Você está na página 1de 2

Luiz Gustavo Medeiros de Lima

Título: Pensamento Selvagem e Pensamento Científico

* O erro do pensamento abstrato

No início do capítulo “A Ciência do Concreto”, Lévi-Strauss trata de


desqualificar a idéia de que a ausência de termos para exprimir, em algumas
línguas, certas palavras, como “árvore” ou “animal” por exemplo, possa ser
motivo para considerar os povos indígenas que se servem desta língua como
intelectualmente menos capazes que a nossa civilização. Para refutar esta
opinião ele afirma que os que a sustentam esquecem de atentar a outros
exemplos que atestam a riqueza destas línguas. Reforçando ainda mais,
Lévi-Strauss afirma: “Em todas as línguas, o discurso e a sintaxe fornecem os
recursos indispensáveis para suprir as lacunas do vocabulário”.

Para enriquecer mais ainda sua argumentação, Lévi-Strauss cita alguns


autores que compartilham deste pensamento abstrato. Estes autores citados
reforçam a idéia de que o indígena nomeia e conceitua apenas em função de
suas necessidades. Na contramão desta opinião, Lévi-Strauss nos fala que “o
recorte conceitual varia de língua para língua e, (...) o emprego de termos
mais ou menos abstratos não é função de capacidades intelectuais, mas de
interesses desigualmente marcados e detalhados de cada sociedade
particular no seio da sociedade nacional”.

Um grande exemplo insistentemente comentado por Lévi-Strauss neste


capítulo, que reforça seu argumento contra aquele pensamento abstrato
citado acima é o vasto conhecimento zoológico e botânico que os indígenas
possuem. Conhecimento que vem de um interesse que vai além da simples
utilidade que animais e plantas podem, pra eles, possuir. Ele diz: “um
conhecimento desenvolvido tão sistematicamente não pode ser função
apenas de sua utilidade prática”. Conclui-se, então, que “as espécies animais
e vegetais não são conhecidas na medida em que são úteis; elas são
classificadas úteis ou interessantes porque são primeiro conhecidas”.

* Magia e Ciência

Na sequência, Lévi-Straus disseca sobre magia e ciẽncia. Afirma que,


ao invés de as opor, seria mais proveitoso colocá-las em paralelo, “como
duas formas de conhecimento, desiguais quanto aos resultados teóricos e
práticos (…), mas não pelo gênero de operações mentais, que ambas
supõem e, que diferem menos em natureza que em função dos tipos de
fenômenos a que se aplicam”. Ambas colocam em evidência o problema da
causalidade valendo-se, entretanto, de formas distintas de conhecer, e
manifestando resultados práticos diferenciados.
O pensador francês também afirma que primitivos e cientistas
convivem com a dúvida, mas não com a desordem. Portanto, a necessidade
de agrupar as coisas, como um inventário, é uma necessidade intelectual,
que advêm do desejo de se impor um princìpio de ordem no universo. Com
isto, constata-se que, estando esta exigência pela ordem na base de todo
pensamento, ela está, consequentemente, na base do pensamento primitivo.

* O Bricolage

Adiante, Lévi-Strauss se utiliza de uma analogia ao afirmar que o


pensamento selvagem, ou a ciência do concreto, é uma espécie de bricolage
intelectual. Essencialmente, bricolage é um trabalho feito a partir de
diversificados materiais, sem a adiantada concepção de um plano e,
também, seguindo restrições que se diferem abruptamente dos processos
técnicos. Esta atividade, portanto, serviria como analogia ao pensamento
selvagem, pois este não trabalha com conceitos, mas com signos. Os signos
possuem uma capacidade restrita, enquanto os conceitos compreendem
uma capacidade ilimitada.

A ciência, portanto, seriam os processos técnicos, que sempre buscam


ir além do que já existe, e o pensamento mítico seria o bricolage, uma
atividade prática, de procedimentos diferentes, que sempre permanece
estagnado.

* Conclusão final

Lévi-Strauss, portanto, se preocupa em demonstrar que a lógica do


pensamento selvagem é similar ao do pensamento moderno. Contraponto,
então, à ideia de alguns pensadores que afirmavam que os indígenas se
interessavam pela natureza, apenas na medida de sua utilidade. Ele afirma
que o conhecimento antecede a utilidade pois os indígenas classificavam
como úteis e interessantes apenas aquilo que conheciam. Desse modo, se
pode constatar que esta suposta inferioridade intelectual atribuída aos
indígenas não existe, pois eles apenas expressam diferentes manifestações
concretas dos mesmos potenciais.