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PINHEIRO GUIMARÃES
AV. RIO BRANCO 181, 27º ANDAR
20040-918 RIO DE JANEIRO, RJ
TEL.: (21) 4501-5000
FAX : (21) 4501-5025

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1125658-81.2018.8.26.0100 e código 6F61EE9.
Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por GUSTAVO MOTA GUEDES, protocolado em 19/05/2019 às 19:11 , sob o número WJMJ19407054080 .
ILMO. E EXMO. SR. JUIZ DE DIREITO DA 1ª VARA DE FALÊNCIAS E RECUPERAÇÕES
JUDICIAIS DO FORO CENTRAL CÍVEL DA COMARCA DE SÃO PAULO, ESTADO DE SÃO
PAULO

Processo nº 1125658-81.2018.8.26.0100

MANCHESTER SECURITIES CORPORATION ("Manchester"), ELLIOTT


INTERNATIONAL, L.P. e ELLIOTT ASSOCIATES, L.P. (em conjunto, as
"Requerentes"), vêm, nos autos da RECUPERAÇÃO JUDICIAL de OCEANAIR LINHAS
AÉREAS S.A. e AVB HOLDING S.A. (a primeira "Oceanair" e, em conjunto com a
segunda, as "Recuperandas"), em atenção à determinação de fls. 37.935,
apresentar sua manifestação quanto à petição da Azul Linhas Aéreas Brasileiras
S.A. ("Azul") de fls. 37.731 e seguintes, da seguinte forma:

BREVE RECAPITULAÇÃO DOS FATOS

(a) O Plano Azul

1. Em 8/3/2019, a Azul e as Recuperandas celebraram term sheet (fls.


24.086/24.124) ("Term Sheet") por meio do qual ficou acordado, dentre outros
pontos, que as Recuperandas apresentariam um plano de recuperação judicial
("Plano Azul"). Seguindo o acordado, em 15.3.2019, as Recuperandas
apresentaram o Plano Azul que, em conjunto com o Term Sheet, previa, dentre
outras disposições: (i) a venda de uma única unidade produtiva isolada ("UPI")
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denominada UPI Life Air, nos termos do art. 60 e demais disposições aplicáveis
da Lei nº. 11.101/2005 ("LRF"), contendo todos os direitos de pouso e decolagem
em determinados aeroportos ("Direitos de Pouso e Decolagem", no jargão
aeronáutico) detidos pela Oceanair e outros ativos; (ii) preço mínimo de US$105

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milhões; (iii) concessão, pela Azul, de financiamentos à Oceanair no valor de

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US$20 milhões a US$40 milhões, que seriam abatidos do preço de venda da UPI,
caso a Azul a arrematasse; (iv) direito de preferência para a Azul, que lhe dava a
prerrogativa de cobrir eventual proposta vencedora apresentada por terceiros; (v)
imposição de multa de 15% do lance vencedor no leilão, devida à Azul pelo
terceiro comprador que eventualmente arrematasse a UPI; (vi) imposição de
multa de 10% do lance vencedor no leilão, devida à Azul pelo terceiro comprador
que arrematasse a UPI e não pagasse o empréstimo concedido pela Azul à
Oceanair; e (vii) imposição às Recuperandas de obrigação de exclusividade para
impedir que negociassem qualquer outra operação no contexto de sua
reestruturação, com qualquer outra interessada (fls. 25.340/25.370).

2. Com uma simples e rápida análise do Plano Azul, pode-se concluir


– assim como as Requerentes concluíram – que o Plano Azul assegurava de forma
clara que apenas a Azul participaria do "leilão" da UPI Life Air, dada a estrutura
adotada que tornava virtualmente impossível que qualquer outro player do
mercado aéreo efetivamente adquirisse tais ativos de uma maneira considerada
aceitável às autoridades regulatórias, em virtude de restrições concorrenciais.
Isso sem falar nas várias barreiras criadas para afastar a participação de terceiros
(e.g., multas, exclusividade, direito de preferência etc.), todas elas em benefício
da Azul.

3. A perspectiva de retorno dos credores foi ainda mais reduzida pela


falta de vontade da Azul de se comprometer a limitar o volume de financiamentos
DIP que seria potencialmente injetado na Oceanair durante o período entre a
assinatura e o fechamento (ou ao menos o volume passível de utilização como
moeda de pagamento no leilão). Dada a possibilidade de demorados processos
para obtenção de aprovações regulatórias (reforçada pela Nota Técnica Nº.
4/2019/DEE/CADE ("Nota CADE")) e as contínuas necessidades de caixa das
Recuperandas, era razoável acreditar que financiamentos prioritários
significativos – e ilimitados – poderiam ser injetados na empresa antes do
fechamento da venda da UPI, reduzindo ainda mais o potencial retorno aos

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credores.

4. Com efeito, o cenário desenhado pela Azul era, e pedimos vênia para
o trocadilho, realmente um "céu de brigadeiro" para suas pretensões: havia um

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plano de recuperação judicial que simplesmente lhe garantia ganhar o "leilão" por

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US$105 milhões.1

5. Não foi por outras razões, portanto, que a Azul se recusava a sequer
discutir um aumento do preço mínimo para a aquisição da UPI Life Air, a despeito
das negociações que as Requerentes buscavam, como maiores credoras,
estabelecer de boa-fé e a despeito da óbvia constatação de que a oferta era muito
aquém do valor que se poderia alcançar pelos ativos. Indiferente, a Azul afirmava
que não aumentaria a oferta e que, se surgissem compradores dispostos a pagar
mais pelos ativos, que os credores "fechassem com eles".

6. Não bastasse isso, apesar de ter estabelecido no Term Sheet que


estava "preparada para antecipar parte do Preço de Compra, no formato de um
empréstimo ponte sênior e com garantia real (“Empréstimo DIP”) às Devedoras
na faixa entre US$20.000.000,00 e US$40.000.000,00", a Azul desembolsou
apenas US$13 milhões a este título, nada mais. Na verdade, foram US$8 milhões,
que só foram seguidos de US$5 milhões adicionais sob a exigência de que a
Manchester – que já era credora de mais de R$2 bilhões – também emprestasse
mais US$5 milhões simultaneamente, desembolsados em 25/3/2019.2 Se a
Manchester não tivesse emprestado os referidos US$5 milhões exigidos pela Azul
– exigência essa que não fazia parte do acordado no Term Sheet –, ela teria
deixado a Oceanair falir por falta de recursos.

7. Ou seja, o apoio da Azul à Oceanair ficou muito aquém dos US$20


milhões mínimos e ainda mais longe dos US$40 milhões acenados para as
Recuperandas concordarem em apoiar o Plano Azul que, como se disse, lhe
direcionava os ativos a um valor muito abaixo do justo, limitando a expectativa
de recuperação de créditos. Este é o tipo de "apoio" que a Azul deu às
Recuperandas.

1
Valor esse que a própria Azul demonstrou achar absurdamente baixo, na medida em que apresentou, ainda que
de forma atrapalhada, nova tentativa para adquirir menos ativos ao preço de US$145 milhões.
2
Operação essa formalizada através de contratos de empréstimo DIP acostados aos autos nas fls. 28.612/29.118,
onde Azul e Manchester emprestaram cada uma US$5 milhões para a Oceanair.

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8. Diante desse quadro, após cortado o apoio financeiro pela Azul à


Oceanair e em vista da sua recusa de aumentar o preço a ser pago pela UPI, as
Requerentes – que têm a maior exposição dentre todos os credores e, portanto, o

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maior interesse – foram buscar outros potenciais compradores para os ativos da

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Oceanair.

9. Premissa óbvia de tal esforço seria que o Plano Azul fosse


substancialmente alterado para deixar de ser um leilão direcionado para um só
comprador e com várias barreiras econômicas e regulatórias para a participação
de terceiros. O objetivo era criar um processo realmente competitivo, em que
eventuais interessados pudessem seriamente participar e disputar os ativos das
Recuperandas – o que, diga-se de passagem, deveria ser louvado e defendido por
qualquer interessado em viabilizar a satisfação de seus créditos, ainda que parcial.

10. As bases de tal plano deveriam ser: (i) aumento de competitividade


entre potenciais compradores; (ii) compromisso firme de investimento e de
financiamento das atividades da Oceanair; (iii) eliminação de barreiras de entrada
de terceiros; e (iv) maximização do valor de venda dos ativos, em benefício de
todos os credores concursais.

11. As Requerentes identificaram duas companhias interessadas em


participar do processo competitivo de aquisição dos ativos da Oceanair, que,
conhecidamente, são companhias já atuantes no setor: Gol Linhas Aéreas
Inteligentes S.A. ("GOL") e Tam Linhas Aéreas S.A. ("Latam"). Foram então
iniciadas tratativas individuais e independentes com cada uma dessas partes para
que se viabilizasse a estruturação de um plano de recuperação judicial que
atendesse aos preceitos descritos no parágrafo 10 acima.

12. Como resultado dessas negociações (i) foram celebrados os acordos


apresentados nesses autos às fls. 34.077/34.154 e 34.155/34.240 (o "Acordo
GOL" e o "Acordo Latam", respectivamente), que foram objeto de ampla
publicidade, inclusive por meio de publicação de fato relevante pela Gol e pela
Latam, e (ii) a Oceanair, evidentemente notando que o plano de recuperação
judicial estruturado pelas Requerentes era muito mais vantajoso para os seus
credores do que o Plano Azul, apresentou-o nos autos, às fls. 32.224/32.272, e
submeteu-o a deliberação da Assembleia Geral de Credores, na qual foi

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devidamente aprovado por ampla maioria dos credores das Recuperandas em


todas as classes, com alterações discutidas e negociadas com diversos credores
na Assembleia Geral de Credores ("AGC" e o plano, o "Plano Aprovado"), e
homologado por este Juízo.

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13. Neste ponto, cabe inclusive frisar circunstância de fato muito
importante, diante dos ataques vis e vãos que vêm sendo feitos às Requerentes
por aqueles que, por agendas próprias inconfessáveis, atiram nas Requerentes
para tentarem atingir o Plano Aprovado: este plano teria sido aprovado mesmo
sem os votos das Requerentes, conforme bem ressaltado por esse Juízo às fls.
34.806/34.8193, em sua decisão homologatória – que será objeto de análise mais
adiante.

14. O Plano Aprovado, dentre outras coisas, prevê o seguinte:

(a) a transferência de ativos, incluindo Direitos de Pouso e


Decolagem em aeroportos coordenados, para 6 (seis) sociedades
de propósito específico ("SPE");

(b) a criação de uma SPE, que receberia exclusivamente os ativos da


Oceanair relacionados ao seu programa de milhagens, o
"Amigo";

(c) o tratamento de todas as 7 (sete) SPEs como UPIs, para fins do


art. 60 da LRF;

(d) a venda das referidas UPIs em leilão na forma de "lances orais",


conforme previsto no art. 142, I da LRF, permitindo uma
competição verdadeira;

(e) a venda das UPIs que têm Direitos de Pouso e Decolagem em

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"Mas não é só: a discussão sobre a existência dos créditos e seus valores não tem, a rigor, qualquer relevância
na verificação do quórum de aprovação do plano de recuperação judicial. A despeito da relevância do montante
em discussão e da posição reconhecidamente majoritária dos credores MANCHESTER e GRUPO ELLIOT, o
fato é que a projeção de votação elaborada pela Administradora Judicial a pedido do Juízo revela que o plano seria
aprovado, ainda que o crédito da MANCHESTER fosse desconsiderado, e o credor não exercesse o direito de
voto respectivo (fls. 3466/34337). Com efeito, excluindo-se o crédito em destaque, o plano seria aprovado pelo
seguinte quórum: 75,0% dos credores presentes da Classe I, 75,6% dos credores e 76,5% dos créditos presentes
da Classe III e 89,7% dos credores presentes da Classe IV." (fls. 34.183)

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aeroportos coordenados em 3 (três) blocos, cada um com preço


mínimo de US$70 milhões; e

(f) ausência de qualquer direito de preferência, right to match, multa

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ou qualquer outra disposição restritiva que pudesse beneficiar

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qualquer licitante ou afastar qualquer potencial interessado.

15. Com relação ao parágrafo 14(e) acima, tais valores são apenas os
lances mínimos, sendo certo que Gol e Latam ou qualquer outro interessado
(inclusive a Azul) poderiam apresentar lances para qualquer uma das 7 (sete)
UPIs e competir livremente – o que evidentemente elevaria o preço final dos
ativos, provavelmente para muito além deste preço mínimo.

16. Adicionalmente e em paralelo à aprovação do Plano Aprovado:

(a) através do Acordo Latam, a Latam comprometeu-se a:


(i) conceder financiamentos à Oceanair no valor total de US$13
milhões até o leilão – o que de fato ocorreu –, com possibilidade
de concessão de outros financiamentos após tal evento; e
(ii) apresentar lance por UPI, no valor mínimo de US$70
milhões; e

(b) através do Acordo GOL, a GOL comprometeu-se a: (i) conceder


financiamentos à Oceanair no valor total de US$13 milhões até o
leilão – o que de fato ocorreu –, com possibilidade de concessão
de outros financiamentos após tal evento; e (ii) apresentar lance
por UPI, no valor mínimo de US$70 milhões.

17. Logo se vê que os esforços negociais dos Requerentes foram


bem-sucedidos, uma vez que, simplesmente resgatando a saudável competição
que deve permear as alienações de ativos de devedoras insolventes, conseguiu
obter US$26 milhões (mais que R$100 milhões) adicionais em financiamentos
para a companhia continuar operando e, ainda, conseguiu aumentar, em muito, o
potencial de recuperação de crédito de todos os credores, já que a venda em
estrutura efetivamente competitiva aumentava a expectativa de obtenção de
recursos com o leilão para US$210 milhões (mais que R$800 milhões), com
compromissos firmes de apresentação de lances já assegurados de US$140

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milhões (quase R$600 milhões), sendo US$70 milhões pela GOL e US$70
milhões pela Latam.

18. O lance mínimo do leilão previsto no Plano Azul, lembre-se, era de

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apenas US$105 milhões e funcionava, na verdade, como um lance máximo, na

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medida em que a Azul tratou de garantir que seria a única licitante, com restrições
concorrenciais deliberadamente criadas em sua estrutura. Dentre essas restrições,
destaca-se a concentração de todos os Direitos de Pouso e Decolagem da Oceanair
em apenas uma UPI, o que tornava essa UPI intocável para as concorrentes
naturais Gol e Latam, diante das limitações que provavelmente seriam impostas
pelo CADE.

(b) A Homologação do Plano

19. O Plano Aprovado foi homologado pela decisão deste Juízo de fls.
34.806 e seguintes, tendo sido pontuado que "optou o legislador, num movimento
pendular em prol dos credores, a conferir a estes o poder de decisão quanto à
viabilidade do plano para reestruturar o devedor inadimplente.", e que "nesta
ótica, a apreciação da viabilidade econômico financeira do plano foi atribuída
exclusivamente aos credores" (fls. 34.809).

20. Adicionalmente, muito bem observou a referida decisão que "a


aprovação amplamente majoritária do plano pelos presentes na AGC sugere que
parte substancial dos credores a ele sujeitos enxerga a viabilidade da
permanência da atividade empresarial das requerentes nos moldes em que
proposta e do plano de reestruturação de seu endividamento. A manifestação de
vontade dos credores da recuperanda indiscutivelmente há de ser respeitada."
(fls. 34.812).

(c) Os Agravos de Instrumento e Efeito Suspensivo


O Recurso da Swissport

21. Como é de conhecimento deste Juízo, determinados credores


interpuseram Agravos de Instrumento, questionando a decisão homologatória do

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Plano Aprovado.4

22. Um desses recursos (o Agravo de Instrumento n.º 2095938-


27.2019.8.26.0000) foi interposto pela credora quirografária Swissport Brasil

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Ltda. ("Swissport"). Sem argumentos que pudessem, por exemplo, ter convencido

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a maioria dos credores na AGC a rejeitar o Plano Aprovado, optou por lançar
aleivosias sobre os créditos das Requerentes, os mesmos créditos que foram longa
e profundamente escrutinados e validados pelo Administrador Judicial.

23. Com todas as vênias: artimanha leviana, desqualificada e vil.


Especialmente porque, sintomaticamente, a Swissport não teve coragem ou
segurança de concretamente impugnar o crédito das Requerentes, pois sabe bem
o tipo de responsabilidades que isto atrairia para si.

24. Além de apoiar seu recurso em leviandades que não convencem


sequer a ela própria – já que nem mesmo impugnou o crédito das Requerentes –
a Swissport ainda se valeu de uma colocação que é absolutamente surpreendente,
quando vindo de uma credora concursal de uma companhia como a Oceanair:
acenou com supostas limitações regulatórias violadas pelo Plano Aprovado,
notadamente quanto às disposições que, no seu entendimento, estabeleceriam a
"venda" de Direitos de Pouso e Decolagem.

25. O recurso interposto pela Swissport parece absolutamente


contra-intuitivo, sendo justo cogitar-se, com estranheza, quais seriam os seus
reais objetivos... Temos, por incrível que pareça, uma credora concursal
basicamente afirmando que nenhuma UPI de companhia aérea pode ser titular de
Direitos de Pouso e Decolagem! E, ao recorrer contra a homologação do Plano
Aprovado, especialmente sob este tipo de argumento, a Swissport aumenta
significativamente as chances de falência das Recuperandas e reduz as chances
de recuperação do crédito da própria Swissport e de todos os credores.

26. O Exmo. Des. Relator deferiu o efeito suspensivo requerido,


concordando, até segunda ordem, com a alegada impossibilidade de se alienar
uma UPI com Direitos de Pouso e Decolagem:

4
Agravos de Instrumento n.ºs 2095938-27.2019.8.26.0000; 2098259-35.2019.8.26.0000; 2098197-
92.2019.8.26.0000; 2104009-18.2019.8.26.0000; 21039632-29.2019.8.26.0000; 2104025-69.2019.8.26.0000.

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fls. 38123

"(...) Há relevância nos fundamentos recursais ao suscitar inviável a


aprovação do plano de recuperação judicial lastreado em previsões que
afrontam o princípio da legalidade. Não se pode olvidar preocupante
manifestação da ANAC em fl. 37.056-37.075 dos autos de origem, por

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meio da qual mostra-se contrária às tratativas relacionadas à alienação
de slots como se fizessem parte do ativo da empresa, uma vez que tal

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previsão afeta negativamente a competência da Autarquia Federal.
(...)
Sem prejuízo da análise Colegiada que, deliberará, inclusive, sobre a
hipótese de eventual convolação da recuperação judicial em falência, por
ora, defere-se o efeito suspensivo para obstar os efeitos da r. decisão
homologatória, bem como, suspender a realização do leilão previsto no
plano de recuperação judicial até o julgamento do presente recurso."

27. Como se vê, a decisão que deferiu o efeito suspensivo pretendido


pela Swissport fundamentou-se no simples fato de que a alienação de Direitos de
Pouso e Decolagem, "como se fossem ativos da empresa" subverteria a
competência da ANAC para dispor destes ativos, tendo sido esta, portanto, a sua
razão de decidir pela suspensão da homologação do Plano Aprovado e do leilão
que se realizaria em 7/5/2018.5

A NOVA MANIFESTAÇÃO DA AZUL

28. Não se importando com a vontade dos credores refletida no Plano


Aprovado e tentando aproveitar-se da suspensão do leilão resultante da liminar
concedida pelo Desembargador relator, a Azul apresentou sua manifestação de
fls. 37.731 e seguintes, em que, valendo-se da condição de "terceira interessada"
na compra das atividades da Oceanair, tenta invadir o processo e pede, em caráter
de urgência, autorização para:

(a) a imediata constituição de uma única UPI, formada por Direitos


de Pouso e Decolagem selecionados por ela, Azul
("UPI Direcionada"), com valor mínimo de US$145 milhões,
seguida de sua alienação judicial; e

5
Ressalte-se que foram deferidos efeitos suspensivos também aos Agravos de Instrumento n.ºs 2098259-
35.2019.8.26.0000, 2104009-18.2019.8.26.0000 e 2104025-69.2019.8.26.0000, que também atacam a decisão
homologatória, por consequência lógica, tendo em vista a decisão acima mencionada, do mesmo Relator.

9
fls. 38124

(b) a realização de leilão na modalidade de "propostas fechadas"


prevista no art. 142, II, a LRF, no dia 20 de maio.

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29. Além disso, a Azul tenta criar fatos consumados,

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"comprometendo-se" a submeter proposta fechada desde que o tal "processo
competitivo" acontecesse até o dia 20/5/2018 (amanhã).

30. Como se passa a expor, os pedidos formulados pela Azul são


grosseiramente inoportunos, inconvenientes e ilegais, na medida em que:

(a) são feitos por parte ilegítima e sem interesse processual para este
pedido, em grave violação a diversos dispositivos e princípios da
LRF, especialmente a regra da maioria, a soberania da vontade
dos credores e a força vinculante dos planos de recuperação
judicial aprovados, o que é ainda agravado pelo fato de que esta
mesma proposta formulada pela Azul foi levada ao
conhecimento das Recuperandas e dos credores na AGC e
rejeitada por eles naquela oportunidade;

(b) ante à submissão do Plano Aprovado à votação dos credores na


AGC pelas Recuperandas e posterior homologação do Plano
Aprovado por esse Juízo, há evidente preclusão lógica, que
impede que Recuperandas e/ou credores apoiem o pedido
estapafúrdio da Azul, conflitante com o Plano Aprovado;

(c) os pedidos da Azul objetivam a usurpação da competência do


e. Tribunal de Justiça, sob cuja análise está a legalidade da venda
de UPIs que contenham Direitos de Pouso e Decolagem, objeto
específico da liminar atualmente vigente, que a Azul tenta
circum-navegar de forma gatuna;

(d) o pedido da Azul para alienação da UPI Direcionada viola a


exigência de efetiva competitividade imposta pelo art. 142 da
LRF, ao direcionar a venda exclusivamente ao interessado que a
propôs, a própria Azul; ao concentrar os Direitos de Pouso e
Decolagem em uma única UPI, a proposta contorna exatamente

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fls. 38125

o cuidado que teve o Plano Aprovado, de separar os Direitos de


Pouso e Decolagem em diversas UPIs, para que não houvesse
apenas uma compradora possível;

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(e) a realização de atos para alterar substancialmente o Plano

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Aprovado ou para se alienarem ativos em conflito com o Plano
Aprovado, conforme pretendido pela Azul, só causaria mais
atrasos ao processo e agravaria ainda mais a situação das
Recuperandas. Isso porque, atualmente, as partes já percorreram
todo o percurso mais tortuoso: temos um plano de recuperação
judicial aprovado pela maioria maciça dos credores concursais e
homologado pelo juízo de primeira instância, já transcorreu o
prazo para recursos contra a homologação, já foi suspensa a
decisão homologatória e tal suspensão já foi objeto de Agravo
Interno, aparentemente a ser julgado na próxima sessão da
câmara competente (dia 10/6/2019). Qualquer modificação do
Plano Aprovado ou qualquer tentativa de venda de ativos em
conflito com o Plano Aprovado – principalmente buscando o já
rejeitado formato de "leilão de um só licitante" novamente
proposto pela Azul – reiniciará todo esse ciclo, com a reabertura
dos prazos para novos recursos, novas possibilidades de
suspensão etc., causando uma circunstância em que, se for
provido o Agravo Interno mencionado acima no dia 10/6/2019,
com a liberação do leilão do Plano Aprovado, ter-se-á criado,
com o processo paralelo, um novo ciclo de recursos, porém
várias semanas atrasado, evidentemente com a possibilidade de
novas suspensões da venda de ativos, novos Agravos Internos
etc.;

(f) a proposta da Azul, supostamente inovadora, baseia-se


exatamente na mesma premissa do Plano Aprovado, qual seja, a
venda de UPIs contendo Direitos de Pouso e Decolagem, que foi
justamente o fundamento utilizado pelo Tribunal de Justiça para
suspender a eficácia da homologação do Plano Aprovado – ou
seja, a adoção de qualquer medida para satisfazer os anseios da
Azul – que mais uma vez deixa claro que seu objetivo é ter um
"leilão para chamar de seu" – significa o dispêndio de tempo e

11
fls. 38126

recursos de que as Recuperandas não dispõem, com a repetição


de atos sob os mesmos fundamentos já atacados em decisão que
suspendeu a realização do leilão previsto para o dia 7/5/2019;

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1125658-81.2018.8.26.0100 e código 6F61EE9.
(g) o deferimento de um processo ilegítimo paralelo seria uma

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traição à confiança que a Gol e a Latam depositaram nos credores
e no Plano Aprovado, as duas que cumpriram o que haviam
prometido às Requerentes no Acordo Gol e no Acordo Latam e,
quando mais se precisava delas, deram o suporte necessário ao
sucesso do Plano Aprovado e à realização do leilão – na medida
em que, diferentemente da Azul (que simplesmente não aportou
na Oceanair os recursos que havia prometido), já desembolsaram
todos os empréstimos que se comprometeram a conceder.
Curiosamente, inspiraram a Azul a aumentar sua proposta para
um novo patamar, muito pouco acima dos lances mínimos
comprometidos por Gol e Latam. De fato, o Plano Aprovado é
um contrato entre as Recuperandas e os credores e, com base na
aprovação deste contrato, a Gol e a Latam praticaram atos de
suporte à sobrevivência das Recuperandas e ao leilão: o que a
Azul pede é que todos traiam a confiança daqueles que
cumpriram sua parte, introduziram a competição no processo e
mantiveram a Oceanair viva, apenas para se abraçarem a uma
oferta que volta garantir exclusividade à Azul, limita a potencial
recuperação dos credores e, principalmente, reabre todo um ciclo
de potenciais recursos e suspensões, às vésperas da decisão do
Agravo Interno mencionado acima, mesmo porque é fundada na
mesma estrutura já suspensa pelo e. Tribunal de Justiça (UPI
contendo Direitos de Pouso e Decolagem);

(h) os arts. 66 (venda de ativos) e 113 (venda urgente de bens


perecíveis) da LRF são totalmente inaplicáveis ao caso concreto,
pois: (i) não se admite a venda de UPIs no curso da recuperação
judicial, sem que tal alienação esteja prevista em plano; e (ii) o
conceito da venda antecipada de bens perecíveis por ordem do
juízo somente se aplica no contexto de falência, em que a
devedora não está mais na posse e controle de seus bens e
direitos; e

12
fls. 38127

(i) o Plano Azul não dá nem mesmo à Azul nenhuma oportunidade


que a mesma não tenha dentro do Plano Aprovado (i.e., a Azul
pode adquirir todas as UPIs apresentando lances na atual

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estrutura que conta com múltiplas UPIs). Na realidade, o Plano

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Azul apenas traz de volta a não-competição em que a Azul é o
único concorrente real. A Azul está tentando usar os tribunais
para reintroduzir a exclusividade que perdeu, em troca de um
mínimo aumento no valor do lance mínimo garantido – e cada
mudança proposta pela Azul é projetada para reduzir a
possibilidade de competição (e.g., UPI única, envelopes
fechados etc.).

31. Em suma, a petição apresentada pela Azul é uma tentativa de reverter


a decisão soberana dos credores refletida no Plano Aprovado, em aparente
coordenação de esforços com a Swissport, que: (i) durante a AGC, tomou por
seus os argumentos da Azul a respeito da elaboração do Plano Aprovado (fls.
33.418), e (ii) no seu Agravo de Instrumento, registrou que a Azul teria sido
"surpreendida" pelo Plano Aprovado, tendo pleiteado um oportuno efeito
suspensivo que deu tempo à Azul para apresentar a petição ora respondida.

32. Um observador mais desconfiado poderia supor que essa inusitada


sinergia talvez se deva à proximidade comercial da Azul e da Swissport, que, até
recentemente, tinham relevante acionista em comum6. Se esta suspeita se
confirmar, temos aí um comportamento grave por parte da Swissport e da Azul,
com o potencial de gerar prejuízos indenizáveis aos credores.

ILEGITIMIDADE DA AZUL E FALTA DE INTERESSE PROCESSUAL

33. Preliminarmente, a Azul sequer poderia ter formulado os pedidos de


fls. 37.746/37.747, ante a sua total ausência de interesse processual e manifesta
ilegitimidade para tanto.

34. Como se sabe, o Código de Processo Civil ("CPC") estabelece, em


6
https://exame.abril.com.br/negocios/quem-e-o-chines-hna-group-que-comprou-23-da-azul/, acessada em
16/5/2019.

13
fls. 38128

seu art. 18, que "ninguém poderá pleitear direito alheio em nome próprio, salvo
quando autorizado pelo ordenamento jurídico". Por outro lado, a LRF estabelece,
com base seus arts. 35, I, e 53, que, a devedora tem a prerrogativa de propor um
plano de recuperação aos seus credores, de acordo com a sua viabilidade

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econômico-financeira e modelo de negócios. Um terceiro não pode interferir num

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Plano Aprovado para propor caminho alternativo, apenas porque isso o beneficia.
Neste sentido, confira-se o entendimento deste Eg. Tribunal:

"RECUPERAÇÃO JUDICIAL. Decisão que homologou plano de pagamento de


credores apresentado pela Administradora Judicial. Nulidade. Inobservância
do ordenamento legal pertinente à matéria. Isso, pois, quanto ao plano de
recuperação inicialmente apresentado pela recuperanda, foi apresentada
objeção por credor, caso em que deveria ter sido convocada AGE, nos termos
do art. 56 da LRF, o que não ocorreu.
Ademais, a decisão homologou plano de pagamento apresentado pela
Administradora Judicial, sendo que é ônus do devedor a apresentação de
plano de recuperação, conforme art. 35, I, a, da LRF e art. 53 da LRF.
Decisão anulada. Necessidade de se determinar a realização de AGE, no prazo
de 90 dias, para deliberar sobre o plano e o aditivo inicialmente apresentados
pela recuperanda. Recurso provido, com determinação.
(...) Todavia, com a devida vênia, incorreu o d. Juízo em mais uma ilegalidade,
já que a Lei 11.101/2005 é clara ao disciplinar, em diversas passagens, que
cabe ao devedor a apresentação do plano de recuperação judicial. Diante
disso, seja porque, após a apresentação de objeção apresentada pelo Banco
Itaú ao plano de recuperação judicial, inicialmente oferecido pela recuperanda,
deveria ter sido convocada Assembleia Geral de Credores para deliberação,
seja porque não cabia à Administradora Judicial apresentar plano de
pagamento de credores que foi homologado pelo juízo, o melhor é declarar a
nulidade da decisão agravada, posto que proferida com inobservância do
ordenamento jurídico."7_ 8 (g.n.)

7
TJSP. Agravo de Instrumento n.º 2140553-10.2016.8.26.0000. Des. Relator: Teixeira Leite – 1ª Câmara
Reservada de Direito Empresarial. Data de Julgamento: 3.5.2017.
8
"Conforme dispõe o art. 53 da LREF, o plano deve ser apresentado pelo devedor no prazo improrrogável de
sessenta dias da publicação da decisão que deferir o processamento da recuperação judicial. Da leitura do
referido dispositivo pode-se extrair, de imediato, duas questões para reflexão, quais sejam, a prerrogativa
conferida exclusivamente ao devedor para elaboração do plano de recuperação judicial e o exíguo prazo
concedido para sua apresentação. (...) Há quem defenda que todo este poder dado ao devedor no que diz
respeito à competência exclusiva de propositura do plano de recuperação é contrabalanceado pelo fato de serem
os credores quem votarão pela sua aprovação ou rejeição. Ou seja, em tese, a recuperanda não apresentaria um
plano que apenas a beneficiasse demasiadamente e prejudicasse a coletividade de credores pois, obviamente,
eles votariam contra a aprovação do plano, o que culminaria na decretação de sua falência.
(...) Há, ainda, a possibilidade de alteração do plano por iniciativa do devedor após a assembleia. Esta
possibilidade tem sido admitida pela jurisprudência, que, ao que parece, começa a repensá-la diante da prática
instituída e do insucesso no seu emprego em diversos casos. A pertinência do aditamento ao plano nestas

14
fls. 38129

35. A Azul enxergou esse obstáculo legal, tanto que, candidamente,


afirmou que "a aceitação pelas Devedoras para a venda da Nova UPI deve ser
presumida e, se necessário, suprida" (fls. 37.743). Sem dúvida, uma afirmação

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audaciosa, porquanto as Recuperandas continuam na administração de seu

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negócio.

36. Já a disposição de ativos de maneira antecipada, conforme requerido


pela Azul, com base no art. 113 da LRF, somente pode ser requerida em processo
de falência, pelo Administrador Judicial, que passa a administrar os bens e
direitos da massa. Daí que o art. 113 exige que eventual venda sob sua
autorização ocorra "após a arrecadação e a avaliação"9.

37. Note-se que a LRF tem capítulo próprio das "Disposições Comuns à
Recuperação Judicial e à Falência" (Capítulo II), que inclui exatamente os
dispositivos que se aplicam tanto nas recuperações judiciais quanto nas falências.
O art. 113 não está neste capítulo. Estaria, se fosse uma "disposição comum" a
ambas. Da mesma forma, a lei é expressa quando "importa" dispositivos da
falência para a recuperação judicial, como faz o art. 60, que importa
especificamente o art. 142 e o art. 141, §1o, da LRF10.

38. Isto tem uma razão de ser: são dinâmicas totalmente diferentes. O
devedor permanece na administração dos bens e direitos e atividades na
recuperação judicial, enquanto que o administrador judicial administra, sob
supervisão, a massa. A falência tem ordem determinada de pagamento de
credores, enquanto o plano de recuperação tem caráter contratual e margem muito
maior para que devedora e credores busquem a quitação de créditos. E assim por

condições deve ser muito bem analisada, pois se de um lado implica na concessão de uma chance par um possível
ajuste do plano, de outro, pode comprometer o andamento e o desfecho da recuperação judicial, abalando o
princípio da segurança jurídica e prejudicando a coletividade de credores, inserindo-a em um ambiente de
instabilidade e incertezas." (g.n.) (ELIAS, Luis Vasco (coord).). 10 anos da Lei de Recuperação de Empresas e
Falências: Reflexões sobre a Reestruturação Empresarial no Brasil – São Paulo: Quartier Latin, 2015, p. 53/61.)
9
"Art. 113. Os bens perecíveis, deterioráveis, sujeitos à considerável desvalorização ou que sejam de conservação
arriscada ou dispendiosa, poderão ser vendidos antecipadamente, após a arrecadação e a avaliação, mediante
autorização judicial, ouvidos o Comitê e o falido no prazo de 48 (quarenta e oito) horas. " (g.n.)
10
"Art. 60. Se o plano de recuperação judicial aprovado envolver alienação judicial de filiais ou de unidades
produtivas isoladas do devedor, o juiz ordenará a sua realização, observado o disposto no art. 142 desta Lei.
Parágrafo único. O objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematante nas
obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária, observado o disposto no § 1o do art. 141 desta Lei."
(g.n.)

15
fls. 38130

diante.

39. Por isso a lei foi expressa e específica quanto aos dispositivos que se
aplicam a ambas a dinâmicas, separando propositadamente os demais. Que a

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Azul está ansiosa para se apropriar dos Direitos de Pouso e Decolagem da

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Oceanair sem competição, isso não é novidade – mas daí a querer reescrever a lei
para tanto, já passa dos limites.

A RECUPERAÇÃO JUDICIAL: INTERESSE DOS CREDORES E DEVEDORA

40. Não é novidade que a recuperação judicial busca, primordialmente,


alcançar um novo negócio jurídico entre devedora e seus credores, vinculante a
todos, sob aprovação da maioria e homologação do juízo.

41. A lei estabelece regras de modo a garantir a voz e o necessário


consentimento dos credores ao plano de recuperação judicial, ainda que a vontade
de certos titulares de crédito, individualmente considerados, não prevaleça. O
voto, no contexto da Recuperação Judicial, é o sinônimo de consentimento.
Prevalecer ou ser subjugado faz parte do processo, porém participar é condição
sine qua non à legitimidade do resultado.11

42. Não por outro motivo, o art. 38 da LRF estabelece que "O voto do
credor será proporcional ao valor de seu crédito" e o art. 39, do mesmo diploma
legal, que "terão direito a voto na assembleia-geral as pessoas arroladas no
quadro-geral de credores". É o voto que legitima o resultado da deliberação a
respeito do plano de recuperação judicial. Pensar de forma distinta equivaleria a
permitir que ocorresse a novação do crédito de um credor sem o seu
consentimento; uma verdadeira expropriação de direitos.

43. Desta forma, vê-se que a tentativa da Azul de ignorar o Plano


Aprovado, resultado do exercício do voto dos credores após exaustivas

11
É o que a doutrina chama de "direito de concurso". Nesse sentido, confira-se as lições de J.X. Carvalho de
Mendonça: "Cada credito, para ser attendido na execução collectiva, tem de passar pelo cadinho da apuração,
tomando, depois de reconhecidas a sua legalidade e a sua veracidade, o devido logar na fallencia; só depois
dessa solemnidade, o respectivo titular póde exercer o direito de concurso relativamente à massa dos credores,
isto é, direito de compôr essa massa, participando nas deliberações que a lei lhe permitte e na distribuição do
producto do activo." (g.n.) (MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de Direito comercial brasileiro. Vol. VIII,
2ª ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1934. p. 98.)

16
fls. 38131

negociações em conturbada AGC, configura-se grave violação ao direito de


concurso. A Azul busca que esse Juízo, em uma penada, altere o resultado de uma
deliberação de credores que envolveu intensa negociação e ponderação de
interesses, apenas porque lhe é conveniente (de maneira exclusiva, diga-se de

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passagem). A Azul chega ao cúmulo de sugerir, como alternativa, caso seja

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confirmada a homologação do Plano Aprovado, que esse MM. Juízo promova a
comparação entre os resultados do leilão feito com base em tal plano e do certame
realizado conforme seus pedidos, "para o fim de declarar vencedora a proposta
que, além de resultar em maior benefício econômico para devedoras e os
credores, possua maior chance de implementação" (fls. 37.743).

44. Ao que se vê, a Azul ignora a natureza coletiva do ato de aprovação


do plano de recuperação judicial, e apresenta, sem qualquer representatividade ou
legitimidade para tanto, um pedido de substituição de um plano de recuperação
judicial já aprovado pelos respectivos credores, com o claro objetivo de atender
seu desejo de adquirir os ativos que quer, ao preço que quer e da forma que quer
– e sem que ninguém a ameace. Uma ousada aventura jurídica.

PRECLUSÃO LÓGICA E
USURPAÇÃO DA COMPETÊNCIA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

45. O instituto da preclusão visa a resguardar a marcha processual, de


modo a evitar que se retorne a discussões no processo que o tornem circular e
infindável. Uma das modalidades da preclusão é a "preclusão lógica", que é
definida pela doutrina do seguinte modo:

"A preclusão lógica consiste na perda de faculdade/ poder processual em


razão da prática anterior de ato incompatível com o exercício desse poder.
Advém, assim, da prática de ato incompatível com o exercício da faculdade/
poder processual. Trata-se da "impossibilidade em que se encontra a parte de
praticar determinado ato ou postular certa providência judicial em razão da
incompatibilidade existente entre aquilo que agora a parte pretende e sua
própria conduta processual anterior" (Silva, Ovídio Baptista da. Curso de
Processo civil. 5ª ed. São Paulo: RT, 2000, v.1, p.209).
Importante que se perceba que a preclusão lógica está intimamente ligada à
vedação do venire contra factum proprium (regra que proíbe o
comportamento contraditório), inerente à cláusula geral de proteção da boa-

17
fls. 38132

fé. Considera-se ilícito o comportamento contraditório por ofender o princípio


da boa-fé processual.
Ao adotar um comportamento que contrarie comportamento anterior, a parte
ou o juiz atua de forma desleal, frustrando expectativas legítimas de outros

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sujeitos processuais. Comportando-se em um sentido, o sujeito cria, em outro
sujeito processual, fundada confiança – confiança essa que a ser averiguada

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segundo as circunstâncias, os usos aceitos pelo comércio jurídico, a boa-fé ou
o fim econômico-social -, não podendo, depois, adotar um comportamento
totalmente contraditório, o que quebra a confiança gerada e revela ardil,
deslealdade, evasão. Trata-se de lição velha, embora aplicada, aqui, com
outros termos. (...) A preclusão lógica, então, é a consequência da prática do
primeiro ato, que é lícito, e não do contraditório, que é ilícito." (g.n.)12_13

46. No caso concreto, o plano de recuperação judicial de que trata o


art. 53 da LRF já fora apresentado nos autos pelas Recuperandas, levado à
votação em AGC, devidamente homologado em primeira instância e, atualmente,
encontra-se sub judice perante o e. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. O
processo, portanto, caminhou para frente, seguindo a marcha processual ditada
pela LRF.

47. Ocorre que, conforme anunciado na primeira página de sua


manifestação, a Azul busca "autorização judicial determinando a oportuna
realização de processo competitivo para alienação judicial de nova unidade
produtiva isolada ("Nova UPI"), constituída por 100% das ações da sociedade
de propósito específico ("SPE Nova UPI"), que deverá ser titular de
determinados ativos e direitos das Devedoras listados no Anexo I" (fls. 37.731).
Dentre tais "ativos e direitos", a Azul lista em seu Anexo I grande parte dos
Direitos de Pouso e Decolagem que comporiam as 6 das 7 UPIs previstas no Plano
Aprovado, à exceção de poucas rotas que não lhe interessam – e que, inclusive,
deixadas para trás, a Azul não explica como seriam mantidas pela Oceanair.

48. Ao que se vê, a medida perseguida pela Azul conflita com os atos
processuais que resultaram no Plano Aprovado, um contrato já estabelecido entre

12
Didier Jr., Freddie. Curso de Direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e
processo de conhecimento / Freddie Didier Jr. -18.ed. – Salvador: Ed. Jus Podivm, 2016, pp. 430/431.
13
"Na preclusão lógica, o impedimento de realização de ato processual advém da necessidade realização de ato
anterior incompatível logicamente com aquele que se pretende realizar. Exemplo clássico dessa espécie de
preclusão é a aquiescência prevista no art. 1000 do Novo CPC, que extingue o direito da parte de recorrer quando
pratica ato de concordância." (Neves, Daniel Amorim Assumpção. Manual de Direito processual civil – Volume
único / Daniel Amorim Assumpção Neves -8. Ed. – Salvador: Ed.JusProd, 2016. Pg. 364.) grifos nossos.

18
fls. 38133

Recuperandas e credores, enquanto pende análise da decisão homologatória pelo


e. TJSP. Portanto, qualquer cogitação das partes legítimas (sejam as
Recuperandas, sejam os credores) em embarcar nesta caçada ao ouro-de-tolo
estaria prejudicada pelo fenômeno da preclusão lógica, em decorrência de tudo

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que já foi feito pelas Recuperandas e credores neste processo, que resultou no

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Plano Aprovado.

49. Deve-se, ainda, observar que a Azul busca reeditar o seu Plano Azul,
por meio de um maroto pedido formulado nos autos, aproveitando-se da oportuna
suspensão provisória dos efeitos do Plano Aprovado, que pode ser revertida a
qualquer momento; seja por revogação pelo próprio relator, seja em decorrência
do julgamento do Agravo Interno interposto contra ela, ou mesmo pelo
julgamento do mérito do Agravo.

50. Ademais, o "Novo Plano" da Azul nada tem de inovador. E parte da


mesmíssima estrutura jurídica que está sub judice e cuja legalidade foi o
fundamento para a suspensão do leilão: a venda de uma UPI que contém Direitos
de Pouso e Decolagem pertencentes à Oceanair.

51. Portanto, a Azul busca provimentos que têm o condão de


invariavelmente violar frontalmente a própria essência do efeito suspensivo
concedido pelo Tribunal de Justiça, além de causar enorme tumulto processual,
na medida em que duas rotas absolutamente conflitantes entre si conviverão
simultaneamente – sendo que a segunda estará apenas recomeçando um ciclo de
impugnações e suspensões (com reabertura de prazo para recursos, nova
oportunidade para pedidos de efeito suspensivo etc.) pela qual a primeira rota já
passou nas últimas várias semanas.

52. Assim, neste momento, a competência indelegável para decidir sobre


a legalidade do Plano Aprovado é do Tribunal de Justiça e, até que a corte se
pronuncie, qualquer tipo de iniciativa baseada nos pedidos formulados pela Azul
importaria em manifesto desafio à competência do Tribunal de Justiça14 para

14
Neste sentido, confira-se a jurisprudência desse e. Tribunal de Justiça: "RECLAMAÇÃO Decisão que antecipou
o efeito atribuído ao recurso de apelação Competência do Tribunal Cabimento da reclamação Juízo de
admissibilidade que compete a esta E. Corte - Procedência: O juízo de admissibilidade recursal é competência
do Juízo “ad quem”, de modo que ao ser feita pelo Juízo de primeiro grau resulta na usurpação da competência,
permitindo assim o ajuizamento da reclamação. RECLAMAÇÃO PROCEDENTE. AGRAVO REGIMENTAL

19
fls. 38134

direcionar o processo de recuperação judicial, diante das atuais circunstâncias.

O PLANO APROVADO DEVE PREVALECER

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(a) Falso Óbice Regulatório

53. Argumenta a Azul que o Plano Aprovado estaria eivado de vícios,


"inclusive em decorrência de questões operacionais, regulatórias e
concorrenciais já manifestadas pela ANAC e pelo CADE antes mesmo da
realização da AGC" (fls. 37.733). Em suporte ao seu argumento, a Azul apresenta
a Nota Técnica Nº. 4/2019/DEE/CADE ("Nota CADE"), bem como faz menção
a determinada manifestação da ANAC.

54. Ocorre que, como se passa a demonstrar, tais "óbices" são, na


verdade, uma cortina de fumaça que é lançada pela Azul para, em uma só tacada,
impugnar o Plano Aprovado e esconder o total direcionamento e falta de
competitividade do leilão que propõe.

55. Em primeiro lugar, o Plano Aprovado prevê, em sua Cláusula 5.28.2


(viii) e (ix) , que a aprovação, pelos órgãos reguladores, da transferência das
15

UPIs arrematadas pelo vencedor do leilão é condição suspensiva do fechamento!


Ou seja, em qualquer hipótese, está preservada a competência regulatória do
CADE e da ANAC para efetivar o resultado do leilão.

56. Por outro lado, a ANAC jamais alegou a impossibilidade de


execução do Plano. A ANAC apenas fez alguns apontamentos, que, contudo,
entendeu serem superáveis. Neste sentido, ao manifestar-se sobre o Plano

REJEITADO" (Reclamação nº. 2209476-20.2018.8.26.0000, Des. Rel. Nelson Jorge Junior, 13ª Câmara de Direito
Privado, TJSP, j. 26.4.2019)
15
"5.28.2.Caso não sejam integralmente cumpridas as condições suspensivas listadas abaixo, a venda de
qualquer das UPIs não será concluída, não sendo devido o pagamento do respectivo preço de aquisição, e nem
emitida a correspondente carta de arrematação ao vencedor do respectivo Leilão, ou transferidas transferência
das ações de emissão da respectiva SPE UPI nos respectivos Livros de Transferência de Ações Nominativas,
estarão sujeitas ao, bem como o integral cumprimento das seguintes condições suspensivas, sem prejuízo de
outras condições suspensivas previstas no Contrato de Compra e Venda. O Vencedor do Leilão se vinculará às
condições suspensivas aqui estabelecidas que serão consideradas como obrigações assumidas pelo vencedor do
respectivo Leilão, com relação à relativa a cada UPI para a qual tenha sagrando-se vencedor: (..)
(viii) aprovação da aquisição da respectiva UPI, ou bloco de UPIs, pelo CADE, se aplicável;
(ix) aprovação da aquisição pela ANAC da respectiva UPI ou bloco de UPI, se aplicável;"

20
fls. 38135

Aprovado, ressalvou expressamente que as suas considerações "não configuram


impedimentos à aprovação do plano de recuperação judicial apresentado pela
recuperanda, apresentando-se, no entanto, como desafios, que, entre outros,
devem ser superados pelas partes envolvidas para o sucesso do plano aprovado

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1125658-81.2018.8.26.0100 e código 6F61EE9.
em assembleia."(fls. 34.828 e ss). Mais ainda: em entrevista concedida à

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Bloomberg, o próprio presidente da ANAC, Sr. Ricardo Botelho, manifestou o
entendimento da agência sobre a legalidade do Plano Aprovado, tendo afirmado
o seguinte:

"Um leilão de ativos da Oceanair Linhas Aéreas, incluindo os direitos de


decolagem e aterrissagem em aeroportos, é uma maneira legalmente
válida de transferir a propriedade da companhia aérea em questão, disse
o presidente da agência de aviação civil do Brasil (Anac), Ricardo
Botelho. O leilão, que estava marcado para esta terça-feira, está em
conformidade com a lei e forneceria uma solução de mercado para a
companhia aérea, disse Botelho."16

57. Adicionalmente, a Nota Técnica CADE nada acrescenta ao debate.


Além de ser um parecer prévio, não vinculante, em sua conclusão tal documento
afirma que "a solução que gera menor preocupação do ponto de vista
concorrencial para a concretização do plano seria um novo entrante assumir a
operação das UPIs, já que em tal hipótese, não haveria mudança do nível de
concentração do setor" (fls. 37.778).

58. Com relação a Gol e Latam, apenas se afirmou que a aquisição das
UPIs por essas companhias causaria "preocupações concorrenciais (…) mais
elevadas". Em nenhum momento se falou que tal aquisição seria inviável – até
mesmo porque ninguém tem bola de cristal – nem os credores, nem as
Recuperandas, nem as concorrentes, nem a ANAC – ninguém sabe quais UPIs
seriam efetivamente adquiridas por quem. Esta é a beleza de um processo
efetivamente competitivo.

59. O CADE também demonstrou preocupação com relação à aquisição


das UPIs pela Azul, e ainda asseverou que "é necessária uma análise
concorrencial profunda para uma conclusão sobre essa operação" (fls. 37.778).
Ou seja: qualquer compra feita por companhias aéreas nacionais atrai a atenção

<16 https://exame.abril.com.br/negocios/anac-nao-tem-objecao-a-leilao-de-ativos-da-avianca-brasil/>, acessado


em 17.5.2019.

21
fls. 38136

do CADE, que deverá fazer uma "análise concorrencial profunda" quando instado
a tanto – precisamente o que está previsto no Plano Aprovado.

(b) Processo Efetivamente Competitivo

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1125658-81.2018.8.26.0100 e código 6F61EE9.
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60. A Azul argumenta que o fatiamento dos Direitos de Pouso e
Decolagem nas 6 (seis) UPIs desenhadas no Plano Aprovado teria ocorrido pois
"Gol e Latam não desejam qualquer concorrência na ponte aérea Rio de Janeiro-
São Paulo" (fls. 37.735). Descreve, ainda, diversos outros motivos pelos quais se
tornaria inviável a arrematação de apenas algumas UPIs. Afirma que, por conta
disso, somente Gol e Latam se cadastraram para participar do leilão que ocorreria
no dia 7.5.2019.

61. Impressiona até que ponto a Azul está disposta a ir para afastar a
competição pelos ativos da Oceanair. Além de tentar reescrever a LRF, além de
desrespeitar a vontade soberana dos credores, além de tentar interferir num
contrato entre as partes (o Plano Aprovado), além de afrontar a competência do
e. Tribunal, chega ao ponto de tentar ludibriar o Juízo. A Latam e a Gol não eram
as únicas habilitadas, como alega desavergonhadamente: a própria Azul também
o era.

62. O Plano Aprovado pré-habilitava todas as três concorrentes


nacionais para participarem do leilão. Na Cláusula 5.21.1 do Plano Aprovado,
vê-se que a Azul encontrava-se pré-cadastrada para participar do leilão, tal
como Gol e Latam, em igualdade de condições. Então, é uma tentativa de
embuste dizer que somente Gol e Latam se habilitaram. Tudo tem um limite, e a
Azul claramente cruza esse limite com este tipo de comportamento.

63. Todas (Azul, Gol e Latam) tinham plena liberdade para apresentarem
lances por qualquer uma das UPIs. O leilão decorreria por meio de lances orais,
de modo que qualquer um dos participantes poderia cobrir os lances dos outros,
de forma transparente e competitiva. A Azul poderia ter arrematado todas as UPIs,
se quisesse!

64. Também é fraco o argumento da Azul de que o Plano Aprovado lhe


imporia uma "Barreira Econômico-Financeira" (fls. 37.735). Neste ponto, a Azul
aduz que "do exame do Acordo Elliott-Gol (…) e Acordo Elliott-Latam (…),

22
fls. 38137

infere-se que Elliott, Gol e Latam contrataram a divisão de parte dos recursos
distribuíveis ao Elliott nos termos do Plano Aprovado" (fls. 37.776). Para
arrematar, a Azul argumenta que tais acordos fazem com que a Gol e Latam
tenham uma "vantagem competitiva", já que nenhuma "empresa minimamente

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séria se dispõe a participar de um processo competitivo para aquisição de um

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determinado ativo pelo qual parte do seu preço é destinado a financiar os seus
concorrentes diretos no próprio processo competitivo".

65. Este argumento não faz o menor sentido. Francamente, leia-se e


releia-se o que a Azul escreveu e dificilmente se encontrará um mínimo de lógica
nesta ginástica argumentativa.

66. Sobre a irresignação da Azul quanto ao Acordo Gol ou o Acordo


Latam, diga-se que o produto auferido com os lances apresentados no leilão será
distribuído de forma pro rata aos credores, na forma prevista no Plano Aprovado
e, nesse contexto, as Requerentes podem fazer o que bem entenderem com a sua
parte. Conforme claramente divulgado nos documentos acostados aos autos, as
Requerentes, como forma de atrair Gol e Latam para um processo competitivo
em que as Requerentes têm o maior interesse, e também em contrapartida aos
diversos compromissos assumidos pela Gol e Latam, tiveram que se comprometer
também a dividir parte do que recebessem com Latam e Gol.

67. Ou seja, um gesto de sacrifício parcial do próprio crédito que as


Requerentes foram obrigadas a fazer para viabilizar e estimular a participação no
leilão de Latam e Gol em benefício de todos os credores concursais. Os demais
credores das Recuperandas foram beneficiados pela elevação de preços que a
competição fomentada pelas Requerentes, apesar de não fazerem o mesmo
sacrifício. Porém, sendo as Requerentes as maiores interessadas, ainda assim este
gesto fazia sentido.

68. De igual forma, a Azul esquece de mencionar que foram as


Requerentes que viabilizaram a participação de Gol e Latam no leilão,
aumentaram a competitividade e, por consequência, a recuperação dos credores.
Neste ponto, é oportuno transcrever trecho da decisão desse Juízo, que
homologou o Plano Aprovado:

"Desnecessário seria dizer, visto que declarado nos fatos relevantes

23
fls. 38138

publicados pela GOL e LATAM, que foram justamente as maiores


credoras da recuperanda que, a despeito do acordo anterior celebrado
entre esta e a Azul, envidaram esforços para a entrada das outras
companhias aéreas na disputa pelos ativos constitutivos da UPI Life,

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movimento que redundou (…) com a divisão da citada UPI em 7 partes e
garantia de lances por duas UPIs com valor somado superior à proposta

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inicial feita pela AZUL pelo todo (US$140.000.000,00 contra
US$105.000.000,00)."

69. E, nessa segunda tentativa de adquirir os ativos da Oceanair, a Azul


continua querendo pagar menos do que o preço mínimo estabelecido no Plano
Aprovado. Conforme será mais detalhado no capítulo a seguir, ela oferece apenas
US$145 milhões pela UPI Direcionada, valor significativamente inferior ao preço
mínimo de US$210 milhões estabelecido no Plano Aprovado e superior em
irrisórios US$5 milhões aos compromissos já assumidos por Gol e Latam.
Acredita que US$5 milhões para serem divididos por todos os credores seriam
suficientes para os credores embarcarem na arriscadíssima e ilegal "canoa furada"
para a qual, ousada e irresponsavelmente, convida a todos. Não surpreende, pois
o benefício é seu, mas o risco é todo dos credores.

70. Os fatos não mentem. O que a Azul realmente quer é comprar todos
os ativos da Oceanair que lhe interessam por um preço mais baixo do que teria
que pagar em um leilão efetivamente competitivo, como previsto no Plano
Aprovado. Quer pagar menos para levar mais, e sem risco. Tudo isso, à custa de
colocar os credores em riscos inaceitáveis. É por isso, que, além de reunir todos
os Direitos de Pouso e Decolagem para serem vendidos em uma única UPI,
possivelmente apostando nas dificuldades que outros potenciais concorrentes
teriam para obter as aprovações de autoridades concorrenciais (CADE), quer
também emplacar sugestão de propostas fechadas, ao invés de lances orais:
porque, em tal modalidade não seria possível cobrirem seu lance. Ou até já
presume – com razão – que o único lance seria o seu.

71. E mais: a Azul pede que o leilão no formato por ela proposto seja
realizado urgentemente, já amanhã, no dia 20 de maio. Curiosamente, dois dias
antes de expirar o prazo para o Congresso Nacional apreciar a conversão em lei
da Medida Provisória nº. 863/2018, que permite a participação de até 100% de
capital estrangeiro em companhias aéreas nacionais. Seria isso porque, com a

24
fls. 38139

conversão em lei da referida medida provisória, aumentariam as chances de haver


competidores estrangeiros interessados, e, portanto, o risco de a Azul não se
sagrar vencedora?

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(c) Preço Mínimo

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72. Apesar de bradar que o "valor mínimo para aquisição da Nova UPI
(US$145 milhões) é muito superior aos valores atribuídos às UPIs isoladas
previstas no Plano Aprovado" (fls. 37.742), a Azul engana-se na aritmética ou
falta com a verdade. Tanto que se contradiz ao afirmar às fls. 37.741 que somente
um investidor insensato gastaria uma "fortuna" para "competir nas rotas
operadas pelas Devedoras, especialmente na Ponte Aérea Rio-São Paulo".
Trocando em miúdos, a Azul sabe que poderia ter que desembolsar muito mais
do que os US$145 milhões se quisesse competir e arrematar todas as UPIs.

73. Em outras palavras, Exa., o inacreditável argumento da Azul é que


aquele leilão tinha potencial de tornar o ativo "muito caro" para ela. Sob pena de
falar-se o óbvio: a ideia é exatamente esta – maximizar o valor de alienação dos
ativos, tornando a aquisição o mais cara possível para as licitantes!

74. Sobre o valor mínimo, um esclarecimento aritmético: existe um


compromisso de Gol e Latam de oferecerem lances mínimos de US$70 milhões
por cada uma das UPIs A e B – o que resulta em um valor mínimo comprometido
de US$140 milhões. Além disso, as UPIs C, D e E serão vendidas em bloco, com
um lance mínimo inicial também de US$70 milhões. Adicionalmente, ainda
existem as UPIs F e G, que contêm Direitos de Pouso e Decolagem e o Programa
Amigo de milhagem, respectivamente, – totalizando um valor mínimo que
esperava-se superar os US$210 milhões.

75. O oferecimento de US$145 milhões pela Azul é apenas uma tentativa


de ludibriar esse Juízo e os credores. Os US$5 milhões supostamente adicionais
foram calculados sob medida para enganar desavisados que imaginam que o
preço mínimo do leilão previsto no Plano Aprovado seria somente de US$140
milhões. Havia muito mais valor a ser recuperado em favor dos credores e das
Recuperandas com o leilão das UPIs da maneira disposta no Plano Aprovado,
sem as ilegalidades, as armadilhas e os inaceitáveis riscos para os credores que a
proposta da Azul carrega.

25
fls. 38140

76. Por outro lado, não há qualquer menção na petição da Azul a respeito
de limitação de financiamentos DIP. Ou seja, aquilo que chama de preço mínimo
a ser pago pode, na verdade, jamais chegar ao bolso dos credores das

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Recuperandas, na medida em que tais financiamentos seriam usados como

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"moeda" no pagamento do preço de compra da UPI (e.g., o dinheiro só começa a
ser usado para pagamento dos credores concursais após a quitação dos
empréstimos DIP). Não por acaso, o Plano Aprovado limita os valores dos
empréstimos DIP que podem ser utilizados de tal forma para garantir que parte
relevante do preço pago pelos vencedores dos leilões será efetivamente utilizado
para pagar os credores concursais.

77. Por fim, esse valor mínimo de US$145 milhões também revela que
a competição nestes casos é sempre salutar. Se Gol e Latam não tivessem sido
trazidas pelas Requerentes, o Plano Azul provavelmente teria sido aprovado, e a
Azul estaria levando para si a totalidade das atividades das Recuperandas pela
bagatela de US$105 milhões, os quais provavelmente seriam integralmente
consumidos para pagamento de empréstimos DIP que poderiam ter sido
fornecidos pela própria Azul após assegurar a compra dos ativos no "leilão", mas
antes do fechamento da operação.

UMA PERSPECTIVA SOBRE AS REAIS INTENÇÕES DOS ENVOLVIDOS

78. Sustenta a Azul que "o Plano Aprovado é uma aposta calculada de
Elliott, Gol e Latam para protegerem os próprios interesses em detrimento de
todos os demais envolvidos e interessados na Recuperação Judicial das
Devedoras, inclusive e notadamente em caso de falência das Devedoras, cujo
cenário é bastante plausível diante das circunstâncias" (fls. 37.739).

79. Apesar da retórica, foi da Azul a proposta que:

(a) estruturava a UPI de forma que apenas ela poderia adquiri-la;

(b) continha compromisso – posteriormente não honrado – de concessão


de financiamentos de até US$40 milhões;

26
fls. 38141

(c) previa direito de preferência para igualar qualquer proposta


apresentada por terceiros;

(d) previa imposição de multa de 15% do valor do lance vencedor caso

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terceiros arrematassem a UPI;

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(e) previa multa adicional de 10% do valor do lance vencedor se os
empréstimos concedidos pela Azul não fossem imediatamente
quitados;

(f) impunha às Recuperandas obrigação de exclusividade que as proibia


de solicitar, iniciar, considerar, encorajar, negociar, aceitar
manifestação de interesse – dentre inúmeras outras condutas que,
para viabilizar qualquer competição mínima para venda de ativos,
seriam obviamente necessárias; e

(g) aproveita-se de conveniente suspensão do leilão para tumultuar o


andamento processual e, visando única e exclusivamente seus
próprios interesses, traz de volta das cinzas seu mesmo plano, mais
uma vez, em formato em que apenas ela conseguiria efetivamente
arrematar os ativos em razão das barreiras concorrenciais criadas em
sua estrutura.

80. Assim, pergunta-se: quem parece querer expor os credores ao risco


de quebra da Recuperanda em prol de seus próprios interesses? Aquele que impõe
a ela as condições acima descritas ou aqueles que defendem um plano de
recuperação judicial pautado pelo tratamento igualitário e sem privilégios a quem
quer que seja, para viabilizar uma real disputa por ativos e maximização dos
recursos arrecadados? Francamente.

81. A realidade é que o Plano Aprovado foi estruturado justamente para


evitar a falência da Oceanair, que se aproximava naquele momento – inclusive
pela falta de disponibilização de recursos pela Azul – permitir a continuidade de
suas atividades e, ainda, maximizar o valor de seus ativos. Basta ler-se a
Cláusula 4.2 do Plano Aprovado para se concluir que, por exigência das
Requerentes, a Gol e Latam assumiram o compromisso – já cumprido – de
emprestar, primeiramente, US$26 milhões para garantir a operação das

27
fls. 38142

Recuperandas até a data do leilão (que seria realizado em 7.5.2019).

82. Além de estruturar o Plano Aprovado, justamente para prever os


empréstimos acima mencionados, a Manchester ainda emprestou US$5 milhões

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à Oceanair no dia 25.3.2019.

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83. Assim, as acusações da Azul são torpes – e próprias de alguém
frustrado com seu próprio fracasso.

BREVES COMENTÁRIOS FINAIS SOBRE OS PEDIDOS ILEGAIS

84. Por fim, analisa-se brevemente o alegado fundamento legal dos


pedidos formulados pela Azul. Em primeiro lugar, a Azul suscita o disposto no
art. 66 da LRF, para dizer que a venda de ativos poderia ocorrer no curso de uma
Recuperação Judicial.

85. Ocorre que tal dispositivo legal não se presta à promoção de venda
de "atividade empresarial" na forma de UPI. Com efeito, o procedimento de
alienação de UPIs deve se dar na forma prevista no art. 60 da LRF, ou seja, quando
e conforme previsto expressamente em um plano de recuperação judicial. Nesse
sentido, confira-se:

"RECUPERAÇÃO JUDICIAL. Decisão que declara a nulidade de cláusula do


plano de recuperação que possibilita a alienação de unidades produtivas
isoladas. Cláusula válida. Ausência de óbice à alienação das unidades
produtivas isoladas, desde que observada a forma e o procedimento previstos
em lei. Inteligência dos artigos 60 e 142 da Lei nº 11.101/2005. Medida que, a
rigor, poderá auxiliar o soerguimento da recuperanda. Recurso provido.
Em relação aos bens do ativo permanente que venham a se tornar inservíveis
ou desnecessários, nada a reparar, na medida em que a decisão simplesmente
estabelece que deverá ser observado o teor da norma insculpida no art. 66 da
LRF. Por outro lado, no tocante à alienação das Unidades Produtivas Isoladas
com fundamento na cláusula 5.1, não vejo qualquer óbice à sua realização. O
art. 60 da Lei nº 11.101/2005 contempla a possibilidade de venda de “filiais ou
unidades produtivas isoladas do devedor”. O dispositivo preconiza, ainda, que
deve ser observado o disposto no art. 142 do mesmo diploma. A venda é feita
mediante licitação, ou leilão, mas sob controle judicial. (...) Preservado o
entendimento do Juízo de primeiro grau, não há que se falar em invalidade da
cláusula 5.1 do plano de recuperação aprovado pela comunidade de credores.
É possível a alienação de Unidades Produtivas Isoladas, inclusive como medida

28
fls. 38143

de auxílio ao soerguimento da recuperanda, a fim de dar concretude ao


princípio da preservação da empresa. Apenas ressalvo que a forma e os
procedimentos da alienação (artigos 60 e 142 da LRF) são de ordem pública,
de tal modo o seu afastamento convencional será nulo e impugnável por
credores, ou mesmo reconhecido ex officio pelo Juiz." (g.n.) 17_18

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86. Por outro lado, a Azul baseia seus pleitos no art. 113 da LRF, que
dita que "os bens perecíveis, deterioráveis, sujeitos à considerável
desvalorização ou que sejam de conservação arriscada ou dispendiosa, poderão
ser vendidos antecipadamente, após a arrecadação e a avaliação, mediante
autorização judicial, ouvidos o Comitê e o falido no prazo de 48 (quarenta e oito)
horas". Contudo, como já se abordou acima e como se verifica do seu teor, tal
dispositivo legal somente é aplicável no caso de falência. Não por outra razão que
ele determina que a venda somente poderá ser feita "após a arrecadação"19.

87. A este respeito, para evitar repetições, as Requerentes fazem


referência ao arguido acima, no tópico que trata da ilegitimidade da Azul,
parágrafos 33 a 39, a respeito da pertinência do Art. 113 da LRF apenas em
processos de falência.

88. Por fim, o caos e a urgência arguidos pela Azul também não
impressionam. Ora, não há qualquer risco que seria mitigado caso a venda
ocorresse na forma proposta pela Azul – pelo contrário, os riscos já existentes
seriam apenas aumentados, com a criação de um processo paralelo e a reabertura
17
TJSP. Agravo de Instrumento n.º 2079780-96.2016.8.26.0000. Des. Rel. Francisco Loureiro – 1ª Câmara
Reservada de Direito Empresarial. Data de julgamento: 5/6/2016.
18
"Uma das inovações mais importantes da Lei atual é a de desonerar de todos e quaisquer ônus e obrigações a
alienação de filiais ou unidades produtivas do devedor no processo de falência ou de recuperação. A sucessão
das obrigações trabalhistas e, sobretudo, das tributárias, no sistema anterior, inviabilizava a manutenção da
unidade produtiva (da empresa) viável nas mãos de terceiro, em detrimento do interesse dos trabalhadores e
credores (inclusive o próprio fisco) do devedor anterior. (...) Para evitar fraudes, porém, a alienação deve estar
prevista no plano de recuperação e ser realizada nos termos dos arts. 141 e 142." (g.n.) (Munhoz, Eduardo
Secchi in Comentários à Lei de recuperação de empresas e falência: Lei 11.101/2005/ coordenação Francisco
Satiro de Souza Junior, Antônio Sérgio A. de Moraes Pitombo. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2007,
p. 297)
19
Confira-se o entendimento da melhor doutrina, que corrobora o que ora se sustenta:
"Se o bem arrecadado é perecível, deteriorável, sujeito a considerável desvalorização ou não se podem conservar
sem risco ou dispêndio, autoriza a lei que se proceda à venda antecipada. Ao contrário da lei anterior, cujo art.
73 definia que a venda antecipada se faria em leilão, a atual não traz nenhuma regra acerca do procedimento a
observar. Em decorrência, deve-se considerar que o juiz é livre para definir o mais adequado, podendo se inspirar
nos relativos à venda sumária (art. 111) ou ordinária (art. 142) ou mesmo determinar qualquer outro
procedimento que julgue atender convenientemente os objetivos do processo falimentar." (g.n.) (COELHO, Fábio
Ulhoa. Comentários à lei de falências e de recuperação de empresas – 11 ed. rev., atual. e ampl. – São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2016)

29
fls. 38144

de um ciclo de impugnações, recursos e suspensões já trilhado pelo processo


aprovado pelos credores (conforme arguido em mais detalhes acima, parágrafos
50 a 52).

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89. Se por um lado há esses riscos inaceitáveis para os credores, por

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outro a Oceanair já não mais opera grande parte de seus Direitos de Pouso e
Decolagem, de modo que, havendo vontade administrativa ou judicial, a
integridade dos Direitos de Pouso e Decolagem pode ser mantida pelo curto prazo
necessário a que o e. Tribunal manifeste-se, em julgamento do Agravo Interno
mencionado acima, a respeito da suspensão da homologação do Plano Aprovado
e, consequentemente, do legítimo leilão previsto no Plano Aprovado – o que,
segundo consta, ocorrerá na próxima sessão da câmara competente, no dia
10/6/2019.

CONCLUSÃO

90. Pelo exposto, as Requerentes confiam em que V. Exa. indeferirá os


pedidos formulados pela Azul às fls. 37.746/37.747, requerendo que V.Exa. não
tome qualquer medida que seja conflitante com o Plano Aprovado, até mesmo em
vista da proximidade da decisão do e. Tribunal, em Agravo de Interno, a respeito
da manutenção, ou não, da suspensão liminar do leilão previsto no Plano
Aprovado.

Termos em que,
pedem juntada.

São Paulo, 19 de maio de 2019.

Gustavo Mota Guedes Eduardo Augusto Mattar


OAB/RJ 95.346 OAB/SP 183.356

Bruno Lardosa Guilherme Vaz Leal da Costa


OAB/RJ 107.633 OAB/RJ 158.892

Renata Machado Velloso Isabela Azevedo Amorim


OAB/SP 192.300 OAB/RJ 215.046

30