcleo assim fortalecido" (Lakatos o astrônomo experimental pede uma verba
&Musgrae, 1979, p.162). para construir um ainda maior. Em três anos
Um programa de pesquisa é progressivo quan- o novo telescópio está pronto. Se o desco-
do, ao menos intermitentemente, leva à descoberta nhecido planeta p ' for descoberto será uma
de fatos novos, isto é, enquanto seu desenvolvimento nova vitória para a ciência newtoniana. Mas
teórico antecipa o empírico; é degenerativo se não não é. E nosso cientista abandona a teoria
consegue oferecer mais do que explicações post- de Newton e sua idéia de um planeta
hoc. De qualquer forma, seu sucesso ou fracasso perturbador? Não. Ele sugere que uma nu-
não pode ser decretado por esta ou aquela experiên- vem de poeira cósmica esconde-nos o pla-
cia crucial. Daí Feyerabend (1977) concluir, citando neta. Calcula a localização e as proprieda-
Lakatos, que des dessa nuvem e pede uma verba de pes-
quisa para mandar um satélite testar seus
"surgida uma teoria nova, não cabe, de ime- cálculos. Se os instrumentos do satélite (pos-
diato, recorrer aos padrões costumeiros para sivelmente de tipo novo, baseados numa teo-
decidir se ela-sobreviverá ou não. Nem gri- ria pouco testada) registrarem a existência
tantes incoerências internas, nem óbvia au- da nuvem conjectural, o resultado será visto
sência de conteúdo empírico, nem amplo con- como uma notável vitória para a ciência
flito com resultados experimentais deve im- newtoniana. Mas a nuvem não é descober-
pedir-nos de conservar e aperfeiçoar pontos ta. O nosso cientista abandona a teoria de
de vista que, por esta ou aquela razão, nos Newton, junto com sua idéia do planeta
agrade" (p.287). perturbador e a idéia da nuvem que o escon-
de? Não. Ele sugere que há algum campo
Há um exemplo hipotético imaginado por magnético naquela região do universo que
Lakatos, aparentemente à luz da descoberta do pla- perturbou os instrumentos do satélite. Um
neta Netuno, que ilustra bem a idéia de tenacidade novo satélite é enviado. Se o campo magné-
de um programa de pesquisa, e a recusa do critério tico for encontrado, os newtonianos celebra-
falsificador como metodologia da ciência. Chalmers rão uma vitória sensacional. Mas ele não é.
(1993) diz: Isto é visto como uma refutação da física
newtoniana? Não. Ou uma outra engenhosa
hipótese é proposta ou... a história toda é
"A história é sobre um caso imaginário de
enterrada nos valores empoeirados de publi-
mau comportamento planetário. Um físico da
cações periódicas e a história nunca mais
era pré-einsteiniana toma a mecânica de
será mencionada" (p.96-97).
Newton e sua lei da gravidade, N, como as
condições iniciais aceitas, I, e calcula, com Mas, em certo sentido, Lakatos está mais pró-
sua ajuda, o percurso de um pequeno planeta ximo de Popper do que de Kuhn. Uma das maiores
recentemente descoberto, p. Mas o planeta diferenças dele com Kuhn é que, enquanto este pri-
desvia-se do percurso calculado. Por acaso, vilegia a história psicossocial no desenvolvimento da
A Filosofia da Ciência 1 3 3

ciência, e aponta i n c i s i v a m e n t e para a dor a recompor o desenvolvimento da ciência.


incomensurabilidade dos paradigmas, Lakatos pre-
A que se chega?
tende encontrar os fios da racionalidade na história
da ciência. A distinção lakatosiana entre história in-
Mas diferenças não d e v e m ofuscar
terna e externa da ciência é justamente para marcar
congruências nas concepções do método científico.
essa posição. Ele defende, como Popper, a idéia de
Há pontos comuns entre Popper e Lakatos,
um progresso determinado por avaliações racionais
de um lado, e Kuhn, do outro. Um dos principais é o
na solução de seus problemas e na substituição de
de que enunciados de percepção dependem de teo-
teorias. A distinção entre programas progressivos e
ria. Kuhn enfatiza mais esse ponto do que Popper,
degenerativos é um indicador de avaliação. As idéi-
mas este também se encontra em sua obra; ele diz
as popperianas de maior conteúdo empírico de uma
que não há experiência pura, uma vez que toda ela é
teoria sobre outra, de resistência a testes em que a
organizada por questões, expectativas e teorias; ele
precedente fracassou, de maior poder explicativo da
reconhece, inclusive, o importante papel dos mitos
sucessora são tambem'incorporados pela metodologia
na organização da experiência de mundo, quando não
lakatosiana.
era possível partir de teorias mais elaboradas sobre a
Ora, a crítica mais comum que se faz a Lakatos
realidade. Reserva, entretanto, um espaço aos enun-
é de que a metodologia dos programas de pesquisa
ciados de observação na avaliação das teorias, uma
não fornece critérios decisivos para a avaliação de
vez que elas são testadas a partir dos que proíbem.
teorias. Por um lado, porque não determina o tempo
Enunciados de observação são os termos atra-
que se deve esperar para sua avaliação; por outro,
vés dos quais a teoria confronta-se com a realidade,
porque reconhece que teorias degenerativas podem
e os básicos são os comumente aceitos; em termos
ressurgir ou serem fundidas, e que é muito difícil de-
wittgensteinianos, poder-se-ia dizer que a eles não
cidir entre teorias rivais, uma vez abandonado o cri-
se aplica a gramática da palavra "dúvida", embora
tério dos experimentos cruciais. Em última instância,
possam mudar com as teorias. Popper (1963, s/d)
Lakatos apela para o "bom senso", e para indicado-
res como concessão de verbas, freqüência de reali- reconhece que não é possível colocar em questão de
zação de congressos para a avaliação dos progra- uma só vez todos os enunciados básicos de realida-
mas de investigação. Mas, com isso, faz uma impor- de, mas enfatiza muito o papel da crítica no processo
tante concessão à história externa que contraria o de conhecimento, que se progride por soluções de
propósito de fornecer critérios mais racionais de ava- problemas e que se pode questionar suposições bási-
liação. O próprio "bom senso", como aponta cas nesse processo. Acredita, dessa forma, que se
Feyerabend (1977), não é consensual, dependendo avança ontologicamente com a crítica e a substitui-
muitas vezes da área do pesquisador: ção de teorias (que se aprende com os erros), e de-
fende a idéia da possibilidade de um conhecimento
objetivo, ou de que a aproximação aos fatos vem atra-
"os juízos básicos de valor aceitos por um
vés das teorias. Isto é, de que há uma verdade obje-
experimentalista diferirão dos aceitos por um
tiva independente das crenças, mesmo que ela re-
teórico (basta ler o que escreveram
presente mais um papel regulador no processo de
Rutherford, Michelson ou Ehrenhaft a pro- conhecimento do que um termo conclusivo, já que
pósito de Einstein) (...) o seguidor fiel de Bohr não se verificam as teorias, apenas se pode aprimorá-
virá a introdução de modificações na teoria las no processo de refutação. Em resumo, Popper 8

quântica através de prisma diferente de como recusa o relativismo afirmando a possibilidade de uma
o verá o adepto de Einstein" (p.307). discussão racional das teorias, que permite o avanço
para estruturas lingüísticas mais amplas e aperfeiço-
Por essas razões, Feyerabend conclui que a adas (é possível avaliar racionalmente concepções
metodologia lakatosiana é apenas retrospectivista, não diferentes de mundo, ou linguagens através das quais
passa de um ornamento verbal, ou seja, não orienta a
prática da ciência e, quando muito, auxilia o historia- 8
Conforme citado por Lakatos e Musgrave (1979) em A Ciência
Normal e seus perigos.
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se percebe e organiza a experiência). Tais pontos experiência dos sentidos é fixa e neutra. Chalmers
são bem salientados por Chalmers (1993) na sua apre- ilustra esse ponto quando procura mostrar a depen-
sentação da teoria popperiana do conhecimento, quan- dência que a observação tem de determinada teoria,
do destaca dois sentidos diversos de "conhecimen- levando em conta uma objeção muito comum dos que
to" ou "pensamento": defendem a unicidade do sentido percebido:
"(1) conhecimento ou pensamento no "Uma resposta comum à afirmação que es-
sentido subjetivo, consistindo de um esta- tou fazendo sobre a observação, apoiada pe-
do mental, ou da consciência ou de uma dis- 9
los tipos de exemplos que utilizei , é que ob-
posição a comportar-se ou a agir, e (2) co- servadores vendo a mesma cena do mesmo
nhecimento ou pensamento num sentido ob- lugar vêem a mesma coisa,mas interpretam
jetivo, consistindo em problemas, teorias e d que vêem diferentemente" (p.51). E con-
argumentos enquanto tal. O conhecimento clui de forma clara e incisiva: "O que é dado
nesse sentido objetivo é completamente in- unicamente pela situação física é a imagem
dependente da afirmação de qualquer pes- sobre a retina de um observador, mas um
soa de que sabe; é independente também da observador não tem contato perceptivo dire-
crença de qualquer um, ou da disposição de to com essa imagem. Quando o indutivista
assentir; ou de afirmar, ou agir. O conheci- ingênuo e muitos outros empiristas supõem
mento no sentido objetivo é o conhecimento que algo único nos é dado pela experiência e
sem conhecedor; é o conhecimento sem um que pode ser interpretado de várias manei-
sujeito que sabe" (p.160). ras, eles estão supondo, sem argumento e a
despeito de muitas provas em contrário, al-
Lakatos reproduz a mesma idéia, conforme guma correspondência entre as imagens so-
mostra o próprio Chalmers, que o cita na seqüência: bre nossas retinas e as experiências subjeti-
"... uma teoria pode ser pseudocientífica vas que temos quando vemos (...) certamen-
mesmo apesar de ser eminentemente 'plau- te não estou afirmando que as causas físicas
sível' e todo mundo crer nela, e ela pode ser das imagens sobre nossas retinas nada têm a
cientificamente valiosa embora ninguém creia ver com o que vemos. Entretanto, embora as
nela. Uma teoria pode ter um valor científico imagens sobre nossas retinas façam parte da
supremo ainda que ninguém a compreenda, causa do que vemos, uma outra parte muito
ou nem mesmo creia nela. O valor cognitivo importante da causa é constituída pelo esta-
de uma teoria nada tem a ver com sua influ- do interior de nossas mentes ou cérebros, que
ência psicológica na mente das pessoas. Cren- vai claramente depender de nossa formação
ças, compromisso e compreensão são esta- cultural, conhecimento, expectativas, etc. e
dos da mente humana... Mas o valor objeti- não será determinado apenas pelas proprie-
vo, científico de uma teoria... é independen- dades físicas de nossos olhos e da cena ob-
te da mente humana que a cria ou a compre- servada" (p.52).
ende" (p.160-161).
Este ponto foi muito ressaltado por Kuhn e
Chalmers, que destaca uma observação histórica de
Como conseqüência, conclui Chalmers, para
Kuhn a esse respeito, afirmando que:
Popper e Lakatos "a história do desenvolvimento
"mudanças nos céus começaram a ser nota-
interno de uma ciência será 'a história da ciência
das, registradas e discutidas pelos astrôno-
descorporificada'" (p.161).
mos do Ocidente depois da proposta da teo-
Kuhn também assume a idéia da importância
ria copernicana. Antes disso, o paradigma
do papel da teoria nas experiências, ou de que um
sentido global de mundo participa sempre do das per-
cepções. Critica, portanto, a possibilidade de uma lin- * Chalmers, assim como Kuhn, refere-se a resultados de experimentos
da psicologia da percepção que indicam diferenças de sentidos
guagem neutra na observação, ou o mito de que a percebidos sobre o mesmo material de visão.
A Filosofia da Ciência 135

aristotélico havia dito que não poderia haver construção dos fenômenos, que levam, por sua vez,
mudanças na região sobrelunar e, conseqüen- ao aparecimento de novos fatos e materiais; o quan-
temente, nenhuma mudança foi observada" to a experiência científica distanciou-se da experiên-
(p.131). cia ingênua de mundo, razão que levou Bachelard a
cunhar o termo fenomenotécnica para expressá-la;
Feyerabend (1977) também enfatiza esse ponto e como tais instrumentos representam teoria reificada,
à luz de uma teoria gramatical aparentemente muito isto é, incorporada sem mais discussão.
próxima da de Wittgenstein, como, aliás, é a desen- Tudo isso mostra que o desenvolvimento das
volvida pelo próprio Kuhn: teorias científicas traz a expansão de uma rede teóri-
ca e instrumental que impossibilita a sua falsificação
" 'a linguagem e os padrões de reação que no sentido restrito do termo. Como diz Feyerabend
envolvem não constituem meros instrumen- (1977), apontando para o caráter histórico-fisiológi-
tos para descrever eventos (fatos, estados de co da evidência da observação, uma teoria pode ser
coisas) mas são, também, modeladores de incompatível com a observação porque esta pode
eventos (fatos, estados de coisas), contendo- estar contaminada. Chalmers (1993) sintetiza bem
se em sua 'gramática' umacosmologia, uma esse ponto:
visão ampla do mundo, da sociedade, da situ-
ação do homem, que influencia o comporta- "Nada na lógica da situação requer que deva
mento, a percepção....Usuários das gramá- ser sempre a teoria a ser rejeitada na oca-
ticas marcadamente diversas são conduzidos, sião de um choque com a observação. Uma
pelas suas gramáticas, a diferentes gêneros proposição de observação falível pode ser
de observação'" (p. 349)). rejeitada e a teoria falível com a qual ela se
choca ser mantida. É exatamente isto que
Destaca-se que a presença de anomalias nas estava e n v o l v i d o q u a n d o a teoria de
teorias científicas é um fenômeno histórico comum e Copérnico foi mantida e a observação a olho
não representa por si só a presença de crises teóri- nu de que Vênus não muda de tamanho apre-
cas. Mas, se teorias participam do sentido da per- ciavelmente no curso do ano, inconsistente
cepção, se não há, pois, enunciados de observação com a teoria de Copérnico, foi rejeitada. É
definitivos em que se possa apoiar a ciência, a rela- isto também que está envolvido quando des-
ção entre enunciados de percepção e teorias científi- crições modernas da trajetória da Lua são
cas torna-se muito mais complexa. O exemplo mais mantidas e proposições de observação refe-
ilustrativo é a sofisticação dos testes de "verifica- rentes ao fato de que a Lua é muito maior
ção" de uma teoria. Galileu anexava como apoio de quando está perto do horizonte do que quan-
sua teoria do sistema solar um instrumento de obser- do está alta no céu são vistas como resultan-
vação, o telescópio, que também implicava teoria no tes de uma ilusão, mesmo" considerando-se
seu próprio uso, no caso, a óptica. Feyerabend (1977) que a causa da ilusão não é muito bem com-
enfatiza o quanto seii uso foi contestado na época preendida. A ciência abunda com exemplos
por seus oponentes, tanto por razões teóricas (ou de de rejeição de proposições de observação e
interpretação), quanto de imprecisão das imagens dos retenção de teorias com as quais elas se cho-
primeiros telescópios. E fala do papel da especula- cam. Contudo, por mais seguramente basea-
ção ou imaginação no novo tipo de experiência inau- da na observação uma afirmação possa pa-
gurada por Galileu, muito distante da do senso co- recer estar, a possibilidade de que novos avan-
mum ou do sentido do termo na filosofia aristotélica. ços teóricos revelarão inadequações nessa
Latour e Woolgar (1992), seguindo os passos afirmação não pode ser descartada. Conse-
de Bachelard, salientam o quanto um laboratório de qüentemente, falsificações conclusivas, dire-
pesquisa é repleto de instrumentos que participam da tas, de teorias, não são realizáveis" (p.91).
1 3 6 Reinaldo Furlan

Na sua apresentação dos limites do falsifica- das premissas deve ser falsa. Isto não nos
ção, Chalmers cita, inclusive, o próprio Popper: possibilita identificar a premissa errada. A
teoria em teste pode estar errada, mas alter-
"A base empírica de uma ciência objetiva não nativamente pode ser uma suposição auxiliar
tem assim nada de 'absoluto'. A ciência não ou alguma parte da descrição das condições
repousa sobre um sólido leito pedregoso. A iniciais que sejam responsáveis pela previsão
audaciosa estrutura de suas teorias ergue-se incorreta. Uma teoria não pode ser conclusi-
como se estivesse sobre um pântano. Ela é vamente falsificada, porque a possibilidade
como um prédio construído sobre estacas. de que alguma parte da complexa situação
Estas são impulsionadas para baixo no pân- do teste, que não a teoria em teste, seja res-
tano, mas não para alguma base natural ou ponsável por uma previsão errada não pode
'dada'; e se paramos de impulsionar as esta- ser descartada" (p.95).
cas mais para o fundo não é porque alcança-
mos solo firme. Nós simplesmente paramos Mas a diferença entre Popper e Kuhn se acen-
quando ficamos satisfeitos pelas estacas es- tua quando Kuhn afirma que não há passagem raci-
tarem suficientemente firmes para agüentar onal de uma teoria a outra, o que tanto Popper quan-
a estrutura, ao menos por um tempo... é pre- to Lakatos procuram garantir. É esse ponto que re-
cisamente o fato de as proposições de obser- presenta para ele a incomensurabilidade das teorias,
vação serem falíveis, e sua aceitação apenas pois impede sua comparação lógica ou racional:
experimental e aberta à revisão que derruba
a posição falsificacionista. As teorias não "Ao menos para o historiador, diz Kuhn
podem ser conclusivamente falsificadas por- (1962,1992), tem pouco sentido sugerir que
que as proposições de observação que for- a verificação consiste em estabelecer o acor-
mam a base para a falsificação podem se do do fato com a teoria. Todas as teorias his-
revelar falsas à luz de desenvolvimentos toricamente significativas concordaram com
posteriores" (p.94). os fatos; mas somente de uma forma relativa
(:..) Faz muito sentido perguntar qual das duas
Correndo o risco de certa redundância, con- teorias existentes que estão em competição
clui-se esse ponto com outra citação de sua obra so- adequa-se melhor aos fatos (...) Essa formu-
bre as pressuposições teóricas de um enunciado lação, entretanto, faz com que a tarefa de
observacional. Tome-se novamente o exemplo cita- escolher entre paradigmas pareça mais fácil
do da previsão da localização de um suposto planeta e mais familiar do que realmente é (...) Ne-
no sistema solar. nhuma das partes aceitará todos os pressu-
postos não-empíricos de que o adversário ne-
"As premissas das quais a previsão é deriva- cessita para defender sua posição (...) Em-
da vão incluir as afirmações interconectadas bora cada um deles possa ter a esperança de
que constituem a teoria em teste, condições converter o adversário à sua maneira de ver
iniciais tais como posições anteriores do pla- a ciência e a seus problemas, nenhum dos
neta e do Sol, suposições auxiliares como dois pode ter a esperança de demonstrar sua
aquelas que possibilitam correções a serem posição. A competição entre paradigmas não
feitas para a refração da luz do planeta na é o tipo de batalha que possa ser resolvido
atmosfera da Terra, e assim por diante. Ago- por meio de provas" (p.187-188).
ra, se a previsão que se segue desse labirinto
de premissas revela-se falsa (em nosso Em outros termos,
exemplo, se o planeta não aparecer no local
previsto), então tudo o que a lógica da situa- "quando os paradigmas participam - e devem
ção nos permite concluir é que ao menos uma fazê-lo - de um debate sobre a escolha de
A Filosofia da Ciência 1 3 7

urn paradigma, seu papel é necessariamente cir- "ao passar em revista a sua carreira no seu
cular. Cada grupo utiliza seu próprio paradigma Scientific Autobiography, observou triste-
para argumentar em favor desse mesmo mente que 'uma nova verdade científica não
paradigma. Naturalmente a circularidade resul- triunfa convencendo seus oponentes e fazen-
tante não toma esses argumentos errados ou do com que vejam a luz, mas porque seus
mesmo ineficazes. Colocar um paradigma como oponentes finalmente morrem e uma nova
premissa numa discussão destinada a defendê- geração cresce familiarizada com ela"
lo pode, não obstante, fornecer uma mostra de (p.191).
como será a prática científica para todos aque-
les que adotarem a nova concepção da nature- Alguns critérios existem, naturalmente, na
za. Essa mostra pode ser imensamente persua- escolha entre paradigmas:
siva, chegando muitas vezes a compelir à sua
aceitação. Contudo, seja qual for a sua força, o "Em primeiro lugar, o novo candidato deve
status do argumento circular eqüivale tão-so- parecer capaz de solucionar algum problema
mente ao da persuasão. Para os que se recu- extraordinário, reconhecido como tal pela
sam entrar no círculo, esse argumento não pode comunidade e que não possa ser analisado
tornar-se impositivo, seja pela lógica, seja de nenhuma outra maneira, Em segundo lu-
prôbabilisticamente. As premissas e os valores gar, o novo paradigma deve garantir a pre-
partilhados pelas duas partes envolvidas em um servação de uma parte relativamente grande
debate sobre paradigmas não são suficiente- da capacidade objetiva de resolver proble-
mente amplos para permitir isso. Na escolha de mas, conquistada pela ciência com o auxílio
um paradigma, - como nas revoluções políticas dos paradigmas anteriores" (idem, p.212).
- não existe critério superior ao consentimento
da comunidade relevante" (p.128). Mas esses critérios não fornecem razões
suficientes para a troca de paradigmas, nem signifi-
Persuasão, portanto, que pode levar a uma cam a possibilidade de um progresso ontológico com
nova forma de ver e de pensar o mundo, cuja passa- a substituição das teorias. Há apenas progresso na
gem, entretanto, está mais próxima da conversão re- resolução de quebra-cabeças.
ligiosa do que do convencimento racional. Isto é, a
conversão completa seria uma mudança profunda na
"visão" de mundo, havendo boas razões para fazê-la Referências Bibliográficas
e a possibilidade de "tradução" de parte da lingua-
gem do outro para o novo paradigma, mas o acordo Chalmers, A.F. (1993). O que é Ciência, afinal? São
entre os grupos rivais nesse processo de "tradução" Paulo: Brasiliense.
não é fundado logicamente, porque o que está em
jogo aqui não são leis, passíveis de correção no inte- Feyerabend, P. (1977). Contra o Método. Rio de Ja-
rior de cada paradigma, mas definições que funda- neiro: Francisco Alves.
mentam os próprios paradigmas. Hempel, C G . (1981). Filosofia da Ciência Natural,
a
3 ed.. Rio de Janeiro: Zahar.
Como diz Feyerabend (1977), em defesa de
Kuhn, T.S. (1962/1992). A Estrutura das Revoluções
Kuhn (e aparentemente à luz do segundo a
Científicas, 3 . ed. São Paulo: Perspectiva.
Wittgenstein), o que está em jogo não são alternati-
vas definidas por regras, mas as próprias regras. Em Lakatos, I. & Musgrave, A. (1979). A Crítica e o
outros termos, teorias incomensuráveis podem ser Desenvolvimento do Conhecimento. São Pau-
refutadas apenas internamente, pois seus conteúdos lo: Cultrix-Edusp.
não são comparáveis. Kuhn (1962, 1992) cita uma
Latour, B. & Woolgar, S. (1997). A Vida de Labora-
declaração de Max Plank, para ilustrar a situação:
tório: a produção dos fatos científicos. Rio de
1 3 8 Reinaldo Furlan

Janeiro: Relume Dumara.


Popper, K. (1959/1999). A Lógica da Pesquisa Ci-
entífica. São Paulo: Cultrix.
Popper, K. (1963, s/d). El desarrollo dei
Conocimiento científico - Conjecturas y
refutaciones. Buenos Aires: Paidos.