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GEOGRAFIAS

& POÉTICAS
DA FRONTEIRA
LEITURAS DO TERRITÓRIO

COORDENAÇÃO DE
CRISTINA ROBALO-CORDEIRO
RUI JACINTO
39
IBEROGRAFIAS
Coordenação:
Cristina Robalo-Cordeiro
Rui Jacinto

IBEROGRAFIAS

39
Coleção Iberografias
Volume 39

Título: Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território


Coordenação: Cristina Robalo-Cordeiro; Rui Jacinto
Apoio à edição: Ana Margarida Proença
Autores: Adriana Dorfman; Alfredo Cunha; Álvaro Domingues; Anselmo Borges; Carlos Fiolhais; Catarina Reis de Oliveira;
Cristina Robalo Cordeiro; Danielle Jacon Ayres Pinto; Dirce Maria Antunes Suertegaray; Duarte Belo; Elias J. Torres Feijó; Emílio
J. Zeca; Fernando Jose Ludwig; Frédéric Durand; Jacques Lévy; Jadson Luís Rebelo Porto; José Maria Semedo; Lúcio Cunha;
Maria Raquel Freire; Pedro de Pezarat Correia; Pedro Salvado; Regina Coeli Machado e Silva; Rogério Haesbaert; Rui Jacinto;
Valentín Cabero ; Vanda Amaro Dias

Textos de: Almeida Faria; Ana Paula Tavares; António Lobo Antunes; António Pintado; Bento da Cruz; Carlos Alberto Marques;
Eça de Queirós; Eduardo Barrenechea; Eduardo Lourenço; Fernando Namora; Jorge Dias; José Saramago; Julieta Monginho;
Luís F. Lindley Cintra; Manuel Alegre; Manuel António Pina; Miguel Torga; Nuno de Montemor; Orlando Ribeiro; Pierre Birot;
Teolinda Gersão; Teresa Salema; Virgílio Taborda

Pré-impressão: Âncora Editora

Capa: Sofia Travassos


Fotografia: Duarte Belo

Impressão e acabamento: Europress – Indústria Gráfica, Lda.

1.ª edição: dezembro 2020


Depósito legal n.º 478307/20

ISBN: 978 972 780 749 9


ISBN: 978 989 8676 25 2

Edição n.º 41039

Centro de Estudos Ibéricos


Rua Soeiro Viegas n.º 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

Âncora Editora
Avenida Infante Santo, 52 – 3.º Esq.
1350-179 Lisboa
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O Centro de Estudos Ibéricos respeita os originais dos textos, não se responsabilizando pelos conteúdos, forma e opiniões neles expressas.
A opção ou não pelas regras do novo acordo ortográfico é da responsabilidade dos autores

Apoios:
LeiTuras do TerriTório
Cristina Robalo-Cordeiro; Rui Jacinto 9

o MuNdo: aQuÉM e aLÉM-FroNTeiras


Alfredo Cunha 21

GeoGraFias da FroNTeira: PeNsar os LiMiTes e seus Novos coNTorNos

FroNTeiras e ouTros LiMiTes: o TeMPo, o esPaço e o Modo


Penser les limites de nos limites 35
Jacques Lévy
desterritorialização e limites territoriais: reflexões numa perspectiva latino-americana 53
Rogério Haesbaert
a Natureza das fronteiras e as fronteiras da Natureza 71
Lúcio Cunha
os limites da cidade & outras fronteiras 83
Álvaro Domingues
La vieja frontera ante los nuevos desafíos de la cooperación territorial: 91
la demanda de un futuro de esperanza para la raya ibérica
Valentín Cabero; Rui Jacinto

FroNTeiras d'aQuÉM e aLÉM iBÉria: MeMórias, vivÊNcias, iMaGiNÁrios


(TraNs)FroNTeiriços
Fragmentos de uma raia inacabada: narrativas dum certo imaginário Beirão 133
Pedro Salvado; Rui Jacinto
cabo verde: o mar (azul) fronteira (líquida) da insularidade 199
José Maria Semedo
Fronteiras coloniais portuguesas em África: 211
História, conflitos e cooperação no caso de Moçambique
Emílio J. Zeca

Timor, géohistoire des frontières stratifiées 235


Frédéric Durand

Minhas memórias sobre as fronteiras amazônicas: entre andanças e reflexões 251


Jadson Luís Rebelo Porto
representações e vivência (trans)fronteiriças: Quaraí, uma geografia vivida 257
Dirce Maria Antunes Suertegaray
controle das fronteiras e inventividade local em Foz do iguaçu (Br) e ciudad del este (PY) 284
e Puerto iguazu (ar) em tempos de pandemia
Adriana Dorfman; Regina Coeli Machado e Silva

as FroNTeiras e o FuTuro: Novos LiMiTes, ouTros coNTorNos do MuNdo


Fronteiras. uma abordagem geopolítica e geoestratégica 287
Pedro de Pezarat Correia
as fronteiras e a cibersegurança:desafios e prospecções contemporâneas 295
Danielle Jacon Ayres Pinto; Fernando Jose Ludwig
Fronteiras e proteção internacional: Portugal no contexto europeu 305
Catarina Reis de Oliveira
a securitização das fronteiras externas da ue: rumo à militarização 341
da europa fortaleza?
Maria Raquel Freire; Vanda Amaro Dias

as FroNTeiras do saBer
a Literatura e as suas fronteiras 361
Cristina Robalo-Cordeiro
Muitas fronteiras 363
Anselmo Borges
Fronteira, fronteiro: Transgressão e Depende para ler o território 367
Elias J. Torres Feijó
Fronteiras da ciência 373
Carlos Fiolhais

PoÉTicas da FroNTeira: iMaGiNÁrio, viaGeM, TerriTório


Fotografia: Duarte Belo

iMaGiNÁrio da FroNTeira
Jogos de fronteira, jogos de memória 381
Eduardo Lourenço
Paris não rima com meu país 384
Manuel Alegre
conhecimento do inferno 385
António Lobo Antunes
um muro no meio do caminho 387
Julieta Monginho
a varanda era a nossa fronteira 390
Ana Paula Tavares
uma vida de aventuras 391
Manuel António Pina
Benamonte 393
Teresa Salema
venhatten 396
Almeida Faria
a Árvore das Palavras 397
Teolinda Gersão

GeoGraFia LiTerÁria: viagens na nossa terra


a cidade e as serras 403
Eça de Queirós
o sermão aos peixes 408
José Saramago
Fronteira 410
Miguel Torga
ao longo da fronteira 414
Bento da Cruz
oito séculos de altiva solidão 418
Eduardo Lourenço
o sr. Guerra, natural de cidadelhe 420
Eduardo Lourenço
Maria Mim 424
Nuno de Montemor
a Noite e a Madrugada 437
Fernando Namora

LiTeraTura GeoGrÁFica: Territórios e temas da fronteira

Fronteira, elemento geográfico 441


Virgílio Taborda
Fronteira 446
Pierre Birot
Limites romanos e fronteira de Portugal 448
Orlando Ribeiro
rio de onor. raízes históricas 452
Jorge Dias
Notícias sobre Quadrazais colhidas na Torre do Tombo 456
Nuno de Montemor
a fronteira e a língua 464
Orlando Ribeiro
a Jíria Quadrazenha 468
Nuno de Montemor
a linguagem dos foros de castelo rodrigo 473
Luís F. Lindley Cintra

o contrabandista de ribacôa 481


Carlos Alberto Marques
a “defesa da fronteira” 488
António Pintado; Eduardo Barrenechea
Leituras do Território

Cristina Robalo-Cordeiro
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra/Plano Nacional de Leitura,
PNL2027 Ler+ Ciência

Rui Jacinto
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

Reduzir a vida cultural de um país às atividades e às obras da capital e defini-la apenas


pela produção intelectual, são dois erros prejudiciais e comuns, que ignoram – e negam – a
existência do território na sua fecundidade e na sua diversidade. Se tudo o que fizemos e tudo
o que nos fez não está contido nas nossas fronteiras atuais, o território nacional pode ser lido
como um grande livro no qual cada cidadão acrescentou, e continuará a acrescentar, segundo
o seu talento próprio, uma linha ou uma página inteira.
É preciso aprender a ler esse património vivo, fornecido pela natureza, mas conquistado
por mão humana. E haverá tantas leituras quantos os aspetos locais que descobriremos, dos
9 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

mais profundamente inscritos na geografia e na história, aos que nos oferecem a mudança dos
costumes, a evolução dos valores, a inovação tecnológica e digital e a investigação científica.
Assim, as descrições clássicas deixadas pelos nossos escritores, de Almeida Garrett a Miguel
Torga e José Saramago, ou pelos nossos geógrafos, de Amorim Girão a Orlando Ribeiro –
em múltiplos quadros e tão diversas interpretações – devem ser completadas, retificadas e
enriquecidas, por novas evocações e avaliações que a vida atual e múltipla do país suscita.
As ações destinadas a valorizar o património e a dar a ler e a amar o território aos nos-
sos concidadãos inserem-se de forma natural no PNL2027 Ler+ Ciência, que ambiciona
mobilizar o conjunto dos portugueses, na sua distribuição espacial tanto quanto na sua estra-
tificação socioprofissional, visando uma estratégia nacional de elevação dos níveis de literacia.
Apelando a uma participação alargada e ativa, este projeto vê o território como uma
Escola aberta a todos, e em todos procurará estimular a curiosidade histórica, o gosto
pela Literatura, pelas Artes e pela Ciência. Reforçando a ligação às comunidades locais,
através da mobilização de meios literários e científicos, em múltiplas e diversificadas
iniciativas, o projeto Leituras do Território inscreve-se na dinâmica de um conhecimento
para todos.

Colocar esta edição do Projeto Leituras do Território sob o signo da Fronteira é acrescentar-
-lhe novos sentidos. Intimamente ligada à noção de território, como elemento de delimita-
ção e separação, a fronteira representa muito mais do que uma mera divisão e unificação
de pontos diversos, determinando a área territorial precisa de um país, a sua base física,
geográfica e política (uma “linha” entre estados).
Inseparável de uma problemática identitária, o conceito de fronteira ocupa hoje um
campo metafórico mais amplo, deslocando-se do seu sentido óbvio para acolher tudo o que
às comunidades humanas diz respeito, dos problemas sociais – de cooperação ou conflito, de
isolamento ou de integração – às questões do pensamento e do espírito – percorrendo diver-
sos domínios do saber e formas de criatividade – e, no limite, à própria definição de poder.
Constituindo uma espécie de segurança contra o que vem de fora, a fronteira torna-se
para alguns uma proteção face ao inimigo, à barbárie. Quem defende uma visão progres-
siva, otimista do desenvolvimento histórico não pode senão ficar chocado pelas ruidosas
declarações de um presidente americano, pretensamente “leader do mundo livre”, apre-
sentando-se como construtor de muros em nome da proteção dos interesses nacionais dos
EUA: «Eu vou construir um grande muro, e ninguém constrói muros melhor do que eu,
acreditem. E vou construí-lo sem gastar. Vou construir um muro na nossa fronteira no Sul
e farei o México pagar por ele.” E acrescentava, no seu discurso de posse, a 20 de janeiro
de 2017, que a América começará de novo a ganhar, como nunca antes, recuperando
10 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

empregos, riqueza, sonhos e…fronteiras!


A verdade é que a fronteira, separação física, jurídica ou moral, permanece uma das
grandes tentações dos Estados e dos espíritos. A delimitação do meu e do teu representa, se-
gundo Jean-Jacques Rousseau, o ato inaugural da sociedade: «Le premier qui ayant enclos
un terrain s’avisa de dire : Ceci est à moi, et trouva des gens assez simples pour le croire,
fut le vrai fondateur de la société civile», afirma no seu Discours sur l’Inégalité. O aspeto
primitivo deste ato de limitar faz assim aparecer a vontade política de estabelecer ou de
reforçar as fronteiras como um verdadeiro “retorno do recalcado”: as fronteiras seriam, em
termos psicanalíticos, o recalcado do inconsciente coletivo.
Mas o inconsciente individual não é menos protecionista e a expressão corrente de “zona
de conforto” – zona significando cintura – traduz esta necessidade infantil de segurança, tal-
vez longínquo eco da gruta pré-histórica, que dobra o ser sobre si próprio, impedindo-o de
descobrir o mundo e a sua identidade própria. A este propósito, escreve Mia Couto:

“Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de
que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda
tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me
aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu territó-
rio. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha
casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu
mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo
me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más
propriamente ditas” 1.

O medo de se aventurar fora de casa ou do círculo familiar tem a sua expressão religio-
sa. Assim, o termo árabe “hubud” faz da travessia da fronteira invisível uma transgressão,
mas só passando além dela aquele que escolheu a liberdade pode cumprir o seu destino.
E, com efeito, que fronteira mais imaterial e permeável do que a que separa o reino dos
vivos do dos mortos, como o mostrou em mil exemplos o antropólogo James Frazer no seu
célebre livro The Fear of the Dead?
Mas o mundo foi pondo em causa a fronteira, promovendo a sua abertura e a livre
circulação – dos seres (de pessoas, de bens) e das ideias –, aceitando o desconhecido e o
novo, e estimulando a curiosidade e a partilha. Ao abolir as fronteiras do saber, acolhemos
a interdisciplinaridade como princípio ordenador do conhecimento, ao relativizar as fron-
teiras políticas, desenhamos um novo mapa do mundo, ao recusar os quadros da História,
contamos uma outra narrativa da vida do homem, das civilizações e das culturas.
Em tempos de globalização e na linha do pensamento de Fernando Pessoa, o outramento
11 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

– Clarice Lispector diria “eu poder ser tu sem deixar de ser eu” – ajuda-nos a pensar as
convergências e as dissonâncias e a refletir sobre as novas identidades e as novas utopias.
O diálogo intercultural traz assim o Outro para o lado de cá da fronteira (real ou imaginária)
que dele nos separava.
Assim, como qualquer noção complexa, a ideia de fronteira apresenta-se ambivalente: su-
gerindo ao mesmo tempo o corte e a costura, o isolamento e a comunicação, o controle e a
passagem, ela é mais rica do que o conceito unívoco de limite. Há uma dialética da fronteira,
1
Mia Couto, Murar o medo. Intervenção nas Conferências do Estoril, feita em novembro de 2011, onde se
debateram os desafios da globalização.
como acaba de nos recordar a recente resposta dos governos à propagação do novo coronavírus:
a mobilidade, tornada negativa, e o controle, tornado positivo, trocam assim os seus valores.
Se há uma longa história das fronteiras, inseparável da dos primeiros reinos – e da ins-
tituição da propriedade coletiva – , podemos remontar muito mais longe, até ao Genesis
(3, 24) e à expulsão de Adão e Eva do Paraíso para encontrar uma espécie de arquétipo das
imagens contidas na ideia de fronteira, colocando Deus a leste do jardim de Éden, para defen-
der a sua entrada, um Anjo armado com uma espada flamejante… A palavra “transgressão”,
carregada de conteúdo teológico, atesta a primitividade da noção de passagem proibida.
A antropologia forneceria só por si matéria suficiente para uma reflexão sobre a frontei-
ra. A noção de território, tão presente hoje nas ciências sociais, e a de fonteira são natural-
mente e fortemente correlatas. E já Ferdinand de Saussure havia mostrado a importância
do tema para a geografia linguística. As línguas, como as culturas de que são insepará-
veis, não são respeitadoras das delimitações políticas estabelecidas e, como o mostraram
as correntes irredentistas na História, serviram, e podem ainda servir, para justificar as
anexações territoriais mais contrárias ao direito internacional, tão certo é que um território
não é inteiramente redutível a um espaço nem as fronteiras a demarcações materiais. É por
isso que existem leituras – e não uma leitura única – do território!
12 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território
introdução

A presente edição, que decorre da consciência de estarmos perante uma problemática


ampla e diversa e de as fronteiras assumirem agora novas qualidades, propõe-se revisitar
este tema tão multifacetado a partir de uma dupla perspetiva:
– a de um conjunto de ensaios críticos que sobre ele procuram refletir, aprofundando
algumas vertentes atuais deste debate;
– a dos textos da literatura e da geografia que tratam da fronteira. A Raia Central
Ibérica merece aqui um particular destaque.

I. Geografias da fronteira: pensar os limites e seus novos contornos

A fronteira sempre captou a atenção da Geografia, sobretudo quando começou a


emparceirar com as demais ciências, em meados do século xix, pelas repercussões que
a sua presença induz em termos sociais, económicos, culturais e políticos, bem como
pelos consequentes efeitos na organização do espaço. As diferentes definições que
foram surgindo ao longo do tempo mostram-nos que estamos perante um conceito
mutante e bem mais abrangente do que o que foi expresso por Jacques Ancel para
quem “as fronteiras são isóbaras políticas, ou seja, linhas permanentes de tensão entre
dois campos de força” 1. Raffestin, décadas mais tarde, em Autour de la fonction sociale
de la frontière, dá-lhe outra amplitude ao sustentar que a fronteira é “um invariante
bio-social” por estar presente em todas as organizações humanas, onde desempenha
quatro funções importantes (tradução, regulação, diferenciação e relação) que consi-
dera essenciais por nos preservarem do caos. A fronteira, deste ponto de vista, (i) não
é natural, mas uma construção social que resulta de uma vontade, de um ato de poder,
(ii) é sempre ambivalente, “pois favorece e restringe ao mesmo tempo”, (iii) é na fé
13 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

acompanhada por um ritual de “passagem e transgressão”, e (iv) influencia as relações

1
Friedrich Ratzel, para quem “a fronteira é constituída pelos inumeráveis pontos sobre os quais um
movimento orgânico é obrigado a parar” (Anthropogéographie, 1882-91; La géographie politique, 1897),
colocou a discussão num patamar que outros autores retomariam em obras específicas, como Géographie
des frontières, publicada por Jacques Ancel (1938), seguida de outra editada posteriormente, com o mesmo
título, por Paul Guichonnet e Claude Raffestin (1974). Raffestin abordaria o tema, novamente, em Autour
de la fonction sociale de la frontière (Espaces et sociétés, n° 70-71, 1992) e em Por uma geografia do poder
(1993). Michel Foucher, outro autor de referência, declinaria a fronteira em sucessivos títulos, durante mais
de três décadas, bem elucidativos das metamorfoses que conheceu no passado mais recente: L’invention des
frontières (1986), Fronts et frontières. Un tour du monde géopolitique (1988), L’obsession des frontières (2007)
e Le retour des frontières (2016).
que os homens desenvolvem com o meio envolvente e com outros grupos. As frontei-
ras, por tudo isto, “condicionam a territorialidade humana”.
Para Michel Foucher “a fronteira é uma descontinuidade geopolítica, com funções
de delimitação real, simbólica e imaginária”, alertando-nos para o facto de “que as fron-
teiras são difíceis de morrer e que, com a queda do Muro de Berlim, se multiplicaram
simultaneamente com a criação de novos Estados «soberanos». Lembra ainda que as
fronteiras têm três funções principais: legal (com a justiça do país e a legislação nacio-
nal); controle (com a polícia e a noção de “nacionalidade”); fiscal (com a alfândega).
Quatro fenómenos devem ser claramente distinguidos: a permanência dos contenciosos
territoriais clássicos; a criação de novas fronteiras entre Estados; a proliferação de re-
gulamentações fronteiriças; fenómenos de endurecimento, isto é, a transformação de
limites em estremas lineares. As explicações de Foucher convidam-nos a relativizar o
apagamento das fronteiras que a globalização do capitalismo tem vindo a favorecer:
“o que vale para uma transferência financeira que ocorre imediatamente não é verdade
para o transporte de um contentor que não escapa à lentidão da viagem de carga e às
esperas nas alfândegas portuárias”2. Chama ainda a atenção, em Actualité et permanence
des frontières (2010), para o facto de existirem, então, 18.000 quilómetros de muros ou
barreiras, que representam 3% do comprimento total das fronteiras terrestres, extensão
que, aliás e daí para cá, não tem parado de aumentar.
Decorre deste breve apontamento a multiplicidade de abordagens e de pontos
de vista suscitadas pelas fronteiras, tanto as externas quanto as internas, como ficará
bem espelhado nos vários ensaios que dão corpo à primeira parte desta obra. Quatro
coordenadas, representativas de outros tantos tópicos de leitura, organizam uma te-
mática ampla e abrangente: (i) as fronteiras e outros limites: o tempo, o espaço, o
modo; (ii) as fronteiras d’aquém e além Ibéria (das próximas às mais longínquas, das
antigas às mais modernas): memórias, vivências, imaginários (trans)fronteiriços; (iii)
as fronteiras e o futuro: novos limites, outros contornos do mundo; finalmente, (iv)
as fronteiras do saber.
14 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

II. Poéticas da fronteira: imaginário, viagem, territórios

A introdução à leitura deste tema e da Raia Central Ibérica é feita a partir de uma
breve antologia de textos, ilustrados por fotografias de Duarte Belo, agrupados em três
categorias, segundo a sua própria natureza: Imaginário da fronteira; Geografia literária:
viagens na nossa terra; Literatura geográfica: temas e territórios de fronteira.
2
https://www.cairn.info/revue-hermes-la-revue-2012-2-page-141.htm
Imaginário da fronteira
A distinção entre o real e o imaginário, quando ela se apaga como no espírito de Dom
Quixote, faz desaparecer com ela a supremacia da razão. Ora, a literatura, não sendo lou-
cura, nem tão pouco sonho, situa-se no limite destes domínios, onde de forma arrojada vai
buscar os seus símbolos, as suas imagens e os seus mitos. A Odisseia, os Lusíadas podem ser
lidos como explorações do inconsciente tanto como narrativas de viagens: a mitificação do
Cabo na figura do gigante Adamastor mostra-nos esse trabalho de metamorfose, operação
própria da poesia, que personifica a fronteira dela fazendo a entidade monstruosa que
separa o conhecido do desconhecido. Mas, como veremos nos textos aqui reproduzidos,
este imaginário da fronteira, onde se aventuram de bom grado os escritores modernos, está
longe de ter esgotado o seu poder de atração e de criação.

Geografia literária: viagens na nossa terra


Se a fronteira pudesse falar, inumeráveis seriam as histórias que dela poderíamos escutar.
Felizmente, os escritores sabem colocar-se ao serviço da sua memória e contar as coisas vistas
de um lado e do outro da linha de demarcação, que ela seja rio, montanha ou simples con-
venção jurídica… Das histórias de contrabandistas à vivência do emigrante, do evadido ou
do trânsfuga, a literatura dá-nos a ler a fronteira no seu quotidiano dramático. Verdadeiro
objeto hermenêutico, a fonteira pede para ser decifrada e os escritores são os seus intérpretes.

Literatura geográfica: temas e territórios de fronteira


As fronteiras, embora concebidas quase sempre para desempenharem um papel de abso-
luta separação, não perderam a virtude de, em certas circunstâncias, mostrarem uma capaci-
dade latente de funcionarem como pontes para frutuosos diálogos entre territórios, pessoas,
saberes. Qualquer relance sobre a produção académica, mesmo a mais clássica e datada,
evidencia que as margens mais remotas e longínquas, periferias normalmente adjacentes às
15 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

fronteiras políticas, foram um fecundo alfobre para debates transversais entre as várias áreas
do saber. A atualidade da fronteira aconselha, enquanto problemática instigante que impõe
uma agenda cada vez mais premente, o reencontro do historiador e do geógrafo, do linguista
e do antropólogo, do sociólogo e do economista, entre os demais saberes, para explorarem
as ténues e permeáveis fronteiras geográficas e do conhecimento. Aos herdeiros dos antigos
andarilhos cumpre continuar a viagem pelos caminhos das fronteiras geográficas e do conhe-
cimento, onde se cruzam gírias, falares e novos contrabandistas em demanda do espírito dos
lugares e de outros sinais, indeléveis e por vezes impercetíveis, que continuam a moldar a
identidade, a sociedade e a economia desses territórios e de quem neles habita.
raia central ibérica: legendas para o mapa das suas íntimas
fronteiras e do permeável diálogo (trans)fronteiriço

A Raia Central Ibérica, situada entre o Douro e o Tejo, que corresponde à parcela
da Beira mais adjacente à fronteira, ocupa um território que se reparte entre a Beira
Transmontana, a Cova da Beira e a Beira Baixa, unidades (geo)morfológicas e paisa-
gísticas que asseguram a transição entre o Norte e o Sul do Portugal mais interior. Os
limites Norte e Sul são bem definidos por aqueles dois rios, o que não acontece com
os contornos leste e oeste, relativamente indefinidos, porque as leis da natureza não
reconhecem os limites arbitrários criados pelo homem, ao imporem, amiúde, vários
tipos de fronteira, como acontece com as políticas.
Entre a Meseta e garganta epigénica que estrangula o Tejo nas Portas de Rodão de-
paramos com três níveis de aplanamento que correspondem a outros tantos patamares
duma extensa escadaria: (i) a planáltica Meseta Ibérica, a norte, que se prolonga para
além da fronteira, a leste, pelo campo charro, e despenca abruptamente, a oeste, no fosso
do Mondego, quando deixa para trás definitivamente a sua nascente serrana, assinalada
por um leve fio de água, no ponto onde o rio inflete em direção ao mar; (ii) a ampla
Bacia da Cova da Beira, ao centro, encaixada no sopé das Serras da Estrela, da Gardunha
e de Malcata; (iii) o Campo de Castelo Branco, a sul, extensa peneplanície que se prolon-
ga pela campina de Idanha até aos confins das terras raianas do Extremo mais distante,
delimitado a poente pelas charnecas que o Zêzere e a Ocreza separam do Pinhal Interior.
A Raia Central Ibérica, pequeno retângulo confinado na margem do retângulo
maior, foi encruzilhada de povos e culturas, como bem assinala a toponímia. A par-
tir dos sinais materiais e intangíveis dispersos neste espaço, é possível traçar diferentes
rotas e vários roteiros temáticos que nos permitem a sua leitura e interpretação sem a
superficialidade das instantâneas observações turísticas. Todo o universo raiano, físico
e humano, acaba projetado na fronteira, acidente redutor que resulta da ação humana,
essa cicatriz da história e espelho do mundo onde se concentra a capacidade ambivalente
16 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

de separar e de unir.
De um lado e do outro lado da fronteira replicam-se aldeias e cidades, e encontra-
mos paisagens equivalentes e patrimónios complementares. A partir das várias camadas
de leitura, implícitas nas diferentes malhas temáticas que coexistem na Raia Central
Ibérica, é possível traçar diferentes rotas segundo geografias variáveis e sem fonteiras,
internas ou externas, bem definidas. O contacto direto com o território e a combina-
ção criativa duma malha temática que se concretiza numa rede fina de lugares oferece
uma ementa variada, que cada um pode escolher e combinar, enriquecendo com a sua
experiência pessoal a leitura criativa desta parcela rica diversa da Beira mais Interior.
. Paisagem: Rede Ibérica de Miradouros (Trans)Fronteiriços
Os pontos elevados configuram uma rede de locais que, a céu aberto, se impõem
como verdadeiros centros de leitura do território e de interpretação das paisagens. A
partir desses lugares, sem custos para o observador, pode-se contemplar a passagem
da história e observar a paisagem sem filtros, sem aparatos nem aparências, sítios de
eleição tais como os sobranceiros a Barca de Alva ou o rosário de elevações, desde a
Marofa às Portas de Rodão, passando por Castelo Rodrigo, Jarmelo, Guarda (Torre de
Menagem), Foios (Serra das Mesas, onde nasce o Rio Côa), Malcata, Sortelha, Varanda
dos Carquejais, Castelo Branco, Monsanto, Penha Garcia. Sem esquecer a mítica Portela
da Gardunha onde num relance é possível abarcar o fim do Portugal do Norte e o início
do Portugal do Sul.

. Património natural: (bio)diversidade, (geo)património, (geo)parques e reservas naturais


A natureza é pródiga na sua diversidade ao oferecer uma manta de retalhos paisagísti-
cos, de unidades (geo)morfológicas que o tempo se encarregou de esculpir em diferen-
tes materiais litológicos, retocadas pelo entalhamento dos rios (Águeda, Côa, Mondego,
Zêzere, Meimoa, Erges, Ponsul, Ocreza), o soerguimento tectónico que esteve na origem
das principais Serras (Marofa, Malcata, Estrela, Gardunha) e as íngremes cristas quartzíti-
cas (Marofa, Penha Garcia, Rodão). Os parques e as reservas naturais (Parque Natural da
Serra da Estrela, Reserva Natural da Malcata, bem como alguns Parques Naturais trans-
fronteiriços (Rio Douro e Rio Tejo), tiveram a companhia recente dos Geoparques do Tejo
Internacional e da Serra da Estrela.

. Património construído: rede de aldeias, castelos e lugares arqueológicos


A região contém vários aglomerados populacionais reconhecidos pelo património que
concentram: lembremos, sem aludir aos centros históricos das cidades que foram capitais
de distrito (Guarda e Castelo Branco), as doze Aldeias Históricas de Portugal (Castelo
Rodrigo, Marialva, Almeida, Castelo Mendo, Trancoso, Linhares da Beira, Piódão,
17 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Sortelha, Belmonte, Castelo Novo, Idanha-a-Velha, Monsanto), a que podem associar-se


muitos outros Castelos da Raia (Longroiva, Sabugal, Vilar Maior, Alfaiates, Penamacor,
etc.). É uma geografia reticular feita de nós que concentram história, paisagem e patrimó-
nio, material e imaterial, que se conjuga com o elevado interesse da arquitetura respetiva
vernácula. A arqueologia tem um dos seus expoentes em Idanha-a-Velha, como nos Sítios
Pré-históricos de Arte Rupestre do Vale do Rio Côa, gémeos do de Siega Verde, do outro
lado da fronteira, inscritos na lista de Património Mundial da UNESCO; o Alto Douro
Vinhateiro, a norte, igualmente inscrito, é uma zona particularmente representativa da
paisagem que caracteriza a vasta Região Demarcada do Douro.
. Museus e Centros de Interpretação:
A viagem na Raia Central Ibérica pode ter como porta de entrada ou ponto de apoio,
em alguma etapa da itinerância, a visita a museus ou centros de interpretação possíveis de
encontrar ao longo do território. As várias gerações de museus existentes são representati-
vas da época, do espírito e das razões que levaram à sua criação: lembremo-nos dos Museus
da Guarda, Tavares Proença (Castelo Branco), Arqueológico do Fundão – José Alves
Monteiro, Lanifícios (Covilhã) ou o Museu do Côa (arte paleolítica no Vale do Côa). As
sedes de concelhos começaram por criar espaços museológicos de história local, destina-
dos a lembrar as memórias que a comunidade gostaria de perpetuar (Pinhel, Penamacor,
p. ex.): com o tempo, nota-se uma evolução dos discursos passando a adquirir feições
mais temáticas, em sintonia com atividades concelhias mais representativas (Museu do
Contrabando, Sabugal; Museu Judaico, Belmonte, Museu Vilar Formoso Fronteira da
Paz, Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes, a Casa da Memória
da Presença Judaica, em Castelo Branco).
Apesar da relativa diversidade de outro tipo de núcleos, importa destacar alguns tra-
ços marcantes que os caracterizam: (i) Ligação à terra, importância da agricultura e do
modo de vida rural, representados em locais como: Centro Cultural Raiano (Idanha),
Solar do Queijo (Celorico), Casa do Mel (Centro Interpretativo do Mel; Bogas de Cima).
(ii) Importância dada à etnografia, com a criação de espaços representativos de anti-
gas casas rurais, onde se mostram utensílios domésticos, vestuário e alfaias tradicionais:
Museu do Castelejo, Museus Etnográfico de Alpedrinha, Núcleo Etnográfico da Lousã,
Casa-Museu do Paúl (Covilhã); a festa e a cultura popular: Casa do Bombo (Lavacolhos),
Centro Interpretativo da Romaria de Santa Luzia (Castelejo). (iii) Atividades artesanais e
industriais, de que servem de exemplo o Museu Mineiro (Panasqueira, Covilhã), o Museu
do Canteiro (Alcains), o Museu dos Têxteis – MUTEX de Castelo Branco (Corga, em
Cebolais de Cima), o Museu dos Lanifícios (Covilhã), o Centro de Interpretação do
Bordado de Castelo Branco e a Casa das Tecedeiras (Janeiro de Cima).
É de sublinhar que muitas destas iniciativas contribuíram ainda para a recuperação de
18 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

património construído, edifícios recuperados para acolher as mostras museológicas, como


Solares (Taborda Falcão de Elvas, no Fundão, o Solar dos Goulões, mais tarde designado
Solar Ulisses Pardal, em Alcains), Antigos Paços de Concelho ou, mesmo, antigas escolas
primárias, entretanto desativadas.

. Caminhos da Raia e Diásporas


A fronteira política é definida por um alinhamento de marcos e postos fronteiri-
ços, mais evidentes em alguns pontos de passagem formais (Vilar Formoso, Segura,
Monfortinho, etc.) do que em antigas passagens informais, utilizados em diferentes
rotas do contrabando. Umas vezes a raia é seca, permitindo uma travessia a pé, ou-
tras vezes a fronteira é feita por rios (Águeda, Torto e Erges…). Ao longo da fronteira
foram traçados, em diferentes épocas, vários caminhos, desde os medievos Caminhos
de Santiago (assinalado na Capela de Santiago em Belmonte) à Ruta de la Plata que a
flanqueia já em solo castelhano.
A fronteira foi atravessada por várias correntes migratórias, povos vindos de longe,
pessoas que a atravessaram para fugir a perseguições ou que emigravam em busca de uma
vida melhor. O território alberga, hoje, sinais visíveis destas várias diásporas, seja em
espaços musealizados ou a céu aberto. Ao percorrer a Raia Central é fácil visitar aldeias
onde são evidentes as marcas da emigração (Foios, Alfaiates, Sabugal, etc.). A presença
judaica, além de marcas em fachadas de casa e na toponímia, é recordada em locais como
a Casa da Memória da Presença Judaica (Castelo Branco), o Museu Judaico (Belmonte)
ou o Museu “Vilar Formoso Fronteira da Paz, Memorial aos Refugiados e ao Cônsul
Aristides de Sousa Mendes”, dedicado à passagem dos refugiados por Portugal, durante
a Segunda Grande Guerra.

. Literatura: Bibliotecas, Casas e Rotas de Escritores


Qualquer Geografia Literária da Beira incluirá nomes incontornáveis como Eduardo
Lourenço (S. Pedro de Rio Seco – Guarda), Virgílio Ferreira (Melo – Guarda), Fernando
Namora (Monsanto), José Marmelo e Silva (Paul, Covilhã) ou Eugénio de Andrade (Atalaia
do Campo – Castelo Novo, Fundão). Existem nos lugares onde nasceram, em muitos
casos, casas que assinalam as suas memórias (Melo, Gouveia; Casa da Poesia Eugénio de
Andrade, Póvoa de Atalaia, Fundão; Casa José Marmelo e Silva, Paul, Covilhã) ou bi-
bliotecas que receberam os seus nomes (Virgílio Ferreira, Eduardo Lourenço, Eugénio de
Andrade). Sem falar em alguns livros, como A Viagem do Elefante (José Saramago, 2008),
cujo imaginário passa por lugares como Castelo Novo, Sortelha, Cidadelhe (Pinhel) e
Castelo Rodrigo. A estes locais, que funcionam como centros interpretativos da vida e obra
dos respetivos escritores, importa juntar outros nomes, mais antigos ou que ainda fazem
19 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

parte do número dos vivos, que densificarão a malha que configura a Rota de Escritores
da Raia Central Ibérica.
o mundo: aquém e além-fronteiras

Alfredo Cunha
Fotógrafo

21 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Refugiados, Beira, Moçambique, 1993.


22 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Mário Soares, Parque de Montesinho, Bragança, 1986.


Mário Soares, Faial, Açores, 1989.

23 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Pastor do Gerês, Parque Nacional, 2008.


24 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Campo de refugiados de Erbil, Iraque, 2015.


Campo de refugiados de Dhuoc, Iraque, 2015.

25 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Campo de refugiados de Dhuoc, Iraque, 2015.


Guiné Bissau, Bolama, 2014.
26 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Missão da Onumoz, Beira, Moçambique, 1993


Dili, Timor, 2006.
27 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território
Baticaloa, Sri Lanka, 2015.
28 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Fronteira de Buruntuma, Guiné Bissau, 2016.


Funchal, 1982.
29 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território
GeoGraFias da FroNTeira:
PeNsar seus LiMiTes
e seus Novos coNTorNos
Fronteiras e outros limites:
o tempo, o espaço e o modo
Penser les limites de nos limites

Jacques Lévy
Directeur de la chaire Intelligence spatiale à l’Université polytechnique Hauts-
-de-France et membre du rhizome de recherche Chôros. Il a obtenu en 2018
le prix international Vautrin-Lud, considéré comme le prix Nobel de géographie

En allemand, le mot Grenze («  frontière  ») prend souvent le sens plus général de
limite lorsqu’il s’agit, par exemple, de poser des bornes à la liberté de celui sur lequel
on exerce une autorité. « Alles hat seine Grenzen », « il faut une limite à tout », n’est-ce
pas ? Germanophone, le leader populiste xénophobe suisse Christoph Blocher a souvent
cherché à jouer sur le mot. Dans son discours de Rafz, le 8 mai 2005 (au cours de la cam-
pagne électorale sur le référendum de ratification par la Suisse de l’accord de Schengen), il
s’est délecté de l’aubaine sémantique pour prôner d’un même mouvement de le renforce-
ment des frontières géopolitiques et le retour à une société autoritaire.

« Nous vivons à une époque où les limites ne sont plus respectées. Cela dit, je n’ai pas
à l’esprit les seules limites qui bordent un territoire national. La société, précisément,
35 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

a même démantelé de nombreuses limites. Les milieux politiques, économiques et


sociaux se félicitent de l’absence de limites et de barrières ; c’est moderne et actuel.
En fait, une attitude quelque peu pubertaire, quasiment immature  ! Les frontières
définissent un territoire, sur lequel un peuple s’autodétermine. Aussi, sauvegarder
son autodétermination c’est toujours sauvegarder ses frontières. […] L’économie paie
maintenant déjà l’exubérance des années 1990. Celle qui a coûté des milliards, causé
faillites et dommages à l’économie nationale. La nouvelle devise préconise donc de faire
marche arrière : d’ériger de nouvelles barrières, de se recentrer, de redimensionner – du
moins dans l’économie. Dans les sociétés libres de toutes barrières, la politique vit aussi
au-dessus de ses moyens. Nos enfants devront supporter le résultat de notre politique
de l’endettement sans limites qui s’élève à bien 253 milliards de francs. Il importe que
nous rétablissions des limites et que nous en exigions le respect. »

Dans une tradition légèrement plus esthétisante mais tout aussi déterminée, certains intel-
lectuels néo-conservateurs français ont la même tentation : ils nous présentent les frontières
dans des termes similaires à la manière dont psychanalystes et psychiatres décrivent parfois le
« rôle du Père » : l’expression de la loi, dont le contenu importe peu et qui pourra même être
un jour transgressée, mais qui offre l’avantage de permettre aux individus (ou par extension
aux sociétés) de « se structurer », d’avoir des « repères ». Et justement, professe Régis Debray1 :

« Quand on a perdu tout repère, au lieu de s’agréger au pôle dominant, on ressent


un tel vertige d’appartenance qu’on va fantasmer une origine légendaire. On va suren-
chérir sur sa particularité. L’abolition des frontières ne produit pas de l’anonyme et de
l’interchangeable mais du régressif, du barricadé, du soupçonneux.  Un monde sans
frontières serait un monde où personne ne pourrait échapper aux exécuteurs de fatwas
ou aux kidnappeurs de la CIA. »

Le mot « frontière » a beaucoup de succès, dans son sens propre mais plus encore comme
métaphore d’une multitude de réalités qui ont à voir avec les limites, c’est-à-dire avec notre pro-
pension à découper le monde en objets séparables. L’usage métaphorique de l’idée de frontière
semble une invitation à la séparation radicale entre des réalités qu’il serait tentant d’associer
ou de fondre. Est-ce la bonne approche ? Pour répondre à cette question, la prudence suggère
d’observer sérieusement la réalité de l’objet « frontière » et, seulement ensuite, d’en tirer éven-
tuellement des conclusions plus générales.Dans ce texte2, ce n’est bien sûr pas la négligence ou
l’ignorance de la réalité des frontières qui sont prônées, mais plutôt une démarche de relativisa-
tion cognitive. L’univers sémantique de la frontière est saturé d’absolus, le plus souvent lorsque
l’on convoque la notion de frontière pour parler d’autre chose. En faisant le chemin inverse de
36 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

la métaphore au concept, on a quelque chance de trouver le ton juste

La frontière comme « jargon de l’authenticité »

La frontière est une figure gagnante de la pensée paresseuse. Elle s’appuie sur un bon
sens aux effets implacables : qui nierait que le licite n’est pas l’illicite, que je ne suis pas toi,
qu’ici n’est pas là ? Sans l’aide des oppositions simples que nous pouvons aisément établir
entre les choses, entre les gens ou entre les pays, où irions-nous ?
Theodor Adorno a utilisé l’expression de « jargon de l’authenticité3 », pour caractériser,
chez Martin Heidegger, l’emphase qui accompagne la prétendue reconnaissance de la
permanence transhistorique d’une essence originelle que les contingences de la « nouveauté »
et de la « technique » voileraient ou terniraient. Pour Adorno, le repli sur soi, l’ignorance de
la plasticité du monde et la mythification de l’Être marchent du même pas et les discours
contemporains sur la frontière sont une bonne expression de ce versant d’une pensée que
l’histoire fatigue. C’est d’autant plus surprenant à propos des frontières, dont l’existence
concrète dépend toujours d’événements, datés, souvent violents et rarement pensables
comme le résultat de la mise en œuvre des principes ou des valeurs qui sont censées fonder le
vivre-ensemble contemporain. Comment ces lignes de front pétrifiées pourraient-elles nous
dire quelque chose sur la bonne manière d’organiser la vie en société aujourd’hui ? Ce ne
serait possible que si on les réduisait à une métaphore de la métaphore qu’elle a engendrée :
la frontière figure la discontinuité conceptuelle et celle-ci se réincarne dans la frontière. Faute
de prendre le temps de décrire des logiques pourtant observables, serions-nous condamnés à
aborder ces objets à coup de dérivée seconde ? La « frontière naturelle », qui était sous-tendue
par une « authenticité » immanente et a longtemps hanté la géographie classique et ses corré-
lats géopolitiques, a fini par disparaître de nos esprits. Faut-il vraiment inventer un nouveau
verbiage, à prétentions transcendantes, cette fois, pour lui redonner vie ?
Si l’on veut y voir clair, il faut d’abord prendre acte du fait que la matérialité n’est
qu’une des composantes de notre monde, et que l’immatériel n’est pas irréel, pas plus qu’il
ne se réduit au simulé ou fictif. Lorsque des Berlinois disent que le Mur est encore dans
leurs têtes, ils parlent d’une frontière tout à fait concrète, qui se traduit par des pratiques
quotidiennes, par des choix d’habiter ou par des votes. Il faut donc admettre que, si nous
disons que la géographie des limites n’est pas seulement faite de barbelés et de miradors,
nous ne basculons pas pour autant dans l’univers des figures de style. En outre, la ligne
séparant deux territoires peut aussi devenir une abstraction qui s’incarne dans une autre
géométrie, celle par exemple des contrôles de sécurité en plein milieu d’un aéroport qui
se trouve en plein milieu du pays de départ. Autrement dit, il faut accepter de renoncer à
37 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

utiliser la notion de frontière comme un simplificateur automatique d’énoncés, comme un


permis de tuer la complexité. « Tout projet territorial doit d’abord penser aux limites de ses
limites », ai-je écrit en 19944, alors que la guerre faisait rage en ex-Yougoslavie.
Prendre la mesure des limites de nos limites consiste donc aussi à prendre conscience
que la limite est un point de vue spécifique et non exclusif sur la relation entre deux réalités
spatiales supposées distinctes. « Supposées », car la discontinuité se révèle une arme puis-
sante, dont nous ne savons pas nous passer, mais qui se révèle terriblement fragile si nous
n’avons pas conscience… de ses limites. Les chercheurs en sciences sociales ont appris à se
méfier d’un trop grand primat du discontinu (il y a toujours des continuités sous-jacentes),
comme de celui du continu (il y a bien parfois des ruptures) et, tout compte fait, de la
discontinuité trop marquée entre le continu et le discontinu5. L’antidote consiste d’abord
à se méfier des dichotomies définitives et à prendre conscience qu’il peut y avoir plusieurs
contraires à une réalité ou à un énoncé6. L’enjeu n’est pas de chercher à démontrer que,
sous les discontinuités, il y aurait toujours un « fond » de continuité, un continuum total
du réel qu’il faudrait restituer au lieu de le cacher. Ce serait tout aussi contestable car
l’idée de continuité renvoie aussi à des éléments très pesants de notre rapport spontané au
monde : celui qui nous fait nous le représenter comme stable, immobile et permanent.
Il s’agirait donc plutôt de faire appel, au moins de temps en temps, à des ontologies qui
récusent l’opposition entre continu et discontinu.

Frontière(s)

Dans les 3 minutes et 20 secondes du plan-séquence qui ouvre la Soif du mal (Touch of Evil,
1958), Orson Welles nous montre une frontière poreuse à toutes sortes de réalités : à la caméra,
aux mouvements de ses personnages, à l’amour, aux trafics et à la violence. La suite du film
montre que les choses ne sont pas si simples. Les différences de développement et de mentalité,
les logiques d’État et la malignité des criminels concourent à donner une image sombre de
l’interface États-Unis/Mexique. Le spectateur est censé avoir compris à la fin que cette frontière
va continuer à faire du mal aux hommes en général et plus encore à ceux qui veulent l’ignorer.
On pourrait dire qu’il y a des frontières parce qu’il y a des États. Ceux-ci sont nés, en gros,
avec le Néolithique, lorsque les humains ont commencé à créer des surplus et donc des stocks.
On peut y voir l’origine des guerres géopolitiques classiques, avec deux options. L’une, si l’on
dispose de l’avantage de la mobilité, consiste à attaquer pour s’approprier les stocks produits
par les sédentaires ; l’autre, à défendre les territoires productifs consolidés. Dans les deux cas,
la nécessité d’avoir un appareil militaire permanent, qui incite à s’en servir, devient le premier
ressort d’un système institutionnel plus vaste, l’État, qui se tourne aussi vers l’intérieur de la
38 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

société qui l’a rendu possible. La guerre n’est donc pas qu’une conséquence de l’existence des
États, elle est aussi une cause de leur émergence. Dès lors qu’il y a des guerres, il y a des lignes
de front(ières) correspondant à un équilibre provisoire entre les forces.

Lignes de front indurées

L’idée de «  frontière naturelle  » est bien un oxymore : une frontière ne peut pas
être naturelle, puisqu’elle est le produit de différentes logiques sociales et temporalités
historiques. Pendant longtemps, en Europe de l’Ouest, les lignes de crête les plus élevées
n’ont pas constitué des frontières : le massif du Mont-Blanc est une zone où le même
groupe linguistique se partageait les différents versants, Val d’Aoste, Valais et Savoie. Ces
groupes parlaient la même langue, le franco-provençal, échangeaient beaucoup, malgré
la hauteur du relief, et continuent de partager certains aspects de leur même culture
d’aujourd’hui. Ce que l’on appelle « frontières naturelles », c’est le fait que les frontières
correspondent parfois à des limites de reliefs ou de bassins hydrographiques, qui cons-
tituent alors un des arguments pour en justifier l’existence. C’est le plus souvent une
ressource argumentative naturaliste pour justifier une guerre de conquête. Par exemple
: l’État français de la Révolution et de Napoléon avait le projet de placer la frontière
française sur le Rhin jusqu’à son embouchure. Pourquoi le Rhin plutôt que le Rhône
ou la Garonne ?
Les frontières géopolitiques, lorsqu’elles sont remises en cause, réévaluent le rapport
de force entre des États. La logique de la géopolitique, c’est d’étendre son territoire en
postulant que le bien-être de sa société en dépend. Cette idée a pu être considérée comme
rationnelle à l’époque d’une « société de stocks ». Sur un territoire, lorsque la plus grande
partie des ressources est prélevée, avec peu de valeur ajoutée, plus l’État étend ce territoire,
plus il augmente sa richesse, et par conséquent sa puissance. C’est le cercle, apparem-
ment vertueux, de la géopolitique qui justifie le recours à la force. Les cartes géopolitiques
sont striées de mythes territoriaux concurrents. Dans la géopolitique classique, chaque
État considère que son territoire est légitime dans sa plus grande extension, au regard de
l’héritage qu’il s’attribue.
Dès qu’on entre dans les « sociétés de flux », où la valeur ajoutée localement de-
vient décisive, la taille du territoire ne compte plus, sinon, s’il faut la défendre, en
négatif. De fait, on constate aujourd’hui que l’orientation impériale d’une société et
son développement socio-économique sont antinomiques. Cela avait déjà été démontré
pour l’Empire britannique, victime de ce que l’on a appelé l’overstretching, l’étirement
excessif d’un territoire, qui finit par coûter cher, pour des gains limités. Ce mouvement
39 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

d’extension a profité à certains, mais il n’est pas démontré qu’il ait profitéà la « métro-
pole » et, surtout, à l’ensemble de la société britannique. De fait, les pays les plus riches
ne sont pas nécessairement les plus étendus : on peut citer le Luxembourg, la Suisse
ou la Norvège... Ibn Khaldoun, le théoricien des empires du xivesiècle, avait montré
qu’il existait une sorte de « baisse tendancielle du profit » des empires : plus un empire
s’étend, plus il est amené à dépenser de ressources pour se maintenir. L’affaiblissement
de la composante endogène de son développement finit par en fragiliser le centre au
profit des périphéries. Les études contemporaines sur l’Empire romain confirment
cette thèse.
Limites politiques d’une société

Une autre dimension de la frontière est celle des limites politiques à l’intérieur des
États. Il faut d’abord prendre en compte l’emboîtement (l’inclusion du petit territoire dans
le grand) qui est classique dans les systèmes étatiques et horizontalisé dans le cas du fédéra-
lisme. Il s’agit ici d’interaction entre espaces, d’interspatialité qui n’appelle pas de frontière,
pas plus que la troisième interspatialité, la cospatialité (voir plus loin). La frontière repose
sur une interaction par interface, par la rencontre de deux espaces juxtaposés, et c’est une
métrique parmi d’autres de l’interaction. Le fait que la guerre ne soit pas un enjeu, même
lointain, ne signifie pas que des limites franches ne soient plus nécessaires.
S’agissant, spécifiquement, des frontières politiques (et non géopolitiques), l’enjeu
porte sur la coïncidence entre l’espace du gouvernement et l’espace de la société. Dans un
empire, le gouvernement du colonisateur a un impact sur ce qui se passe en dehors de la
« métropole » et les colonisés n’ont pas voix au chapitre : il y a donc un décalage entre les
deux espaces. Plus généralement se pose la question des limites géographiques de l’action
gouvernementale. Si des décisions prises par un gouvernement portent sur un espace qui
ne correspond pas à celui de ceux qui l’ont choisi, ces derniers deviennent alors maîtres de
décisions qui auront un effet positif ou négatif sur d’autres habitants qui, elles, n’ont aucu-
ne prise sur le gouvernement. La frontière, même si elle n’a aucun rapport avec la guerre,
est donc, quand même, nécessaire. De ce fait, il est difficile de supprimer les frontières, de
faire abstraction de la nécessité de découper les espaces politiques, de façon assez franche
pour que ceux qui prennent les décisions se les appliquent à eux-mêmes.
Le monde social n’est pas seulement l’ensemble des interactions entre êtres sociaux, c’est
aussi un tout, une société. Et ce tout existe à plusieurs échelles, pas seulement à l’échelle
mondiale qui, d’ailleurs, n’est pas le niveau de société le plus puissant du fait qu’il n’y ait pas
un niveau politique clairement défini à cet échelon. Les niveaux de sociétés établis restent,
pour le moment, selon les régions du monde, locaux, régionaux, nationaux et continentaux.
L’Europe est un cas à part : elle décrit un processus inédit avec des traits spécifiques, car
40 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

elle est composée de sociétés déjà très constituées, d’États-nations européens qui ont décidé
de construire un nouvel échelon avec toutes les difficultés inhérentes à ce projet. L’Union eu-
ropéenne (UE) commence à exister comme un pays, c’est-à-dire comme le territoire identi-
fiable d’une société, la société européenne7. Les libertés de circulation et d’échanges instituées
par l’UE tendent à réduire à peu de choses les frontières des États nationaux, qui perdent leur
consistance géopolitique et deviennent des limites régionales de l’État européen.
Les tensions que provoque un changement de frontières à l’intérieur d’un État montre
leur importance. Regardons l’histoire de la carte communale française : en 1789, nous som-
mes partis des paroisses pour établir les communes, et avons donc conservé la même trame
« administrative » jusqu’à aujourd’hui, sauf dans une partie du xixesiècle, où le pouvoir centra-
lisé autoritaire pouvait se permettre d’ajuster les limites communales à l’urbanisation, sans con-
certation ni délibération. À partir de la IIIe République (1875), il y a davantage de démocratie,
fondée sur un compromis avec les notables ruraux, qui ne veulent pas que l’on touche au pou-
voir des maires et qui disposent de moyens institutionnels puissants pour imposer leur point
de vue. De ce fait, la carte communale va rester figée, presque jusqu’à aujourd’hui. Le résultat,
c’est le décalage entre l’espace fonctionnel, vécu, et le découpage politique. Et cette situation
est coûteuse, car elle a des effets de frontière dommageables pour la justice et pour l’égalité.
Cependant, il existe de nombreux domaines de la vie sociale ou il ya peu,et de moins
en moins, de frontières : les sciences, les arts, la circulation des messages et des objets,
même si un certain nombre d’États font tout pour l’empêcher. Par ailleurs, il est souhaita-
ble qu’il y ait des limites aux territoires politiques. Ce sont deux mouvements en réalité :
d’un côté, les anciennes frontières géopolitiques sont mises à mal, de l’autre côté, un hori-
zon de philosophie politique rend utile la délimitation des espaces politiques, sans oublier
que le Monde constitue aussi un espace politique.

une interaction parmi d’autres

Entrons un peu plus avant dans la réalité empirique captée par le mot « frontière ». Les
frontières existent entre les États ou, plus généralement, entre entités politiques, que celles-
-ci soient ou non dotées de pouvoirs géopolitiques. Membranes plus ou moins étanches,
les frontières entravent la libre-circulation et donnent naissance à des interactions spéci-
fiques entre les espaces qu’elles séparent. L’analyse de ces interactions montrent que, en
rapport avec la frontière, des liens (flux licites ou illicites, infrastructures rendant ces flux
possibles) et des lieux spécifiques (postes-frontières, villes-frontières, zones-frontières…)
émergent. Comme en outre, les passages se situent à des points particuliers sur la ligne ou,
même, on l’a vu hors de la ligne, la frontière devient un système de goulots d’étranglement
41 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

qui canalisent les franchissements, d’où le paradoxe souvent signalé que la frontière semble
générer du mouvement au lieu de l’empêcher.

une métrique spécifique

Ce petit mystère se dénoue dès lors qu’on compare une situation de frontière à celle qui exis-
terait s’il n’y avait pas de frontière. Il est vrai cependant que, sauf exception, comme la frontière
entre les deux Corée, il y a toujours des flux traversants et les espaces frontaliers contemporains
apparaissent comme des configurations intermédiaires entre le tout-ouvert et le tout-fermé, ce
qui plaît peut-être à certains exégètes effrayés par l’exercice, d’une totale liberté d’aller et venir.
Si maintenant on essaie de situer cette interaction entre deux espaces qu’est la fron-
tière dans un cadre plus large, on rencontre le concept de métrique. Une métrique est un
rapport à la distance– conception, mesure, pratique. On constate alors que la distinction
entre le topographique (continu) et le topologique (discontinu) appliquée à l’intérieur et
aux limites d’une aire permet de définir quatre familles de métriques (figure 1).

Métriques internes
Topographiques: Topologiques:
Métriques
territoire réseau
des limites

HORIZON RHIZOME
Topographiques
confins Espace linguistico-culturel, Espace relationnel d’un individu
quartier d’une ville

PAYS NETWORK
Topologiques :
frontière
Région rurale, État Réseau de télévision

Figure 1. Quatre familles de métriques.

Toutes les limites ne sont pas des frontières : celles-ci correspondent à une limite franche
entre deux territoires, mais il y a aussi des limites floues (comme les « marches » et les confins de
pays ou d’aires culturelles, ou encore le passage d’un quartier à l’autre d’une ville). La majorité
des réalités spatiales, en particulier celles, fixes ou mobiles, que créent les opérateurs, indivi-
dus compris par leur agir spatial (leur spatialité), ne sont pas des territoires mais des réseaux.
Les réseaux, qui relient des localités distinctes, sont d’ailleurs l’ordinaire de la géographicité
humaine, tandis que, du fait de leur métrique continue qui inclut les pleins et les vides, l’actuel
42 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

et le virtuel, les territoires restent toujours des utopies ou en tout cas des projets8.
C’est aussi pour ces raisons que, depuis que le modèle exclusif de l’État s’affaiblit dans
les esprits et dans la pratique, certaines frontières disparaissent ou s’affaiblissent, comme en
Europe, tandis qu’on se rend plus attentifs à d’autres différenciations de l’espace, moins reliées
au registre de la guerre, davantage porteuses des déséquilibres dynamiques de la sociétalité.
On comprend alors que seul le pays – un territoire bordé par une limite franche – offre
un paysage de frontière classique. Dans les trois autres cas, qui sont très répandus dans le
Monde d’aujourd’hui, soit il n’y a pas de limite nette (Horizont, rhizome), soit c’est une limi-
te entre deux réseaux, qui ne prend pas la forme d’une ligne de séparation visible.
réseaux contre territoires

En étudiant les « prisées » royales autour de Paris au xive siècle, Marie-Pierre Buscail9 a
montré comment les réseaux dominent dans le prélèvement de l’impôt par le roi de France,
non pas seulement en ce qu’ils sont un outil d’actualisation territoriale (comme toute admi-
nistration fiscale contemporaine lorsqu’elle organise le prélèvement), mais par le fait qu’ils dé-
finissent et circonscrivent l’espace préalable de la ressource en même temps qu’ils organisent
son exploitation. La géographie mobile des envoyés fiscaux du roi visualise le potentiel qu’ils
recensent et c’est en combinant autorité et diplomatie qu’ils s’emploient à transformer en re-
cettes. Or nous sommes là, non dans des régions récemment conquises, mais dans le cœur du
« domaine royal » dans les limites de l’Île-de-France actuelle ou dans ses environs immédiats.
Au sein d’un État qui, depuis Philippe-Auguste, est présenté comme vaste, centralisé, et déjà en
marche rapide vers la monarchie absolue, nous sommes bien loin d’un territoire uniformément
contrôlé. Cette remise en question des idées reçues sur la géographicité des sociétés du passé
constitue une ouverture théorique prometteuse pour les travaux des historiens10.
On pourrait objecter que, désormais, les États ont les moyens de réaliser jusqu’au bout
leurs projets de pays. Les murs de Belfast ou de Jérusalem seraient là pour le démontrer. En fait,
même si la frontière entre les deux pays est hermétiquement close, de nombreux Coréens du
Sud ont des connexions diverses avec des Coréens du Nord de même que, à l’époque du Rideau
de Fer, de nombreux contacts de nature variée (liens familiaux, échanges économiques, passages
légaux ou illégaux, conversations téléphoniques, diffusion d’émissions de radio et de télévision)
existaient entre l’Ouest et l’Est de l’Europe. On nommait ainsi zones d’« immaculée réception
» les rares parties de la RDA qui ne recevaient pas les émissions venant d’Allemagne de l’Ouest
et se trouvaient ainsi contraints à l’« innocence » face à la propagande de l’Est.
Aujourd’hui, on voit tous les jours à Lampedusa, à Calais ou le long du Rio Grande
comment des individus intrépides parviennent, au péril de leur vie, à passer des frontières
pourtant défendues par des moyens modernes. En outre, s’il est réussi, ce franchissement
est une opération gagnante pour les migrants car leur expulsion vers leur pays d’origine est
43 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

entravée par de nombreux obstacles juridiques et pratiques.


Cela nous permet d’approcher un aspect essentiel du statut contemporain de la fron-
tière : ce n’est pas leur niveau de protection qui s’abaisse, c’est leur sens, à mesure que
des espaces plus vastes, englobant les territoires frontaliers, émergent. Cette évolution
paradoxale est une manière de raconter l’histoire plus générale de l’État géopolitique. Son
paroxysme se produit lorsque, au milieu du xxe siècle, des États, s’appropriant les logiques
communautaires de la nation, parviennent, grâce au totalitarisme, à capter toutes les
ressources de la société qu’ils contrôlent et oppressent. Celadonnelieu à un tel déchaî-
nement de violence, y compris contre leurs propres ressortissants, que s’ensuit une crise
de l’État, de son rôle, de ses missions et que de nouvelles manières de faire société, post-
-géopolitiques, commencent à apparaître, comme dans le cas de l’Europe.
Aujourd’hui, les frontières les plus classiquement fermées renvoient à des situations à la
fois archaïques et absurdes, comme celle entre les deux Corée. La frontière étanche reste un
fantasme irréalisable, notamment lorsqu’elle borde des républiques démocratiques. On aurait
les moyens techniques de la faire à peu près respecter, mais à condition de violer les droits de
l’homme, notamment en matière de droit d’asile, et d’utiliser des méthodes plus violentes pour
contraindre les corps. Les rhizomes des migrants tirent parti de l’asymétrie des systèmes d’action.
La frontière de Melilla – enclave espagnole au Maroc –, avec les grilles, hautes de plu-
sieurs mètres, hérissées de barbelés et censées être infranchissables marque une frontière de
l’UE sur le continent africain. De temps en temps, les migrants organisent des raids : ils se
regroupent à plusieurs dizaines, voire plusieurs centaines pour saturer complètement le dis-
positif policier censé les empêcher de passer. Un certain nombre réussit à traverser, compte
tenu du fait que, heureusement, les policiers ne leur tirent pas dessus.
La liberté d’aller et venir est une idée tellement forte, un droit tellement fondamental,
qu’il est difficile, même au nom d’autres droits tout autant légitimes, de la mettre en cause.
D’un côté, une certaine autolimitation, qui n’empêche pas les tragédies en mer mais écarte le
massacre volontaire et l’expulsion automatique. De l’autre, une détermination sans faille et une
ignorance totale du droit qui permettent de franchir, malgré les dangers, une ligne-seuil, en
dépensant des trésors d’énergie et d’imagination pour défier les techniques spatiales des États.
Dans ce contexte contradictoire, la suprématie des réseaux sur les territoires se confirme.
44 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Figure 2. Réseaux contre territoires à Melilla1

1
Source : <http://elpais.com/m/elpais/2014/10/22/inenglish/1413983861_652200.html>
Les espaces fluides de la pax urbana

On peut justement se demander si la frontière garde son sens dans un Monde to-
talement urbanisé. Certes l’archipel planétaire des espaces urbains se situe aussi dans
un espace mondial dont le pavage en États continue de représenter une des trames
majeures. Cependant, ce sont les villes et notamment les grandes villes qui apportent
la croissance, l’innovation et la contribution financière dont les États ne peuvent se
passer. Ils doivent donc accepter, à contrecœur, que leurs villes disposent des moyens de
leur développement. Or les relations entre les villes ne reproduisent pas celles des États
géopolitiques. Elles ne participent pas comme eux à un jeu à somme nulle, arbitré en
dernière instance par la violence. À l’échelle mondiale, se développe aujourd’hui ce qui
a pu exister dans les villes rhénanes ou hanséatique à la fin du Moyen-Âge : un rapport
mêlant concurrence et coopération, une relation de compétition pacifique car il suppose
une multitude d’échanges d’idées, de produits, de personnes et aboutit plutôt à un jeu à
somme positive. Les réseaux urbains tendent à l’emporter sur les territoires étatiques et,
du local au mondial, ces réseaux sont sans frontière.
Cela ne veut pas dire qu’il n’existe pas de différences au sein du monde urbain. Il y
en a de substantielles entre villes selon leur taille et la qualité de leur urbanité. Il y en a
aussi à l’intérieur de chaque « île » de l’archipel entre le centre, les banlieues, le périur-
bain ou les autres gradients d’urbanité faibles. C’est d’autant plus significatif que ces
configurations sont devenues davantage le résultat d’un choix. La différence est mani-
feste avec ce qu’on pouvait observer pendant des siècles dans les sociétés rurales, dont
la plupart des membres se trouvaient assignés à résidence par l’ancrage agraire ou, plus
récemment, lorsque uneimmense classe de travailleurs aux salaires faibles et au patri-
moine inexistant se trouvait contrainte de résider dans des ghettos ouvriers définis par
le faible prix du sol ou l’aide publique. Même si ces logiques n’ont pas disparu, la part
de choix a augmenté et on peut lire les dynamiques urbaines comme celles de modèles
d’urbanité concurrents qui se partagent les attentes des habitants.
45 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

La pax urbana supprime-t-elle les frontières  ? L’importance des nécessités de dé-


fense dans l’histoire urbaine n’est plus à démontrer. Inversement, la destruction des
murailles a changé le destin des villes en leur permettant de s’étaler et le développe-
ment des transports motorisés a rendu possible l’exode urbain de ceux que la cohabita-
tion avec le monde industriel ou ouvrier indisposait. L’accès à la solvabilité en matière
de résidence pour une partie importante de la population a permis à une quantité
importante d’individus d’effectuer des arbitrages entre différents modèles d’habiter. Ils
se sont déterminés notamment sur les critères de l’exposition à l’altérité et de l’oppo-
sition public/privé. Pour toutes ces raisons, la continuité spatiale tend à l’emporter
sur la discontinuité. L’Amérique du Nord, qui a longtemps été caractérisée par des
basculements spectaculaires de l’ambiance urbaine du simple fait de traverser une rue,
se trouve elle-même touchée par un mouvement qui tend à faire du monde urbain une
situation organisée par la subtilité et la volatilité des arbitrages individuels plutôt que
par la mosaïque brutale des juxtapositions entre communautés. Les ghettos s’effritent
et la mixité sociologique et fonctionnelle faible dans les périphéries, progresse dans les
centres. En ville aussi, la frontière recule.

Quelles frontières à l’ère du Monde ?

La frontière comme barrière absolue et permanente entre les mains des États est une
réalité récente. Jusqu’au début du xxe siècle, les États n’avaient pas la puissance suffisante
pour surveiller et défendre des lignes interminables, surtout quand elles se trouvaient
dans des environnements naturels difficiles. La contrebande constituait une activité ba-
nale dans un monde où, il est vrai, la faible portée des mobilités faisait de la frontière une
réalité surtout locale ou régionale.

L’hospitalité et la citoyenneté : deux spatialités distinctes

Si on considère l’univers des migrations, que on constate aisément ce n’est pas la même
chose de migrer, d’une part, à l’intérieur de l’Union européenne, d’un État ou d’un espace
qui a une logique politique interne, disposant de politiques publiques de solidarité, et,
d’autre part, entre des espaces qui n’ont pas de dispositif de solidarité entre eux. C’est le cas
de l’Afrique subsaharienne et de l’UE qui ne sont pas dans un dispositif de responsabilités
partagées sur un certain nombre de points. Ainsi, un étudiant polonais, qui vient faire
ses études en France, paye les mêmes frais d’inscription qu’un Français, ce qui n’est pas
46 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

toujours le cas pour un étudiant qui n’appartiendrait pas à l’espace européen de solidarité.
Kant considérait que la liberté d’aller et venir définissait l’hospitalité : si vous allez
quelque part, vous ne devez pas être considéré comme ennemi, vous devez être reçu
correctement, pacifiquement, de façon cordiale, sans que cela ne présage de votre ins-
tallation sur les lieux. Cependant, pratiquer l’hospitalité ne veut pas dire qu’on accorde
la citoyenneté, qui relève d’une intégration permanente et active, à égalité de droits et
de devoirs, dans une société. Ce sont ces interrogations, ces enjeux auxquels nous som-
mes confrontés aujourd’hui avec les migrations. Cela nous permet de comprendre qu’il
peut y avoir plusieurs frontières de natures différentes au même endroit : la frontière
entre l’UE et le reste du monde est à la fois une frontière d’hospitalité et une frontière
de citoyenneté. Si vous êtes demandeur d’asile, vous recevrez l’hospitalité, mais aussi la
possibilité de vous installer durablement dans le pays. Si vous êtes un migrant volontaire
qui cherche à améliorer son sort en passant par la même frontière, il peut y avoir des
législations beaucoup moins favorables, comme c’est le cas actuellement. Un ressortis-
sant de l’UE qui rentre chez lui de vacances passera lui aussi la même frontière, via les
aéroports. Là, les détenteurs de passeports biométriques disposent d’un canal autre que
ceux qui voudraient entrer dans un pays pour y résider ou obtenir un permis de séjour.
Il existe ainsi plusieurs types de relations frontalières entre sociétés, qui, même superpo-
sées, ne se confondent pas.

israël/Palestine : l’empire sans la frontière

La séparation entre Israël et la Palestine appartient-elle à cette catégorie  ? Oui et


non. D’un côté, il s’agit d’un conflit géopolitique typique du xixe siècle, avec d’un
côté une colonie de peuplement à base ethno-religieuse qui s’érige en État et cherche à
constituer un petit empire en dominant ses voisins ; de l’autre une communauté récente
et fragile contrainte de construireun désir d’État mimétique et que son incapacité à
produire du développement enferme dans une spirale de l’échec. Cependant, le conflit
israélo-palestinien porte aussi en lui les marques de notre époque. Ainsi, la « barrière de
séparation » construite par l’État israélien ressemble certes à une ligne de front telle qu’il
l’interprète, mais il n’est pas la future frontière entre deux États souverains. D’abord,
parce que les colonies situées en plein cœur de la Cisjordanie se trouvent au-delà du
mur et qu’il n’est actuellement pas question pour Israël de les abandonner. Si certaines
d’entre elles devaient être officiellement incluses dans la continuité du territoire israé-
lien, comme les variantes de la barrière, projetées ou en construction, l’indiquent, cela
contribuerait encore à réduire le territoire déjà rabougri que gouverne tant bien que mal
47 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

l’Autorité palestinienne.Ensuite, parce que toute la zone orientale de la Cisjordanie,


bordée par le Jourdain et la mer Morte, constitue une zone réservée à l’armée et aux
colonies israéliennes. Enfin et surtout, comme le montre le patient travail de l’agence
de l’OnuOcha-Palestine11, c’est le « noyau dur » du territoire palestinien qui est mis
en cause par l’action israélienne.Sur les cartes produite par l’Ocha, outre les colonies
officielles ou non (les «  outposts  ») et les zones militaires, on voit le dense réseau des
checkpoints, les multiples restrictions à l’usage du réseau routier, les zones agricoles et les
réserves naturelles, qui contribuent à faire du territoire palestinien une série d’enclaves
mal agencées et mal reliées entre elles.
La plus grande innovation est probablement la fabrication d’un espace multicou-
che, caractérisé par l’absence de cospatialité entre deux strates séparées, l’israélienne et
la palestinienne, mais posées sur la même étendue territoriale, avec chacune leur réseau
de communications, dominant, interconnecté et envahissant pour la couche israélienne,
dominé, fragmenté et lacunaire pour la couche palestinienne.
Tout cela contribue à ce qu’on peut appeler un spatiocide12, la destruction inten-
tionnelle de l’espace palestinien en tant qu’environnement d’une société. On com-
prend alors que, dans le contexte actuel où il n’est pas possible pour l’État israélien
d’éliminer les Palestiniens sous un tapis de bombes comme dans une guerre classique,
toutes ces mesures contribuent, plus lentement et plus discrètement au même résultat.
Et il est clair que ce n’est pas par la frontière que les choses se jouent. Celle-ci est un
élément secondaire du problème, presque une fausse piste. Car le résultat, faussement
fictif, est là (figure 3) : quelques îles résiduelles dans une mer dont le niveau monte
sans cesse.

La frontière comme leurre

Le cas du commerce international montre également à quel point ce n’est pas seu-
lement l’abaissement des frontières (par la diminution des droits de douane, l’affai-
blissement des barrières non tarifaires ou la régulation des échanges) qui caractérise le
moment présent, mais, plus fondamentalement, la perte de pertinence de la notion.
Ce qu’on appelle « commerce vertical » résulte du fait qu’un bien est produit dans plu-
sieurs lieux appartenant à plusieurs pays, chacun contribuant à sa valeur finale. On sait
par exemple que la fabrication d’un iPhone coûte à Apple 179 $ dont seulement 6,5 $
pour l’assemblage chez Foxconn à Shenzhen, en Chine. L’écran et la mémoire produits
au Japon coûtent 59 $ tandis que le processeur, fabriqué en Corée du Sud en vaut 22
et que d’autres entreprises, situées notamment en Europe (dont un ajout de 30$ en
48 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Allemagne), participent aussi à cette chaîne productive13, le reste de la valeur du smart-


phone provenant pour l’essentiel de la contribution, essentiellement immatérielle, des
ingénieurs et des designers d’Apple.
Sous l’impulsion de Pascal Lamy, alors directeur général de l’OMC, de nouvelles ma-
nières de comptabilisation des échanges ont été mises au point sur la base de la valeur ajoutée
grâce à l’analyse de la chaîne de valeur mondiale (Global Value Chain, GVC), qui, au lieu
d’attribuer un bien à un pays sur la seule base de sa mise sur le marché comme produit fini
par une entreprise localisée dans ce pays, prend en compte l’ensemble du processus d’incor-
poration de valeur, impliquant souvent un grand nombre d’entreprises et de pays différents14.
Figure 3. L’archipel du spatiocide2
49 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Ainsi une voiture made in France n’est réellement produite en France qu’aux deux
tiers, tandis qu’inversement, dans de nombreux produits que la France importe, il existe
des composantes françaises significatives, comme dans l’informatique et la télécommu-
nication. La part des services (immatériels) dans les objets industriels se trouve égale-
ment mieux prise en compte, ce qui conduit à relativiser les notions de délocalisation ou
de désindustrialisation couramment appliqués aux pays d’industrialisation ancienne. Les
principaux pays développés voient ainsi la part des services augmenter dans l’ensemble

2
Source : Julien Bousac, <http://obgeographiques.blogspot.com/>.
de leur exportation. Pour la France, par exemple, elle passe d’un tiers à plus de la moitié,
grâce pour l’essentiel à ses services aux entreprises.
Ainsi devons-nous changer de lunettes. Il nous faut prendre en compte l’incapacité de
la carte des États, séparés par des frontières à rendre compte de l’économie d’aujourd’hui.
Nous l’avons accepté pour des entités plus petites et nous calculons la valeur ajoutée d’une
région ou d’une ville, par exemple, sans limiter les calculs aux flux de produit finis. Les
comptabilités nationales permettent d’identifier les chaînes de valeur internes à un pays sans
s’embarrasser des frontières internes. Mais cette fois, le pays, c’est le Monde.

d’autres frontières

Les frontières n’ont pas disparu. Elles perdent de leur signification du fait que ce qui
était mobile ou connectable, les opérateurs, acteurs ou objets, l’est devenu bien davantage
et fait de cette mobilité et de ces connexions un élément majeur de leur productivité. Si
elle n’est pas aveugle, la société à laquelle ces acteurs et ces objets appartiennent finit par
accepter cette liberté. C’est pourquoi les sociétés, qui, elles, demeurent rivées au sol,ne
peuvent plus et ne souhaitent même plus imposer leur fixité à leurs composantes mobiles,
individus et objets.
Dans le même temps, les frontières sont tout de même nécessaires à toutes les échelles
pour déterminer les limites de la responsabilité politique d’une société sur elle-même.
Ledéclin de la géopolitique rend le politique plus fort et l’établissement même d’une société
politique a besoin de savoir qui fait quoi où, à toutes les échelles. Or, quand les sociétés
changent, sous l’effet de l’urbanisation, par exemple, il serait logique que leurs frontières
locales ou régionales changent aussi pour que l’espace des solutions se rapproche de l’espace
des problèmes. Ce n’est jamais facile, mais dans un monde en paix, on peut s’employer à
faire jouer aux frontières un rôle dans l’établissement d’une justice spatiale15. La stabilité des
frontières rend le futur délibérable, leur plasticité le rend réalisable. La paix fait perdre de
50 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

leur intérêt et de leur sens aux frontières nationales mais elle en redonne à celle des villes, des
régions ou des continents.
Prendre conscience des avantages et des inconvénients de se représenter la réalité à l’aide
de discontinuités formalisées nous permet de revenir vers la frontière comme objet spatial
spécifique. Il est historiquement situé et sa définition précise permet a contrario d’aperce-
voir tout ce qui, dans nos environnements, ne peut être pensé sous la figure de la frontière.
L’essentiel reste de faire changer la notion de frontière de catégorie cognitive  : quitter la
métaphysique obsessionnelle de la séparation pour entrer dans l’univers fatigant de l’auto-
invention du monde par ses habitants.
*

1
DEBRAY, Régis, « La frontière, c’est la paix », Le Journal du Dimanche, 14 novembre 2010. Voir
aussi Régis Debray, Éloge des frontières, Paris, Gallimard, 2010
2
Cet article prend appui sur plusieurs travaux déjà publiés, notamment  : Lévy, Jacques, 2014.
« Les limites de la frontière et les limites de ces limites », in Jean Birnbaum (dir.), Repousser les
frontières ?, Paris, Gallimard, p. 67-86.
LÉVY, Jacques, Maitre, Ogier&Romany Thibault, 2016. « Rebattre les cartes. Topographie et topo-
logie dans la cartographie contemporaine », Réseaux, vol. 34-195, p. 17-52.
LÉVY, Jacques, 2020. « Penser la frontière », entretien avec Jean-Thomas Rieu et Sophie Delheaume,
TDCTextes et Documents pour la Classe, mars 2020, p. 6-9.
3
ADORNO, Theodor, Jargon de l’authenticité, Paris, Payot-Rivages, 2009 [1965].
4
LÉVY, Jacques, L’espace légitime, Paris, Presses de Sciences Po, 1994.
5
LÉVY, Jacques, « Au-delà du dis/continu : quelques remarques », EspacesTemps Les Cahiers, Continu/
discontinu. Puissances et impuissances d’un couple, n°82-83, pp. 12-16. Disponible sur :
6
LÉVY-LEBLOND, Jean-Marc, Aux contraires. L’exercice de la pensée et la pratique de la science, Paris,
Gallimard, 1996.
7
KAHN, Sylvain & Lévy, Jacques, 2019. Le pays des Européens, Paris, Odile Jacob.
8
Voir sur ce point les articles « Hyperspatialité » et « Synchorisation » du Dictionnaire de la géogra-
phie et de l’espace des sociétés, Paris, Belin, 2013 (nouvelle édition), dirigé par Jacques Lévy
et Michel Lussault, ainsi que l’ouvrage de Boris Beaude, Internet : changer l’espace changer la
société. Les logiques contemporaines de synchorisation, Paris, FYP, 2012.
9
BUSCAIL, Marie-Pierre, 2015. « L’expression des rapports de pouvoir par et pour l’espace au
Moyen Âge », EspacesTemps.net, février 2015, <http://www.espacestemps.net/articles/rap-
ports – de-pouvoir-moyen-age>.
10
EspacesTemps.net, Traverse « Dulac/Une rencontre spatio-temporelle », octobre 2014, <http://
www.espacestemps.net/articles/une-rencontre-spatio-temporelle>.
11
Voir la carte des restrictions d’accès en Cisjordanie sur le site : <http://www.ochaopt.org> et en
particulier : <https://www.ochaopt.org/sites/default/files/westbank_a0_25_06_2020_final.pdf>
12
Voir Jacques Lévy, « Topologie furtive », EspacesTemps.net, février 2008 <http://www.espaces-
temps.net/articles/topologie-furtive>
51 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

13
Voir YuqingXing, & Neal Detert, «  How iPhone Widens the US Trade Deficitswith PRC  »,
Discussion Paper 10-21, GRIPS, novembre 2010, <http://www3.grips.ac.jp/~pinc/data/10-
21.pdf>.
14
Voir sur ce point les publications de l’OCDE et les travaux de Guillaume Daudin, Christine
Rifflart et Danièle Schweisguth.
15
LÉVY, Jacques, Fauchille , Jean-Nicolas &Póvoas, Ana, Théorie de la justice spatiale. Géographies
du juste et de l’injuste, Paris, Odile Jacob, 2018.
desterritorialização e limites territoriais:
reflexões numa perspectiva latino-americana

Rogério Haesbaert
Geógrafo, Professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade
Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil

Desde pelo menos os anos 1990 fala-se de um mundo fluido e desterritorializado,


redutor de distâncias e debilitador de limites, mas que, paradoxalmente, ao mesmo
tempo vê-se cada vez mais obrigado a encarar seus limites (em múltiplas dimensões,
ressaltando-se aqui a geográfica), com fronteiras onde nunca se construíram tantos
muros. Desse modo, desterritorialização e limites transitam, de forma complexa, entre
o relativo dos contextos espaço-temporais específicos em que se efetivam e imbricam
e o absoluto de visões hegemônicas padronizadas e pretensamente universalizantes.
A leitura e a própria produção de nossos espaços revelam-se assim mais fechadas ou
mais abertas, mais fixas ou mais fluidas, dependendo dos fundamentos políticos, eco-
nômicos e culturais e do contexto geográfico em que cada classe ou grupo social
está inserido.
53 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Este ensaio, ainda que breve diante da complexidade do tema, tem por objetivo
problematizar os processos denominados de desterritorialização no mundo contem-
porâneo, em sua íntima vinculação com a questão dos limites geográficos, concebidos
como inerentes a toda construção espacial e/ou territorial, mas profundamente mar-
cados pelo contexto geo-histórico em que estão situados. Trata-se de revisitar debate
já bastante referido no passado (por exemplo, em Haesbaert, 1995 e 2004, para a
desterritorialização, e em Haesbaert, 2006 e 2016 para os muros/limites fronteiri-
ços), aqui recolocado sob o prisma do chamado pensamento descolonial, de raízes
latino-americanas.
desterritorialização e território: imbróglios conceituais

A dinâmica de (re)produção capitalista, especialmente sob o padrão neoliberal, pro-


move práticas e discursos da fluidez, da deslocalização (de empresas) e da flexibilização das
relações de trabalho. Na verdade, pode-se afirmar que desde seus primórdios o capitalismo
carrega a desterritorialização ao mesmo tempo como produto e condição de sua reprodu-
ção enquanto sistema – vide a “aniquilação do espaço pelo tempo” já apregoada por seu
maior crítico, Karl Marx, ainda no século xix. Este foi um dos primeiros “panos de fundo”
que levou à identificação de processos de desterritorialização, inclusive na obra dos auto-
res considerados “inventores” do termo, Gilles Deleuze e Felix Guattari, ao se referirem
ao poder des-reterritorializador do capitalismo em seu livro “O Anti-Édipo” (Deleuze
e Guattari, 1972). Mas mesmo nesse sentido aparentemente mais específico, referido à
dinâmica do capitalismo, a amplitude da concepção gerou muitas controvérsias, e até hoje
o debate é acirrado.
Esse caráter polissêmico fica bem evidente, por exemplo, no resultado de dois semi-
nários promovidos pelo Departamento de Letras da universidade francesa de Pau, publi-
cado em 2013 no livro “Déterritorialisation, effet de mode ou concept pertinente?”
(“Desterritorialização: efeito de moda ou conceito relevante?”). Segundo os organizadores:

Criado por Gilles Deleuze e Félix Guattari e desenvolvido em seguida no livro “Mil
Platôs”, o conceito de desterritorialização conhece numerosas extensões metafóricas ou
simbólicas, tanto nas artes, línguas, literatura, história, antropologia quanto na sociolo-
gia. [e na Geografia] Mas o sucesso desse conceito carrega em si mesmo seu limite pois o
termo se tornou uma espécie de saco de gatos que cada um utiliza como bem entende, o
que nos leva a perguntar: estamos lidando com um efeito de moda ou com um conceito
relevante? (Albert e Kouvouama, 2013:13, tradução livre)

Após comentarem as várias contribuições do livro, os organizadores concluem:


54 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

... levando em conta as múltiplas perspectivas nas quais o termo desterritorialização


pode ser apreendido, trata-se sem dúvida alguma de um conceito fecundo, que embaça
as distinções entre disciplinas. Mas essa fecundidade não constitui também seu limite ao
referir-se a um pensamento consensual da desterritorialização. Não há o risco de repro-
duzir certas violências epistemológicas? (Albert e Kouvouama, 2013:17, tradução livre)

É nesse sentido que devemos destacar ao mesmo tempo a “fecundidade” de sua ampla
difusão numa área como a Geografia e a especificidade com que o utilizamos, em nosso
campo, buscando certo rigor a fim de não cometer “violências epistemológicas”. Foi assim
que aprofundamos a crítica à polissemia do termo em nosso trabalho “O mito da des-
territorialização” (Haesbaert, 2004). O primeiro dilema a ser superado é o que envolve a
concepção mais ampla de desterritorialização, quando esta, especialmente em seu uso por
outras ciências sociais, se confunde com “desespacialização”.
Muitos acabaram confundindo de tal forma “território” e “espaço (geográfico)” que os
dois se transformaram, ainda que de maneira implícita, praticamente em sinônimos. Muito
dessa confusão proveio de outra simplificação, a do espaço visto apenas a partir do fator
“distância” (física), como se a “superação” ou o debilitamento das distâncias, sobretudo em
seu sentido físico e padronizado, ou como espaço absoluto, significasse desterritorialização.
Assim, um espaço desistoricizado levou a uma concepção demasiado genérica de des-
territorialização como simples superação das distâncias ou redução do peso das condições
espaço-materiais de nossa existência. Diversos outros dilemas conceituais da desterrito-
rialização, nas mais diversas áreas (da Economia aos Estudos Culturais, da Sociologia à
Ciência Política), já foram discutidos (ver, por exemplo, Haesbaert, 2004, especialmente
cap. 5). Na conclusão de “O Mito da Desterritorialização” traçamos um elenco de situa-
ções e/ou de interpretações que correspondem ao sentido “mítico” com que muitos, nas
Ciências Sociais, veem a desterritorialização – “mito”, aqui, no sentido do senso comum
de simplificação, ilusão, fábula ou representação exagerada. Assim, afirmamos que dester-
ritorialização não poderia significar simplesmente:

desmaterialização ou domínio da imaterialidade, dentro de relações predominante-


mente simbólicas e/ou “virtuais”;
“não-presença” ou “desencaixe” espaço-temporal do aqui e do agora, com a “com-
pressão” que confunde o próximo e o distante;
aceleração da mobilidade, com o predomínio da fluidez sobre a estabilidade, numa
sociedade dos fluxos ou das redes;
perda de relevância dos controles espaciais através de limites/fronteiras ou de áreas/
55 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

/zonas bem delimitadas;


“deslocalização” e/ou fragmentação produtiva das grandes empresas e flexibilização
do capital sob o domínio do “capital fictício”, imaterial e “sem pátria”;
aumento do hibridismo cultural desenraizador. (Haesbaert, 2004:366)

Nesse vasto leque de leituras ressalta-se um traço relativamente comum: a despreocu-


pação com uma definição mais clara de território por trás dos discursos sobre a desterri-
torialização. Assim, podemos encontrar desde o território visto como pura materialidade,
substrato físico da ação humana, até o território como sinônimo de uma territorialidade
como referência cultural, eminentemente simbólica.
Dessa forma, fica evidente que para falar de desterritorialização precisamos primeiro
definir território. Dependendo da concepção de território que adotarmos, muda nossa
concepção de desterritorialização, entendida, de modo muito geral, a partir daí, como
a dinâmica de destruição ou abandono de territórios. Isso significa que desterritoriali-
zação não é uma simples “palavra da moda” ou um conceito fluido. Seja como for que
definamos território, não há como entendê-lo sem sua relação com dinâmicas de territo-
rialização, desterritorialização e reterritorialização (Raffestin, 1993) Ainda que de forma
sintética, retomemos algumas breves considerações sobre o conceito de território, antes
de nos determos na relação entre desterritorialização e limites territoriais.
Território, de larga tradição na Geografia Política, em meio a muitas controvér-
sias, é o conceito geográfico que melhor expressa as relações espaço-poder. Desde a
abordagem originária, político-administrativa, no Império Romano (Elden, 2013),
até sua difusão mais ampla, como todo espaço de exercício (e, através dele, geração)
de relações de poder, passando pela difusão na Ciência Política, onde aparece ligado à
esfera da territorialidade estatal, território se firmou como o grande conceito político
da Geografia.
Assim sendo, é claro, conceituar território demanda clareza, antes de tudo, sobre a
concepção de poder que está em jogo, seja como poder restrito à esfera político-militar,
como aquela do Estado moderno enquanto detentor do monopólio da violência legítima,
seja como poder ampliado a todas as relações sociais, como na visão foucaultiana de poder
como “condução de condutas” de toda relação social. À essa leitura foucaultiana, mais
concreta, podemos explicitar ainda o poder simbólico, tão enfatizado por autores como
Pierre Bourdieu. Assim, temos em primeiro lugar as visões mais tradicionais, que ainda
restringem o território às lógicas do poder estatal, seja numa ótica liberal, como esfera da
efetivação de consensos, seja na visão marxista, como âmbito da construção da hegemonia,
aliando coerção policial-militar e consenso ideológico.
56 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Outras leituras, hoje dominantes, ampliam a noção de poder e, com isso, as práticas de
territorialização aparecem associadas a qualquer indivíduo, classe ou grupo social. Assim,
falar de território e des-territorialização é falar também de escala, desde a concepção mais
restrita, que associa o território a uma escala específica e de limites teoricamente bem
definidos, a escala nacional ou do moderno Estado nação, até aquelas mais amplas, que
estendem o território da escala do corpo (o “corpo-território” das feministas indígenas
latino-americanas) até a escala global (o planeta como delimitação de nosso “território-
-mundo”). Associado à questão das escalas geográficas aparece também a questão das esca-
las históricas: no primeiro caso, o conceito de território se restringe ao mundo moderno
(ou, no máximo, desde sua instituição no Império Romano); no segundo, inerente à nossa
condição social em sentido amplo, pode estender-se a toda a história humana.
Outro debate relativamente recente relativo à concepção de território diz respeito não ape-
nas à existência efetiva do território enquanto espaço através do qual se desdobram as práticas
de poder, mas, sobretudo, à sua configuração enquanto instrumento metodológico no entendi-
mento do espaço geográfico. Assim, por exemplo, Lévy (1994) associa-o a uma das “métricas”
fundamentais do espaço geográfico, a “métrica topográfica”, marcada pela exaustividade e a
continuidade/contiguidade em superfície – frente à “métrica topológica” ou das redes1.
Em outra abordagem, distinta mas com algumas vinculações possíveis, que parte de
uma oposição entre território e rede, uma ala importante da Geografia anglófona acabou
defendendo a contraposição entre uma abordagem “territorial” e uma abordagem relacio-
nal (ou conectiva, “em rede”) do espaço geográfico, como se uma abordagem “territorial”
se opusesse a uma abordagem “relacional” (a esse respeito ver, por exemplo, Jonas, 2012).
Centrado numa visão jurídico-estatal de território, Samir Amin (2004) chega a defender
uma “leitura não territorial” da política espacial.
Ao contrário, no nosso ponto de vista, tanto podemos ter os tradicionais territórios-
-zona ou que priorizam o domínio de áreas, Estado nação à frente, quanto os territórios-
-rede, espaços onde a modalidade predominante de controle é a lógica reticular, como em
territórios de grandes corporações transnacionais. Não se trata de território como uma
categoria puramente analítica, mas recheada de conteúdo político, e de relações de poder
para além do poder meramente estatal.
Na verdade, todo espaço geográfico é uma conjugação inseparável de duas grandes
lógicas de des-ordenamento, a lógica zonal e a lógica reticular. E como nem tudo é “lógico”
em termos da organização espacial, inspirados na realidade latino-americana, propusemos
também a consideração dos “aglomerados”, espaços marcados pela ausência de uma lógica
clara de ordenamento ou moldados por uma confusão de lógicas espaciais onde, pelo
menos durante certo período de tempo (como os de grande conflito armado), não há
clareza sobre a lógica espacial predominante.
57 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Apesar do caráter geral desses elementos territoriais, a zona ou área e a rede, comuns tam-
bém ao espaço geográfico em seu conjunto, o mais importante é situar geo-historicamente
suas configurações concretas e pretensões (ou não) de universalização. Daí a relevância,

1
Apesar de trabalhar com esquemas em que essa oposição é evidente, o autor ressalta que há “outra via” para
se trabalhar com a métrica reticular: “redes e territórios estão de fato ligados por uma dupla construção em
abismo [double construciton en abîme]. Um território pode se reduzir em seu funcionamento a uma rede ex-
tremamente densa e, inversamente, a própria ideia de rede supõe um referente territorial. Encontramo-nos
assim frente a uma dupla ao mesmo tempo muito simples e muito produtiva – com territórios e redes damos
a volta no espaço”. (Lévy, 1994:77, tradução livre) Nesse sentido, o que Lévy propõe como distinção entre
métricas territorial e reticular se aproxima muito do que denominamos lógicas espaciais zonal e reticular.
como veremos mais à frente, de identificarmos o território e, em consequência, a desterri-
torialização, contextualizados a partir de sua construção efetiva por determinados sujeitos
sociais e o uso prático da própria designação, como ocorre entre os povos originários e
diversos movimentos sociais na América Latina.

os limites territoriais entre os espaços absoluto e relativo/relacional

A leitura que vincula o território mais a um espaço absoluto e não relacional é, na ver-
dade, outra maneira de simplificar a própria leitura da desterritorialização. Nesse sentido,
a rede, como se fosse a contraface do território, estaria associada a uma visão relacional do
espaço. Enquanto o território teria limites mais definidos e fixos, a rede, eminentemente
desterritorializadora, não estabeleceria limites claros. Demonstramos, entretanto, o quan-
to podemos nos territorializar também “em rede”, pois uma das formas mais disseminadas
hoje, de controle (político, em sentido amplo) do espaço se efetua através do controle
e “canalização” de redes – ou, mais simplesmente, pelo controle de hubs ou de polos de
conexão das redes. Deleuze e Guattari já afirmavam que podemos nos territorializar pela
própria repetição (implicando controle) do movimento.
Como todo conceito, território também é um conceito composto. Para sua compreen-
são, portanto, é preciso analisar seus diversos componentes. Enquanto espaço político, os
elementos do território podem também ser considerados componentes do próprio espaço
geográfico, em sentido amplo. Dois deles já foram mencionados aqui: zonas e redes. Outro
elemento decisivo e que nos interessa mais de perto são os limites e/ou fronteiras – até por-
que uma das definições mais óbvias de desterritorialização é a que a vincula à destruição ou
fragilização dos limites territoriais, ressaltando sua conotação política.
Na verdade, pode-se afirmar, a ação de delimitar é condição inerente a toda constru-
ção de um espaço geográfico. Heidegger (2006[1954]) destacava a importância do limite
não como fim de um fenômeno, mas como “aquilo a partir do qual alguma coisa começa
58 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

a ser (seinWesenbeginnt)”. Nesse sentido, a própria fronteira estatal, para Machado (1998)
não traduz a ideia de fim, “mas de começo do Estado, o lugar para onde ele tende a se
expandir”. (p. 41) O próprio espaço, para Heidegger, “é essencialmente o que foi ‘arranja-
do’ [‘arrumado’], o que se faz entrar no seu limite”. (2006 [1954]:183)2. Ou seja, o limite
demonstra que toda disposição no espaço implica alguma forma de des-ordenamento ou,
como preferimos, de des-articulação espacial. Nos termos de Hissa:

2
Na tradução francesa: “comme les Grecs l’avaient observé, ce à partir de quoi quelque chose commence à
être (sein Wesen beginnt)”; “est essentiellement ce qui a été ‘ménagé’, ce que l’on a fait entrer dans sa limite”.
(grifos no original)
O limite almeja a precisão e se insinua como muro, mas contraditoriamente, atra-
vés da fronteira, apresenta-se como transição, como mundo do permanente vir-a-ser e
da ausência pulsante. Nesses termos, como pensar a fronteira como demarcação entre
domínios? (2002:35)

Latouche (2014), por sua vez, afirma que “a condição humana está circunscrita por
limites” (p. 11). É interessante que, como na crise sanitária do Covid-19, no mundo pós-
-pandemia da gripe espanhola e entreguerras, o escritor Paul Valéry já nos alertava que
“o tempo do mundo finito [em outras palavras, limitado] começa[va]” (apud Latouche,
2014:15). Falar em “época do espaço” é falar não apenas de simultaneidade e “tempo real”
mas também de uma época dos limites.
Em síntese e de modo geral, se o limite ou, mais amplamente, a fronteira3 é um
constituinte imprescindível de todo território, sua transformação ou destruição pode ser
tomada como o primeiro indicador de um processo de desterritorialização. Ocorre que,
como o próprio território, esses limites também podem ser concebidos de diferentes
formas, dependendo da leitura absoluta ou relativa/relacional que fizermos do espaço
em que se dão essas delimitações. Fundamental, portanto, é identificar o grau de fixidez
e impermeabilidade com que são concebidos os territórios enquanto espaços de poder.
Como já vimos, a exemplo dos limites político-administrativos estatais, para os
mais “tradicionais”, os territórios e seu limites portariam, obrigatoriamente, a nega-
ção da relacionalidade, incorporando unicamente uma lógica zonal ou em áreas bem
definidas, contínuas/contíguas e exclusivas, como se o próprio Estado nação não com-
portasse uma multiplicidade de manifestações em termos de soberania territorial e
controles fronteiriços. A China, em seu processo de abertura gradativa e territorial-
mente hierarquizada ao capitalismo evidencia claramente essas geografias múltiplas
do poder estatal.
A leitura não-relacional do território e de seus limites implica, em primeiro lugar, a
separação espaço-tempo e, em consequência, uma visão desistoricizada, abstrata e universal-
59 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

mente homogeneizadora dos processos de des-re-territorialização. É preciso encarar o jogo


entre fixação e mobilidade, extensão/distância e duração/longevidade, nunca totalmente
separáveis, sempre em algum nível de imbricação. Em outras palavras, isso corresponde a
interpretar espaço e tempo como entidades não individualizáveis e inerentes uma à outra.
A famosa afirmação de Michel Foucault de que até o século xx o espaço era tratado
como “o que estava morto, fixo, não dialético, imóvel” frente a um tempo tido como “rico,

3
Para o debate geográfico sobre a distinção entre limite e fronteira ver, entre outros, Machado, 1998.
Retomamos mais amplamente o tema dos limites em Haesbaert, 2016.
fecundo, vivo, dialético” (1979:159), na verdade implicava a dissociação entre espaço e
tempo. Embora o autor não tenha aprofundado esse debate ao longo de sua obra, nem res-
saltado como devia uma concepção relacional de espaço, abriu um grande debate centrado
na consideração de que estaríamos passando da “grande obsessão” pela história e os dilemas
do tempo, no século xix (sintetizada na crença na ideia de progresso, pautada num tempo
único, linear, sem interferência da diversidade espacial), para uma época que “talvez seja a
época do espaço”, “época da simultaneidade”, da “justaposição”, “do perto e do distante,
do lado a lado, do disperso” (Foucault, 1986:22). Nesta, por outro lado, corremos outro
risco, o da sobrevalorização de um espaço destituído de sua densidade temporal, alicerçado
na simultaneidade do “tempo real” vivido, presente. Como já afirmamos, o espaço:

... adquiriu um peso tal que, visto de maneira desproporcional e dicotomizada,


“suplantou o tempo”. (...) “vivemos a pura sincronia”, diz [Fredric] Jameson, um presente
perpétuo – o “puro” espaço que, por não existir nunca como tal, quando isolado do tempo
simplesmente desaparece. Dominados pelo espaço sem tempo – ou, na perspectiva inversa,
pelo tempo sem espaço – , perdemos o “verdadeiro” espaço, que é o espaço densificado pela
história, aberto às novas possibilidades do futuro. (Haesbaert, 2004:155-156)

A questão crucial por trás de qualquer discussão sobre conceitos geográficos é,


assim, a da separação entre espaço e tempo, separação que caracterizou, nos seus
primórdios, a própria demarcação disciplinar entre Geografia e História – a primeira,
num certo estruturalismo braudeliano, considerada responsável até mesmo pela fixação
e pelo retardamento da dinâmica histórica. Filósofos como Merleau-Ponty, entretanto,
destacaram a indissociabilidade entre a “ordem dos coexistentes” (o lado a lado, o “aqui-
-ali” do espaço) e a “ordem dos sucessivos” (“a dimensão passado-presente-futuro” do
tempo). À sua afirmação de que “a segunda permite compreender a primeira” (1999:357),
devemos acrescentar que, de fato, não concedendo prioridade do tempo sobre o espaço,
uma permite compreender a outra.
60 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Dessa relação ou imbricação espaço-tempo é que partem as concepções de espaço


e, em consequência, de limite geográfico absoluto e relativo – ou também relacional,
nos termos de David Harvey. Para Harvey (1994), longe de serem meras abstrações
subjetivas, espaço e tempo são, antes de tudo, construções sociais. Em outras pala-
vras, são também construções político-econômicas e culturais, relativas a cada classe
ou grupo social específico – e, dentro dele, associados às relações étnicas, de gênero,
geracionais etc. Assim, no próprio interior da hegemonia capitalista, Harvey identifica
noções distintas de espaço e tempo, por exemplo, para o industrial e para o investidor
no mercado financeiro.
Aos poucos foi-se percebendo que não era possível impor um único caminho (modelo
geográfico, se quisermos) para a história, sob pena de colocar em xeque a própria diver-
sidade socio-natural do planeta. Custamos a ver que, instrumento para o controle e/ou a
dominação (inclusive da natureza), o caráter absoluto dos limites que compõem o espaço
não podia ser separado do tempo, ou completamente padronizado. Doreen Massey (2008)
chegou mesmo a propor o espaço como um feixe ou imbricação de múltiplas trajetórias
– trajetória implicando a indissociabilidade de espaço e tempo e considerando, assim, a
relatividade/relacionalidade desse espaço.
O espaço, em sua diversidade de “objetos e ações” (como diria Milton Santos), mas
também de símbolos e representações, manifesta-se sobretudo pela relação entre esses obje-
tos, relações que não apenas se dão entre eles, mas são por eles internalizadas, incorporadas.
Assim, um limite fronteiriço entre Estados nações internaliza as relações “entre-nacionais”
envolvidas na sua execução ao mesmo tempo que continua constantemente participando
da concretização de outras dinâmicas (comércio, mobilidade humana, tráficos ...). Nesse
âmbito, a realidade de um contexto geográfico e histórico como a chamada América Latina
carrega especificidades que muito nos ajudam a complexificar nossas concepções, às vezes
simplistas e/ou eurocêntricas, de limites e desterritorialização.

Limites espaço-temporais e desterritorialização:


contribuições latino-americanas

Longe de perspectivas europeias (não obrigatoriamente eurocêntricas) que tanto sepa-


raram, “absolutizaram” (Newton, Descartes), quanto vincularam e relativizaram espaço e
tempo (Leibniz, Einstein, Merleau-Ponty), temos pensamentos ou filosofias outras, inclu-
sive mais antigas, que foram desconsideradas ou menosprezadas pela episteme dominante.
No caso da América Latina, vale a pena retomar, ainda que de forma breve, elementos da
filosofia andina (Estermann, 1998), forjada antes da colonização europeia, para verificar
61 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

como a indissociabilidade espaço-tempo já estava presente e, com ela, a própria vinculação


íntima entre matéria e espírito, como é traduzido na rica expressão quíchua “Pacha”.
Muito distante do espaço absoluto como abstração e delimitação padronizada, na cul-
tura andina o espaço era matéria (lembrando a concepção de espaço como “corpo do tem-
po” [Moreira, 2019], frente ao tempo como imaterial, como espírito. Considerando-se que,
como entre os atuais povos originários, toda a chamada natureza é animada, constituída tam-
bém de alma, essa inseparabilidade é inquestionável. A ordenação do universo se dá em torno
de categorias espaço-temporais sintetizadas no termo “Pacha”, a unidade dual complementar
entre espaço-matéria e tempo-espírito (Arriagada Peters, 2019). Para Estermann (1998):
Filosoficamente, pacha significa el ‘universo ordenado en categorías espacio-tempo-
rales’, pero no simplemente como algo físico y astronómico. (…) pacha es ‘lo que es’, el
todo existente (…). Es una expresión más allá de la bifurcación entre lo visible e invisible,
lo material y inmaterial, lo terrenal y celestial, lo exterior e interior. Contiene como sig-
nificado tanto la temporalidad como la espacialidad. Lo que es, de una y de otra manera,
está en el tiempo y ocupa un lugar (topos). (Estermann, 1998:144-145)

Conceito gerador de vida no espaço-tempo e incorporando a constante mudança da


matéria-espírito, Pacha adquire sua efetividade em geografias específicas:

Pacha liga y re-liga esta unidad [materia/cuerpo-espíritu/alma] a un espacio-tiempo


específico. El término Pacha habla de una vida personal y colectiva, entendida como
unidad [cuerpo-alma], de una forma/idea emplazada en un espacio-tiempo o spacetime
[lembrando o “spime” de Einstein] único y específico. Por lo tanto, la vida de la unidad
[materia/cuerpo-espíritu/alma] y la forma/idea en el Pacha, deben entenderse como rela-
tivas y en mutación permanente. (Arriagada Peters, 2019, disponível on-line)

A partir dessa profunda consciência espaço-temporal e material-espiritual dos


povos originários podemos afirmar que uma das grandes contribuições do pensamento
dito descolonial é justamente ler o espaço como essa densidade/multiplicidade de
tempos acumulados e constantemente refeitos, distintos da colonialidade que impõe
uma visão única e padronizada de tempo e espaço, ou seja, também, de territórios e
limites. Reler e refazer o tempo à luz do espaço presente, objetivando um novo futu-
ro que em hipótese alguma abandone o acúmulo (ainda que seletivo) do passado, é
uma das grandes lições do que se denomina descolonialidade do poder. Ela propõe,
ainda através de uma releitura de concepções pré-coloniais de espaço-tempo, uma
abordagem relacional:
62 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Tiempo, espacio, orden y estratificación [em otras palabras, limites] son elementos
imprescindibles para la relacionalidad del todo. Juntando el aspecto de ‘cosmos’ con el
de ‘relacionalidad’, podemos traducir (que siempre es ‘traicionar’) pacha como “cosmos
interrelacionado” o “relacionalidad cósmica”. (Estermann, 1998:45)

É dentro de uma complexa perspectiva relacional que se concebe e se difunde o cha-


mado pensamento descolonial, formulador de importantes contribuições do pensamento
latino-americano para as ciências sociais contemporâneas. Sem de modo algum menospre-
zar a importância do legado filosófico europeu, critica-se o pensamento que, tomando a
Europa como único centro, pretende formular uma interpretação de mundo excessivamente
padronizadora e universal. Desprezam-se ou simplesmente desconhecem-se outras formas de
pensar o espaço-tempo e, no nosso caso, de pensar a multiplicidade da des-territorialização
e dos limites territoriais, a partir de contextos geo-históricos específicos, como os que foram
construídos através do processo de expansão colonial (seja do colonialismo externo, seja do
colonialismo interno, pós-descolonização político-administrativa em escala nacional).
Verifica-se, por exemplo, que a desterritorialização deve ser tratada não apenas a partir
de seus sujeitos em termos do poder político-econômico (classes) mas também a partir
das relações de poder vinculadas a etnia, gênero e geração. Elas são fundamentais na cons-
trução daquilo que Quijano (1992, 2010) denominou colonialidade do poder, formas
de classificação social (racistas, patriarcais) tão decisivas na construção do poder quanto a
composição por classe socioeconômica. O profundo despojo territorial imposto pelo colo-
nialismo foi baseado não apenas numa estrutura de classes mas também numa estrutura
racial e patriarcal extremamente marcada.
Num olhar latino-americano ou periférico sobre as dinâmicas de desterritorialização perce-
bemos que, ao mesmo tempo que uma decorrência do aumento da mobilidade e da fragilização
de limites e fronteiras, desterritorialização significa uma constante ameaça ao território de um
grupo, a “perda de controle”, de poder efetivo sobre seu espaço no sentido de espaço de uso,
reprodução social e construção de sentido, ou seja, em última instância, sobre o espaço/territó-
rio da própria vida, pois é ela que está em risco diante das relações socioespaciais moldadas pela
colonialidade do poder. Ao contrário de muitos discursos eurocêntricos, a desterritorialização
não está, assim, associada tanto à mobilidade dos grupos hegemônicos (que, muitas vezes, sig-
nifica, ao contrário, uma multiterritorialidade funcional) mas, sobretudo, à precarização social,
ao despojo e/ou expropriação dos grupos subalternos. Desse modo, já havíamos afirmado:

Surpreendentemente, [...] a perspectiva mais especificamente social, que o debate sobre


a desterritorialização deveria priorizar, praticamente não é abordada. Provavelmente
esta negligência, vinculada à leitura crítica que a questão geralmente implica, ligada por
63 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

sua vez à crescente exclusão (ou inclusão precária) promovida pelo capitalismo contem-
porâneo, deve ser associada ao fato de esses discursos serem moldados fundamentalmente
a partir dos países centrais. Pois é justamente a partir de um outro ponto de vista, “peri-
férico”, que gostaríamos de destacar aqui a abordagem que vincula desterritorialização e
exclusão [...], precarização. (Haesbaert, 2004:312)

Diante de uma realidade latino-americana onde a desterritorialização como precari-


zação territorial e a instabilidade/insegurança socioespacial são tão evidentes, foi possí-
vel identificar também os já comentados “aglomerados”, situações espaciais de profunda
instabilidade onde não se define uma lógica territorial (zonal ou reticular) clara. Nesses
espaços de profunda exclusão – ou, como prefere o sociólogo José de Souza Martins
(1997), de inclusão [muito] precária – percebe-se que a luta por território é uma luta
ao mesmo tempo por acesso à terra, enquanto base de reprodução material, e luta por
reconhecimento e/ou manutenção de uma identidade cultural – que, neste caso, pode ser
também territorial.
“Aglomerado”, assim, corresponderia à condição geográfica mais evidente de dester-
ritorialização, associada à dificuldade de delimitações espaciais, manifestando-se geografi-
camente uma confusão instável de limites e/ou fronteiras, como ocorre em determinados
momentos de intensificação de conflitos armados, como aqueles envolvendo militares e
paramilitares na Colômbia ou polícia, milícias e traficantes nas favelas do Rio de Janeiro.
Obviamente essa situação varia muito conforme os sujeitos que estão em jogo: enquanto
para alguns há uma enorme indefinição de limites territoriais na mobilidade, para outros,
dentro do mesmo processo, há uma desterritorialização in situ, “na imobilidade”, através,
por exemplo, da reclusão domiciliar (ou até do toque de recolher, que pode ser imposto
tanto por narcotraficantes quanto pela polícia) e, portanto, da precarização ainda maior
de seu controle territorial.
A precarização da vida material no território, contudo, nem sempre se conjuga com
a perda dos referenciais simbólico-territoriais que também empoderam os grupos sociais.
Esse debilitamento das condições materiais de existência podem até estimular o processo
inverso (com seus riscos e vantagens), com elementos culturais-identitários sendo for-
talecidos a partir da precarização da vida material. Muitos habitantes de favelas latino-
-americanas vivenciam esse processo, às vezes apegando-se em religiosidades retrógradas
mas que lhes concedem alguma segurança emocional. Outras vezes, conjugados na luta
contra essa condição socioeconômica fragilizada, reforçam elos de solidariedade territorial
via identificação, por exemplo, com elementos das culturas indígena ou afro partilhados
por grande parte desses grupos.
De qualquer forma, é fundamental relembrar que a noção de desterritorialização está
64 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

intimamente associada à ideia de limite, de delimitação, pelo simples fato de que quando
os limites do território (que podem representar também segurança e/ou proteção) são
colocados em questão é que a desterritorialização se torna evidente. No que se refere à rea-
lidade latino-americana, especialmente entre os povos originários (ou tradicionais, no caso
brasileiro), e também entre muitos grupos periféricos de grandes metrópoles, o território,
para além de uma categoria analítica, se transforma numa categoria da prática política,
profundamente impregnada nas/das lutas sociais.
Seu sentido amplo (como “territórios de vida”) e sua característica de ferramenta de
luta é fruto, sobretudo, do nível de expropriação geográfica efetuado através do padrão
de acumulação neoextrativista dominante na região (extrativismo que se estende da esfera
natural à financeira). Através dele ocorre como que uma politização de todas as esferas da
existência, quando está colocada em xeque a vida, e não apenas aquela dos grupos sociais
subalternos, mas também a de todos os seres vivos – demandando-se, assim, também, uma
política dos direitos da natureza.
Por isso, numa visão antropológica, cultural, associando desterritorialização e perda de
limites, Nates (2010) define a desterritorialização como “a perda dos limites [linderos] ter-
ritoriais criados a partir de códigos culturais historicamente localizados”. Por outro lado,
considera também como desterritorialização (eu diria, neste caso, des-reterritorialização)
“quando a própria população decide des-fazer as relações territoriais e as representações
espaciais (em nível mítico ou de práticas políticas sobre o território), isto é, quando
uma população decide des-alinhar-se”, exemplificando com o caso da colonização, quan-
do povos autóctones foram (e ainda são) obrigados a reinventar suas referências sim-
bólico-territoriais (e, consequentemente, seus limites) para fazer frente à nova situação
colonizadora. (Nates, 2010:216)
Essa amplitude prático-política com que o refazer de limites territoriais – e a des-
-reterritorialização – impregna a vida latino-americana se reflete sobremaneira nas
múltiplas iniciativas por autonominação dos grupos sociais. Experiências como a de
Cherán (Haesbaert, 2020a), no México, demonstram bem esse jogo territorial por
autonomia no próprio interior da territorialidade estatal hegemônica, encontrando
brechas para, via pluralismo jurídico, elaborar formas de autogestão e outra interação
com a natureza.
O próprio padrão moderno-colonial do capitalismo periférico contemporâneo,
de uma desterritorialização pretensamente ilimitada, demanda essa nova construção
de limites, mais múltipla, especialmente aqueles que, mais flexíveis e moduláveis,
subvertem os espaços absolutos de uma lógica estatal exclusivista. São marcados
por uma inter ou transterritorialidade em que uma mesma delimitação física pode
incluir múltiplos limites em termos de territorialidades sobrepostas, intercambiáveis
65 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

e/ou partilhadas.
No interior dos diversos processos de dominação neoliberal não há como negar,
também, a fragilização e/ou a complexificação e “multiplicação” dos limites estatais,
onde tantas vezes legalidade e ilegalidade se confundem. Regiões inteiras, como no caso
de Colômbia e México, são territorializadas por grupos armados do narcotráfico e/ou
paramilitares – no México agrupados sob a ambígua designação de “autodefesas”. Na
cidade do Rio de Janeiro, recente pesquisa apontou que um quarto dos bairros está nas
mãos das milícias, misto de policiais legais e ilegais, impondo controle não só sobre
vários setores da economia (venda de gás, tevê a cabo, segurança, loteamento imobiliário
comércio de drogas), mas também na política, elegendo seus representantes junto ao
poder instituído e negando acesso a outros políticos nos territórios sob seu comando.
As disputas entre os diversos grupos do narcotráfico entre si, com as milícias e com a
polícia demonstra a grande volatilidade do controle (e dos limites) territoriais em muitas
áreas da cidade.4
Finalmente, uma outra contribuição que um olhar sobre a realidade latino-americana
subalterna pode nos proporcionar sobre o território, a des-territorialização e seus limites,
é a concepção de corpo-território. Partindo da ação de grupos subalternos cujo nível de
expropriação e violência a que estão sujeitos alcança muitas vezes a escala do corpo, movi-
mentos indígenas e/ou feministas organizaram diversas lutas com base na resistência cen-
trada no próprio corpo, entendido de modo relacional e, assim, intimamente vinculado
ao meio, ao espaço – inclusive natural – do qual faz parte e no qual se insere (para um
detalhamento dessa concepção ver Haesbaert, 2020b). Trata-se, sem dúvida, da proposi-
ção mais desafiadora à “descorporificação” do território em muitas leituras hegemônicas,
feita a partir de lutas sociais muito concretas.

sintetizando

Em termos gerais, desterritorialização se torna uma simplificação quando se ignora,


como já afirmamos, que toda desterritorialização vem acompanhada, sempre, de reterri-
torialização (Deleuze e Guattari, 1996 [1980], Raffestin, 1993 [1980]), sendo, portanto,
indissociáveis uma da outra. A questão é apenas do predomínio de uma dessas dinâmicas.
Nesse sentido, não há como definir território, especialmente numa perspectiva relacio-
nal, sem entendê-lo, concomitantemente, envolvido em processos de territorialização-
-desterritorialização-reterritorialização (a tríade TDR). Por seu caráter inseparável, é con-
veniente utilizar o termo sempre com hífen: des-territorialização. Por outro lado, desterri-
torialização corresponde a uma noção exagerada quando se refere a processos genéricos de
66 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

“desmaterialização” ou plena compressão do espaço-tempo, como se território pudesse ser


tratado genericamente como sinônimo de espaço material ou de espaço-superfície, zonal,
dotado de continuidade e homogeneidade.
Em síntese, temos duas possibilidades de conceber desterritorialização:

4
Para o mapa das áreas dominadas por cada grupo armado ver o “Mapa dos Grupos Armados do Rio
de Janeiro”, disponível em https://nev.prp.usp.br/mapa-dos-grupos-armados-do-rio-de-janeiro/. Para
um balanço, ainda que jornalístico, de pesquisa sobre esses territórios, ver https://g1.globo.com/rj/rio-
-de-janeiro/noticia/2020/10/19/rio-tem-37-milhoes-de-habitantes-em-areas-dominadas-pelo-crime-
-organizado-milicia-controla-57percent-da-area-da-cidade-diz-estudo.ghtml
em sentido geral, um pouco como na expressão filosófica deleuziana de “linha de fuga”,
ou, geográfica e sociologicamente, como todo processo de saída/abandono, destruição
e/ou debilitamento territorial, dinâmica inerente a todo processo sociopolítico;
em sentido estrito, geográfica e sociologicamente, como precarização – ou perda
de controle – territorial, já que ausência completa de território nunca irá ocorrer, o
controle do ou o poder sobre o espaço – a começar pelo nosso corpo e seu entorno
– como condição básica de nossa existência.

A segunda possibilidade, é claro, não exclui a primeira, apenas destaca, dentro dela,
um processo normalmente pouco enfatizado. Essa precarização, como ressaltamos, tão
evidente para o caso latino-americano, alia perda de controle tanto das condições materiais
quanto simbólicas da existência, já que para muitos grupos o espaço está impregnado de
simbolismos identitários. No caso dos povos originários isso é muito evidente, já que são
dotados, quase sempre, de um forte laço territorial que os empodera enquanto espaço de
referência identitária.
Vinculando os conceitos de território, limites territoriais e desterritorialização,
como uma espécie de pano de fundo, encontramos o espaço geográfico e as relações
de poder, já que território, pelo próprio histórico do conceito ao longo da história do
pensamento geográfico, está sempre associado à espacialização das relações de poder.
Vimos, portanto, que território e, consequentemente, des-territorialização (com hífen),
não podem ser concebidos sem uma definição mais clara do que entendemos por poder,
pois dependendo da concepção de poder muda a ideia de território à qual estamos
nos referindo.
Podemos ter desde o conceito de território como entidade meramente estatal, prove-
niente do poder político em seu sentido moderno mais estrito, até como entidade geográfica
que molda todas as nossas práticas, de um poder inerente à toda “condução de condutas”,
simplificando a complexa concepção de poder de Michel Foucault. Longe, porém, de
mero caráter funcional, o território abriga o poder em sua multidimensionalidade, o que
67 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

implica considerar, por exemplo, suas dimensões econômica e simbólica (muitas vezes
intimamente conjugadas), cada vez mais relevantes.
Quanto ao limite territorial, como uma modalidade de limite geográfico centrado
nas relações de poder, ele é um constituinte inerente a todo território e, portanto, foco
central em todo processo que objetiva abandonar, destruir ou transformar um territó-
rio – ou seja, em toda dinâmica de des-territorialização. Mas é importante considerar
que, como o poder espacializado, em suas múltiplas dimensões, se exerce tanto sobre
áreas ou zonas quanto sobre redes e polos de conexão (como os hubs de comunicação/
/informação, cada vez mais estratégicos), os limites, no sentido concreto, podem ser
mais ou menos definidos, incluindo tanto processos de zonificação (que ainda assim
podem admitir sobreposição de domínios) quanto de contenção (efeito barragem) e
“canalização” de fluxos (Haesbaert, 2014).
Finalmente, longe de uma proposição teórica destituída de “chão”, da base concreta em
que é concebida, demonstramos como um contexto geo-histórico como o latino-americano
interfere em nossa construção conceitual, especialmente através do elo, também indisso-
ciável, entre des-territorialização/território/limite como categorias analíticas da Geografia
e como categorias da prática em sua utilização efetiva, além de categorias normativas, em
projetos políticos hegemônicos e/ou subalternos. Muito provavelmente a América Latina
é o continente em que mais se difundiu a categoria território como instrumento de luta
pelos movimentos sociais, a tal ponto que a (re)definição de limites políticos tornou-se
fundamental nas dinâmicas des-reterritorializadoras em busca de maior autonomia.
Embora grande parte desses limites ainda seja recomposta dentro do padrão das
lógicas territoriais zonais estatais, novos rearranjos têm sido conquistados em termos de
autonomia territorial, dentro de um sistema multiescalar e de pluralismo jurídico. Por
outro lado, entretanto, não podemos esquecer que a América Latina é também um dos
espaços com maiores níveis de desigualdade socioeconômica e violência em todo o mun-
do. Nesse sentido, juntamente com as lutas por autonomia e conquista de novas formas de
controle jurídico-político territorial, como vimos, temos os conflitos por território capita-
neados por poderes ditos paralelos mas que, na verdade, também se compõem, de forma
ainda mais autoritária, heterônoma, com os poderes tradicionais do Estado. Metrópoles e
regiões inteiras sofrem com esses processos constantes de des-reterritorialização em função
da disputa entre grupos armados que, contraditoriamente, portam o discurso prioritário
de garantia da segurança à população.
Contudo, a busca por autonomia numa visão integrada e multi ou transescalar de
território, é certamente o mais importante legado de uma perspectiva latino-ameri-
cana sobre o tema. Neste caso, um dos maiores desafios é, em primeiro lugar, refazer
as relações de poder de modo muito mais justo e igualitário. Isso passa, obrigatoria-
68 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

mente, por uma outra leitura do território (um “território do(s) comum(ns)”, como
defendemos em relação a Cherán [Haesbaert, 2018a]) e de seus limites. Tal como na
instituição de uma sociedade mais autônoma, proposta por Castoriadis (1982), trata-
-se da construção de territórios cujos limites (internos ou externos) tenham flexibili-
dade suficiente para serem repostos, des-reterritorializados, toda vez que a sociedade
em questão reconhecer, por consenso, a necessidade de um novo arranjo, respeitando
a interação com a territorialização de seus vizinhos. Em síntese, e a partir dessa pers-
pectiva podemos afirmar que (des)territorialização envolve o poder de conceber/viver/
refazer nossos limites espaciais, geográficos.
Trata-se, no fundo, de lutas que desafiam as concepções tradicionais, eurocentra-
das, de conceber o território, os limites territoriais e a desterritorialização. Ainda que
continuem dominados por uma territorialidade estatal de relações de poder pretensa-
mente homogeneizantes e universais, com limites/fronteiras exclusivistas, absolutos,
esses movimentos encontram brechas no sistema jurídico e, jogando com múltiplas
escalas (que incluem convenções da ONU), propõem outras lógicas, relacionais, de
limites e articulações territoriais. Alguns grupos indígenas, como os guarani da fron-
teira Brasil-Paraguai-Argentina-Bolívia reivindicam mesmo o reconhecimento de sua
condição como povos transterritoriais. Devemos estar muito atentos a experiências
des-reterritorializadoras como essas, que veem o território como território de vida,
pois têm consciência de que o modelo de poder hegemônico ameaça, em primeiro
lugar, nossa própria existência. Defender dinâmicas reterritorializadoras mais autô-
nomas, numa concepção múltipla e relacional de nossos limites territoriais, significa
gerir o conjunto das condições, inclusive ecológicas, que garantem nossa sobrevivência
no planeta.

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a Natureza das fronteiras
e as fronteiras da Natureza

Lúcio Cunha
Universidade de Coimbra; CEGOT, CEI e Departamento de Geografia e Turismo

O conceito de fronteira, particularmente quando o termo é utilizado no seu sentido


mais restrito, o da fronteira política, está associado sempre às ideias de separação, des-
continuidade e demarcação, através de uma linha física ou imaginária, constituindo um
elemento importante do Direito Internacional (URIARTE, 1994, citado por JACINTO,
1995). No entanto, do ponto de vista geográfico, mais que entidade linear, a fronteira
tende a ser uma construção complexa que marca a sobreposição de distintas delimitações
(geopolítica, económica, social, cultural, religiosa, étnica, biofísica), cada qual com a sua
própria função, significado e territorialidade (NUNES, 2016).
A fronteira, como linha de separação de estados, mais ou menos rígida ou permeável,
mais ou menos sensível na paisagem, cumpre assim um importante papel na Geografia, nas
relações entre os povos e, consequentemente, nos seus territórios, como a crise pandémica
71 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

que actualmente vivemos nos mostra à escala global e, mesmo, à escala da União Europeia.
O medo e a tentativa de resistência ao contágio tornaram fronteiras transparentes e mais ou
menos permeáveis, em fronteiras opacas e de transposição difícil para as pessoas, para os bens
económicos e por vezes mesmo para as ideias e para uma cultura que se pretendia comum.
Fronteiras fluidas passaram, no curto tempo de alguns dias, a fronteiras rígidas que “pren-
dem” fora dos seus espaços naturais, viajantes e trabalhadores, mercadorias e bens, pondo em
causa a ordem internacional e o funcionamento liberal do Mundo, apesar de todas as mani-
festações de cooperação, entreajuda e solidariedade internacionais. Como referiu RIBEIRO
(2003) as fronteiras intra-europeias foram-se dissipando, ao mesmo tempo que outras se
foram reforçando ou emergindo, mas a crise pandémica que vivemos, serviu, entre muitas
outras coisas, para nos recordar a importância dos estados-nação, da necessidade de articu-
lação identidade/alteridade (nós e os outros) dentro e fora do espaço da União Europeia.
Como referiu a Autora, “a construção europeia far-se-á na simbiose do uno e do múltiplo”
(KASTORYANO, 2000), “…far-se-á também no imaginário ou não se fará…” (BOIA,
1998) e, citando MORIN (1987), “… a metamorfose está inacabada”. Estava-o há 40 e há
20 anos atrás e, como ficou demonstrado pelo exemplo da crise pandémica actual, assim
continua hoje. Com a construção europeia as fronteiras foram mudando de significado, mas
nunca perderam verdadeiramente o seu significado (pecado) original, o de separar, dividir e
demarcar, para no seu interior, continuar a agregar, identificar e unir.
Aquilo que é verdade em relação às fronteiras físicas e materiais, como é o caso
das fronteiras políticas, é também verdade naturalmente, a outras escalas e com outras
repercussões, para as fronteiras conceptuais, as das ideias, das ciências, das disciplinas e
dos métodos que as servem.
Com esta nota despretensiosa sobre as fronteiras da (e na) Natureza temos três ob-
jectivos principais: por um lado, debater o conceito de fronteira na sua aplicação aos
problemas da Natureza e do Ambiente e, ao fazê-lo, tentar situar a Geografia, enquanto
ciência de charneira (e, nalgumas situações, também de fronteira) entre a Natureza e a
Sociedade; por outro lado, pretende-se, numa perspectiva mais prática, reflectir sobre as
fronteiras que a Natureza coloca às suas várias geografias ao longo do tempo e do espaço;
finalmente, é também nossa intenção debater para alguns exemplos locais de regiões de
fronteira política no nosso país, o modo como a Natureza tem significado na sua dinâ-
mica territorial, no desenvolvimento endógeno e na valorização local.

Fronteiras entre Natureza e Sociedade e entre Geografia Física


e Geografia Humana.
72 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

A Geografia é uma das ciências que estuda a relação Sociedade – Natureza (CUNHA, 1991).
Procurando uma definição recente, num dos mais recentes dicionários de Geografia Aplicada
entende-se que a Geografia “é a ciência do território, sendo este entendido como uma constru-
ção social e o resultado das interacções e interdependências entre a Natureza e a Sociedade, que
analisa, explica e representa as diversas paisagens da Terra (VINUESA e BARAJAS, 2016). Esta
perspectiva aplicada não pode deixar de colocar o território no centro do objecto geográfico,
pois ele é o objecto da acção, através do planeamento e do ordenamento que, de algum modo,
procuram articular os dados da Natureza e do Ambiente, pondo-os ao serviço da Sociedade e das
pessoas. Por outro lado, a necessidade de articular Sociedade e Natureza nos estudos geográficos,
além de um desígnio de aplicação, estende-se naturalmente à Geografia teórica, dando corpo a
muitos outros conceitos consagrados, como os conceitos de paisagem e lugar, ou de conceitos
mais recentemente utilizados como os conceitos de risco, de impacte ambiental, de sustentabili-
dade, para referir apenas mais indiscutíveis (CUNHA, 2011).
Uma das principais pensadoras brasileiras na área da Geografia Física, Dirce
SUERTEGARAY (2010), tomando como base a investigação que desenvolve nos areais
gaúchos, apresenta a relação Natureza – Sociedade, numa perspectiva de percurso meto-
dológico, do seguinte modo:

“Considera-se a Natureza como componente analítico central. Conforme o gráfico,


ela toma um sentido retilíneo e verticalizado, no qual a flecha indica aprofundamento
analítico sob esta perspectiva. A sociedade é visualizada como flecha sinuosa, com es-
paços temporais de aproximação e articulação e espaços de distanciamento (momentos
de pesquisa), que se sucedem e se complexificam. Natureza e Sociedade nunca estão em
paralelo, uma não subtrai a outra”.

73 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Fig. 1 – As relações entre Natureza e Sociedade na Geografia Física, numa adaptação da uma figura
de Suertegaray (2010) e a posição da Geografia (ponteado).
Onde se situa a Geografia (Física) neste discurso metodológico? Como é que esta
ciência concilia os estudos da Natureza com os da Sociedade para fazer o seu percurso
analítico, metodológico e discursivo?
Podemos pensar a Geografia Física como tendo um percurso que vai da Natureza
para a Sociedade. O estudo dos recursos naturais, dos impactes ambientais e dos ris-
cos vão nesse sentido. O geógrafo (físico), para além de procurar analisar a expressão
espacial do funcionamento dos sistemas naturais, procura avaliar recursos naturais
(minerais e não minerais; da terra, da água, do ar, da vida e do solo; renováveis ou
não renováveis) para o funcionamento económico e social, ao mesmo tempo que pro-
cura compreender os impactes sobre o Ambiente que resultam desta sua intervenção
extractiva e, por vezes, mesmo predadora, bem como os riscos que resultam do modo
como o Ambiente e a evolução, por vezes violenta e inesperada, da Natureza se faz em
face do Ser Humano e da Sociedade. Por seu turno, a Geografia Humana preocupa-se
mais com a organização espacial da Sociedade, o modo como ocupa os espaços natu-
rais e os transforma em territórios, analisando as modalidades de ocupação (urbana,
rural, industrial, turística), os fluxos relacionais que se estabelecem, o funcionamento
dos serviços estabelecidos.
Em qualquer dos seus dois ramos, a Geografia, física ou humana, estuda a interacção
Natureza e Sociedade e quase podemos dizer que apenas o foco de abordagem muda: da
Natureza para a Sociedade, na Geografia Física, e da Sociedade para a Natureza, no caso
da Geografia Humana. Por isso hoje é forte a tendência (teórica) para deixar de falar em
Geografia Física e Geografia Humana, para pensar apenas em termos de Geografia, cujo
objecto de estudo se encontra nas múltiplas facetas dos territórios e das paisagens e cujos
percursos metodológicos são diversos, complexos e que se entrecruzam com os das ciências
naturais e sociais...
Na perspectiva de SUERTEGARAY (ob. cit.), o campo de trabalho de Geografia
Física entre dois percursos, o da Natureza e o Sociedade que “nunca estão em paralelo…
ou seja em que “um não subtrai o outro” vai-se abrindo ou estreitando, à medida que
74 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

a leitura social dos fenómenos se afasta ou se aproxima, em termos teóricos e metodo-


lógicos, da leitura da Natureza. Se entendermos extrapolar o seu modo de pensar para
o conjunto da Geografia, ou seja se deixarmos de considerar as metodologias geográ-
ficas de análise da natureza com um carácter rectilíneo, mas se as considerarmos, tal
como as abordagens dos fenómenos sociais, com um carácter sinuoso, então teremos
uma espaço de objecto e de método para a Geografia que ora se alarga, quando os
estudos da natureza e da sociedade se afastam, ora se junta, quando os estudos da na-
tureza e da sociedade se aproximam. Esta aproximação pode também significar refor-
ço científico da Geografia enquanto todo científico, enquanto as fases de afastamento
significam um enriquecimento, especialização e aprofundamento das suas várias disci-
plinas (Geomorfologia, Climatologia, Geografia urbana, Geografia aplicada, entre ou-
tras), mas um enfraquecimento da Geografia, enquanto todo científico.

Fronteiras na Natureza e na construção das paisagens

Embora a fronteira tenha um significado essencialmente político, logo social, a


Natureza, os seus elementos, processos e sistemas têm também os seus divisores ou linhas
de demarcação, que assinalam limiares de evolução de carácter geológico, geomorfológico,
climático, biológico, hidrológico e pedológico. Num tempo de forte influência antrópica
sobre os processos da Natureza, essas linhas divisórias, essas fronteiras naturais esbatem-
-se muitas vezes em função da imposição dos processos económicos e sociais e das suas
marcas sobre territórios e paisagens. Por exemplo, uma paisagem urbana apenas mantém
da Natureza os marcadores maiores (relevo e rios principais), logo também os seus limites
(fronteiras?), e mesmo esses são alterados pela evolução da marca antrópica, sobretudo
quando ela é muito forte, como acontece com os espaços urbanos. Os restantes elementos
da Natureza, como a geologia, a vegetação, os solos, o clima deixam de ter reflectida na
paisagem a sua influência. Raras vezes a geologia e a vegetação natural são directamente
aproveitadas na cidade, e, do ponto de vista climático, a força da cidade cria, pouco a
pouco, os seus próprios sistemas e resultados.
Para além da separação entre a atmosfera e a litosfera, talvez que a grande fronteira na
Natureza esteja na linha que separa continentes e oceanos, ou seja na chamada linha de costa.
Não é, qualquer que seja a escala temporal considerada, uma linha absolutamente fixa aquela
que separa o mundo das águas do mundo das terras, mas ainda assim, ela é bem conhecida
e ao contrário das fronteiras marcadas em terra, parece ter hoje o condão de atrair, mais do
que de separar, estes dois mundos. Esta linha de fronteira natural, a linha de costa evolui à
escala dos milhões de anos, à escala geológica que tem ditado a posição relativa na superfície
75 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

da Terra de continentes e oceanos, à escala das centenas e dezenas de milhares de anos com
as flutuações quaternárias do nível do mar, devidas essencialmente ao glacio-eustatismo, à
escala do tempo histórico dos milhares ou das centenas e dezenas de anos, muitas vezes já
por imposição da dinâmica antrópica, como é o caso das alterações dinâmicas da linha de
costa provocadas pelas muitas obras que aí são operadas por imperativos económicos portu-
ários, turísticos, urbanos e industriais. Esta linha de fronteira natural vai continuar instável
e, a manter-se a situação poluente que o actual modelo de desenvolvimento determina, as
alterações climáticas poderão provocar, até final deste século, um aumento de nível médio
das águas do mar que se situará entre os 40 e os 80 cm, conforme se sigam os modelos mais
optimistas ou mais pessimistas (IPCC, 2014). Esta evolução na vertical, com valores que
parecem reduzidos e até quase insignificantes, pode traduzir uma evolução na horizontal
da ordem das centenas de metros, que não deixará de criar problemas sérios às cidades e às
instalações costeiras, sobretudo em tempos de tempestade.
Para além desta linha divisória maior, em termos gerais e a uma escala pequena (dos
continentes, das grandes regiões ou dos países) permanecem bem marcadas outras frontei-
ras naturais que, na paisagem, delimitam as grandes linhas geológicas, sejam elas as linhas
tectónicas maiores, sejam os contornos ou limites dos diferentes tipos de afloramentos.
No caso português, por exemplo, são bem patentes na paisagem os confrontos das rochas
graníticas com as rochas xistosas e quartzíticas, no Maciço Hespérico, ou dos calcários,
com as margas e arenitos, nas orlas mesocenozóicas. Juntamente com as linhas tectónicas
maiores, estes confrontos justificam compartimentos geomorfológicos regionais, como as
serras e os seus desenhos cartográficos gerais, assim como os aspectos de pormenor que
delimitam, quase sempre, paisagens vegetais e antrópicas suficientemente contrastadas.
Ainda utilizando o caso português como exemplo, o mesmo acontece com as pai-
sagens vegetais, particularmente com aquelas que marcam as diferenças entre os climas
mais marcadamente mediterrâneos do Sul com os climas ainda mediterrâneos, mas com
feição mais atlântica, do Noroeste. Ou com o zonamento altitudinal da vegetação em al-
titude bem marcado nas principais montanhas, como é o caso da Serra da Estrela (Jansen,
2002), em que com base nos limiares hipsométricos dos 900 e dos 1600 metros, se distin-
guem claramente os andares mesotemperado, supra temperado e orotemperado, quando
se sobe vertente noroeste da Serra, e os andares mesomediterrâneo, supra mediterrâneo e
orotemperado, quando se sobe a vertente sudeste.
Aumentando a escala, ou seja aumentando o pormenor da análise, outras fronteiras
surgem no arranjo do espaço e no modo como a Sociedade o transforma em território.
Neste caso, o relevo de pormenor, o traçado dos rios ou mesmo o desenho das áreas flo-
restais podem marcar diferenças de utilização, de valorização social e de apropriação da
Terra que estabelecem fronteiras com diferentes significados ao longo do tempo histórico,
76 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

parecendo, pelo menos no caso português, progressivamente menos vincadas, mais per-
meáveis e até menos visíveis ou perceptíveis com o passar do tempo. Sirva como exemplo
simples o papel do relevo na selecção dos locais de implantação dos castelos medievais que
estão, se não na origem de muitas das principais cidades, pelo menos na matriz estrutural
da malha urbana em que, em tempos de conflito, a insuficiência da fronteira natural era
suprida com a construção de muralhas artificiais. Outro exemplo está na importância que
os rios tiveram e vão tendo no desenvolvimento urbano das principais cidades litorais,
inicialmente com progressivo desenvolvimento urbano das suas margens direitas (Porto,
Coimbra, Lisboa, Setúbal, para referir apenas os exemplos mais óbvios) e que, nos tempos
mais recentes, com o progressivo aumento das facilidades de atravessamento, com uma
difusão ou um espalhamento para as duas margens, ainda que com claras diferenciações
funcionais e sociais, que mostram a importância histórica da barreira fluvial, como fron-
teira de um espaço urbano.

a Natureza e o ambiente em regiões de fronteira

Voltando às fronteiras convencionais, às fronteiras políticas, que funcionaram ao


longo dos tempos e funcionam hoje ainda como linhas divisórias e, por vezes, mesmo,
como linhas de tensão, para não dizer mesmo de conflito, não surpreende que delas fu-
gissem as populações, as actividades económicas principais e o desenvolvimento, no seu
sentido convencional.
Portugal é um dos países com fronteiras mais antigas na Europa e no Mundo (século
XIII; Gaspar, 1991; Medeiros, 2005) e isso ditou, de algum modo, a sua evolução no contex-
to internacional, nomeadamente no que diz respeito à sua histórica periferia em relação aos
restantes países europeus e à consequente(?) “vocação” atlântica. Com a entrada de Portugal
na Comunidade Económica Europeia em 1986 e com a abertura formal das fronteiras em
1993, mudam atitudes e geografias na fronteira com Espanha, sobretudo a nível local, com
as pequenas cidades de um e de outro lado a cooperarem, a complementarem-se e a valori-
zarem-se mutuamente (MEDEIROS, 2005). Aos poucos a fronteira que separava, aproxima
as gentes, aumenta as oportunidades de negócio, favorece a entrada de verbas europeias para
projectos transfronteiriços, ou seja promove algum desenvolvimento local.
E, o que fica da velha fronteira? Fica um rico património militar de fortificações e
pequenos castelos, ficam histórias e rotas ligadas ao contrabando, ficam paisagens natu-
rais pouco utilizadas, pouco degradadas, por vezes majestosas e ambientalmente conser-
vadas. É destas que importa falar: talvez não exista aqui verdadeiramente uma “Natureza
natural”, no sentido de VEYRET (2000), mas o Ambiente e a Natureza são muito impor-
77 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

tantes para os de dentro, os autóctones, e para os de fora, os visitantes. Para os de dentro na


construção e na reconstrução de lugares e no favorecimento da identidade das populações
(CUNHA, 2008); para os de fora, na visita, na contemplação, na fruição, na recuperação
interior de imagens e identidades perdidas. Por isso o turismo vai restando como motor
para um desenvolvimento local que tarda em chegar à região fronteiriça, despovoada,
envelhecida, enfraquecida e despida de instrumentos de valorização económica, social e
cultural (CUNHA, 1995). Algumas tentativas, particularmente ao nível do turismo local,
são mais ou menos bem sucedidas, mas incapazes de devolver aos territórios rurais raianos
a sua dignidade, a sua força e o seu papel numa rede territorial estruturada e articulada.
O último meio século, ou seja os tempos posteriores à forte emigração das áreas rurais
do interior para uma Europa em crescimento rápido, foram tempos de uma profunda
mudança para o Interior do país, em geral, e para as regiões raianas em particular. Morre
aos poucos a agricultura tradicional e a economia agro-silvo-pastoril de muito fraco rendi-
mento (ALMEIDA, 2012). Os pequenos centros urbanos e as aldeias perdem as escolas,
os centros de saúde, os serviços básicos (correios, por exemplo), os postos das forças de
segurança. A entrada no espaço e na modernidade da Europa não contribuiu para uma
recuperação dos espaços raianos, que hoje, mais do que espaços de “baixa densidade” de-
mográfica e económica, são, sobretudo, espaços de abandono político, económico e social.
A entrada numa Europa desenvolvida, que se pretende solidária e justa, de coesão entre
países e os seus territórios, não estancou no nosso país o processo geral de abandono do
Interior e das áreas raianas, em particular.
A fronteira terrestre com Espanha tem uma extensão de 1215 Km (cerca de 60% do
contorno do país) e, pela sua antiguidade está, em grande parte, assente em acidentes na-
turais (cursos de água – a raia molhada, que corresponde a cerca de 2/3 – e a raia seca que,
por vezes, corresponde também a acidentes físicos, como acontece com algumas linhas de
festo serranas. Referindo-se à dinâmica das áreas fronteiriças portuguesas, (GUICHARD
1990, citado por MEDEIROS, 2005) refere que “o abandono a que foram votadas, na sua
generalidade, as áreas de fronteira, permite também a promoção, sob a forma de parques
ou reservas naturais de vastos espaços, mais ou menos tocados pela vida rural”, mas com
enorme significado geossistémico e ecológico (CUNHA, 2002).
As áreas protegidas de âmbito nacional, que correspondem a cerca de 8% do territó-
rio do continente nacional, concentram-se junto ao oceano e na linha de fronteira com
Espanha, onde numa extensão de cerca de 1215 km, mais de 430 Km, ou seja mais de
1/3 está integrada em áreas formalmente protegidas de âmbito nacional (Parque Nacional
da Peneda-Gerês, Parques Naturais do Montesinho, do Douro Internacional, do Tejo
Internacional, da Serra de S. Mamede e do Guadiana, e Reservas Naturais da Serra da
Malcata e do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António. Por vezes, estes parques
78 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

têm mesmo correspondência do outro lado da fronteira, como acontece com o Parque de
Baixa Limia-Serra do Xurés, que emparelha com o Parque Nacional da Peneda-Gerês, ou
com o Parque Natural de Arribes del Duero que emparelha com o nosso Parque Natural
do Douro Internacional. Nestes e noutros casos, se não há verdadeiramente uma gestão
comum, há pelo menos muitos pontos de acordo e de gestão partilhada nos espaços de
conservação da Natureza transfronteiriços.
É difícil saber se o estado de abandono da agricultura e do mundo rural, em geral, ou
seja a diminuição da pressão sobre a Terra promove ou não a recuperação dos geossiste-
mas naturais (BERTRAND e BERTRAND, 2002; PASSOS, 2006 e 2011), do coberto
vegetal autóctone e o retorno da fauna selvagem, até porque o envelhecimento e a rarefac-
ção dos “jardineiros da Natureza” – os agricultores – e das suas tarefas do dia a dia, a par
com as mudanças estruturais da floresta, acabam por se transformar também em forças
de degradação, como mostra o exemplo, cada vez mais frequente, dos incêndios florestais
numa floresta de tendência mono-específica (eucaliptos ou, quando muito pinheiros e
eucaliptos) que substituiu não só os antigos espaços florestais, mas também os terrenos
agrícolas progressivamente abandonados.

conclusão

O conceito de fronteira é um conceito essencialmente político, logo social e econó-


mico, mas que tem vindo a ser transposto para todos os fenómenos antrópicos e, mesmo,
naturais, com o significado de descontinuidade, de demarcação e de separação, com base
em modos de funcionamento e em limiares característicos, dos dois ou mais lados em
confronto. Não admira, assim, que as fronteiras sejam dinâmicas, evoluam e mudem de
localização com o tempo, ao sabor das mudanças conjunturais das circunstâncias e dos
fenómenos que as justificam. Por isso, este conceito de fronteira é tão geográfico e tão
útil, tanto em termos teóricos como aplicados, numa ciência como a Geografia, que se
assume como uma ciência de charneira ou articulação da expressão espacial da Natureza,
da Sociedade e, sobretudo, da sua interacção.
Assim, entende-se que a Natureza, mais ou menos natural, também tem as suas fron-
teiras, que estas têm uma evolução temporal a diferentes escalas muito significativa e
que desempenham um papel relevante na construção das paisagens, dos ambientes e dos
territórios.
No caso português, as dinâmicas sociais das regiões de fronteira do último meio
século ou, talvez melhor, das últimas seis décadas, impuseram dinâmicas naturais que
justificam modificações acentuadas nos geossistemas e nos ecossistemas. As dinâmicas
79 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

económicas de abandono progressivo da raia fronteiriça e a perda de significado da


agricultura e das actividades rurais, trouxeram alterações profundas ao mundo rural, aos
espaços florestais e às paisagens associadas. Paisagens de produção numa economia rural
tripartida (agricultura, pecuária e silvicultura), passaram a paisagens de risco (as matas
de pinheiros e eucaliptos e os inerentes incêndios florestais) ou, nos casos mais felizes, a
paisagens de conservação, como acontece com as áreas de conservação da Natureza que
a estas áreas estão hoje associadas.
A fronteira continua, assim, a cumprir o seu papel divisor, mas também estruturador
de paisagens e territórios.
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81 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território


os limites da cidade & outras fronteiras

Álvaro Domingues
Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da
Universidade do Porto (FAUP)

Com a publicação de “Order in Diversity: Community Without Propinquity” (1963) e


“The Urban Place and the Nonplace Urban Realm” (1964), Melvin Webber perturbou defi-
nitivamente o fixismo dos lugares e o imaginário convencional da cidade enquanto agre-
gados estáveis de relações sociais e económicas inscritas em sistemas ou âmbitos territoriais
razoavelmente confinados. M. Webber era professor em Berkeley e tudo o que então se
passava na Califórnia não seria indiferente a estas ideias. No elogio fúnebre que Peter Hall
fez ao seu amigo, sublinha-se:

“(…) a vida na Califórnia exibia características que então pareciam totalmente


exóticas, mas que, entretanto, se tornaram comuns em todo o mundo rico, principal-
83 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

mente aqui no Reino Unido. As pessoas do que em breve seria conhecido como o Silicon
Valley já mudavam de empresas e de locais de trabalho tão frequentemente como quem
toma uma chávena de café; já conduziam uma hora de automóvel para frequentar
um centro comercial gigante; usavam o avião como se fosse um autocarro; como quem
muda de chapéu, decidiam um fim-de-semana em Acapulco ou Puerto Vallarta.
Naquela era pré-Internet, os californianos passavam horas ao telefone indiferentes ao
facto de estarem a falar com alguém ao fim da rua ou a 3000 milhas de distância”1

1
Peter Hall ( 2007), Melvin M. Webber: Maker and Breaker of Planning Paradigms, AccessMagazine, special
issue, winter 2006-2007, San José State University, 17-22
Dos anos de 1920’, pela escrita de Ernest Burgess e Robert Park, a herança que tinha
ficado da Escola de Chicago era a de que a “cidade” correspondia a um imaginário razo-
avelmente auto-explicativo que reunia num lugar densamente construído uma formação
social diversa e alargada; uma nodalidade inscrita num território definido; uma ecologia
urbana definida por um agregado socio-territorial claro. Fora desse território/sistema auto-
-contido estaria o mundo da não-cidade, o subúrbio, o rural, o espaço natural, etc. – toda
a urbanização era cidade.
Fora de portas, o subúrbio seria uma espécie de compasso de espera, um desarranjo
súbito provocado pelas dores de crescimento urbano, aguardando a estabilidade e a incor-
poração na cidade que assim alargaria os seus limites por sucessivas contiguidades.
O subúrbio raramente teve um discurso positivo e esse estigma originou até o para-
doxo de não ter sido incorporado numa das muitas metamorfoses que as cidades foram
registando ao longo dos tempos. Nos anos de 1950’, Corbusier dedicava-lhe estes mimos:

Casinhas mal construídas, barracos de madeira, armazéns onde se misturam bem ou


mal os materiais mais imprevistos, domínio dos pobres diabos que oscilam nos turbilhões
de uma vida sem disciplina, eis o subúrbio! A sua fealdade e tristeza são a vergonha da
cidade que ele circunda. A sua miséria, que obriga a malbaratar o dinheiro público sem
a contrapartida de recursos fiscais suficientes, é uma carga sufocante para a colectividade.
Os subúrbios são a sórdida antecâmara das cidades: enganchados às grandes vias de aces-
so pelas suas ruelas, eles tornam a circulação perigosa; vistos de avião, expõem aos olhos
menos avisados a desordem e a incoerência da sua distribuição; cortados por ferrovias, eles
são, para o viajante atraído pela reputação da cidade, uma penosa desilusão!2

Contudo, desde, pelo menos, o desenvolvimento meteórico do capitalismo industrial


no séc. XIX, a cidade tinha perdido o monopólio da urbanização, entretanto explodida em
fragmentos e tecida por sistemas sociotécnicos profundamente perturbadores das limita-
ções da proximidade e das distâncias curtas (caminho-de-ferro, telégrafo, telefone, electri-
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cidade, estradas modernas…), desfocando-se da geografia dos nomes e dos povoados com
limites precisos como no tempo em que as muralhas desenhavam limites físicos e políticos.
Contudo, o imaginário poderoso da cidade – a tal reputação de que fala Corbusier – e
a longa persistência da palavra e da coisa, provocaram uma curiosa anomalia epistemológi-
ca que parece manter-se até hoje: em vez do conhecimento construir e organizar taxiono-
mias, modos de problematização e representações da urbanização que se ia transformando

2
Le Corbusier (1957), La Carte d’Athènes, Paris: ed. Minuit (trad. portuguesa S. Paulo: Hucitec, EDUSP,
(1993), parágrafo 22.
em modo acelerado, cristalizou-se a “cidade” como uma espécie de ideal-tipo, de repre-
sentação ideológica de múltiplos sentidos, remetendo tudo que não correspondesse a esse
referente imagético para outras categorias habitualmente conotadas negativamente. Nos
relatos do senso comum, fora do conhecimento organizado em campos científicos, a “cida-
de” também seguiu o seu caminho pela linguagem das conversas de todos os dias, desig-
nando realidades, objectos e cartografias muito distintas – da cidade do bilhete-postal, à
cidade futurista dos filmes de ficção –, garantindo a reprodução da palavra para todo o
sempre: quanto mais imprecisa, mais elástica, mais moldável; quanto mais polissémica,
maior a ilusão de que o significado da palavra e as coisas por ela designadas são claros e
explicáveis. Admitindo o carácter disruptivo que caracteriza muitos processos de urba-
nização e a extrema variabilidade dos contextos sociais em que operam, nem sequer se
questiona se toda a urbanização pode ser cidade; abundam até os mapas em que as cidades
são círculos ou pontos com nome próprio, apesar da banalização da fotografia aérea ou da
imagem de satélite, e dos suportes de representação como o Google Earth. As formas, as
extensões e as geografias da urbanização são imensas.
Diferentemente da cidade pensada como um lugar, a urbanização é um processo em
modo contínuo – toma forma e lugar nas mais diversas circunstâncias e geografias – ,
depositando algures construções diversas e funções variadas, relações e ambiências, e orga-
nizando-se nas mais variadas escalas, do local ao global, do micro ao macro. Os encontros
na velha praça multiplicam-se por outros lugares e sites, presencialmente, por mensagens
ou sinais remotos. No passado, aquilo que na vida urbana só a proximidade, a diversidade
e a aglomeração permitiam, pode-se agora espaçar por dezenas ou centenas de quilómetros,
pode-se dissipar pelo mundo todo, densificando-se ou dispersando-se, separando, como
sempre, riqueza e pobreza, conforto ou privação; aproximando, segregando, misturando.
Muito estranho seria se perante a aceleração tumultuosa da inovação tecnológica, da
globalização económico-financeira, do extremo contraste entre sociedades, países e luga-
res do mundo, os processos e as formas de urbanização fossem os mesmos de sempre. A
urbanização não é mais do que uma espécie de territorialização da sociedade e da sua (des)
85 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

organização. Esse é o legado de autores como Henri Lefèbvre3 que, justamente, via nas
contradições da “produção social do espaço”, das relações dominantes de produção e nos
ciclos de acumulação do capital, os fundamentos de uma geografia crítica da urbanização
como arena onde se disputa poder, lucro, propriedade, valorização do capital, riqueza ou
miséria. Essa geografia da urbanização – densa e compacta; estendida ou difusa; contínua

3
Henri Lefèbvre (1974) Le droit à la ville, Antropos, Paris: 1968.; Idem (1970), La revolution urbaine, Paris:
Gallimard.; Idem (1973) De lo rural a lo urbano, Barcelona; Ediciones Peninsula.; Idem (1974), La produc-
tion de l’espace. 2èmme éditions. Paris: Anthropos. Edward Soja, Manuel Castells e David Harvey são alguns
dos nomes mais conhecidos que seguiram e aprofundaram este legado de Lefèbvre.
ou descontínua – é muito distinta da representação da cidade como um aglomerado com
um limite definido, uma forma e um centro.
Para processos e formas urbanas distintas, são necessários novos conceitos urbanos. P.J.
Taylor e R. E. Lang, 2004, compilaram cem nomes diferentes para esses conceitos4:

Broadly speaking, there are two ways to view the abundance of terms. One is to
celebrate the variety: the world, especially the urban world, is inherently “messy” and
therefore it is only to be expected that it should be described in multifarious ways. The
other is to suspect that there is more than a little incoherent thinking abroad in con-
temporary urban studies. A degree of conceptual disintegration is to be expected, but
this invention of concept after concept is hardly conducive to credible understanding of
what is going on in and between our cities.

O curioso é que a cidade persiste como forma dominante de entender o urbano


e a urbanização (pelo menos, a julgar pelo uso da palavra até à exaustão dos signifi-
cados que lhe dão). O geógrafo David Wachsmuth resolve a questão desta polissemia
infinita, defendendo simplesmente que cidade não corresponde a um conceito – uma
categoria clara e objectiva, verificável pelos modos habituais da prática e do conheci-
mento científicos – , mas sim a uma ideologia. Nesta linha, a cidade é um ideal-tipo,
um conjunto diverso de imaginários que convém usar para falar de uma determinada
faceta da urbanização considerada identitária, exemplar, representativa…., seja uma
forma, uma ambiência, uma visão do mundo, uma arquitectura, etc. Assim, existe a
cidade histórica, a cidade inteligente, a cidade sustentável, a cidade inovadora e todo um
sem número de palavras-slogans de efeito potencialmente enjoativo e mistificador.5 A
palavra cidade tornou-se uma palavra-contentor, cabe lá quase tudo. O problema não é
só esse.
O problema é que a tenacidade do pseudo-conceito de cidade provoca um duplo
obstáculo no esforço de entender o que são as múltiplas formas de urbanização contem-
86 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

porânea: força a leitura a partir do reconhecimento da existência da cidade como sistema


fechado – polis (regulação política), civitas (organização social) e urbis (edificação), tudo
ao mesmo tempo como nas antigas cidades-estados –, como um lugar perfeitamente
definido, como um genérico universal; e por isso impede que se construam outros modos
4
P.J. Taylor e R. E. Lang, (2004), The Shock of the New: 100 concepts describing recente urban change, Environment
and Planning A 2004, vol. 36, pp.951-958, p.955. Consulta em: https://journals.sagepub.com/doi/
abs/10.1068/a375
5
David Wachsmuth (2014), “City as Ideology: Reconciling the Explosion of the City Form with the Tenacity
of the City Concept, Environment and Planning D: Society and Space”, 2014, vol. 31, pp. 75-90. Consulta
em: https://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1068/d21911
de olhar, de entender a urbanização a partir das dinâmicas sociais que a produzem numa
multiplicidade infinita de circunstâncias, morfologias, contextos. Entretanto persiste a
dualidade cidade-campo ou urbano-rural, mantendo um “exterior” que distinga a con-
dição urbana do resto como no tempo longo do passado histórico, o extra-muros.
Ananya Roy acrescenta um outro obstáculo: The study of cities is today
marked by a paradox: much of the urban growth of the 21st century is taking place
in the developing world, but many of the theories of how cities function remain roo-
ted in the developed world6. A questão não é de menor importância. A acele-
ração do capitalismo global em contexto pós-colonial, produziu urbanidades
impressionantes pela rapidez, pela dimensão e, sobretudo, pelo contraste profun-
do entre a urbanização da pobreza e os enclaves de prosperidade e riqueza onde
se ancoram as redes e os processos de valorização do capital ao nível planetário.
As velhas e repisadas representações da urbanidade são inúteis para entender aquilo
que estatisticamente é a maioria da urbanização contemporânea.
Neil Brenner e Christian Schmid7 seguem este raciocínio:

through what categories, methods and carto-graphies should urban life be unders-
tood? – must once again become a central focalpoint for urban theory, research and
action.If the urban is no longer coherently contained within or anchored to the city – or,
for that matter, to any other bounded settlement type – then how can a scholarly field
devoted to its investigation continue to exist? Or, to pose the same question as a challenge
of intellectual reconstruction: is there – could there be – a new epistemology of the urban
that might illuminate the emergente conditions, processes and transformations associated
with a world of generalized urbanization?

Focados nas dinâmicas e contradições da urbanização planetária, um dos tópicos prin-


cipais é o de afirmar que o urbano não pode ser entendido como uma unidade espacial
recortada no espaço ou como, simplesmente, um processo de expansão/crescimento con-
87 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

tíguo a uma “cidade” e distinto e oposto e um espaço “exterior” suburbano, rural, etc.
circundante. Os materiais da urbanização – sistemas sócio-técnicos ou infraestruturas, edi-
fícios, complexos industriais e logísticos, etc. – tal como a geografia daquilo que alimenta
o metabolismo urbano – produtos alimentares, energia, água, matérias-primas, capital

6
Ananya Roy (2005), Urban Informality, toward an Epistemology of Planning, Journal of the American Planning
Associarion, vol. 71, No. 2, Spring 2005. pp.147-158. https://www.wiego.org/sites/default/files/migrated/
publications/files/Urban-Informality-Roy.pdf
7
Neil Brenner; Christian Schmid (2015), Towards a new epistemology ofthe urban?, CITY, 2015, Vol. 19, Nº.
2–3, pp.151-182, http://dx.doi.org/10.1080/13604813.2015.1014712
e meios de produção, etc. –, distribuem-se e conectam-se ao nível global. O tradicional
hinterland ou área de influência próxima da cidade, explodiu em sistemas e redes multies-
calares que tocam os territórios mais remotos do planeta.8

A urbanização é um mosaico que se vai compondo; um campo de forças e de rela-


ções. Mais do que um todo sistémico ou uma macro-forma onde se encaixam as outras
formas, o urbano constrói-se numa geografia multiescalar onde uma determinada ocor-
rência local não se pode confinar nesse localismo, encontrando explicações na rede de
relações, causas e efeitos cruzados que aí assumem essa particular ocorrência.
Perante tais plasticidades, é difícil manter significados objectivos para os “limi-
88 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

tes das cidades” e, dentro desses recintos encontrar e justificar razões para clarificar
discursos e acções. A insistência do “local” (e do que decorre da suposta pertinência
dessa condição, como a dicotomia local/global) coloca cada vez mais interrogações

8
Cf. Brenner, N., ed. (2014), Implosions/Explosions: Towards a Study of Planetary Urbanization. Berlin: Jovis.
Ver também a investigação do Urban Theory Lab da Harvard Graduate School of Design, http://www.
urbantheorylab.net/about/
Cf. Neil Brenner; Nikos Katsikis (“2009, Operational Landscpaes – Hinterlands of the Capitalocene”, in
Ed Wall , ed. (2020), The Landscapists –redefining landscape relations, Architectural Design, vol.90, Issue 1,
pp. 22-31 https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/ad.2521
do que evidências. Objectivamente, aquilo que denominamos local é o que ocor-
re, o que se regista ou o que se manifesta num determinado lugar. Querendo com
isso identificar dinâmicas sociais (por sua vez, supostamente inscritas em recintos
espaciais) no tempo em que as redes e toda a espécie de geografias relacionais se vão
aprofundando e complexificando, é como querer confinar o vento. O local deixou de
ser uma categoria totalizante como no tempo e que Jorge Dias estudou Vilarinho da
Furna: uma aldeia comunitária, um território marcado com fronteiras precisas, um
vínculo estável, uma geografia pré-moderna resgatada ao tempo longo, uma terra que
um dilúvio submergiu.
Claro que os lugares produzem diferenças. Existem também muitas fronteiras que
persistem e outras que estão em permanente invenção ou deslocação. Contudo, o territó-
rio – diferentemente do terreno – é uma construção política, um artefacto social sujeito a
mudanças rápidas ou lentas, previsíveis ou completamente disruptivas.

89 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

A mutação da cidade para o urbano não se fez por simples ampliação da cidade (para a periferia ou para os su-
búrbios, que é o nome a que se dá quando a cidade cresce para outra coisa, anulando-a); o urbano trata de outra
ordem espacial e social caracterizada como sabemos pela centrifugação (e também pela neocentralização),
pela extensividade, pela descontinuidade, pela fragmentação.
As redes que suportam a auto-mobilidade vão da auto-estrada de grande capacidade aos caminhos estreitos. A
lógica que articula os mecanismos conhecidos da hidráulica e da capacidade dos “tubos” face à dimensão
e viscosidade dos “fluxos, combina-se com as lógicas mais erráticas da percolação e da dissipação.
Não pode haver um modelo que funcione apenas com uma destas físicas.
90 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

À dupla transformação do rural e do urbano é muito simplificador atribuir o conceito híbrido de rurbanização
(não se trata de cruzar duas entidades “puras” e sempre idênticas, de onde resulta uma terceira); a construção
no meio dos campos também não significa “cidade jardim” (isso é um modelo datado e conhecido para juntar a
utopia do melhor do “campo” e da “cidade” e criar comunidades quase auto-suficientes). O que está a acontecer
é biologia mais complexa e mais próxima do transgénico. Um território pode misturar “genes” que pertencem a
universos e codificações diferentes.
La vieja frontera ante los nuevos desafíos
de la cooperación territorial:
la demanda de un futuro de esperanza
para la raya ibérica

Valentín Cabero
Catedrático de Geografia Jubilado de la Universidad de Salamanca

Rui Jacinto
Centro de Estudos de Geografia e de Ordenamento do Território (CEGOT)

“O desalento que dá ver esta economia baseada na resina, no sobreiro e no oli-


val. Em muitas zonas as árvores que bordejam as estradas são sobreiros. Até a estes
lhes são arrancadas as cortiças. O cansaço que dá andar quilómetros e quilómetros
sem encontrar um centro comercial ou fabril, passar em povoações tão belas, tão
limpas e tão tristes: tão mortas! Portugal começa a deixar de ser idílico e tranqui-
lo para começar a mostrar que o idílico não é mais que triste e que o tranquilo é
sinónimo de falta de vida, de falta de actividade económica”.1

91 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

introducción

Las fronteras se han cerrado. Una grave crisis sanitaria lo ha exigido. Las cicatrices históricas
y de soberanía han recobrado su significado como obstáculo a la movilidad y como control al
intercambio de bienes y personas. La crisis sanitaria del coronavirus se ha convertido en una
pandemia global cuya incidencia social, económica y territorial nos ha mostrado el alto grado
de vulnerabilidad de nuestros modelos de vida y de desarrollo, dominados por un capitalismo

1
António Pintado; Eduardo Barrenechea (1974) – A Raia de Portugal, a fronteira do subdesenvolvimento.
Afrontamento, Porto.
voraz, desigual y consumista. Los males asociados al Covid-19 y sus impactos socioeconómicos
han detenido la fluidez y la permeabilidad de las relaciones transfronterizas. En estas graves
circunstancias, los dos gobiernos peninsulares han tenido que declarar el Estado de Alarma
(España, art. 116.3 de la Constitución Española, 1978) y el Estado de Emergencia (Portugal,
art. 19 de la Constitución de Portugal, 1976) para abordar con instrumentos constitucionales
la crisis sanitaria y garantizar el bien común de la salud pública en ambos países, luchando con-
tra los efectos letales de la pandemia. Por ello, como una necesidad ciudadana y política, las
fronteras entre España y Portugal, entre Francia y España, han permanecido cerradas o con el
máximo control de las actividades e intercambios considerados esenciales.
El papel biopolítico o geopolítico tradicional que siempre jugaron las fronteras, como
filtro de personas y bienes, especialmente de los emigrantes, fue reforzado por el control sa-
nitario. La situación que se abatió de forma abrupta y dramática sobre el mundo en general
y sobre las regiones fronterizas en particular, mostró más claramente dos tipos de problemas
inevitables: la fragilidad económica y social en las áreas fronterizas y el regreso gradual de la
frontera. Las zonas fronterizas tienen que afrontar una nueva generación de problemas, de
carácter más intangible, que se suman a viejas dificultades, de tipo material, que van de la
habitual falta de infraestructuras y equipamientos a las limitaciones económicas, sociales y
políticas. La frontera ya no es, por todas estas razones, apenas un concepto con una exclusiva
connotación política para invadir las diferentes áreas científicas y suscitar preocupaciones
que, en definitiva, también son de carácter ético y moral.
Esta dimensión del tema quedó patente en la reciente Carta Encíclica sobre Fraternidad y
Amistad Social, presentada por el Papa Francisco el 3 de octubre de 2020, donde se nos invita
“a un amor que traspasa las barreras de la geografía y el espacio”, entre amplias referencias a
la frontera, glosadas de varias formas. El tema de apertura de la Carta es precisamente “Sin
fronteras” [3-8], recordando la visita de San Francisco de Asís al sultán Malik-al-Kamil, en
Egipto, “un episodio que nos muestra su corazón sin fronteras, capaz de superar distancias de
procedencia, nacionalidad, color o religión”. Al hablarnos de “Pandemias y otros flagelos de
la historia” [32-36] concluye que “ojalá no sea inútil tanto sufrimiento, mas hayamos dado
92 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

un salto hacia una nueva forma de vida y descubramos, finalmente, que necesitamos y somos
deudores los unos de los otros, para que la humanidad renazca con todos los rostros, todas las
manos y todas las voces, libre de las fronteras que creamos”.
Continúa con “Sin dignidad humana en las fronteras” [37-41] y, posteriormente, en “El
prójimo sin fronteras” [80-83], se refiere a propósito de “Nociones inadecuadas de un amor
universal”, que “el amor que se extiende más allá de las fronteras está en la base de lo que
llamamos «amistad social» en cada ciudad o en cada país “. Apela al valor de la solidaridad
cuando habla de “cuidar la casa común, que es el planeta”, apela “a ese mínimo de conciencia
universal y preocupación por el cuidado mutuo que aún puede existir en las personas”, a un
comportamiento que reconoce “los derechos de todo ser humano, incluyendo a los naci-
dos fuera de nuestras propias fronteras”. Habla de “Derechos sin fronteras” [121-123]: “por
tanto, nadie puede ser excluido; no importa dónde haya nacido, y menos cuentan los privi-
legios que otros puedan tener porque hubieran nacido en lugares con mayores posibilidades.
Los confines y fronteras de los Estados no pueden impedir que esto se cumpla. Así, como es
inaceptable que una persona tenga menos derechos simplemente por el hecho de ser mujer,
también es inaceptable que el lugar de nacimiento o de residencia determine, en sí mismo,
menos oportunidades de vida digna y desarrollo. En “El límite de las fronteras” [129-132]
se reconoce que “Cuando el prójimo es una persona migrante se agregan desafíos complejos.
Lo ideal sería evitar las migraciones innecesarias y para ello el camino es crear en los países
de origen la posibilidad efectiva de vivir y de crecer con dignidad, de manera que se puedan
encontrar allí mismo las condiciones para el propio desarrollo integral”.
El tema sobre Local y universal [142] “Cabe recordar que «entre la globalización y la
localización también se produce una tensión. Hace falta prestar atención a lo global para no
caer en una mezquindad cotidiana. Al mismo tiempo, no conviene perder de vista lo local,
que nos hace caminar con los pies sobre la tierra. Las dos cosas unidas impiden caer en al-
guno de estos dos extremos: uno, que los ciudadanos vivan en un universalismo abstracto y
globalizante” […]; otro, que se conviertan en un museo folklórico de “ermitaños” localistas,
condenados a repetir siempre lo mismo, incapaces de dejarse interpelar por el diferente […].
Señala que [142] “Hay que mirar lo global, que nos rescata de la mezquindad casera. Cuando
la casa ya no es hogar, sino que es encierro, calabozo, lo global nos va rescatando porque es
como la causa final que nos atrae hacia la plenitud. Simultáneamente, hay que asumir con
cordialidad lo local, porque tiene algo que lo global no posee: ser levadura, enriquecer, poner
en marcha mecanismos de subsidiaridad. Por lo tanto, la fraternidad universal y la amistad
social dentro de cada sociedad son dos polos inseparables y coesenciales. Separarlos lleva a
una deformación y a una polarización dañina”.
“Una adecuada y auténtica apertura al mundo supone la capacidad de abrirse al vecino,
en una familia de naciones. La integración cultural, económica y política con los pueblos cer-
93 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

canos debería estar acompañada por un proceso educativo que promueva el valor del amor al
vecino, primer ejercicio indispensable para lograr una sana integración universal.”. Esta idea,
expresada en “Desde la propia región” [151-153] fue precedida por consideraciones sobre “El
sabor local” [143-145] y “El horizonte universal” [146-159], donde concluye: “Este enfoque,
en definitiva, reclama la aceptación gozosa de que ningún pueblo, cultura o persona puede
obtener todo de sí. Los otros son constitutivamente necesarios para la construcción de una
vida plena. La conciencia del límite o de la parcialidad, lejos de ser una amenaza, se vuelve la
clave desde la que soñar y elaborar un proyecto común. Porque «el hombre es el ser fronterizo
que no tiene ninguna frontera»”.
La crisis actual vino a cabalgar sobre las debilidades estructurales que penden sobre las
zonas fronterizas, sobradamente conocidas, acentuando el sentimiento de pérdida, material y
simbólica, cuya degradación se agravó con la crisis de las deudas soberanas iniciadas en 2008.
Estas páginas se presentan como una reflexión para el debate, como un diálogo necesario con
las instituciones y con los responsables públicos que han de llevar a cabo las acciones inme-
diatas y a medio o largo plazo, y particularmente se dirigen a la ciudadanía y a los habitantes
del área rayana que deben ser los protagonistas en la construcción de su futuro y de la coope-
ración transfronteriza. Tras la primera ola de la pandemia y la segunda, aún entre nosotros,
la apertura de nuevo de nuestras fronteras nos desvela con severidad escenarios frágiles y
vulnerables que merecen nuestra atención, y exigen una mirada inteligente y verdaderamente
comprometida con los territorios ibéricos de frontera y de baja densidad.

Frontera y (sub)desarrollo: del peso del pasado a la “revisitación”


de la raya ibérica

En la memoria de los territorios fronterizos, en la Raya Ibérica en sentido amplio, en


sus paisajes y en las toponimias de sus lugares, han quedado grabados con gran elocuen-
cia pedagógica los encuentros y desencuentros históricos. También, por supuesto, por los
matices y entrecruces humanos entre los pueblos de uno y otro lado, bien podemos hablar
de una rica cultura rayana que se manifiesta de manera expresiva y concreta en algunos
enclaves y territorios mixtos, en espacios promiscuos y condominios, en la pervivencia de
lenguas o hablas históricas, o en el patrimonio de intangibles e hibridaciones propias de
las vidas fronterizas.
Estos testimonios y cicatrices en el territorio son fruto de una larga historia de más
de siete siglos que se remonta a la configuración y delimitación de los reinos medievales
peninsulares. Serán los tratados de Badajoz (1267) y de Alcañices (1297) los que mar-
quen las líneas y límites más permanentes que conocemos hasta hoy en la raya ibérica,
94 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

independientemente de retoques, ajustes, contiendas y acuerdos posteriores. Aun así, la


raya se muestra franqueable, porosa y compartida en el manejo de sus recursos. Cabe
recordar que la fijación de los 1234 km de la frontera hispano-lusa más antigua de
Europa no se llevara a cabo hasta bien avanzado el siglo XIX y principios del siglo XX,
con el Tratado de Lisboa (1864) y el Acuerdo de Límites (1926), cuando la cartografía
topográfica se encuentra muy desarrollada en ambos países, fijándose el trazado actual
que conocemos. Una frontera alargada, pero llena de encrucijadas y tramas encajadas
fluviales (raya húmeda) que contrastan con los espacios abiertos, planaltos o sierras (raya
seca), y que incorporan una gran riqueza natural y diversidad ambiental.
La frontera y sus pueblos marginales o extremos siempre cumplieron con una función de
refugio, de resistencia, e incluso de castigo o de condena. En la memoria de algunos lugares
han quedado un poco olvidadas historias dolorosas o solidarias de acontecimientos ocurridos
durante la Guerra Civil Española (1936-1939). A la vez que la raya y pueblos concretos por-
tugueses se convertían para muchos vecinos españoles y “huidos” en lugares de refugio y pro-
tección frente a la persecución y la represión, gracias a las redes de resistencia y solidaridad,
también se trocaban en su propia condena y tragedia, al ser entregados y devueltos muchos
republicanos por las autoridades portuguesas, sobre todo por parte de la PVDE (PIDE-DGS)
salazarista, a las fuerzas franquistas y a los falangistas para ser fusilados inmediatamente2. Sera
una época oscura y de silencio bajo el peso vigilante y la pobreza de las dictaduras de Franco y
de Salazar. No obstante, los ejemplos de resistencia comunal y solidaridad fronteriza merecen
nuestro reconocimiento.
Con la retórica propia de las dos dictaduras ibéricas, en 1939, “con afecto y entendi-
miento fraternal entre España y Portugal”, se firma el Tratado de Amistad y no Agresión, al
que 1940 se añade un protocolo, conociéndose a partir de 1942 como el Pacto Ibérico. De
acuerdo a esta hermandad hispano-portuguesa, se respetarán mutuamente las fronteras y
no se podrán practicar actos de agresión por ninguna de las partes.
En este contexto de autarquía, y durante largo tiempo, hasta principios de los
años setenta, las aduanas/ alfândegas marcarán las relaciones entre España y Portugal,
sobre todo como obstáculo y control. Eran la representación vigilante de la soberanía
del país y del proteccionismo nacionalista. También eran el símbolo de unas rela-
ciones restringidas y recelosas conocidas como de “costas viradas”. Frente al control
administrativo, las prohibiciones y la vigilancia policial, el contrabando se convertirá
en el hecho más común y relevante de la transgresión a las imposiciones proteccio-
nistas, y en la forma de interacción económica y social más significativa en la vida de
numerosos pueblos rayanos, dejándonos muestras de intercambios bien conocidos
y de complementariedades necesarias y vitales. Ahí nos quedan las rutas del contra-
bando a lo largo y ancho de la raya, con tramas reconstruidas sobre todo en la raya
95 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

seca, que nos atestiguan y enseñan ese pasado de encuentro, de transgresión y de


necesidades compartidas.
Casi todo lo que intentamos expresar aquí quedará señalado oportunamente en
un libro revelador. Para las generaciones comprometidas durante los años setenta con
el conocimiento y el devenir de nuestros territorios más desvalidos y fronterizos, es
muy elocuente la crónica viajera, sociológica y geográfica recogida en “La Raya de

2
El General Humberto Delgado, uno de los principales opositores al régimen de Salazar, sería asesinado po
lo PIDE, junto a la frontera española, en los Almerines, cerca de Olivenza, el 13 de febreo de 1965.
Portugal, la frontera del subdesarrollo”(edición en español, 1972); sin duda, supuso un
aldabonazo, una denuncia y una mirada crítica sobre el Oeste peninsular olvidado, en-
frentándonos a una situación insostenible para los diez distritos portugueses y las siete
provincias españolas fronterizas. Sus páginas nos permiten revisitar la frontera y recordar
las carencias y condiciones de pobreza en aquellos momentos; he aquí sus palabras sobre
la región centro: “La región Centro ocupa, aun así, una posición intermedia, central,
entre el latifundio de cultivos extensivos, al sur (Algarve y Alentejo), y el minifundio
pobre del norte. No tiene las oportunidades de desarrollo de Faro o el triste destino de
Trás-os-Montes. La región Centro es el reino, no de la mesocracia, sino de la mediocri-
dad, de los tonos cenicientos, del tiempo perdido. No se queda impresionado ni por la
riqueza pujante ni por la pobreza en demasía: es «centrista», en detalle mediocre, triste,
anodina. En otras palabras, «ni carne ni pescado». Estamos en las Beiras. Al sur aparece
el Alto Alentejo, borde del latifundio, de los grandes cultivos y de la vida semifeudal. Al
norte limita con Trás-os-Montes: el reino de la autarquía, de los montes suaves, de los
minifundios. Las Beiras, una región bisagra en la que sólo los pinos y otras especies arbó-
reas dan al paisaje un tono que engaña. El «mentiroso» verde de las Beiras. Un verde que
cubre el paisaje, pareciendo otorgarle una riqueza de la que carece. Un verde que cubre
una vida nada pujante, una emigración que no cesa. Un andar que es más un arrastrar”
(Pintado; Barrenechea, 1974: 181-182).

Países y regiones fronterizas de “espaldas viradas”:


lecturas de la raya Ibérica a inicios de los años 70
96 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território
Fonte: Pintado e Barrenechea, 1974; CCDRC.

La imagen que se creó a partir de los espacios rayanos, construida al inicio de la segunda mitad
del siglo XX, y que los albores de las democracias no consiguieron contrarrestar por completo,
permanece hasta hoy con la misma marca inscrita lapidariamente por Pintado y Barrenechea:
“muro de la vergüenza” y “frontera del subdesarrollo” (ob. cit.). Los mapas extraídos del citado
libro y reproducidos aquí reflejan la impresión vigente: dos países costeros y centralizados en
sus capitales metropolitanas, tendencia que el trazado de las modernas vías de comunicación
enfatiza y acentúa; las zonas fronterizas. poco permeables, son márgenes donde se propaga
la rarefacción y el vacío demográfico, económico, social. Verdaderos calcañares del mundo.
Con la Revolución de los Claveles en Portugal y la Transición española, se fraguan
afortunadamente nuevas relaciones de colaboración, que ofrecen una primera imagen
y aproximación en el encuentro de Guarda (1976) entre los Ministros de Exteriores de
España y Portugal (Areilza y Melo Antunes), abriendo así una etapa de propuestas enca-
minadas a resolver problemas de comunicación y de convivencia comunes que denomina-
mos “el espíritu de Guarda”; inmediatamente se firmara un renovado Tratado de Amistad y
Cooperación entre España y Portugal (1977–1978), avanzando ambos hacia la apertura de
la frontera y caminando conjunta y resueltamente hacia Europa; y con esta perspectiva se
señalan cinco áreas de cooperación: economía, cultura, cooperación científica y tecnológi-
ca, comisión de límites y cooperación militar. Poco o nada tiene que ver ya con los tiempos
más oscuros del contrabando y de los aislamientos interiores. Para entonces, la emigración
de españoles y portugueses había roto por muchas partes las sierras, valles y planaltos de la
raya ibérica y también los pasos y montañas de Los Pirineos.
Son nuevos tiempos para ambos países y para las relaciones fronterizas. Al mismo
tiempo que se abre camino y se asienta la democracia, el “espíritu de Guarda” se plasma
en una filosofía y política cooperativa que tiene múltiples manifestaciones; se realizan
encuentros y coloquios científicos entre universidades como la de Coimbra y Salamanca;
se intercambias experiencias entre instituciones vecinas tanto de tipo económico como
de servicios; o se mejoran los intercambios mercantiles locales con una mayor permeabi-
lidad en la propia raya. Se iniciaban los primeros pasos para la incorporación a Europa.
Precisamente, en el preámbulo del nuevo Tratado de Amistad puede leerse: “Conscientes
de que el refuerzo de la cooperación entre los dos países peninsulares servirá la causa de
la unidad europea y contribuirá a la paz y seguridad internacionales, creando una zona
geográfica de estabilidad y progreso en la confluencia del atlántico y del mediterráneo”.

europa sin Fronteras: entre la utópica creencia en el mercado y la


cooperación transfronteriza

Se cumplen 35 años del ingreso de España y Portugal en la Comunidad Económica


Europea y 30 años de la cooperación transfronteriza entre países y regiones europeas; es-
pecíficamente también han transcurrido esos años para la cooperación en la Raya Ibérica.
Estábamos en pleno proceso de ampliación y de integración, que requerían de nuevas
políticas encaminadas al fortalecimiento de la cohesión territorial y mercado europeo,
dando un mayor protagonismo a las regiones. La política regional cobraba un significado
clave bajo el espíritu renovado del FEDER y de los Fondos Estructurales. En la cumbre
de Madrid del mes de junio de 1989 se aprueba el “informe Delors” que nos llevará
al Tratado de Maastricht de 1992, o de la Unión Europea. Desde 1994, los fondos de
Cohesión contribuirán solidariamente a mejorar nuestras condiciones de vida. Luego ven-
drá el Mercado Único (1993), facilitando el intercambio y el comercio transfronterizo.
En distintos momentos se adoptan los Acuerdos de Schengen (1985, 1997, 2007) que
98 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

configuran la ciudadanía europea y la supresión de los controles en las fronteras interiores


(“espacio Schengen”). El proceso se culmina con la Unión Económica y Monetaria (2002)
y la instauración del euro como moneda única para buena parte de la Unión Europea. El
sueño de una Europa sin fronteras parecía cumplirse, aunque acontecimientos vividos re-
cientemente ligados a la seguridad ciudadana, a las relaciones políticas y económicas como
el Brexit del Reino Unido, y ahora la terrible pandemia del Covid-19, han puesto en entre-
dicho el futuro, que sin la solidaridad europea sería indudablemente más oscuro y difícil.
La integración de España y Portugal en La Comunidad Europea en 1986 es el hecho
más decisivo para la península ibérica a finales del siglo XX, al aceptar y formar parte de
un modelo democrático común, y al adaptar o cambiar sus respectivos ámbitos domésticos
al proyecto de integración europea. Como Regiones Objetivo 1, preferentemente, tendrán
que afrontar retos de modernización y de reformas exigentes en sectores productivos cla-
ves, al mismo tiempo que recibirán notables ayudas de los Fondos comunitarios europeos,
que contribuirán decisivamente a la reestructuración económica y a la adopción de estra-
tegias comunes para las tierras interiores de la Raya Ibérica.
Tras la Revolução dos Cravos (abril de 1974), la muerte del dictador Franco (1975),
la aprobación de la Constitución de la República de Portugal (1976), la aprobación
de la Constitución del Reino de España (1978), se dan los pasos necesarios para la
incorporación a la CEE; será un camino arduo, largo y complicado que exigirá me-
didas políticas y económicas difíciles. La personalidad política de Mario Soares y de
Felipe González, con su espíritu europeísta e iberista, contribuirá a su ingreso conjunto
a mediados de los años ochenta. Los dos países ibéricos firman el Acta de Adhesión a
las Comunidades Europeas el 12 de junio de 1985, pero con efectos del 1 de enero de
1986, fecha por tanto de referencia para su ingreso simultáneo como miembros de la
Comunidad Europea. Se abren así nuevas expectativas para ambos países, que darán
lugar a intensas mudanzas peninsulares; la cooperación transfronteriza cobrará pronto
un significado esencial en las relaciones ibéricas.
La cooperación transfronteriza se enmarca plenamente dentro de la política territorial
europea y en la corrección de los desequilibrios y desigualdades bajo principios de solida-
ridad y cohesión. Y en la base de estas políticas aparece el Fondo de Desarrollo Regional
creado en 1975 y las reformas llevadas a cabo a partir de 19883 en los Fondos Estructurales
y en el llamado “paquete Delors” (1989-1993), poniendo en marcha y el acento en pro-
gramas e iniciativas en favor de la “cohesión económica y social” en el ámbito europeo,
nacional y regional; “una política basada en la geografía que otorga una función específica
a cada uno de los territorios europeos4”. Como señalan los propios escritos de la Comisión:
“La Cooperación Territorial Europea («CTE»), que se puso en marcha en 1990 y es más
conocida como Interreg 5, es un programa emblemático de la política de cohesión y ofrece
99 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

un marco para la realización de acciones conjuntas e intercambios estratégicos entre los


agentes nacionales, regionales y locales de diferentes Estados miembros. El objetivo princi-
pal de la Cooperación Territorial Europea consiste en promover un desarrollo económico,

3
El 11 y 12 de marzo de 1988, el Consejo Europeo adoptó en Bruselas el primer presupuesto comunitario
plurianual para los años 1989-1993, con frecuencia denominado “Paquete de medidas Delors”.
4
Danuta Hübner (2008) – La importancia de las regiones, en Política de Cohesión de la UE 1988-2008.
Invertir en el futuro de Europa, Inforegio, 26, 2008, p.3.
5
Desde aquellas fechas hemos asistido a la programación de cinco períodos: Interreg I (1990-1993), Interreg
II (1994-1999), Interreg III (2000-2006), Interreg IV (2007-2013) e Interreg V (2014-2020).
social y territorial armonioso de la Unión en su conjunto. Interreg se articula en torno a
tres grandes ejes de cooperación: transfronterizo (Interreg A), transnacional (Interreg B) e
interregional (Interreg C)6”.
En este contexto de integración y de políticas públicas europeas, cuando España y
Portugal están asumiendo y aplicando los primeros acuerdos de la Adhesión, han de hacer
frente a problemas seculares de colaboración y de permeabilidad fronteriza desde territo-
rios marginales y periféricos. Frente al yugo de la fatalidad de estos lugares, perdidos en
el tiempo y en el espacio, que diría Miguel Torga en los Cuentos de la Montaña, sobre las
tierras de Tras-os-Montes y el Douro, la raya ibérica y las comarcas fronterizas despiertan
y toman conciencia de sí mismas, en palabras de los geógrafos François Guichard y Jorge
Gaspar. El profesor y economista Cepeda lo expresa de este modo: “La preocupación sobre
el desarrollo de las zonas de frontera no resultó, obviamente, de las características particu-
lares de estas zonas, sino del proceso de integración económica que la adhesión económica
de los dos países a la Comunidad Europea desencadenó y de la necesidad de garantizar el
máximo aprovechamiento de los fondos comunitarios para evitar las tendencias perversas
de esa misma adhesión. Fue efectivamente necesario adherirse a la Comunidad para que
los países ibéricos constatasen la necesidad la necesidad de asomarse juntos para los proble-
mas reales de las zonas fronterizas, que merecen finalmente un cierto esfuerzo de análisis7”.
100 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Frontera y Desarrollo (1993) Relaciones Transfronterizas Definición de una estrategia de


(1994) intervención
(1994)

Primeros pasos de la cooperación transfronteriza entre la Raya Central de Portugal y España

6
Comisión Europea – Cooperación Transfronteriza: El programa Interreg de la UE celebra sus treinta años
contribuyendo a acercar a los ciudadanos (17.02.2020).
7
F. Cepeda (1999) – El desarrollo de la zona de frontera Trás-os-Montes/ Zamora, en Actas del 6º Congreso
Económico Regional de Castilla y León, Zamora, nov de 1988, Junta de castilla y León, 1999, p. 174.
En efecto, el acercamiento, el redescubrimiento y el análisis de los territorios fronte-
rizos supuso un gran empeño y entusiasmo por parte de algunos profesores y gestores pú-
blicos, con el firme propósito de convertir a la cooperación transfronteriza en un ejemplo
de inversión de las políticas públicas y de sensibilidad en favor de sus gentes y territorios8.
Hablábamos entonces de “un nuevo paradigma de desarrollo para las áreas de borde o fron-
terizas”, que demandó un esfuerzo de conocimiento y de intercambio entre españoles y por-
tugueses, de actualización de diagnósticos, de armonización estadística, de representaciones
cartográficas, de metodologías consensuadas, de trabajos de campos compartidos, de debates
y discusiones con los poderes locales, o de propuestas de intervención asentadas en el terri-
torio, que se reflejan bien en documentos y trabajos escritos a dos manos en aquellos años.
Acerca de aquellas primeras intervenciones públicas y de cooperación transfronterizas,
a partir de los fondos europeos y de Interreg, en los años noventa, escribíamos: “Un balance
somero del Interreg I nos lleva a valorar como positivas y casi prioritarias en la red viaria,
en algunos equipamientos culturales y deportivos, y en el abastecimiento y construcción de
redes de saneamiento. También puede señalarse como positivo el impulso dado a la valora-
ción del patrimonio natural y cultural o a la defensa del patrimonio construido. Aunque de
alguna manera aproximó a las comunidades de ambos lados de la frontera, tras décadas de
darse la espalda, no puede hablarse aún de resultados efectivos en la cooperación transfronte-
riza. El programa operacional presentado por España y Portugal en el ámbito del Interreg II
(1994-1999), intentaba darles continuidad a las políticas iniciadas en el Interreg I, en especial
a las de permeabilidad transfronteriza y recuperación del patrimonio, alargando al mismo
tiempo y reforzando otros dominios y agentes como la participación de las universidades9”.

regreso de las fronteras: relaciones territoriales y transfronterizas, y la


búsqueda del tiempo perdido

Con la crisis del coronavirus, la sociedad ha tenido que detenerse, pararse, y mirarse
101 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

sobre sí misma; y la meditación sobre su devenir es inevitable. En el entorno rayano esta


8
Tres publicaciones que marcan el momento de cambio en las relaciones de cooperación transfronteriza entre
la Región Centro de Portugal y Castilla y León:
– Frontera y Desarrollo (1993). El Programa Transfronterizo de España y Portugal – Jornadas de Estudo,
Salamanca, 28-30 de Janeiro de 1993.
– Cortes de Castilla y Léon (1994) – La cooperación de Castilla y Léon con Portugal. Relaciones Transfronterizas.
Reúne textos dos debates realizados na sede das Cortes de Castilla y Léon, em Valladolid, nos días 4 e 5 de
Outubro de 1994.
– Contribuciones para la definición de una estrategia de intervención y la promoción de iniciativas comunes
(1994). Diagnóstico que sustentou a apresentação da proposta de Programa ao Interreg II.
9
V. Cabero Diéguez (1999) – Un nuevo paradigma de desarrollo para las áreas de borde, en Actas del 6º Congreso
Económico Regional de Castilla y León, Zamora, nov de 1998, Junta de Castilla y León, 1999, p. 184.
reflexión no es nueva, pero cobra un significado original, inmediato y real en el contexto de
la pandemia. Precisamente, en los últimos años se venía realizando en el Centro de Estudios
Ibéricos un profundo análisis crítico en torno al envejecimiento y a las personas mayores, al
significado las agriculturas familiares y a los recursos de proximidad, buscando con inteli-
gencia y compromiso las alternativas y oportunidades de futuro en el propio territorio. Los
acontecimientos vividos en estos meses vienen a mostrarnos la capacidad de adaptación o de
resiliencia – en el nuevo lenguaje – de los entornos transfronterizos, al aportar una gran di-
versidad, contar con recursos estratégicos fundamentales, y mantener en los núcleos rayanos
más vertebradores intercambios de gran complementariedad económica o servicios integra-
dores a escala comarcal y regional, además de ofrecernos hospitalidad y acogida, contacto
con la naturaleza, o de enseñarnos en muchos lugares la pervivencia de las solidaridades
comunitarias y espacios comunes, tan decisivos y valiosos para la cohesión social. A pesar de
las dificultades y situaciones delicadas vividas en algunas residencias de ancianos y núcleos
fronterizos, los territorios rurales han mostrado mayor resistencia y capacidad inclusiva que
los grandes centros urbanos y sus áreas metropolitanas; y ofrecen, asimismo, respuestas más
inclusivas ante la crisis económica y social en ámbitos tan sensibles como la educación, la
vivienda, el empleo y la asistencia social y comunitaria.
Comenzaremos esta reflexión prospectiva a partir de las siguientes coordenadas: (i) el re-
forzamiento de las escalas locales y la relevancia de los recursos de proximidad; (ii) los vínculos
con la naturaleza, con el medio ambiente y con los paisajes naturales y culturales; (iii) la escala
Ibérica y la permeabilidad transfronteiriza; viejas y nuevas demandas; (iv) los nexos intermedios
y la trabazón de un mundo rural vivo. La apuesta por la cohesión y el equilibrio territorial.

El reforzamiento de las escalas locales y la relevancia de los recursos de proximidad. Tras el


desmantelamiento sufrido en los pasados años de servicios básicos de proximidad, a partir
sobre todo de la crisis de 2008, la pandemia ha puesto en evidencia las carencias existentes
en numerosos espacios rurales y fronterizos con la liquidación o abandono de la sanidad y la
atención primaria o con los cierres de unidades educativas, consideradas claves para el man-
102 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

tenimiento de la vida local. En estas circunstancias de pandemia y de confinamiento, ade-


más, se han cerrado servicios de transporte público que han garantizado el desplazamiento y
la movilidad a personas vulnerables y carentes de posibilidades de transporte, precisamente
encaminadas frecuentemente hacia consultas médicas. No menos graves son las carencias re-
lacionadas con las nuevas tecnologías y los déficits en las conexiones a internet que dificultan
y debilitan el acceso a nuevas plataformas de aprendizaje y de comunicación. Si en el inme-
diato pasado, con los procesos de “modernización” y éxodo rural, se desmantelaron ferrocar-
riles históricos de ensamblaje transfronterizo e ibérico, dejando en la más absoluta soledad y
aislamiento a numerosos núcleos, en los momentos actuales, la privación de servicios básicos
acarrea marginaciones y desigualdades que la sociedad actual no puede tolerar. Irán en detri-
mento de los derechos fundamentales de sus habitantes y de la cohesión social y territorial.
Se pone así en evidencia que el reforzamiento de la atención primaria se convierte en
una necesidad prioritaria y en una premisa ineludible de las políticas públicas. Desde la pers-
pectiva más humana y social, uno de los retos más común en todo el entorno rayano es el
mantenimiento de la dignidad de las personas mayores. La longevidad alcanza en los pueblos
rayanos porcentajes muy elevados (+ de 65 años y sobre todo de + 80 años, 40% o más) que,
junto a su custodia de sabidurías comunitarias difícilmente transferibles, exige acciones mé-
dico-sociales específicas que guardan relación con la proximidad y el mantenimiento de los
vínculos de las personas mayores con sus entornos familiares y sociales más cercanos. Aunque
se ha avanzado positivamente en estos servicios, sigue pendiente la cobertura ágil y total de la
Ley de Dependencia (España) de las personas mayores y su atención en los entornos rurales
y rayanos con verdaderos servicios de proximidad (consultorios y centros de salud, centros
de día y ayuda a domicilio). Son acciones equitativas que apuestan por el envejecimiento en
el lugar, en la vivienda y entorno familiar (“ageing in place”), allí donde los vínculos con las
gentes y los paisajes dan sentido a la pertenencia y a la propia identidad.
Una de las bondades más sobresalientes de los territorios rayanos y, particularmente en su
dimensión más rural, radica en estos momentos en su capacidad natural y social para afrontar
la crisis desde los principios de la soberanía alimentaria y la economía circular. A pesar de la
debilidad endógena de sus energías humanas, sobre todo en numerosos lugares del lado es-
pañol, los recursos alimentarios de proximidad ofrecen unas posibilidades comparativamente
ventajosas que garantizan una calidad de vida y gastronómica no exenta de cierta diversidad y
complementariedad10. En la apuesta por la soberanía alimentaria y las agriculturas familiares se
recuperan no sólo las capacidades de respuesta o resiliencia de los espacios rurales, sino también
los vínculos intergeneracionales y las memorias personales y colectivas en la transmisión del
saber y de buenas prácticas; estamos ante experiencias seculares y positivas en el manejo agrícola
o ganadero y en la utilización sostenible de los recursos naturales, que bien podríamos enmarcar
bajo los principios de complementariedad y de supervivencia, presididos por el policultivo y
103 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

la trilogía mediterránea. Son elementos claves y vitales, con frecuencia rotos o perdidos, cuya
pervivencia hace menos vulnerables a los territorios de baja densidad como los fronterizos.
10
Con gran sentido geográfico, y partiendo de las virtudes gastronómicas locales, Carlos García nos dejó
una crónica de la Cimeira/ Cumbre Ibérica 2020 muy próxima y sugerente: “Un menú de frontera para una
Cumbre de Altura” (La Vanguardia, 10/10 /2020), subrayando la calidad de la comida de la Beira Alta e
interior rayano, al mismo tiempo que recordaba la figura y ausencia en Guarda de Eduardo Lourenço y
su impulso para unir España y Portugal a través de las actividades culturales bajo las premisas revitalizado-
ras de un nuevo iberismo, en particular desde el Centro de Estudios Ibéricos. Lamentablemente, Eduardo
Lourenço falleció a los 97 años el día 1 de diciembre en Lisboa; la cultura portuguesa, ibérica y europea han
quedado un poco huérfanas, al igual que el Centro de Estudios Ibéricos. Su memoria y una parte sobresa-
liente de su legado permanece en la Biblioteca Municipal de Guarda que lleva su nombre.
Su revitalización y conocimiento ha encontrado un indudable apoyo en los grupos
de acción local y en la cooperación entre vecinos rayanos. Con el apoyo de los fondos
europeos y de Interreg, la cooperación transfronteriza más próxima al mundo rural ha
impulsado ferias y mercados locales con motivo de algún evento regional o efeméri-
des. Algunas de ellas aprovechan símbolos fenológicos de referencia como el “Día del
almendro” o días señalados en el santoral para mostrar e impulsar los productos natu-
rales y ecológicos (Feria Eco-natural, Ecoraya, Feria transfronteriza de San Miguel…)
y para la promoción de los productos agroalimentarios locales (quesos, aceites, embu-
tidos, dulces tradicionales, artesanías locales…). La más antigua y conocida, la Feria
Rayana, impulsada inicialmente por Idanha-a-Nova, ha tenido que suspender este
año 2020 la XXIV celebración en Moraleja (Cáceres), debido a la crisis generada por
el coronavirus. La promoción de los productos de la tierra, de los recursos natura-
les, gastronómicos, culturales y turísticos se enmarcan en esta feria multisectorial en
una referencia geográfica de indudable significado y alcance transfronterizo: el Tajo
Internacional, que delimita, une y separa a la Beira Interior Baixa de la Extremadura
cacereña y de las tierras de Alcántara.
Ahora bien, cuando tanto se enuncia y opina sobre economía circular, resiliencia y sis-
temas productivos sostenibles, merecen un reconocimiento los grupos de acción local que
mantienen un espíritu activo y de cooperación en los entornos de la raya. Sus iniciativas
transversales y de abajo hacia arriba, movilizando los recursos comarcales y sensibilizando
a los consumidores en favor de los productos agroalimentarios locales, naturales, frescos,
saludables y de calidad, fortalecen los circuitos cortos y los mercados de proximidad. La
pandemia Covid-19 ha llenado de preocupaciones e inquietudes a los propios grupos de
acción local; son muy conscientes de la parálisis de numerosos servicios en el medio rural
y de los impactos socioeconómicos inmensos asociados a las restricciones de movilidad
y de confinamiento. Y consideran imprescindible que las intervenciones inmediatas al
estado de emergencia y de la pandemia sean de malla fina, de cercanía, bien asentadas en
el territorio y envolviendo a la sociedad civil. De ahí que, a pesar de las dificultades, se
104 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

impone la necesidad de fortalecer las producciones locales, la reactivación del comercio de


proximidad, la recuperación de los servicios médicos, educativos y asistenciales, y la delica-
da diversificación (turismo, hostelería, artesanías, industrias blandas…) de las actividades
económicas en los territorios rurales más desfavorecidos. Así lo expresan los asociados de
la Federacion Minha Terra (Federación Portuguesa de Asociaciones de Desenvolvimento
Local) y la Red Española de Desarrollo Rural (REDR), reivindicando el fortalecimiento de
los grupos de desarrollo local en el territorio, un mayor equilibrio entre proyectos produc-
tivos y no productivos, comprometiendo a las áreas rurales con los Objetivos de Desarrollo
Sostenible y la Agenda 2030, defendiendo unas relaciones de equidad entre medio rural y
urbano, reclamando una digitalización inteligente de los núcleos rurales, y afrontando sin
desmayo la lucha contra la despoblación.11

. Los vínculos con la naturaleza, con el medio ambiente y con los paisajes naturales y cul-
turales. Los vínculos humanos con la naturaleza son vitales y mucho más en una sociedad
del riesgo como la nuestra, que ha abusado de acciones antrópicas agresivas y del expolio
de los recursos naturales no renovables y renovables. Es evidente que nuestras vidas y nu-
merosos aspectos de las relaciones transfronterizas se ha interrumpido por la pandemia en
estos meses de la primavera y verano de 2020, pero la naturaleza ha seguido sus ritmos, los
incendios forestales no han cesado, y el cambio climático y la pérdida de biodiversidad no
han disminuido, según los últimos datos e informes, tanto si contemplamos los hechos a
escalas globales como si los vivimos en nuestros territorios más próximos (ONU: United
in Science, 2020; WWF: Informe Planeta Vivo, 2020).
Parece incuestionable que las consecuencias y desafíos del Covid-19 nos sitúan como
seres humanos y como sociedad frente al cambio climático y al deterioro ambiental. A la
crisis ecológica se le ha sumado la crisis sanitaria del Covid-19, multiplicando las amenazas
e incertidumbres de los riesgos globales, alejándonos de las seguridades predicadas aquí y
allá bajo los principios neoliberales del laissez faire, laissez passer. No es extraño que, en
estas atmósferas inseguras, el concepto de resiliencia como principio de adaptación y de
respuesta a las mudanzas y adversidades de las condiciones socio-ambientales, se haya des-
parramado en escritos científicos de toda índole y en los discursos políticos o geopolíticos
de distinto signo12. Al parecer, poco a poco sustituye al concepto que ha dominado en los
discursos científicos y políticos desde hace tres décadas: la sostenibilidad.

11
Ver con cierto detalle: Posicionamiento REDR. Plan Estratégico Nacional PAC y Leader 2021 – 2027, en
http://www.redr.es/recursos/doc/2020/junio_2020/
12
En este contexto y lenguaje se enmarca el Plan de Recuperación, Transferencia y Resiliencia del Gobierno de
España. Pensamos que resulta más fácil hablar de resiliencia en sentido general que darle verdadero sentido
105 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território
y llenarla de contenidos concretos para alcanzar un país resiliente o una sociedad española o ibérica resi-
liente, aunque se tengan claras las amenazas, malestares y riesgos que se ciernen sobre nosotros: el cambio
climático, la crisis energética, y ahora, además, las pandemias. En el caso portugués, la “Visão Estratégica
para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030” elaborada por el Prof. António Costa e Silva,
constituye un documento que encuadra las opciones y prioridades que deberán guiar la recuperación de los
efectos económicos adversos causados por la actual pandemia. A partir de esta visión estratégica se diseñará
el Plan de Recuperación, para presentar a la Comisión Europea. Recibió el título de Plano de Recuperação e
Resiliência – Recuperar Portugal 2021-2020. Servirá de referencia para el modelo de desarrollo del país en
un contexto post-Covid19 basado en 10 ejes estratégicos: “(i) uma Rede de Infraestruturas Indispensáveis,
(ii) a Qualificação da População, a Aceleração da Transição Digital, as Infraestruturas Digitais, a Ciência
e Tecnologia, (iii) o Setor da Saúde e o Futuro, (iv) Estado Social, (v) a Reindustrialização do País, (vi)
a Reconversão Industrial, (vii) a Transição Energética e Eletrificação da Economia, (viii) a Coesão do
Território, Agricultura e Floresta, (ix) um Novo Paradigma para as Cidades e a Mobilidade e (x) Cultura,
Serviços, Turismo e Comércio” (https://www.portugal.gov.pt/pt/).
No obstante, en los mensajes políticos renovados se habla de un nuevo desarrollo
sostenible, más sólido e inclusivo, con pautas de relación y movilidad más respetuosas
con nuestros recursos ambientales estratégicos, entre los que lógicamente sobresalen
el agua y todo lo relacionado con lo verde. Más bien tendríamos que hablar de una
reconstrucción de las políticas públicas y de las esperanzas depositadas en los distintos
ámbitos transfronterizos, que con la pandemia cobran un significado más estratégico
y fundamental para la supervivencia colectiva y peninsular. Son muchas las claves me-
dioambientales y fuentes de la vida vinculadas a los territorios transfronterizos, parti-
cularmente en el manejo de los recursos hídricos comunes y de los espacios naturales
compartidos. Naturalmente, el modelo que hemos vivido hasta hoy, bajo parámetros de
concentración y especulación urbana o bajo la apropiación y el manejo destructivo o
caótico de nuestro patrimonio natural – con incendios pavorosos en nuestros territorios
de baja densidad – no puede continuar.
Recordemos que la destrucción de nuestros ecosistemas, con graves consecuencias
para las vidas humanas y para el medio ambiente y su biodiversidad, ha tenido como gran
protagonista a los incendios forestales, dejando tras de sí un rastro de desolación, y amena-
zando a espacios naturales protegidos y simbólicos. En algunos momentos (2011) hemos
asistido a una oleada de incendios en las provincias de Zamora y Salamanca que han
afectado desgraciadamente al Parque Natural del Douro Internacional – Parque Natural
Arribes del Duero, o más al norte, al Parque Natural de Montesinho – Reserva Natural de
la Sierra de la Culebra – Parque Natural del Lago de Sanabria, ámbitos de altísimo signifi-
cado natural y cultural con recursos estratégicos extraordinarios, pues conservan herencias
geomorfológicas, biogeográficas y culturales representativas e históricas.
Paralelamente a los desastres y deterioros de todo tipo, asistimos a una inquietud social
por el reconocimiento explícito de los valores, tanto naturales como culturales, asociados
a los espacios naturales protegidos; en gran medida han sido asumidos por las administra-
ciones públicas de uno y otro lado, al compás de nuestra integración en la Unión Europea
y la asunción de principios de conservación y ordenación como los comprometidos con la
106 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Directiva 92/43/CEE del Consejo, de 21 de mayo de 1992, relativa a la conservación de


los hábitats naturales y de la fauna y flora silvestres, y la creación de la Red Natura 2000.
De hecho, los entornos rayanos entrelazados por la Red Natura 2000 configuran los
eslabones básicos y primordiales de conservación y de salvaguarda de las condiciones eco-
lógicas de la raya ibérica. A pesar de los incendios tan asoladores padecidos, la red Natura
2000 constituye un amplio y alargado pulmón natural que, junto al vasto reservorio hídri-
co y energético transfronterizo, se convierten en estratégicos y vitales para el conjunto pe-
ninsular. Algunos hábitats representativos del monte mediterráneo, de los bosques mixtos
y de transición, o de los bosques caducifolios atlánticos, muestran en el Oeste y Noroeste
fronterizo peninsular un alto grado de biodiversidad; y allí donde la presencia secular del
hombre y el manejo sostenible de los recursos ha sido duradera nos quedan agrosistemas o
geosistemas tan reconocidos como las dehesas o los montados. También tenemos especies
faunísticas representativas que viven en habitats privilegiados en el entorno fronterizo; el
lince ibérico (Lyns pardina), águila imperial (Aquila adalberti), cigüeña negra (Ciconia
nigra) o el lobo ibérico (Canis lupus signatus), que ha encontrado desde el año 2015
un lugar bien concebido para su conservación y estudio en el Centro del lobo ibérico de
Castilla y León, en Robledo de Sanabria (Puebla de Sanabria, Zamora).
Observamos, pues, como toda la raya ibérica está ahora orlada por lugares de in-
terés comunitario (LIC) o por zonas de especial protección para las aves (ZEPAS) o por
ambas figuras a la vez, configurando esa amplia red Natura 2000, y creando vínculos
de afectividad y de respeto entre el territorio y sus habitantes; un patrimonio lleno de
enseñanzas y riquezas que coincide en buena parte con las figuras de espacios natura-
les protegidos declarados por los gobiernos nacionales o regionales respectivos. Antes
de nuestra integración europea, ambos países habían declarado en el área fronteriza o
en sus proximidades espacios naturales bien reconocidos y representativos. En 1971 se
aprobó el único Parque Nacional existente en Portugal, el de Peneda-Geres; en 1979 se
aprueba el Parque Natural de Montesinho, de indudable significado rural en Trás-os-
Montes; en 1981, se declara la Reserva Natural de la Sierra de Malcata, limítrofe con
la Sierra de Gata y en el ámbito del ecosistema del lince ibérico; y unos años antes, en
1976, se había aprobado, bien cerca, el Parque Natural de la Sierra de la Estrella. En el
lado español, en 1978 se aprueba y se realiza la primera delimitación del Parque Natural
del lago de Sanabria y sus alrededores serranos; en el extremo meridional peninsular,
en el Estrecho de Gibraltar y cerca de la frontera onubense con Portugal, se había de-
clarado en 1969 uno de los parques nacionales con mayor biodiversidad de Europa,
el de Doñana (1969). Al otro lado, en esa frontera difusa marcada por las aguas de la
desembocadura del Guadiana, se protegían como Reserva Natural (1975) las marismas
de Castro Marín y Vila Real.
107 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Con la asunción de las competencias medioambientales por parte de las Comunidades


Autónomas, en España, asistimos a partir de los años noventa del siglo pasado a la decla-
ración de numerosos espacios naturales protegidos en el área fronteriza o en sus inme-
diaciones. Es cierto que las tres figuras predominantes: parque natural, reserva natural, y
monumento natural, de acuerdo a la legislación nacional, guardan concordancia entre las
diferentes comunidades y también con Portugal. Pero a su lado, podemos encontrarnos
con matices regionales referidos a paisajes protegidos, zona de protección especial (ZPE),
zona de interés regional (ZIR), corredor ecológico y de biodiversidad, lugar de interés
científico, árbol singular, corredor ecocultural o parque periurbano de conservación y de
ocio, como nos señala la legislación en Extremadura. Un intento loable de desentrañar y
jerarquizar la naturaleza desde la figura más selectiva y de máxima protección, el Parque
Nacional, hasta la defensa de las piezas monumentales y aisladas, testimonios claves de un
pasado muy lejano. Esa larga duración de pervivencia, adaptación y biostasia de los eco-
sistemas está llena de lecciones y enseñanzas, unas aún vivas, otras completamente rotas,
y a punto de desaparecer por las mudanzas del cambio climático. No es fácil trasladar a
la ciudadanía y a la gestión cotidiana todos los matices y gradaciones que encierran tales
figuras, secuestradas muchas de ellas por la tecnocracia administrativa.
La fragmentación de figuras, con distinto grado de protección, ha llevado a pro-
puestas más integradoras y capaces de complementar con sentido unificador naturaleza
y acción humana en su más larga duración. Parece razonable que la más aglutinadora
se relaciona con las reservas de la biosfera del Programa sobre el Hombre y la Biosfera
(MaB) de la Organización de las Naciones Unidas para la Educación, la Ciencia y la
Cultura (UNESCO). Sus imágenes se han convertido en protagonistas de la cooperación
transfronteriza y en la promoción del territorio y del turismo. Son un buen ejemplo los
Geoparques (Geoparque Naturtejo da Meseta Meridional, 2004; Geopark Estrela, 2020)
y la Reserva de la Biosfera Transfronteriza Tajo-Tejo Internacional (España y Portugal),
aprobada en 2016. Con una superficie de 428.176 ha incluye al Parque Natural del Tajo
Internacional, al Parque Natural do Tejo Internacional, al Parque Internacional Tajo-Tejo,
a la Zona de Interés Regional Sierra de San Pedro y a numerosos enclaves de la Red Natura
2000, su eje de máxima protección viene marcado por el curso del río Tajo. Junto a los
grandes valores geomorfológicos, biogeográficos y faunísticos que atesora, sus asentamien-
tos y paisajes ganaderos o forestales están marcados por la despoblación, el envejecimiento
y la baja densidad. Así pues, el mensaje en favor de la conservación de la biodiversidad y de
los ecosistemas se enfrenta en las reservas de la biosfera a un manejo prudente, inteligente
y sostenible de los bienes naturales y culturales, sin olvidar la necesidad de un seguimiento
y conocimiento científico de todos sus recursos.
En esta línea instructiva y cultural, gracias a los fondos europeos toda la franja fronte-
108 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

riza se ha llenado en las últimas décadas de centros de interpretación de la naturaleza o de


museos etnográficos, con distintas capacidades de comunicación y de integración con sus
entornos. Resulta delicada una valoración de sus efectos en los territorios a medio y largo
plazo, pero en general ya se aprecian resultados en la cohesión y visibilidad de los extraor-
dinarios recursos tangibles e intangibles existentes. Por su presencia pionera y significado
en la reivindicación del patrimonio cultural y natural, subrayamos y recordamos como
referencias al Centro Cultural Raiano (Idanha-a-Nova) y al Centro de Ciencia Viva da
Floresta (Proença-a-Nova), tanto por su dimensión científica y educativa como por su gran
aceptación ciudadana. El Centro Cultural Raiano ha fortalecido desde su inauguración en
1997 la vida de la villa de Idanha-a-Nova, gracias al empuje político de la cooperación y
las ayudas europeas, convirtiéndose en un magnífico museo de un patrimonio “muito rico
e vasto”, en un centro de investigación y en una referencia en la programación cultural de
las viejas tierras de Idanha o Egitania. Por su parte, el Centro de Ciencia Viva da Floresta
(Proença-a-Nova) nos aproxima desde 2007 a un conocimiento amigable, inteligente y
accesible del medio ambiente a través de los árboles, de los bosques y de la naturaleza;
también se nos muestra como un lugar de encuentro acogedor, de enseñanza, de atracción
de visitantes y de educación ambiental.
Aunque en estos momentos de crisis sanitaria y económica sea complicado y hasta
utópico cumplir con los objetivos de desarrollo sostenible de la ONU, es necesario aunar ya
esfuerzos cívicos, educativos y políticos a escala local y regional para hacer las paces con la
naturaleza, en palabras de António Guterres, Presidente de la ONU, teniendo como desa-
fíos inmediatos e inaplazables la lucha contra el cambio climático y el mantenimiento de la
biodiversidad en nuestros paisajes naturales y culturales. El incremento de la temperatura
y las irregularidades termo-pluviométricas extremas y estacionales ya están presentes en
nuestros entornos hace algún tiempo.
. La escala Ibérica y la permeabilidad transfronteiriza; viejas y nuevas demandas. La pará-
lisis de los trasiegos fronterizos y los cierres por el coronavirus han puesto de manifiesto las
grandes ventajas ligadas a la permeabilidad y movilidad entre ambos países, pero también
nos han recordado los déficits e inconvenientes persistentes o nos han mostrado imágenes
(caminos cortados, obstáculos de barreras y vallas, accesos clausurados, cruces vigilados…)
que no veíamos desde hace más de tres décadas. Los problemas de conexión tanto ferro-
viaria como viaria entre España y Portugal cobran ahora un significado renovado, aunque
son problemas y temas recurrentes en las relaciones ibéricas; casi siempre van con lentitud
y con retrasos evidentes ante las demandas reales, por aquello de las burocracias nacionales,
de los recelos del poder, de las competencias centrales o regionales, o por problemas téc-
nicos y también presupuestarios. Algunas de estas conexiones se han resuelto en ocasiones
de forma lógica y natural, sin mayores contratiempos, cuando los vecinos rayanos se han
109 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

puesto manos a la obra y han unido con sus manos y trabajos uno y otro lado, uno y otro
pueblo, como nos lo recuerda el puente construido en el otoño de 1991 por los habitan-
tes de Aldea del Obispo (E) y de Vale da Mula (P) sobre la línea fronteriza marcada por
la rivera común del Turones/Tourões13. Un paso fronterizo y un pequeño puente abierto
13
Una de las crecidas del río Turones se había llevado la puente o pontón tradicional que franqueaba el camino y el
paso entre la localidad salmantina de Aldea del Obispo y la vecina portuguesa de Vale da Mula, bien conocido y
transitado por los vecinos y los contrabandistas de antaño; apenas unos tres kilómetros los separan en aquellos
extremos ignorados de ambos países. En pocos días, con sentido común y el esfuerzo colectivo de los vecinos,
reconstruyeron o levantaron el puente con mejoras muy notables de la infraestructura (hierro, hormigón,
granito, anchura, accesos…), facilitando el paso, además de a las personas, a los automóviles y a los tractores.
con trabajo concejil y mantenido por iniciativa de los propios vecinos, sin aduana y sin
vigilancia. Así fue durante siglos en los pueblos fronterizos. La vida local se fortaleció y las
necesidades básicas y de proximidad se remediaron con dignidad en una zona muy despo-
blada y de baja densidad. Entonces conocieron en Madrid, en Valladolid, o en Lisboa que
existían a uno y otro lado de la raya esos lugares olvidados y con topónimos tan expresivos.
Bien cerca, a unos quince kilómetros y a una escala ibérica de largo alcance y recorri-
do, el enlace de la frontera entre la A-62 española y la A-25 portuguesa, entre Fuentes de
Oñoro (E) y Vilar Formoso (P), sigue pendiente, sin terminarse, aunque en estos momen-
tos sus obras se encuentren bastante avanzadas. Este enlace de menos de cinco kilómetros
y “cuello de botella” lleva esperando más de 12 años su apertura, pues desde el año 2008
que se abrió el tramo de la autovía de Ciudad Rodrigo – Fuentes de Oñoro, ha quedado
sin finalizar hasta hoy por distintas vicisitudes. Cabe subrayar que estamos ante el eje
vertebrador del occidente de la península Ibérica en la Red Transeuropea de Transporte (E
– 80), clave para la cohesión territorial, el intercambio de bienes y personas, y el desarrollo
económico. Hasta los cierres de las fronteras por la pandemia circulaban por aquí más de
2,5 millones de vehículos al año y entre 7,5 y 9 millones de personas, convirtiéndose en
un cruce y paso estratégico para el transporte internacional de mercancías en “vehículos
longos” (TIR), símbolos del mercado global, y para los miles de autobuses de viajeros que
han encontrado aquí una buena acogida y hospitalidad. La caída del tráfico y del transpor-
te será de un 65% con la declaración de los estados de Alarma y Emergencia, aunque con la
apertura veraniega del 1 de julio se recuperó, pero en los momentos de máximo trasiego
del mes de agosto el descenso se calcula en un 25%. Estos datos contrastan con la ima-
gen y memoria que tenemos de la antigua Nacional 620, la histórica carretera de Burgos
a Portugal, itinerario sobre el que monta la A-62 y la E-80, conocida entonces como la
“ruta de portugueses” que procedentes de Europa se dirigían hacia el Centro y Norte de
Portugal, hacia Lisboa, Aveiro y Oporto, y colapsaban con largas retenciones y atascos la
circulación en las vacaciones estivales.
Las mayores dificultades de comunicación en la raya ibérica han venido condicionadas
110 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

por los relieves serranos que se interponen o por los propios ríos que delimitan y marcan la
frontera a lo largo de cientos de kilómetros en la llamada raya húmeda, en muchos tramos
profundamente encajada. Las comunicaciones transversales han sido una gran carencia
histórica que gracias a la cooperación y a los fondos europeos se han corregido en gran
parte. Podríamos hablar de una fiebre general por los puentes a raíz de nuestra integración
europea, cuya construcción logra salvar obstáculos difíciles y seculares, convirtiéndose en
símbolos de unión entre territorios próximos y lejanos. Algunos ejemplos de indudable
significado territorial y transfronterizo nos permiten entender su transcendencia geográfica
en la movilidad humana y en el transporte de bienes. En 1991 se inaugura el largo puente
internacional del Guadiana, cerca de la desembocadura, entre Ayamonte (E) y Castro
Marín (P); atrás quedaba el viejo barco, dando paso al gran corredor entre el Algarbe (P)
y Andalucía (E) que unirá las autovías portuguesas y andaluzas desde el sur. El puente
nuevo e internacional sobre el Miño entre Tuy (E) y Valença do Miño (P) se inaugura en
1995, facilitando las conexiones de largo recorrido entre Galicia y el norte de Portugal.
Por estos puentes internacionales, que han permanecido relativamente transitables duran-
te la pandemia, circulan habitualmente el mayor número de vehículos ligeros que cruzan
diariamente la frontera ibérica; em 2016, 13.063 por el puente nuevo entre Tuy y Valença
do Minho, y 9.942 por el puente de Ayamonte y Monte Francisco (Vila Real S. Antonio).
Aunque por aquí también circulan diariamente un elevado número de transportes pesados
y de mercancías, la mayor intensidad media diaria de vehículos pesados corresponde a los
pasos fronterizos de la raya seca: em 2016, 2.291 por Fuentes de Oñoro–Vilar Formoso,
y 2.104 por Badajoz–Caía.14
No faltan otros ejemplos de puentes que han rasgado proximidades fluviales infran-
queables o lejanías periféricas y marginales; unos han acercado territorios hasta convertir-
los en una calle más de convivencia y unión de dos poblaciones ribereñas como el puente
entre Salvatierra do Miño (E) y Monção (P) que ha cumplido 25 años, 1995; otros, como
el puente internacional de Monfortinho (P), sobre el río Eljas/Erges, en 1993, una inter-
vención dudosa para los esquemas centralistas y lejanos de Madrid, vertebra ahora territo-
rios marginales en la alta Extremadura y en la Beira Interior Sur, en el distrito de Castelo
Branco; además de acercarnos a las históricas termas de Monfortinho; próximamente sus
funciones se ampliarán al enlazar la autovía autonómica EX–A1 con el IC-31 y la autoes-
trada A-23 en Castelo Branco. De gran trascendencia territorial consideramos el reciente
puente internacional de Quintanilha sobre el río Manzanas/ Maçãs (2007 /2009) entre las
localidades de San Martín de Pedroso (E) y Quintanilha (P), en Trás-os-Montes y en el dis-
trito de Braganza; aunque el nuevo puente de 595 metros de longitud se termina en el año
2007 no se pondrá en servicio hasta el año 2009, cuando finalizan las obras de acceso al
mismo. La conexión y enlace de la N. 122 con la IP-4 convierte a este paso en un tránsito
111 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

clave para el noroeste español y para el norte de Portugal. A su vera queda el viejo puente
de principios del siglo XX, los límites meridionales del Parque Natural de Montesinho, los
paisajes de las tierras de Aliste y de la Reserva de la Sierra de la Culebra, y un lugar sagrado
para los vecinos de la raya: la ermita de la virgen “La Riberina”.
La trabazón y el tejido de pueblos vecinos con puentes accesibles han creado en la raya
ibérica formas de cooperación y de relación de proximidad esperanzadoras; así parecen

14
Los datos corresponden al Observatorio Transfronterizo España-Portugal 2016, República Portuguesa,
Economía – Gobierno de España, Ministerio de Fomento, 2018.
expresarlo los habitantes de Pomarão (P) y el Granado (E) con el puente construido sobre
el río Chanza (2008), afluente del Guadiana, uniendo las tierras alentejanas de Mértola
con las onubenses del Andévalo, aunque los sistemas productivos locales no acaban de
despegar. Lástima que no se aprovechase con inteligencia ambiental el muro de conten-
ción de la presa del Chanza (1989), pues el puente corre paralelo al muro de la presa con
irremediable impacto ambiental. Asimismo, con indudable entusiasmo por parte de las
autoridades y vecinos se inauguró (2007) el puente entre Zarza la Mayor (E) y Salvaterra
do Extremo (P), sobre el río Eljas; “una puerta abierta al futuro y a la convivencia” entre
rayanos que viven en auténticas tierras extremas de bajísima densidad, rodeadas de enci-
nares o alcornocales adehesados, olivares y frutales, y de algunos caminos fantasmales o
de ruinas de castillos roqueros medievales, antaño vigilantes (Castillo de Peñafiel en el lado
español y Castelo de Salvaterra do Extremo en el lado portugués); un puente fronterizo
original sobre un azud que con las crecidas del río Eljas se desborda peligrosamente y sus
aguas ya han arrastrado algún coche.
Las presas de nuestros grandes embalses fronterizos, con sus carreteras culminantes, han
sido hasta nuestra integración europea, los grandes caminos de comunicación transfronte-
riza y de control aduanero, como observamos en el Duero internacional. El paso fronterizo
entre Miranda de Douro (E) y Torregamones (E) se abre paso sobre la presa de Miranda
(1961), uniendo las comarcas zamoranas con la Tierra de Miranda y Tras-os-Montes, en el
distrito de Braganza. Miranda de Douro es una referencia monumental, mercantil y turísti-
ca para los castellano-leoneses y españoles, donde disfrutan de una hospitalidad amigable y
afectiva. A los atractivos monumentales y culturales se ha sumado gracias a la cooperación
transfronteriza un crucero ambiental que aprovecha las aguas del embalse de Miranda,
acercándonos empíricamente a los paisajes naturales y culturales tan sorprendentes de los
Arribes del Duero en aquellos recovecos y rincones olvidados; justamente allí, en las “pedras
graníticas y amarelas”, es donde José Saramago inició su Viaje a Portugal (1981). Del mismo
modo, aguas abajo, la presa, embalse y central de Bemposta (1964), sirve de paso entre
Fermoselle (E) y Bemposta (P), dos expresivos topónimos rayanos que remarcan la belleza
112 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

de sus emplazamientos, uniendo las tierras trasmontanas del Concejo de Mogadouro con
las zamoranas y salmantinas. Desde el salto y presa de Bemposta, ahora pintada con unos
amarillos intensos que contrastan con los verdes cenicientos del entorno y con los grises de
los hormigones de la obra hidráulica, podremos contemplar los paisajes rurales construidos
con tanto esfuerzo en los encajamientos de Los Arribes y del Parque Natural del Duero
Internacional. Igualmente, aguas abajo, la presa, embalse y central de Saucelle (1956), une
las tierras de la penillanura salmantina y la del concejo portugués de Freixo de Espada á
Cinta; no obstante, aunque en 1960 se establece una aduana de segunda clase en este paso,
no se abrirá la frontera y de forma muy parcial hasta 1980, pues tan solo será durante las
fiestas patronales de uno y otro lado; en 1988 se ampliara la apertura a todos los fines de
semana, sábado y domingo, y días festivos. Finalmente, desde 1995 con la supresión de los
controles de fronteras (Acuerdos de Schengen) la apertura se mantendrá hasta el mes de
marzo de 2020 que se cerrará con la pandemia.
Más abajo, en ese lugar tan simbólico, donde le Duero gira en hacia el Oeste e inicia el
camino hacia su desembocadura en Oporto, después de recibir al río Águeda, topamos con
un puente de hierro (1887) que cruzaba el ferrocarril de La Fuente de San Esteban–Barca
d´Alba-Pocinho, y ahora con un puente de hormigón construido con fondos europeos
(2000); una conexión con aires modernizadores y sustitución del vaivén del tren que
durante un siglo unió las tierras ibéricas y europeas con el litoral atlántico portugués a
través del valle del Duero. En aquel entorno se resumen siglos de historia fronteriza entre
España y Portugal, de domesticación agrícola propia de gigantes (Alto Douro Vinhateiro,
Patrimonio de la Humanidad), de ingeniería ferroviaria valiente y original, de navegabi-
lidad y transporte fluvial prudente; también se condensan allí miles de años de modelado
fluvial y de encajamiento del río Duero y de sus afluentes, que descienden con energía en
su busca, formando relieves anfractuosos y bravíos de “caideros”, “fervencias”, “cadozos”
y pozas o pozos humeantes.
El gran déficit de las conexiones en la raya ibérica es el ferrocarril. Los datos de trans-
porte son evidentes. En el reparto modal, el transporte de viajeros por ferrocarril entre
España y Portugal apenas si representa el 0,5% de la movilidad (2016) frente al 92 %
por carretera; el aéreo representaba el 7,1% y el fluvial el 0,4%. Para las mismas fechas, el
transporte de mercancías por ferrocarril es algo superior, del 5,9%, y desciende al 70,6%
por carretera, mientras asciende visiblemente el marítimo al 23,5%15. Por otra parte, según
algunos expertos, las inversiones en infraestructuras en Portugal se han concentrado en los
últimos años en las carreteras, en un 90%. En España, las inversiones entre carreteras y
ferrocarriles han estado bastante equilibradas, centradas en la alta velocidad.
Desde la Expo de Sevilla, en 1992, España apuesta por una política e inversiones ferro-
viarias centradas en la Alta Velocidad, que se enmarca en el Plan de Transporte Ferroviario
113 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

de 1987. Dos años antes se habían cerrado unos 1.000 kilómetros de líneas ferroviarias
consideradas obsoletas, entre ellas algunas fronterizas o próximas a la raya. El empeño y las
inversiones se concentran en un primer momento en el nuevo trazado del AVE Madrid-
Sevilla que entrará en servicio en la primavera de 1992, para la inauguración de la Expo de
Sevilla. La sola contemplación y análisis de los planes de infraestructuras y la alta velocidad
a medio y largo plazo (1993-2007) nos señalan tres perspectivas territoriales evidentes: el

15
Observatorio Transfronterizo España-Portugal: Evolución de 2012-2016, Secretaría General de Transporte
(Gobierno de España, Ministerio de Fomento) – Gabinete de Estrategia e Estudios (República Portuguesa,
Economía), Junio 2018.
gran vacío de intervenciones en todo el oeste español y en el ámbito fronterizo, aunque se
insinúa el camino de la alta velocidad hacia la frontera por Badajoz-Lisboa; sigue la dispo-
sición radial y centralizada en Madrid de la nueva red ferroviaria lo que debilita la cohesión
y equilibrio territorial, y se mantiene el afán político de unir con alta velocidad a todas las
capitales de provincia16. Todo muy lejos de las necesidades de la raya ibérica.
Por su parte, desde la Expo de Lisboa (1998), Portugal no se ha enfrentado a una política
ferroviaria de manera contundente, capaz de articular y vertebrar los territorios más periféricos
y del interior fronterizo. Quizás las fuerzas y energías presupuestarias se concentraron y se
agotaron entonces en aquella arquitectura tan reveladora del Parque de las Naciones y en
aquella estación de Oriente en Lisboa, “catedral de la ingeniería”, en palabras de António
Guterres, donde se integran el ferrocarril, el metro y los autobuses.
Frente a los 64 pasos fronterizos por carretera que conectan a España y Portugal,
tan sólo tenemos tres conexiones ferroviarias activas: Valença do Minho–Tui (Linha do
Minho), Vilar Formoso–Fuentes de Oñoro (Linha da Beira Alta) e Elvas–Badajoz (Linha
do Leste). En estas circunstancias es difícil cumplir con los objetivos estratégicos previstos
en los distintos planes ibéricos de infraestructuras para asegurar “la movilidad y accesibi-
lidad de las personas y bienes de todo el país” (Portugal) y avanzar en la “cohesión social
y territorial”. Cuando nos detenemos en la vertebración territorial y volvemos la vista
atrás, son muchos los lamentos que leemos y escuchamos por los cierres de ferrocarriles
valorados en su momento como no rentables, y por las pérdidas de servicios ferroviarios
considerados históricos y estratégicos para la articulación y equilibrio territorial. Por ello,
resulta esperanzador para el interior portugués y para el entorno fronterizo, la apertura
y mejora integral de la línea de la Beira Baixa, entre Guarda y Covilhã que permanecía
cerrada desde el año 2009. Una apuesta de 46 Km. muy esperada por los municipios o
concejos de Guarda, Belmonte y Covilhã, y que se enmarca dentro del plan de mejora
de infraestructuras y de revitalización del transporte ferroviario en el Norte de Portugal,
tratando de enlazar y conectarse con la red española.
En este sentido, son muchas las voces que abogan y defienden, por ejemplo, la reaper-
114 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

tura de la vía férrea del Duero como línea transfronteriza e internacional, pasando preci-
samente por los caminos y puente de hierro de La Fregeneda. Se han oído en la Asamblea
de la República portuguesa y se han escuchado y escrito en Europa, señalando que la
Línea del Duero, cerrada inexplicablemente en España en 1985 y en Portugal en 1988, con
“un potencial económico desaprovechado”, sigue manteniendo su valor estratégico como
alternativa más sensata para unir el litoral portugués del norte con el interior ibérico; y

16
Puede seguirse con cierto detalle el análisis de las políticas ferroviarias en España que realiza Josefina Cruz
Villalón: “La política ferroviaria en España. Balance de su planificación y ejecución de los últimos treinta
años”, Boletín de la Asociación de Geógrafos Españoles, nº 74, 2017, pp. 333-359.
estas voces precisan, además, que el ferrocarril redivivo generaría valor social, económico
y cultural, impulsando la integración y cohesión territorial a partir de los extraordinarios
recursos naturales y patrimoniales.
Sobre estas opciones basadas en la lógica territorial y en la recuperación integral de
la línea, observamos una dejación y olvido de la política de cohesión y desarrollo por
parte de Madrid y Lisboa, y una ausencia de sensibilidad hacia toda la región fronteriza
del Douro/ Duero. Las autoridades regionales de Castilla y León, en Valladolid, y las
de Salamanca, siguen también ausentes y lejos de los problemas reales del mundo rural
transfronterizo y deciden, después de años de reivindicación por grupos y plataformas
– la asociación Todavía es un buen ejemplo – en defensa del patrimonio ferroviario
y cultural, por el exclusivo uso turístico y senderista de la línea. El sueño europeo y
el de los propios concejos del Duero, que apuestan por reactivarla como línea regular
de pasajeros y de mercancías, merecería más coraje y solidaridad territorial por parte
nuestros gobiernos nacionales y regionales. Mientras, hemos asistido al despilfarro
imperdonable de millones de euros en artificios insensato alejados del territorio y de
los ciudadanos.
En el año 2008, el presidente de La Junta de Castilla y León anunció con toda la
parafernalia posible un Plan Regional del Valle del Duero que consistía básicamente en
la construcción de cinco grandes cúpulas faraónicas, “las cúpulas del Duero”, con una
inversión de unos 1.000 millones de euros, que sería modelo de desarrollo sostenible y
de política regional. A la zona fronteriza del Duero se le atribuía “la cúpula del agua”.
Nunca se cumplió el plan, a pesar de la propaganda desplegada, salvo una polémica y
judicializada Ciudad del Medio Ambiente en Soria, en el alto Duero, reconvertida ahora
en Parque Empresarial del Medio Ambiente. Un fiasco más y un sumidero de millones
de euros. Por su parte, la Diputación de Salamanca, construyó con fondos europeos el
Muelle de Vega Terrón (1995), en la orilla española en el encuentro del río Águeda con el
Duero, cuya función en el transporte de mercancías ha sido un fracaso total, lo mismo que
su conversión en una especie de lanzadera turística. Una frustración total con millones de
115 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

euro invertidos inútilmente, mientras se oxidaban las extraordinarias estructuras férreas de


los puentes o se llenaban de maleza las vías y los túneles del ferrocarril de la Fuente San
Esteban–Boadilla (E) a Barca d´Alva (P), en el noroeste del distrito de Guarda. Un confín
que el ferrocarril había unido con inteligencia a la península ibérica y a Europa durante un
siglo (1887), y ante las demandas ciudadanas declarado Bien de Interés Cultural (BIC) el
año 2000 en su tramo español. Los tecnócratas de la modernización y del neoliberalismo
de nuestro tiempo no ha sido capaces de imaginar el futuro. El presupuesto calculado para
la reapertura de la línea del Duero no sobrepasa los 300 millones de euros, 200 para el
tramo portugués y 100 para el español. Ya se gastaron en políticas de artificio.
Los nexos intermedios y la trabazón de un mundo rural vivo. La apuesta por la cohesión y
el equilibrio territorial. Frente a las dificultades de la megalópolis y de la gran ciudad para
controlar los contagios y los efectos de la pandemia, los espacios rurales de baja densidad
y núcleos intermedios dotados de buenos servicios y equipamientos han ofrecido una cara
más amable y acogedora. La geografía del malestar y de la precariedad, alimentada por las
desigualdades acumuladas en los últimos años y por la voracidad urbana, se ha acentuado
súbitamente con las consecuencias catastróficas de la pandemia; a ella se ha sumado una
geografía del riesgo y de la incertidumbre ante las amenazas de los contagios17, empujando
a un buen número de habitantes urbanos, vinculados con el mundo rural, a refugiarse en
sus casas o residencias temporales en pueblos y aldeas casi abandonados y olvidados. Muchos
retornados y nuevos vecinos allí siguen, con voluntad de no regresar a la “ciudad carcelera”.
La imagen puede ser coyuntural, y es necesario apostar por el fortalecimiento de los
nexos intermedios y por los tejidos urbanos medianos que aún vertebran los territorios
fronterizos. Son los que contribuyen con sentido inclusivo a la cohesión social y espa-
cial. En esta línea se han manifestado algunas autoridades en el VIII Foro Hispano-Luso
como Elisa Ferreira que insiste en “convertir las ciudades medianas en lugares donde las
empresas se puedan instalar y donde los jóvenes quieran vivir”, lo que implica mejorar
las condiciones y derechos a la sanidad, a la educación, a la cultura, al ocio, a internet,
sin olvidar los accesos y mejoras en las comunicaciones. Por su parte, la Presidenta del
Parlamento Español, pide crear y mantener una “verdadera política integrada” y convertir
la frontera hispano-lusa en una “oportunidad” para combatir la despoblación, e “impulsar
el desarrollo equilibrado e inclusivo de nuestros territorios”18
La articulación y cohesión de los territorios fronterizos en la Raya Ibérica nunca han
sido fáciles, bien por las discontinuidades administrativas y funcionales, bien por las rup-
turas físicas y humanas de la red viaria en los confines, “finisterres” y extremos españoles o
portugueses. Se ha hablado con razonable sentido geográfico de la fragilidad de los siste-
mas urbanos fronterizos y la dependencia de los grandes y lejanos centros metropolitanos,
donde se toman decisiones inexplicables para los habitantes de estos bordes, sobre todo en
116 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

la Raya Central Ibérica. Los contrastes entre la concentración demográfica y la dispersión

17
Las incertidumbres son muy reales; el 93,5 % de los españoles se muestran muy preocupados por los efectos
y riesgos del coronavirus, temores que se relacionan con las formas de convivencia, con las situaciones en las
ciudades, con las condiciones de vida y bienestar… que se trasladan a propósitos en favor de “vivir de una
manera sencilla y tranquila”, de “disfrutar de la naturaleza” (CIS, Encuesta sobre los efectos y consecuencias del
coronavirus, octubre/ noviembre de 2020). Ver: F. Tezanos (2020) – La pandemia que transforma nuestras
sociedades, en Sistema Digital, nº 312, Diciembre, 2020, pp. 5-10.
18
VIII Foro Parlamentario Hispano-Portugués, Asamblea de la República de Portugal, 14-09-2020. Ver.
Pablo González Velasco – Meritxell Batet quiere una relación estratégica con Portugal para políticas integra-
das propias, El Trapezio (14-09-2020).
con pueblos y aldeas casi vacías conllevan una percepción llena de sentimientos de aban-
dono, cuando más se necesita una vertebración a escala local y de proximidad por parte de
las pequeñas villas, cabeceras de comarca o de concelho. A propósito de las relaciones y ar-
ticulación en la raya de Castilla y León con una parte de Trás-os-Montes y la Beira Interior
Alta se escribía en aquellas aproximaciones y diagnósticos de los años noventa acerca de
los “condicionantes derivados del sistema de asentamientos, caracterizado por la mínima
presencia de ciudades en Portugal (Bragança, Guarda, Covilhã) a su vez muy dependientes
de las grandes ciudades del país, e insuficiente en cuanto a la talla de pequeña ciudad (y
villa) en el occidente de Castilla y León (Benavente, Toro, Zamora, Salamanca, Ciudad
Rodrigo, Béjar), estando muy distantes unas de otras ciudades”19.
Durante estos treinta años de integración europea, en mayor o menor grado, las ciuda-
des y núcleos intermedios transfronterizos han recibido ayudas europeas y de la cooperación
transfronteriza; y es bien visible la renovación de sus paisajes urbanos y de sus bienes mo-
numentales, a pesar de que muchas de ellas hayan sufrido en sus entrañas funcionales las
consecuencias de las pérdidas demográficas de sus inmediatos entornos rurales. Para reforzar
su posición, se han buscado acuerdos a través de las Agrupación Europea de Cooperación
Territorial (AECT), naciendo asociaciones de interés económico y urbano o “eurociudades”
entre núcleos de distinto tamaño de uno y otro lado, y mantener así proyectos comunes de
cooperación apoyados por los fondos europeos. En estas estrategias y planes comunes se
suele subrayar el valor añadido que aportan las ciudades o núcleos participantes, al abordar
juntos el progreso económico y la promoción del espíritu empresarial, las mejoras de las
infraestructuras y equipamientos, la promoción, protección y conservación del patrimonio
natural y cultural, sin olvidar las relaciones sociales y la cooperación ciudadana a través de las
instituciones respectivas. Con frecuencia, además, los diseños y planes comunes se justifican
por la creatividad e innovación de las propuestas, que persiguen como objetivo final “for-
talecer el papel de las ciudades en la cohesión territorial y la dinamización socioeconómica
del espacio transfronterizo hispano-portugués”. Un reto voluntarioso que se enfrenta a unas
realidades rurales maltrechas y envejecidas, con mujeres y hombres resistentes al desaliento,
117 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

a las pobrezas y a las intemperies de los bordes fronterizos.


Apesar de las múltiples mudanzas y la desoladora despoblación dominante, es difícil
encontrar en toda la península un mundo rural y unos paisajes culturales tan elocuentes y
variados como los que observamos en la franja fronteriza ibérica. Además de enseñanzas am-
bientales y de distintos modelos de adaptación de los aprovechamientos agrícolas y ganade-
ros, nos muestran lecciones humanas del campesinado llenas de fatigas y pobrezas seculares;

19
L. López Trigal (1999) – Nuevos escenarios de desarrollo en las áreas de la frontera hispano-lusa. In Actas del 6º
Congreso Económico Regional de Castilla y León, Zamora, nov de 1988, Junta de Castilla y León, 1999, p. 191.
también de riquezas que se han acumulado en pocas manos con el trabajo de miles de jor-
naleros, emigrados en su mayoría lejos de estas tierras. Desde la desembocadura del Miño
hasta el estuario del Guadiana, recorremos unos 1234 kilómetros y atravesamos territorios
y paisajes marcados por el entrecruce de las condiciones físicas mediterráneas y atlánticas20;
junto a la idea de mosaico en la formación de los paisajes y de modos de vida de larga dura-
ción, podríamos destacar los ejemplos de las grandes explotaciones adehesadas y montados
meridionales sobre encinares, alcornocales y montes mixtos, o los minifundio de policultivo
y “colturas promiscuas” ejemplares en los valles y montañas más septentrionales, siempre
buscando la complementariedad de la trilogía mediterránea (pan, vino y aceite); no obstante,
los matices vendrán señalados por el mayor o menor dominio de “terras quentes” o “terras
frías”, de valles encajados o penillanuras, de montañas graníticas y sierras apalachenses. En
estos confines, al lado de géneros de vida que tan bien estudiaron Leite de Vasconcelos, Jorge
Dias, Franz Krüger, Julio Caro Baroja, Antonio Llorente Maldonado, o más recientemente
Ángel Iglesias Ovejero, perviven características léxicas antiguas que nos muestran un rico pa-
trimonio lingüístico y cultural a lo largo de toda la franja rayana, en estrecha ligazón con la
vida rural, las tradiciones orales y los intercambios locales (ganadería, agricultura, artesanía,
contrabando, fiestas y romerías…). El testimonio más sobresaliente nos queda en el miran-
dés, segunda lengua, lógicamente junto al portugués, reconocida oficialmente en Portugal.
Las mudanzas modernizadoras relacionadas con los recursos mineros y sobre todo
con los aprovechamientos hidroeléctricos y con los regadíos, rasgarán estos modelos
rurales en los momentos de máximo crecimiento demográfico en muchos puntos de
la frontera y en las zonas adyacentes, hasta dejarlos finalmente exangües. Son historias
apasionantes y a veces muy dramáticas, pues convertirán a los ríos fronterizos com-
partidos en la fuente principal de energía y de riqueza de la península durante muchas
décadas. El mundo campesino puso las tierras, también la mano de obra y la fuerza
humana, e incluso la imagen necesaria de amor a la patria. Los capitales lejanos prote-
gidos por las dos dictaduras se beneficiarán hasta nuestros días con ingentes plusvalías.
La sola enumeración de las presas y embalses nos acerca a los cambios tan radicales que
118 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

ha sufrido la raya Ibérica y sus modos de vida rural en el pasado siglo y en el presente.
No faltan interpretaciones y análisis que nos hablan del saqueo inmisericorde de estas
tierras humildes y trabajosas. Desde aquellos tiempos, el éxodo rural a los grandes cen-
tros urbanos ibéricos y a los países europeos marcará el devenir de los pueblos y aldeas
rayanas hasta nuestros días, cuando se vuelve a apostar, bajo un sueño quizás utópico,

20
En las raíces de cuánto decimos se encuentra la obra clásica para la geografía ibérica de Orlando Ribeiro
(1945) – Portugal, o Mediterráneo e o Atlántico. Coimbra, Colección Universitas; y para entender las mudan-
zas vividas en los tiempos actuales puede seguirse el análisis de Jorge Gaspar (1993) – As Regiões Portuguesas.
Direcção-Geral do Desenvolvimento Regional, Lisboa.
por un mundo rural vivo. Un reto gigantesco y de dimensiones multifuncionales frente
al abandono y la despoblación, en el que se imbrican problemas económicos y de sobe-
ranía alimentaria, problemas medioambientales y energéticos, problemas de equidad en
los servicios básicos como los sanitarios, problemas patrimoniales como la gestión de los
bienes comunes, y naturalmente, aquellos de mayor hondura y que están en la base de
la recuperación de un mundo rural vivo: los demográficos y sociales.
También se cumplen treinta años de la iniciativa Leader que ha contribuido decisivamente,
desde los años noventa, al mantenimiento y recuperación de los tejidos rurales en las comarcas
y concelhos fronterizos. Los grupos de acción local de uno y otro lado han sido claves para
adoptar estrategias de desarrollo local y de lucha contra la despoblación, de movilización de
los recursos endógenos y de favorecer la participación de la mujer en las nuevas alternativas de
recuperación. Entre las mediadas e intervenciones económicas, sociales, medioambientales o
culturales destacan con cierta fuerza las acciones relacionadas con el turismo rural y de interior,
partiendo de las grandes oportunidades que brindan el patrimonio natural y cultural, las arte-
sanías locales, o en muchos lugares las arquitecturas locales y sobre todo las fortalezas y villas
abaluartadas que jalonan la raya ibérica desde la Edad Media, un testimonio simbólico del pa-
sado. Bien podríamos hablar de un “turismo de frontera”, en la estela de Antonio Campesino,
Carminda Cavaco o Fernanda Cravidão, con virtudes poderosas para dar alguna cohesión y
sentido cultural a muchos núcleos intermedios y áreas rurales rayanas.
Estas acciones cobran una repercusión más integradora cuando enlazan inteligentemente
con los viejos caminos rurales e históricos, algunos de los cuales hunden sus trazados y empe-
drados en las tramas viarias y calzadas romanas. Pueden convertirse en verdaderos itinerarios
y corredores culturales, entreverando las propuestas de recuperación de un mundo rural vivo.
Entre las múltiples rutas posibles (enológicas, religiosas, ecológicas, guerras napoleónicas,
etc.) podríamos subrayar el sentido secular, ambiental, rural y cultural de los caminos de
la trashumancia y de los caminos a Santiago con gran significado transfronterizo. Todas las
sierras transfronterizas guardan huellas elocuentes ligadas a la vida pastoril. Las fiestas de la
trashumancia en la Sierra de la Estrella (Sabugueiro) o en la Sierra de Gardunha (Alpedrinha)
119 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

nos recuerdan los caminos ganaderos que enlazaban las tierras fronterizas de la Beira Baja
y de Extremadura con las sierras, dejándonos unas riquezas y manifestaciones culturales de
estos modos de vida, que nos hablan expresamente de telares y artesanía textil (cobertor de
“papa”, etc.), de razas ganaderas autóctonas, de la producción de quesos (“queijos da serra”),
de gastronomía local, o de identidades folclóricas21.

21
Los cencerros (chocalhos) son sobre todo de uso ganadero, pero también tienen una vertiente etnográfica
como instrumento musical (“Festival de Chocalhos” de Alpedrinha). El arte de la Chocalheira en Portugal
(fabricación de cencerros) fue reconocido por la Unesco en 2015 como Patrimonio Cultural Inmaterial de
la Humanidad, con la necesidad de su salvaguarda urgente.
Asimismo, los caminos transfronterizos a Santiago nos muestran distintas rutas con mayor
o menor presencia o consolidación; nos pueden llevar a Santiago de Compostela desde la
Sierra de la Estrella, desde diferentes enlaces con la Vía de la Plata, o desde Lisboa a Braga, de
donde sale el Caminho da Geira romana e dos arrieros; la ruta parte de Braga, sigue y monta
sobre la calzada romana que unía Astorga con Braga (“Geria romana”) hasta la raya con Galicia,
en Portela do Homen; luego continua el camino de los arrieros que transportaban el vino de
O Ribeiro hasta Santiago. Un itinerario lleno de enseñanzas y de paisajes asombrosos; además
de seguir la calzada romana, una de las mejor conservadas en la actualidad, según los arqueólo-
gos, atraviesa los paisajes extraordinarios del Parque Nacional de Peneda-Gerês, limítrofe con
el Parque Natural de Baixa Limia y Sierra de O Xurés; desde el año 2009 configuran una de
las tres grandes reservas de la biosfera transfronterizas. Con su promoción, al mismo tiempo
que se recuperan el patrimonio y los recursos naturales en el entorno del camino con las ac-
tividades camineras religiosas o profanas, se fortalece el turismo cultural, el desarrollo local, y
el conocimiento de estos territorios periféricos y de interior. Aunque los peregrinos a Santiago
han descendido notablemente por la pandemia, se constata que los caminos naturales, corre-
dores ecológicos, o vías verdes han aumentado su demanda en España más de un 70 %22; la
necesidad de contacto con la naturaleza, la búsqueda de calma y tranquilidad, o el refugio en el
sosiego y la espiritualidad son inquietudes y aspiraciones humanas que pueden verse satisfechas
y realizadas en los caminos a Santiago transfronterizos.
Y en esa cohesión territorial más cercana al mundo rural, cumplen una función ejemplar
algunos núcleos, aldeas, villas y pueblos de referencia patrimonial, simbólica e histórica, que
conservan la memoria de su presencia secular en la raya, convirtiéndose en goznes de conoci-
miento, de atracción y de disfrute del patrimonio cultural o de los paisajes de sus entornos.
Destacamos al respecto el significado de la red formada por las “Aldeias Históricas de Portugal”
en la región Centro de Portugal, cuya recuperación monumental e integral, cuando las ruinas
y el olvido amenazaban con su abandono y desolación, merecen nuestro reconocimiento y
por parte de la sociedad hispano-lusa su conocimiento y su visita. Son auténticos palimpses-
tos del poblamiento histórico y testimonios extraordinarios de la vida fronteriza, que ofrecen
120 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

ambientes y acogidas saludables. De hecho, su atracción en tiempos de pandemia ha sido


muy superior al resto de su entorno, con una ocupación media del 55 % en medio del último
verano, y una notable afluencia de españoles; mientras, la región Centro tuvo una ocupación
turística del 23 % en el mes de agosto de 2020, una vez desaparecidas las restricciones y limi-
taciones a la movilidad, según testimonio del presidente del ente público Turismo Centro23.

22
Según una encuesta realizada por la Fundación de los Ferrocarriles Españoles (FFE), la actividad de las vías
verdes ha aumentado en un 71,4% durante el verano. Un síntoma quizás más de como la pandemia impulsa
el acercamiento a la naturaleza y lejos de los entornos turísticos masificados.
23
Euro Efe/Euractiv: Carlos García, Turismo de aldea, una alternativa en tiempos de covid (29.10.2020).
Fronteras de la Esperanza: la cohesión (económica, social y territorial)
en el inicio de un nuevo ciclo de políticas públicas.

La Raya pos-pandemia: cohesión y cooperación transfronteriza. Desde el 17 de marzo


de 2020 hasta finales de junio la frontera hispano-lusa ha permanecido cerrada y bajo
estrictos controles sanitarios. Ha sido una primavera triste y cargada de incertidum-
bres. Solamente se han mantenido relaciones controladas para trabajadores transfron-
terizos y para mercancías en los nueve puntos de paso autorizados por acuerdo mutuo
entre España y Portugal. Recordamos los puntos autorizados, de norte a sur, pues
forman la trama básica y principal de las vías de comunicación transfronteriza: Tuy
– Valença do Minho, Verín – Vila Verde da Raia, San Vitero – Quintanilha, Fuentes
de Oñoro – Vilar Formoso, Cilleros – Termas de Monfortinho, Valencia de Alcántara
– Marvâo, Badajoz – Caia, Rosal de la Frontera – Vila Verde de Ficalho, Ayamonte –
Castro Marín.

La Opinión de Zamora (17.03.2020) Tuy – Valença de Minho


La Voz de Galicia (17.03.2020)

121 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

La Fregeneda-Barca d´Alba sobre el rio Águeda Paso fronterizo por la presa de Saucelle
Salamanca al Día (18.03.2020) Salamanca al Día, 18-03-2020

La pandemia impone el regreso de las fronteras


Aunque a partir del 3 de mayo de 2020 se rebaja la declaración al estado de calami-
dad por parte de Portugal, se mantiene el bloqueo en las relaciones transfronterizas y las
limitaciones de paso en los nueve puntos y pasos arriba mencionados, «atendiendo a la
evolución de la situación epidemiológica en Portugal y la Unión Europea y a las medidas
propuestas por la Comisión Europea, importa garantizar la seguridad interna a través de
medidas adecuadas que contengan las posibles líneas de contagio, entre las cuales está
mantener la reposición, a título excepcional y temporal, del control de personas en las
fronteras» (Diario de la República de Portugal). Así pues, según todos los testimonios, con
estas medidas y confinamientos los trastornos y desasosiegos llegaron a los municipios y
pueblos transfronterizos, sobre todo a los asociados y vinculados a pasos secundarios fuera
de la red principal, a veces con extensas áreas de influencia; interrupción de trasiegos y
tránsitos cotidianos, dificultades para los abastecimientos e intercambios locales de com-
bustibles y bienes de primera necesidad, obstáculos para asistencias sanitarias y servicios
farmacéuticos de proximidad, rodeos innecesarios de más de 200 Km para trabajadores
transfronterizos o transportes esenciales son hechos que recobran un significado inespe-
rado, desafortunado y triste cuando los caminos rayanos se cortan con barreras a uno y
otro lado, impidiendo el paso y el tránsito. La pandemia que no entiende de límites o sobe-
ranías impone sus controles y servidumbres fronterizas que se consideraban ya superadas.
En estas graves circunstancias, desde el Gobierno de España se ha lanzado la propuesta
de una reconstrucción económica y social a las fuerzas representativas en el Parlamento
y a los agentes sociales y económicos, al igual que a las instituciones y administraciones
públicas (local, autonómica o regional, y central). Naturalmente, está dirigido sobre todo
a la recuperación y protección del tejido económico y empresarial, lo que conlleva la
necesidad de pactos y consensos de cierta envergadura. No menos significativo es la ne-
cesidad de restauración y defensa de bienes comunes y estratégicos para nuestra sociedad
como la sanidad y educación pública. Aunque la propuesta de reconstrucción se enmarca
plenamente en el contexto de la crisis global y en la ayuda protectora y solidaria de los
fondos europeos, poco o nada se dice de la cooperación entre los dos países peninsulares.
122 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Necesitamos recuperar también y con mayor energía el espíritu ibérico que a finales de los
años setenta y en los años ochenta del pasado siglo XX animó nuestro ingreso en la Unión
Europea y estimuló de forma activa las relaciones fronterizas a diferentes escalas, compar-
tiendo proyectos, infraestructuras y equipamientos.
De algún modo y con gran preocupación, en la Cimeira/Cumbre Luso–Española, ce-
lebrada en Guarda el 10 de octubre de 2020, se abordó con ese espíritu la gestión común
de la frontera ibérica, dentro de la situación tan grave y excepcional de salud provocada
por el Covid-19. Por ello, la cooperación se convierte en un compromiso renovado y
fundamental para ambos países, poniendo el acento en la Estrategia Común de Desarrollo
Transfronterizo (ECDT), aprobada en esta cumbre, con el objetivo esencial de fortalecer la
cohesión territorial del interior ibérico y fronterizo, y de apoyar los desafíos demográficos
y la lucha contra la despoblación. Naturalmente, se afrontan otros ámbitos de esfuerzo
compartido como la gestión ambiental y energética, con particular sensibilidad por las
alteraciones y mudanzas climáticas; asimismo, se apuesta una vez más por la integración
y cohesión territorial a partir de la mejora de las infraestructuras y de los transportes de
proximidad, con acciones ferroviarias y viarias específicas que con frecuencia se han ido
postergando año tras año; asimismo, se reiteran los retos y sinergias económicas comunes
que requiere la superación de la crisis asociada a la pandemia.

La reunión de los Jefes de Gobierno de Portugal y España, celebrada en el marco


de la XXXI Cumbre Portugués-Española, tuvo lugar en el Centro de Estudios Ibéricos (10.10.2020)

En la base misma de la revitalización y renovación de las relaciones ibéricas se encuen-


tra, sin duda, la cooperación transfronteriza, tanto si la contemplamos a escalas horizon-
tales o espaciales como si la analizamos a escalas verticales y más sectoriales. Y después de
las experiencias vividas a lo largo de los últimos treinta años de políticas públicas europeas
en favor de la integración y cooperación transfronteriza, es necesario reforzar las acciones
transversales con capacidad para llenar de esperanzas y de futuro los territorios de baja
densidad de la raya ibérica. Con la pandemia del coronavirus Covid-19 y el cierre de
nuestras fronteras durante algo más de tres meses, los habitantes de los pueblos y ciudades
inmediatas a las fronteras han visto como se rompían sus lazos de trabajo y de intercambio
cotidiano o se interrumpían de manera inesperada y brusca proyectos y acciones comunes
que necesitan de nuevas energías humanas y de una continuidad más firme en el territorio.
Cuando las esperanzas y los ánimos sociales y políticos se recuperaban en nuestros
territorios, los males y contagios vuelven a sacudir a la sociedad del riesgo en que vivimos.
Portugal y España han tenido que recurrir de nuevo al estado de calamidad (14.10.2020)
y al estado de alarma (25.10.2020) para enfrentarse a la grave evolución de la pandemia en
la segunda ola de otoño en nuestros países y en toda Europa. No obstante, se ha descartado
un nuevo cierre de las fronteras terrestres, tal como se vivió durante la primera ola. Ahora
bien, las imposiciones a distinta escala de medidas y restricciones de distancia, aforo y
contactos sociales en el contexto laboral, académico y social o en la movilidad (estados de
queda, confinamientos perimetrales urbanos o regionales…) también afectan a los territo-
rios fronterizos, y con ellas llegan incertidumbres y dificultades imprevistas.
Como ya fue mencionado, las circunstancias y la crisis económica asociada a la pan-
demia del Covid-19 afectan de manera especial a los territorios de frontera que cumplen
funciones de encrucijada y de intercambio, debilitando gravemente o aniquilando aquellas
dinámicas de movilidad y economías de escala que dan vida y sostén a núcleos rayanos
bien reconocidos. De ahí que algunos agrupamientos hispano-lusos de cooperación terri-
torial (AECT) se hayan movilizado para solicitar a Europa y a España y Portugal acrecen-
tar los fondos de recuperación y resiliencia previstos en el fondo europeo de recuperación,
siguiendo los principios acordados en la Estrategia Común de Desarrollo Transfronterizo
presentada en Guarda durante la Cumbre Ibérica (10.10.2020).
Algunas de las líneas aprobadas en este documento y en la declaración conjunta de
los dos gobiernos peninsulares coinciden cabalmente con los argumentos que figuran en
esta reflexión, engendrada en el trabajo de más de cuatro décadas en favor de un diálogo
constructivo, reivindicativo y solidario entre España y Portugal; en los últimos lustros
este quehacer ha tenido su punto de anclaje, encuentro y debate en el Centro de Estudios
Ibéricos. No renunciamos a la esperanza y a una vida digna para estos territorios trans-
124 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

fronterizos, tan lejanos a veces de Madrid y de Lisboa. En medio de la pandemia, tenemos


plena confianza en sus gentes y en su futuro. Sus resistencias ante los males y catástrofes
de nuestro tiempo se lo han ganado. Por ello, bajo presupuestos ibéricos compartidos,
hablamos de fronteras de esperanza y de cooperación.
Precisamente, en esta línea de compromiso con el conocimiento y defensa de los ter-
ritorios próximos y fronterizos, el Centro de Estudios Ibéricos (CEI) promueve entre los
jóvenes estudiantes y escolares el Concurso “Fronteiras de Esperança: Minha Terra, Meu
Futuro”, estimulando entre ellos una reflexión personal y colectiva sobre su entorno
local y regional a partir de su propia creatividad. Esta iniciativa es uno de los proyectos
estructuradores que orientan la acción del CEI, comprometida con los territorios más
débiles, donde destacan las fronteras. La promoción del proyecto Fronteiras de Esperança:
Minha Terra, Meu Futuro se basó en el supuesto de que los territorios interiores y rayanos,
con los que el CEI está fuertemente implicado, carecen de estímulos que hagan renacer
la esperanza en estos espacios olvidados, evitando limitaciones que permitan creer posible
poder crecer, vivir y envejecer mejor en estos lugares. Tiene como objetivo despertar en los
jóvenes la curiosidad por conocer mejor el mundo que les rodea, con otros ojos y desde
sus respectivas experiencias y cotidianidades, es decir, desde sus propias geografías vividas.
La iniciativa pretende ser una incursión en las raíces locales, el inventario de recursos y la
puesta en valor de potencialidades, materiales e intangibles, para encontrar nuevas respues-
tas para un futuro colectivo que se espera más prometedor. La implicación comprometida
de la comunidad educativa en la búsqueda de nuevos caminos para resolver un problema
hace mucho tiempo identificado pasa por explorar la relación de los jóvenes con el territo-
rio desde la perspectiva geográfica, literaria y artística. Se invita a jóvenes estudiantes de la
región a reinterpretar creativamente el territorio a partir de la valorización de la geografía,
la literatura y las artes, sin descuidar disciplinas afines, imprescindibles para un deseable
conocimiento más holístico, basado en tres ejes temáticos: Lectura y (re) interpretaciones
del territorio: diagnósticos prospectivos; Escritura, literatura y territorio: obras de expresi-
ón literaria; Arte y territorio: obras de expresión artística.
La implicación de la comunidad escolar en un debate central para el futuro de la región
también pasa por la dinamización de proyectos educativos interdisciplinares que apuesten
por trabajos prácticos; la utilización de metodologías innovadoras y las nuevas tecnologías,
sobre todo de comunicación e información, estimulan la participación y fomentan la co-
laboración y las redes de cooperación, tanto a nivel regional como, en una etapa posterior,
transfronteriza. Los resultados de participación, con más de 100 estudiantes en un medio
rural despoblado, pueden calificarse de positivos y alentadores; y sus miradas creativas de
muy sensibles y afectivas, no exentas de críticas y sugerencias, subrayando en sus trabajos
la relación con los vecinos, con las herencias patrimoniales y con la naturaleza.
125 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Un nuevo ciclo de políticas públicas: profundizar en la cooperación transfronteriza. En


estas circunstancias tan difíciles, puede afirmarse que estamos ante una nueva etapa de
políticas públicas en Europa y en la península ibérica, donde la frontera y los territorios
limítrofes, siete provincias españolas y varias NUT III portugueses, cobran para todo un
significado verdaderamente estratégico en un cuádruple entendimiento geográfico, me-
dioambiental, cultural y socioeconómico. El hecho de estar marcadas en su imagen más
simple por la baja densidad o la despoblación, la lejanía, la ausencia de actividades diver-
sificadas o por la presencia de comarcas aisladas y pobres no puede justificar de ningún
modo la inacción política y el desamparo de unos cinco millones de españoles y portu-
gueses que contribuyen decisivamente al bienestar de la casa común peninsular. En este
sentido se han expresado con cierta firmeza el Presidente del Gobierno Español y el Primer
Ministro de Portugal: avanzar en “medidas concretas” y “facilitar la vida de las personas”
para “poner fin al efecto frontera y a sus costes”. Una propuesta quizás utópica y un plan
ambicioso que necesita de acciones específicas e integradoras, llenas de sentido común y
participación cívica. Ahora bien, la cohesión territorial y la recuperación de los equilibrios
demográficos y económicos internos aparecen claramente en el horizonte de las políticas
públicas portuguesas; “contradecir la tendencia demográfica y combatir el aislamiento”,
nos dice con convicción la ministra portuguesa de Cohesión Territorial. Por su parte, la
ministra española de Transición Ecológica valora con respeto e interés las ventajas de esta
“zona extraordinariamente rica” en naturaleza y biodiversidad y con un potencial hídrico
sobresaliente o capacidades estimables en la explotación de recursos agroalimentarios, pa-
trimonio y cultura.
Detrás de estas propuestas y de la filosofía política de la cumbre hispano-lusa se apre-
cia, a nuestro entender, la asunción necesaria e inaplazable de una mirada unida y conjunta
sobre la península ibérica, y específicamente sobre una de sus zonas con mayores problemas
de cohesión territorial, que padece aún las consecuencias tan negativas de aquellos centra-
lismos, proteccionismos y nacionalismos mantenidos durante décadas por las dictaduras
de España y Portugal. Podríamos hablar de un nuevo iberismo en el sentido manifestado
hace algún tiempo por Eduardo Lourenço, colocando el énfasis en el encuentro y com-
plementariedad de las diferencias, en la participación y cooperación de los vecinos, o en el
valor insustituible de las culturas compartidas. La percepción del conjunto peninsular, no
impide, nos exige que veamos con sentido solidario, y además estratégico, los problemas
tan graves que atenazan y envuelven a los territorios de la Raya Ibérica.
Desde la política Europea también se han removido las sensibilidades acerca de los
problemas vividos en las fronteras con la pandemia. Al mismo tiempo que se reunía la
cumbre hispano-lusa en Guarda, se celebraba en Paris el primer Foro de Fronteras para
126 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

enfrentarse a la situación y a los retos de las regiones fronterizas. Allí, 9 y 10 de noviem-


bre, bajo el amparo de la Comisión Europea y el Comité de las Regiones, y en el contexto
de la celebración de los 30 años de Interreg 2020, la Comisaria europea de Cohesión y
Reformas (Elisa Ferreira) abogó por “la necesidad de una cooperación más estrecha entre
los territorios transfronterizos, que a menudo son periféricos y tienen menos servicios
públicos y que, por lo tanto, merecen una atención especial”; al mismo tiempo el foro
declaraba la “Alianza europea para los ciudadanos transfronterizos”(Las fronteras en el
corazón de la Europa de mañana), tratando de superar los problemas de coordinación en
las medidas fronterizas durante la pandemia, de tener bien presente a los 2 millones de
trabajadores que atraviesan cada día una frontera para ir a su lugar trabajo, o apostar con
ambición por la Cooperación Territorial europea post 2020, “favoreciendo un desarrollo
coordinado de las regiones transfronterizas”. Pocas semanas antes había intervenido en
Lisboa (VIII Foro Parlamentario entre España y Portugal, Asamblea de la República de
Portugal, 14.9.2020) en defensa de las regiones periféricas y las ciudades medianas para
combatir la despoblación que afecta tan gravemente al interior ibérico.
Por su parte, la Asociación de Regiones Fronterizas de Europa (ARFE) se ha hecho eco
inmediatamente de los “grande impactos económicos a ambos lados de la raya” ligados a
los cierres de la frontera y a las restricciones de movimientos a causa de la pandemia, con
incidencia particular allí donde se concentran los tránsitos e intercambios entre ambos pa-
íses. Consciente de los problemas asociados a la pandemia y de que la crisis ha sometido a
la cooperación transfronteriza a una de las pruebas más difíciles en décadas, ARFE y otras
asociaciones, junto al Comité Europeo de las Regiones y a la Comisión Europea (DG.
REGIO), están intercambiando experiencias en la lucha contra el virus, e información
sobre la cooperación en ámbitos de la salud y la atención a las personas mayores, así como
estrategias y acciones coordinadas para la recuperación económica y el fortalecimiento de
la cohesión social en los contextos transfronterizos. Una tarea que supone, en el marco
de las políticas públicas, una apuesta por gobernanzas accesibles, creíbles y de proximi-
dad, que demandan sobre todo cooperación y fortalecimiento de los sistemas públicos de
salud, más allá de lenguajes insólitos e insolentes de “soberanía sanitaria” o de un cierre
de fronteras bajo principios de exclusión. En este sentido, la cooperación transfronteriza y
regional se convierte en un instrumento fundamental y estratégico en lugar de ser víctima
de la pandemia. Así se ha puesto de manifiesto estos días de confinamientos y controles en
el entorno fronterizo del río Miño que aboga por la solicitud de un carné de “ciudadanos
transfronterizos”, o en el de Vilar Formoso (P)-Fuentes de Oñoro (E), donde se han refor-
zado los sentimientos comunes de “ciudadanos de la raya” y se apuesta por convertir este
paso estratégico internacional en “Puerta de Europa”. 127 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Del POCTEP a la Estrategia Común de Desarrollo Transfronterizo (ECDT): el pasado


no puedo volver, el presente debe mejorar. Poco antes del impacto general de la pandemia
en nuestros países, a fínales de enero de 202024, la cooperación regional España-Portugal
realizaba un balance positivo de los 30 años de políticas públicas compartidas y ligadas a
los distintos programas Interreg llevados a cabo desde 1990. Con las experiencias acumu-
lada, se subrayó entonces la relevancia de los trabajos conjuntos, del acercamiento de los
ciudadanos españoles y portugueses, de la confianza mutua transfronteriza, de las grandes

24
Jornada: “UE foro Historias Ibéricas”, 23.01.2020, sede Agencia EFE en Madrid, EURO-EFE, 29.01.2020.
inversiones públicas a lo largo de estos años, y de la complejidad regional de la frontera
más larga y antigua de Europa a la hora de tomar decisiones compartidos en los viejos y
nuevos escenarios de la Raya. A la par se mostraron algunos ejemplos de proyectos de co-
operación considerados sostenibles.
Asimismo, en la Unión Europa valoraban los logros y transcendencia de la cooperaci-
ón transfronteriza a escala nacional y regional con la iniciativa Interreg, el programa insig-
nia para la política territorial más allá de las fronteras. Textualmente se nos dice: “Interreg
es la encarnación de los valores fundamentales de la UE: cooperación entre personas,
regiones y países cercanos a nosotros. En una época de creciente introspección para algu-
nos ciudadanos y con un diálogo político que tiende a pasar por alto los logros de Europa,
Interreg ha tomado medidas para superar estos obstáculos, a la vez que ayuda a construir
una Europa más cohesionada basada en la cooperación”25. Se apostaba, por tanto, por la
movilidad y los desplazamientos transfronterizos, por los servicios públicos cercanos, por
la lucha conjunta contra los incendios forestales y el cambio climático, o por compartir
problemas comunes relacionados con la educación, la cultura, la sanidad, el empleo, la
naturaleza o el patrimonio, “fomentando la confianza y el respeto entre las personas que
comparten un espacio común”26,” lo que tiene un valor incalculable desde un punto de
vista político, económico y social”, según la comisaria para la Cohesión y las Reformas.
Evidentemente, todo ha quedado trastocado o roto por la pandemia. Las medidas
preventivas sobre los contagios del Covid-19, aprobadas por los respectivos gobiernos, han
traído consigo dificultades para el desarrollo de los proyectos y de las actividades previstas.
Cuando todos los esfuerzos han tenido que centrarse en detener y controlar los impactos
tan negativos de la pandemia, sobre todo las consecuencias sanitarias, sin olvidar las socia-
les y económicas, es lógico entender que las autoridades responsables del seguimiento de
los proyectos Interreg hayan flexibilizado los tiempos de ejecución, verificación y control,
con el fin de mitigar los efectos derivados de las restricciones a la movilidad y a los con-
tactos sociales. Se ha impuesto de nuevo la frontera y ahora los territorios online, las rea-
lidades virtuales y distópicas. Las limitaciones, prohibiciones e impedimentos no pueden
128 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

llevarnos a la desazón, al enclaustramiento y al aislamiento de los territorios fronterizos.


Hasta ahora, en estos treinta años de políticas europeas, la mayor visibilidad de las
acciones e iniciativas a ambos lados de la frontera han estado ligadas al INTERREG y a
los Programas Operativos de Cooperación Territorial de España y Portugal (POCTEP). Es
cierto que los sucesivos programas han logrado tejer redes de cooperación estrechamente
comprometidas con los ámbitos rayanos y de apoyar proyectos de indudable impacto

25
Comisión Europea: Interreg: treinta años compartiendo y cuidando a través de las fronteras (1.06.2020).
26
Ibidem
ambiental y cultural; no siempre, sin embargo, los fondos se asignaron a la resolución
de los problemas transfronterizos, y se dirigieron a financiar proyectos de signo más
urbano y político, alejados de las zonas de borde, y muy condicionados en España por los
intereses de las comunidades autónomas y de los poderes provinciales. Por ello, saluda-
mos con esperanza los ejes o pilares contemplados en la Estrategia Común de Desarrollo
Transfronterizo firmada por Antonio Costa y Pedro Sánchez en Guarda el 10 de octubre
de 2020; se caracteriza por la dimensión transversal de las propuestas de cooperación y
por la medidas multisectoriales, incidiendo en la creación de figuras como el trabajador
transfronterizo – con ventajas en servicios y movilidad –, en la mejora de las tramas y redes
de comunicación, o en la programación de acciones conjuntas culturales o medioambien-
tales de lucha contra el cambio climático y los incendios forestales. Los cinco ejes o pilares
contemplados y comprometidos en la Estrategia son: movilidad, infraestructuras, gestión de
servicios, desarrollo económico, y ambiente y cultura.
Los retos y desafíos pendientes reclaman energías renovadas y ánimos colectivos y
solidarios. Como nos invita a reflexionar y a debatir la comisaria para la Cohesión y las
Reformas, son momentos “para preguntarnos y reflexionar sobre algo que consideramos
un valor fundamental en la Unión Europea, a fin de que cobre un nuevo aliento: el espíritu
de cooperación, impulsado por la firme convicción de que juntos somos más fuertes»27.
Sin duda y sin dilación, tendremos que repensar con esperanza y coraje el futuro de los
territorios de nuestra Raya Ibérica.

129 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

27
Comisión Europea. Cooperación transfronteriza: El programa Interreg de la UE celebra sus treinta años
contribuyendo a acercar a los ciudadanos (17.02.2020).
Fronteiras d’aquém e além Ibéria:
memórias, vivências, imaginários
(trans)fronteiriços
Fragmentos de uma raia inacabada:
narrativas dum certo imaginário Beirão

Pedro Salvado
Universidade de Salamanca. Instituto de Investigaciones Antropológicas de Castilla
y León (IIACYL). Máster Universitario en Antropologia de Iberoamérica.
Câmara Municipal do Fundão.

Rui Jacinto
Centro de Estudos de Geografia e de Ordenamento do Território (CEGOT); Centro
de Estudos Ibéricos (CEI)

1. do Interior à Fronteira: legendas para uma cartografia raiana

“A fronteira, esse produto de um acto jurídico de delimitação, produz a diferença cultural


do mesmo modo que é produto desta: basta pensar na acção do sistema escolar em matéria
de língua para ver que a vontade política pode desfazer o que a história tinha feito. Assim, a
ciência que pretende propor os critérios mais bem alicerçados na realidade não deve esquecer
que se limita a registar um estado do estado da luta das classificações, quer dizer, uma relação
de forças materiais ou simbólicas entre os que têm interesse num ou noutro modo de classifi-
133 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território.

cação e que, como ela, invocam frequentemente a autoridade científica para fundamentarem
na realidade e na razão a divisão arbitrária que querem impor” (Bourdieu, 1989: 115).

1.1. Raia Central, uma paisagem povoada de ausências, permanên-


cias, exílios: velhos ritos, outros mitos, novos sinais

A Raia Central Ibérica é, segundo uma feliz imagem literária, um calcanhar do


mundo, finisterra, lugar de refúgio e de resistência, estremadura que adquiriu uma forte
resiliência ao temperar o seu relativo isolamento com a sobreposição de múltiplos con-
tactos, esporádicos e mais ou menos forçados, ditados ao sabor do tempo. A oposição
destes ermos ao que vem do exterior, seja ocupante ou inovação, foi sempre contraba-
lançada por uma disponibilidade inata e abertura para dialogar com o outro. A posição
de charneira entre fonteiras culturais que a região ocupou ao longo da história, como
testemunha o seu património musical, que se manteve relativamente preservado duma
certa contaminação cultural, em virtude do isolamento a que esteve sujeito, fez deste
território, aparentemente irredutível e onde subsistem traços dum certo pendor arcaico,
um espaço de harmoniosa coabitação entre tradição e modernidade.
A convergência de várias escalas espaciais (micro, local, regional ao nacional e, mesmo,
global) e o cruzamento de diferentes tipos de fronteiras, fluidas e de contornos incertos e
relativamente imprecisos, contribuíram para sedimentar neste espaço fronteiriço diferen-
tes espessuras de tempo, do mais longo e lento ao mais próximo e acelerado. A geografia
resultante destas interações confirma a conclusão, já tirado por outros, que “a fronteira e
a aculturação não se excluem mutuamente. Uma, mutação, a outra, movimento, com-
pletam-se para participarem na espantosa transformação dos espaços contemporâneos”
(Fremont, 1980 [1976]: 166).
As paisagens raianas estão impregnadas de memórias, de reminiscências ancestrais que
lhes conferem encanto e magia, por vezes impercetíveis ao primeiro olhar, tanto em certos
aglomerados como em alguns geomonumentos, fragmentos paisagísticos onde se fossi-
lizou um tempo geológico que os geoparques contemporâneos não conseguem confinar
nos seus estritos limites administrativamente1. A magia do entorno paisagístico localizado
ao longo desta fronteira, onde prevalecem dissonâncias e arcaísmos, perpetua-se sob di-
ferentes formas de sacralização, encantamento mitificado que atinge forte polarização em
alguns lugares. O modelado do relevo e as primeiras formas consideradas de arte presentes
neste território raiano, elaboradas pelas primeiras comunidades humanas, revelam esses
primevos diálogos telúricos entre os lugares da terra e os sonhos do homem, onde está im-
plícita a relação entre os montes e os vales, a terra e a água, o clima e o cosmos. Os comple-
134 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

xos gráficos gravados nos bancos xistosos das margens dos principais rios deste território
(Côa, Tejo e Zêzere), constituem autênticas bibliotecas, à imagem de Babel, onde ficaram
gravadas em diversas “línguas” os percursos líquidos duma terra sem fronteiras, veículos
relacionais entre as comunidades humanas e a transcendência do invisível.

1
“O viajante que contempla esses fraguedos medonhos, essas penedias de blocos, encavalitados uns sobre
os outros, pensa naturalmente em bruscas convulsões das entranhas do globo, numa espécie de dies irae
do planeta. A história natural é [às vezes] mais simples: a ação lenta das águas, o implacável desmoronar
das montanhas, que tem em si o factor mais poderoso da acção terrestres – o tempo!” (Orlando Ribeiro,
Guia de Portugal).
O cenário é duma geomorfologia simbolicamente domesticada a que se associam
mil sentidos e sentires numa íntima e fecunda relação entre as maternais curvas dos
vales moldados por aquelas linhas de água e a virilidade pronunciada dos relevos
residuais como acontece no caso da Serra da Marofa, da Serra da Opa com as suas
mouras encantadas, ou do Cabeço das Fráguas, local da reunião dos ancestrais deuses
Lusitanos. Para não falar em Monsanto, hoje da Beira, esse lugar mítico e santificado
de todas as beiras, desde as naturais e culturais às espirituais. Este singular monte-ilha
(inselberg) não tem paralelo nos restantes cumes e horizontes visuais que se entendem
entre o Douro e o Tejo, onde pontificam, além da Marofa já referida, o Jarmelo, a
Malcata, a Gardunha, o Monte de S. Martinho, a crista de Penha Garcia ou das Portas
de Rodão. São marcas que tecem uma geografia do sagrado e do profano e conferem
ao território da Raia Central Ibérica uma identidade própria e relativamente diversa.
As três coordenadas de leitura da Raia Central, que a seguir se apresentam, não per-
dem de vista nem deixam ter o foco nas Terras de Idanha, referência laboratorial no senti-
do que lhe foi atribuído por Orlando Ribeiro, tradição seguida pelos seus discípulos com
proveitosos resultados.

Velhos ritos: o sagrado e o profano ao redor do(s) Monte(s) Santo(s). O espírito que emana
deste território raiano está patente em diversas marcas materiais que traduzem a passagem
do tempo e em sinais mais intangíveis inscritos por uma permanente tensão entre presença
e ausência. A identidade territorial é moldada por aquelas marcas, estes sinais e o espírito
que emana das paisagens, naturais e humanas, e de certos lugares, traços indeléveis de im-
perecíveis reminiscências telúricas indissociáveis de formas de sacralização cuja verdadeira
descodificação está longe de ser conseguida. Entre estes sinais que traduzem a memória dum
tempo e dum espaço destaca-se a mítica paisagem que envolve a topografia do Monte Santo,
um dos pontos mais salientes deste imaginário por continuar a ser palco dum dos cultos e
festas (trans)fronteiriças mais emblemáticas.
Esta finisterra beiroa também se pode considerar “ao mesmo tempo o limite, a ba-
135 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

liza, a fronteira que distinguem e opõem dois mundos – e o lugar paradoxal onde estes
dois mundos comunicam, onde se pode efetuar a passagem do mundo profano para o
mundo sagrado. (…) Um número considerável de mitos, de ritos e de crenças diversas
derivam deste “sistema do mundo” tradicional” que, surpreendentemente, continuam
ativas desempenhando o papel ancestral de religação cíclica entre os homens e os luga-
res. Estas razões mostram a importância de “compreender o papel do espaço sagrado
na vida das sociedades tradicionais – qualquer que seja, aliás, o aspecto particular sob
que se apresente este espaço: lugar santo, casa cultual, cidade, “mundo”. Encontramos
por toda a parte o simbolismo do Centro do Mundo, e é ele que, na maior parte dos
casos, nos torna inteligível o comportamento religioso em relação ao “espaço em que se
vive” (Eliade, 1948 [2006]: 50-51). No silêncio da Raia Central os deuses continuam
vivos através dos ritmos a eles e elas associados; a religião, aqui, continua a ser um dos
principais sinais da resiliência do território.
O território está pontuado de santuários que nos mostram as marcas dum sagrado
que radica em velhas crenças fundadas em elementos naturais, principalmente as ligadas
à água e à terra. A paisagem religiosa milenar afirma-se nestes elementos que tiveram
continuidade no sincretismo de ancestrais panteões pré-romanos que o cristianismo na
sua afirmação mariana havia de continuar. As termas e as águas santas acabaram por ser
agentes de novas sacralizações que se afirmaram através de “outras crenças”, em contraste
com as sacralizações do tempo longo, mais materiais e terrenas, inerentes ao tempo curto
e rápido, traduzindo os anseios associados aos processos de desenvolvimento. As barragens
e os regadios adquirem, neste particular, enorme valor simbólico, materialidades que, de
alguma maneira, violam aqueles ancestrais equilíbrios e relativizam o valor espiritual das
paisagens raianas. Da terra provinha o pão, o vinho e o azeite, fonte de luz, igualmente
presentes no culto cristão, como recordam os primitivos batistérios colocados nas entradas
da Catedral de Idanha-a-Velha.
Os campos, as campanhas e as campinas da Beira Baixa lembram um manto de
Ceres, essa deusa das plantas, dos cereais e do amor maternal, celebrada por mulheres
do povo, em Maio, retratada com um cetro, um cesto de flores e frutos e tinha uma
coroa feita de espigas de trigo. Estes elementos, maior ou menos evidentes, conti-
nuam a ser os símbolos com presença assegurada na Festa do Castelo, de Monsanto,
a celebrada Nossa Senhora do Castelo2: a marafona, o pote de flores, a substituir o
cereal, lançado da Fortaleza, promessas da desejada fertilidade e autossuficiência,
acabariam por viajar em tempos mais recentes para a igualmente mítica Campanha
do Trigo. São ritos e cultos que marcam a passagem dum tempo que obedece ao
ritmo dos equinócios e dos solstícios, como testemunham as várias festas em honra
de Nossa Senhora que parece, igualmente, não conhecer fronteiras, como acontece
136 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

com Nossa Senhora da Granja, do Almurtão, da Azenha, do Incenso, da Póvoa, etc...

2
Para Ernesto Veiga de Oliveira, na obra Festividades ciclicas de Portugal, “nas celebrações do primeiro de
Maio, ter-se-ia operado um sincretismo de práticas e crenças, talvez de origens diferentes, mas todas con-
vergentes, recobrindo a obscura ideia, que subsistem no espírito do Homem, da necessidade de desencadear
formas efecivas de protecção e de esconjuro a opor à insegurança da vida e à omnipresente presença do mal”.
Afinal, como enfatizou um dia os antropólogos Henri Hullert e Marcel Mauss, “Si los dioses, cada uno a su
hora, salen del templo y se hacen profanos, en cambio vemos que lo relativo a la propia sociedad humana
– la patria, la propriedad, el trabajo, la persona humana…-, entra en el templo progresivamente”. “Así, lo
que antes era profano ahora puede ser sagrado, tal es por ejemplo, la ciencia, el mercado, o el estado. Si los
dioses, cada uno a su hora, salen del templo y se hacen profanos, en cambio vemos que lo relativo a la propia
sociedad humana – la patria, la propiedad, el trabajo, la persona humana... – entran en el templo.”
A somatização efusiva da vivência do ritual acabou por passar do sagrado para o pre-
domínio de práticas lúdicas, identitariamente fugazes, destituídas de qualquer sentir
religioso. No entanto, o processo de construção de um discurso patrimonial não é,
de todo, um processo unilateral e unívoco. A ritualidade monsantina continua a ser
uma continuada “invenção da tradição” (Hobsbaw e Ranger, 1983). Mas o sentir da
mensagem intemporal do sagrado que se apreende neste “monte dos deuses” perma-
nece inalterável, adejando fortemente. Afinal, “Si los dioses, cada uno a su hora, salen
del templo y se hacen profanos, en cambio vemos que lo relativo a la propia sociedad
humana – la patria, la propriedad, el trabajo, la persona humana… –, entra en el
templo progresivamente”.
As datas dessas romarias coincidiam ou com o fim do ciclo dos trabalhos agrícolas
ou com a data em que o cereal do pão estava prestes a ser colhido, ritmavam para os
camponeses raianos o fluir do ano. Por isso esquecidas antigas e, por vezes, sangren-
tas querelas, as populações raianas dos dois países ibéricos encontraram nas romarias,
em louvor da Virgem Maria, sob várias invocações (Nossa Senhora da Azenha, Nossa
Senhora da Póvoa, Nossa Senhora do Almurtão ou Nossa Senhora do Incenso, …) laços
de amizade e de convívio fraterno. A mesma fé e os mesmos anseios as irmanavam, os
mesmos motivos impeliam o seu peregrinar e as suas preces: saúde, boas pastagens para
o gado, boas colheitas que assegurassem trabalho e afugentassem a fome, palavra mais
temida que a guerra em territórios de fronteira.

Velhos ritos: paisagens físicas e humanas


ou várias dimensões do profano e do sagrado

137 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

O Monte Santo e a singularidade da paisagem natural e humana envolvente. Silhueta do monte, a aldeia alcan-
dorada de Monsanto e a procissão de Nossa Senhora do Castelo, durante a Festa das Maias, a chegar
à capela localizada no interior da antiga fortaleza: o convívio do sagrado e do profano,
a crença na marafona e o novo mito, encenado, dos Templários.
Exemplifiquemos com o caso da romaria de Nossa Senhora da Azenha, cuja ermida
se ergue num vale nas margens do Ponsul, localizado no limite entre os antigos conce-
lhos de Monsanto e de Penha Garcia. Com três festividades ao longo do ano, a grande
romaria ocorre, atualmente, no segundo Domingo de Setembro, data em que a imagem
é trazida através dos campos desde Monsanto até à ermida. Mas nem sempre assim foi.
Outrora, no segundo Domingo de Setembro, realizava-se uma feira, e a grande festivida-
de religiosa tinha lugar na segunda–feira. No passado era nesta feira que se compravam
as sementes para a safra do ano seguinte, que se vendiam os produtos das colheitas, que
se acordavam negócios de gados e de sementeiras. Todo o arraial, em torno da capela,
se enchia de gado. Nos inícios da década de 60 do século xx as feiras foram proibidas
aos domingos. Foi a partir dessa data que a feira da Senhora da Azenha se inicia no se-
gundo sábado de Setembro e a festividade grande no domingo. É este o dia grande em
que, depois da missa na igreja de S. Salvador, Matriz da vila de Monsanto, a Senhora
da Azenha deixa a povoação para vir habitar a sua ermida, onde outrora permanecia
todo o inverno. Atualmente, nesse domingo festivo uma mescla de falares ressoa no ar.
Muitos são os espanhóis, vindos do outro lado da raia, que aqui se juntam na mesma
devoção à Senhora caminheira, que protege o gado, as sementeiras e afugenta as pragas
de gafanhotos, outros dos inimigos estruturais do ciclo da terra. E, pela tarde é a festa.
Atuam bandas, acordeões, ranchos folclóricos e, nalguns anos, vêm também grupos de
cantares e danças tradicionais do outro lado da raia. Assim aconteceu em 1986 em que
ao Rancho de Monsanto se juntou o grupo de Danzas e Cantares da cidade espanhola
de Cória. Dança-se e canta-se acompanhando o voltear dos ranchos ao sabor da música
tradicional em língua portuguesa e, em certos anos, com a sonoridade alegre e caden-
ciada das músicas espanholas, dançam-se sevilhanas ao som de castanholas. Irmanados
na mesma devoção à Virgem, portugueses e espanhóis confraternizam no arraial da
Senhora da Azenha, banhado pelo Ponsul.
A romaria da Senhora da Póvoa era outrora uma das romarias mais concorridas da
raia beirã. A ermida localiza-se no sopé da Serra d’Opa, fronteira geológica entre a terra
138 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

fria da Meseta e os campos mais luminosos que nos apontam as terras do sul. As festi-
vidades duravam três dias: com início no domingo do Espírito Santo, prolongando-se
por segunda e terça-feira. Outrora, os romeiros deslocavam-se em carros de bois vistosa-
mente ornamentados com arcos floridos. Vinham de todos os pontos da raia portuguesa.
E a fama dos milagres da Senhora da Serra d’ Opa atraia igualmente muitos espanhóis.
Algumas quadras do cancioneiro desta romaria, recolhido na década de 30 do século xx
por Adelino Robalo Cordeiro, traduzem o cansaço da viagem dos peregrinos, por vezes
longa e difícil, perseguindo uma crença sem fronteiras rogando a proteção da Virgem em
sentires que atravessaram as linhas vitais do quotidiano da raia:
Nossa Senhora da Póvoa,
À Vossa porta me assento,
Cansadinha do caminho,
Virgem dai-me algum alento.

Nossa Senhora da Póvoa,


Minha tão linda arraiana,
Sois da raia de Castela,
Vós sois meia castelhana.

. Outros mitos, novos sinais: tradição e modernidade, memória e pontes para o diálogo trans-
fronteiriço. O Estado encarregou-se de impor a fronteira com rigidez, de maneira absoluta,
ao invés da linha imprecisa, fluida, porosa, por vezes mera abstração construída pela história
e pelo espírito dos homens. O seu papel foi, assim, reforçado e a sua presença assinalada
com marcos de pedra, postos fronteiriços ou simples riscos inscritos num mapa que adqui-
ram uma inusitada transcendência. Desde que no decurso do século xviii os nacionalismos
vincaram os estado-nação, a fronteira adquiriu um significado mais imperativo que, apesar
de cambiantes ditados por algumas flutuações conjunturais, acabou por se prolongar até
aos nossos dias. A relativa sacralização das fronteiras acontece, pois, num contexto político,
cultural e científico bem determinado, acompanhando a emergência da ciência moderna,
particularmente, da geografia e da cartografia. Os mapas onde se passam a implantar, ao es-
baterem a conceção mais abstrata da fronteira, conferiram-lhe uma dimensão mais concreta,
real, pretensamente fixa e imutável, paulatinamente reforçada pela diplomacia, pelos tratados
e pelas comissões instituídas para regular a sua demarcação entre os estados.
As novas qualidades que foram adquirindo com o tempo alteraram o modo como as
populações raianas passaram a olhar, a interpretar e a relacionarem-se com a fronteira. As
comunidades locais criaram eventos e manifestações devido à sua presença que são, hoje, em
alguns casos, simples memória, sem vitalidade nem expressão, reminiscência residual dum pas-
139 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

sado irrepetível. A alteração do significado e os novos papeis que passaram a desempenhar


proporcionaram, mais recentemente, novas manifestações relacionadas com a proximidade da
fronteira. Referiremos manifestações representativas destas realidades, como as que têm ex-
pressão no concelho de Idanha-a-Nova, expressando um campo simbólico, um sinal de tradi-
ção e de modernidade, iniciativas de diálogos encetados pelas comunidades raianas iniciadas
em momentos diferentes. Protagonizadas por atores locais e regionais, sendo uns herdeiros
dum legado oriundo de tempos recuados e outros que emergiu com a adesão de Portugal e
de Espanha à União Europeia, são reveladoras das distintas modelações e apropriações que os
distintos significantes e significados da palavra fronteira foram assumindo ao longo do tempo.
Outros mitos: entre tradição e modernidade

Quadrazais, Sabugal. Centro Cultural Raiano, Idanha.

Renovação das aldeias da raia: mescla de estilos e gostos, envelhecimento da população,


monumento ao emigrante. Os novos centros culturais e a preservação da memória.

No viver contemporâneo da fronteira a memória e a tradição projetam-se numa galeria


de eventos, dinamizados por novos atores, onde é patente a tensão entre pragmatismos
e cenografias, solidificados por novos horizontes do sagrado e do profano: a língua e a
toponímia, a visita anual aos marcos da fronteira e uma plêiade de novas festividades,
equipamentos e estruturas, surgidas nas últimas décadas, sob o signo da cooperação trans-
fronteiriça e do desenvolvimento local.
A proximidade da linha de fronteira, considerada por alguns como mera cicatriz da
história, além do tradicional papel político, tem efeitos de índole cultural que se espe-
lham tanto através da língua como da toponímia, essa tatuagem que se inscreve na terra
e onde é possível detetar nomes que remetem, tantas vezes, para o sagrado. A fronteira,
responsável pela mudança brusca da língua imposta a comunidades contíguas, também
favoreceu a preservação de outras, mais arcaicas ou arcaizantes, e, mesmo, o aparecimento
140 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

de novas oralidades que aumentaram a riqueza lexical. Ao invés das línguas nacionais,
as geografias das línguas, dialetos e falares raianos, como o mirandês, o quadrazenho
(Quadrazais, Sabugal), o fenómeno das falas da Serra da Gata ou, mais a sul, o barran-
quenho (Barrancos), mostram como a raia sempre soube encontrar um falar comum para
comunicar entre os habitantes do lado de cá e do lado de lá duma mesma fronteira.
O nome dos lugares fornece-nos, por outro lado, pistas importantes para a desco-
dificação do território a que nem sempre se tem dado a devida atenção. A toponímia,
como as paisagens, escondem sob o seu manto diáfano uma geografia que urge desocultar,
inscrições por vezes pouco percetíveis, mas que contém informações sobre o processo de
povoamento, a ocupação, o uso e as funções dos territórios os as condições naturais, como
se adianta a título indicativo : (i) a ocupação primordial do espaço e o tipo de povoamento,
como Aldeia (Bispo, Castro (Marim), Vila e Vilar (Formoso; Torpim); Monte (Trigo) e
Arraial, as Salvaterra (do Extremo) ou as Seguras; (ii) a passagem e permanência doutros
povos, contactos e culturas, presente em Almeida, Almendra, Almofala, Alfaiates, Alcafozes,
Alcongosta, Alcântara; (iii) função militar, representada pelo rosário de castelos, paralelos à
linha de fronteira: Castelo Branco; Castelo Rodrigo; Castelo Mendo; ….), Torre (Centum
Cellas…), Atalaia; (iv) morfologia do terreno (Monsanto) ou a natureza (Rosmaninhal); (v)
sagrado e nomes de santos, além do Mon(te)santo, um santoral que liga elementos e topo-
grafias, do alto e do baixo, do vale e da montanha, Salvador, Santo Estevão e S. Miguel (de
Acha), coroando um conjunto de devoções onde dominam as Senhoras, testemunhadas
pela toponímia em Santa Margarida (Aldeia de), Senhora da Póvoa (Vale da).

Novos sinais: memória e pontes para o diálogo transfronteiriço

Pontes e acessibilidades: Ponte Internacional sobre o Rio Memória e ruínas: ruínas consolidadas do Palácio de
Águeda, paralela à antiga ponte ferroviária, hoje desati- Cristóvão de Moura, objeto de intervenção no âmbito
vada, na confluência com o Douro (Barca d’ Alva). do Programa das Aldeias Históricas (Castelo Rodrigo).
141 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

A necessidade de permeabilizar a fronteira introduziu a ponte nos vários discursos com significados ambivalen-
tes: o imperativo real de aumentar o número de pontos de passagem levou a pugnar por novas pontes de atraves-
samento, termos que foi glosado, metaforicamente, como traço de união, facilitador do diálogo e da cooperação
transfronteiriça. O modo de intervir e preservar a memória passou, em alguns casos, por manter a ruína e o
efeito do tempo sobre os lugares e o património.

A visita anual aos marcos e malhões da fronteira para confirmação dos limites pela
Comissão prevista no Tratado que foi celebrado entre os dois países ibéricos denuncia
um papel mais político e imperativo, decidido pelo estado central, que as comunidades
locais assumiram como um gesto simbólico que transformaram num ritual profano, uma
festa de reencontro e de celebração da amizade entre os povos de aquém e além-fronteiras.
Afirmação de nacionalismo, este cerimonial resistiu ao tempo e à adesão de Portugal e da
Espanha à União Europeia, bem como ao mito da Europa sem fronteiras.
Nos tempos mais recentes, assistiu-se a proliferação de Feiras, Comunidades de
Trabalho, Gabinetes de Iniciativas Transfronteiriças, Associações de Desenvolvimento
Local e diversos Centros, Culturais e de Estudos, que são o reflexo quer do esbatimento
das fronteiras como do novo significado, mais subtil mas igualmente simbólico, que
passaram a assumir. Os recursos financeiros disponibilizados para promover projetos
materiais e intangíveis com o objetivo de esbater o seu efeito de muro intransponível
proporcionaram novas oportunidades de relacionamento e reencontro que geram fluxos
transfronteiriços distintos dos que eram baseados nas trocas, formais e informais, de
bens e pessoas. Estas iniciativas de cooperação transfronteiriça, como se referirá mais
adiante, correspondem à versão contemporânea, porventura menos popular e mais
burocratizada, de permeabilizar a fronteira.
O conhecimento dos labirintos da memória e os caminhos seguidos pelos atores e o
efeito das políticas é indispensável para enquadrar os novos sinais, nem sempre positivos,
que foram despontando no espaço raiano. É ainda importante para o desenho de estra-
tégias mais eficazes para reverter o ciclo vicioso das dinâmicas recessivas que se instala-
ram, mitigar incertezas, reabilitar a depauperada autoestima e relativizar falsas expetativas,
tarefas indispensáveis para abrir um horizonte de esperança que urge inventar.

1.2. Extremadura Interior: da ideia de fronteira à (re)construção do


imaginário raiano

A perceção da fronteira luso-espanhola nas suas materializações, determinações polí-


ticas ou revelações das suas imagéticas intrínsecas, fundou-se, muitas vezes, em textos de
142 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

caracter diplomático-literário. Na coordenada das textualidades políticas foram as palavras


tratados, protocolo ou convenção que encimaram os suportes documentais. O mesmo não
aconteceu no registo criativo de pendor literário dos territórios de fronteira, textos que se
balanceiam entre a fixação individual de realidades e interpretações subjetivas, composições
carregadas de eufemismos, antíteses, hipérboles, metáforas e metonímias. Paralelamente
identifica-se na cenografia literária raiana, a dominância de algumas figuras estereotipadas
e situações de viver emblemáticas associadas às comunidades fronteiriças como são o caso
do contrabandista, do guarda civil, do ganhão, da mulher resiliente ou do âmago das
palavras vigilância, astúcia, resistência, coragem, distância, sofrimento ou pobreza.
O tempo sedimentou neste palimpsesto fronteiriço a convivência de vários sinais que
perpetuam continuidades físicas e humanas, quase imutáveis, com fragmentos de mudan-
ças, mais ou menos intangíveis, fluidos e simbólicos, testemunhos percetíveis numa paisa-
gem onde se foram inscrevendo memórias, discursos, processos. Por isso “a regio e as suas
fronteiras (fines) não passam do vestígio apagado do acto de autoridade que consiste em
circunscrever a região, o território (que também se diz fines), em impor a definição (outro
sentido de fines) legítima, conhecida e reconhecida, das fronteiras e do território, em
suma, o princípio de di-visão legítima do mundo social. Este acto de direito que consiste
em afirmar autoridade uma verdade que tem força de lei é um acto conhecimento, o qual,
por estar firmado, como todo poder simbólico, no reconhecimento, produz a existência
daquilo que enuncia (a auctoritas, como lembra Benveniste, é a capacidade de produzir
que cabe em partilha ao auctor)” (Bourdieu, 1989: 114).
No último meio século, para não nos perdermos nos meandros de tempos mais recu-
ados, destacam-se dois momentos cruciais para interpretar os caminhos que moldaram a
reconfiguração recente do imaginário raiano: o final dos anos 60, quando ocorreram pesadas
mudanças sociais, económicas e políticas que, entre crises internas e externas, haviam de cul-
minar nas transições democráticas peninsulares, e os anos 80, quando Portugal e a Espanha
aderiram (1986) à então Comunidade Económica Europeia (CEE). Desde a Segunda
Guerra Mundial que o enquadramento (geo)político da fronteira e dos territórios que lhe
são adjacentes evoluíram paulatinamente, vincado pelo discurso técnico, proveniente da ci-
ência regional, então emergente, que enfatizava a importância do “planeamento regional”.
No caso vertente, como adiante se explicará, a publicação em 1972 de A Raia de Portugal. A
fronteira do subdesenvolvimento (Pintado e Barrenechea, 1972) não representou apenas um
marco simbólico, mas, também, um virar de página no modo de ler e interpretar a fronteira,
do sentir e viver a raia e as problemáticas que delas emanam. Vivíamos um período crítico,
estávamos no rescaldo do Maio de 68 e no advento de outros acontecimentos que haviam de
precipitar mudanças profundas tanto à escala local como global: a crise económica e social
resultante do choque petrolífero de 1973, que cavou a primeira grande depressão, depois de
143 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

três décadas de prosperidade que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Foi um pequeno
passo até ao 25 de abril de 1974 e início das transições democráticas.
Os alicerces que governavam o país e o mundo foram abalados bem como os para-
digmas que regiam a leitura das dinâmicas socio-territoriais e que presidiam à definição
das estratégias de desenvolvimento. Os problemas emergentes não encontravam resposta
na ortodoxia teórica nem nos manuais académicos que norteavam o esboço das políticas
públicas, levando a questionar o modelo de desenvolvimento vigente que se baseava em
grandes projetos, sobretudo “indústrias motrizes”, verticalizadas, praticamente inexisten-
tes na região, e em polos de desenvolvimento. Se o caso de Sines, Cachão, etc., são bons
exemplos desta abordagem em Portugal, o projeto Aproveitamento Hidro-agricola da Cova
da Beira (MAP-MOP, 1977) correspondeu à tradução regional desta opção estratégica.
O positivismo hegemónico e a crença cega na tecnocracia sairiam debilitados desta con-
tenda, tendência que, no nosso caso, não foi abraçada de imediato por estarmos a viver um
momento em que todos os sonhos pareciam possíveis. Como alguém já escreveu, tais dog-
mas acabaram substituídos por novos mitos, infalíveis para nos salvar dum subdesenvolvi-
mento endémico, onde “a Regionalização constituía o 3º mito que consumíamos num curto
espaço de tempo: tinham sido antes a Democracia e o Mercado Comum” (Gaspar, 1982).
As mudanças conceptuais entretanto ocorridas, a que se juntou o abrandamento do papel
e da intervenção do Estado, estão na origem um novo modo de encarar a região em geral e
às áreas de fronteira em particular, vistas como periféricas e marginais. Importa reter que se
encontravam sob grande pressão, sujeitas a uma pesadíssima erosão demográfica, devido à
sangria gerada por processos migratórios, particularmente intensos e dolorosos nos anos 60.

A Raia (de Portugal) “com” e “sem” Fronteiras


144 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Capas de duas obras, publicadas em momentos distintos (1972; 2002), pré-democracia


e pós-adesão à União Europeia, que espelham diferentes gerações e modos de olhar
a fronteira e de expressar a continuidade do imaginário raiano.
Ao percorrermos a bibliografia da época deparamos com diversas obras precursoras
da renovação do discurso académico e da ação do Estado, quer ao nível da leitura e in-
terpretação de tais realidades quer de novas abordagens estratégicas, intervenções que res-
pondessem aos problemas sentidos. Sem preocupação de sermos exaustivos apontam-se
a título meramente indicativo: A região, espaço vivido (Armand Fremont, 1976) ou Poder
simbólico. A identidade e a representação. Elementos para uma reflexão crítica sobre a ideia
de região (Pierre Bourdieu, 1989); num outro registo, Small is beautifful (Ernst Friedrich
Schumacher, 1973) e Development from Above Or Below? The Dialectics of Regional Planning
in Developing Countries (Walter B. Stöhr, D. R. F. Taylor, 1981). Outros autores haviam
começado a trilhar caminhos próximos para escrutinar o que está oculto para lá das pai-
sagens visíveis. Havia que ver mais além das aparências, seja a partir dos horizontes de O
sagrado e o profano (Mircea Eliade (1948 [2006]) ou da Topofilia, conceito difuso “vívido e
concreto como experiência pessoal”, esse impercetível “elo afetivo entre a pessoa e o lugar
ou ambiente físico” (Yi-Fu Tuan, 1974: 5), na descoberta de coordenadas simbólicas que
fluem duma paisagem espiritual: “Um ser humano percebe o mundo simultaneamente
através de todos os seus sentidos. A informação potencialmente disponível é imensa. No
entanto, no dia a dia do homem, é utilizado somente uma pequena porção do seu poder
inato para experienciar. (…) O meio ambiente artificial que construíram é um resultado
dos processos mentais – de modo semelhante, mitos, fábulas, taxonomias e ciência. Todas
essas realizações podem ser vistas como casulos que os seres humanos teceram para se sen-
tirem confortáveis na natureza. Estamos bem conscientes de que os povos, em diferentes
épocas e lugares, construíram seus mundos de maneira muito diferente; a multiplicidade
de culturas é um tema persistente nas ciências sociais” (Yi-Fu Tuan, 1974: 12).
Ainda sob o efeito de réplicas da crise dos anos 70, assiste-se à renovação das narra-
tivas sobre o desenvolvimento territorial no decurso dos anos oitenta, quando decorre a
adesão de Portugal e da Espanha à União Europeia, a aprovação do Ato Único Europeu
(1986) e se verifica a Queda do Muro de Berlim (1989). O novo cardápio de políticas
preconizado para esbater as assimetrias, onde a forma e o léxico, por vezes, se sobrepõem
145 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

ao conteúdo, encontra-se bem expresso numa adjetivação onde pontifica, com assidui-
dade, termos como desenvolvimento local, endógeno, integrado, sustentável (1987).
Aqueles momentos, incontornáveis da “construção europeia”, duma nova moldura
geopolítica e contemporâneos da renovação do discurso sobre o desenvolvimento, coin-
cidem com a adoção, no caso europeu, das regiões de fronteiras onde as tipologias de
áreas problema, a par das áreas rurais e urbanas, merecedoras de discriminação positiva
para efeitos de políticas públicas.
A Europa sem fronteiras (1992) surge nesta conjuntura como uma metáfora imaginada
sob o primado do mercado e da livre circulação de bens, como já havia acontecido com
o espírito que inspirou o Tratado de Roma. À tentativa de esbater as fronteiras políticas
junta-se a vontade de apagar as fluidas e variáveis fronteiras económicas, que o Mercado
Único continuamente vai refazendo, restando às fronteiras reais o reconhecimento de fra-
gilidades em termos de infraestruturas, equipamentos, serviços, etc... As Região de fron-
teira, incluídas na grelha que identifica áreas de intervenção prioritária, passam a alimentar
a expetativa duma discriminação positiva para superar precaridades reconhecidas. Desde
então, beneficiam de recursos provenientes de Iniciativas Comunitárias, designadamente
o INTERREG, que tem enquadrado ao longo dos sucessivos ciclos de programação vários
Programas de Cooperação Transfronteiriça.
Crises posteriores, como a crise económica e financeira, que deflagrou em 2008, ou
a que estamos a atravessar, desde o início de 2020, ao arrepio duma crise sanitária global
sem precedentes, continuam a deixar marcas devastadoras que contribuem para configurar
a nova geografia dos territórios mais frágeis, particularmente os fronteiriços. O sentimento
de perda já instalado é cavalgado por esta conjuntura reúne todos os ingredientes para
aprofundar e dilatar as assimetrias económicas, sociais e territoriais pré-existentes. Embora
percorrendo outros meandros e novos labirintos, meio século volvido desde a pretérita
crise da década de 70, parece termos regressado ao ponto de partida, impotentes e sem
instrumentos, conceptuais ou estratégias assertivas, para enfrentar novos desafios e rever-
ter a espiral recessiva dum ciclo vicioso que parece sem retorno para as áreas fronteiriças.
Aqui chegados, parece natural acompanhar um dos autores atrás mencionado para
quem “a região tornou-se objeto político, matéria operacional para técnicos, terreno
de descontentamento para reivindicações ou revoltas, discurso para homens políticos
no poder”. A atualidade desta observação leva-nos a insistir na ideia que “a região, se
existe, é um espaço vivido. Vista, apreendida, sentida, anulado ou rejeitada, modelada
pelos homens e projetando neles imagens que os modelam. É um reflexo. Redescobrir
a região é, pois, procurar captá-la onde ela existe, vista pelos homens” (Fremont, 1976:
11-17)3. Revisitar os espaços fronteiriços a partir desta perspetiva é, uma vez mais, voltar a
146 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

3
“A etimologia da palavra região (regio), tal como a descreve Emile Benveniste, conduz ao princípio da
divisão, acto mágico, quer dizer, propriamente social, de diacrisis que introduz por decreto uma des-
continuidade decisória na continuidade natural (não só entre as regiões do espaço, mas também entre
as idades, os sexos, etc.). Regere fines, o acto que consiste em “traçar as fronteiras em linhas rectas”, em
separar “o interior do exterior, o reino do sagrado do reino profano, o território nacional do território
estrangeiro” é um acto religioso realizado pela personagem investida da mais alta autoridade, o rex, en-
carregado de regere sacra, de fixar as existências daquilo por elas prescrito, de falar com autoridade, por
um dizer executório, o que se diz, de fazer sobreviver o porvir anunciado. (…) O auctor, mesmo quando
só diz com autoridade aquilo que é, mesmo quando se limita a enunciar o ser, produz uma mudança no
ser: ao dizer as coisas com autoridade, quer dizer, à vista de todos e em nome de todos, publicamente e
oficialmente, ele subtrai-as ao arbitrário, sanciona-as, santifica-as, consagra-as, fazendo-as existir como
dignas de existir, como conformes à natureza das coisas, «naturais”.” (Pierre Bourdieu (1989) – O poder
simbólico, pp: 114).
percorrer os caminhos da Raia na presunção de atualizar a leitura duma parcela da Beira
recorrendo a uma incursão mnemónica que não se resuma a uma história da fronteira, a
uma arqueologia dos processos, dos léxicos e das vontades, um balanço temperado entre
investigação e ação, entre teoria e prática, entre paixão e razão.
A fronteira é, antes de mais, uma estremadura4, um conceito balizado entre realidade
e imaginário, amálgama onde conflui o político, o cultural, o económico e o social, que
denota capacidade latente para sobreviver à história e resistir à geografia, como demons-
tra os múltiplos significados que lhe foram sendo atribuídos ao longo do tempo e os
vários papéis que continua a desempenhar5. Ler a Raia de Portugal para além de algumas
aparências obriga a apelar a lembranças remotas, trazer à luz do dia factos e aconteci-
mentos esvanecidos que se encontram encriptados numa gramática cuja interpretação
obriga a cruzar o fenomenológico, o simbólico e o afetivo para se encontrarem diferentes
sinais, ritos e demais códigos.
Na verdade, a contemporaneidade das reivindicações ou das cenografias dos viveres
do presente ou do ansiado futuro, inscrevem-se numa estratigrafia do tempo longo. A
percepção, necessariamente emocionais, tem limites. À Raia Central, mista nos seus
elementos, tem uma parcela do seu território bem delimitada entre a serra da Malcata-
-Gata e o Tejo. Este fragmento da fronteira seja no seu sentido linear, seja num sentido
territorial, caracteriza-se pela sua pluralidade e conjugação de problemas e de situação,
de características, de emblemas e estereótipos. A raia da terra das Idanhas é uma fron-
teira de transição entre o norte e o sul da geografia física peninsular, um bom exemplo
das tendências da cooperação das políticas centrais de ambos os Estados, dominada no
último século pela questão das acessibilidades, visando a união entre centros, pela pas-
sagem e não muito à permanência, à continuação dos destinos das raízes históricas de
comunidades que sempre viveram na e com a fronteira.
Não percorrer os mesmos caminhos nem repetir erros já cometidos pressupõe que
se comece a olhar, a ler e a interpretar as regiões fronteiriças com outros olhos, desenhar 147 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

4
“A palavra Estremadura é originariamente um nome que, tanto em espanhol como em português, designa
a “orla fronteiriça mais exterior”. Na época da Reconquista tardia foi empregada por ambos os povos para
designar o sector de luta das guerras contra os mouros e desta maneira conservou em ambos os lados da fron-
teira política uma significação territorial” (H. Lautensach, citado por Orlando Ribeiro, 1987, A formação de
Portugal. ICLP: 123).
5
Fronteira conhece diferentes significados: a parte limítrofe de um espaço em relação a outro; o marco, a raia,
a linha divisória entre duas áreas, regiões, estados, países; o fim, o termo, o limite (Dicionário Houaiss); o
mesmo dicionário enumera alguns tipos de fronteira: agrícola, artificial, acumulação, tensão, esboçada, lin-
guística, morta, natural, etc.. Para os geógrafos “a fronteira é um instrumento geográfico de diferenciação e,
por consequência, ao fim e ao cabo, de organização do espaço”, “um instrumento imaginado pelos homens
para introduzir uma certa ordem e o que não é verdade porque cristalizou inumeráveis conflitos ao longo da
história que é o seu lado negativo” (Guichonnet, Raffestin, 1974: 9-14).
programas, projetos e intervenções para estes territórios que sejam menos invasivos dos
valores e respeitadores dos sentimentos das pessoas que se encontram em união de facto
com aqueles lugares. Importa começar por compreender o que amarra e atraí a estes
sítios recônditos, presentes e ausentes, que indizíveis laços afetivos os unem às comuni-
dades de origem ou de destino. Importa sublinhar que estas fluidas ligações acabam por
deixar marcas indeléveis impressas nas paisagens raianas, sinalética, por vezes subtil, que
carece duma abordagem holística para ser descodificada. São sinais específicos que dis-
tinguem e identificam cada um dos espaços que compõem o diverso mosaico regional.
Marca própria, nem sempre percetível a quem os olha de fora e a que os residentes não
ficam indiferentes, interfere na maneira como uns e outros acabam por interagir, sentir
e viver cada parcela que constitui o universo raiano.

1.3. Gramáticas transfronteiriças: as palavras e os mapas, as imagens


e os sentidos

Na biblioteca raiana, plural nas suas expressões, autores, matérias e geografias, des-
tacam-se alguns títulos pelo impacto que produziram nos ritmos das apreensões imagé-
ticas das realidades sociais transfronteiriças. Em 1972, a editora de Madrid Cuadernos
para el Diálogo publicou a obra “La raya de Portugal. La frontera del subdesarrollo” da
autoria dos jornalistas Antonio Pintado e Eduardo Barrenechea que reunia crónicas
publicadas no jornal Informaciones que então assegurava, na capital de Espanha, uma
ténue cultura progressista nos cinzentos quotidianos do regime franquista. A publicação
adveio de uma viagem proposta pelo diretor do jornal, Jesús de la Serna, e registaria
para o futuro uma dura radiografia fina de um dos territórios conscientemente mais
esquecido e desconhecido pelos centros políticos ibéricos: a raia estruturada pela secular
linha de fronteira luso-espanhola. Em tempos de ditaduras ibéricas revelava-se uma rea-
lidade que as duas centralidades políticas pretendiam esconder numa península social
148 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

e economicamente desequilibrada que se avocava como um pequeno continente-prisão


separada da Europa desenvolvida.
O itinerário desta peculiar leitura-viagem percorreu 9 distritos portugueses e 6 pro-
víncias espanholas onde viviam “quatro milhões e meio de habitantes, a maioria cam-
poneses” que povoavam “de forma dispersa” a zona fronteiriça do interior peninsular.
A zona compunha “a mais notável e extensa concentração de subdesenvolvimento da
Europa”. A terminologia distrito/província correspondia, também, a uma considerável
diferença entre os ritmos diários que cadenciavam os viveres raianos espanhóis e portu-
gueses onde a lentidão e a ciclicidade do tempo longo imperavam. Os 138 mil km2 da
raia luso-espanhola demarcavam um território caracterizado, também, por “altos índices
de analfabetismo”, com uma “presença industrial irrisória e serviços incipientes” onde a
sangria emigratória alcançava “as cotas mais altas em ambos os países”. Era esta a raia,
linha e espaço a ocidente e oriente da fronteira, em 1972, que os autores iluminaram
e cartografaram. O mapa que abriu a narrativa do périplo representa essa interioridade
peninsular raiana que será cotejada numa perspetiva transfronteiriça.
Numa das raras comparações em que se perspetivou a análise afirmou-se: “A viagem
de Espanha a Portugal, mais precisamente, à região fronteiriça portuguesa, é uma experi-
ência única porque implica recuar da modernidade dos anos 70 até à época vivida por nós,
espanhóis, nos anos 40”. A área de observação onde estes cenários de pauperização e de
atraso endémico eram mais vincados correspondeu à comarca de Las Hurdes. Mas, como
os autores constataram, “Portugal ganha por equipas, no sentido de que a tónica geral das
suas províncias fronteiriças é sensivelmente mais deprimida e atrasada que as de Espanha”.
Na capa da edição espanhola salienta-se, na parte superior, uma composição onde duas
figuras humanas estão sentadas em pontos opostos de um banco, de costas voltadas uma
para a outra. A imagem encontra-se enquadrada por duas árvores cujos ramos se entrela-
çam em oposição ao afastamento das personagens. O banco surge na composição como
um lugar de solidão. Talvez como aqueles existentes nas praças das terras percorridas, com
“mulheres enlutadas cozendo ao sol” e “os velhos sentados no banco que circunda a parede
da igreja, com ar moribundo.” A posição das figuras, na parte inferior da capa, encontra-se
invertida e alterou-se a cromia de impressão, se na parte superior era verde agora escolheu-
-se o castanho, cor do subtítulo “La frontera del subdesarrollo” em contraste com o branco
dos carateres que constituem o título “La raya de Portugal”.

O título da publicação descobre um mundo esquecido e afirma uma viagem diá-


logo e de interrogação entre as situações observadas pelos autores e a interpretação da
“descoberta” das suas possíveis causas. Um diário dos nomes das terras e um inventário
das paisagens e relações materiais e emocionais percecionadas por Antonio Pintado,
149 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

pseudónimo do grande nome cimeiro do jornalismo espanhol e personalidade da futura


imprensa democrática, Luis Carandell. A apelidada “Raia do subdesenvolvimento” não
constituía uma geografia apenas assumida por um dos estados como poderia indiciar o
título da obra. E, será essa perspetiva de um território transnacional que se assumirá na
segunda parte do livro através da visão, pioneira, analítica e comparativa de Eduardo
Barrenechea. O texto, para além duma exposição pungente sobre a realidade raiana,
construiu uma densidade metafórica de designações e de figuras que começaram a iden-
tificar a paisagem da linha de separação política como, por exemplo: “Região marginali-
zada”, “Grande berço de pobreza e atraso”, “Zona de pouca vida”, “Fronteira de cortiça”.
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Coincidências: a zona raiana com a implantação do itinerário seguido pelos jornalistas Antonio Pintado e
Eduardo Barrenechea, em 1972, e o que foi apresentado, em 2020, para as intervenções a realizar no âmbito da
Estratégia Comum de Desenvolvimento Transfronteiriço (ECDT, 2021-2027) entre Portugal e Espanha.

Fonte: Pintado e Barrenechea, 1972; Jornal Expresso, 5.09.2020.

A fronteira e a raia formavam uma realidade multidimensional, dura e complexa,


aparentemente silenciosa, mas que estava articulada a uma polifonia de sentidos, signifi-
cações mais evidentes ou mais diáfanas e pressentidas, presenças e ausências que provo-
cavam múltiplas interpretações. A raia era uma construção social resultante da contrição
constante dos seus atores com uma historicidade resultante de momentos de tranquili-
dade ou de convulsão em séculos de separação peninsular com o que tudo isso implica
de consenso e conflito, negociação, poder, legitimação, imposição ou aceitação. E, num
pioneirismo crítico conceptual concluem e avisam: “Noutras partes da Península exis-
tem regiões que hoje é costume designar por “deprimidas” ou “subdesenvolvidas”. Temo
poder afirmar que, no conjunto, estas terras fronteiriças entre Portugal e Espanha são as
piores, que dizer, as mais pobres e abandonadas dos dois países”.
Os autores criticavam o que apelidaram de “círculo vicioso” dos eufemismos redu-
tores de pretensas caracterizações do território que percorriam e que se expressavam,
muitas vezes, em superficiais leituras técnicas oriundas das respetivas administrações
centrais: “Os termos “desenvolvimento” e “subdesenvolvimento” generalizaram-se de tal
maneira, ficaram tão convencionais, que só nos livramos deles caracterizando a situação
económica, educativa, sanitária, etc., de uma região. Pessoalmente não simpatizo com o
uso e abuso que se faz hoje destes anglicismos – tradução literal de development e under-
development – que, ditos sem mais nada, passaram a engrossar a lista de eufemismos da
nossa linguagem corrompida. Numa palavra: sabem a pouco”. E concluíam: “As cifras,
as estatísticas, os dados,… , todo o conjunto de números – oficiais – que vou trabalhar,
denunciam sem palavras, mas muito claramente, a presença viva, latente e dolorosa de
uma zona atrasada ao máximo. Mas os números não bastam. Há que encará-los com a
vivência directa. Para isso percorremos cinco mil quilómetros ziguezagueando a fron-
teira, contornando-a por ambos os lados.” Com ironia, criticando as turistificações que
então se desenvolviam na costa mediterrânica espanhola e no sotavento algarvio, identi-
ficam uma das cores dominantes nas vestes das mulheres raianas portuguesas – o negro:
“Em geral o luto está muito presente em toda a franja fronteiriça espano-portuguesa,
(…), de forma que nós, conhecedores do interesse que os organismos oficiais têm em
baptizar com os nomes adequados à promoção turística, pensamos propor para a Raia
de Portugal o de “Costa do Luto”.
As palavras registaram, então, os encontros e tentaram-se compreender, os sonhos e as
lamurias, os desequilíbrios e gritantes estratificações sociais e económicas, as figuras tipo das
terras e o seu apego às tradições e comportamentos atávicas, as inovações rurais adiadas, as
famílias, os espaços domésticos e propriedades num registo quase etnográfico dos quotidia-
nos raianos rural e urbano, as praças, os locais de sociabilidade, as estradas e as suas margens
interrogantes, as árvores solitárias na paisagem, os domínios da pobreza e as terras ralas de fu-
turo. As palavras eram necessárias com as suas metáforas e polissemias face à frieza dos núme-
ros e uma subtil cartografia comparativa acompanham as letras metamorfoseando os mapas
151 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

em autênticos documentos-denuncia. Consideremos, por exemplo, o mapa da mortalidade


infantil ou a representação regional transfronteiriça dos fluxos emigratórios.

Atentemos, também, na precursora critica que os autores produzem à consistência


identitária da “Região Centro”, unidade de território nacional, então composta pelos dis-
tritos de Aveiro, Coimbra e Leiria (Sub-região do litoral) e os de Viseu, Guarda e Castelo
Branco (Sub-região do interior) emergente dos domínios da preparação do III Plano de
Fomento gizado durante a primavera Marcelista. A Região Centro estava situada numa
posição intermedia “entre o latifúndio de culturas extensivas, a sul, e o minifúndio pobre
do norte”, uma região que classificam como autêntico “reino, não da mesocracia, mas da
mediocridade, dos tons cinzentos, do tempo perdido. Não se fica impressionado nem pela
riqueza pujante, nem pela pobreza em demasia: é “centrista”, detalhadamente medíocre,
triste, anódina.” A Região Centro vai introduzir no Portugal central uma redundância lo-
cativa extinguindo a pluralidade Beiras. Isto é, o centro anula a densidade transfronteiriça
desde sempre associada ao território compreendido entre o mar e a raia e entre os rios Tejo
e o Douro – a antiga Beira. E apontam: “O mentiroso verde das Beiras. Um verde que
cobre paisagem parecendo outorgar-lhe uma riqueza de que carece. Um verde que encobre
uma vida nada pujante, uma emigração que não cessa. Um andar que é mais um arrastar”.
Os autores consideravam que “qualquer informação socioeconómica torna-se monótona”
e não seriam este tipo de dados que possibilitariam um efectivo conhecimento das reali-
dades que envolviam a paisagem da fronteira luso-espanhola: “quilómetros e quilómetros
(…) sem a suficiente comunicação de pessoas, de mercadorias, de ideias, separadas por
uma verdadeira muralha, uma vala, um muro da vergonha ibérico”.

Retrato social da “Costa do Luto”: despovoamento e mortalidade infantil


152 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Fonte: Pintado e Barrenechea, 1972.


Os autores, ao contrário das visões técnicas frias e numérica de base estatística, in-
tensificaram o campo metafórico raiano. A geografia da divisão peninsular já não era ga-
rantida por castelos altaneiros ou por postos alfandegários que controlavam a legalidade
das passagens dos homens e das coisas. Os muros de separação eram matérias invisíveis
aos olhos dos poderes, mas estavam compactados por quotidianos cíclicos de exclusão, de
pobreza das suas gentes. A fronteira juntava as paisagens das distâncias e dos abandonos,
com as invisibilidades das vontades das suas gentes em estratos emocionais que os autores
percorreram e aprenderam com notável intensidade. A paisagem raiana era vivida e tinha
múltiplos sentidos e sentires que não se podiam resumir a uns números.
La Raia de Portugal. La frontera del subdesarollo seria publicada em Portugal pelas
edições Afrontamento, impresso em 12 de fevereiro de 1974, e assumiu-se como marco
bibliográfico pela conjugação que estabeleceu entre geografia, história, economia e socio-
logia revelando e definindo uma pluralidade de perspetivas de leitura do território raiano
comum. É considerada como uma incontornável referência dos estudos de fronteira. Foi,
sem dúvida, um texto de interrogação e de corajosa provocação. Ajudou a diluir a secular
indiferença ibérica e também foi um suporte de denúncia (leia-se a critica que os autores
fazem à Guerra Colonial, na sua ótica uma das razões intrínsecas do atraso português: “Na
defesa do Ocidente, Portugal gasta pouco menos de metade do seu orçamento”).
Reforçando a sua ligação a Portugal, dois anos depois, Luis Carandell e Eduardo
Barrenechea captariam, duma maneira ímpar, os acontecimentos que conduziram à
Revolução de 25 de Abril de 1974 vertidos na obra Portugal, si. A leitura remete para a
nova geografia social e política que então vivia o ancestral vizinho, em momentos tecidos
de espanto e de esperança. A velha fonteira luso-espanhola renovava as suas significações
e expectativas. Cruzá-la era ir ao encontro da esquecida Liberdade. Os tempos eram de
mudança. A estrutural “paz dos cemitérios” de Salazar e de Caetano, a alteração do temo-
roso sentido da expressão “vigilância da fronteira” (particularidade portuguesa que havia
sido levada da raia peninsular como uma implacável missão guerreira não contra o “outro”
próximo mas para outros continentes como desígnio nacional da “defesa do Ocidente”),
153 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

a musicalidade e compassos da Grândola, Vila Morena de Zeca Afonso, o Alentejo como


um cenário latente e em ebulição de uma nova consciência politica e utópica que renovasse
as atávicas paisagens rurais raianas, foram factos e imagens que ultrapassaram a linha de
fronteira e percorreram as cidades e alguns campos da vizinha Espanha.
Os ventos de liberdade que sopravam do oeste peninsular abalaram a ditadura fran-
quista em estertor. Mas, este reconhecimento e identificação com Portugal, por parte do
jornalista Eduardo Barrenechea, não esmoreceu com o advento dos ansiados novos tem-
pos da democratização das sociedades peninsulares. Com a sua entrada no jornal El Pais,
órgão de comunicação que foi um instrumento essencial para a afirmação da Democracia
em Espanha, o La raya de Portugal, la frontera del subdesarrollo voltou a ser evocado. Nos
finais da década de oitenta a sua pena obrigava o poder centralista madrileno a repensar o
quadro relacional com a fronteira oeste nacional. A Raia permanecia e a região fronteiriça
continuava um território lento “onde nada, nada, nada acontecia” apodo referencial das
pungentes leituras captadas em 1972.
A integração dos dois países ibéricos na Europa realumiaria as respetivas periferias na-
cionais anulando uma evidente incapacidade estrutural interna em atenuar o determinis-
mo locativo fronteiriço e em as permeabilizar. A Raia era, apesar de tudo, cada vez menos
percecionada e vivida como uma fronteira e começava a ser entendida pelos intérpretes
técnicos e pelas populações locais como uma geografia de encontros. Mas o jornalista
insistia: “Perdóneseme la autocita: terminaba aquel libro con una frase de cierto tufillo
pretencioso y lapidario: Así están las cosas. Sin comunicaciones, no hay integración”, refe-
ria em 1988 e acrescentava: “Con muy escasas variantes circunstanciales, ajustes formales
y detalles adjetivos, hoy podría escribir una nueva edición del mismo libro. Nada básico,
nada que implique variaciones de fondo, nada, en fin, que sea sustantivo habría de ser
variado. Absolutamente nada.”
O autor publicará nas páginas do El Pais reportagens que afirmavam e visibilizavam o
território raiano ibérico junto das novas elites do poder democrático espanhol. Mereceram
a sua atenção o caso da mudança, então detetada, das intensidades do secular contrabando
raiano que se tinha especializado em gado, a introdução e o interesse pela língua portu-
guesa em Espanha, a constatação de que as pontes e as estradas projetadas encontravam-
-se em suspenso há mais de 20 anos e continuavam por terminar ou nem sequer tinham,
ainda, passado das mélicas discursivas das intenções dos respetivos poderes centrais. Assim,
em meados da década de oitenta “España y Portugal continúan viviendo de espaldas”.
Ansiava, o autor, pela chegada do ano de 1992 com a projetada livre circulação de merca-
dorias, pessoas e bens que diluiria as fronteiras políticas e económicas. Mas, o almejado en-
contro ibérico resultaria não duma vontade construída nas regiões separadas pela História
mas sim do contexto resultante da solidificação da nova arquitetura europeia plasmada na
154 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

ideia de um velho continente sem fronteiras internas. Até essa data muito mudaria nos
territórios limítrofes.
As “lágrimas ibéricas, que redoblan y repican por ambas naciones, y muy en concreto
por los habitantes de su frontera” perdiam intensidade afirmando-se uma escolha intrínse-
ca das terras da fronteira em colocar à luz as cartografias vivenciais de seculos de contacto
subterrâneo. As leituras impressionistas da “Frontera del subdesarrollo, frontera del corcho
que insonoriza los gritos de reivindicación y acolcha los lamentos de una incomunicación
entre sus habitantes que desde siempre – sea cual fuere el régimen político imperante en
ambos países de un mismo solar ibérico – no se: cansan de hablar y hablade fraternidades
y buena voluntad, pero que en la práctica poco o nada hacen para acabar con la bolsa de
pobreza más grande de toda la Europa comunitaria que sigue perpetuándose. España y
Portugal siguen, después de tantos años y con un proyecto común europeo, viviendo de
espaldas, de costas voltadas” constituíam realidades do passado que deveriam ser transfor-
madas na afirmação de um sentido identitário do território raiano comum. O silêncio da
Lusitânia interior que tinha acompanhado “toda a nossa viagem por ambos os lados da
fronteira”, tangível e sufocante em 1972 já não dominava a paisagem raiana. O território
raiano detinha, afinal, vozes. Não era afónico. Amordaçadas durante séculos por desdéns,
guerras, medos, limites, barreiras e retóricas historicistas centralistas, as múltiplas vozes das
fronteiras ansiavam apenas por quem as soubesse escutar. Afinal a Raia era, também, a
linha do horizonte onde nascia o sol, certeza de iluminação da vida.

2. Estratigrafias fronteiriças: da separação às geografias variáveis da


cooperação

“Há na Península Ibérica uma grande zona (maior em extensão superficial que a
Grécia ou a Checoslováquia, vez e meia a Áustria, três vezes maior que a Dinamarca ou
Suíça e quatro vezes a Holanda e Bélgica…), formada por nove distritos portugueses e seis
províncias espanholas, que constitui, no seu conjunto, a mais notável e extensa concentração
do subdesenvolvimento da Europa” (Antonio Pintado e Eduardo Barrenechea, 1971: 9).

2.1. Fronteira-Raia: de traço (vertical) da separação à ponte


(horizontal) de união

A entrada, em 1985, de Portugal e de Espanha no espaço económico europeu e a


155 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

afirmação democrática das duas nações ibéricas determinaram uma transformação nas té-
nues dinâmicas relacionais entre as comunidades e os respetivos poderes locais e regionais
situados nos territórios separados pela linha de fronteira. Com a constituição das regiões
autonómicas despontará, no estado espanhol, uma cartografia política reveladora da di-
versidade identitária da velha Ibéria afirmando outras capitalidades que, de uma maneira
paulatina, diminuíram o despótico centralismo de Madrid. Ao mesmo tempo, o assumir
da cooperação transfronteiriça como um objetivo estratégico pelas administrações dos dois
governos concentrará nas paisagens da fronteira uma confluência de recursos económi-
cos, técnicos e simbólicos sem paralelo na sua secular história. De um modo indelével
alteraram-se as gramáticas, as substâncias, os léxicos, entrelaçaram-se e codificaram-se
memórias, assumiram-se esquecimentos, planificaram-se futuros comuns, concebeu-se
uma renovada imagética para as margens do “espaço deprimido” da fronteira. Os anti-
gos muros-distâncias, mentais e físicos, separatórios dos horizontes raianos adquiriram
um inusitado interesse por parte das administrações centrais e regionais dos dois países.
Importância revelada em intensidades de desigual ritmo e em operacionalidades projetivas
proporcionais ao anúncio da disponibilização de fundos comunitários destinados a inver-
ter a situação aferrada a essa olvidada periferia percecionada como uma das regiões mais
atrasadas, envelhecida e pobre da Europa.

Vilar Formoso: redefinição do significado da fronteira

Os velhos postos fronteiriços, símbolos de separação, deram lugar a um memorial


aos refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes (Vilar Formoso – Fronteira da Paz).

A comunidade académica avocará a fronteira e as suas circunstâncias como um “fio-


-objeto” estruturante dos seus trabalhos materializados em centenas de títulos e na orga-
156 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

nização de copiosas reuniões, congressos, mesas-redondas e fóruns que percorreram as


áreas da economia, da história, da estatística, da geografia e do planeamento regional. A
especialização temática preencheu também os discursos do poder político caracterizados
por uma retórica tecida de alegorias e de repetibilidades metafóricas envolvidas por um
sentido redentor e atemporal. Os “muros”, as “pontes”, “os tempos de costas voltadas”,
a “fronteira escudo”, a “linha da pobreza”, os “heróis-contrabandistas”, os “tempos das
dificuldades”, os “abandonos”, os “irmãos desavindos”, os “castelos do futuro”, “A Europa
sem fronteiras”, os “tempos dos fascismos de Salazar e Franco”, a “cicatriz da história pe-
ninsular”, as “terras dos medos e dos castelos vigilantes”, a “zona esquecida por Madrid
e por Lisboa” vão conviver com mapas, tabelas e, principalmente, números gizados nos
incontáveis relatórios e projetos técnicos produzidos por organismos institucionais abran-
gendo todos os sectores da agricultura aos serviços, das acessibilidades à demografia e ao
turismo, setor que começa a ocupar uma presença relevante nas textualidades em prol do
almejado desenvolvimento das periferias nacionais.
Este despertar pelas temáticas da fronteira ultrapassou a vincada linha política e os textos
orais e escritos confirmaram um território raiano transfronteiriço desconstruindo, muitas
vezes, alguns estereótipos locativos e identitários até aí predominantes. A discursividade da
cooperação transfronteiriça desenvolverá o campo comunicacional técnico através duma vi-
gorosa presença de termos, siglas e significados como “estrangulamentos”, “potencialidades”,
“recursos endógenos”, “ordenamento”, “raya salamantina”, “raia galega”, “INTERREG”,
“Beira Interior”, “Extremadura”, “interioridade”, “Comissões de Coordenação”, “Nut`s”,
“Bruxelas”, “Feder”, “Feoga”, “GITs”, “Diputaciones”, “análises”, “crises”, “densidades”, “pi-
râmides”, “análise swot”, “desertificação”, “oportunidades”, “envelhecimento”, “subsidiarie-
dade”, “estrangulamentos”, “repulsivo”, “indicadores”, “inversões”...
Mas, por debaixo das aduanas fiscais e dos marcos divisórios de soberanias, durante
séculos, subsistiu, nas terras e nos horizontes da fronteira, um ocultado e paralelo campo de
ligação fluída e intensa à margem das diretrizes políticas centrais. Esse tempo longo raiano
despontava, em finais do século xx, numa paisagem enlaçada por esperanças, medos, memó-
rias de guerra e de paz, por denúncias, amores e casamentos, por ciclos de fome, vigilâncias
constantes e estratégias de sobrevivência, por mobilidades e pendularidades de trabalho, por
velhos caminhos de romaria e de devoção que transpuseram todos os muros divisórios.
Iluminava-se uma geografia de solidariedades luso-espanholas raianas, uma peculiar cul-
tura de fronteira assim definida pelo antropólogo Luis M. Uriarte: “La Raya, al dividir y
separar geopolíticamente dos estados-naciones soberanos trazando nítidas “fronteras geopolí-
ticas”, y los estados naciones al pretender enmarcar y “mantener a raya” (controlar) las pobla-
ciones fronterizas, equiparando nacionalismo-territorialidad-cultura-etnicidad, intentando
formar “fronteras culturales”, curiosa y contrariamente, convierten a la Raya (divisoria) en la
157 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

columna vertebral que articula y une al Area Rayana (unificadora) y, precisamente por ello,
configura un área cultural peculiar que tiene como eje medular la complementariedad y la
interdependencia transfronteriza: Es la cultura de Frontera” (Uriarte, 1994).
A entrada de Portugal na União Europeia não significou o fim da sua fronteira penin-
sular como de um modo errado, em muitas ocasiões, se propagou. Assistiu-se sim a uma
abertura física e uma diluição da fronteira percecionada e vivida como um limite aduaneiro
controlado, vigiado, policiado e impeditivo da livre circulação de bens e, principalmente,
de pessoas. A fronteira marcava diferenças políticas, administrativa, jurídicas, económicas,
alfandegárias e a sua derrocada imagética, como linha invisível de materialidades (muros
de pedra, cancelas de ferro, guaritas, ameias, carros de policias, ritualidades das burocracias
de passagem, o controlo dos passaportes, das cartas de condução, das idades, etc.), temo-
rosas, repulsivas e separatórias, provocará a maior transformação funcional e simbólica em
séculos da sua existência histórica.
A abertura das fronteiras entre os países da Comunidade Europeia fomentou, assim,
uma alteração social e económica nas regiões raianas desestabilizando equilíbrios, comple-
mentaridades e solidariedades impostas, mais sentidas ou mais subterrâneas. A Raia era
o viver e a fronteira o controlo das passagens. Abertas as fronteiras despontaram outros
sistemas comerciais, novos segmentos em espaços nos quais a maior parte da economia
subterrânea tradicional dificilmente poderia singrar. Como apontaria Carminda Cavaco o
apagar da fronteira, política e económica histórica provocará “efeitos locais catastróficos a
curto e médio prazo: desaparecimento total das funções administrativas da fronteira, in-
cluindo a cobrança de direitos alfandegários sobre as mercadorias entradas; de rendimento
para diferentes grupos sociais neles envolvidos”.
A diluição de significações e de a interiorização por alguns sectores profissionais das
comunidades raianas subordinadas à fronteira vigiada e controlada provocou uma plura-
lidade de sentires que percorreu vários estados de numa bipolaridade de comportamen-
tos coletivos: da exaltação até ao desanimo e ao esquecimento. Mas quando falamos da
fronteira luso-espanhola, a mais antiga e extensa da União Europeia, tópico descritivo do
seu património histórico, foram vários os comportamentos, as evoluções e as adaptações
ao novo tempo das fronteiras abertas nos 1234 Km da sua extensão. Apesar da geografia
político-administrativa ser distinta como a sua rede urbana, investimentos comunitários,
acessibilidades, abandono dos campos serem distintos nas duas faixas territoriais frontei-
riças constituídas por 17 regiões NUT III representam 23,5% do território ibérico e 10%
da população dos dois estados. As 10 NUT III fronteiriças de Portugal têm uma área de
50.200 Km2 e representam cerca de 55% do território do continente e 20% da população.
A linha unifica, nos nossos dias, uma diversidade de tempos de viver a fronteira for-
mando um corredor, não uniforme, em termos populacionais e económicos, constituído
158 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

por grandes espaços rurais de muito baixa densidade populacional, em declínio acelerado
e em situação de empobrecimento gradual, paisagens de silêncios onde avultam algumas
cidades ainda dotadas de dinâmicas sociais e económicas. Mas como notou Jorge Gaspar:
“As fronteiras são, a um tempo, espaços de inovação e de comunicação e espaços de acumu-
lação de arcaísmos e persistência nas divisões. (…) Nas terras fronteiriças, de um e de outro
lado, desenvolveram-se estratégias de afirmação e de sobrevivência, de ameaça e de diálogo.
Ao mesmo tempo que se sublinharam as diferenças reforçando as expressões culturais de
cada comunidade, inventaram-se canais de troca que faziam reverter em vantagem o que
era uma barreira. Depois, a perspectiva de integração na Comunidade Económica Europeia
com os inerentes apoios ao desenvolvimento económico e social, prolongaram o tempo dos
optimismos, reforçados com a antevisão do fim das fronteiras – a liberdade de comunicação
total iria decerto criar novas oportunidades. A última dúzia de anos, apesar da melhoria das
infraestruturas e da valorização das comunidades locais, representaram um tempo de espe-
rança, mas também de frustrações. O fim da fronteira, jovem de sete séculos, não contribuiu
para travar os esvaziamentos humano, de um e de outro lado, em certo sentido, pode dizer-se
que se acentuou o fosso: para que servem as novas acessibilidades, se escasseiam os utentes”.
Foi nesta realidade que a experiência do território de Idanha-a-Nova é uma exceção ao
determinismo, resistindo – o verbo é mesmo resistir – numa garantia dos equilíbrios entre
as comunidades e o meio garantindo a continuidade da sua permanência.

2.2. Diacronias fronteiriças em Terras da Idanha: imagens, vontades,


realidades

Idanha-a-Nova é um dos concelhos raianos da antiga Beira Baixa ou da operacional


Raia central cuja posição fronteiriça determinou, durante séculos, os seus ritmos sociais,
económicos, políticos e culturais. Com efeito, em vários momentos e conjunturas, iden-
tificam-se na espessura histórica das terras da Idanha combinações diversas que revelam a
polissemia da fronteira na modelação e desígnio deste território. Por exemplo, atentemos a
uma excecional inscrição, datada dos primeiros anos do domínio romano no actual territó-
rio português, o terminus augustalis que marcava a fronteira entre os Igaeditani, habitantes
de Igaedis, a actual decrépita, aldeia de Idanha-a-Velha e os Lancienses Oppidani. Ou na
memória das discórdias fronteiriços entre o bispo da diocese visigoda da Egitânia (Idanha
Velha) e a diocese de Salamanca ou na ponte romano-medieval de Segura que ligava o
oeste beirão à vetusta ponte de Alcântara, edificada na época de Trajano, o primeiro impe-
rador que não era natural de Roma. A ponte, que em Alcântara vence o Tejo, é um grande
monumento das primevas cooperações transfronteiriças, construída pelos povos que vi-
159 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

viam nestes centros do interior peninsular. Daqui partia uma via que se dirigia a Igaedis, a
Egitânia visigoda, berço histórico das terras das Idanhas que assumiria o epíteto de velha
no século xiii. E, nesta identificação de locais da fronteira histórica, avulta promontório
de Monsanto santuário da fronteira do sagrado, mole pétrea de todos os limites e ritos de
cruzamento e de sincretismos religiosos das civilizações do norte e do sul peninsulares.
Desde a pré-história que uma renovação de sentires se mantém até aos nossos dias numa
cerimónia de união entre ancestrais fronteiras da espiritualidade, cuja manifestação supre-
ma é a Festa do Castelo de Monsanto com os seus adufes e as suas misteriosas marafonas,
bonecas femininas, sem olhos mas que vigiam…
Os castelos da Raia segundo Duarte de Armas

Salvaterra, “tomada ao natural”, vista do oeste. Em primeiro plano a fortaleza de Peñafiel.

Segura, vista da banda do norte.


160 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território
É a memória da fronteira acastelada que perdura no imaginário coletivo numa ge-
nealogia preceptiva que remonta século xvi. Com efeito, os territórios que bordejam os
actuais limites das duas nações ibéricas foram alvo de uma peculiar observação condensada
num dos projetos imagéticos mais singular dos horizontes vividos da raia nos inícios do
século xvi: o “livro das fortalezas que sam setuadas no estremo de portugall e castella…”
de Duarte de Armas. Hábil debuxador, o escudeiro de D. Manuel, percorreu as povoações
acasteladas da Raia nos alvores da década de quinhentos captando, com pormenor, as ar-
quiteturas que dominavam o horizonte dos quotidianos das guerras e dos tempos de paz.
Um espaço que era percecionado como longínquo revelava-se ao poder central na duplici-
dade dos seus cenários. À tranquilidade transmitida pelas representações enraizavam-se pe-
riódicas angústias, ambientes de guerra, tensões e instabilidades. O poder e os seus braços
nestas geografias periféricas estabeleciam, contudo, linhas de controlo e linhas de trânsito
em calendários marcados pelos tempos de muralhas e pelos tempos de livre circulação,
pelos tempos do profano e do sagrado.
Da Raia entre o Tejo e a serra da Malcata, e sempre em duas bandas, foram apre-
endidas por Duarte de Armas as povoações de Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Segura,
Salvaterra, Penha Garcia, Monsanto, Penamacor e Sabugal. A presença de Castelo
Branco, vila afastada da fronteira, no conjunto justifica-se por ser terra de encruzilhada
de caminhos que conduziam à Raia e controlava as passagens de gentes, bens e animais
entre a Beira e o Alentejo. No Tejo, barcas uniam as margens desta milenar fronteira –
via líquida ibérica. No debuxo de Idanha-a-Nova, no último plano da banda do norte,
Duarte de Armas tracejou os montes do extremo. E, para que não restassem dúvidas
sobre a sua situação encimou as representações orográficas com a palavra “Castela”,
termo persistente de todas as perceções individuais e colectivas dos horizontes do Este
das povoações raianas portuguesas. Na imagem da “banda do norte tirada do natural”
de Segura desenhará o que poderia ser então compreendido como a Raia e a fronteira.
Raia como área e não com um sentido linear e fronteira como parte de demarcação e
de diferenciação das passagens materializada na ponte de Segura que une as margens.
161 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Em 1852, o erudito José Viu deste modo descreveu o vetusto monumento “A las dos
leguas atravesaban el río que ahora se llama Eljas por un belíssimo puente del cual nadie
absolutamente se ha acordado decir nada. Estamos hablando del puente de Segura, que
en el día separa a España de Portugal.”
E, em 1578, anos depois da captação de Duarte de Armas Sebastián de Aguirre e
Diego de Castañeda e Pedro Villegas, vizinhos de Alcântara afirmavam “concuerdan en
que el lugar donde estaba elevado el puente, entonces derruido, era el sitio ideal para reedi-
ficarlo y en que los perjuicios para la villa de Alcántara eran inmensos pues no llegaban las
mercancías y por ello había perdido mucho dinero ya que no podía cobrar la aduana de las
mercaderías que por allí pasaban especialmente las de invierno. (…) E que conviene que
se vuelva a hacer e reedificar porque es muy útil e provechosa para las comarcas de Castilla
como a las de Portugal e a todos los vecinos comarcanos”.
Em Segura, o rio Erges vincava o limite aquático separador e asseverava a fronteira-
-linha cumprindo os desígnios estabelecidos, anos antes, pelos dois reinos. Com nascen-
te em Serra de Gata, em Segura, as suas margens encontravam-se há séculos unidas por
uma ponte, notável construção romana, situada num lugar muito peculiar da história
da fronteira gizada num tempo de fronteiras do mundo e das raias das religiosidades
entre cristãos e muçulmanos. O monumento está carregado de códigos, mensagens,
sinais e memórias hoje mais ou menos desconhecidas, num limar entre visibilidades e
invisibilidades. A ponte de Segura, delineada por Duarte d’ Armas, apresenta parte das
suas guardas derrubadas. Este aspeto de abandono e de registo da destruição do prin-
cipal suporte de ligação entre os extremos de Castela e Portugal, nesta região, poderá
ser relacionado ou evocar o papel que Segura tinha tido durante a guerra terminada em
1480, cuja ponte era estratégica como nó de comunicações entre a Extremadura e a zona
do noroeste de Portugal.
Na apreensão de Salvaterra, o primeiro plano é ocupado pela borda castelhana
do Erges dominada pela fortaleza de Peñafiel, traçado com grande pormenor, hoje
uma ruína erma nos campos de Zarza la Mayor. A imagem testemunha a porosida-
de das estremas e um consentimento por parte do “inimigo ocasional” em permitir
debuxar um dos seus principais castelos de vigilância que demarcavam diferenças de
poder. Zonas de delimitação militar adquirem, paulatinamente, um valor de territó-
rio onde se aplica o direito e a demarcação das diferenças envolvendo-se duma im-
portância cada vez mais simbólica. Os castelos afirmavam presenças e distinções.
Diferenças que se revelavam nas bandeiras que se divisavam de torre para torre. Os
castelos viam e eram olhados, vigiavam-se uns aos outros, fiscalizando as transações
proibidas, por exemplo metais preciosos e armas, cobravam as rendas e controla-
vam o comércio, eram os espaços de segurança das comunidades e dos respetivos al-
162 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

fozes garantes dos calendários e das monotonias cíclicas dos trabalhos e dos dias.
Como escreveu Romero de Magalhães: “La nación era poco más que la tierra donde
se nacía (acaso también una lengua que se hablaba). La pátria, tierra de los padres, indi-
caba el orígen. La ampliación de estas nociones a todos los habitantes del território bajo
la sujeción a un mismo rey tardará en generalizarse”. Com efeito, o tempo da construção
e aprensão mental da fronteira, como linha, foi lenta: “La frontera es la concreción de
una historia política, que puede no haber tenido en cuenta la vida de los pueblos. Y entre
Portugal y el reino de Castilla las delimitaciones resultan a trozos bien dudosas. Donde
hay rios y cursos de agua se puede decir que el trazado se acuerda sin grandes conflictos,
igualmente si los hay para el pago de los derechos de pescado. Pero no por otras partes.
Por las sierras se ponen cruces y piedras, hay árboles que sirven de referencia. Hay, tam-
bién, a veces, mojones com los símbolos de Portugal y de Castilla”.
A fronteira foi um ponto quente da guerra, mas também um espaço percorrido
nas complementaridades económicas, principalmente na passagem sazonal dos rebanhos
transumantes. O contrabando emerge no séc. xvi como resposta à burocracia régia e
a fronteira deixou de ser um apenas uma área de vigilância militar ou de conflituali-
dade bélica para estar sujeita a uma intensa vigilância aduaneira. Mas houve exceções
nesta fronteira porosa do Erges que alcançaram um verdadeiro sentido de convergên-
cia estratégica e de convivência transfronteiriça como o caso da criação, em 1749, por
Felipe V, da Real Fabrica de Sedas de Zarza la Mayor, cujo verdadeira designação foi
Real Compañía de Comercio y Fábricas de Extremadura que provocou um intercâmbio
ímpar de matérias primas, de utilização de terras comuns para plantio de amoreiras
junto da fronteira e de contrabando de seda…
Apontemos também o fenómeno da partilha entre as comunidades raianas das águas
termais e santas de Monfortinho durante anos geridas em efetiva comunhão ou as roma-
rias raianas das Senhoras, como atrás referimos, que são sempre metade de cada nação.
Indiquemos, finalmente, as fronteiras linguísticas e culturais, “descobertas” e reveladas
por José Leite de Vaconcelos, Orlando Ribeiro ou por José Matoso, que consideravam
as terras das Idanhas um mundo de transição entre todos os rumos, que utilizaram
como um grande observatório-laboratório de paisagens iluminadas, mas, também, de
narrativas metafóricas e de intensa densidade literária, de que é extraordinário exemplo
o escritor Fernando Namora.

2.3. Ecos da fronteira: vozes precursoras do diálogo transfronteiriço

Não terá sido, assim, um simples acaso a escolha, em 1986, pelo Jornal do Fundão,
163 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

de Monfortinho, estância termal situada no concelho de Idanha-a-Nova na margem


portuguesa do rio Erges, para a realização das II Jornadas da Beira Interior. Para António
Paulouro, diretor do jornal fundanense, a palavra cooperação, como diretriz estratégica
de vínculo entre a Beira e outras geografias, fazia parte da integridade programática do
periódico. Numa critica continuada aos centralismos do poder o Jornal do Fundão foi
um combatente pela liberdade em tempos de Ditadura, assumindo-se como a voz das di-
ferenças e de algumas resistências ousando idealizar o desenvolvimento da região a partir
do interior contrariando, muitas vezes, as certezas impostas e os subtis esquecimentos
provindos pelo longínquo poder central.
A presença de notícias alusivas a realidades sociais e políticas procedentes de Espanha
foi sempre parca em décadas de edição. Na história do Jornal do Fundão a palavra coope-
ração traduziu-se, numa primeira fase, numa contínua e intensa união emocional entre a
Beira e as comunidades emigrantes do Brasil e, principalmente, com os horizontes france-
ses da luso-descendência, alcançando o periódico um papel insubstituível como veículo de
religação identitária. No caso da cooperação luso-espanhola salientemos, na memória do
jornal, a reclamação surgida, em 1970, que pedia a concretização de uma via de comunica-
ção que, definitivamente, permeabilizasse a Raia aproximando o Interior fronteiriço beirão
ao Litoral: a campanha “A Estrada da Fronteira ao Mar”.
O projeto ocupará durante algumas semanas páginas do jornal dando voz e difun-
dindo anseios comuns das administrações, locais e regionais, espanholas e portuguesas.
Ambas expressavam, com veemência, a necessidade urgente de uma melhoria das acessibi-
lidades entre as regiões de fronteira dos dois estados. A proposta veio dar eco na região de
um propósito avançado e ambicionado pelo poder central. Em 1970, Marcelo Caetano vi-
sitara Madrid no contexto de um novo quadro de relações políticas entre as duas ditaduras
impulsionado pela entrada de Portugal na EFTA. Na ocasião, o governante comentaria:
“não podem os nossos dois países estar alheados um do outro e deixar de procurar formas
eficazes de íntima colaboração” declarações que o Jornal do Fundão transcreverá.

Jornal do Fundão, uma voz precursora da cooperação transfronteiriça


164 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

A reclamação da construção de uma nova via de comunicação propunha a abertura de


postos fronteiriços em Penamacor e em Monfortinho, revelando um caráter convergente
entre o interior e o litoral do Portugal central. A 31 de Maio de 1970, a primeira página
é ocupada por um mapa do traçado da ambicionada via com a interrogação legenda:
“Estrada da fronteira ao mar: será agora? Um porto para o centro da Península. Figueira da
Foz, Segura, Monfortinho, Penamacor e Vilar Formoso: quatro portas; novas perspetivas
de desenvolvimento para a Beira Baixa”. As ligações entre o Jornal do Fundão e o “outro
próximo” atingiriam, contudo, uma expressão particularizada em 1982 com a edição do
suplemento dedicado às frouxas relações que, então, se estabeleciam entre a Beira interior e
Salamanca. Apesar de nessa província espanhola se situar a fronteira de Fuentes de Oñoro
– Vilar Formoso, principal ponto vigiado de permeabilização e de passagem legal de pes-
soas e de bens entre os dois países e de ligação com a Europa além Pirenéus, e da urbe
salmantina ser o grande centro universitário ibérico, fraternalmente ligado a Coimbra, as
relações institucionais eram frias e quase inexistentes ao nível político.
O suplemento JF-Salamanca (estruturado por Fernando Paulouro, Joaquim Duarte,
José Santolaya e Pedro Salvado) está hoje considerado um exemplo pioneiro do jornalismo
da cooperação transfronteiriça. Reproduzindo, em discurso directo, vozes de instituições
da administração pública e académica de Coimbra, Guarda, Covilhã, Seia e de outras
sediadas em Salamanca, as páginas patenteiam a vontade do estabelecimento de um flui-
do eixo de cooperação formal e informal, que conjugasse a economia e a cultura entre
Coimbra, Salamanca e os territórios administrativos de Castelo Branco com os da provín-
cia de Salamanca.
A entrevista a Abílio Curto, então presidente da Câmara Municipal da Guarda, adu-
ziu a visão autárquica do que deveria constituir no futuro a refreada cooperação raiana.
Ultrapassado era já o ambiente da cimeira luso-espanhola de Fevereiro de 1976 ocorrida na
Guarda, entre os ministros dos Negócios Estrangeiros Melo Antunes e José Maria Areílza,
marcada pelos ventos de mudança da Revolução de Abril. Na ocasião, um semanário local
anunciava que o local da reunião fora mantido em segredo e que, até à meia-noite do dia
anterior, corria a voz que a reunião teria lugar no Alentejo, em Estremoz. O local escolhi-
do, palco distante da linha de fronteira, demarcará a geografia da nova cooperação política
peninsular e estabelecerá o invocado “espírito da Guarda”6, imaterialidade sentimental que
165 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

desejava a concórdia e a amizade entre os povos raianos.


O suplemento do JF confirmará essa “espiritualidade geo-relacional” centrada na ci-
dade da Guarda, realidade bem patenteada num texto-entrevista com o filósofo Josué
Pinharanda Gomes na qual se apesente uma cartografia de sentimentos comuns: “Guarda,
Cáceres e Salamanca são o vértice de um triângulo que configura o centro da meseta”.

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“O “espírito da Guarda” mais não foi do que do que o esforço luso-espanhol para ultrapassar as tensões e a
carga de potenciais conflitos entre os dois Estados, na segurança de que em Espanha parecia irreversível o ca-
minho para a democracia e de que em Portugal as tentações esquerdistas e radicais estavam duradoiramente
afastadas” (César Oliveira, 1995: 219).
Apontemos, também, as entrevistas e a importância da visão inovadora do jovem alcalde
salmantino Jesus Málaga ou o texto referencial do jornalista democrático Henrique de
Sena, entre outras colaborações que formam este incontornável documento da história da
discursividade transfronteiriça jornalística entre a Beira Interior e Castela e Leão.
“Raia-Traço-de-União”, sentença torguiana que já tinha sido aplicada a outras longitu-
des, nomeou um dos principais painéis das II Jornadas da Beira Interior, organizadas pelo
Jornal do Fundão. A realização, em Monfortinho, deste fórum de definição e das linhas mes-
tras em que devia assentar o futuro desenvolvimento da almejada região da Beira Interior
revestiu-se de um valor simbólico. As termas de Monfortinho, apesar de possuírem uma
oferta hoteleira de referência na região, eram servidas por uma fraca acessibilidade e vivia o
seu dia a dia no limite geográfico da fronteira-barreira, numa subtil e ritmada complementa-
ridade entre termalismo, turismo cinegético e contrabando. O “traço de união” recordava a
junção de vontades que terminassem o aparente silêncio da paisagem raiana.

O Interior enquanto imaginário no dealbar do diálogo (trans)fronteiriço


166 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Capas das publicações que reúnem as comunicações feitas nas Jornadas da Beira Interior, organizadas por
António Paulouro, diretor do Jornal do Fundão (Iª edição, Fundão, 1983; IIª edição, Monfortinho, 1986). Em
apenas três anos, com a integração europeia, ocorre uma substancial mudança conceptual: o velho pastor soli-
tário dá lugar duas figuras que se aproximam para um diálogo na proximidade da fronteira, construção política
que parece começar a esvanecer e a deixar de ser fator de separação.

O cartaz da autoria de Zé D’Almeida apresenta, em fundo azul e verde, uma imagem


onde se representaram dois pares de figuras masculinas de chapéu em gesto de cumpri-
mento. As suas silhuetas são separadas por um raio luminoso que se orienta para as mãos
que, em intenção de saudação, não se chegam a tocar, aludindo à contradição relacional
entre as duas nações: a vizinhança física não significava qualquer comunhão ou partilha
de vontades. As cores das bandeiras nacionais preenchem as representações que o artista
inverteu quanto à sua real posição geográfica. Assim, no plano do cartaz, os vultos repre-
sentados à esquerda, a oeste, identificam Espanha e os da direita Portugal.
A análise das problemáticas inerentes à fronteira luso-espanhola dominou as vinte
comunicações apresentadas por representantes de instituições centrais e regionais (como
a tecnocracia associada às futuras Comissões de Coordenação regionais), autarcas, acadé-
micos, investigadores, economistas e políticos como, entre outros, os deputados Dias de
Carvalho, Rogério Martins, Roque Lino, Marques Mendes ou Rogério de Brito. Na par-
ticipação espanhola nas Jornadas, principalmente a originária de Salamanca, destacou-se
a presença do Alcaide da cidade do Tormes, Jesus Málaga confirmando o alargamento do
raio de influência dos debates transfronteiriços emitidos pela reunião. A sua intervenção
não se resumiu à repetida reivindicação da melhoria dos eixos de comunicação, mas apor-
tou temas inovadores para o campo da cooperação como o ambiente, a gestão dos recursos
hídricos comuns ou a circulação de saberes técnicos e culturais.
A tradicional “proximidade” luso-espanhola atávica e redutora diluiu-se cumprindo-se as
palavras do Governador Civil de Salamanca José Luís Martin ditas aquando do suplemento
do JF: “O que importa mais é chegarmos como agora ao entendimento e à convivência.
(…) porque também nós estamos a aprender a viver em democracia, pacifica e democrati-
camente vamos, pois, continuar a aprofundar os laços de união e de amizade”. As Jornadas
de Monfortinho ditaram, quiçá, os princípios temáticos norteadores das futuras cimeiras
ibéricas onde se aclarariam as inconstantes políticas e práticas de cooperação transfronteiri-
ça já no contexto do mercado único europeu. Em Monfortinho, Delgado Domingos, por
exemplo, traçaria as coordenadas basilares que caracterizavam o viver raiano numa estreita
conjugação entre fronteira, periferias e interioridade. Para este professor que se vai opor ao
projeto nuclear ibérico, as assimetrias portuguesas e espanholas tinham “igual génese” e as
então apelidadas “ajudas da CEE” eram vagas “não voltadas para os problemas específicos das
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zonas e que correspondem a um conceito de desenvolvimento que é de quem o concebeu e


não o nosso”. E, a propósito do “subdesenvolvimento que caracterizava a zona”, considerava
que a sua base residia na “hemorragia das pessoas capazes de permear os órgãos do poder cen-
tral apesar de serem “originários das zonas do interior não desenvolvidas as que dão a maior
parte dos dirigentes do poder central nos dois países. E são esses homens que teorizam linhas
de desenvolvimento desadaptadas aos problemas reais”. Observava ainda que “os problemas
decorrentes da comunicação entre os dois “povos da raia” que têm sobretudo eco fora dela
traduzem, no fundo, a falta de confiança nas suas possibilidades revelando afinal uma crise
de identidade destas longitudes periféricas face aos centros do poder.
As Jornadas da Beira Interior, em Monfortinho, reorientaram os quotidianos do seg-
mento beirão da fronteira mais antiga da Europa que unia e ao mesmo tempo separava
comunidades, ligando-o ao centro de ação das políticas públicas nacionais. A raia, húmida
ou seca, de memórias e de representações redutoras como aquelas imagens antitéticas de con-
trabandistas, guardas-fiscais ou civis ou de esperanças adiadas, teria de ser agora olhada em
complementaridade com o território vizinho, findando a apreensão da raia-fronteira como
um limite intransponível ou trilho invisível de permeabilizações subterrâneas, conflituosas
e marginais. Com efeito, em certos momentos da sua história, o confim da geografia nacio-
nal foi, em certa medida, entendido e vivido como um recurso para as populações raianas
instituindo um quadro de cooperação marginal. Essa realidade deveria, a partir de então, ser
desocultada, adaptada e introduzida na narrativa e objetivos dos centros do poder oficiais.
A historicidade da fronteira como fenómeno cultural complexo comprovava que as
pontes de cooperação, materialidade metafórica que será repetida à exaustão, não têm de
ser construídas em pedra pois toda a fronteira é sempre passagem que pode encontrar as
portas do “outro” abertas ou fechadas. No discurso de encerramento deste pioneiro fórum
do desenvolvimento regional da Beira interior democrática, António Paulouro resumiria e
vaticinava o futuro das relações luso-espanholas cumprindo o sentido intrínseco da palavra
cooperação: “actuar juntamente com o outro, para um mesmo fim” afirmando: “Estão vivas
e desgraçadamente agravadas, questões aprofundadas nos debates de 84 e 86. Das quais,
desde há cinco anos, vimos denunciando”: “ou se aproveitam os recursos que temos em terra,
água, clima e, principalmente em gente capaz, ou estaremos condenados a povoar as prisões
e os bordéis da Europa. Quem agora cruza os caminhos de transatas guaritas reconhece, já
em terras raianas, o acerto da pungente previsão. Chegado a Madrid o estendal de misérias
atinge níveis de alarme. Vieram e virão de Espanha bons amigos, e essa é das maiores vitórias
das Jornadas. Tantos anos, tanto tempo a desfigurar as raízes de uma vizinhança que diaria-
mente se afirma nas romarias e festas raianas, no pequeno comércio, nos liames familiares,
nas alegrias comuns. E uma raia teimosamente burocrática e velha a contar quem vem vai,
homens de fusil e baioneta a surdir das moitas nocturnas. Isso acabou, graças a Deus. A raia
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tem de ter traço-de-união. Mas à letra dos tratados tem de corresponder a fraterna convi-
vência, a acção cultural ampla e diversificada que cimente as bases do entendimento. Nestas
jornadas, foi dada ênfase e à questão Raia Traço-de-União que, evidenciando as assimetrias
luso-espanholas em zonas de potencialidades similares, determina a necessidade imperiosa de
restabelecer equilíbrios perdidos, mercê de um esforço de desenvolvimento incentivado sem
o que se assistirá inevitavelmente à agudização de problemas de degradação social”.
O laboratório de Monfortinho visibilizaria, também, um ator local que a partir dessa
data irá desempenhar um papel muito relevante e peculiar na cooperação entre a Beira e a
província de Cáceres, o presidente da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, Joaquim Morão.
O autarca tinha a perceção que o desenvolvimento da periferia da Beira Baixa, onde o con-
celho de Idanha se inscrevia, passaria, inevitavelmente, por uma conjugação de futuros mais
fluídos com as terras raianas espanholas. Nesse final de século, assinalado pela anunciada e
multiplicada formação de uma nova arquitetura europeia, a velha fronteira, lida por muitos
como um limite carregado de negatividades e de repulsividades estruturais, transformou-se
numa “linha-horizonte” de um idealizado território emocional de cooperação.

2.4. Começar tudo de novo: centros culturais, os novos castelos da raia

A partir de Idanha-a-Nova, começou a surgir uma comunidade transnacional imagi-


nada que pretenderá dissolver as seculares dependências dos perímetros nacionais face aos
despóticos centros de poder. Uniram-se terras e gentes que assumiram a sua identidade a
partir da uma localização geográfica de latitudes e longitudes peninsulares definidas. Com
efeito, eram comuns os problemas deste interior raiano luso-espanhol que vivia com as
cicatrizes do envelhecimento das suas populações, do êxodo rural, da emigração, do ador-
mecimento das vitalidades do ciclo da terra e dominadas por paisagens aparentemente si-
lenciosas. O autarca presidirá a todo um inovador programa de ações materiais e imateriais
que atenuará essa realidade sociocultural transformando o concelho de Idanha-a-Nova
num exemplo e numa referência incontornável, dos distintos ritmos e intensidades que
pautaram o desenvolvimento regional nas últimas décadas na Região Centro de Portugal.
A integração dos dois países ibéricos na nova arquitetura europeia possibilitou a criação
de um quadro material favorável, conducente à atenuação progressiva das dificuldades dos
quotidianos periféricos e a Idanha assumiu-se como um cenário social e técnico para as es-
tratégias e programas nacionais e internacionais de cooperação transfronteiriça, suportados
pelos fundos comunitários. Por outro lado, Idanha materializará e assumirá um sentido de
capitalidade política de um território que soube conjugar, de uma maneira equilibrada e
respeitadora, identidades, tradições e modernidade. Em primeiro lugar, numa Europa que se
169 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

queria sem fronteiras, Joaquim Morão tinha um sentido dual tirando partido das caracterís-
ticas da geografia política do concelho de Idanha-a-Nova, o terceiro maior concelho em área
de Portugal que carregava uma realidade de dupla periferia face às “capitalidades” centrais
tanto dos estados nacionais como da própria região onde se inseria: a antiga Beira Baixa.
Mourão assumia esse “determinismo” e um certo fatalismo condicionante, ao compreender
a necessidade da afirmação de uma “capitalidade” do espaço periférico que fizesse convergir
desejos, que potencializasse um sentido experimental e empírico das perspetivas de desenvol-
vimento possibilitado pelos quadros financeiros europeus, que fizesse confluir massa critica
técnica e criativa que eliminassem estereótipos negativos ou folclóricos.
Os sons que se escutavam no território deixaram de ser apenas notas dos tradicionais adu-
fes ou cantos para emergirem fonemas de palavras de reivindicação. A Idanha era, no mapa
da interioridade raiana, uma capital que comunicava, passando de um horizonte de subser-
viência a um território de parceria e de cooperação reequilibrando-se as distâncias. Outro dos
referentes fundamentais da gramática singular do poder local prendeu-se com a relação entre
a autarquia e a atávica estrutura social dominante até então que se caracterizava pela existência
de extremos socioeconómicos e de vincadas fronteiras entre uma minoria terratenente e uma
maioria deserdada do uso e da fruição da terra, dependentes de um ritmo e de uma sazonalida-
de agrária e pastoril estrutural tão bem descrita pelo historiador Albert Silbert ou por Orlando
Ribeiro, sublime geógrafo leitor da paisagem e das almas dos homens desta estremadura beiroa.
A excecionalidade do autarca Joaquim Morão caracterizou-se sempre por um pragmatismo
de grande capacidade de influência e negociação-reivindicação junto dos centros políticos cen-
trais e um alargado consenso e receção democrática positiva junto das populações. Apontemos
algumas distintas categorias temporais de intervenções como a fase inicial das infraestruturas
(saneamento básico, acessibilidades e, principalmente, o direito à fruição da água, bem precioso
que nestas terras tardiamente fora introduzido nos espaços domésticos aldeãos). A segunda fase
materializou-se através da construção de equipamentos públicos em que se criaram condições
vivenciais nas comunidades que atenuassem a evidente deserção demográfica. Em todas as fre-
guesias surgiram polidesportivos, centros de dia, parques de lazer e outros equipamentos, sendo
dada particular atenção à criação de pequenas zonas ditas industriais que garantissem a passagem
ou a complementaridade entre o sector primário para um incipiente sector secundário que, no
entanto, se traduziu em experiências de pouco impacto nas dinâmicas das economias locais.
Diferente foi o caso do sector do turismo que, nos inícios da década de 90, merecerá
particular atenção com o surgimento de novas unidades hoteleiras e o outras ofertas como o
turismo de natureza potencializado com a criação do Parque Natural do Tejo Internacional ou
o parque de campismo da Barragem da Idanha, obra do Estado Novo, construída por questões
sociais e afirmadora do regadio mas que, em finais de século xx, não vai ser um instrumento de
apoio às ansiadas mudanças da agricultura mas sim uma reserva liquida de fruição turística do
170 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

território. O turismo venatório também colocará a Idanha nos mapas de oferta nacional e in-
ternacional. Particular atenção mereceu o turismo cultural com a afirmação de duas freguesias,
únicas ao nível do seu património, na rede das Aldeias Históricas de Portugal7 iluminando-se
7
“A tentativa de intervir em espaços mais débeis e com dificuldades estruturais, decorrentes dum persistente
abandono demográfico e da desvalorização das actividades tradicionais, esteve na base da definição de políticas
de desenvolvimento visando apoiar iniciativas que contribuíssem para reverter a situação de perda em que tais
territórios se vêem, cada vez mais, envolvidos. A multiplicidade de iniciativas levadas a cabo em Portugal, desde
o início dos anos 90, apoiadas por diferentes Intervenções Operacionais e Iniciativas Comunitárias, reflecte a
evolução conceptual no desenho das estratégias de desenvolvimento territorial (regional e local), inspiradora
de novas práticas, e o facto das áreas mais deprimidas do Continente português constituírem espaços naturais,
para novas abordagens e ensaio deste tipo de intervenções” (Boura. 2004: 115-126).
um passado histórico adormecido de duas comunidades que tinham ambas sido envolvidas por
um estatuto de “capitalidade” em momentos distintos da história do território: Idanha-a-Velha
durante o período romano e Monsanto na longa Idade Media, tempo de todas as fronteiras.
Nesta nova modelação das Terras das Idanhas, o cume da ação política foi materializado
com a construção do Centro Cultural Raiano (CCR)8, assumindo-se a emergência e a afirmação
de uma idealizada “cultura raiana” como cartografia programática nas linhas de atuação futura.
O CCR adquiriu uma importância simbólica insubstituível na recomposição das imagens emi-
tidas e associadas às terras das Idanhas emitidas em direção ao centro nacional. Com efeito, e
apesar de se ter associado à arquitetura uma leitura historicista e apresentado o CCR como um
novo castelo ou nos programas de acção utilizarem léxicos de gestão militar como as palavras
estratégia, ataque ou luta, o CCR afirmou, em primeiro lugar, através das materialidades expos-
tas, a cultura como um território intangível afirmador da identidade imemorial do território,
anulando a nefasta associação a estas terras periféricas às palavras incultura e analfabetismo.
Conjugaram-se ruralidades com consumos culturais do mundo urbano, atingiram-
-se outros públicos que vão fruir essas fronteiras positivas de fusão entre a tradição e a
modernidade, escreveram-se outras letras com a introdução de novas figuras de estilo na
gramática dos textos do território e, principalmente, mudaram-se os sons. As paisagens so-
noras da tradição interpenetraram-se com textualidades eruditas centrais fixadas em letras
e imagens em órgãos de comunicação nacionais, quebrando-se o ilhamento comunicacio-
nal a que, durante décadas, esteve sujeita a cultura da Terra das Idanhas. Obra de notável
traço arquitetónico, com um excelente enquadramento e respeito pela geologia e flora
envolventes, o Centro Cultural Raiano revelava-se como um lugar-produtor catalisador de
futuros culturais transfronteiriços. A associação da palavra raia a este equipamento, preten-
deu ancorar definitivamente a designação fronteira à história. A raia era o território berço
da ação e o Centro Cultural Raiano reforçaria o seu carácter difusor e recetor de culturas
materiais e imateriais de tornando-se num locus de comunhão ibérica.
Os coordenadores dessa esperançosa fase do centro reiteravam Miguel Torga, poeta que
irá ampliar uma tendência de releitura do território e das suas especificidades culturais e emo-
171 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

cionais descodificadas e apresentadas através da literatura: “À distância e só pela informação


dos mapas, isto de haver nações reduz-se a pouco: uma cor diferente no papel”. Aliás, esta
8
O Centro Cultural Raiano foi inaugurado pelo Presidente Jorge Sampaio em 2 de fevereiro de 1997. No
mesmo dia foram igualmente inauguradas duas exposições: Agricultura nos Campos da Idanha e Oleiros de
Idanha, projetos que tiveram a coordenação científica de Joaquim Pais de Brito. Ocorreram ainda as mostras
fotográficas Mantos de Cêres (fotografias de Albano da Silva Pereira e Inês Gonçalves) e Orlando Ribeiro e
as Terras de Idanha (coordenação de Jorge Gaspar, Rui Jacinto e Teresa Siza). Estas iniciativas espelhavam a
aposta estratégica subjacente ao CCR: aprofundar os vínculos ao território sem rutura com os seus valores
mais telúricos e identitários; apostar na imagem com um duplo sentido: desencravar e dar visibilidade a pes-
soas e a lugares olvidados e sem visibilidade e, concomitantemente, recorrer a uma imagem mais moderna
para reabilitar a autoestima das populações e tornar mais apelativos os territórios mais remotos e longínquos.
atitude de permeabilização da fronteira, através da potencialização de fluxos culturais luso-
-espanhóis, encontra-se perfeitamente identificada no simbolismo do próprio edifício: “A essa
fronteira histórica (onde as marcas mais físicas dos horizontes – os castelos – acentuavam,
exigiam e recordavam as diferenças geradoras dessas paisagens depressivas e deprimidas), os
muros graníticos do Centro Cultural Raiano afirmavam-se como uma nova marca física,
marca já não barreira, mas espaço de comunicação e de criatividade ibérica para o terceiro
milénio”, apontou-se em dada ocasião. Com efeito, o CCR foi um “castelo” neorromânti-
co que materializou uma certa utopia da cooperação que petrificou, encapsulou e naciona-
lizou ciclos do calendário da ruralidade raiana em evidente contradição programática. E,
nos nossos dias, onde está a raia como um espaço de fruição, modelação quotidiano entre as
comunidades separadas pela fronteira? Onde ficou a Raia nas narrativas e nos ritmos do CCR?

Fixos esperando novos fluxos: os velhos Castelos


e as novas Estradas da Raia Central
172 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

O território é uma construção social como apontou Henry Lefevre, com o que tudo
isso implica de consenso e conflito, negociação, poder, legitimação, imposição ou aceitação
e o CCR é um palco das interrogações culturais raianas: uns muros que falem plasmando
um conceito de cultura semiótico que seguia Clifford Geertz, quando escreveu que “o
conceito de cultura que eu defendo (...) é essencialmente semiótico. Acreditando, como
Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teia de significados que ele mesmo
teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma
ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa à procura
do significado”. O CCR dava novos significados. Facto confirmada com a realização no
seu auditório de uma das principais sessões da Jornada da Interioridade, “Perspectivas
de desenvolvimento do Interior”, colóquio promovido pelo  Presidente da República
Jorge Sampaio quer recordaria (13.06.1997): “Desde o início do meu mandato como
Presidente da República, tenho procurado trazer o problema das assimetrias regionais de
desenvolvimento para o primeiro plano da discussão pública sobre as grandes questões,
em Idanha-a-Nova, tive o gosto de promover e animar uma discussão sobre “Perspectivas
de desenvolvimento do Interior”, em que, para além de técnicos, responsáveis políticos e
representantes de organismos com grande experiência nas questões do desenvolvimento
regional, participaram alguns investigadores da área das Ciências Sociais. A partir de três
intervenções introdutórias (a cargo dos Professores João Ferreira de Almeida e Rui Canário
e eu próprio), estendeu-se o debate à audiência, sem, no entanto, ter sido possível dar a
palavra a todos os que, entretanto, haviam manifestado a intenção de se pronunciar sobre
as questões levantadas”.
Lisboa pensava o todo nacional na periferia e a Idanha era o centro. Por essa época,
nas páginas do jornal Expresso, na sua coluna “Visitas ao país real”, o historiador César
Oliveira exultava, considerava a Idanha um caso exemplar, e interrogava: “Idanha-a-
Nova tem cerca de 1.100 Km2, 14.115 habitantes repartidos por 17 freguesias, 10.886
alojamentos e uma relação área/habitante de 20 Km2 para 1 habitante. A freguesia/
sede do concelho tem cerca de 2450 moradores. Dos alojamentos existentes são habi-
tualmente ocupados 5828. Numa amostragem de 1407 famílias, mais de 50 por cento
(exactamente 788) não têm crianças, sendo que, entre as famílias com crianças e que na
amostra totalizam 619, 557 têm apenas duas. Só em Monsanto verificou-se nos últimos
173 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

dez anos uma diminuição anual de 50 indivíduos.


O concelho tem Penha Garcia, Idanha-a-Velha, Monsanto, Rosmaninhal e Proença-a-
-Velha com grande interesse turístico, histórico-arqueológico e etnográfico, como em toda
a sua área. A agricultura – tradicional ocupação da população de Idanha – está agonizante,
com excepção de uma pequena zona onde se produz tabaco; conta-se, nessas terras raianas
que “o que está a dar” é a cultura do “girassídio”, isto é a obtenção de subsídios pela plan-
tação de girassol que, em muitos casos, nem é sequer colhido. Indústrias não há. Iniciativa
privada não se vê: a zona industrial, que Joaquim Morão implantou, tem apenas uma
instalação: uma queijaria, com câmara frigorífica de cura, que a própria câmara construiu.
Com uma população envelhecida, vítima de uma constante sangria demográfica, Idanha-
a-Nova tem, decerto, uma qualidade de vida bem superior à da esmagadora maioria dos
municípios do litoral”.
Entretanto tinha sido durante o mandato de Joaquim Morão que se contruiu a
ponte de Monfortinho, instrumento de permeabilização da fronteira histórica cujo pro-
jeto se arrastava pelos gabinetes do poder central e que só graças à persistência do au-
tarca viu luz verde por parte de Madrid e de Lisboa. A sua abertura provocou alguma
animação económica, principalmente no sector turístico adormecido e em completo
declínio. Cumpria-se aquilo que tinha sido referenciado num referencial estudo sobre
a abertura de novas fronteiras na região centro de 1983 de autoria dos engenheiros
Alda Reis e Mota Lopes: “A abertura da fronteira de Monfortinho-Zarza la Mayor tem
um assinalável interesse regional e também algum interesse nacional, apesar de consti-
tuir, pela identidade de funções uma alternativa à fronteira de Segura. Prevê-se mesmo
que, construída a ponte sobre o rio Erges, o percurso por Monfortinho apresente uma
procura preferencial relativamente a Segura, em parte devida à existência de melhores
vias rodoviárias e doutra parte por poder usufruir da disponível infraestrutura hoteleira
das termas de Monfortinho, cuja taxa de ocupação se cifra em 25,5% em 1974. Mas
tal não significa que a abertura desta fronteira venha a ser obstáculo ao movimento de
passagem por Segura, pois a experiência tem mostrado que a construção de uma nova
infraestrutura de opção a outra já existente gera com frequência um acréscimo de tráfe-
go, com acréscimos distribuídos pelas duas vias. Quer isto dizer que o acesso opcional
por Monfortinho será susceptível de atrair, pelo privilégio apriorístico de ser já de si um
pólo turístico e termal, um maior quantitativo de turistas estrangeiros à área Raiana e
logicamente à Região Centro, o que aparece como um motivo suficiente de apoio desta
proposta, acrescendo que as diligências entre os dois países sobre a abertura desta fron-
teira e respectiva infraestruturação, de que se salienta a construção da ponte sobre o rio
Erges, se encontram já em estado de negociação avançado e prometedor de uma solução
a curto prazo”.
174 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

2.5. Desenvolvimento local: trilhar outros caminhos

No contexto das políticas transfronteiriças, o concelho de Idanha-a-Nova afirmou-se


como um caso referencial nas duas margens da fronteira luso-espanhola. Na diversidade de
estratégias de gestão e de aplicação regional e local dos fundos comunitários, para os pode-
res da administração central regionalizada dos dois países, Comissão de Coordenação da
Região Centro e Junta da Extremadura, as Terras da Idanha, formavam um laboratório de
boas práticas de utilização e cumprimento cabal dos ideários da construção europeia num
território situado numa das periferias interiores mais deprimidas e repulsivas da Europa.
O INTERREG afirmará um novo horizonte relacional entre os poderes locais e as admi-
nistrações centrais anulando obstáculos comunicacionais, aproximando atores e vontades,
gerindo ambições, cumprindo sonhos adiados, escutando comunidades, difundindo, em
suma, um viver raiano sustentado na construção de futuros em parceria com o “outro”.
Em 1998 surgirá La Raya / A Raia associação de desenvolvimento local que unirá
poderes e anseios raianos atenuando limites administrativo-identitários comarcais em
favor de um território transfronteiriço entendido como um cenário projetivo de vivên-
cias comuns. Esta inovadora gramática da cooperação teve o seu início na serra da Gata,
território situado junto da fronteira de Penamacor cujas comunidades expressaram, ao
longo da sua história, uma profícua e intensa relação com a raia portuguesa. Constitui um
objetivo concebido pela equipa técnica da ADISGATA gestora do LEADER I na região
asseverando uma mudança geracional no quadro dos actores tradicionais da cooperação
luso-espanhola.
O associativismo comarcal espanhol ou inter-concelhio português, promovido pelo
LEADER I, cumpria o desígnio europeu iniciado em 1990. Com efeito, Bruxelas sinalizara
a raia luso-espanhola como uma região muito deprimida e excluída das suas dinâmicas eco-
nómicas e sociais, apoiando uma estratégia de investimentos tendentes à inversão e anulação
da sua situação como a fronteira mais pobre e repulsiva do espaço europeu. A cooperação
deixou de ser apenas um assunto da natureza política e da diplomacia nacional para se mate-
rializar como um eixo de mudança ao conjugar interesses comuns entre técnicos de desenvol-
vimento local e regional ibéricos. Os fundos e as equipas técnicas responsáveis pela sua gestão
e aplicação serão os grandes agentes de transformação dos quotidianos das comunidades.
À presença da secular fronteira como linha divisória sobrepôs-se um idealizado
território de cooperação. Insistia-se na ideia da fronteira política ser apenas imaginária,
na medida que, em ambos os lados, as condições e as características socioeconómicas
eram análogas: população envelhecida, isolamento, abandono rural. Identificavam-se
175 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

na paisagem transfronteiriça potencialidades intrínsecas ainda não activadas como a sua


riqueza natural ou o seu património histórico de grande potencial turístico, coordena-
das que se avaliavam como determinantes para a inversão demográfica e económica das
terras, em paralelo a um investimento em infraestruturas e acessibilidades. Ao mesmo
tempo, superavam-se sentimentos identitários localistas permeabilizando-se todas as
fronteiras políticas: as comarcais e a nacional. Os recursos económicos do território e as
suas realidades culturais foram analisados e inventariados. Com a preservação do patri-
mónio e da identidade cultural, da ecologia e da defesa do ambiente, os indicadores de
desenvolvimento local deixaram de ser apenas estatísticos para se enraizarem a palavras
e a metáforas descodificadoras das paisagens. A palavra desenvolvimento cobriu-se de
significados plurais.
Em 1993 assinou-se o primeiro protocolo de cooperação transnacional entre a
ADRACES (Associação para o Desenvolvimento da Raia Centro-Sul), a ADISGATA
(Asociación para el Desarrollo Integral de Sierra de Gata) e o Patronato Pedro de Ibarra
sediado em Alcântara. O documento foi assinado em Vila Velha de Ródão e começava-
-se a idealizar a constituição de uma “macro comarca” internacional. As três associações
escolheram como logotipo uma ponte, vinculando todo o seu imaginário aos objetivos
estratégicos do desenvolvimento local. O logotipo identificativo da La Raya / A Raia
firmou-se na construção da ponte transnacional de Monfortinho por fim inaugurada,
em Agosto de 1993, depois de vinte e três anos de espera, quebrando o isolamento da
região. O símbolo da associação evocava a “Primer puente sin fronteras, que puede ser
un símbolo del caminho de cooperación com el país hermano, dejando atrás los tempos
vividos de espaldas unos a otros” como se escreveu na edição de 29 de Setembro do
jornal Hoy de Badajoz.
O mapa de trabalho da La Raya/ A Raia seria confirmado em 1995 tendo como
territórios fundadores a comarca do Vale de Alagón – ADESVAL (Asociación para
el Desarrollo del Valle del Alagón), ADESCOVA (Asociación para el Desarrollo de
la Comarca de Valencia de Alcántara) e de Alcântara – ADECA (Asociación para
el Desarrollo de la Comarca de Alcántara). A associação transfronteiriça viria a ser,
por fim, legalizada em 1998, numa cerimónia ocorrida na vetusta vila de Alcântara.
Em 1999, a associação ADICHURDES (Asociación para el Desarrollo Integral de
la Comarca de Las Hurdes), gestora do desenvolvimento de uma das paisagens mais
sofridas das periferias interiores de Espanha, juntou-se à La Raya/ A Raia. Entre 2002
e 2008 aumentava, mais uma vez, a sua zona de influência em latitude e longitu-
de com a adesão ao projeto associativo transfronteiriço da TAGUS (Asociación para
el Desarrollo Integral del Tajo-Salor-Almonte), da ADERSUR (Asociación para el
Desarrollo de Jerez-Sierra Suroeste) e da ADERCO (Asociación para el Desarrollo de
176 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

la Comarca de Olivenza).
Para muitos técnicos que faziam parte da associação La Raya / A Raia difundia-se
a utopia de um novo conceito de “nação raiana” quase na linha de Benedict Anderson;
a raia era entendida como “uma comunidade política imaginada – e que é imagina-
da ao mesmo tempo como intrinsecamente limitada e soberana”, “limitada” pelas suas
fronteiras com outras nações, imaginada como “soberana” e imaginada como uma
“comunidade”, de sonhos fraternos” (Anderson 2005: 27). Mas como indicou Marshall
Sahlins as nações, como outras formas de “comunidade”, não são apenas construções
simbólicas assentes num sentimento partilhado de pertença, as comunidades obtêm as
suas identidades a partir da alteridade confirmada na fronteira que se desenha entre
“o nós” e “os outros” (Sahlins 1996: 301). La Raya / A Raia, no contexto das políticas
de integração europeia, baseava-se, essencialmente, na procura de uma solidariedade
comum dos cidadãos do território. As experiências transfronteiriças e transnacionais
eram “laboratórios” sociais para a nova identidade pós-nacional europeia. As fronteiras
neste processo não eram geográficas, mas psicológicas e culturais, isto é, fronteiras de
identidade. As visões etnocêntricas atenuaram-se e abriram-se a uma visão europeia,
centrada num mundo que integrava e incluía a própria identidade nacional. A La Raya/
/A Raia confirmava a diversidade raiana numa Europa dita “sem fronteiras”.
Na cronologia da história da cooperação transfronteiriça contemporânea da Raia
Central ibérica destaca-se a data 3 de Junho de 1994. Em Alcântara, vila de pontes e
de fronteiras ancestrais, assinou-se um protocolo de colaboração entre as duas adminis-
trações nacionais, a Comissão de Coordenação da Região Centro (CCRC) e a Junta da
Extremadura. O texto do protocolo, assinado simbolicamente pelos dois responsáveis
políticos na Ponte de Alcântara, previa um amplo leque de ações a desenvolver entre as
duas administrações através da elaboração de projetos comuns que contemplariam os
transportes e comunicações, o ambiente, o turismo, o património, o comércio, a indús-
tria, a agricultura, o aproveitamento florestal, a educação e a formação profissional, a
cultura e desportos, entre outros.
O presidente da Comissão de Coordenação da Região Centro, Viegas Abreu, decla-
rava ao Jornal do Fundão que o processo de aproximação e de esbatimento da fronteira
era “um desafio novo de que as duas regiões têm de sair vencedoras, contribuindo para
o funcionamento eficaz do mercado interno, incentivando a livre circulação de pes-
soas, de mercadorias e de recursos financeiros”, considerando ainda tratar-se “de uma
tarefa da nossa geração que exige aprofundamentos e aperfeiçoamentos a realizar pelas
gerações seguintes, com base num melhor conhecimento recíproco sobre as realidades
e potencialidades das duas regiões, no respeito pela identidade de cada uma delas na
valorização das nossas raízes comuns e na afirmação dos nossos interesses convergentes”.
177 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

O presidente da CCRC assumia que a raia era vítima de “atrasos estruturais resultantes
da posição periférica (…) território que alguns autores consideram como fronteira de
subdesenvolvimento”. Um subdesenvolvimento periférico assumido pelo presidente da
Região da Extremadura e que era urgente diluir, prevendo: “Os problemas que nos afec-
tam falam de uma grave situação. As nossas comarcas – desfavorecidas, agrárias e perifé-
ricas – possuem recursos naturais e culturais para continuar a construir o futuro. (…) Os
vinte e nove municípios espanhóis da Serra de Gata e de Alcântara confiam na continui-
dade das iniciativas e programas autonómicos e europeus que, como o Leader II, contri-
buam para o desenvolvimento destas comarcas rurais da Comunidade da Extremadura”.
“A cooperação há-de impor-se à insularidade”, sublinhava Juan Carlos Rodríguez Ibarra.
E para o presidente da Extremadura “No desenvolvimento, não cabe a indiferença do
que permanece quieto na margem, sem atravessar o rio e sem navegar por suas águas”.
Apesar de se considerar imprescindível, o papel das autarquias na concretização dos
projetos e os seus responsáveis não participariam nas comissões técnicas criadas pelo
protocolo de cooperação. Apenas eram “ouvidos” e estavam representados pelos téc-
nicos municipais ou enquadrados nos quadros das associações de desenvolvimento. A
primeira reunião técnica teve lugar logo no próprio dia em que o protocolo foi assinado.
Nas Termas de Monfortinho, localidade ligada, por fim, pela recente ponte, à raia espa-
nhola, técnicos portugueses e espanhóis começaram a definir as áreas e os objetivos de
intervenção após a tradicional comensalidade luso-espanhola oficial.
Ao mesmo tempo que a La Raya / A Raia afirmava o seu projeto, as práticas de
cooperação transfronteiriça eram, do lado português, partilhadas por outras organizações
que tinham por base de trabalho perspetivas mais localistas. Tal foi o caso da Egitânia
(Associação de Desenvolvimento das Terras da Idanha) cujo raio se limitava ao concelho
de Idanha-a-Nova ou a associação de desenvolvimento Amato Lusitano que vinculará o ide-
ário transfronteiriço à cidade de Castelo Branco. A Amato Lusitano intensificará o interesse
dos públicos urbanos pela redescoberta da raia e esteve na base da organização do “Raia
sem fronteiras – RSF – Festival de Cultura” que aportou até à capital regional os fluxos
culturais emitidos pelo então muito dinâmico Gabinete de Iniciativas Transfronteiriças da
Junta da Extremadura, numa parceira ímpar de geografias, expressões e sentires.
Mas, se a La Raya / A Raia aproximou territórios rurais, a fundação em fevereiro
de 1997 do Triângulo Urbano Ibérico Raiano, que recebeu o acrónimo de TRIURBIR,
ancorou às dinâmicas da cooperação que percorriam a Beira interior sul, as aspirações de
três das principais cidades da Raia: Cáceres, Placência e Castelo Branco. A TRIURBIUR
desenvolverá estratégias no âmbito social, cultural, económico, política de juventude e
no turismo afirmadas em projetos comuns a estes centros urbanos e traduzindo vontades
politico-empresariais. Dez anos mais tarde, a cidade de Portalegre entraria para a orga-
178 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

nização, ligando ao projeto a região do norte alentejano. Com a TRIURBIR construi-


-se também um mercado de permutas que tinha a sua expressão máxima na celebração
de feiras, como o caso da FERCAB (Feira das Atividades Económicas da Região de
Castelo Branco), promovida pelo Nercab (Associação Empresarial da Região de Castelo
Branco), da feira MULTICACERES e da IFENOR (Feria de Muestras del Norte de
Extremadura) realizada em Plasência. Esta geometria de cooperação urbana adquiria
outra escala e área de influência, a partir de um território central situado a meio cami-
nho entre Madrid e Lisboa, realidade locativa, então mil vezes repetida, em todos os
discursos. Mas no meio a virtude nem sempre aflorou.
2.6. O rural e a cooperação reinventados: o exemplo das feiras raianas

A realização, em 1994, na vila de Idanha a Nova, um ano após a criação do merca-


do único europeu e um ano antes do acordo Schengen, da “Feira Raiana” fortaleceria a
estratégia e o raio de influência política do município face aos centros nacionais. A Feira
está considerada um dos exemplos de sucesso da história contemporânea da cooperação
entre a Raia da Beira Baixa e a Província de Cáceres. A sua concretização anual, apesar do
sentido pendular não ter sido uma constante desde a fundação, reforça a excecionalidade
desta convergência económica e cultural no atual panorama de eventos transfronteiriços.
A Feira é um palco privilegiado que continua a dar voz às reivindicações raianas man-
tendo uma determinada feição da identidade do território conjugando tradição com ino-
vação. Em 1994, a primeira edição assumiu o “Desenvolvimento Rural” e a “Cooperação
Transfronteiriça” como principais eixos temáticos associando, à despovoada paisagem
rural das terras da Idanha, uma nova imagem mental da secular fronteira promovendo a
sua permeabilização. O certame determinaria a estratégia de renovação do território pro-
vocando o surgimento duma centralidade periférica que flanqueou a capitalidade urbana
regional albicastrense, então demasiada endogâmica nas suas práticas e alianças. O Jornal
do Fundão de 20 de Maio exaltava: “Espanha tão perto! Idanha, capital da cooperação.
A primeira edição da Feira Raiana foi um êxito, apesar do mau tempo. Mais de 20 mil
pessoas visitaram o certame. O concelho de Idanha-a-Nova estreita a cooperação com
Espanha, ganha mais um cartaz turístico e consolida um novo polo de apoio às atividades
económicas da região, incentivadas e divulgadas por um certame com organização mode-
lar e participação alargada. Um “marco histórico para a Idanha, diz Joaquim Morão. E um
investimento para o futuro: o recinto da feira vai tornar-se um espaço polivalente. Uma
excelente infraestrutura económica e de lazer, mesmo no centro da vila. E nem faltou, no
domingo, Jorge Sampaio a mostrar que o nome de Idanha chega longe!”.
A Feira Raiana acrescentou um novo tempo na memória coletiva das feiras e dos
mercados tradicionais da região muitas vezes unidos às romarias. Ainda hoje, no recinto
179 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

de Nossa Senhora do Almurtão, no coração das Campanhas das Idanhas, o rogo ritmado
ao som dos adufes “Não queirais ser castelhana” convive com os altifalantes das vendas ou
no santuário fronteiriço de Nossa Senhora da Azenha, entre Monsanto e Penha Garcia,
devoção muito participada pelos raianos espanhóis de Valverde del Fresno e de Cilleros,
a feira confirma o tempo de festa e de visita aos locais sagrados da raia. A Feira Raiana
visibilizou e emblematiza os produtos endógenos, revitalizado as paisagens económicas
locais, enquadrando-as noutras escalas e apoiando um ambicionado “mercado comum
transfronteiriço” identificado pela complementaridade e circulação de produtos como ma-
teriais de construção, alfaias, gaz, gasolina, bens alimentares, eletrodomésticos, turismo,
restauração e ócio de proximidade, entre outros. Esta realidade, extinguirá em definitivo
a atávica “economia subterrânea” alicerçada em redes e fluxos centrados no contrabando.
A Feira Raiana exprimia um território que incluía todas as extremas da ruralidade e
apropriava-se da palavra “feira”, nessa época muito ligada a dinâmicas urbanas centrais. O
cartaz constituiu um meio fundamental e determinante para a divulgação da iniciativa e
do inovador rumo político do porvir da cooperação transfronteiriça das Terras das Idanhas.
O suporte levaria a novidade do acontecimento junto dos centros do poder chegando a
todos os sítios de sociabilidade quotidiana das aldeias e vilas dos territórios vizinhos. Não
houve café ou gasolineira da Raia onde não fosse afixado. O cartaz instituirá um parâme-
tro iconográfico, formal e cromático que, sem grandes alterações, se repetirá nas edições
posteriores organizadas em Idanha-a-Nova.

Feira Raiana: cartazes de algumas edições


180 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território
A composição apresenta um conjunto de imagens predeterminadas. A vetusta torre
sineira da vila e alguns produtos emblemáticos individualizavam as singularidades da
agricultura concelhia, revelando uma iconografia associada a um imaginário estereoti-
pado e revivalista de recorte folclorizado. O pastor, a ovelha, os queijos, o pão, o adufe
manifestavm a imagética da ruralidade, bases da designação da feira “os produtos locais”
9
. No cartaz, nada remete para a Raia ou para qualquer expressão de separação ou de
181 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

aproximação entre os dois países. No último plano, delineou-se um sol quiçá assinalando
9
Um quarto de século volvido desde a primeira edição da Feira Raiana a imagem utilizada no cartaz,
apesar de nuances, mantém um padrão similar reproduzindo os sinais que de imediato se associam ao
território, onde se incluem, entre outros, o pastor e a pastorícia, o celho, a paisagem de largos horizon-
tes, a casa, o campanário da igreja. Reagindo aos sinais dos tempos, o conteúdo da respetiva mensagem
regista mudanças mais significativas: o lema inicial “desenvolvimento rural e cooperação transfrontei-
riça” passou a ter conotações com patrimónios, produtos da terra, etc.. Este apontamento lembra-nos
campanhas anteriores, mais marcadamente ideológicas, cuja iconografia se colou a certos lugares do
concelho: o Concurso da Aldeia mais Portuguesa de Portugal (1938), que contemplou Monsanto com
o seu galo de prata, ou a promoção turística das Termas de Monfortinho. Além da campanha de desen-
volvimento do turismo interior promovida pelas Aldeias Históricas de Portugal, envolvendo as aldeias
de Monsanto e Idanha-a-Velha.
o horizonte fronteiriço das terras das Idanhas: a raia de Espanha, a Este, onde todas as
manhãs irrompe a luz do dia. Este pastoralismo icónico poderá ser também relacionado
com a estratigrafia mnemónica das ancestrais Campanhas da Idanha e as invernadas dos
pastores da Serra da Estrela perduravam nos pastos verdejantes desenhados no cartaz, base
de um produto “marca” da imagem da nova ruralidade local: o queijo. Aliás, não terá sido
um acaso que a inauguração da cooperativa de queijos de Idanha-a-Nova coincidiu e foi
enquadrada no programa da primeira Feira.
A confirmação transfronteiriça do projeto ferial viria a ser uma realidade, em
Setembro de 1996, com a realização da III ª Feira Raiana em Cória. No cartaz, dois
monumentos da vetusta cidade da raia espanhola, a catedral e a ponte romana, que une
as margens do rio Alagão, enquadram em primeiro plano, um casal vestido com os trajes
típicos da comarca, onde sobressai o colorido lenço da figura feminina. Uma árvore sa-
lienta-se de campos parcelados pintados de distintas cromias. No centro da composição
ressalta um mapa do espaço gerido pela associação La Raya / A Raia. Pela segunda vez (a
primeira havia sido no cartaz da II edição em Idanha-a-Nova), e num suporte destinado
a um público alargado, expressava-se a cartografia da utopia político-territorial raiana
anulando-se qualquer representação da antiga linha da fronteira separadora. No cartaz
sobressai o símbolo da associação – a ponte – que com todos os seus significados uniria
as margens que a história dividira.
Em entrevista, o alcalde de Cória, atestava esses novos ventos de fraternidade ibérica
que, através da concretização da Feira Raiana, sopravam na velha fronteira, e afirmava: “La
cooperación transfronteriza es un concepto que no debe tomarse como una utopía sino
como una forma de apostar por el desarrollo del norte de la región, una forma de colabo-
ración empresarial y también ciudadana, porque los vecinos de estas cinco comarcas deben
asumir como suya esa idea que surgió en la mente de los políticos y que no debe quedarse
solamente en los cuatro días de la feria, sino en el trabajo diario y el devenir de cada ciudad
y cada Pueblo”. No mesmo suporte, uma das várias revistas, nem sempre bilingues, nessa
época surgidas em âmbitos académicos, empresariais ou turísticos, que confirmavam o
182 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

modismo da cooperação transfronteiriça, Joaquim Morão, relembrava outras fontes ge-


néticas da Feira: “Hace muchos años la Cámara Municipal hizo varias reuniones para la
ratificación de la desaparición de las fronteras, que llamamos el acto de erradicación de las
fronteras entre los ayuntamientos de ambos lados, y se celebra cada año en uno de los dos
países. La Cámara Municipal sintió también la necesidad de que ese intercambio fuese más
amplio, interviniendo nuestros vecinos españoles. Este intercambio, continuó, se pensó
que estuviese basado en una realidad más práctica, pensamos en una feria comercial a la
que denominó Feria Raiana, para que en esta idea participasen ambos lados de la frontera
y donde estuviese representado el mundo rural”.
O autarca referia-se às “ritualidades” associadas às memorações que cumpriam o acor-
dado entre Portugal e Espanha no Tratado de Limites de 1864. Segundo ao artigo 25 do
Tratado, todos os anos de modo alternado, anos ímpares do lado espanhol e pares do lado
português, confirmar-se-iam os confins que administrativamente dividem os dois países
peninsulares. A cerimónia de retificação da fronteira constituiu, durante décadas, um dos
raros momentos de permeabilização da linha separatória levada a cabo pelos dois poderes
do território raiano. As populações vincularam-se a essas decisões dos centros políticos e
a fronteira nacional delimitou também as suas fronteiras dos seus quotidianos vivenciais.
A confirmação da separação, na raia seca materializou-se através da colocação de marcos
pétreos que ostentam os monogramas nacionais “P” a ocidente e “E” a oriente. Essas
revisitações periódicas são momentos de convivência e de efusiva confraternização entre
as comitivas dos municípios que administram essas zonas fronteiriças, constituídas pelos
responsáveis políticos e das forças de segurança da região. Portanto, a confirmação dos
marcos junta poderes vigilantes numa jornada que evocou, sempre, a confraternização, a
amizade e o entendimento recíproco. No concelho de Idanha-a-Nova a linha fronteiriça é
delimitada pelo rio Erges e faz fronteira com as localidades de Cilleros, Alcântara, Zarza
la Mayor, Carbajo, Membrío. Muitas vezes o presidente da Câmara do concelho portu-
guês fazia-se acompanhar pelos presidentes de Juntas de Freguesia de aldeias fronteiriças
como, por exemplo, Penha Garcia ou Salvaterra do Extremo.
Em outubro de 1982, o jornal de Idanha-a-Nova “O Raiano”, relatava o Encontro de
Limites que, nesse ano, tinha levado até Monfortinho os alcaldes e outras autoridades das po-
voações espanholas vizinhas. Na reportagem, revelam-se algumas das características formais
dos vários momentos que compunham a ritualidade do cumprimento do Tratado como a
confirmação das obras feitas pelo “outro” – evocação do progresso periférico –, o almoço de
fraternidade ou o carácter reivindicativo dos discursos sustentados em metáforas e evocações
da história, repetidas de ano para ano: “As Entidades Oficiais, aproveitaram este intervalo,
para observarem exteriormente a nova Praça, a inaugurar muito brevemente, assim como os
arruamentos adjacentes.(…) Seguiu-se o Alcaide de Zarza la Mayor que foi mais além dos
183 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

formais cumprimentos e realce de boa amizade que une os nossos países, pediu para que a
Aduana estivesse aberta todo o dia, a construção da ponte sobre o Erges em Monfortinho e
que fosse eliminada a fronteira entre Portugal e Espanha, o que favorecia extraordinariamente
o comércio e turismo, nesta zona. Sobre esta última pretensão, de seguida reproduzo parte do
seu discurso que considerei muito interessante: “Portugal, pelas suas características físicas vem
a ser uma continuação de Espanha, como provam seus rios e cordilheiras entre estas nações
“hermanas” não deviam existir fronteiras, como aconteceu em tempos passados, durante o
reinado de Filipe II que foi reconhecido soberano de Portugal nas Cortes de Tomar em 1581,
formou a unidade peninsular durante 70 anos e também porque ambas as nações tiveram
os mesmos destinos, tradições marinheiras que descobriram novos mundos ao mundo. (…)
Prometeu interessar-se, com o melhor do seu esforço na concretização da construção da
ponte sobre o Erges e todas as pontes que fossem necessárias para melhor unir as duas nações
vizinhas. Após as suas palavras ergueu a sua taça num brinde por Portugal e Espanha”.
A Feira Raiana se, por um lado veio afirmar uma cartografia de cooperação que anulou a
linha de fronteira, expressando vontades e desígnios das distintas administrações técnico-po-
líticas responsáveis pela gestão das comarcas espanholas e do concelho de Idanha-a-Nova, por
outro afirmou uma área de atuação periférica relativamente aos principais objetivos estratégi-
cos do Gabinete de Iniciativas Transfronteiriças, sediado em Mérida. A V Edição realizou-se,
em 1998, na vila de Moraleja e contou com a presença do presidente da Extremadura Juan
Carlos Rodrigues Ibarra. O transfronteiriço era o modismo prevalecente nas comunidades,
suportado na descoberta do “outro” e no esgotamento das áreas de cooperação. Começam-
se a definir dois eixos de coadjuvação de densidade económica muito diferenciada entre as
administrações centrais-regionais, responsáveis pela definição dos ritmos e dos investimentos
e utilização dos fundos comunitários: um entre a Província de Cáceres e a Região Centro de
Portugal e o outro entre Mérida-Badajoz e a região do Alentejo.
A veemência da “redescoberta do vizinho”, o investimento de fundos que promoves-
sem os contactos económicos e culturais entre as duas regiões periféricas traduziu-se, por
exemplo, na realização de várias feiras, mais urbanas é certo, mas onde a enunciada coo-
peração transfronteiriça constituía sempre o grande objetivo a ser cumprido. Entretanto,
com a aproximação temporal da Expo 98 de Lisboa, o turismo começa a ser introduzido
como um dos temas centrais do conjunto ferial raiano. A ponte era agora não para o vizi-
nho próximo, mas até Lisboa em direção a essa grande reunião mundial da união de todas
as geografias do Mundo e onde a raia assumia o seu papel como um território ponte entre
o interior peninsular e o mar. Esta antiga relação entre a raia e pontos políticos centrais,
nomeadamente capitais, fundamentou o que podemos classificar como o “síndrome da
estrada ausente” ou da “ponte desejada”, sentimentos que continuaram a fazer parte das
reivindicações aos poderes centrais na tentativa de obter uma aproximação da periferia ao
184 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

admirado centro. A Raia não foi palco de um complexo de édipo territorial, o filho perifé-
rico queria voltar a ser dominado pelo pai. A ponte/estrada, simultaneamente metáfora e
materialidade sonhadas, será imperante em todos os discursos.
A ponte do emblema fundacional da associação La Raya / A Raia investiu-se de dife-
rentes significantes aportando a outras geografias. O simbolismo da ponte, como aquilo
que permite passar de uma margem para a outra, passagem da terra para o céu, do estado
humano para os estados supra-humanos, do mundo sensível para o mundo suprassensível
como se define em qualquer dicionário de símbolos transformou-se num objeto de esco-
lha. Como afirmam, no seu Dicionários dos símbolos, Jean Chevalier e Alain Gheerbrant
“A ponte coloca o homem numa via estreita, onde inexoravelmente encontra a obrigação
de escolher. E a sua escolha condena-o ou salva-o”, tal foi o caso da La Raya / A Raia.
A VI edição da Feira, em 1999, decorreu em Alcântara e a VIII, em 2001, em Valência
de Alcântara, vila do sul junto à raia alentejana. O cartaz dessa edição continuou a tendência
comunicacional original ao apresentar elementos estereotipados da cultura material e folclórica
local representada por um tamborileiro, e elementos do património construído. A represen-
tação de uma anta aludia ao extraordinário património arqueológico megalítico pré-histórico
da comarca e as telhas evocaram a tradição do ancestral fabrico de olaria tradicional nesta
comunidade. Depois de duas edições em Idanha-a-Nova em 2000 e 2002, a itinerância da
Feira Raiana prosseguiu em 2003 na comarca de Las Hurdes, localização mais afastada da
linha de fronteira. Em 2003, a X edição teve a particularidade de decorrer em diversas aldeias
da Mancomunidad de las Hurdes. Com o tema “A raia/ la raya caminhos de culturas” foi
uma organização da ADICHURDES e teve como principal objetivo “romper com el “mito”
de Las Hurdes de Buñuel y mostrar la realidade de la comarca”. As atividades do certame
decorreram de uma maneira integrada em várias localidades numa pioneira atitude de des-
centralização das temáticas do programa ferial. Assim, durante esses dias, a Feira Raiana foi
eixo de união de várias aldeias como Ladrillar, Nuñomoral, Pinofranqueado, Caminomorisco,
Casares de Las Hurdes e Casar de Palomero. O cartaz, com um design inovador, não se-
guiu a tendência folclorizante apresentando como símbolos expressões gráficas datadas
da pré-história localizadas no território de las Hurdes, prova da sua ancestralidade cultural.
Em 2004, a Feira regressa a Idanha-a-Nova para, em 2005, ser acolhida em
Montehermoso, municipio do Valle del Alagón, pequeno centro agrícola que rondava
os 5.300 habitantes, “con 2.272 hectáreas de cultivo de regadío, así como explotaciones
ganaderas. También cuenta con numerosas empresas del sector de la construcción y un
polígono para 80 empresas”, como se lia num folheto publicitário. A Feira Raiana ex-
punha outras realidades do mundo rural raiano expressando a pluralidade de paisagens
que contrariavam a ideia preconcebida da ruralidade como horizontes de longa duração
estagnados. A partir de 2008, a associação La Raya / A Raia transformaria os seus objeti-
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vos primordiais apostando numa ação mais funcionalista. A própria feira não se realizou
em 2007 e em 2008 e discutia-se o seu modelo de circulação pelo espaço raiano comum.
Propôs-se mesmo uma alteração da denominação da feira que assumiria a designação de
“jornadas de cooperación internacional o encuentros hispanolusos” porque “aunque la
filosofía se mantiene, la feria necesitaba cambios y nuevas propuestas”. Mas a feira deixou
de se efetivar em território espanhol.
A Feira vai constituir uma nova geografia e o mapa inicial da associação La Raya / A Raia
diluiu-se assim como os temas também foram variando com a introdução de novos motivos.
A edição de 2006 teve como tema central o “Património”. No cartaz desenha-se a típica casa
de adobe do Ladoeiro e o sol é vermelho. No programa, a palavra “festival” começou a fazer
parte do jargão ferial, no caso: “Festival do Borrego” e “Festival da Melancia”.
A XIV edição, em 2009, decorreu em Idanha-a-Nova e foi dedicada ao tema “Turismo
de Natureza”. A Feira Raiana é projetada como “o evento maior na região e uma referência
histórica no contexto das feiras de atividades económicas e da cooperação transfronteiriça”.
A iniciativa congregava, como se noticiou, “um conjunto de eventos temáticos que lhe tra-
zem uma dimensão verdadeiramente global: a VIII Conferência Europeia de Geoparques,
já considerada a mais participada de sempre com 100 apresentações de todo o Mundo, a
II Feira Internacional de Geoparques e o IFIF – Festival de Cinema de Documentário e
Internet, iniciativas com reflexo à escala mundial, que se associam a este momento particu-
larmente importante na nossa região, para debater o papel e a importância do património
natural e histórico-cultural, onde Idanha-a-Nova, na medida em que integra o Geopark
Naturtejo da Meseta Meridional, assume especial destaque”. O cartaz da edição acrescen-
tou à linha tradicional de motivos utilizados desde sempre, uma figura antropomórfica,
representação hipotética de um turista da natureza utilizador dos circuitos pedestres então
definidos no território raiano. Contempla o voo dos abutres do Tejo Internacional, rio que
também faz parte da composição afirmando uma idealizada cor azul. Mas, a informação
é dominada pelo “eventismo” produzido ao redor do património geológico do concelho
que se firmará nessa altura como um dos principais valores distintivos da sua identidade.
Em 2012, produto de uma persistente operação de diplomacia de proximidade entre
o presidente da Câmara de Idanha-a-Nova e o alcalde de Moraleja, a Feira Raiana voltou
a efetuar-se em Espanha. Cumpria-se a XVI edição. Contudo, o mapa da utopia identitá-
ria que havia delimitado os ritmos da cooperação no território operativo e simbólico da
associação La Raya / A Raia, organização então desvanecida nos seus sonhos e vontades
fundacionais, tinha-se diluído. Os tempos da cooperação eram outros e, com a diminuição
da capacidde económica europeia destinada à cooperação transfronteireiça, muitos dos
antigos dinâmicos actores funcionalizaram ou migraram para outros territórios e adminis-
trações. Moraleja arrogará, de novo, o quebrar a linha da fronteira entre a Extremadura
186 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

e a Beira Baixa como uma razão justificante da organização ferial. A próspera vila raiana
centralizará e municipalizará a Feira unindo-se a outras redes e poderes. O cartaz expressa
essas alterações, o design atualiza-se evitando referencias identitárias mais tradicionais,
plasmando uma linguagem mais comtemporânea e menos figurativa.
O campo do cartaz é ocupando por uma fotografia de especiarias, como o pimentão
em pó, de vivas cromias. Na programação, a emergência das “novas cozinhas” associadas aos
clássicos “produtos locais” são motivos inovadores mas que encobrem a cozinha tradicional
das localidades em favor do chef mediático. Um jornal de Cáceres aguçava o apetite anun-
ciando que a Feira Raiana, em Moraleja, queria “dar a conocer la riqueza agroalimentaria de
Cáceres y de los vecinos de La Raya, como se conoce la frontera con Portugal, las delicatessen
de la provincia que se pondrán sobre la mesa”. Contudo, as ritualidades de comensalidade
encontravam-se, desde sempre, ligadas aos encontros fronteiriços tradicionais. Por exemplo,
em muitas terras da raia luso-espanhola, o cerimonial, codificado e que continua ativo
em muitas povoações raianas, da comprovação da linha de fronteira advinda do Tratado de
Limites oitocentista, termina com um fraternal almoço de comunhão.
Retomando-se o acordo de alternância, propósito que tinha ficado definido desde a edição
de 1996 entre todos os elementos da associação La Raya / A Raia e respetivos poderes políticos,
Moraleja marca e exprime o território do “outro” repetindo, afinal, aquilo que a autarquia liderada
por Joaquim Morão tinha concretizado anos antes em Idanha-a-Nova: polarizar e capitalizar a
iniciativa garantindo, através da construção de toda uma infraestrutura fixa, a sua continuida-
de e afirmação nos contextos políticos comarcais e regionais. Com efeito, a Feira Raiana revela
hoje uma cartografia de cooperação pendular entre duas “centralidades” municipais, colocando
em contraste realidades económicas e sociais da raia ibérica contemporânea muito diferencia-
das. Moraleja registava, em 2019, 6.750 habitantes, 68 dos quais portugueses. Em 2013, re-
sidiam na vila de Idanha-Nova e na anexada antiga freguesia de Alcafozes, 2.352 habitantes.
Para os raianos espanhóis Moraleja é a porta de entrada para a serra de Gata, oro-
grafia fronteiriça ibérica de saliente espessura cultural, onde opera uma oferta turística
enraizada na identidade das comunidades e no ambiente, ao contrário da realidade turís-
tica de Monfortinho, de recorte empresarial convencional, associada ao termalismo e ao
turismo cinegético. Na avenida de Moraleja, uma placa indica o caminho para Portugal
que dista 34 quilómetros. Passados alguns quilómetros, a estrada bifurca-se em direção à
antiga fronteira de Segura, passando por Zarza la Mayor. A outra estrada percorre cam-
pos distantes e vazios de gentes até ao encontro do horizonte das portuguesas termas de
Monfortinho, vencendo uma fronteira que continua pouco ativa. No contexto regional
da Extremadura e da raia portuguesa, a Feira reforça a imagem identitária de Moraleja
atestando a sua expansão comercial e industrial assumindo um cenário privilegiado para a
perceção dos ritmos que formam o viver quotidiano raiano.
187 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Um jornalista espanhol registou: “La Feria Rayana se ha consolidado ya como seña de


identidad de la comarca de Sierra de Gata y del municipio portugués donde se desarrolla
cada dos años, Idanha a Nova. (…) Cada año acuden a la Feria Rayana cerca de 100.000
personas. En Moraleja la feria tiene lugar en el Parque Fluvial Feliciano Vegas. Es una feria
multisectorial que es un escaparate de productos y servicios de la zona. También cuenta
con un estand conjunto entre Idanha a Nova y Moraleja que es todo un ejemplo de puesta
en valor del patrimonio histórico de la zona de influencia”.
Em 2014, a XVIII Feira Raiana regressou a Moraleja. O certame cumpria 18 anos e
começava a promover-se em cenários centrais como a FITUR – Feira Internacional de
Turismo de Madrid enquadrada nos stands da Naturtejo, entidade gestora do Geopark
Naturtejo da Meseta Meridional e no stand da Região da Extremadura. Na apresentação
reviveram-se os pressupostos que tinham levado à criação da Feira de “características úni-
cas no intuito muito nobre de unir os povos de ambos os lados da fronteira”. Um espaço
de “oportunidade para os nossos empresários e para a nossa economia, mas também para
a nossa cultura e para o nosso social. Os nossos povos, de um lado e do outro da fronteira,
que durante muitos anos viveram de costas voltadas, porque a fronteira assim o exigia,
hoje têm de encontrar oportunidades para ajudar o desenvolvimento sustentado dos seus
territórios” considerava o presidente de Idanha, relembrando o alcaide de Moraleja que
aquela localidade “é hoje a sede fixa das edições em Espanha da Feira Raiana”.
A Feira merecerá uma atenção contínua por parte das administrações políticas regionais
e nacionais. Por exemplo, o presidente da Junta da Extremadura, Guilhermo Fernández
Vara, e o ministro Eduardo Cabrita, à data ministro da Presidência do governo português,
marcaram presença, em Moraleja, na XX edição. Num certame que se classifica a si mesmo
de “multissectorial”, a tónica discursiva andou à volta da importância da Raia se assumir
como um território das últimas ruralidades e como um campo de aplicação da economia
verde. “Tenemos que reinventarnos. El mundo rural se tiene que reinventar para ser una
parte importante del futuro de España, Portugal y Europa”, destacava Fernández Vara.
O evento ferial é apropriado e fixado nas suas cartografias em projetos-programas liderados
e promovidos nos quadros da administração regional com a centralidade local de Moraleja.
Os tempos da Feira Raiana participada e construída a partir das associações e de coletivos-
-base das comunidades comarcais raianas unidas por vontades e sonhos comuns terminaram.
Em 2019, Idanha-a-Nova organizou a XXIII edição e as velhas questões das acessi-
bilidades ao território e o seu persistente despovoamento foram as principais bandeiras
reivindicativas. Os títulos da imprensa raiana luso-espanhola noticiaram: “La conexión
Navamoral-Monfortinho y la lucha contra el despoblamiento” referenciando que a Feira é
uma grande mostra dos setores agrícola, animal, agroalimentar, florestal, turístico e cultu-
ral, “proporcionando ainda magníficos espetáculos musicais, corridas de toiros, largadas,
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gastronomia e muita outra animação, com a participação conjunta de muitos espanhóis e


portugueses. Vão ainda decorrer diversos workshops como o I-Danha Food Chef (cozinha
sustentável), o 1º Encontro Ibérico para a Música na Infância e concertos do Xutos &
Pontapés, Miguel Araújo, UHF, Áurea e o espetáculo Idanha-Rock por Open Orchestra”.
Em Cáceres, o cidadão lia na imprensa: “Representantes de distintas Administraciones
reclamaron este miércoles con motivo de la inauguración de la Feria Rayana en Idanha-a-
-Nova (Portugal), la finalización de los 60 kilómetros que faltan para completar el trazado
de la autovía autonómica EX–A1 hasta el municipio luso de Monfortinho y su prolonga-
ción hasta Castelo Branco para enlazar Madrid y Lisboa por Extremadura y la Beira Baixa”
considerações que atestavam como os atores políticos locais do território raiano continu-
avam a usar a Feira como uma ocasião para ampliar e visibilizar o caderno reivindicativo
exigindo aos sempre apontados longínquos poderes centrais nacionais outra atenção e
uma melhoria das condições significativa do quotidiano das populações que ainda habita
e sustentam as paisagens periféricas mais ativas ou mais decrépitas do “Portugal interior”
ou da “Espanha vazia”. Contudo, a costumada reivindicação das acessibilidades deixou
de ser defendida apenas a partir da realidade concelhia ou comarcal para se dar de novo
ênfase à asserção do território transfronteiriço como um “espaço-ponte” que, atravessado
por itinerários, ligar-se-á às centralidades políticas de Lisboa e de Madrid, durante décadas
tão combatidas.
A XXIII edição continuou o interesse pela ruralidade como matéria expositiva promo-
vendo reflexões sobre os saberes e as realidades agrícolas que quebram o silêncio do tempo
longo dos ancestrais ciclos dos campos de Idanha-a-Nova associando-os a inquietações
sobre a sustentabilidade rural futura no espaço europeu. O cartaz manteve a imagem ferial
tradicional apesar de, noutros suportes, afirmarem-se diferentes expressões na promoção da
Feira Raiana como “Enfeirar”. Domina o cartaz um sol que ilumina o voo de uma águia.
A torre sineira da despovoada vila continua a ser o elemento arquitetónico essencial que
contrasta com os produtos da terra exibidos numa harmonia gráfica reveladora dos plurais
tempos da paisagem: o dos homens, o da agricultura e o da natureza de dimensões crono-
lógicas distantes, memorados com a inclusão de figura de uma cruziana, fóssil símbolo do
geoparque. O voo da águia, o pão, o adufe, as melancias, o queijo, a ovelha, o borrego, o
pastor intemporal, o cântaro de barro, a casa alva e a casa de barro compõem a galeria. Os
referenciados “produtos da Terra” são, com efeito, resultados mais visíveis ou invisíveis do
fluir da paisagem. O sol ilumina o conjunto e afirma um horizonte cuja perceção pode
querer simbolizar nascimento ou ocaso, o Este ou o Oeste, o acordar ou o adormecer numa
certeza de esperanças periféricas que a vida raiana continuará.
189 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

3. Tempos e territórios de futuro: fronteiras da esperança

A leitura mais contemporânea dos territórios, sociedades e culturas fronteiriças obriga


a dar mais atenção aos sinais que emanam, elementos influentes de diferentes cartogra-
fias, orais, textuais e imagéticas, cuja sedimentação renova, a cada instante, o palimpsesto
raiano. A fronteira assume, pois, novas significações e corografias que se distanciam, cada
vez mais, de memórias associadas a estereótipos que se resumiam ao jogo dialético entre
o contrabandista e o guarda fiscal. A fronteira, concebida pelo estado nação como linha
de rutura e separação absoluta, adquiriu novas qualidades que oscilam entre a sua quase
diluição e uma reinvenção ainda mais estanque, bem patente nos muros que se vão cons-
truindo um pouco por todos os continentes.
Na hora de agir, quando se apregoa a uma “discriminação positiva” para estas margens mais
esquecidas, importa pensar a fronteira em todas as suas dimensões e espessuras, históricas e ge-
ográficas, temporais e espaciais, para além de metáforas ou de interpretações que anunciavam
o seu fim. Pensar os espaços fronteiriços é ter a humildade em reconhecer que o seu conheci-
mento holístico pleno é ainda precário e o estudo destas matérias está longe de estar esgotado.
Num momento em que se assiste ao regresso das fronteiras, mesmo das fronteiras politicas, e
quando nos encontramos no limiar dum novo ciclo de políticas públicas europeias, que vão
exigir engenho sua na conceção e arte na aplicação, importa não esquecer as palavras avisadas de
Eduardo Lourenço quando nos alertou que “povos e indivíduos só têm o passado à sua disposi-
ção. É com ele que imaginam o futuro. Mas há duas maneiras de nos servirmos do passado para
construir o que, por não termos outro remédio, chamamos futuro. Uma é ter passado como se
o não tivéssemos. (…) A outra maneira de ter passado é a de ter essencialmente, ou como uma
fixação hipnótica, só passado. (…) Haverá futuros. Já os há, pois, a títulos diversos: o cálculo, a
esperança, o sonho, a utopia, que são a sua substância já incorporada no nosso presente, coabi-
tam connosco e guiam todos os nossos passos e pensamentos”10.
Fronteira é uma palavra onde continuam a convergir sentidos e dualidades (separar-unir,
diferenciar-assemelhar), velhas e novas metáforas, afirmando linhas intersticiais que podem
ser percecionadas pelos cinco sentidos em territórios reais ou imaginários que podem impor
muros invisíveis, de atracções, e ou de repulsões, de afectos ou de interrogações. À fronteira
luso espanhola, quase imutável em séculos, a dita da Europa associaram-se sempre realidades
que se discorrem entre tempo de tranquilidade e tempos de inquietação, identificando e
marcando um “nós” e os “outros”. A fronteira-raia nunca foi um horizonte silencioso ao con-
trário do que certas imagens oníricas idealizadas que as turistificações contemporâneas pro-
movem. A fronteira-raia é um dos elementos fundamentais no mapa identitário de qualquer
comunidade que aí viva, estruturando e estando presente em todos os discursos e códigos
perceptivos e comunicacionais dos viveres periféricos contemporâneos. 
190 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

O amplo pequeno grande mundo de relações e de complementaridades, em ocasiões


antagónicas continua e perdura, resistindo a panaceias que determinavam a sua extinção.
Pulsa em compassos mais longos ou adormecidos, em estratigrafias históricas que afirma-
ram um palimpsesto de presentes e de passados, de inúmeros entrecruzares e bifurcações
individuais e coletivas, mais locais ou mais centrais, mais participadas ou mais impostas,
mas desejadas ou mais temerosas. Nos inícios da década de 20 do terceiro milénio, a palavra
fronteira voltou a adquirir uma centralidade no quotidiano das sociedades. Em muitas partes

10
Eduardo Lourenço (1999) – A nau de Ícaro. Lisboa, Gradica, pp.: 62.
do mundo as linhas fronteiriças mais materiais ou imateriais determinam víveres e mobili-
dades espaciais. Depois de Schengen e da fronteira na Europa ser palavra já esquecida, que
perdurava em memórias, voltou a ter horários e controlo de passagem. A 16 de Março de
2020, os governos de Portugal e de Espanha comprometeram-se “a cooperar com o objetivo
de combater a pandemia de Covid-19, através da gestão do tráfego transfronteiriço entre
os dois países, através de um conjunto de medidas excecionais e de partilha da informação
relevante relativa à situação epidemiológica da Covid-19 nos respetivos países, em particular
nas regiões transfronteiriças.” As zonas de passagem foram fechadas e sua permeabilidade de
novo vigiada. E assistimos a variadas as reações das comunidades à reativação das ancestrais
geografias da sobrevivência e das complementaridades num regresso aos velhos e esquecidos
trilhos do contrabando. O jornal Expresso anunciava, em Maio de 2020, que a “Pandemia
reativa rotas do contrabando” e que “a Reportagem sobre a vida na fronteira” as povoações
da raia não gostam de fronteiras fechadas. A proibição da passagem imposta pela covid-19
pôs novamente a uso os caminhos do contrabando, com os portugueses a ir a salto a Espanha
comprar bilhas de gás e trabalhar informalmente nos campos agrícolas.” 
O confinamento obrigou a um regresso à primeira fronteira do Homem – o corpo, incu-
tindo-lhe objetos fronteiriços e condicionando o cruzamento continuado das fronteiras dos
quotidianos. Hoje, nas geografias da pandemia, a fronteira volta a vincar-se na consciência
do coletivo como uma barreira que separa do “outro” provocando uma sensação indelével e
estranha de segurança como se o problema estivesse apenas do lado de lá da linha imaginária.
Já não se erguem castelos pétreos mas emergem, de novo, as muralhas mentais. O inimigo
“imaterial” não é o nuclear da anunciada raia apocalíptica. O inimigo temido foi reinventado
confirmando Umberto Eco: “Parece que não se pode passar sem o inimigo”. Com efeito,
as fronteiras nunca se extinguem, perduram. A fronteira luso-espanhola sempre lá esteve e
continuará a erigir um portal linear dual com o “outro”, qual ponte invisível de temores ou
de renovados sonhos soprados por Janus, confirmando que somos sempre a soma de muitas
e perpétuas fronteiras: “Fronteras, en fin, de todas clases: geográficas, históricas, biológicas,
sociales, psicológicas...Todas partiendo y acuchillando el continuo multidimensional que
191 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

nos envuelve, para facilitarnos nuestra instalación en él, para permitirnos una interpretación
de lo que sería un caos; es decir, un orden que no comprendemos. Todas permitiendo dife-
renciar, pero sin que puedan confundirse con los limites“ como escreveu José Luís Sanpedro.
Concluindo, contudo, que: “El fronterizo es sustancialmente ambivalente – es decir, instala-
do en ambos lados de la divisoria, aun cuando no en igual medida— y es también ambiguo,
porque oscila entre ambas identidades: la originaria y la tentadora”11.  
A fronteira é sempre raiz, sonho e tentação. 

11
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cabo verde: o Mar (azul)
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José Maria Semedo


Universidade de Cabo Verde

a fronteira das ilhas no espaço lendário e na expansão


marítima Portuguesa

Quando o navegador Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador em 1434 e navegou no que se pen-
sava ser o mar tenebroso, a barca atravessa ainda uma longa costa que margina o poente do deserto
do Sahara, com uma prolongada vista de terras áridas1. Essa aventura abre precedente a novas in-
cursões que chegam às proximidades do Rio Senegal, onde surge a presença de uma comunidade
de etíopes hespérios2, troféu que levam ao Infante Don Henrique para demonstrar que tinham
ultrapassado os limites dos mares habitualmente navegados, próximos do mediterrâneo.

“…diz-se que existe também outra ilha frente ao monte Atlas, denominada
199 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Atlântide (…). Desde esta ilha, a cinco dias de navegação costeira, se encontram umas
paragens desabitadas junto aos etíopes hespérios e o cabo que denominamos Hesperu
Ceras, a partir de este ponto, a linha da costa gira pela primeira vez para o ocaso e para
o mar Atlântico3. Contam que, em frente de este cabo, estão as ilhas Górgades, morada
em outro tempo das Górgonas a uma distância de terra firme, segundo Jenofonte de
Lámpsaco, de dois dias de navegação” (Plínio-Livro VI Capítulo 31).

1
Gomes Eanes de Zurara – Crónicas do Descobrimento de Conquista da Guiné
2
Homens de pele escura, isto é, negros.
3
Ou seja, a terra entra ao poente para o mar atlântico.
As enciclopédias clássicas, nomeadamente de Plínio o Velho, descreviam o percurso
do Atlântico próximo do Mediterrâneo, entre as lendas e os relatos de marinheiros anti-
gos. Posterior a Gil Eanes, outros marinheiros desbravam os mares da costa ocidental da
África. Atribui-se a Vicente Dias a chegada ao primeiro “Cabo” de vegetação abundante,
após longa travessia da costa desértica do Sahara e do litoral árido e semiárido do Sahel
ocidental. O contraste de vegetação convida os marinheiros a denominarem de “Verde” o
promontório extremo poente, que passou a ser o cabo Verde, ou “promontorium viridis”.
A localização deste cabo coincidia com o Promontório das Hespérides (Hesperu cerus)4,
espaço lendário descrito por Plínio o Velho.
Recorde-se que o uso de “Cabos” como marco de referência na expansão marítima
aparece na primeira fase da expansão portuguesa, porque o domínio da navegação astro-
nómica vai ter como referências as coordenadas do astrolábio. A descoberta de ilhas por
volta de 1460, ao poente do “promontorium viridis”, coincide com o espaço lendário onde
as “Hespérides”, no extremo poente do mundo vigiavam o jardim dos deuses onde cresciam
maçãs de ouro, ilhas também vizinhas das monstruosas Górgones5.
Plínio descreve com alguma precisão as ilhas Afortunadas, hoje correspondente às
Canárias, mas reconhece “todos os dados acerca disto são tão incertos, que Estácio Seboso
afirmou que, fazendo navegação costeira, desde as ilhas das Górgonas até às Hespérides,
navegando frente ao Atlas, o trajeto é de quarenta dias e de estas até ao Hesperu Ceras é
de um dia” sobre a localização das Górgonas e das Hespérides, admite que as Hespérides
estariam a um dia de navegação do Hesperu Ceras.
É baseada no texto de Plínio que o geógrafo português dos finais do seculo XV, Duarte
Pacheco Pereira (1460-1533), aceita a tese das ilhas serem já conhecidas pelos marinheiros
antigos. As ilhas de Cabo Verde seriam a fronteira sul da Macaronésia, limite extremo do
espaço lendário da Mitologia Greco-Romana.

“ Pois já temos escrito do cabo Verde, e como se antigamente chamou Aspérido promon-
tório, assim devemos escrever das ilhas que cem léguas em mar dele estão, as quais também
200 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

na antiguidade foram chamadas Aspéridas, segundo diz Plinio na Natural Historia no seu
sexto livro, capitulo trinta e um, e agora a principal delas chamamos ilha de São Tiago”6

O ilustre poeta Luís de Camões, nos Lusíadas, localiza as Hespérides exatamente no


arquipélago de Cabo Verde, como sustentado por Duarte Pacheco Pereira.

4
Naturalis História – Livro VI capítulo 31.
5
Filhas de Fórcis e Ceto, Esteno, Euríale e Medusa, habitava o extremo ocidente não longe do reino dos
mortos vizinha da Hespérides.
6
Duarte Pacheco Pereira –Esmeraldo do situ Orbis capítulo 28.º.
Passamos o limite aonde chega
O sol, que para Norte os carros guia;
Onde jazem os povos a quem nega
O filho de Clímene a cor do dia.
Aqui gentes estranhas lava e rega
Do negro Sanagá a corrente fria,
Onde o Cabo Arsinário o nome perde,
Chamando-se dos nossos Cabo Verde.

Passadas tendo já as Canárias ilhas


Que tiveram por nome Fortunadas,
Entramos, navegando, pelas filhas
Do velho Hespério, Hespéridas chamadas;
Terra por onde novas maravilhas
Andaram vendo já nossas armadas
Ali tomamos porto com bom vento,
Por tomarmos da terra mantimento.

Aquela ilha aportamos que tomou


O nome do guerreiro Santiago,
Santo que os Espanhóis tanto ajudou
A fazerem nos Mouros bravo estrago.
Daqui tanto Boreas nos ventou,
Tornamos a cortar o imenso lago
Do salgado Oceano, e assim deixamos
A terra onde o refresco doce achamos.

(Os Lusíadas Canto V)


201 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

as ilhas de cabo verde, fronteira atlântica do sahel

O povoamento das ilhas de Cabo Verde teve início num período em que Portugal
estabelecia trocas comerciais com os reinos da costa ocidental africana, denominados Rios
da Guiné. A tecnologia náutica portuguesa dava uma grande vantagem no domínio das
distâncias, mas também na navegação de alto mar, rapidamente se podia navegar sem o
apoio dos cabos costeiros. O povoamento da ilha de Santiago e o estabelecimento de uma
base administrativa e logística nas ilhas de Cabo Verde, favoreciam a Portugal vantagens
nas trocas comerciais com os Rios da Guiné, entre a foz do Senegal e o Cabo das Palmas,
espaço também denominado Rios da Guiné de Cabo Verde. Baseado em Cabo Verde,
Portugal podia manter de perto o controlo do tráfico da costa e ao mesmo tempo criar
nas ilhas uma plataforma de armazenamento e reexportação dos produtos resgatados no
continente, sem risco de ataque de reinos ribeirinhos.
André Álvares de Almada7 assinala que a maioria dos Reinos da Costa Ocidental afri-
cana eram súbditos do Império do Mali, onde residia o “César dos Negros”. O império do
Mali, como os outros impérios de interior do Sahel, consolidou o seu poderio na faixa
de transição entre a zona húmida das savanas da África Ocidental e o Deserto do Sahara.
No período que antecede a expansão ultramarina, o comércio entre a Savana africana e
o mediterrâneo fazia-se através das caravanas, que atravessavam o deserto a chegavam à
costa norte da África, nomeadamente a Ceuta e Tanger, praças comerciais que chegaram a
ser conquistadas por Portugal. Notícias sobre o império do Mali e da sua importância no
tráfico de produtos africanos, com destaque para o ouro, peles preciosas, marfim, escravos
já eram do conhecimento dos portugueses antes da expansão marítima. O comércio trans-
-sahariano era dominado por caravanas de camelos conduzidas pelas comunidades que
viviam nas margens do grande deserto. As descrições de viagens, tais como conhecidas no
século xv no mediterrâneo, estavam recheadas de lendas e seres fantásticos.
Dominando a navegação atlântica, Portugal cria na ilha de Santiago uma plataforma
administrativa e comercial de controlo de tráfico na África do Oeste e, também, de toda
a navegação entre a Europa e o Atlântico Sul e entre a África e as Américas. A localização
do arquipélago no mar largo, a 500 km da ponta de “Cabo Verde” no Senegal, ficaria longe
para as canoas africanas, na eventual incursão contra essa base lusitana, mas suficiente-
mente perto para os portugueses controlarem as praças na costa africana, considerando as
vantagens dos seus navios e os conhecimentos de navegação de alto mar. Com o tratado
202 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

de Tordesilhas, Portugal em teoria passou a ser o Senhor de todas as terras da África e


dos oceanos próximos, e as ilhas de Cabo Verde a placa giratória nesta gestão dos mares.
Cenário que além de contestado pelas outras potências europeias, esteve na base do Corso
que devastou as ilhas nos séculos xvi e xvii.
O comércio da vizinha África de Oeste e a navegação foram as principais causas do po-
voamento das ilhas de Cabo Verde, porque os recursos internos são escassos, razão de serem
pouco atrativas aos primeiros colonos: à semelhança das outras ilhas da Macaronésia, são

7
Tratado breve dos Rios da Guiné de Cabo Verde, 1594.
ilhas de origem vulcânica, montanhosa, como dizia Duarte Pecho Pereira, “são terras altas e
fragosas, com caminhos maus de andar”. No entanto este autor ainda acrescenta: as ilhas são
estéreis porque vizinhas do tropico de Câncer chove apenas três meses ao ano”8.
O quadro de aridez e dos ciclos de seca era conhecido nos primórdios da ocupação das
ilhas e, neste aspeto, Cabo Verde diferencia-se dos outros arquipélagos da Macaronésia9, as
chuvas estão concentradas no verão, à semelhança do quadro saheliano.
Ilídio da Amaral (1926-1917) considera o arquipélago de Cabo Verde a fronteira
atlântica do Sahel, considerando a extensão da faixa de aridez continental, com ciclos de
secas e oscilação das precipitações, até ao espaço marítimo das ilhas de Cabo Verde. Assim,
o arquipélago seria o extremo oeste da zona de transição entre os climas da Savana e o
deserto do Sahara, o arquipélago onde o Sahel transvasa as terras do interior africano e se
estabelece no domínio marítimo.
A insularidade vulcânica deixou as marcas de relevos montanhosos, vales encaixados,
barrancos, picos e serras que deram origem a uma grande diversidade de nichos ecológicos,
à semelhança dos arquipélagos da Macaronésia, pelo que a flora e a fauna primitiva registam
relíquias de um paleoclima que diferencia as ilhas da costa continental próxima. No entanto,
no Holocénico recente, as plantas do Sahel marcam a presença no arquipélago, testemunho
de uma evolução climática com maior afluxo de ventos de leste nos últimos milhares de anos.
O quadro histórico do povoamento das ilhas de Cabo Verde foi num período em que
Portugal dominava o comércio da África de Oeste e os produtos africanos que navegavam
pelo deserto passaram a ser transportados através das águas do Atlântico. Os impérios
do Sahel, progressivamente, deixaram de controlar o tráfico entre a África Ocidental e a
Europa, sobretudo no Mediterrâneo.
A navegação transatlântica promoveu a troca de plantas e animais entre o Velho e o Novo
Mundo e a posição de Cabo Verde permite a chegada de plantas de todos os continentes, que
são aclimatadas ou acidentalmente introduzidas, originando uma flora e vegetação domina-
das pelas plantas introduzidas que foram assumidas no quotidiano dos homens das ilhas. 203 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

a história das ilhas e a criação de uma fronteira cultural

Em 1466, o Príncipe Don Fernando, enquanto herdeiro do Infante D. Henrique e


dono das ilhas de Cabo Verde, pede, numa carta ao Rei Don Duarte, medidas especiais
para povoar as suas ilhas de Cabo Verde. Destacou que havia passado quatro anos que
8
Esmeraldo do Situ Orbis – Capítulo 28.º.
9
Macaronésia ou ilhas afortunadas (µακάρων νῆσοι) em grego, abrangem os arquipélagos de Açores, Madeira,
Selvagens, Canárias e Cabo Verde.
iniciara o povoamento da ilha de Santiago, mas teria dificuldades em recrutar os colonos,
considerando o grande distanciamento entre o Reino e as ilhas. Assim, solicita ao rei e
irmão, que sejam concedidas regalias especiais aos moradores que se fixassem na ilha de
Santiago, nomeadamente a possibilidade de fazerem negócios na vizinha costa dos Rios
da Guiné.
As trocas entre os produtos europeus e africanos eram vantajosas para as partes, mas
para os portugueses produtos banais eram trocados por géneros que na Europa tinham
grande valor. Por isso, o tráfico da Costa da Guiné era muito cobiçado e era monopólio
da Coroa. A permissão de privados entrarem no negócio era efetivamente um privilégio
muito especial, e rapidamente o Rei esclareceu as águas em 1479, exigindo aos moradores
apenas levar aos Rios da Guiné géneros produzidos nas ilhas.
Como era regra na época, para o povoamento de Cabo Verde impunha-se a presença
de marinheiros, militares, administrativos, eclesiásticos e homens comuns para o desbrava-
mento das terras. Um dos descobridores, António da Nola, foi capitão donatário de uma
parcela da ilha de Santiago. Os privilégios concedidos aos moradores de fazerem negócios
com a África Ocidental favorecem a criação, em Cabo Verde, de uma plataforma no tráfi-
co negreiro, sobretudo a partir do século xvi, altura em que o povoamento das Américas
recorre à mão-de-obra escrava para as plantações.
No entanto, os escravos são usados pelos próprios moradores das ilhas nos trabalhos
agrícolas, pecuária, artesanato, engenhos de açúcar, etc. Com a limitação dos privilégios de
1479, os moradores foram obrigados a fazer o tráfico com a produção das ilhas, pelo que os
principais produtos exportados passaram a ser: o algodão, os panos de algodão e os cavalos,
muito cobiçados na costa da Guiné. Os escravos se especializam na produção de panos de
algodão muito de agrado ao gosto africano, panos que ganharam grande fama nas trocas
comerciais com a África do Oeste.
O quadro climático das ilhas já era pouco favorável a uma agricultura de plantações,
como apresentado por Duarte Pacheco Pereira, no princípio do século xvi. Os escravos
são empregues nas lavouras, nos trabalhos domésticos, pecuárias e ofícios diversos como
204 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

tecelões, pedreiros, ferreiros, etc.


A diversidade de culturas trazidas da África do Oeste, a presença do colono europeu
e, sobretudo, a evangelização contribuíram para a construção de uma cultura crioula. Essa
cultura expressa-se na língua, crenças, hábitos e formas de expressão artística que se conso-
lidam no tempo. No século xvii nas ilhas se falava uma língua distinta do Reino, mas não
pertencia a nenhum dos reinos da costa, o povo expressava a fé cristã que o diferenciava
das suas origens africanas. O crioulo cabo-verdiano, enquanto identidade cultural, era dis-
tinto das suas origens europeias e africanas, ou seja, a colonização tinha forjado uma nova
identidade cultural. No entanto, essa identidade é uma perfeita insularidade na África do
Oeste, onde os povos têm raízes históricas longínquas e dominam o islamismo e religiões
tradicionais. Cabo Verde gerou uma cultura e uma fronteira cultural entre o oceano e a
África Ocidental.

a divisão das águas e a fronteira política

O arquipélago de Cabo Verde é formado por dez ilhas e vários ilhéus, mas no seu
conjunto as ilhas apresentam uma grande dispersão, as distâncias extremas ultrapassam
dois graus de latitude e de longitude. Comparado com o arquipélago das Canárias
(7447 km2), as ilhas de Cabo Verde (4033Km2) estão mais distantes umas das outras
e representam uma maior fragmentação territorial. O distanciamento e o número de
ilhas geram custos de gestão territorial, sobretudo pela proliferação de equipamentos
de acesso, circulação interna e diminuição de economia de escala. O povoamento do
conjunto das ilhas teve início no século xv pelas ilhas de Santiago e do Fogo, as outras
ilhas foram povoadas num processo que se prolonga pelos séculos xvi e finais do século
xviii, a ilha do Sal consolida o seu povoamento no século xix e Santa Luzia permanece
deserta.
Em contrapartida, a natureza marítima atribui ao arquipélago uma Zona Económica
Exclusiva (ZEE) estimada em 734 265 km2 por área emersa de apenas 4.033 km2, razão
pela qual os sucessivos Governos de Cabo Verde vêm tentando aproveitar as potencialida-
des do espaço marítimo e dos seus recursos para o desenvolvimento do País.
A inserção oceanográfica do País atribui ao arquipélago uma dimensão mais marítima
do que terrestre, aliás o processo do povoamento das ilhas e as funções desempenhadas nos
primórdios do povoamento integram as ilhas numa dimensão essencialmente oceânica:
plataforma administrativa e religiosa avançada na África do Oeste, escala de navegação
entre a Europa e o Atlântico Sul, entre a África e as Américas.
Em 1497, na sua primeira viagem à Índia, Vasco da Gama fez a sua escala de abasteci-
205 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

mento no Porto da Praia de Santa Maria, então parcela da Capitania de Alcatrazes, porto
que veio assumir a sede do Governo de Cabo Verde até a atualidade. Entre os séculos xvi e
finais do século xix, praticamente todas as grandes viagens de exploração dos mares do Sul
fizeram escala de abastecimento no Porto da Praia, nomeadamente corsários como Francis
Drake (1585), Jacques Cassard (1712), missões de exploração como M. Ferdinand Berthoud
(1769), James Cook (1772 e 1776), James Hingston Tukey (1816), FitzRoy e Charles Darwin
(1832). Veleiros comerciais de diversas nacionalidades, com destaque para a Companhia
da Índias, faziam escalas de navegação no arquipélago, antes da longa travessia dos mares
do Atlântico Sul.
Na primeira metade do século xx, com a navegação a vapor, estabelece-se a escala de
abastecimento na emergente Cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, mantendo a
situação privilegiada no Atlântico Médio.
Atualmente, é na perspetiva da valorização da economia Azul que Cabo Verde visa va-
lorizar a sua ZEE nos domínios da pesca e navegação. As águas territoriais de Cabo Verde
estabelecem fronteiras com a Mauritânia, com o Senegal, a Gâmbia e águas internacionais
do Atlântico Médio.
A viragem para a economia azul vai exigir uma autêntica revolução cultural em Cabo
Verde, porque a cultura crioula sempre viu o mar como a verdadeira fronteira das ilhas,
o limite onde as terras acabam e as águas começam. Não obstante a perceção do mar ser
o caminho para a diáspora na terra longa, via de entrada e saída de navios ao longo de
gerações, constitui o limite das ilhas, o fator de separação e a dificuldade de conexão entre
as parcelas.
A delimitação externa e as fronteiras com o vasto oceano e os países vizinhos ainda
são recentes e na prática constituem limites acordados entre Estados e as normas interna-
cionais. Não constituem problemas no quotidiano dos homens das ilhas, não obstante o
desafio de segurança de uma vasta zona marítima para o Estado de Cabo Verde.
Nos finais do século xviii, João da Silva Feijó10 classifica o cabo-verdiano como um
povo rural de costas viradas ao mar, toda a economia estava centrada na agricultura e des-
conhecia-se as pescas, não obstante um clima árido sujeito a secas cíclicas e prolongadas.

“Sendo abundante de peixes as costas daquelas ilhas, a pescaria é pouco atendida pelos
habitantes, exceto quando o flagelo da fome busca destruí-los. Então satisfeitos com uma cana,
uma linha, e um anzol, andam de pedra em pedra pelas costas, buscando a subsistência”11

O Governador António Pusich considera uma aberração um povo viver em pleno


oceano de costas para o mar e agarrado a uma maçaroca numa terra que não chove: “sendo
206 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

abundantíssimas de peixe todas as costas do mar, a pescaria é somente deles atendível na última
extremidade da fome. Então, ocupados com uma cana na mão, ou em umas lanchinhas, estas
de figueira brava, vão nas costas do mar buscar a sua subsistência, desprezando absolutamente
esta ocupação apenas têm na mão uma maçaroca de milho para comer 12”.
Com efeito, os primeiros povoadores e todo o processo do povoamento das ilhas
estiveram ligados ao mar, ao domínio do espaço marítimo e comércio transatlântico.

10
Ensaio económico sobre as Ilhas de Cabo Verde (1797) por João da Silva Feijó.
11
Idem (1784).
12
António Pusich – Ensaio Físico-Político das Ilhas de Cabo Verde,1810.
No entanto, nos finais do século xvii, Cabo Verde perde o domínio do tráfico da costa
da Guiné e, progressivamente, os reinóis regressam à Metrópole deixando as terras aos
brancos da terra e crioulos emergentes, naturais das ilhas que tinham perdido os laços
com o continente vizinho e com o Reino. Essa geração dos crioulos das ilhas não do-
mina nem o mar largo nem o comércio da costa da Guiné, estabelece-se na terra e vive
da agricultura e da pecuária. Documentos do século xvii e xviii relatam a decadência
dos núcleos urbanos costeiros da Ribeira Grande e da Praia. Alcatrazes desapareceu no
início do século xvi, os terratenentes mais abastados exploravam os vales irrigados e
andar húmido, deixando as terras marginais aos rendeiros e meeiros. A cultura cabo-
-verdiana constrói-se no mundo rural, onde a terra, a chuva, a seca, a cultura do milho,
são elementos essenciais.

“Nos tempos antigos foi esta cidade grandemente populosa e chegou a ter duas
freguesias. Hoje, porém, está quase deserta, pois que não há nela mais habitantes
que os cónegos que fazem nela a sua residência, obrigados da assistência do coro, e,
algumas mais pessoas; porque como nesta cidade não há coisa alguma de venda, e
precisa vir tudo de fora, e para estas conduções se necessita de abundância de bes-
tas, que não há, costumam habitar estes povos pelas suas fazendas, aonde acham
maior comodidade”13.

O Porto da Praia, que mais longamente prestou serviço de escala no arquipélago, entre
finais do século xv e finais do século xix, tirava benefício da produção agropecuária da ilha,
sobretudo nos vales próximos, para vender aos navios que faziam aguada em escala para
os mares do Sul. Esta troca comercial portuária não quebrou a ligação ao mundo rural,
as lides do mar sempre foram vistas como ofício de marujos estrangeiros e aventureiros.
Navios estrangeiros, sobretudo americanos, que pescavam baleia em águas de Cabo
Verde nos finais do século xviii, chegaram a contratar cabo-verdianos para essas lides, caso
curioso os crioulos aproveitaram a oportunidade para emigrar e trabalhar em terra, nos
207 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Estados Unidos
A viragem para o mar tem sido esforço de governantes e políticos, sobretudo depois da
Independência. Recentemente o discurso tem sido em torno de centrar uma viragem para
a economia azul, com a valorização do mar em dimensões que vão das pescas à navegação,
praias, turismo e prestação de serviços ao nível internacional.
Apesar do mar ser ao mesmo tempo elemento de separação e união das ilhas, o poeta
Jorge Barbosa nos ilustra uma visão crioula do mar em Cabo Verde.

13
Notícia corográfica e cronológica do bispado de Cabo Verde, 1784.
Poema do mar

O drama do Mar,
o desassossego do Mar,
sempre
sempre
dentro de nós!
O Mar!
Cercando
prendendo as nossas Ilhas,
desgastando as rochas das nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias,
batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas...
O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!
O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!...
O Mar!
saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
208 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

histórias da baleia que uma vez virou a canoa...


de bebedeiras, de rixas, de mulheres,
nos portos estrangeiros...
O Mar!
dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!
Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
e ter que ficar!

(Jorge Barbosa – in Ambiente, 1941)

referência bibliográfica

ALVARES DE ALMADA, André (1589) – Tratados breve dos Rios da Guiné de Cabo Verde.
AMARAL, Ilídio (1986) – As Fronteiras do Sahel: alguns aspetos geográficos. Garcia de Orta, Série
Geografia, Lisboa, 11 (1-2), 1986, 1-54.
ANÓNIMO (1784) Noticia Coreográfica e Cronológica do Bispado de Cabo Verde.
BARBOSA, Jorge (1941) – Poesias (Ambiente).
CAMÕES, Luís (1572) – Os Lusíadas.
GOMES EANES DE ZURARA (1453) – Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné.
PACHECO PEREIRA, Duarte (Séc. XVI) – Esmeraldo do situ Orbis.
PLÍNIO SEGUNDO, Caio (Séc. I) – História Natural, Vol. VI.
PUSICH, António (1810) – Ensaio Físico-Político das Ilhas de Cabo Verde.
SILVA FEIJÓ, João da (1797) – Ensaio económico sobre as Ilhas de Cabo Verde.

209 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território


Fronteiras coloniais portuguesas em África:
História, conflitos e cooperação no caso
de Moçambique

Emílio J. Zeca
Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pelo PPGEEI/UFRGS; Investigador
Auxiliar do Departamento de Paz e Segurança do Centro de Estudos Estratégicos
e Internacionais – CEEI/UJC e Professor de Estudos de Segurança, na Universidade
Joaquim Chissano – UJC, em Moçambique

introdução

Na Antiguidade, os Estados não davam muita importância à fronteira, minunciosa-


mente, fixada, à fronteira linear, como limite preciso da separação de soberanias (Mattos,
[1960], 2011, p. 105). A fronteira é um fenómeno ligado ao Estado Moderno que foi
inventado, na Europa, entre os séculos xiii-xv, com a “função inicial de definir a distri-
buição de áreas entre Estados territoriais” (Carneiro, 2016, p. 20). Trata-se de uma reali-
dade inovadora que surgiu, na Europa, no século xiii, fruto da imporância estratégica que
passou a se dar aos espaços físicos onde a base física das unidades políticas se instalaram e
211 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

a necessidade de aceder a recursos para a prossecução dos seus fins tradicionais. No caso
dos territórios colonais potugueses, as fronteiras traçadas pelos colonizadores resultam das
reivindicações territoriais das potências imperialistas europeiras e as decisões emandas das
Conferência de Berlim de 1884-1885.
O presente texto versa sobre os elementos históricos, conflituosos e cooperativos relacio-
nados com as questões de delimitação das fronteiras coloniais portuguesas, em África, com
destaque para a realidade moçambicana. A questão das fronteiras coloniais portuguesas, em
África, abrangeu os territórios da Guiné Portuguesa, África Ocidental Portuguesa – Angola
e África Meridional Portuguesa – Moçambique, no quadro de um projecto geopolítico,
geoestratégico e geoeconómico colonial que pretendia ligar o Atlântico e o Índico, conhe-
cido como Mapa Cor-de-Rosa. O processo histórico, conflitual e cooperativo envolvendo a
questão da delimitação de fronteiras coloniais portuguesas deve ser analisado tendo “como
pano de fundo a necessidade da ocupação efectiva dos territórios” (Souto, 1995, p. 209),
tendo em conta das decisões emanadas da Conferência de Berlim de 1884-1885.
A Conferência de Berlim de 1884-1885 marcou o início de uma “verdadeira corrida”
para a partilha retalhada do continente africano, abrindo espaço para a necessidade de se
delimitar as fronteiras dos espaços reclamados como sendo parte da esfera soberana das
potências imperialistas europeia, sem ter em conta a matriz cultural, sociológica e étnica
dos territórios visados. A partilha de África colou em causa o princípio orientador da
conceptualização de fronteira de Karl Hanshofer (1940)1 e os outros teóricos da Escola
de Munique que postulam que “o Estado tem direito a fronteiras naturais derivadas da
penetração cultural e de decorrentes da natureza do seu poder” (Dias, 2010, p. 129). No
contexto dos resultados de Berlim, as fronteiras coloniais passaram a ser elementos que
representam muito mais do que uma mera divisão e unificação dos pontos territoriais
diversos de uma base física das unidades políticas existentes, em África.
A geografia política dos territórios coloniais portugueses é marcada por um artificialismo
fronteiriço, fruto de situações de conflitos e cooperação. Os conflitos envolveram os interes-
ses e objectivos estratégicos de Portugal e os das outras potências europeias imperialistas, por
um lado, sobretudo Inglaterra, Alemanha, França e Holanda, e por outro, os interesses vitais
das comunidades nativas africanas que viram-se agredidas pelas campanhas militares de ocu-
pação. Tratou-se de campanhas miliares de ocupação, “pacificação” e conquista que tiveram
lugar entre 1886 e 1920 e que geraram fortes resistências dos Reinos, Estados e Impérios
africanos pré-coloniais, como aponta Souto (1995, p. 249-251). A cooperação foi um dos
mecanismos de construção de paz que foi concretizada por meio de acordos de delimitação
de fronteiras que Portugal firmou com as outras potências imperialistas europeias.
Nos estudos geopolíticos, as fronteiras têm sido classificadas como naturais, geo-
métricas ou arbitrárias, enquanto elementos de delimitação territorial e política que,
212 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

através de elementos de protecção garantem a representação, a autonomia e a soberania


de um Estado perante os outros (Guarinello, 2010, p. 120). Desta feita, a fronteira apa-
rece como um elemento metafórico amplo que permite superar os diferentes elementos
políticos, sociais, económicos, securitários e de outra natureza para garantir a existência
física de uma unidade política, fazendo com que Friederich Ratzel, no seu texto “O Solo,
a Sociedade e o Estado” apontasse que “o Estado não é consebível sem território e sem
fronteiras” (Ratzel, 1983, p. 93).

1
HANSHOFER, Karl (1940). Geopolítica. Munique.
Para a elaboração do presente texto recorreu-se a uma metodologia qualitativa assente
no método histórico, process tracing e técnica documental. O método histórico permitiu
sistematizar os elementos históricos que concorreram para o processo de delimitação de fron-
teiras colonais portuguesas, em África, enquanto o método o process tracing permitiu fazer
o rastreamento, análise e sistematização de todo os processos. Finalmente, a técnica docu-
mental permitu pesquisar e consultar a documentação relvante e a produção científica sobre
o assunto.
O texto presente encontra-se estruturado em quatro blocos analíticos principais. O
primeiro bloco analítico versa sobre a histórica da presença colonial portuguesa em África.
O segundo bloco analítico apresenta as questões histórias das fronteiras coloniais portu-
guesas, tendo como base as decisões da Conferência de Berlim de 1884-1885. O terceiro
bloco analítico faz uma incursão sobre as principais disputas e conflitos relacionados com
as fronteiras coloniais portuguesas, tendo em conta os interesses estratégicos de outras
potências imperialistas, na África Meridional, com destaque para Inglaterra, Alemanha e
Holanda. Finalmente, apresenta-se um bloco analítico que versa sobre os mecanismos de
cooperação que contribuíram para a resolução pacífica dos conflitos que emergiram sobre
as questões fronteiriças nos espaços reivindicados pelo Estado Colonial Português.

1. Presença colonial Portuguesa em África

A historiografia universal convencional reza que a presença portuguesa, em África,


remonta ao século xv, onde Ceuta foi o primeiro território que os portugueses chegam
em 1415, no quadro das denominadas viagens de “descobrimentos”. Quarenta e cinco
anos depois, em 1460, os portugueses ocuparam as Ilhas de Cabo Verde2, que até mea-
dos do século xvii funcionaram como capitanias e entreposto comercial estratégico para
as operações comerciais de portugueses, genoveses e castelhanos. Uma década depois, os
portugueses chegaram à Ilha de São Tomé, transformando-a em entreposto comercial, que
213 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

permitira o estabelecimento de relações com o Reino do Congo. Em 1502, os exploradores


portugueses chegaram à Ilha do Príncipe.
Os portugueses chegaram em Angola, em 1482, Capitaneados por Diogo Cão.
Quatro anos depois, eles conseguiram estabelecer contratos com o Rei do Congo,
Nkuvu Nzinga. O Rei do Congo encarrou o contacto com os portugueses como um a
grande oportunidade, para desenvolver novas redes de trocas comerciais. De imediato,

2
As Ilhas de Cabo Verde funcionaram como importante e relevante capitania, para garantir a administração
marítima daquela área, visto que transformou-se num entreposto comercial estratégico para o comércio de
escravos e outros produtos.
este converteu-se ao Cristianismo onde foi batizado, tornando-se em João I do Congo.
Em Moçambique, os portugueses chegaram, somente, em 1498, na viagem de Vasco da
Gama para a Índia. Os territórios costeiros moçambicanos eram de influência árabe que
estabeleciam trocas comerciais – ouro, algodão, ferro e especiarias – desde Sofala até o
Norte de Moçambique. Foi a partir no início do século xvi que os portugueses começa-
ram a criar feitorias3.
Portugal faz parte do grupo dos primeiros Estado a enveredar pelas viagens de “descobri-
mentos”, em África. Isso deu-lhe enormes vantagens, para que criasse capitanias, feitorias e
entrepostos comerciais sob o seu controlo ou influência. Todavia, a conjuntura interna portu-
guesa e a global vigente entre meados do século xix e inícios do século xx desafiou bastante a
presença de Portugal, em África. A crise durante o século xix fruto da contração comercial, o
reconhecimento da independência do Brasil e a ilegalização do tráfico de escravos trouxeram
problemas estruturais que fizeram com que o Estado português perdesse o controlo de grande
parte das suas redes de relações mercantis, sobretudo, com o Oriente e com Europa.
No século xix o continente africano passou a ser encarado como uma região apetecí-
vel de ocupação. Concorreu para este facto, a curiosidade científica, a procura crescente de
produtos tropicais, a necessidade de matérias-primas e o potencial de novos mercados, que
a Revolução Industrial exigia. O comércio internacional e intercontinental sofreu um incre-
mento notável com a navegação a vapor, com o aparecimento dos EUA a partir de 1865 e
da Alemanha, depois de 1870, que vieram pôr em causa a hegemonia britânica. Todo este
tráfico trouxe uma pressão concorrencial muito forte sobre os produtos portugueses, que
sofriam de falta de competitividade. A devastação havida na primeira metade do século xix,
contribuiu também para que Portugal falhasse a primeira revolução industrial.
A presença portuguesa, em África, começou, inicialmente, a ser orientada em termos
estratégicos pela necessidade de encontrar uma rota para as Índias, como forma de ter
acesso a produtos rentáveis no mercado europeu. Posteriormente, os objectivos e interesses
desta presença passaram a ser norteados por questões mercantilistas, a busca de metais
preciosos e, posteriormente, o comércio de escravos e marfim. Para a concretização destes
214 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

objetivos, o acesso e controlo dos territórios eram elemento crucial. Para tal, a religião e a
ameaça e uso da força foram os princípios mecanismos usados para a concretização desta
empreitada. Todavia as dificuldades de garantir uma presença efectiva, por meio de uma
administração directa e ostensiva nos vastos territórios que Portugal reivindicava como
sendo da sua posso e estando sob o seu controlo abriram espaço para que surgissem reivin-
dicações por outras potências, em relação aos referidos territórios.

3
Em Moçambique, em 1905, foi fundada a Feitoria em Sofala, para extração do ouro na região; em 1530 foi
fundada a Feitoria de Sena e em 1544 a Feitoria de Quelimane.
Em Moçambique, até meados do século xix, a presença portuguesa era bastante fraca
no interior. Para concretizar o princípio de ocupação efectiva emanado da Conferência de
Berlim de 1884-1885, que será discutido, posteriormente, Portugal levou a cabo um con-
junto de campanhas militares de ocupação e conquista, entre 1886 e 1920 (Souto, 1995,
p. 249), como forma de colmatar a sua fraca presença territorial e as reclamações interna-
cionais sobre a posse dos territórios que reivindicava. De acordo com Botelho (1934, p.
171-172), as campanhas militares de ocupação e conquista tiveram três fases principais: a
primeira abrangeu os territórios de Lourenço Marques até ao Pungué e foi realizada nos
sertões de Lourenço Marques, Inhambane e Sofala; a segunda abrangeu os territórios do
Vale do Zambeze e as terras limítrofes com operações levadas ca cabo contra povoações
fortificadas e aringas; e a terceira abrangeu a região do Rovuma.
As campanhas militares portuguesas de ocupação e conquista não foram simples, por-
que as unidades militares portuguesas encontraram fortes resistências nativas. Todavia,
essas campanhas deveriam ser levadas a cabo, porque “a pacificação e controlo efectivo dos
territórios eram os pré-requisitos para o reconhecimento do poder colonial” (Souto, 1995,
p. 249), diante das aspirações britânicas de anexar áreas estratégicas que faziam parte de
Moçambique, com destaque para as terras altas e férteis de Manica, Vale do Chiré e a Baía
de Lourenço Marques e a visão ambiciosas de Cecil Rhodes, com o seu projecto de cons-
truir uma linha férrea que ligasse a região de Cabo ao Cairo, propondo o controlo de uma
parte substancial de Moçambique (Isaacman e Issacman, 1983, p. 235).
No início das campanhas militares de ocupação e conquista, sobretudo até 1895, as
forças portuguesas sofreram muitas baixas, diante da preponderância militar dos Reinos,
Estados e Impérios pré-coloniais. Os portugueses enfrentaram resistência do Estado de Gaza,
no Sul, e dos Estados Afro-Islâmicos da Costa – Sacul, Sangage, Quitangonha e Angoche
– no Norte de Moçambique. A situação mudou após, 1895, quando o exército português
adquiriu superioridade militar, permitindo que essas expedições militares contribuíssem para
“alargar as áreas de influência portuguesa para o interior” (Souto, 1995,p.2699), por meio da
obtenção por parte das autoridades locais lealdade e vassalagem à Coroa Portuguesa.
215 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

2. Questões Histórias das Fronteiras coloniais Portuguesas

A história das fronteiras coloniais portuguesas tem uma relação directa com os resul-
tados emanados da Conferência de Berlim de 1884-1885. Antes da realização da referida
conferência, a presença portuguesa nas suas colónias limitava-se à administração e ocupa-
ção de áreas estratégicas ao longo da costa, prevalecendo no desconhecido toda a região do
hinterland. Os territórios ultramarinos portugueses só passam a ter alguma importância
estratégica como área de exportações a partir de 1880, com o crescimento dos mercados,
em Angola e Moçambique, visto que estes passaram a absorvem parte dos produtos que
não se conseguia colocar noutros destinos.
A situação deficitária política e económica que o Estado Português vivia, no início
do século xix, não permitia disponibilizar os meios e recursos necessários, para que fosse
levado a cabo um processo de colonização efectiva, em larga escala, particularmente, em
Angola e Moçambique. Estes dois territórios foram sempre vastos, em termos de áreas e
com diversos desafios para alcançar o seu interior, a presença de Reinos, Estado e Impérios
locais, com poder político e militar substancial. Entre o século xv e xix, as vastas áreas
entre Angola e Moçambique tinham sido objecto apenas de algumas viagens de explo-
ração, todavia, necessitavam-se de uma presença efectiva do aparato colonial português,
visto que estes territórios, por um lado, eram ocupados por unidades políticas amorfas
designadas de Reinos, Estados e Impérios pré-coloniais4 e, por outro, eram ambicionados
por outros Estados que tinham projectos estratégicos.
A emergência de situações de contestação e reivindicação de algumas áreas sob o con-
trolo português por parte de outras potências como Inglaterra, Alemanha e Holanda fez
com que Portugal levasse a cabo um conjunto de iniciativas políticas, diplomáticas e mili-
tares, com vista a garantir os seus objectivos e interesses estratégicos nestas áreas. Diante
dos receios de poder perder os territórios que ocupava, em África, Portugal propôs a reali-
zação de uma conferência internacional para resolver, de forma pacífica, os diferendos que
as opunham as potências imperialistas nos territórios africanos. Infelizmente, no início,
essa proposta não vingou, mas algum tempo depois, a ideia foi colhida pelo antigo polí-
tico e diplomata prussiano, Otton Von Bismark5, que retomou a iniciativa e consultou as
outras potências, que o encorajaram a convocar a referida conferência.
A Conferência de Berlim teve lugar entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de
Fevereiro de 1885, onde participaram 15 Estados6, cujo objectivo declarado da mesma

4
Estado de Gaza, Império Monomotapa, Xeicados e Sultanatos, no Norte de Moçambique, entre outras
216 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

unidades políticas pré-coloniais existentes.


5
Bismarck era um político que defendia uma geopolítica e uma geoestratégia para Alemanha orientada para
uma perspectiva continentalista, visto que estava mais interessado em questões da Europa Central. Todavia,
este político encontrava-se sob fortes pressões por parte de grupos industriais e comerciais alemães, para
enveredar pela expansão, em África Foi somente depois da sua demissão que Alemanha iniciou uma política
expansionista colonial, em África.
6
Alemanha, Império Austro-Húngaro, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América,
França, Itália, Países Baixos, Portugal, Inglaterra, Rússia, Suécia e Noruega. Entre os 14 participantes na
Conferência podem ser distinguidos dois grupos: um grupo que incluía os países com interesses directos nos
problemas relativos à partilha de África, como era o caso do Reino Unido, França, Alemanha, a “Associação
Internacional do Congo” e a Holanda; e outro era formado pelos restantes participantes que não tinham
interesses relevantes no continente africano, como era o caso do Império Austro-húngaro, Dinamarca, Itália,
Espanha, Rússia, Suécia, Imperio Otomano e EUA.
era “regulamentar a liberdade do comércio nas Bacias do Congo e do Níger, assim como
estatuir novas ocupações de territórios sobre a Costa Ocidental da África”7. Os disposi-
tivos da acta que resultou da Conferência de Berlim foram as linhas-mestras que passa-
ram a orientar a partilha do continente africano e a criação dos Estados, no seu actual
formato. Constituíram os pontos principais da agenda desta conferência os seguintes: a
questão referente à liberdade de comércio na bacia do Congo, suas embocaduras e regi-
ões circunvizinhas, e disposições conexas; a questão concernente ao tráfico dos escravos;
a questão referente a neutralidade dos territórios compreendidos na bacia convencio-
nal do Congo; a questão da navegação do Congo; a questão da navegação do Níger; a
questão referente às condições essenciais a serem preenchidas para que ocupações novas
nas costas do continente africano sejam consideradas como efetivas e um conjunto de
questões gerais
Antes da realização da Conferência de Berlim, um conjunto de eventos tiveram lugar
e que formas significantes tiveram contribuíram para que este vento ocorresse e tivesse o
desfecho que teve. Depois de um período de disputas territoriais em Angola, no dia 20
de Setembro de 1845, o Reino Unido reconheceu os direitos portugueses sobre os terri-
tórios de Ambriz, Molembo e Cabinda. Um ano depois o Governo português mandou
ocupar militarmente o Ambriz, provocando protestos por parte do Governo Britânico.
Em Moçambique, em 1861, os ingleses, temendo que os bóeres ocupassem Lourenço
Marques, desembarcaram nas Ilhas de Inhaca e dos Elefantes e, na sequência do protesto
do Governo Português, acabaram por se retirar, sendo substituídos por tropas portuguesas.
Na sequência, diante das disputas com os franceses, no dia 24 de Junho de 1875
foi conhecida a decisão arbitral do Presidente francês MacMahon sobre o território de
Bolama. Em 1876, o Rei Leopoldo da Bélgica convocou a Conferência Internacional de
Geografia, sem que Portugal fosse convidado, dando origem à “Associação Internacional
Africana”, uma entidade destinada a patrocinar a exploração científica do continente afri-
cano, estabelecer vias de comunicação e abolir a escravatura. No mesmo ano, Alemanha e a
França convocam, em Bruxelas, sob os auspícios de Leopoldo II da Bélgica, a Conferência
217 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

Geográfica, sem contudo endereçar convite a Portugal para nela participar. Um ano antes
da Conferência de Berlim, o Reino Unido procurou firmar um Tratado com Portugal, a
fim de resolver as disputas em relação à região contestada no Congo. Finalmente, no dia
7 de Junho de 1884, Bismark rejeitou, por nota, o Tratado do Zaire8. De seguida, outros
7
Ata Geral da Conferência de Berlim. 26 de Fevereiro de 1885, Berlim.
8
O Tratado do Zaire de 1884 foi firmado entre Portugal e a Inglaterra e provocou protestos por parte
da França e da Bélgica, potências com iguais interesses naquela região africana (Costa, 2001, p. 45-
67). Posteriormente, foi rejeitado pela Alemanha e contestado pela França, Holanda e Estados Unidos
da América. A contestação desse tratado resulta da corrida pela partilha de África, envolvido as grandes
potências imperialistas europeias.
Estados, como França, Holanda e EUA, contestaram o mesmo tratado que acabou por não
ser ratificado. É neste contexto de contendas que é organizada da conferência internacio-
nal destinada a resolver as contendas coloniais, em África.
A Conferência de Berlim de 1884-1885 foi um dos mais importantes eventos político-
-diplomáticos para a delimitação das fronteiras coloniais portuguesas e das outras potên-
cias europeias imperialistas realizados na segunda metade do século xix. Esta conferência
regulou as questões do Direito Internacional Colonial. A Conferência institucionalizou o
peso específico e a capacidade de penetração das grandes potências europeias, no interior
de África, inviabilizando definitivamente a tese dos direitos históricos de posse e ocupação.
Para as questões coloniais, os Artigos 34 e 35 da Acta final da Conferência de Berlim ins-
titucionalizam a “Doutrina de Zonas de Influência” e o “Princípio da Ocupação Efectiva”.
Os dois princípios, acima mencionados, foram instituídos pela declaração referen-
te às condições essenciais a serem preenchidas para que ocupações novas nas costas do
continente africano sejam consideradas como efetivas. Estes encontram-se plasmados no
Capítulo VI da Acta Geral da Conferência de Berlim de 1884-1885:

Artigo 34. A Potência que de agora em diante tomar posse de um território nas costas
do continente africano situado fora de suas possessões atuais, ou que, não os tendo tido até
então, vier a adquirir algum, e no mesmo caso a Potência que aí assumir um protetorado,
fará acompanhar a Ata respetiva de uma notificação dirigida às outras Potências signatárias
da presente Ata, a fim de lhes dar os meios de fazer valer, se for oportuno, suas reclamações.

Artigo 35. As Potências signatárias da presente Ata reconhecem a obrigação de assegu-


rar, nos territórios ocupados por elas, nas costas do Continente africano, a existência de
unia autoridade capaz de fazer respeitar os direitos adquiridos e, eventualmente, a liberda-
de do comércio e do trânsito nas condições em que for estipulada.

Tendo em conta os dois dispositivos acima mencionados, a Conferência de Berlim


218 // Geografias & Poéticas da Fronteira. Leituras do Território

consagrou como regra de Direito Internacional o princípio de “uti possidetis jure” do litoral
africano afastando, definitivamente, os denominados “direitos históricos”, defendidos por
Portugal. O