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Supremo Tribunal Federal

Ementa e Acórdão

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12/05/2015 PRIMEIRA TURMA

EXTRADIÇÃO 1.370 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. LUIZ FUX


REQTE.(S) : GOVERNO DA FRANÇA
EXTDO.(A/S) : IBRAHIM OUAMARI OU OUAMARI IBRAHIM
PROC.(A/S)(ES) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL FEDERAL

EMENTA: DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO. EXTRADIÇÃO


EXECUTÓRIA. GOVERNO DA FRANÇA. TRATADO ESPECÍFICO. TRÁFICO DE
ENTORPECENTES. CRIME TIPIFICADO NA LEGISLAÇÃO FRANCESA. IDÊNTICA
PREVISÃO NO ART. 33 DA LEI N. 11.343/2006. DUPLA TIPICIDADE.
INDICAÇÃO DE LOCAL, DATA E CIRCUNSTÂNCIAS DO TRÁFICO DE
ENTORPECENTES DO BRASIL PARA A FRANÇA. AUSÊNCIA DE PRESCRIÇÃO.
CONDENAÇÃO NO BRASIL POR TRÁFICO DE DROGAS PRATICADO EM DATA E
CIRCUNSTÂNCIAS DISTINTAS. ÓBICE DO ART. 77, INC. V, DA LEI N.
6.815/1980. INEXISTÊNCIA. CONVENÇÃO ÚNICA DE NOVA YORK SOBRE
ENTORPECENTES. COMPETÊNCIA CONCORRENTE. ENTREGA DO
EXTRADITANDO A CRITÉRIO DO GOVERNO BRASILEIRO (ART. 89 C/C ART. 67
DO ESTATUTO DO ESTRANGEIRO). DETRAÇÃO DO TEMPO DE
CUMPRIMENTO DE PRISÃO PREVENTIVA NO BRASIL. EXTRADIÇÃO
DEFERIDA.
1. A extradição requer o preenchimento dos requisitos legais
extraídos a contrario sensu do art. 77 da Lei nº 6.815/80, bem assim que
sejam observadas as disposições contidas em tratado específico.
2. Premissas fáticas:
(i) o extraditando foi condenado pela Justiça francesa, em 08/07/2013,
à pena de 7 (sete) anos de reclusão, por crimes de tráfico de
entorpecentes entre o Brasil, a Bélgica e a França praticados entre
27/10/2010 a 26/10/2011;
(ii) ficou detido provisoriamente na França entre 21/04/2013 e
06/05/2013;
(iii) está sendo requerido para cumprir a pena remanescente de 6
(seis) anos, 11 (onze) meses e 14 (quatorze dias); e
(iv) posteriormente, foi condenado no Brasil, em 26/02/2014, à pena

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de 5 (cinco) anos e 10 meses de reclusão, por fatos praticados em


06/08/2013, e aguarda o julgamento do recurso de apelação.
3. Os autos estão instruídos com informações seguras a respeito de
locais, datas, natureza e circunstâncias dos fatos delituosos, identidade do
extraditando e textos legais referentes aos crimes, penas e prazos
prescricionais, de acordo com as exigências contidas no art. 80 da Lei n.
6.815/80.
4. O crime de tráfico de entorpecentes descrito na legislação francesa
tem correspondente no artigo 33 da Lei n. 11.343/2006, estando satisfeito o
requisito da dupla tipicidade.
5. A prescrição da pretensão executória não ocorreu em face da
legislação de ambos os países.
6. Os princípios da nacionalidade e da extraterritorialidade
constituem critérios de definição de competência, por isso que compete à
Justiça francesa julgar seu cidadão por fatos delituosos praticados dentro
e fora de seu território.
7. A causa impeditiva da extradição aventada pela defesa, prevista
no art. 77, inc. V, da Lei n. 6.815/80, não incide na hipótese sub examine,
uma vez que o crime de tráfico de entorpecentes, pelo qual o extraditando
restou condenado no Brasil, foi praticado no dia 06/08/2013, ao passo que
os crimes semelhantes que resultaram sentença condenatória na França
ocorreram entre 27/10/2010 e 26/10/2011, portanto em circunstâncias de
tempo, modo e lugar distintos, por isso que, ainda que se considere o
concurso de jurisdições, em razão dos locais em que praticados os delitos
(do Brasil até a Bélgica e Pecquencfourt – França, conforme descrito na
sentença estrangeira), nada impede o deferimento da extradição, a fortiori
se o extraditando não foi processado no Brasil pelos mesmos fatos (cf. Ext
1329, Rel. Min. Teori Zavascki, 2ª Turma, DJe de 17/11/2014, e Ext 1151,
Rel. Min. Celso de Mello, Pleno, DJe de 19/05/2011), valendo enfatizar, a
propósito, que “A Convenção Única de Nova York sobre Entorpecentes
(1961), incorporada ao sistema de direito positivo interno do Brasil (Decreto nº
54.216/64), atribui competência internacional concorrente aos Estados
nacionais em cujo território houver sido praticado qualquer dos fatos delituosos

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a que alude mencionada Convenção, o que legitima a formulação de pleito


extradicional por parte de Estado que figure como porto de destino das
substâncias entorpecentes e drogas afins objeto de operações criminosas, ainda
que realizadas estas em territórios de outros países” (Ext 1151, Rel. Min. Celso
de Mello, Pleno, DJe de 19/05/2011).
8. A condenação no Brasil, por fatos distintos daqueles pelos quais o
extraditando restou condenado na França, apenas condiciona sua entrega
ao país requerente para após o cumprimento da pena, ressalvada a
hipótese do artigo 67 da Lei n. 6.815/80, que faculta sua entrega, por
decisão do Presidente da República, “Desde que conveniente ao interesse
nacional”.
9. O Estado requerente deverá detrair da pena o tempo de prisão
preventiva cumprido no território brasileiro para fins de extradição (Ext
1211/REPÚBLICA PORTUGUESA, rel. Min. Ellen Gracie, Pleno, DJ de
24/3/2011; Ext 1214/EUA, rel. Min. Ellen Gracie, Pleno, DJ 6/5/2011; Ext
1226/Reino da Espanha, rel. Min. Ellen Gracie, Segunda Turma, DJ de
1/9/2011), bem como observar as demais restrições do artigo 91 do
Estatuto do Estrangeiro, no que for aplicável ao caso.
10. Pedido de extradição deferido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da


Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sob a Presidência da
Senhora Ministra Rosa Weber, na conformidade da ata de julgamento e
das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, em deferir o pedido
de extradição, nos termos do voto do Relator.
Brasília, 12 de maio de 2015.
LUIZ FUX – Relator
Documento assinado digitalmente

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EXTRADIÇÃO 1.370 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. LUIZ FUX


REQTE.(S) : GOVERNO DA FRANÇA
EXTDO.(A/S) : IBRAHIM OUAMARI OU OUAMARI IBRAHIM
PROC.(A/S)(ES) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL FEDERAL

RE LAT Ó RI O

O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX (RELATOR): Trata-se de pedido de


extradição executória formalizado pelo Governo da França, com base em
Tratado específico, em face de IBRAHIM OUAMARI, nascido aos 8 de
junho de 1990, na cidade de Ouida (Marrocos), a fim de cumprir pena
remanescente de 6 (seis) anos, 11 (onze) meses e 14 (quatorze) dias de
prisão1, decorrente da sentença proferida pelo Tribunal de Douai que o
condenou à pena 7 (sete) anos de prisão pela prática do crime de tráfico
de entorpecentes.

A Nota Verbal da Embaixada da França veio instruída com o


mandado de detenção expedido pelo Tribunal de Grande Instância de
Douai (fls. 5/6/), a sentença condenatória proferida pelo Tribunal de
Relação de Douai (fls. 10/63) e os textos legais referentes aos crimes e aos
prazos prescricionais devidamente traduzidos para o vernáculo (fls.
64/71).

Os fatos, as datas e as circunstâncias dos crimes encontram-se


descritos no resumo da sentença condenatória acostado às fls. 7/9, in
verbis:
II – Os fatos
Data dos fatos: 27 de outubro de 2010 até 26 de outubro de 2011

1 A detração foi ressalvada pelo Estado requerente, in verbis: “No âmbito do processo
que deu lugar à condenação, OUAMARI Ibrahim foi detido provisoriamente em França
entre 21 de abril de 2013 até ao 6 de maio de 2013, de tal modo que a pena remanescente a
cumprir é de 6 anos, 11 meses e 14 dias”.

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Relatório

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Local dos fatos: do Brasil até à Bélgica e em Pecquencourt


(França)
Grau de participação: autor do crime de tráfico de
estupefacientes / entorpecentes (cocaína)

Exposição dos fatos: O inquérito permitiu determinar


formalmente o envolvimento de OUAMARI Ibrahim na qualidade de
organizador de primeiro grau da totalidade das viagens para o Brasil
destinadas à importação de quantidades importantes de cocaína, a sua
presença estando apurada nesse país desde 2009, e em várias ocasiões
a seguir até ao final do ano de 2011. Ficou apurado que este organizou
as viagens garantindo a contratação de futuras ‘mulas’, o pagamento
de bilhetes de avião, o fornecimento de telemóveis com cartões
brasileiros, e que ele próprio se encarregou, no Brasil, dos contatos
com revendedores brasileiros de cocaína, e da gestão do
acondicionamento das mercadorias dentro das bagagens dos
passadores de droga. OUAMARI Ibrahim foi formalmente
identificado nas fotografias apresentadas por uma grande maioria
desses passadores, junto aos quais ele se apresentava com alcunhas
sempre diferentes. A materialidade dos seus contatos no local foi
apurada através da videovigilância.”
III – os crimes qualificados
Os fatos acima descritos constituem os seguintes crimes:
- Importações não autorizadas de estupefacientes /
entorpecentes (cocaína), artigo 222-3 alínea 1 e 4, artigo 222-41,
artigo 222-44, artigo 222-45, artigo 222-47, artigo 222-48, artigo
222-49, artigo 222-50, e artigo 222-51 do Código Penal, artigo
L5132-7, artigo R5132-8 alínea 1, artigo R132-74, artigo R 5132-77,
artigo R 5132-78 do Código de Saúde Pública, artigo 1 da Portaria
Ministerial de 22 de fevereiro de 1990.
- Transporte não autorizado de estupefacientes (cocaína),
artigo 222-37 alínea 1, artigo 222-41, artigo 222-44, artigo 222-45,
artigo 222-47, artigo 222-48, artigo 222-49, artigo 222-50, e artigo
222-51 do Código Penal, artigo L 132-8 alínea 1, artigo R132-74, e
artigo R132-77 do Código de Saúde Pública, artigo 1 da Portarial
Ministerial de 22 de fevereiro de 1990.

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- Posse não autorizada de estupefacientes (cocaína) artigo


222-37 alínea 1, artigo 222-41, artigo 222-44, artigo 222-45, artigo
222-47, artigo 222-48, artigo 222-49, artigo 222-50, e artigo 222-51
do Código Penal, artigo L5132-7, artigo L5132-8 alínea 1, artigo
R5132-74, e artigo R5132-77 do Código de Saúde Pública, artigo 1 da
Portaria Ministerial de 22 de fevereiro de 1990.
- Proposta ou venda não autorizada de estupefacientes
(cocaína) artigo 222-37 alínea 1, artigo 222-41, artigo 222-44, artigo
222-45, artigo 222-47, artigo 222-48, artigo 222-49, artigo 222-50, e
artigo 222-51 do Código Penal, artigo L5132-7, artigo L5132-8 alínea
1, artigo R5132-74, e artigo R5132-77 do Código de Saúde Pública,
artigo 1 da Portaria Ministerial de 22 de fevereiro de 1990.
- Compra não autorizada estupefacientes (cocaína), artigo
222-37 alínea 1, artigo 222-41, artigo 222-44, artigo 222-45, artigo
222-47, artigo 222-48, artigo 222-49, artigo 222-50, e artigo 222-51
do Código Penal, artigo L5132-7, artigo L5132-8 alínea 1, artigo
R5132-74, e artigo R5132-77 do Código de Saúde Pública, artigo 1 da
Portaria Ministerial de 22 de fevereiro de 1990.

A prisão preventiva foi decretada em 08/10/2012 e efetivada no dia


10 do mesmo mês e ano (fls. 112/113 e 119/120).

O extraditando foi interrogado, em 24/10/2014, oportunidade em que


admitiu a veracidade dos fatos a ele imputados e se manifestou no
sentido de cumprir a pena no Brasil, vislumbrando dificuldade de
ressocialização na França em razão de conhecer pessoas que cumprem
pena naquele país por tráfico de entorpecentes.

A Defensoria Pública da União sustenta, em síntese, que “(i) as


condutas a ele imputadas foram aqui praticadas, o que obsta o pedido do estado
requerente, a teor do art. 77, inciso III, da Lei nº 6.815/80 2, e da Convenção

2 Art. 77. Não se concederá extradição quando: (Renumerado pela Lei nº 6.964, de
09/12/81)

III – o Brasil for competente, segundo suas leis, para julgar o crime imputado ao

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contra o Tráfico Ilícitos de entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas, que


estabelece, em seu artigo 4º, parágrafo 1, alínea ‘i’, que cada parte adotará as
medidas que forem necessárias para declarar-se competente quando o delito for
cometido em seu território; e (ii) responde a processo no Brasil pela prática de
crime de tráfico de entorpecentes e que, apesar de a data do fato ser 6/8/2013, sua
pena foi agravada em razão de reincidência atestada pelas folhas 393 a 395 dos
autos da ação penal, as quais provavelmente podem se referir às mesmas condutas
que agora ensejam o seu pedido extradicional, incidindo o óbice do art. 77, inciso,
da Lei nº 6.815/803

Requer o indeferimento do pedido de extradição ou,


subsidiariamente, caso seja deferida a extradição, que se observem as
restrições arroladas no artigo 91 e incisos da Lei nº 6.8154.

O Ministério Público Federal opinou pelo deferimento do pedido


“sem prejuízo da observância dos artigos 89 e 67 da Lei 6.815/80 5, tendo em vista

extraditando;
3 Art. 77. Não se concederá a extradição quando: (Renumerado pela Lei nº 6.964, de
09/12/81)
V – o extraditando estiver a responder a processo ou já houver sido condenado ou
absolvido no Brasil pelo mesmo fato em que se fundar o pedido;
4 Art. 91. Não será efetivada a entrega sem que o Estado requerente assuma o
compromisso:
I – de não ser o extraditando preso nem processado por fatos anteriores ao pedido.
II – de computar o tempo de prisão que, no Brasil, foi imposta por força da extradição;
III – de comutar em pena privativa de liberdade a perna corporal ou de morte, ressalvados,
quanto à última, os casos em que a lei brasileira permitir a sua aplicação;
IV – de não ser o extraditando entregue, sem consentimento do Brasil, a outro Estado que o
reclame; e
V – de não considerar qualquer motivo político para agravar a pena.
5 Art. 89. Quando o extraditando estiver sendo processado, ou tiver sido condenado,
no Brasil, por crime punível com pena privativa de liberdade, a extradição será executada
somente depois da conclusão do processo ou do cumprimento da pena, ressalvado,
entretanto, o disposto no art. 67.
Art. 67. Desde que conveniente ao interesse nacional, a expulsão do estrangeiro poderá

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que há ação penal em trâmite na Justiça brasileira” (o extraditando foi


condenado pela 17ª Vara Federal da Seção Judiciária de Salvador à pena
de 5 anos e 6 meses de reclusão pelo crime previsto no art. 33, caput, c/c
art. 40, I, da Lei n. 11.343/2006 e aguarda julgamento da apelação).

É o relatório.

efetivar-se, ainda que haja processo ou tenha ocorrido a condenação.

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Voto - MIN. LUIZ FUX

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EXTRADIÇÃO 1.370 DISTRITO FEDERAL

VOTO

O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX (RELATOR): A extradição requer o


preenchimento dos requisitos extraídos a contrario sensu do art. 77 da Lei
nº 6.815/80, e restarem observadas as disposições do tratado específico.

In casu, (i) o extraditando foi condenado pela Justiça francesa, em


08/07/2013, à pena de 7 (sete) anos de reclusão, por crimes de tráfico de
entorpecentes entre o Brasil, a Bélgica e a França praticados entre
27/10/2010 a 26/10/2011; (ii) ficou detido provisoriamente na França entre
21/04/2013 e 06/05/2013; (iii) está sendo requerido para cumprir a pena
remanescente de 6 (seis) anos, 11 (onze) meses e 14 (quatorze dias); (iv) e
posteriormente, foi condenado no Brasil, em 26/02/2014, à pena de 5
(cinco) anos e 10 meses de reclusão, por fatos praticados em 06/08/2013,
aguardando o julgamento do recurso de apelação.

Os autos estão instruídos com informações seguras a respeito de


locais, datas, natureza e circunstâncias dos fatos delituosos, identidade do
extraditando e textos legais referentes aos crimes, penas e prazos
prescricionais, de acordo com as exigências contidas no art. 80 da Lei n.
6.815/80.

O crime de tráfico de entorpecentes descrito na legislação francesa


tem correspondente no artigo 33 da Lei n. 11.343/2006, estando satisfeito o
requisito da dupla tipicidade.

A prescrição da pretensão executória não ocorreu em face da


legislação de ambos os países.

Os princípios da nacionalidade e da extraterritorialidade constituem

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Voto - MIN. LUIZ FUX

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critérios de definição de competência, por isso que compete à Justiça


francesa julgar seu cidadão por fatos delituosos praticados dentro e fora
de seu território.

A causa impeditiva da extradição aventada pela defesa, prevista no


art. 77, inc. V, da Lei n. 6.815/80, não incide na hipótese sub examine, posto
que o crime de tráfico de entorpecentes, pelo qual o extraditando restou
condenado no Brasil, foi praticado no dia 06/08/2013, ao passo que os
crimes semelhantes que resultaram sentença condenatória na França
ocorreram entre 27/10/2010 e 26/10/2011, portanto em circunstâncias de
tempo, modo e lugar distintos, por isso que, ainda que se considere o
concurso de jurisdições, em razão dos locais em que praticados os delitos
(do Brasil até a Bélgica e Pecquencfourt – França, conforme descrito na
sentença estrangeira), nada impede o deferimento da extradição, a fortiori
se o extraditando não foi processado no Brasil pelos mesmos fatos (cf. Ext
1329, Rel. Min. Teori Zavascki, 2ª Turma, DJe de 17/11/2014, e Ext 1151,
Rel. Min. Celso de Mello, Pleno, DJe de 19/05/2011), valendo enfatizar, a
propósito, que “A Convenção Única de Nova York sobre Entorpecentes
(1961), incorporada ao sistema de direito positivo interno do Brasil (Decreto nº
54.216/64), atribui competência internacional concorrente aos Estados
nacionais em cujo território houver sido praticado qualquer dos fatos delituosos
a que alude mencionada Convenção, o que legitima a formulação de pleito
extradicional por parte de Estado que figure como porto de destino das
substâncias entorpecentes e drogas afins objeto de operações criminosas, ainda
que realizadas estas em territórios de outros países” (Ext 1151, Rel. Min. Celso
de Mello, Pleno, DJe de 19/05/2011).

A condenação no Brasil, por fatos distintos daqueles pelos quais o


extraditando restou condenado na França, apenas condiciona sua entrega
ao país requerente para após o cumprimento da pena, ressalvada a
hipótese do artigo 67 da Lei n. 6.815/80, que faculta a entrega, por decisão
do Presidente da República, “Desde que conveniente ao interesse nacional”.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 8524224.
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Voto - MIN. LUIZ FUX

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Voto no sentido do deferimento do pedido de Extradição, devendo o


Estado requerente detrair da pena o tempo de prisão preventiva
cumprido no território brasileiro para fins de extradição (Ext
1211/REPÚBLICA PORTUGUESA, rel. Min. Ellen Gracie, Pleno, DJ de
24/3/2011; Ext 1214/EUA, rel. Min. Ellen Gracie, Pleno, DJ 6/5/2011; Ext
1226/Reino da Espanha, rel. Min. Ellen Gracie, Segunda Turma, DJ de
1/9/2011), bem como observar as demais restrições do artigo 91 do
Estatuto do Estrangeiro1, no que for aplicável ao caso.

1 Art. 91. Não será efetivada a entrega sem que o Estado requerente assuma o
compromisso:
I – de não ser o extraditando preso nem processado por fatos anteriores ao pedido;
II – de computar o tempo de prisão que, no Brasil, foi imposta por força da extradição;
III – de comutar em pena privativa de liberdade a pena corporal ou de morte, ressalvados,
quanto à última, os casos em que a lei brasileira permitir a sua aplicação;
IV – de não ser o extraditando entregue, sem consentimento do Brasil, a outro Estado que o
reclame; e
V – de não considerar qualquer motivo político para agravar a pena.

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 8524224.
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Voto - MIN. ROBERTO BARROSO

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EXTRADIÇÃO 1.370 DISTRITO FEDERAL

VOTO
O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO - Presidente,
eu igualmente defiro.
O extraditando, pelo que entendi, também responde a processo no
Brasil. De modo que estamos deferindo, observado o art. 89 da Lei
6.815/1980.
Nessa linha, acompanho o Relator para deferir a extradição,
observado o artigo 89 da Lei 6.815/1980.
************

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Extrato de Ata - 12/05/2015

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PRIMEIRA TURMA
EXTRATO DE ATA

EXTRADIÇÃO 1.370
PROCED. : DISTRITO FEDERAL
RELATOR : MIN. LUIZ FUX
REQTE.(S) : GOVERNO DA FRANÇA
EXTDO.(A/S) : IBRAHIM OUAMARI OU OUAMARI IBRAHIM
PROC.(A/S)(ES) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL FEDERAL

Decisão: A Turma deferiu o pedido de extradição, nos termos do


voto do Relator. Unânime. Presidência da Senhora Ministra Rosa
Weber. 1ª Turma, 12.5.2015.

Presidência da Senhora Ministra Rosa Weber. Presentes à Sessão


os Senhores Ministros Marco Aurélio, Luiz Fux e Roberto Barroso.

Subprocurador-Geral da República, Dr. Edson Oliveira de


Almeida.

Carmen Lilian Oliveira de Souza


Secretária da Primeira Turma

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