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Revista
de estudos
ibericos
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Coordenação deste número
Rui Jacinto
Alexandra Isidro

Apoio à Coordenação
Ana Margarida Proença

Capa e conceção gráfica


Márcia Pires

Impressão
Marques & Pereira, Lda

Edição
Centro de Estudos Ibéricos
Rua Soeiro Viegas, 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

ISSN: 1646-2858

Depósito Legal:

dezembro 2021

Os conteúdos, forma e opiniões expressos nos textos


são da exclusiva responsabilidade dos autores.
in
di
ce
Esperança, sonho e utopia incorporada no nosso presente 7
Rui Jacinto

TERRITORIALIDADES, PAISAGENS, COMUNIDADES: 13 > 193


UMA ARQUEOLOGIA DO DEVIR
Em torno dos II-I milénios a.C. na Beira raiana (Portugal Central). 15
Representações materiais e imaginadas, frentes e retaguardas,
num movimento perpétuo
Raquel Vilaça
Transpondo o Erges. O delinear de uma abordagem transfronteiriça 49
à paisagem proto-histórica entre o Tejo e o Sistema Central.
Pedro Baptista
Fronteiras auditivas, visuais e locomotoras na definição 69
dos territórios das sociedades do I milénio a.C.
Um caso de estudo no Alto Côa
Marcos Osório
No limiar. Diferentes escalas de análise da arte da Idade do Ferro 95
no limite ocidental da Meseta
Luís Luís
Los temas figurativos del arte rupestre Paleolítico en la Península 117
Ibérica: Estudio estadístico y modelos de distribución
Miguel García Bustos
Megalitismo(s) ― A Serra da Aboboreira como exemplo 139
de comportamento partilhado à larga escala territorial
Denise Maria Lima e Silva
Morir en Poniente. El conocimiento actual acerca del paisaje 161
funerario de la primera Edad del Hierro en el Suroeste Peninsular
Guiomar Pulido González
INOVAÇÃO E TERRITÓRIO 197 > 275

Migrações de Estudantes para as Regiões Periféricas como 199


fluxos de talento e inovação
Madalena Fonseca

Perceção sobre o Potencial da Raia: Uma Leitura 225


aos Olhos da População
Dora Ferreira, José Manuel Sánchez Martín

El Envejecimiento como Reto Actual: Aspectos Sociales 241


y Culturales para la Investigación Cualitativa.
Borja Rivero Jiménez, Luis López-Lago Ortiz, Beatriz Muñoz González,
David Conde Caballero, Lorenzo Mariano Juárez

O Contexto Cabo-verdiano como Ponto de Partida para 255


uma Urgente Reinvenção dos Recursos
Inês Alves, Lara Plácido

EDUARDO LOURENÇO 279 > 351

Prémio Eduardo Lourenço


Galeria de Premiados 280

Carlos Alberto Chaves Monteiro 283


Efrem Yildiz Sadak 287
Delfim F. Leão 289
Pedro Serra 291
Ángel Marcos de Dios 295

Homenagem a Eduardo Lourenço 307


José Manuel dos Santos 309
António José Dias de Almeida 311
Jorge Maximino 313
Fernando Paulouro 317
Rui Jacinto 321
Camila Valéria 343

CEI. ATIVIDADES 2021 255 > 391

Ensino e Formação 357


Investigação 371
Eventos . Exposições . Notícias 382
Edições 388
ESPERANÇA, SONHO E UTOPIA
INCORPORADA NO NOSSO PRESENTE

RUI JACINTO*

A presente edição da Iberografias. Revista de Estudos Ibéricos reflete as ini-


ciativas do Centro de Estudos Ibéricos um ano após nos despedirmos do Profes-
sor Eduardo Lourenço, seu mentor, patrono e Diretor Honorífico. Honrar o seu
legado é acreditar que “a esperança, o sonho, a utopia, que são a sua substância
já incorporada no nosso presente, coabitam connosco e guiam todos os nossos
passos e pensamentos”.
O ano foi marcado pelo lançamento do projeto “Leituras de Eduardo Louren-
ço”, promovido com aquele intuito e destinado a gerar um movimento cultural de
discussão e (re)leitura crítica do seu legado, bem como promover a reflexão em
torno dum pensamento vasto e labiríntico. O CEI associou-se a mais uma homena-
gem a Eduardo Lourenço, realizada em setembro, durante a 1ª Edição da Festa da
Literatura e do Pensamento ― Caravana Literária, e cujas intervenções integram
um capítulo da Revista.
As adversidades naturais inerentes às dificuldades e durezas do quotidiano
são agravadas pelas incertezas dum devir que os tempos de pandemia acentuam.
Embora sinta estes efeitos da crise que atravessamos, o CEI esforça-se para man-
ter os projetos iniciados sem abdicar do compromisso com os territórios mais
débeis nem com uma missão balizada pelo Conhecimento, Cultura, Cooperação.
Dois capítulos estruturantes desta edição testemunham este compromisso: oito
artigos analisam múltiplas facetas da arqueologia nos territórios da Raia Ibérica
Central; quatro textos abordam temas fulcrais para o desenvolvimento regional e
local: os fluxos de talentos e a inovação; o potencial da Raia percecionada pela
população; os aspetos sociais e culturais associados ao envelhecimento; a neces-
sidade de reinventar, criando valor aos recursos locais.
A certeza que “o caminho fica longe”, que importa enfrentar os desafios assumi-
dos e continuar a honrar a memória de Eduardo Lourenço o CEI só pode continuar
a alimentar “a esperança, o sonho, a utopia” “incorporada no nosso presente”.

*
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território e Centro de Estudos Ibéricos.
Territorialidades,
Paisagens,,
Comunidades::
uma Arqueologia
do devir
TERRITORIALIDADES, PAISAGENS,
COMUNIDADES: UMA ARQUEOLOGIA
DO DEVIR

RAQUEL VILAÇA

Longe vai o tempo em que a investigação arqueológica encarava o espaço


como mero contentor, como cenário, circunscrito à sua condição física. Ultrapas-
sada essa visão dualista (sujeito-objecto) e naturalista, o espaço passou a ser
percebido numa perspectiva relacional, culturalista. Não há espaço sem huma-
nos, não há espaço sem movimento.
O espaço transformou-se em lugar, com sítios e paisagens carregados de
sentidos e significados, com os quais se estabelecem relações emocionais, com
memórias sociais e individuais fomentadoras de identidade (Tilley, A Phenome-
nology of Landscape, 1994). Geram-se sentimentos de pertença entre os huma-
nos, criam-se territorialidades entrelaçadas por redes de lugares e fronteiras
(físicas, conceptuais, simbólicas). Às dimensões da existência humana subjaz a
articulação de escalas.
Entre as muitas formas de fazer arqueologia — todas legítimas quando são bem
feitas — conta-se o trabalho de terreno. A par da realização de escavações, o nú-
mero de prospecções arqueológicas enquanto método científico tem vindo a co-
nhecer, já neste século, particular desenvolvimento. É esse trabalho de terreno que
emana dos sete textos reunidos neste dossier temático sobre Pré e Proto-história.
Apresentam-se as perspectivas de distintos investigadores e os resultados
de diversos trabalhos concluídos ou em curso, com particular ênfase para estes
últimos, enquadrados em projectos de doutoramento (e outros) desenvolvidos
nas Universidades de Coimbra e de Salamanca, ou que incidem numa área geo-
gráfica particular de perfil transfronteiriço: a Beira Interior.
O objectivo deste dossier é, justamente, o de demonstrar a riqueza temática e
as potencialidades metodológicas subjacentes a essa forma de fazer arqueologia,
quando o laboratório do cientista-arqueólogo é o próprio campo. O leitor encon-
trará contributos que diferem nas temáticas e problemáticas, nas metodologias e
ferramentas interpretativas, nas geografias e temporalidades. Contemplando co-
munidades muito distintas do ponto de vista social, económico e ideológico, é no
seu devir — o do ser e o do tornar-se —, que nelas se fixa com sentido perscrutan-
te, necessariamente de forma difusa e intermitente, o olhar do arqueólogo.

Novembro de 2021
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C.
NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL).
REPRESENTAÇÕES MATERIAIS E
IMAGINADAS, FRENTES E RETAGUARDAS,
NUM MOVIMENTO PERPÉTUO
RAQUEL VILAÇA*

1. PONTO DE PARTIDA E ALGUMAS REFLEXÕES


1
As reflexões contidas neste texto giram em torno do conceito de fronteira,
conceito que, é sabido, reveste-se de um sentido semântico muito rico, com
um percurso que se foi conceptualizando diferencialmente em função também
das diversas ciências sociais, podendo aplicar-se em domínios diversos e com
imensos desafios de abordagem.
O mais comum, o da sua dimensão político-administrativa, é algo anacróni-
co para as realidades que pretendemos analisar, que remontam aos II e I milé-
nios a.C. da Beira Interior. Mas já o conceito de fronteira como sinónimo do de
limite, e apesar de, justamente, poderem ter leituras algo distintas, parece ser
adequado como instrumento analítico na construção do conhecimento no que
à Pré e Proto-história diz respeito.
Tomamos como caso de estudo dessas realidades as produções cerâmicas
de excepção desta região, sem negligenciar, todavia, outros marcadores cultu-
rais. Tais cerâmicas são definidas pela perícia subjacente aos seus fabricos e
técnicas decorativas, para além do seu exotismo e do seu carácter residual em
todos os contextos observados.
Mas a questão da fronteira pode colocar-se igualmente em termos meto-
dológicos quando se analisam essas e outras categorias arqueográficas, trans-
fronteiriças ou não. O estudo separado, portanto, com fronteira, e exaustivo
de cada uma dessas entidades — fixas e móveis, artefactuais e construídas

*
Univ Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Arqueologia, CEAACP. rvilaca@fl.uc.pt
A autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990.
1
A versão inglesa deste texto estará disponível no livro resultante do Colóquio Internacional Romper fron-
teiras, atravessar territórios. Identidades e intercâmbios durante a Pré-história recente no interior norte da
Península Ibérica (Porto, 23-24 de Setembro de 2021, CITCEM - Grupo de investigação “Território e Paisagem”),
coordenado por Maria de Jesus Sanches, Helena Barbosa e Joana Teixeira.
16 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

—, que constituem a matéria-prima da “fábrica” do investigador-arqueólogo,


é absolutamente necessário. Essa análise atomizada permite dissecar em pro-
fundidade as características de cada uma, por exemplo quando estudamos um
tipo particular de cerâmica ou de arquitectura, mas empobrece a indispensável
visão de conjunto, digamos molecular. É essa perspectiva agregadora, sem
fronteiras, que consente o estabelecimento de elos de ligação, definir suas
potenciais combinatórias, perscrutar significâncias possíveis. Nesse processo
heurístico procura-se a arte do encontro entre entidades independentes, mas
não isoladas, e as linhas indispensáveis que as cosem — com que as cosemos
—, que lhes dão tessitura consistente, mas maleável.
Por outro lado, a noção de fronteira arrasta consigo a de território e a cons-
trução de territórios implica a necessidade de marcar barreiras, contornos,
físicos ou simbólicos, ou seja, não há fronteiras sem identidades territoriais.
E essas identidades só existem se e quando colocadas em relação com os
“outros”, com outras identidades. Como defini-las, como expressá-las? Quais
as formas de as materializar e de as representar quando falamos de socieda-
des sem escrita, essas que viveram naqueles dois milénios que antecederam a
nossa era? Eis um dos desafios maiores que nos interpela.
O grau de dificuldade é diverso e estabelece-se logo na posição de partida.
Se procurarmos grupos culturais pré-definidos com contornos estáveis,
moldurados geograficamente e modelados por um somatório de itens que se
especificam relativos aos sistemas de povoamento, às práticas funerárias, à or-
ganização sócio-política e económica, aos tipos de materiais, de crenças e até
de valores, e se lhes atribuirmos um nome, percorremos o caminho mais fácil
para encontrar identidades culturais, delimitá-las com fronteiras e represen-
tá-las cartograficamente. A esta posição que reclama grupos independentes
de recorte geográfico, com base em materialidades como marcadores iden-
titários culturais ou, por vezes, até de matriz étnica, assumindo-se a sua re-
presentação através de uma fronteira-linear (Fig. 1 A e B) (SENNA-MARTINEZ et
al., 2011: 412-413 e fig. 1 e 2; SILVA, 2005: II, mapa 7), valorizamos antes como
abordagem alternativa a que procura compreender, em vez de grupos culturais
ou étnicos discretos, dinâmicas culturais, com suas tensões e conflitualidade
internas, com suas inter-acções e mobilidades. Essas não têm como se repre-
sentar porque são abertas.
Problema distinto é o da importância, e indispensabilidade, da cartogra-
fia na reflexão arqueológica. Sendo imperfeitas, porque sempre incompletas
e deformadas, cativas do grau de visibilidade e conservação dos dados, do
avanço e rectificação do conhecimento, as cartas de distribuição de sítios e
achados facilitam na aproximação à demarcação de áreas de concentração,
de pontos dispersos, de vazios, de zonas indefinidas. E como a cartografia dos
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
17
Raquel Vilaça

sítios e materiais do quotidiano é ou pode ser distinta da dos materiais e locais


de excepção, e podendo ainda a distribuição de uns e de outros divergir da
do domínio da esfera ideológica, também ela identitária, logo aí se traçariam
fronteiras com limites necessariamente não sobreponíveis.

Fig. 1.
A. Delimitação da área do Grupo Cultural Baiões/ Santa Luzia
(segundo SENNA-MARTINEZ et al., 2011, fig. 1, adaptado);
B. Localização dos populi da Beira Interior (segundo SILVA, 2005, mapa 7)

Assim, esboçam-se espaços com nuvens de pontos, com pontos alinhados,


sem pontos, portanto de densidade heterogénea. A gradação desse pontea-
do tem sido igualmente mote para a criação de modelos culturais com zonas
nucleares, as mais densas, zonas de contacto, as mais esbatidas, e ainda as
regiões ditas exteriores (Fig. 1 C) (ABARQUERO MORAS, 2005, fig. 20; 2012). Neste
tipo de exercício podemos entrever fluxos entre regiões, troca de bens e de
matérias-primas, podemos delinear áreas de diferenciação territorial traduzíveis
em fronteiras-estilísticas, mas ir mais além quando exploramos as fronteiras de
sociedades agrafas, não estatais, pode transformar-se num exercício de risco
elevado, ou até mesmo com representações imaginadas.
18 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 1.
C. Dispersão dos achados cerâmicos relacionados com Cogotas I. Zona Nuclear (mancha mais
escura) e Zona de Contacto (mancha mais clara) (segundo ABARQUERO MORAS, 2005, fig. 20,
adaptado)

A natureza das fronteiras tem também implicação no modo como se per-


cepciona(ria)m e se assinala(ria)m. Físicas ou naturais, conceptuais, emocio-
nais e culturais, oferecem níveis de visibilidade muitíssimo variável, para nós e
para aqueles que estudamos.
O traçado da fronteira faz-se de modo linear, com o mur(o)alha que sepa-
ra os de dentro dos que estão do outro lado, convidando à transgressão ou
impondo respeito, portanto no limbo da estabilidade. Faz-se com o percurso
do rio, que pode oscilar, extravasando o seu leito, desviando-o ou anulando-o
consoante o caudal e, com ele, aquela vai variando; mas também há “rios que
unem” (RIBEIRO, 1986: 141), conectando as margens, além de serem grandes
eixos de mobilidade. Faz-se com a linha do horizonte riscada sobre o maciço
montanhoso, todavia com mutações em função da luz do dia e das estações do
ano, da altura das nuvens e neblinas.
Em alguns casos as fronteiras naturais são reforçadas com marcadores
antrópicos. Assim entendemos, por exemplo, o caso da linha de festo da
serra do Ralo (Celorico da Beira), de grande impacto paisagístico (Fig. 2 A), e
das duas estelas nela encontradas, perto uma da outra, estelas conceptual —
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
19
Raquel Vilaça

uma enaltece o valor guerreiro, a outra ignora-o — e talvez cronologicamen-


te diferenciadas que conferem espessura temporal ao lugar (Fig. 2 B e C).

Fig. 2.
A. Serra do Ralo (Celorico da Beira) (vista aproximada de Oeste/Sudoeste),
com indicação do local de achado das estelas
B e C. Estelas 1 e 2 de Pedra da Atalaia (fotos de Danilo Pavone)
20 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Estruturando-se como barreira num horizonte linear, constituindo uma


fronteira natural, a serra poderá ter demarcado territórios de comunidades
vizinhas (VILAÇA et al., 2011: 309-310). Vizinhas, mas não apartadas, porquan-
to as duas estelas, ao mesmo tempo que assinalariam um lugar de referência
para as comunidades, i.e., com “sentido de lugar” (FELD e BASSO, 1996: 11),
transformavam-no num lugar-fronteira. As fronteiras também podem (re)unir,
também podem aproximar.
As fronteiras conceptuais definidas por um grupo ou um conjunto de grupos
que se autorreconhecem como identidade diferenciada de outros (no domínio
económico-social ao político, do ideológico ao material, ou com tudo isto in-
corporado), i.e., com consciência e sentido de pertença (com um ethnos), difi-
cilmente se apreendem quando não temos textos nem os protagonistas para
dialogarmos. Essa consciência nem sempre teria de se expressar materialmen-
te (v.g. com tipos de artefactos, com modos de construir), tal como as mesmas
materialidades poderiam ser assimiladas por grupos distintos, grupos que pro-
curariam através de outros elementos intangíveis (v.g. divindades, condutas de
acção, valores) a sua diferença. A Etnoarqueologia assinala múltiplos exemplos
(v.g. HODDER, 1982), os quais poderão ser tomados como "inspiradores", mas
não como elementos directos de comparação entre o passado e o presente.
E, mesmo quando os textos existem, os riscos permanecem. Essa dificulda-
de transparece, por exemplo, das propostas dissonantes e irresolúveis feitas
por alguns investigadores — seguindo em boa parte os inspiradores e prístinos
trabalhos de Jorge de Alarcão, que se ultrapassa a si próprio com argumenta-
ção renovada (v.g. ALARCÃO, 2001; 2005) — no sentido de fixarem em sub-re-
giões com fronteiras demarcadas os diversos populi da Beira Interior referidos
em fontes escritas romanas e identificados com os Lusitanos (Fig. 1 B).
Mas aquela dificuldade, para além de decorrer do facto de pensarmos
que uma fronteira não deverá ser encarada como uma entidade estática, mas
oscilante, em função dos processos de inter-acção entre as comunidades (VILA-
ÇA, 2004: 52), resultará de um outro potencial factor: a hipótese de os limites
territoriais de cada grupo, mesmo se admitirmos uma certa estabilidade, não
se tocarem necessariamente entre si, ou seja, os distintos grupos estariam
separados por “no man’s land”, correspondendo a zonas destituídas de qual-
quer autoridade territorial (VILAÇA, 1995: 411),
Deveremos, pois, admitir a existência de mecanismos sociais de auto-regu-
lamentação por parte e entre grupos vizinhos, mecanismos que dariam origem
a franjas esbatidas e neutrais entre territórios, quer dizer, a terras de ninguém,
a “zonas tampão” (VILAÇA, 2004: 52). A fronteira de um não teria de coincidir
com a de outro, portanto a fronteira pode desdobrar-se numa linha avançada
e noutra de retaguarda. Assim, essa “almofada” territorial refrearia tensões,
sem, porém, as eliminar, ao mesmo tempo que proporcionaria condições para
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
21
Raquel Vilaça

o desenvolvimento controlado de (re)ajustes necessários. É justamente por


isso, pelas contradições e dialética inerentes aos grupos humanos, à sua re-
produção social, que não procuramos nem fronteiras estáveis nem fronteiras
traçadas com nitidez. Com baixa ou nula densidade de ocupação, essas franjas
de dimensão variável e elas próprias sujeitas a reconfigurações, sendo tenden-
cialmente neutrais, transformam-se no que podemos entender por fronteiras-
-passagem, permeáveis e com fluxos a diferentes escalas, embora de reduzida
visibilidade para o investigador.
Em suma, qualquer um dos planos aqui elencados — e foram-no só alguns
—, desde o mais convencional de âmbito político-administrativo, definido por
uma linha, ao cultural, que pode captar diferenças sem as conseguir fixar, a
fronteira é sempre uma construção, uma simulação: a realidade de uma fron-
teira é criada pelo significado que lhe é atribuído (HOUTUM, 2011: 50). Ou, se
quisermos, a fronteira foge à realidade, porque cada um apreende a sua reali-
dade. Assim sendo, os limites que estabelecemos e os sentidos que lhe damos
não têm, claro é, de ser os mesmos das entidades pretéritas — pessoas, objec-
tos, espaços e ideias —, tudo em conjunto, em (inter)acção, em que se perdem,
também aí, as fronteiras.
Se nos posicionamos na procura do entendimento das dinâmicas sociais,
então talvez faça mais sentido raciocinar em função não de fronteiras, mas de
processos de fronteirização num sentido sociológico (CARDIN e ALBUQUERQUE,
2018: 123). Estes e aquelas são, por natureza, abertos, não se deixando apri-
sionar num mapa ou num rol de itens que lhe traça um qualquer perfil. Esses
processos são movediços, reconfiguráveis, num perpétuo movimento.

2. UMA TESE E SEUS FUNDAMENTOS


Vinte anos passaram desde a publicação da primeira síntese onde se de-
fendeu para a Beira Interior a existência de processos de confluência e hibri-
dez cultural, no Calcolítico ( III milénio a.C.) e Bronze Final ( finais do II-inícios
do I milénio a.C.) (VILAÇA, 2000: 174, 178). Em textos posteriores o assunto foi
retomado com maior desenvolvimento (VILAÇA, 2005: 21-22; 2013a: 213-215),
tendo-se também assumido que esta faixa raiana entre o Douro e o Tejo foi
uma região de elevada permeabilidade, de transgressões culturais; dito de
outro modo, nela cabem muitas Beiras, que superam qualquer dimensão geo-
gráfica e lhe incutem um carácter multifacetado: a “Beira atlântica”, a “Beira
mesetenha”, a “Beira extremenha”, a “Beira mediterrânea”. Ao mesmo tempo,
advogou-se que esses fenómenos culturais de mestiçagem se desenrolaram
na longa duração, pelo menos desde o Calcolítico (2008a: 165-168). Mas esta
perspectiva não pode ser traduzida num fenómeno de tendência regular ao
22 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

longo dos III, II e I milénios a.C., desde logo pela insuficiência dos dados numa
ampla região com imensos vazios que fragmentam qualquer narrativa inscrita
no tempo linear.
Mas a tese, que tem como lastro distintas evidências empíricas resultantes
na sua esmagadora maioria de projectos próprios, ou de colaboração, focou-
-se em particular nos finais do II milénio a.C. e inícios do seguinte. Já antes,
uma das conclusões a que se chegara foi a de que se teria verificado uma
ausência de continuidade ocupacional entre o Bronze Médio e o Bronze Final
e entre este e a I Idade do Ferro, pelo menos nas áreas central e meridional da
Beira Interior mais intensamente exploradas (VILAÇA, 1995). Sublinhamos que
esta última consideração se reportava à I Idade do Ferro e não à Idade do Ferro
em termos genéricos. E, evidentemente, essas observações encontravam-se
condicionadas pelo estádio dos nossos conhecimentos da altura.
Questionava-se então se teria havido uma concentração populacional com
2
novos núcleos habitados, criados ou não de raiz, se esses povoados permane-
ceriam nos mesmos territórios dos do Bronze Final, ou se teria havido ocupa-
ção de novas terras antes não valorizadas (VILAÇA, 1995: 423). Por outras pala-
vras, ponderava-se se as descontinuidades na ocupação de povoados seriam
também acompanhadas por uma ruptura do modelo de ocupação do espaço.
O problema colocava-se ainda na definição de balizas cronológicas, na medi-
da em que se desconheciam testemunhos a nível arqueográfico caracterizadores
de uma I Idade do Ferro. Essa indefinição foi contornada através de um conceito
de recurso, logo provisório, o de “Proto-história Antiga”, que se aplicou às si-
tuações claramente anteriores aos sécs. V-IV a.C., mas não indiscutivelmente
inseríveis no Bronze Final, i.e., sécs. XII-IX a.C. (VILAÇA, 2000: 174, 176).
As questões para as quais este texto procura agora algumas respostas é
se existem motivos para manter as ideias antes expressas, se aquele perfil
culturalmente multifacetado deve ser reforçado ou reconsiderado, se é ou não
sustentável separar um Bronze Final de uma I Idade do Ferro, se o Bronze Final
emerge sem elos explícitos e directos de ligação à fase que o precedeu, se
prevalecem rupturas ou continuidades, seja em termos específicos dos lugares
habitados, seja do povoamento mais geral.
As respostas avançam-se já e argumentam-se a seguir.
Sim, a emergência de sítios do Bronze Final parece poder continuar a colo-
car-se num cenário sem pré-existências ocupacionais, ou, a terem-se verifica-
do — como já antes se reconheceu —, mediaram muitos séculos de abandono,
quer dizer, essas ocupações não são sequenciais. Não só não se conhecem
novidades inequívocas que alterem este quadro, como parece verificar-se
idêntico fenómeno no Norte da Beira Interior conforme transparece de síntese
recente (CARDOSO, 2014: 93).

2
Conceito utilizado de modo generalista e englobando situações muito distintas, correspondendo, tão-só a
lugares onde se viveu.
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
23
Raquel Vilaça

Sim, justifica-se falar numa I Idade do Ferro na região, para a qual existem
evidências empíricas a valorizar — vejam-se em especial os casos de Vila do
Touro (Sabugal), Cabeço das Fráguas (Guarda) e Cachouça (Idanha-a-Nova) —,
pelo que aquele conceito provisório perdeu o seu prazo de validade, ou, a
manter-se, que seja tão-só como reserva para situações dúbias. Este é um dos
campos mais ingentes da Proto-história da Beira Interior. A título de exemplo
entre essas evidências empíricas podem ser referidas as "cerâmicas peinadas"
de Vila do Touro (em estudo) e da Cachouça (VILAÇA, 2007), ou as cerâmicas
de fabrico a torno de matriz orientalizante deste último sítio (Vilaça e Basílio,
2000), ou as fíbulas de tipo Alcores e de tipo Bencarrón daquele primeiro (PON-
TE et al., 2017).
E sim, há motivos para continuar a defender, e reforçar, a ideia de que na
Beira Interior desenvolveram-se dinâmicas sociais multifacetadas com abertura
transcultural e transregional, e na longa diacronia, para as quais é agora possível
aduzir novos elementos que se estendem pela Idade do Ferro adentro.
Antes de passarmos à fundamentação, que privilegiará, como referimos no
início, apenas determinadas categorias de cerâmicas, importa lançar um breve
olhar sobre alguns dos traços naturais da região e da sua individualidade; impor-
ta porque lhes reconhecemos papel especial nos processos de inter-acção, de
“fronteirização”, das comunidades beirãs, as residentes e as de passagem.
Os traços geo-estratégicos da Beira Interior e a sua caracterização encon-
tram-se sistematizados em distintos trabalhos da autora (v.g. VILAÇA, 1995:
66-74; 2013a: 193-196), pelo que salientamos aqui apenas algumas linhas de
força: i) o posicionamento no interface litoral/ interior, entre o mundo atlântico,
a continentalidade mesetenha e, a sul, a “frente” peninsular mediterrânea; ii) a
partilha de territórios onde quase se tocam as bacias dos principais rios ibéri-
cos (Douro e Tejo) que correm em direcção ao Atlântico ocidental; iii) a orienta-
ção cruzada entre aqueles eixos fluviais — nascente/ poente — e os respectivos
afluentes — sul/ norte e norte/ sul; iv) o profundo contraste geomorfológico, com
planaltos e planícies a perderem-se de vista, com serras e montanhas rasgadas
por passagens naturais que se convertem em “corredores de circulação”; v) a
existência de cabeços isolados moldados pelo granito, que emergem amiúde,
consubstanciando expressivos marcadores referenciais, frequentemente antro-
pizados; vi) a diversidade e complementaridade de recursos de montanha, de
floresta, de planície, dos rios, proporcionando alimento e materiais de constru-
ção; vii) a particularidade ao nível de outros recursos estratégicos com repercus-
são trans-regional, em concreto os principais elementos da paleta de minerais
metálicos, aluvionares ou não: estanho, sobretudo (v.g. ribeira da Gaia, Guarda
e Alto Zêzere), cobre (v.g. Quarta Feira, Sabugal, Vila Velha de Ródão), ouro (v.g.
Alto Zêzere, Erges, Águeda), chumbo (v.g. Almofala, Figueira de Castelo Rodrigo)
e ferro (v.g. Salvador, Penamacor).
24 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Estes sete eixos que configuram na nossa visão o perfil da Beira Interior
enquanto região global, mas com toda a sua heterogeneidade interna, não
poderão ter deixado de se repercutir nas comunidades que aí habitaram e na
sua autonomia, bem como nas pessoas que nela se movimentaram em dis-
tintas direcções e, evidentemente, com ritmos de intensidade muito variável.

3. UM PERCURSO PELAS CERÂMICAS


Avaliemos então, e apoiando-nos nas cerâmicas, o peso argumentativo das
respostas supra-apontadas.
Embora o estudo de cerâmicas seja muito exigente no tempo que toma ao
investigador, é de importância inequívoca para aceder ao conhecimento das
técnicas de produção, das práticas de armazenagem, dos hábitos de prepara-
ção e consumo de alimentos, das redes de trocas das comunidades pretéritas,
etc. Por outro lado, as identidades estilísticas de determinadas cerâmicas reve-
lam diferenciação no modo de fazer, de conceptualizar, de expressar sensibi-
lidades estéticas, de marcar identidades e estratégias dos grupos (v.g. a nível
etário, de género, étnico) certamente também, e podem revelar-se ainda, para
o investigador, importantes marcadores crono-culturais.
A investigação em curso conjugada com o conhecimento produzido desde
o último quartel do séc. XX permite reconhecer para a Beira Interior um con-
junto de cerâmicas de particular personalidade estilística, de fácil reconheci-
mento pela sua feição, i.e., na simbiose da forma, das pastas, das técnicas e
composições decorativas, que lhes dão expressão textural, plástica, cromática,
visual. Utilizando as designações consagradas no vocabulário arqueológico,
elencamos como mais expressivos os seguintes grupos: cerâmicas de “tipo
Cogeces ou proto-Cogotas”, de “tipo Cogotas I”, de “tipo Lapa do Fumo”, de
3
“tipo Baiões”, de “tipo Carambolo”, cerâmicas “peinadas” ou “a peine” , cerâ-
micas a torno de matriz “orientalizante”.
Importa deixar claro que estas categorias não são representativas do uni-
verso cerâmico da região em apreço; pelo contrário, uma vez que todas elas,
independentemente das cronologias e da natureza dos sítios de proveniência,
são sempre minoritárias, por vezes residuais, nos respectivos contextos. Os
seus estilos e o seu registo percentual permitem classificá-las como cerâmicas
de excepção, independentemente de se tratar de importações, de produções
locais, de imitações, de re-invenções.

3
Optámos por manter a designação espanhola, distinguindo assim essas cerâmicas, da Idade do Ferro, das
cerâmicas “penteadas” calcolíticas; evitam-se equívocos, não raros quando alguns autores se referem a
cerâmicas penteadas sem as ilustrarem.
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
25
Raquel Vilaça

É também evidente, através da leitura da cartografia, que elas não se dis-


tribuem nem de modo homogéneo nem aleatório. Verificam-se tendências ao
mesmo tempo que são muitas as manchas vazias cujo significado pode e deve
ser diverso. Os dados reportam os resultados do que se conhece e estuda
e o que se tem estudado concentra-se essencialmente em três áreas, que a
síntese de 2005 já configurava: o baixo Côa, incluindo a área planáltica e mon-
tanhosa ocidental delimitada pelo Távora; a região da Guarda/ Sabugal, com
particular incidência nesta última; e a Plataforma de Castelo Branco (VILAÇA,
2005: fig. 1). Assim, se é prematuro avaliar o pleno significado dos grandes va-
zios que se registam no médio Côa, na zona entre o Côa e o Águeda (aqui com
“invasão” em território espanhol), ou no alto Zêzere, por exemplo, é também
imprescindível continuar a aprofundar, para consolidar ou rectificar, as leituras
desenvolvidas até ao momento.

CERÂMICAS DE “TIPO PROTO-COGOTAS” E “COGOTAS I”

Muito recentemente, foi possível fazer uma re-avaliação genérica das cerâ-
micas de “tipo proto-Cogotas” e “Cogotas I” na Beira Interior, a propósito do
estudo do sítio de Caria Talaia (Sabugal), com ocupação atribuível a meados
da segunda metade do II milénio a.C. e onde se recolheu, entre outros, um
expressivo recipiente de provável origem alógena (Fig. 3) (VILAÇA et al., 2020,
com bibliografia específica).

Fig. 3. Recipiente cerâmico de tipo Cogotas I de Caria Talaia (Sabugal)


26 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

É importante frisar que o reconhecimento de um sítio como este, alcan-


tilado e sobranceiro ao Côa, com ocupação atribuível à transição do Bronze
Médio para inícios do Bronze Final, nunca tinha ocorrido no Centro/ Sul da
Beira Interior. Deste modo, teremos de admitir que um dos mais expressivos
processos de territorialização desta região, que os povoados de altura e de
forte impacto visual do Bronze Final tão bem representam enquanto marcos
referenciais e identitários das comunidades (v.g. VILAÇA, 2000: 171; VILAÇA e
BAPTISTA, 2020: 26-28) poderá, afinal, ter tido a sua génese algum tempo an-
tes. Há que procurar, futuramente, outras situações que nos permitam avaliar
melhor esta consideração.
O tratamento conjunto daqueles dois tipos cerâmicos, com características
e cronologias, é certo, bem distintas, mas também com traços estilísticos resi-
lientes, distendidos ou reinventados ao longo do II milénio a.C., justifica-se em
parte porque a débil qualidade de alguns contextos (vários são os achados em
contexto de prospecção), ou a inexistência de dados publicados, nem sempre
proporcionam a segurança necessária para uma apreciação mais fundamenta-
da. Neste sentido, optámos também por não incluir toda a informação.
A sua distribuição com cerca de uma vintena de registos (Fig. 4) retrata as
considerações feitas no penúltimo parágrafo e o conhecimento de alguns dos
contextos de proveniência ou de deposição permite dizer que não se vincu-
lam a uma categoria específica de sítios. É verdade que sobressaem, cobrindo
genericamente todo o entre Douro e Tejo, os lugares considerados povoados,
com distinta variabilidade a nível cronológico, funcional e geo-morfológico,
ainda que frequentemente em cumeadas e lugares proeminentes e em regra
também de forte impacto visual, insistimos.
Depois, é fundamental sublinhar a especificidade da sua presença nos sí-
tios designados “recintos”, circunscritos à Beira transmontana (Castelo Velho
de Freixo de Numão e Castanheiro do Vento), no caso intensamente escavados
e onde podemos também encontrar os exemplares cerâmicos mais antigos de
âmbito proto-Cogotas (CARNEIRO, 2011; PEREIRA, 1999).
Por fim, importa chamar a atenção para a ausência, até ao momento, de sí-
tios de fossas com este tipo de cerâmicas, sítios e cerâmicas tão peculiares nos
contextos mesetenhos. A situação da Beira Interior deverá ser uma das “falsas
realidades” — arriscamos dizê-lo —, porque a explicação não poderá deixar de
estar associada às circunstâncias e condicionalismos dos (não) achados; veja-
-se, a propósito, o caso do sítio de fossas do Picoto (Guarda), mas já da Idade
do Ferro (sécs. VI-V a.C.), que nunca ou dificilmente teria sido detectado não
fora a construção do actual IP2 (PERESTRELO et al., 2003).
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
27
Raquel Vilaça

Entre os sítios de altura com cerâmicas de tipo Cogotas I, i.e., do Bronze


Final, encontra-se Vilar Maior (Sabugal) onde estas correspondem ao conjunto
mais numeroso e diversificado da Beira Interior (Fig. 5) (PERNADAS et al., 2016).
E, pela sua singularidade geográfica, porque a sul da Cordilheira Central, refi-
ram-se os casos do Monte do Frade (Penamacor) e da Moreirinha (Idanha-a-No-
va), onde aquele tipo de cerâmicas está presente, embora de modo residual
(VILAÇA, 1995: 154-155, 158, 231-233, est. LXXXIX-5, CV-2, CCXXIII-3). Neste
último, novos achados em curso de estudo permitirão aduzir outras reflexões.

Fig. 4. Carta de distribuição de cerâmica de tipo Proto-Cogotas e Cogotas I da Beira Interior


28 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 5. Cerâmica de tipo Cogotas I de Vilar Maior (Sabugal)

Em síntese, e nesta necessariamente muito sumária revisão do assunto,


parece fazer sentido notar que distintas comunidades ao longo do II milénio
a.C., com contextos sócio-económicos e ideológicos igualmente diversos, ma-
nipularam cerâmicas com um lastro estilístico comum e persistente, cerâmi-
cas justamente consideradas propícias a serem emuladas (BLANCO GONZÁLEZ,
2015: 47), mas das quais não transparece, nem seria necessário que transpa-
recesse, qualquer significado unitário do ponto de vista cultural (VILAÇA et al.,
2020: 112). Ainda assim, assinalam o que há de mais expressivo a nível das
materialidades da Idade do Bronze da parte ocidental da Meseta espanhola
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
29
Raquel Vilaça

que se estendem deste modo algo difuso e abrangente, mas não aleatoria-
mente, através da Beira Interior.

CERÂMICAS DE “TIPO BAIÕES”

Ao contrário daquelas cerâmicas, as de “tipo Baiões” identificadas inicial-


mente nos Alegrios (Idanha-a-Nova), nunca mereceram uma análise de conjunto.
Neste caso, foi possível caracterizar o seu contexto muito particular, um abrigo
natural, por certo de cariz ritual e onde o fogo parece ter desempenhado papel
importante (VILAÇA, 1995, 166; VILAÇA, 2013: 205, fig. 10).
Como se sabe, estas cerâmicas correspondem a um tipo estreitamente vin-
culado à Beira Central e a um dos sítios mais surpreendentes do Bronze Final
4
— Nossa Senhora da Guia de Baiões —, que lhe dá o nome .
A nível da gramática decorativa, na qual se contam mais de 50 padrões/
composições, partilha com outros grupos cerâmicos coevos (v.g. cerâmicas de
“tipo Lapa do Fumo” e de “tipo Carambolo”) a mesma matriz conceptual e
estética de recorte geométrico (Fig. 6), que também se replica no bronze e no
ouro (VILAÇA, 2013a: 214; VILAÇA et al., 2018: 58). Mas distancia-se radicalmen-
te destas pela técnica utilizada, que é a incisão pós-cozedura (embora também
se verifiquem casos em que a incisão é feita na pasta crua, mas numa fase de
extrema secura).
Esta peculiaridade técnica permite pensar, pelo menos como hipótese teórica,
que a cadeia de produção destas cerâmicas poderia desdobrar-se não só em dois
momentos sequenciais — manufactura e decoração —, mas a dois tempos com in-
tervalos distantes e interrompidos entre si. Ou seja, estas cerâmicas poderiam ser
produzidas, manipuladas e circular sem decoração, ocorrendo esta somente em
fase posterior e em espaços diferenciados, e até mesmo com outros intervenien-
tes, i.e., com outras histórias. Este distanciamento, se não provável, pelo menos
possível, permite encarar esta categoria de cerâmica de modo muito particular.
Os registos efectuados na Beira Interior e seus contextos (Fig. 7) dizem-
-nos ainda três coisas: que a sua ocorrência é muito escassa, que o número
5
de recipientes/ fragmentos por sítio é residual, que a sua distribuição é mais
expressiva em redor dos contrafortes orientais da serra da Estrela e a sul da
Malcata. Admitindo que elas deverão traduzir conexões entre a região onde
são mais expressivas e a que ora se analisa, é óbvio que estamos perante
percursos não só distintos como opostos aos que associamos às cerâmicas de
“tipo Cogotas I”.

4
Veja-se sobre o assunto síntese recente (VILAÇA, 2020).
5
Para o Cabeço das Fráguas não existe informação disponível, referindo-se genericamente a sua presença
(SANTOS e SCHATTNER, 2010: 103).
30 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 6. Cerâmica de tipo Baiões da Beira Interior: 1 e 2 Cachouça (Idanha-a-Nova); 3, 4 e 8 Alegrios


(Idanha-a-Nova); 5 Castelo Velho (Louriçal); 6 e 7 Monte Verão (Guarda); 9 Vilar Maior (Sabugal).
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
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Raquel Vilaça

Fig. 7. Carta de distribuição de cerâmica de tipo Baiões da Beira Interior

CERÂMICAS DE “TIPO CARAMBOLO”

Percorrendo agora o olhar pela distribuição da cerâmica de “tipo Carambo-


lo” (Fig. 8), que situamos entre o Bronze Final e a I Idade do Ferro com base em
bons contextos e datações absolutas (VILAÇA et al. 2018: 80-84), verifica-se,
no essencial, grande proximidade numérica dos registos e do mesmo padrão
de distribuição das cerâmicas de “tipo Baiões”, coincidência tão interessante
quanto o facto de sabermos serem as raízes de ambas igualmente bem di-
ferenciadas geográfica e culturalmente (estas da Beira Central e aquelas do
Baixo Guadalquivir).
32 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 8. Carta de distribuição de cerâmica de tipo Carambolo da Beira Interior

Designamos daquele modo as cerâmicas com pintura a vermelho conscien-


tes de que se trata de um conjunto não só com especificidades em relação ao
tipo próprio do Baixo Guadalquivir — por exemplo, estão completamente au-
sentes, entre outros, a decoração barroca e figurativa tão presente na região
andaluza —, como heterogéneo no seu todo e em cada contexto, o que se
verifica em especial nos casos da Moreirinha e de Vila do Touro (Fig. 9) (VILAÇA
et al. 2018).
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
33
Raquel Vilaça

Fig. 9. Cerâmica de tipo Carambolo da Beira Interior: 1 e 2 Vila do Touro (Sabugal);


4 e 5 Moreirinha (Idanha-a-Nova); 3 Cabeço da Argemela (Fundão).

Não obstante, o conjunto beirão comporta um lastro transversal pautado


por elevada qualidade de fabricos, com formas regionais sempre de pequena
capacidade volumétrica, as quais só poderiam ter servido para conter subs-
tâncias em quantidade ínfima e, nessa medida, também certamente raras e
de elevado valor social em sintonia, de resto, com os custos de fabrico. De
igual modo, a decoração, absolutamente dominada pela cor vermelha (de dis-
tintos matizes) e de traço linear geometrizante, confere identidade estilística
própria, embora também deva ser referida a existência de recipientes com a
34 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

aplicação compacta de pintura sobre as superfícies. Em termos técnicos, um


aspecto especial de elevado interesse foi o reconhecimento de que a decoração
pintada pode sobrepor-se à decoração de ornatos brunidos, ocultando-a total
ou parcialmente, o que abre um leque de possibilidades interpretativas a exigir
atenção futura (VILAÇA et al., 2018: 72). Uma delas passaria, por hipótese e em
linha com o que comentámos antes a propósito da cerâmica de “tipo Baiões”,
pela potencial presença de dois intervenientes distintos, que a decoração sobre
decoração denunciaria.
Sem descartar a possibilidade de as cerâmicas de “tipo Carambolo” do
grupo beirão terem distintas origens, hipótese fundamentada na sua hetero-
geneidade, não podemos deixar de considerar, também por isso, a existência
de prováveis (re)criações locais inscritas em práticas sociais de emulação por
parte das comunidades face a uma novidade estético-conceptual. Por conse-
guinte, encontrava-se assim em aberto um corredor de circulação que, mes-
mo incorporando percursos distintos e alternativos, todos se conjugavam num
mesmo sentido, de sul para norte, do mundo mediterrâneo para a área nuclear
do minério e metal beirão.
Outros bens terão feito o mesmo caminho no dealbar do I milénio a.C.,
incorporando esses fluxos entre o mundo atlântico — que é também o da Beira
Interior — e o mundo mediterrâneo, evidenciando-se entre eles novos mate-
riais, matérias, produtos, tecnologia, estilos (com recurso à cera perdida), sis-
temas de controlo (v.g. fíbulas, pinças, vidro, ferro, âmbar, ponderais) (VILAÇA,
1995: 323, 352; 2008b; 2013b, com bibliografia anterior). A eles deverá juntar-
-se ainda a técnica particular de dourar metais por difusão térmica que se iden-
tificou num cravo de bronze do Crasto de São Romão (Seia) e considerada ser
de origem mediterrânea (FIGUEIREDO et al., 2010). Neste último caso, porque
estaríamos no domínio específico de uma técnica importada do exterior, que
não apenas na de objectos, não deveremos deixar de considerar a eventual
presença de artesãos estrangeiros, que a dominassem, ou de alguém que, de
dentro, viu fora como fazer, na medida em que se os objectos podem ser imita-
dos, não o é a técnica. Esta aprende-se e aprende-se vendo-se fazer.
Todos eles e outros que, não sendo tangíveis, estão, todavia, presentes (v.g.
pentes, espelhos, capacetes) através da imagem em estelas e estátuas-menires
da região e que foram incorporando, metaforicamente, uma “onda mediterrâ-
nea”, onda que avançou e se dissolveu entre as comunidades beirãs, e não só.

CERÂMICAS DE “TIPO LAPA DO FUMO”

É nesta região Centro/ Sul da Beira Interior que se manifesta uma quarta
categoria de cerâmicas de excepção, as cerâmicas de ornatos brunidos ou de
“tipo Lapa do Fumo”.
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
35
Raquel Vilaça

Além de as considerarmos produções regionais, até porque muito superio-


res numericamente em relação às duas categorias antes referidas, é igualmen-
te reconhecido pela generalidade dos investigadores a forte ligação deste tipo
de cerâmicas ao Baixo Tejo, ao Alentejo, à região mais ocidental e meridional
da Península Ibérica (v.g. OSÓRIO, 2013: 137-138; 2017, com bibliografia; VILAÇA
e CARDOSO, 2017: 264-267). Porém, a identificação de duas variantes distintas
— sulcos brunidos e faixas brunidas, neste caso com potencial efeito bicromá-
tico —, variantes que se podem encontrar nos mesmos contextos, não deixam
de expressar tendências bem distintas na sua distribuição (VILAÇA, 1995: 283-
284, 297). Tanto quanto é possível perceber, e contando mais uma vez com os
constrangimentos dos dados, esta segunda variante vai-se dissipando à medi-
da que caminhamos para norte.
E, de novo, a tendência dessa clivagem parece emergir nas latitudes ad-
jacentes à Cordilheira Central. Esta percepção terá de ser validada quando
se conhecerem melhor as evidências empíricas que suportam a atribuição ao
Bronze Final de vários sítios, designadamente no Norte da Beira Interior. Em
síntese recente focada nessa região não se encontram assinaladas cerâmicas
com decoração brunida, em qualquer uma das variantes e em nenhum dos oito
sítios elencados (CARDOSO, 2014: 77, 79, quadro 2).

CERÂMICAS “PEINADAS” OU “A PEINE”

As cerâmicas de “tipo Lapa do Fumo”, que merecem muitas outras con-


siderações (OSÓRIO, 2013), desaparecem quando na Beira Interior começa a
circular uma outra categoria de cerâmicas a qual nos remete, de novo, para
a Meseta. Falamos agora das cerâmicas “peinadas” ou “a peine”, com uma
longa vigência ao longo da Idade do Ferro, pelo menos desde o séc. VII a.C.
até ao séc. II a.C. (ÁLVAREZ SANCHÍS, 2010; 2018: 94).
Com efeito, subjacente a estas cerâmicas estão realidades bem diversas,
desde logo as de fabrico manual e as de fabrico a torno, passando pelo menos
pela existência de três categorias distribuídas numa ampla região que deixam
entrever distintos ateliers com dimensão estilística e com repercussão a ní-
vel de demarcação de fronteiras, não fora este tipo cerâmico considerado um
“marcador móvel de etnicidade” (ÁLVAREZ SANCHÍS, 2010: 305-307; 310). Está
por definir se algum desses sub-grupos mesetenhos se espelha na Beira Inte-
rior, ou se nesta será possível reconhecer um novo sub-grupo.
Justamente, não é o momento para tecermos grandes considerações so-
bre as cerâmicas “a peine” da Beira Interior, uma vez que carecem de uma
abordagem sistemática e conjunta, portanto que coloque em confronto a fron-
teira material dos artefactos com seus contextos e face a outras entidades
36 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

arqueológicas. De todo o modo, numa apreciação genérica parece ser possível


identificar cerâmicas de cronologia variável, com formas e fabricos bastante
díspares, com padrões estilísticos claramente diferenciados, mas onde as pro-
ximidades estilísticas ao núcleo salmantino parecem ser expressivas (Fig. 10,
11 e 12).

Fig. 10. Cerâmicas peinadas da Beira Interior: 1 e 2 Cachouça (Idanha-a-Nova); 3 Alegrios


(Idanha-a-Nova)
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
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Raquel Vilaça

Fig. 11. Cerâmica peinada de Vila do Touro (Sabugal)


38 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 12. Cerâmicas peinadas da Beira Interior: 1, 2 e 3 Sabugal Velho; 4 e 5 Sabugal

São 9 os sítios para os quais existem dados seguros, todos de altura e vin-
culados a contextos habitacionais (COIXÃO, 2000; OSÓRIO, 2005; SOARES, 2019:
19; VILAÇA, 1995; 2007). É sobre alguns deles que neste momento trabalhamos,
designadamente sobre os dados aportados pelas escavações realizadas em
Vila do Touro e outros sítios sabugalenses, sendo possível vislumbrar, desde
já e em termos da sua distribuição, um modelo que mimetiza o traçado para
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
39
Raquel Vilaça

as cerâmicas de “tipo Cogotas I”: um traçado disperso e abrangente na Beira


Interior, mas não aleatório (Fig. 13).
Como é bem sabido, a linha que tem vindo a ser advogada por diversos in-
vestigadores é a de que a cerâmica “a peine” seria um elemento distintivo en-
tre Vetões e Lusitanos (v.g. ÁLVAREZ SANCHÍS, 2010). Chegou a ser proposto que
essa demarcação ocorreria pelo Alto Côa, embora de modo difuso (OSÓRIO,
2009: 103), ou de forma mais rígida, tomando-se o rio como linha de fronteira,
ainda que neste caso se reconheça a sua fragilidade, quer para época romana,
quer pré-romana (CARVALHO, 2007: 72).

Fig. 13. Carta de distribuição de cerâmica peinada da Beira Interior.


40 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Se subscrevêssemos esta linha de pensamento e face aos dados hoje co-


nhecidos, teríamos então de dizer que a “fronteira luso-vetónica” não só avan-
çou para ocidente, ultrapassando a linha do Côa e alcançando os territórios
a sul, como se densificou. E se considerarmos que os Lusitanos careciam de
materialidades exclusivas (v.g. cerâmicas, armas) de referência identitária (VI-
LAÇA, 2005: 21-22), expressando antes a sua identidade a nível ideológico e
religioso (ALARCÃO, 2001: 311 e segs.), então estamos a comparar grupos não
só distintos, mas com estratégias sociais de afirmação bem diferenciadas. Um
valorizaria a cultura material através das suas cerâmicas (e de outros marca-
dores, como os berrões ou os grandes povoados de cariz proto-urbano) como
forma de coesão social; o outro, que poderíamos equiparar a um “grupo étnico
escondido” no registo arqueológico (HODDER, 1982: 187), parece tê-la secun-
darizado, não sendo isso, todavia e necessariamente, sinal de maior lassidão
sócio-política.

4. EM RETROSPECTIVA
Numa visão global e valorizando os dados cerâmicos como marcadores
identitários e de contacto que prefiguram territórios estilísticos, poderemos
entrever a existência de duas tendências genéricas.
Uma é a abertura da Beira Interior à Meseta ocidental expressa num “so-
pro” muito dilatado no tempo, o mais dilatado e aparentemente sem grandes
rupturas, desde a 1ª metade do II milénio a meados do I milénio a.C., pelo me-
nos. Cerâmicas “proto-Cogotas”, “Cogotas I” e “a peine” constituem as mate-
rialidades dessa conexão, desse processo de fronteirização. Este é também o
movimento mais abrangente em termos territoriais, rasgando as próprias fron-
teiras internas da Beira Interior (onde há matizes distintos sendo que, a sul,
são mais esbatidos) e rompendo-as a norte, para além Douro. Sítios como a
Fraga dos Corvos (Macedo de Cavaleiros) (LUÍS, 2013; REPRESAS, 2013, SENNA-
-MARTINEZ, neste livro) ou a Foz do Medal (Vale do Sabor) (GASPAR et al., 2014)
contribuem para ampliar territórios estilísticos afins.
Outra tendência reafirma esse acolhimento cultural, que estende e di-
versifica os elos de aproximação da Beira Interior à Beira Central, daquela
ao Tejo, à Extremadura e Andaluzia ocidental e, por estas vias, ao mundo
mediterrâneo. Esta abertura mais tentacular intensifica-se (sem se iniciar) na
transição do II para o I milénios a.C. e é particularmente visível em torno e a
sul da linha de montanhas da Cordilheira Central, onde tão bem e também
estão presentes recursos de estanho e de cobre. Assim, enquanto as cerâmi-
cas de âmbito “Cogotas I” se manifestam de norte a sul da região em análise,
as de “tipo Baiões”, de “tipo Lapa do Fumo” e de “tipo Carambolo” parecem
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
41
Raquel Vilaça

ser mais “selectivas” na sua distribuição territorial. Mas não só. Estas dis-
tintas categorias, embora não se encontrem sistemática e simultaneamente
associadas entre si a nível local, não deixam de se entrelaçar a uma escala
regional (Fig. 14).
É nesta segunda tendência que se deverão enquadrar as primeiras cerâ-
micas de fabrico a torno de timbre “orientalizante”, de momento circunscritas

Fig. 14. Áreas de enlace das cerâmicas tipo Proto-Cogotas/ Cogotas I, de tipo Baiões, de tipo
Carambolo e peinadas na Beira Interior.
42 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

à Cachouça (VILAÇA e BASÍLIO, 2000; VILAÇA, 2007). Ainda que um sítio por si
só diga pouco, não deixa de ser notório que é o mais meridional e mais próxi-
mo das franjas daquele mundo peninsular temperado pelo Mediterrâneo que,
nesta região, nos convida ao exercício de um olhar bifocal, da Extremadura ao
Baixo Tejo, ou vice-versa. De novo, e mais uma vez, olhando sempre para lá
das fronteiras da Beira Interior.
Embora se reconheçam estas duas tendências genéricas, nenhuma delas
pode ser dissociada da ênfase colocada pelas comunidades nos contextos
domésticos, na casa, nos lugares de habitação, como centro de actividades
produtivas e de sociabilidade, como referenciais identitários e marcadores ter-
ritoriais na longa diacronia abordada neste texto.
Em outros referenciais (v.g. a metalurgia, as estelas e suas técnicas, as ar-
mas do Côa) seria possível — é possível — reconhecer essa multiculturalida-
de da Beira Interior, uma região arraçada, onde dificilmente se vislumbram
fronteiras, mas se entreveem expressivos processos de fronteirização filtrados
pelo poder agenciador das comunidades beirãs e das “outras”, em função do
6
devir do tempo e do movimento perpétuo de todas elas.

AGRADECIMENTOS
A Marcos Osório, a José Luís Madeira, a Inês Soares, pela ajuda nos ele-
mentos gráficos.

REFERÊNCIAS
ABARQUERO MORAS, F. J. (2005). Cogotas I. La difusión de un tipo cerámico durante
la Edad del Bronce. Monografías en Castilla y Léon 4.
ABARQUERO MORAS, F. J. (2012). Cogotas I más allá del território nuclear. Viajes, bo-
das, banquetes y regalos en la edad del bronce peninsular. In Rodríguez Marcos
e Fernández Manzano (eds.), Cogotas I. Una cultura de la Edad del Bronce en la
Península Ibérica, pp. 59-110.
ALARCÃO, J. (2001). Novas perspectivas sobre os Lusitanos (e outros mundos). Revis-
ta Portuguesa de Arqueologia, 4 (2), Lisboa, IPA, pp. 293-349.
ALARCÃO, J. (2005). Ainda sobre a localização dos povos, referidos na inscrição da
ponte de Alcântara. In Lusitanos e Romanos no Nordeste da Lusitânia, [2.ªs Jor-
nadas do Património da Beira Interior]. Guarda: Centro de Estudos Ibéricos, pp.
119-131.

6
Movimento Perpétuo, título da primeira obra do Poeta António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho
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las e estátuas-menires: da Pré à Proto-história, [Actas das IV Jornadas Raianas,
Sabugal], pp. 293-318.

Resumo:
Vinte anos passaram desde a publicação da primeira síntese onde a autora defendeu para
a Beira Interior a existência de processos de hibridez cultural durante o Calcolítico e o Bron-
ze Final. Em textos posteriores o assunto foi aprofundado e a argumentação consolidou-se
com o estudo de novas evidências empíricas e o cruzamento de distintas metodologias. Essas
evidências, de natureza e valor muito variável — cerâmicas, matérias e materiais exóticos,
tecnologia, marcadores territoriais, etc. —, permitiram, ao mesmo tempo, criar a ideia de um
mundo marchetado durante a Pré- e Proto-história daquela região, um mundo de fronteiras
indefiníveis, ou só vagamente perceptíveis. São fronteiras fluídas, de elevada permeabilidade,
e sempre imaginadas. No limite podem não existir.
Entretanto, dados mais recentes, alguns só parcialmente publicados, que ampliaram também
a escala cronológica, legitimam um novo inquérito no sentido de avaliar se tais evidências são
convergentes com a tese então defendida, reforçando-a, ou se, pelo contrário, apontam para
a conveniência da sua revisão. Este texto centra-se num período de cerca de mil anos, entre
meados do II e meados do I milénio a.C., e numa região, ela própria fronteira política e natural,
mas porosa, onde são notórios os contrastes geomorfológicos e mais subtis as manchas e os
vazios de povoamento. Como entendê-los?

Palavras-chave: Beira Interior; Idade do Bronze/Idade do Ferro; Cerâmicas; Hibridização cul-


tural; Fronteiras/ Fronteirização.

Around the II-I millennia BC in the borderlands


of the beira (central portugal). Material and imagined
representations, vanguards and rearguards in
perpetual motion

Abstract:
Twenty years have passed since the synthesis in which the author first defended the existence
of cultural hybridization processes during the Copper and Late Bronze Age was published.
EM TORNO DOS II-I MILÉNIOS A.C. NA BEIRA RAIANA (PORTUGAL CENTRAL)
47
Raquel Vilaça

Further papers have reapproached the issue, solidifying the argumentation, either through
the study of new empirical data or the application of innovative and distinct methods. This
data, of variable nature and significance – ceramics, exotic materials and artifacts, technology,
territorial markers, etc. –, allowed, at the same time, to create the idea of a patchwork-like
world during the regional Pre and Protohistory. A world of undefinable or vaguely perceptible
borders. These borders are fluid, highly permeable and always imagined. They might not even
have existed.
Meanwhile, more recent data, some only partially published, that has magnified the chronological
scale, requires us to inquire and evaluate if these evidences are convergent with the defended
thesis, reinforcing it, or, on the contrary, point to the necessity of its revision.
This contribution is focused on a period of around a thousand years, between the middle of
the II and of the I millennium BC, in a region that while simultaneously a political and a natural
border, is permeable enough to human mobility, and where even though the geomorphological
contrasts are clear, the settlement distribution patterns remains. How to understand them?

Key words: Beira Interior (Central Portugal); Bronze Age/Iron Age; Ceramics; Cultural hybridi-
zation; Borders/Fronteirisation
TRANSPONDO O ERGES. O DELINEAR DE
UMA ABORDAGEM TRANSFRONTEIRIÇA
À PAISAGEM PROTO-HISTÓRICA ENTRE O
TEJO E O SISTEMA CENTRAL
PEDRO BAPTISTA*

1. NOTA PRÉVIA
Em projetos de investigação de âmbito territorial, a questão da definição da
área de estudo é das primeiras que se levanta e que importa responder quanto
antes. E aqui não deixa de ser paradoxal que a arqueologia, ciência que estuda o
passado, esteja tão profundamente ancorada no presente. Mas não é surpreen-
dente – também a prática arqueológica é um resultado do tempo da sua agência.
Dizemos que está ancorada no presente porque sistematicamente se têm
compartimentado estudos em função de limites administrativos atuais; nós pró-
prios o fizemos no âmbito da nossa tese de Mestrado, tendo então reconhecido
que a ausência de dados geográficos do lado espanhol limitava em muito os
resultados obtidos (BAPTISTA, 2019, pp. 95-96). Mesmo assim, confessamos que
quando nos foi feito o desafio de abordar a Alta Extremadura conjuntamente
com a Beira Interior no âmbito do nosso projeto de Doutoramento, hesitámos.
Colocavam-se diversas questões sobre a exequibilidade do mesmo – qualidade
e compatibilidade de dados geográficos, acesso a informação arqueológica, au-
torizações para a realização de trabalhos de prospeção, etc.
No entanto, face às temáticas que pretendíamos abordar, intimamente rela-
cionadas com a mobilidade humana e a reconfiguração da paisagem durante a
Proto-história, insistir em manter este limite administrativo contemporâneo sig-
nificava transpô-lo no tempo, com toda a carga anacrónica que isso acarreta.
Com efeito, a fronteira que atualmente separa Portugal de Espanha na beira
raiana materializa se no curso do rio Erges. Nascido na Serra da Malcata, corre
em direção a sul ao longo de cerca de 50 km até à sua foz na margem direita do
Tejo. Embora decalque um limite natural, esta fronteira não é mais do que uma
construção antrópica, definida e mantida desde finais do séc. XIII.

*
Instituto de Ciências Arqueológicas, Departamento de Arqueologia Pré-histórica, Universidade Albert Ludwigs
Freiburg / CEAACP, Universidade de Coimbra. pedro-esb@hotmail.com
50 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

De certa forma, podemos afirmar que ainda que separe Portugal e Espanha,
não separa as regiões da raia – o afastamento geográfico em relação ao resto
do próprio país acaba por conduzir a uma maior proximidade entre comunidades
“de fronteira”, partilhando-se tradições, festividades e inclusive uma identidade
comum (cf. AMANTE, 2010, pp. 103-106; 2014, pp. 419-420, acerca da discussão
teórica em casos de estudo da Beira Interior Norte, e Rovisca, 2010, acerca das
práticas de contrabando na raia de Idanha-a-Nova).
1
Estas práticas , partilhadas entre ambos os lados da fronteira, testemunham
a discrepância entre as decisões de um estado e a agência da sua população,
resiliente neste caso a quase oito séculos de História. Mas mais do que isso,
dizem-nos muito sobre a natureza da própria fronteira e o seu papel no território;
o Erges é um rio de características torrenciais, de caudal reduzido no estio e
elevado durante a época das chuvas, mas mesmo então de travessia possível em
zonas como Monfortinho, Salvaterra do Extremo e Segura.
Assim, despindo o Erges dos significados que o devir histórico mais recente
lhe encarregou de suportar, encontramo-nos perante não um obstáculo intrans-
ponível, mas sim um dos muitos afluentes da margem direita do Tejo, dentro de
um território que importa então caracterizar para melhor compreender as comu-
nidades que o habitaram há cerca de três milénios.

2. O TERRITÓRIO
A nossa área de estudo corresponde à Beira Interior (Centro e Sul) e à Alta
Extremadura (Norte), corporizada na bacia hidrográfica norte do Tejo, desde Vila
Velha de Ródão até ao limite com a província de Toledo, e adicionalmente o con-
celho do Sabugal, já inserido no limite ocidental da plataforma da Meseta. Desde
logo, ocupa uma posição na Península Ibérica que, apesar de interior, lhe confere
um papel central no contacto entre diferentes regiões bem definidas, como são
a costa atlântica, a Meseta, o Alentejo e os vales do Guadiana e Guadalquivir
(MARTÍN BRAVO & GALÁN, 1998, pp. 305-306).
Os seus limites são assinalados por acidentes geográficos significativos e es-
truturais a nível ibérico, como são o caso do Sistema Central, a norte, e do rio
Tejo, a sul. Longitudinalmente, são as Talhadas-Muradal, a Gardunha e a Serra da
Estrela, a ocidente, e a fronteira com a província de Toledo, através de um pro-
longamento da Serra de Gredos para sul, a oriente, que fecham a área de estudo.
Mais do que limites artificiais – como são todos os que definem uma área de
estudo – são obstáculos que condicionam a mobilidade e/ou a visibilidade e que

1
De notar que além do contrabando, prática quase mitificada na raia e que detém um contexto histórico
muito específico durante o séc. XX, existiam festividades no verão que reuniam populações dos dois lados
da fronteira, por exemplo, em Monte Fidalgo e Cedilho (informação gentilmente cedida por Pedro Fonseca).
TRANSPONDO O ERGES. O DELINEAR DE UMA ABORDAGEM TRANSFRONTEIRIÇA
51
À PAISAGEM PROTO-HISTÓRICA ENTRE O TEJO E O SISTEMA CENTRAL _ Pedro Baptista

fazem com que o movimento seja canalizado através de portelas e vaus especí-
ficos que os permitam superar.

Fig. 1. Vista da área de estudo a partir do Miradouro da Serra das Talhadas (Proença-a-Nova)
e em direção a leste (Fotografia de Mário Monteiro).

Do ponto de vista geológico, trata-se de um território caracterizado pela con-


jugação de duas grandes unidades litológicas predominantes: o complexo xisto-
-grauváquico e as intrusões graníticas, ambas marcadas por cristas quartzíticas,
que definem relevos abruptos e escarpados de orientação NW-SE (cf. RIBEIRO
& LAUTENSACH, 1988, a propósito das unidades litológicas do lado português e
BARRIENTOS ALFAGEME, 1990, do lado espanhol).
A propensão ao movimento e à circulação de pessoas é reforçada pelas suas
características geomorfológicas; de feição tendencialmente aplanada, o relevo
marca presença, ora pontilhando o território, ora compartimentando-o. Nas pala-
vras de Orlando Ribeiro (1998, p. 2) “a montanha, quando não domina, avista-se
de todos os lugares”, servindo simultaneamente como marcador espacial e es-
paço preferencial para a fixação das comunidades humanas durante a Proto-his-
tória (VILAÇA & BAPTISTA, 2020, pp. 27-28).
Além disso, as suas falhas, como a do Ponsul ou a de Plasencia-Alentejo,
abrem no território importantes corredores de circulação naturais recorrente-
mente aproveitados pelo Homem ao longo da História.
Por sua vez, a rede hidrográfica drena em direção ao Tejo, dispondo-se os
seus afluentes na margem direita com uma orientação tendencialmente NE-SW.
52 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

De montante a jusante, destacam-se os rios Tiétar, Alagón, Erges, Aravil e Ponsul,


todos eles de carácter torrencial e com vales progressivamente mais encaixados
aquando da aproximação à sua foz, compartimentando o território e condicio-
nando a mobilidade de forma cíclica, em função da estação do ano. Dentro deste
quadro, são elementos multifacetados com especial personalidade, definindo
simultaneamente fronteiras e vias de comunicação, e disponibilizando não só
água potável, como também estanho e ouro aluvionar (cf. VILAÇA, 1995, p. 71).
Alguns deles foram inclusive “ritualizados” ao longo do tempo, ora através da
gravação de arte rupestre (HENRIQUES et al., 2013), ora da deposição de artefac-
tos metálicos (VILAÇA & ROSA, 2015; VILAÇA & BOTTAINI, 2021).
Além da riqueza aluvionar dos seus cursos de água, e de particular relevância
nos períodos em análise, é também de assinalar a presença de minério de cobre,
sobre a forma de filão, em Vila Velha de Rodão (CARVALHO & HAMILTON, 2020)
e no Sabugal (CORREIRA, 1988); uma ocorrência particularmente rara a norte do
Tejo.
Neste quadro natural perfilhado então entre o rio Tejo e o Sistema Central,
porém, desenham-se também diferentes unidades territoriais com característi-
cas próprias, estabelecendo entre elas uma complementaridade de recursos,
por vezes refletidas (ou intuídas) em diferentes formas de ocupação do espaço.
Não é, portanto, surpreendente que no alvor do I milénio a.C., estes mesmos
territórios, a Beira Interior e a Alta Extremadura, a par com as suas características
naturais partilhadas, perfilhassem uma identidade comum, expressa nos seus
padrões de povoamento, cultura material e repertório iconográfico.

3. O REGISTO ARQUEOLÓGICO PROTO-HISTÓRICO


A investigação arqueológica dedicada à Proto-história conduzida nestas
regiões viu-se condicionada pelas barreiras levantadas pelas suas fronteiras
geográficas e administrativas, seguindo caminhos divergentes, com diferentes
focos, metodologias e objetivos.
É certo que os limites administrativos não obedecem sempre aos mesmos cri-
térios – em alguns países assumem hoje um carácter quase linear e geométrico,
mas no caso que nos ocupa tendem a decalcar elementos naturais significativos
na paisagem, como são os rios e as cordilheiras montanhosas, que condicionam
a mobilidade ou fecham o horizonte. E estes limites não são estáticos, variando
em função da escala e objetivos da organização administrativa que os define,
podendo um mesmo país ter vários sistemas vigentes para diferentes fins.
O que nos interessa, porém, do ponto de vista epistemológico, é constatar
como é que estas divisões administrativas têm condicionado o estado da inves-
tigação arqueológica nestes territórios.
TRANSPONDO O ERGES. O DELINEAR DE UMA ABORDAGEM TRANSFRONTEIRIÇA
53
À PAISAGEM PROTO-HISTÓRICA ENTRE O TEJO E O SISTEMA CENTRAL _ Pedro Baptista

Confrontando as duas regiões que servem de base para o nosso estudo, o


maior contraste prende-se com o papel do Tejo. Fronteira meridional do lado
português, separando as Beiras do Alentejo; eixo central do lado espanhol, defi-
nindo com a sua bacia hidrográfica a Alta Extremadura.
Tal contraste reflete-se de forma marcante nas abordagens arqueológicas
regionalistas que se desenvolveram dos dois lados da fronteira.
Em Portugal, o marco de referência é a tese de Doutoramento de Raquel Vi-
laça (1995), dedicada ao povoamento do Bronze Final na Beira Interior Centro e
Sul. Embora a sua análise seja a este nível regional, assume como área central do
seu estudo o nordeste da Plataforma de Castelo Branco e o extremo ocidental do
Planalto da Meseta (VILAÇA, 1995, pp. 66-67), onde se situam os quatro povoados
intervencionados. Neste quadro, os dados obtidos são articulados em diferentes
escalas de análise, reconhecendo já então as afinidades culturais com as regiões
limítrofes e, particularmente, com o Nordeste Alentejano e Alta Extremadura (VI-
LAÇA, 1995, pp. 422-423).
Em Espanha, Almagro Gorbea (1977) é o primeiro a sistematizar e tratar
a informação disponível sobre o Bronze Final e o Período Orientalizante na
província da Extremadura. Mais recentemente, na década de ’90, dois outros
projetos de investigação encontram-se no Bronze Final da Extremadura. Ana
Martín Bravo (1995) estuda a Idade do Ferro na Alta Extremadura, recuando,
porém, ao substrato do Bronze Final, enquanto Ignacio Pavón Soldevila (1998)
estuda toda a Extremadura durante a Idade do Bronze, do II ao I milénio a.C.
Em qualquer dos casos, porém, o foco foi colocado na “mesopotâmia” entre
os rios Tejo e Guadiana, tendo sido nesta franja do território que se realizaram
com maior intensidade os trabalhos de prospeções e, inclusivamente, de es-
cavação arqueológica.
Daqui advém que a norte do Tejo, do lado espanhol, a quantidade e qualida-
de dos dados disponíveis seja mais reduzida, extrapolando-se as conclusões da
margem sul e, por extensão, da Baixa Extremadura a esta fração da província.
Só mais recentemente, com os trabalhos de prospeção intensiva desenvol-
vidos em Campo Aruañelo (GONZÁLEZ CORDERO, 2015) é que foi possível obter
dados específicos nesta franja do território, desenhando-se um primeiro esboço
do povoamento ao longo de toda a Idade do Bronze com base, sobretudo, em
cerâmica de influência mesetenha, de tipo proto-cogotas e cogotas.
Posto isto, não é novo o reconhecimento das afinidades culturais durante a
Proto-história entre a Beira Interior e a Alta Extremadura. Com base na análise
dos padrões de povoamento e das características tipológicas e arqueometalúr-
gicas dos artefactos metálicos, Martín Bravo e Galán (1998) argumentam que
durante o Bronze Final ambas as regiões perfilharam uma identidade comum, de
forte influência atlântica, mas que se afastou progressivamente a partir do séc.
VII a.C., fruto da crescente influência de Tartessos no Sudoeste da Península.
54 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Cremos, porém, que colocando o foco no Norte da Alta Extremadura e à luz


do atual estado dos conhecimentos, a questão do afastamento de ambas as re-
giões durante o início da Idade do Ferro deve ser matizada. Para tal, recordemos
então as características dos padrões de povoamento e da metalurgia proto-his-
tórica e observemos os contornos do fenómeno das estelas de guerreiro, cir-
cunscrevendo-nos à nossa área de estudo.

3.1. PADRÕES DE POVOAMENTO


Apesar de significativamente reduzida a amostra do lado espanhol, as afi-
nidades culturais durante o Bronze Final apontadas por Martín Bravo e Galán
(1998) continuam a verificar-se entre a Beira Interior e o Norte da Alta Extre-
madura, tendo-se reconhecido recentemente a continuidade de alguns traços
partilhados dentro do Ferro Inicial (MARTÍN BRAVO, 2016, pp. 83-84 e 91).
Com efeito, a grande maioria dos povoados do Bronze Final conhecidos ca-
racteriza-se pela ocupação de pontos destacados na paisagem, sejam eles parte
de uma cadeia montanhosa ou montes ilha isolados, com forte controlo visual do
território envolvente e boas condições defensivas naturais.
A sua distribuição aponta para um controlo partilhado do território, através de
relações de visibilidade solidária, permitindo não só a comunicação entre eles,
como também a cobertura visual de pontos chave do território, como são as
portelas, os vaus e os corredores de circulação naturais.
Outras formas de ocupação habitacional afiguram-se como mais raras; a ideia
de que as comunidades do Bronze Final habitavam em grutas não foi mais do que
o resultado de um incipiente estado da investigação no século passado e verifi-
cou-se a sua associação a povoados, como é o caso de Alegrios (Idanha-a-Nova)
e Valcorchero (Plasencia). Por outro lado, são exíguos os vestígios de ocupação
em planície, ao contrário do que se identifica nas regiões limítrofes, como o Médio
Tejo português ou a Meseta espanhola, situação que pode encontrar explicação
em diversos fatores, como a falta de prospeções intensivas ou os processos de
sedimentação, necessariamente mais acelerados em zonas de baixa altitude.
Embora apenas uma muito reduzida parte dos sítios conhecidos ter sido alvo
de escavações arqueológicas, os dados que possuímos apontam para que não
haja uma hierarquização entre os diferentes povoados, todos eles apresentando
vestígios de produção metalúrgica a uma escala doméstica, uma economia pre-
dominantemente baseada na pecuária e agricultura e uma seletiva incorporação
de influências forâneas, que vêm a anunciar a chegada de um novo mundo: o da
2
I Idade do Ferro ou do Período Orientalizante .

2
Utilizaremos doravante os termos de I Idade do Ferro / Ferro Inicial por os considerarmos mais apropriados
para a designação deste período cronológico, já que se encontram desprovidos de uma conotação exógena
logo à partida.
TRANSPONDO O ERGES. O DELINEAR DE UMA ABORDAGEM TRANSFRONTEIRIÇA
55
À PAISAGEM PROTO-HISTÓRICA ENTRE O TEJO E O SISTEMA CENTRAL _ Pedro Baptista

Posto isto, a transição para o Ferro Inicial continua a ser uma das grandes
questões em aberto, sendo muito reduzido o número de sítios conhecido que se
possam atribuir a esta cronologia. Com base nos dados dos territórios em redor,
as tipologias de assentamento diversificam-se e há uma aproximação a espaços
mais discretos na paisagem, próximos de cursos de água e com acesso a terras
com maior potencial agropecuário.
É certo que a partir do século VII, são claras as alterações de fundo que
estão em marcha e que conduzem ao abandono de sítios no final da Idade do
Bronze – por vezes definitivo como é o caso do Castelejo (Sabugal), Monte
do Frade (Penamacor), Alegrios e Moreirinha (Idanha-a-Nova) (VILAÇA, 1995, p.
423); por vezes com reocupações durante a II Idade do Ferro, como é o caso do
Cabeço da Argemela (Fundão / Covilhã) e, com base em recolhas de superfície,
da Quinta da Samaria (Fundão / Covilhã), Tapada das Argolas e Covilhã Velha
(Fundão) (VILAÇA et al., 2000, p. 193). Igualmente testemunho de um processo
de mudança em marcha é a ocupação do Cabeço das Fráguas (Guarda / Sabu-
gal) apenas a partir da fase derradeira do Bronze Final (séc. VIII a.C.) (SANTOS
& SCHATTNER, 2010).
São assim poucos os sítios que apresentam uma continuidade na ocupação
entre o Bronze Final e o Ferro Inicial. Excluindo desta discussão os sítios locali-
zados no extremo ocidental da Meseta, do lado português, apenas a Cachouça
(Idanha-a-Nova), El Perñuelo (Ceclavín) e La Muralla (Valdehúncar) é que se en-
quadram neste cenário.
Entre estes, apenas a Cachouça foi alvo de escavações arqueológicas, reve-
lando uma estratigrafia muito afetada e com mau estado de conservação, não
permitindo uma definição clara dos seus níveis de utilização (VILAÇA, 2007a, p.
67). Ainda assim, identificou-se cerâmica a torno cinzenta e cerâmicas penteadas
de âmbito mesetenho (VILAÇA, 2007a, p. 68), testemunhando uma vez mais o
carácter de confluência deste território entre a Meseta e o Sudoeste. E, com as
devidas reservas a que o registo estratigráfico nos obriga, não podemos deixar
de assinalar que estes materiais convivem com outros de fabrico manual em
tudo semelhantes aos que marcam os contextos do Bronze Final.
Do lado espanhol, os sítios de El Periñuelo e de La Muralla foram apenas alvo
de prospeções. Tratam-se de ocupações ainda em lugares destacados na pai-
sagem, cuja ocupação mais antiga é testemunhada ora por cerâmicas manuais
com perfis típicos do Bronze Final (PAVÓN SOLDEVILA, 1998, p. 284), ora por taças
carenadas e brunidas (MARTÍN BRAVO, 1995, pp. 156-157), respetivamente. Já do
Ferro Inicial, aponta-se cerâmica penteada e a torno e, no caso de Periñuelo,
alguns vestígios de adobes.
Com efeito, as ocupações atribuíveis ao Ferro Inicial na Alta Extremadura, a
norte do Tejo, remetem-nos, na sua maioria, para lugares ainda destacados na
paisagem, cujo amuralhamento não fez mais do que colmatar as lacunas entre
56 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

os afloramentos rochosos, sendo a única exceção o sítio de Peñas del Castillejo


(Acehuche) situado num pequeno promontório na margem direita do Tejo e já
enquadrado no que será o padrão predominante de ocupação durante o resto
da Idade do Ferro.

3.2. METALURGIA

A nível dos artefactos metálicos, a raridade destes testemunhos a norte do


Tejo na área extremenha apenas nos permite tecer algumas considerações
gerais e preliminares, já que, uma vez mais, a maior concentração destes se
localiza a sul do rio.
Regra geral, podemos apontar a disponibilidade local de minérios de cobre
e estanho, embora o primeiro esteja limitado aos atuais concelhos de Vila Ve-
lha de Ródão e Sabugal e esteja ainda por comprovar a sua exploração efetiva.
Ainda assim, existem indícios desta exploração, sendo o mais significativo o do
achado de um machado de talão de uma argola a 12m de profundidade na mina
de cobre do Vale da Arca (Quarta-feira) (VILAÇA, 1995, pp. 86, 397 e est. CCLV-1),
recentemente interpretado como um depósito (MELO et al., 2002; CARDOSO, in
VILAÇA, 2006, p. 122).
O predomínio de ligas de bronzes binários (Cu+Sn), com elevada proporção
de estanho e impurezas de chumbo e arsénio (VILAÇA, 1997), a par da presença
de moldes, cadinhos e restos de fundição aponta para a prática doméstica da
metalurgia (ALMAGRO GORBEA, 1977, p. 91; VILAÇA, 1995, pp. 414-417)
Assim, coexistem artefactos com tipologias de filiação local com outras exó-
genas, de influência atlântica, continental e mediterrânea (VILAÇA, 2007b; 2013a),
resultado dos designados “contactos pré-coloniais” durante o Bronze Final.
De âmbito local e de influência atlântica, são os machados os instrumentos
que melhor ilustram a proximidade entre ambas as regiões. Do lado da Beira
Interior, a questão tem sido sistematizada e atualizada nos últimos anos (VILAÇA
& ROSA, 2015; BAPTISTA, 2016; VILAÇA & BOTTAINI, 2021), valorizando-se particular-
mente a sua associação a depósitos em meio aquático.
Do lado espanhol, contamos com seis. Dois deles, de talão monofacial, são
atribuídos, com dúvidas, aos dólmens de Garrote e Guadancial (Garrovillas) e um
ao município de Descargamaría. Contamos ainda com os machados de apêndi-
ces: dois provenientes do depósito de Villar de Plasencia e um de Villareal de
San Carlos (ALMAGRO-GORBEA, 1977, p. 78)
Embora se desconheçam os contextos de achado destes instrumentos em
concreto, são diversos os contextos de utilização, deposição ou representação
de artefactos metálicos – povoados, depósitos, estelas e arte rupestre. Dentro
desta variabilidade, a prática da deposição em meio aquático não deixa de
TRANSPONDO O ERGES. O DELINEAR DE UMA ABORDAGEM TRANSFRONTEIRIÇA
57
À PAISAGEM PROTO-HISTÓRICA ENTRE O TEJO E O SISTEMA CENTRAL _ Pedro Baptista

marcar presença no lado extremenho, como revela a espada do Vado de Alco-


nétar, depositada num dos principais pontos de travessia do Tejo a cerca de 130
km a montante da rocha 53 do Cachão do Algarve, com representação de par
de espadas (GOMES, 2010, p. 498). Revela assim uma partilha do ideário subja-
cente a esta forma de amortização do metal por parte das comunidades locais
que através desta prática assinalam e ritualizam um ponto fulcral da mobilidade
regional (RUIZ-GÁLVEZ PRIEGO, 1998, p. 345).

3.3. ESTELAS DE GUERREIRO

Além dos padrões de povoamento e características da metalurgia do Bronze


Final, já comparados com maior profundidade (MARTÍN BRAVO E GALÁN, 1998),
cremos ser justo dedicar mais alguma atenção aos contornos que o fenómeno
das estelas de guerreiro assumiu nestes territórios.
Seguindo o zonamento de Celestino Pérez (2001), estes englobam a Zona
I – Serra da Gata e a parte norte da Zona II – Vale do Tejo / Serra de Montánchez.
Importa salientar que este zonamento não deve ser tido como absoluto ou fe-
chado, até porque entre eles existem várias permeabilidades e afinidades, mas
sim como uma possível unidade que facilite a análise e evidencie determinados
padrões em função da geografia.
Posto isto, e como já foi justamente assinalado (SANTOS et al., 2011, p. 325), a
Zona I não deve ser entendida estritamente como a Serra da Gata / Malcata, mas
sim como uma região geográfica mais ampla onde as estelas partilham uma série
de características comuns que as distinguem das restantes zonas, nomeadamen-
3
te a nível da predominância de exemplares de composição básica , ou seja, com
representação de escudo, espada e lança, e “ausência” de antropomorfo.
Estes elementos encontram-se representados nas estelas de forma padroniza-
da, denotando normas e regras vigentes – o escudo assume marcado protagonis-
mo, assumindo posição central na composição; espada e lança tendem a apresen-
tar o gume para lados opostos, sendo a ponta da lança, normalmente, orientada
com a escotadura do escudo (CELESTINO PÉREZ e SALGADO CARMONA, 2011, p. 426).
Em alguns exemplares, à composição básica, foram acrescentados outros
elementos, como o capacete, a fíbula ou o espelho, cuja distribuição parece mi-
metizar posição real no corpo – assim, o carácter antropomórfico residiria no
próprio suporte, sendo redundante a sua representação (CELESTINO PÉREZ e SAL-
GADO CARMONA, 2011, pp. 426-427).
De qualquer das formas, é nesta Zona I que se tem apontado uma possível
emergência das estelas de guerreiro, atendendo, por um lado, ao seu carácter

3
Tipo I de CELESTINO PÉREZ e SALGADO CARMONA, 2011.
58 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

mais básico e, por outro, à longa tradição de estátuas-menir e ídolos no território


(e.g. BUENO RAMIREZ et al., 2011, p. 39).
Independentemente dessa possível continuidade, cuja discussão não cabe
nos propósitos deste trabalho, importa assinalar a forma particularmente expres-
siva como na nossa área de estudo as comunidades do Bronze Final interagiam,
recorrendo às estelas de guerreiro, com vestígios de um passado mais recuado,
ora reapropriando os seus lugares, ora os próprios suportes.
As estelas de guerreiro de Zebros 2 e Hernán Pérez são ilustrativas desta pri-
meira situação: em ambos os sítios foram identificados monumentos funerários
de tipo mamoa, cuja cronologia precisa se desconhece, uma estela diademada
no caso de Zebros (CARDOSO, 2011) e seis ídolos-estela no caso de Hernán Pérez
(ALMAGRO BASCH, 1972). Estamos, pois, perante uma longa duração destes luga-
res, que em diferentes momentos da sua história ganharam especial significado
(VILAÇA, 2013b, p. 212).
Por sua vez, São Martinho e, possivelmente, o Telhado ilustram a segunda
situação.
A estela do Telhado porque o seu suporte evoca carácter para-megalítico,
podendo corresponder ao reaproveitamento de um antigo menir, tendo uma das
suas faces sido profusamente regularizada para a gravação dos seus motivos,
chegando a possuir um perfil barquiforme (VILAÇA et al., 2016).
E São Martinho porque aqui encontramos três monumentos – um menir
gravado e duas estátuas-menir. À luz dos vestígios arqueológicos identificados
ora em escavação, ora em prospeção, a ocupação do sítio durante o Bronze
Final é mais do que clara; menos claro é o papel destes monumentos neste
quadro.
Desde logo porque não correspondem a estelas de guerreiro na perfeita
acessão do conceito; o menir gravado representa antropomorfo em cena de
caça, figurando outros elementos iconográficos igualmente presentes em es-
telas de guerreiro, como são uma possível fíbula de cotovelo, uma lâmina de
punhal ou espada, um espelho e um quadrúpede, possivelmente canídeo. Já
no que toca às estátuas-menir, incompletas, uma delas figura antropomorfos
com escudos e capacetes com cornos, remetendo-nos para uma cronologia do
Bronze Final, mas de resto ambas partilham um reportório iconográfico adscri-
4
to a períodos mais recuados , já que representam cinturão, típico das estelas
“Hurdes-Gata” do Bronze Antigo e insígnia de poder como figura central (VILA-
ÇA et al., 2004, p. 160).
Ou seja, exemplos como estes obrigam-nos a refletir sobre a forma como
as comunidades do Bronze Final se relacionavam com o território e com o seu

4
Recentemente, os monumentos de São Martinho foram alvo de uma abordagem mais exaustiva que procura
relacionar alguns dos seus elementos com a tradição megalítica e várias influências do III ao II milénio a.C.
(cf. BUENO RAMÍREZ et al., 2019-2020).
TRANSPONDO O ERGES. O DELINEAR DE UMA ABORDAGEM TRANSFRONTEIRIÇA
59
À PAISAGEM PROTO-HISTÓRICA ENTRE O TEJO E O SISTEMA CENTRAL _ Pedro Baptista

passado – e aqui coloca-se uma questão fundamental: este passado era seu,
enquanto comunidades ou seu, do território que agora habitavam?
Isto porque desconhecemos em absoluto de que forma foi praticada esta rea-
propriação dos lugares e monumentos – terá sido mantida, de forma continuada,
de geração em geração ao longo de séculos, ou com hiatos temporais significa-
tivos que apagassem a sua memória e significados originais?
De resto, a questão não fica mais clara quando olhamos para os suportes
reaproveitados. Primeiro, porque também nestes casos se podem ter mantido
no seu lugar de origem. Segundo, porque, nas estátuas-menir de São Martinho,
os motivos mais antigos estão integrados de tal forma na composição que nos
levam a questionar se foram feitos “de raiz” no Bronze Final, assimilando e re-
concebendo arcaísmos de carácter local, ou se se tratam efetivamente de reutili-
zações (VILAÇA et al., 2004, p. 160). E terceiro porque casos como os do Telhado,
com uma preparação tão intensiva da superfície a gravar, podem testemunhar a
destruição de uma primeira fase de gravação; algo em sintonia com os contextos
onde se integram as gravações atribuídas ao Bronze Final no complexo de arte
rupestre do Tejo que recorrem sempre a painéis já gravados (GOMES, 2010, pp.
497-499; BAPTISTA, 2019, pp. 32-33 e 103)
Além deste carácter evocativo temporal, as estelas de guerreiro deste ter-
ritório perfilam igualmente afinidades a nível do seu contexto espacial, recor-
rentemente associado a corredores de circulação e portelas. Por um lado, a sua
distribuição espacial revela que estamos perante comunidades cujas vivências
não se cingem aos seus povoados; elas conhecem, vivem e reivindicam estes
territórios, explorando-os e circulando por eles, em contacto com outras regiões
e comunidades (BAPTISTA, 2019, pp. 37-41). Por outro, atrevemo-nos a dizer que
no quadro da mobilidade humana, ao assinalar onde as travessias são possíveis
e constituindo autênticos marcadores espaciais, parecem assinalar simultanea-
mente zonas de fronteira e de encontro entre diferentes unidades territoriais
(VILAÇA & BAPTISTA, 2020, pp. 29-30).

4. O PROJETO: PROBLEMÁTICAS, QUESTÕES, OBJETIVOS


E METODOLOGIAS
Ficam patentes os profundos vínculos socioculturais que uniram estas duas
regiões durante a Proto-história, resultado da fluidez e mobilidade que o ter-
ritório permite. Dependendo da escala de análise, podemos apontar que são
afinidades que se refletem igualmente noutras áreas da Península Ibérica, ou
até a nível pan-europeu, com maior ou menor intensidade, e testemunham o seu
importante papel no contacto entre elas.
60 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Mas cada história é uma história e daqui se depreende igualmente que coe-
xistiram durante os mesmos períodos e num mesmo território alargado diferen-
tes estratégias de ocupação, expressas na história singular e individual de cada
um destes sítios; história essa que só pode ser devidamente caracterizada com
recurso a escavações arqueológicas ou abordagens mais focadas que valorizem,
dentro da unidade, a diversidade.
À luz do estado atual dos conhecimentos, são várias as problemáticas em
aberto e questões que se levantam.
Na sequência do que foi explanado no ponto anterior, a disparidade no esta-
do de investigação entre a Beira Interior e a Alta Extremadura será das proble-
máticas mais significativas. Em termos quantitativos, do levantamento preliminar
que possuímos para o nosso projeto, contamos com 88 ocorrências do Bronze
Final no lado português e apenas 30 no lado espanhol, das quais apenas uma
ínfima minoria foi alvo de escavações arqueológicas.
Para a I Idade do Ferro, a discrepância é menos acentuada, mas reflete um
estado de investigação ainda mais incipiente. São apenas 5 e 7, respetivamente,
embora do lado português todos eles tenham sido identificados com base em
escavações.

Fig. 2. Mapa de distribuição de ocorrências do Bronze Final.

No que toca ao Bronze Final, não há motivos para crer que esta discrepância
se deva a um povoamento menos intensivo do lado espanhol ou uma forma de
ocupação do espaço diferenciada, desde logo se tivermos como representativos
os dados das prospeções intensivas realizadas em Campo Aruañelo (GONZÁLEZ
CORDERO, 2015).
TRANSPONDO O ERGES. O DELINEAR DE UMA ABORDAGEM TRANSFRONTEIRIÇA
61
À PAISAGEM PROTO-HISTÓRICA ENTRE O TEJO E O SISTEMA CENTRAL _ Pedro Baptista

Por outro lado, e aqui a questão é transversal a ambos os países, o núme-


ro reduzido de sítios escavados resulta num conhecimento muito superficial de
cada um deles, seja a nível da sua organização interna ou dos contextos crono-
-estratigráficos de utilização e deposição dos seus materiais.

Fig. 3. Mapa de distribuição de ocorrências do Ferro Inicial.

E é aqui que podemos explicar, pelo menos em parte, a grande dificuldade


de adscrever sítios ao Ferro Inicial; no caso da Beira Interior, estes sítios só fo-
ram identificados com base em contextos de escavação onde foram detetados
materiais atribuíveis a este horizonte, por vezes associados a outros do Bronze
Final. Ou seja, admitindo um arcaísmo da cultura material e a resiliência de de-
terminadas formas dentro do Ferro Inicial, dificilmente se poderão distinguir à
superfície as suas cronologias.
Neste sentido, e como já referimos anteriormente, a ideia do afastamento entre
a Beira Interior e a Alta Extremadura (Norte) durante o Ferro Inicial deve ser mati-
zada à luz dos parcos dados disponíveis. Não sendo ainda claras as relações que
se estabeleceram entre estas regiões e o sul do Tejo ou a Meseta, não deixa de
ser sugestiva a concentração de povoados e achados que, do lado extremenho, se
relacionam ora com as portelas do Sistema Central, ora com os vaus do Tejo.
Por outro lado, as formas de apropriação e marcação de lugares fora dos
espaços habitados, como os achados metálicos, estelas e arte rupestre, resul-
tam sobretudo de achados casuais, carecendo ainda de uma abordagem con-
junta, sistemática e integrada que os permita relacionar não só com o quadro
de povoamento e mobilidade coetâneo, como também com os vestígios de um
passado mais antigo.
62 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

5
Neste sentido, no âmbito do nosso projeto de Doutoramento , desenvolvi-
6
do em articulação com um projeto de investigação internacional dedicado às
estelas de guerreiro, propusemo-nos a desenvolver um ensaio de Arqueologia
da Paisagem regional sistemático e multiescalar, cuja linha orientadora se pauta
pela análise das relações estabelecidas entre comunidades indígenas e exóge-
nas e de que forma estas se manifestaram na reconfiguração do território, desde
o Bronze Final até ao Ferro Inicial.
Mas a compreensão das dinâmicas de reconfiguração identitária e territorial
por parte das comunidades indígenas só pode resultar de necessária postura
aberta, alicerçada numa perspetiva diacrónica e multiescalar, que em termos la-
tos, na nossa abordagem, radica da análise de três aspetos:
a) o quadro de povoamento e exploração do território, testemunhado pelo
registo arqueológico e a sua distribuição espacial;
b) os contactos vigentes, intra e interterritoriais, testemunhados pela cultura
material e pela circulação de matérias-primas, tecnologias e ideias;
c) a rede de corredores de circulação que atravessa a área de estudo e a re-
laciona com as regiões em redor, através de pontos específicos de travessia
dos rios e cordilheiras montanhosas, extrapolada através do registo arqueo-
lógico e das características do território com recurso a análises espaciais.

À parte do necessário e imprescindível levantamento bibliográfico, do ponto


de vista metodológico, prevê-se o recurso a prospeções, tanto extensivas, como
intensivas, que acabam por servir um duplo propósito.
O primeiro, de aprofundar o nosso conhecimento acerca do registo arqueo-
lógico e da ocupação do território, procurando não só identificar novas ocorrên-
cias arqueológicas, sobretudo nas áreas com menor densidade de sítios e/ou
prospeções arqueológicas, como também caracterizar mais aprofundadamente
os lugares de achados mais antigos. Nesta linha, pretende-se observar a relação
destes, por exemplo, com recursos naturais, aspetos geomorfológicos particula-
res, monumentos naturais e pré-existências antrópicas.
O segundo, paralelo, mas indissociável do conhecimento científico, de avalia-
ção do estado de conservação das ocorrências proto-históricas conhecidas. Com
efeito, tem-se assistido, com particular intensidade em Portugal ao longo dos
últimos anos, à destruição de sítios arqueológicos, sobretudo fruto do vazio legal
no que toca às medidas de minimização patrimoniais da exploração agroflorestal
intensiva. A situação é agravada no caso do período em análise visto que muitos

5
“Mundos em movimento, paisagens em transformação: dinâmicas de (re)configuração territorial na Beira
Interior e na Alta Extremadura entre o Bronze Final e o Ferro Inicial”, orientado pela Prof. Doutora Raquel
Vilaça (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).
6
“As estelas ibéricas da Idade do Bronze Final: iconografia, tecnologia e a transferência de conhecimento entre
o Atlântico e o Mediterrâneo”, coordenado pelo Doutor Ralph Araque Gonzalez (Universidade de Freiburg),
financiado pela Deutsche Forschungsgemeinschaft DFG (AR 1305/2-1).
TRANSPONDO O ERGES. O DELINEAR DE UMA ABORDAGEM TRANSFRONTEIRIÇA
63
À PAISAGEM PROTO-HISTÓRICA ENTRE O TEJO E O SISTEMA CENTRAL _ Pedro Baptista

dos seus testemunhos se resumem a simples embasamentos pétreos, estruturas


negativas e restos de argila cozida, todos estes facilmente destruídos em ações
de revolvimento do solo e surriba. Neste sentido, torna-se fundamental esta ava-
liação no sentido de definir prioridades e equacionar futuras intervenções com
recurso a escavações arqueológicas.
Além das prospeções arqueológicas, o projeto prevê o estudo das proveniên-
cias de dois tipos de testemunhos: os artefactos metálicos e as estelas de guer-
reiro, cada um com metodologias e objetivos próprios, mas inter-relacionados.
Em ambos os casos, a determinação da proveniência da matéria-prima é sempre
potencial, devendo ser interpretada à luz dos dados histórico-arqueológicos co-
nhecidos.
Posto isto, a determinação de proveniência de cobre pauta-se pelo cruza-
mento e comparação das composições químicas dos artefactos metálicos entre
si e com jazidas de minério, onde se atenderá à presença de elementos residuais
(PERNICKA, 2014, pp. 250-259), e das assinaturas isotópicas de chumbo, con-
cretamente dos rácios 207Pb/206Pb, 208Pb/206Pb e 206/204Pb (STOS-GALE &
GALE, 2009, pp. 202-203).
A amostra que analisaremos é composta por um conjunto tipologicamente
diversificado de artefactos metálicos do Bronze Final da Beira Interior, composto
por objetos representados nas estelas (espadas, pontas de lança e fíbulas) ou
utilizados para o seu trabalho (cinzéis), de influência exógena (“pega” com mo-
tivos sardo-cipriotas) ou produções regionais (machados de talão unifacial), e li-
gados à cadeia operatória metalúrgica (aderências de metal em cadinhos, restos
de fundição). Adicionalmente, como referência, analisar-se-ão também amostras
de minério de cobre proveniente de jazidas da Beira Interior e com vestígios de
exploração antiga.
Pretende-se com estas análises caracterizar a rede de contactos vigentes
com base na circulação do metal, ou seja, procurar responder às seguintes ques-
tões:
a) se os recursos mineiros deste território eram efetivamente explorados e
até onde terão circulado;
b) se existem correlações entre as tipologias, cronologias, contextos de utili-
zação / representação e a proveniência dos artefactos;

Por sua vez, a determinação da proveniência das estelas será feita com base
em análises petrográficas, cujos resultados serão comparados com afloramentos
rochosos no território envolvente.
Com base numa análise da distribuição espacial das estelas de guerreiro e
da disponibilidade geológica da sua matéria-prima, tem-se defendido que os
lugares de procura e exploração dos blocos pétreos se encontram nas imedia-
ções dos seus lugares de implantação (VILAÇA E OSÓRIO, 2017). Neste sentido,
64 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

as análises petrográficas pretendem testar esta noção, localizando os aflora-


mentos e procurando indícios da sua exploração em campo.
Finalmente, e em linha com o que temos vindo a defender em trabalhos ante-
riores, a abordagem destes dados pretende-se holística e articulando diferentes
escalas de análise. Para tal, o recurso aos Sistemas de Informação Geográfica
afigura-se como imprescindível, contribuindo com um vasto leque de análises es-
paciais de acessibilidade e visibilidade que permitam relacionar os novos dados
empíricos e analíticos obtidos.
Em última instância, cada uma destas etapas contribui com dados importan-
tes cuja leitura conjunta permite o aprofundar do nosso conhecimento acerca
destes territórios e das comunidades que os habitavam entre a Idade do Bronze
e a Idade do Ferro.

5. NOTAS FINAIS
O nosso conhecimento acerca da Proto-história das regiões da Beira Interior
portuguesa e da Alta Extremadura espanhola conta com uma significativa base
empírica, fruto dos trabalhos e estudos desenvolvidos ao longo das últimas dé-
cadas.
Ainda assim, existem várias linhas de investigação possíveis, com focos, ob-
jetivos e metodologias próprias que permitem o seu aprofundamento. A que es-
colhemos seguir assume um carácter transfronteiriço, diacrónico, interdisciplinar
e necessariamente holístico.
Começámos este texto com uma alusão à arqueologia enquanto “ciência que
estuda o passado ancorada no presente” e rematamo-lo retomando essa mesma
ideia.
De facto, à semelhança dos dias de hoje, as comunidades que no início do I
milénio a.C. habitaram o interior da Península Ibérica experienciaram um período
de acelerada mudança, onde diferentes mundos “colidem”, marcados por novas
gentes, novos materiais e tecnologias, e novas ideias e cosmologias. O resultado
das suas escolhas marcou o seu devir histórico e lançou as bases para o que se-
ria o quadro socio-identitário que os romanos aqui viriam a encontrar, rompendo
em definitivo com o passado pré-histórico e iniciando o que seria de facto uma
nova era.

AGRADECIMENTOS
Ao Mário Monteiro, pela cedência da Figura 1, e ao Pedro Fonseca, pela par-
tilha de informações relativas aos costumes e festividades das comunidades de
Monte Fidalgo e Cedilho.
TRANSPONDO O ERGES. O DELINEAR DE UMA ABORDAGEM TRANSFRONTEIRIÇA
65
À PAISAGEM PROTO-HISTÓRICA ENTRE O TEJO E O SISTEMA CENTRAL _ Pedro Baptista

À Professora Raquel Vilaça, pelo convite para participar neste dossier temáti-
co e pelas revisões e sugestões que muito enriqueceram este texto.
À Deutsche Forschungsgemeinschaft DFG, no âmbito do financiamento do
projeto AR 1305/2-1.

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Resumo:
Dos dois lados da fronteira que atualmente separa Portugal de Espanha desenha-se um ter-
ritório partilhado entre a Beira Interior e a Alta Extremadura. Apesar das afinidades culturais
durante, pelo menos, o Bronze Final serem já reconhecidas desde a década de ’90, estas
regiões nunca foram alvo de uma abordagem arqueológica comum.
Neste sentido, apresenta-se de forma preliminar um projeto de investigação transfronteiriço
em curso sobre as dinâmicas de reconfiguração territorial durante a Proto-história Peninsular
nestes territórios, valorizando a sua posição de charneira entre várias regiões da Península
Ibérica, as suas singulares características naturais, e a riqueza e diversidade do seu registo
arqueológico.

Palavras-chave: Arqueologia da Paisagem; Arqueologia Transfronteiriça; Proto-história Penin-


sular.

Crossing the Erges. Outlining a cross-border approach


to the protohistoric landscape between the Tagus and
the Central System

Abstract:
From both sides of the border between Portugal and Spain, a territory shared by the Beira
Interior and the Alta Extremadura takes shape. It's somewhat surprising that these two regions
were never the focus of a joint, cross-border, archaeological approach; especially when we
consider that since the '90s their cultural affinities during (at least) the Late Bronze Age have
been recognized.
In this sense, we present a preliminary overview of an ongoing cross-border research project
regarding the territorial reconfiguration dynamics during the Peninsular Protohistory in these
territories. Through this, we intend to highlight its central position between several regions
of the Iberian Peninsula, its singular natural features, and the diversity of its archaeological
record.

Key words: Landscape Archaeology; Cross-border Archaeology; Peninsular Protohistory.


FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E
LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS
TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO
I MILÉNIO A.C. UM CASO DE ESTUDO
NO ALTO CÔA
MARCOS OSÓRIO*

1. A PROBLEMÁTICA DA DEFINIÇÃO DE TERRITÓRIOS


No decurso da nossa investigação na região do Alto Côa sobre as estratégias
ocupacionais em diversos povoados com ocupação do II e I milénio a.C., entre-
1
tanto abandonados e, posteriormente, reocupados na Idade Média , tornou-se
imprescindível conhecer devidamente as realidades envolventes a esses sítios
e perceber até que ponto o espaço periférico contribuiu para as dinâmicas de
ocupação humana observadas no registo arqueológico.
É sempre importante apurar os benefícios e as vantagens de viver num deter-
minado povoado, tendo particularmente em conta, a área circundante. Mas para
isso é necessário proceder a uma delimitação territorial, demarcando aquilo que
pertencia à comunidade, e era por ela controlado e explorado, em contraste ao
que já seria externo a esse mesmo grupo populacional.
Temos noção de que a definição de qualquer território antigo é uma tarefa
exigente, tratando-se obviamente de uma mera aproximação teórica (ENCARNA-
ÇÃO 1997: 80). Qualquer abordagem à envolvência de um assentamento popula-
cional, ocupado no II e I milénio a.C., depara com o problema dos limites, o que
não impede que se proponham hipóteses, pensadas em termos genéricos e não
baseadas em cálculos simplistas.
Contrariamente ao que sucede nos territórios de época romana e medieval,
dos quais possuímos algumas referências de autores clássicos, da epigrafia e da
paleografia, quando nos focamos no estudo das comunidades mais antigas essa
informação é inexistente e temos sempre de partir para a definição do espaço
envolvente cingidos à mera análise ambiental.

*
Município do Sabugal e CEAACP. arkmarcos@hotmail.com. ID ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4340-461
1
Temática sobre a qual versa a nossa Tese de Doutoramento, orientada pela Doutora Raquel Vilaça e Doutora
Helena Catarino da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
70 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Ao abordarmos o território em estádios de desenvolvimento civilizacional


destituídos de poder central, devemos considerá-lo sempre como um produto
das pessoas que nele habitaram e o delimitaram (GUATTARI E ROLNIK 1996: 323). A
ligação dos povos tradicionais ao seu espaço vivencial era mais intensa, porque
além de constituir a sua fonte de recursos, era igualmente objeto de uma forte
apropriação simbólico-religiosa (HAESBAERT 2004: 72).
Estas sociedades agrícolas, pastoris e metalúrgicas dependiam principal-
mente das condições físicas do seu entorno e empregavam as referências
espaciais do meio ambiente na construção da sua própria identidade. O seu
território definia-se sobretudo por um princípio cultural de pertença, fruto de
uma relação de carácter afetivo com o espaço vivido, mas também percebido,
que se sobrepunha à simples posse material (GODELIER 1986: 106; HAESBAERT
2004: 72). Ao passar bastante tempo num determinado espaço, as comunida-
des não só o ocupavam, exploravam e delimitavam, mas iam-se identificando
com ele e demarcando-o simbolicamente (DI MEO 1991: 273; SANCHES 2000:
133-137).
Nesse processo de apropriação humana do espaço, a perceção joga um pa-
pel muito ativo na sua legitimação, tanto para o interior da comunidade como
para o exterior, gerando vínculos coletivos, que criam esse espaço social que é a
paisagem (OREJAS et al. 2002: 301).
Por isso, o território não deve ser abordado como um objeto, nem sequer
como uma entidade em si, mas antes como um ato e uma relação, e comporta
simultaneamente repetidas dinâmicas de apropriação e despreendimento, gera-
das apenas por aqueles que o habitaram, exploraram e nele circularam (SANCHES
2000: 131; HERNER 2009: 167).
Assim, deve ser representado e construído de forma ampla, incorporando
diversas experiências corporais e oportunidades de movimento direcional, bem
como todas as formas de cognição humana e de perceção sensorial (GUATTARI
E ROLNIK 1996: 323; TSCHAN et al. 2000: 37). Esta necessidade de uma aborda-
gem mais holística ao Passado tem sido defendida por vários autores (WATSON E
KEATING 1999: 326; HAMILAKIS et al. 2002: 8; LLOBERA 2007a: 52), dado que as
vivências quotidianas são multissensoriais, sendo fundamental recorrer ao que
ouvimos, cheiramos ou tocamos, para além daquilo que observamos à nossa
volta (TILLEY 1994: 14; FELD 1996: 91; TSCHAN et al. 2000: 30; GASPAR 2001: 89;
FRIEMAN E GILLINGS 2007: 6-7; WHEATLEY 2014: 122).
Com esse intuito, recorremos aos conceitos de proximidade e afastamen-
to que estão na base de diversos exercícios de análise espacial na Arqueolo-
gia, por terem impacto nos atributos e nas relações sociais dos assentamentos
(WHEATLEY E GILLINGS 2002: 148), inspirados no trabalho do antropólogo Edward
Hall, que defende que os comportamentos de territorialidade fazem parte da
natureza humana, estipulando diversos círculos de entorno, abertos a distintas
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
71
Marcos Osório

pessoas (HALL 1966: 114-125, 128), variando igualmente no tamanho, de acordo


com a situação e o tipo de interações sociais (LAWRENCE E LOW 1990: 478).
Quando nós lidamos com os outros, a sua presença requer a definição daqui-
lo que é nosso e daquilo que é seu. Aquilo que está do lado de cá e o que está
do lado de lá. Estes limites podem não ser consensuais, nem rigorosos, e de es-
tabilidade muito relativa, mas de alguma forma eles tem de existir e estar estabe-
lecidos para que as sociedades vivam em equilíbrio num determinado território.
Por isso mesmo, a territorialização é um processo constantemente associado
ao domínio político, social e económico, sendo a dimensão política a que melhor
responde pela sua conceptualização. Isto significa que o território é a área que
se deseja ter sob influência, passando a ter fronteiras e a ser defendido, pela ex-
clusão e inclusão seletiva de algumas atividades, que contribuem precisamente
para o que querem defender (COX 2002: 3). Se não houver excesso populacional
e conflitos, os limites serão definidos consensualmente, por via natural ou antró-
pica (INGOLD 1986: 133).
A abordagem que fizemos a esta problemática partiu deste conceito bási-
co de que a localização de qualquer sítio arqueológico no espaço decorre das
experiências e significados diários acumulados, conceptualizados a diferentes
escalas, desde o nível individual e privado até ao âmbito comunitário e social. E
que o espaço apenas ganha significado a partir dos lugares, pois ele não existe
sem eles. O centro é o local habitado e a periferia e o tipo de atividades que aí se
desenrolam, são sempre definidas de dentro para fora (INGOLD 1986: 133).
O desafio seria encontrar os fatores de ordem natural que contribuíram para
estabelecer os limites do entorno de uma comunidade de cronologia pré e pro-
to-histórica. Para isso, decidimos incidir em três principais focos de reflexão e
experimentação prática, tendo em conta as propostas anteriormente apresenta-
das, por diversos investigadores, sobre este assunto.
Neste texto procuramos partilhar as conclusões que temos vindo a desenvol-
ver sobre este assunto, enunciando algumas ideias iniciais que visam suscitar
alguma ponderação em torno da problemática e que serão, futuramente, mais
desenvolvidas.

1.1. A COMPONENTE DA ACESSIBILIDADE

A primeira vertente que devemos privilegiar na tentativa de estabelecer


alguma delimitação territorial aos núcleos habitacionais do II e I milénio a.C.
é a área mais rapidamente acessível aos residentes num determinado povoa-
do, pois qualquer experiência humana no mundo físico tem como componente
fundamental a dinâmica corporal, movendo-se nas três dimensões espaciais, o
que constitui a mais elementar forma de perceção e de conhecimento humano
72 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

(FARNELL 1993: 361-362). Não há espaço sem experiência vivencial, o que implica
ação, e esta envolve sempre movimento (VILAÇA E BAPTISTA 2020: 15).
A mobilidade é indissociável da natureza do ser humano, estando presente
em todas as esferas da realidade humana, ao longo do tempo, mas não é um
processo tangível, afigurando-se como um fenómeno de difícil definição. Ela é
universal, pois todos se movem, mas é variável porque o fazem a escalas dife-
rentes e com múltiplas formas de expressão, que coexistem e se articulam entre
si e os pontos fixos (VAN DOMMELEN 2014: 480; BAPTISTA 2019: 7).
Mas é sempre um movimento com propósito, constituído pelas deslocações
realizadas pelos indivíduos no seu território ou com as comunidades das áreas
vizinhas, com objetivos próprios, articulados de forma complexa entre a esfera
social, económica e cultural (ADEY 2010: 34-35).
O ser humano sempre exerceu domínio sobre os terrenos que acede e ex-
plora. Ao percorrer a extensão máxima do seu território, o homem, tal como os
animais, constrói formas de posse e pertença com significados sociais próprios
(FERNÁNDEZ MARTÍNEZ E RUIZ ZAPATERO 1984: 59). Ainda que não nos possamos
esquecer que o Homem utiliza o território e os seus recursos, maximizando-os de
acordo com o mínimo esforço possível, não devem ser descartadas as situações
de índole ritual em que é manifesto não ter sido este preceito privilegiado e jus-
tamente o seu contrário (BINFORD 1988: 216; VILAÇA 1995: 66).

1.2. O CONTRIBUTO DA VISIBILIDADE

Em segundo lugar, deve-se ter em consideração a área que é alcançada e


controlada pela visão, pois esta é a faculdade sensorial mais importante da expe-
riência humana, e não poderia ser excluída desta reflexão, dado que nos propor-
ciona orientação no movimento e a disposição dos elementos que estão à nossa
volta, mas também concede a habilidade de descodificar os incontáveis detalhes
visuais da realidade envolvente (SKEATES 2010: 8).
Com ela construímos a representação do ambiente circundante, integrando
simultaneamente elementos de curta e longa distância, tornando-se uma das
performances humanas mais surpreendentes quando é exercida num vasto ho-
rizonte, não só pela diversidade de informação que retém, mas porque é capaz
de individualizar cada elemento, a partir da totalidade avistada (GIBSON 1950: 2).
A componente psicológica do processamento da informação obtida pela
visão é denominada como perceção visual. No decurso das nossas práticas
sociais, o espaço é apreendido pela visão, é dimensionado pelo movimento e
é interiorizado finalmente pela mente. Para uma observação bem-sucedida, é
necessário ver, conhecer e pensar simultaneamente (see, know, think). Deste
modo, toda a fisionomia da paisagem, da arquitetura e da cultura material envolve
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
73
Marcos Osório

sempre a visualização, o conhecimento e o pensamento (CRIADO-BOADO 2015:


67). Só assim, o espaço ganha forma, e se a forma é visível, então tudo o que é
visível é racional.
Embora desconheçamos se a importância que a visibilidade detinha para
as comunidades antigas se equipara à atual (TSCHAN et al. 2000: 44), é seguro
supor que ela detinha significados particulares e era usada como recurso para
determinados objetivos pretendidos, com auxílio dos agentes físicos e dos ele-
mentos construídos pelo homem (MURRIETA FLORES 2011: 28).
Estamos convencidos que as sociedades antigas geriram as suas pautas de
territorialidade com base em estratégias visuais próprias, de acordo com os ele-
mentos relevantes da paisagem, e que ela teve um papel determinante na defini-
ção das áreas de influência em torno de um local habitado (GARCÍA SANJUÁN et al.
2009: 172), constituindo um recurso defensivo face às ameaças externas ou um
meio de controlo das fontes de recursos económicos da envolvência (MURRIETA
FLORES 2011: 28).

1.3. A VERTENTE DA AUDIÇÃO

Por fim, dando ênfase ao papel das outras faculdades sensoriais desvalo-
rizadas pelo pensamento científico ocidental, achámos que seria fundamental
integrar nesta abordagem o alcance auditivo que é possível obter a partir de um
núcleo habitado.
A boa ou má visibilidade dos sítios arqueológicos tem sido demasiadamente
priorizada, esquecendo o contributo que os restantes sentidos deram para as
estratégias de povoamento (LUND 1998; HAMILAKIS et al. 2002; KELMAN 2010;
MILLS 2014; KOLLTVEIT 2014: 74). Contudo, embora o ser humano adote a visão
como instrumento privilegiado, esta capacidade sensorial está dependente de
um conjunto de condicionantes, especialmente de luz (GIBSON 1950: 1). Por isso,
a força da visão desvanece ao anoitecer, quando os outros sentidos ganham pre-
ponderância e resta-nos apenas a capacidade auditiva (tal como a olfativa), que
é a última a fechar-se, ao adormecer, e é também a primeira a despontar, quando
acordamos (SCHAFER 1977: 11; SKEATES 2010: 8).
A faculdade da audição tem sido uma dimensão perdida do enfoque tradicio-
nal às sociedades antigas, mesmo sabendo que o som aporta informação social
e cultural sobre os seus emissores. Elas praticavam inúmeras atividades notur-
nas de caça e de vigilância, onde a audição era imprescindível (SCHAFER 1977: 11).
Raramente os lugares habitados pelo homem estão isentos de som, pois ele
está presente em todos os aspetos da vida comunitária, desde o discurso falado
às tarefas diárias, onde se produziam informações acústicas fundamentais para
as relações sociais (WATSON E KEATING 1999: 325; MILLS 2010: 181 e 184).
74 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O sistema auditivo coloca o corpo no centro da ação, à medida que os sons


o alcançam provindo das inúmeras fontes sonoras envolventes. Os diferentes
estímulos audíveis influenciam os padrões de comportamento na gestão e ex-
ploração dos recursos envolventes e contribuem para a leitura, interpretação e
memória dos lugares (GASPAR 2001: 91; HAMILAKIS et al. 2002: 8; FELD 2003: 226;
MILLS 2010: 180; MILESON 2018: 713).
É verdade que, embora os ouvidos desempenhem uma função universal,
eles são empregues de forma díspar no meio geográfico, e o significado dos
sons também variou ao longo dos séculos. O desafio para ultrapassar a barreira
do tempo é aferir a nossa perceção moderna com aquela que é especifica das
comunidades estudadas, culturalmente distintas da nossa, mas não necessaria-
mente desiguais (MILLS 2010: 179; KOLLTVEIT 2014: 74).
A probabilidade de sermos capazes de compreender os fenómenos auditivos
pretéritos, por meio da Arqueologia, suscita muita controvérsia. No entanto, não
devemos olhar para esse obstáculo como uma impossibilidade (HODDER 1992:
153; HAMILAKIS et al., 2002: 8). E, apesar da literatura científica raramente incluir
análises de âmbito acústico, pelo facto de que os sons não são detetáveis no
registo arqueológico (LUND 1998: 17), a Arqueologia tem potencial para se afir-
mar como uma disciplina que estuda efetivamente a relação entre o corpo, os
sentidos e a cultura material das antigas comunidades (MILLS 2014: 22).

2. O CÁLCULO DOS TERRITÓRIOS ACESSÍVEIS, VISÍVEIS


E AUDÍVEIS
Podemos utilizar diversos recursos técnicos e digitais, recorrer a cartogra-
fia detalhada e a ortofotos para estabelecer diversas considerações sobre os
territórios das sociedades do I milénio a.C., mas a demarcação natural do ter-
ritório envolvente, através desta vertente ergonómica e sensorial só é possível
reproduzindo o mesmo gesto e padrão de comportamento ancestral. E, qualquer
abordagem à realidade ancestral é feita através do corpo humano, como padrão
universal da perceção e um meio privilegiado de configuração do entorno atra-
vés da ação combinada de todas as suas ferramentas sensoriais (SKEATES 2010:
2; MILLS 2014: 38 e 82).
Os programas informáticos permitem hoje fazer estes cálculos, de modo ins-
tantâneo, mas revelam algumas incertezas que perturbam estas análises, pois
estão dependentes da qualidade da informação espacial empregue, das versões
do software, da potência do hardware e da habilidade do utilizador.
Desta forma, preferimos proceder a esta abordagem complexa aos territó-
rios dos povoados do II e I milénio a.C., através de exercícios práticos nestas
três componentes da definição de áreas de influência, que nos facultassem
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
75
Marcos Osório

uma perceção do espaço dominado pelos habitantes de um povoado, desde o


centro do território, para a periferia, por meio dos principais órgãos sensoriais e
locomotores. Com esta metodologia pretendeu-se a reprodução e compreensão
mais aproximada das situações experienciadas pelo sujeito, na linha das propos-
tas fenomenológicas (TILLEY 1994: 12; FRIEMAN E GILLINGS 2007: 7).

Fig. 1. Povoado proto-histórico de São Cornélio (Sortelha, Sabugal)

A componente experimental desta abordagem foi baseada em diferentes ti-


pos de ações, que estabelecessem os limites máximos da capacidade destas
três vertentes humanas. Fizeram-se exercícios de deteção e reconhecimento
visual na paisagem, testes de audição ambiental e os tradicionais cálculos do
custo de deslocação, cujos resultados foram georreferenciados, e dos quais se
pode agora estabelecer algumas considerações teóricas sobre a sua eficiência.
Os três exercícios práticos de perceção corporal e sensorial desenvolvidos
nesta investigação somente foram aplicados, nesta fase, nos povoados do São
Cornélio, Vila do Touro e Alfaiates (Sabugal) (Fig. 1 e 2), porque reúnem caracte-
rísticas únicas para a sua concretização. Por isso, somente estes sítios possibi-
litaram uma abordagem aprofundada a esta problemática, na reunião de todas
as valências físico-sensoriais com potencial de interferir na área periférica de
76 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

um local habitado, e são, por agora, suficientes para retirar algumas ilações no
confronto entre os modelos reproduzidos informaticamente e a realidade huma-
namente experimentada no terreno. Os outros assentamentos, por insuficiência
de tempo e por diversos condicionalismos geográficos, não foram sujeitos a es-
tes ensaios.
Não iremos detalhar aqui a metodologia, os resultados e as contrariedades
sentidas em cada exercício, pois isso ficará para o estudo mais aprofundado que
iremos apresentar posteriormente, mas apenas pretendemos descrever suma-
riamente os procedimentos básicos realizados.

Fig. 2. Povoado proto-histórico de Alfaiates (Sabugal) e a paisagem em torno

2.1. CÁLCULO DOS TERRITÓRIOS DE MARCHA

Para calcular a área mais facilmente acessível em torno dos primitivos nú-
cleos de ocupação humana, existiam alguns métodos tradicionais que foram
sendo melhorados com o recurso à tecnologia SIG.
Para a delimitação do território acessível encontra-se o conceito agregado de
distância e intervalo de tempo, cuja premissa é que uma área acedida em pouco
tempo será, naturalmente, mais facilmente controlada, explorada e defendida
(VITA-FINZI E HIGGS 1970: 7).
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
77
Marcos Osório

Tradicionalmente, a Arqueologia usou o pressuposto que o domínio sobre o


território é exercido em função da área a que os indivíduos podem aceder, do
centro para a periferia, no espaço de tempo suficiente para ir e regressar com
o menor custo energético (BETTINGER E BAUMHOFF 1982: 486-487). Assim, quan-
to mais afastados do núcleo habitado estiverem os recursos económicos, mais
dispendiosa será a sua exploração, havendo algures um ponto em que os custos
excedem os ganhos, constituindo esse limite a possível fronteira do território
ótimo explorado pelo grupo (CONOLLY E LAKE 2006: 214; GARCÍA SANJUÁN et al.
2009: 168).
Estabeleceu-se na arqueologia tradicional uma base consensual de referên-
cia de 1 hora de caminhada desde o habitat para atividades ligadas à agricultura
e 2 horas para atividades de caça, por analogia com populações agrícolas atuais
(BINTLIFF 1977: 112). Se efetuarmos esse exercício numa superfície completamen-
te plana, atingimos sensivelmente 5 km de extensão (VITA-FINZI E HIGGS 1970: 7
e 36).
Esta tem sido a fórmula empregue pela Arqueologia, nas últimas décadas
(DAVIDSON E BAILEY 1984), para demarcação empírica das áreas de influência ter-
ritorial das populações pré e proto-históricas, baseada em cálculos de distância/
custo. Com o advento dos SIG introduziram-se novos parâmetros e afinou-se o
modelo, permitindo a produção de inúmeras análises dos denominados territó-
rios de marcha (OSÓRIO 2017: 49-52), através de um simples “push bottom”, que
nos parece ser insuficiente para determinar, de forma correta, o espaço detido e
explorado por uma antiga comunidade.
As mais recentes investigações que têm sido desenvolvidas sobre este tema
procuraram conduzir o cálculo para além das modelações digitais, rumo a uma
apropriação da paisagem, sabendo que esta adquire significado através das pró-
prias atividades humanas (LOCK 2009: 81). A forma prática de reproduzir esse
fenómeno é visitar o sítio e fazer caminhadas, ao menos, nos vários quadrantes
espaciais, a partir do assentamento, durante 60 ou 120 minutos, unindo os pon-
tos máximos de deslocação, com a ajuda de cartografia topográfica (HIGGS E
VITA-FINZI 1972: 30; HIGGS 1975: 233).
Nesse sentido, decidimos proceder à experimentação prática dos modelos
teóricos e dos resultados informáticos com um trabalho de validação física e cor-
poral destas metodologias e procedimentos informáticos dos SIG, movendo-nos
pelo espaço envolvente, de forma a perceber a sua eficiência e se esses limites
eram reais.
Para isso, traçámos sobre a ortofoto 12 linhas orientadoras na paisagem, nas
diversas direções, de forma a realizar percursos de caminhada, divergentes e con-
vergentes, sempre a partir de um ponto central. O objetivo era cronometrar a dis-
tância percorrida ao longo do eixo, aos 15, 30 e 60 minutos de marcha, assinalando
o respetivo ponto por meio de coordenadas. Os traçados foram estipulados de
78 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

forma aleatória, tendo apenas em consideração as zonas que seriam mais propí-
cias à experimentação, pela menor presença de estruturas antrópicas recentes.
Posteriormente, em ambiente SIG, fez-se a ligação de todos os pontos de
marcha obtidos dentro da escala definida, assinalando a área perimetral de iso-
cronas alcançada no mesmo espaço de tempo (Fig. 5).
Desta forma pudemos, em primeiro lugar, validar os resultados informáticos,
se eles se aproximam da realidade prática, obtendo igualmente uma ótima per-
ceção da paisagem, dos marcos naturais e das estruturas humanas atuais, das
dificuldades de circulação, dos declives, do potencial hídrico, da vegetação, da
presença de animais selvagens, que nos permitiram ter um conhecimento pro-
fundo da realidade envolvente ao povoado, que geralmente nunca se chega a
realizar, no decurso da escavação arqueológica dos sítios.

2.2. CÁLCULO DA BACIA VISUAL

A determinação da área visível no horizonte, desde um ou vários pontos de


observação, constitui uma variável aplicada, há anos, pelos estudos arqueológi-
cos, graças ao seu importante papel na estruturação da paisagem humana. Estes
cálculos sempre foram essenciais na análise e interpretação arqueológica, sen-
do considerados a chave que responde a diversas questões sobre a fundação de
um sítio num determinado lugar (WHEATLEY E GILLLINGS 2002: 201-202).
A observação presencial, subindo aos cumes elevados ou percorrendo o en-
torno de um sítio, foi, desde sempre, o único recurso que o investigador tinha
para compreender a visibilidade de um local (OSÓRIO 2017: 46). Todavia, essa
perceção obtida no terreno estava condicionada por vários fatores, tornando-a
irrepetível e impedindo a sua rigorosa cartografia (WHEATLEY E GILLLINGS 2002:
203). Com o advento do processamento digital da informação altimétrica e o
desenvolvimento de novos algoritmos SIG, capazes de analisar grande volume
de dados geográficos, surgiram novas ferramentas que reproduziam o ato de
observar em ambiente virtual (WHEATLEY E GILLLINGS 2002: 201).
Consequentemente, as análises de visibilidade foram-se expandindo na in-
vestigação arqueológica, independentemente do período cronológico em causa,
para explicar a localização e o domínio territorial dos sítios, a sua conexão visual
com outros locais habitados e a imponência que detinham à distância (FISHER et
al. 1997: 583; WHEATLEY E GILLINGS 2000: 1-2; LLOBERA 2007: 51).
Os arqueólogos deram sempre ênfase à visibilidade e à intervisibilidade
máxima a longa distância. No entanto, descuraram a visibilidade mais próxima,
que interfere muito mais com a vida quotidiana da comunidade. A vigilância da
presença de estranhos, a observação do movimento do gado e dos rebanhos a
pastar, a identificação de perigos inesperados para os elementos da comunidade
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
79
Marcos Osório

(nas suas rotinas diárias no exterior), a deteção de caça ou de animais ferozes, o


controlo de um caminho ou a passagem de um rio, a vigilância dos terrenos de
cultivo e das zonas de exploração mineira, são exemplos privilegiados da visibi-
lidade a curta distância.
Por isso, ultimamente tem-se discutido sobre o que era verdadeiramente vi-
sível desde um sítio arqueológico (OGBURN 2006: 407) e existe um grande de-
sejo em clarificar a distância em que determinados elementos culturais podem
ser vistos ou reconhecidos, algo que depende das características do objeto em
questão, por exemplo (MURRIETA FLORES 2011: 28-29). Já alguns autores contri-
buíram para esta problemática ao definir três âmbitos de resolução da visibilida-
de em foreground, middle background e background (HIGUCHI 1983: 12).
Mais recentemente, Fabrega-Álvarez e Parcero-Oubiña (2019) foram mais
longe e conjugaram as propostas anteriores, abordando a visibilidade, não de
objetos, mas de seres móveis, e procuraram gerar bacias de visão mais elabo-
radas, criando aquilo que nós consideramos neste momento o melhor procedi-
mento de cálculo sobre o real controlo visual de qualquer posto de observação.
Os seus resultados práticos demonstraram a existência de uma progressão
na forma de visualização, a longa distância, separando os limiares visuais em
deteção (quando é possível observar pelo menos um indivíduo movendo-se), re-
conhecimento (refere-se à capacidade de caracterizar minimamente o indivíduo)
e identificação humana (quando se pode descrever completamente o agente e
o que traz com ele). Segundo estes autores, a partir dos 2500 m deteta-se na
paisagem a presença de uma entidade em movimento; sendo reconhecido como
ser humano, a partir dos 1200 m; mas só sendo possível caracterizar o seu com-
portamento, a 600 m. Já o limite de reconhecimento individual detalhado ocorre
somente aos 225 m; e só a poucos 60 m é possível a total identificação da pessoa.
Foram testes práticos de visibilidade no campo, semelhantes a estes, que
realizámos no cimo dos povoados, numa campanha específica envolvendo alu-
nos do Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coim-
bra, como alvos móveis de observação, a vários pontos de distância, para tentar
avaliar o seu avistamento desde o topo do povoado. Sempre que se detetava,
reconhecia e identificava cada indivíduo e os seus adereços, foi-se georreferen-
ciando a sua posição, para proceder ao cálculo final das respetivas distâncias em
torno do povoado (Fig. 4), através do qual obtivemos indicadores da capacidade
máxima de deteção, reconhecimento e identificação de indivíduos.

2.3. CÁLCULO DA BACIA AUDITIVA

Para este último âmbito de ação, existiam menos trabalhos de referência


e tivemos de procurar as nossas próprias soluções para compreender quão
80 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

efetivo era o som como meio de comunicação e qual o seu impacto no ambiente
circundante.
Da mesma forma que se criam bacias de visão digitais (viewsheds), admiti-
mos que também se pudessem produzir bacias de propagação sonora (sound-
sheds: DÍAZ-ANDREU et al. 2017: 196) que delimitam a extensão máxima onde a
voz humana ou qualquer dispositivo sonoro pode ser escutado, numa determi-
nada paisagem.
Conhecem-se alguns algoritmos computacionais que intentam definir a área
de impacto auditivo de uma determinada fonte sonora, inclusivamente em con-
textos antigos (MLEKUZ 2004; MILESON 2018: 714). A mancha obtida é uma fer-
ramenta útil para determinar o papel do som no entorno dos núcleos antigos
estudados, mas este cálculo requer alguns procedimentos complexos, que de-
pendem de variáveis difíceis de estimar, em que a distância é apenas uma deles,
juntamente com o tom e a potência da fonte de ruído (MLEKUZ 2004).
Ora, era muito difícil simular informaticamente a experiência passada, dado
que na zona onde desenvolvemos os nossos exercícios práticos não possuímos
registos paleoambientais que permitam reconstruir esse contexto físico original.
Como solução alternativa ao procedimento informático, optámos pelo exercício
de experimentação prática e de perceção sensorial no terreno, permitindo obter
uma «consciência da experiência viva» (JIMÉNEZ PASALODOS 2012: 444).
Foi com base neste princípio que partimos para a marcação no terreno das
isófonas esquemáticas dos núcleos populacionais estudados, assinalando o limi-
te máximo auditivo de contato entre o interior e a periferia do povoado, através
de testes que validassem essas trocas de sons no entorno do cabeço habitado,
com recurso a instrumentos similares aos usados no passado.
Para testar a audição tivemos que estabelecer uma fonte sonora humana,
posicionada no topo do povoado que, para além da voz e do assobio (meios de
comunicação comuns entre as comunidades ancestrais, a curta e a média distân-
cia) (LUND 2010: 237), recorreu a um dispositivo sonoro semelhante aos antigos
aerofones, feito a partir de um corno de bovino.
No exercício de campo, as emissões sonoras desenrolaram-se pela constante
sequência de voz, assobio e aerofone, pelo mesmo indivíduo, para dar maior
uniformidade dos resultados, projetando o som desde o interior do recinto, com
vários recetores no exterior. Os testes tiveram de realizar-se, naturalmente, em
períodos de bom tempo, evitando dias nublados ou ventosos.
As equipas recetoras fizeram trajetos radiais em torno do assentamento, dis-
tanciando-se ou aproximando-se da fonte emissora, para tentar obter a posição
exata em que o som era audível, registando a audição dos sons provenientes do
povoado e dando a respetiva resposta vocal. Os limites de propagação sonora
foram assinalados por GPS na cartografia digital, definindo assim a área máxima
audível na envolvência dos sítios estudados. No final, conectaram-se os pontos
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
81
Marcos Osório

na base cartográfica SIG, criando o perímetro de isófonas com o mesmo índice


auditivo (Fig. 3).

Fig. 3. Mapa dos pontos georreferenciados dos testes de audição realizados no entorno
do povoado de São Cornélio (Sortelha, Sabugal)

3. RESULTADOS DOS EXERCÍCIOS PRÁTICOS


Os exercícios realizados com estas 3 metodologias de definição do âmbito
de apropriação humana, direta ou indireta, do território envolvente aos assen-
tamentos proto-históricos estudados, proporcionaram importantes dados preli-
minares que demonstram que os limites de locomoção e os alcances visuais e
auditivos não são idênticos e, nem sequer os que esperávamos.
Embora não tenham sido ainda testadas todas as vertentes de análise pre-
vistas, em todos os povoados, mesmo assim é possível avançar já com algumas
ideias genéricas sobre a problemática.
82 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O meio de apropriação do território envolvente que define as fronteiras mais


longínquas de um povoado é a locomoção energicamente rentável. Mas em ter-
mos de segurança e controlo imediato haveria outros limites mais curtos que
podiam ser controlados desde o interior do habitat, simultaneamente pela visão
e pela audição.
Uma das constatações mais interessantes desta abordagem é a noção de
que não podemos separar a mobilidade, da capacidade de visão e de audição,
nos processos de definição dos raios de influência. Por outro lado, verificámos
que a visão não tem tanto poder controlador do território como supúnhamos.
Por esse facto, julgamos que qualquer proposta de definição territorial para
um povoado pré ou proto-histórico baseada apenas nos limites do tempo de
marcha ou na respetiva bacia de visão é nitidamente insuficiente e gera terri-
tórios ilusoriamente extensos. Apenas a conjugação destes vários âmbitos de
locomoção e perceção sensorial nos permitirá ter uma noção da verdadeira área
de influência na envolvência de um núcleo populacional.
Constatamos igualmente que estes âmbitos de influência auditiva, visual e
locomotora não geram perímetros regulares em torno dos povoados, mas pos-
suem irregularidades, dependentes das condições ambientais e físicas do en-
torno, especialmente da topografia. São territórios grandemente assimétricos e
distintos entre si. Qualquer barreira topográfica diminui a fronteira visual de um
sítio, mas não limita a bacia auditiva, nem a distância acessível. Por outro lado,
um grande curso fluvial impede a rápida progressão na marcha, mas não blo-
queia a visibilidade e audição dessa área envolvente. Por isso, os três âmbitos
devem ser sobrepostos, na tentativa de procurar aquelas áreas que facultam um
controlo e apropriação do território nas 3 vertentes, em simultâneo, tratando-se,
provavelmente, das zonas preferenciais de atividade da comunidade.

3.1. LIMITES AUDITIVOS

A primeira conclusão desta reflexão é que se quisermos efetivamente definir


o âmbito proxémico mais íntimo de qualquer comunidade pré ou proto-histó-
rica, teremos de ter em consideração os sons escutados, porque a audição é
a perceção sensorial mais elementar, que decorre de forma inconsciente e em
permanência. As suas únicas barreiras são as más condições climatéricas ou a
vegetação densa.
Ouvir e ser ouvido, constituiu sempre uma segurança para qualquer grupo
humano. Por isso, deveria existir um espaço em torno do local habitado cujos
sons aí produzidos seriam escutados no interior do núcleo habitado, prevenindo
a intromissão de agentes externos indesejados e, paralelamente, notificando da
atividade quotidiana dos membros da comunidade, fora do local habitado.
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
83
Marcos Osório

Neste primeiro círculo de proximidade comunitária poderiam realizar-se ati-


vidades que envolviam maior número de pessoas, inclusivamente as crianças
(BINFORD 1982: 7), cujo limite não seria ultrapassado, caso contrário passariam a
estar mais expostos a potenciais perigos animais ou humanos.
Claro que a audição do som não proporciona tanta informação sobre o emis-
sor como a sua observação. Mas, ainda assim, os exercícios revelaram que até
um máximo de 750 m de distância, pode-se distinguir vocalmente o género do
indivíduo e obter informações sobre a sua faixa etária, onde já não é possível
determiná-lo visualmente (só a menos de 400 m).
Os exercícios permitiram concluir que o perímetro de audição vai mais além
do limite no qual se podem identificar visualmente os indivíduos e obter noção
sobre a sua idade ou género, sobre os objetos que transporta e as suas inten-
ções, mas ficando aquém dos limites potenciais que permitem detetar visual-
mente o movimento de qualquer ser humano (2 a 2,5 km).

Fig. 4. Mapa dos pontos georreferenciados dos testes de deteção e identificação visual
de indivíduos nas proximidades do povoado de São Cornélio (Sortelha, Sabugal)
84 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Em determinados pontos testados, verificámos que, não só a voz era audível,


como uma frase gritada podia ser compreendida, o que permite deduzir que o
raio de transmissão de mensagens orais é muito maior do que imaginávamos.
Desta forma, o estabelecimento de comunicação vocal entre pessoas da mesma
comunidade, ou com estranhos, era viável a uma distância onde a identificação
física e visual desses mesmos indivíduos ainda não era possível.
Por fim, concluímos que, nos povoados de forte pendente, o perímetro au-
ditivo abarca perfeitamente a área acedida em 15 minutos de marcha, podendo
chegar quase até ao limite de 30 minutos de caminhada. Assim, dentro da área
de maior importância na exploração de recursos e de controlo das terras envol-
ventes, pelo rápido acesso a elas, conseguia-se estabelecer um contacto sonoro
mínimo com os elementos da comunidade que aí se encontravam e obter mais
informações sobre eles ao nível auditivo, do que visualmente.

3.2. BALIZAS VISUAIS

Mais além do círculo de proximidade sonora encontra-se aquilo que se po-


deria chamar o âmbito de controlo da visibilidade. Corresponde a um outro nível
sensorial, que já não se processa de forma inconsciente e também não é perma-
nente. Dura o ciclo diurno e apenas funciona com boas condições atmosféricas.
A visibilidade constitui o segundo nível proxémico, um aro de maior afas-
tamento e menor intimidade, com um alcance superior ao som, controlando e
apropriando-se daquele território que já não se escuta, mas que apenas se vê.
Dele não provêm tantas informações pormenorizadas sobre os indivíduos avista-
dos, mas tem-se algum domínio sobre quem se aproxima ou afasta do povoado.
As barreiras topográficas, vegetais e antrópicas são os principais fatores que con-
dicionam a amplitude de visibilidade em qualquer caso analisado, fazendo-se sentir
especialmente nos povoados de pouca altitude e encaixados em vales fluviais.
Num sítio elevado como o povoado do São Cornélio, com 1008 m de altitude,
a vigilância das ações dos elementos da comunidade em torno do assentamento
só é assegurada, com recurso à visão, até a um máximo de 2 km de distância
(Fig. 4). A deteção da aproximação indesejada e inesperada de um indivíduo,
numa perspetiva de controlo do território imediato ao povoado, apenas será
possível a partir dos 400 m, muito aquém do ponto de audição máxima (Fig. 4).
Contudo, o reconhecimento de uma ameaça externa composta por maior núme-
ro de elementos ― como uma matilha de lobos ou um grupo de combatentes,
pode dar-se um pouco mais além dos 2 km, dado que se distingue facilmente a
mancha de integrantes do grupo, em movimento.
O facto mais curioso é que, onde não sabíamos se era um animal ou um
ser humano que se aproximava, podíamos confirmar auditivamente tratar-se da
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
85
Marcos Osório

voz humana. Não esperávamos que a figura humana isolada fosse visualmente
pouco distinguível, enquanto o som vocal ainda se mantinha reconhecível, ape-
sar das barreiras topográficas. O limite sonoro de audição e compreensão de
palavras não fica pois aquém do espaço onde é possível o reconhecimento dos
indivíduos, antes quase se sobrepõe.
Se tivermos em consideração a distinção entre a visibilidade defensiva (de
ameaças humanas e animais) e o controlo visual das atividades dos elementos
da comunidade, verificamos que estes factos testados parecem ser prejudiciais
para quem vigia o povoado, pois o invasor tenderia a manter-se silencioso, antes
de ser detetado visualmente, ao passo que já seria fundamental para efeitos de
segurança dos elementos da comunidade, em atividades no exterior do espaço
habitacional, mesmo quando a perda de contacto visual era substituída pelo con-
tacto sonoro.
Para além desta visibilidade curta, temos aquela que permite atingir uma ex-
tensão de área mais distante do que o território que se escuta. Em alguns casos
ela pode chegar aos territórios das comunidades vizinhas, como acontece no
São Cornélio, onde a visibilidade máxima vai para além do aro de proximidade
e acessibilidade de uma comunidade, imiscuindo-se em terras das restantes co-
munidades. Esta visibilidade intrusiva é de pouca resolução, mas existia e permi-
tia obter algumas informações sobre as comunidades vizinhas, instalando-se em
locais elevados como este.

3.3. FRONTEIRAS LOCOMOTORAS


Por fim, para além da área que se escuta e visualiza, encontra-se o espaço a
que se pode aceder durante o tempo suficiente para concretizar uma atividade
desejada e regressar ao núcleo habitacional. Este constitui o derradeiro círculo
proxémico.
Essa área máxima de acessibilidade, apesar de estar no domínio efetivo da
comunidade, é onde ela já se sente desconfortável. Daí não provêm sons audí-
veis, e mal se avistam ou distinguem os indivíduos, fruto da perda de resolução
visual ou dos inúmeros obstáculos que se vão interpondo pelo caminho. É o der-
radeiro aro de controlo da paisagem, explorado com objetivos essencialmente
económicos, e com uma fronteira mais permeável e indefinida.
Há décadas que vários autores têm tentado definir os limites desta esfera de
acessibilidade humana, sugerindo distâncias e áreas abrangidas pela marcha,
como já vimos. Os nossos exercícios de replicação da marcha humana revelaram
distâncias de deslocação humana maiores do que as isocronas obtidas pelos
algoritmos da simulação informática. Os testes parecem revelar territórios de 30
minutos (equivalentes mais ou menos a 2,5 km) bastante extensos, correndo-se
86 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 5. Mapa dos pontos georreferenciados de 15 e 30 minutos nos 12 traçados de marcha


à volta do povoado de Alfaiates (Sabugal)

o risco de chegar, em 1 h de caminhada, a zonas controladas e exploradas por


comunidades vizinhas.
No nosso exercício de validação dos tempos de marcha, os percursos segui-
ram, de forma bastante rígida, as linhas traçadas previamente na cartografia, ape-
sar dos diversos obstáculos naturais e humanos que deparámos. E embora essas
condicionantes possam ter interferido nos resultados, a verdade é que se verificou
uma certa coerência nas distâncias percorridas, coincidente com a facilidade de
deslocação pelo terreno, de acordo com a topografia e as linhas de água (Fig. 5).
No proeminente cabeço de São Cornélio verifica-se que as isócronas de 30
minutos pouco ultrapassam os territórios escutados e de reconhecimento visual
próximos, como era expectável, enquanto nos povoados de curto alcance visual,
as isócronas de 15 minutos são as que reuniram maior coincidência com os terri-
tórios escutados e visíveis.
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
87
Marcos Osório

Fig. 6. Fotografia da vertente sudeste do cabeço de São Cornélio, assinalando os limites de 15,
30 e 60 minutos de marcha, em linha reta

Nos percursos de marcha


de 30 minutos, rapidamen-
te nos colocamos para além
das áreas onde os sons não
chegam ao assentamento e
onde a resolução visual não
se atinge, por diversos obstá-
culos físicos ou por perda de
nitidez e focagem (Fig. 6).
O tempo que demoraria
chegar ao ponto onde se deu
o reconhecimento visual de
uma ameaça externa a apro-
ximar, a menos de 3 km de
distância, é sensivelmente de
20 a 30 minutos.
Mas a ausência de visibi-
lidade a tão longa distância,
a partir dos 45 minutos de
descida, leva-nos a ques-
tionar se não seria mais im-
portante que o território de
exploração fosse também,
em grande parte dos casos,
o território audível e visível.
Porque, para além desse aro
visual e audível, a exploração
era arriscada, se existissem
fortes ameaças externas no entorno, havendo zonas completamente invisíveis
aos observadores.

4. TERRITÓRIOS MULTISSENSORIAIS
Tendo em consideração o que foi exposto, ficou patente a necessidade de
conjugar sistematicamente estes três âmbitos de perceção na demarcação de
qualquer área de ação em torno dos núcleos de povoamento pré e proto-histó-
rico – definindo aquilo que denominámos como um sensorious catchment ― de
88 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

onde procedem estímulos de variada ordem e amplitude e onde todos os senti-


dos estariam envolvidos (ver FRIEMAN E GILLINGS 2007: 10).
Ao espaço controlado pela ação conjunta destas aptidões físicas e senso-
riais denominámos de “territórios multissensoriais”, onde se podem definir
diversos índices proxémicos das áreas de apropriação e exploração direta
ou indireta pelas comunidades. Estes resultados constituem uma nova visão
holística para a mais completa e equilibrada definição do território de um
povoado.
O domínio de um território pelos mecanismos de deslocação humana é feito,
simultaneamente, em interação com os sentidos, o que permite que o indivíduo
exerça um controlo visual e auditivo desse mesmo espaço percorrido (MURRIETA
FLORES 2011: 29). Neste processo de deslocação pelo terreno, temos noção dos
nossos limites fisiológicos e percetuais, obtemos sinais sonoros da envolvência,
avistamos e recebemos sensações olfativas e todos estes sentidos, conjunta-
mente, dão-nos a perceção do terreno que percorremos e contribuem para defi-
nir aquilo que é o entorno da comunidade.
Embora a visão desempenhe o papel mais importante, é sabido que a audi-
ção e o olfato têm igualmente grande importância na atividade humana quotidia-
na. Por exemplo, prestar atenção aos ruídos é fundamental para evitar perigos,
e o cheiro do fogo ou da comida cozinhada pode ser um bom indicador de proxi-
midade a um núcleo habitacional.
Se atentarmos de forma analítica para o nosso entorno, conseguimos dis-
tinguir entre aquilo que vemos, cheiramos e ouvimos. As impressões olfativas
e auditivas deixam impressões fortes na memória dos lugares e dos momentos,
e podem ser ordenados espacialmente, variando de lugar para lugar (GASPAR
2001: 89). Em cada experiência diária no ambiente natural, a presença acústi-
ca revelada está sempre em tensão com a realidade visual escondida (THOMAS
2008: 10; FELD 2003: 227).
Desta forma, qualquer análise espacial que combine visibilidade, audição e
olfato, será sempre muito mais reveladora, especialmente naqueles assenta-
mentos populacionais que estavam escondidos e dissimulados na paisagem,
mas que seriam identificados por virtude dos ruídos e dos cheiros que aí eram
produzidos (TSCHAN et al., 2000: 46; GASPAR 2001: 89).
Mas, a perceção territorial através dos sentidos é um campo muito subjetivo
onde existe sempre a possibilidade de erro, porque além dos estímulos senso-
riais serem experienciados de modo diferente, por cada pessoa, a capacidade
dos sentidos também varia em função de fatores naturais e humanos externos, o
que limitará o seu carácter universal.
A análise aos territórios escutados, visíveis e acessíveis que desenvolvemos
nestes povoados, visaram compreender o entorno dos sítios, percebendo as po-
tencialidades ocupacionais destes locais. O estudo permite-nos acreditar que
FRONTEIRAS AUDITIVAS, VISUAIS E LOCOMOTORAS NA DEFINIÇÃO DOS TERRITÓRIOS DAS SOCIEDADES DO I MILÉNIO A.C.
89
Marcos Osório

estas propostas se aproximam bastante daquilo que seria a realidade do II e I


milénio a.C.
Ora, tendo em conta as considerações sobre os diferentes índices de apro-
priação e controlo do espaço envolvente de qualquer comunidade, que diferem
de acordo com os sentidos e a disposição corporal dos indivíduos, bem como
dos entraves e obstáculos que se deparam a cada ato de perceção desse espa-
ço, é justificável que se definam agora as categorias genéricas de proximidade
de qualquer sítio habitado, que constituem círculos proxémicos humanos, mas
agora numa perspetiva comunitária.
Nesse escalonamento espacial daquilo que é a área de influência dos po-
voados, podemos agora aplicar os mesmos princípios dos círculos proxémicos
individuais propostos pelo antropólogo Edward Hall (1966) e definir diferentes
categorias de territórios a uma escala comunitária, de acordo com o grau de in-
timidade que eles tinham com o espaço envolvente e com os seus componentes
paisagísticos.
Estas categorias serão geradas pela conciliação possível entre os vários
exercícios e abordagens realizados nestes assentamentos do Alto Côa, mas que
podem constituir categorias universais a serem replicadas, ou não, em outras
regiões e períodos cronológicos distintos.
Neste sentido, o círculo mais próximo seria, naturalmente, a paisagem sonora
mais íntima em torno dos lugares, onde o homem ouvia os seus sons familiares,
e o espaço onde se podia identificar visualmente qualquer ser vivo móbil. Nele
caberiam também os territórios olfativos, que nós não podemos incluir nesta in-
vestigação, pela dificuldade de replicar o fenómeno.
Esse território de controlo auditivo, que é um pouco menor que o de controlo
visual do movimento, seria aquele mais seguro e mais ligado aos habitantes. O
perímetro onde se ouve reciprocamente, onde se vê e se identifica o movimento
na paisagem, e onde acedemos rapidamente, em cerca de 20 minutos, teria
sensivelmente um raio de 600 m.
Uma vantagem deste raio euclidiano é que está pouco dependente das va-
riações hídricas, topográficas e da vegetação. Para fora desse âmbito territorial
entramos em áreas onde os dispositivos percetuais começam a diminuir drasti-
camente, onde eu ouço, mas não reconheço visualmente nada, apenas distin-
guindo o movimento dos indivíduos, que pode englobar um total de 2 km de
distância.
Por fim, num terceiro nível de afastamento, entramos em espaços onde eu ace-
do e regresso menos rapidamente, mas não vejo e nem ouço. Um espaço onde não
estaríamos ainda em território de qualquer comunidade vizinha, mas que é uma
área menos controlada, mais insegura, que poderia ser deixada apenas para ativi-
dades esporádicas e extremamente essenciais, requerendo até meios adicionais
de proteção, de comunicação e adereços para facilitar a visualização e colmatar o
90 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

menor controlo por parte da comunidade. Cremos que este círculo compreende
a extensão territorial distante do povoado entre 3 e 4 km.
Estas áreas, assim definidas, podem constituir, agora, um novo paradigma
na compreensão das diferenças de apropriação e controlo dos territórios, com
base em fatores de audição, visualização e acessibilidade da paisagem destes
povoados.

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Resumo:
Neste artigo realizou-se uma abordagem à problemática da definição dos limites das áreas de
influência ou territórios das sociedades do II e I milénio a.C., das quais não possuímos qual-
quer outra informação, a não ser o atual meio ambiental onde o sítio se encontra. Desta forma,
o autor defende a necessidade de realizar exercícios práticos com vista a definir esses limites,
pela repetição dos mesmos gestos e apropriação do território envolvente, por meio de três
âmbitos de reflexão e prática: a deslocação pelo terreno, a visibilidade obtida desde o local
habitado e o espaço auditivo obtido desde esse ponto. A conjugação destas três ferramentas
físicas e sensoriais permite propor categorias de proximidade que intentam delimitar o espaço
vivido, explorado e apropriado por essas comunidades proto-históricas.

Palavras-chave: Territórios; Fronteiras; Proto-história; Visibilidade; Audição; Locomoção.

Auditory, visual and locomotor boundaries in defining


the territories of societies of the 1st millennium BC. A
case study in the Alto Côa.

Abstract:
This paper presents an approach made to the problem of defining the limits of the areas of in-
fluence or territories of societies from the 2nd and 1st millennium BC, of which we do not have
any other information, except the current environment where the site is located. In this way, the
author defends the need to carry out practical exercises to define these limits, by repeating the
same gestures and appropriating the surrounding territory, through three areas of reflection
and practice: the displacement through the terrain, the visibility obtained from the inhabited
place and the auditory space obtained from that point. The combination of these three physical
and sensory tools allows us to propose categories of proximity that intend to delimit the space
experienced, explored and appropriated by these protohistorical communities.

Key words: Territories; Frontiers; Protohistory; Visibility; Audition; Locomotion.


NO LIMIAR. DIFERENTES ESCALAS DE
ANÁLISE DA ARTE DA IDADE DO FERRO
NO LIMITE OCIDENTAL DA MESETA
LUÍS LUÍS*

1. A IDADE DO FERRO NO CONTEXTO DA IDENTIFICA-


ÇÃO DA ARTE DO CÔA
A divulgação da descoberta da arte rupestre do Vale do Côa em finais de
1994 abriu caminho a um debate de proporções nacionais e internacionais acer-
ca da preservação do maior conjunto de arte paleolítica ao ar livre do mundo.
Na verdade, a região era já conhecida pela sua arte rupestre desde 1981.
Nessa altura foi identificado o sítio do Vale da Casa (também conhecido por da
Cerva ou de Canivães), que viria a ficar submerso pela albufeira da barragem do
Pocinho, que submergiria igualmente o curso final do rio Côa (BAPTISTA 1983).
Durante esse ano e no seguinte viriam a identificar-se no Vale da Casa 23 rochas
gravadas por incisão e picotagem em suportes horizontais de xisto, associadas
a um conjunto de cistas cobertas por mamoa, mais tarde datadas de entre 2880
e 2500 a.C. (CRUZ 1998). Para além de algumas representações modernas, de-
finiu-se um primeiro momento de produção artística, composto essencialmente
por picotagens, eventualmente associado à ocupação do espaço como necró-
pole, seguido por outro momento, caracterizado pela representação de figuras
animais (cavalos, cães e veados), humanas e armas, através de incisão fina, atri-
buído à Idade do Ferro.
Estas descobertas prévias viriam a influenciar o contexto da descoberta
1
e divulgação da arte paleolítica do Côa, a partir de novembro de 1991. Se as
gravuras inicialmente identificadas foram sobretudo paleolíticas, já antes de
março de 1993 se havia descoberto uma rocha próxima do Orgal (certamente
a rocha 1 do Meijapão), logo se estabelecendo a sua relação estilística com as
gravuras do Vale da Casa (REBANDA 1994: 4). Em novembro de 1994, aquando
do alargamento da prospeção para a área da confluência do Côa com o Dou-
ro, identificam-se novas gravuras atribuídas à Idade do Ferro no Vale de José

*
Arqueólogo. Fundação Côa Parque. luisluis@arte-coa.pt
1
Embora o início da descoberta esteja datado de finais de 1992 (REBANDA 1995), existe nos arquivos da Fundação
Côa Parque uma fotografia de campo da rocha 1 da Canada do Inferno com a data de 20 de novembro de
1991.
96 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

2
Esteves (REBANDA 1995: 8). É por esta altura que se divulga a descoberta da
arte do Côa e se inicia o debate e a luta pela sua preservação. Na sua sequência,
na primeira publicação relativa à arte do Côa, o ciclo artístico do Ferro já surgia
referido, embora não ocupasse mais do que dois parágrafos (REBANDA 1995: 14).
Enquanto as equipas de investigação se concentravam no estudo dos pai-
néis paleolíticos nas imediações da barragem, alguns fozcoenses iniciavam por
sua conta a prospeção de áreas mais distantes. Para montante, Adriano Ferreira
descobriria em janeiro de 1995 as gravuras paleolíticas da Quinta da Barca e

Fig. 1. Arte rupestre do Vale do Côa na Idade do Ferro e respetivo contexto arqueológico.

2
Nesta publicação estes achados são dados como os primeiros, o que é contradito pelo que se expôs
anteriormente.
NO LIMIAR. DIFERENTES ESCALAS DE ANÁLISE DA ARTE DA IDADE DO FERRO NO LIMITE OCIDENTAL DA MESETA
97
Luís Luís

Penascosa. Para jusante, nos vales tributários do Douro mais próximos de Vila
Nova de Foz Côa, José Constâncio descobriria logo a seguir as gravuras da Idade
do Ferro de Vale de Cabrões (REBANDA 1995: 8).
O facto da esmagadora maioria das rochas atribuídas ao Ferro se situarem
fora da área submergida pela barragem, associado à particular importância da
descoberta da primeira arte humana em contexto de ar livre, fez com que esta
arte não tenha entrado na polémica da preservação da arte do Côa, marcando
igualmente a história da sua investigação até aos dias de hoje.

2. UMA ARTE NA PAISAGEM


Tal como a esmagadora maioria da arte paleolítica da região, a arte rupestre
da Idade do Ferro inscreve-se nas típicas superfícies verticais de xisto da região,
com a exceção dos painéis do Vale da Casa e da rocha 6 do Vale do Forno, que se
encontram em superfícies horizontais. As superfícies verticais correspondem a
planos de diáclase resultantes da tectónica frágil tardi-hercínica, que definiu uma
estrutura com uma direção dominantemente NNE-SSW (AUBRY, LUÍS & DIMUCCIO
2017). Essa estrutura irá condicionar o encaixe fluvial do Côa e será durante esse
processo que as superfícies verticais irão ficando expostas, num processo con-
tínuo, que prossegue na atualidade. Elas começarão a ser gravadas a partir do
Pleistoceno superior.
A arte rupestre da Idade do Ferro insere-se neste processo histórico e a sua
distribuição pelo vale obedece tanto a motivações antrópicas, como a razões de
formação e preservação dos suportes, que condicionam a realidade que hoje
nos é dada a conhecer.
Conhecem-se hoje 537 painéis gravados com arte atribuída à Idade do Ferro
no Côa (Fig. 1), distribuídos por 51 núcleos distintos, um valor apenas suplantado
3
pela arte paleolítica. Ambas as fases se distribuem pelos últimos quilómetros do
rio Côa e em grande medida nas mesmas áreas e painéis (AUBRY, LUÍS & DIMUC-
CIO 2017: 143-144), o que se deve às características estruturais de formação e
preservação das superfícies de diáclase onde se inscrevem. No entanto, a maior
concentração da arte proto-histórica na confluência do rio Côa com o Douro e
nos vales adjacentes – a montante e a jusante –, faz supor igualmente a existên-
cia de critérios culturais na sua distribuição.
Ainda assim, a sua distribuição encontra-se fortemente condicionada pela
disponibilidade de superfícies de diáclase e sua preservação. Por isso, tal como a
restante arte rupestre da região, a arte sidérica encontra-se em áreas de verten-
te acentuada (exceto o Vale da Casa) nas encostas do Côa (Foz do Côa, Moinhos

3
Estes valores correspondem à base de dados da Fundação Côa Parque à data de 5/5/2021, fruto dos trabalhos
de prospeção arqueológica, da responsabilidade de Mário Reis.
de Cima), mas sobretudo nos íngremes e encaixados vales que descem desde o
planalto do limite ocidental da Meseta ibérica (~400 m) até ao fundo dos vales
(~120 m) (Vale de José Esteves, Vale de Cabrões, Vale do Forno), pois é aí que as
superfícies de diáclase têm condições naturais para a sua exposição ao longo do
processo de encaixe fluvial.
Este facto não explica porque é que toda a arte rupestre do Côa se situa es-
magadoramente em vertentes voltadas a sudeste (mais de 50% no caso da arte
do Ferro), este e sul (22% e 11%, respetivamente). Se a orientação da estrutura
tectónica determina a orientação dos painéis, eles serão expostos tanto para SE,
como para NW. No entanto, a presença da arte sidérica nas vertentes voltadas
a NW é residual (-10%), o que se relaciona com a preservação da superfície dos
painéis pós-exposição, por ação da água e colonização vegetal em áreas um-
brias de baixa exposição solar (AUBRY, LUÍS & DIMUCCIO 2017). Ainda assim, a arte
4
proto-histórica é mais frequente nestas zonas umbrias do que que a azilense ,
que só se preserva nestas áreas em condições microtopográficas excecionais.
Este dado explica-se pelo facto da arte azilense ter um tempo de exposição aos
elementos 20 vezes superior ao da arte do I milénio a.C., encontrando-se mui-
to mais degradada. Esta diferença fundamental explica também porque é que
a arte do Ferro se encontra geralmente em áreas mais altas e vertentes mais
íngremes do que as fases mais antigas da arte paleolítica. Este dado é aparente-
mente contraditório com o facto de que o encaixe fluvial determina a exposição
das superfícies a gravar, pelo que as superfícies expostas mais recentemente se
encontrarão no fundo do vale. Sendo verdadeira, esta realidade contrasta com
a natureza da erosão das vertentes, que, fruto da ação da gravidade (toppling),
é mais acentuada no topo da vertente e em áreas mais declivosas, diminuindo a
sua preservação a longo termo.
Apesar dos contínuos avanços na prospeção (REIS 2012, 2013, 2014), esta
arte mantém-se em grande medida desconhecida. A título de exemplo, refira-
-se que o relatório que fundamentou a decisão da preservação da arte do Côa
publica apenas um painel gravado com arte sidérica (Penascosa 14) e um detalhe
de um outro (Vermelhosa 1), com a representação da sobreposição de um cava-
leiro da Idade do Ferro a uma cabra azilense (ZILHÃO 1997: 33 e 406). Este exem-
plo explica a secundarização do estudo desta arte em face da arte paleolítica.
Os únicos trabalhos arqueológicos especificamente dedicados ao seu re-
gisto e estudo não foram além da notícia preliminar (ABREU et al. 2000). Tem-
-se vindo a realizar, desde os tempos do Centro Nacional de Arte Rupestre
(1997-2007), um relevante trabalho de decalque dos painéis gravados, embora
secundarizado pelo estudo da arte paleolítica. Maioritariamente inéditos, en-
contram-se desenhados integralmente cerca de cinco dezenas de painéis com

4
Fase final da arte paleolítica do Vale do Côa, datada de entre os 12 000 e os 10 0000 antes do presente.
NO LIMIAR. DIFERENTES ESCALAS DE ANÁLISE DA ARTE DA IDADE DO FERRO NO LIMITE OCIDENTAL DA MESETA
99
Luís Luís

motivos atribuídos a este período cronológico e mais dezena e meia de subpai-


néis ou detalhes de rochas.
Pela nossa parte temos vindo a procurar definir o que entendemos por arte
rupestre da Idade do Ferro no Vale do Côa, descrever a sua iconografia, datá-
-la através de comparações estilísticas e iconográficas, buscar pistas para a sua
interpretação e contextualizá-la no espaço onde se insere (LUÍS 2008, 2009a,
2015, 2016).
Na sua primeira definição, a arte do Ferro do Côa foi definida como um “ex-
pressivo conjunto” de figuras gravadas de “homens, animais e símbolos, de li-
nhas angulosas, com elevado grau de estilização”, gravadas por incisão filiforme,
com paralelos no Vale da Casa (REBANDA 1995: 14).
A partir dos dados conhecidos, nomeadamente dos decalques realizados
até ao momento, os motivos dominantes desta fase artística correspondem a
zoomorfos, que perfazem mais de metade das figuras representadas conheci-
das. Devido à sua natureza sumária e estandardizada, uma grande parte destas
representações é de difícil determinação quanto à espécie representada. Inde-
pendentemente da espécie, trata-se de figuras de longos corpos, de tendência
retangular, patas curtas, pescoços compridos e grandes orelhas. As espécies
distinguem-se por alguns detalhes (caudas, garras, crinas), mas sobretudo pelo
contexto em que surgem figuradas. A espécie mais representada é o cavalo, que
surge com alguma frequência montado. Seguem-se os canídeos, geralmente in-
terpretados como domésticos, e os cervídeos, distinguindo-se machos e fêmeas.
Como espécies minoritárias surgem algumas aves, javalis, peixes e um eventual
touro. Regista-se ainda a presença de algumas figuras fantásticas (LUÍS 2016).
A figura humana tem menor expressão numérica do que as animais, mas é
central na arte sidérica do Vale do Côa, seja pelo seu contexto nos painéis, es-
pecificamente no seio das cenas narrativas, seja pelo grau de detalhe com que
surge representada. Trata-se exclusivamente de figuras masculinas (contra REIS,
2021), sobretudo guerreiros, definidos pela panóplia que se lhes associa, sur-
gindo a cavalo ou apeados. Um grupo particularmente significativo de figuras
humanas são as representações de antropomorfos com cabeça de pássaro.
As armas mais comuns são as lanças, frequentemente representadas com lâ-
mina de nervura central e conto na extremidade oposta. Como armamento ofen-
sivo surgem ainda punhais, falcatas e uma espada. Relativamente a armamento
defensivo refira-se os escudos circulares, em perspetiva frontal ou de perfil, al-
guns casos de couraças, cnémides (proteções das canelas, ver VILAÇA 2012: 37)
e alguns possíveis capacetes.
Refira-se, finalmente, a presença de inúmeros signos geométricos estrutu-
rados (circulares, retangulares, preenchidos, meandriformes, etc.). De entre os
signos, tem particular importância o alfabeto grego identificado na rocha 23 do
Vale da Casa (GOMES 2013), assinalando o fim da Pré-história no vale.
100 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Estas quatro grandes categorias de motivos surgem frequentemente asso-


ciadas nos painéis do Vale do Côa em densas sobreposições, cuja leitura se vê
dificultada pela transparência dos corpos e por uma emaranhada teia de traços
“parasitas”, que por vezes correspondem a figuras incompletas. Embora respei-
tem estes mesmos princípios, algumas associações destes motivos em cenas
narrativas apresentam melhor legibilidade. Essas composições centram-se na
figura do guerreiro que surge a cavalo, exibindo as suas armas, ou em atividade
cinegética. Em todas estas representações, a figura animal está subordinada à
humana: os cavalos são montados e os veados caçados com o auxílio dos cães.
Quando apeados, os guerreiros combatem em duelos corpo-a-corpo, armados
de lança e escudo.
O movimento encontra-se por vezes representado sob as duas formas iden-
tificadas na arte paleolítica do Côa (LUÍS 2012). Por um lado, pode ser sugerido
pelas poses da figura, como no caso da extensão das patas dianteiras do cavalo
montado da Vermelhosa 1. Mais extraordinária é a decomposição do movimento
em fases sucessivas no duelo da Vermelhosa 3, onde cada um dos guerreiros já
arremessou uma lança, que se encontra no ar, enquanto brande a segunda.
As representações proto-históricas foram quase exclusivamente represen-
tadas através de traço linear, verificando-se alguns preenchimentos ortogonais
reticulados ou sinuosos. Na gravação ter-se-á recorrido a utensílios metálicos,
identificados pelo registo de sulcos em U ou de secção quadrangular superficial,
como determinado experimentalmente (AUBRY & SAMPAIO 2012). A diferença na
força aplicada sobre o utensílio durante o processo de gravação produz uma
variabilidade gráfica, que vai desde figuras com traço profundo (por ex. falcatas
do Vale da Casa 6), às inúmeras gravuras que hoje nos surgem incompletas. Mais
do que figuras deixadas incompletas, julgamos que se trata antes de gravuras
intencionalmente gravadas de forma superficial (LUÍS 2015).
A raspagem superficial da película sílicometálica que cobre as diáclases do
xisto regional provoca um imediato contraste cromático entre a linha clara e a
superfície mais escura da rocha. Com o evoluir do processo de meteorização
pós-gravura, verifica-se a reformação desse verniz superficial e a cor da linha
volta a aproximar-se da cor da superfície rochosa. É por esse facto que as in-
cisões mais antigas são hoje difíceis de perceber. No caso da arte da Idade do
Ferro, vemos ainda hoje motivos que mantêm a linhas claras (por ex. cavaleiro
da Vermelhosa 1). Noutros casos, a cor das linhas gravadas já se homogeneizou
com a superfície. Esta grande variedade depende de fatores como a orientação
e exposição dos painéis à luz solar e humidade, onde a microtopografia tem um
papel relevante (AUBRY, LUÍS & DIMUCCIO 2017). Tendo tudo isto em conta, consi-
deramos que o grande número de figuras incompletas poderá estar relacionado
com uma raspagem muito superficial, que apenas tocou a superfície da película,
sem, contudo, gravar verdadeiramente. Criou-se assim um contraste cromático,
NO LIMIAR. DIFERENTES ESCALAS DE ANÁLISE DA ARTE DA IDADE DO FERRO NO LIMITE OCIDENTAL DA MESETA
101
Luís Luís

que acabou por desaparecer durante o processo de meteorização e a formação


da patine.
Para além da sua provável natureza metálica, desconhecemos o tipo de uten-
sílios utilizados nesta gravação. No entanto, o estilo anguloso de algumas das
representações, sugere a utilização de um utensílio longo, que dificultaria o con-
trolo da sua extremidade ativa.
A questão da datação desta arte parietal não se colocou com a mesma ur-
gência que se colocou para a arte paleolítica do vale, pela sua suposta cronolo-
gia recente. Ainda assim, ela sofria das mesmas dificuldades que a datação da
arte paleolítica, dada a impossibilidade da sua datação direta e inexistência de
um contexto estratigráfico. Também esta arte foi inicialmente datada através da
comparação estilística.
Para essa atribuição contribuíram a tipologia das armas (falcatas, lanças e
uma espada) e algumas características morfológicas das figuras, como o desen-
volvimento dos gémeos das figuras humanas e a sinuosidade do pescoço dos
5
cavalos (BAPTISTA 1983).
Pela nossa parte, procurámos identificar estilos e motivos na iconografia pré-
-romana ibérica, gravada em estelas, pintada em recipientes cerâmicos ou lavra-
da em joalharia, que nos permitissem inseri-la num contexto cronológico mais
preciso. Essa análise levou-nos a propor uma cronologia entre os séculos III-II e I
a.C., podendo mesmo chegar a momentos posteriores à ocupação romana (LUÍS
2008, 2009a).

3. DA PAISAGEM PARA O ESPAÇO DOMÉSTICO


Sendo a comparação estilística um dos métodos mais comuns na datação
artística, esta cronologia revelava-se demasiado genérica, pois baseava-se em
comparações com achados oriundos de contextos distintos, geograficamente
distantes e frequentemente não datados arqueologicamente. Ela demonstra um
substrato comum, que as fontes clássicas expressam, mas impede uma periodi-
zação mais fina, com uma evolução interna, que só a ligação com as populações
que a produziram e usaram permitirá.
Foi esse, aliás, o percurso desenvolvido para a datação da arte paleolítica do
vale. Por razões várias, algumas delas compreensíveis, o investimento feito no es-
tudo do Paleolítico não se estendeu à Idade do Ferro. Tirando casos muito pontuais
(COSME 2008; MARTINS 2008), não se verificou até hoje nenhum projeto inteira-
mente dedicado ao contexto arqueológico desta arte na região, o que resultou
num profundo desconhecimento da ocupação humana contemporânea da arte

5
Esta característica serviu aliás para contrariar a cronologia paleolítica então recentemente acabada de atribuir
ao cavalo de Mazouco (Jorge et al., 1981), que viria mais tarde a ser confirmada com a descoberta do Côa.
102 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

(LUÍS 2005: 46). Ainda assim, um conjunto de vestígios materiais insuficiente-


mente caracterizados, faz presumir uma ocupação baseada nos típicos povoa-
dos fortificados no cimo de elevações como N.S. do Castelo de Urros (MARTINS
2008), Castelão (LUÍS 2008: 425), Castelo dos Mouros (PERESTRELO et al. 2005),
Monte Meão, Monte do Castelo (COSME 2000) e Longroiva. A estes dados asso-
ciam-se interpretações documentais que identificam dois topónimos pré-roma-
nos nos três últimos sítios mencionados: Coniumbriga (CURADO 1994), Calabriga
(CABRAL 1963) e Langobriga (GUERRA 1998: 176), respetivamente.
Direcionada para a Pré-história, a prospeção arqueológica das equipas do
Parque Arqueológico do Vale do Côa não identificou no Baixo Côa sítios com uma
clara ocupação sidérica. Para ocidente, já no início das montanhas ocidentais,
sítios como S. Jurge (Meda) demonstraram essa ocupação (NALDINHO 2004). Em
2009, no contexto da construção do IP2, foi identificado e escavado o sítio do
Folhal 2 (CNS 33800), que apresentava um conjunto de estruturas em fossa, bem
como evidências de edificado, incluindo um eventual celeiro, atribuídos à Idade
do Ferro. A natureza discreta dos vestígios em termos topográficos e arqueológi-
cos, veio comprovar a existência de uma rede secundária de povoamento, para
além dos conspícuos castros, bem como da necessidade de trabalhos arqueoló-
gicos dedicados ao estudo desta ocupação, que aparentemente só os estudos
de minimização poderiam proporcionar.
Isso mesmo se veio a comprovar a partir de 2010, com os trabalhos relaciona-
dos com o Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor, que veio trazer a lume
um conjunto notável de achados (Fig. 1).
Embora situada a cerca de apenas 20 quilómetros a norte do Côa, a arte
rupestre proto-histórica identificada no Sabor resumiu-se a três painéis do Vale
de Figueira (Torre de Moncorvo), ainda insuficientemente conhecidos, mas cuja
iconografia os aproxima do Côa (SILVA, XAVIER & FIGUEIREDO 2016).
Mais relevante foi a identificação e escavação de povoados ocupados duran-
te a Idade do Ferro, salientando-se Crestelos (Mogadouro) e Castelinho (Torres
de Moncorvo). Ambos os sítios se situam em pequenas elevações, localizadas
junto ao rio, em áreas do vale encaixado na superfície da Meseta. O facto de não
se ter escavado nenhum sítio mais proeminente no planalto relaciona-se com a
área de incidência dos trabalhos, que, motivados pela construção da barragem,
se circunscreveram à área a inundar.
A Quinta de Crestelos começou a ser escavada enquanto ocupação romana,
o que permitiu a identificação de estruturas e ocupações mais antigas. O sítio di-
vide-se entre a Quinta propriamente dita, localizada na zona mais baixa, com um
conjunto de estruturas de habitação proto-históricas, e uma zona alta, sobran-
ceira ao rio, cercada por um fosso, circunscrevendo diferentes plataformas, com
duas entradas, no interior do qual foi identificado um enterramento de uma crian-
ça. Dentro desta área não foram identificadas estruturas de habitação evidentes,
NO LIMIAR. DIFERENTES ESCALAS DE ANÁLISE DA ARTE DA IDADE DO FERRO NO LIMITE OCIDENTAL DA MESETA
103
Luís Luís

mas sim mais de 30 celeiros. Para além de sementes e cerâmica, nomeadamente


com decoração penteada, o sítio permitiu a identificação de fíbulas, moedas ro-
manas e facas afalcatadas (SASTRE 2014).
Por volta do século I a.C., o fosso foi preenchido com um grande número de
lajes de xisto, uma grande parte delas decoradas com gravuras de cavaleiros e
outros antropomorfos, bem como outros zoomorfos e sinais geométricos (SAS-
TRE: 84-85). Aí se identificaram igualmente alguns painéis com representações
gravadas, incluindo um cavalo (SILVA, XAVIER E FIGUEIREDO 2016: 71). Para além
das placas detetadas na plataforma mais elevada (72), surgiram algumas outras
na zona mais baixa (31). Dominam os motivos geométricos, abstratos e indeter-
minados. Nos figurativos salientam-se os zoomorfos, sobretudo cavalos e um
canídeo, inserido numa provável cena de caça a cavalo, onde se associam a
antropomorfos (SILVA, XAVIER E FIGUEIREDO 2016: 68-70).
O povoado do Castelinho apresenta características semelhantes, mas uma
maior complexidade. Trata-se igualmente de um sítio localizado numa eleva-
ção no fundo do vale do Sabor, desta feita na margem direita, abaixo da su-
perfície do planalto. Apesar da sua localização algo discreta, o sítio poderia
ser interpretado como um clássico castro, pela imponência e complexidade de
muralhas e fossos que o circundam (SANTOS et al. 2012). Contudo, as estruturas
identificadas no seu interior compunham-se sobretudo de estruturas elevadas
de celeiro, tal como no alto de Crestelos. Aí ter-se-á guardado trigo, cevada e
painço (SEABRA et al. 2020). Para além de uma cerâmica pouco expressiva, o
sítio apresenta uma moeda de Cástulo, fíbulas e a escultura de uma cabeça
humana, para além de armamento composto por facas afalcatadas, bem como
pontas e contos de lança.
Os trabalhos no Castelinho permitiram a identificação de mais de 500 placas
de xisto gravadas (NEVES & FIGUEIREDO 2015). Comprovado pelo seu estado es-
magadoramente fragmentário, estas placas aparentam ter sido identificadas em
contextos secundários, nomeadamente fossos, áreas de circulação e muros, so-
bretudo na área Norte e Sul, em zonas defensivas e de acesso ao recinto (NEVES
& FIGUEIREDO 2015).
Entre os motivos identificados, dominam os geométricos e abstratos, segui-
dos pelos figurativos, sendo os alfabetiformes residuais. Entre os figurativos des-
tacam-se os zoomorfos e antropomorfos, nomeadamente cavalos ― montados
ou não ―, cervídeos ― designadamente em cenas de caça ―, suínos, aves, caní-
deos e bovídeos. Associado aos antropomorfos surge um conjunto variado de
armas, nomeadamente punhais, espadas e lanças (NEVES & FIGUEIREDO 2015).
Com alguma variação na proporção, estes são os motivos identificados na
arte da II Idade do Ferro do Vale do Côa. Nota-se uma eventual sobrerrepresen-
tação de bovinos e suínos, contrastando com uma sub-representação de caní-
deos. Por outro lado, identifica-se pelo menos uma representação de zoomorfo
104 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

em perspetiva zenital (SANTOS et al. 2012: fig. 21), típica da iconografia sidérica
peninsular (BLANCO GARCÍA 1997), ainda desconhecida no Vale do Côa. Para além
dos motivos, também o estilo com que foram executados corresponde generica-
mente às representações do Côa.
A deposição das placas no fosso norte do sítio foi datada dos séculos II a I
a.C. (SANTOS et al. 2012). No entanto, a natureza secundária dos contextos onde
foi identificada e a fase preliminar do estudo em que se encontram dificulta a sua
datação precisa, para além de uma localização genérica entre o Bronze Final e
os primeiros séculos da nossa Era (NEVES & FIGUEIREDO 2015: 1602).
Se a iconografia que discutimos se encontra multiplicada por diferentes su-
portes e materiais por toda a Península Ibérica, pouco conhecemos do contexto
primário da utilização desta arte móvel. A exceção serão as lajes do Castro de
Formigueiros (Samos, Lugo). Neste povoado fortificado, datado de entre o séc. III
a.C. e o I d.C., foram identificadas seis lajes de xisto gravadas com dois cavalos,
três peixes e um conjunto de motivos geométricos, nomeadamente círculos (sim-
ples, radiados e com decoração labiríntica). Todos estes motivos, que apresen-
tam evidentes semelhanças na arte do Côa (nomeadamente no tratamento inter-
no dos peixes da Vermelhosa 3), encontravam-se gravados em lajes de xisto que
definiam um pavimento de um pátio entre duas casas e num banco adossado a
uma das construções em torno desse pátio. Estas manifestações foram datadas
de uma fase tardia da ocupação do povoado (CAMESELLE, VILASECO VÁZQUEZ &
BLASZCZYK 2009).
Ainda antes dos trabalhos do Sabor, conheciam-se já na região alguns acha-
dos de uma arte proto-histórica móvel em contextos domésticos, embora des-
contextualizados.
As gravuras do povoado de Yecla de Yeltes (Salamanca) foram identificadas,
tanto em suportes fixos de granito, como em blocos desta mesma rocha que
fazem parte das muralhas (MARTÍN VALLS 1983). Entre as representações figura-
tivas, dominam os zoomorfos, interpretados como cavalos, sobretudo pelo facto
de dois deles surgirem montados, um dos quais no que se afigura um contexto
de caça (inscultura 12). Não se identificam cervídeos machos. Entre os motivos
geométricos destacam-se os círculos labirintiformes e espiralados. A semelhança
estilística entre estas representações e alguns dos petróglifos galegos poderá
suscitar alguma dificuldade na atribuição cronológica. Contudo, o facto de a ocu-
pação conhecida do povoado datar de entre a II Idade do Ferro e a Romanização
parece ser um forte argumento para a sua restrição cronológica. Por outro lado,
chamamos a atenção para que, apesar da natureza mais grosseira do traço e de
um menor detalhe figurativo, as representações apresentam fortes semelhanças
com algumas das representações do Côa, e até com os círculos labirínticos do
castro de Formigueiros. Atribuímos as diferenças estilísticas (traço grosso e me-
nor detalhe) à diferente natureza do suporte, pois, enquanto as representações
NO LIMIAR. DIFERENTES ESCALAS DE ANÁLISE DA ARTE DA IDADE DO FERRO NO LIMITE OCIDENTAL DA MESETA
105
Luís Luís

que temos vindo a tratar se inscrevem em rochas de grão fino (xisto), o suporte
de Yecla de Yeltes é granítico, cujo grão grosso impossibilita qualquer detalhe.
Mais próximo do Côa e já em ambiente xistoso, foi identificada no Olival dos
Telhões (Vila Nova de Foz Côa), em contexto de escavação, uma placa com a re-
presentação de dois zoomorfos numa pequena placa, interpretados como cavalos
(COSME 2008). Se o estilo aproxima estas representações da arte de que vimos
tratando, já o contexto arqueológico as afasta, pois, a placa foi identificada num
muro datado do séc. III/IV d.C. Tratar-se-á assim de um contexto secundário, pre-
sunção reforçada pela existência de ocupações romanas anteriores no sítio e pela
sua proximidade do Monte do Castelo, onde se supõe uma ocupação pré-romana.
Mais fortuito foi o achado das duas placas do Paço (Vila Nova de Foz Côa).
Apesar de fragmentada, a mais decorada apresenta dois cavaleiros com lanças,
um deles com caetra, dois peões com lanças e punhal e dois zoomorfos de cau-
da curta, profundamente gravados (LUÍS 2016). O contexto do achado dificulta
uma datação, mas o sítio, localizado na vertente norte do castelo de Foz Côa, é
conhecido desde há longa data pela presença de vestígios de ocupação romana
(Leal 1886).
Finalmente, refira-se o achado de um seixo de quartzito no Alto das Malhadas
(Vila Nova de Foz Côa), no Monte Meão, já em contexto granítico, com vestígios
de ocupação pré-romana, que apresenta um conjunto de traços geométricos
gravados (REIS 2014: 26-27).

4. ARTE MÓVEL E ARTE RUPESTRE NO LIMIAR DO ESPA-


ÇO DOMESTICADO
É assim cada vez mais evidente a existência de uma arte móvel sidérica,
a par da arte rupestre (Fig. 1). Por arte móvel entendemos a produção de
grafismos sobre suportes líticos móveis, passíveis de serem transportados.
Isto não significa que de facto o fossem. Tal como demonstra a arte rupes-
tre paleolítica, nomeadamente no Fariseu (SANTOS et al. 2018), os suportes
deste tipo de representações são frequentemente locais, pelo que não se pro-
va qualquer transporte. Aliás, nos raros casos onde estas representações foram
identificadas em contexto primário (Formigueiros ou Yecla), o seu contexto não
facilitaria qualquer tipo de mobilidade.
Nos restantes casos, sobretudo nos achados fortuitos e descontextuali-
zados, poderíamos ser levados a considerar estarmos em presença, não de
verdadeiros objetos móveis, mas de fragmentos de suportes rupestres. Dois
argumentos invalidam esta consideração. Em primeiro lugar, ao contrário da
arte rupestre, esmagadoramente gravada na superfície formada pela diáclase,
todas as representações em xisto desta arte móvel foram gravadas na superfície
106 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

da xistosidade. Expostas aos agentes de meteorização, estas superfícies não re-


sistem com facilidade, desconhecendo-se, por exemplo, qualquer representação
paleolítica nelas, com a exceção também da arte móvel. O mesmo acontece com
6
a arte proto-histórica. Por outro lado, apesar de frequentemente fragmentada,
inúmeros são os casos em que a organização da composição das representa-
ções se conforma aos limites do suporte, que já estaria assim destacado do aflo-
ramento antes do momento da gravação.
Julgamos estar perante uma diferente componente da arte sidérica gravada
sobre suportes líticos nesta região. Não conhecemos ainda o suficiente de ambas
as artes para lhes distinguir subtilezas cronológicas ou iconográficas. Pelo que,
do ponto onde nos encontramos percebemo-las contemporâneas e ligadas por
uma mesma ideologia. Distingue-as radicalmente o contexto. Se a arte rupestre
ocupa os vales profundos do Côa e Douro, a arte móvel associa-se a ambientes
domésticos. Estes ambientes parecem-nos também geralmente restritos, e en-
contram-se distantes das áreas ocupadas pela arte rupestre.
Parece-nos que a arte móvel vem trazer para o espaço doméstico imediato
uma expressão gráfica, que no seu formato rupestre se afasta destes meios.
Não nos podemos esquecer que pela sua própria natureza, a distribuição da
arte rupestre se encontra fortemente condicionada pelas condições materiais da
disponibilização de suportes (AUBRY, LUÍS & DIMUCCIO 2017). Essa limitação não
impede, contudo, o engenho humano na criação de condições para a expressão
destes grafismos: a arte móvel vem responder a essa necessidade, em locais
7
afastados das grandes áreas de concentração rupestre.
Já noutro local explorámos a noção de land art relativamente à arte rupestre
(LUÍS 2009a: 218, 2009b). Tal como a corrente artística contemporânea, a arte
rupestre apresenta uma ligação indissociável ao contexto onde foi produzida,
domesticando o espaço natural e conferindo-lhe sentidos, com a vantagem, so-
bre outros elementos de ordenação do espaço, de preservar a sua localização
original (por ex. estelas, marcos, inscrições). Esta íntima relação espacial per-
mitiu-nos refletir sobre esta arte na perspetiva de fronteira (LUÍS 2008, 2009a,
2010).
Definimos assim três níveis de fronteira: entre territórios de povoados, entre
povos e entre vivos e mortos (LUÍS 2008, 2009a). Os dois primeiros justificam-se
pela localização geográfica, à escala local e regional, e o terceiro pela interpre-
tação iconográfica. Os dois primeiros relacionam-se com a noção de território

6
Refira-se o excecional caso da rocha do Vale de Junco (V.N. de Foz Côa) gravada na xistosidade e que foi
atribuída à Idade do Ferro, apesar dos seus motivos não encontrarem paralelos próximos na arte do Côa
(PINA & REIS 2014).
7
Note-se que os quatro painéis de arte rupestre em Crestelos se encontram nas paredes do fosso 1 (SILVA,
XAVIER & FIGUEIREDO 2016: 70), o que nos leva a supor que tenham sido expostos no momento da sua
escavação. Desta forma, sendo natural, o seu suporte foi disponibilizado naquele local pela ação humana,
aproximando-se assim da arte móvel.
NO LIMIAR. DIFERENTES ESCALAS DE ANÁLISE DA ARTE DA IDADE DO FERRO NO LIMITE OCIDENTAL DA MESETA
107
Luís Luís

enquanto espaço de interação social e de exploração económica e o último com


a paisagem, enquanto construção cultural (LUÍS 2009a: 217).
Pelo desconhecimento da realidade arqueológica regional, o primeiro nível
era o que nos parecia mais mal definido. Os achados de Yecla de Yeltes, Olival
dos Telhões e do Paço, sobretudo a distinta natureza do seu suporte, traziam já
elementos de reflexão (LUÍS 2009a: 218), que as escavações intensivas no Baixo
Sabor vieram justificar. Ainda em estudo, esta arte móvel transpõe para o espaço
construído, a iconografia que conhecíamos na arte rupestre. Com as cautelas
que o estado de conhecimento preliminar em que nos encontramos nos impõe,
ela concentra-se nos limites literais desse mesmo espaço doméstico, seja nos
fossos (Crestelos e Castelinho), seja nas muralhas (Yecla). Curiosamente, este
espaço construído domesticado parece relacionar-se sobretudo com a explora-
ção económica e a concentração de riqueza agrícola, associada à presença do
mesmo armamento presente na arte.

5. NO LIMIAR ENTRE NÓS E OS OUTROS, À ESCALA DA


MESETA
Arte móvel, arquitetura e arte rupestre fazem parte do mesmo plano icono-
gráfico. A arte rupestre fica para lá do espaço arquitetado, desconhecendo-se
até ao momento qualquer vestígio de ocupação humana nas suas imediações.
Mas não é por isso que ela não participa desta domesticação do espaço através
da iconografia. Em contexto indiscutivelmente primário, a arte rupestre parece
relacionar-se sobretudo com o segundo nível de fronteira que definimos para
esta arte: a fronteira entre unidades étnicas.
Sem querer entrar na acesa discussão da paleoetnologia pré-romana e dos
seus limites, procurámos, numa primeira tentativa, identificar esta realidade atra-
vés da delimitação entre unidades étnicas vertidas na geografia administrativa
romana (LUÍS 2005: 45). A conjunção desta ideia com a geomorfologia levou-nos
mais longe (LUÍS 2009a). A nossa interpretação baseia-se sobretudo no facto de o
rio Côa marcar o limite ocidental da Meseta Norte, através de um vale com mais de
150 metros de encaixe, imediatamente antes do início das montanhas ocidentais
e dos planaltos centrais (FERREIRA 1978) (Fig. 2). A superfície da Meseta segue um
pouco para ocidente do rio, até à falha Bragança/Vilariça/Manteigas (BVM), que é
aliás responsável pela formação das diáclases que servem de suporte à arte ru-
pestre. Este limite geomorfológico foi historicamente apropriado até ao tratado de
Alcanizes (1297), mas os dados arqueológicos apontam para a natureza fronteiriça
deste território desde o Paleolítico Superior, nomeadamente a partir do estudo das
fontes de matérias-primas siliciosas que chegaram ao Vale do Côa (AUBRY, LUÍS,
MANGADO & MATIAS 2012). Para Norte do Côa, esse limite chega ao rio Sabor.
108 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Para além dos sempre discutidos limites étnicos, o rio Côa parece marcar, a
sul do Douro durante o I Milénio a.C., o limite ocidental de um conjunto de mate-
riais arqueológicos passíveis de serem interpretados como marcadores étnicos,
como as cerâmicas “a peine” e Cogotas I (VILAÇA 2005) e os berrões (ÁLVAREZ-
-SANCHÍS 2004).

Fig. 2. O Vale to Côa no limite ocidental da Meseta Ibérica


(berrões e cerâmica a partir de ÁLVAREZ-SANCHÍS 2004).

5. NO LIMIAR ENTRE OS MORTOS E DOS VIVOS


A iconografia desta arte rupestre e móvel remete-nos para o terceiro e último
limiar, o limiar entre os mortos e os vivos.
Pela sua iconografia, a arte do Ferro no Vale do Côa e Sabor apresenta todas
as características da expressão de uma ideologia guerreira, que heroiciza e imor-
taliza na rocha as virtudes desta elite. Trata-se de uma arte que exalta as virtudes
da virilidade, notando-se o apagamento da representação feminina. Interpreta-
mos a única cena conhecida de coito identificada como um coito posterior de
natureza homossexual (Vale de Cabrões 3), o que reforça um ensimesmamento
viril desta iconografia (LUÍS 2010: 61). O mesmo se diga das representações com
NO LIMIAR. DIFERENTES ESCALAS DE ANÁLISE DA ARTE DA IDADE DO FERRO NO LIMITE OCIDENTAL DA MESETA
109
Luís Luís

vasos à cabeça (Vermelhosa 3), uma prática etnograficamente feminina, mas que
aqui surge em figuras masculinas (LUÍS 2008: 420 contra REIS 2021).
Estes homens são guerreiros que surgem a praticar as atividades típicas des-
ta classe: combater e caçar. A caça é ao veado e faz-se a cavalo, com o auxílio
de cães, correspondendo à atividade do aristocrata quando não combate, a sua
atividade principal. Esse combate faz-se a pé, em duelos de lança e escudo, bem
exemplificado na literatura clássica, como a forma por excelência de resolução
de conflitos sem combate generalizado (Ilíada 3, 86-94; Apiano, História Romana
6, 53), ou como forma de homenagem aos grandes chefes mortos (Apiano, His-
tória Romana 6, 75; Tito Lívio, Ab Urbe Condita 28, 21). Em plena Meseta Norte, o
cerco de Intercatia, relatado por Apiano (6, 53) esclarece-nos quanto à natureza
das figuras armadas a cavalo. De facto, não existe qualquer exemplo de combate
a cavalo, apesar dos cavaleiros surgirem retratados brandindo lanças e escudos,
de braços abertos, e até aparentemente de pé sobre o dorso do cavalo, “numa
posição ousada” (NEVES & FIGUEIREDO 2015: 1601). Estas representações são me-
ras exibições de poder, à maneira dos índios das planícies norte-americanas,
onde o guerreiro exibe a sua força e destreza, ofendendo e desafiando o adver-
sário para o verdadeiro combate, a pé (LUÍS 2008: 421).
Uma percentagem importante das representações humanas do Côa, mas
também do Sabor, apresentam o que chamámos de cabeças em forma de bico
de pássaro. Estas representações ornitocefálicas remetem-nos para uma mitolo-
gia de raiz céltica. O diadema de Mones (Piloña, Espanha) e a sua interpretação
(MARCO SIMÓN 1994) afiguram-se-nos como a chave para a compreensão des-
tas representações e de grande parte da iconologia desta arte, cujo exemplo
maior no Côa é a rocha 3 da Vermelhosa. Exatamente na zona de confluência das
águas das canadas, que descem do planalto do limite ocidental da Meseta, com
o rio Côa e o Douro, assistimos à representação do trânsito aquático dos guer-
reiros heroicizados pela morte em combate, a caminho da Imortalidade. O limiar
entre os mortos e vivos é o último limiar da arte do Côa e do Sabor, no limite
ocidental da Meseta. Estamos perante a catábase, o caminho do guerreiro e seus
companheiros psicopompos para o Outro Mundo (cavalo, cão, aves necrófagas
e peixes anádromos) (LUÍS 2009a: 233-234). Desses companheiros, a arte móvel
do Castelinho apresentou-nos a primeira figura em perspetiva zenital, como se
a víssemos cá de cima. No limiar entre este mundo e o outro, a arte espelha as
duas realidades (OLMOS 1996), e por isso nos surgem também figuras espelha-
das, de forma evidente no Vale de José Esteves 18 (Fig. 3).
Estas figuras alertam-nos para que, se a fronteira é um limite (limes), ela é
também ponto de ligação, um território defronte (frontaria) (COELHO 2004). A
ligar o território dos vivos e dos mortos, o nosso e o dos outros, encontramos
cenas como a monomaquia da Vermelhosa 3. Ela remete para uma iconografia
comum na Península: La Osera (ÁLVAREZ-SANCHÍS 2004: 310), Tona (Sanmartí i
110 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 3. Figura espelhada do Vale de José Esteves 18 (foto e desenho de André Santos).

Grego, 2007, fig. 10), Numância (SOPEÑA 2005: 375) e particularmente Las Rue-
das (Valhadolid) (SANZ MÍNGUEZ 1997: 86-88). A maçã naviforme do punhal do
túmulo 32 de um guerreiro nesta necrópole vaceia foi decorada com duas cenas
espelhadas de duelo, idênticas à monomaquia da Vermelhosa (aí associadas a
javalis, aves e animais em perspetiva zenital). Ora, como um espelho, ligando o
centro e o limite da Meseta Norte, os mortos e os vivos, no maior detalhe e com-
plexidade da representação do Côa, vamos encontrar, na cintura do guerreiro
de maiores dimensões, a representação de um punhal com maçã igualmente
naviforme, como o de Las Ruedas (Fig. 4). A 250 quilómetros de distância, a cena
contida no punhal contém o mesmo tipo de punhal.
Esta ideologia guerreira atinge assim o auge da autorreferência. No entanto,
por baixo desta superestrutura ideológica, começamos a descobrir outras rea-
lidades arqueológicas. Até aos dados arqueológicos do Baixo Sabor, tínhamos
“apenas uma sociedade de guerreiros, que não comeram, não viveram, nem
morreram, mas apenas gravaram nas paredes” (LUÍS 2008: 438). As escavações
arqueológicas mostraram-nos que, para além dos guerreiros, houve homens e
mulheres que trabalharam a terra, cultivaram, comeram e guardaram cereais,
que também gravaram em pequenas placas, abandonadas nos locais onde vive-
ram. Desenha-se assim um panorama mais complexo, mais próximo da realidade
histórica, que ao mesmo tempo se subordina a uma mesma ideologia expressa
graficamente, mas que, por outro lado, a desmonta, ao mostrar-nos uma realida-
de muito mais diversificada. A continuação dos estudos e trabalhos arqueológi-
cos ajudar-nos-á a franquear o limiar último do seu conhecimento.
NO LIMIAR. DIFERENTES ESCALAS DE ANÁLISE DA ARTE DA IDADE DO FERRO NO LIMITE OCIDENTAL DA MESETA
111
Luís Luís

Fig. 4. Inter-relação iconográfica entre A) a cena do duelo da Vermelhosa 3 [desenho Fernando


Barbosa] e B) o punhal com maçã naviforme de Las Ruedas [a partir de Sanz Mínguez, 1997, fig.
77]. A B A.

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Resumo:
Analisa-se a relação entre a arte rupestre do Côa e o território envolvente a diferentes escalas,
a partir de uma perspetiva de fronteira. Partimos da sua relação com os territórios de explora-
ção, integrando a arte móvel recentemente identificada no Baixo Sabor. Esta arte móvel vem
trazer para a esfera do povoado a iconografia da arte rupestre, que, devido a condicionantes
geológicas, se afasta deles.
Seguimos para uma interpretação da localização desta arte da Idade do Ferro no extremo
ocidental da Meseta Norte, que coincide com o limite de outros materiais arqueológicos, suge-
rindo limites culturais mais alargados.
Finalmente, atingimos a paisagem mental do domínio da ideologia, que parece perceber-se a
partir de uma iconografia relacionada com a heroicização dos guerreiros e o mundo da morte.

Palavras-chave: Vale do Côa; Baixo Sabor; Arte rupestre; Arte móvel; Paisagem.
116 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

At the threshold. Different scales of analysis for the Iron


Age Rock Art at the western limit of the Iberian Plateau

Abstract:
This text analyses the relation between the Côa Valley rock art and the surrounding landscape
at different scales, from a border perspective. We begin by its relationship with exploitation
territories, integrating the recently discovered Lower Sabor’s portable art, which transports
to the settlement the rock art iconography that, due to geological constraints, is located far
from them.
We move to the analysis of the placement of this Iron Age rock art at the edge of the Iberian
Northern Plateau, coinciding with other archaeological materials, suggesting broader cultural
limits.
Finally, we achieve the mental landscape expressed by ideology, gathered from its iconogra-
phy expressing warrior heroization and the otherworld.

Key words: Côa Valley; Lower Sabor; Rock art; Portable art; Landscape.
LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE
RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA
IBÉRICA: ESTUDIO ESTADÍSTICO Y
MODELOS DE DISTRIBUCIÓN
MIGUEL GARCÍA-BUSTOS*

1. INTRODUCCIÓN
La actividad gráfica desarrollada durante el Paleolítico es una de las mani-
festaciones culturales más importantes del Homo Sapiens. La falta de restos
arqueológicos, en comparación a otras etapas de la humanidad, hace del arte
paleolítico un medio idóneo a partir del cual aproximarse a la incipiente capaci-
dad cognitiva del ser humano, al desarrollo cultural y social de los pueblos caza-
dores-recolectores, las redes de intercambio y la difusión territorial de diferentes
innovaciones técnicas o formalismos.
Precisamente este último punto ha experimentado en los últimos años un
gran crecimiento, convirtiéndose en uno de los temas más populares y prolíficos
de la actualidad. Sin embargo, no fue hasta los años 90’ cuando se considera
el potencial del arte paleolítico para el estudio del territorio desde el punto de
vista arqueológico. Esta irrupción vino pareja a la introducción de estudios in-
terdisciplinares y aplicaciones de nuevas técnicas con las que abordar aspectos
marginales, aunque complejos, como la mentalidad simbólica o las relaciones
sociales (ORDOÑO 2008).
Esa década supone el pistoletazo de salida para un cada vez mayor número
de estudios que ponen el foco en la relación entre la actividad gráfica paleolítica
y el territorio. Dicha relación se ha abordado de diversas maneras: mediante el
estudio de la técnica (GARATE 2006; RIVERO 2010), a través de las convenciones
y formalismos (BOURDIER 2010, 2012, 2013; BOURRILLON et al. 2012; FRITZ et al.
2007; GARATE et al. 2020; HERNANDO 2011a, 2011b; PETROGNANI Y ROBERT 2019;
RIVERO 2009; SAUVET 2019a, SAUVET et al. 2013) o desde el punto de vista de la
difusión del arte mueble (CATTELAIN 2005; FUENTES et al. 2019; RIVERO Y ÁLVARE-
Z-FERNÁNDEZ 2009; VILLAVERDE 2005).

*
Universidad de Salamanca. Becario por el Programa VIII Centenario de Retención de Jóvenes Talentos. Este
trabajo se ha realizado bajo la financiación de la Universidad de Salamanca y la Fundación Salamanca Ciudad
de Cultura y Saberes. miguelgarbus@usal.es.
118 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

El estudio del territorio también se ha abordado desde uno de los más im-
portantes criterios de análisis de este fenómeno artístico: la temática represen-
tada. Si algo caracteriza al arte paleolítico es la restricción iconográfica, que se
traduce en una “escasa variabilidad y una gran uniformidad a nivel europeo”
(Rivero 2020: 229). Entre los motivos figurativos se pueden distinguir animales,
la mayoría mamíferos, y antropomorfos. Como tendencia general, el artista esco-
gía los mismos temas para llevar a cabo su actividad, aunque no los representa
en igual porcentaje (PAILLET 2017; RIVERO 2020; SAUVET 2019b). Este hecho, que
se extiende regularmente durante todo el Paleolítico superior, hace pensar que
se trata de una norma establecida por los grupos cazadores-recolectores, tal y
como defienden corrientes interpretativas como el estructuralismo (e.g. LAMING-
-EMPERAIRE 1962; LEROI-GOURHAN 1958, 1965).
En palabras de M. Lorblanchet: “les choix des animaux figurés est influencé
par les données chronologiques, les impératifs culturels particuliers à chaque
groupe, la spécialisation des sites et le mode d’expression artistique, mobilière
ou pariétale” (LORBLANCHET 1995: 49). Si se sigue la interpretación de este últi-
mo autor, entonces es posible hablar de “varias zonas de repartición” temática
(PAILLET 2017: 72) y la posibilidad de que representen una “marca identitaria”
(SAUVET 2019a: 194) de un tipo de territorio o demarcación geográfica cultural.
A. Leroi-Gourhan (1965, 1984), A. Roussot (1984) o G. Sauvet (SAUVET 1988;
SAUVET Y SAUVET 1979; SAUVET Y WLODARCZYK 1995, 2000-2001) son los ejemplos
más notables de autores que llevaron a cabo un estudio de las distribuciones
geográficas de los temas paleolíticos representados. El trabajo de este último
autor es posiblemente de los más importantes ya que ha podido demostrar me-
diante un gran corpus y un análisis estadístico que se trata de un sistema jerar-
quizado cuyos valores temáticos fluctúan en función de la cronología y la zona
geográfica (SAUVET 1988, 2018; SAUVET Y SAUVET 1979; SAUVET Y WLODARCZYK
2000-2001).
Para el caso particular de la península ibérica apenas existen publicaciones
que recojan sistemáticamente sus representaciones figurativas. En los trabajos
de A. Leroi-Gourhan y G. Sauvet, dicha península forma parte de una base de
datos geográficamente extensa donde se incluyen otros territorios como, por
ejemplo, los Pirineos franceses o la Dordoña. Sin embargo, este marco geográ-
fico no aparece como tal sino bajo una diferenciación entre el Cantábrico y el
1
interior-sur como regiones con una identidad independiente (Fig. 1).
Por otra parte, se encuentra el corpus recopilado por J. Altuna (2002), el úni-
co hasta el momento centrado únicamente en este vasto territorio. En su trabajo
sigue la misma tendencia de los prehistoriadores franceses anteriores, dividien-
do su corpus entre un estudio global, diferenciando también el Cantábrico del

1
Los términos “interior-sur” y “resto peninsular” se utilizan como sinónimo en este trabajo y hacen referencia
a aquellos yacimientos situados en la parte meridional de la península a partir de la región cantábrica.
LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA
119
Miguel García-Bustos

resto de la península, y otro más específico, incluyendo un análisis particular


centrado en Cantabria, Asturias y País Vasco.

Fig. 1. Mapa de la distribución de los yacimientos peninsulares con arte paleolítico en función
de los territorios considerados por las bases de datos consultadas.

Finalmente, hay que citar otros trabajos que estudian territorios específicos
como J. A. Moure (1988) para el caso del Cantábrico, J. Alcolea y R. de Balbín
(2003) para el interior de la península, A. T. Santos (2017) para el arte al aire
libre del sector occidental, N. Iranzo (2014) para el arco mediterráneo, J. L. San-
chidrián (1990) para los yacimientos localizados en la zona más meridional de la
península o D. Garate (2015) para el caso del País Vasco continental.

2. MATERIALES Y MÉTODOS
Para realizar este trabajo ha sido necesario consultar los corpus disponibles
que recojan la temática paleolítica (42-13 ka cal BP) representada en la península
ibérica. A partir de estas publicaciones se ha llevado a cabo el estudio de la dis-
tribución temática en este amplio territorio, analizando tanto las posibles diver-
gencias como similitudes que estos corpus presentan. Asimismo, se ha realizado
120 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

un estudio pormenorizado de los temas más representativos del Cantábrico y


del interior-sur de la península, de tal forma que pueda conseguirse una posible
síntesis de los motivos figurativos que caracterizan a cada una de estas grandes
regiones.
Tanto en el análisis de toda la península como en el interior-sur en particu-
lar se han tenido en cuenta tres corpus: A. Leroi-Gourhan (1965), G. Sauvet y A.
Wlodarczyk (2000-2001) y J. Altuna (2002). El estudio de este último territorio
se ha visto complementado también con la consulta de J. Alcolea y R. de Balbín
(2003), A. T. Santos (2017), N. Iranzo (2014) y J. L. Sanchidrián (1990). En el caso
del Cantábrico se han utilizado los tres primeros autores citados en este párrafo
junto al trabajo de J. A. Moure (1988).
Desgraciadamente, estas bases de datos no siguen un modelo unificado
y cada autor ha llevado un procedimiento de catalogación distinto en cuanto
a cómo agrupar los temas representados. De este modo, los motivos más im-
portantes de la iconografía paleolítica como el caballo, el bisonte, la cierva, el
ciervo, el uro, la cabra y el reno, en la mayoría de las ocasiones se tienen en
cuenta como categorías independientes. Otros temas menos comunes como el
oso, el león, el mamut, los peces o las figuras humanas se clasifican en grupos
más generales bajo nombres como “diversos”, “otros”, “resto de vertebrados”,
“carnívoros”, etcétera. Sin embargo, el principal problema a la hora de poder
confrontar estos bestiarios aparece cuando el autor reúne varios de los temas
más importantes en una sola categoría. Esto sucede más comúnmente con la
indistinción entre ciervo y cierva o, con menor frecuencia, entre bisonte y uro
bajo denominaciones como “bóvidos” o “grandes bóvidos”, lo que impide poder
analizar en detalle estos animales por separado y poder reconocer si tuvieron un
papel más o menos importante en el repertorio iconográfico.
Por tanto, para poder llevar a cabo la comparación entre los corpus ha sido
necesario estandarizar todas estas bases de datos. Teniendo en cuenta que el
trabajo presentado por J. Altuna es más limitado en cuanto a la diferenciación
de los temas representados, el resto se ha adaptado a las condiciones de este
último. El estudio temático del conjunto de la península y del Cantábrico en parti-
cular solo ha podido abarcar el caballo, bisonte, uro, cierva, ciervo, cabra y reno.
En el interior-sur se tratan de los mismos animales excepto el ciervo y la cierva,
que se han tenido que reunir en una sola categoría.
Por otro lado, es interesante saber si los nuevos descubrimientos alteran la
distribución temática que se muestran en los primeros corpus. Ante la falta de
publicaciones recientes, solo ha podido realizarse un estudio de caso aprove-
chando los trabajos de J. Altuna y D. Garate centrados en el País Vasco conti-
nental.
El análisis estadístico con el que se ha analizado la temática peninsular y
saber cómo se distribuye por esta geografía se ha llevado a cabo mediante el
LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA
121
Miguel García-Bustos

software de libre acceso “R” (R Core Team, 2018), uno de los programas más uti-
lizados en investigación científica y referencia en el uso de estadística mediante
lenguaje de programación. El test aplicado es el conocido como Chi-cuadrado
(χ²), una prueba muy utilizada en el estudio de variables cualitativas recogidas en
tablas de contingencia. Con él sabremos si existen diferencias objetivas entre las
bases de datos ya publicadas. Se ha tenido en cuenta como nivel de significación
un 0.05; es decir, un nivel de confianza del 95%. Todos estos análisis se han com-
plementado mediante la inclusión de tablas de datos y estadística descriptiva en
forma de gráficas.

3. RESULTADOS
3.1. LA TEMÁTICA EN LA PENÍNSULA IBÉRICA

Como ya se ha mencionado, solo tres estudios reflejan el número de unida-


des gráficas figurativas para toda la península ibérica. Los tres corpus muestran
una tendencia muy parecida donde caballo y cierva se sitúan en la cúspide ico-
nográfica, seguidos muy por debajo por el bisonte y la cabra. Uro y ciervo son
temas menos representativos en el repertorio iconográfico, quedando el reno
relegado al último lugar dentro de los principales motivos peninsulares (Tab. 1).
Esta tendencia jerárquica puede observarse, sin embargo, de diferentes mane-
ras en función de los corpus que se consulten, ya que las proporciones de cada
tema varían entre un estudio u otro (Fig. 2).

Tab. 1. Número de unidades gráficas por tema


y su porcentaje en los corpus utilizados.
122 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 2. Histograma que recoge el porcentaje de aparición de los temas figurativos en la península
ibérica por cada corpus consultado.

Si se comparan los porcentajes de la base de datos de A. Leroi-Gourhan y G.


Sauvet, el orden de frecuencia más alto es el mismo: caballo, cierva y bisonte
son los animales más representados. Hay que decir que, aún siendo el orden
igual, en el trabajo de este primer autor los tres animales poseen una frecuencia
muy similar, especialmente reseñable en el équido y el cérvido (23,6%, 23,19%
y 19,46% respectivamente). Por el contrario, en el corpus del segundo autor el
caballo se aleja notablemente de los otros dos motivos figurativos (27,81%, 19,6%
y 16,58% respectivamente). Más variable es el caso de los animales secundarios
(cabra, uro y ciervo), ocupando diferentes puestos en estos corpus, aunque en
ambos se sitúan en una posición secundaria frente al principal trío de la penín-
sula.
Esta distribución presenta algunas disimilitudes si se compara con el caso
de J. Altuna. El équido (28,64%) sobresale del resto de motivos figurativos, po-
sicionándose en un orden superior. La cierva conserva un puesto notablemente
por debajo (22,13%) mientras el bisonte (12,02%) se ve sustituido por la cabra
(15,71%). Uro, ciervo y reno ocupan los últimos puestos con unos porcentajes
representativos próximos a los que se pueden observar en los corpus de los dos
anteriores autores franceses.
Como se acaba de comentar, aunque la tendencia es parecida existen algu-
nas diferencias. Estas desigualdades pueden deberse al propio azar motivados
por los diferentes procedimientos a la hora de catalogar y reunir la información
en la base de datos. La pregunta que cabe formular es si estas disimilitudes son
LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA
123
Miguel García-Bustos

significativas. El test Chi-cuadrado muestra que, efectivamente, las proporciones


entre los tres corpus difieren significativamente, χ² (12, N = 3765) = 35.859, p
= .0003413. Esto lleva a plantear que es importante tener en cuenta la base de
datos que se estudia ya que las proporciones que recogen cada una de ellas
respecto a estos siete animales son objetivamente distintas.
Un mosaic plot puede reflejar gráficamente las diferencias que existen entre
los corpus (Fig. 3). Se trata de un diagrama muy utilizado para comprender e in-
terpretar los resultados sobre una tabla de contingencia de variables cualitativas.
El ancho de la caja es proporcional a la aparición de cada tema, mientras que la
altura muestra la representatividad del tema en cada corpus. Este tipo de gráfico
es además visiblemente intuitivo si sobre él aplicamos un gradiente relativo al
exceso o déficit de las muestras tomadas en función de los resultados que se
reflejan en el Chi-cuadrado. De este modo, la trama punteada muestra aquellos
corpus que recogen un tema cuyo cómputo es mayor que el valor esperado en el
caso de que fuesen tomados al azar. Por el contrario, la trama cuadrada muestra
aquellos cuyo valor es menor.

Fig. 3. Mosaic plot que refleja las diferencias en la distribución de los temas animales
en función de los corpus analizados.

Representatividad Chi-cuadrado entre corpus y temática

En el caso que se muestra no parecen existir un gran número de valores


extremos en todos los corpus. El bisonte es el principal agente diferenciador,
sobrerrepresentado en el caso de A. Leroi-Gourhan y por debajo de lo que cabría
esperar en el corpus de J. Altuna. La cabra aparece también como un motivo
124 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

importante que explica las disimilitudes, aunque en mucha menor medida que
el anterior bovino, ya que solo existe un déficit en el caso de este primer autor
citado. El resto de los temas recogidos por los investigadores fluctúan en unos
valores muy parecidos.
Sabiendo que existe una gran similitud en la mayoría de los temas estudiados
por los corpus a pesar del caso del bisonte y la cabra, se ha llevado a cabo un
nuevo test Chi-cuadrado comparando estos bestiarios por parejas. Los resulta-
dos muestran que solo en el caso de los autores franceses (G. SAUVET y A. LEROI-
-GOURHAN) no existe una diferencia significativa en la representatividad de cada
animal del corpus, χ² (6, N = 1167) = 12.186, p = .05795. Este hecho objetivable
coincide con el análisis porcentual que se ha realizado previamente, donde estos
corpus siguen una distribución muy parecida. Por tanto, el análisis estadístico
establece que las diferencias pueden reducirse entre los corpus de los investiga-
dores franceses frente al del español.

3.2. LOS TEMAS PALEOLÍTICOS EN EL CANTÁBRICO Y EL INTE-


RIOR-SUR PENINSULAR

El anterior análisis ha tratado de estudiar la distribución temática en toda la


península ibérica. Sin embargo, la historiografía ha distinguido a lo largo de la
investigación al menos dos zonas con cierta independencia, en lo que se refiere
al arte rupestre paleolítico: el Cantábrico y el interior-sur de la península.
Por lo que respecta al Cantábrico, los porcentajes (Tab. 2) de todos los corpus
coinciden en el trío temático principal compuesto por el caballo, la cierva y el
bisonte. A pesar de ello, en función del estudio que se analice el motivo figura-
tivo más representado puede variar entre uno u otro. De este modo, mientras
en los trabajos más antiguos de A. Leroi-Gourhan y J. A. Moure existe un claro

Tab. 2. Número de unidades gráficas por tema y su porcentaje en los corpus utilizados para el Cantábrico
LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA
125
Miguel García-Bustos

equilibrio entre caballo y cierva (aunque siempre balanceándose a favor de esta


última), en los más recientes existen discrepancias. G. Sauvet eleva al caballo
como el principal tema cantábrico, pero J. Altuna posiciona a la cierva como el
motivo predilecto de los grupos paleolíticos de esta región.
Sí existe mayor similitud en cuanto al resto de motivos. De este modo, la
cabra (salvo en el caso de J. A. Moure) se sitúa en un nivel intermedio entre los
animales más representados y los más escasos. Ciervo, uro y reno completan en
este orden los otros temas menos frecuentes de la iconografía del Cantábrico.
Al igual que en el caso de toda la península ibérica, el histograma (Fig. 4)
muestra una gran uniformidad en la frecuencia de los temas independientemen-
te de los corpus, pero un Chi-cuadrado establece que existen diferencias signi-
ficativas, χ² (18, N = 3882) = 34.364, p = .01135. Dichas diferencias recaen sobre
el déficit de dos temas: la cierva en el trabajo de G. Sauvet y la cabra en el de J.
A. Moure. Efectivamente, si se realiza esta prueba por parejas, solo en dos casos
las diferencias son significativas (Tab. 3) y en todas ellas aparecen al menos los
trabajos de G. Sauvet o J. A. Moure.

Fig. 4. Histograma que recoge el porcentaje de aparición de los temas figurativos en


el Cantábrico por cada corpus consultado.

Por lo que respecta al resto de la península, se incluyen yacimientos con de-


coración parietal paleolítica del interior (submeseta norte y sur), el arco mediter-
ráneo (costas desde Cataluña hasta Murcia) y el sur (Andalucía), manifestándose
tanto en estaciones al aire libre como en cuevas. Comúnmente el arte parietal de
126 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

este vasto territorio ha sido objeto de una menor producción científica frente a
sus homólogos del Cantábrico salvo contadas excepciones de algunos importan-
tes enclaves como Foz Côa (e.g. BAPTISTA 2009; AUBRY et al. 2020) o Nerja (e.g.
MEDINA-ALCAIDE et al. 2015; SANCHIDRIÁN y MEDINA-ALCAIDE 2018).

Tab. 3. P-valor de los test Chi-cuadrado realizado sobre cada pareja de corpus.

Como se puede observar en los porcentajes de frecuencia (Tab. 4) el corpus


recopilado por A. Leroi-Gourhan es paupérrimo, contando con solo 27 unidades
gráficas. Evidentemente este hecho tiene que ver con los escasos yacimientos
con arte parietal que se conocían en este extenso territorio, por lo que el autor
francés solo tuvo en cuenta algunos como Los Casares, La Pileta, Las Palomas
o Ardales (LEROI-GOURHAN 1965: 444-445). Teniendo esto en cuenta, hay que
relativizar el trabajo de A. Leroi-Gourhan para este territorio ya que el sesgo es
demasiado notable.

Tab. 4. Número de unidades gráficas por tema y su porcentaje en los corpus utilizados para
el interior-sur peninsular.

En comparación con el Cantábrico, los corpus publicados reflejan para el res-


to de la península una distribución temática más restringida bajo el protagonis-
mo hegemónico del caballo (Fig. 5). El Cervus elaphus es la segunda especie
más representada al que le siguen en una práctica igualdad tanto la cabra como
LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA
127
Miguel García-Bustos

el uro. Sin embargo, tal vez más que las presencias habría que destacar las au-
sencias de ciertos temas. El bisonte es un animal muy escaso entre los yacimien-
tos situados al sur de Cantábrico. Tanto es así que solo J. Altuna recoge algunas
unidades gráficas que atribuye a representaciones de este animal, mientras que
para los autores franceses está completamente ausente. Algo parecido sucede
con el reno cuya presencia es meramente testimonial, quedándose en un solo
par de ejemplares.

Fig. 5. Histograma que recoge el porcentaje de aparición de los temas figurativos en


el interior-sur peninsular por cada corpus consultado.

Por primera vez en este estudio, el test Chi-cuadrado revela que no existen
diferencias significativas entre los tres corpus, χ² (6, N = 1022) = 6.9389, p =
.3265, como tampoco en una comparación entre parejas. Esto se traduce en un
modelo idéntico que explica la distribución temática en el interior-sur peninsular.

3.3. ESTUDIO DE CASO: EL PAÍS VASCO

Uno de los lugares que ha experimentado un incremento de yacimientos


con decoración parietal es País Vasco. Hasta finales del siglo XX, solo eran
conocidas trece cuevas con registros gráficos paleolíticos (GARATE 2015). Su-
perado este siglo se descubren hasta catorce nuevos espacios decorados don-
de destacan cuevas como Lumentxa, Askondo o Atxurra (GARATE et al. 2015).
Mediante el estudio de caso del País Vasco se tratará de saber si estos nuevos
128 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

descubrimientos pueden variar los modelos de distribución que derivan del


estudio de los corpus clásicos publicados.
Los porcentajes (Tab. 5) muestran una gran equivalencia entre las proporciones
de los temas que recogen los corpus de J. Altuna y D. Garate. El bisonte es el animal
más extendido en este lugar, seguido del caballo. El resto de motivos figurativos
están lejos de esta díada, destacando de entre todos el Cervus elaphus. Efectiva-
mente, el Chi-cuadrado indica que no existen diferencias significativas entre las
proporciones recogidas por ambos corpus, χ² (5, N = 603) = 2.8205, p = .7276.

Tab. 5. Número de unidades gráficas por tema y su porcentaje en los corpus utilizados
para el País Vasco.

4. DISCUSIÓN
El análisis estadístico y las comparaciones de los diferentes corpus muestran
una distribución temática heterogénea en la península ibérica. Si bien hay que
tener en cuenta que son corpus ya un tanto obsoletos (el más reciente tiene más
de una década) es actualmente el único modo con el que se puede teorizar y
objetivar la realidad temática de este marco geográfico.
Comenzando por la distribución en el conjunto de la península ibérica, esta
puede sintetizarse en dos modelos (Fig. 6). En el primero, en base a los corpus
de los autores franceses, la iconografía está dominada por el caballo y la cierva,
secundado por el bisonte muy por debajo. Le sigue la cabra y, con todavía menor
frecuencia, el ciervo y el uro. Estos tres últimos animales pueden considerarse
como secundarios, con una representatividad menos importante frente al princi-
pal trío peninsular. En el último puesto se encuentra el reno, un tema totalmente
marginal. Por otro lado, el modelo creado en el trabajo de J. Altuna muestra una
primacía clara del caballo, situándose en un segundo plano la cierva. La cabra
forma junto a estos dos últimos el principal trío temático en la península ibérica
LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA
129
Miguel García-Bustos

para este autor. El bisonte aparece igualado a otros dos animales como el uro y el
ciervo. De nuevo el reno se sitúa por debajo de todos estos motivos figurativos.

Fig. 6. Modelos de frecuencia temática en la península ibérica. A) Distribución a partir de


A. Leroi-Gourhan y G. Sauvet. B) Distribución a partir de J. Altuna

Las diferencias entre ambos modelos son claras. La posición del caballo por
encima o en igual término que la cierva y la frecuencia de la cabra y el bisonte
son los factores importantes que explican las principales disimilitudes en estas
distribuciones. Por tanto, todo depende de la posición jerárquica más alta y del
motivo figurativo que actúa como nivel intermedio entre aquellos más frecuentes
y los menos comunes.
Respecto al Cantábrico, todos los corpus publicados hasta el momento refle-
jan una realidad temática parecida, con el protagonismo del caballo y la cierva,
secundado por el bisonte y la menor importancia de la cabra, el uro, el ciervo y el
reno. Sin embargo, la elección de uno u otro trabajo es determinante en cuanto a
la posición que ocupa la cierva y, en menor medida, la cabra, dando como resul-
tado hasta tres posibles modelos de jerarquía en el Cantábrico (Fig. 7).
Mientras en las bases de datos pioneras, con un menor número de yacimientos
estudiados, la frecuencia de la cierva es prácticamente la misma que la del équido,
en las recientes es más dispar, ocupando el primer o segundo puesto. Algo pareci-
do ocurre con la cabra. Los primeros corpus tienden a situar este motivo en equi-
librio respecto a otros animales como el uro o el ciervo. Por el contrario, aquellos
más actualizados recogen a la cabra como una figura intermedia entre el principal
trío cantábrico y las figuras menos recurrentes del repertorio iconográfico.
Hay que señalar que el modelo presentado por A. Leroi-Gourhan es idéntico
tanto para el Cantábrico como para el conjunto de la península ibérica. Esto lleva
a pensar en el excesivo peso que posee el primer territorio en su base de datos
en detrimento de otros yacimientos localizados más al sur.
130 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 7. Modelos de frecuencia en el Cantábrico. A) Distribución a partir de los corpus más antiguos
(A. Leroi-Gourhan y J. A. Moure). B) Distribución a partir de los corpus más recientes (niveles más
altos a la izquierda a partir de G. Sauvet; niveles más altos a la derecha a partir de J. Altuna).

Finalmente, por lo que respecta al resto de la península, los corpus muestran


una distribución idéntica, caracterizada por una mayor restricción iconográfica
donde animales como el bisonte o el reno son temas muy escasos e incluso
ausentes (Fig. 8). Como se muestran en algunos modelos a lo largo de toda la
geografía peninsular, el caballo es el motivo hegemónico de esta zona, al que le
sigue el Cervus elaphus. Desgraciadamente, con los datos que se han publicado
es imposible poder discernir la frecuencia e importancia de cada sexo en esta es-
pecie dentro de la distribución. Como viene siendo habitual, cabra y uro ocupan
los últimos puestos del interior-sur de la península.

Fig. 8. Modelo de frecuencia en el interior-sur peninsular


LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA
131
Miguel García-Bustos

Por suerte, este esquema se puede analizar más en detalle a partir de los
corpus de J. Alcolea y R. de Balbín (2003) y A. T. Santos (2017) para el interior, N.
Iranzo (2014) en el arco mediterráneo y J. L. Sanchidrián (1990) para el sur (Tab. 6).

Tab. 6. Número de unidades gráficas por tema y su porcentaje en el interior,


arco mediterráneo y sur de la península ibérica

La posición del caballo en este modelo que se acaba de describir se ve re-


flejado también en la meseta castellana. Sin embargo, los dos bestiarios dedica-
dos a este territorio difieren en cuanto al papel de los ciervos, el uro y la cabra.
Estos dos últimos animales son en el arte al aire libre mucho más frecuentes
que ambos sexos del Cervus elaphus, justo lo contrario que ocurre en el trabajo
de J. Alcolea y R. Balbín, donde la suma de ambos sexos se sitúa en segundo
lugar después del équido. Hay que tener en cuenta también este último estudio
porque incluye unos pocos ejemplares que catalogan como bisontes y renos,
por lo que tal vez más que motivos ausentes podrían clasificarse como animales
extremadamente escasos en comparación al Cantábrico, ocupando los últimos
puestos en el modelo presentado más arriba. En la zona levantina de la penín-
sula el équido es también el motivo más frecuente, pero lo más destacable es el
bajo protagonismo tanto de la cierva como del ciervo, cuya frecuencia es aparen-
temente igual que cabras y uros. Finalmente, por lo que respecta al sur, el papel
del caballo es más discutido, ya que la cierva y, sorprendentemente, la cabra,
superan al équido en un porcentaje alto. Cabe comentar que, al contrario que en
la meseta, tanto en el arco mediterráneo como en la zona meridional el bisonte
y el reno sí son motivos totalmente ausentes. Dicha ausencia, o en su defecto
escasez, lleva a plantear la posibilidad de que el bisonte y, en menor medida, el
reno sean motivos con un posible carácter territorial adscrito al Cantábrico.
132 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Por otro lado, el estudio de la zona vasca continental puede evidenciar que
los nuevos descubrimientos poseen una igual distribución temática a la que pre-
sentan los yacimientos que estudian los trabajos clásicos que aquí se han utili-
zado. Si bien no debería extrapolarse al resto de territorios, sí es un indicativo
de la posible buena representatividad que poseen estos corpus publicados entre
1965 y 2002.

5. CONCLUSIÓN
Los corpus que tratan de estudiar la realidad temática en la península ibérica
son muy escasos. Sin embargo, son una fuente de información muy importante
ya que mediante un análisis detallado pueden sacar a flote territorios con una
cultura simbólica diferente en función de la selección iconográfica. Como en el
resto del repertorio en el oeste europeo, la temática peninsular es restringida y
la frecuencia entre los diferentes motivos es diferente, dejando entrever unas
preferencias en representar unas figuras en detrimento de otras, posiblemente
promovidas por cuestiones culturales.
La comparación estadística entre estos corpus ha permitido establecer unos
modelos de frecuencia tanto para la península ibérica en global como para el
Cantábrico y el interior-sur en particular. En todos ellos existe un punto en co-
mún: la superior posición del caballo, la cierva y la cabra, la práctica exclusividad
del bisonte en el Cantábrico y la situación en los niveles más bajos del uro, el
ciervo y el reno.
En el caso del conjunto de la península ibérica, el resultado obtenido median-
te el test Chi-cuadrado indica que tanto el bisonte como la cabra son los motivos
principales que distinguen los corpus publicados. En base a la posición de estos
últimos y al que ocupan el caballo y la cierva es posible distinguir dos modelos
de distribución temática. En el primero, la frecuencia del caballo y la cierva es
similar. Justo por debajo se sitúa el bisonte seguido de la cabra. Por el contrario,
en el segundo modelo el caballo se eleva por encima del resto de motivos y la
posición preminente del bisonte se ve reemplazada por la cabra.
En el Cantábrico, la cierva y de nuevo la cabra son los animales que explican
las diferencias entre los tres modelos. El primero es exactamente el mismo que
ya se ha detallado más arriba donde caballo y cierva comparten cúspide jerár-
quica y donde el bisonte se posiciona en un nivel superior a la cabra. Los dos
modelos restantes establecen una jerarquía igual en sus puestos más bajos pero
contraria en la cima. La cabra se sitúa en un nivel intermedio entre los animales
menos comunes (uro, ciervo y reno) y el principal trío cantábrico (caballo, cierva
y bisonte). Asimismo, dependiendo del corpus consultado, el caballo o la cierva
es la figura más importante del Cantábrico.
LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA
133
Miguel García-Bustos

Por lo que respecta al resto peninsular, los corpus muestran en todos los casos
un mismo modelo sin diferencias significativas. Bajo una menor variabilidad temá-
tica con la práctica ausencia de bisontes y renos, este territorio está dominado por
el caballo seguido del ciervo, del que no se puede detallar el sexo concreto ante
las limitaciones que presentan los corpus. Sin embargo, al ser un marco geográ-
fico tan extenso, si se consultan trabajos específicos de lugares como la meseta
castellana, el arco mediterráneo o el sur se sigue el modelo general bajo ciertas
particularidades. Dichas particularidades responden especialmente a la gran im-
portancia de uros en el interior y a las ciervas en la zona meridional.
En resumen, aunque el estudio de los corpus publicados puede ser de utili-
dad a la hora de poder conocer el modo en el que los temas se distribuyen por
la geografía peninsular, actualmente solo reflejan una idea aproximada. Es más
que necesaria la creación de un nuevo corpus actualizado con el que comprobar
si variables como los nuevos descubrimientos o las nuevas investigaciones de
yacimientos ya conocidos alteran estos modelos de distribución.

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Resumen:
Los corpus que estudian la distribución temática figurativa en la península ibérica actualmente
son escasos y están desactualizados. Sin embargo, son la única herramienta posible a partir
de la cual poder establecer modelos de preferencia temática, tanto en el conjunto de la pe-
nínsula como en las zonas culturales en las que canónicamente se ha dividido (Cantábrico e
interior-sur peninsular). Mediante la comparación estadística de estos corpus se ha consegui-
do sintetizar distintos modelos de distribución por cada territorio estudiado. Sin embargo, a
nivel general, en todos ellos se refleja la importancia del caballo y la cierva, la exclusividad
cantábrica del bisonte, el papel secundario de la cabra y la presencia más marginal del uro, el
ciervo y el reno.

Palabras clave: tema figurativo, iconografía, península ibérica, corpus, paleolítico.


LOS TEMAS FIGURATIVOS DEL ARTE RUPESTRE PALEOLÍTICO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA
137
Miguel García-Bustos

The figurative themes of Palaeolithic rock art in the Iberian


Peninsula: statistical study and distribution models

Abstract:
The corpora that study thematic distribution in the Iberian Peninsula are currently scarce and
outdated. However, they are the only possible tool from which to establish models of thematic
preference, both in the peninsula as a whole and in the cultural areas into which it has been
canonically divided (Cantabrian and inland-southern Iberian Peninsula). By means of statistical
comparison of these corpus, it has been possible to synthesize different distribution patterns
for each territory studied. However, at a general level, all of them reflect the importance of the
horse and the hind, the Cantabrian exclusivity of the bison, the secondary role of the goat and
the more marginal presence of the aurochs, the deer and the reindeer.

Key words: figurative theme, iconography, Iberian Peninsula, corpus, palaeolithic


MEGALITISMO(S) – A SERRA DA
ABOBOREIRA COMO EXEMPLO DE
COMPORTAMENTO PARTILHADO À LARGA
ESCALA TERRITORIAL
DENISE MARIA LIMA E SILVA*

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE UM TRABALHO EM


CONTÍNUO ESTUDO
O trabalho presentemente sumariado insere-se no projeto de doutoramento
da signatária onde se propõe não apenas dar continuidade ao estudo de um
território, mas contribuir com respostas a algumas questões que ainda perma-
necem na ordem do debate académico concomitante a este fenómeno no seio
da comunidade científica, esperando que esta paisagem aqui em causa seja sus-
cetível de participar na discussão no que respeita à compreensão daquilo que é
uma estrutura megalítica, e qual o peso a nível social que acarreta.
A paisagem megalítica da Serra da Aboboreira no Norte de Portugal foi inten-
samente estudada entre as décadas de 1977 e 1990, no embalo de um novo habi-
tus sociopolítico consequente do pós 25 de abril de 1974, e apenas cerca de três
décadas aquando dos avanços nas datações radiométricas e no uso do Carbono
14 na arqueologia. De facto, ao passo que a arqueologia evoluía enquanto ciên-
cia social nas últimas décadas no Reino Unido, Escandinávia, Alemanha, França,
conhecendo vários momentos no desenvolvimento do pensamento teórico e das
várias correntes científicas, Portugal permaneceu, durante algumas cruciais dé-
cadas, aquém de novas abordagens e métodos, incidindo fundamentalmente –
no caso do megalitismo – nos textos e estudos de Georg e Vera Leisner.
Neste contexto, o projeto que começou por se implementar na Serra da Abo-
boreira surgiu no âmbito da tese doutoramento de Vítor Oliveira Jorge, perceben-
do o mesmo que enquanto “necrópole megalítica continha muitos monumentos
que, de megalíticos, pouco ou nada tinham”, tratando-se de “uma única área, no
Distrito do Porto”, propensa “para o estudo do “megalitismo”” (JORGE 2014: 131),
e permitiu, no âmbito da arqueologia portuguesa, não apenas desenvolver, mas
introduzir novos conceitos e métodos e responder a algumas das mais debatidas
questões do Neolítico em território português e ibérico no geral.

*
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra _ limadenisearch21@gmail.com
140 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O Projeto do Campo Arqueológico da Serra da Aboboreira – ou C.A.S.A –, em


Amarante, Baião e Marco de Canaveses (Fig. 1) criou uma equipa de investiga-
dores a nível internacional – Espanha, Inglaterra, França, nomeadamente – de
algumas das mais decisivas áreas complementares à arqueologia, criando, na
década de 80, um círculo transdisciplinar com geologia, pedologia e paleobotâ-
nica. Cerca de quatro dezenas de monumentos foram registados, escavados e
publicados, em conjunto com povoados e outras ocorrências que pudessem ser
coadunadas com a realidade daquela paisagem. Da Serra da Aboboreira, resul-
taram dezenas de trabalhos em artigos e teses de doutoramento e mestrado,
na criação de uma revista de arqueologia (e com o respetivo nome, do Grupo
de Estudos Arqueológicos do Porto – GEAP), na criação do Museu de Baião, e
abriu processos para a classificação de Paisagem Protegida Regional pela As-
sociação de Municípios do Baixo Tâmega – AMBT –, em curso desde 2009, com
vista à classificação de uma paisagem não apenas pelo seu pendor histórico,
mas natural, objetivando a valorização dos recursos da região, sua proteção e
desenvolvimento.

Fig. 1. Enquadramento geográfico da área de estudo

Apesar de os trabalhos na Serra da Aboboreira terem cessado per se na dé-


cada de 90, o acervo de trabalhos que lhe seguiram revela-se notório, alargando
MEGALITISMO(S) – A SERRA DA ABOBOREIRA COMO EXEMPLO DE COMPORTAMENTO PARTILHADO À LARGA ESCALA TERRITORIAL
141
Denise Maria Lima e Silva

o espectro territorial além da Aboboreira, incluindo a serra imediatamente adja-


cente, Serra do Castelo (FARO, CLETO & CARNEIRO 1988; CLETO 1993), e extensos
trabalhos de campo e prospeção, registo, relocalizações e classificações de sí-
tios nos três concelhos mencionados – não circunscritos à Serra propriamente
dita – acabando por criar todo um panorama mais rico e mais completo deste
território em particular (vide VIEIRA 2015).
Tendo presente o elevado número de informação tanto qualitativa, como
quantitativa, poder-se-á questionar qual a necessidade de conduzir novamente
um estudo sobre uma área já tão batida e debatida, salvaguardando desde logo
que o objetivo nunca é o de questionar a informação já existente. Pelo contrário:
face a essa mesma quantidade de informação, e atentando que cerca de trinta
anos se passaram, tornou-se oportuna a criação de um compêndio completo
e exaustivo com base na criação de curricula (ou atlas curriculares) individuais
para cada monumento existente, tenha ou não sido escavado, com toda a infor-
mação tratada, filtrada e sumariada, e com curricula diacrónicos também para
cada um com base em modelos bayesianos através do programada OxCal. As-
sim, será possível conduzir melhor qualquer que seja a análise que diga respeito
à arquitetura do monumento, problematizando-a, bem como a sua implantação,
orientação e preparação do terreno onde assenta, tendo em vista a análise e
comparação das características elementares à sua construção – materiais, tipos
e processos construtivos – (incluindo paralelos principalmente a nível regional).
Através do recurso a programas de Sistemas de Informação Geográfica, preten-
de-se também equacionar a proximidade com outras ocorrências, a interação
dos monumentos uns com os outros, com a paisagem de serra e com este ter-
ritório em particular no geral, tentando determinar a utilização do mesmo, seu
abandono e reutilização, e mesmo considerando o elevado grau de invisibilidade
artefactual.
Certamente que construindo um Compêndio desta envergadura, e atentando
de igual modo a certas peculiaridades a nível da cultura material recuperada em
certos sítios, é de extrema importância trabalhar uma teoria do não-isolamento
desta paisagem megalítica com outras, tanto na paisagem do Noroeste Ibérico,
como Atlântico e, porventura, Mediterrânico.
Assim, num trabalho que preze o fenómeno megalítico é importante proble-
matizar, uma vez mais, a partir dos monumentos, a paisagem na arqueologia,
desta vez recorrendo a modelos teóricos que preconizem um ponto de vista pós-
-processual e que deem um relevo adicional à vertente humana propriamente
dita, tanto no que respeita à bioantropologia cognitiva que o ser humano detém
a nível de processamento de imagem, organização e conceptualização espa-
cial (estando sempre a par dos pressupostos mais recentes dentro da área das
Neurociências, KANDEL et al. 2013), tanto do lado da etnografia de campo e da
antropologia social – nomeadamente no que respeita a comunidades que ainda
142 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

hoje praticam economias de amplo espectro, sociedades unicamente pastoris e


nómadas, e outras que recorrem à caça-recoleção e, acima de tudo, a um caso
de estudo onde se observa ainda hoje a construção de monumentos megalíticos
na Papua Nova Guiné (WUNDERLICH 2019).
Há que ressalvar, contudo, que esta aproximação não pretende fazer compa-
rações anacrónicas entre os grupos humanos do passado com as comunidades
do presente, sequer estabelecer pontos de comparação entre os vários períodos
da Pré e Proto-História.
Face à multiplicidade de testemunhos arqueográficos e à particularidade que
cada um encerra – temporal/cronológica, local, tipológica, etc. –, a Serra da Abo-
boreira mostra uma paisagem com uma dimensão diacrónica de longo tempo (tal
como havia já advertido no início dos seus trabalhos V. O. Jorge) cujos monumen-
tos permaneceram, na sua essência, imutáveis, podendo até representar mais
do que um momento dentro da mesma linha cronológica, ou ao longo de várias.
Ou seja, aqueles monumentos ou testemunhos que, tendo começado com um
determinado pressuposto, espelhando determinadas conceções específicas aos
que lhe deram corpo e sentido, acabaram por funcionar como âncora material
(MALAFOURIS 2013) para outros sentidos, conceções e interpretações porventura
alheias às originárias.
Este texto servirá como ponto sumário para alguns conceitos chave que to-
cam certos aspetos mais recorrentes no acesso a este paradigma da história
social humana, sempre de uma forma superficial, mas que delineará – acima de
tudo – duas das principais dificuldades a ter em conta no estudo desta paisagem
em particular à luz dos dados sobre o fenómeno do megalitismo euroasiático (e
tendo sempre em consideração a própria evolução do pensamento teórico até
hoje), das novas tecnologias disponíveis e do debate académico corrente.

2. A ALTERAÇÃO DA PAISAGEM E A MATRIZ SOCIAL IDEN-


TITÁRIA-IDEOLÓGICA – DOIS ASPETOS A CONSIDERAR PARA
O ESTUDO
Antes de tratar efetivamente a questão do fenómeno do megalitismo pro-
priamente dita, ponderou-se a análise de duas componentes específicas que
colocam em perspetiva 1) a adaptação gradual das comunidades humanas ao
ambiente e território ao longo dos períodos, e 2) a representação do espaço físi-
co e social pelo meio da criação de símbolos, manipulação de imagem e espaço
(e que podem inclusive ser consequência dessa mesma adaptação). Ou seja, o
impacto que as alterações climáticas que caracterizaram o Holoceno tiveram na
paisagem física e, consequentemente, social, e que se reflete nas várias formas de
ser/estar e pensar, visíveis na cultura material; e o desenvolvimento ou adoção de
MEGALITISMO(S) – A SERRA DA ABOBOREIRA COMO EXEMPLO DE COMPORTAMENTO PARTILHADO À LARGA ESCALA TERRITORIAL
143
Denise Maria Lima e Silva

outras formas de reproduzir a realidade física e ontológica pelo meio de expres-


sões artísticas.
No trabalho que este texto antecede, e de forma a construir uma sucessão de
eventos coeva, deu-se, então, destaque a algumas particularidades anteriores
ao megalitismo e que são suscetíveis de refletir noções de causalidade no que
diz respeito não tanto à evolução, mas à complexificação da matriz social huma-
na a nível da cultura material, do pensamento simbólico e da consciencialização
do sujeito num grupo ou comunidade – enfim, uma eco-artefactualização.
Quando posto nesta perspetiva, o megalitismo acaba por ser tão único e
particular, quanto normal e expectável quando considerando: alterações a nível
climático no Holoceno, e a gradual evolução do pensamento artístico, abstrato e
até simbólico, na representação e interpretação da realidade quotidiana (no aces-
so amplo do termo), e que se tem vindo a observar desde o Paleolítico Superior.
Trabalhando a arqueologia da paisagem – principalmente durante um espa-
ço alargado de tempo na Serra da Aboboreira – e trabalhando de igual modo
um fenómeno social, é importante contribuir para a construção de uma imagem
de um território não-estático, na medida em que se dá ênfase à forma como
as comunidades humanas se foram adaptando face às alterações climáticas e
como se foram, consequentemente, ajustando à alteração da paisagem. Os da-
dos paleoambientais permanecem esparsos para o território em questão, con-
tando com os principais contributos de Figueiral e Bettencourt (2007) – princi-
palmente entre o final do 4º milénio AC e inícios do 1º milénio AC para o NW do
território Português –, Garcia-Amorena (2007) e Ramil-Rego (et al., 2005, 2009)
para o NW da Península Ibérica; apesar de o estudo da evolução da cobertura
vegetal ao longo das fases Atlântica e Sub-boreal não deixar de ser um aspeto
cuja análise seria oportuna no âmbito do estudo da a) evolução da paisagem
principalmente em ambiente de montanha, e b) na comparação e análise dos
monumentos megalíticos entre si e entre o território que abrangem. De facto,
e tendo em consideração estudos em sistemas de informação geográfica num
território à larga escala tanto territorial, como cronológica, ter informação que
possibilite uma reconstrução aproximada da paisagem seria suscetível de me-
lhor compreender ou problematizar as várias formas de existir e interagir com
um determinado espaço na curta e longa diacronia.
Há que saber caracterizar bem a paisagem com que estamos a lidar no qua-
dro do megalitismo do Norte de Portugal, logo (e consequentemente), a nível na-
cional. Infelizmente, são escassos os estudos extensos e exaustivos que tornem
possível uma reconstrução da paisagem do complexo Alvão/Marão, não havendo
depósitos preservados e estudados ou zonas de lagoas suscetíveis a uma análi-
se polínica evidente.
Contudo, assume-se este obstáculo como parte integrante do estudo da
paisagem da Serra da Aboboreira, acabando por não permitir (tanto quanto se
144 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

pretendia) uma análise inequívoca da evolução deste território a nível da cober-


tura vegetal.
Tendo consciência desta limitação, será necessário proceder a outro tipo de
abordagens, exaustivamente testadas, que tenham em conta diversos fatores
na análise ao terreno dentro do âmbito dos sistemas de informação geográfica,
modelos preditivos e análises de distribuição espacial.
A questão dos modelos preditivos e de análises de distribuição espacial têm
vindo a ser usados no âmbito da arqueologia não como alternativa, mas como
uma ferramenta adicional que advoga o uso das novas tecnologias e fornece
novos dados que nos permitem uma análise do/no terreno de uma forma prag-
mática. Alguns destes estudos têm sido feitos na Galiza (ORENGO & PETRIE 2018;
CARRERO-PAZOS 2018), mas com um enfoque dado na topografia do terreno e não
tanto na imagem, por meio de algoritmos para a interpretação visual de formas
de relevo, sem considerar a qualidade desta. Esta aliança entre novas tecnolo-
gias, machine learning e remote sensing permite criar outras perspetivas no que
diz respeito às interações a longo prazo entre o ser humano e o seu território a
partir das marcas na paisagem que as comunidades humanas foram deixando ao
longo dos tempos.
É neste âmbito que se inserem (e foram propositadamente escolhidos) os
monumentos da Serra da Aboboreira: marcas no terreno na longa diacronia, di-
versas interações e formas de existir numa paisagem entre os vários períodos,
a interação entre humano-objeto, objeto-paisagem, e a problematização desta
interação não apenas dentro da sua esfera temporal (ou seja, aquando da cons-
trução ou início do fenómeno), mas entre várias gerações. Tal aspeto é suscetível
de criar novas conceções da relação humano-paisagem através de um único ob-
jeto e a nível inter-geracional – isto é, ao longo de várias gerações. Desta forma,
de modo que se consiga responder a algumas das limitações apresentadas no
quadro do estudo dos ambientes antigos, será a partir de vários e exaustivos
testes por meio de programas como QGIS e SAGA, Landserf e YOLOv3 (REDMON
& FARHADI 2018) que se tentará abordar não apenas o terreno, mas a interação
entre os vários pontos que perfazem uma paisagem física e social.
Por outro lado, considerou-se também adequado sublinhar a mudança de
paradigma no que toca à produção de arte, criação de símbolos e imagens ou
marcas no espaço, cujas expressões vão gradual e naturalmente mudando de
um período para o outro, deixando entrever alguns reflexos das relações entre
as pessoas e o seu território, mas, acima de tudo, de que forma se foi alteran-
do ou ajustando o pensamento conforme novas necessidades ou momentos
surgiam – e de entre o qual o megalitismo é exemplo. Dever-se-á ter em conta
esta mudança de paradigma de representações de cenas quotidianas (e tam-
bém associadas a atividades de índole religioso (JORGE 2012: 25-32), que, de
certo modo, perspetivam uma representação direta da realidade observada e
MEGALITISMO(S) – A SERRA DA ABOBOREIRA COMO EXEMPLO DE COMPORTAMENTO PARTILHADO À LARGA ESCALA TERRITORIAL
145
Denise Maria Lima e Silva

partilhada (cenas de caça, motivos animalistas e animistas, etc.), para uma pos-
terior conceptualização mais abstrata e esquemática.
É uma conceptualização visível desde a passagem do Paleolítico para Meso-
1
lítico . Os próprios megálitos, menires e dolmens, têm motivos gravados e pinta-
dos, conhecendo-se o esteio pintado do Dólmen de Chã de Parada 1 na Serra da
Aboboreira (Baião), estudado e publicado por E. Shee Twohig, em que a mesma
problematiza o desenho “da Coisa” (um motivo abstrato sem interpretação apa-
rente (TWOHIG 1981: 147)); e o esteio pintado do Dólmen de Chã de Parada 3,
também ele com motivos esquemáticos circulares (Fig. 2).

Fig. 2. Motivos esquemáticos do Dólmen de Chã de Parada 1 com “a Coisa”, e Dólmen de Chã de
Parada 3, respetivamente (TWOHIG 1981: índice de figuras, fig. 30; SOUSA 1988: 120).

No âmbito do estudo da paisagem da Serra da Aboboreira, sendo a arte um


dos eixos principais de pesquisa, abordar esta questão pode, inclusive, contribuir
para uma melhor compreensão da conceptualização da realidade socio-espacial
e identitária, e numa altura em que a comunicação inter e intra-grupos poderá
ter sido determinante para a forma como passámos a interagir com o território e
desenvolver laços e noções de memória social.

1
Ou seja, apesar de não haver aqui o objetivo de comparar as formas de arte ao longo da Pré-história e Pré-
história Recente, é interessante notar as graduais mudanças que, nesta vertente das expressões artísticas,
aconteceram desde o Paleolítico Superior, ao Mesolítico, e ao Neolítico.
146 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Será através deste mesmo ponto – da memória social – que se abordará tam-
bém a questão da complexificação de expressões artísticas dentro do fenómeno
do megalitismo, atendendo às seguintes questões: a ciência cognitiva por detrás
do pensamento simbólico, novas necessidades-novas respostas à perceção do
espaço físico e ontológico, a esquematização do pensamento, e o lugar e papel
do corpo vivo e morto na sociedade e no espaço.

3. MEGALITISMOS – UM DEBATE RECORRENTE SOBRE A


ORIGEM, UM TERMO E UM CONCEITO
Em certos aspetos, este fenómeno é passível de pender tanto para uma ver-
tente mais semântica e definidora daquilo que constitui uma estrutura megalíti-
ca, como para discutir um movimento social enquanto fenómeno marcante da
nossa história enquanto sociedade complexa. A origem do mesmo continua a
permanecer uma questão em aberto (PAULSSON 2017, 2019; SCARRE 2018; SÁN-
CHEZ-QUINTO et al., 2019), mas já não dando tanta continuidade a teorias difu-
sionistas, enfatizando antes o papel das comunidades locais que agem sobre o
seu território.
“(…) monuments are not only media of communication, but also admonishers
of specific ways of doing things, of social identities.” (FURHOLT & MÜLLER 2011:
169). À semelhança do termo “paisagem”, no âmago do debate em torno de me-
galitismo reside, como não podia deixar de ser, uma discussão semântica cujas
bases assentam na procura da própria razão por trás desta forma de interpretar
não apenas o espaço e o território, mas questões do próprio (self) e a comunida-
de onde se insere. Tendo em conta o carácter funerário que estes tipos de estru-
turas acarretam, é importante também ter em conta que surge uma nova forma
de organizar não apenas o espaço, e também não apenas a morte, mas de lidar
com o corpo, sua manipulação, e, acima de tudo, a memória social.
No que diz respeito aos momentos que reportam à construção de uma es-
trutura desta índole, prevalece uma grande dificuldade, principalmente quando
lidamos com uma região onde a não-preservação de ossos ou a invisibilidade
artefactual não permite uma melhor reflexão paleo-paisagística/paleoambiental
– sendo o caso da Aboboreira –, obrigando a seguir em linha geral e orientadora
um período principal, uma linha cronológica que define o começo deste fenóme-
no no Neolítico.
Assim, a Península Ibérica Ocidental Norte – como tal, NW Português – é
particularmente difícil no que toca à interpretação que concerne a monumentos
funerários devido aos valores termini post quem, e que acabam por resultar em
perspetivas ambíguas (resultantes em incertezas na cronometria) entre as várias
formas de estar e usar um monumento deste carácter – desde a sua construção,
MEGALITISMO(S) – A SERRA DA ABOBOREIRA COMO EXEMPLO DE COMPORTAMENTO PARTILHADO À LARGA ESCALA TERRITORIAL
147
Denise Maria Lima e Silva

utilização (repetida ou não), abandono ou condenação, e eventual reutilização


e remeximentos/violações, poucas vezes considerando momentos anteriores à
construção do monumento, podendo, na maior parte dos casos, remontar para
ocupações anteriores. Para a grande maioria das amostras recolhidas nos monu-
mentos da Serra da Aboboreira, muitas das datações obtidas provêm de carvões
de espécies maioritariamente não identificadas, podendo provocar o efeito “Old
Wood”. Podem até corresponder a áreas e/ou momentos melhor relacionáveis
com manchas de ocupação antigas/anteriores aos monumentos e sem que se
consiga estabelecer uma relação inequívoca com a sua construção.
Por exemplo, mais recentemente, Paulsson (op. Cit. 2017: 262-263, 278) deter-
minou (em pesquisa sua) um espaço de 3800 anos entre as datações de carvões
mais antigos e os resultados obtidos de ca. de 75 ossos humanos das regiões do
Algarve, da Estremadura e algumas no Alentejo (vide CRUZ et al. 2003; FIGUEIRE-
DO 2006; BOAVENTURA 2009, 2011), acabando por enfatizar a elevada diferença
entre datar elementos carbonizados e restos ósseos que deve ser tida em conta.
Para o que diz respeito à Serra da Aboboreira, é sempre de referir o problema
da falta de vestígios ósseos – humanos ou animais – e até de outros elementos
da cultura material que sejam passíveis de ajudar a definir um momento tempo-
ralmente amplo para o tempo de uso do monumento, pese embora o facto de
que muitos (se não mesmo a maior parte) terão sido várias vezes utilizados.
Pegando na informação que nos chega no caso da Aboboreira, considera-se
2
a própria cultura material (por exemplo, os monumentos tipo “Passy” em Fran-
ça apresentam artefactos recuperados que permitem balizar com certezas um
momento, neste caso, do horizonte Cerny, corroborando o tempo de uso do mo-
numento (MIDGLEY 2011: 125; op. Cit. PAULSSON 2017: 25-27). Contudo, a invisibi-
lidade artefactual nas estruturas megalíticas da Aboboreira é também esparsa,
sendo rara a ocorrência de peças com características condutoras de um período
3
anterior ao 3º milénio AC , e que pudessem fornecer informação mais concisa
acerca de um momento inicial de uso dos monumentos – assumindo sempre
a sua ancestralidade. Não é impossível de fazer associar os poucos espólios a
momentos no tempo, mas claramente difícil.

2
Para melhor contextualização, sugere-se a leitura do texto de Philippe Chambon e Aline Thomas (2010). Os
monumentos tipo “Passy” constituem necrópoles numerosas tipo recintos evolucionados gigantes, poden-
do ter como elementos estruturantes tumuli, paliçadas ou sistemas mistos. Podiam exceder os 150m de
comprimento e 12m de altura, e acomodavam um número extremamente pequeno de câmaras e sepulturas
propriamente ditas. De entre os mais conhecidos estão os quatro tumuli em Tusson – Petit Dognon, Gros
Dognon, Tumulus de la Justice e Vieux Breuil –, o tumulus de Saint-Michel a Este de Carnac, e o Tumulus de
Sablonnière em Yonne.
3
E que no caso da Serra da Aboboreira correspondem a taças e pontas de lança tipo Palmela, punhais de
lingueta, (Cruz, 1992: 33-37) e uma espiral em prata (Jorge, 1980c: 18). De uma maneira muito sumária, o
espólio corresponde essencialmente a micrólitos geométricos, lâminas em sílex, machados e ferramentas
de trabalho (goivas), fragmentos cerâmicos decorados e não decorados, e materiais que se associam à
primeira metade do IV milénio.
148 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Já no que diz respeito às amostras das datações, a localização estratigráfica


é de extrema importância – e tem sido fortemente considerada ao longo deste
trabalho –, podendo ou não ser passível de determinar a possível origem da
amostra e a sua eventual relação com elementos estruturantes de todo o tumu-
lus – mamoa, anel periférico, contraforte, couraça, esteios. Certamente que a
interpretação feita numa análise de carvões oriunda das terras da mamoa ou sua
periferia, será diferente ou com uma menor consideração que uma amostra rela-
cionada com os níveis superiores do solo enterrado da câmara, ou subjacente a
um esteio ou contraforte, ou mesmo estruturas de combustão/lareiras, ainda que
os valores continuem a ser termini post quem (vide CRUZ 1983, 1995; JORGE 1987,
1989). O problema em considerar as amostras relacionadas com as terras da ma-
moa reside no facto de estas terem sido recolhidas a diferentes profundidades e
em locais não determináveis.
Não tanto a construção, mas também a utilização das estruturas não deixa
de ser um processo longo, com a procura de soluções construtivas mais práti-
cas e pragmáticas que respondam às necessidades que se esperam responder
aquando da utilização (inicial, principalmente continuada) de um determinado
monumento, com descobertas que acabariam por ultrapassar as próprias ne-
cessidades básicas e conduzir a uma procura de um quotidiano cada vez mais
prático, por um lado, mas mais complexo, por outro.
A variante das datações de elementos provenientes das terras das mamoas
não deixa de ser de extrema importância para determinar padrões de uso do
território anteriores à construção de um megálito, inserindo-as noutro contexto,
como um ocupacional (no acesso amplo do termo, ou seja, com a componente
rural, ou artesanal, etc.). Facto que acaba por criar uma imagem de uma paisa-
gem social que não seja a preto e branco – ou vida ou morte, ou doméstico ou
fúnebre, ou necrópole ou assentamento – e que acaba por antever a própria
evolução não apenas do pensamento face ao território, mas das interações entre
os grupos humanos com o seu espaço.

3.1. UM TERMO E UM CONCEITO

Joussaume (1985: 11) sumaria de uma forma bastante pragmática aquilo que
é um dólmen, caracterizando-o como a imagem mais clássica de um monumento
megalítico (Fig. 3), e referindo-se a eles como túmulos com esse propósito úni-
co – inumações. Considerando a quantidade de restos ósseos encontrados em
vários em toda a Eurásia, o autor determina que, fechados ou abertos, coletivos
ou individuais, teria de haver um certo índice de manipulação do corpo/esque-
leto(s). Desta manipulação resultariam as diferentes disposições das câmaras
funerárias – alongadas, poligonais, circulares, elípticas, quadrangulares –, como
MEGALITISMO(S) – A SERRA DA ABOBOREIRA COMO EXEMPLO DE COMPORTAMENTO PARTILHADO À LARGA ESCALA TERRITORIAL
149
Denise Maria Lima e Silva

respostas à necessidade em melhor aceder à câmara. Da mesma forma que re-


sultariam também as maneiras de aceder ao tumulus, com corredores curtos ou
longos, (diferenciados ou não), com lajes facilmente removíveis, paredes em pe-
dra seca removíveis e/ou portas em madeira. Mas, de um modo geral, Jossaume,
através de Jean Arnal, define um dólmen como “une chambre sépulcrale ouver-
te, généralement megalithique, recouverte d’un tumulus et destinée à recevoir
plusieurs inhumations” (idem).

Fig. 3. “As diferentes partes de um dólmen sob seu tumulus” (JOUSSAUME 1985: 19)

A incidência, a partir da segunda metade do 4º milénio AC, de dólmens de


corredor acaba por trazer mais alguns pormenores a nível social, pormenores
esses ultrapassam a utilidade pragmática do monumento. E não apenas o corre-
dor, mas corredores diferenciados, com átrios ou zonas diferenciadas da câmara
e corredor de acesso, o que, por sua vez, indica novamente diferentes formas
de organizar o espaço e que dependem da sua funcionalidade e dos objetivos
da comunidade ou da razão que estão a tentar trazer àquela realidade sepulcral.
Note-se o exemplo icónico não para o território Norte, mas para o Sul, da Anta
150 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

2 de Olival da Pega (Reguengos de Monsaraz), que apresenta não apenas um


corredor longo, mas duas soluções construtivas posteriores e anexas ao mesmo,
representando tanto a continuidade de uso, como o aproveitamento do espaço
dentro de uma mesma conceção simbólica, embora dentro uma matriz sociocul-
tural e arquitetónica diferente no tempo (vide SILVA, CUNHA & GONÇALVES 2008).
A nível de grandes construções cuja “arquitetura” não se coaduna com aque-
la dos monumentos megalíticos, são de referir brevemente aquelas que prece-
deram este fenómeno e que alguns autores consideram entrar dentro do modo
de “construir em grande”. São eles os sistemas de valas (System Ditches) e os
recintos (Causewayed fields ou Enclosures) tanto internos como externos aos
espaços domésticos (op. Cit. MIDGLEY 2011: 122; ANDERSEN 2011: 143-144). Estes
correspondem a um tipo de estruturas que, pelas suas características de gran-
des envergaduras, que revelam um elevado esforço comunitário e planeamento
prévio na sua construção, no acesso amplo ao conceito por trás do fenómeno,
refletem esta conceção de mega construções no espaço.
Certamente que um termo deste género pesa para as duas vertentes: é tanto
termo quanto conceito, definindo diretamente um tipo de estrutura aliada a um
período cronológico e todas as características que lhe são tangentes – socieda-
des progressivamente menos nómadas, economia de subsistência de amplo es-
pectro, com práticas agro-pastoris gradualmente mais extensas, etc.; e suportan-
do o conceito do monumentalidade na paisagem, podendo não se circunscrever
a dólmens, mas ao próprio ato de construir e agir sobre grandes estruturas que
denotem um esforço comunitário significativo.

4. MEMÓRIA SOCIAL, HERANÇA FAMILIAR UNILINEAR E


IDENTIDADE
No seguimento do ponto anterior, os monumentos da Serra da Aboboreira
acabam por transparecer essa mesma ideia de vários “megalitismos”, e várias
vezes os autores fizeram referência (como já mencionado no início deste tex-
to) ao amplo sentido que “megalitismo” tem quando aliado a novas conceções
socio-espaciais através da construção de grandes estruturas pelo meio de es-
forços comunitários que servem uma causa comum. Desde o Dólmen de Chã
de Parada 1, o único com corredor e de longe o mais emblemático desta paisa-
gem, à Mamoa de Outeiro de Gregos 1, que transparece um uso do monumento
mais recente, da Idade do Bronze, mas de tradição megalítica, que é claro que
estamos perante uma paisagem cujos sentidos, memória social, identidade de
grupo e relações interpessoais vão um pouco mais além das clássicas conceções
de domínio do espaço por meio do culto ao antepassado. Certamente que esta
questão da herança social e comunitária tem uma forte componente, ou não
MEGALITISMO(S) – A SERRA DA ABOBOREIRA COMO EXEMPLO DE COMPORTAMENTO PARTILHADO À LARGA ESCALA TERRITORIAL
151
Denise Maria Lima e Silva

4
existiriam cerca de 80 monumentos desde sensivelmente o último quartel do 5º
milénio aC/primeira metade do 4º milénio aC, 3º milénio aC e Idade do Bronze.
Várias vezes é acentuado o polimorfismo dos monumentos que, apesar de se
poderem integrar na definição inicial de ambos J. Arnal e R. Jossaume – ou seja,
dolmens cobertos por mamoas para inumações –, apresentam uma heteroge-
neidade construtiva tal que apenas serve para dificultar a determinação de mo-
mentos específicos no tempo para a possível construção de cada um dos tumuli.
Só o Núcleo de Outeiro de Gregos (JORGE 1979, 1980a, 1980b, 1980c, 1980d,
1982), com 5 monumentos tumulares, uma estrutura periférica, uma fossa aber-
ta no saibro, e a estrutura retangular em Gregos 1 (CRUZ & SANCHES 1985: 29),
parece querer apresentar um único ponto no espaço utilizado sucessivas vezes
ao longo de várias gerações, com propósitos semelhantes, mas soluções parti-
culares.
É neste polimorfismo que reside uma das definições para o conceito associa-
do ao fenómeno do megalitismo, e que podemos, inclusive, debater a própria
noção do conceito de tradição.
T. Darvill (2011) atenta para uma importante questão que diz respeito a todo
um espectro mais alargado dos grupos humanos, na medida em que se tem vin-
do a focar principalmente nas coisas que permaneceram, raramente consideran-
do as mais efémeras ou aquelas mais humildes na paisagem e menos evidentes.
Os monumentos de pequenas envergaduras continuam a fazer parte da matriz
social e com a igual quantidade de importância. “But across Europe these mo-
numents lie at the extreme end of a spectrum of structures that are typically
more modest in their overall scale while the size of the components used in their
construction is correspondingly smaller (idem: 36). Ou seja, a pergunta “porque
deixaram de construir monumentos grandes” talvez não seja a mais acertada a
5
fazer, uma vez que estes deveriam ser a exceção , por isso, no meio da individua-
lidade que os sepulcros mais pequenos apresentam, o que vieram acrescentar
com a construção dos monumentos maiores? E não tanto no sentido de o que é
que representam, tendo o cuidado de não os individualizar dos mais pequenos,
mas antes responder à questão “que necessidade estariam as pessoas a satisfa-
zer” tendo em conta os seguintes fatores:
– haveria locais de culto naturais, locais de destaque na paisagem com pouca
ou nenhuma intervenção humana (o caso da gruta da Coriscadas e do Penedo
4
Atente-se que devido ao elevado índice de destruição que a paisagem sofreu ao longo dos séculos (aber-
tura de estradões, desmatação da flora nativa, desmonte por parte da população local para fins agrícolas
e construção de muros, violações e remeximentos), bem como considerando que alguns dos monumentos,
pelas suas peculiaridades construtivas, não chegaram até nós (o caso da Estrutura Periférica de Outeiro de
Gregos (op. Cit. Jorge, 1980d)) – mais pequenos, menos visíveis –, A Serra da Aboboreira poderia ter tido
muitos mais dos que atualmente se conhecem.
5
Partindo do princípio de que estes requerem um conjunto maior de pessoas e de tempo de planeamento
prévio superior, e atentando ao facto de que estes existem em muito menor quantidade que aqueles com
uma envergadura inferior.
152 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de Cuba em Soalhães, Marco de Canaveses) (VASCONCELOS 1901: 42-43) (So-


ciedade Martins Sarmento – SMS, s.d.).
– no seguimento do pensamento anterior: que a construção destes locais de-
veria responder a necessidades que ultrapassam apenas um grupo humano
ou comunidade, e em que os locais naturais ou não seriam suficientes, ou a
nova construção trazia uma nova resposta;

O pensar a morte pode ser relacionado com o estreitamento de laços entre


os indivíduos e uma maior proximidade local ou convivência com o corpo morto.
Mas, da mesma forma que os monumentos são parte ativa e integrante das co-
munidades da Pré-história Recente, qual seria o papel dos mortos, ou quão ativo
poderia ser? O culto ao antepassado não deixa de ser a explicação mais plausível
para o porquê de existirem tão poucas inumações. No entanto, há que atentar
que os critérios certamente não se manteriam imutáveis ao longo de várias ge-
rações, mesmo dentro do paradigma do culto ao antepassado – tudo depende
do que faz ou não sentido na altura e, aí, pouco podemos inferir apenas a partir
dos monumentos.
“For some societies, the distant centre of legitimating origins is located far
away beyond the horizon. Consequently, some societies recognize a distant pla-
ce and foreign people (as well as foreign objects, and (…) foreign ideas and
practices” (op. Cit. MIDGLEY 2011: 126), enfatizando que as próprias fronteiras
geográficas podiam não ser sequer determinantes para esta legitimação de uma
sociedade num dado território, dando antes a importância à memória social e
àquilo que uma crença ou habitus pesam no âmago de um grupo de pessoas.
Esta ideia enfatiza novamente a questão das datações e das amostras quan-
do podemos estar perante uma análise que, na realidade, está a transparecer
não um momento de construção do tumulus, mas locais de ocupação num sítio
onde seria eventualmente construído um monumento com esse peso ideológico.
Isto é, a persistência em começar por construir em espaços “domésticos” ou
habitacionais tal como observado na Renânia.
Certos aspetos na disposição do espólio votivo face ao esqueleto e à câ-
mara funerária podem, em certos casos, permanecer aquém para determinar
um status ou definir uma sociedade como hierarquizada. Um estatuto elevado
num grupo de pessoas só o é em comparação com os outros, e desconhecemos
onde estão “os outros”. O caso das inumações no Sector B em Le Richebourg
(inserido dentro do horizonte de monumentos tipo Passy) mostra indivíduos de
várias faixas etárias – bebés a adultos – e dos dois sexos, acompanhados com
variadas quantidades de artefactos (alguns sem objetos, alguns com objetos me-
nos comuns – como o caso da jadeíte), cujos corpos terão sido sujeitos a trata-
mentos diferentes (cremados ou simplesmente inumados), e em que 75% dos
indivíduos apresentavam índices de malnutrição e deficiências dietéticas graves
MEGALITISMO(S) – A SERRA DA ABOBOREIRA COMO EXEMPLO DE COMPORTAMENTO PARTILHADO À LARGA ESCALA TERRITORIAL
153
Denise Maria Lima e Silva

(op. Cit. PAULSSON 2017: 23-26). Ao que se acresce o facto de serem visíveis
fases de construção para estas câmaras em vários momentos, inferindo que, de
origem, estes monumentos teriam sido muito mais pequenos. Atentando a mo-
numentalidade de Le Richebourg dentro dos túmulos tipo Passy, de que forma
se interpreta a hierarquia desta sociedade que depositava aqueles que morriam
precocemente devido a insuficiências imunitárias?
Estas questões que concernem à identidade da uma comunidade têm sem-
pre respostas com limites. O caso da Aboboreira assume particular dificuldade
devido à invisibilidade artefactual e de restos ósseos, e aos sucessivos remexi-
mentos e violações que alteraram a estrutura. Poucas estruturas são aquelas que
nesta serra são passíveis de fazer inferências sobre estas questões – um deles é
a Mamoa de Chã de Carvalhal 1 onde foram recuperados os punhais e pontas de
lança acima mencionados (op. Cit. CRUZ 1992). Estes artefactos não vieram da câ-
mara, mas das terras da mamoa sob o revestimento pétreo e em posição vertical.
Também na Mamoa de Outeiro de Gregos 1 registou-se um momento particular:
vestígios de fragmentos de um mesmo recipiente cerâmico de bordo largo com
asas e mamilos partido in situ associado à estrutura retangular (op. Cit. JORGE
1980c: 16). Será através de estes e outros pequenos elementos que se trará de
fazer inferências sobre o comportamento destas sociedades com a conceção do
espaço envolvente e das estruturas.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
É impossível ao ser-humano a desmaterialização, de tal forma que criamos
um espaço físico para conceitos abstratos quando dizemos, por exemplo, “o pas-
sado está atrás das costas” ou “o futuro à nossa frente”.
De entre os testemunhos que perduram, o megalitismo ou os monumentos
megalíticos da Serra da Aboboreira foram escolhidos – para conduzir um projeto
que prezasse o comportamento humano na longa diacronia – como aqueles que
mantêm um certo grau de imutabilidade ao longo dos milénios, pese embora o
facto de a grande maioria (senão mesmo todos) ter sofrido significativas alte-
rações a nível estrutural, ora evidentemente destruídos, ora apenas remexidos
sucessivamente ao longo dos séculos. Não obstante, a existência de núcleos
ou conjuntos de monumentos desta índole numa paisagem revela precisamente
o efeito que se procura explorar relativamente à relação ou relações mantidas
entre vários grupos humanos num espaço alargado de tempo, usando os monu-
mentos como prova de que também os objetos físicos, sozinhos, interagem com
o espaço. Acresce o facto que tais monumentos conseguem ir além das próprias
barreiras cronológicas formalmente estabelecidas, funcionando, uma vez mais,
como âncora material para vários passados, mas, acima de tudo, com uma certa
154 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

significância ainda presente na paisagem de hoje, e onde o ressurgimento de


eventos pagãos, como o solstício de verão em Stonehenge, ou a celebração do
Beltane em Thornborough Henge, recebem especial destaque (WATSON & WATER-
TON 2017) – enfatizando, novamente, a memória social por meio do espaço físico
na longa diacronia.
Acima referiram-se brevemente várias estruturas cuja definição ou caracte-
rização pende para o conceito de megalitismo (ou, pelo menos, faz questionar
essa mesma definição dentro das esferas sociais nestes períodos de transição).
Os monumentos tipo Passy, na Bacia de Paris e na Britânia, podem ter influências
nos grandes recintos de sistemas de valas da Renânia, e esses mesmos recintos
são, por sua vez, entendidos como uma evolução dos assentamentos domésti-
cos (nesta temática, há que referir os contributos iniciais de I. Hodder principal-
mente em The Domestication of Europe (1990) e na problematização do espaço
doméstico e não-doméstico). Dois aspetos são importantes retirar daqui: o pri-
meiro é o de que a vida doméstica tem um pendor determinativo no modo como
o ser humano interpreta a sua realidade no geral, influenciando ou até mesmo
espelhando o quotidiano na tentativa de adaptar um evento a partir do outro –
por exemplo, longhouses / longbarrows –, mas não com o intuito de reproduzir
a vida doméstica na vida após a morte (o que também se pode refletir, mas não
é esse o aspeto principal que se pretende aqui salientar), mas o de continuar a
reproduzir espaços que já são compreendidos e transpô-los de uma realidade,
para a outra (também é muito importante não esquecer que não temos acesso
a toda uma outra realidade de estruturas e comportamentos mais efémeros que
poderiam existir). O segundo aspeto concerne ao já mencionado não isolamento
das comunidades euroasiáticas nestes períodos, pois é claro que a circulação
das ideias, de comportamentos e noções ultrapassaram as barreiras geográfi-
cas e fronteiras físicas, e as barreiras sociais, uma vez que teria havido grupos
humanos com as suas próprias noções identitárias e modos de agir na sua pai-
sagem física/ambiental e social. Aparte do mosaico social, aparte de planícies ou
montanhas, as ideias foram adotadas e adaptadas dentro de a) um código social
próprio e b) um comportamento que se revelou comum ao ser humano no geral.
Houve um grande conjunto de ideias que começou a fazer sentido para uma
multidão de pessoas em vários pontos a uma larga escala geográfica. Os mo-
numentos são uma forma, no meio de tantas outras, que tivemos para tornar
físico um ou vários modos de pensar, e o megalitismo acaba por representar
uma adição ao panorama geral do comportamento humano face à morte (e vida),
consciencialização territorial, interações sociais e identidade própria e de grupo.
Em suma, a chave para compreender o momento não da construção, mas
que levou a essa fase transicional pode residir nesse pequeno nexus em que
a vida doméstica e o mundo funerário não conheciam ainda uma definição e
separação definitivas, mas faziam parte de um cosmos completo em que os
MEGALITISMO(S) – A SERRA DA ABOBOREIRA COMO EXEMPLO DE COMPORTAMENTO PARTILHADO À LARGA ESCALA TERRITORIAL
155
Denise Maria Lima e Silva

indivíduos falecidos podiam, inclusive, ter um papel ativo no quotidiano, para


além do argumento da ancestralidade. A invisibilidade não se reflete apenas na
ausência de artefactos ou esqueletos, mas na invisibilidade de comportamentos
que determinam não apenas sucessões de eventos, mas formas de agir – prin-
cipalmente na questão dos ritos fúnebres e preparação de um corpo, que pode
levar dias a anos.
Por várias razões que o fenómeno do megalitismo permanecerá com ques-
tões por responder. Há demasiadas variantes que nos são hoje impossíveis de
conceber, principalmente atentando à distância temporal que nos separa e que
há inúmeros factores destes vários quotidianos que em pouco ou nada se equi-
param aos nossos – e que também foram deixando de fazer sentido nos vários
passados que iremos observar com este trabalho.
É importante sublinhar este aspeto de forma a demarcar o próprio debate
corrente no que diz respeito ao uso deste termo e que forma poderíamos tra-
balhar um discurso ou diálogo que prezasse a categoria daquilo que significa
um monumento megalítico em adversidade àquilo que o fenómeno representa a
nível social; ainda que indissociáveis, parece que o termo tem sido amplamente
utilizado mais pela sua vertente conceptual fazendo com que as estruturas pro-
priamente ditas, de país para país, fiquem aquém da suas verdadeiras peculiari-
dades. Atente-se que não se quer com isto dizer que todos os monumentos que
denotem uma certa colossalidade revertem para “megalitismo”, o que deve ser
sublinhado é que se acentua essa mesma característica dentro de um espaço
cronológico concomitante com esse evento.
Se estamos a lidar com este fenómeno, então existem aspetos cognitivos que
não devem ser deixados de lado, principalmente quando sabemos que o que
veio antes não era assim, principalmente quando sabemos que houve um pe-
ríodo de alterações climáticas que tiveram consequências importantes na nossa
paisagem social e física, e principalmente quando sabemos que o fenómeno não
durou para sempre, que conheceu até um período bastante curto quando posto
em perspetiva, e que as pessoas deixaram de dar sentido às mega construções.

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Megalitismo(s) – a Serra da Aboboreira como exemplo de com-


portamento partilhado à larga escala territorial
Resumo:
A paisagem megalítica da Serra da Aboboreira levanta algumas questões peculiares dentro do
quadro do próprio fenómeno do megalitismo a uma escala Euroasiática. Já é bastante claro e
comumente aceite que as comunidades humanas (a partir do espaço temporal caracterizado
como Neolítico) viam a paisagem e o território de uma forma nova, racionalizando a paisagem,
não sendo ainda totalmente percetível se tais mudanças constituem uma atitude reacionária
face a agentes externos, ou se são fruto de uma ação perante factores que ainda não são
totalmente compreensíveis. Do difusionismo de G. Childe, aos regionalismos, passamos agora
a olhar para os monumentos não como estruturas fechadas em si mesmas, mas como agentes
ativos inter-geracionais cujas ideias e comportamentos foram partilhados a uma escala que
nos faz questionar o conceito de fronteira física.

Palavras-chave: Megalitismo; Serra da Aboboreira; Fronteira; Território; Arqueologia da Pai-


sagem.

Title

Abstract:
The megalithic landscape of Serra da Aboboreira raises some peculiar questions within the
framework of the phenomenon of Megalithism on a Eurasian scale. It's clear and commonly
accepted that the human communities (from the time space characterized as the Neolithic) saw
the landscape and territory in a new light, rationalizing the landscape, not yet totally noticeable
if such changes constitute a reaction-based attitude in face of external elements, or if they are
the result of an action to factors that aren't completely understood. From G. Childe's diffusio-
nism to regionalisms, we now look at monuments not as closed structures in themselves, but
as inter-generational active agents that originate ideas and behaviors that were shared on a
scale that makes us question the concept of physical frontier.

Key words: Megalithism; Serra da Aboboreira; Frontier; Territory; Landscape Archaeology.


MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO
ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERA-
RIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN
EL SUROESTE PENINSULAR
GUIOMAR PULIDO GONZÁLEZ*

1. INTRODUCCIÓN
La “frontera” resulta un constructo social, una línea abstracta que divide de la
“Otredad” a un territorio, un grupo y unas costumbres. No obstante, hoy día, este
elemento convencional de nuestra estructura mental constituye a veces una bar-
rera que rebasa lo intangible, limitando la percepción. Desde dicha óptica parte
este trabajo, con la pretensión de remplazar el concepto convencional que alber-
gamos de “frontera”, por aquel nacido de la Antropología social, con la “frontera”
como “zona de contacto” (PRATT 1991), como espacio de interacción, imbricación
y conflicto entre dos o más grupos cultural y étnicamente distintos.
La línea limítrofe que divide la Península Ibérica se encuentra tan asentada en
el subconsciente colectivo que ha permeado también la percepción de muchos
investigadores a un lado y otro de la frontera político-administrativa que torna Es-
paña y Portugal en dos realidades diversas, encarnando tal fenómeno en un área
de coto para sus trabajos. Así se percibe en muchos estudios acerca del periodo
de comercio y asentamiento de gentes del Mediterráneo Oriental en el Suroeste
peninsular, que no incluyen en sus discursos los vestigios a ambos lados de la
linde actual. Sin embargo, durante la Primera Edad del Hierro tal percepción no
existía y la influencia de esos grupos empapó sin distinciones toda el área del
Poniente peninsular, eso sí, creando a su vez nuevas fronteras en su condición
de zonas de contacto (PRATT 1991).
No se pretende en este trabajo aportar información inédita, sino exponer una
visión de conjunto, una panorámica de lo que significó la llegada de gentes feni-
cias a las costas ibéricas y hasta qué punto ello quedó reflejado en un ámbito tan
arraigado a la costumbre y la identidad de un grupo como es el funerario, afec-
tando a la forma y filosofía de dar sepelio a los muertos. Dado que en los últimos
años se han producido nuevos hallazgos de necrópolis pertenecientes al Hierro

*
Universidad de Salamanca; Facultad de Geografía e Historia; guiomarpg@usal.es.
162 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

I, tanto en el ámbito andaluz como en el luso, resulta de interés el compendio en


estas páginas de una realidad plural. Tal realidad a través de un denominador co-
mún como fue el contacto con colonos de origen semita, se desarrolló de formas
diversas en función de la intensidad de las interacciones, así como su contexto
geográfico y social. Dentro de ese proceso se dio una heterogeneidad regional
palpable que surgió a través de una evolución única y propia en las diversas
zonas que se extienden desde las cuencas del Guadiana y Guadalquivir hasta
las desembocaduras en el Atlántico del Tajo y el Sado, constituyendo éstas el
marco geográfico a presentar en este trabajo. A este respecto, no se analizarán
en estas páginas el litoral del Sureste peninsular ni el valle medio del Guadiana,
ya que eso implicaría una extensión desmedida para este trabajo. Por ello, el
objetivo se ha centrado en observar la evolución propia de los territorios colin-
dantes de la Andalucía Occidental y el Sur de Portugal hasta la desembocadura
del Tajo dentro del proceso coetáneo que dio comienzo a la etapa del Hierro I en
el Suroeste.
Desde finales de los noventa varias obras de síntesis han recogido la infor-
mación de la que se disponía sobre los contextos del Suroeste ibérico durante
la Primera Edad del Hierro (ca. IX-V a.n.e.) (TORRES 1999; ARRUDA 1999-2000;
GOMES 2014-2015). Estas mismas han demostrado con claridad que los aires
orientales no pararon al arribar a los territorios de Cádiz y Huelva, sino que
continuaron mucho más al Oeste y llegaron hasta la paleodesembocadura del
Tajo para asentarse. No obstante, el conocimiento sobre la incidencia de esas
gentes semitas que se establecieron en las costas y sus posteriores contactos
con el interior ha seguido incrementándose a lo largo de esta última década.
Por ello, en las siguientes páginas se pretende ofrecer un discurso que resuma
el conocimiento actual acerca de la magnitud de esa influencia en el mundo fu-
nerario, que aporta gran información acerca de esta etapa protohistórica gra-
cias a la buena conservación de su registro arqueológico cuando no ha sufrido
alteraciones por expoliación. El objetivo es vislumbrar cómo quedó reflejado
en sus paisajes funerarios, es decir, en los espacios donde los vivos se repre-
sentaban a través de sus muertos y conectaban con sus antepasados al com-
partir el peso de la tierra. En este sentido, para una mejor lectura del territorio
se han descartado los hallazgos funerarios puntuales, aislados o carentes de
contextualización. Además, este trabajo, al ser un primer estudio, sólo revisará
los datos de los que se dispone actualmente sobre las estructuras y los ritos
funerarios. No obstante, en un futuro resultaría de interés profundizar en un
análisis comparativo de los materiales asociados a las tumbas, que favorezca a
un mayor conocimiento sobre el mundo funerario de la Primera Edad del Hierro
en el Suroeste.
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
163
SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

2. LAS TUMBAS DE PONIENTE. EL PAISAJE FUNERARIO


DEL SUROESTE PENINSULAR DEL HIERRO I: OBSERVACIO-
NES PREVIAS
Aunque los territorios tratados en estas páginas se encuentren muy próximos
unos de otros, conectados mediante las arterias acuíferas de los cursos fluviales
navegables y el dinamismo de las costas, se ha de tener presente que encarnan
realidades distintas. Dentro de una homogeneidad general que se observa en los
materiales recuperados en las necrópolis, se engendraron respuestas regionales
diversas a un mismo estímulo y sus soluciones consecuentes, las cuales se torna-
ron tangibles en sus estructuras funerarias.
Para una mejor comprensión de este proceso se han diferenciado las áreas
territoriales aquí expuestas en busca de una ilustración de esas distintas solucio-
nes regionales y sus paralelismos tipológicos. Así, se distinguirán a continuación
las zonas con marcados regionalismos en su estructuración del paisaje funerario:
los contextos de la paleodesembocadura y valle del Guadalquivir, la paleode-
sembocadura de los ríos Tinto y Odiel onubenses, los núcleos funerarios de Beja
y Ourique, así como el litoral portugués desde la desembocadura del Guadiana
hasta el interfluvio Tajo-Sado.
En dichas áreas varía la cantidad de información documentada por el registro
arqueológico. Pero parece claro que, en la situación precedente a la llegada de
grupos de origen oriental en el desarrollo del Bronce Final, es más abundante
la información en el territorio portugués que en el español, en el que incluso al-
gunos autores han insinuado un vacío poblacional para la zona del denominado
“núcleo tartésico” que sería solucionado mediante el asentamiento de colonos
semitas y la atracción de comunidades oriundas más septentrionales por parte
de los primeros (BELÉN Y ESCACENA 1995; ESCACENA 2011; ESCACENA 2019). No
obstante, para el caso luso, de evidente influencia atlántica en ese periodo, se
mantiene que la disposición de necrópolis como espacios formales de enterra-
miento en la tradición funeraria previa al Hierro I eran la excepción y no la regla
(VILAÇA 2015; GOMES 2020).
En este marco geográfico se estableció una densa red de contactos que co-
nectó los primigenios núcleos costeros de los comerciantes y colonos orientales
con los grupos del interior dentro de una escorrentía constante de materias pri-
mas, ideas y personas. Resulta claro que los asentamientos más tempranos se
situaron ante las aguas del golfo de Cádiz desde finales del IX a.n.e. (BELÉN Y
ESCACENA 1995; ESCACENA 2019; TORRES 2017; ZAMORA LÓPEZ et al. 2011), con-
tinuando hacia el Oeste su expansión mediante la navegación de cabotaje en
un periplo que se puede seguir con claridad gracias a las pruebas y dataciones
164 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

proporcionadas por el registro arqueológico hasta llegar al interfluvio Tajo-Sa-


do y la cuenca baja del propio río Tajo (entre la segunda mitad del VIII a.n.e y
principios del VII a.n.e. en fechas tradicionales) (ARRUDA 1999-2000; ARRUDA
2011). No obstante, la zona de contacto que se produjo en cada lugar generó
una respuesta distinta, propia y única, debido a la interacción con las comu-
nidades indígenas y sus especificidades, así como la evolución propia de los
grupos de origen semita en el territorio peninsular durante varias generacio-
nes. La pluralidad de soluciones funerarias que a continuación se expone es
reflejo de todo ello.

3. LAS NECRÓPOLIS DE LA PALEODESEMBOCADURA Y


VALLE DEL GUADALQUIVIR
Haciendo gala de su denominación por la historiografía como “núcleo tarté-
sico”, podría considerarse el centro neurálgico de la investigación hasta hace
poco tiempo, desde que Schulten persiguiera el brillante espejismo de “Tar-
tessos” a principios del siglo XX (PELLICER 2000). Este importante espacio de
la Andalucía Occidental alberga tanto paralelismos regionales como heteroge-
neidades en el paisaje funerario que pueden apreciarse en un recorrido desde
lo que fueran las costas gaditanas y del Lacus Ligustinus en dirección aguas
arriba, remontando el Guadalquivir. Observándose, además, una variación en
función del avance de las cronologías a medida que nos aproximamos a las
faldas de Sierra Morena.
La llegada de gentes procedentes del Levante mediterráneo atraídas por un
impulso comercial y de asentamiento marcó el comienzo de la Primera Edad del
Hierro en la Península Ibérica, a finales del siglo IX a.n.e. (PELLICER Y ESCACENA
2007; TORRES 2017; ESCACENA 2019). Ello significó en esta zona del golfo de Cádiz
y valle del Guadalquivir, en numerosos aspectos, un cambio radical de las formas
de vivir y de morir. El reflejo de dicho contacto se tradujo en nuevas prácticas y
conciencias de la realidad, fruto de la interacción entre las costumbres oriundas
y las exógenas. Así, en el caso de las necrópolis de la región se tornó tangible
la aparición de verdaderos paisajes funerarios como tal, es decir, se generaron
espacios bien delimitados, separados de los núcleos de población a los que esta-
rían asociados y situados en ubicaciones destacadas en el entorno (TORRES 1999;
TORRES 2004).
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
165
SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

Fig. 1. Ubicación de las necrópolis de la paleodesembocadura y valle del Guadalquivir


mencionadas en el texto (elaboración propia)

En los momentos iniciales de esa red de asentamientos de raíz oriental en


la Península, las agrupaciones tumulares de planta circular se convirtieron des-
de el siglo VIII a.n.e. (TORRES 1999; TORRES 2004) en las principales estructuras
funerarias, que sembraron con sus siluetas los campos de la Andalucía Occiden-
tal. Así se observa desde las costas gaditanas hacia el interior en las necrópolis
de Las Cumbres (Puerto de Santa María, Cádiz) (finales del IX a.n.e.-VIII a.n.e.)
(RUIZ MATA Y PÉREZ 1995), el Acebuchal (Carmona, Sevilla) (finales del VIII a.n.e.-VI
a.n.e.) (SÁNCHEZ 1994), Cruz del Negro (Carmona, Sevilla) (finales del VIII a.n.e.-VI
a.n.e.) (AMORES Y FERNÁNDEZ 2000) y Setefilla (Lora del Río, Sevilla) (VIII a.n.e.-VI
a.n.e.) (AUBET 1982; BRANDHERM Y KRUEGER 2017) como las más tempranas.
166 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Sin embargo, no siempre se repite tal modelo, como muestra en el litoral ga-
ditano Mesas de Asta (Jerez de la Frontera, Cádiz) (finales del IX a.n.e.- VIII a.n.e.)
sin cubiertas tumulares (RUIZ MATA Y PÉREZ 1995). Aunque no ha de descartarse
que el profundo laboreo de las tierras afectara al registro estratigráfico e hiciera
desaparecer la estructura tumular, como se sospecha en la cercana y reciente-
mente excavada necrópolis de la Angorrilla (Alcalá del Río, Sevilla) (finales del VIII
a.n.e.-VI a.n.e.) (FERNÁNDEZ FLORES et al., 2014); mientras que para Rabadanes
(Cabezas de San Juan, Sevilla) (VIII a.n.e.-VII a.n.e.) no existen datos topográficos
relativos a la posible existencia de una estructura de señalización de ese tipo
(PELLICER Y ESCACENA, 2007).
En dicho panorama funerario se observan ya variaciones dentro de la tenden-
cia mayoritaria marcada por agrupaciones tumulares de carácter circular con un
tamaño variable en las que el rito crematorio es predominante. Así, en Rabada-
nes se documenta exclusivamente la cremación secundaria con hoyos excavados
en el suelo donde se alojaban las urnas cinerarias (PELLICER Y ESCACENA 2007);
mientras que Mesas de Asta muestra pautas que luego se repiten en las demás
necrópolis con urnas cinerarias depositadas en oquedades naturales del terreno
o en fosas excavadas en la roca, así como fosas de cremación primaria in situ
(RUIZ MATA Y PÉREZ 1995). Por el contrario, el túmulo 1 de las Cumbres, (el único
excavado de la necrópolis, pues los demás habían sufrido distintas violaciones)
(Torres, 1999), cubría el ustrinum central y un conjunto de cremaciones secunda-
rias en hoyos excavados en la roca, en oquedades naturales o en el propio sustra-
to de relleno que cubría a éstas, todas rodeadas o cubiertas por acumulaciones
de piedras (RUIZ MATA Y PÉREZ 1995). Lo mismo se observa en los túmulos A y B
de Setefilla (Fig. 2), aunque en el primero se prescinde de las coberturas pétreas
para las sepulturas (AUBET 1982). Muy similar serían las estructuras tumulares del
Acebuchal cubriendo fosas de cremación primaria y fosas de cremación junto con
la urna cineraria (SÁNCHEZ 1994). En cuanto a Cruz del Negro, se ha constatado la
presencia de varios túmulos y círculos funerarios delimitados por un zócalo peri-
métrico exterior, construido con cantos rodados, o bien por una zanja perimétrica
que podría haber albergado un anillo de grandes lajas de piedra hincadas (AMO-
RES Y FERNÁNDEZ 2000). No obstante, todas estas necrópolis cuentan con tumbas
dispuestas en los espacios de alrededor o entre dichas estructuras funerarias.
Por otro lado, ha de tratarse el caso de la Angorrilla al ser la única necrópolis
en la que la inhumación se muestra como el rito más antiguo y predominante,
siendo las cremaciones primaria y secundaria, como mínimo, coetáneas si no
posteriores (FERNÁNDEZ FLORES et al. 2014). Este hecho refuta la afirmación de M.
Torres (2017) de que la inhumación sustituyó a la cremación como rito preferente
desde finales del VII a.n.e. La convivencia de ambos ritos se documenta también
desde el siglo VII a.n.e. en Cruz del Negro (AMORES Y FERNÁNDEZ 2000), el Ace-
buchal (SÁNCHEZ 1994) y Setefilla (AUBET 1982).
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
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SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

Fig. 2. Planta de los túmulos A y B de la necrópolis de Setefilla (BRANDHERM Y KRUEGER, 2017


a partir de AUBET, 1982)

Posteriormente, el valle del Guadalquivir experimentó a lo largo del siglo VII a.n.e.
un crecimiento demográfico exponencial, ya comenzado en la centuria anterior,
que queda constatado en el gran número de asentamientos y necrópolis docu-
mentados en esta cronología (ESCACENA 2011; ESCACENA 2019). Este fenómeno
no puede desvincularse del establecimiento de grupos de origen semita, que
habrían evolucionado con el paso de las generaciones en las tierras de Iberia,
junto con el sustrato indígena, dando como resultado de tal interacción variantes
en el rito y configuración del espacio funerario. Así, en la zona de los Alcores,
entre Sevilla y Carmona, se halla un cinturón de lugares de enterramiento, cuyo
periodo de uso se desarrollaría entre principios del siglo VII a.n.e. y todo el siglo
VI a.n.e., que se sumaron a Cruz del Negro y el Acebuchal (TORRES 1999). Por
orden en dirección Suroeste-Noreste se encuentran: las tres agrupaciones de
túmulos de Bencarrón (finales del VII a.n.e.-siglo VI a.n.e), Santa Lucía (VII a.n.e.),
Raso del Chirolí (datado únicamente mediante un ánfora fenicia entre los siglos
VIII-VI a.n.e. ante la ausencia de ajuar) (TORRES 1999), El Judío (finales del siglo VII
hasta la primera mitad del VI a.C.), Huerta del Cabello (finales del VII- principios
del VI a.n.e.), Campo de las Canteras (mediados del siglo VII a.C. ― primera mitad
del VI), Alcantarilla (siglo VII a.C.), Cañada de las Cabras (finales del siglo VII a.C.
― dos primeros tercios del VI a.n.e.) y Cañada de Ruiz Sánchez (VII a.n.e.) (MAIER
1996; TORRES 1999) (Fig. 3.). En dicho conjunto predominan las cremaciones pri-
marias en fosa simple cubiertas luego por estructuras tumulares de tamaño va-
riable: desde grandes dimensiones a túmulos de menor entidad. El segundo rito
predominante es la inhumación, por lo que conviven ambas formas de enterra-
miento. Cabe destacar que en ocasiones estas inhumaciones han sido señaladas
por un amontonamiento de piedras o cantos rodados tras su colmatación como
se observa en el conjunto de Bencarrón y en Santa Lucía (MAIER 1996).
168 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 3. Sección de fosas de cremación bajo túmulo en las necrópolis de Cañada de Ruiz Sánchez
(arriba) y Alcantarilla (abajo) (SÁNCHEZ 1994).

Junto con ello, el dilatado periodo de uso de Setefilla permite ver variantes
posteriores como en el túmulo I (ca. VII a.n.e.) que alberga fosas de inhumación
y de cremación, así como urnas de cremación secundaria (AUBET 1982; TORRES
1999). Cercano a la paleodesembocadura del Guadalquivir, en El Carambolo (Ca-
mas, Sevilla) (entre mediados del siglo VII y mediados del VI a.n.e.) se encuentra
una sepultura con cámara en cuyo interior se depositaron tres inhumaciones y
un corredor de acceso con una cubierta tumular de 29 m de diámetro muy arra-
sada y delimitada por un anillo de lajas de pizarra superpuestas en varias hileras
(ARTEAGA Y CRUZ-AUÑÓN 2001). Esta demarcación del espacio funerario se obser-
vaba ya en fases anteriores de necrópolis como Cruz del Negro y se manifiesta
con otras variantes en la zona del valle fluvial, encontrándose el túmulo B del
Acebuchal y dos túmulos de Campo de las Canteras rodeados por una zanja o
fosa excavada en la roca (AMORES 1982).
En el siglo VI a.n.e. se continúa con lo visto en la centuria anterior como la
construcción de tumbas de corredor y cámara de mampostería que se traducen
en una mayor inversión económica, de tiempo y trabajo para el sepelio de un
menor número de individuos. Así ocurre en el túmulo H de Setefilla que cubría
un muro de cierre de planta cuadrangular, un corredor de acceso y una cámara
funeraria central de mampostería en la que se presume que se encontraría el
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
169
SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

cuerpo inhumado. Lo mismo se plantea para la cámara de mampostería que se


construyó sobre la necrópolis de base del túmulo A de Setefilla, en dos túmulos
de Campo de las Canteras y en la cámara cubierta por el túmulo G del Acebu-
chal (SÁNCHEZ 1994). Por último, en la necrópolis arcaica de Cádiz (PERDIGONES
1991) se documentan, datados todos en el siglo VI a.n.e. y sin cubiertas tumulares
como en Mesas de Asta, enterramientos de cremación primaria en fosa simple,
escalonada y cista, así como cremaciones secundarias en hoyo (TORRES 2010).

4. EL GOLFO DE CÁDIZ Y LA PALEODESEMBOCADURA DE


LOS RÍOS TINTO Y ODIEL. NECRÓPOLIS ENTRE DOS AGUAS
En esta zona del golfo de Cádiz, durante la transición de Bronce Final a Pri-
mera Edad del Hierro los vestigios de enterramientos no dejan de ser proble-
máticos, habiendo causado varios debates acerca de su datación y atribución
étnica entre los especialistas. No obstante, ha de desecharse la idea tradicional
de una frontera imaginaria que constreñía a los fenicios desde Cádiz hacia las
costas del Sureste peninsular, mientras Huelva y Poniente serían el paradigma de
“lo tartésico” como sinónimo de indígena (GONZÁLEZ-ZAMBRANO 2021). El asen-
tamiento de contingentes de población procedente del Levante mediterráneo y
su impronta en los espacios funerarios de la zona es innegable hoy día. En este
sentido, el territorio onubense se tornó atractivo debido a su condición de núcleo
minero para la extracción de plata y cobre al igual que ocurrió con el Algarve, así
como su posterior papel de nexo en la navegación de cabotaje que unía la costa
atlántica con la mediterránea por el comercio del apreciado estaño (PELLICER
2000). A pesar de ello, el número de necrópolis de Hierro I documentadas es
bastante reducido en comparación con los conjuntos de los valles del Guadalqui-
vir y Guadiana, seguramente no por su inexistencia sino por el desconocimiento
respecto a su ubicación y la escasez de nuevas intervenciones arqueológicas en
el territorio. Es más, a la problemática de esta zona se la añade el hecho de que
las muestras obtenidas de los yacimientos son muy pequeñas y su conocimiento
es limitado.
Así, en este punto intermedio entre las desembocaduras de las dos principa-
les arterias fluviales se encuentra un paisaje funerario que conecta tanto con lo
encontrado en el Bajo Guadalquivir como con el litoral portugués. Las estructuras
funerarias y los materiales hallados dan muestra del establecimiento en la costa
de colonos y comerciantes de origen semita en fechas muy cercanas a aquellas
señaladas para el Bajo Guadalquivir. En esos momentos en los que la red comer-
cial había de estarse tejiendo, los paralelismos entre las regiones de la Andalucía
Occidental son claros. Se desarrollaron, pues, unas prácticas y respuestas a los
procesos de interacción, fruto de las zonas de contacto, muy similares, que se
170 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

aplicaron también en los espacios funerarios. De este modo han de enumerarse


las necrópolis de El Palmarón (Niebla, Huelva), La Joya (Huelva), la necrópolis
tumular de Huelva (Huelva), los túmulos de Santa Marta o parque Moret (Huelva)
y Hoya de los Rastros (Ayamonte, Huelva) (GARCÍA TEYSSANDER et al. 2017).

Fig. 4. Ubicación de las necrópolis del golfo de Cádiz y la paleodesembocadura del Tinto y el
Odiel mencionadas en el texto (elaboración propia).

El espacio funerario hallado en el Cabezo de La Joya es el de datación más


temprana y mayor perduración en el tiempo según se desprende del estudio de
los materiales (TORRES 1999). De la segunda mitad del VIII a.n.e. son las crema-
ciones secundarias en urnas depositadas en hoyo como se observa en las coe-
táneas Mesas de Asta (Cádiz), el túmulo 1 de Las Cumbres (Cádiz) y Rabadanes
(Sevilla). Sin embargo, La Joya no presenta, o no conserva, ninguna cubrición
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
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SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

de las tumbas de carácter tumular como las del valle del Guadalquivir. La re-
cientemente excavada necrópolis de Hoya de los Rastros (VIII-VII a.n.e.) muestra
también la preeminencia de las cremaciones secundarias en urna, a excepción
de una sepultura de inhumación, ubicadas en hoyos o en tumbas de pozo con
nicho lateral excavados en la roca (GARCÍA TEYSSANDER et al. 2017). Aunque la
escasa muestra de cinco tumbas excavadas no permite realizar observaciones
más profundas.
En el siglo VII a.n.e. en La Joya convivieron cremación e inhumación, priman-
do el rito crematorio, practicado en catorce de las diecinueve tumbas excavadas
en el Sector A (TORRES 1999). Por otro lado, en la segunda mitad de dicha centuria
se erigió el túmulo de El Palmarón (BELÉN Y ESCACENA 1990) que constituye una
posible reutilización de una estructura megalítica previa. Dicha tumba cuenta
con un corredor de acceso y una cámara de mampostería de planta circular que
acogería al difunto, no conservado, el cual se sospecha que habría sido cremado
in situ. El uso de cámaras de mampostería es paralelo al documentado en el Bajo
Guadalquivir, por ejemplo, en los túmulos de Setefilla y el túmulo G del Acebu-
chal.
Durante el siglo VI a.n.e. en el sector B y la tumba 13 del Sector A de La
Joya todas las sepulturas son de individuos inhumados en posiciones forzadas
como ocurría en Acebuchal, Cruz del Negro y algunas tumbas de la Angorrilla
(GARRIDO Y ORTA 1989; FERNÁNDEZ FLORES et al. 2014). De todos modos, la hi-
pótesis de una muerte violenta para estos individuos habría de ser descartada,
ya que los análisis antropológicos no han hallado en los restos óseos pruebas
de haber sufrido agresiones previas o posteriores a la defunción (FERNÁNDEZ
FLORES et al. 2014). Sumado a la propia particularidad de recibir sepelio deno-
taría su condición especial para la comunidad y no un carácter despreciativo
en el enterramiento.
En el siglo VI a.n.e. se data también la agrupación tumular de la necrópolis de
Huelva. No obstante, la información sobre ella es escasa al no haberse accedido
a las cámaras funerarias de ninguno de los túmulos (TORRES 1999). Aun así, se
han encontrado indicios de tres cremaciones. Por último, ha de sumarse la ne-
crópolis tumular de Santa Marta o parque Moret, destacando el túmulo 1 formado
por una estructura radial de adobes que tenía por centro una cámara funeraria
excavada en el suelo que desgraciadamente no ha sido investigada (VIDAL et al.
2006) de clara afiliación oriental con paralelos por todo el Mediterráneo (TORRES
2017). En cuanto al túmulo 2, de mayores dimensiones, se ha documentado una
fosa de planta rectangular y perfil escalonado excavada en el suelo que se ha
interpretado como una cámara funeraria o un pozo de ofrendas (GARRIDO Y ORTA
2005).
172 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

5. LA ZONA DEL ALGARVE Y LA PALEODESEMBOCAURA


TAJO-SADO. LAS NECRÓPOLIS DE CISTA Y LAS NECRÓPO-
LIS LITORALES
La instalación de semitas en el litoral portugués, concretamente en las áreas
de estuario, resulta un hecho incuestionable (ZAMORA LÓPEZ 2013). Los hallazgos
arqueológicos han probado que la expansión de esa red comercial, motivada por
elementos de raíz oriental, primero se estableció a lo largo del litoral atlántico
para luego penetrar hacia el interior a través de los cursos fluviales (DOMÍNGUEZ
PÉREZ 2006). Dichos asentamientos son claros hasta la zona del Bajo Tajo y el
alcance de la influencia comercial oriental llegaría hasta la línea del río Mondego
(PELLICER 2000; DOMÍNGUEZ PÉREZ 2006). En otras palabras, realizaron un mo-
vimiento de fuera hacia dentro. Los colonos y comerciantes fenicios se habrían
instalado paulatinamente en puntos estratégicos que unieran toda la costa Oeste
de la Península Ibérica y después fueron internándose hacia las tierras del Alen-
tejo portugués. Tal proceso tendría lugar desde finales del VIII a.n.e. hasta el V
a.n.e. (GOMES 2019), es decir, sería algo más tardío que la colonización de las
costas andaluzas, pero sería paralelo a lo que estaba ocurriendo en el ámbito tar-
tésico del interior. Con respecto a ello, el comienzo se marcaría entonces en los
últimos estertores del Bronce Final en el territorio que hoy es Portugal, cuando
parece que el paisaje político del Sur luso se encontraba bastante fragmentado,
articulado por unidades sociopolíticas autónomas que estructuraban pequeños
territorios (GOMES 2019).
Este conocimiento, más definido que en la Andalucía Occidental, acerca del
Bronce Final en Portugal ha marcado a su vez la forma de interpretar los proce-
sos acaecidos en estas tierras fruto de la zona de contacto. Así, entre los autores
prima una visión de convivencia e influencia entre ambos acervos culturales, el
local y el exógeno, donde el mayor peso en las relaciones no parece achacarse
a la mezcla genética y la interacción, como ocurre en el territorio andaluz. En
este caso se le atribuye un papel clave a la actividad de negociación y selección
de esos elementos exógenos por parte de las comunidades locales como mar-
cadores de prestigio (GOMES 2019: 19). Dicho fenómeno variaría de unos sitios
a otros de acuerdo con el funcionamiento interno de los grupos locales y sus
élites junto con su posición dentro de la red sociopolítica de cada región (ARRU-
DA 2011; GOMES 2019).
Por tanto, la diversidad territorial caracterizó la Primera Edad del Hierro en el
Sur portugués y se manifestó claramente en la pluralidad de prácticas funerarias
llevadas a cabo por los diferentes grupos (ARRUDA 1999-2000; MATALOTO 2013;
GOMES 2014-2015). Así, en las áreas costeras se identifican prácticas funerarias
muy similares a aquellas detectadas en el golfo de Cádiz (GOMES 2019), donde
el peso de las tradiciones orientales es muy marcado; mientras en el valle del
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
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SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

Guadalquivir, donde la interacción había sido más pronunciada entre colonos


y oriundos, habría creado nuevos discursos de representación fruto de la me-
zcla. En este sentido, los agentes de origen semita se instalaron en el litoral,
preferentemente en las zonas de estuario, en asentamientos fundados ex novo
y también en barrios de poblados indígenas (ARRUDA 2011). Por tanto, se podría
dibujar un ámbito de relativa “homogeneidad” en estas zonas donde, aun así, se
producirían evoluciones propias y locales; mientras que en el interior del Alen-
tejo portugués se encontraría un sustrato indígena mucho más arraigado y una
menor incisión sociocultural por parte de los colonos y comerciantes de origen
oriental, observándose respuestas muy diversas a las diferentes circunstancias.

Fig. 5. Ubicación de las necrópolis del Algarve y de la paleodesembocaura Tajo-Sado


mencionadas en el texto. Aquellas señaladas en color blanco son las necrópolis de cista y las
de color oscuro son las necrópolis litorales (elaboración propia).

Este panorama de fragmentación tuvo, por tanto, su reflejo en el mundo fu-


nerario. En lo referente a esas necrópolis litorales cuyas características muestran
174 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

elementos y tradiciones de raíz oriental, no son muy numerosas, pero sus simili-
tudes con espacios funerarios de la Andalucía Occidental son obvias y significa-
tivas. Entre ellas se encuentran el Olival do Senhor dos Mártires (GOMES 2020),
Tavira (ARRUDA et al. 2008) y posiblemente Mértola (BARROS 2010).
En primer lugar, para continuar siguiendo la línea de la costa atlántica peninsu-
lar, se encuentra la necrópolis del Convento da Graça en Tavira, a unos veinticinco
kilómetros de distancia de la necrópolis de Ayamonte. Sólo se hallaron cuatro se-
pulturas de incineración en urna de las que no fue posible realizar un análisis an-
tropológico ni radiocarbónico (ARRUDA et al. 2008) por lo que la muestra es muy
pequeña y la información escasa. A pesar de ello, la práctica de enterramiento de
cremación secundaria en una urna Cruz del Negro dentro de un hoyo excavado
en la roca o el sustrato es muy común en el ámbito tartésico, como ya se ha visto.
Así, esta necrópolis guarda grandes similitudes con el Acebuchal (MAIER 1996),
Bencarrón (MAIER 1996; SÁNCHEZ Y LADRÓN DE GUEVARA 2000) y Cruz del Negro
(AMORES Y FERNÁNDEZ 2000). Por otro lado, en Tavira se halló también, lo que
ha sido interpretado como un posible espacio funerario constituido por diversos
pozos de entre dos y cinco metros de profundidad que dan a nichos o cámaras,
cuya datación se remonta a la primera mitad del siglo VII a.n.e. (ARRUDA et al.
2008). Estas estructuras y los materiales hallados en dichos pozos corresponden
a ajuares de componentes exógenos similares a aquellos encontrados en el litoral
andaluz (ARRUDA et al. 2008) como la cercana Ayamonte. Además, de este con-
junto se ha de destacar su ubicación dentro del entramado de lo que era el pro-
pio asentamiento sobre una colina con vistas a la desembocadura del río Gilão, lo
cual resulta algo excepcional ya que la pauta general de las necrópolis fenicias y
tartésica es la separación del mundo de los vivos del de los muertos mediante un
hito geográfico o un curso fluvial (TORRES 1999; ARRUDA et al. 2008).
Por su parte, la necrópolis del Olival do Senhor dos Mártires, situada en la
desembocadura del Sado y vinculada con el poblado de Alcácer do Sal, consti-
tuye un yacimiento excepcional en el territorio portugués al ser, hasta la primera
década del siglo XXI, la única muestra indiscutible de las prácticas funerarias de
gentes de origen oriental. Aunque las excavaciones y estudios sobre esta necró-
polis fueron publicados desde principios del siglo pasado de manera fragmen-
taria, recientemente ha sido objeto de una revisión de su interpretación y mate-
riales (GOMES 2019; GOMES 2020) que ha facilitado la comprensión del sitio y los
procesos allí acaecidos. Así, la nueva cronología propuesta para esta necrópolis
con diferentes fases de uso, pues se dilata hasta finales de la Segunda Edad del
Hierro, ubica su creación de la mano de individuos semitas hacia mediados del
VII a.n.e. Partiendo de la base de la tipología elaborada por el primer excavador
del Olival do Senhor dos Mártires se observan cuatro tipos de tumbas (CORREIA
1928) (Fig. 6) dentro del conjunto de esta necrópolis en la que se halla exclusi-
vamente el rito crematorio: por un lado, los enterramientos en urna con el tipo 1
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
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SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

que consisten en profundas fosas excavados en el sustrato geológico usando


vasos griegos y cerámica pintada como urnas cinerarias, junto con los tipo 2 con
deposiciones de los restos incinerados en urnas de tipo Cruz del Negro dentro
de fosas de poca profundidad sobre la roca (GOMES 2014-2015). Por otro lado,
se encontrarían las cremaciones in situ, con el tipo 3, es decir, en fosa simple de
morfología rectangular y con el tipo 4, en fosas de mayor complejidad dotadas
de un canal central que les otorga un perfil escalonado (GOMES 2014-2015).

Fig. 6. Representación de la tipología establecida por Correia para el rito crematorio


en Olival do Senhor dos Mártires (GOMES 2020).

En el periodo entre mediados del VII a.n.e. y mediados del VI a.n.e. en esta
necrópolis sin precedentes en la zona predominaron los enterramientos tipo 2 y
4 (GOMES 2020). No obstante, la presencia de las de urna de tipo Cruz del Negro
resulta totalmente episódica en Olival do Senhor dos Mártires, como sucede en
la coetánea Angorrilla (Sevilla), mientras que las tumbas de cremación excavadas
en la roca se cuentan por decenas en esta cronología (GOMES 2020). Las caracte-
rísticas de las tipo 4 tienen paralelos directos en las ya mencionadas Bencarrón,
Cruz del Negro, el Judío y en la necrópolis arcaica de Cádiz. Además, las cre-
maciones in situ tipo 3, es decir, en fosa simple, estarían presentes ya desde el
último cuarto del VII a.n.e., aunque se convertirán en el único rito utilizado desde
mediados del siglo VI a.n.e. hasta mediados del V a.n.e., desvaneciéndose a su
176 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

vez las tipo 2 y 4 (GOMES 2020). Es más, ya en este periodo más tardío parecen
desaparecer elementos de ostentación como parte del ajuar, lo que da lugar a
un panorama más homogéneo dentro del conjunto de los difuntos en el espacio
funerario (GOMES 2020).
Por último, se encontraría la necrópolis de Mértola, situada sobre un cerro
que la separaría del asentamiento protohistórico, el cual estaría ocupado des-
de Bronce Final hasta el siglo III a.n.e. (BARROS 2010). Los materiales cerámicos
hallados como contenedores de engobe rojo y tipo Cruz del Negro han permitido
su datación entre finales del siglo VII a.n.e. y la primera mitad del VI a.n.e. (Bar-
ros, 2010). Se sabe que se trataría de sepulturas de incineración, aunque no se
cuenta con información adicional debido a los parcos informes acerca de su ex-
cavación a finales del XIX. A pesar de la falta de una mejor contextualización de
los hallazgos en Mértola, resulta razonable su inclusión dentro de los procesos
que estaban acaeciendo en el litoral atlántico en Olival do Senhor dos Mártires y
Tavira. La ubicación de este asentamiento y su necrópolis en la margen derecha
del Guadiana en una zona ya más interior entre el Algarve y el Alentejo portugués
denotaría esa penetración del comercio mediterráneo y el influjo de gentes de
origen fenicio a través de los cursos fluviales.
Por otro lado, en ese mismo escenario del Poniente peninsular del Hierro I,
al alejarse del litoral e internarse en las tierras del Algarve, donde la influencia
oriental no se sentiría con tanta fuerza, se documentan de forma prolija las ne-
crópolis de cistas de clara filiación regional, con enterramientos exclusivamente
de inhumación como en Fonte Velha de Bensafrim (Lagos) (ARRUDA 1999-2000,
p. 57), Cômoros da Portela (Silves), Père Jacques (Aljezur) e Alagoas (Loulé) (AR-
RUDA 1999 -2000, pp. 57-58), así como Cabeço da Vaca (Alcoutim) (Cardoso y
Gradim, 2006) (Fig. 7) más al interior y en la zona ya alentejana la famosa necró-
polis de Gaio (Sines) (ARRUDA 1999-2000, p. 96-97) y el particular caso de Corte
Margarida (Aljustrel) (FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017), ubicada dentro de la concen-
tración de espacios funerarios de la región de Beja. Para este último sitio algunos
autores han aportado una nueva interpretación que vincula Corte Margarida con
las dinámicas del núcleo de Beja explicando sus variaciones en base a una cues-
tión geológica (MONGE et al. 2017, p. 293). Así, este espacio funerario, aunque
aparentemente se trataría de una necrópolis de cistas construidas con esquistos
y excavadas en el sustrato rocoso, su condición se debería a la dificultad en la
zona de Corte Margarida, por ser rica en esquistos, de abrir los característicos re-
cintos en negativo de Beja (MONGE et al. 2017: 293). El modelo de este yacimien-
to sería, por tanto, una solución adaptativa, a pesar de que la práctica del sepelio
sería la misma: fosas de inhumación (aunque en Corte Margarida no se habrían
encontrado restos óseos por la acidez del suelo) excavadas en la roca, revestidas
y cubiertas por losas de esquisto como en el resto de necrópolis de Beja, pero sin
recintos delimitadores del espacio (MONGE et al. 2017).
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
177
SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

Esta última interpretación ha de ser tomada como una hipótesis no concluyente.


A pesar de lo cual, se torna en una muestra de esa pluralidad, ya comentada en
estas páginas, de variantes y soluciones locales adoptadas por las diferentes co-
munidades para representarse en la muerte y dedicar a sus difuntos un espacio
propio.

Fig. 7. Tumba en cista de la necrópolis de Cabeço da Vaca (Alcoutim) (CARDOSO Y GRADIM 2006)

6. EL NÚCLEO FUNERARIO DE BEJA. LAS NECRÓPOLIS


DE RECINTOS
Los hallazgos realizados en los últimos años, sumado a lo ya conocido an-
teriormente, ha permitido en esta región y en su vecina Ourique reconstruir un
panorama mucho más completo y mejor conocido que aquel observado en la
desembocadura de los ríos Tinto y Odiel y en el litoral atlántico portugués. Esta
“revolución” experimentada en toda la región del Baixo Alentejo se ha debido
a las remociones de tierra efectuadas por la puesta en marcha del proyecto Al-
queva y la construcción de su red de riego. Gracias a ello el conocimiento acerca
178 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

del mundo funerario en territorio luso se ha visto impulsado de una forma sin
precedentes.
Todos los datos extraídos gracias a este plan de regadío han resultado en la
muestra de un mundo rural intensamente ocupado, el cual sería escenario de ese
lento proceso de interacción que tendría lugar en los parajes del interior entre
la cuenca del Guadiana y los afluentes del Sado (MONGE et al. 2017). Por tanto,
se trataría de una espacialidad muy concreta enmarcada entre dos grandes ríos,
los cuales representaban arterias principales de comunicación con el litoral y las
influencias que de él manaban. Este proceso, engendrado en las zonas de con-
tacto del Suroeste peninsular, se desarrollaría entre los siglos VII y VI a.n.e. de
forma más lenta en el interior que en las zonas costeras (MONGE et al. 2017). Esto
mismo se observa en las prácticas funerarias, en las que se perciben nuevas in-
fluencias de origen mediterráneo. Sin embargo, parte de las costumbres locales
de esos contextos de fragmentación rural se mantendrían en la estructura mental
de las comunidades.
En primer lugar, cabe destacar en esta zona del Baixo Alentejo la escasez de
necrópolis datadas en el Bronce Final, aunque en los últimos años sí se han iden-
tificado inhumaciones en fosa asociadas a ocupaciones de dicha época (FIGUEI-
REDO Y MATALOTO 2017). Ello demuestra claramente el uso predominante del rito
de inhumación durante finales de la Edad del Bronce, aunque conviviría con la
cremación, ya documentada en la desembocadura del Tajo en momentos previos
a la presencia fenicia (VILAÇA 2017). No obstante, esta fase previa a la llegada de
influjos mediterráneos continúa hoy siendo poco conocida; mientras que la eta-
pa siguiente parece esclarecerse de manera paulatina (FIGUEIREDO Y MATALOTO
2017). No obstante, se ha de destacar que para la mayoría de las necrópolis pre-
sentadas en este apartado se desconocen los asentamientos a los que se encon-
trarían vinculadas, a diferencia de lo que ocurre en la vecina región de Ourique.
Lejos de la homogeneización propuesta para las zonas de costa, en estos
territorios del interior meridional desde el siglo VI a.n.e. convivirían regionalis-
mos y prácticas oriundas con nuevas incorporaciones de influencia oriental que
llegarían por las vías de comunicación fluviales, difiriendo en gran medida de
las dinámicas que se estarían desarrollando en el litoral (FIGUEIREDO Y MATALOTO
2017). Así, durante la Primera Edad del Hierro por toda la región de Beja en la que
se concentrarían las necrópolis a tratar a continuación se observa una preferen-
cia por el rito inhumatorio, deposición en decúbito lateral, en fosas rectangulares
de extremos redondeados y excavadas en el sustrato geológico, en muchas oca-
siones con sus paredes revestidas o cubiertas con losas de esquisto (FIGUEIREDO
Y MATALOTO 2017). Estas fosas se dispondrían a su vez dentro o en torno a zanjas
que conformarían recintos excavados también en el sustrato geológico, de plan-
ta poligonal excavados en la roca, que pueden aparecer cerrados, en forma de L
o en forma de U.
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
179
SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

Fig. 8. Ubicación de las necrópolis que forman el conjunto de Beja en el Baixo Alentejo portugués
enmarcadas entre el cauce del río Guadiana y del Sado (elaboración propia)

En la primera necrópolis que se documentaron estas características fue la de


Herdade das Carretas (Quintos, Beja) descubierta en los años cuarenta del siglo
pasado (MONGE et al. 2017). En estos últimos años como ya se ha mencionado
previamente, el conocimiento sobre la zona ha vivido una explosión empírica a
raíz de los numerosos hallazgos que han sido reflejados en las publicaciones de
necrópolis como Palhais (SANTOS et al. 2017), Carlota (SALVADOR MATEOS Y PEREI-
RA 2017), Vinha das Caliças 4 (ARRUDA et al. 2016), Monte do Bolor 1-2 (MONGE
et al. 2017), así como Poço da Gontinha (FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017), Cinco
Réis 8 (SALVADOR MATEOS Y PEREIRA 2017), Quinta do Estácio 6 (PEREIRO et al.
2017), Poço Novo 1 (FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017) y Fareleira 2 y 3 (FIGUEIREDO
Y MATALOTO 2017), que han sido dadas a conocer recientemente. No obstante,
180 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

dentro de esta pauta que parece marcar el patrón regional de las necrópolis de
Beja se dibujan ciertas variantes que oscilan de un yacimiento a otro. En primer
lugar, el número de tumbas, que fluctúa desde conjuntos funerarios de menos
de una decena de enterramientos como en Poço Novo 1 (FIGUEIREDO Y MATALOTO
2017), Fareleira 2 y 3 (FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017), Poço da Gotinha (FIGUEIRE-
DO Y MATALOTO 2017), Palhais (SANTOS et al. 2017), Carlota (SANTOS et al. 2017) y
Quinta do Estácio 6 (PEREIRO et al. 2017) (Fig. 9), hasta necrópolis con entre diez y
cerca de cincuenta tumbas como Vinha das Caliças (ARRUDA et al. 2017) y Monte
do Bolor 1-2 (MONGE et al. 2017). Sin embargo, la significación de dichas canti-
dades, así como del oscilante tamaño de las ya enumeradas necrópolis, resulta
difícil de discernir ante la excavación parcial de muchas de ellas. Además, no se
ha observado ninguna relación directa entre número de individuos enterrados y
tiempo de uso, pues todas ellas parecen dibujarse como necrópolis de pequeños
grupos de base familiar, albergando cerca de unas tres generaciones (ARRUDA et
al. 2017) dentro de un periodo de funcionamiento del espacio funerario que en
todas se desarrolla entre finales del VII a.n.e. y durante el VI a.n.e.

Fig. 9. Planta de las necrópolis de Poço da Gotinha (Ferreira do Alentejo) (izquierda) y Quinta
do Estácio 6 (Beja) (derecha) en la que se observan las estructuras negativas de los recintos y
las tumbas posteriores que las cortan o se ubican dentro de ellas (FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017;
PEREIRO et al. 2017)
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
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SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

Por otro lado, este modelo arquitectónico experimentó diversas evoluciones


y variantes dependiendo de las soluciones y circunstancias propias de cada sitio.
Así, las fosas de los recintos en algunas necrópolis se excavaron a mayor profun-
didad, en algunas se construyeron todas a la vez y en otras en fases sucesivas
de expansión del espacio funerario a partir de un recinto central como referencia
(MONGE et al. 2017). Además, su significación como lugar de enterramiento se
mantuvo al paso de las generaciones, pero hubo de tornarse en un aspecto de
legitimación distinto, ya que, en muchos casos, las tumbas más modernas se
situaron, o bien, dentro del relleno de colmatación de las propias zanjas, o bien,
cortándolas.
Esto choca en cierto modo con la interpretación aportada por algunos inves-
tigadores (MONGE et al. 2017; FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017) de que tales recintos
negativos servirían para alojar estructuras de material perecedero (tierra com-
pactada o adobes) que demarcarían las tumbas principales ubicadas dentro de
los mismo y les otorgarían un aspecto monumentalizado. Este factor, a su vez, ex-
plicaría que la mayoría de las tumbas documentadas en estas necrópolis hayan
182 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

sufrido un saqueo sistemático en épocas inmediatamente posteriores al Hierro I


(MONGE et al. 2017; FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017).

7. EL NÚCLEO FUNERARIO DE OURIQUE. LOS ENCACHA-


DOS TUMULARES
También en la zona del Baixo Alentejo, al suroeste del núcleo de Beja y sus
territorios adyacentes donde se desarrolla una dinámica muy clara en la que las
influencias exógenas se cruzan y entrelazan con aspectos locales, se extiende la
región de Ourique en la que se gestó una pluralidad distinta dentro de todo este
proceso de las zonas de contacto que venimos aquí a exponer.
De nuevo, se documenta en esta comarca una concentración de necrópolis
muy próximas entre sí y con un modelo establecido que se repite en todas ellas.
Sin embargo, han de destacarse diferencias significativas como el hecho de que
en Ourique cada una de estas necrópolis corresponden a un asentamiento locali-
zado en el área circundante (ARRUDA et al. 2017) y que en esta zona se adoptaron
el rito crematorio y la inhumación, apreciándose una preferencia por el primero,
generalmente en cremación secundaria, con los restos depositados en cavida-
des, a veces con una urna cerámica (SANTOS et al. 2017).
La arquitectura funeraria característica de Ourique, engendrada como una
manifestación local de delimitación del espacio, consiste en los encachados tu-
mulares, cuyas formas se difundirían paulatinamente desde el territorio portu-
gués hacia Extremadura al otro lado del Guadiana (PELLICER 2000).
Además, este modelo presentaría interesantes similitudes con la tradición
de las necrópolis tumulares de Edad del Bronce documentada en la propia re-
gión de Ourique (ARRUDA 2001, p. 283). Los marcos de piedra de los encacha-
dos cubrirían fosas excavadas en el sustrato rocoso y a su vez se dispondrían
tumbas alrededor y se les adosarían nuevos encachados. Esta, además, es una
diferencia significativa con respecto a la región de Beja, pues en Ourique no se
registra invasión del espacio funerario previamente delimitado, sino que existe
una continuidad en la dinámica de ocupación del espacio que se va extendiendo
de manera gregaria, sin rupturas de las estructuras previas (SANTOS et al. 2017).
No obstante, esto no ha impedido que en los sucesos postdeposicionales ambas
regiones hayan experimentado una violación sistemática de la mayoría de las
tumbas (MONGE et al. 2017).
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
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SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

Fig. 10. Ubicación de las necrópolis que forman el conjunto de Ourique en


el Baixo Alentejo mencionadas en el texto (elaboración propia).

En la década de los noventa, cuando la investigación intentó sistematizar la


evolución del mundo funerario del Suroeste peninsular, V. H. Correia (1993), pro-
puso un esquema evolutivo de este modelo arquitectónico, generalmente acep-
tado, pero cuyas etapas cronológicas han sido largamente refutadas al remon-
tarlas a dataciones demasiado tempranas (FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017). Dicho
184 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

esquema se dividía en cuatro fases, la primera de las cuales se caracterizaría


por la presencia de encachados circulares, erigidos a partir del siglo VIII a.n.e.
En las etapas posteriores II y III, que se desarrollaron entre finales del siglo VIII
a.n.e. y principios del siglo V a.n.e., los lugares de enterramiento se cubrirían
con estructuras de encachados rectangulares (FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017). Por
último, en la cuarta fase aparecerían los monumentos en π (CORREIA 1993, p.
360). Como se ha mencionado, la evolución de los modelos arquitectónicos es
aceptada por la investigación, pero el marco cronológico en Ourique habría de
reducirse esencialmente a los siglos VI y V a.n.e. (FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017;
MONGE et al. 2017). Por tanto, nos encontramos ante el conjunto funerario más
tardío de los aquí expuestos.
Las grandes estructuras circulares de piedra con una tumba en su interior se
encuentran en las necrópolis de Fernão Vaz (CORREIA Y PARREIRA 2002, p. 50),
Casarão (CORREIA Y PARREIRA 2002, p. 54), Pego da Sobreira (CORREIA Y PARREI-
RA 2002, p. 56), Mouriços (CORREIA 1993, p. 370) y Chada (BEIRÃO 1986, p. 85).
Sin embargo, el de Nora Velha 2 tiene como particularidad la presencia no de
una, sino de dos tumbas en su interior (MONGE Y MARTINS 2013). Los encacha-
dos rectangulares posteriores, como muestran las superposiciones en el registro
arqueológico, aparecen también en Chada, Fonte Santa, Nora Velha 2 (MONGE
Y MARTINS 2013) (Fig. 11), Fernão Vaz, Herdade do Pego, Vaga da Cascalheira
(BEIRAO Y CORREIA 1993, p. 295) y en Mealha Nova, en la cual no están adosa-
dos unos a otros. Todas estas necrópolis, a diferencia de las reducidas muestras
ofrecidas por los espacios funerarios de Beja, albergan numerosas construccio-
nes funerarias que se aglutinan en conjuntos de estructuras dentro de un mismo
espacio, así como numerosas tumbas. Sin embargo, la acidez de los suelos en
ocasiones ha producido la pérdida de información acerca de los rituales en ellas
practicados y los difuntos que alojaban.
Por último, dentro de esa reiteración acerca de la delimitación del espacio de
los muertos y el de los vivos, en algunos casos, los monumentos funerarios en
Ourique contaban con muros que formaban un pequeño recinto de planta rectan-
gular, entendido como témenos, que se ha podido documentar en las necrópolis
de Chada y de Fonte Santa (FIGUEIREDO Y MATALOTO 2017) (Fig. 12).
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SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

Fig. 11. Planta de la necrópolis de Nora Velha 2 donde se observa el encachado de planta circular
albergando dos tumbas y otros encachados rectangulares (MONGE Y MARTINS 2013).

Fig. 12. Planta de las “necrópolis con témenos”: Fonte Santa (izquierda) y Chada (derecha)
(BEIRÃO 1986)
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8. DE MUERTOS Y HOMBRES. CONCLUSIONES


El recorrido por el Suroeste peninsular realizado en estas páginas no deja de
ser una visión somera y general de los diferentes contextos que se documentan
en estos territorios durante la Primera Edad del Hierro. La interacción, adapta-
ción e inclusión de ciertos materiales y prácticas de origen mediterráneo con las
dinámicas regionales se reflejaron en un ámbito tan abstracto y difícil de cambiar
en sus costumbres como es el mundo funerario. Ello tuvo como resultado una
pluralidad de soluciones que varió de un territorio a otro, dependiendo de las
respuestas y circunstancias locales, como se ha podido comprobar en este traba-
jo. Así, se observan lugares impregnados con influencias orientales conviviendo
con los modos indígenas previos, como ocurre en el interior de Portugal; mien-
tras que, en las costas y territorios vinculados de manera más estrecha a la red
de comercio mediterránea, las gentes orientales y sus costumbres se instalaron
plenamente y evolucionaron de forma propia y no unidireccional. No obstante,
no se puede dibujar una línea fronteriza que separe ambas espacialidades, pues
éstas continuaron interaccionando entre sí.
En este sentido siempre se ha de tener presente el pasar de generaciones
en constante interacción y cambio, junto con un mayor o menor grado de pervi-
vencia de prácticas y elementos locales. De este modo se generan esas zonas
de contacto donde no existe un límite tangible entre lo autóctono y lo exógeno.
A diferencia del concepto de frontera, que acota realidades y espacios, en este
contexto la mezcla y las influencias difuminaron las líneas divisorias entre las
diversas comunidades y sus territorios. Se creó, de esta forma, una misma di-
námica que interrelacionó regiones antes inconexas. Por lo que, en el estudio
de estos contextos, no se deben autoimponer límites irreales como la frontera
política actual o la concepción de una barrera invisible que separaría a las gentes
de procedencia oriental en las costas de las poblaciones locales del interior.
La zona de contacto que se constituyó en el Suroeste peninsular a través de la
interacción, la confrontación y la mezcla dio lugar a la pluralidad de respuestas
ante un mismo estímulo exógeno. Así, dentro de tal heterogeneidad se detectan
aspectos comunes de raíz oriental en todos los sitios analizados en estas páginas
como la orientación dentro del eje Este-Oeste en las tumbas, con oscilaciones
en función del posicionamiento del Sol a lo largo de las estaciones. Al igual que
la situación destacada de las necrópolis en el paisaje para ser visualmente per-
cibidas con claridad, delimitando el espacio reservado a los muertos, el cual en
muchas ocasiones se marcaba también con un hito geográfico como un curso de
agua o un camino de paso que marcaran la frontera con el mundo de los vivos
(TORRES 1999, p. 46). También destaca la isonomía dentro de la muestra de indi-
viduos enterrados en todas estas necrópolis: con igualdad entre hombres y mu-
jeres a la hora de recibir sepelio y la escasa presencia de individuos no maduros
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
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SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

dentro de los espacios funerarios. Por último, los materiales hallados a modo de
ajuar denotan esos contactos e influencias orientales en mayor o menor grado
según el territorio.
Aunque estas cuestiones indican la adaptación a los modos procedentes del
Mediterráneo Oriental, mostrando rasgos unificadores en la estructura mental de
las comunidades del Suroeste, no es este trabajo lugar para desarrollarlas. Pero
han de ser tenidas en cuenta al confrontar las diversas soluciones territoriales, a
partir de esas innovaciones, en el ámbito de la representación en la muerte. Esto
llevó a la monumentalización de los enterramientos a modo de ostentación o de
muestra de poder, lo cual implicaba una gran inversión de tiempo y trabajo hu-
mano. Así como la excepcionalidad del sepelio, en el sentido de que sólo una pe-
queña parte de la población sería enterrada, dado que el número de individuos
hallados es muy inferior al que correspondería con las tasas de mortalidad de las
sociedades preindustriales. Todo ello queda demostrado a partir de la muestra
del registro arqueológico que permite vislumbrar espacios fragmentados, pero
que de forma coetánea experimentaron cambios hacia una mayor complejidad
tanto en sus modos de vida como en sus estructuras mentales. En otras palabras,
dentro de un panorama de adaptaciones y respuestas diversas que se reflejan
en las estructuras de las necrópolis, al mismo tiempo en ese espacio funerario se
vislumbra un nexo de unión entre todas las comunidades de la zona de contacto
del Suroeste.
De este modo, se parte de una base de rasgos comunes que cumplen en
su gran mayoría todas las necrópolis aquí tratadas. Desde tales cimientos cada
comunidad construyó sus modelos de representación y experimentó una evo-
lución única. Por tanto, la diversidad regional en las prácticas funerarias sería
el reflejo de esa fragmentación sociocultural, muy marcada entre los poblado-
res del Suroeste peninsular que vivieron esa transición del Bronce Final a la
Primera Edad del Hierro (GOMES 2019). Cada territorio contó con unas circuns-
tancias distintas y, por tanto, con una reacción diversa, a la llegada de esos
comerciantes y colonos de origen oriental. Por ello, resultaría interesante en
futuros trabajos seguir analizando estos contextos desde la óptica de la zona
de contacto que elude conceptos como “etnia” o “cultura”, los cuales cons-
triñen las realidades que se generan al chocar e interrelacionarse un sustrato
autóctono y otro exógeno.
Así, el conocimiento acerca del mundo funerario en la Primera Edad del Hier-
ro y su complejidad aún dista mucho de ser completo, pero sigue profundizándo-
se de manera paulatina y permite, a partir de las dinámicas locales detectadas,
vislumbrar el funcionamiento de regiones enteras que se encuentran interrela-
cionadas entre sí. Esto ha de ayudarnos a derrumbar conceptos como las “fron-
teras” que a veces opacan o limitan, sin darnos cuenta, nuestra percepción de
las realidades complejas del pasado.
188 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

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Morir en Poniente. El conocimiento actual acerca del paisaje fu-


nerario de la Primera Edad del Hierro en el Suroeste peninsular
Resumen:
Uno de los ámbitos en los que quedó reflejada la interacción entre las comunidades locales
y las gentes de origen oriental que se asentaron en el Suroeste de la Península Ibérica fue el
espacio funerario. A raíz de tal contacto, que dio lugar al inicio de la Primera Edad del Hierro,
se generaron diversas respuestas en la estructuración de las necrópolis en función de las
circunstancias únicas de cada región. Con el objetivo de ofrecer una visión general de dicho
proceso, que muestre las especificidades territoriales engendradas en esta etapa, resulta de
interés exponer las variantes del paisaje funerario hasta hoy conocidas de cada zona del Su-
roeste. Para ello se ha acometido este resumen desde el concepto antropológico de “zona
de contacto” que sustituye el significado de la “frontera” como límite por el de territorio de
interacción, confrontación y mezcla.

Palabras Clave: Primera Edad del Hierro, espacio funerario, Suroeste peninsular, influencia
oriental, zona de contacto.
MORIR EN PONIENTE. EL CONOCIMIENTO ACTUAL ACERCA DEL PAISAJE FUNERARIO DE LA PRIMERA EDAD DEL HIERRO EN EL
193
SUROESTE PENINSULAR _ Guiomar Pulido González

To die in the West. The current knowledge about the funerary


landscape of the Early Iron Age in the Southwest of the Iberian
Peninsula.

Abstract:
The funerary space was one of the areas in which was reflected the interaction between the lo-
cal communities and the Eastern people who settled in the Southwest of the Iberian Peninsula.
As a result of this contact, which led to the beginning of the Early Iron Age, different responses
were generated in the structuring of the necropolis according to the unique circumstances of
each region. In order to provide an overview of this process, showing the territorial specifici-
ties generated in this period, it is of interest to present the variants of the funerary landscape
currently known in each area of the Southwest. To this end, this summary is based on the
anthropological concept of the "contact zone", which replaces the meaning of the "frontier" as
a limit with that of a territory of interaction, confrontation and mixture.

Key words: Early Iron Age, funerary space, Southwest of the Iberian Peninsula, eastern influen-
ce, contact zone.
inovação
e Territorio
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA
AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS
DE TALENTO E INOVAÇÃO

*
MADALENA FONSECA

ENQUADRAMENTO
Qual o potencial de inovação e dinamização socioeconómica dos fluxos de
estudantes que anualmente concorrem, obtêm uma vaga e se matriculam nas
instituições de ensino superior público das regiões periféricas em Portugal,
oriundos de outras regiões? Como podem as regiões periféricas enquadrá-los
nas suas políticas de desenvolvimento local?
A maior parte dos jovens residentes nos distritos da periferia do país, quando
completam o ensino secundário e pretendem ingressar no ensino superior, têm
tendência a querer “fugir” das suas regiões e candidatam-se às grandes e mais
prestigiadas universidades de Lisboa e Porto. Se, nalguns casos isso se deve à
não existência dos cursos da sua preferência nas regiões de origem, na maior
parte dos casos, o primeiro objetivo, e por diversas razões, é o de ir para as gran-
des cidades. Aqueles que têm classificações elevadas e meios financeiros para o
fazer, normalmente, conseguem-no.
Paralelamente, porém, regista-se um contra fluxo de estudantes oriundos de
todo o país, incluindo das grandes áreas metropolitanas, para as universidades
e outras instituições do interior do país, regra geral, por não terem classificações
suficientemente elevadas para obter uma vaga nas suas regiões de origem.
Estes fluxos de estudantes podem constituir, pelas suas características, um
importante fator de inovação e dinamização socioeconómica das regiões peri-
féricas que não pode ser ignorado pelas políticas de desenvolvimento regional,
mas acarinhado e fixado com estratégias eficientes de enquadramento no con-
texto institucional.
São fluxos de jovens com qualificações, potencial talento, abertura, tolerân-
cia e podem reforçar o capital humano e social das regiões periféricas.

*
Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto & CEGOT – Centro de Estu-
dos de Geografia e Ordenamento do Território. Email: madalena@letras.up.pt.
200 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

REGIÕES PERIFÉRICAS: UM DECLÍNIO INEXORÁVEL OU


FUTUROS POSSÍVEIS?
A persistência dos desequilíbrios regionais na União Europeia e a incapaci-
dade das políticas de desenvolvimento das regiões periféricas atingirem os re-
sultados desejados, devem-se, entre outros, a diagnósticos incorretos, fatores
não identificados e ao facto dessas políticas serem desenhadas com base na
teoria económica tradicional e nos fatores de produção básicos, capital físico,
capital humano, inovação ou tecnologia (BATHELT & GLÜCKLER 2014; FAROLE
et al. 2011; FONSECA & FRATESI 2017; IAMMARINO et al. 2019; RODRÍGUEZ-POSE
2018, 2020; STORPER 2018). Novas correntes de investigação têm deslocado
o foco das atenções das empresas individualmente e da sua capacidade de
inovação e olhado para o contexto institucional mais alargado e para o capi-
tal humano e social, numa perspetiva dinâmica e dando relevo às migrações,
para encontrar não só novos caminhos analíticos como formas de apoio às
políticas de desenvolvimento (BATHELT et al. 2017; CRESCENZI et al. 2020; GLÜ-
CKLER & LENZ 2016; RODRÍGUEZ-POSE & KETTERER 2019). As regiões menos de-
senvolvidas, qualquer que seja a terminologia que se adote, non-core regions
(LEICK & LANG 2018), regiões periféricas, atrasadas, remotas, pobres ou, no
limite, lugares que não contam (RODRÍGUEZ-POSE 2018) continuam a ser um
espaço de experimentação (EDER 2019; EUROPEAN COMMISSION 2017; FRATESI
& RODRIGUEZ-POSE 2016) e a ligação entre a inovação, o capital humano e o
crescimento económico continua a ser mais fácil de compreender ao nível teó-
rico do que operacional, nomeadamente na relação universidade-região (ou
indústria) (FAGGIAN & MCCANN 2006; FONSECA 2017; FRATESI 2014; GLÜCKLER
2014; HUGGINS et al. 2019; MARQUES et al. 2019; RODRÍGUEZ-POSE & VILALTA-BU-
FÍ 2005; TÖDTLING et al. 2013). Sobre a universidade, com efeito, são deposi-
tadas grandes expetativas, pela sociedade em geral, e pelos governos aos vá-
rios níveis, em especial, nas diferentes vertentes da sua terceira missão, seja
como centro de produção de conhecimento e inovação, seja como formação
de trabalhadores qualificados ou como parceira, nos mais diversos projetos
institucionais públicos e privados, mas, sempre como motor da economia e do
desenvolvimento (YOUTIE & SHAPIRA 2008). As instituições de ensino superior,
porém, isoladamente, não conseguem ser eficientes no processo de gerar ino-
vação e crescimento económico, nas suas regiões sem um enquadramento
institucional, e uma integração em redes que incluam as instituições regionais
e outras, externas (FONSECA 2017; HUGGINS et al. 2019). No presente estudo,
vamos considerar a atração de jovens estudantes para as pequenas cidades
da periferia em Portugal, provocada pelo processo de acesso às instituições
de ensino superior ali localizadas.
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
201
Madalena Fonseca

Debatendo-se com economias cada vez mais frágeis e o envelhecimento de-


mográfico, as regiões periféricas em Portugal, como em muitos outros países
europeus, têm registado grandes dificuldades em reter os seus jovens que “fo-
gem” para as grandes cidades, no momento de prosseguir os seus estudos, para
o ensino superior, sobretudo aqueles que têm notas elevadas e meios financei-
ros para o fazer (CONIGLIO & PROTA 2008; FONSECA et al. 2018; TOSI et al. 2018).
É certo que as economias debilitadas das regiões periféricas não conseguem
absorver todos os diplomados das suas regiões, as quais registam, atualmente,
em Portugal como noutros países europeus, uma oferta superior à procura local,
enquanto as regiões das grandes cidades têm um deficit, com menos oferta do
que procura. Mesmo que só temporariamente, as regiões periféricas encontram-
-se numa situação de sobre-educação (TOSI et al. 2018) (FONSECA et al. 2014). O
brain drain abrange, afinal, jovens em diferentes estádios da sua formação, para
além de traduzir o desajuste entre a oferta e a procura de trabalhadores qualifi-
cados nas regiões periféricas (ADNETT 2010).
Nem todos os jovens e estudantes contudo, fogem das regiões periféricas
e existem contra fluxos de entrada nessas regiões, provenientes das grandes
áreas metropolitanas, de cidades intermédias e de outras regiões periféricas
(FONSECA et al. 2018) (SOYER et al. 2020).
O principal argumento deste trabalho é o de que as políticas de desenvolvi-
mento podem ter-se concentrado, tradicionalmente, mais nas saídas de pessoas
e recursos destas regiões, tentando estancar aquela sangria e ignorando os flu-
xos de entrada. Pelo menos a narrativa dominante das políticas locais centra-se
repetidamente, em como reter as populações locais, especialmente os jovens, e
como evitar a sua saída. No entanto, há fluxos de entrada de jovens estudantes,
anualmente, como aliás, colocações de jovens quadros e estagiários da adminis-
tração pública, médicos, enfermeiros, professores, procuradores ou juízes. Os
jovens estudantes que migram para as cidades médias do interior, partilham das
características daqueles que migram das zonas periféricas para as universidades
mais prestigiadas em Lisboa ou no Porto. São igualmente qualificados, enquanto
jovens, têm um elevado potencial inovador, que se manifesta, desde logo na
vontade e na capacidade de mudança, já que estão abertos a uma experiência
migratória, podem aumentar o capital social, trazer mais abertura, multicultu-
ralismo, tolerância ao ambiente local e reforçar o capital humano das regiões
recetoras (BLIT et al. 2019; DOTTI et al. 2013). Podem mesmo ser um motor para
melhorar a qualidade das instituições. Se o seu valor, enquanto recurso para a
região for devidamente avaliado ― um fluxo de entrada de talentos ― indepen-
dentemente da sua magnitude, pode merecer mais atenção dos poderes locais e
não ser apenas uma fonte de financiamento ou garantia de sustentabilidade das
instituições de ensino superior dessas mesmas regiões.
202 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Estudos anteriores, para outras regiões, analisaram os contra fluxos de estu-


dantes de todo o país, incluindo das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, que
anualmente, migram para as cidades médias das regiões mais periféricas e aí se
matriculam nas instituições de ensino superior locais (Fonseca et al., 2018). Para-
lelamente, também se têm registado fluxos crescentes de entrada de estudantes
estrangeiros nas instituições de ensino superior das regiões mais periféricas, re-
sultado de estratégias de recrutamento mais ativas, muitas vezes para assegurar
o financiamento e a sustentabilidade das próprias instituições, fenómeno aliás
comum a outras regiões europeias (ADNETT 2010; GIACALONE et al. 2019; SOYER
et al. 2020).
A integração destes jovens estudantes deverá ir para além das próprias ins-
tituições de ensino superior e ser enquadrada no contexto institucional regional,
para que este possa beneficiar da sua fixação local, depois de graduados. Desta
forma, vão poder contribuir para um upgrading regional do mercado de trabalho,
ao nível do capital humano, com as suas qualificações, mas também socialmente,
podem contribuir para a renovação demográfica e valorização do capital social
da região. Podem, no limite, recriar nas pequenas cidades do interior, ambientes
atrativos para os jovens, idênticos aos das grandes cidades, ainda que a uma
escala mais pequena.
O desafio deste estudo é assim o de suportar o argumento de que os fluxos
de estudantes que anualmente chegam ao interior constituem um fluxo de talen-
to e potencial inovação.

MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES COMO FLUXOS DE TALENTO


Há um conjunto de fatores e processos transversais à generalidade dos flu-
xos migratórios que podemos considerar intemporais e para todas as regiões.
Para qualquer fluxo migratório há fatores que empurram e fatores que atraem
(puxam) as populações – os fatores push-pull (NOLASCO 2016; RAVENSTEIN 1889).
As regiões ou países que emitem são geralmente aqueles que se encontram em
piores condições sociais e económicas, aí se podendo mesmo incluir cenários de
catástrofe, de conflitos políticos ou outros, enquanto que as regiões ou países
que recebem, correspondem, naturalmente ao mais desenvolvidos e economias
mais ricas e dinâmicas. Paralelamente, também as populações com propensão
para emigrarem são, regra geral aquelas que se encontram numa situação pro-
blemática ou insatisfatória e por isso migram à procura de uma vida melhor, sen-
do certo que têm de reunir as capacidades para o conseguir.
As migrações são sempre seletivas (FRATESI & PERCOCO 2014) (FRATESI & RIGGI
2007). As migrações de jovens estudantes ou recém diplomados são particular-
mente seletivas e específicas, quer em termos de regiões de origem e destino,
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
203
Madalena Fonseca

nível social e económico dos estudantes, como em termos de perspetivas de


carreira e outras motivações pessoais (FEARON et al. 2018). O padrão dominan-
te, contudo, como o das migrações em geral, são os fluxos das regiões menos
desenvolvidas para as regiões mais ricas e para as grandes cidades e capitais
(FRANKLIN & FAGGIAN 2017) (CORCORAN & FAGGIAN 2017) (ADNETT 2010) (FONSECA
et al. 2014).
Richard Florida foi o primeiro a usar a designação de Geografia Económi-
ca do Talento, dando-lhe o sentido de distribuição de indivíduos com elevado
capital humano e associando-o a migrações (FLORIDA 2002, 2014; FLORIDA et
al. 2008, 2016, 2017). O capital humano, o conhecimento ou as qualificações e
competências ― o know how ― não é um stock de uma região; são fluxos por-
que existem nas pessoas e estas deslocam-se ou podem deslocar-se. Para além
disso, o capital humano (ou o talento) não se pode medir apenas pelas qualifi-
cações da educação dos indivíduos, mas também por outras características. Os
ambientes onde melhor pode florescer a criatividade e a inovação, têm de ter
várias características em simultâneo, ou os seus 3 “T” de talento, tecnologia e
tolerância (FLORIDA et al. 2008). A tolerância cobre valores como abertura, diver-
sidade e multiculturalismo ou cosmopolitismo, fatores que reduzem as barreiras
à comunicação e facilitam a entrada e adoção de ideias novas, de inovação
e consequentemente progresso, crescimento económico e desenvolvimento
(RUTTEN 2019). Richard Florida tem desenvolvido muita investigação sobre os
fatores que condicionam a distribuição do talento e os processos que têm le-
vado à cada vez maior polarização das cidades e à concentração da alta tec-
nologia e do crescimento económico. As suas abordagens demostram como a
capacidade de atrair talento é uma dimensão fundamental das cidades e do
crescimento económico das regiões, enquanto que tradicionalmente as teorias
do desenvolvimento colocam as empresas no centro destes processos de con-
centração. Também William Kerr desenvolve a sua abordagem sobre o talento
baseado nas migrações, usando o exemplo dos Estados Unidos para argumen-
tar como a entrada de imigrantes contribuiu para o crescimento económico e
desenvolvimento daquele país, convertendo-o na maior economia do Mundo
(KERR 2020). Quer estes dois autores, quer toda a literatura das migrações de
estudantes (e migrações em geral) identificam impactos positivos dos fluxos
migratórios nas regiões recetoras.
Os fluxos de estudantes para a periferia não serão seguramente os únicos
motores para o crescimento económico e desenvolvimento dessas regiões, dada
a sua reduzida magnitude e a imprevisibilidade da sua trajetória futura (RÉRAT
2014). Eles são porém, agentes importantes de criação e circulação de conheci-
mento e podem contribuir para a mudança institucional, bem para lá de constituí-
rem uma fonte de sobrevivência ou sustentabilidade das instituições de ensino
superior locais (FINDLAY et al. 2017) (HAUSSEN & UEBELMESSER 2016) (BAAS 2019)
204 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

(BEECH 2018). As migrações de estudantes não são, portanto, apenas um assunto


de educação.
Na realidade, as condições que potenciam a inovação e crescimento são as
mesmas na periferia ou no centro, sendo “apenas” mais difíceis de encontrar, na
periferia (EDER 2019). Essa é a razão pela qual as regiões periféricas não conse-
guem sair da sua condição e se mantêm presas a uma trajetória de dependência,
na maior parte dos casos. Na União Europeia, ao longo dos últimos 30 anos,
as regiões periféricas têm colocado grandes expectativas na política regional
ou de coesão, mas têm vindo também a sofrer sucessivos desencantos e hoje
existe uma sensação generalizada de fracasso e até de infortúnio (DIJKSTRA et al.
2019). Estas regiões precisam de crescimento, mas não estão a ser capazes de
desencadear processos de crescimento a partir do seu interior devido ao esgo-
tamento de alguns recursos, mesmo tendo boas infraestruturas. Precisam de ser
atrativas para induzir contra fluxos de capital humano ou talento, para equilibrar
os fluxos de saída, uma vez que o capital físico, só por si, não traz crescimento.
Como outras regiões semelhantes no Sul da Europa, as periferias portuguesas
estão bem-dotadas de infraestruturas físicas e receberam grandes investimentos
dos fundos de coesão da União Europeia para melhorar as acessibilidades e para
a construção de equipamentos públicos. Daí as atenções se concentrarem em
medidas para impedir a saída das populações dessas regiões e em particular os
seus jovens, sem, no entanto, se terem alcançado resultados satisfatórios.
Em Portugal, até ao início da década de 1970, existia um número muito re-
duzido de instituições de ensino superior que obrigava a deslocações de jovens
de todo o país, para Lisboa, Porto e Coimbra, únicas cidades com universidades.
O ensino superior mantinha-se reservado a uma elite social e eram também os
jovens das classes mais altas ou com mais recursos económicos que se desloca-
vam da periferia para aquelas cidades. A partir de então, assistiu-se à democra-
tização e expansão do ensino superior, num processo que se convencionou cha-
mar de massificação (FONSECA 2012). Foram criadas novas universidades e uma
rede de institutos politécnicos públicos por todo o país, de forma a aproximar a
oferta, das populações, em articulação com o reforço do ensino básico e secun-
dário e dando cumprimento a uma política nacional de promoção da qualificação
dos portugueses e aumento do capital humano. O ensino superior viria ainda a
ser aberto ao setor privado, para completar a capacidade de resposta do público.
Atualmente, o sistema é muito diversificado e cobre a totalidade do território
nacional (FONSECA & ENCARNAÇÃO 2012). A oferta não é, porém, igual em todas
as instituições e localizações, nem o poderia ser, por uma questão de raciona-
lização de recursos. Existe uma estratificação quer em termos de quantidade,
quer de diversidade de oferta de formações, a que corresponde, por seu turno,
uma perceção de qualidade diferenciada de diplomas, por parte dos estudantes
e da sociedade em geral. As instituições têm uma reputação diferente (FONSECA,
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
205
Madalena Fonseca

ENCARNAÇÃO et al. 2014). O valor, se assim podemos chamar, de cada diploma


decorre muitas vezes de uma perceção de qualidade e prestígio da instituição
que o oferece, mais do que da real avaliação das competências e conhecimentos
do diplomado (FELLINI et al. 2018) (CIRIACI 2014). Essa perceção da qualidade dos
diplomas, por parte dos estudantes, anda associada ainda ao potencial de car-
reira ou efeito de escada dos diplomas e das instituições que os atribuem, assim
como às cidades ou regiões onde essas se localizam (escalator effect) (VENHORST
et al. 2010). Os grupos sociais de nível económico mais elevado ou melhor in-
formados procuram as instituições de melhor reputação mesmo que para tal, os
seus estudantes tenham de se deslocar no país ou para o estrangeiro. As uni-
versidades públicas em Portugal, gozam de melhor reputação e os estudantes
procuram-nas nas suas prioridades, antes de se resignarem a uma vaga num ins-
tituto politécnico ou numa instituição privada. Este tem sido o padrão dominante
tradicionalmente (FONSECA & ENCARNAÇÃO 2012). Para além disso, as instituições
localizadas na capital, Lisboa (incluindo as localizadas na margem sul da Área
Metropolitana de Lisboa) e na segunda maior cidade do país, o Porto, atraem
estudantes de todo o país não só devido à sua reputação, mas também pela
atratividade das próprias cidades, percecionada pelos estudantes como vanta-
josa, numa perspetiva de carreira futura, pela dimensão, diversidade e nível dos
salários, dos respetivos mercados de trabalho.
O Sistema de Ensino Superior em Portugal atualmente, Inclui Instituições
públicas e privadas de duas naturezas, Universidades e Institutos Politécnicos,
estas últimas designadas muitas vezes por Universidades de Ciências Aplicadas
(Univesities of Applied Sciences). No ano 2017/2018, estavam inscritos cerca de
367 mil estudantes, 83% dos quais no sistema público e 17% no privado. As Uni-
versidades Públicas, com cerca de 190 mil estudantes, concentraram 52% de to-
dos os estudantes matriculados, sendo o maior segmento do Sistema de Ensino
Superior (Quadro 1).

Quadro 1. O Sistema de Ensino Superior em Portugal – Estudantes matriculados


por tipo de instituição

Natureza e tipo de ensino Total % Homens % Mulheres %


Total 366778 100 169732 46,3 197046 53,7
Público 303021 100 142720 100 160301 100
Universitário 190417 62,8 89413 62.6 101004 63
Politécnico 112604 37,2 53307 37,4 59297 37,0
Privado 63757 100 27012 100 36745 100
Universitário 46036 72,2 19691 72,9 26345 71,7
Politécnico 17721 27,8 7321 27,1 10400 28,3

Fonte: DGEEC Perfil do Aluno 2017/18


206 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

METODOLOGIA
O argumento deste estudo é, como já foi referido, o de que os fluxos de jo-
vens que anualmente se dirigem das várias regiões do país, incluindo das duas
grandes cidades de Lisboa e Porto, para as pequenas cidades das regiões mais
periféricas, são um importante fluxo de talento, capaz de se converter num motor
de inovação e crescimento económico, nas regiões periféricas. Para procurar
testar este argumento, vamos considerar o concurso nacional de acesso e ca-
racterizar os estudantes que se deslocam de fora, para as regiões periféricas
procurando compreender as razões que os terão levado a migrar e que poderão
ser utilizadas para os fixar e prender localmente.
A metodologia do estudo consistiu, fundamentalmente, no tratamento da
base de dados do concurso nacional de acesso ao ensino superior e no cálculo
de indicadores de caracterização dos estudantes, no sentido de avaliar o seu
potencial de inovação, para responder às questões, quantos são, como são, de
onde veem, para onde vão, que cursos procuram e em que cursos se matricu-
lam?
A entrada no sistema, isto é, o acesso ao primeiro ano de um primeiro ciclo
de estudos oferece o momento mais adequado à atração de estudantes, pelas
instituições mais pequenas e localizadas fora dos grandes centros, uma vez que
nem todas têm um potencial de atração idêntico, para os mestrados ou doutora-
mentos, níveis para os quais não existe qualquer regulação central.
Confrontando as características destes estudantes que se deslocam para o
interior, com as dos que “fogem” das áreas periféricas e os locais que nelas se
mantêm, é possível traçar um perfil deste estudante aparentemente atípico.
Considerou-se o concurso nacional de acesso para o ano de 2017/18 por se
tratar da base de dados consolidada mais recente, antes de terem sido introdu-
zidas alterações no estabelecimento de vagas nalguns cursos e nalgumas insti-
tuições, cujo impacto ainda não foi avaliado e se pode confundir com o impacto
da pandemia da Covid 19.
Consideraram-se quatro universidades públicas das regiões periféricas do
Continente para as quais se verifica a seguinte situação, para além da sua con-
dição de localização em cidades médias do interior: em todas elas o número de
vagas é muito superior ao número de candidatos mas, no final das três fases do
concurso, atingem taxas de ocupação de 100% ou próximo. As quatro univer-
sidades estão localizadas em distritos onde se verifica que a maior parte dos
candidatos ao ensino superior concorrem a instituições fora do distrito – são os
que “fogem” – com valores oscilando entre o máximo 62,49% para Vila Real e o
mínimo de 51,73% para Castelo Branco. Em três delas a percentagem de candi-
datos e estudantes matriculados, originários de outros distritos que não o da sua
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
207
Madalena Fonseca

localização é superior à média nacional, atingindo valores em torno dos 70%. Na


terceira, a Universidade do Algarve, embora essa condição não se verifique, a
percentagem de estudantes do distrito que quer sair e concorre para fora atinge
quase 57% dos residentes, pelo que, tendo em conta que partilha as outras con-
dições, esta universidade foi também considerada no estudo.
São as seguintes as universidades abrangidas pelo estudo: Universidade de
Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), localizada em Vila Real, Universidade da
Beira Interior (UBI), localizada na Covilhã, Universidade de Évora (UÉ), localizada
na cidade do mesmo nome e Universidade do Algarve (UAlg), localizada em Faro.
A fonte dos dados estatísticos é a Direção Geral do Ensino Superior (DGES)
que facultou a base de dados do Concurso Nacional de Acesso.

FLUXOS DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES DO INTERIOR


DO CONTINENTE, EM PORTUGAL
O acesso ao ensino superior em Portugal sendo regulado governamental-
mente, conta com um sistema de numerus clausus universal, para todos os ciclos
de estudos de licenciatura e mestrado integrado, isto é, os primeiros ciclos. O
número de vagas é autorizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino
Superior – MCTES, depois de validado no processo de acreditação dos ciclos de
estudos, pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior – A3ES. As
instituições de ensino superior privadas recrutam os seus próprios estudantes,
segundo regulamentos próprios, de acordo com a lei. As instituições de ensino
superior públicas – Universidades e Institutos Politécnicos – recrutam os seus
estudantes por um processo centralizado de colocação dos candidatos, condu-
zido pela Direção Geral do Ensino Superior, anualmente. Trata-se do Concurso
Nacional de Acesso. Os candidatos são hierarquizados segundo as suas clas-
sificações e em função de um conjunto de seis preferências possíveis, que os
mesmos indicam no processo de candidatura, havendo três fases de colocação
de estudantes. As 6 preferências dos candidatos correspondem a seis pares de
curso e instituição.
Ainda que a rede de instituições de ensino superior público cubra a generalida-
de do território e haja, pelo menos uma instituição de natureza pública, em cada
cidade capital de distrito, nem todas as instituições oferecem ciclos de estudos
em todas as áreas e nem sempre oferecem as vagas em número suficiente para a
procura. Globalmente, a nível nacional, o número de vagas de entrada no ensino
superior público tem vindo a aumentar nos últimos anos, não só para ir de encontro
à procura, mas também para atingir metas políticas de melhoria na qualificação
dos portugueses e reforço do capital humano. Mantém-se, porém um desajuste en-
tre a oferta e procura de vagas por cursos, instituições e localizações (TEIXEIRA et
208 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

al 2009; (FONSECA 2012; FONSECA & ENCARNAÇÃO 2012). As diferenças provocam


diversos arranjos. Todos os anos se verificam diferenças significativas, mas, no
final das três fases de candidatura, as taxas de ocupação atingem níveis satisfa-
tórios, próximos ou mesmo superiores aos 100%. Há sempre estudantes que não
conseguem uma vaga, outros que acabam por desistir, não se matriculando, para
além dos que se matriculam em segundas opções, para se manterem nas suas
localizações, mas, um segmento muito significativo (próximo dos 40% a nível na-
cional), não hesita em deslocar-se para obter uma vaga na área ou curso que de
facto ambiciona, no sistema público o que provoca várias rondas de deslocações
e leva a que os candidatos se vão acomodando (FONSECA et al. 2014).
As razões que levam um estudante a escolher um determinado curso numa
determinada instituição são muito diversas e têm sido muito investigadas. Trata-
-se de processos de decisão complexos que envolvem variáveis das mais diver-
sas naturezas desde preferências pessoais, perceções, limitações financeiras,
influência de amigos e familiares, influência dos media a outras completamente
aleatórias. Como vimos anteriormente, o caso específico das migrações de estu-
dantes enquadra-se nesse contexto complexo.
As candidaturas da primeira fase, na primeira opção, têm um significado par-
ticularmente relevante porque correspondem ao real desejo dos estudantes, ao
curso dos seus sonhos (FONSECA et al. 2018). Podemos assim considerá-las como
um indicador da atratividade dos cursos e instituições. O rácio entre as candida-
turas da primeira fase na primeira opção e as vagas constitui um indicador a que
se convencionou chamar Índice de Força para traduzir essa potencial atrativida-
de dos cursos e instituições (FONSECA et al. 2018; FONSECA et al. 2014).
No final das três fases do concurso, porém, muitos estudantes acabam por
ficar matriculados em cursos e instituições que não eram as suas primeiras op-
ções, quando a sua classificação não lhes permitiu outra alternativa. As classi-
ficações vão assim condicionar as colocações e obrigar ou não a deslocações.
Considerando o ano letivo de 2017/2018, e não incluindo as Regiões Autó-
nomas pela sua insularidade, verificou-se que a quase totalidade dos distritos
portugueses registaram um índice de força inferior a 1, isto é o número de can-
didatos às suas instituições foi inferior ao número de vagas, exceto nos distritos
de Aveiro, Braga, Lisboa e Porto (Quadro 2). As instituições de ensino superior
público destes distritos atraem mais estudantes do que as suas vagas. No mes-
mo ano, os distritos de Lisboa, Porto e Setúbal concentraram mais de 60% das
candidaturas de todo o país, para 46% das vagas totais.
As candidaturas segundo o distrito de origem e destino dos candidatos, por
seu turno, revelam que ainda que o padrão geral esteja alinhado com os dados
acima referidos, há situações diversificadas. Dos quatro distritos acima referi-
dos, Aveiro apesar de ter uma procura superior à oferta, regista quase 54% de
candidaturas de fora do distrito. Em Braga, Porto e Lisboa não acontece isso; os
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
209
Madalena Fonseca

candidatos de fora não atingem o valor médio nacional de 39,35%. Acontece,


porém, que outros distritos registam também, valores inferiores à mesma média,
mas são situações em que o total de candidatos ficou muito abaixo do número
de vagas. É o caso dos distritos de Beja, Faro e Viseu (Quadro 3). O rácio entre os
candidatos e as vagas não pode assim, ser considerado isoladamente, mas tem
de ser interpretado em associação com os outros indicadores.
Fora de Lisboa e Porto, existem 7 cidades que por seu turno correspondem a
capitais de distrito, com uma universidade pública, três das quais de dimensão
média, localizadas em regiões intermédias, em termos de desenvolvimento eco-
nómico. São as Universidades de Coimbra, Aveiro e Minho (partilhadas pelas ci-
dades de Braga e Guimarães). As restantes quatro universidades públicas estão
localizadas em pequenas cidades nas regiões mais periféricas. Estas quatro uni-
versidades são as únicas para as quais o número de candidatos tem sido inferior
ao número de vagas de forma consistente, há mais de 20 anos. Apesar disso, no
final do processo de colocação, essas universidades conseguem preencher as
suas vagas e atingir taxas de inscrição de cerca de 100%, recrutando estudantes
na segunda e terceira fase. Na realidade, estas as quatro universidades públicas
da periferia portuguesa recrutam a maioria dos seus estudantes fora da sua re-
gião de localização. Estes estudantes imigrantes têm sido responsáveis por asse-
gurar a sustentabilidade ou, melhor dizendo, a sobrevivência destas instituições
há já alguns anos. Recentemente e tal como os Institutos Politécnicos Públicos
em regiões periféricas, estão também a recrutar cada vez mais estudantes es-
trangeiros, segundo as estatísticas da DGEEC.
As Figuras 1 a 4 apresentam, para cada uma das universidades do estudo, os
fluxos de saídas e entradas de estudantes. Os fluxos de saída (Mapa B) corres-
pondem aos estudantes do distrito que não concorrem à instituição ali localizada
e representam as candidaturas da primeira fase, na primeira opção. Os fluxos
de entrada (Mapa A) correspondem aos estudantes efetivamente matriculados
no final do processo de colocação, por distrito de origem. Trata-se, neste último
caso, de estudantes que de facto se deslocaram para aquela instituição e região.
As figuras das quatro universidades partilham algumas características em co-
mum; sabíamos já que os jovens dos distritos das quatro universidades “fogem”
e privilegiam as universidades de Lisboa Porto e Coimbra; os valores oscilam
entre o máximo de cerca de 63% para Vila Real e o mínimo de cerca de 52%
para Castelo Branco. Dos diversos distritos de destino destes candidatos, Lisboa
destaca-se, registando os valores máximos para os fluxos com origem em Évora
e Faro, com quase 40% do total de candidatos (Quadro 5). As saídas são clara-
mente orientadas e seletivas e os estudantes oriundos dos respetivos distritos não
concorrem ao país todo, nem a todos os distritos, nem a todo o tipo de instituições.
Os casos mais evidentes são os distritos de Beja, Guarda, Bragança, Portalegre,
Santarém e Viana do Castelo, para além das Regiões Autónomas da Madeira e
210 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Açores, que não recebem candidatos de todo o país. Os fluxos para Lisboa e Por-
to são os de maior magnitude, ainda que Coimbra tenha alguma relevância para
os jovens de Vila Real e Faro. Os estudantes do distrito de Castelo Branco privi-
legiam de forma mas concentrada, Lisboa, como destino (Figura 2); os de Évora
concorrem também de forma mais significativa a Lisboa e Setúbal (sobretudo
devido às instituições da Área Metropolitana de Lisboa, no concelho de Almada)
(Figura 3); os candidatos de Vila Real e Faro apresentam um padrão um pouco
distinto, dispersando as suas candidaturas pela totalidade do país (Figuras 1 e 4)
ainda que com fluxos de maior magnitude para Porto, Lisboa e Coimbra, dos dois
distritos e também Setúbal e Évora a partir de Faro.
O padrão das potenciais saídas (os mapas a vermelho) revelam que há um
compromisso entre a procura de uma instituição de maior prestígio, o reconhe-
cimento do potencial das grandes cidades numa perspetiva de carreira e a pro-
ximidade ao distrito de origem, embora esta última não seja determinante, com
base nos dados.
Quanto às entradas, a que correspondem os mapas com fluxos a azul, o pa-
drão é completamente distinto. As quatro instituições recrutam os seus estudan-
tes pelo país todo, à exceção da UTAD que não apresentou estudantes matricula-
dos, nesse ano, provenientes dos distritos de Beja, Évora e Portalegre. As quatro
universidades recebem fluxos maiores das áreas metropolitanas e da faixa litoral
mais populosa. É também aí que a concorrência é maior, há mais população,
menos envelhecida e, consequentemente maior procura de ensino superior. É
possível identificar alguma relevância na proximidade, mas, o padrão é muito
semelhante nas quatro universidades.
Estas universidades da periferia do país, recrutam os seus estudantes por todo
o país e criam, assim, no seu interior um corpo estudantil diversificado e multicul-
tural, dentro dos limites da diversidade cultural do nosso país, naturalmente.
Um corpo estudantil móvel, que se desloca e está disponível para se mover.
Para além das classificações médias dos estudantes que, globalmente, re-
velam que os estudantes que concorrem para fora têm médias mais elevadas e
os que ficam têm médias mais baixas, nem sempre é claro que os que entram
de fora do distrito tenham classificações intermédias (Quadro 4). Só a análise
curso a curso permite tirar conclusões robustas. No caso de Vila Real e da UTAD,
o estudo anterior, permitiu concluir que de facto assim é, os estudantes de fora
têm médias mais elevadas do que os locais que ficaram, mas mais baixas do que
os que saíram.
Em termos de oferta, as áreas científicas que oferecem mais vagas em todo o
sistema de ensino superior em Portugal, são, por ordem decrescente, Engenharia
Informática, de computadores e afins, Gestão, Enfermagem, Medicina, Engenharia
Mecânica, Direito, Economia, Educação Básica, Biologia e Ciências Farmacêuticas
(Quadro 5). Do lado da procura, porém, as áreas mais procuradas são, por ordem
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
211
Madalena Fonseca

decrescente, Engenharia Informática e Computadores, etc., Gestão, Direito, Me-


dicina, Enfermagem, Psicologia, Engenharia Mecânica, Economia, Ciências do
Desporto e Ciências da Comunicação. Quando confrontamos as preferências dos
candidatos às quatro universidades em análise, verifica-se que há desajustes
entre as preferências dos candidatos locais e os de fora (Quadro 6). Os candida-
tos locais têm um comportamento que poderíamos classificar como conservador,
escolhendo áreas tradicionais, como é o caso de Psicologia e Enfermagem, esta
última não estando nas preferências à UBI, porque não é oferecida pela institui-
ção. Gestão ou ciências do desporto fazem parte também das preferências, mas,
neste caso, é um padrão comum a todo o sistema.
São os candidatos de fora, os que imigram para estas áreas que se matri-
culam nas áreas mais raras, mais competitivas a nível nacional ou em domínios
emergentes. Ainda que de forma agregada e sendo necessária mais investi-
gação sobre este aspeto, não deixam de ser relevantes alguns destes dados
(quadro 6).
Assim, na UTAD e na UÉ, Medicina Veterinária é o curso mais distintivo e
mais competitivo, sendo aquele que recebe mais candidaturas no total. São os
estudantes de fora, porém, aqueles que concorrem em maior número. Na UTAD,
no ano em apreço, houve 161 candidatos a Medicina Veterinária de fora e 18, de
estudantes do distrito, no entanto registaram-se 52 candidaturas a Enfermagem
(o curso mais procurado pelos locais) e 50 a Desporto, dos estudantes locais. Na
UÉ, registaram-se 104 candidaturas a Veterinária, de fora, sendo também o curso
mais procurado por estes estudantes, enquanto que houve apenas 19 candidatos
locais ao curso.
Genética e Biotecnologia ou Enologia, na UTAD e Biologia Humana, Relações
Internacionais, Design ou Teatro, na UÉ, cursos de áreas emergentes e de van-
guarda foram mais procurados pelos estudantes de fora do que pelos locais. Os
estudantes locais, do distrito de Vila Real, concorreram por ordem decrescente,
a Enfermagem, Psicologia e Desporto, à UTAD, enquanto que os do distrito de
Évora concorreram, por ordem decrescente, a Gestão, Psicologia e Enfermagem
à UÉ.
Na UBI, Medicina reforça o padrão identificado para as universidades da pe-
riferia. Sendo Medicina o curso com maior procura na UBI e uma das áreas de
grande impacto no processo de acesso, a nível nacional, registou 166 candida-
tos de fora e apenas 21 próprio distrito. Os cursos de Engenharia Aeronáutica,
Cinema ou Design de Moda da UBI, por seu turno, cursos menos tradicionais,
receberam muitas mais candidaturas de estudantes de fora do que do distrito de
Castelo Branco. Os candidatos à UBI, do distrito, concorreram, prioritariamente e
por ordem decrescente de importância, a Psicologia e Gestão.
Na UAlg, por seu turno, é o curso de Biologia Marinha que reforça este pa-
drão. Trata-se do único curso de Biologia Marinha do país; recebe candidaturas
212 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de todo o país, mas, maioritariamente de fora, com 38 candidatos, no ano em


análise, em contraste com 10 candidatos locais. Biologia Marinha foi o 20º curso,
em 23, no ranking dos mais procurados por estes estudantes. Os candidatos do
distrito de Faro à UAlg colocaram nas primeiras preferências Turismo, Psicologia
e Enfermagem.
Não podemos deixar de ter em conta que os estudantes dos distritos da pe-
riferia com classificações mais elevadas e meios financeiros para o fazer, con-
correm prioritariamente fora, a universidades dos grandes centros e assim, só
alguns dos locais com classificações inferiores ou por outras razões, permane-
cem nos seus distritos o que poderá explicar a baixa procura dos cursos mais
competitivos, por estes últimos. O foco deste estudo, porém, não são os fatores
que levam um estudante a selecionar um curso mas, a caracterização dos estu-
dantes que migram de todo o país para as universidades da periferia, indepen-
dentemente das razões que os levam a isso, com o objetivo de os reter e fixar
nas regiões.
Estudos anteriores puseram em evidência a relação entre o nível socioeco-
nómico dos estudantes, o seu background familiar em termos de capital social
e cultural e os cursos em que se matriculam, mesmo que as suas classificações
possam condicionar as suas preferências. No caso da UTAD, no estudo anterior,
verificou-se que os estudantes de fora recebiam menos apoio social, ainda que
estivessem abrangidos por regimes de compensação para estudantes desloca-
dos. Os estudantes do distrito recebiam mais apoios sociais, sem contemplar
esse possível apoio extra, evidenciando níveis socioeconómicos mais baixos
(FONSECA et al. 2018). Considerando os resultados do caso da UTAD, analisado
anteriormente, e que os resultados do presente estudo vêm reforçar, é possí-
vel afirmar que os estudantes de fora, os que imigram para estas cidades mé-
dias do interior, pertencem a classes sociais de mais elevados rendimentos e,
consequentemente de maior capital cultural e educacional, comportando-se de
forma mais competitiva no que diz respeito à escolha de áreas mais inovadoras
e promissoras em termos de carreira. Valores que podem contribuir de forma
relevante para a mudança institucional dos contextos regionais da periferia, para
onde se mudam.

REFLEXÕES FINAIS E DESENVOLVIMENTOS FUTUROS


A Geografia Económica do Talento, sendo uma proposta teórica de Richard
Florida desde o início do século, vai muito para lá dos limites de uma designação
original e apelativa. Desde logo, acompanha a evolução da Geografia Económi-
ca em geral e das teorias sobre o crescimento económico e o desenvolvimento
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
213
Madalena Fonseca

regional, afastando a empresa do seu centro e focando-se no contexto institu-


cional mais amplo, no capital humano e nas pessoas. Trazendo as pessoas para o
centro dos problemas do desenvolvimento, traz a mobilidade e as migrações. O
capital humano não é um recurso, diz; são fluxos porque as pessoas movem-se.
E as migrações são sempre seletivas na sua estrutura e nos seus destinos.
O presente estudo incide sobre os fluxos de estudantes que anualmente se
deslocam de todas as regiões do país, para se matricularem numa instituição de
ensino superior nas pequenas cidades da periferia e analisa quatro universida-
des públicas nesta situação.
Trata-se de contra fluxos, em relação aos fluxos dominantes e de maior di-
mensão, de jovens das periferias que anualmente também, concorrem e, quando
têm condições, conseguem, entrar nas grandes e mais prestigiadas instituições
de Lisboa, Porto ou centros intermédios.
Empurrados para as universidades da periferia, por falta de vagas ou classi-
ficação para conseguir entrar nas instituições das suas regiões ou por vontade
de mudança, há fluxos de uma magnitude significativa que se deslocam entre
todas as regiões e podem constituir um importante recurso para a transformação
institucional destas regiões.
São jovens qualificados, com um elevado potencial de inovação e criativi-
dade – talento – e trazem para os contextos regionais para onde se deslocam,
abertura, disponibilidade para a mudança, diversidade e o cosmopolitismo pos-
sível num pequeno país como Portugal.
Mudam de distrito para estudar Medicina ou Medicina Veterinária, cursos par-
ticularmente competitivos, mas, também mudam para estudar Teatro, Cinema,
Enologia ou Biologia Marinha. Não se conformam com uma segunda escolha
nas suas áreas de residência ou da casa dos pais e vão para o interior, à procura
dos cursos dos seus sonhos, numa trajetória de vida ambiciosa e perspetivada
numa carreira, num futuro. Também por aí temos evidência do seu potencial de
mudança institucional.
Este estudo tem as limitações importantes que foram sendo apontadas; ser-
ve, no entanto, de piloto para o estudo mais aprofundado que se seguirá, para
a Beira Interior, o qual conta com uma base de dados para uma série temporal
longa e não apenas um ano e com uma maior componente qualitativa, tendo
como objetivo avaliar a integração regional destes estudantes, num contexto
institucional mais amplo do que apenas o ensino superior.
Estes estudantes são mais do que pagadores de propinas ou uma estatística
para as taxas de ocupação das instituições de ensino superior locais; são um
fluxo de talento que os poderes políticos devem acarinhar a acomodar para revi-
talizar as áreas mais periféricas do nosso país.
214 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 1. Acesso ao ensino superior 2017/2018 – estudantes candidatos do Distrito de Vila Real
e estudantes matriculados na UTAD

Mapa A Mapa B

Figura 2. Acesso ao ensino superior 2017/2018 – estudantes candidatos do Distrito de Castelo


Branco e estudantes matriculados na UBI

Mapa A Mapa B
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
215
Madalena Fonseca

Figura 3. Acesso ao ensino superior 2017/2018 – estudantes candidatos do Distrito de Évora


e estudantes matriculados na UÉ

Mapa A Mapa B

Figura 4. Acesso ao ensino superior 2017/2018 – estudantes candidatos do Distrito de Faro


e estudantes matriculados na UAlg

Mapa A Mapa B
216 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Quadro 2. O Acesso ao Ensino Superior Público em Portugal 2017/18

Fonte: Direção Geral do Ensino Superior DGES


MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
217
Madalena Fonseca

Quadro 3. Acesso ao ensino superior público em Portugal 2017/2018 – distritos de origem e destino
218 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Quadro 4. Origem dos estudantes das Universidades UTAD, UBI, UÉ e UAlg

Quadro 5. Cursos com maior oferta e cursos mais procurados no acesso ao Ensino Superior
Público em Portugal 2017/2018
MIGRAÇÕES DE ESTUDANTES PARA AS REGIÕES PERIFÉRICAS COMO FLUXOS DE TALENTO E INOVAÇÃO
219
Madalena Fonseca

Quadro 6. Candidatos por distritos de origem e por ciclos de estudos


220 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

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PERCEÇÃO SOBRE O POTENCIAL DA RAIA:
UMA LEITURA AOS OLHOS DA POPULAÇÃO

*
DORA FERREIRA
**
JOSÉ MANUEL SÁNCHEZ MARTÍN

1. ENQUADRAMENTO
A perceção social sobre as características do território de residência, por-
tanto, o seu conhecimento, é a chave para o desenvolvimento de instrumentos
de ordenamento e gestão territorial. No caso dos territórios com vocação tu-
rística é interessante conhecer a perceção dos residentes sobre as vantagens
e desvantagens que aquele território oferece e a identificação dos elementos
caracterizadores que possam ser atrativos de investimentos e atividades de de-
senvolvimento local. Apesar da perceção poder ser diferente entre quem visita
um determinado destino e quem nele reside, o seu conhecimento pode ser a
chave para evitar conflitos e gerar convergências de interesses entre população
residente e o visitante (FERNANDÉZ 2011, em MERCADO ALONSO 2015), promover
a hospitalidade e prevenir situações de degradação da qualidade ambiental
(TERKENLI et al. 2021).
Vários estudos indicam que as atividades de turismo são muito influencia-
das pela qualidade ambiental e paisagística, determinando a escolha da procura
(GAO et al. 2014; MACAGNO et al. 2011). As áreas rurais e periféricas assumem par-
ticular interesse devido aos seus valores históricos, culturais e valores naturais
que lhes conferem uma identidade muito peculiar. Estando o turismo em espaço
rural muito dependente dos recursos paisagísticos, os residentes no território,
agentes económicos e decisores políticos, assumem um papel determinante na
manutenção e preservação da singularidade e qualidade ambiental (ABLER 2004
em MACAGNO et al. 2011). Essa qualidade é um indicador importante que vai ter
influência nas dinâmicas económicas presentes no território e na capacidade de
criar ofertas turísticas de valor acrescentado. Por exemplo, os autores Fleischer
& Tchetchik (2005) perceberam que as paisagens, sobretudo ligadas à atividade

*
Universidade de Extremadura [drodrigucc@alumnos.unex.es]
**
Universidade de Extremadura [jmsanche@unex.es]
226 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

agrícola, tem um efeito positivo nos preços praticados nos alojamentos turísticos
e, consequentemente, com impacto nas dinâmicas socioeconómicas.
Efetivamente, para realizar estratégias territoriais sustentáveis é importante
conhecer a perceção dos residentes de um determinado lugar sobre os valores
identitários e emblemáticos do território. Alguns estudos consultados apontam
que a paisagem é frequentemente o elemento mais valorizado pela população
local, intimamente relacionada com os valores naturais, culturais e estilo de vida
de determinado território (DÍAZ et al. 2010). e, consequentemente, o recurso tu-
rístico a valorizar conforme conclui o estudo de Terkenli et al. (2021).

1.1. ÁREA DE ESTUDO

Fig. 1. Área de estudo

Penamacor
Valverde
del Fresno

Cilleros

Idanha-a-Nova Zarza
la Mayor
Castelo Branco

Alcántara
Vila V. de Rodão

Cedillo S. Alcántara

H. Alcántara Membrío
Nisa

C. Vide
Valencia
de Alcántara
Marvão

Portalegre

Fonte: INE (Espanha) INE (Portugal)

A área territorial do presente estudo é delimitada pelos municípios da raia


central Luso-Extremenha que compreende os concelhos da Beira Baixa, Alto
PERCEÇÃO SOBRE O POTENCIAL DA RAIA: UMA LEITURA AOS OLHOS DA POPULAÇÃO
227
Dora Ferreira, José Manuel Sánchez Martín

Alentejo (Portugal) e Alta Extremadura (Espanha), designadamente: Castelo


Branco, Idanha-a-Nova, Penamacor e Vila Velha de Ródão (Centro – Portugal);
Castelo de Vide, Marvão , Nisa e Portalegre (Alto Alentejo – Portugal) e Alcánta-
ra, Carbajo, Cedillo, Cilleros, Herrera de Alcántara, Membrío, Piedras Albas, San-
tiago de Alcántara, Valencia de Alcántara, Valverde del Fresno, Zarza la Mayor
(Alta Extremadura – Espanha), compreendo uma área aproximada de 750 mil
hectares. A área de estudo é caracterizada pela modesta dimensão demográfica,
com um total de 117 253 habitantes, caracterizado pela população em regres-
são, tendência confirmada pelos resultados mais recentes dos Censos 2021 que
apontam para uma perda de 10% da população residente no território (INE 2018;
INE 2018ª) e com forte concentração de população nas freguesias urbanas, no-
meadamente Castelo Branco e Portalegre (Figura 1).
Em termos naturais, a paisagem raiana tem características que lhe conferem
uma identidade peculiar com predomínio de atividades agro-pastoris com carac-
terísticas peculiares, preservadas pelo modelo de produção extensivo. A paisa-
gem raiana, embora com o estatuto de “território vazio” é também reconhecido
como um território que inspira sensações de tranquilidade, segurança, conforto
e harmonia e que muito devem à relação homem-natureza de quem procura na
raia o seu lugar para viver e trabalhar.

1.2. OBJETIVOS DO ESTUDO

Apesar de diversos trabalhos (SÁNCHEZ-MARTÍN & RENGIFO-GALLEGO 2017;


FERNÁNDEZ 2007; ANTONIO-JOSÉ CAMPESINO FERNÁNDEZ & ALMONTE 2014) reco-
nhecerem o potencial turístico dos territórios da raia luso-extremenha, tanto
pelos seus atributos naturais aos culturais, pouco se sabe sobre a perceção e
valorização desses mesmos atributos por parte da população residente. Assim, o
presente trabalho centra-se no estudo da perceção dos habitantes no território
raiano relativamente às suas características naturais e/ou culturais mais emble-
máticas, procurando identificar as vantagens e desvantagens em residir naquele
destino, caracterizado pelo envelhecimento demográfico e isolamento, com o
objetivo de identificar quais as valências que podem ser consideradas mais atra-
tivas para os turistas e visitantes.
Espera-se que os resultados possam contribuir para o desenho de uma es-
tratégia de desenvolvimento e promoção do destino raiano, assim como a pre-
servação e valorização dos valores patrimoniais que caracterizam este destino
único e diferenciador, tanto para residir, como para visitar. A atenção aos seus
contributos é relevante na medida em que contribuirão para uma melhor gover-
nança do território.
228 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

2. METODOLOGIA
Face ao objetivo central do presente trabalho, optou-se pela recolha de dados
e informação mediante questionário. De forma a abranger o máximo de popula-
ção residente no território, foi desenhado uma investigação quantitativa através
de questionário com 10 perguntas (fechadas, abertas e de escala). A recolha de
dados decorreu durante os meses de fevereiro de 2020 a agosto de 2020 e, de-
vido à pandemia COVID-19, foi aplicado através do google forms. O questionário
foi divulgado através de canais digitais e mailing a partir de sites e entidades
locais (autarquias, juntas de freguesia, associações), apresentados em português
e castelhano. Os conteúdos recolhidos podem resumir-se nos seguintes tópicos:
• Conteúdos sobre as principais vantagens de viver num território de frontei-
ra, podendo identificar aspetos que possam facilitar o quotidiano;
• Conteúdos sobre as principais desvantagens de viver num território de frontei-
ra, podendo identificar aspetos que interfiram de forma negativa no quotidiano;
• Conteúdos sobre a perceção dos valores que melhor caracterizam o território;
• Conteúdos sobre a identidade e carácter da paisagem que melhor caracte-
riza o destino e tipologia de paisagem recomendável para as atividades de
turismo e perceção sobre cenários futuros;
• Conteúdos sobre as características sociodemográficas.

A informação obtida resultou de 101 questionários. Para delimitar a amostra do


estudo, a informação e os resultados obtidos, partimos de um universo que com-
preende os residentes na raia maiores de 18 anos (margem de erro +/- 10% com
um nível de confiança de 95%). As técnicas de análise da informação baseiam-se
em técnicas descritivas (frequências e médias) através de tabelas e gráficos.

Tabela 1. Ficha técnica da investigação

População em estudo População residente nos concelhos raianos


População da investigação 117253
Âmbito geográfico Raia luso-extremeña (Penamacor, Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Vila
Velha de Ródão, Nisa, Castelo de Vide, Marvão, Portalegre - Portugal;
Alcántara, Carbajo, Cedillo, Cilleros, Herrera de Alcántara, Membrío,
Piedras Albas, Santiago de Alcántara, Valencia de Alcántara, Valverde
del Fresno, Zarza la Mayor - Espanha)
Recolha de dados Questionário online
Período de recolha de dados Fevereiro 2020 a Agosto de 2020
Procedimento Amostragem não probabilística – Amostra de conveniência
Nível de confiança 95%
Margem de erro 10%
Questionários válidos 101

Fonte: Elaboração própria


PERCEÇÃO SOBRE O POTENCIAL DA RAIA: UMA LEITURA AOS OLHOS DA POPULAÇÃO
229
Dora Ferreira, José Manuel Sánchez Martín

Procedeu-se à análise estatística dos dados através do software PSPP com


a realização de testes não paramétricos, uma vez verificada a não normalidade
dos dados com a probabilidade de erro de 95% e significância de 5%.

3. ANÁLISE DE RESULTADOS
Podemos analisar, segundo a análise da Tabela 2, que a distribuição dos par-
ticipantes no estudo segundo o género, se encontra bastante equilibrada (50%
mulheres e 50% são homens), maioritariamente com formação superior, porém,
apenas 19,8% dos participantes tem idades compreendidas entre os 18 e os 34
anos. Verifica-se que a maior parte da população dos territórios raianos que par-
ticiparam no presente estudo, são residentes há mais de 20 anos, com forte
expressão os residentes em freguesias rurais (63,4%).

Tabela 2. Dados sociodemográficos da amostra

Género Nº
Feminino 50
Masculino 51
Grupo de idades Nº
18-25 anos 10
26-34 anos 10
35-44 anos 21
45-54 anos 26
55-64 anos 16
>65 anos 18
Nível de educação Nº
Superior 65
Secundário 29
Básico 7
Freguesia de residência Nº
Urbana 34
Rural 64
Nº anos residência na raia Nº
< 1 ano 5
2-5 anos 11
6-9 anos 11
10-19 anos 9
> 20 anos 67

Fonte: Elaboração própria


230 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

3.1. PERCEÇÃO E VALORIZAÇÃO DAS VANTAGENS E DESVANTA-


GENS EM VIVER NA RAIA

Perceber as vantagens e desvantagens em residir no território fronteiriço,


identificado pelos seus habitantes, é um dos objetivos em discussão. Assim, fo-
ram listadas algumas possibilidades de escolha múltipla solicitando-se que iden-
tificassem duas opções segundo a ordem de preferência (1ª e 2ª opção).
Em geral, a população residente no território raiano, demonstra sentimentos
positivos em viver na raia, identificando como principais vantagens, motivações
relacionadas a qualidade ambiental e o custo de vida mais acessível. Pois ve-
rifica-se, que entre as opções mais destacadas, as vantagens como qualidade
ambiental, a relação qualidade-preço dos produtos agroalimentares e oportu-
nidade trabalhar em rede/negócios vantajosos com parceiros do país vizinho,
estão entre as opções mais escolhidas pelos inquiridos como primeira opção.
Como segunda opção, as escolhas recaem sobre fatores como custo de vida
mais acessível e o acesso a serviços/atividades/produtos no país vizinho.

Gráfico 1. Vantagens em residir nos territórios raianos

De forma a perceber se existem diferenças na escolha dos parâmetros identi-


ficados, procedeu-se ao teste Kruskal-Wallis para perceber se existem diferenças
dos dados entre a população residente em freguesias rurais e a população resi-
dente nas freguesias urbanas. Com probabilidade de erro de 95% e significância
de 5%, não podemos recusar a hipótese nula, admitindo-se que não existem di-
ferenças nas decisões de cada uma das vantagens identificadas, independente-
mente da freguesia de residência. A mesma conclusão se pode observar quanto
aos dados sobre as desvantagens em residir na raia.
Sobre as desvantagens em viver na raia, a maioria das escolhas recai na op-
ção “distância aos grandes centros urbanos e centros de decisão”, como 1ª opção
e em 2ª opção a “falta de apoio público para o desenvolvimento do território”
PERCEÇÃO SOBRE O POTENCIAL DA RAIA: UMA LEITURA AOS OLHOS DA POPULAÇÃO
231
Dora Ferreira, José Manuel Sánchez Martín

destaca-se em relação aos outros parâmetros, seguido a opção “envelhecimen-


to demográfico” e “poucas oportunidades de trabalho qualificado”.

Gráfico 2. Vantagens em residir nos territórios raianos

Se analisarmos o somatório das frequências de cada um dos parâmetros ava-


liados, é interessante verificar que há um destaque para as opções “custo de
vida mais acessível”, o “acesso a serviços / atividades / produtos no país vizinho”,
bem como o reconhecimento de fatores como a “qualidade ambiental”, fatores
reconhecidos como importantes na escolha do local de residência (Tabela 1).

Tabela 3. Vantagens e desvantagens em residir nos territórios raianos

PARÂMETROS AVALIADOS 1ª OPÇÃO 2ª OPÇÃO TOTAL


VANTAGENS
Produtos agroalimentares diferenciados 17 0 17
Relação qualidade-preço dos produtos agroalimentares 19 1 20
Qualidade ambiental 26 7 33
Trabalhar em rede / negócios vantajosos com parceiros do país vizinho 19 7 26
Oportunidades de empregabilidade 3 10 13
Custo de vida mais acessível 12 30 42
Acesso a serviços / atividades / produtos no país vizinho 3 35 38
Mais segurança, menos criminalidade 0 1 1
É indiferente 2 1 3
Outras 0 9 9
DESVANTAGENS
Distância aos grandes centros urbanos e centros de decisão 34 0 34
Isolamento e más acessibilidades 14 11 25
Território desconhecido e pouco visitado por turistas 11 2 13
Poucas oportunidades de trabalho qualificado 23 20 43
Envelhecimento demográfico 13 34 47
Falta de apoio público para o desenvolvimento económico e social 3 27 30
É indiferente 3 7 10
232 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Apesar do “acesso a serviços, atividades e produtos no país vizinho” assumir


também um lugar de destaque como vantagem em viver neste território, quando
analisados os resultados sobre a frequência de realização de atividades no país
vizinho (Gráfico 3), esta relação pode considerar-se tímida, pois cerca 43% da
população raiana declarou que nunca vai ao país vizinho, o que poderá estar re-
lacionado com as acessibilidades e ausência de um sistema de transportes trans-
fronteiriço. Porém, também se verifica que 40% realiza atividades além-fronteira
com uma frequência média de uma vez por mês, procurando no país vizinho rea-
lizar as seguintes atividades: passear (60%), viver experiências gastronómicas
diferentes comendo em restaurantes (59%) e conhecendo mais as tradições e a
cultua visitando museus ou monumentos históricos (59%).

Gráfico 3. Atividades desenvolvidas no país vizinho

Sobre estes parâmetros, é interessante salientar que a relação com o terri-


tório raiano é frequentemente valorizada pelos residentes como uma oportuni-
dade em realizar atividades de turismo e lazer diferenciadoras, dado que tiram
partido da diversidade cultural particular deste território.

3.2. CARACTERÍSTICAS EMBLEMÁTICAS DO TERRITÓRIO RAIANO

Uma vez discutidas as vantagens e desvantagens em residir no território raia-


no identificadas pela população local e, tendo como objetivo aferir a sua perce-
ção sobre os valores intrínsecos ao território que possam ser considerados como
elementos de atração de visitantes, os participantes no estudo foram também
questionados sobre as características que melhor definem a raia, procurando
identificar qual o elemento mais emblemático e a tipologia da paisagem que
poderá ser recomendada para a realização de atividades de turismo no destino
raiano.
PERCEÇÃO SOBRE O POTENCIAL DA RAIA: UMA LEITURA AOS OLHOS DA POPULAÇÃO
233
Dora Ferreira, José Manuel Sánchez Martín

De forma global, colhem maior preferência as características positivas do ter-


ritório (Gráfico 4), com um total de 80% das escolhas identificadas, destacando-
-se o reconhecimento de valências como a qualidade de vida e bem-estar (60%),
tranquilidade e paz (46%) que o destino oferece e as paisagens (32%). Estas
escolhas reforçam a tendência que identifica como vantagens em viver neste
território com o reconhecimento da qualidade ambiental e a oportunidade de
acesso a produtos de qualidade e acessíveis como marcas que o destino poderá
afirmar-se. Entre as várias possibilidades, surge em terceiro lugar o reconheci-
mento do envelhecimento demográfico como uma das principais características
do território (35%), o que se poderá constituir numa força se existir uma estra-
tégia de valorização do saber-fazer e tradições locais envolvendo diretamente a
população idosa no processo de acolhimento e dinamização de atividades turís-
ticas. Outras opções destacadas estão relacionadas com a sua perceção quan-
to ao futuro da atividade agrícola existente no território, principalmente com a
valorização de modelos de produção mais sustentáveis, a biodiversidade e as
tradições locais que podem ser distintivas de outros destinos. Porém, existe um
risco associado ao envelhecimento demográfico.

Gráfico 4. Características intrínsecas ao território identificadas pela população local

Já as características consideradas menos atrativas surgem quase sempre


como segunda ou terceira opção de escolha, de destacar opções como “territórios
234 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de vazio”, “ausência, distância e isolamento”, claramente marcas da interioridade,


mas nem por isso valorizadas pela população residente.
Outra conclusão interessante pode ser extraída da análise sobre os elemen-
tos emblemáticos do território e que poderão ser abordados em estratégias de
valorização do território, captando mais investimento e capital humano (Gráfico
5). Desses elementos, foram destacados os aspetos relacionados com a “paisa-
gem / natureza” e o “património cultural”, cuja estruturação da oferta de produ-
tos turísticos é mais valorizada nas estratégias de dinamização turística local,
embora a sua autenticidade e carácter transfronteiriço tragam a oportunidade
de estruturar ofertas claramente diferenciadoras e é ainda pouco explorada. O
reconhecimento da “paisagem / natureza” como elemento mais emblemático
deste território mostra, desde logo, a satisfação pelo seu estado de conservação
e vai de encontro a tendências de outros estudos (TORQUATI et al. 2017; TERKENLI
et al. 2021). Ainda um destaque interessante para o reconhecimento do isola-
mento e dos chamados “territórios de vazio” como espaços privilegiados para o
usufruir do “Silêncio, paz e tranquilidade”. Esta característica poderá conferir ao
destino a estruturação de ofertas de turismo de saúde e bem-estar que podem
ser complementares a outros segmentos já existentes no território.

Gráfico 5. Mais emblemático/atrativo para recomendar a um turista

Podemos ainda extrair outras leituras, como a riqueza dos produtos alimenta-
res que estão intrinsecamente relacionados com a paisagem, que apesar de não
serem reconhecidos como uma das marcas do território (quando apresentados
de forma isolada), é possível identificar produtos IGP ou DOP no território, desde
o azeite (olival tradicional), o queijo (montado pastoreado), o mel (espaços agro-
florestais) de elevada qualidade, apenas para deixar alguns exemplos, e cujo
potencial poderá ser estruturado na oferta de turismo gastronómico transfron-
teiriço.
PERCEÇÃO SOBRE O POTENCIAL DA RAIA: UMA LEITURA AOS OLHOS DA POPULAÇÃO
235
Dora Ferreira, José Manuel Sánchez Martín

Desta análise se conclui que a população local tanto reconhece o capital na-
tural como o capital humanizado como elementos emblemáticos do território e
o que poderá ser o elemento de referência na dinamização de atividades turís-
ticas. Esta tendência é também verificado no estudo de Terkenli et al., (2021).
Das várias opções sobre possíveis tipologias de paisagem adequadas para
a realização de atividades ao ar livre (Gráfico 6), a maior parte da população
raiana identifica a paisagem com planos de água (42%) e o bosque (20%) como
cenários para a realização de atividades de lazer. Poderão destacar-se, a título
de exemplo atividades, desde passeios de barco no rio Tejo, canoagem, remo,
stand-up padel, caminhadas ou BTT. Apesar de interessantes, o potencial de criar
produtos turísticos realmente diferenciadores, por exemplo, com a valorização
do olival e do montado para a realização de atividades agroturísticas, parece não
ter um potencial reconhecido pelos residentes locais. Porém, a sua valorização
permitiria tirar maior partido da paisagem / natureza e dos recursos de forma ho-
lística (GAO et al., 2014). Neste sentido, seria interessante dinamizar sessões de
sensibilização para a valorização dos recursos e produtos do montado e do olival
tradicional que, em algumas áreas do território, assume características dignas
de paisagem cultural.

Gráfico 6. Paisagem recomendada para a realização de atividades ao ar livre

Por fim, foi solicitado no questionário que se caracterizasse o território numa


única palavra. Interessante verificar que a maioria das opções identificadas são
palavras com significado positivo, com destaque para: território de “oportunida-
de”, “tranquilidade”, “encantador”, “único”, “cooperação” e “biodiversidade”. Al-
gumas destas evidências corroboram a tendência identificada por Macagno et al.
(2011) que aponta fatores como a qualidade paisagística e a biodiversidade como
elementos relevantes de atração turística. De referir ainda que a população local
reconhece a singularidade e atenticidade do território e a cooperação entre os
dois países como valores a enaltecer.
236 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 2. Definição de território de fronteira numa palavra

Fonte: Elaboração própria através do software WordClouds

Dado que o estudo decorreu durante a fase do primeiro confinamento da


população devido à situação pandémica internacional, os participantes foram
ainda questionados sobre a perceção quanto ao futuro do território, face aos
desafios impostos pela pandemia (Gráfico 7). De forma geral, destaca-se uma
perceção negativa que prevê ainda maior isolamento deste território, mas ao
mesmo tempo também uma oportunidade porque apontam uma maior valoriza-
ção da atividade agrícola e mais população jovem a procurar territórios de menor
densidade para viver e trabalhar ou regresso de emigrantes.

Gráfico 7. Cenários previsíveis para o território raiano segundo a opinião da população residente
PERCEÇÃO SOBRE O POTENCIAL DA RAIA: UMA LEITURA AOS OLHOS DA POPULAÇÃO
237
Dora Ferreira, José Manuel Sánchez Martín

4. CONCLUSÕES
O presente estudo pretende avaliar o potencial turístico dos territórios da
raia luso-extremenha, tanto pelos seus atributos naturais como culturais, a par-
tir da perceção e valorização desses mesmos atributos e conhecendo quais as
valências que são, mais ou menos, valorizadas por quem habita diariamente no
território. Apesar do estudo apresentar algumas limitações dado o tamanho da
amostra ser pouco representativa, foi possível extrair as seguintes conclusões:
• Conhecer o território e os seus elementos atrativos por parte da população
local revela, desde logo, o sentimento de pertença ao lugar e o reconheci-
mento de fatores positivos em detrimento de eventuais limitações;
• O estudo realizado permitiu verificar que as valências e atributos quali-
ficadores do território raiano tiveram maior destaque. Ao invés, os fatores
relacionados com a interioridade foram desvalorizados e, até mesmo, consi-
derados como condição para o usufruto de determinadas características só
possíveis num território menos povoado, designadamente a “tranquilidade”,
o “silêncio” e a “paz” que este território pode oferecer;
• A paisagem e a natureza são percebidas como um dos principais atribu-
tos qualificadores do destino. Apesar do conceito de paisagem abarcar uma
grande diversidade de escalas de definição, de elementos construtivos e
significados, elementos estruturais ou conjunturais, os resultados permitiram
verificar que é o elemento mais valorizado pelos habitantes da raia. Isto pode
revelar o nível de satisfação com a qualidade ambiental e práticas culturais
locais que estão mais próximas do tradicional e os modelos de preservação
e sustentabilidade. Sem esquecer ainda, o predomínio da paisagem agroflo-
restal com predomínio do sistema montado / “dehesa”.
• A paisagem e natureza estão intrinsecamente associados a atividades como
a agricultura. Esta poderá ser um setor mais dinâmico e rejuvenescido atra-
vés da aposta na multifuncionalidade e diversificação de atividades em áreas
rurais como o turismo em espaço rural, o agroturismo e o ecoturismo, trazen-
do novas dinâmicas e oportunidades de investimento.
• A identidade cultural das populações locais parece estar intimamente re-
lacionada à forma como interagem com suas paisagens e os valores locais
reforçando o sentimento de pertença. Essa identidade poderá ser um recurso
turístico diferenciador, se baseado na cooperação entre países convergindo
para a co-criação de uma oferta de carácter transfronteiriço.
• A incorporação da perceção dos residentes na gestão territorial, com di-
mensões participativas e integradoras, requer um esforço da compreensão
dos conceitos abordados, e das suas múltiplas valências, de forma a que se
traduzam em oportunidades para o território. Isto, particularmente, sobre o
238 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

conceito de paisagem, dado que foi o elemento mais valorizado pela popu-
lação local;
• Por fim, importa assinalar que a concretização de produtos turísticos no
território deverá centrar-se na experiência turística e dessa forma permitir
alargar a oferta de atividades ao longo de todo o ano e procurar, sempre
que possível, a integração da população local no desenho e na dinamização
de atividades turísticas de forma a proporcionar ofertas diferenciadoras e de
valor acrescentado.

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Sites consultados
www.ine.pt (agosto 2021)
www.ine.es (agosto 2021)

RESUMO
Tendo em conta que a atividade turística provoca transformações nos destinos e a
procura por destinos periféricos e de menor densidade se tem assumido como uma
tendência crescente nas novas dinâmicas da procura, torna-se importante promover
o planeamento de fluxos e, sobretudo, de valorização da oferta de produtos turísticos
capazes de preservar a identidade dos lugares, a sua autenticidade, singularidade e
qualidade. Para tal, é fundamental conhecer a perceção que os habitantes têm do
seu território quotidiano de forma a potenciar a valorização de recursos, infraestrutu-
ras e promover uma cultura de acolhimento, sem esquecer que a sua integração nos
processos de planeamento deve ser estimulada e valorizada de forma a garantir polí-
ticas públicas inclusivas e de coesão. Esta preocupação assume particular relevância
em territórios com potencial turístico, principalmente assentes na valorização cultural
dos destinos de fronteira. Assim, o objetivo deste trabalho centra-se no estudo da
perceção dos habitantes no território raiano relativamente às suas características
naturais e/ou culturais mais emblemáticas, procurando identificar as vantagens e
desvantagens em residir naquele destino, caracterizado pelo envelhecimento demo-
gráfico e isolamento, com o objetivo de identificar quais as valências que podem ser
consideradas mais atrativas para os turistas e visitantes. Para isso, desenvolveu-se
uma metodologia baseada em métodos de investigação social e foram estabelecidas
conclusões a partir dos resultados alcançados, destacando-se, de forma global, sen-
timentos positivos manifestados pelos participantes do estudo quanto à sua perce-
ção sobre o território raiano que identifica os atributos da paisagem e natureza como
um dos principais atrativos do território.
EL ENVEJECIMIENTO COMO RETO ACTUAL:
ASPECTOS SOCIALES Y CULTURALES PARA
LA INVESTIGACIÓN CUALITATIVA

*
BORJA RIVERO JIMÉNEZ
*
LUIS LÓPEZ-LAGO ORTIZ
**
BEATRIZ MUÑOZ GONZÁLEZ
***
DAVID CONDE CABALLERO
***
LORENZO MARIANO JUÁREZ

1. EL ENVEJECIMIENTO COMO OPORTUNIDAD Y COMO


RETO
Los grandes avances en la historia de la humanidad han tenido como conse-
cuencia la mejora en la calidad de vida de muchas personas, pero también han
supuesto nuevos retos. Un ejemplo claro de ello es la actual tendencia demográ-
fica que apunta hacia unos mayores niveles de envejecimiento, sobre todo en las
sociedades occidentales. Las implicaciones sociales de esta dinámica poblacio-
nal son objeto de debate por su evidente impacto en aspectos como las relacio-
nes laborales, los sistemas sanitarios y asistenciales o la política de pensiones,
pero también en los modelos familiares o la construcción social de las emocio-
nes. Si, por un lado, la mayor longevidad es una consecuencia directa de la mejo-
ra de las condiciones de vida de la población, por otro lado, este envejecimiento
poblacional plantea toda una serie de retos a los que hay que hacer frente. Así
diferentes enfoques se han acercado a este fenómeno. Algunos discursos han
acentuado las características demográficas del envejecimiento de la población y
sus consecuencias negativas, en lo que Katz llamó "alarmist demography" (KATZ
1992). Otras perspectivas, como la inaugurada por Cohen, desde la disciplina

*
Personal Científico Investigador en el Departamento Ingeniería de Sistemas Informáticos y Telemáticos.
Escuela Politécnica. Universidad de Extremadura.
**
Profesora en el Departamento Dirección de Empresas y Sociología. Facultad de Formación del Profesorado.
Universidad de Extremadura.
***
Profesor en el Departamento de Enfermería. Facultad de Enfermería y Terapia Ocupacional. Universidad de
Extremadura.
242 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

antropológica, buscan situar críticamente la etapa adulta y el envejecimiento en


diversos contextos, sociedades y culturas, para aportar contextos explicativos
(COHEN 1994). Y más allá de las visiones alarmistas y aquellas contextualizado-
ras, la tendencia general de la investigación social señala que estamos ante el
gran reto de la salud pública contemporánea (BERRIO 2012; BLOOM et al. 2015;
THE LANCET 2017).
La OMS estima que en el año 2.050 más de 2.000 millones de personas
habrán superado los 60 años (OMS 2015). Este envejecimiento global se hace
más patente en los entornos rurales de los países occidentales donde la dismi-
nución drástica de la fecundidad, la emigración juvenil ligada a la escasez de
oportunidades o el escaso dinamismo laboral que atraiga población inmigrante
impide el reemplazo generacional (SCHARF, WALSH & O’SHEA 2016). Ejemplo
de ello son las regiones de Extremadura (España) y Alentejo (Portugal). En la
primera el índice de envejecimiento pasó del 39,47 de principios de la década
de los 80 a 125,49 en 2020, con un aumento por encima de los dos puntos
anuales en los últimos años (Instituto Nacional de Estadística, 2020). En el caso
de la segunda, el mismo índice creció de un 43,8 en 1980 a un 161,3 en 2019
(PORDATA 2020). Este notable envejecimiento junto a otras características so-
ciodemográficas como la dispersión de municipios, la emigración y la baja den-
sidad de la población ponen en el centro de las preocupaciones de los agentes
sociales, universidades y responsables políticos los cuidados a las personas
mayores (LÓPEZ-LAGO et al. 2020). Asimismo, la amenaza de insostenibilidad
de los sistemas de bienestar por la presión sobre los recursos económicos, es-
pecialmente la tensión en los sistemas de pensiones, y la inversión pública en
recursos sociosanitarios que conlleva el envejecimiento de las sociedades, con
la consecuente amenaza sobre los estándares de calidad de vida, ha estimula-
do la investigación multidisciplinar de los cuidados para las personas mayores
(RODRÍGUEZ CABRERO 2019).
En este contexto el Instituto Internacional de Investigación e Innovación del
Envejecimiento (4IE) busca desarrollar soluciones tecnológicas que ayuden a me-
jorar el bienestar de las personas mayores en los entornos rurales de las regio-
nes de Extremadura y Alentejo. El 4IE es un proyecto cofinanciado por el Fondo
Europeo de Desarrollo Regional (FEDER) a través del Programa Interreg V-A Es-
paña-Portugal (POCTEP) 2014-2020 [0045-4IE-4-P), que ha tenido su extensión
en el actual 4IE+ [0499 4IE PLUS 4 E]. Con una decidida vocación interdisciplinar,
el 4IE se ha conformado como un sólido espacio de encuentro entre diferentes
conocimientos y prácticas de investigación de las instituciones académicas más
prestigiosas de Extremadura y Alentejo. Así desde el año 2015 investigadores en
áreas tan diversas como la ingeniería informática, la enfermería, la terapia ocu-
pacional, la sociología o la antropología, procedentes de las Universidades de
Évora y de la de Extremadura, y de los Institutos Politécnico de Portalegre y Beja,
EL ENVEJECIMIENTO COMO RETO ACTUAL: ASPECTOS SOCIALES Y CULTURALES PARA LA INVESTIGACIÓN CUALITATIVA
243
Borja Rivero Jiménez, Luis López-Lago Ortiz, Beatriz Muñoz González, David Conde Caballero Lorenzo Mariano Juárez

además de la Administración Regional de Salud del Alentejo y de FUNDESALUD


(Junta de Extremadura), desarrollan su labor de forma coordinada a ambos lados
de la frontera (LÓPEZ-LAGO ORTIZ et al. 2020).
Uno de los logros más relevantes de este carácter interdisciplinar en el
proyecto 4IE ha sido poner al servicio de la investigación sanitaria y tecnológica
las herramientas de la investigación cualitativa que hace que las soluciones se
adapten de forma óptima al contexto sociocultural de los potenciales benefi-
ciarios del proyecto. Para ello se ha realizado una intensa labor de trabajo de
campo sustentado en entrevistas, grupos de discusión y observación partici-
pante, siguiendo los presupuestos básicos de la labor etnográfica (DÍAZ DE RADA
2006; GUBER 2011; HAMMERSLEY & ATKINSON 1994). Este abordaje cualitativo del
envejecimiento, la tecnología y la salud se ha focalizado en las siguientes líneas
de investigación que presentamos a continuación: los aspectos culturales de la
alimentación de las personas de edad avanzada, las aportaciones de la tecnolo-
gía para combatir la soledad de las personas mayores, las políticas públicas de
envejecimiento y el desarrollo del asistente de voz A.C.H.O. para el cuidado de
personas mayores.

2. LA ALIMENTACIÓN DE LAS PERSONAS MAYORES:


ASPECTOS CULTURALES
La dieta y la nutrición de los adultos mayores es uno de los principales retos
de la salud pública. En los últimos años se ha empezado a tener en cuenta como
un aspecto crucial en el desarrollo de políticas sanitarias en línea con las reco-
mendaciones de la Organización Mundial de la Salud y la Unión Europea (LOZANO
et al. 2019). En España, la "Estrategia Nacional de Personas Mayores para un
Envejecimiento Activo y para su Buen Trato 2018-2021" es un ejemplo de este
nuevo tipo de políticas que dotan de un protagonismo central a la alimentación
(INSTITUTO DE MAYORES Y SERVICIOS SOCIALES (IMSERSO) 2017).
Es en edades avanzadas cuando aparece un conjunto de riesgos para la salud
específicos asociados a la nutrición. Destacan las disfunciones en la masticación,
deglución y la ingesta de alimentos. Asimismo, se dan cambios en los hábitos
alimentarios que pueden propiciar un riesgo de obesidad como consecuencia
del deterioro en la calidad nutricional de los patrones dietéticos. A esto hay que
sumar el aislamiento social, y algunos hábitos asociados a la soledad. Por otra
parte, encontramos factores de tipo estructural relacionados con las dificultades
de abastecimiento y la calidad de los alimentos, especialmente en el mundo rural
(RIVERO et al. 2020a; RIVERO et al. 2020b).
La literatura especializada ha privilegiado el análisis biomédico de estas
cuestiones poniendo el foco en la malnutrición (BOULOS et al. 2016; MORILLAS
244 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

et al. 2006; VIEJO FERNÁNDEZ et al. 2017), la obesidad (ZAMBONI et al. 2005) o la
calidad de las dietas (HERNÁNDEZ & GOÑI 2015; MARTÍNEZ et al. 2020). Sin embar-
go las perspectivas que ahonden en los hábitos sociales y las representaciones
culturales de los adultos mayores no institucionalizados son muchos más esca-
sos (RIVERO JIMÉNEZ et al. 2019). Ante esta carencia de investigaciones con un
enfoque cultural, para entender las dimensiones de los problemas alimentarios
de las personas mayores, desde el 4IE se ha apostado por el enfoque etnográ-
fico, acercándose a las creencias, representaciones e ideología en torno a los
alimentos, bajo la premisa de que un mejor conocimiento de las preferencias ali-
mentarias ayuda a mejorar la calidad de vida de las personas de edad avanzada
(RIVERO et al. 2020a; RIVERO 2020b).
Los resultados del trabajo de campo desarrollado en torno a las ideologías
alimentarias han mostrado la preferencia de las personas mayores por los ali-
mentos y los métodos culinarios “tradicionales”, lo que en ocasiones entra en
conflicto con las recomendaciones sanitarias. También se han observado dife-
rencias en cuanto al género. Desde el 4IE se destaca la necesidad de contemplar
las dimensiones sociales y culturales de la alimentación de las personas mayores
y que éstas se incorporen a la planificación de las intervenciones en materia de
salud pública (RIVERO et al. 2020a)

3. APORTACIONES TECNOLÓGICAS PARA LA INVESTIGA-


CIÓN EN SOLEDAD DESDE LA PERSPECTIVA ETNOGRAFICA
La soledad es ya un importante problema de salud pública en las sociedades
modernas, con una perspectiva futura de agravamiento. La dinámica demográ-
fica de Alentejo y Extremadura se encamina hacia una población cada vez más
envejecida, que vive sobre todo en un medio rural, con poco o ningún contacto
intergeneracional, y conviviendo cada vez más con la soledad. La disminución
de las relaciones familiares, el aislamiento social y una menor participación en
actividades agradables, está vinculado con un empeoramiento de la salud de la
población y la calidad de vida. Necesitamos pues profundizar en la realidad más
allá de los números (RIVERO JIMÉNEZ et al. 2021).
Así desde el 4IE se persigue ahondar en la evidencia disponible -aún esca-
sa- sobre la densa realidad de la soledad en la población rural envejecida. Para
ello se ha diseñado un protocolo de investigación con una metodología mixta
(TASHAKKORI & CRESWELL 2007). Este protocolo se compone de tres tipos de her-
ramientas, cuantitativas, cualitativas y tecnológicas. Para las primeras, en el caso
de la investigación que nos ocupa, se ha elegido la Escala de Soledad De Jong
Gierveld, con preguntas de opción múltiple, respuestas fijas con un valor numé-
rico asociado y la identificación de los niveles de soledad o aislamiento social en
EL ENVEJECIMIENTO COMO RETO ACTUAL: ASPECTOS SOCIALES Y CULTURALES PARA LA INVESTIGACIÓN CUALITATIVA
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Borja Rivero Jiménez, Luis López-Lago Ortiz, Beatriz Muñoz González, David Conde Caballero Lorenzo Mariano Juárez

función de una puntuación final (de JONG-GIERVELD & KAMPHUIS 1985; de JONG-
-GIERVELD & VAN TILBURG 2010).
Siguiendo algunas de las críticas realizadas al reduccionismo de estas esca-
las cuantitativas (COMELLES et al. 2007; FLORES MARTOS & MARIANO JUÁREZ 2016;
LIZET VELIZ et al. 2012), el uso de herramientas cualitativas vendrá a cubrir el dé-
ficit señalado y a aportar marcos interpretativos detallados en sus dimensiones
social y cultural. Para ello se proponen las actuaciones básicas del planteamiento
de trabajo de campo etnográfico. En primer lugar, la observación participante,
a través de la cual poder registrar las prácticas asociadas a la interacción de
las personas mayores y la ausencia de ésta. En segundo lugar, las entrevistas
en profundidad que permiten acercarnos a las narrativas sobre soledad de los
sujetos de estudio a través de entrevistas semiestructuradas. Y, en tercer lugar,
las conversaciones informales que proporcionan un material empírico adicional.
Todo ello registrado en los diarios de campo (HAMMERSLEY & ATKINSON 1994; VE-
LASCO & DÍAZ DE RADA 2006).
Por último, las herramientas tecnológicas suponen un aporte innovador del
proyecto 4IE al estudio de la soledad. Los dispositivos que se propone utilizar
son las smartbands que se utilizan para dar seguimiento a los movimientos y
las interacciones con otras personas dentro del municipio (RECIO-RODRÍGUEZ et
al. 2019), y las aplicaciones para smartphones utilizadas para el seguimiento y
análisis de la calidad de la participación social de cada individuo. La base para
el funcionamiento de éstas serán los sensores Bluetooth que permitirán además
cartografiar la soledad en el municipio, detectando las zonas donde hay menos
interacción de las personas mayores pudiendo así determinar patrones espa-
ciales de interacción, identificar rutas o lugares populares entre las personas
mayores, etc. (RIVERO JIMÉNEZ et al. 2021).

4. POLÍTICAS PÚBLICAS DE ENVEJECIMIENTO


Dentro de una de las ejes de desarrollo del 4IE, centrado en políticas de
envejecimiento en el mundo rural se han abierto varias líneas de investigación
cuyos resultados aportan evidencias para la mejora de los recursos y servicios
de atención a las personas mayores y sus cuidadores. En este sentido destacan
los análisis del sistema de dependencia en España. El primero de ellos aborda
cómo el sistema de dependencia que atiende a las personas de edad avanza-
da ha enfrentado la pandemia de COVID 19, y propone algunos cambios en las
infraestructuras y la organización del modelo residencial, también en el marco
legislativo para blindar los presupuestos de las políticas de dependencia, y se
plantean los beneficios de la desinstitucionalización (LÓPEZ-LAGO ORTIZ et al.
n.d.). En segundo lugar, se han abordado los desafíos que enfrenta el sistema
246 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de dependencia ante la tecnologización de la sociedad, donde se concluye que


desde las administraciones públicas se tiene que apostar por las tecnologías que
facilitan la autonomía de los mayores y ayudan a los cuidadores. Para esto se-
ría muy positivo una adecuación del marco normativo a las nuevas realidades
tecnológicas. Además, una mejora de los procesos de la e-administración en el
ámbito de la dependencia contribuiría a incrementar la calidad de la atención de
los mayores dependientes (LÓPEZ-LAGO ORTIZ et al. 2021b).
Otra de las líneas de investigación ha profundizado en las posibilidades de
formación para personas cuidadoras informales que se ocupan de los mayores
dependientes. El IMSERSO destaca que nos encontramos ante un sector muy
numeroso (Instituto de Mayores y Servicios Sociales (IMSERSO), 2005), donde
la persistencia del modelo familista de cuidados (MORENO-COLOM et al. 2017) y
los altos índices de desempleo propician la continuidad de la informalidad y el
desarrollo de las tareas de cuidados en el ámbito de la economía sumergida (SPI-
JKER & ZUERAS 2020). En el trabajo se han identificado los principales perfiles de
cuidadores informales en España y se han establecido los patrones principales
en cuanto acceso, uso y preferencias sobre las tecnologías de la comunicación.
De esta labor de análisis se ha concluido que las aplicaciones de mensajería
instantánea son las herramientas óptimas para hacer llegar contenidos sobre
cuidados de las personas mayores a los cuidadores informales. Además se reali-
za una propuesta para que estos contenidos puedan tener un formato adecuado
para la formación y sean adoptados por las administraciones públicas con objeto
de mejorar la cualificación del colectivo de cuidadores informales para los que
es particularmente difícil acceder a una formación reglada (LÓPEZ-LAGO ORTIZ et
al. 2021a).
Asimismo, dentro de esta línea se está realizando una investigación de tipo
cualitativo sobre las políticas municipales de cuidados a las personas mayores en
el ámbito rural y su respuesta ante la COVID 19. Esta tiene como objeto identificar
las actuaciones llevadas a cabo desde los ayuntamientos de municipios de me-
nos de 2.000 habitantes en el entorno rural y con altos índices de sobreenveje-
cimiento (>84), relacionadas con los cuidados de las personas de edad avanzada
durante la pandemia. Para ello, a través del trabajo de campo etnográfico se
ha profundizado en las estrategias discursivas y las categorías que operan en
las culturas políticas de los responsables de la administración municipal. Dicho
trabajo en el terreno se ha realizado bajo los presupuestos de la lógica etnográ-
fica (HAMMERSLEY & ATKINSON 1994) mediante entrevistas semiestructuradas (a
responsables políticos) y sin estructurar (a técnicos y usuarios de los recursos y
servicios de atención a mayores), y la observación directa de sus actividades en
el entorno de los cuidados a las personas de edad avanzada. La investigación
actualmente se encuentra en su fase de análisis de datos.
EL ENVEJECIMIENTO COMO RETO ACTUAL: ASPECTOS SOCIALES Y CULTURALES PARA LA INVESTIGACIÓN CUALITATIVA
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Borja Rivero Jiménez, Luis López-Lago Ortiz, Beatriz Muñoz González, David Conde Caballero Lorenzo Mariano Juárez

5. ASSISTANT ON CARE ON HEALTH OFFLINE: UNA SO-


LUCIÓN TECNOLÓGICA DESDE LA INVESTIGACIÓN CUALI-
TATIVA
El contexto de envejecimiento creciente de la población se relaciona de ma-
nera directa con el incremento de la prevalencia de las enfermedades crónicas
y los problemas asociados (MARENGONI et al. 2008). Entre éstos, la literatura ha
subrayado la cuestión de las dificultades para una correcta adherencia terapéu-
tica y la polimedicación (PESANTE-PINTO 2017; ROSTED et al. 2016), hecho que se
agudiza en el contexto rural (RONCORONI et al. 2019; TUESCA-MOLINA et al. 2006) .
Con objeto de mejorar la adherencia terapéutica de la población mayor en
Extremadura y Alentejo, desde el 4IE se ha diseñado un asistente de voz que ha
sido bautizado con el nombre de Assistant on Care and Health Offline (A.C.H.O).
Para su desarrollo se ha contado con la colaboración de un equipo interdiscipli-
nar compuesto por informáticos, enfermeros y antropólogos. A través de dife-
rentes herramientas y técnicas de investigación cualitativa se interacciona con el
objeto de estudio in situ, esto es, en los domicilios de las personas mayores. Se
intenta con ello, a partir de sus propias definiciones y experiencias, comprender
cuáles son las principales problemáticas en torno a la salud que les afectan en
un contexto tan particular como es el medio rural. El trabajo de campo prestó
atención a las prácticas sociales vinculadas al manejo de la medicación prescrita,
centrándose en las estrategias que los pacientes empleaban para cumplir con las
prescripciones y las problemáticas detectadas. Bajo estos supuestos se concluyó
que las principales funciones de A.C.H.O. debían de ser de recordatorio, tanto
para la ingesta de medicamentos, como para las citas médicas (CONDE-CABALLE-
RO et al. 2021).
Una de las ventajas de A.C.H.O. surgidas del conocimiento en profundidad
del territorio por el trabajo de campo, es su adaptación al contexto y la realidad
de las personas mayores en el entorno rural. Muchas de ellas no tienen contrata-
da conexión a internet por falta de interés, escasa alfabetización digital, escasos
recursos económicos o porque muchas zonas carecen de cobertura 3G/4G. Por
ello el dispositivo se ha fundamentado en un asistente de voz tipo Snips (COUCKE
et al. 2018). La principal particularidad de esta plataforma Open Source es que
es capaz de funcionar sin conexión Cloud o remota, manteniendo la información
de manera local en el dispositivo. Así el funcionamiento es independiente de la
conexión a internet y la sincronización se hace mediante Bluetooth.
El personal sanitario o el cuidador del anciano introducirán la información ne-
cesaria en el dispositivo. Posteriormente, gracias a la sincronización, el disposi-
tivo realizará los recordatorios de toma de medicamentos y visitas médicas a las
personas mayores usuarias de A.C.H.O. Además, el dispositivo está diseñado con
248 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

una gran capacidad de personalización, permitiendo identificar los medicamen-


tos con los nombres que habitualmente utilizan los usuarios, o con la posibilidad
de cambiar la voz del asistente por una de una persona conocida. Y actualmente
se está trabajando en la idea de una relación de avisos a través de smartbands
que se conectan al asistente y que avisen al usuario de que se ha producido un
recordatorio, para que se esté atento cuando vuelva a iniciarse, y así evitar los
descuidos. Asimismo, el trabajo de campo ha puesto de manifiesto la importan-
cia que tiene la televisión en el uso social del espacio doméstico. Bajo esta idea
se está trabajando en una integración de A.C.H.O. con los televisores en local
para conseguir mensajes de video para los recordatorios (CONDE-CABALLERO et
al. 2021).

6. CONCLUSIONES
Durante los últimos años el Instituto Internacional de Investigación e Innova-
ción del Envejecimiento (4IE) se ha consolidado como un espacio interdisciplinar
de colaboración entre instituciones de Alentejo y Extremadura. La apuesta deci-
dida por una investigación cercana a las necesidades de la población mayor de
los entornos rurales ha propiciado que las soluciones tecnológicas, sanitarias o
en materia de políticas públicas, surjan de un profundo estudio de las relaciones
sociales, económicas y culturales. Por ello el trabajo de campo etnográfico ha
nutrido las investigaciones sobre alimentación, soledad, políticas públicas y dis-
positivos tecnológicos especializados en las personas de edad avanzada.
Hasta el momento los resultados obtenidos bajo la perspectiva de la investi-
gación cualitativa están siendo muy satisfactorios en tanto en cuanto han permi-
tido realizar diseños, ya sea de dispositivos o de políticas, muy apegados a las
necesidades reales de la población. Además, algunos de los investigadores del
4IE han visto reconocida su labor con premios como los concedidos por el Cen-
tro de Estudios Ibéricos, la Asociación Portuguesa de Antropología o el Colegio
de Enfermería de Cáceres. Asimismo, dispositivos como A.C.H.O han suscitado
un amplio interés social y la atención de los medios de comunicación. Por todo
ello desde el 4IE se afronta el futuro con optimismo en cuanto a la continuidad
de su labor científica con una clara orientación hacia la intervención social para
mejorar la calidad de vida de las personas mayores en Extremadura y Alentejo.

FINANCIACIÓN
Esta investigación ha sido financiada por el Programa Interreg V-A España-
-Portugal (POCTEP) 2014-2020, Proyecto 4IE+ [0499 4IE PLUS 4 E].
EL ENVEJECIMIENTO COMO RETO ACTUAL: ASPECTOS SOCIALES Y CULTURALES PARA LA INVESTIGACIÓN CUALITATIVA
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Borja Rivero Jiménez, Luis López-Lago Ortiz, Beatriz Muñoz González, David Conde Caballero Lorenzo Mariano Juárez

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RESUMEN
El envejecimiento paulatino de la población de los países desarrollados plantea enor-
mes retos en cuanto a la sostenibilidad de los sistemas de salud y cuidados, que se
ven cada vez más fuertemente tensionados. Este fenómeno se hace particularmente
notable en terri-torios como Extremadura (España) y Alentejo (Portugal), donde ade-
más del envejecimien-to de la población, la emigración o la dispersión poblacional
plantean severos problemas a los sistemas que proporcionan bienestar a las perso-
nas de edad avanzada. Frente a estos desafíos el Instituto Internacional de Investiga-
ción e Innovación del Envejecimiento (4IE) propone soluciones tecnológicas basadas
en un conocimiento profundo de las relaciones socioeconómicas y culturales de sus
potenciales beneficiarios, y donde la investigación cualitativa tiene un protagonismo
central. Así mediante el trabajo de campo etnográfico se han abordado investigacio-
nes sobre la alimentación y la soledad en las personas mayores, las políticas públicas
en materia de dependencia, la formación de los cuidadores informa-les y los disposi-
tivos tecnológicos para la adherencia terapéutica. Con unos resultados satisfactorios,
el 4IE afronta los retos del envejecimiento rural con optimismo y con la convicción de
que el trabajo interdisciplinar es particularmente enriquecedor a la hora de buscar
soluciones para mejorar la calidad de vida de las personas de edad avanzada.
EL ENVEJECIMIENTO COMO RETO ACTUAL: ASPECTOS SOCIALES Y CULTURALES PARA LA INVESTIGACIÓN CUALITATIVA
253
Borja Rivero Jiménez, Luis López-Lago Ortiz, Beatriz Muñoz González, David Conde Caballero Lorenzo Mariano Juárez

PALABRAS CLAVE
Envejecimiento; Investigación cualitativa; Gerontecnología; Soledad; Alimentación;
Políticas públicas.

ABSTRACT
The gradual ageing of the population in Western societies poses enormous challen-
ges to sustainability of health and care systems, which are increasingly under strain.
This phenomenon is particularly remarkable in areas such as Extremadura (Spain)
and Alentejo (Portugal), where, in addition to population ageing, emigration and po-
pulation dispersion pose severe problems for the systems that provide welfare for
the elderly. Faced with these challenges, the International Institute for Research and
Innovation in Ageing (4IE) proposes technological solutions based on an in-depth
knowledge of the socio-economic and cultural relations of the potential beneficiaries,
and where qualitative research plays a central role. Thus, through ethnographic fiel-
dwork, research has been carried out on nutrition and loneliness in the elderly, public
policies on dependency, the training of informal carers and technological devices for
therapeutic adherence. With satisfactory results, the 4IE faces the challenges of rural
ageing with optimism and with the conviction that interdisciplinary work is particular-
ly enriching when seeking solutions to improve the quality of life of the elderly.

KEY WORDS
Ageing; Qualitative research; Gerontechnology; Loneliness; Food; Public policies.
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO
PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE
REINVENÇÃO DOS RECURSOS

*
INÊS ALVES
**
LARA PLÁCIDO

I.
Impact é um sistema construtivo que surge em Cabo Verde derivado de pro-
blemáticas que a sensibilidade inerente à prática da arquitectura colocam em
evidência: a questão da habitação e da dignidade de vida; o hiato económico/
social/humano existente; a demanda construtiva em alguns dos sectores; a ade-
quação e sustentabilidade das próprias tecnologias construtivas, etc. Tudo isto, a
par da ausência de sistemas de tratamento dos resíduos sólidos urbanos no país.
Para além desta sensibilidade ― que se descreve como basilar na formação
em arquitectura ― concorre igualmente um olhar estrangeiro, composto por dois
pares de olhos que dão corpo a duas bagagens distintas de uma dupla de por-
tuguesas que apesar de oriundas da mesma cidade ― o Porto ― é na ilha de São
Vicente, em 2015, que se conhecem e onde chegam para leccionar no ensino
1
superior.
Ao longo dos anos, são debatidas questões fundamentais muito próprias
de quem reside numa cidade portuária como a do Mindelo ― São Vicente ― e
que assiste a uma transformação que diríamos ser profunda; uma reconversão
que se dirige, inevitavelmente, para o turismo de massas e para uma expressiva
gentrificação do território dividindo-se drasticamente entre uma zona que apa-
rentemente se quer tornar nobre, voltada para a baía do Porto Grande ― ainda
que isso implique o rompimento de uma relação profunda das suas gentes com
o mar, acarretando assim, uma descaracterização material e imaterial da sua
história ― que se contrapõe com a extensa periferia em torno da cidade. De ano
para ano, assistimos à construção de hotéis no lugar de edifícios centenários e

*
inesteixeiraalves@gmail.com
**
laraplacido@hotmail.com | projetoimpact.org
1
Nos cursos de Arquitectura, Design e Construção Civil Sustentável da M_EIA Instituto Superior em Arte,
Tecnologia e Cultura, dirigida por Leão Lopes, fundador da ONG Atelier Mar.
256 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de praças no centro da cidade. Para lá dos limites desta, víamos o território ex-
pandir-se: casinhas de lata a propagarem-se pelas encostas; outras casinhas de
lata a reconverterem-se em grandes volumetrias em bloco de cimento.
Enquanto arquitectas, o hiato económico/social/humano estava estampado
naquelas encostas não infraestruturadas, batidas pelos ventos severos e cons-
tantes, na histórica falta de chuva a que este território esteve desde sempre
sujeito ― e que se reconverte em enxurradas, aluimentos e perdas materiais e
humanas sempre que chove ― bem como à necessária sujeição da camada pre-
dominante da população a trabalhos altamente precários e sem qualquer tipo de
protecção social.
Foi neste contexto que assistimos ao desabamento de terras na zona do La-
2
zareto, em 2018, num território conhecido pela extração massiva de inertes para
a construção. Do acidente ― que originou dois mortos ― resultou a concessão
por parte Câmara Municipal de São Vicente à sua exploração e que, apesar da
ilegalidade da prática em território nacional, passa a poder controlar a extração
de forma proveitosa; em troca, promete uma maior segurança na actividade. Pa-
ralelamente, no interior de São Vicente, zona de Iraque, na lixeira municipal são
queimados diariamente os resíduos sólidos urbanos recolhidos por toda a ilha.
2020 e a pandemia mundial por COVID-19 agravava a situação económica
das ilhas, onde cerca de 20% do seu Produto Interno Bruto assenta no sector
do turismo e onde são altamente expressivas as actividades ligadas à econo-
mia informal. O isolamento social e a necessidade de “ficar em casa” levantava
3
questões que nos pareciam fundamentais. Que casa era essa, se tivéssemos
4
em atenção a maioria expressiva da população do país, e que economia familiar
era essa também, para quem ficar em casa implicava prescindir de ganhar o pão
5
do dia.
6
Pela ocasião da URDI2020, concorríamos com uma peça de design de nome
“impact” para a exposição Lossguia Salão Created in Cabo Verde, e que consistia
num elemento construtivo. O seu nome derivava da forma como dizemos impac-
to em crioulo e, foneticamente, também nos remete para um domínio ambiental.

2
Areia e cascalho.
3
“A revolução industrial acelerou o desenvolvimento das tecnologias e das culturas de conforto no último
século (...) não puderam, até agora, e, por si só, resolver o problema da habitação no planeta. Antes pelo
contrário, o seu impacto mede-se hoje pelo peso das grandes concentrações urbanas e pelos graves
desequilíbrios sociais e ambientais gerados pelos sistemas urbanos adoptados.”, in LOPES, Leão (2001)
Manual Básico de Construção (Guia Ilustrado para a Construção de Habitação). Ministério das Infraestruturas
e Habitação. República de Cabo Verde; p.13.
4
O primeiro caso de COVID19 em Cabo Verde aconteceu na ilha da Boa Vista, tendo desencadeado um cerco
sanitário em torno do bairro da Boa Esperança. É neste bairro de lata que uma grande parte dos funcionários
dos resorts da ilha residem.
5
O ordenado mínimo encontra-se afixado no país em 13 mil ECV, cerca de 117€. A economia informal permite
complementar o rendimento familiar e, muitas das vezes, é daí exclusivo.
6
Feira do Artesanato e Design de Cabo Verde, evento anual que acontece na ilha de São Vicente.
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
257
Inês Alves, Lara Plácido

Conscientes da realidade singular que descrevíamos e para dados que nos


alertam para que cerca de 60% dos recursos mundiais sejam consumidos pela
indústria da construção (EDWARDS 2009) tratou-se de uma oportunidade para
reflectirmos sobre como se tem vindo a construir, nomeadamente neste território
insular.
Deste modo, propusemos um bloco de cimento maciço de 20’ ― à semelhan-
ça do bloco tradicional produzido em Cabo Verde ― e de encaixe, no sentido de
contribuir com um maior rigor para a construção e autoconstrução predominan-
tes. Essa característica permitia-lhe, ainda, dar resposta ao método tradicional
de construção em junta seca, que se caracteriza pela “construção de paredes
sem o uso de argamassa na ligação das pedras”, tratando-se necessariamente
de “uma técnica que requer uma boa execução no travamento das pedras.”
(TEIXEIRA & BELÉM 1998)
Para além desses atributos, foi proposto que impact tivesse na sua com-
posição plástico e/ou vidro triturado, de modo a prolongar ciclos de vida dos
resíduos sólidos urbanos ― que como sabemos, são altamente nocivos para o
meio ambiente e, com a agravante de que 99% do território cabo-verdiano é
7
composto por mar ― bem como, reduzir o impacte da construção na natureza,
se seguirmos a lógica de que essa matéria prima triturada possibilita reduzir a
percentagem de inertes necessários na produção dos elementos construtivos.
À falta de métodos sistematizados para o tratamento dos resíduos sólidos ur-
banos no país, juntava-se-lhe o facto de cerca de 80% dos bens de consumo des-
te território serem importados. Isto leva-nos a reflectir sobre o impacto da des-
cartabilidade neste território tão extenso de mar ― mas com ilhas tão pequenas
― e onde ainda não foram promovidas políticas de consciencialização decisivas
para o consumo responsável e o respeito pela natureza. Por outro lado, as taxas
de importação denunciam uma fragilidade de recursos tal, que uma vez mais,
desdemocratiza o acesso à habitação, através de tecnologias construtivas que
se veem tipificadas no território e às quais grande parte da população não con-
segue aceder, que tanto acontece devidos aos seus custos inerentes, bem como
deriva da condição de um país que para além de depender dos bens importados,
8
nada exporta. É à luz desta condição singular das ilhas que surge a motivação
de contar com os resíduos sólidos urbanos como matéria prima disponível.
É neste contexto em que surge o “impact” e, ao avançarmos com o projecto,
procurámos ir de encontro ao cerne da questão: a dignidade de vida e de trabalho.

7
Em 2016, saiu um estudo em como, no ano de 2050, os oceanos terão mais plástico do que peixes.
8
“A condição insular de Cabo Verde conduz a uma realidade de construção muito particular. O isolamento das
ilhas leva a custos de importação muito elevados. Por isso, a medida indispensável é a auto-suficiência. Os
altos custos de importação poderão ser a motivação para produzir e conduzir naturalmente a soluções mais
viáveis em termos ecológicos e de respeito ambiental.” in Arquitectura Sustentável em Cabo Verde (Manual
de Boas Práticas). CPLP Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Coord. Manuel Correia Guedes. p.13
258 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

As distinções concedidas com Prémio IIT2020 do Centro de Estudos Ibéricos


na modalidade “Inovação em territórios de baixa densidade” e seleção como
projecto satélite da Porto Design Biennale, permitiu avançar com uma nova rami-
ficação do impact, assumindo-se como participativo e abordando directamente
uma comunidade no interior da ilha de Santiago onde as suas mulheres, ao longo
das últimas gerações, têm subsistido quase que exclusivamente da extração de
inertes para a construção civil.

II.
Fig. 1. As ilhas de Cabo Verde. (SCHLEY BELLIN 1758)

Cabo Verde é um arquipélago situado a cerca de 500 km da costa do Senegal


e composto por 10 pequenas ilhas, as ilhas do sotavento ― Brava, Fogo, Santiago
e Maio ― e as ilhas do barlavento ― Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São
Nicolau, Sal e Boa Vista.
Em 1460, as embarcações portuguesas atracavam na ilha de Santiago, pouco
menos de 40 anos após terem descoberto a ilha da Madeira. Ao contrário des-
ta, também fenómeno de povoamento, neste caso assistiu-se à sua exploração
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
259
Inês Alves, Lara Plácido

como entreposto comercial para venda de escravos, retirando assim partido da


sua localização estratégica em relação aos continentes africano, americano e
europeu. “O desencadear do fenómeno urbano ocorreu inicialmente no litoral
do território, em pontos específicos que detinham uma vocação portuária e ofe-
reciam às embarcações uma natural condição abrigada. (...) Foi esta condição,
esta dinâmica de interface pluricultural e comercial de fundação portuária que
distinguiu a origem da cidade em Cabo Verde. (...) Durante os séculos XV e XVI o
povoamento de Cabo Verde fez-se nas ilhas de Santiago e do Fogo, com fixação
de pequenos núcleos de povoamento concentrado em áreas litorais que permi-
tiam a aproximação das embarcações.” (PADRÃO 2016: 15)
O povoamento de Cabo Verde acabou por se cumprir em períodos diferentes,
isto se considerarmos os dois grupos do arquipélago, tendo acontecido inicial-
mente no sotavento e só posteriormente no barlavento. Os núcleos populacio-
nais que daí advieram conferiu-lhes particularidades provenientes de uma certa
sazonalidade característica dos aglomerados portuários ― enquanto pontos de
partida, de chegada e de passagem ― resultando numa mesclagem de profunda
multiculturalidade.
Ao longo dos 500 anos de povoamento, Cabo Verde assistiu a profundas cri-
9
ses derivadas de extensos períodos de estiagem, em muito documentados nos
Boletins Oficiais a que temos acesso, ainda que sejam conhecidas as tentativas
em apagar da história o estado de esquecimento em que a metrópole foi colo-
cando a província de Cabo Verde, como é o caso do ex-ministro das colónias,
Bacelar Bebiano, que escrevia serem “As crises cabo-verdianas (...) manchas
10
negras que é preciso limpar da história do ultramar português.”
A dureza do seu microclima, em muito influenciado pela proximidade ao de-
serto Saara levou a que desde sempre se tenha questionado a subsistência do
território, desde Chevalier, que no início da década de 1930 profetizava sobre
“a possibilidade de as ilhas de Cabo Verde poderem vir a perder a maior parte
da sua cobertura vegetal (...) devido à profunda alteração do clima e à erosão
(...) dos solos devido à acção desgastante dos fortes ventos quentes do deser-
11
to” , até Freyre, que em 1952 referia a tese defendida por inúmeros estudiosos

9
“Cabo Verde atravessa, uma vez mais, ao longo da sua história de 5 séculos, um período difícil, de prolongadas
secas e consequente crise da produção agrícola, com extensão sem precedentes conhecidos, agravada pelo
explosivo crescimento populacional, com um excedente demográfico superior a 100 mil habitantes. (...) A
população está confiante e tranquila porque sabe que o indispensável apoio não lhe faltará. Trabalha com
coragem, resignação e fé em dias melhores. Coragem, resignação e fé que aqui fixaram à terra os seus
antepassados, lutando e vencendo as dificuldades duma natureza plena de contrastes. Acrescentam-lhe
hoje uma certeza, o saberem que podem continuar a viver tranquilos e que não lhes faltará o essencial.”
in SANTOS, António Lopes. (1970). Problemas de Cabo Verde - Situação Controlada. Agência do Ultramar.
Lisboa. p.72
10
Sobre a Situação em Cabo Verde, Relatório do PAIGC (apresentado ao Comité de Descolonização da ONU, a
29 de Março de 1974 em Nova Iorque por Abílio Duarte) Editora Sá da Costa. Lisboa. (p.21)
11
CARREIRA, António (1984) Cabo Verde (Aspectos sociais, Secas e Fomes do século XX) Ulmeiro. Lisboa. (1977;
260 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

em como “não há futuro para Cabo Verde.” (FREYRE 1952: 238) Em 1967, o au-
tor português e com fortes ligações a Cabo Verde, Manuel Ferreira, elencava
uma sucessiva listagem de conhecidas críticas a Portugal com base no estado
de esquecimento desse território insular: “António Pusich em 1808. Chelmichi
em 1841. Emmanuel Friedlander em 1914. João de Almeida em 1925. Humberto
Duarte Fonseca em 1961. Cada um a seu modo operou a denúncia e apontou
caminhos para a solução da miséria em Cabo Verde. E quantos o não fizeram
antes? Antes e depois?” (FERREIRA 1967: 28)
A história de Cabo Verde recorda-nos a forma como Portugal se foi descui-
dando de intervir no momento em que o território passou a deixar de dar retorno
financeiro, factor impulsionado com a abolição da escravatura, altura a partir
da qual deixou de ser possível uma exploração do terreno através do algodão
12
que, por exemplo, era produzido e tecido com recurso a mão de obra escrava.
Mesmo nos longos períodos de estiagem que, devido à fragilidade socioeconó-
mica resultou em duras épocas de fome, a metrópole foi intervindo no sentido
da construção de estradas, empregando a população subnutrida com um custo
de mão de obra irrisório ou, então, promovendo a imigração para São Tomé para
onde massas populacionais partiam com contratos miseráveis e onde acabavam
por regredir na sua condição humana, devido ao tratamento escravocrata que
recebiam nas roças do Sul.
13
A fragilidade das estruturas socioeconómicas do país advêm desta irregu-
laridade que oscilou entre o modelo escravocrata e o abandono latente, isto, a
par de um microclima muito particular em que “as secas (...) umas prolongadas,
outras curtas, são causadas por fenómenos atmosféricos influenciados pelo
deserto Sahara, cuja superfície tem aumentado assustadoramente nas últimas
décadas (...) daí que se possa falar da saharização da própria área costeira do
continente africano (...) dentro de algumas gerações a zona costeira será atingi-
14
da pela desertificação.” (CARREIRA 1977: 129-130)

132)
12
“A cultura do algodão começou a fazer-se na ilha de Santiago logo a que esta chegaram os primeiros
colonos italianos com pretos da Guiné. No século XV já se exportava bastante e no século XVI os navios
iam recebê-lo também à ilha do Fogo, onde já se tratava da sua cultura a larga escala. Era com o algodão
cultivado ali durante aqueles séculos e posteriores que se fabricavam milhares de panos, com os quais
se adquiriam por compra negros da Guiné.”, in Barcelos, Cristiano José de Senna. (1912). Subsídios para a
História de Cabo Verde e Guiné. Tipografia da Academia Real das Ciências. Lisboa
13
“As infra-estruturas económicas foram desde sempre (...) extremamente débeis.” in CARREIRA, António. (1984)
Cabo Verde (Aspectos sociais, Secas e Fomes do século XX) Ulmeiro. Lisboa. p. 182
14
“Degradação do ambiente climático: notória irregularidade das chuvas; avançado processo de erosão das
terras provocadas pelas enxurradas (quando chove) e pela acção dos ventos, facilitada pela ausência de
cobertura vegetal do solo (desarborização progressiva). Do fenómeno tem resultado a perda das melhores
camadas de terras, arrastadas para o mar pelas enxurradas ou pelos desnudamentos das encostas e montes
devido às fortes ventanias em certos períodos do ano.” Ibidem, p.189
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
261
Inês Alves, Lara Plácido

A emigração teve, igualmente, um papel decisivo na história resultando numa


diáspora aos dias de hoje profundamente expressiva e popularmente conheci-
da pela 11ª ilha do país, dado o seu significado quer em termos de quantidade,
quer na sua importância para a economia do arquipélago, que contribui através
das visitas regulares, gerando um consumo incrementado pelo poder de compra
proveniente do estrangeiro, quer através das remessas regulares em dinheiro e
géneros que a tradicional família cabo-verdiana tende a receber de familiares
residentes no exterior.
Esta emigração, que antes de São Tomé acontecia em grande parte para a
América ou para a Europa através do Porto Grande na ilha de São Vicente, era
quase que exclusivamente masculina, coincidindo com a oportunidade de traba-
lho nas grandes embarcações que aí aportavam. Este aspecto, veio provocar um
expressivo desequilíbrio social no qual passou a existir um acentuado predomí-
15
nio de mulheres em relação a homens. Talvez seja nesse predomínio social ― e
histórico ― que assenta o papel feminino que ainda hoje é conferido à mulher
cabo-verdiana e que, igualmente, transcorre de um abandono parental latente,
seja derivado da migração, emigração, ou apenas desinteresse. Essa tendência
resultou num modelo no qual cerca de 30,2% das famílias monoparentais se
fazem representar por mulheres, contra apenas 6,5% de famílias chefiadas por
homens. (INE 2017)
No entanto, será de referir que essa tendência em nada se assemelha a um
papel emancipador da mulher, antes pelo contrário. Continuamos a assistir a uma
perspectiva de vida muito aquém daquilo que seria o ideal, em que “as mulheres
das ilhas crescem com poucas perspectivas e reproduzem o modelo atávico de
mãe que, neste contexto, adquire importância particular e é transmitido através
das gerações.” (ALVES & PEKALA 2018: 109) A tendência que ainda prevalece para
casos de gravidez prematura e o baixo poder de compra acabam por condicionar
em grande parte a vida das jovens mulheres do país, nomeadamente aquelas
que habitam nas localidades mais isoladas do seu território.
Segundo o Inquérito Demográfico e de Saúde Reprodutiva “19% das jovens
entre os 15-19 anos já iniciou a vida fecunda: sendo que 15% já têm pelo menos
um filho e 4% está grávida pela primeira vez. Aos 17 anos, cerca de 1 adolescente
em cada 5 já começou a vida reprodutiva (18,7%), e aos 19 anos, esta proporção é
de 39%, sendo que a maioria já teve pelo menos um filho (33,9%).” (INE 2008: 39).
Por outro lado, se considerarmos as taxas de alfabetização em indivíduos
com idade maior ou igual a 15 anos, esta é de 86,5%, dos quais 91% são homens
e 82,1% são mulheres; ou seja, à luz do seu género, no que toca à alfabetização,
existe uma disparidade de 9% entre os grupos. Podemos referir, ainda, que no
interior da ilha de Santiago, no concelho de Santa Catarina, 10,3% das pessoas

15
Ibidem, p.122.
262 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

nunca frequentou nenhum estabelecimento de ensino. (INE 2015) Nos contextos


mais isolados do território, o acesso à escola depende do custo de transporte às
principais cidades, onde se localizam as principais instituições de ensino, tradu-
zindo-se facilmente em 3 mil ECV ― cerca de 27€ ― o que inevitavelmente pesa
muito no orçamento familiar. Ou seja, se avaliarmos esta perspectiva de vida com
base na escolaridade, será fácil argumentarmos que quem fica mais afastado
das infraestruturas e equipamentos, sairá, inevitavelmente, mais prejudicado.
O ordenado mínimo afixado em 2016 nos 13 mil ECV ― ultrapassando a bar-
reira anterior dos 11 mil ECV, actualizando assim, dos 100€ para os 117€ ― implica
um enorme desdobramento dos indivíduos e das famílias, nomeadamente quan-
do se assistem aos casos de monoparentalidade, e onde o papel do homem se
anula.
Em 1977, António Carreira referia que “a mulher tem a sua acção definida, so-
bretudo no tocante à orientação e educação dos filhos, (...) às lides da casa, car-
reto de água, apanha da lenha, auxílio nos trabalhos da lavoura, vigia do gado,
16
criação de porcos e de aves, etc.” Podemos, no entanto, afirmar que pouco da
condição da mulher se alterou desde esse período para cá, principalmente nos
meios mais isolados do território.
As tentativas para a igualdade e equidade de género avançam em Cabo Ver-
de em muito impulsionadas pelo clima de pós-independência de 1975. O ponto
de viragem acontece principalmente ao nível da emigração que deixa de ser
17
exclusivamente uma condição à qual apenas os homens podem aceder ― isto,
obviamente se não considerarmos a vaga de emigração para São Tomé, para
onde também as mulheres saiam do país contratadas para as roças no Sul, ainda
que por valores muito abaixo dos contratos feitos com os homens, ou por outro
18
lado, para a costa africana, nomeadamente para Dakar.
A condição da mulher no arquipélago, ainda que tenha conhecido momentos
19
importantes na sua história ― como é o caso da revolta de Ribeirão Manuel
― acaba por ser em grande parte fruto também da sua origem escravocrata,
tal como é referido por Eurídice Monteiro (2016) “na sociedade cabo-verdiana
colonial predominaram as uniões livres entre colonizadores e escravos sem o
reconhecimento da Igreja, mas toleradas pela sociedade. A partir dessa reali-
dade a família nuclear era constituída pela mãe e pelos filhos sendo o pai uma

16
Ibidem, 156-157.
17
“As mulheres cabo-verdianas deixaram de ter o estatuto secundário nas migrações. (...) As mulheres têm
tido um papel fulcral na consolidação das dinâmicas migratórias transnacionais.” in As Mulheres em Cabo
Verde: Experiências e Perspectivas, Conferência Internacional, Relatório Síntese. Praia. 2010. p.21
18
“terra grande onde os cabo-verdianos viviam bem, quase como os franceses, com trabalho fácil, bastava ver
as encomendas que mandavam aos familiares” in Almeida, Germano. (2001). As Memórias de um Espírito.
Ilhéu Editora. Mindelo. p. 216
19
Uma revolta protagonizada pelas mulheres da localidade contra as relações laborais e as condições de
sobrevivência na época colonial, no ano de 1910.
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
263
Inês Alves, Lara Plácido

20
presença circunstancial. À mulher cabia a sobrevivência dos filhos.” Ou seja,
a forma como as relações em torno do género se desenvolveram, foram edifica-
das com base nas figuras do colonizador e do colonizado, bem como em torno
da imagem patriarcal, modelo no qual também a igreja acabou por concorrer, e
onde a mulher na sua condição de subjugada e inferior se viu inevitavelmente
afectada. Por consequência, podemos verificar que “a autoridade do homem
estende-se a todos os níveis da vida social, pública e privada.” (QUEIROZ 2010:
21
35) E esta é uma realidade que se estende até aos dias de hoje. No relatório da
Conferência Internacional “As Mulheres em Cabo Verde: Experiências e Perspec-
tivas” realizada na cidade da Praia em 2010 é referido que “o princípio da igual-
dade de direitos entre homens e mulheres não passa de uma mera formalidade.
Na prática, as mulheres continuam alvos de discriminação social (...) A mulher
continua tendo uma fraca participação política e social, não só pelo facto de ser
22
excluída do sistema político mas, sobretudo, por se auto excluir do mesmo.”
A falta de perpectiva de vida tem uma dimensão que lhe é transversal, e que
tal como víamos, se estende entre a baixa escolaridade, subjugação a relações
fugazes pelo entendimento da realização pessoal por meio exclusivo da materni-
dade, cumprimento da função de chefe de família sem que as condições mínimas
de trabalho, de habitabilidade, ou de vida em geral sejam cumpridas, etc. Com a
agravante de que toda esta condição se assume por herança geracional que se
23
perpetua entre mães e filhas, avós e netas.
A emigração confirma-se como um formato de ruptura a esse modelo que
tende a existir de forma generalizada ― não só nos principais núcleos urba-
24
nos, como também nos meios mais isolados. Nesse processo, ao apreender

20
No romance “A Matriarca” (DUARTE 2017) é desenvolvido um raciocínio por uma das personagens em torno
de um caso de infidelidade acabando por afirmar que: “A gente fala sempre do machismo cabo-verdiano
mas esquece-se de ver o outro lado da moeda. A nossa origem como sociedade escravocrata projecta-se
no comportamento dos homens mas também no das mulheres. Antigamente as escravas ou criadas eram
usadas e abusadas pelos patrões e mesmo pelos seus companheiros.” (p.93)
21
Trata-se de uma “sociedade de características acentuadamente patriarcais onde o masculino continua a ser
associado à virilidade, enquanto o feminino é visto como mais ligado à sociabilidade e ao humanismo restando
uma idealização matriarcal como sinônimo de independência feminina.” (ALVES & PEKALA 2018; p. 109)
22
“As Mulheres em Cabo Verde: Experiências e Perspectivas”, Conferência Internacional, Relatório Síntese.
Praia. 2010. p.20
23
“Essas mulheres de uma força extraordinária, com filhos, netos (e por vezes até bisnetos) a seu cargo, que
lideram um número notável de famílias, buscando alimento muitas das vezes na economia informal, que é
ainda hoje muito expressivo em Cabo Verde; elas atuam como vendedoras de frutas, de peixe, de queijo, de
pastel, donete ou sucrinha 5. São elas, algumas já de avançada idade, que ficam na porta das suas casas,
de alguma forma escondendo o seu canhoto 6 que fumam enquanto observavam o movimento do dia,
sozinhas e serenas. Mulheres fortes que, ora atravessam a cidade de uma ponta à outra atrás de freguês
para a sua venda. Quando mais velhas, parecem tudo ver, com seus olhares impenetráveis, enquanto fumam
o seu cachimbo. O papel central da mulher na sociedade cabo-verdiana, portanto, é o da matriarca no que
diz respeito ao referencial a ser respeitado e perpetuado quando nos referimos à parcela da população
feminina das ilhas.” (ALVES & PEKALA 2018: 108)
24
“A vida sexual em ambos o sexo, em especial nas áreas urbanas e suburbanas das concentrações mais
significativas, começa muito cedo. (...) E esse comportamento vai-se estendendo às áreas rurais pela grande
264 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

fragmentos da multiplicidade do mundo e formatos alternativos de vida, dá-se


um alargamento da autopercepção, materializando-se a partir de um novo en-
25
tendimento, experimentando-se um universo para lá daquilo que se conhece.
Podemos afirmar que, a quebra dos ciclos responsáveis pela expressiva fal-
ta de perspectiva da população, nomeadamente feminina, é tão mais complexa
quanto mais isolada é a localidade de que é proveniente.

III.
Fig. 2. Boletim Geral das Colónias nº 45 (1929)

Tal como víamos, a chegada à ilha de Santiago por parte dos portugueses
originou a instalação do seu primeiro aglomerado em África, na Ribeira Grande,
actual Cidade Velha. “Os primeiros assentamentos litorais cederam lugar aos
núcleos urbanos mais significativos, primeiro a Ribeira Grande e depois a Praia.
A partir destes desenvolveram-se penetrações para os terrenos de cultivo do
interior onde se localizaram posteriormente outros aglomerados como a Vila da
Assomada. Contudo, foi a capacidade de utilização deste território como base
de apoio à navegação mercante que impulsionou o crescimento económico
e afirmou inicialmente o protagonismo da ilha no contexto regional.” (PADRÃO
2016: 17)

facilidade de movimentação de pessoas, permitida pela rede de viação (Santiago, por exemplo).” (CARREIRA
1977: 191)
25
“A vida não é maior que uma pupila dos teus olhos”, expressão repetida por um personagem do conto
“O Jamaica Zarpou” (MANUEL LOPES 1984), que conta a história de um jovem que foge do oil tanker que o
contratou por não ter vontade de abandonar a ilha de São Vicente.
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
265
Inês Alves, Lara Plácido

Essa descentralização foi sendo acompanhada de movimentos para o interior


por parte de escravos fugidos ― “badios”, que ainda dão o nome popular às gen-
tes de Santiago ― que procuravam no isolamento do território e numa aparente
superior fertilidade das terras, tornar-se autossubsistente e dono de si.
Nessa ilha, “o relevo é em regra muito acidentado, com desfiladeiros inaces-
síveis e ravinas profundas onde correm temporariamente cursos de água no re-
gime das chuvas; estas áreas de relevo montanhoso são por vezes interrompidas
por vales muito extensos com fundo plano e de onde emergem pontualmente
montes ou planaltos de forma abrupta. No litoral, a costa, alta e escarpada, é
intercalada por faixas baixas e arenosas onde se situa, enseadas e praias abri-
gadas.” (PADRÃO 2016;14)
A cerca de 16 km do principal aglomerado populacional, a Assomada, que
se faz gerir pelo concelho de Santa Catarina, fica o Porto da Ribeira da Barca.
Entre a sua sede do Concelho e o Tarrafal ― a norte da ilha ― e em pleno pla-
nalto coincidente com o sopé da Serra Malagueta, uma estrada ― ainda hoje
em calçada ― desce até ao mar, acompanhando o relevo do terreno em curvas
e contracurvas e, vencendo em poucos quilómetros os 500 metros de altitude,
até se nivelar com o mar. A importância dessa localidade em outros tempos fica
clara na descrição de Sena Barcelos, feita originalmente em 1892: “Porto da
Ribeira da Barca. Fica (...) na foz d’uma ribeira. É desabrigado ao SO, sendo
contudo seguro, quando reinam as brisas. Tem excelentes ancoradouros em
fundos arenosos de 6 a 12 braças, do lado N, próximo da ponta Pedroso. Ali
vão embarcações grandes para tomar carga, e bem assim os palhabotes que
veem de São Vicente à procura de diversos géneros para fornecimento de
navios. É muito fácil reconhecê-lo pelos armazéns e casas de habitação, que
ficam próximos da beiramar. Da ponta da Janella corre a costa para SE até ao
porto da Ribeira Grande ou Cidade Velha, seguindo depois para E até ao porto
da Praia de Santa Maria.” (BARCELOS 2020: 30) Era assim definido por Sena
Barcelos um importante porto de trocas com as outras ilhas caracterizado pela
existência de armazéns na sua beira mar, que ainda hoje configuram a pai-
sagística da localidade. Estes armazéns são por variadas vezes referidos nos
Boletins Oficiais como tendo sido assaltados, como é o caso do BO nº12/1922
(Setembro a Dezembro de 1921), que coincide com um extenso período de cri-
se no país. Numa carta enviada pelo povo de Cabo Verde aos membros do Par-
lamento em Abril de 1903, reclamando atenção por parte da metrópole para a
situação de seca e fome a que a província estaria exposta referia ainda o seu
isolamento: “... a Ribeira da Barca, que também precisa dum caminho regular
que a ponha em comunicação directa com a cidade da Praia ou outro ponto
26
importante da ilha.” (CARREIRA 1984; 58)

26
CARREIRA António (1984) Cabo Verde (Aspectos sociais, Secas e Fomes do século XX) Ulmeiro. Lisboa. p. 58
266 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Ainda hoje apelidada de “Porto” pelos seus residentes, está ainda presente
na memória dos mais velhos, a importância que este território teve antes da
independência do país, tendo sido apenas ultrapassado aquando das obras de
melhoria no porto da cidade da Praia.
À semelhança do resto do arquipélago, a fragilidade das estruturas de outro-
27
ra refletem-se no estado actual do território. Vem-nos à memória um possível
paralelismo com a decadência do Porto Grande, na ilha de São Vicente, entregue
aos ingleses para exploração como entreposto carvoeiro para fornecimento das
embarcações. Estes, que instalaram no Porto Grande os primeiros depósitos de
carvão em 1934 (TEIXEIRA DE SOUSA 1984), pagavam um imposto paralelamente
investido em edifícios públicos, mas que, no entanto, não impediu a vaga de fome
dos anos 40, intensificada pela queda do Porto Grande por falta de apetrecha-
28
mento quando comparado com os portos de Dakar e Canárias. A par disso, a era
do carvão, terminava. A globalização foi intensificando, como sabemos, o hiato
económico/social/humano existente no mundo. E Cabo Verde não foi excepção.
Apesar do movimento descendente protagonizado pelo Porto Grande, pesa o fac-
to de se situar na segunda principal cidade do país e que, portanto, está sob olha-
29
res atentos, interna e externamente. Sob uma outra perspectiva, encontra-se o
Porto da Ribeira da Barca que, ao perder importância para o porto da cidade da
Praia, leva as suas gentes em busca de outros meios de subsistência.
A vila piscatória foi crescendo a Este, para o interior da ribeira e paralela-
mente a si, acompanhando a via de acesso à cidade da Assomada numa cota
superior. Delimitada a Norte pela rocha que Sena Barcelos nomeava de Ponta
Pedroso, conseguiu ainda expandir-se para Sul, contornando e subindo a rocha,
penetrando por uma ribeira secundária ― que desagua no único ponto da praia
onde ainda existe areia ― e em direcção à zona do Charco. Historicamente, tra-
ta-se de um povo de forte ligação com o mar, que ainda se revela na actividade
masculina predominante: a pesca, ainda que as condições actuais para a sua
prática não se verifiquem como sendo as melhores.
O boom populacional e construtivo dos anos 60 um pouco por todo o país ― e
intensificado com o pós-independência de 1975 ― introduziu na Ribeira da Barca
uma oportunidade económica principalmente para as mulheres que antes se
limitariam às lides domésticas, educação dos filhos e venda do peixe.

27
“Tudo ali é precário e instável, tão precário e tão instável que de século para século vem empobrecendo,
assistindo-se à ruína de indústrias como as da panaria e dos couros, culturas como a do algodão e do vinho,
outrora verdadeiras fontes de riqueza, sem que talvez outras de igual importância as tivessem substituído
na economia do arquipélago.” (FERREIRA 1967: 49)
28
Também no Porto Grande se verificou o arrombamento dos armazéns da alfandega pela população que se
via comandada pelo Capitão Ambrósio, figura ainda hoje aclamada pela cidade, mas que acabou deportado
para as roças de Angola.
29
E onde, como víamos de início, se tem verificado investimento turístico, sem que isso implique propriamente
um abrandamento dos hiatos económico/social/humano existentes.
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
267
Inês Alves, Lara Plácido

A globalização, a par dos longos períodos de estiagem a que o país tinha


estado sujeito, provocaram profundas alterações na cultura construtiva do terri-
tório, que podemos afirmar terem sido as opções mais evidentes mas que se re-
velaram como as menos sustentáveis. Ao longo da história, o clima tropical seco
permitiu desenvolver uma construção mais endémica e integrada no território e
com base nos recursos disponíveis, quer materiais, quer humanos. Esta, tinha
por base, por um lado, a construção em junta seca, através das pedras basálti-
cas, pozolânicas, etc. provenientes dos solos do país e, por outro, a utilização da
matéria vegetal, que foi perdendo força perante os extensos períodos de seca
a que o país esteve sujeito. Ambas as tecnologias estão ainda presentes no ter-
ritório, nomeadamente nas coberturas de palha das ilhas ainda hoje mais rurais
― como é o caso de vários pontos em Santo Antão ou em Santiago ― bem como
nas singulares casas de palha da comunidade de Rabelados em Espinho Branco.
No entanto, a globalização, impulsionada pela diáspora e pelas possibilida-
des impostas com a importação, introduziram neste território novos materiais
que acabaram por ir de encontro a novas formas de vida e novas ambições de
conforto, permitidas através de uma maior resiliência das tecnologias construti-
vas. O betão armado é, evidentemente, o caso mais flagrante, permitindo uma
maior protecção contra sol e ventos constantes, mas não só; o betão armado
possibilitou, principalmente, a construção em altura, traduziu-se na expansão do
lote, no desmultiplicar de um chão. O boom construtivo de que falávamos tinha
por detrás estas premissas e encontra-se directamente relacionado com a falta
30
de sustentabilidade com que abríamos este artigo. Porém, sabemo-lo hoje; à
época, seria com grande entusiasmo que se vislumbravam tamanhas possibili-
dades.
E é neste contexto que a Ribeira da Barca ― à semelhança de outras locali-
dades, orlas costeiras e interior do país ― passa a ser conhecida, pela areia que
é fornecida para a construção dos principais núcleos populacionais da ilha. E, ao
longo de décadas, foi assim; uma actividade predominantemente feminina que
consistia em tirar areia da praia e da ribeira e acondicionar no transporte que
descia à vila para o efeito.
O impacte ambiental desta actividade revelou-se desastroso. A areia do Porto
da Ribeira da Barca foi praticamente toda para a construção do Concelho de
31
Santa Catarina; onde antes existia areia, deixou de existir. E o aparente desas-
tre ambiental traz outras dimensões muito para lá daquilo que numa primeira
32
abordagem se pode discernir.

30
Em que referíamos ser a indústria da construção responsável pelo consumo de cerca de 60% dos recursos
naturais no mundo.
31
“praias despidas de areia e acabrunhadas por calhaus rolados, áreas agrícolas ameaçadas pelo arrasamento da
base de sustentação e possibilidade de contaminação do lençol freático pela salinização.” (GOMES 2011: 20)
32
Na tese defendida por Samuel Gomes (2011) sobre a “Avaliação de Impacte de Apanha e Extracção de
268 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A distância ao boom construtivo ― e à procura de inertes desencadeada des-


sas dinâmicas ― permite aos entendidos em impacte ambiental desenvolver uma
avaliação muito estruturada em termos de resultados transcorridos da actividade
da apanha da areia, nomeadamente na Ribeira da Barca.
No entanto, enquanto arquitectas, mulheres, seres humanos sensíveis às
questões que estão para lá daquilo que se consegue avaliar como taxativo,
apreendemos um lugar onde centenas de famílias subsistiram com base nessa
actividade, depois de um período de queda do Porto da Ribeira da Barca.
Ao longo de gerações, foi passado um conhecimento, uma herança de mães
para filhas à qual correspondia a possibilidade de criação da família. Foi da ac-
tividade da apanha de areia que as mulheres da Ribeira da Barca conseguiram
construir as suas casas; dar pão e educação aos seus filhos.

“Mesmo no Charco. Nós que trabalhamos lá ficamos todas rebentadas. É um traba-


lho que não tem dia, não tem noite, não tem madrugada. (...) Estávamos dentro de
água só o balde ficava de fora. Tudo o corpo estava debaixo de água. Queríamos
subir aquela muralha e as pernas não queriam subir. (...) Quando amanhece o que
é que eu dou para os meus filhos comerem? Escola para pagar. Todas as coisas.
Material da escola. Às vezes, quando a escola começa propriamente alguém sofre.”
excerto da entrevista à Isa

“Não é mesmo um lugar bom para nós. Não é direito para nós, principalmente, por-
que aquele fumo de terra. É mau para todas aquelas mulheres que estão dentro da
ribeira. Para nós todas. Mas não... não temos mais nada para agarrar. Não temos um
trabalho para dizermos “vamos trabalhar que é para sair de lá”. (...) Quando comecei
a tirar... foi para nos ajudar a pôr os filhos na escola.”
excerto da entrevista à d. Joaninha

Nos excertos acima transcritos de entrevistas realizadas às mulheres da apa-


nha de inertes da Ribeira da Barca, procuramos colocar em evidência duas rea-
lidades distintas; a Isa, que tirou toda a sua vida areia na praia do Charco, e a d.
Joaninha, que tira areia no leito da ribeira. Em ambas as situações ― de grande
precariedade ― é referida a importância do rendimento gerado pela actividade
e, a partir do qual, foi possível subsistir e criar uma família.

Inertes na Ribeira da Barca”, o autor refere entre um sem número de factores, para as faixas costeiras, a
“perturbação da fauna e da flora costeira, a destruição do habitat utilizado pela fauna marinha e costeira,
nomeadamente, espaço para a desova das tartarugas”; para o leito de ribeira, refere a “destruição da
terra viva, do solo e da matéria orgânica; aceleração de processos erosivos; a alteração dos sistemas de
drenagem superficial e subterrânea; poluição do solo e da água superficial e subterrânea; processo das
intrusões salinas” e a “instabilidade nas infra-estruturas de correcção torrencial, nomeadamente, diques
nas ribeiras”. (GOMES 2011; 15)
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
269
Inês Alves, Lara Plácido

Apenas em 2002, é decretada a proibição da extracção e exploração de areia


33
nas dunas e praias interiores, na faixa costeira e no mar territorial. Em Fevereiro
de 2006 é feito um acordo com a Central de Britagem Cabo Verde, SA (CBCV)
para o abastecimento do mercado nacional. Este encadear de acontecimentos
resultou numa profunda queda de procura de inertes levando a comunidade a
uma situação de extrema vulnerabilidade, onde um sem número de famílias
passam a viver num estado de pobreza extrema eminente.

Fig. 3. Apanha de areia na praia do Charco. (Acervo impact, 2021)

“Trabalho não há. Espero que a minha vida mude. Já tenho 31 anos e continuo na
mesma situação. (...) Não tenho nenhum emprego, nem tenho ninguém que me ajude.
Mas aqui na ribeira um "galucho" é 3 contos. Trabalho pesado. Às vezes estás com
fome e trabalhas na mesma, mas... o condutor não dá valor ao teu trabalho. (...) Não
precisávamos ficar só a apanhar areia... Mas nós estamos lá porque não há outro
trabalho. Mas se houvesse outro trabalho, não apanhávamos areia no Charco.”
excerto da entrevista à Edna

No entanto, apesar da queda vertiginosa na procura, ainda se continuam a


vender inertes naturais na Ribeira da Barca. Nesse negócio, a unidade de me-
34
dida é o Galucho, sendo que, 1 Galucho com 5 toneladas de areia de ribeira

33
Decreto-Lei nº 2/2002, de 21 de Janeiro
34
Nome dado aos veículos Toyota Dyna.
270 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

corresponde a 3 mil ECV; para a areia da praia do Charco, a mesma quantidade


rende 5 mil ECV. Estes valores são sempre divididos por 4 ou 5 mulheres. A quan-
tidade de mulheres que ainda vive dessa actividade oscila, uma vez que pode
tratar-se de uma actividade sazonal, complementada com a venda de peixe, por
exemplo, mas dado o levantamento feito, pode ainda variar entre ½ centena e 1
centena; isto leva a que possam passar meses sem que determinado grupo de 4
ou 5 mulheres seja procurada. É neste sentido que se avizinham tempos comple-
xos, com uma fiscalização mais apertada e com uma preferência cada vez mais
evidente pelos inertes artificiais de britadeira.
E é perante este panorama que chegámos à Ribeira da Barca. Entre Abril e
Julho habitamos esta pequena/grande vila de 3500 habitantes, profundamente
isolada, principalmente se não considerarmos apenas o isolamento físico.
Levávamos connosco a aspiração ambiciosa de reinventarmos uma activi-
dade económica para essas mulheres. Através de um mapeamento etnográfico
muito abrangente e, sem introduzir grande novidade no decorrer do quotidiano
de labuta da areia, coexistimos com elas. Quisemos saber mais, quais os pas-
sados, as histórias e as aspirações. De uma jovem de 31 anos ― mãe solteira
de uma adolescente e de uma criança ― ouvimos a dada altura não ter sonhos.
Percebemos o hiato económico/social/humano imanente nas nossas angústias
quando entendíamos o desencontro entre nós, nomeadamente traduzido na au-
sência do papel de mãe que pessoalmente temos, talvez o único meio de reali-
zação possível para essas mulheres.
Pensamos ingenuamente em não introduzir novidade, quando na verdade a
novidade estava em nós: duas estrangeiras a residir naquele meio, que apanha-
vam plástico da ribeira e que mexiam com pás e com cimento.
Ao longo de 3 meses ― numa atitude muito informal ― colocamo-nos à
disposição daquela comunidade. Instaladas no parceiro local, a Associação
Tcheka e Amigos da Ribeira da Barca, operamos pequenas máquinas de tri-
turação de plástico, onde colocávamos as garrafas que apanhávamos ribeira
afora. Paralelamente, testávamos o desenho de um novo elemento do sistema
construtivo impact.
O resultado foi uma lajeta de pavimento com base na reinterpretação do pa-
35
drão do panu di térra, um elemento muito importante na cultura e identida-
de de Cabo Verde, apesar de remontar a um período escravocrata da história.
O panu di téra é um elemento ainda hoje muito utilizado, principalmente em
momentos importantes, como cerimónias, e que conta com o “predomínio de

34
Com a chegada dos portugueses a Cabo Verde deu-se “A instalação do artesanato de “panos” e de “roupas”
nas ilhas transformou profundamente a economia local. (...) Com a espassez da moeda, os panos de Cabo
Verde passaram a exercer a função de moeda” (CARREIRA 1983, pp.29-30)
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
271
Inês Alves, Lara Plácido

figuras geométricas, designadamente losangos, retângulos, triângulos, listas


longitudinais e transversais, uma simples, outras duplas” e que é “formado pre-
dominantemente por bandas”. (CARREIRA 1983: 210-211)

Fig. 4. O panú di téra ― ou pano d’obra ― no livro Panaria Cabo-Verdeano-Guineense


de António Carreira. (Acervo impact, 2021)

O trabalho de co-design e co-autoria com estas mulheres estendeu-se desde


a sua concepção formal até à prototipagem. Neste sentido, contamos com a mão
de obra local, nomeadamente um serralheiro que nos foi afinando uma forma
para a lajeta com base nos desenhos que íamos desenvolvendo.
Através da trituração do plástico, fomos testando paralelamente uma com-
posição, afinando o traço ideal para essa argamassa na qual, com sucesso, con-
seguimos introduzir 1 garrafa PET 1,5L. Ou seja, conseguimos descartar 1 garrafa
PET 1,5L em cada uma lajeta de 15 cm x 15 cm.
Ao longo desse período estudamos o seu custo de produção, custo de venda
ao público, qual seria o investimento inicial necessário e qual o retorno finan-
ceiro que teríamos se conseguíssemos cumprir a barreira de criação de uma
unidade de produção e venda de lajetas na Ribeira da Barca.
272 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 5. Processo de trabalho com as mulheres. (Acervo impact, 2021)

Chegadas a São Vicente, onde residimos, continuamos a desenvolver o pro-


jecto e a divulgá-lo junto dos parceiros para que possamos avançar para uma
formalização com a qual conseguiremos alcançar, objectivamente, rendimento
para essas mulheres ― que é como quem diz numerosas famílias ― dinamizando
a economia local e combatendo as expressivas taxas de desemprego do país,
estabelecidas nos 19,2%, ou seja de 27mil desempregados. (INE, 2020)
Chegamos ao modelo de cooperativa, defendido no Manual de Boas Práticas
de Arquitectura Sustentável em Cabo Verde onde se afirma que “O cooperativis-
mo e o associativismo deverão ser fomentados para haver uma rede de solida-
riedade e cooperação entre os cidadãos e entre a ecotecnosfera e a biosfera”
no sentido de impulsionar um “novo modelo de crescimento económico, que
tenha por base um desenvolvimento ecologicamente sustentado.” (p.14)
É neste sentido que desenvolvemos um projecto alinhado com as agendas do
mundo de hoje ― a Agenda 2030, África 2063 e com o Plano Estratégico Muni-
cipal de Desenvolvimento Sustentável de Santa Catarina 2017-2027 ― e no qual
prevemos um modelo de negócio que se autossustentará depois de um investi-
mento inicial de cerca de 50 mil €, que servirão exclusivamente para a compra
de equipamentos de produção industrial capazes de fazer face à procura.
Chegamos a números que nos indicam um custo de produção de 13 ECV por
unidade e prevemos um custo de venda de 30 ECV, igualando o custo de venda
O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
273
Inês Alves, Lara Plácido

ao público que se pratica para outras lajetas de pavimento no país. Em termos


ambientais, como víamos, cada lajeta representa uma garrafa PET 1,5L.
Para além disso, tendo como base o custo unitário e o custo de produção da
lajeta, projetamos que seja suficiente a execução de 5 mil metros quadrados de
pavimento ― o equivalente à pavimentação da Pedonal da cidade da Praia ― para
que, face às despesas fixas anuais, seja gerado lucro. Ou seja, a produção míni-
ma anual de 5 mil metros quadrados de pavimento é o suficiente para fornecer
sustentabilidade financeira ao projeto. Será ainda de referir que, em termos de
sustentabilidade ambiental, os 5 mil metros quadrados de pavimento, equivale
ao uso de 210 mil garrafas PET de 1,5L, o que é muito significativo num território
como o de Cabo Verde.

Fig. 6. A lajeta de pavimento com forma estilizada do panú di téra e com diferentes
pigmentações. (Acervo impact, 2021)

Para além disso, temos vindo a trabalhar em paralelo na certificação da la-


jeta, o que antevemos que nos permitirá mais facilmente apresentar o produto
a possíveis compradores ou orgãos decisores do poder central ou local ― cuja
responsabilidade social é acrescida.
Este é um país de resistentes e essa resistência encontra-se estampada na
própria genética, fruto de uma mesclagem singular, na dureza com que se en-
frenta o dia-a-dia, nos baixos rendimentos, na criação de famílias, no partir para
térra longi.
274 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Resta-nos incorporar uma resistência que não nos é intrínseca para que pos-
samos, à impossibilidade de consertar o passado, pelo menos contribuirmos
para um agora mais digno, ainda que pegando numa pontinha de terra como
aquela que é o Porto da Ribeira da Barca, e a partir das suas mulheres, as cuida-
doras da comunidade por excelência.

“Cada um dos estados deverá reconhecer que a obrigação de assegurar a identifica-


ção, protecção, conservação, valorização e transmissão às gerações futuras do pa-
trimónio cultural e natural situado no seu território, constitui obrigação primordial.”
Convenção da Conferência da UNESCO, Paris 1972

“No meio rural, todos os trabalhos que provocam a degradação da paisagem e to-
das as modificações nas estruturas económicas e sociais devem ser cuidadosamen-
te controladas, a fim de preservar a integridade das comunidades rurais históricas
no seu quadro natural.”
Conferência Geral da UNESCO, Nairobi 1976

“É imperativo fundamental do Estado criar e promover as condições favoráveis à


salvaguarda da identidade cultural, como suporte da consciência e dignidade nacio-
nais e factor estimulante do desenvolvimento harmonioso da sociedade. O Estado
preserva, defende e valoriza o património cultural do povo cabo-verdiano.”
1º Constituição da República de Cabo Verde

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O CONTEXTO CABO-VERDIANO COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA URGENTE REINVENÇÃO DOS RECURSOS
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Inês Alves, Lara Plácido

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REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
277
Célia Gonçalves
eduardo
lourenço

PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO 2020


HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO
GALERIA DE PREMIADOS

2004 2006 2007


MARIA HELENA DA ROCHA AGUSTÍN REMESAL MARIA JOÃO PIRES
PEREIRA Jornalista Pianista
Catedrática jubilada
da Universidade de Coimbra

2008 2009 2010


ÁNGEL CAMPOS PÁMPANO FIGUEIREDO DIAS CÉSAR ANTONIO MOLINA
Poeta, tradutor, editor Catedrático jubilado Autor de obras de ensaio, prosa
e professor da Universidade de Coimbra e poesia

2011 2012 2013


MIA COUTO JOSÉ MARÍA MARTÍN PATINO JERÓNIMO PIZARRO
Escritor, jornalista Escritor e Teólogo Jesuíta espanhol Professor de Literaturas
e biólogo moçambicano Hispânicas e investigador da obra
de Fernando Pessoa
2014 2015 2016
ANTONIO SÁEZ DELGADO AGUSTINA BESSA-LUIS LUIS SEPÚLVEDA
Professor de Filologia Hispânica Escritora Escritor
na Universidade de Évora

2017 2018 2019


FERNANDO PAULOURO BASÍLIO LOSADA CARLOS REIS
Jornalista e Escritor Professor e Escritor Professor e Escritor

2020
ÁNGEL MARCOS DE DIOS
Professor e Escritor
CARLOS ALBERTO CHAVES MONTEIRO
PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DA GUARDA

É com enorme honra e satisfação que realizamos presencialmente, ainda que


com limitações, a Sessão de Entrega da 16ª edição do Prémio Eduardo Lourenço.
As circunstâncias decorrentes da pandemia foram ditando o adiamento desta ses-
são, que deveria ter sido realizada em 2020.
É chegada, pois, a hora de homenagear o galardoado com o Prémio com que
o Centro de Estudos Ibéricos distingue anualmente personalidades ou instituições
com intervenção relevante no âmbito da cultura, da cidadania e da cooperação
ibéricas.
Cumprimento os representantes das Universidades de Coimbra e de Salaman-
ca, bem como do Instituto Politécnico da Guarda, nossos parceiros nesta já longa
caminhada de vinte anos. E agradeço o seu compromisso para com o CEI e para
com estes territórios de fronteira.
Infelizmente, este é o primeiro ano em que entregamos o Prémio sem a presen-
ça física do Professor Eduardo Lourenço, como nos tinha habituado ao longo dos
anos. O dia 1 de dezembro de 2020 ficará marcado pela partida desse intérprete
maior da cultura ibérica e universal, um homem da Guarda, sempre solidário com
as suas raízes, cuja memória e legado nos cabe perpetuar.
Eduardo Lourenço foi – é – um dos nossos, beirão e raiano. Um Dom Quixote
Ibérico, como se lhe referiu um anterior galardoado com este Prémio, António Sáez
Delgado: “Um Quixote que sabe olhar para o mundo e lê-lo com a lúcida simplici-
dade e inteligente ironia, herdeira do melhor espírito de Sancho Pança”.
Eduardo Lourenço foi um intelectual ibérico que assumiu sempre com gosto o
papel de embaixador da nossa Cultura e dos nossos valores.
Através do desafio da criação, na Guarda, em 1999, de um Instituto da Civiliza-
ção Ibérica que unisse as duas Universidades mais antigas da Península (Coimbra e
Salamanca), Eduardo Lourenço lançou as bases de um projeto de cultura e de coo-
peração que tem sabido afirmar-se ao longo dos últimos 20 anos como plataforma
de diálogo, encontro de culturas e centro de transferência de conhecimentos.
284 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Temos que agradecer a Eduardo Lourenço a ideia, o incentivo e a amizade.


Agradecer-lhe por ter lançado o desafio para que “a mais lusitana das fronteiras”
se convertesse “na mais ibérica e dialogante das terras”.
A Guarda – a cidade que como dizia o nosso querido professor, “lhe abriu as
portas para o Mundo” – acolhe nesta Biblioteca grande parte do seu espólio literário,
um valioso património que preservamos e divulgamos, cientes da enorme responsa-
bilidade que nos conferiu. Estamos-lhe gratos por este legado de cultura e de saber.
Ilustres Convidados,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
É para mim uma honra presidir a esta Sessão e acolher o nosso premiado, An-
gel Marcos de Dios, bem como todos os convidados que se quiseram associar a
este importante momento.
Permitam-me que cumprimente particularmente dois galardoados em edições
anteriores: o Prof. António Sáez Delgado e o Prof. Carlos Reis. Sejam de novo bem-
-vindos à Guarda!
O Prémio Eduardo Lourenço homenageia, em primeiro lugar, o filósofo e cida-
dão, o ensaísta e o estudioso. Aquele que, como raros o fizeram, pensou Portugal,
a Europa e o Mundo.
Cumprindo o desafio e a missão que Eduardo Lourenço destinou ao CEI, este
Prémio tem galardoado, desde 2004, personalidades com intervenção relevante
no âmbito da Cultura, da cidadania e cooperação ibéricas.
Nesta 16ª edição o júri entendeu distinguir o mérito académico e científico do
Professor Ángel Marcos de Dios na área da Língua e Literatura portuguesas, bem
como a sua longa e profícua dedicação ao desenvolvimento e ao aprofundamento
das relações culturais e académicas entre Portugal e Espanha.
Ángel Marcos de Dios foi um dos principais impulsionadores do crescimento
e da representatividade dos Estudos de Língua e Cultura Portuguesas no meio
académico.
Ao ter promovido e dirigido as licenciaturas em Filologia Portuguesa e em Es-
tudos Portugueses e Brasileiros na Universidade de Salamanca, o Professor Ángel
Marcos de Dios contribuiu de forma decisiva para fecundar o intercâmbio e a coo-
peração ibérica, aliados a uma visão de abertura ao mundo e ao saber que carate-
rizam o verdadeiro espírito universitário.
De entre as obras publicadas destacam-se “História da Literatura Portuguesa”,
“Escritos de Unamuno sobre Portugal”, “Os portugueses na Universidade de Sala-
manca”, “Letras Portuguesas: literatura comparada e estudos ibéricos”, entre cen-
tenas de artigos em obras coletivas, revistas e atas de congressos.
Acerca da vida e da obra do galardoado, ouviremos com a maior atenção o
Professor Pedro Serra. Contudo, não quero deixar de sublinhar mais esta escolha
feliz do júri do Prémio Eduardo Lourenço, precisamente por distinguir uma figura
maior da Academia e um impulsionador do espírito ibérico.
PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO
285
2021

Parabéns, pois, Senhor Professor!

Esta histórica cidade de Fronteira orgulha-se de o receber e de lhe entregar o


Prémio Eduardo Lourenço 2020.
Este prémio reafirma a força da cultura e da literatura na construção de um
espaço ibérico com identidades próprias, mas aberto ao diálogo, solidário e per-
meável à troca mútua de influências.
É este o paradigma por que lutamos: uma Ibéria onde a coesão e a cooperação
sejam palavras de ordem num espaço verdadeiramente europeu, sem barreiras e
sem fronteiras.
A Guarda tem apostado desde há muito neste espírito de abertura: de cidade
fortaleza, passámos a espaço de encontro e de partilha; de guardiã da fronteira,
passámos a lançar pontes de cooperação com o país vizinho.
Foi dentro desse espírito que abraçámos o desafio da candidatura da Guarda a
Capital Europeia da Cultura em 2027. Assumimos o espírito de pertença europeia
e abertura ao exterior, reafirmando a nossa identidade e promovendo os valores
europeus tão caros a Eduardo Lourenço.
Trata-se de uma candidatura de alargada base territorial que envolve 17 muni-
cípios, numa aposta em rede para a afirmação desta cidade e destes territórios no
espaço nacional, ibérico e europeu.
Acreditamos que a Cultura é um poderoso motor das economias locais. O cres-
cimento inteligente, sustentável e inclusivo que o Projeto Europeu preconiza, pas-
sa também pelo desenvolvimento cultural dos seus territórios e pela criação de
sinergias entre o setor cultural e outros setores da economia.
Esta candidatura será mais um passo para cumprir o desafio de Eduardo Lou-
renço ao lançar a ideia do Centro de Estudos Ibéricos: o desafio de afirmar da
Guarda na Ibéria e na Europa pelo conhecimento, pela inovação, pela cultura, pela
arte e pelo humanismo.
A experiência da cooperação transfronteiriça das últimas duas décadas será
certamente uma mais-valia neste percurso!
É essa nossa abertura à cooperação que queremos reafirmar e alargar a outras
instituições e territórios, para que desta união se construa um projeto forte, con-
gregador de vontades em torno da Cultura, projeto esse que valorize o importante
legado histórico e cultural desta região de fronteira.
Esta é uma região com enorme potencial nos caminhos para o Futuro!

Discurso proferido na Sessão de Entrega do Prémio Eduardo Lourenço 2020


EFREM YILDIZ SADAK
VICERRECTOR DE RELACIONES INTERNACIONALES DE
LA UNIVERSIDAD DE SALAMANCA

Buenos días, Señor Presidente, Colegas, Autoridades, Amigos tanto de Ángel


como del Centro de Estudios Ibéricos
En primer lugar, quisiera trasladar el saludo cariñoso de nuestro Rector que por
motivo de la agenda tan apretada que tiene no ha podido asistir a este importante
acto y, por tanto, ha delegado en mi su representación para trasladar sus saludos y
también la alegría de que en esta edición el Premio Eduardo Lourenço haya recaí-
do en el Prof. D. Ángel Marcos de Dios que ejerció su docencia en la Universidad
de Salamanca.
Es un motivo de alegría sobre todo por dos razones. Primero por poder vernos,
como ha dicho el Señor Presidente, en persona y en Guarda para compartir un
momento de felicidad después de tanto tiempo de estar confinados y preocupados
por el tema del Covid. En segundo lugar, alegría por el significado del premio que
ahora se otorga al Prof. Ángel Marcos, un querido compañero.
El Premio Eduardo Lourenço tiene un especial interés e importancia para la
Universidad de Salamanca como parte integrante del Centro de Estudios Ibéricos,
junto a la Cámara municipal de Guarda, la Universidad de Coimbra y el Instituto
Politécnico de Guarda. En un honor para nosotros formar parte de un proyecto que
se empezó a fraguar hace muchos años y hoy vemos como se van recogiendo los
frutos de un gran esfuerzo en distintos ámbitos y , entre ellos, en la consolidación
del Premio que hoy nos concita y que reconoce a una figura relevante.
Ahora voy a hablar un poquito del Prof. Ángel Marcos. Querido Ángel, hace
mucho que no nos veíamos en persona y hemos tenido que venir a Portugal para
encontrarnos. Compartir este momento emblemático y tan importante, también
desde el punto de vista afectivo, porque no solo compartimos el despacho de pro-
fesores sino que también nos une una larga amistad de muchos años.
No voy a entretenerme reiterando lo que el Señor Presidente ya ha dicho con
respecto a los méritos del Premiado. Pero no les quepa la menor duda que la
288 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

adjudicación de este Premio está plenamente justificada. Por todo lo que él ha


aportado durante muchísimos años al estudio de esta unión que llamamos ibérica,
tanto en el ámbito literario como en el ámbito académico de Relaciones Interna-
cionales. Ángel Marcos es una persona muy humilde, sin embargo, su contribución
a los Estudios Portugueses es relevante; por ejemplo, en Salamanca gracias a él
que hoy podemos hablar de un Centro con una proyección no solamente nacional
sino internacional de gran envergadura. Estamos aquí para compartir esa alegría,
compartir también la importancia que esto implica tanto para España como para
Portugal, la adjudicación de un Premio a una persona de mérito y por quien tengo
mucho cariño.
No me voy a profundizar en su valía, sé que va a haber una explicación mucho
más detallada sobre su trayectoria académica y profesional, pero si traslado de
nuevo el sentido de alegría, de agradecimiento también, por haber reconocido una
trayectoria tan larga, tan productiva y tan prolija en muchos aspectos. Estamos si-
guiendo o cultivando el espíritu de Eduardo Lourenço, manteniendo viva esa llama
de ver y contemplar la variedad, la diversidad de talentos. Creo que Eduardo Lou-
renço fue en lo que más insistió y quiso plasmar en el Centro de Estudios Ibéricos,
ese espíritu diverso, multidisciplinar que Ángel Marcos, de una manera u otra tam-
bién concita, una riqueza que impregna y trasmite la obra de Eduardo Lourenço.
Muchísimas gracias por hacernos participes de este momento. Cuenten con la
Universidad de Salamanca en todos los sentidos, no solo en la mera participación
en los quehaceres del día a día del Centro sino también en otros aspectos como
son la divulgación del saber, del conocimiento, y sobre todo estrechar los lazos que
nos unen: La Iberia común que se ve realizada en estos actos.
¡Muchísimas gracias!

Discurso proferido na Sessão de Entrega do Prémio Eduardo Lourenço 2020


DELFIM F. LEÃO
VICE-REITOR PARA A CULTURA E CIÊNCIA ABERTA
UNIVERSIDADA DE COIMBRA

Nesta circunstância festiva, gostaria de começar por endereçar uma breve


saudação inicial às entidades e pessoas que promoveram mais esta edição do
Prémio Eduardo Lourenço, nomeadamente:
_ aos membros da Direção do Centro de Estudos Ibéricos: Presidente da Câ-
mara Municipal da Guarda – Dr. Carlos Chaves Monteiro; Reitor da Univer-
sidade de Coimbra – Professor Amílcar Falcão; Reitor da Universidade de
Salamanca – Professor Ricardo Rivero Ortega, neste ato representado pelo
Vice-Reitor das Relações Internacionais, Professor Efrem Yildiz Sadak;
_ à Universidade de Salamanca, que no ano de 2020 assegurou a Presidên-
cia do Júri do Prémio Eduardo Lourenço;
_ aos membros das Comissões Científica e Executiva do Centro de Estudos
Ibéricos;
_ às Personalidades Convidadas para integrar o júri do Prémio: Dr. Álvaro
Laborinho Lúcio e Dr. Artur Santos Silva, indicados pela Universidade de
Coimbra, e Dr. Luis Miguel García Jambrina, indicado pela Universidade de
Salamanca.

Visando “galardoar personalidades ou instituições com intervenção relevan-


te no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas”, o Prémio Eduardo
Lourenço distinguiu já, desde 2004, dezasseis individualidades que deram efeti-
vamente um contributo de inequívoca relevância para esta área da atuação, seja
no domínio artístico, no campo da investigação académica ou da intervenção
cívica.
O Prof. Ángel Marcos de Dios junta-se a esta galeria de personalidades
notáveis, com a total propriedade que lhe é garantida por uma longa carreira
de investigação, marcada pelo rigor, profundidade e profundo empenho no
robustecimento das relações luso-espanholas, tanto a nível cultural como
290 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

académico. A par das múltiplas publicações de referência que produziu nesta


área do saber, e que o tornam numa personalidade incontornável nos estudos
hispano-lusófonos, impõe-se sublinhar igualmente o papel central que teve na
valorização dos Estudos Portugueses e Brasileiros na Universidade de Salaman-
ca e que a tornaram num centro de clara relevância internacional.
São qualidades raras, que o tornam num digníssimo e singular merecedor do
Prémio Eduardo Lourenço — opinião partilhada por todos os elementos do júri,
que por isso mesmo decidiram por unanimidade atribuir-lhe o Prémio de 2020,
cuja entrega somente agora se pôde fazer, devido às conhecias limitações
decorrentes do contexto pandémico que temos vivido.
Gostaria assim, em nome do Senhor Reitor Amílcar Falcão, de felicitar o Prof.
Ángel Marcos de Dios por esta distinção, que muito contribui para honrar e pro-
jetar a imagem e missão do CEI. Da mesma forma, gostaria por fim de sublinhar o
pleno empenho da Universidade de Coimbra para colaborar de forma muito ativa
com todas as entidades que contribuem para valorizar este belíssimo exemplo
de colaboração transfronteiriça interinstitucional.

Discurso proferido na Sessão de Entrega do Prémio Eduardo Lourenço 2020


PEDRO SERRA
UNIVERSIDAD DE SALAMANCA

Cabe-me a honra e a alegria de, hoje e aqui, fazer o elogio do Doutor Dom
Ángel Marcos de Dios, Professor Catedrático da Universidade de Salamanca, a
quem a instituição que nos acolhe, o Centro de Estudos Ibéricos, sob os auspí-
cios do seu patrono – o muito admirado e saudoso Professor Eduardo Lourenço
–, concedeu, justa e merecidamente, o XVIº Prémio Eduardo Lourenço, edição
do ano de 2020.
São sobejamente conhecidos, e foram oportunamente reconhecidos, os mé-
ritos de Dom Ángel Marcos de Dios, cujos 50 anos de carreira académica pros-
seguida na Universidade de Salamanca se pautaram, ampla e decididamente,
por uma «relevante intervenção no âmbito da cultura, cidadania e cooperação
ibéricas». Como docente, com um longo magistério de língua e literatura portu-
guesas. Como investigador, tendo incidido sobre temas de eleição que vão da
história e arquivo dos estudantes portugueses na Universidade de Salamanca –
do século XVI ao século XVIII –, passando pelo estudo das relações interliterárias
peninsulares nos séculos áureos – com especial destaque para Camões –, até
aos profundos vínculos que uniram Miguel de Unamuno a Portugal – tanto como
intérprete da nação e cultura portuguesas, como leitor de, entre muitos outros,
Camilo Castelo Branco ou Antero de Quental. Enfim, uma «intervenção relevan-
te», a de Dom Ángel Marcos de Dios, como responsável e gestor académico da
Área de Filologia Galega e Portuguesa, em cujo âmbito criou uma pioneira Licen-
ciatura em Filologia Portuguesa, pioneirismo posteriormente reeditado – e que
define a actualidade da mencionada área de estudos – com a criação e vigência
de uma Graduação em Estudos Portugueses e Brasileiros.
Uma ‘vida’, pois, a de Dom Ángel Marcos de Dios, dedicada a Portugal e sig-
nificando as letras e culturas de língua portuguesa em Espanha – sem esquecer
uma actividade proeminente como tradutor de obras portuguesas de referência
292 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

no âmbito dos estudos literários –; uma ‘vida’ dedicada à Universidade de Sala-


manca, instituição cuja vocação lusófona protagonizou e substanciou; uma ‘vida’,
enfim, dedicada à Filologia... à Filologia Portuguesa. Dedicação movida tanto
pelo pensamento como pelo afecto cordial, do coração. Pois, para um filólogo, a
paixão pelo conhecimento não se distingue da paixão do amor e da amizade. É
mais frequente, e logo mais provável, destacarmos o étimo logos – pensamento
ou palavra – quando nos referimos à Filologia, prestando menos atenção ao
elemento filo- que também a integra e, talvez mesmo, a determine.
Distinguia Aristóteles dois sentidos da palavra logos. Por um lado, o logos
apophantikos, o da linguagem proposicional, o das proposições que se rela-
cionam com objectos finitos, no fundo, o logos que afere a discriminação do
verdadeiro e do falso. É o logos da Filosofia e das Ciências. Por outro lado, um
logos retirado da determinação cognitiva, que não diz propriamente algo sobre
algo – aquele que nos é devolvido pelo vocábulo euché, exemplo aristotélico,
que podemos traduzir por ‘oração’ ou ‘voto’, apelo desiderativo. O âmbito do
poiético, da Poesia em suma, como lugar do afecto, do amor e da amizade. A
Filologia encastoa, na própria palavra que a interpela como âmbito de conheci-
mento, estas valências do étimo filo-. Assim, é, a Filologia, lugar da amizade ou
do amor à palavra, às palavras.
Chegamos sempre tarde às lições da Grécia, pelo simples e mesmo banal
facto de que vimos depois dos gregos. Mas foi grande a fortuna dos discípulos
de Dom Ángel Marcos de Dios – o Prof. Dr. Hélder Julio Ferreira Montero, a Profa.
Ana María García Martín, o Prof. Dr. Eduardo Javier Alonso Romo, a Profa. Dra.
María Rocío Alonso Rey e eu próprio, para nomear aqueles de nós que sempre
nos dirigimos, e continuaremos a dirigir, ao Prof. Dr. Marcos de Dios como Dom
Ángel. Ou, em rigor, Don Ángel. Neste Don conjugamos a admiração e o afecto
que lhe dedicamos e devemos. Afortunados, dizia, porque antes de chegarmos
tarde a Aristóteles, já tínhamos, pelo exemplo de Don Ángel, a intuição da im-
portância daquele elemento filo- da Filologia, da palavra e da coisa. Afortunados
porque fomos introduzidos, ainda, no simpósio da amizade de Don Ángel e dos
seus companheiros de faculdade e universidade, partilhando generosamente, e
em muitas ocasiões, tapas e cafés – nalguma oportunidade, cafés devidamente
‘abençoados’ – no Bar Caballerizas da Faculdade de Filologia da Universidade
de Salamanca. O bom estipêndio de um convívio de amigos, com o Don Ángel,
o Prof. Dr. Antonio López Eire, o Prof. Dr. Gregorio Hinojo Andrés, o Prof. Dr. Luis
Santos Río, entre outros. Não houve uma única vez que esses numerosos e assí-
duos simpósios não fossem lições de como fazer universidade e de Filologia, de
língua e de literatura – desde logo, simpósios da presença esperada e admirada
PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO
293
2021

da matéria de Portugal, que compareceu na pessoa e magistério do Professor Dr.


Dom Ángel Marcos de Dios.
Eis, pois, em resumo, o elogio do nosso homenageado e a quem, hoje e aqui,
será formalmente entregue o XVIº Prémio Eduardo Lourenço outorgado pelo
Centro de Estudos Ibéricos: o Professor Dr. Dom Ángel Marcos de Dios é um
filólogo – a quem a presença de Portugal em Espanha muito deve – e uma boa
pessoa.

Guarda/Espedrada, 21 de Maio de 2021

Discurso proferido na Sessão de Entrega do Prémio Eduardo Lourenço 2020


ÁNGEL MARCOS DE DIOS
UNIVERSIDAD DE SALAMANCA

Amigos e professores, em especial Pedro Serra, alma da proposta que enca-


minhou esta candidatura à Faculdade de Filologia (da Universidade de Salaman-
ca, aprovada por unanimidade, e ao Prof. Carlos Reis, que, com o seu empenho
e explícita proposta juntando colegas de Portugal, Espanha e Brasil, contribuiu
substancialmente nesta atribuição. Carlos Reis e Pedro Serra, Pedro Serra e Car-
los Reis, dois amigos leais desde que nos conhecemos.
Amigos e professores das Universidades de Salamanca, Coimbra, Évora, Ins-
tituo Superior Politécnico de Castelo Branco, e outros amigos e colegas de Es-
panha e Portugal que, dadas as limitações da situação atual, não puderam estar
presentes neste ato.
Quero que constem explicitamente menções especiais para Alexandra Isidro,
alma na criação e percurso (já com vinte brilhantes anos) deste CEI, e para os
outros empregados deste centro de dinamização e cultura.
Desculpem esta prolixa enumeração de amigos, e outros merecedores de
destaque, que, dadas as limitações de aforo, não puderam estar presentes.
Deixo aqui patente uma recordação especialíssima para o grande intelectual,
professor, ensaísta, filósofo, que deu nome a esta instituição e biblioteca, con-
terrâneo desta região e também grande amigo da Espanha, Professor Eduardo
Lourenço, o maior pensador português dos últimos tempos.
Homem intuitivo, lúcido e perspicaz apreendedor das questões palpitantes
cívicas e políticas dos seus concidadãos, um verdadeiro filósofo no sentido
etimológico, no sentido clássico mais vasto, mas também do que deveria ser um
filósofo moderno, precisamente por essa atenção às questões cívicas e políticas
dos nossos tempos, às que acrescentou as suas dotes de grande comunicador.
A sua amplíssima e variada obra permanecerá sempre, ficará para a posteri-
dade, mas a sua figura humana se diluirá depois dalguns anos e apenas os que
lhe conhecemos (que também nos diluiremos física y ontologicamente) sabemos
valorar o legado humano deste grande lusitano. É por isso que eu, nesta breve
296 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

e obrigada recordação, quero sublinhar, também mais uma vez, as suas qualida-
des humanas.
O Prémio que me foi atribuído nesta edição é também, em verdade, um re-
conhecimento à Universidade de Salamanca, a única instituição de ensino su-
perior no território espanhol com um Grau autónomo em Filologia Portuguesa,
conformado em 2010 em Grado de Estudos Portugueses e Brasileiros. A minha
condição de professor de língua, literatura e cultura portuguesas é a razão última
deste amor e conhecimento de Portugal, ainda que tenha nascido numa terra a
não mais de dez léguas da fronteira.
Tenho assim que referir-me às estreitas relações que vinculam a Universida-
de de Salamanca e Portugal, relações nas quais investi muitas horas de estudo,
e que podem ser substanciadas fundamentalmente em dois temas. Por um lado,
as relações históricas desta universidade com Portugal e, por outro, a figura de
Miguel de Unamuno na sua íntima e constante conversa com o povo irmão.
Y ya, como quería y practicaba Unamuno en Portugal, continúo en español,
porque españoles y portugueses nos entendemos en nuestras respectivas len-
guas. Sí, Unamuno, el español que más ha amado -y sentido- a Portugal, al pue-
blo llano, instando a la cooperación mutua, como moradores y depositarios de
una misma realidad que es la península.
Al tratar el primero de los aspectos aquí enunciados, tengo que referirme,
sucintamente, también a Salamanca como ciudad. Desde la Reconquista hasta
los tempos más recientes Salamanca ha sido un referente para Portugal y para
la tierra fronteriza en que nos encontramos. Con la repoblación del siglo XI, des-
pués de la expulsión de los árabes y por obra del conde don Raimundo, junto con
otros repobladores, se establecen en la ciudad del Tormes bragancianos y por-
togaleses, entre los que destacan muchos conimbricenses a las órdenes de don
Godinho, y que dan origen a las primeras parroquias de Salamanca: San Pablo,
Santo Tomás Cantuariense y San Esteban (donde se construiría el futuro conven-
to de los dominicos, en el que residirían a partir de la creación de la universidad
dominicos portugueses, por estar Portugal vinculado a la provincia eclesiástica
dominicana de Castilla).
Los reyes don Afonso Henriques, en 1163, y don Dinis, en 1295 (ya con el
Studium Salmanticense plenamente constituido y con escolares portugueses en
sus aulas), llegaron a apoderarse de Salamanca, poniendo fin a esta situación el
tratado de Alcañices.
En 1272 fue nombrado obispo de Salamanca don Ordonho Álvares, al parecer
hijo de Álvaro Dias y de doña Teresa Pires, portugueses. Y el que con seguridad
fue portugués y obispo de Salamanca es don Pedro de Castro, hijo de don Dinis
de Alemcastre y de doña Beatriz de Castro, condesa de Lemos, que permaneció
en esa sede episcopal durante una década, siendo más tarde transferido a la
diócesis de Cuenca donde murió en 1561.
PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO
297
2021

No obstante, la importante tradición de los lusitanos en Salamanca ― y ya


entramos en un tema sustancial ― tiene su expresión más objetiva en su univer-
sidad, a la que han acudido (sin exagerar un ápice) por decenas de millar como
alumnos y por decenas como maestros. Desde sus inicios, se establece un es-
trecho vínculo entre Portugal y el Studium Salmanticense. Era, en fin de cuentas,
la única universidad peninsular. Pocos años después de su creación en 1218 por
Alfonso IX (con la categoría de “Estudio General” de su reino) y dado el creciente
número de lusitanos, que en ese momento no disponían de un centro de estu-
dios superiores (la Universidad de Coimbra surge hacia 1290), ya en 1242 Miguel
Pires, canónigo de Lamego, forma parte del tribunal nombrado por Fernando III
para solucionar los frecuentes conflictos entre los escolares y los habitantes de
la ciudad. De este modo y desde sus inicios, los portugueses tienen su represen-
1
tación institucional y desde la implantación de la consiliatura Portugal cuenta
con su propio consiliario (de un total de ocho).
Entre otros hitos significativos tenemos que destacar que, desde mediados del
siglo XVI hasta 1640, se contabilizan 15.000 estudiantes portugueses en la univer-
sidad del Tormes. Y también que, a mediados del siglo XVIII, se detecta una pléto-
ra de otros 3.000. Solamente se han podido incluir en estos números los alumnos
portugueses (con nombre y apellidos) extraídos de los Libros de Matrículas, ver-
dadera fuente documental que incluye a todo el personal docente y discente del
Studium y cuyo primer registro corresponde al curso 1546-47. En los tres siglos lar-
gos que anteceden a esta fecha la documentación es mínima (entre otros, se han
perdido todos los Libros de Matrículas, por lo que se conocen solamente aspectos
fragmentarios de la concurrencia de alumnos y no podemos aproximarnos, pues,
2
al número real de lusitanos que frecuentaron la institución salmantina .
Por lo que respecta al profesorado, en la Universidad de Salamanca dicta-
ron sus lecciones decenas de portugueses en todas las disciplinas como docto-
res, maestros, licenciados y bachilleres en las diferentes facultades (Cánones,
Leyes, Teología, Medicina y Artes; Gramática no era facultad, sino preparación
obligatoria para entrar en la universidad). Constituye un ejemplo elocuente de
la aportación lusitana al Studium salmantino el hecho de que en el periodo de
su mayor esplendor (siglo XVI), la cátedra de Derecho Civil en la segunda mitad
de este siglo fue desempeñada integralmente por portugueses: los catedráticos
Manuel de Cosa, Aires Pinhel y Heitor Rodrigues.

1
Los consiliarios, elegidos entre estudiantes de prestigio de su región o demarcación geográfica, asistían
al Claustro General de la universidad con voz y voto, entre cuyas funciones, además de la defensa de sus
representados en asuntos académicos, participaban en la elección de los sustitutos de cátedras vacantes.
2
Utilizando esa documentación fragmentaria (libros de Claustros…) Joaquim Veríssimo Serrão reúne unos
novecientos lusitanos en estos tres siglos (Portugueses no Estudo de Salamanca (1250-1550), Lisboa, 1962).
También debemos dar noticia de los documentados estudios de Armando de Jesus Marques Portugal e a
Universidade de Salamanca (1503-1512), Salamanca, Universidad de Salamanca, 1980, y “Portugueses nos
Claustros Salmantinos do século XV”, Revista Portuguesa de Filosofia, XIX, 1963,137-168.
298 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Altos cargos de la jerarquía eclesiástica portuguesa habían sido estudiantes


en Salamanca. Podemos destacar algunos obispos y arzobispos (la mayor parte
de ellos en el siglo XVI), como D. Sancho Pires, obispo de Oporto; D. Nuno Ál-
vares, de Angra; D. Diogo de Sousa (también estudiante en Paris), arzobispo de
Braga; D. Manuel de Sousa, obispo de Silves y arzobispo de Évora; don Gonçalo
Pinheiro (estudiante también en Paris), obispo de Safim, embajador en Francia
y obispo de Viseu; D. Martim Afonso Mexia, obispo de Leiria, Lamego y Coimbra
y secretario de estado en Madrid; D. Pedro Fernandes Sardinha, primer obispo
del Brasil, etc.
Por lo que respecta a la administración pública en general o eclesiástica, pro-
porcionalmente son pocos los nombres que conocemos entre el ingente número
de los graduados en Cánones o Leyes. Destacamos, no obstante algunos nom-
bres: D. Rodrigo Álvares, rector de la universidad salmantina; António de Abreu,
magistrado em Funchal; Pedro Afonso, visitador del obispado de Lamego; Aires
Ferreira, que acompañó al cardenal y humanista D. Miguel da Silva en su primera
embajada a Roma en 1515; António de Azevedo Coutinho, hidalgo y capellán de
la Casa Real, embajador de D. João III ante Carlos V y preconizado obispo de las
Azores; Fernando Ortiz, chantre de la catedral de Viseu y capelán del rey; Gaspar
Gonçalves, vicario y administrador episcopal de S. Jorge da Mina; Sebastiã0 de
Matos, rector del colegio de S. Bartolomé (Salamanca) y, después en Portugal,
magistrado de la corona en diversos cargos; Frei Sebastião Toscano, que viajó
por cuenta de su orden a Italia, España, Inglaterra y Portugal; Mem de Sá, herma-
no de Sá de Miranda y tercer gobernador general del Brasil…
No son pocos los escritores, de los más variados campos, que iniciaron (e
incluso publicaron) su obras en Salamanca: el doctor João de Barros (no el cro-
nista), los humanistas Jerónimo Cardoso y Diogo de Teive, António Mendes, João
Salgado de Araujo, António Raposo, Domingos Antunes Portugal, João Sucarelo
Claramonte, Francisco Fernandes Prata, Luís Rodrigues Pedrosa…
No contamos con un estudio detallado de los profesores portugueses en Sa-
lamanca. En las calas de que disponemos hemos detectado que son varias de-
3
cenas . Como no es este el lugar de enumerarlos, citaremos solamente algunos
bien conocidos en la cultura portuguesa: Aires Barbosa (catedrático de Griego,
Retórica y Prima de Gramática y sucesor de Nebrija), Pedro Margalho (catedrático
de Filosofía), Henrique Jorge Henriques, Manuel da Costa (el Doctor Subtilis),
Heitor Rodrigues, Aires Pinhel, Francisco de Salazar, Fernando Aires de Mesa,
Agostinho Lopes, Fernando Belo, Francisco Homem de Abreu, João Velasques
Altamirano, etc., etc. Es necesario subrayar, en este sentido, que un buen núme-
ro de lusitanos (y algunos españoles) formados en Salamanca fueron después

3
Es de obligada consulta en este aspecto la obra de Enrique Esperabé de Arteaga, Historia pragmática e
interna de la Universidad de Salamanca, 2 vols., Madrid, Gredos, 1914.
PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO
299
2021

profesores en la universidad portuguesa, especialmente con ocasión del trasla-


do definitivo de ésta de Lisboa a Coimbra en 1537 por d. João III. Por otra parte,
el mismo rey adoptó, casi integralmente el modelo de organización salmantina
para su universidad: de hecho, los estatutos de la Universidad de Coimbra ape-
nas difieren de los de Salamanca.
Los médicos portugueses más notables de los siglos XVI, XVII y XVIII eran de
origen judío: Amato Lusitano (de nombre, João Rodrigues de Castelo Branco,
Castelo Branco 1511-1568), Zacuto Lusitano (de nombre, Abraham Zacut, Lisboa
1575-1642) y António Ribeiro Sanches (Penamacor, 1699 – Paris 1773), respectiva-
mente, además de otros cientos de ellos se formaron en Salamanca, por una ra-
zón práctica: su tolerancia con los judíos; del mismo modo, los primeros médicos
del Brasil estudiaron en Salamanca. No se ha encontrado ni una sola denegación
de ingreso en la institución por no tener limpieza de sangre (y sabemos que la
mayor parte de los estudiantes médicos eran criptojudíos). De hecho, hasta 1640
la Universidad de Salamanca reunió a más estudiantes médicos que la de Coim-
bra. Conforme los vientos persecutorios de España y Portugal, los judíos pasaban
a un lado u otro de la frontera: Galicia, Miranda do Douro, sierra da Estrela (Seia,
4
Gouveia, Melo…) y Alentejo . Por otra parte, y por más extraño que parezca, en
esos tiempos inquisitoriales, no había tratado de extradición con Castilla, por lo
que, atendiendo al foro universitario, gozaban de libertad de acción siempre que
respetaran los estatutos del Studium.
Por lo que atañe a la diócesis de Guarda, hasta el siglo XVI con una amplísima
demarcación geográfica (teniendo en cuenta que, hasta mediados del s. XIX, la
administración territorial civil coincidía con la eclesiástica), contó con algunos
miles de alumnos en Salamanca, destacando las poblaciones de Abrantes, Al-
meida, Castelo Branco, Covilhã, Fundão , Idanha a Nova, S. João da Pesqueira…,
y naturalmente Guarda, algunas con centenares de estudiantes. Con las adscrip-
ciones eclesiásticas posteriores, bastantes de esos núcleos pasaron a engrosar
otras diócesis, y posteriormente con la administración civil fueron adscritas a los
distritos de Castelo Branco, Viseu o Santarém. Las más pequeñas aldeas de la
diócesis, sobre todo las fronterizas, tuvieron su estudiante en Salamanca: Vilar
Formoso (hasta la llegada del ferrocarril era una pequeña aldea), Castelo Mendo,
Vale de Espinho, Prados, S. Miguel da Guarda, Lajeosa, Gagos, Castanheiro,
S. Pedro de Rio Seco…

4
Es útil consultar en este sentido las siguientes obras de Augusto da Silva Carvalho, Dicionário dos médicos
e cirurgiões portugueses ou que estiveram em Portugal, 10 vols., manuscrito del que se conservan tres
ejemplares en la Academia das Ciências de Lisboa (Res. 49.1/10); y las publicadas: A medicina portuguesa no
século XVII, sep. de Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, 1907; Amato Lusitano. A sua vida e a sua
obra, Lisboa, 1907; Zacuto Lusitano. A sua vida e a sua obra, Porto, Eduardo Tavares Martins, 1909; Estudos
de história da medicina peninsular, Porto, 1916. Y también: Maximiano de Lemos, História da medicina em
Portugal, 2 vols., Lisboa, Manuel Gomes, 1899.
300 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

El otro aspecto al que quiero referirme, también especialmente como he


dicho, es Miguel de Unamuno, el español que más ha sentido y escrito sobre
Portugal. En más de una ocasión escribe Unamuno, retomando las palabras de
su maestro Menéndez y Pelayo: “No hay historia de España sin Portugal; no será
completa la historia de nuestra literatura que no comprenda, como parte inte-
grante, la portuguesa” (de ahí que en muchas de sus obras – Historia de los
heterodoxos españoles, Orígenes de la novela, Horacio en España, etc. – se
incluyan ilustres lusitanos). Esto es, Menéndez Pelayo entendió y estudió el he-
cho objetivo del paralelismo entre las culturas portuguesa y española, Unamuno,
discípulo del polígrafo español, fue mucho más lejos: unió y sintió íntimamente
ambas culturas. Y no solamente la cultura, sino también el paisaje, el pueblo,
su sentido de la existencia, etc., patentes en el profundo amor que destilan sus
escritos sobre Portugal. Escribe en carta a Teixeira de Pascoaes:

“Es una obra de amor y de cultura hacer que Portugal y España se conozcan mutua-
mente. Porque el conocerse es amarse. El conocimiento engendra amor y el amor
5
conocimiento. Son en el fondo una sola y misma cosa vista por fuera o por dentro” .
Y en un artículos sobre el mismo autor confiesa: ”En esta bendita tierra de Camoens
aprendí la intimidad ibérica; en trato íntimo con los grandes lusitanos de sobre el
6
tiempo, me acostumbré a poder pensar y sentir en portugués”

Un año antes morir, en el último viaje que realiza a Portugal, en artículo “Junto
al Cabo de la Roca” (1935): “Y aquí estoy en este pueblo [de Portugal], en que
7
aprendí a querer, a admirar y a compadecer” .
Con ocasión de la Primera Gran Guerra escribe dos artículos en defensa de
Portugal y contra los germanófilos españoles a los que califica de trogloditas, por
su no disimulado anhelo de anexionarse a la nación hermana: “La unión moral
ibérica sólo puede establecerse bajo un régimen de voluntad nacional, de sobe-
ranía popular. Y a este régimen se opone la germanofilia española disfrazada de
8
neutralidad incondicional y a todo trance y costa” .
Sus escogidas relaciones con la intelectualidad portuguesa (prueba, sus ar-
tículos y su epistolario con más de 70 correspondientes), no le desvían de su fin

5
Carta a Teixeira de Pascoaes, en Epistolario Ibérico. Cartas de Pascoaes e Unamuno, ed. da Câmara Municipal
de Nova Lisboa (Angola), 1957, p. 22.
6
Miguel de Unamuno, Obras Completas, Madrid, Escelicer, 9 vols., 1966-1971. La presente cita corresponde al
artículo “Cartas al amigo. XIII. A Teixeira de Pascoaes, portugués ibérico” (1934), de estas Obras Completas,
vol. VII, pp. 1043-1045. En adelante todas las citas de Unamuno aparecerán, bajo la signatura OC, especifi-
cando también el título del artículo o ensayo, revista o libro, año de publicación, etc., para que el lector, con
la lectura del texto completo, pueda contextualizar cada una de ellas.
7
OC, I, p. 720.
8
Los artículos en cuestión, casi repetitivos, son: “Portugal independiente”(1917), Álbum de la Guerra. Los
aliados en 1917, Barcelona, A. Artis, 1917; “Deber de España para con Portugal” (1917). España, núm. 124,
07/06/1917.
PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO
301
2021

primordial: el pueblo portugués. Le interesaron los escritores que representaban


a su pueblo. Los intelectuales, los libros (Se conservan casi tres centenas en su
biblioteca de la universidad salmantina) y la observación continua (en el tren, en
los paseos solitarios por las calles de pueblos y ciudades lusitanas) le llevan al
convencimiento y servicio de la realidad peninsular.
Camilo Castelo Branco es el más genuino y castizo, el más portuguesista de
los escritores lusos. Camilo es, según Unamuno, “el portuguesísimo novelista
Camilo Castelo Branco”; “el que nos ha dado en sus novelas toda el alma trágica,
fatídica, patética de Portugal”; “leer a Camilo es viajar por Portugal, pero por el
9
Portugal de las almas” ; Camilo es el escritor ”modelo de obras de pasión”; “el
Amor de perdición de Camilo es uno de los libros fundamentales de la literatura
ibérica (castellana, catalana y portuguesa)”; el Amor de perdición es “la novela
de pasión amorosa más intensa y más profunda que se haya escrito en la Penín-
sula y uno de los pocos libros representativos de nuestra común alma ibérica”.
“Hablando de Camilo Castelo Branco, me decía una vez Guerra Junqueiro que
Camilo, aquella alma tormentosa y apasionada, fue más español que portugués,
que a las veces hay en él lo fúnebre quevediano […]. Y ¿cómo este hombre, tan
representativo y tan fecundo, es entre nosotros tan desconocido? ¿Le llegará,
aunque tarde, su día, como le ha llegado a Eça de Queirós, superiores uno y otro
en intensidad y en profundidad a cualquiera de nuestros novelistas españoles
10
contemporáneos?” . Unamuno emite estos juicios en plena vigencia de la novela
realista de la segunda mitad del XIX (Pereda, Galdós, Clarín…, no eran autores
secundarios) y cuando se está consolidando la Generación del 98, bien conoci-
dos ya algunos de sus integrantes.
Pero no son solo Camilo y Eça. De Oliveira Martins escribió párrafos como los
siguientes: “Recuerdo la cómica sonrisa de un amigo mío, cuando le dije que Oli-
veira Martins, el portugués, había sido uno de los más grandes historiadores ar-
tistas del pasado siglo, tan grande como Michelet, o Taine, o Macauley, o Carlyle,
y que Camilo Castelo Branco es un novelista tan grande como los más grandes
11
de Europa ¿Un portugués? -parecía callarse- ¿Un portugués? ¡Cualquier cosa!”
“Estos días [julio de 1908] he estado leyendo aquí [de vacaciones en Espinho],
en el seno de este elegíaco Portugal, una de las más hermosas e interesantes
obras del gran historiador Oliveira Martins, su Portugal contemporâneo. Guerra
Junqueiro la cree, según le oí una vez, la mejor de sus obras. Yo no diré otro tanto
porque no soy portugués. Y Oliveira Martins no me parece, como a Menéndez y

9
“Guarda”, 1908; OC, I, p. 239.
10
“La literatura portuguesa contemporánea”, 1907; OC. I, pp. 190-191.
11
O.C, VI, p. 1132. En carta a Azorín, del 13.11.1907, repite literalmente el mismo juicio: “Un día se me escandalizó
uno porque coloqué a Oliveira Martins entre Michelet, Carlyle, Macauley, etcétera. Y le añadí: ¡Sí, y Camilo
Castelo Branco ha sido uno de los más grandes novelistas europeos del siglo XIX! ¡Ya ve usted un portugués!
¡Ni siquiera un español…!” (El País, domingo 4 de enero de 1981, p. 8/Libros).
302 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Pelayo, el historiador más artista que dio en el pasado siglo la Península Ibérica,
sino el único historiador de ella que merece tal nombre. Es decir algo más grande
y más hondo que un artista. Este hombre es una de mis debilidades. ¡Cuánto he
aprendido en esa su obra triste, como él mismo la llama!
“Mucho os diría sobre el genio peninsular, y cómo él abarca y corona lo es-
pañol y lo portugués; pero cuanto pudiera yo deciros a tal respecto lo dijo egre-
giamente Oliveira Martins, de quien Menéndez y Pelayo decía que fue el histo-
riador más artista que ha tenido la Península en el pasado siglo, y yo creo que el
único historiador artista de ella. El más artista y el más penetrante. Su fantasía
llegó a profundidades a que la fatigosa y fatigada ciencia de otros no ha llegado.
Su História da civilização ibérica debería ser un breviario de todo español y de
todo portugués culto, y no debía haber tampoco americano, de los que a menudo
buscan en nuestra historia y casta los antecedentes de la suya, que no conociera
ese libro admirable. En vez de repetir una vez más los lugares comunes respecto
a lo que fue el alma española en los tiempos del descubrimiento y conquista de
América, bueno fuera ir a buscar en libros como el de Oliveira Martins riquísimas
sugestiones. En sus breves páginas se encuentra más doctrina, más sociología y
más psicología que en muchos tomos cargados de noticias. No conozco ninguno
de los famosos estudios de personaje de Taine, sus estudios sobre Robespierre,
Danton, Marat, Napoleón, en los Origines de la France contemporaine, sobre los
poetas ingleses, sobre Lafontaine, sobre Balzac, etc. que supere al estupendo
capítulo de la História da civilização ibérica, en que Oliveira Martins estudia a Íñi-
go de Loyola. Y leed también su Vida de Nuno Álvares, el condestable, y repasad
luego las estrofas de fuego que en boca de este guerrero asceta pone Guerra
12
Junqueiro en su Pátria”.
Autores tan poco valorados hoy, como Guerra Junqueiro, Teixeira de Pas-
coaes o Eugénio de Castro, con los que le unió una estrecha amistad (la amistad,
para Unamuno, no fue un valor ocasional: siempre la cultivó y la agradeció pú-
blicamente), también fueron ampliamente elogiados y sobre todos ellos escri-
bió artículos individualizados y altamente elogiosos. Del primero de ellos llegó a
emitir juicios que hoy nos sorprenden profundamente: Guerra Junqueiro es “el
primero de los poetas portugueses de hoy y uno de los mayores del mundo”; “el
más grande lírico portugués entre los vivos y uno de los mayores hoy del mun-
do”; de Teixeira de Pascoaes: “Hubiérase este libro [“Las sombras"] publicado
en francés por cualquier artífice literario -aunque uno de estos no podría haber-
lo hecho- del bulevar, con amigos en el cotarro del Mercure que se lo hubiese
jaleado, y a estas horas empezaría a tener imitadores por esas tierras. Pero se
trata de un oscuro poeta portugués que vive su vida y sus cantos a orillas del
humilde Tâmega, en el dulce retiro de Amarante”; de Eugénio de Castro: “Pero

12
“Desde Portugal”, 1908; OC, I, p. 207.
PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO
303
2021

no supieron ver eso [lo vernacular] sus contemporáneos [de Eugénio de Castro],
que lo encontraban poco castizo, cómo por debajo de las galas de la literatura
13
que llamaré internacional, palpita el espíritu más arraigadamente portugués”
De alguna manera, las obras de estos autores (en el caso de Eugenio de Castro
solamente Constança) y de otros, como se verá más adelante, tienen mucho de
arquetipos, de representantes de la tierra y de la raza: los criterios unamunianos
estaban condicionados por los valores genuinos y autóctonos.
Son inolvidables a lo largo de toda su obra ensayística las evocaciones de
Antero: “Se suicidó Antero de Quental, el de aquellos terribles y lapidarios so-
netos en elogio de la muerte, de la muerte ‘hermana del amor y de la verdad’,
‘funérea Beatriz de mano helada, pero única Beatriz consoladora’; de la muerte,
‘hermana coeterna de mi alma’; de la muerte, en cuyo seno pensaba dormir ‘en
la comunión de la paz universal’. ‘Crimen grande será tal vez llamarte – decía
–; mas no soñar contigo y adorarte. No-ser que eres Ser único absoluto.’ ¡Este
hombre fundamentalmente bueno – decía de Antero su amigo Oliveira Martins
–, si hubieses vivido en el siglo VI o en el siglo XII, sería uno de los compañeros
de san Benito o de san Francisco de Assis; en el siglo XIX es un excéntrico más,
de ese corte de excentricidad que es indispensable, porque a todos los tiem-
pos les fueron indispensables los herejes’. Antero, con sus hermanos Obermann,
Thomson y Leopardi, Kierkegaard – no más intensos en la desesperación que él
– duerme para siempre. Su corazón, libertado ya, duerme su sueño en la mano
14
de Dios, eternamente”.
“Próximamente publicaré – y recibirá usted [Juan Zorrilla de San Mar-
tín] – mi Rosario, de sonetos líricos (más bien trágicos), entre los que usted
verá desahogos de mi pesimismo. Me dicen que algunos recuerdan los de Quen-
tal. Este Quental, y Leopardi, Thomson, Pascal, Obermann, Kleist. Kierkegaard,
15
René, Couper, Mathew, Arnold, etc. ¡son mi consuelo!”
Si Guerra Junqueiro y también Teixeira de Pascoaes y Eugénio de Castro,
entre otros muchos, le brindaron su sincera amistad (y hospitalidad en Portugal),
Laranjeira (al que conoció en unas vacaciones en Espinho) le encarnaba, en car-
ne y hueso presente, a Antero de Quental, quizás el portugués más admirado por
el autor de Del sentimiento trágico de la vida. “¡Pobre Laranjeira! Le conocí en el
verano de 1908 en Espinho, donde ejercía por caridad hacia sus prójimos, y casi
siempre desinteresadamente, la medicina. Anudamos una estrecha amistad que
ni la muerte, así lo espero, ha cortado. Reconocí en él a uno de los más típicos
productos de su país y de su tiempo, a un alma ansiosa de suprema libertad, de

13
Art. “Eugenio de Castro”, 1907; OC, I, p. 186.
14
Art. “Un pueblo suicida”, 1908; OC, I, p. 244.
15
Apud Manuel García Blanco, “El escritor uruguayo Juan Zorrilla de San Martín y Unamuno”, Cuadernos
Hispanoamericanos, Madrid, 1954, pp. 46-47. Para el Soneto LXXVI eligió el lema "Na mão de Deus, na sua
mão direita", título de uno de los sonetos del portugués.
304 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

eterna dicha, que sufría en la vida. Una especie de patriotismo cósmico y una de-
sesperanza de la finalidad humana del universo, todo ensombrecía su alma. Tra-
bamos correspondencia epistolar discutiendo en ella nuestro distinto modo de
protestar contra el destino. Y predije muchas veces cuál habría de ser su muerte.
He acertado, no sé si por desgracia o por fortuna. Lo que sé es que mientras unos
protestan con su muerte otros protestamos con la vida. Y seguimos esperando
16
en que un día se rompa el misterio”.
Es, por otra parte, Laranjeira el interlocutor a quien, en una carta, confió el
juicio definitivo sobre Antero: “Suelo decir que [esa su tierra] es una especie de
gran tumor que ha permitido el desarrollo de los más profundos e íntimos genios
de la desesperación más o menos resignada como Antero, Camilo, Soares dos
Reis y otros. El pesimismo de Schopenhauer me parece una posición de burgués
egoísta y satisfecho, el de Hartmann una pedantería de alemán. Acaso ni el de
17
Leopardi y el de Sénancour son tan sinceros y hondos como el de Antero”.
Disculpen esta amplia lectura de textos literales unamunianos. No es fácil
desasirse de la fuerza de este lenguaje, de su rotundidad y convencimiento.
Son los viajes a Portugal (al menos una docena) el motor de sus artículos y
de su sentimiento portugués. D. Miguel solamente viajó dos veces a Francia (un
viaje a Grenoble y la estancia de su destierro, con ocasión del cual se acercó a
la frontera para estar cerca de su “patria”), dos a Italia y una a Suiza. Los viajes
unamunianos se circunscriben, pues, casi exclusivamente a España y Portugal.
Así, lamenta el desconocimiento y desprecio entre ambos pueblos. “Aquí, en Es-
paña, no es la literatura portuguesa todo lo conocida y apreciada que debería
ser, aun siendo las dos lenguas tan afines que sin gran esfuerzo podemos leer
el portugués. Diferenciase del castellano mucho menos que el catalán y, sobre
todo, el portugués escrito. Mas, aun siendo los dos países vecinos aislados los
dos, en cierto modo, del resto de Europa, yo no sé qué absurdo nos ha mante-
nido separados en lo espiritual. En Madrid es más fácil encontrar un libro inglés,
alemán o italiano que no en portugués, y en Portugal hay Facultad de Medicina
en que sirven de texto de Histología obras de nuestro Ramón y Cajal, pero… en
francés” […]. Y siendo así, ¿a qué se debe este alejamiento espiritual y esta tan
escasa comunicación de cultura? Creo que puede responderse: a la petulante
soberbia española, de una parte, y a la quisquillosa suspicacia portuguesa, de
la otra parte. El español, el castellano, sobre todo, es desdeñoso y arrogante,
y el portugués, lo mismo que el gallego, es receloso y susceptible. Aquí se da

16
Art. “Manuel Laranjeira”, 1912; OC, IV, p. 1014.
17
Carta a M. Laranjeira del 08.10.1908 (Cartas de Manuel Laranjeira, Lisboa, Portugália Editora, 1943, p. 169).
En el “Prólogo a Cartas de Manuel Laranjeira” (1913; OC, VIII, p. 1012) escribe: “Fue Laranjeira quien me
enseñó a ver el alma trágica de Portugal, no diré de todo Portugal, pero sí del más hondo, del más grande.
Y me enseñó a ver no pocos rincones de los abismos tenebrosos del alma humana. Era un espíritu sediento
de luz, de verdad y de justicia, Le mató la vida. Y al matarse dio vida a la muerte”.
PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO
305
2021

en desdeñar a Portugal y en tomarlo como blanco de chacotas y burlas, sin co-


nocerlo, y en Portugal hasta hay quienes se imagina con que aquí se sueña en
conquistarlos. Y, sin embargo, Portugal merece ser estudiado y conocido por los
españoles. Hago un viaje allá [a Portugal] por lo menos una vez al año, y cada vez
18
vuelvo más prendado de ese pueblo sufridor y noble”
Fueron muy frecuentes los viajes de Unamuno a Portugal, como he dicho.
En uno de ellos, el Rector de Salamanca, un frío día de finales de noviembre de
1908, paró un día en esta ciudad de Guarda, a la sazón y según él de unos 6.000
habitantes, donde durmió con una novela de Camilo a la cabecera de la cama
(“Leer a Camilo es viajar por Portugal, pero por el Portugal de las almas”). Como
siempre que viajaba a Portugal, recorrió toda la ciudad, leyó O Combate, diario
republicano, visitó la catedral, el liceo (“Fui a ver el Liceo nacional donde se cur-
san los cinco primeros cursos, con unos 150 alumnos”, por cierto con manteos o
levitas). “Sueñan acaso [los estudiantes del liceo de Guarda] en Coimbra, en la
hermosa Coimbra henchida de leyendas estudiantiles. Y yo también, al verlos,
me acuerdo de Coimbra, y de los días que, hace ya muchos años, pasé en ella,
en aquella encantadora Coimbra, donde resbala el Mondego entre los chopos
sollozando las estrofas que Camoens dedicó a Inés de Castro y murmurando
cantos de João de Deus”. Y ya en uno de los párrafos finales del artículo, escribe
uno de sus más hermosos e íntimos pensamientos sobre Portugal:

“¿Qué tendrá este Portugal ― pienso ― para así atraerme? ¿Qué tendrá esta tierra,
por fuera riente y blanda, por dentro atormentada y trágica? Yo no sé; pero cuanto
19
más vuelvo, más deseo volver” (Unamuno, “Guarda”)

Más al norte de esta frontera Guarda-Salamanca, se encuentra Rihonor de


Castilla, en la provincia de Zamora, y Rio de Onor, en el distrito de Bragança, que
forman un pueblo mixto único en la península ibérica, una unidad poblacional
donde la frontera, en vez de separar, unió a sus habitantes, y donde se habla
un dialecto común, el rionorés, dialecto de origen leonés, lengua medieval que
cubrió un amplio territorio a ambos lados de la frontera.
Todo un símbolo para nosotros moradores de esta franja del oeste de España
y el este de Portugal, del que hoy el CEI es un gran referente.

Discurso proferido na Sessão de Entrega do Prémio Eduardo Lourenço 2020

18
Art. “La literatura portuguesa contemporánea”, 1907; OC, I, p. 189-190.
19
Art. “Guarda”, 1908: OC, I, pp. 238-242.
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO
1
Pretendemos assinalar neste dossiê a realização da Homenagem a Eduar-
do Lourenço, que deixou o nosso convívio recentemente (falecido no dia 01 de
dezembro de 2020), através de um extenso programa realizado em três cidades
(Guarda, Pinhel e Vila Nova de Foz Côa), com patrocínio dos respetivos municípios,
entre os dias 03 e 05 de setembro último, com destaque especial para a partici-
pação de poetas, músicos, actores, escritores e investigadores de vários países.
O mesmo programa de Homenagem a Eduardo Lourenço, constituiu a 1ª edição
da Festa da Literatura e do Pensamento - Caravana Literária, nova iniciativa in-
ternacional que surgiu no âmbito dos trabalhos da candidatura da Guarda a Capital
Europeia da Cultura 2027, concebida por Jorge Maximino e pensada para interligar
culturalmente os 17 concelhos da Beira interior que apoiam o projecto da mesma
candidatura, à qual também se associou Eduardo Lourenço como primeiro subscri-
tor, entre um conjunto vasto de personalidades. Estiveram presentes na Homena-
gem os eus familiares mais próximos: a irmã Maria Alice de Faria, o irmão Adriano
de Faria, acompanhada da sua esposa Isabel Madeira.

1
Publicamos apenas textos dos convidados que participaram na sessão da tarde do primeiro dia, 03 de
setembro, na cidade da Guarda.
A IMORTALIDADE DE EDUARDO LOURENÇO

JOSÉ MANUEL DOS SANTOS

Durante sete décadas, não houve horizonte nosso onde, ao olhá-lo, não vísse-
mos a figura nítida e leve de Eduardo Lourenço. Nesse longo tempo em que nos
falou de nós, e de nós no mundo, e do mundo em nós, a sua vida foi caminhando
para uma eternidade que os quase cem anos que durou deslumbrantemente pa-
reciam confirmar. Foi então na luz serena e intemporal dessa eternidade que o
fitávamos, como se ele tivesse sido dispensado de morrer para que nos pudesse
continuar a dizer aquilo que queríamos continuar a ouvir.
Quando, há menos de um ano, Eduardo Lourenço morreu, a surpresa maior foi
essa morte ter atingido aquele que quase julgávamos imortal. Mas como o enge-
nho humano é apto para fazer acontecer o que não acontece, a nossa maneira de
não deixarmos que a sua morte nos desmentisse a certeza em que estávamos foi
dar a essa morte a imortalidade que ele parecia ter em vida.
É assim que agora o vemos e ouvimos, encontrando a sua voz nas milhares
de páginas que nos deixou e em que todos os temas e todos os motivos, todos
os autores e todas as obras que interessam estão presentes e vivos. De tudo
tratou com uma audácia, uma originalidade e uma inteligência crítica sem par
nem comparação.
Com um movimento que nunca parou, afrontou os nossos medos e recalca-
mentos, esclareceu as nossas ilusões e desilusões, desfez velhos mitos e criou
novos mitos. Leu de outra e fulgurante maneira o que parecia não ter outra maneira
possível de se ler. Fez provocações, naquele modo subtil que só ele sabia usar,
para nos tirar aquilo que parecia estar a dar-nos.
Depois do que sobre eles escreveu, Camões, Antero, Camilo, Eça, Pessoa, Sa-
ramago e tantos mais passaram a ser outros, passando a ser mais eles.
Tudo lhe interessou e por tudo se interessou: a literatura, a filosofia, a história, a
política, o jornalismo, a arte, a música, o cinema, a televisão, o desporto, a vida.
Com um estilo em que o fulgor verbal, a invenção de conceitos e a criação de
imagens eram inseparáveis de uma cultura que parecia infinita, Lourenço fez da
leitura e da escrita funções vitais da sua respiração quotidiana.
Basta percorrermos os títulos e os índices das obras que nos deixou para
ficarmos assombrados com a extensão e a profundidade dos seus interesses e
conhecimentos; para ficarmos espantados com a variedade e a vivacidade da
sua intervenção intelectual.
Eduardo Lourenço foi o leitor mais constante, certeiro e sagaz do nosso tempo
e da nossa cultura. E foi também o vedor que detectou os seus tesouros escondi-
dos.
Ele sabia, como Píndaro, que o homem é o sonho de uma sombra; mas sabia
também, como Terêncio, que nada do que é humano lhe era estranho.
Numa das últimas vezes que com ele conversei, disse-me: “Não sei se penso
muito na morte; sei é que a morte pensa todos os dias em mim”.
Mas muito antes havia dito: “Só os homens mortos nos parecem grandes. Ou
aqueles de quem é difícil aproximarmo-nos. Não porque a morte ou a distância os
tenham tornado maiores do que eles eram, mas só porque estão fora do nosso
alcance e nós nos tornámos pequenos em relação a eles e a nós”.
Lembramos Eduardo Lourenço nas terras das suas origens e neste aconteci-
mento, que saúdo, saudando o seu organizador Jorge Maximino e todos os que
nele participam.
Esta é agora uma magnífica forma de nos aproximarmos de Eduardo Lourenço,
sabendo que a sua grandeza nos faz maiores do que seríamos sem ela.

Setembro de 2021
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO

ANTÓNIO JOSÉ DIAS DE ALMEIDA

Quando, dia 3 de Setembro passado, a coordenadora da Conferência “Pen-


samento e Poéticas do Ensaio”, Rosa Oliveira, me chamou ao palco para intervir,
apresentou-me, e bem, como amigo de Eduardo Lourenço. Com o elogioso epíteto
com que fui apresentado aos que assistiam, li a dedicatória escrita por Eduardo
Lourenço no meu exemplar de Vida Partilhada que transcrevo ipsis verbis: “Para
o seu velho amigo António José com a amizade e a cumplicidade do seu admi-
rador”. Assinou e datou. Referi, então, que tal dedicatória me desvaneceu e, se
havia um admirador, seria eu, a amabilidade de Eduardo Lourenço para comigo
era, evidentemente, excessiva. Considero, pois, esta dedicatória uma consagração
imerecida que, todavia, me enriquece o “ego”. Na mesma página deste volume,
uma edição comemorativa do 90º aniversário do autor, escrevi, precisamente no
dia do seu falecimento, 1 de Dezembro de 2020, o seguinte: ”Alguns momentos
que partilhei com Eduardo Lourenço ficam para mim como recordação indelével da
mais brilhante personalidade literária e cultural que tive o privilégio de conhecer
e que, aliás, juntava essas qualidades à sua cativante simpatia enquanto pessoa.
Um sábio, um humanista, uma perene referência. Que esta seja uma pequena, mas
sentida, homenagem que nesta Vida Partilhada lhe desejo prestar.”
Após esta espécie de introito, pretendi, fundamentalmente, falar de vários as-
pectos que mostrassem a ligação de Eduardo Lourenço à Guarda, numa perspecti-
va marcada por alguns acontecimentos de um quotidiano banal, outros registados
em textos referenciais. Comecei por ler um breve texto de E.L. sobre o ar da Guar-
da in Ar Livro, pequeno opúsculo coordenado por Américo Rodrigues em 2004,
uma edição do NAC (Núcleo de Animação Cultural), texto que relacionei com o da
homenagem que lhe foi prestada na Guarda, em 10 de Setembro de 1995, v.g. “Da
verdadeira Guarda só me eram familiares o frio, a neve, o nevoeiro (...) a Guarda
ficou sendo para mim, uma realidade espectral (...).” A sua ligação a esta cidade fi-
cará perenizada com a Biblioteca que, orgulhosamente, ostenta o nome Biblioteca
Municipal Eduardo Lourenço (BMEL). Como membro que fui da comissão executiva
do CEI (Centro de Estudos Ibéricos) não deixei de fazer referência a esta prestigiosa
instituição que nasceu de uma ideia sua, lançada no discurso Oito Séculos de Altiva
Solidão, proferido na sessão solene das comemorações do 8º centenário da con-
cessão do foral à cidade da Guarda. Como promotor e mentor, Eduardo Lourenço
312 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

figurou desde o início como seu Director Honorífico. Também referi que em sua
homenagem foi criado o Prémio Eduardo Lourenço atribuído a personalidades de
distinção e relevo. Citei, entre outros, os nomes de Luís Sepúlveda (2016), prema-
turamente falecido em 16 de Abril de 2020, em Oviedo onde residia, e Fernando
Paulouro Neves (2017).
O prestígio e a dimensão cultural de Eduardo Lourenço foi sendo reconhecida a
vários níveis, não só em Portugal como noutros países, v.g. Brasil, França, Espanha.
O relevo e o mérito que o seu pensamento e a sua obra progressivamente iam
granjeando, proporcionaram-lhe inúmeros prémios que recebeu, com destaque
para o Prémio Camões e o Prémio Pessoa. As merecidas condecorações foram
muitas e muito honrosas.
Por nela ter participado, integrado numa delegação do CEI que, para o efeito,
se deslocou da Guarda a Lisboa, destaco a Comenda da Ordem do Mérito Civil, ou-
torgada pelo Rei Juan Carlos e entregue pelo embaixador de Espanha em Lisboa. A
cerimónia decorreu na Embaixada de Espanha e realizou-se no dia 4 de Dezembro
de 2009. Após os discursos oficiais, o ilustre condecorado manifestou o seu re-
conhecimento pela distinção e manifestou o seu agrado pela presença de muitos
conterrâneos daquela que considerava a sua cidade, a Guarda. Ao ser servido um
beberete no salão nobre da Embaixada, o Mestre abeirou-se de nós e, com a sim-
plicidade e a simpatia que eram seu timbre, disse-nos: “E se nós, os da Guarda,
fôssemos comer qualquer coisa e conversar num restaurante que conheço, aqui
perto?” Convite irrecusável como não podia deixar de ser, fomos para um agradá-
vel restaurante da zona de S. Sebastião da Pedreira, perto do hotel onde Eduardo
Lourenço estava hospedado e aí decorreu em amena cavaqueira um inesquecível
convívio que o nosso querido conterrâneo nos proporcionou.
Com a referência a este episódio, rematei a minha pequena intervenção, real-
çando a lhaneza e a simpatia com que Eduardo Lourenço se referia à Guarda e aos
amigos que muito o estimavam e hoje o recordam com imensa saudade.

Guarda, 3 de Setembro de 2021


A AMIZADE COMO ELEMENTO IMAGINÁRIO
DA ALTERIDADE EM EDUARDO LOURENÇO

JORGE AUGUSTO MAXIMINO*

É para mim um imenso prazer estar aqui convosco hoje, neste momen-
to de celebração, dedicado a Eduardo Lourenço, para honrarmos a sua me-
mória, na vossa companhia e também dos seus familiares, com o programa
1
de Homenagem , iniciado esta manhã na biblioteca desta cidade, da qual se
tornou patrono. Assim, o neste programa de três e em três cidades, a Festa
da Literatura e do Pensamento-Caravana Literária, em memória de Eduardo
Lourenço, centra-se na obra e no homem, no pensador e no amigo que há pou-
cos meses deixou o nosso convívio. Prestamos deste modo homenagem ao
original escritor e pensador que foi Eduardo Lourenço, e celebramos o imenso
e precioso legado que dele nos fica para sempre. Foi o nosso maior corredor
de fundo da cultura e do pensamento, um dos que mais elevou e dignificou a
cultura portuguesa no plano nacional e internacional. O autor de O Labirinto
da Saudade influenciou várias gerações com as suas profundas e minuciosas
análises, ideias fortes e inovadoras no mundo da crítica literária e da filosofia
da cultura, além da sua intervenção cívica sobre variadíssimos temas: cultu-
rais, políticos, sociais, entre outros.
O autor de São Pedro do Rio Seco pensou intensamente a nossa história e a
nossa cultura, tendo-se tornado no seu melhor intérprete, pela forma magistral
como a analisou e como pensou também o presente, o nosso, o da Europa e do
mundo de hoje. Foi um homem de paz, um escritor exímio que deixou na língua
portuguesa algumas das suas páginas mais brilhantes.
De par com seu interesse pela cultura, viveu e pensou intensamente a Europa
e o projecto político europeu e, como cidadão e militante activo da cultura e da
ciência, preocupou-se com as fragilidades desse mesmo projecto, assim como
do processo democrático. Realidade nossa que nos deve preocupar a todos,

*
IELT-Universidade Nova de Lisboa.
O autor do texto (Escritor, professor e investigador) não segue as regras do Novo Acordo Ortográfico.
1
Foi o autor que concebeu o programa de Homenagem a Eduardo Lourenço, que constituiu a 1ª edição da
Festa da Literatura e do Pensamento - Caravana Literária, (03-5 setembro 2021), nova iniciativa pensada
para interligar culturalmente 17 concelhos da Beira interior, no âmbito da candidatura da Guarda a Capital
Europeia da Cultura 2027.
314 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

porque, como bem notou Alain Badiou no seu Abrégé de Métapolitique, a demo-
cracia, como qualquer dimensão da política, só vale a pena se for “pensada por
2
todos” . Também a esse título, gostaria de relevar aqui a generosidade do ami-
go Eduardo Lourenço, essa característica pregnante da sua personalidade, que
ele assumiu inteiramente como elemento implícito ao seu pensamento, no seu
entrelaçamento com a arte e com os sonhos dos escritores e dos poetas, como
elemento imaginário da alteridade, expressão de uma atitude cívica exemplar, de
alcance ontológico. Paul Celan exprimiu-o de outra forma numa pequena frase,
a todos os títulos magistral, quando disse: “Não vejo diferença entre um poema
e um aperto de mão.”
Eduardo Lourenço, que definiu o pensamento como “um diálogo connosco
próprios”, contribuiu também, de forma decisiva, para a legitimação da literatura
e do discurso poético em particular, no quadro das nossas sociedades, no perío-
do a seguir ao pós-guerra e depois em plena fase de massificação cultural, de
excesso produtivista e da “sociedade do espectáculo”, com todos os excessos
subsequentes. Nesse contexto, Eduardo Lourenço foi na nossa comunidade um
farol do pensamento crítico e da exigência de reflexão para várias gerações.
Arriscou corajosamente com os seus ensaios, as suas propostas de leitura sobre
temas fundamentais, sem concessões de qualquer ordem, coerente com a sua
singular posição num horizonte de heterodoxia de um pensador que se colocou
em risco, como exige a tarefa de ensaísta. E de certo modo podemos dizer que
o risco do ensaio iguala o risco da poesia. O sujeito poético arrisca um discur-
so para que o poema se transcenda a si mesmo, operando na linguagem essa
transformação. Do mesmo modo o ensaísmo exige um discurso com imagens
e argumentos seguros, próprios desse labor, procurando nas estruturas do co-
nhecimento o limiar de novos caminhos, que são a base de proposta de novas
leituras do mundo.
E cumpre-nos observar que na sua vasta obra ensaística, entre tantas outras
áreas em que fez incidir a sua reflexão, como a cultura portuguesa e as questões
da Europa, a relevância que atribuiu à literatura, e em particular à poesia, foi con-
siderável, tendo deixado uma marca forte no labor do investigador, do crítico e
do pensador Eduardo Lourenço. E se procurarmos, entre outras razões prováveis,
ressalta a constatação de que não existe arte sem linguagem poética, nem poesia
sem emoção e pensamento. O que terá instituído a necessidade imperiosa, tam-
bém para Eduardo Lourenço em juntar a uma visão e conhecimento especulativo
do mundo um conhecimento intuitivo do mundo, duas perspectivas complementa-
res, afinal.
A poesia constitui-se como território autónomo de pensamento e criação mas
também como saída para a angústia do nosso tempo. A poesia está para lá do

2
Alain Badiou, Abrégé de Métapolitique, Paris, Éditions du Seuil, 1998.
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 315

histórico e do social, pois situa-se sempre num horizonte trans-histórico porque


quebra a linearidade temporal, é resultado de uma energia que a projecta em per-
manência na procura de um espaço de liberdade, condição da sua autonomia.“É
poeticamente que habitamos o mundo ou não o habitamos”, afirmou o pensador
3
numa entrevista em 1998 , numa frase de ressonância hölderlineana.
A genialidade das suas reflexões sobre poesia e a sua importância no quadro
cultural de cada sociedade assentam numa realidade incontestável: a poesia re-
vela a condição humana porque participa da estrutura intrínseca ao homem, que
consiste na nossa necessidade de contínua exigência de mudança e de nos trans-
cendermos a nós próprios, uma forma de nos convertermos noutros, pois o homem
é agente da sua própria criação, na sua procura de conhecimento, do mundo, dos
outros e de si próprio, no seu próprio labirinto interior, no seu descentramento
enquanto indivíduo, como sujeito e como objecto da accção. Falo-vos, em suma,
das poéticas como território em que o sujeito pode precisamente transmudar-se na
procura de liberdade e da libertação da palavra no fazer poético, na escrita como
exercício de liberdade enquanto linguagem.
Território fundamental para chegar à liberdade, através da consciência e do es-
pírito do tempo, essencial para enfrentar as aporias da modernidade. E a literatura
é o melhor espaço para encarar esse desafio, que é também o desafio da auten-
ticidade, da construção da subjectividade e da reinvenção, como bem observou
Eduardo Lourenço sobre o criador moderno, num ensaio do livro O Labirinto da
Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português: “O criador moderno é esse
solitário sem remissão, que deve reinventar a ordem a partir do caos ou uma nova
ordem que é já desordem.”
E este é um pensamento em conformidade com outras visões sobre a forma
como as poéticas da modernidade, dentro e fora da literatura, captam o campo
infinito de temporalidades e a escrita enquanto consciência do mundo. O que bem
sublinhou Jean-François Lyotard, numa passagem do seu livro O Pós-Moderno
explicado às crianças, sobre a relação das personagens literárias com o tempo
(Lyotard: 1988): “A instituição literária, tal como Proust a herda de Balzac ou de
Flaubert, está certamente subvertida, na exacta medida em que o herói não é um
4
personagem mas sim a consciência interior do tempo.”
E este é um dos temas principais na obra de Eduardo Lourenço pois a reflexão
5
constante sobre o Tempo foi “um fio condutor” do seu pensamento.
Por isso mesmo concluo esta minha homenagem com a leitura de um fragmen-
6
to do livro de Eduardo Lourenço Nós como Futuro :

3
Diário de Notícias, 21 de março de 1998.
4
Tradução nossa.
5
Entrevista, Diário de Notícias, 21 de março de 1998.
6
Eduardo Lourenço, Nós como Futuro, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, pp. 26 e 28.
316 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Num certo sentido a nossa viagem para o futuro é simples. Como cada povo da mar-
gem da Europa e seu centro ex-centrado, já estivemos no futuro, por estar navegando
então no coração de uma História que a nossa deriva inaugurava. Fomos futuro e por
tê-lo sido continuamos sendo-o. Mas é esse excesso de tempo simbolicamente tempo
imemorial, como Camões, Pascoaes e Pessoa, diversa e convergentemente o inscre-
veram nos seus poemas que, paradoxalmente, nos paralisa e como que nos rouba um
futuro como esse de outrora, precoce e incandescente.
[…]
Temos que saber e sentir que a viagem no nosso passado apenas começou. O verda-
deiro tempo dos homens é um eterno presente, quintessência de todos os presentes
onde a humanidade se transcendeu a si mesma e impôs ao futuro o seu peso e a sua
figura.

Obrigado!

Guarda, 03/09/2021
COMO O SOL, TODOS OS DIAS

FERNANDO PAULOURO NEVES

1. Uma das fotografias mais fascinantes de Eduardo Lourenço é uma imagem


do autor à sua mesa de trabalho, nos dias de Vence. Quando a olhei e me detive
na surpresa do instante, pensei que ali estava, bem nítida, a metáfora de Borges
quando definiu a biblioteca como universo. À volta de Eduardo Lourenço havia
livros, muitos dos quais haviam de vir para a Biblioteca que tem o seu nome, aqui
na Guarda, e a secretária um labirinto de papéis, jornais, revistas: o quotidiano da
biblioteca, que ele revisitava todos os dias, para os momentos da escrita e da refle-
xão sobre as palavras e as coisas do seu mundo remoto e imediato. Olhava o mar
de papéis e pensei para mim que a secretária era uma grande nau – esta não era
de pedra nem estava ancorada ao cimo de uma montanha! –, mas um navio de cul-
tura, guiado por Eduardo Lourenço, vogando sem rumo certo, em rotas de poesia e
de prosa desenhadas pelo sol, a lua e as estrelas, tendo apenas por destino o pen-
samento de uma humanidade a edificar, isto é, a escrever em louvor do Homem.
Navegador de um mundo de palavras, ele próprio brincava com essa imagem
excessiva da sua mesa de trabalho, confidenciando com ironia – que nele era sem-
pre um exercício de inteligência – que um dia, quando tudo terminasse e se apre-
sentasse à porta do céu, S. Pedro diria:
– Desembrulhem-no!
Eduardo escreveu e pensou tanto sobre tudo aquilo que define a condição hu-
mana, que eu duvido que no céu houvesse anjos disponíveis para desembrulhá-
-lo… Tantos os livros, tantos os artigos, tantos os pensamentos que a sua obra nos
parece, cada vez mais, o interminável livro de areia, que todos os dias recomeça.
Por mais voltas que dêmos, regressamos sempre a ele para recomeçar a pensar o
fenómeno da cultura, e, dentro desta, a literatura, a leitura («é como leitores que
nós somos literatura», lembrou ele um dia), a crítica, o ensaísmo, a filosofia, a vida.
Outro aspeto fascinante da personalidade de Eduardo Lourenço era a comum
humanidade que ele respirava em tudo o que o seu pensamento tocava, o que lhe
permitia perceber a realidade sem arestas dogmáticas, sempre em liberdade livre.
Gostava de ser o comum dos homens. Em 1977 o “Jornal do Fundão” organizou o
Encontro Nacional de Emigrantes, a que presidiria, no encerramento, o Presidente
Eanes. Foi em Agosto e Eduardo Lourenço estaria em férias pela Beira, certamente
no seu S. Pedro de Rio Seco, quando soube do Encontro e foi ao Fundão.
318 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

– Posso participar? – perguntou, com um sorriso.


Um grande acontecimento: o Eduardo a pensar a emigração, essa história trá-
gico-terrestre, como fenómeno estrutural da sociedade portuguesa. Guardo uma
fotografia desse momento. E, quando a olho, penso, de facto, como ele sabia ser
o comum dos homens.

2. Eduardo Lourenço foi uma espécie de sol que irradiou luz, uma luz fecunda,
iluminadora do nosso pensamento e da nossa vida coletiva. A sua obra é essa luz
solar que se abre em cada página, convocando-nos sempre à leitura do prazer da
descoberta, à inovadora análise da realidade, ao labirinto das ideias que fazem
o caminho da nossa relação com o mundo. Sábio que era, sem nunca se mos-
trar como tal, menos oráculo e mais homem comum, ele decifrava pacientemente,
à conversa ou à escrita, o labiríntico universo da cultura, mostrando que o chão
nosso do mundo é um processo de persistente aprendizagem, que todos os dias
recomeça nos desafios que a sociedade coloca no meio do caminho, como a pedra
do poema de Drummond.
Das melhores coisas que me aconteceram na vida, foi conhecer Eduardo Lou-
renço e poder partilhar a sua amizade. Pude viver momentos singulares à volta do
Mestre. Às vezes, era o nó de terra originário, S. Pedro de Rio Seco (o seu “Paris-
-Texas”, como escreveu um dia em páginas de um diário desaparecido), outras a
memória da Guarda “sideral” e “crepuscular” na metáfora de um “navio de pedra
ao alto de uma montanha”, ou a Beira do altar e do arado, “terras de funda memó-
ria” no seu sono arcaico e profundo. A mesa era sempre boa para o pensamento
e o Eduardo, de facto, ensinou-nos a perceber o sentimento de pertença como se
toda a Terra, toda, fosse Pátria, como alguém disse de Roland Barthes. “Quem vê
o seu povo, vê o mundo todo”, escreveu ele um dia, como síntese do seu olhar
universal. Porque a sua prática era sempre de comum humanidade. Não gosta-
va de torres de marfim, tão ao gosto de algumas academias, e, quando as havia,
descia delas para uma democrática cidadania do saber sobre a emergência do
quotidiano. Falava de tudo: dos fenómenos sociais, da sociedade do espetáculo,
do futebol e da política à escala nacional ou planetária. Encarou sempre a cultura
como questão primordial e não poucas vezes, como um dia confessou, falando do
mundo dos grandes autores, estava a falar de si, como se o memorialismo pessoal
e imediato lhe estivesse vedado.
Foi polémico e desmistificou questões de “vacas sagradas” da literatura portu-
guesa, desfazendo mitos com erudição amável, sempre com a elevação da força
dos argumentos em detrimento das ideias em estado de sítio e do ajuste de contas
pessoal. A sua formação filosófica e um pensamento aberto ao mundo faziam-lhe
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 319

ter razão antes do tempo, como aconteceu logo com as primeiras obras, Heterodo-
xia I e II, e, mais tarde, pela forma como articulou a relação com a Europa (Nós e a
Europa) ou pensou a contingência histórica portuguesa, com as suas quimeras ou
os despedaçados sonhos imperiais, na configuração lusófona. A Europa foi ques-
tão que teve consigo mesmo e nunca deixou de a sonhar do Atlântico aos Urais,
com a pluralidade de culturas que isso representa.
O que aprendemos com Eduardo Lourenço! A sua introspeção a um Pessoa
Revisitado, a sua forma de medir o tempo dentro da poesia (Tempo e Poesia), o
seu pensamento crítico (Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista), a crítica dentro
da crítica, quando nos explica como a crítica literária morreu (O Canto do Signo),
o seu contributo para nos pensarmos a nós próprios como pátria, pondo a nu as
angústias da nossa complexa matriz identitária (O Labirinto da Saudade).
Bem perto de nós, em tempo de restrições, quando se ia além da Troika para
nos dizerem que vivíamos acima das nossas possibilidades, lembro-me de ter dito
aqui na Guarda, que Eduardo Lourenço nos ensinara a pensar acima das nossas
possibilidades.
Somos todos tributários de um mar de gratidão ao autor de O Labirinto da Sau-
dade e só lhe poderemos pagar com o empenho do coração, lendo-o, visitando-o
nos seus livros. Henry Miller, olhando, na estante, os livros dos seus queridos auto-
res, dizia: «eles estão vivos e falam comigo». E Gide no seu diário, a propósito de
Stendhal: «Há certos autores que eu leio o mais lentamente possível. Parece-me
que converso com eles, que eles me falam e teria tanta pena se não os soubesse
reter ainda mais tempo ao pé de mim.»
Eduardo Lourenço também continua a falar comigo de cada vez que folheio
lentamente, como se lavrasse a terra, as suas obras para poder pensar mais alto,
ele está ao pé de mim.
Estou a ver Eduardo Lourenço em S. Pedro de Rio Seco, com o seu sorriso aber-
to, com a sua solidária e afetuosa relação com toda a aldeia do planalto beirão.
Com o seu passo miudinho, evocava lugares e tempos dentro do tempo. Afabilida-
de do homem que era sábio. E que me dizia a sorrir: “Chamam-me filósofo, mas o
que sou é ensaísta. Ser discípulo de Montaigne, já não é nada mau!”
O sol volta hoje mais brilhante. Estamos à mesa das palavras de Eduardo Lou-
renço. Quer dizer, estamos no meio da luz.

Guarda, 3 de Setembro de 2021


ESBOÇO DE ENSAIO SOBRE O ENSAÍSTA:
EDUARDO LOURENÇO, A GUARDA E O SEU
LABOR NA CONSTRUÇÃO DO CENTRO DE
ESTUDOS IBÉRICOS

RUI JACINTO

“o destino desta velha terra, consagrada à defesa e vigilância de um pequeno reino,


que não sabia ainda que seria grande e disperso como um arquipélago, não era o
da viagem mas o da vigília, do ensimesmamento e, em todos os sentidos do termo,
da solidão. Da grande solidão das Beiras falou o etnólogo e antropólogo Jorge Dias.
Falemos nós da sua efectiva interioridade, mais filha da história do que da geografia,
não para assinalar uma condição de isolamento, difícil de viver e aceitar, mais a mais
num espaço tão pequeno como o nosso, em que tudo está próximo de tudo, mas para
a pensar.”

1. “OITO SÉCULOS DE ALTIVA SOLIDÃO”: A GUARDA COMO


DESTINO
O irrecusável e honroso convite para dar um testemunho numa conferência
onde se presta homenagem a Eduardo Lourenço representa um enorme desafio
e uma pesada responsabilidade. Será estultícia ou pretensão minha discorrer
sobre um vulto incontornável da cultura portuguesa do último século por habilita-
ções insuficientes ou risco de pouco adiantar a testemunhos anteriores (JACINTO,
2013; 2020). Nestes momentos, sobretudo após intervenções tão pertinentes
que destacaram diferentes facetas do homenageado, importa que a razão não
ceda ao coração para não resvalamos para sentimentalismos que nos aprisio-
nam a considerações fáceis e sem significado. Um dever de gratidão, contudo,
obriga-me a dizer presente e a usar esta oportunidade para prestar uma sentida
homenagem ao Professor Eduardo Lourenço, dando publico reconhecimento da
sua generosidade, tolerância e privilégio que me concedeu em partilhar momen-
tos inolvidáveis que foram insuperáveis do ponto de vista pessoal, profissional
e académico.
322 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O roteiro singular de Eduardo Lourenço desenhou uma ampla cartografia que


nunca deixou de ter como referências matriciais S. Pedro de Rio Seco e a Guarda.
Os lugares onde foi vivendo, depois de abandonar este casulo, coincidiram com as
Universidades onde estudou, ensinou ou onde os seus méritos foram reconheci-
dos. A Geografia Lourenciana é ainda pontuada por outros lugares onde se encon-
tram sinais materiais e intangíveis que perpetuam a sua memória, nós duma rede
fluida onde o real e o imaginário acabam por se (con)fundir. Se lhe juntarmos a to-
ponímia dendrítica que emana da sua obra deparamos com um poliedro complexo
que ganha forma quando se se entrecruzam espaços, tempos, ideias.
A viagem que vamos iniciar, que tem este universo como pano de fundo, per-
corre duas décadas que coincidem com a etapa final da vida de Eduardo Louren-
ço e a construção do Centro de Estudos Ibéricos (CEI), essa saudável utopia que
concebeu à imagem e semelhança do que aspirava para a sua Guarda. Embora
o mais importante seja referir os marcos mais
significativos do percurso frito conjuntamente
com esta finalidade, é redutor não lembrar al-
gumas memórias, pessoalmente tocantes, que
revelam a sua permanente atenção aos sinais
do tempo e aos afetos que nos amarram aos
lugares.
É impossível não recordar o encontro no
Hotel Turismo, de boa memória, em 26 de no-
vembro de 1999, ao pequeno almoço, momen-
tos antes da sessão solene comemorativa do
VIII Centenário da cidade da Guarda, dia em
que conheci pessoalmente Eduardo Lourenço.
A conversa foi rápida, qual inquérito feito para
me situar como oriundo de Coimbra e gestor
do Programa Interreg, apostado em promover
a cooperação transfronteiriça. A conversa logo
evoluiu para o novo significado que as frontei-
ras estavam a assumir, para a necessidade de
deixarmos de estar de “espaldas” viradas, de
reverter a velha função de vigilância, que essa
cicatriz da história passasse a funcionar como
traço de união. Julgo que foi um passo curto
até ao improviso final do discurso que sugere a
criação do Instituto da Civilização Ibérica que,
dando uma alma nova à cidade, alinhe a Guarda com o futuro.
Outro dia, em final abril de 2004, após uma viagem direta do aeroporto de Lis-
boa, onde Eduardo Lourenço acabara de aterrar vindo de Nice, ao chegar ao Porto
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 323

da Carne, o céu embrulha-se à medida que iniciamos a subida para a Guarda. A


atmosfera começa a ficar cada vez mais cinzenta, o frio adensa-se e, ao pararmos
em frente ao Hotel Turismo, começam a cair uns farrapos de neve. Eduardo Louren-
ço olha em redor e exclama ao ver as arvores do Jardim José de Lemos a ficarem
coloridas de branco: esta é a minha Guarda!
Ainda permanecem bem guardados na memória os dias passados em Vence,
em 2008, onde me desloquei com o Virgílio Bento para acerto de detalhes da
transferência dos livros que pretendia doar à Guarda. Vicissitudes do foro pessoal
obrigaram-no a desmontar a sua biblioteca, processo em curso e a que resistia
pelos pressentimentos que anunciava. A medida que aquele caos organizado ia
sendo embalado, cada livro retirado da estante era objeto duma história, tinha sido
escrito por alguém que havia conhecido ou a que estava ligado por um qualquer
laço. Considero lamentável que estes dias não tenham sido devidamente docu-
mentados pois seria um testemunho único dum largo período da história da cultura
portuguesa e europeu que estava a findar como a areia da praia que nos escorre
das mãos. Em anexo deixo algumas imagens que esses momentos irrepetíveis.
Estas histórias, simples e plenas de humanidade, revelam traços pessoais que
estão igualmente presentes no reencontro de Eduardo Lourenço com a Guarda.
Revisitar este tempo é reviver o regresso deste filho pródigo e algumas mudanças
que marcaram a evolução recente da Guarda. O reencontro de Eduardo Lourenço
com as origens fecha o ciclo dum nómada que se repartiu por várias geografias
desde que, na Guarda, iniciou a uma peregrinação. O lapso de tempo que medeia
entre o lançamento da ideia e a consolidação do CEI, marcante tanto da história
recente da Guarda como da relação que Eduardo Lourenço acabou por estabele-
cer com a cidade, corresponde a duas décadas de exercício duma cidadania plena
e comprometida abraçada em nome duma ca(u)sa comum: a Guarda e o CEI. Este
percurso, feito sob o signo dos afetos, a que o ensaísta emprestou generosidade,
saber e gratidão, conhece três datas capitais que assinalam outras tantas efemé-
rides:

_ 1999. Origem: Oito séculos de altiva solidão. A Guarda como destino. A ideia
luminosa lançada no célebre discurso de 26 de novembro de 1999, que esteve
na origem do CEI, desencadeou uma aventura que fez de Eduardo Lourenço a
figura tutelar do Centro.
_ 2008. Peregrinação: Todos Nós Ibéricos. O Centro de Estudos Ibéricos como
ca(u)sa comum. A peregrinação que se iniciou no dealbar do milénio teve um
momento alto com a inauguração da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço
(27/11/2008). Este momento foi apenas o início de mais uma etapa duma pere-
grinação que ainda continua.
_ 2012. Regresso: Quem vê o seu povo vê o mundo todo. Regresso (sem fim).
A inaugurado dum memorial, em 2012, durante uma homenagem realizada em
324 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

São Pedro de Rio Seco, simboliza o reencontro de Eduardo Lourenço com as


origens, acelera a caminhada final que se concluirá com a sua última visita à
Guarda, em 7 de setembro de 2018, para a entrega do Prémio Eduardo Lou-
renço.

“Ao conhecimento e à clara visão do que foi e continua sendo a versão peninsular da
Europa se deve votar o nosso Centro de Estudos Ibéricos tanto mais que dela faz parte
integrante a primeira, e até hoje nunca ultrapassada, vocação planetária da mesma
Europa. O que foi sonho do mundo merece ser repensado para saber melhor quem
fomos, quem realmente somos e quem podemos ser. Todos nós Ibéricos.”

2. TODOS NÓS IBÉRICOS. O CENTRO DE ESTUDOS IBÉRI-


COS COMO CA(U)SA COMUM
A sessão solene das Comemorações do VIII Centenário da concessão da Carta
de Foral à Guarda, onde Eduardo Lourenço proferiu a oração laudatória que intitu-
lou “Oito séculos de altiva solidão”, ocorreu em 26 de novembro de 1999. Ao con-
cluir esta intervenção lançou a ideia luminosa de ser criado na cidade um centro
de estudo e reflexão: “Eu creio que a Guarda está mais vocacionada que nenhuma
outra, e este espaço, para ser o lugar de um diálogo, necessário mais que nunca,
com aqueles que foram os nossos adversários durante séculos. (…) Nesta cidade
podia imaginar-se qualquer coisa como um Instituto da Civilização Ibérica, onde
os nossos laços comuns que só Oliveira Martins foi capaz de apreender fossem
repensados para que nós soubéssemos efectivamente quem somos e onde esta-
mos, não tão isolados como imaginamos, mas sempre sob o olhar dos outros, para
sabermos quem é o outro, com quem devemos dialogar e assim nos defender de
uma maneira diferente da que foi a nossa durante séculos. Essa é a vocação que eu
desejo para a Guarda. Que ela seja hoje a sentinela dum futuro comum para uma
Ibéria que é um dos pólos desta Europa onde todos nós queremos estar e, onde
querendo ou não, já estamos”.
A concretização do desafio que havia lançado, prontamente acolhido, acabou
por ajudar a apertar os vínculos entre o ensaísta e a cidade. O reencontro de Eduar-
do Lourenço com a sua cidade, é minha convicção, foi sempre alimentado pelo se-
creto sentimento topofílico que manteve viva a esperança, que nunca se apagou,
de reatar a relação umbilical com a Guarda. A compreensão desta evolução obriga
revisitar o espírito da época e recordar o empenho de alguns protagonistas desta
história.
O momento que então se vivia era de relativa euforia cujo clímax foi atingido
com a Expo 98, evento onde Eduardo Lourenço proferiu uma conferência memo-
rável, Nós como futuro, abrindo com palavras inspiradoras que continuam a ser
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 325

repetidas: “Povos e indivíduos só têm o passado à sua disposição. É com ele que
imaginam o futuro”. O estado de alma que percorria o país, sentimento comum
a que era vivido a nível local, assentava na crença duma efetiva União Europeia,
num progresso ininterrupto, num crescimento suficiente para debelar as crónicas
assimetrias estruturais com matizes económicas, sociais e territoriais. A conver-
gência, a coesão e a Europa sem fronteiras pareciam imparáveis, sem paralelo com
o desânimo atualmente vigente. Ainda não se perfilava no horizonte o regresso das
fronteiras e a crença num futuro promissor era tão forte que não se ouviam vozes
avisadas, como a de Eduardo Lourenço, quando advertia que qualquer “muro nun-
ca cai só para um lado”.
As reflexões de Eduardo Lourenço iam ao encontro das genuínas aspira-
ções da Guarda que pareciam legitimadas por aquele discurso. A expetativa de
romper com a ancestral solidão, superar o isolamento, esbater a interioridade,
abrir a cidade à Espanha e a região à Europa estavam latentes na referida in-
tervenção. As melhorias que a integração na União Europeia estavam a propor-
cionar reforçavam a esperança de serem rompidas as debilidades estruturais
que condicionavam a renovação da cidade e a impediam de ganhar o futuro.
Colocar a cidade na Rota da Europa e recuperar o tempo perdido equivalia ao
sonho que animou os seus filhos a partirem para além dos Pirenéus em deman-
da de melhores dias.
As celebrações do Centenário, além de bálsamo para a depauperada autoesti-
ma dos guardenses, não se limitaram a evocações retóricas ou meras declarações
de intenções. Foram lançadas iniciativas de cariz mais simbólico que apelavam
ao imaginário coletivo e remetiam para as raízes que mergulham mais fundo no
território. A primeira ideia que retenho foi a preocupação de renovar a imagem da
cidade, reverter um ícone através dum desenho mais cosmopolita num logotipo
mais apelativo para romper com velhos estigmas. O painel de azulejos executado
por Manuel Cargaleiro, colocado na sala de visitas da cidade, onde foram inscritos
os nomes de todas as freguesias, hoje desatualizado, alinha com aquela preocupa-
ção de irmanar toda a comunidade num mesmo destino. A ideia de comunhão está
igualmente presente num evento, mas pleno de significado, que foi a conceção
dum inédito concerto de sinos que pôs a repicar numa onda crescente, das cape-
las e igrejas mais periféricas e distantes até culminar no ribombar mais forte dos
carrilhões da Catedral da Guarda.
As edições patrocinadas pela Camara Municipal, lançadas durante as Comemo-
rações, legado que ficou para memória futura, foi planeado seguindo duas coorde-
nadas cujos temas marcam os destinos da Guarda: o tempo, do primordial ao mais
próximo, representado pelos Foros e Forais da Guarda e A Guarda Formosa na
Primeira Metade do Século XX); as diásporas, ilustradas por diferentes modos de
emigrar, onde se incluem obras como Guarda. História e cultura Judaica, Um país
de longínquas fronteiras e Identidades Fugidias.
326 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Alinhados com o seu universo ensaístico, depois de Oito séculos de altiva so-
lidão (1999), Eduardo Lourenço colaboraria nestas duas últimas obras com textos
tão assertivos quão poéticos: Do Portugal emigrante ao Portugal europeu (2000),
incluído em Um país de longínquas fronteiras; Navegadores por ruas estrangeiras
(2001), integrado em Identidades Fugidias, título plagiado do artigo de Mia Couto
incluído nesta publicação.

Tempo e diásporas:
edições da Câmara Municipal da Guarda no âmbito das Comemorações do VIII Centenário

Foros e Forais da Guarda A Guarda Formosa


(Maria Helena Cruz Coelho e na primeira metade do Século XX
Maria do Rosário Barbosa Morujão, 1999) (Jaime Couto Ferreira, Coord.; 2000; CEI, 2004)

Guarda. História e cultura Judaica Um país de longínquas fronteiras Identidades Fugidias


(Maria Antonieta Garcia, (Rui Jacinto, Coord.; 2000) (Rui Jacinto, José Manuel Mendes,
Comissária Científica; 1999) Virgílio Bento, Coord.; 2001)

A colaboração de Eduardo Lourenço nestas publicações ajudou a robustecer


os vínculos que (r)estabelece com a cidade, cumplicidade que aumenta por vias
convergentes: a implementação do CEI, a participação frequente em eventos que o
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 327

Centro promove e a nova Biblioteca, equipamento angular da reconversão urbana.


A Guarda está empenhada, no virar do milénio, em lançar projetos estruturantes
de renovação urbana que lhe mudassem a face e a habilitassem a enfrentar os
desafios que se adivinhavam. Com a sua curiosidade natural e um olhar perspi-
caz, Eduardo Lourenço assiste encantado, entre ceticismo e deslumbramento, à
emergência duma cidade que renova “o aparato e a aparência”. Observa a requa-
lificação da Praça Velha, do Centro Histórico, do Parque do Rio Diz, intervenções
proporcionadas pelo programa Polis, assiste à edificação de novos equipamentos
culturais, estruturantes, que mudarão o fácies da velha urbe: o Teatro Municipal
da Guarda (TMG), inaugurado em 25.04.2005, o Centro de Estudos Ibéricos (CEI),
implantado na Quinta do Alarcão, vê a sua sede inaugurada em 10.10.2005 e, fi-
nalmente, a Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (BMEL), inaugurada no dia da
cidade, em 27.11.2008.

A cultura e o saber ocupam lugar:


equipamentos estruturantes que afirmam a Guarda como polo cultural

Teatro Municipal da Guarda (TMG) Centro de Estudos Ibéricos (CEI)


Inaugurado em 25/04/2005 Inaugurado em 10/10/2005

Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (BMEL)


Inaugurada em 27/11/2008

O Centro de Estudos Ibéricos foi, pois, a resposta ao desafio lançado por Eduar-
do Lourenço no célebre discurso Oito séculos de altiva solidão, ideia apadrinhada
328 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

pelo Presidente Jorge Sampaio, que presidia ao evento, e prontamente acolhida


pela Presidente da Câmara Municipal da Guarda, Maria do Carmo Borges. As dili-
gências subsequentes encetadas pela Presidente para a sua concretização, levou
a Câmara Municipal da Guarda a contatar e estabelecer uma parceria, que perdura,
com as duas Universidades mais antigas da Península, a Universidade de Coimbra
e a Universidade de Salamanca. O protocolo assinado entre estas entidades, em
27 de Novembro de 2000, formaliza a criação do CEI que é institucionalizado com
a publicação da Portaria publicada no DR, nº 171, III Série, de 25 de Julho de 2001.

Iberografias: primeiras edições e linha editorial do CEI

2003 Coleção Iberografias Iberografias


Nº 1, 2004 – Nº 40, 2020 Revista de Estudos Ibéricos
Nº 1, 2005

A presença tutelar de Eduardo Lourenço foi inspiradora e determinante para


abrir portas e credibilizar o CEI nos primeiros anos de atividade. Entre as várias
iniciativas que começa a promover, onde se incluem cursos, seminários, eventos,
edições e alguns projetos, importa destacar:

_ Cursos e Seminários. Entre os Curso de Verão e os vários encontros destaca-


-se o seminário realizado em 2004, A Guarda na Rota da Europa, por ter trazi-
do à Guarda os negociadores da adesão dos países ibéricos à CEE, respetiva-
mente, Mário Soares e Fernand Moran, onde intervieram ainda Cláudio Guillén,
Fernando Savater e Eduardo Lourenço. A riqueza das intervenções mostrou a
importância de fixar para a posteridade este tipo de debates o que levou o CEI
a criar uma Revista de Estudos Ibéricos, que se associa à coleção já existente:
Iberografias.
_ Edições. O CEI havia lançado Identidades fugidias (2011) e Tempos de Eduar-
do Lourenço – Fotobiografia (2003) antes de instituir a Coleção Iberografias
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 329

(Nº 1, 2004) que ultrapassa quarenta títulos publicados (Nº 41, 2021). Além de
edições avulso, sobretudo catálogos resultantes de projetos ou de exposições
que o CEI promove regularmente, Iberografias. Revista de Estudos Ibéricos,
iniciada pelos motivos atrás evocados, onde encontramos vários textos sobre
Eduardo Lourenço, tem periodicidade anual (Nº 1, 2005; Nº 16, 2020).
_ Prémio Eduardo Lourenço (PEL). O Prémio Eduardo Lourenço, instituído em
2004 como reconhecimento do mentor, patrono e Diretor Honorifico do CEI,
tem vindo a distinguir personalidades com intervenção relevante no âmbito
da cultura, cidadania e cooperação ibéricas, onde se inclui a Professora Maria
Helena da Rocha Pereira, galardoada na primeira edição.

Prémio Eduardo Lourenço e Eventos promovidos pelo CEI

2004. A criação do Prémio Eduardo Lourenço 2004. A Guarda na Rota da Europa

O arco temporal que entre as Comemorações do Centenário (26.11.1999) e a


inauguração da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (27.11.2008) correspondeu
à fase de instalação e arranque do CEI. O acompanhamento de proximidade das
suas atividades feito por Eduardo Lourenço, é minha convicção, foi decisivo para o
progressivo envolvimento e definitiva aproximação do ensaísta à Guarda. A aproxi-
mação e o enraizamento paulatino foi acontecendo através de afetos e iniciativas
imateriais, culminando com a Biblioteca Municipal, que irá receber o seu nome,
equipamento cultural palpável de grande relevo e significado. Este facto, associa-
do ao envolvimento do criador na sua criação, reforçam os vínculos que precipitam
o regresso simbólico de Eduardo Lourenço as suas telúricas origens, a mátria Beira
com quem restabelece uma relação perene e definitiva.

“Estas andorinhas, as da literatura e as da vida, estão suspensas e são o sinal do mo-


mento de felicidade que eu vivi graças a esta terra onde nasci” (2012).
330 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

3. QUEM VÊ O SEU POVO VÊ O MUNDO TODO. REGRESSO


(SEM FIM)
O regresso de Eduardo Lourenço a Portugal, donde porventura nunca se terá
ausentado, só se começa a efetivar quando desmonta, em 2008, a sua Biblioteca
pessoal em Vence. É neste momento que inicia o Regresso sem fim, título que su-
geriu para o documentário apresentado em sua homenagem, em S. Pedro de Rio
Seco, em 2011, quando na terra natal foi inaugurado um memorial em sua honra.
Não foi, contudo, o “regresso à terra para um crepúsculo resignado”, no sentido
dado por um escritor que parafraseou (Fernando Namora), a propósito dum seu tio.
O acompanhamento continuado e de proximidade que Eduardo Lourenço faz
até 2018 acabou por moldar a sua orientação estratégica do CEI e balizar a missão
assente no lema conhecimento, cultura, cooperação. A reciprocidade de afetos
e cumplicidades entre o Eduardo Lourenço e o CEI teve alguns momentos mais
marcantes:

Edições lançadas no dia da inauguração da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (CEI, 2008)

– Inauguração da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (2008). A data


foi assinalada com um gesto do patrono ao doar um número significativo de
obras que justificou com um sentido testemunho: “O dom dos livros é um ges-
to natural de alguém que se aproxima do fim da sua vida, vivida no meio de
tantos livros. O único mérito que se pode ter nesse gesto é o facto de ser um
gesto libertador, de salvaguarda, de uma companhia que me foi preciosa e, ao
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 331

mesmo tempo, um momento de grave consideração. Com esta doação e outra


futura que se prepara dos meus outros livros, sobretudo de natureza filosófica,
eu estou dizendo adeus a mim mesmo e preparando o mais confortável dos
túmulos que é o de saber que assim continuarei entre gente que teve alguma
consideração por aquilo que eu sou e que escrevi. Sei que é como dar-me uma
outra vida, uma memória futura, que esses livros serão lidos por outros mais
jovens e que viverão. São os meus livros, os livros dos meus amores, dos meus
estudos, das minhas paixões, literárias e, portanto, através dessa doação está
alguma coisa mais de mim, porque não ofereço livros meus. Estão lá só por
acaso que eu sou pouco cuidadoso nesse capítulo, mas que é uma maneira
de consagrar à capital do Distrito onde eu nasci uma função de preservar
alguma coisa do menino que eu fui nesta Cidade onde entrei para o liceu,
aos 10 anos, onde fiz a 3ª. classe e a quem me ligam tantos laços afectivos.”
O CEI assinalou o momento com o lançamento de três publicações: Leituras
de Eduardo Lourenço ― Um labirinto de saudades, um legado com futuro; Um
(e)terno olhar: Eduardo Lourenço, Vergílio Ferreira e a Guarda; Existência e
Filosofia. O ensaísmo de Eduardo Lourenço.
_ Dez anos depois. Conhecimento, cultura, cooperação: 10º aniversário do
CEI (2010). O catálogo comemorativo da primeira década de atividade, lançado
em 27.11.2010, teve na portada um texto de Eduardo Lourenço onde escreveu:
“Dez anos passaram e o que era apenas uma sugestão e um pequeno sonho de
alterar profundamente as nossas mútuas relações de conhecimento e desco-
nhecimento, começa a receber um princípio de existência. E um pouco mais do
que isso. Primeiro, pelo empenhamento nesta iniciativa trans-ibérica a partir de
uma pequena cidade, guardiã secular de fronteiras, e do que nela separa, das
duas Universidades que, também, nos mesmos séculos, foram lugar do mais
alto ensino e do reconhecimento da Cultura que nos é comum: Coimbra e Sa-
lamanca. O Centro não podia existir senão apoiado nos mestres, estudiosos e
estudantes desses imemoriais Estudos peninsulares. Historiadores, geógrafos,
sociólogos, humanistas, das duas velhas Universidades deram vida e têm ani-
mado o jovem Centro de Estudos Ibéricos. Graças a eles, o Centro, junto com
as outras instituições de interesse cultural da nossa cidade, tem contribuído
para dar à Guarda um papel de mediadora entre as nossas duas culturas penin-
sulares, tão próximas nas suas raízes, mas distantes no seu convívio histórico
concreto. E não era outro o projecto deste Centro, que o de conhecer a sério o
que também, com dano mútuo, desconhecíamos”.
332 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Obras lançadas no dia da celebração do 90º aniversário de Eduardo Lourenço (CEI, 2013)

_ 90º Aniversário de Eduardo Lourenço (2013). O evento comemorativo foi


complementado com o lançamento de três obras: Vida Partilhada – Eduardo
Lourenço, o CEI e a Cooperação Cultural; Falar Sempre de Outra Coisa – En-
saios sobre Eduardo Lourenço; Metafísica da Revolução – Poética e Política no
ensaísmo de Eduardo Lourenço.

Em memória de Eduardo Lourenço

Memorial de Leonel Moura. Memorial de Florencio Maíllo. Memorial (Gravura de João


S. Pedro de Rio Seco, 2011. Guarda, Jardim do CEI, 2017. Pedro Cochofel). Sede do CEI, 2021.
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 333

Imagem evocativa em autocarros de Toponímia urbana. Almeida, 2021.


Transportes Urbanos. Coimbra, 2021.

A memória da passagem de Eduardo Lourenço passa pelos lugares onde viveu,


estão localizadas as instituições onde ensinou, existem equipamentos e nomes
de ruas com o seu nome, encontram memoriais erigidos em sua homenagem ou
locais onde se guardam livros ou manuscritos. Se nuns casos foram as comuni-
dades locais que decidiram prestigiar Eduardo Lourenço com um sinal que fica
perpetuado no espaço público, noutros foram escolhas de Eduardo Lourenço que
decidiu repartir o seu espólio pelas instituições que considerava terem um signi-
ficado especial no seu percurso pessoal. Os pontos deste espaço sideral definem
uma geografia sentimental que sinaliza um conjunto de nós que conecta uma rede
relativamente dispersa no espaço e no tempo. Neste particular, o Roteiro Eduardo
Lourenço inclui pontos que se organizam segundo duas coordenadas fundamen-
tais:

(a) Lugares que acolhem o espólio de Eduardo Lourenço. O ensaísta repartiu


os livros da sua biblioteca pessoal por lugares e instituições a que estava ligado
por ligações afetivas mais fortes: (i) Guarda: a Biblioteca Municipal Eduardo
Lourenço (BMEL, 2008) acolhe cerca de três mil livros doados pelo ensaísta; (ii)
Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (2011) recebeu ma-
terial bibliográfico relacionado com Filosofia e História das Ideias e da Cultura
por altura das comemorações do seu centenário; (iii) Coimbra: Casa da Escrita
(2015), onde foi criada a Sala Eduardo Lourenço para albergar cerca de três li-
vros doados, entre ensaios e obras literárias; (iv) Lisboa: Biblioteca Nacional de
Portugal (2015), que acolhe manuscritos, alguns inéditos e outra documentação
integrada no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea (ACPC).
(b) Memoriais a Eduardo Lourenço em espaço público. É possível encon-
trar em lugares como: (i) S. Pedro de Rio Seco, 2011 (Memorial da autoria
de Leonel Moura) (ii) Guarda, 2017 (Jardins da Quinta do Alarcão, Sede do
CEI; Florencio Maíllo); (iii) Coimbra, 2021 (Imagem evocativa em autocarros
334 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de transportes urbanos, que associa a frase “Mais importante do que o destino


é a viagem”; (iv) Memorial Eduardo Lourenço, 2021 (interior da sede do CEI); (v)
Almeida (2021), que inscreveu na toponímia urbana o Largo Professor Eduardo
Lourenço, em frente à escola onde fez a quarta classe, onde também será ins-
talado um memorial da autoria de Graça Morais.

“a esperança, o sonho, a utopia, que são a sua substância já incorporada no nosso


presente, coabitam connosco e guiam todos os nossos passos e pensamentos” (A Nau
de Ícaro, 1999: 62).

4. NÓS COMO FUTURO. ESPERANÇA, SONHO E UTOPIA


INCORPORADA NO NOSSO PRESENTE.
A cidade que Eduardo Lourenço conheceu quando chegou à Guarda para fre-
quentar o liceu é distinta comparativamente às feições, que dificilmente reconhe-
ce, quando a passou a visitar com maior assiduidade na entrada do novo milénio.
A partir desta data, durante os últimos 20 anos, após as Comemorações do VIII
Centenário, os respetivos caminhos foram-se cruzando. A nova Guarda que a partir
de então emerge, onde Eduardo Lourenço passa a ter uma presença regular, ape-
sar de discreta, acabando por ser um protagonista com uma intervenção notória,
apesar de subtil. Lembremo-nos que entre os pouco projetos mais marcantes con-
cretizados na cidade, neste período, acabam por lhe estarem ligados: a Biblioteca
Municipal Eduardo Lourenço e o Centro de Estudos Ibéricos.

Medalha comemorativa dos vinte anos do CEI (2020) (Autor: João Pedro Cochofel).

A Guarda e o CEI têm, pois, o dever de respeitar este legado continuando a


promover iniciativas que honrem a memória de Eduardo Lourenço como manter
o Prémio Eduardo Lourenço, a atividade regular do Centro, tais como alguns
eventos programados (p. ex.: Leituras de Eduardo Lourenço). No horizonte próximo
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 335

impõe-se acolher as Comemorações do Centenário do Nascimento de Eduardo


Lourenço, que terão lugar em 2023, sem esquecer o Roteiro Eduardo Lourenço as-
sente numa geografia variável e multiescalar: global, regional e local, circunscrito
à cidade da Guarda
Porque “o caminho fica longe” e importa alimentar “a esperança, o sonho, a
utopia” “incorporada no nosso presente” cumpre à Guarda e ao CEI continuar a
honrar a memória de Eduardo Lourenço.

REFERÊNCIAS
JACINTO, Rui (2013). Pensar Nove Décadas de Amizade. In Tiago Pedroso de Lima, Ler
Eduardo Lourenço, Blogue do Projecto Edição Obras Completas de Eduardo Lou-
renço, Universidade de Évora.
JACINTO, Rui; DIEGUEZ, Valentin Cabero (2018). Andanças e reflexões transfronteiriças:
Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo Lourenço. Coleção Iberografias, Nº 34,
Guarda, Centro de Estudos Ibéricos-Âncora.
JACINTO, Rui (2020). Tributo a Eduardo Lourenço nos vinte anos do Centro de Estudos
Ibéricos. In Iberografias. Revista de Estudos Ibéricos, Nº 16, 2020. CEI, Guarda.
JACINTO, Rui (2020), Eduardo Lourenço e a sua heterodoxa (des)Geo(a)grafia. Cadernos
de Geografia nº 42 – 2020. Coimbra, FLUC, pp. 127-137.

VIII Centenário da Cidade da Guarda. Obras editadas pela Câmara Municipal


– Foros e Forais da Guarda (1999), Maria Helena Cruz Coelho e Maria do Rosário Bar-
bosa Morujão
– Guarda. História e cultura Judaica (1999), Maria Antonieta Garcia (Comissária Cien-
tífica)
– A Guarda Formosa na Primeira Metade do Século XX (2000), Jaime Couto Ferreira
(Coord.)
– Um país de longínquas fronteiras (2000), Rui Jacinto (Coord.) (*)
– Identidades Fugidias (2001), José Manuel Mendes, Virgílio Bento, Rui Jacinto (Coord.) (*)
(*) Com artigos de Eduardo Lourenço

EDIÇÕES DO CEI
Coleção Iberografias
Nº 1 – Iberismo e Cooperação: Passado e Futuro da Península Ibérica (2004) – Valentín
Cabero Dieguez
Nº 2 – Territórios e Culturas Ibéricas (2005) – Valentín Cabero Dieguez at al. (Coord.)
Nº 3 – O Outro Lado da Lua – Inéditos de Eduardo Lourenço (2005) – Maria Manuela
Baptista
336 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Nº 4 – Entre Margens e Fronteiras – Para uma Geografia das Ausências e das Identida-
des Raianas (2005) – Rui Jacinto
Nº 5 – Territórios e Culturas Ibéricas (2005) – Rui Jacinto e Virgílio Bento (Coord.).
Outras edições dedicadas a Eduardo Lourenço
Nº 12 – Existência e Filosofia O ensaísmo de Eduardo Lourenço (2008) – João Tiago
Pedroso de Lima
Nº 21 – Vida Partilhada – Eduardo Lourenço, o CEI e a Cooperação Cultural (2013) –
Eduardo Lourenço
Nº 22 – Falar Sempre de Outra Coisa – Ensaios sobre Eduardo Lourenço (2013) – João
Tiago Lima
Nº 23 – Metafísica da Revolução – Poética e Política no ensaísmo de Eduardo Lourenço
(2013) – Teresa Filipe
Nº 34 – Andanças e reflexões transfronteiriças: Roteiro Miguel de Unamuno – Eduardo
Lourenço (2018) – Rui Jacinto e Valentín Cabero

IBEROGRAFIAS. REVISTA DE ESTUDOS IBÉRICOS


Nº 1 – 2005. Inclui, entre outros, textos de Eduardo Lourenço, Mário Soares, Cláudio
Guillén, Fernando Morán e Maria Helena da Rocha Pereira.
[…]
Nº 16 – 2020.
Todos os números têm referências ao Prémio Eduardo Lourenço de cada ano. Alguns
números têm textos inéditos resultantes de intervenções de Eduardo Lourenço em
algum evento, bem como artigos ou capítulos sobre o ensaísta.

CATÁLOGOS E OUTRAS EDIÇÕES


Tempos de Eduardo Lourenço – Fotobiografia (2003) (Manuela Cruzeiro e Maria Ma-
nuel Baptista, Campo das Letras com apoio do CEI)
Leituras de Eduardo Lourenço – Um labirinto de saudades, um legado com futuro
(2008)
Um (e)terno olhar: Eduardo Lourenço, Vergílio Ferreira e a Guarda (2008) (Coord. Ale-
xandra Isidro, António José Dias de Almeida, Jaime Couto Ferreira, José Manuel
Mota da Romana, Rui Jacinto e Virgílio Bento)
CEI – Dez anos depois. Conhecimento, Cultura, Cooperação (2010) (Coord. Rui Jacinto
e Alexandra Isidro)
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 337

ROTEIROS EDUARDO LOURENÇO


Itinerários e Geografias duma vida vivida

Fonte: Rui Jacinto, 2020.

1. Lugares onde viveu 3. Doutoramento Honoris Causa


1923-1934 ― Pedro do Rio Seco [1923-1934] 1995 ― Universidade do Rio de Janeiro
1934-1936; 1946 ― Guarda 1996 ― Universidade de Coimbra
1935–1940; 1946 ― Lisboa 1998 ― Universidade Nova de Lisboa
1941-1944; 1947-1953 ― Coimbra 2007 ― Universidade de Bolonha
1953-54 ― Hamburgo e Heidelberg
1955-58; 1959-1974 ― Montpellier 4. Cátedras Eduardo Lourenço
1958-1959 ― Salvador, Bahia 2007 ― Universidade de Bolonha
1974-2010 ― Vence 2018 ― Universidade de Aix-Marselha
[1989 -1991 – Roma]
2013-2020 ― Vence ― Lisboa – S. Pedro de Rio Seco 5. Legado e Memórias de Eduardo Lourenço
2008 ― Guarda: Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço
2. Universidades onde ensinou 2019 ― Guarda: CEI
1953-54 ― Universidade de Hamburgo e Heidelberg 2015 ― Coimbra: Faculdade de Letras
(Leitor) 2015 ― Coimbra: Casa da Escrita
1955-58 ― Universidade de Montpellier (Leitor) 2015 ― Lisboa: Biblioteca Nacional
1958-1959 ― Universidade da Baía (Professor)
1960-65 ― Universidade de Grenoble (Leitor) Memorial
1965-1989 ― Universidade de Nice (Professor e 2011 ― S. Pedro de Rio Seco
“Maître de conférences”) 2021 ― Guarda: CEI
2021 ― Coimbra: SMTUC
2021 ― Almeida: Toponímia
338 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Eduardo Lourenço, a Beira e a cooperação transfronteiriça:


Coimbra – Guarda – S. Pedro do Rio Seco – Salamanca

Guarda: Roteiro urbano Eduardo Lourenço


1
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 339

Esplendor dum caos organizado: Eduardo Lourenço na sua biblioteca (Vence, 2008)
340 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 341
342 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
DIANTE DA MORTE DE UM CORPO ―
UMA TENTATIVA DE OBITUÁRIO PARA
EDUARDO LOURENÇO1

CAMILA DO VALLE*

Um corpo foi recortado da paisagem. Eduardo Lourenço foi recortado da pai-


sagem. Uma lacuna real na imaginação de um país. Uma lacuna, pois, no real.
Tomamos, assim, a imaginação de um país como uma força política. Ele tratava
de imaginá-lo, a este país onde nasceu, cresceu e viveu até logo após sua for-
matura na Universidade de Coimbra – onde foi aluno de Joaquim de Carvalho e
Sílvio Lima, sempre lembrados por ele –, a partir das pistas deixadas por muitos
produtores intelectuais portugueses, de diversos domínios da criação. Da músi-
ca, das artes visuais, da crítica literária, da filosofia. Todavia, sobretudo, na maior
parte de seus textos, eram os autores da literatura portuguesa que estavam pre-
sentes. Em seus ensaios, já, há décadas, considerados clássicos nos cursos de
Letras, aqui no Brasil e não só, as pistas a serem decifradas vinham a partir das
pegadas, dos índices remissivos deixados por Camões, Fernando Pessoa e Ante-
ro de Quental. Mas também por Eça de Queiroz e pela chamada Geração de 70
ou geração coimbrã. Sem nos esquecermos de sua interpretação originalíssima
do neorrealismo português, interpretação pela qual nutria simpatia maior já nos
anos finais de sua vida, segundo declarou durante as entrevistas que fiz para o
pós doutoramento e quando da publicação de um dos volumes de suas obras
pela Fundação Calouste Gulbenkian. Foi, sempre, ininterruptamente, um grande
leitor de Portugal: como livro que lia e escrevia a um só tempo. Nos últimos anos,
esses em que ele voltou, já aos 90 anos de idade, a viver em Portugal, as vo-
zes femininas da literatura portuguesa lhe interessavam mais: Lídia Jorge, Hélia

1
A primeira versão deste texto saiu em janeiro de 2021 no site do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia,
a convite do coordenador do projeto, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida. Link para a primeira
versão: http://novacartografiasocial.com.br/diante-da-morte-de-um-corpo-uma-tentativa-de-obituario/
* Professora de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas da UFRRJ. Doutora em Literatura Portuguesa pela
PUC-Rio (2004), sob orientação da Professora Dra. Cleonice Berardinelli. Pós doutoramento em Literatura
Comparada (2019) pelo Instituto Margarida Losa, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob
supervisão da Professora Dra. Isabel Pires de Lima, pesquisa para a qual recebeu uma bolsa da Fundação
Calouste Gulbenkian em 2018. Sua dissertação de mestrado foi o primeiro trabalho acadêmico sobre o
ensaísmo lourenciano. Em 1997, na PUC-Rio. É em relação a esta dissertação que Eduardo Lourenço responde,
em 2005, em A morte de Colombo ou o Fim do Ocidente como mito (Gradiva).
344 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Correia e, para minha surpresa, quando pedi que fizesse uma declaração sobre
alguma escritora portuguesa, escolheu Maria Judite de Carvalho – e atribuiu à
expressiva vaidade masculina das conversas dos salões de que fazia parte o
marido, também escritor, Urbano Tavares Rodrigues, a pouca atenção dada a
ela. E me recomendou, comovido, o estudo minucioso dos textos dessa escri-
tora, como se fosse o cuidado com uma dobradiça interna que fazia uma porta
se mover, ou o cuidado com a limpeza de uma janela, através da qual se vislum-
braria, claramente, dadas paisagens internas de um país. As metáforas são dele.
Ressentiu-se de não lhe ter dedicado, ainda, maiores estudos. Declaração dada
aos 95 anos, com alguma esperança no horizonte e uma reclamação de que lhe
chegavam muitos textos para prefaciar, mas a sorte não o havia encontrado de
que algum editor lhe enviasse um pedido para prefaciar um livro dela.
Um corpo foi recortado da paisagem. No entanto, para onde quer que se
olhasse nos jornais, na mídia portuguesa, neste último mês de dezembro deste
ano pandêmico, lá estava o nome desse corpo, seu semblante, traços de sua
trajetória e tentativas de resgatá-lo desse lugar de ausência, que, nos resta dizer,
parece que jamais será o seu na História de Portugal. Foi onipresente não só em
todos os veículos de comunicação. O Estado português declarou luto por seu
vivaz Conselheiro, cargo que ocupava na Presidência de Portugal e na Funda-
ção Calouste Gulbenkian – neste segundo posto, a convite de Emílio Rui Vilar, e
vários anos antes que o Estado português lhe fizesse este convite. Muitíssimos
escritores, os mais variados produtores intelectuais portugueses, lhe prestaram
homenagem. A vastidão da paisagem pela qual se interessou este corpo en-
quanto vivo vai da relação entre os militares e o poder, o tema do fascismo em
Portugal, do colonialismo à literatura, à pintura e à música. Sem jamais abdicar
da leitura da filosofia e da cotidianeidade política dos assuntos dos jornais. E
de sua observação ao tempo muito presente e suas vicissitudes. Tampouco ja-
mais abdicou do lugar de ensaísta que reivindicou para si. Foi através desse
gênero esquivo, o ensaio, gênero tão pouco usual quanto pouco classificável,
que se firmou na constelação dos mais importantes pensadores e escritores de
Portugal. Filiou-se, assim, a um gênero textual que segue uma tradição que tem
em Michel de Montaigne um de seus nada ortodoxos fundadores. Heterodoxia
é, justamente, o título do primeiro livro de Eduardo Lourenço. Firmou-se numa
constelação de pensadores, não só portugueses, a bem da verdade. Inúmeros,
entre seus textos, saíram publicados em francês, primeiramente, ou somente em
francês. Língua na qual deu a maior parte de suas aulas ao longo da vida, tendo
sido professor universitário por décadas na França, depois de uma passagem
por Hamburgo e Heidelberg, Alemanha, e pelo Brasil, na Universidade Federal
da Bahia – nesta, por apenas um ano: passagem esta que lhe rendeu amizades,
mas, também, uma inimizade honorífica, por assim dizer, e que ele sempre fez
questão de declarar, por toda a vida. Das amizades na Bahia, citava, com alegria,
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 345

um rapaz que havia sido seu aluno e que, anos mais tarde, o convidou para pa-
drinho de seu casamento com Helena Ignez: Glauber Rocha. Foi este ex aluno
que lhe deu de presente o livro através do qual dizia ter encontrado o que ele
considerava ser a chave de sua leitura do Brasil, o Grande Sertão: Veredas. Dizia,
amiúde, de fato, em lugar de Brasil: “o país de Guimarães Rosa”. Não como quem
reduzia a imagem de um país, mas como quem alargava suas vistas sobre os
muitos sertões que aqui se avizinham, muito para além do litoral, embora sempre
fizesse questão de relativizar seu conhecimento sobre a realidade do lado de cá
do Atlântico. E relatava, emocionado, a iniciação do também amigo Jorge Amado
no candomblé. Esta visita a um terreiro na Bahia era recorrentemente lembrada
com o acompanhamento de uma sensação física que ele fazia questão de men-
cionar: tendo se sentido tonto durante a cerimônia no terreiro, precisou sair do
recinto para buscar ar, pois pensou que desmaiaria. Ainda no momento do relato,
feito a mim e a duas outras pesquisadoras, em 2015, décadas depois – as pro-
fessoras eram Cynthia Carvalho Martins (UEMA) e Verônica Prudente (UFRR) –,
seguia dizendo que perpassava seu corpo a sensação dessa tontura.
Pois foi esse corpo, muito vivo, que foi recortado da paisagem no último dia
01 de dezembro. Pela data, a primeira coisa que me veio à lembrança, forço-
samente, em se tratando de quem era, foi a data de falecimento de Fernando
Pessoa, tão lido e interpretado por ele, poeta ao qual dedicou tantos estudos,
como Fernando, rei da nossa Baviera ou Pessoa revisitado. Incontornáveis,
quando alguém se aventura a estudar Fernando Pessoa. Ainda que descubram
mais uma centena de heterônimos, os estudos lourencianos nesse capítulo se-
guirão reveladores, assim como aqueles de autoria daquela que ele chamava,
carinhosamente, de sua madrinha: Cleonice Berardinelli, de quem fui orientanda
de doutorado há vinte anos. Apesar disso, cheguei a Eduardo Lourenço vários
anos antes dessa orientação. Nos anos 90, pelas palavras do professor titular de
Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Juiz de Fora, também poeta e
romancista, Edimilson de Almeida Pereira, em aulas onde a pedra fundamental
para compreender Portugal – e a poesia portuguesa como sua alma mater – era
o Labirinto da saudade, talvez o título de Eduardo Lourenço mais conhecido. Pois
Fernando Pessoa morreu em um 30 de novembro, em 1935. E pus-me a meditar
o que teriam sido as reflexões de Lourenço na véspera do que viria a ser seu
próprio falecimento, sendo aquela a data de falecimento do poeta a quem mais
textos dedicou em vida. Aquando da ocasião do falecimento do poeta da hete-
ronímia, Miguel Torga lhe dedicou essas linhas em seu diário: “Morreu Fernando
Pessoa. Mal acabei de ler a notícia, fechei a porta do consultório e meti-me por
montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nos-
so maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade
sem ao menos perguntar quem era” (TORGA, Miguel. Diário I, p. 19). À diferença
do poeta de Mensagem, diante da notícia da perda de Lourenço, foram muitos,
346 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

entre os produtores intelectuais de Portugal, aqueles que se perguntavam, sope-


savam, e tentavam dimensionar, publicamente, que ausência era essa, tão pro-
fundamente sentida já desde o primeiro momento na comunidade interpretativa
de leitores e intérpretes de Portugal.
Eduardo Lourenço foi recortado da paisagem. Recebi a notícia, mais esse
triste recado do mundo convulsionado por tantas razões que a pandemia só faz
sublinhar, advindo da voz da Professora Dra. Isabel Pires de Lima, ex ministra
da cultura em Portugal, estudiosa de Eça de Queiroz, Ferreira de Castro e Ós-
car Lopes, vice presidenta da Fundação Serralves, e que foi supervisora de meu
pós doutorado em Literatura Comparada na Universidade do Porto, entre 2018
e 2019, justamente tematizando a trajetória intelectual do ensaísta em questão.
Triste, com a voz em tom grave, pouco usual em sua comunicação, ela me tele-
fonou logo bem cedo na manhã do 01 de dezembro. Fez-me saber da ausência
que eu sentiria para todo o sempre. Pensei imediatamente: ontem foi o dia de fa-
lecimento de Fernando Pessoa. Mais tarde, dei por mim: dia 01 de dezembro era,
também, a data de falecimento de sua esposa da vida inteira, Annie Salomon,
francesa, professora de Literatura Latino americana da Universidade em Nice,
especialista, sobretudo, em literatura mexicana. Ela antecedeu em 7 anos sua
partida. Estiveram juntos por cerca de 5 décadas. Eram dois dias seguidos sob
o signo de Thanatos para o ensaísta português: o autor mais estudado, falecido
em 30 de novembro de 1935, e a companheira de toda uma vida, falecida em
01 de dezembro de 2013. Esse signo não é pouco, ainda mais em ano de pan-
demia e isolamento. Abro o primeiro livro em que tive a alegria e a honra de ter
uma dedicatória escrita por sua letra de desenho tão singular e delicado, como
se evitasse machucar o papel: 01 de dezembro de 2005. O livro oferecido era
recém lançado e consistia em uma reunião de ensaios que tem, como capítulo
conclusivo, aquele que é intitulado “Carta a Camila”, revelando o diálogo com o
trabalho acadêmico escrito por mim anos antes. E, como título dessa reunião de
ensaios: A morte de Colombo ou O fim do Ocidente como mito. Também traduzi-
do e publicado em Espanha. Título que ele gostaria tanto de fazer chegar a Néli-
da Piñon, disse-me em 2018, mencionando em voz baixa qualquer coisa sobre a
proximidade da fronteira de Espanha com sua aldeia natal. Recorto “fim”, recorto
“Ocidente”. Em mim, uma pausa de silêncio interior, uma espécie mesmo de “exí-
lio interior”, se interpôs entre o dia 01 de dezembro do presente ano e o dia de
hoje. Recordei, especialmente, a passagem de Eduardo Lourenço em 2010, por
Belém do Pará, quando organizamos, na UFPA, um “Encontro do Pensamento
Contemporâneo”, que foi protagonizado por ele e Benedito Nunes, amigos há
tantas décadas e que não se viam há cerca de 40 anos. Ele quis passear à tarde
na beira do rio, observar as ilhas do outro lado e, apesar do calor e dos quase 90
anos, insistiu e ficou horas visitando o Mercado Ver o Peso, sorrindo e surpreen-
dendo-se alegremente diante de cada novidade.
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 347

Recortada a paisagem, no lugar desse corpo, ficou uma paisagem interior


a ser interpretada. Não só individualmente, como leitores, mas uma espécie
de lacuna a ser preenchida com o sempre complexo trabalho de luto, no caso,
para todo um imaginário de país. Em um ano em que o que mais tivemos para
elaborar foi, justamente, a ideia do luto. Consecutivo. Numericamente mui-
to superior ao número de dias que seguimos vivendo. Elaborando obituários.
Passei o mês de dezembro, sobretudo, quase todo, em silêncio: vendo as no-
tícias e lendo inúmeros textos sobre ele. E, ao ler jornais portugueses durante
este mês, algo que fizemos inúmeras vezes, por telefone, juntos, comentando
notícias daqui e de lá, nos últimos 14 anos ao menos, e sobretudo o fazíamos
nessa época do ano, das férias da universidade, e algumas vezes o fizemos,
há mais de dez anos atrás, a partir da casa da professora Cleonice Berardi-
nelli, deparo-me, então, com uma polêmica que não passaria despercebida
por ele. A polêmica envolve o racismo institucional e presente em instituições
portuguesas, dessa vez apontado contra Mamadou Ba, liderança e produtor
intelectual sobre o qual tivemos ocasião de conversar, quando fui a um evento
organizado por Boaventura de Sousa Santos em 2018, em Lisboa, e um grupo
de ultradireitistas portugueses tentavam impedir a entrada e a fala deste con-
vidado. Quando narrei o episódio a Lourenço, já que naquele mesmo dia nos
encontramos à tarde, na Fundação Calouste Gulbenkian, ele retomou uma fala
que vinha, há dias, sendo leitmotiv de muitas conversas. A falência do imagi-
nário europeu em lidar com as alteridades, a insuficiência de imaginação das
instituições europeias diante do desafio do reconhecimento e da cobrança,
em termos de patrimônio e direitos humanos, da conta colonial. E, por exten-
são, falamos da falência das instituições que ficaram nas colônias a copiar as
metrópoles, caso do Brasil, tantas vezes. Por isso, creio que se impõe aqui,
neste texto, a necessidade de recordar qual foi a inimizade honorífica granjea-
da no Brasil à qual me referi anteriormente. Antes ainda, porém, reporto-me
à edição especial do Jornal de Letras, elaborado em homenagem ao ensaísta
e pensador português, para quem a beleza da frase importava tanto quanto o
pensamento que ela portava, algo destacado na fala de tantos autores que o
homenagearam, vários considerando-o um poeta do pensamento, descrição
com a qual, caso se concorde, como é meu caso, estaremos acompanhados
de Lídia Jorge – escritora que ele tanto mencionava nas conversas como al-
guém que enfrenta a herança colonial nas reflexões em forma de romances
que publica – e Valter Hugo Mãe. Sua poesia encontrou a forma do ensaio para
expressar seu pensamento. “A mesma atenção à língua como fim e não apenas
como asa da mensagem”, poderia mesmo ter sido dito de seus escritos, mas
isso dizia ele a respeito dos portugueses Maria Velho da Costa e Almeida Faria,
comparando-os à atenção com o uso da língua do brasileiro Guimarães Rosa.
“Os sertões de Portugal”, intitulava-se este texto.
348 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Na paisagem que, ainda bem, resiste a ver Eduardo Lourenço recortado para
fora dela, vai-se elaborando o luto ao qual ele destina o país ao deixá-lo. Este
país continuamente interpretado por ele, terá, agora, o trabalho duplo de se in-
terpretar interpretando a ausência de seu singular e imprevisível intérprete. Eis
o luto coletivo que nos aguarda, não só aos daquele país, mas a seus leitores de
tantas outras paragens. Trabalho de transformação do corpo vivo em memória
viva. O pensamento entrelaçado de muitos que a ele prestaram especial aten-
ção ao longo de sua vida e de seus textos vinculados neste trabalho coletivo do
luto. Por isso, destacamos essa edição especial do Jornal de Letras, editado por
José Carlos Vasconcelos. Ali estão de Gonçalo M. Tavares a António Guterres,
secretário geral da ONU. Estão as escritoras e amigas Hélia Correia, Lídia Jorge
e a professora Cleonice Berardinelli. Nélida Piñon e Valter Hugo Mãe. Professor
Onésimo Teotónio, da Brown University, Fernando Catroga e o poeta Nuno Jú-
dice. Pilar del Río, Guilherme d’Oliveira Martins e Viriato Soromenho-Marques.
Entre outros, e como não poderia deixar de ser, Boaventura de Sousa Santos.
E é a contribuição deste autor que buscarei glosar, minimamente, antes de fi-
nalizar este texto que procura desempenhar o papel de um obituário. Escreveu
em sua despedida no Jornal de Letras, o professor Boaventura: “Se o tema da
descolonização tivesse assumido entre nós a virulência que tem hoje na França
ou na Inglaterra, estou certo que ele, sempre ávido de intervenção, acabaria
por se envolver e as opiniões a seu respeito se dividiriam. Mas tal não aconte-
ceu, e foi por isso que pôde representar o máximo de consciência possível (...).
Eduardo Lourenço vai ser certamente mais polêmico nos próximos anos. Quem
o admira, como eu, pensa que isso é o melhor que lhe pode acontecer. Vamos
discuti-lo serena e afavelmente, como afinal ele sempre esperou de nós, e será
essa a melhor homenagem que lhe podemos prestar.” Sigo diretamente para a
já anunciada inimizade lourenciana: Gilberto Freyre. Essa inimizade não era algo
de caráter unicamente pessoal. Conduzia-o a este sentimento uma consciência
histórica, uma sensibilidade humana. E era dirigida, abertamente, como o fez em
mais de um texto, quando o adversário ainda atuava, tranquilamente, passeando
seus galardões pelo Brasil e mundo afora. Era uma denúncia, feita abertamente
por Eduardo Lourenço e ignorada por grande parte da intelectualidade, não só
de língua portuguesa, mas sobretudo. Gilberto Freyre prestou-se ao papel de
aceitar o convite do ditador Salazar - e o salazarismo era motivo precípuo do exí-
lio de Eduardo Lourenço - para viajar pelas colônias africanas assim mantidas por
Portugal para dar seu parecer. E foi o que fez, respaldando, aos olhos do mundo,
inclusive na ONU, a intenção salazarista de continuar o colonialismo português
em África. Um dos primeiros depoimentos lourencianos que li sobre o tema, mas
não o único, está na reunião de textos publicada sob o título Ocasionais I. Este
tema está referido, também, na primeira entrevista que fiz a ele, em 1999, para
minhas pesquisas de mestrado. A entrevista, na íntegra, foi publicada em 2018
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 349

pelo professor Rui Jacinto em um número especial da Iberografias, revista do


Centro de Estudos Ibéricos que funciona junto à Biblioteca Eduardo Lourenço, e
é editada por professores da Universidad de Salamanca e pela Universidade de
Coimbra. Com as palavras de Eduardo Lourenço:

“Eu conheci o senhor... O senhor era muito vaidoso. Não era vaidoso: era uma mon-
tanha de vaidade. Era tão vaidoso que nem era vaidoso. Mas... a verdade é que era
uma personalidade. Mas era uma realidade difícil, ele tinha uma obra original, era
um senhor... Não sei se era isso também, as pessoas também obrigam as pessoas
a ser vaidosas, projetam sobre os outros com alguma notoriedade. Uma pessoa
não tem o controle, fica tão louca com os idólatras. A verdade é o seguinte: talvez
isso não se saiba, mas tenho de explicar que aquilo é um artigo de raiva. Polêmico,
naturalmente. O Gilberto Freyre, dada justamente sua notoriedade, e porque ele
era o homem da Casa Grande e Senzala, porque era o teórico do luso-tropicalismo,
etcétera; tudo isso era uma ideologia sobre a qual se fundava a defesa do nos-
so colonialismo e da nossa guerra da África. E Salazar citava-o, era uma grande
caução. A grande caução da nossa luta em África era o Brasil em geral. O Brasil é
que era quem nos defendia na ONU, quando nos acusavam de colonialismo e de
racismo: ‘Não, nós temos o Brasil, o Brasil é um país multicultural, não é racista.’ E o
Embaixador do Brasil levantava-se. E o Gilberto Freyre era a caução intelectual. (...)
O Gilberto Freyre era um intelectual prestigiado. É por isso que Salazar citava-o no
discurso para levar a cabo aquela cruzada da guerra e do colonialismo em África.
(...) Também foi convidado a ir a Angola. Não foi lá passear para escrever um livro.”
https://pt.scribd.com/document/396421848/Revista-Iberografias-14

Donde se pode depreender que esta foi uma tentativa de Lourenço de co-
locar em debate as questões do racismo, do colonialismo e do anticolonialismo
(ele não gostava da expressão “pós colonial” e dizia preferir “anticolonial”), tan-
to em Portugal como no Brasil, há décadas atrás, há mais de 60 anos atrás, pois
deixou público desde logo em artigo publicado, logo que conheceu o senhor
Gilberto Freyre, sua discordância veemente em relação a suas teorias suposta-
mente científicas e seu modo de proceder. Sabemos que a sombra de Gilberto
Freyre paira, ainda hoje, em tantos círculos acadêmicos, como um intérprete do
Brasil, e podemos inferir o que isso significou para o jovem professor português
que tinha vindo se estabelecer na Bahia, e que ali não ficou mais de um ano por
não ter sido bem tratado institucionalmente, como está estabelecido em carta
dirigida ao reitor daquela universidade e finalmente publicada somente em de-
zembro de 2018 pela pesquisadora Maria de Lourdes Soares, também minha ex
professora de graduação na UFJF.
Sublinho, ainda, o “sempre ávido de intervenção” do depoimento de Boaven-
tura de Sousa Santos: em julho de 2018, estive presente com Eduardo Lourenço
350 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

em um evento na Universidade Nova de Lisboa. Tratava-se de um Seminário In-


ternacional de Ecologia Humana, no qual, entre muitos debates com participan-
tes de várias partes do mundo, eu coordenaria um debate sobre documentários
etnográficos, participaria em uma intervenção poética chamada “Natureza Viva”
com a artista Nena Balthar, e no qual o antropólogo Alfredo Wagner Berno de
Almeida seria homenageado. Eduardo Lourenço fez questão de assistir a confe-
rência de abertura do mencionado antropólogo e de ser ele a entregar uma ho-
menagem ao palestrante confeccionada pelos organizadores, brasileiros e por-
tugueses – Juracy Marques (UNEB) e Iva Pires (UNL), entre os que eu conhecia.
Mais tarde, nesse mesmo dia, o ensaísta português deu uma entrevista para um
professor português da Universidade Nova de Lisboa (Fernando Ribeiro) e para
uma professora da USP (Paola Poma) na qual citou a palestra do antropólogo bra-
sileiro com ênfase, sublinhando a nova questão levantada pelo palestrante e que
o inquietou. De fato, ao sair das dependências da universidade para buscar um
táxi, Eduardo Lourenço pediu que eu fizesse o favor de anotar para ele o nome
de uma referência citada pelo antropólogo para que ele pudesse buscar essas
leituras. A referência citada por Alfredo Wagner que muito o deixou interessado,
inclusive nos dias seguintes, era Achille Mbembe.
Diante da morte de um corpo, sobretudo um corpo tão vivo em nossas memó-
rias, na formação de nosso pensamento, sabemos que a morte não é, não pode
ser, nenhum fim. É o nascimento, doloroso, de uma nova relação com as palavras
e imagens que ficaram. Uma nova identidade a ser continuamente construída
para seus textos, para seu autor, para seus leitores. Enviei o presente texto até
aqui escrito ao amigo, professor e escritor Pedro Eiras, com quem tantas vezes
conversei sobre o ensaísmo lourenciano e não posso deixar de mencionar a res-
posta desse autor:

“sim, o corpo foi recortado da paisagem. Mas apenas porque, primeiro, foi ele que
construiu essa paisagem, que nos deu a ler a linha de um horizonte que era bárbaro
para nós, pois nos faltava o espelho. Foi ele, esse corpo recortado, que inventou –
melhor: descobriu – esse estranho pano de fundo impensado, foi ele que o tornou
pensável, portanto visível e dizível. E quando esse corpo já não está, e nos faz tanta
falta, é preciso lembrarmos que ele está, sim, sempre, naquele instante em que com
ele pensamos.”

Nesse movimento de construção do luto, individual e coletivo, que, tantas


vezes, também será embate público de ideiais, e embate entre o singular e o
plural, olharemos para O labirinto da saudade, “a psicanálise mítica do destino
português”, assim generosamente classificado pelo seu próprio autor, e pode-
remos repetir a pergunta de José Saramago em relação a Os Lusíadas: “o que
farei com este livro?” O que faremos destes textos todos? A gentileza e o humor
HOMENAGEM A EDUARDO LOURENÇO 351

inigualáveis de Eduardo Lourenço, para além de toda a sua imensa construção


de conhecimento em forma de textos, aulas e conversas, também farão, já fa-
zem, muita, muita falta. Em nosso último encontro, que foi também o último de-
poimento dado a mim para a pesquisa de pós doutorado, Eduardo Lourenço, em
março de 2019, disse e repetiu a palavra “exílio”. Não escutei bem e ele repetiu:
“Exílio. É a palavra que serve para mim e serve para a humanidade inteira”. Sin-
gular, plural, Eduardo Lourenço.
cei
atividades
2019
CEI ACTIVIDADES
357
2021

ENSINO E FORMAÇÃO

[http://www.cei.pt/cv/]

NOVAS FRONTEIRAS,
OUTROS DIÁLOGOS:
COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
O Centro de Estudos Ibéricos (CEI), enquanto pla-
taforma de intercâmbio, debate e difusão de co-
nhecimentos sobre os territórios e as culturas ibéri-
cas, levou a efeito a XXI edição do Curso de Verão
subordinada ao título genérico “Novas fronteiras,
outros diálogos: cooperação e desenvolvimento”,
entre os dias 06 e 09 de julho.
O Curso, que decorreu em formato online, contou
com cerca de 350 participantes oriundos de vários
pontos do País e do estrangeiro, e com 80 comuni-
cações proferidas também por oradores de diversas nacionalidades.
À semelhança das edições anteriores, o Curso constou de Conferências, Comu-
nicações, Painéis de Debate e Trabalhos de Campo, que foram substituídos por
Documentários para adaptação ao formato online, e foi estruturado em torno dos
seguintes temas:
i. Patrimónios, paisagens e desenvolvimento local;
ii. Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais;
iii. Políticas públicas, cooperação e desenvolvimento.

Os debates organizaram-se em torno das seguintes Painéis:


Painel 1. Geodiversidade, biodiversidade, ordenamento do território
358 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Painel 2. Dinâmicas da paisagem e injustiça ambiental


Painel 3. Recursos naturais e educação ambiental
Painel 4. Património e turismo
Painel 5. Património, patrimonialização, memória
Painel 6. Agricultura e desenvolvimento rural
Painel 7. Rural, segurança alimentar, políticas públicas
Painel 8. Cidade e evolução urbana
Painel 9. Cidade, paisagem e imagem urbana
Painel 10. Literatura e leituras do território
Painel 11. Dinâmicas económicas e sociais
Painel 12. Temas pós-coloniais
Painel 13. Políticas públicas e sistemas de saúde
Painel 14. Governação e movimentos sociais

Destaque para as conferências proferidas por reputados académicos e inves-


tigadores, que foram as seguintes:

1. A charneca: memória, paisagem e património ― Jorge Gaspar


2. Paisaje y Patrimonio ― Josefina Gómez Mendoza
3. O grito e a explosão do território brasileiro: desigualdades e seletividades
socioespaiais. Debates urgentes sobre fronteiras, limites e o mundo novo ―
Maria Adélia Souza
4. O Ensino Superior em Cabo Verde: cooperação e desenvolvimento territo-
rial ― Judite Nacimento
CEI ACTIVIDADES
359
2021

As Mesas Redondas estruturam-se em torno de quatro temas com a participa-


ção dos seguintes professores e investigadores:
I. Paisagens e Patrimónios com intervenções de: Lúcio Cunha; Alipio de Celis;
António Campar de Almeida; Antonio Campesino
II. História Local, História Ibérica, História Pública ― Território, Memória, Iden-
tidade com intervenções de: Rita Costa Gomes; Diego Piay Augusto e Patricia
Argüelles Álvarez; Irene Sánchez Izquierdo; Antonieta Pinto e Dr. António
Prata Coelho; Arsenio Dacosta
III. Cooperação e Desenvolvimento com intervenções de: Valentín Cabero;
Victor Casas; António Pedro Pita
IV. Coesão Territorial com intervenções de: Rui Jacinto; Lorenzo López Trigal;
João Ferrão
O Fórum “As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa” contou com
intervenções de:
Lúcio Cunha; Dirce Suertegaray; José Maria Semedo; Rui Jacinto; José Borzac-
chiello da Silva; Inês Macamo Raimundo; e Maria Fernanda Delgado Cravidão.

A iniciativa foi coordenada por Rui Jacinto (Universidade de Coimbra) e María


Isabel Martín Jiménez (Universidade de Salamanca) e foi creditado pela Universi-
dade de Salamanca e foi transmitido online na página de Facebook do CEI e do
canal do CEI no Youtube.
O programa completo e resumo das comunicações pode ser consultado em:
https://www.cei.pt/cv/media/files/CV2021-resumos.pdf
Os vídeos das conferências, painéis de debate e documentários estão dis-
poníveis para visualização no canal do CEI no Youtube em https://www.youtube.
com/channel/UC64NvY-WrpewDNyMwprYljg.
360 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

GEOGRAFIAS & POÉTICAS DA FRONTEIRA


No âmbito das Comemorações dos 20 anos
do CEI, realizou-se nos dias 22 e 29 de ja-
neiro o Webinar “Geografias & Poéticas da
Fronteira”, iniciativa do projeto “Leituras do
Território”, coordenado por Cristina Roba-
lo-Cordeiro, Professora da Universidade de
Coimbra e membro da Comissão Científica
do CEI.
Na primeira sessão, que teve lugar no dia
22 de janeiro, foi apresentado o livro “Geo-
grafias & Poéticas da Fronteira. Leituras do
Território”, com intervenções de Cristina
Robalo-Cordeiro, Rui Jacinto, Duarte Belo e
Alfredo Cunha.
No dia 29 de janeiro, sob o tema geral “Geo-
grafias da fronteira: pensar os limites e seus
novos contornos”, tiveram lugar 17 interven-
ções, divididas em três painéis:

1. Fronteiras d’aquém e além Ibéria: memórias, vivências, imaginários (inter-


venções de Valentín Cabero; Pedro Salvado; José Maria Semedo; Jadson Luís
Rebelo; Dirce Suertegaray; Adriana Dorfman; Regina Coeli Machado e Silva);
2.As fronteiras e o futuro: novos limites, outros contornos do mundo (in-
tervenções de Rui Jacinto; Frédéric Durand; Emilio Jovando Zeca; Danielle
Ayres; Fernando Jose Ludwig; Catarina Oliveira; Vanda Dias)
3. Fronteiras e outros limites: o tempo, o espaço o modo (intervenções de
Lúcio Cunha; Álvaro Domingues; Valentín Cabero; Rogério Haesbaert)

O Webinar foi transmitido online na página de Facebook do CEI e do canal do


CEI no Youtube, onde estão disponíveis os vídeos das intervenções:
https://www.youtube.com/channel/UC64NvY-WrpewDNyMwprYljg
CEI ACTIVIDADES
361
2021

ESTADOS UNIDOS DA INVESTIGAÇÃO.


TRANSFERÊNCIAS IBÉRICAS NAS ARTES E
HUMANIDADES (CICLO DE CONFERÊNCIAS)
Realizou-se, entre os meses de maio e novembro, o
I Ciclo de Conferências Estados Unidos da Investi-
gação. Transferências Ibéricas nas Artes e Huma-
nidades.
As temáticas genéricas abordadas versaram as
Humanidades Digitais, Estudos Literários, Litera-
tura, Artes e Meio Ambiente, Estudos teatrais e
Artes cénicas, Estudos fílmicos e Linguística Con-
trastiva e de Contacto. A reunião destes enclaves
teórico-metodológicos pretendeu pôr em comum,
no espaço do CEI, a atualidade viva e vigente da
investigação nas Artes e Humanidades em ambas
as instituições do Estado Espanhol e Português,
projetando no espaço académico e público as
suas respetivas singularidades e confluências.
Em formato de webinares, as seis sessões que compõem o Ciclo contaram
com intervenções de professores e investigadores vinculados a diferentes facul-
dades e centros da Universidade de Coimbra e da Universidade de Salamanca:
. Humanidades digitais ― 28 de maio
Intervenções: Manuel Portela (UC) | José Antonio Cordón (USAL)
. Estudos literários ― 25 de junho
Intervenções: António Apolinário Lourenço (UC) | Javier San José Lera (USAL)
. Literatura, artes e meio ambiente ― 30 de julho
Intervenções: Patrícia Vieira (UC) | María del Mar Marcos Martín (USAL)
. Estudos teatrais e artes cénicas ― 24 de setembro
Intervenções: Fernando Matos Oliveira (UC) | Antonio Notario Ruiz (USAL)
. Estudos fílmicos ― 29 de outubro
Intervenções: Osvaldo Manuel Silvestre (UC) | Fernando González García (USAL)
. Linguística contrastiva e de contacto ― 26 de novembro
Intervenções: Ana R. Luís (UC) | Ana María García Martín (USAL)

Os Webinares foram transmitidos online na página de Facebook do CEI e do


canal do CEI no Youtube, onde estão disponíveis os vídeos das intervenções:
https://www.youtube.com/channel/UC64NvY-WrpewDNyMwprYljg
362 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

INOVAÇÃO E TERRITÓRIO
Realizou-se no dia 30 de março o Webinar
Inovação e Território, onde foram apresenta-
dos os projetos vencedores do Prémio CEI-IIT
(CEI-Investigação, Inovação e Território) 2020:

_ Prémio CEI-IIT Modalidade 1 “Investigação:


“Territórios e sociedades em tempo de mu-
dança”:
Projeto “Migrações de Estudantes para as
Regiões Periféricas: Fluxos de talento e
motores de inovação”, de Maria Madalena
Saraiva Pires da Fonseca, Professora na Uni-
versidade do Porto;
_ Prémio CEI-IIT Modalidade 2 “Projetos e
iniciativas inovadoras: “Inovação em territó-
rios de baixa densidade”,
Projeto “Impact”, de Inês Alves e Lara Pláci-
do, Arquitetas.

A iniciativa contou também com a participação dos investigadores res-


ponsáveis pelos projetos premiados em 2019: na modalidade 1, Investigação
“Territórios e sociedades em tempo de mudança”, o projeto “Ligações entre a
agricultura e turismo em territórios luso-espanhóis: análise da sustentabilidade
e potencialidades do agroecoturismo como produto turístico”, de Dora Isabel Ro-
drigues Ferreira, Investigadora na Escola Superior Agrária – Instituto Politécnico
de Castelo Branco; na modalidade 2, Projetos e iniciativas inovadoras: “Inovação
em territórios de baixa densidade”, o projeto “Instituto Internacional de Inves-
tigación e Innovación del Envejecimiento (4IE)”, apresentado por Borja Rivero
Jiménez, Personal Científico e Investigador – Instituto Internacional de Inves-
tigación e Innovación del Envejecimiento (4IE) Grupo Interdisciplinar Sociedad,
Cultura y Salud (GISCSA).
Este Webinar foi transmitido online na página de Facebook do CEI e do canal
do CEI no Youtube, onde está disponível para visualização:
https://www.youtube.com/watch?v=-NWepD4bTuA&t=715s
CEI ACTIVIDADES
363
2021

DINÂMICAS SOCIOECONÓMICAS EM
DIFERENTES CONTEXTOS TERRITORIAIS
Realizou-se, no dia 9 de abril, o Webinar
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes
contextos territoriais em que foi apresenta-
do o livro do Curso de Verão 2020 (Coleção
Iberografias, nº 40, CEI/Âncora Editora). In-
tervieram na iniciativa: Rui Jacinto; Valentín
Cabero; Messias Modesto dos Passos; Dirce
Suertegaray; Rosangela Medeiros Hespa-
nhol; Antonio Nivaldo Hespanhol; Barto-
lomeu Israel de Souza; Ivaldo Lima; José
Borzacchiello; María Isabel Martín Jiménez;
e Lúcio Cunha.
Este Webinar foi transmitido online na página
de Facebook do CEI e do canal do CEI no You-
tube, onde está disponível para visualização:
https://www.youtube.com/watch?v=9pZWt-
jhUAiU
364 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

IMAGEM E TERRITÓRIO:
FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS
O Centro de Estudos Ibéricos levou a efeito
a IV edição dos Encontros “Imagem e Terri-
tório: Fotografia sem Fronteiras”, de 29 de
abril e 1 de maio, em formato online e semi-
-presencial e que contaram, uma vez mais,
com a parceria da Fujifilm e do Fotoclube da
Guarda.
Integrados no projeto “Transversalidades”
estes Encontros resultam do envolvimento
ativo do CEI na cooperação territorial e no
seu comprometimento com os territórios de
baixa densidade, visando, através da Ima-
gem, dinamizar a cooperação e a inclusão
dos territórios, rompendo com a exclusão
e invisibilidade a que estão votadas vastas
regiões do país e do mundo.
Os Encontros conjugaram diversas ativida-
des em torno da temática da Fotografia e do
Território, nomeadamente, Exposições, De-
bates, Mostras e Publicações, estruturadas de acordo com os seguintes temas:

Território | Arte e Fotografia | Sociedade |Tempos de pandemia |Transversa-


lidades (Mostra de Autores Premiados) | Viagem | Cidade

O programa foi o seguinte:


29 de abril

Apresentações:
* Rui Jacinto – Membro da Comissão Executiva do CEI
* Alfredo Cunha – Fotógrafo

TEMA 1. TERRITÓRIO

Moderação: Lúcio Cunha – Docente da Faculdade de Letras da Universidade


de Coimbra
CEI ACTIVIDADES
365
2021

Introdução: Victorino García – Licenciado em Belas Artes, Professor de Arte e


Fotografia – “Necesidad de una fotografía social en un mundo post-pandémico”
Apresentações:
* Fernando Curado Matos – Fotojornalista e Professor de fotografia – “Barro-
cos: As Transformações do Território”
* Manuel Ferreira – Licenciado em Geografia, Diretor geral de empresa e
Formador do módulo de fotografia – “Paisagens da minha T(s)erra”

TEMA 2. ARTE E FOTOGRAFIA

Moderação: Clara Moura – Licenciada em Línguas e Literaturas e Mestre em


Ciências da Educação
Vitor Amaral – Vice-Presidente da Câmara Municipal da Guarda, Membro da
Comissão Executiva do CEI
Introdução: Santiago Santos – Fotógrafo – “Transversalidades: Arte y foto-
grafía en los territorios de frontera”
Apresentações:
* Catarina Flor – Artista Plástica e Multimédia e Atriz – “A arte de fazer parar
o tempo”
* José Pedro Martins – Fotógrafo e Professor – “Fotografia versus Arte – Do
realismo decalcado à invasão contemplativa | dois projetos em análise”
366 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

30 de abril
TEMA 3. SOCIEDADE
Moderação: Valentín Cabero Diéguez – Professor (Jubilado) da Universidade
de Salamanca;
Mário Branquinho – Diretor do CineEco Festival Cinema
Introdução: Alberto Prieto – Fotojornalista e Fotógrafo documental – “A foto-
grafia como documento de história”
Apresentações:
* Filipa Bessa – Investigadora na Universidade de Coimbra (MARE – Centro
de Ciência do Mar e do Ambiente) – “A fotografia como meio de comunicação
de ciência – A poluição por microplásticos”
* Mário Cruz (Fujifilm) – Fotojornalista – Fotografia como prova
TEMA 4. TEMPOS DE PANDEMIA
Moderação: María Isabel Martín Jiménez – Professora da Universidade de
Salamanca, Membro da Comissão Executiva do CEI
Introdução: Jorge Pena – Fotógrafo – “Fotografia em tempos de Pandemia”
Apresentações:
* Alberto Picco – Fotógrafo – “Mapas e percursos em tempos de pandemia”
* Paulo Sampaio – Fotógrafo e Responsável das Lojas Online e Marketing Di-
gital – Hall ca – “A pandemia dos fotógrafos– o despertar do fotojornalismo”

1 de maio
*Rumores do Mundo – pessoas, lugares, outros olhares – Inauguração da Ex-
posição (presencial e transmissão online), nos Claustros do Paço da Cultura,
na Guarda
*Transversalidades Fotografia sem fronteiras 2020 – Inauguração da Exposi-
ção; Lançamento do catálogo (Presencial e transmissão online), na Galeria de
Arte do Teatro Municipal da Guarda

TEMA 5. TRANSVERSALIDADES: MOSTRA DE AUTORES PREMIADOS


Moderação: Rui Jacinto – Membro da Comissão Executiva do CEI
Pedro Baltazar – Optometrista, Fotógrafo
Apresentações:
* Jorge Bacelar – Médico Veterinário e Fotógrafo
* Antonio Pérez – Fotógrafo, Professor de imagem
* Luís Loureiro – Advogado
* Luís Ramos – Fotógrafo
* Diego Herrera Carcedo – Fotógrafo
CEI ACTIVIDADES
367
2021

TEMA 6. VIAGEM
Moderação: Susana Paiva
Introdução: Duarte B