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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(¡n memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDipÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
'.■" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.
Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO XXXV

OUTUBRO

1994

v> SUMARIO
<

1 Ser Jovem

ni Pió XII eos Judeus

"O Movimento de Jesús", por Eduardo Hoornaert


(O
UJ "O Direito contra o Direito" (D. Antonio A. Miranda)
Duas Mulheres Heroicas

Respeitar a Eucaristía
(O
<
A Recepcáo do Clero Anglicano na Igreja Católica
UJ
"A Seita que nao ousa dizer seu nome"
CQ
"Jesús jamáis condenou o homossexualismo"
8
O. Amway e Nova Era
PERGUNTE E RESPONDEREMOS OUTUBRO 1994
Publicagáfo mensal N9 389

Diretor-Responsável SUMARIO
Estévao Bettencourt QSB
Autor e Redator de toda a materia Ser Jovem •. . . . 433
publicada neste periódico A inda se comenta:
Pió XII e os Judeus 434
Diretor-Administrador: Releitura do passado:
D. Hildebrando P. MartinsOSB "O Movimento de Jesús",
por Eduardo Hoornaert 443
Administracao e distribuicao: Ainda o Aborto:
Edicoes "Lumen Christi" "O Direito contra o Direito"
Rúa Doro Gerardo, 40 — 5? andar — sala 501 (D. Antonio A. Miranda) 458
Tel.: (021) 291-7122 Eloqüentes Testemunhos:
Fax (021) 263-5679 Duas mglheres Heroicas 462
Advertencia Premente:
Endereco para correspondencia: Respeitar a Eucaristía 465
Ed. "Lumen Christi" Entre os Cristáos da Inglaterra:
Caixa Postal 2666 A Recepcao do Clero Anglicano
Cep 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ na Igreja Católica 468
Homossexualismo Camuflado?
Impressáo e Encadernapao
"A seita que nao ousa
dizer seu nome" 471
Respondendo a um Panfleto:
"Jesús jamáis condenou
"MARQUES SARAIVA " o homossexualismo " 475
GRÁFICOS E EDITORES S.A.
Amway e Nova Era 479
Tels.: 102 J) 273-9498 / 273-9447

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Fantasmas e Assombraipoes. - Reencarnagao ou Ressurreipao? — Apari-


paes de Nossa Senhora; Sim ou Nao? - A Conversao de Afonso Ratisbon-
ne (Pére Marie). — "Eu fui Testemunha de Jeová".

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

PARA RENOVACÁO OU NOVA ASSINATURA - ANO: 94/95:


(12 números R$ 13,00 - n? avulso ou atrasado R$ 1,30)

.O pagamento poderá ser á sua escolha:.


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do, anotando no verso: "VÁLIDO SOMENTE PARA DEPÓSITO na conta do favoreci
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to do Rio de Janeiro, enviando a seguir xerox da guia de depósito para rtosso controle.
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SERJOVEM

Juventude - conceito tao apregoado em nossos dias - nao significa simplesmen-


te urna faixa etária. Diz-se, com razáb, que há tres concepcóes de juventude:

- a juventude cronológica, ou a fase da vida que vai dos 15 aos 25 anos de idade;
- a juventude sociológica, ou seja. a situacao cultural, social e familiar dos indi
viduos que freqüentam a escola, ainda nao entraram na vida produtiva nem constitui-
ram familia;
- a juventude psicológica, estado de ánimo que pode persistir por varios dece
nios, ... estado em que a coragem prevalece sobre a timidez, o otimismo e o dinamismo
superam a tendencia ao comodismo e á acomodacao... estado em que se conserva o
amor as causas belas e nobres e se mantém o desejo ardente de Ihes servir sem mesqui-
nhez nem covardia. Este terceiro conceito é bem ilustrado pelos dizeres do General
Mac-Arthur:

"Juventude nao é um período da vida, é um estado de espirito, urna disposicao


da vontade, urna qualidade da imaginacáo, urna intensidade emotiva, urna vitória da
coragem sobre a timidez, do gosto da aventura sobre o amor ao conforto.
Nao é por termos vivido um certo número de anos que envelhecemos; envelhe-
cemos, porque abandonamos o nosso ideal.
Os anos enrugam o rosto, renunciar ao ideal enruga a alma. As preocupacóes, as
dúvidas, os temores e os desesperos sao os inimigos que lentamente nos inclinam para a
térra e nos tornam pó antes da morte.
Jovem ó aquele que se surpreende, que se maravilha e pergunta. como a crianca
insaciável: 'E depois? ... É aquele que desafia os acontecimentos e encontra alegría no
jogo da vida.
És tao jovem quanto a tua fé. Tío velho quanto a tua descrenca. Tao jovem
quanto a tua conf¡anca em ti e a tua esperanca. Tao velho quanto o teu desánimo.
Serás jovem enquanto te conservares receptivo ao que é belo, bom, grande.
Receptivo as mensagens da natureza, do homem, do Infinito.
E se um día teu coracao for atacado pelo pessimismo e corroído pelo cinismo,
que Deus entao se compadeca de tua alma de velho!".

GENERAL MAC-ARTHUR

Vemos que pode haver juventude psicológica dentro de urna pessoa ¡dosa, como
também se encontram velhice e desánimo dentro de individuos cronológicamente
jovens. — O ideal é que o passar dos anos nao afete o otimismo e a coragem de viver.
Isto se deve dar com especial frequerida entre os cristaos, pois o cristáo sabe que
"enquanto o seu homem exterior vai definhando, o homem interiorase renova dia por
dia" (2Cor 4,16). Dentro do cristao existe um principio de filiacao divina., que tende a
se desenvolver dinámicamente e transformar a cruz em alegria, os precursores da
morte e a morte em passagem para a vida e a transfigurado.
É esta perene juventude (nao baseada em utopia, mas na real idade da fé) que o
fim de mais um ano (estamos em outubro!) nos faz almejar ardentemente.
E.B.

433
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
ANO XXXV - N? 389 - Outubro 1994

Ainda se comenta:

PIOXII EOSJUDEUS

Em síntese: A historiadora e jornalista Renée Casin oferece ao públi


co dados interessantes e pouco conhecidos a respeito da atuacao do Papa
Pió XII em pro/ dos judeus sob o regime nacional-socialista. Os protestos
do Papa junto ao Governo alemao e seus satélites se multiplicaram durante
os anos de antisemitismo e barbarie. Nao raro os pronunciamentos do Papa
e dos Bispos (da Bélgica e da Holanda, por exemp/o) provocaram novos
surtos de perseguidao aos judeus e aos cató/icos; nao se pode esquecer que
as tropas nacionalsocialistas fácilmente invadiriam o Vaticano e prende-
riam Pió XII (como, alias, parece ter sido o projeto de Ado/f Hit/er); em
conseqüéncia, o Papa se via obrigado a usar de grande diplomacia para nSo
suscitar a furia sufocadora de Hitler e seus sequazes. — Apesar das cautelas
tomadas, registramse resultados muito positivos: os judeus, inclusive a
Sra. Golda Meir, foram profundamente gratos a Pió XII, dando eloqüentes
testemunhos de simpatía ao Papa desde o fim da segunda guerra mundial.
Pinchas Lapide, cónsul em Milao, após minuciosa pesquisa, concluiu que
800.000 israelitas foram salvos da morte por obra de Pió XII, independen-
temente da respectiva crenca religiosa.

| * * *

¡
A figura do Papa Pió XII (1939-1958) ainda em nossos dias é discuti
da. Varios comentadores julgam que foi covarde diante dos nacional-socia
listas de Adolf Hitler e nSo defendeu devidamente os judeus perseguidos.
Deveria ter tomado posicao mais definida diante dos nazistas e assim teria
impedido grande parte da tragedia do anti-semitismo.

Eis que a respeito dados pouco conhecidos sSo apresentados pela jor
nalista Renée Casin, que publicou o artigo "Pie XII a parlé" (Pió XII falou)

434
PIÓ XII EOS JUDEUS

no jornal L'Homme Nouveau de 5/6/94, pp. 10 e 11.' Desse artigo extrai-


remos os termos mais interessantes para o propósito de esclarecer a atitu-
de de Pió XII frente ao nacional-socialismo e aos judeus.

1. PIÓ XII: A CONTROVERSIA

O primeiro ataque de vulto contra Pió XII deve-se a Rolf Hochhut,


que em 1964 apresentou a peca Der Stellvertreter (O Vigário). Concomi-
tantemente se deve assinalar o livro de Saúl Friedi'ánder: Pió XII e o Ter-
ceiro Reich. Exibiam a figura de um Papa favorável ao nazismo e indife
rente ao holocausto dos judeus.

Tal imagem era falsa. Com efeito; Pió XII foi o único dos grandes ho-
mens de sua época que conseguiu salvar 800.000 judeus em toda a Europa
ocupada pelos nacional-socialistas; o próprio Saúl Friedlander Ihe devia a
sobrevivencia no Seminario de Montlucon.

Por ordem de Pió XII, muitos institutos e conventos católicos se or


ganiza ram para abrigar clandestinamente os israelitas perseguidos. O pró
prio Vaticano, pequeño como é, foi um importante centro de resistencia
e de socorro de todo tipo. No plano económico, os católicos norte-ameri
canos revelaram-se altamente generosos. O atendimento aos judeus foi tao
eficaz que em 1945, urna vez terminada a guerra, o Grao-Rabino de Roma,
convertido ele mesmo pelo testemunho de caridade, pediu o Batismo e to-
mou o nome cristao de Eugenio em homenagem ao Papa Eugenio Pacelli
(Pió XII). A atuacao de Pió XII foi tao importante que, por ocasiao de sua
morte, as homenagens mais significativas vieram de Israel: Pinchas Lapi
de,3 cónsul de Israel em Milao, Golda Meir, o Dr. Safran, a Agéncia-órgáo

1 A autora escreveu também Mensonges et Silences sur Pie XII (Mentiras e


Silencios a respeito de Pió XII), Ed. Regain.

2 Pinchas Lapide nasceu em Viena em 1922, de onde fugiu em 1938


para a Palestina. Antigo funcionario público, diplomata e jornalista,
desde 1971 é professor universitario em Jerusalém. Do seu livro "Jesús,
Filho de José?" extraimos os seguintes tópicos (pp. 126s).

"Fazer parte dos apaixonados por Jesús, como os chamam os/udeus


italianos, absolutamente nao constituí excecao, mas é bem diferente quan-
do se trata de um GrSo-Rabino que é batizado publicamente em Roma no
día 13 de fevereiro de 1945, adotando o nome de seu padrinho honorario,
o Papa Pió XIl\ 'A figura do Cristo me fascina há muitos anos', declarou ele

435
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"389/1994

do sionismo mundial, o Grao-Rabino Herzog, o Dr. Elio Taf, Grüo-Rabino


da Italia, Albert Einstein... Escreveu Pinchas Lapide: "Toda a imprensa foi
unánime. É de notar também que o Góverno de Israel negou subvencao ao
teatro que quería exibir a peca O Vigário em Tel-Aviv; a peca assim saiu
do cartaz... Aos 9/10/1958 Golda Meir proclamou perante o mundo intei-
ro a sua gratidao áquele que "havia levantado a voz em favor do povo
judeu".

A gratidao dos judeus, porém, nao esperou o ano de 1958 para se ma


nifestar. Pouco após a entrada dos americanos em Roma, ou seja, aos
29/11/1944, um grupo de setenta israelitas, entrou no Vaticano com o
semblante marcado pelo sofrimento, a fim de agradecer a Pió XII a sua ati-
tude durante a guerra. Aos 9/2/1948, quarenta delegados do United Je-
wish Appeal foram recebidos pelo S. Padre, ao qual levaram seu testemu-
nho de gratidao. E aos 26/5/1955 urna orquestra filarmónica israelense,

algum tempo depois, acrescentando: 'Tudo isso fermentou em m¡m por


muitos anos, ou mesmo dezenas de anos'.

O fato de que ele tenha, mesmo se encaminhandopara urna crístologia


cada vez mais explícita, conseguido continuar a exercer, apesar de tudo,
a funcao de chefe religioso das cqmygidades judaicas da Italia, orientando-
as durante aqueles anos fatídicos ^sustentando a fé judaica deste povo,
tudo isto é considerado aínda hoje em dia por muitos judeus de Roma co
mo urna traicao e urna apostasia. Para sermos honestos, é preciso no entan-
to registrar que ele nao retirou nenhum proveito material de sua conver-
sao e que, no tempo da grande razzia dos judeus de Roma em outubro de
1943, contribuiu, com a ajuda do Papa, para salvar pelo menos 850 pes-
soas. Já nesta época ele referíase ao Papa Pió XII como o 'Santo Padre',
com o tom da mais profunda veneracao. Algumas testemunhas destes anos
de horror sao levadas a concordar com a hipó tese proposta pelo rabino
Barry Dov Schwartz: 'Muitosjudeus italianos sentiram-se competidos a ba-
tizar-se depois da guerra, por reconhecimento á instituicSo que Ihes salvara
a vida. Pode-se crer que este tenha sido também o caso do Grao-Rabino
de Roma'".

Pinchas Lapide é o autor do livro Rome et les Juifs (Roma e os Judeus)


(Le Seuil 1967). Após pesquisas aprofundadas em toda a Europa e nos ar-
quivos de Jerusalém, como também junto aos sobreviventes, chegou a con
tar 800.000 judeus salvos por Pió XII. Em carta escrita a Renée Casin em
19/6/1968 dizia: "Sendo judeu crente e israelense, ouso esperar que mi-
nha documentacao terá certo peso, talvez suficiente para apagar um pouco
da difamacSo e das mentiras destes últimos anos".

436
PIÓ XII EOSJUDEUS

composta de 95 judeus de quatorze países diferentes, tocou em presenca


do Papa allí Sinfonía de Beethoven.

Merece atencao aínda o testemunho do grande físico judeu Albert


Einstein, que no fim da guerra de 1939-45 declarou:

"A Igreja Católica foi a única a protestar contra os atentados de Hit


ler á liberdade. Até entao eu nao tinha interesse pela Igreja, mashoje ex
perimento grande admiracao por ela, visto que somente a igreja teve a
coragem de se levantar em; favor da <yerdade espiritual e da liberdade mo
ral".

2. OS PROTESTOS DE PIÓ XII E AS REACOES NAZISTAS

Já na sua primeira encíclica, publicada aos 20/10/1939, e iniciada pe


las palavras Summi Pontificatus, Pió XII escrevia:

"Nosso coracao de pai estremece de profunda dor, quando anteve


mos tudo o que há de brotar dessas sementes de violencia e de odio, para
as quais a espada está hoje escavando sulcos ensangüentados... A primitiva
raíz do mal que assalta a sociedade moderna, é a negacao e a recusa de to
das as leis fundamentáis e universais da Moral humana concernentes á vida
de todo individuo...; é o esquecimento da leí da solidaríedade humana, di-
tada por nossa origem comum e pela igualdade da natureza humana em to
do ser humano, qualquer que seja a nació a que pertenca...

Nosso coracao de pai está perto de todos os seus filhos com amor
cheio de compaixao, perto principalmente daqueles que sao maltratados,
oprimidos, perseguidos... 0 sangue de ¡números homens, mesmo dos que
nao combatem, ergue um gemido horrivel".

Como se vé, no inicio da guerra que rebentou em 3/9/1939, o Papa


se referia ao sangue derramado injustamente e fazia mencao da igualdade
de todos os homens, "quer judeus, quer gregos, quer gemios" (Cl 3,11).

Essa encíclica foi bem compreendida pelas autoridades nacional-so


cialistas, de modo que na Alemanha o seu texto foi publicado de maneira
tao deturpada que o Nuncio Apostólico em Berlim recebeu da Santa Sé a
ordem de dirigir um protesto enérgico ao Governo de Hitler. Os sacerdotes
que tentaram ler, no pulpito, a versao nao censurada, foram encarcerados.

Um relatório secreto do Servico de Seguranea do Reich, datado de


9/1/1940, mencionava a influencia da encíclica Summi Pontificatus sobre

437
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

o clero alernüo: "Segundo algumas noticias, torna-se evidente que urna


parte do clero católico alemSo declarou que se regozijaria se a Alemanha
perdesse a guerra" (Meldungen aus dem Reich. Geheime S.O. Lageberich-
te, publicado por Beberach, Berlim 1965).

A mesma encíclica mereceu do embaixador da Franca junto á Santa


Sé, Sr. Francois Charles Roux, o seguinte comentario:

"Tudo o que esse documento pontificio contém, é apto a nos cumu


lar de legítima satisfacao. Pió XII ai toma a mais nítida posicao, do ponto
de vista doutrinário, contra o nacionalismo exacerbado, a idolatría do Es
tado, o totalitarismo, o racismo, o culto da forca bruta, o desprezo dos
compromissos internacionais; em suma, contra todas as características do
sistema político de Hitler".

Mais: quando a emissora de radio B.B.C., de Londres, difundiu a en


cíclica semlhe modificar urna só palavra, o embaixador da Alemanha en-
viou ao Papa um rígido protesto.

Em sua mensagem de Natal de 1939, o Papa falou em termos claros


"do amor universal que é a si'ntese de todos os ideáis cristaos, e oferece
também urna via aqueles que nao compartilham a nossa fé".

No dia de Natal de 1940, Pió XII exprimiu publicamente a sua ale


gría "de ter podido ajudar um grande número de refugiados, principalmen
te nao arios".

A mensagem de Natal de 1941 deplorava "a desonra infligida á digni-


dade humana, á liberdade e á vida..., desonra que clama por vinganca". Tal
mensagem foi interditada na Bélgica, na Holanda e alhures por ordem de
Berlim.

A mensagem de Natal de 1942 levantava a voz em favor das "cente


nas de milhares de pessoas inocentes, que pelo único fato de pertencer a
tal nacao ou a tal raga foram condenadas á morte mediante um progressi-
vo exterminio". Tal mensagem foi retirada de circulacao pelos nacional
socialistas, e as tipografías receberam ordem de nao a reimprimirem. O
New York Times, em seu editorial de 25/12/1942, citou o texto pontifi
cio e concluiu:

"Dado que urna personalidade eminente, que é tida como arbitro en


tre os dois campos, condena a nova forma de Estado nacionalista como
heresia, denunciando a expulsao e a perseguicSo de seres humanos simples-
mente por causa da sua raca,... esse ¡ulgamento imparcial toma as caracte
rísticas de um veredicto da Corte Suprema".

438
PIOXII EOSJUOEUS

O embaixador da Italia em Berlim, o Sr. Diño Alfieri, entrevistou-se


com Pió XII, após o qué declarou: "O Santo Padre está mais disposto a
partir para um campo de concentrado do que a fazer o que quer que
contrarié a sua consciéncia". Alias, parece ter havido, da parte de Hitler,
o projeto de prender e deportar Pió XII, como revelam osPP. Raimondo
Spiazzi e Robert Graham no periódico italiano 30 Giorni em 1988. Este
plano, alias, aparece já nos relatónos do Quartel General do Führer
1942-1945 publicados sob o título "Hitler parle á ses généraux {Hitler fála
aos seus Generáis)" pela Livraria Albin Michel em 1964.

3. UM DILEMA CRUCIANTE

Aos 2/6/1943 dizia Pió XII aos Cardeais reunidos em Roma:

"Todas as palavras pronunciadas com esta finalidade (de ajudar os


¡udeus) pelas autoridades competentes devem ser seriamente pensadas e
ponderadas, segundo o interesse daqueles que sofrem, a fim de nSo agrá
varem involuntariamente ou tomarem insustentável a sua situacSo".

Vé-se que Pió XII quería ser cauteloso para evitar males maiores.
Falava na base de experiencias anteriores, entre as quais sobressai a revolta
dos holandeses contra as medidas anti-semitas. Com efeito; em fevereiro
de 1941 estourou a greve geral na Holanda; pararam ostrens, os estaleiros
navais, as fábricas de armas... Dentro de tres dias a revolta foi debelada e
os operarios presos; sem processo judiciário foram levados para campos
de concentragao. Os Bispos da Holanda protestaram publicamente em
17/2/1942, 11/7/1942, 26/7/1942 e 15/5/1943; chegaram a pleitear a de
sobediencia dos cidadaos ás leis vigentes e diziam:

"Em meio a todas as in/usticas e dilaceracdes, nossa simpatía se volta


especialmente para os /udeus, e para nossos irmaos de fé católica descen
dentes de judeus... Asst'm fazendo, seguimos o caminho tragado por nosso
Santo Padre o Papa Pió XII... Mesmo que a recusa de co/aboracao exija
sacrificios de nossa parte, permanecei fortes e inabaláveis na conviccao de
cumprir o vosso dever diante de Óeus e dos homens".

Em outubro de 1942 o Cardeal-Primaz da Bélgica também dera or-


dens aos membros da Apio Católica de Bruxelas:

"É proibido aos católicos colaborar no estabelecimento de um Gover-


no de opressao. É obrígatório, para todos os católicos, trabalhar contra tal
regime".

439
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

Em conseqüéncia, registraram-se violentas represalias: a prisao, a de-


portacSo ou a estéril izacao de 110.000 judeus holandeses, e a prisao e de
portadlo de todos os católicos holandeses de origem judaica, a confisca-
cao de bens da Igreja e a extincao de todas as instituicoes de ajuda frater
na dos católicos tanto na Holanda e na Bélgica como nos demais países
ocupados pelo nazismo. Tal era o preco pago por protestos contra a trama
nacional-socialista.

É de notar que a última proclamacao dos Bispos holandeses se fez ou-


vir em 15/5/1943 e que Pió XII se dirigiu aos Cardeais em 2/6/1943, alu-
dindo indiretamente ás represalias sofridas em conseqüéncia dos protestos
da Igreja na Holanda.

Alias, já os primeiros protestos públicos de Pió XII no inicio da guer


ra ou em 1939, quando judeus e .católicos poloneses foram trucidados,
provocaram, de cada vez, duras represalias; em conseqüéncia, os próprios
Bispos poloneses pediram a Pió XII que nao voltasse á carga.

4. A PRIORIDADE DAS PRIORIDADES

Escreveu Pió XII aos Nuncios Apostólicos, seus representantes no es-.


trangeiro: "A prioridade das prioridades é salvar o maior número possível
de pessoas". Por efeito deste principio, Pió XII exerceu influencia junto
aos chefes de Governo submetidos a Hitler; os seus protestos se acumula-
vam sobre a mesa de trabalho de cada qual deles.

Assim, por exemplo, aos 12/11/1941, Karl Sidor, Ministro eslovaco,


recebeu do Papa a nota seguinte:

"Com profunda dor a Santa Sé foi informada de que na Eslováquia,


país do qual quase toda a populagao honra as melhores tradigoes católicas,
foi publicada urna lei, do Governo, de caráter racista e portadora de varios
artigos que estao em flagrante contradigao com os principios do Cato-
iicismo".

Em marco de 1942 houve outro protesto junto ao Governo eslovaco:

"A Secretaria de Estado de S. Santidade espera que medidas tao duras


e injustas como as que foram tomadas contra pessoas de raga judaica nSo
possam receber a aprovagao de um Governo que se ufana de sua heranga
católica... A Santa Sé seria omissa perante Deus se nao deplorasse esses
atos e essas medidas, que lesam gravemente os direitos dapessoa humana
simplesmente por causa da sua raga... Nao é verídico afirmar que os judeus

440
PIOXIIEOSJUDEUS

deportados sao enviados a campos de trabalho; a verdade é que estao sen


do extintos" (cf. Livia Rotkirchen, The destruction of Slovak Jewry
1963)".

Aos 7/4/1942, o Nuncio Apostólico referiu tais palavras do Ministro


eslovaco Tuka: "Nao compreendo por que queréis impedir-me de livrar a
Eslováquia dos judeus, esse bando de criminosos e bandidos". Respondeu
entSo o Nuncio: "Nao considero criminosos mi I nares de mulherese crian-
cas como aquetas que foram deportadas recentemente. Vossa Excelencia
está, sem dúvida, a par da sorte atroz que toca aos judeus deportados... O
mundo inteiro a conhece. Mesmo que um Estado possa abolir as normas
do Direito Natural e os preceitos do Cristianismo, nao Ihe é licito (tendo
em vista seus interesses próprios) menosprezar a opiniao internacional ou
o julgamento da historia".

Dois dias depois, o Presidente eslovaco exprimía ao Nuncio o seu pe


sar devido "ás palavras rudes do Primeiro-Ministro" e, para mostrar a sua
boa vontade, suspendeu a ordem de deportacá*o de 4.000 judeus eslovacos.

A margem de acao da Santa Sé era muito restrita. Os novos protestos


do Vaticano, datados de 13/8/1942, 17/2/1943, 7/4/1943, 5/5/1943 nada
obtiveram, pois, após a revolta da Eslováquia em agosto de 1944, os alemaes
passaram a exercer controle absoluto sobre todo o pai's. Novos protestos
datados de 20/9/1944 e 21/11/1944 só obtiveram de Hitler a seguinte res-
posta: "O Reich exigía urna solucao radical da parte da Eslováquia"; nessa
ocasiao 13.000 judeus foram presos numa furiosa ¡ncursao das tropas ale
mas, sendo a maioria deles enviada a Auschwitz.

Em Roma deu-se urna busca violenta de judeus em 16/10/1943: mi-


Ihares de israelitas romanos e refugiados da Europa Central foram obriga-
dos a vadiar pelas rúas, receosos de voltar para as suas residencias, que
constavam da lista negra dos nazistas. A fim de os abrigar. Pió Xll mandou
publicar um editorial no jornal L'Osservatore Romano:

"Depois que o Papa procurou, em vio, como se sabe, evitar a guer


ra.,,, ele nao deixou de por em prática todos os recursos de que dispunha,
para aliviar os sofrimentos... decorrentes dessa terrível conf/agacao mun
dial... Após o aumento crescente de tantas dores, a acao caridosa univer
sal e paterna do Santo Padre se intensificou; nSo conhece fronteiras, nacio
nalidades, religiio ou raga. A atividade constante e multifacetada de Pió
Xll ampliou-se nos últimos tempos em conseqüéncia de novos sofrimentos
de tantos infelizes".

A quem nao viveu os episodios da guerra de 1939-45 é difícil julgar


as pessoas e os acontecimentos ocorridos cinqüenta anos atrás. As pala-

441
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

vras de Pió XII tinham plena nitidez e ressonáncia em 1943: o jornal


L'Osservatore Romano esgotava-se rápidamente ñas bancas públicas de
¡mpressos, para a grande furia dos agentes do Governo de ocupacSo. Des
de o fim de outubro de 1943, havia em Roma 180 lugares de refugio,
sendo o Vaticano e Castel Gandolfo os dois principáis... Grapas a Pió XII,
os nove décimos dos judeus de Roma foram poupados.

Comparado com a Cruz Vermelha, que jamáis proferiu algum protes


to significativo, Pió XII foi muito mais atuante e eficaz. Após a guerra,
nenhum personagem judeu Ihe censurou o alegado "silencio". Ao contra
rio, todos, sem excecao, Ihe exprimiram gratidao. E, quando o Estado de
Israel plantou 6.000.000 de árvores no seu solo recuperado, houve quem
pleiteasse que um dos bosques assim constituidos trouxesse o nome de
Pió XII.

Quem investiga os arquivos de Berlim, París, Budapeste, Bucarest e


Sofía, poderá averiguar quao freqüentes e enérgicas foram as intervencoes
humanitarias de Pió XII; von Ribbentrop, Ministro das RelacSes Exterio
res de Hitler, no processo de Nürenberg, mencionou sessenta mensagens
de protesto junto ao Govemo alemáo. infelizmente a voz do Papa foi su
focada pela sanha agressiva do nacional-socialismo. Este era capaz de in
vadir o Estado do Vaticano e fechar todas as Nunciaturas Apostólicas,
cerceando por completo a acao de Pió XII, caso o Papa nao guardasse cer
ta prudencia, que, longe de ser covardia, era penhor de continuidade de
sua acao humanitaria e crista.

Em Pfí 305/1987, pp. 434-446 já foi publicado um artigo sobre o


mesmo tema com o título "Pió XII, os Nazistas e os Judeus".

* * *

A Significacáo dos Símbolos Cristaos, por Urbano Zules. Ed. EDI-


PUCRS, Porto Alegre 1994 (3a. edicao, revista e ampliada), 155x210 mm,
127pp.

O homem de nossos días, dependente da civilizacao cibernética, vai


perdendo o sentido do símbolo, especialmente na área do sagrado. Todos
os símbolos transmitem um sentido de sentido, através do qual se vai para
além do sentido primeiro, literal, e se tem acesso a um sentido segundo,
transcendente, que poe o observador em contato com o Misterio. Conse-
qüentemente, muitos objetos se podem tomar mediadores entre o homem
e o Absoluto. Ora o Prof. Pe. Zilles explana urna tonga serie de símbolos
que pertencem á Liturgia e a vivencia da Igreja, contribuindo para que os
fiéis católicos mais se compenetrem do significado do Ritual da Missa e
dos sacramentos em geral. Obra de grande utilidade para a formacao do
povo de Deus.

442
Re-leitura do passado:

'O MOVIMIENTO DE JESÚS'

por Eduardo Hoornaert

Em síntese: E. Hoornaert escreve a historia na ótica dos pobres, em


réplica á historiografía convencional, que ¡he parece cultivada segundo a
perspectiva dos ricos e dominadores. Na verdade, nem urna nem outra ma-
neira de ver atinge os fatos objetivamente; ambas incorrem o risco da ideo
logía. O ser humano nao é apenas um vívente necessitado depSo e saúde,
mas é urna pessoa misteriosa, que anseia por saber qual o sentido da vida;
é este o "apetite" mais fundamental de toda pessoa humana. Quem nao le
va em conta este traco característico, nao explica suficientemente a rápida
propagacao do Cristianismo apesar da perseguicao contra ele desencadeada
até 313; nao foram os aspectos sócio-económicos do Evangelho que em-
polgaram os mártires da fé crista, mas, sim, a certeza de que vivere morrer
com Cristo é penhor de plenitude ou de bem-aventuranca sem fim.

* * *

0 CEHILA (Centro de Estudos da Historia da Igreja Latino-America


na) tem-se dedicado a escrever a Historia da Igreja a partir da ótica do po
bre, julgando que este olhar é novo e deve ser explorado para que haja me-
Ihor entendimento do passado. Entre outras obras já publicadas, apareceu
em 1994 o primeiro volume de urna colegio destinada a compreender seis
tomos, que considerarlo o Cristianismo em su as origens e em seu desenvol-
vimento tais como os pobres os poderiam relatar; tal volume intitula-se "0
Movimento de Jesús" e deve-se ao conhecido historiador Eduardo Hoor
naert.1

Por ser urna obra desafiadora, apresentaremos os principáis traeos do


seu conteúdo e os comentaremos brevemente.

1 Eduardo Hoornaert, 0 Movimento de Jesús. Ed. Vozes, Petrópolis 1994,


145x210mm, 160 pp.

443
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

1.0 MÉTODO

Na Introducao, o autor propoe seu método: afirma que a historiado


Cristianismo tem sido escrita em perspectiva ocidental e europeizante,
além de confessional e institucional. Parece-1 he fazer falta a perspectiva
do homem como tal. Ora o homem é essencialmente um ser corpóreo, que
precisa de bens materiais, como alimento e saúde. Eis, porém, que tais
bens faltam aos pobres; estes sao os excluidos. Acontece que Jesús veio
preocupar-se especialmente com a fome, a saúde e também com os sonhos
religiosos do povo simples da Palestina... Daí a importancia de se contar
a historia a partir desse interesse de Jesús pelos mais carentes:

"Entramos, pois, na historia do Cristianismo com estas tres pergun-


tas na cabeca e no coracao: onde se distribuí o pao? Onde se consegue a
saúde? Por onde passa o mundo dos sonhos? Estas perguntas hSo de le
var-nos por caminhos próprios, inusitados e mesmo estranhos numa área
de estudos onde as preocupaQoes institucionais e confessionais estíveram
tantas vezes em primeiro plano" (pp. 11s).

0 autor se declara também independente de qualquer ¡nstituicao


eclesial, ou seja, de qualquer visao de fé. Escreverá segundo parámetros de
sociología, geografía, historiografía, aparentemente neutros do ponto de
vista da fé. "Queremos descrever a historia desde o reverso das condicoes
que freqüentemente temos que aceitar como normáis, como a dominacao
dos grandes e ricos, o predominio do homem sobre a mulher, do branco
sobre o negro, do civilizado sobre o indígena, do adulto sobre a crianca ou
o velho, do bem educado sobre o ignorante, do sadio sobre o deficiente físi
co, do patrao sobre o operario" (p. 14).

O autor adotará, portanto, a hermenéutica do pobre: "Interessa-nos


saber como é que ele vive, senté, pensa, fala, reza, namora, imagina as coi
sas, se relaciona com as pessoas, com os Santos, com Deus. Vamos á
procura do excluido concreto" (p. 21).

Isto quer dízer, entre outras coisas, que nao se deve considerar o
Cristianismo como a culmináncia da historia,... culmináncia para a qual
se encaminhavam o paganismo e o judaismo. Esta concepcao do Cristianis
mo como culmináncia da historia "dificulta o diálogo com as diversas re-
ligiSes existentes no mundo; dificulta também um estudo mais consistente
da historia do Cristianismo a partir dos pobres, pois estes (indios, negros,
amarelos) entendem a mensagem crista a partir do seu referencial oaqao"
(P. 22).

Em conseqüéncia, o autor se absterá de julgar paganismo, heresia,


misticismo. Cristianismo... Prescindirá da veracidade ou da autenticidade

444
"O MOVIMIENTO DE JESÚS"

religiosa de cada qual destas comentes, levando em conta apenas o ser hu


mano que, em sua pobreza, se exprime como pagao, como judeu, como
cristao, como he rege...

"A hermenéutica do pobre questiona igualmente a eclesiologia em


vigor" (p. 23). Reorganizar a sociedade implica reorganizar outrossim o es-
paco eclesial e deve fazer emergir o tema do sacerdocio comum dos fiéis.

Após estas premissas, o autor comeca os capítulos de sua obra histo-


riográfica, dos quais destacaremos alguns tópicos.

2. OS TEXTOS DO NOVO TESTAMENTO

O autor examina, logo de inicio, o valor histórico dos textos do No


vo Testamento, dos quais se devem depreender as etapas do Cristianismo
nascente. Neste ponto parece inseguro e contraditório. Com efeito, em
certas passagens de sua obra parece cético:

"Hoje nao vivemos mais na ilusao que tanto animava os estudiosos do


Novo Testamento uns quarenta anos atrás. Pensava-se que seria possívef
recuperar um día a ipsissima vox Jesu, ou seja, a literalidade das palavras
de Jesús, a voz de Jesús mesmo. Mas essa perspectiva de um conhecimento
da historia de Jesús 'ao pé da letra' nao existe mais. Sabemos como os tex
tos neotestamentáríos ficaram expostos á manipulacao durante longos sé-
culos antes do controle do texto impresso (século XVI) e da informática
(final do século XX) e sobretudo no período de cem anos que separa o
tempo apostólico das primeiras preocupacoes com um 'cSnone' de livros
do Novo Testamento, no final do segundo século" (p. 29).

Todavia á p. 71 o autor parece assumir outra posicao:

"Nao se pode negar que as referencias historíográfícas do evangelho


de Joao sao convincentes, sobretudo seu re/ato da PaixSo de Jesús. Mais
aínda: tratase do único texto bíblico inteiramente escrito por testemunha
ocular da vida de Jesús... Com o quarto evangelho estamos, pois, diante de
um texto que tem de ser tomado a serio historiograficamente. Disto se
concluí que o jeito é respeitar urna certa diversidade na apresentacSo his
tórica de Jesús. Nao existe urna só maneira de entender a sua historia.
Cada um a vea seu modo; uns enxergam de um jeito e outros de outro ¡ei-
to. Nao se pode excluir nenhuma leitura, nem a joanina nem a sinótica,
sob pena de nSo se dialogar de verdade com as fontes históricas de que dis
pomos".

445
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

Assim vemos que até os sinóticos sao reabilitados; diferem de Sao


Joao apenas pela modalidade do enfoque, dir-se-ia. Esta impressao se cor
robora, sedamos atencSo ao que se lé á p. 37:

"Percebemos que essas comunidades (antigás) se comunicavam entre


si e tinham o máximo cuidado em preservar a memoria de Jesús e dos
apostólos da maneira mais fiel possível, sempre dentro da mentalidade da
época, que nao Iidava com textos como nos hoje costumamos fazer. Pode
mos compreender perfeitamente o cuidado em porpor escrito as memorias,
pois o escrito é mais confíável do que a pura memoria oral e auditiva".

Apesar de reconhecer a veracidade dos textos dos Evangelhos nos


termos atrás, Hoornaert cede a conjeturas a priori e julga que passagens
importantes do texto sagrado foram manipuladas. Assim, ao considerar
a condenacao de Jesús á morte, Hoornaert quer atribuir a responsabilidade
aos romanos mais do que aos judeus; eré, porém, que os evangelistas pro-
curaram diminuir a responsabilidade de Pilatos para conquistar as simpa
tías romanas de que precisavam para sobreviven

"0 judaismo nao costumava matarseus dissidentes. Conforme Flávio


José, as autoridades judaicas só agiam com rigor no caso de revolta arma
da. A tradicao crista" sempre enfatizou o papel do judaismo na morte de
Jesús, enquanto tende a minimizar a responsabilidade de Roma. Nos rela
tos evangélicos Pilatos aparece hesitante, quase simpático. Percebe-se nis-
so urna estrategia das prímeiras geraedes cristas no sentido de conquistar
as simpatías romanas. O fato é que a pena de morte era exclusiva das auto
ridades romanas. Será que elas intuiram na postura e pregacSo de Jesús um
perigo para a 'pax romana'? De alguma forma Jesús deve ter perturbado
essa 'paz', pois as autoridades romanas fizeram tudo para ¡solar Jesús de
seus seguidores e desarticular o movimento (Wilson)" (pp. 80s).

Os preconceitos ou os a priori de Hoornaert sao tais que ele pretende


saber qual era a mensagem de Jesús antes de ser "manipulada" pelos evan
gelistas.

Assim, emvirtude de suas premissas, Hoornaert julga que Jesús deve


ter entrado em serios conflitos com as autoridades civis do seu tempo, pois
Jesús quería defender os pobres oprimidos da térra. Acontece, porém, que
os evangelistas nao referem tSo freqüentes e calorosos conflitos. Por qué?,
pergunta Hoornaert. — Porque os evangelistas escreveram em época tardia;
Mt, por exemplo, entre 80 e 100; ora nesses decenios as autoridades roma
nas vigiavam sobre os judeus e cristaos a fim de que nSo surgissem revolu
cionarios como os que moverarn a rebeliao judaica de 66 a 70 d.C; daí se
explica que Mt tenha apresentado "um Jesús humilde, pacífico, obediente
as autoridades e de forma nenhuma subversivo" (p. 85). Lucas também te-
rá abrandado o retrato de Jesús Contestatario; cf. p. 86.

446
"O MOVIMIENTO DE JESÚS" 15

Mais: a peticao do Pai Nosso relativa ao pao (Mt 6,11) era a oracao
dos primeiros missionários itinerantes, que nao tinham casa nem comida
e, por isto, pediam tais subsidios ao Pai Celeste: "a oracao (Mt 6,11) expri
me a esperanca de encontraren! urna casa, urna mesa, urna cama para pas-
sar a noite depois de um dia de peregrinacao e pregacá*o. Com o tempo
esta prece terá mudado de sentido, significando sucesivamente o pao da
mesa de familia, o pao da palavra ou da doutrina e, finalmente, o pSo eu-
can'stico (sob Pió X, 1903-1914)! — Realmente o autor se afasta da exege-
se objetiva, para ceder a urna interpretado ideológica, derivada de um
preconceito!

3. A FIGURA DE JESÚS

1. Hoornaert apresenta Jesús preponderantemente como homem.1


Faz questao de dizer que "Jesús nao é di ratamente qualificado como
Deus em nenhum dos livros do Novo Testamento a nao serem alguns tre
chos de cartas apostólicas, que, por sinal, apresentam problemas de auten-
ticidade literaria" (p. 72). Tais textos seriam: 1Tm 3,16; Tt 2,13; Rm 5,1
(?); 1 Jo 5,7-9 {?). Todavía á p. 118 o autor reconhece: "No evangelho de
Joao as coisas nao sao bem assim. Jesús se declara 'filho de Deus' "; ver
Jo 1,1s; 10,30.38; 14,9s, textos em que a Divindade de Jesús é explícita
mente professada. Além disto, na tradipao sinótica nao se podem esquecer
as passagens de Mt 11,27-29; 16,16-19; 28,18-20...

Jesús veio salvar os pobres (entendidos no sentido da pobreza mate


rial), dando im'cio a um movimento, e nao é Igreja (p. 33). "O cristianismo
elaborou urna leitura ocidentalizante e helenizada, ou seja, nao judaizante
do movimento de Jesús e foi essa leitura que nos foi transmitida desde
nossa infancia" (p. 31).

"Preferimos nao falar em igreja ao descrever os inicios, pois ai ima


ginaríamos logo um Jesús fundador. Ele teña, por assim dizer, a/icercado
o imponente edificio eciesial que se montou depois. Esse tipo depro/ecSo
nos desvia da realidade histórica" (pp. 33s).

Segundo Hoornaert, Jesús era campónos, isto é, "estava perfeitamen-


te sintonizado com o mundo rural" (p. 74). Exerceu seu ministerio segun
do duas modalidades: realizando milagres e participando da mesa das fa
milias de sua térra (comensalidade).

1 Pelo fato de que o autor se apresenta como católico (p.20), pode-se


admitir que tenha guardado a fé em Jesús Deus e Homem.

447
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

2. Milagres... Conforme Hoornaert, na"o eram "acontecimentos que


fugiam ás leis da natureza", mas "os camponeses galileus os entendiam co
mo provas de que a forca de Jesús era maior do que a dos demonios e dos
rabinos. Ora demonios e rabinos nao querem o bem do povo, mas seus
próprios interesses. Atrás da exaltacSo em torno dos milagres de Jesús os
pobres experimentavam o sentimento confortante de que alguém efetiva-
mente se interessava por eles, que eles ná*o estavam de todo abandonados
(cf. p. 81). - Assim o milagre deixa de ser enfocado como sinal teológico
propriamente dito, mas é considerado politicamente como um gesto do
amor de Jesús aos pobres, á diferenca do que faziam os rabinos.

Hoornaert atribuí um significado singular ás curas realizadas por


Jesús. Julga que, conforme os judeus, "a cura era um monopolio do Se-
nhor Deus. O recurso a um médico era freqüentemente interpretado como
falta de fé em Deus, como no caso de Asa narrado em 2Cr 16,12 (cf.
p. 77); Deus operava segundo os cañáis oficiáis (os sacerdotes e os funcio
narios do Templo); Jesús, porém, arrogava a si o direito de perdoar os
pecados e efetuar curas. "Jesús operava milagres 'por fora', inclusive sem
cobrar nada, de graca, enquanto os funcionarios do Templo cobravam por
seus servicos" (p. 77). Assim Jesús incomodava... desafiando a legitimida-
de dos sacerdotes do Templo...

Mais urna vez se percebe o preconceito... Havia em Israel quem valo-


rizasse os médicos e a medicina; por isto nao se pode dizer que o recurso
aos mesmos era, de modo geral, tido como pecaminosa falta de fé. Te-
nham-se em vista os dizeres do Eclesiástico, que datam do século II a.C.
e revelam mentalidade diversa da que supoe Hoornaert:

"Rende ao médico as honras que Ihe sao devidas, por causa de seus
servicos, porque o Senhor o criou... A ciencia do médico o faz trazer a
fronte erguida, ele é admirado pelos grandes... Dá lugar ao médico, porque
o Senhor também o criou; nao o afastes de ti, porque dele tens necessida-
de"(Eclo38,1.3.12s).

Na verdade, Jesús nao foi um curandeiro extra-oficial. Ele curava os


corpos sempre em sinal (semeion) de sua obra redentora; veio trazer aos
homens a verdadeira vida ou a filiacSo divina e, para testemunhá-lo, dava a
saúde corporal, símbolo da restauracSo do homem e da sua vocacko para
a plenitude da Vida.

3. Comensalidade... Jesús se sentava á mesa com publícanos e prosti


tutas; tomava-se, por assim dizer, cúmplice com os seus comensais. Nao
era o pregador com ar de asceta distante, mas o companheiro, o colega,
o amigo (cf. p.78). "A partí I ha do pao com pecadores e pobres fazia parte

448
"O MOVIMENTO DE JESÚS" 17

das práticas transgressoras de Jesús. Com isso ele vivia desafiando as for
malidades do comportamento social;tornava-se igual a todos os que se
sentavam com ele á mesa" (p. 79). - Eis outra inlerpretacao unilateral ou
sociológica e política do comportamento de Jesús.

Ainda a respeito de Jesús chama-nos a atencao urna estranha afirma-


gao de Hoornaert:

"O Evangelho nao constituí urna novidade absoluta; é antes urna radi-
calizacao dos ensinamentos contidos tanto na Tora escrita (Biblia) como
na Tora oral, ou se/a, ñas doutrinas rabinicas" (p. 92).

Pode-se, de fato, reconhecer que o Evangelho é a plenitude da Lei


e da Revelacao do Antigo Testamento. Por conseguinte, tem seus ecos an-
tecipados na Tora de Israel; a preocupacao com os pobres já existia no
Talmud. Todavía o que o Evangelho possui de mais ti'pico nao é a preocu
pacao com os pobres; esta é urna decorréncia (necessária, sem dúvida) de
algo ainda maior; sim, Jesús nos revelou o misterio de Deus (Pai, Filho e
Espirito Santo) e a vocacao do homem a ver Deus face-a-face,... vocacSo
que já comeca na térra pela comunhao com a vida trinitaria na grapa san
tificante; o homem é chamado a filiacao divina e, por isto, deve tender a
ser perfeito como o Pai Celeste é perfeito, Ele que dá a chuva e o sol aos
bons e aos maus (cf. Mt 5,44-48); o cristSo ama os pobres prolongando
o amor de Deus a todos os homens,... "amor derramado em nossos cora-
coes pelo Espirito Santo, que nos foi dado" (Rm 5,5).

O Evangelho é, portanto, algo de inédito na historia do pensamento


religioso, como lembra Sao Paulo:

"Quando ainda éramos fráeos, Cristo, no tempo marcado, morreu pe


los impíos. Difícilmente alguém dá a vida por um justo; por um homem de
bem talvez haja alguém que se disponha a morrer" (Rm 5,6-8; cf. Uo 4,
10.19).

4. ULTERIORES CONSIDERACOES

Outros traeos destoantes ainda podem ser apontados na obra de


Hoornaert:

1) O Apocalipse de Sao Joao é tido como o livro do clamor dos po


bres oprimidos pelo Imperio Romano. Por isto as autoridades da Igreja
terao hesitado sobre a conveniencia de o incluir no catálogo dos livros sa
grados (cf. p. 113). — Ora o Apocalipse é, antes do mais, o livro da conso-

449
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

Iac3o dirigida a cristSos perseguidos por causa da sua fé; o enfoque do au


tor sagrado é, antes do mais, religioso; nao há dúvida, os primeiros cristSos
se recrutavam entre as classes pobres (cf. 1Cor 1,26-29); todavia o que mo-
tivava a perseguicao contra eles, era o fato de que o Imperio Romano os
julgava ateus (... ateus porque nao adoravam os deuses do Imperio e o pró-
prío Imperador). As hesitacoes sobre a canonicidade do Apocalipse nao
eram de ordem política, mas de ordem teológica: o capítulo 20 do livro
sugería o milenarismo (ou um reino milenar de Cristo sobre a Térra), dou-
trina controvertida nos primeiros séculos.

2) A p. 144 Hoornaert afirma: "Foi Paulo que abriu a porta do Cris


tianismo aos pagaos". - Nao se pode esquecer, poném, que foi Pedro
quem recebeu o primeiro pagao na Igreja. Movido por revelacao divina,
Pedro deu o inicio á acolhida dos pagaos, sem Ihes impor a circuncisao,
como have ría de fazer mais tarde Sao Paulo.

3) Ao tratar da origem do Evangelho segundo Marcos, o autor imagi


na que "Marcos fez urna pesquisa... na Galiléia, uns trinta anos após os
acontecímentos, e conseguiu ouvir aínda testemunhas oculares. Mas o tex
to nao é puro relato de um pesquisador; nele há muito trabalho de comu
nidades" (p. 36). — O autor poderla ter levado em conta a tese de J.
O'Callaghan (ainda discutida, mas bem fundamentada) segundo a qual o
Evangelho de Marcos comecou a ser redigido antes de 50, visto que
em Qumran, a N.O. do Mar Marto, se encontrou um fragmento de papiro
que parece reproduzir Me 6,52s. De resto, o Evangelho de Marcos tem ca
racterísticas de antigüidade, dado que é o mais tosco e rude, tornándose
por vezes urna cruz para os intérpretes. Ver PR 354/1991, pp. 482-494.

4) Em suma, toda a obra de Hoornaert é concebida em perspectiva de


luta de classes e de rival¡dade — o que impede urna visao objetiva da rea-
lidade.

5. REFLEXAO FINAL

Hoornaert quis escrever a historia segundo a ótica dos pobres, em


oposicá*o á historiografía cultivada segundo a ótica dos ricos e poderosos.
Na verdade, tanto urna como outra perspectiva falseiam os fatos e incor-
rem em ideología. Quem percorre o livro de Hoornaert, percebe tomadas
de posicao toreadas ou artificiáis; deixam dé levar em conta certos dados
que a ciencia exegética objetiva ou neutra propSe como dignos de consi-
deraca*o. Ademáis é impossível encarar cornetamente Jesús Cristo e o Evan
gelho sem ponderar os dados da fé. Chama a atencá*o especialmente a rápi
da propagacao do Cristianismo, que apregoava um Messias morto na Cruz
e ressuscitado, portador de urna Ética exigente e contraria aos costumes vi-

450
"OMOVIMENTODEJESUS" 19

gentes no Imperio Romano; tao rápida propagado, á revelia da persegui-


pSo que se estendeu até 313, nSo pode ter sido simplesmente fruto de um
entusiasmo de índole sócio-político-econdmica. O ser humano nSo é sim
plesmente um vívente que procura pSo e saúde; ele traz grandes ¡nterroga-
coes em seu coracao: De onde venho? Para onde vou? Que haverá depois
da morte? Em suma:... qual o sentido da vida? Ora o Cristianismo respon
día a essas indagacSes, preenchendo os anseios do ser humano; foi isto que
Ihe valeu a vítória sobre a perseguípao. Jesús predisse aos seus discípulos
tribulacao e dureza (exigiu mesmo que tomassem a sua Cruz e o seguis-
sem); se nSo fosse a certeza de que essa caminhada levava á vitória sobre a
morte, os homens n§o teriam aceito a mensagem do Evangelho. Dizia Ter
tuliano (t220): "Anima humana naturaliter christiana. — A alma humana
é naturalmente crista"'; nSo porque o Cristianismo conteste sem mais os
ricos e desperté os pobres para a revolucao, mas porque o Evangelho toca
as mais íntimas fibras da alma humana, que sao as concernentes ao sentido
da vida, do sofrimento e da morte. Quem privilegia os interesses meramen
te materiais ou corpóreos do homem, nao entendeu o misterio da pessoa
humana. Em conseqüéncia, escrever a historia dentro de tal perspectiva
implica nao entender devidamente os fatos pretéritos.

Em suma: nao seria lícito depreciar a ordem social justa e o empenho


do cristao em prol da mesma. Mas importa nao reduzir o Cristianismo sim
plesmente a urna mensagem de ordem temporal ou a urna convocacao para
a militáncia política. Antes do mais, o Cristianismo revela ao homem o seu
destino transcendental e chama-o a procurar instaurar neste mundo os
principios do Reino de Deus, que só estará consumado após o término da
historia presente.

A fim de corroborar as reflexóes atrás propostas, seguem-se tres teste-


munhos da Igreja antiga; mostram a maneira como os homens dos primei-
ros séculos encaravam o Cristianismo e por que a ele aderiam..

* * *

APÉNDICE

1. SAO JUSTINO, FILÓSOFO E MÁRTIR


(i 165 APROXIMADAMENTE)

Justino nasceu de familia paga helenista, que residía em Flávia Neá-


polis (Naplousa) na Palestina. Desde cedo foi movido pelo desejo de des-
cobrir a Verdade. Por isto bateu á porta de quatro escolas de filosofía (sa-
bedoria), como a estoica, a peripatética (aristotélica), a pitagórica e a
platónica... Finalmente, quando passeava á beira-mar em Éfeso, foi abor-

451
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"389/1994

dado por um anciao, que I he falou dos Profetas e das Escrituras Sagradas,
voltando a sua atencao para o Cristianismo. Justino resolveu entao abra
car a fé e o Evangelho como sendo a súmula de toda a sabedoria (daí
dizer-se filósofo por toda a sua vida).

O caso de Justino nao é único na literatura crista antiga. Oferece um


válido espécimen do significado que o Cristianismo tinha para os homens
do Imperio Romano. O texto que se segué, narrando a conversao de Justi
no, é extraído do inicio do séu "Diálogo com Trifao".

"Inicialmente, desejando muito entrar em contato com um destes fi


lósofos, fui ter com um estoico. Permanecí junto dele por longo tempo,
mas nada aprendi a respeito de Deus. Alias, nem ele sabia alguma coisa,
nem julgava necessária essa ciencia. Abandonei-o, portanto, e dirigi-me a
outro, que diziam ser peripatético. Este achava-se a si mesmo sutilíssimo.
Suportou-me os primeiros dias, mas depois pediu que determinasse o seu
salario, para que o nosso convivio nao fosse infruti'fero... Ora, por este
motivo abandonei-o também, certo de que ele nao podia ser filósofo...
Com a alma ainda repleta do desejo de ouvir o que é peculiar e ¡nteressan-
te na filosofía, procurei um pitagórico, que gozava de grande estima. Este
homem muito se vangloriava de sua sabedoria. Quando tratei com ele, para
tornar-me seu ouvinte e pensionista, perguntou-me:

— Mas como? Já estudaste música, astronomía e geometría? Acaso


pensas perceber algo das coisas que conduzem á felícidade, sem teres apren
dido antes o que desprende a alma das coisas sensíveis e a toma apta a per
ceber os objetos inteligíveis, a contemplar o próprio Belo e o próprio
Bem?

E assim, louvando sempre essas ciencias e dizendo-as muito necessá-


rias, despediu-me, depois de eu ter confessado ¡gnorá-las. Como era natu
ral, fiquei aborrecido por ver frustrada a minha esperanca, sobretudo por
que julgava que ele sabia alguma coisa. Considerando por outro lado o
tempo que iría despender com tais estudos, ná"o suportava a idéia da longa
demora a que me tinha de submeter. Em tal dificuldade pareceu-me bom
procurar os platónicos, que também gozavam de considerável reputacSo.
Comecei a freqüentar assiduamente um sabio que se mudara, havia pouco,
para a nossa cidade e que era um dos platónicos mais em vista. Fiz pro-
gressos, e cada dia adquiría novos conhecimentos. Entusiasmava-me sobre-
maneira com o conhecimento das coisas incorpóreas, e a contemplacao das
idéias dava asas a meu pensamento. Julgava ter-me tomado sabio em tao
pouco tempo, e esperava em breve ver o próprio Deus — pois tal é o fim
da filosofía platónica.

452
"O MOVIMENTO DE JESÚS" 21

Com tais disposicoes de espirito, querendo cercar-me de completa so-


lidao e escapar até aos rastros dos homens, dirigi-me para urna localidade
ná"o lónge do mar. Quando cheguei perto do lugar onde ¡ria ficar a sos co-
migo mesmo, um anciao de aparéncia respeitáyel p&s-se a seguir-me a pe-
quena distancia. Seu aspecto era calmo e imponente. Voltei-me e, parado,
encarei-o com firmeza. Ele entao perguntou:

— Conheces-me?

Neguei.

— EntSo por que me olhas assim?

— Admiro que tenhas conseguido chegar ao mesrñolügar que eu.


Nao esperava ver um homem por estas bandas.

— Estou preocupado, disse ele, com os meus; afastaram-se de mim, e


por isso estou á procura, para ver se nao aparecem por aqui. E tu, que
queres neste lugar?

— Gosto deste género de distracoes, onde, nao havendo nada que per
turbe, posso á vontade conversar comigo mesmo. Este lugar aqui facilita
muito minha 'filología'.

— 'Filología?' replícou. Es entao amigo só de palavras, e nao das


acoes e da verdade? E nem procuras ao menos ser pragmático em vez de
sofista?

— Que obra melhor poderá alguém empreender, disse eu, do que


mostrar que a razao tudo domina? ... abracá-la, e elevado por ela, contem
plar os erras e as ocupacoes dos outros, e ver como nada fazem que seja
verdaderamente sao ou agradável a Deus? Sem a filosofía e sem a reta
razao é ¡mpossi'vel achar em alguém a prudencia. Por isso <convém que to
dos os homens se déem ao estudo da fi losofia. Esta ocupacüo nao deve ser co
locada em segundo e terceiro lugar. As coisas que permanecem na depen
dencia da filosofía sao comedidas e dignas de ser aceitas, porém as que nao
a seguem, ou sSo privadas do seu auxilio, tomam-se pesadas e grosseiras
para os que as tém de tratar.

— Entao a filosofía conduz á felicidade? perguntou ele.

— Certamente, respondí, e ela só!

— Mas que é filosofía? e qual a felicidade que pode dar? Se nada te


proibe dizé-lo, dize-o!

453
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

— Filosofía, disse eu, é ciencia do ser e conhecimento da verdade. E


isso mesmo constituí a felicidade, o premio da sabedoria.

— E o que é que chamas Deus? perguntou.

— Aquilo que sempre é o mesmo e se comporta da mesma maneira,


e é a causa da existencia dos outros seres: a isto chamo Deus".

Mais adiante continuou o anciao:

"Existíram, muito antes de todos estes que se dizem filósofos, uns


homens felizes e justos, aos quais Deus amava. Falaram movidos pelo Es
pirito divino, e predisseram acontecímentos futuros que agora se realiza-
ram. Nos os chamamos Profetas. Eles foram os únicos a contemplar a ver
dade e anunciá-la aos homens. Ninguém os fazia temer, ninguém os con
fundía. Nunca foram vencidos pela ambicao. Limitavam-se a dizer o que
haviam visto e ouvído, cheios do Espirito Santo. Os seus escritos foram
conservados até hoje, e quem os consulta aprende muito no que diz res-
peito aos principios, aos termos e a todas as outras questoes que um filó
sofo tem de tratar, mas desde que creía neles. Quandofalavam, nao faziam
uso de demonstracSo filosófica, pois na qualidade de testemunhas fidedig
nas da Verdade estavam ácima de toda demonstracao. Porém os fatos que
aconteceram e continuam a acontecer obrigam-nos a acreditar no que dís-
seram, aínda que disso fossem dignos já pelos milagres que realizaram, e
porque davam gloria ao Deus, Pai e Criador de todas as coisas, anuncian
do aos homens o Cristo, seu Filho e enviado. Milagres tais nunca fizeram
nem nao de fazer os falsos profetas, cheios de espirito da mentira e da
imundicie, se bem que ousem produzir alguns fenómenos prodigiosos para
aterrar os homens, e glorificar os espirítos do mal e os demonios.

Tu, porém, antes de tudo, pede que te sejam abertas as portas da luz,
porque só pode perceber e compreender estas coisas aquele a quem Deus
e seu Cristo concederam a inteligencia.

Depois de me ter dito todas estas coisas e aínda muitas outras que
nao posso repetir por faltar-me tempo, deixou-me o anciao, recomendan
do que contínuasse por mim mesmo a pensar sobre o assunto. Nunca mais
o vi, mas logo se acendeu um fogo em minha alma, penetrou-me um gran
de entusiasmo pelos Profetas, e pelos homens que sa*o amigos de Cristo.
Refletindo comigo mesmo sobre as palavras do anciao, acabei achando que
eram a única filosofía segura e conveniente. Assim, posso dizer que por
causa desta filosofía também eu sou filósofo. Quisera que todos os ho
mens, tomados do mesmo entusiasmo que eu, nao se apartassem dos ensi-
namentos do Salvador. Suas palavras sá*o fortes e temiveis, capazes de per-

454
"O MOVIMENTO DE JESÚS" 23

suadir os que andam desviados do caminho reto; e contudo um suave des


canso para os que as meditam. Se portanto te interessa tua própria pessoa,
e desejas a salvacao, já que tens fé em Deus e n3o és completamente um
estranho, podes alcancar a felicidade, desde que recon ñecas a Cristo e sejas
iniciado."

2. ATENÁGORAS, O "FILÓSOFO CRISTÁO DE ATENAS"


(t 180 APROXIMADAMENTE)

É um apologista da fé crista, autor da "Súplica em favor dos cris


taos", dirigida, em 177 aproximadamente, ao Imperador Marco Aurelio e
a seu filho Cómodo; defende os cristaos contra tres acusacoes: ateísmo,
antropofagia (banquetes de Tiestes) e incesto, e p5e em relevo a dignidade
de vida dos cristaos, atraídos pelo misterio de Deus revelado pelo Verbo:

"Lancaram-nos tres acusacQes: ateísmo, banquetes de Tiestes, inces


tos de Édipo. Se isso é verdade, se existe entre nos quem viva como ani
máis, entao nao poupeis a ninguém, puni radicalmente esses crimes, con-
denai-nos á morte com nossas mulheres e filhos, destruí nos totalmente.
Alias, os próprios animáis nao vivem assim, nao atacam seus congéneres,
copuiam conforme a lei da natureza e só no tempo de procriar, sem licen-
ciosidade; eles reconhecem, inclusive, os que os ajudam. Se pois existe al-
guém mais selvagem que os animáis, qual será o castigo proporcionável a
tais crimes?

Se, pelo contrario, nao há nisso mais que fabulacoes e vas calúnias —
naturalmente o mal se opoe á virtude e a lei divina faz que os opostos se
guerreiem — certos de que nao somos culpados de nenhum desses crimes,
mandareis, nSo que os confessemos, mas que se vos faca um inquérito so
bre nossa vida, nossas opiniSes, nosso zelo, nossa obediencia para convos-
co, para com vossa casa e vosso imperio; agindo assim, nao nos estaréis
concedendo algo mais que a nossos perseguidores, aos quais venceremos
dando, sem hesitacao, nossas próprias vidas em favor da verdade.

Nos nSo somos ateus. Reconhecemos a existencias de um único


Deus, incriado, eterno, invisível, impassível, incompreensível ... Ora,
se nao créssemos num Deus ácima do género humano, poderíamos le
var urna vida tao pura? Nao sería possívei. É na persuasSo de que de nossa
vida presente haveremos de prestar contas ao Deus nosso Criador e Criador
do mundo que optamos por urna vida moderada, caritativa e desprezada,
crendo nSo ser possívei sofrer mal algum (mesmo se nos tirassem a vida),
comparável á recompensa que receberemos do grande Juiz, por urna vida

455
24 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

humilde, cariciosa e boa. Platao dizia certamente que Minóse Radamanto


tinham que julgar e castigar os maus; porém nos dizemos que nem Minos
nem Radamanto nem o pai deles escaparlo ao jui'zo de Deus. Vemos alias
serem tidos por piedosos os que adotam como conceito de vida o 'coma
mos e bebamos porque amanha morreremos'' e que consideram a morte
um sonó profundo; nos, ao contrario, temos a vida presente como de curta
duracao e de pequeña estima, comovendo-nos pelo desejo de chegar a co-
nhecer o verdadeiro Deus e o Verbo que está nele, qual a comunhao que
há entre o Pai e o Filho, o que seja o Espi'rito, qual seja a unidade de tío
grandes realidades e a distincao entre os assim unidos, o Espi'rito, o Filho
e o Pai; sabemos que a vida que esperamos é superior a tudo quanto se
possa expressar por palavras, desde que possamos chegar a ela puros de
toda iniqüidade, desde que amemos extremosamente a nossos amigos —
conforme diz a Escritura: 'se amáis aos que vos amam e retribui's aos que
vos fazem bem que recompensa esperáis?'2. Pois bem, nao haveremos de
ser prezados como religiosos os que assim somos e vivemos tal tipo de vi
da, receosos de urna condenacao?...

Tendo a esperanca da vida eterna, subestimamos as coisas da vida pre


sente e mesmo os prazeres do espirito: cada um de nos tem por mulher a
que desposou segundo as leis que já estabelecemos, e com a finalidadeda
procriapao... É fácil mesmo achar entre nos muitos homens e mulheres que
chegaram cel¡bátanos até a velhice, na esperanca de alcancarem urna inti-
midade maior com Deus".

3. EPÍSTOLA A DIOGNETO (SÉCULO III)

Eis urna carta de autor desconhecido do século III, que louva a beleza
da vida crista; esta, inserida neste mundo e compartilhando o que a socie-
dade tem de honesto, ná*o perde de vista os valores definitivos:

"Os cristaos nao diferem dos demais homens pela térra, pela língua,
ou pelos costumes. N3o habitam cidades próprias, nao se distinguem por
idiomas estranhos, nao levam vida extraordinaria. Alémdisso, suadoutrina,
nSo a encontraram em pensamento ou cogitacao de homens desorientados.
Também nao patrocinam, como fazem alguns, dogmas humanos. Mas, ha
bitando, conforme a sorte de cada um, cidades gregas e bárbaras, é acom-
panhando os usos locáis em materia de roupa, alimentacao e costumes,
que manifestam a admirável natureza de sua vida, a qual todos reputam
extraordinaria.

1 /s 22, 13.
2 Mt5,46.

456
"O MOVIMENTO DE JESÚS" 25

Habitam suas patrias, mas como estrangeiros. Participam de tudo


como cidadaos, mas tudo suportam como estrangeiros. Qualquer térra es-
tranha é patria para eles; qualquer patria, térra estranha. Casam-se e pro-
criam, mas nunca lancam fora o que geraram. Tém a mesa em comum, nao
o leito. Existindo na carne, nao vivem segundo a carne. Na térra vivem,
participando da cidadania do céu. Obedecem ás leis, mas as ultrapassarrí
em sua vida. Amam a todos, sendo por todos perseguidos. Desconhecidos,
sao assim mesmo condenados. Mas quando entregues á morte, sao vivifica
dos. Na pobreza, enriquecem a muitos; desprovidos de tudo, sobram-lhes
os bens. Sao desprezados, mas no meio das desonras sentem-se glorifica
dos. Difamados, mas justos; ultrajados, mas benditos. Injuriados, prestam
honra. Fazendo o bem, sao punidos como malfeitores; castigados, rejubi-
lam-se como revivificados. Os judeus hostilizam-nos como alienígenas, os
gregos os perseguem, mas nenhum de seus inimigos pode dizera causa de
seu odio.

Para resumir numa palavra, o que é a alma no corpo, sao os cristaos


no mundo: como por todos os membros do corpo está difundida a alma,
assim os cristaos por todas as cidades do universo. Habita a alma no corpo'
mas nao procede do corpo; assim os cristaos habitam no mundo, mas nao
sao do mundo. A alma invisi'vel é enclausurada num corpo visível; os cris
taos, conhecidos enquanto estao no mundo, tém urna religiao que perma
nece ¡nvisível. A carne odeia a alma sem ter recebido injuria, mas apenas
porque nao a deixa gozar os prazeres; aos cristaos odeia o mundo sem ter
sido injuriado por eles e so porque renunciam aos prazeres. A alma ama o
corpo e os membros que a odeiam; também os cristaos amam os que os
odeiam.

A alma está encerrada no corpo, mas é ela que o sustenta. Os cristaos,


por sua vez, estao encerrados no mundo como num cárcere; mas s5o eles
que o sustentam. A alma habita um tabernáculo mortal. Os cristaos pere-
grinam através de bens corruptíveis, na expectativa da celeste incorrupti-
bilidade.

Maltratada quanto a alimentos e bebidas, a alma se aperfeicoa; tam


bém os cristaos, afligidos por castigo, cada día mais aumentam em núme
ro. Deus colocou-os num posto tal que ná*o Ihes é lícito desertar.

Nao foi, como já disse, ¡nvencao terrestre o que se Ihes transmitiu;


nem julgam ter sob sua vigilante guarda urna concepcao mortal. Nao Ihes
foi confiada a dispensacSo de misterios humanos.

Mas foi o próprio Deus invisível, verdaderamente Senhor e Criador


de tudo, que do alto dos céus colocou entre os homens a Verdade, o Lo-
gos santo e incompreensível, e o inseriu firmemente nos seus coracSes".

457
Aínda o aborto:

'O DIREITO CONTRA O DIREITO'

D. Antonio Afonso de Miranda

Vai, a seguir, transcrito um artigo de D. Antonio Afonso de Miranda,


Bispo.de Taubaté (SP), sobre o aborto,... artigo publicado originariamente
no jorfeal O LUTADOR, edicao de 19 a 25 de junho de 1994, p.8. Agrade
cemos ao autor as valiosas ponderac5es que apresenta, como também ao
Pe. Paschoal Rangel a permissao para transcrever essa interessante página
de seu jornal.

Em síntese, o articulista afirma que a legalizacao do aborto no Brasil


feriria a Lei Maior ou a Constituicao da Nacao, pois esta garante "a invio-
labilidade do direito á vida" (art. 5, caput) e proibe "tortura, tratamento
desumano e degradante" contra quem quer que seja (artigo 5, item III).
Ora o aborto é morticinio, e morticinio mediante tortura infligida á enan
ca inocente. Mais: O Código Civil Brasileiro, em seu artigo 4, afirma que
"a lei poe a salvo desde a concepeáo os direitos do nascituro".

Donde se segué que a legalizacao do aborto tentaría criar um direito


(falso) contra o DIREITO.

Eis o texto em foco:

Quero voltar a teceralguns considerandos sobre a questao do aborto,


ou melhor, sobre os projetos de lei que buscam isentá-lo de penalidade.

Nao é, entretanto, por motivo religioso ou simplesmente moral, da


Moral que se funda nos mandamentos de Deus, que vou agora expor os
meus comentarios, muito embora esta motivacao primeira deva ser especí
ficamente a de um Pastor.

Acredito, porém, que motivos religiosos e moráis, lastimavelmente,


nSo infíuirSo nos nossos legisladores para a rejeicao dos projetos abortis
tas. Infelizmente, há nos bastidores da política urna quase total desconsi-
deracSo aos principios e motivacoes religiosas. Porisso também, menosca-

458
"O DIREITO CONTRA O DIREITO" 27

so por principios moráis. Salvam-se poucos Deputados e Senadores, mes-


mo quando se dizem católicos, que tém coragem de antepor os motivos de
sua fé crista a outros motivos, na hora de votar nossas leis.

Assim sendo, prefiro que meus considerandos contrarios ao aborto


nao estejam agora na linha religiosa, e sim na linha jurídica, em que ¡á me
posicionei outras vezes.

Afirmo que votar os profetos abortistas em curso no Congresso será


colocar o direito contra o Direito. Será gerar, através de urna lei menor,
um direito absolutamente contrario á Lei Maior, que é a "Constituigao".
Entendo mesmo que os projetos abortistas em circulagao, sem mudanca
substancial na Lei Magna (mudanca ¡nviável quanto ao direito fundamen
tal á vida), serio argüíveis de inconstituciona/idade.

£ que, para modificaren) substancia/mente a Constituigao, os legisla


dores, que nSo sio "constituintes", exorbitam de seus poderes. Por isso
mesmo, a lei abortista que votarem será susceptível de declaragao de
inconstitucionalidade.

A lei abortista encerrará dois enormes disparates anti-constitucionais:

1. Disporá contra a "inviolabilidade do direito á vida", consagrado no


Artigo 5, "caput", da Constituicao da República.

2. Permitirá, necessariamente, a "tortura" e "tratamento desumanoe


degradante"contra um cidadao ¡nocente, o que é proibido no inciso III do
mesmo Artigo 5 da Constituigao.

Citemos estes textos e fagamos deles a razoável hermenéutica.

Artigo 5. "Todos sao iguais perante a leí, sem distinqao de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País
inviolabilidade do direito á vida, á liberdade, á igualdade, á seguranza e á
propriedade."

E no item III do mesmo Artigo, explicita-se:

"III - Ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desuma-


no e degradante."

É lei constitucional, lei maior, e dispoe de direito natural, fundamen


tal. Direito desta natureza deve ser interpretado estritamente segundo as

459
28 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

melhores regras da jurisprudencia. Isto é, direito desta natureza é exigen


cia que nSo se pode desfazerpor outra lei.

Vejamos a que nos deve levar esta interpretacao estrita. "Todos sao
iguais perante a lei", isto é, nio se pode estabelecer diferencas entre pes-
soa feita, completa, nascida do seio materno, e pessoa em formacao, aínda
embrionaria, mas nascitura. Por isso, assiste a todo e qualquer embriSo a
"inviolabilidade do direito á vida".

A interpretacao nao é minha. é de NELSON HUNGRÍA, grande ju


rista, a maior autorídade em direito penal...

Mais aínda. Esta interpretacao é do próprío Código Civil Brasileiro,


que reza em seu Artigo 4:

"A personalidade civil do homem comepa do nascimento com vida;


mas a lei poe a salvo desde a conceppao os direitos do nascituro."

Este é o Direito. Com D maiúsculo. Qualquer leizinha, que queira


revogar tais dispositivos, deve denominarse direito (com d minúsculo)
contra o Direito.

E prossigamos. Quando o Ítem III do Artigo 5 da Constituigao dis-


poe: "Ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou
degradante", ai"está explícito "ninguém", portanto, nem o embriao, que é
pessoa, nao bicho. E cidadao brasileiro "nascituro", conforme o Artigo 4
do Código Civil Brasileiro.

• Autorizar que se provoque seu abortamento é autorizar que se prati-


que contra ele "tortura" e "tratamento desumano e degradante". Porque
o aborto se pratica porum dos processos seguintes: ou o bebé é arrancado
aos pedacinhos pelo bisturí do médico, que o corta em pedacos no útero
da mié; ou é esmiga/hado seu pequenino cránio para que morra; ou o mé
dico o retira vivo, para que morra fora, já que embriao só poderá viver no
útero; ou se /he injeta urna so/ucao salina na bolsa em que se aninha, e o
bebé morre cauterizado.

Qualquer destes processos é "tortura", é "tratamento desumano e de


gradante", ninguém o pode negar, a nSo ser que se/a urna besta sem alma.
0 médico ou parteira, ou mesmo a mSe, que pratique tais atos, é "tortu-
rador".

Isto é ou nSo é críme? Está explícitamente vetado, como vimos, no


ítem III do Artigo 5 da Lei Maior.

460
"O DIREITO CONTRA O DIREITO" 29

Entao: as let's que aítém livre tránsito no Congresso, defendidas pelo


PT e por outras siglas partidarias, querem criar um novo direito contra o
direito. Criar um dimito de tortura, de tratamento desumano contra o ci-
dadaozinho brasileiro nascituro é contrapor um direito estúpido ao Direito
humano fundamental.

Pergunto agora se a inteligencia dos demais Deputados e Senadores


vai ter coragem de votar o direito (com d minúsculo) contra o Direito
(com D maiúsculo).

Se isto acontecer, será preciso rasgar a Constituicao e o Código Civil e


jogar os pedacos na cara deles. Ou entao enfiar-lhes um cabresto e mánda
los para o pasto a comer capim.

Para nos pouparmos a este deslise cívico, é melhor nao reeleger, ñas
próximas eleicoes, Senadores e Deputados abortistas. Porque e/es querem
criar neste País o direito contra o Direito. Querem criar o direito depráti-
ca de "tortura" e "tratamento desumano e degradante"proibido na Cons
tituicao.

Desafio a que me provem o contrario. Convencam-me, por favor.

Após a leitura deste artigo, só podemos pedir a Deus que toque o


bom senso e o ánimo de nossos legisladores, a fim de que nao introduzam
tao flagrante aberrado em nosso país.

* * *

Nova Era e Fé Crista, por Joao Carlos Almeida (Pe. JoaozinhoSCJ).


Colegio "Cadernos Loyola". - Ed. Loyola, Sao Paulo, 1994, 120 x 160
mm, 151 pp.

Aos 28/5/1993, o S. Padre Joao Paulo II dirigiu aos Bispos norte


americanos urna alocucao relativa ao movimento New Age (Nova Era), ca
racterizando essa corrente como sendo baseda em espirítualidade oriental
(com a nocSo de reencarnacao), técnicas psicológicas, conceito panteísta
de Deus..., em suma, como algo de incompatível com o Cristianismo. - O
Pe. Joao Carlos houve por bem comentar e explicitar o pensamento do S.
Padre, alertando os católicos do Brasil para a Nova Era, que se insinúa
através de escritos, conferencias, imagens, símbolos...

Após o capítulo 20 do livro, encontrase o texto de urna Carta Pastoral


do Cardeal Danneels, de Bruxelas: sintetiza os principáis traeos doutriná-
rios da Nova Era, valendo-se de boa documentacao. As última páginas do
livro apresentam farta bibliografía, que facilita ao leitor continuar seus es-
tudos. A obra é altamente recomendável e merece os melhores aplausos
para o seu autor.

461
Eloqüentes testemunhos:

DUAS MULHERES HEROICAS

Em síntese: Vio, a seguir, apresentadas duas figuras femininas — Eli


sabetta Canon Mora e Pauline-Elisabeth Leseur —, que, por sua fidelidade
a Deus e á sua vida conjugal, conseguirán), depois de falecidas, impressio-
nar os respectivos maridos incrédulos, tevando-os a sincera e profunda
conversao. — Sao testemunhas do valor de urna vida reta e perseverante em
meio ás dificuldades cotidianas; na Comunhao dos Santos o comportamen-
to de um auténtico cristao ganha extraordinaria fecundidade espiritual.
* * *

1. ELISABETTA CANORI MORA (1774-1825)

Aos 24/04/1994, o Santo Padre beatificou (declarou "Bem-aventura


da", passo ¡mediatamente anterior á Canonizacao) duas mulheres heroi
cas: urna délas — Gianna Beretta Molla — faleceu em 1962 por nao querer
matar a enanca que estava em seu seio grávido, aínda que, por causa disto,
tivesse que sacrificar a própria vida; a sua figura já foi apresentada em
PR 374/1993, pp. 311-317. A outra mulher heroica é Elisabetta Canori
Mora, que se distinguiu por sua fidelidade incondicional ao compromisso
matrimonial, embora seu marido a traisse; após a sua morte (1834), o vid-
vo se converteu e tomou-se frade franciscano conventual.

Esta segunda figura feminina merece destaque em nossas páginas.

Elisabetta nasceu na cidade de Roma em 1774, de familia aristocrá


tica. Foi educada no Colegio das IrmSs Agostinianas de Cascia (1785-
1788). Com 22 anos de idade, casou-se com Cristoforo Mora, filho de um
dos melñores médicos de Roma em seu tempo. Nao decorrera um ano des
de o enlace matrimonial e Elisabetta descobriu que seu marido entretinha
urna relacSo extra-conjugal; era dado ao jogo, ás especulacoes financeiras
e macom declarado. Por isto pouco se ¡mportava com a esposa e as filhas,
que nasceram do convivio com Elisabetta.

A esposa tudo fez para reconduzir o marido ao bom caminho. Pos de


lado até mesmo seu garbo, dando-lhe quatro filhas (das quais duas mor-
reram em tenra idade), sem jamáis Ihe lancar em rosto o seu comporta-

462
DUAS MULHERES HEROICAS 31

mentó desleal ou Ihe censurar a voluntaria imaturidade. A fim de garantir


a educacSo das meninas, Elisabetta assumiu trabalhos duros e humildes.
Certa vez foi intimada a pagar as dividas do marido, a fim de evitar que
fosse preso; n3o se revoltou, mas vendeu o mobiliario de sua casa e se
transferiu de urna residencia confortável para um pequeño apartamento.
Nos anos mais difíceis e sofridos da sua vida, Elisabetta encontrou
forcas na oracao e nos conselhos sabios que Ihe deram o Pe. Pizza, jesuí
ta, e o Pe. Femando San Luigi, Religioso trinitario, tido como um dos
mais experimentados diretores espirituais do seu tempo.
Em 1807 Elisabetta entróu para a Ordem Terceira Trinitaria1; en-
carregou-se entao do atendimento aos mais necessitados — doentes, po
bres, casáis em crise...; fazia-o com plena generosidade, continuando a doa-
cao que havia anteriormente prestado ás suas filhas. A sua modesta resi
dencia tornou-se em breve um lugar de oracao e acolhimento. Finalmente
morreu em 1825, deixando eloqüente testemunho de fidelidade conjugal
e de amor ao próximo.

Após a morte da esposa, o marido sentiu-se tocado pelo depoimento


de vida de Elisabetta e converteu-se de sua conduta devassa a um compor-
tamento de bom cristao, chegando a tornar-se frade franciscano conven
tual em 1834.

Após o devido exame dos documentos relativos a Elisabetta, o S. Pa


dre houve por bem apresentar essa heroica muiher ao povo de Deus como
modelo para tantas outras esposas infelizes em seu casamento. Pelo sacra
mento do matrimonio os nubentes se comprometem a promover nao ape
nas o bem temporal do(a) respectivo(a) consorte, mas também a santifica-
c§o do(a) mesmo(a); foi o que Elisabetta procurou fazer, por mais ardua
que fosse a tarefa ou mesmo sabendo-se traída por seu marido. E ela con-
seguiu o que almejara, pois a consideracao de tanta firmeza e magnanimi-
dade acabou convencendo o viúvo de que devia mudar de vida e reparar
suas faltas; Elisabetta Ihe obtivera a maior das grapas, que era a da con-
versao.

Caso semelhante se deu em nosso século, como se dirá abaixo.

2. PAULINE-ELISABETH LESEUR (1866-1914)


Eis outra grande figura feminina.
Pauline-Elisabeth nasceu em Paris aos 16/10/1866; recebeu da fami
lia urna sólida educacao crista e e valioso patrimonio cultural, que utilizou

1 Ñas Ordens Religiosas medievais, a Ordem Primeira é a dos frades; a Or


dem Segunda é a das freirás, e a Ordem Terceira é a dos feigos e ieigas, que,
vivendo da espiritualidade respectiva, permanecem no mundo.

463
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

durante toda a vida na qualidade de escritora. Casou-se com Félix Leseur,


materialista e colaborador de jomáis anticlericais, que tudo fez para extin
guir a fé da esposa; coagiu-a a ler obras de autores racionalistas, como
Les Origines du Christianisme e La Vie de Jésus de Ernest Renán. Elisa-
beth, porém, percebeu a fragilidade das hipóteses de Renán e quis contro
lar a validade dos seus argumentos, dedicando-se intensamente ao estudo
da Religiao, do Evangelho e de S. Tomás de Aquino. Este aprofundamento
só contribuiu para tornar mais convicta a sua vida crista, levando-a a
exercer o apostolado entre os intelectuais e incrédulos, como também a
praticar obras de caridade. Muito se empenhou pela conversao de seu ma
rido, sem o conseguir, até o momento de sua morte ocorrida em Paris aos
03/05/1914.

Tendo pe/dido a esposa, o viúvo descobriu o Diario deixado porela:


Journal et Pensées pour chaqué Jour (Jornal e Pensamentos para cada dia).
A leitura destas notas impressionou Félix Leseur, que resolveu mudar de
vida; urna vez convertido, fez-se frade dominicano e tornou-se grande pro
pagandista das obras de sua esposa: além do Journal... publicado em Paris
(1917), editou Lettres sur la Souffrance (Cartas a respeito do Sofrimento),
Paris 1918; La Vie Spirituelle (A Vida Espiritual) Paris 1918; Lettres á des
Incroyants (Cartas a Incrédulos) París 1922.

Eis outro grande vulto feminino, que atesta quanto pode ser forte a
mulher fiel a Deus e ao seu compromisso conjugal. Elisabeth deixou escri
ta famosa sentenca, que revela o segredo do seu éxito apostólico: "Urna
alma que se eleva, eleva o mundo inteiro".' Elevando-se em Deus no silen
cio, na paciencia e no amor perseverante, ela conseguiu elevar seu marido
e, com ele, mu ¡tos e muitos irmaos, pois na comunhao dos Santos o cris-
tao se torna espiritualmente fecundo, sem mesmo poder avaliar o alcance
de sua vida fiel e tenaz (Deus, porém, o vé).

Sem dúvida, seria possi'vel arrolar muitas outras Elisabetta e Elisa


beth, cuja historia heroica e fecunda só Deus conhece. Possam as mulheres
cristas de nossos dias reconforta r-se com tais testemunhos e crer sempre
mais no elevado preco da vida fiel a Deus e a Cristo na Santa Igreja!

1 Esta frase mereceu ser citada pelo S. Padre Joao Paulo II na sua Exorta-
cao Apostólica sobre Reconci/iacao e Penitencia n? 16:
"Reconhecer... urna solidariedade humana tao misteriosa e impercep-
tfvel quanto real e concreta... urna faceta daquela solidariedade que, a ni
vel religioso, se desenvolve no profundo e magnífico misterio da Comu
nhao dos Santos, gracas á qual se pode dizer que 'cada alma que se eleva,
eleva o mundo'".

464
Advertencia premente:

RESPEITAR A EUCARISTÍA

Em síntese: A Missa e a Comunhao Eucarística sao o ápice de todo o


culto cristao e a fonte de todas as béncaos. Por isto a Eucaristía há de ser
sempre recebida em estado de graca, nao sendo lícito aos fiéis comungar
em pecado grave, mesmo que tenham o propósito de se confessar na pri-
metra oportunidade. O fato de alguém acompanhar urna familia em festa
ou em luto durante a S. Missa nao justifica a recepcao da S. Comunhao
por parte de quem este/a em pecado grave.

Em nossos días, é grande o número de pessoas que se aproximam da


mesa da Comunhao Eucarística sem ter clara nocao do que seja ou tam-
bém sem preencher as condicoes necessárias para a dignidade do ato. Os
pastores do povo de Deus tém-se preocupado com o fato. 0 Arcebispo de
Sens (Franca), Mons. Gérard Dufois, publicou a respeito valioso artigo,
que reproduzimos a seguir em traducao portuguesa,1 ¡ulgando que será
útil também aos leitores do Brasil.

I. O TEXTO

"Há quem me chame a atencao para quanto é duro nao ir comungar


quando toda a assembléia dos participantes da Missa se dirige em fila para
a mesa eucarística. Com efeito; no inicio do sáculo XX as pessoas común-
gavam raramente (muitos católicos o faziam apenas urna vez por ano); em
meados do sáculo XX o fefum eucarístico e a absoluta necessidade de se
ter confessado previamente detinham a maioria dos fiéis no momento da
Comunhao. Ho/'e, porém, muitos tém a impressao de ser anormais se nao
acompanham os seus vizinhos de banco na igreja, indo com elesatea mesa
eucarística... Em numerosos casos, o sentimento de convivencia leva a ir
receber o Corpo de Cristo. Pensó em jovens nao praticantes que, por oca-

1 O original foipublicado no Boletím L'Église dans l'Yonne, de 28/5/94.

465
34 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS"389/1994

siao do enterro de um amigo, vao em massa comungar. Sem preparacao


e sem ter a consciéncia do significado profundo da Eucaristía. Isto pode
reconfortar, de um lado, é certo, mas há ai'um problema.

Sinto um mal-estar quando enancas, deixadas sem orientacao, duran


te a Missa vao comungar levianamente e voltam ao seu lugar tagarelando
com os colegas. Ou quando adultos me apresentam um recipiente plástico
para receber a hostia consagrada que eles levarao a um enfermo ou a uma
pessoa idosa. Colocam-na numa saco/a de mao, juntamente com manti-
mentos comprados e outros objetos.

Por certo, nao menosprezo a graca da Eucaristía nem o fato de que a


Comunhao dos participantes da Missa, hoje melhor do que ontem, expri
me o pleno significado da sua celebracao. Vivida na interioridade de uma
profunda caminhada espiritual, e/a é, para o povo de Deus, o pao da Nova
Alianca. E isto constrói a Igreja na unidade e na caridade. Mas existem for
mas visfveis de respeito que favorecem a oracao; a falta destas formas pode
banalizar a Comunhao, tornando-a um costume superficial, sem conscién
cia do dom de Deus á sua Igreja ou sem consciéncia deste ápice da vida
sacramental...

A Comunhao nao é um ato de simples convivencia ou solidariedade,


um símbolo de amizade ou de fraternidade; ela nos faz voltar a fonte do
amor, da qual freqüentemente nos afastam nossos sentimentosderancor,
tristeza e violencia...

A Comunhao nao é um rito de conveniencia social ou um ato rotinei-


ro; ela é em nos sementé de vida e encontró com Deus. Sim; digo... com
Deus em Jesús Cristo. Como nao estaríamos maravilhados por causa deste
insondável misterio da presenca de Deus em nos, para a salvacao de to
dos?".

II. COMENTANDO...

Este breve artigo lembra alguns principios importantes:

1) A celebracao da S. Missa e a Comunhao Eucarística sao os supre


mos atos da fé crista. A Eucaristía é a perpetuacao do sacrificio do Calva
rio; por ela se toma presente sobre os nossos altares a oblacao de Cristo na
Cruz, para que déla tomemos parte. É desse ato litúrgico que se derivam
todas as grapas de que precisam os homens.

466
RESPEITAR A EUCARISTÍA 35

2) Por ¡sto quem comunga, deve estar tao bem preparado quanto pos-
si'vel. Jamáis deve receber a S. Eucaristía em estado de pecado grave ou
mortal; isto seria sacrilegio. O fato de estar alguém acompanhando urna fa
milia em luto na Missa de sétimo día ou um par de noivos que se casam
ou um(a) amigo(a) aniversariante nao justifica a recepcSo da Comunhao
sem o devido preparo. Esta nao é propriamente um testemunho de solida-
riedade ou amizade, mas é uniao com Cristo, que é tres vezes santo. —
Nem é lícito a alguém comungar em estado de pecado grave, fazendo o
propósito de se confessar em próxima ocasiao; tal pessoa se confessará
primeiramente para depois receber a S. Eucaristía.

Eis o que a propósito diz o canon 916 do Código de Direito Ca


nónico:

"Canon 916 — Quem está consciente de pecado grave, nao celebre a


Missa nem comungue o Corpo do Senhor, sem fazer antes a confissao sa
cramental, a nao ser que exista causa grave e nao haja oportunidade para
se confessar. Neste caso, porém, lembre-se o fiel de que é obrígado a fazer
um ato de contricao perfeita, que incluí o propósito de se confessar quan
to antes".

Como se vé, o canon excluí a recepcao da Eucaristía por parte de


quem esteja em pecado grave. Reconhece, porém, que possa haver casos
imperiosos que exijam o contrario; tais casos geralmente nao se dao com
os fiéis leigos, muito menos ocorrem com que os que ocasionalmente vao
assistir a urna Missa de sétimo dia ou de aniversario. A Confissao sacramen
tal nao é obrigatória antes de cada Comunhao Eucarística; só se impoe a
quem tenha consciéncia de estar em pecado grave. Como quer que seja, o
sacramento da Reconciliacao é muito recomendado, mesmo a título de
devocao, poís fortalece a vida da grapa e imuniza contra o pecado grave,
desde que recebido com as devidas disposicoes de arrependimento e pro
pósito sincero de evitar as ocasíSes de pecado.

3) Os ministros extraordinarios da S. Eucaristía nao de proceder com


o máximo respeito e com dignidade, usando vestes decentes ou mesmo tra
jes próprios e servindo-se da píxide adequada para tal sen/ico. Estejam
compenetrados do enorme valor do ato que realizam.
* * *

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467
Entre os Cristáos da Inglaterra:

A RECEPQAO DO CLERO ANGLICANO NA


IGREJA CATÓLICA

Em síntese: O episcopado da Inglaterra e do País de Gales tem consi


derado o pedido de clérigos e leigos angl¡canos desejosos de entrar para a
Igreja Católica. Em 15/4/94 emitirán) urna Dec/aracao sobre o assunto: no-
tam que o movimento pró-Cato/icismo na Comunhao Anglicana é anterior
á decisao anglicana de ordenar mulheres; vem a ser a conclusao de estudos
e observacoes realizadas por membros da Comunhao Anglicana desde o
secuto passado; os clérigos anglicanos poderao exercer o ministerio sacer
dotal na Igreja Católica desde que recebam o sacramento da Ordem; os
que ingressam na Igreja Católica, integram-se no sacramento da Igreja, na
qual Cristo vive e atua, garantindo a infalibilidade do magisterio eclesial
em questoes de fé e de Moral e prestando ao sucessor de Pedro a assistén-
cia necessária para que, com fidelidade ao Senhor, apascente o seu re-
banho.
* * *

É notorio o movimento existente entre clérigos e leigos anglicanos no


sentido de pedir admissáo na Igreja Católica. Este movimento foi forte-
mente impulsionado pelo fato de que o Anglicanismo resolveu conferir a
ordenacao sacerdotal e a episcopal a mulheres. Esta derrogacao á Tradicao
suscitou divisoes entre os cristáos anglicanos, dos quais muitos preferem
aderir á Igreja Católica.

Os Bispos católicos da Inglaterra vém considerando tal desejo com so-


licitude. Tém formulado os termos jurídicos em que se poderá efetuar a
admissSo na Igreja Católica.
Entre os documentos emitidos a propósito pela Conferencia dos Bis
pos da Inglaterra e do País de Gales, merece atencá"o urna DeclaracSo data
da de 15/4/1994; fornece dados interessantes para se compreendera pro
blemática em foco. Eis por que publicamos em traducao portuguesa alguns
trechos desse documento.

1. FALAM OS BISPOS DA INGLATERRA

"Nos últimos meses e semanas, na maioria das dioceses católicas da


Inglaterra, membros da Igreja da Inglaterra, inseguros quanto aoseu futu-

468
A RECEPCÁO DO CLERO ANGLICANO NA IGREJA CATÓLICA 37

ro, tomaram contato com a Igreja Católica. Isto foi realizado tanto por in-
divi'duos quanto por grupos de clérigos e leigos. Alguns dentre eles já fo-
ram recebidos na plena comunhao da Igreja Católica; outros estao a ponto
de ser recebidos; outros aínda comecam a se informar sobre o que esse pas-
so implica e o modo como serao recebidos. As conversacSes que ocorre-
ram com individuos e com grupos, e com a participacSo de Bispos e leigos
católicos, esclareceram mu ¡tas perspectivas importantes e dissiparam certas
¡ncompreensoes amplamente difundidas. É desses assuntos que deseja-
mos agora tratar.

Em primeiro lugar, deve ficar fora de dúvida que aqueles que tomam
contato conosco, nao sao simplemente pessoas que contestam o acesso de,
mu I he res ao sacerdocio. Imaginar isto é falso e vem a ser um mau servico.
Antes, essas pessoas revelam urna profundidade de fé católica que é, ao
mesmo tempo, impressionante e tocante. A doutrina que professam a res
pe i to dos sacramentos, especialmente da Eucaristía (com a devocao e a
oracao ao Santíssimo Sacramento), é substancialmente católica. Muitos
seguem as mesmas práticas que nos no tocante á devoclo e á Liturgia; tém
profundo respeito pelo Santo Padre e reconhecem o seu primado por ser
sucessor de Pedro.

É importante que os membros da nossa comunidade católica compre-


endam bem que, para alguns desses anglicanos, especialmente para cléri
gos, o objetivo principal de sua vida na Igreja foi colaborar para chegarem
á unidade visível da Igreja da Inglaterra com a Sé de Pedro. Segundo pen-
sam atualmente, as recentes decisoes fizeram que este objetivo já nao pos-
sa ser considerado com realismo dentro da Igreja da Inglaterra; por isto
procuram a plena unidade visível individualmente ou em grupos. Como
dissemos em nossa Declaracio de novembro 1993: 'Muitos chegaram á
conviccSo de que a comunhao visi'vel com o Bispo de Roma é um elemen
to necessário da vida católica. Queremos reservar-lhes urna acolhida
generosa'...

Pedimos que todos tenham presentes os cinco principios que enun


ciamos por ocasiao da nossa reuniao na Páscoa de 1993, a saber:

1) a conviccao de que a plenitude da vida católica — e das Ordens que


déla fazem parte — se encontra na comunhao visível da Igreja Católica;
2) a aspiracao daqueles que procuram entrar em plena comunhao
com a Igreja Católica, deve levá-los á sua total integracao eventual na vida
da comunidade católica;

3) pede-se aqueles que procuram a plena comunhao, aceitem a autori-


dade do magisterio da Igreja nos pontos de fé e de Moral, tal como é exer-
cida pelo Papa como sucessor de Pedro e pelo colegiado dos Bispos que
atuam em uniSo com ele;

469
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

4} reafirmamos nosso compromisso de desenvolver as relacSes ecu


ménicas com a Igreja da Inglaterra e com as outras Igrejas e comunidades;
continuaremos esse diálogo e o nosso esforco comum ñas novas circuns
tancias que agora conhecemos;

5) estamos convictos de que a comunidade católica será enriquecida


pela heranca espiritual daqueles que procuram a plena comunhao; estamos
também certos de que os católicos exercerao grande generosidade, traba-
Ihando conosco na tarefa de responder as necessidades daqueles que agora
entram em contato conosco.

Somos gratos pelo fato de que nossas relacoes ecuménicas permane-


cem boas. Nosso compromisso na procura da plena unidade visi'vel da Igre
ja permanece intato, enraizado na conviccSo de que tal é a vontade de
Cristo. A oracao solene do Senhor Jesús afirma claramente que a unidade
visi'vel é necessária para a proel amacao efetiva do Evangelho á nossa socie-
dade: Tai, que eles sejam um. Como Tu estás em mim e eu em Ti, sejam
eles também um, a fim de que o mundo creia que Tu me enviaste' (Jo
17, 20s)".

2. COMENTANDO. . .

Tres pontos desta Declaracao me rece m especial atencao:

1) Mesmo antes da decisao de outorgar o presbiterado e o episcopado


as mulheres na comunidade anglicana, muitos cristaos anglicanos reconhe-
ciam na Igreja Católica a plenitude dos bens trazidos por Cristo para a sal-
vacao dos.homens e viam na figura do Papa o penhor da fiel conservacao
desses bens. Alias, já no sáculo passado, o chamado "Movimento de Ox
ford" produziu conversoes ao Catolicismo devidas a um estudo atento dos
documentos da Tradipao crista.

2) A ordenacao sacerdotal conferida na Comunhao Anglicana pode


ter o valor de indicar um chamado de Deus ao seu ministro. Este chamdo
só se realiza plenamente mediante a recepcao do sacramento da Ordem na
Igreja Católica, visto que as ordenacSes anglicanas conferidas após a extin-
cao da hierarquia católica na Inglaterra do século XVI foram e sao tidas
como inválidas, ... inválidas porque o ritual de ordenacao aplicado nao ex
primía as funcoes mais típicas do sacerdocio cristao, que sao as de celebrar
os sacramentos, especialmente a Eucaristía.

3) Tornar-se católico significa nSo apenas tornar-se membro de urna


sociedade diferente, mas, sim, e principalmente, integrar-se no Sacramento-
da Igreja. Nesta Cristo vive e atua garantindo a veracidade do seu magiste
rio em materia de fé e de Moral e assistindo ao sucessor de Pedro, para que
pastoreie com fidelidade o rebanho do Senhor.

470
Homosexualismo camuflado?

'A SEITA QUE NAO OUSA


DIZER SEU NOME"

Em síntese: O jornal O GLOBO, edicao de 25/06/94, p. 4 do 29 ca-


derno, apresenta o livro de John Boswell, segundo o qual durante oito sé-
culos a Igreja Católica abencoou, em rituais próprios, a uniao de homosse-
xuais. - Além de se tratar de breve e insuficiente noticia de jornal, o texto
em questao revela a precariedade dos argumentos do autor desde a sua ca
pa de rosto. Com efeito; propoe as imagens dos santos Sergio e Baco, que
terao sido homossexuais abencoados pela Igreja. Ora a pesquisa da hagio
grafía revela que quase nada se sabe de seguro sobre esses Santos; diz urna
lendária Ata de Martirio que eram soldados romanos cristaos e que, para
serem ridicularizados, foram, pelos carrascos, revestidos de trajes femini-
nos. Ora isto é-nos transmitido por um documento tido pela critica como
nao fidedigno; além do qué, nao é argumento para se afirmar que os dois
Santos eram homossexuais. Este breve espécimen da obra de Boswell já
mostra a falta de criterios da parte do autor.

* * *

O jornal O GLOBO, em sua ed¡c§o de 25/06/94, 2? Caderno, p.4,


publicou o artigo "A Seita que ná"o ousa dizer seu Nome". Apresenta o
livro do pesquisador norte-americano John Boswell, professor em Yale,
que traz o título "Same-sex Marriages in premodern Europe" (Vollard
Books). Afirma que houve casamentéis homossexuais na Europa pré-
moderna, ou seja, entre o século VIII e o século XVI; durante doze anos
de pesquisas em bibliotecas e conventos, o autor terá descoberto os ri
tuais católicos que sancionavam tais uniSes homossexuais. - Trata-se de
de um livro realmente surpreendente e revolucionario, pois o homosse-
xualismo é condenadq pela S. Escritura e por toda a tradicSo da Igreja;
se houve casos de parceria homossexual, terao sido casos esporádicos e
ilícitos, para os quais nao pode ter havido béncSo oficial da parte da Igre
ja Católica.

A fim de comentar devidamente o livro, deverfamos té-lo em maos.


A redacáo de PR só o conhece através da noticia do O GLOBO; como

471
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

quer que seja, esta breve informacao já fornece ensejo a algumas reflexoes,
que passamos a pro por.

RELENDOO ARTIGO. ..

Quatro principáis observares nos ocorrem:

1. NOTICIA JORNALISTICA

As noticias da grande imprensa, principalmente em materia religio


sa, deixam mu ¡tas vezes a desejar, pois quem as redige é, nao raro, impe
rito no assunto e confunde os termos. Dado, porém, que o autor da re-
senha do lívro, o Sr. Edney Silvestre, tenha entendido corretamente os
dizeres de John Boswell, este pode nao ter compreendido bem os docu
mentos que estudou. É esta urna primeira observacao, que nao pretende
possuir valor decisivo, mas que nSo deixa de ter fundamento, pois fre-
qüentemente se tem verificado que a grande imprensa nem sempre é
precisa quando trata de assuntos religiosos. Seria afoito tirar conclusoes
definitivas a partir de urna notfcia de jornal.

2. TENDENCIOSIDADE?

A noticia de O GLOBO afirma que o livro em pauta é "a nova arma


que o movimento gay pretende usar para vencer as resistencias a seu ousa-
do projeto de reconhecimentó legal das unioes entre casáis masculinos e
femininos". — Estas palavras deixam entrever que o articulista admite
urna possível tendenciosidade da parte do autor do livro. Este talvezesti-
vesse preconcebidamente á procura de bases e argumentos para justificar
a prática homossexual.

3. OS SANTOS SERGIO E BACO HOMOSSEXUAIS?

Merece referencia especial o seguinte trecho do final do artigo:

"Reforjando mais aínda a tese, a capa do livro reproduz um fcone


do secuto Vil, onde os santos Sergio e Baco — que teriam sido casados —
aparecem unidos, tendo como padrinho a própria figura de Jesús Cristo.
O autor também afirma que as Igre/as Católica e Grega-Ortodoxa só come-
caram a proibir a realizacao destas cerimónias a partir do sécu/o XIV".

472
"A SEITA QUE NAO OUSA DIZER SEU NOME" 41

Como se vé, os Santos Sergio e Baco sao apresentados na capa do


livro como espécimen dos casáis homossexuais que Cristo apadrinhou e a
Igreja abencoou. — Ora a pesquisa da hagiografía ou dos escritos referentes
á vida dos Santos verifica que pouco ou nada de certo se pode apurar so
bre tais Santos. Nem se sabe em que época viveram: século III ou século
IV? Existe urna Ata do Martirio desses Santos, que é tida pelos historiado
res como destituida de valor histórico; é lenda fantasiosa) á qual a crítica
dos cronistas nao dá valor científico. Nessa Ata — que, repetimos, nao me
rece crédito — está dito o seguinte:

No tempo do Imperador Maximiano (outros preferem ler: Maximino


Daia, 307-313), urna tropa de soldados de élite do Imperio Romano, com
posta de bárbaros ou de estrangeiros, era comandada por dois jovens ofi
ciáis, chamados respectivamente Sergio e Baco. Eram amigos um do outro
e cristaos. Por causa do seu título cristao, que os tornava solidarios entre
si, os oficiáis pagaos os denunciaram ao Imperador (ser cristao era ilícito
até 313). O monarca mandou levá-los ao templo de Júpiter; mas Sergio e
Baco recusaram entrar lá e sacrificar aos ídolos. Entao o rei furioso man
dou que fossem despojados de suas vestes militares e das suas insignias e
fossem revestidos de trajes femininos; assim foram levados em cortejo pe-
rante o público para serem ridicularizados. A seguir, o Imperador recorreu
a outro artificio para desviar Sergio e Baco da sua fé: zombou de Jesús
Cristo. A isto os dois oficiáis responderam com firmeza e fidelidade a Cris
to... Após isto, outros tormentos Ihes foram aplicados e finalmente morre-
ram mártires.

Como dito, tal estória é tida como espuria pelos críticos. Alias, há
muitas Atas de Martirio da antigüidade que sao, hoje em dia, reconheci-
das como fantasiosas. No documento atrás citado, Sergio e Baco sao reves
tidos de trajes femininos para serem ridicularizados, eles que eram oficiáis
militares. Ora isto nao quer dizer que eram homossexuais. Essa jogada do
Imperador tinha por objetivo humilhar os dois heróis; daí nada se pode
deduzir com certeza a respeito do tipo pessoal de Sergio e Baco. Além do
mais, seja lícito repetir: a própria noticia de que Sergio e Baco foram re
vestidos de trajes femininos é espuria ou nao auténtica.

Vé-se assim quáo pouco criteriosos safo aqueles que querem difamar a
Igreja. John Boswell, que pretende ser um pesquisador e cientista, se serve
de documentos espurios para fundamentar a sua tese e denegrir a face da
Igreja.

Por esta amostragem é possível formular um juízo mais preciso sobre


a obra inteira de John Boswell; se ela vale o que a capa vale, podemos di-

473
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

zer que nada vale ou que cita fatos e textos sujeitos a contestado por par
te da crítica objetiva.

4. O TESTEMUNHO BÍBLICO

A consciéncia de que o homossexualismo é ¡moral, está muito clara


mente incutida por toda a Escritura do Antigo e do Novo Testamento. É
um dos pecados mais severamente censurados pelo texto sagrado. Por isto
é difícil crer que ten ha havido rituais para casar homossexuais na Igreja
Católica. Tenham-se em vista os seguintes textos:

Lv 20,13: "O homem que se deita com outro homem como se fosse
urna mulher, ambos cometeram urna abominacao. Deverao morrer, e o seu
sangue caira sobre eles".

A pena de morte era infligida aos homossexuais no Antigo Testa


mento!

No Novo Testamento Sao Paulo repudia o homossexualismo como


sendo urna aberracao, aberracao ligada á idolatría dos pagaos:

"Trocaram a gloria do Deus incorruptfvel por imagens do homem


corruptivel, de aves, quadrúpedes e reptéis. Por isto Deus os entregou, se
gundo o dese/'o dos seus coracoes, é impureza em que eles mesmos deson-
raram seus corpos. Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira e adora-
ram e serviram á criatura em lugar do Criador... Por isto Deus os entregou
a paixoes aviltantes: suas mulheres mudaram as re/acoes naturaispor reía-
coes contra a natureza; igualmente os homens, deixando a relacao natural
com a mulher, arderam em desej'o unspara com os outros, praticando tor
pezas homens com homens e recebendo em si mesmos a paga dasua aber
racao" (Rm 1,23-27).

Em 1Cor 6,9s o Apostólo volta a censurar o mesmo pecado:

"Nem os impúdicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os de


pravados, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladroes... herda-
rao o Reino de Deus".

Em conclusao pode-se dizer: mesmo sem ter em maos o livro de John


Boswell, a amostragem fomecida pela imprensa sugere reservas sobre a
suas conclusSes. — Voliaremos ao assunto desde que tenhamos a obra ao
nosso dispor.

474
Respondendo a um panfleto:

'JESÚS JAMÁIS CONDENOU


O HOMOSSEXUALISMO"

Em síntese: Há quem alegue que na Biblia nao se encontra a palavra


homossexualismo; por isto nSo se pode d'tzer que a S. Escritura condena
tal prática. — Em resposta, observamos que, se a palavra nao ocorre, ocor-
re, sim, o conceito de homossexualismo, que é severamente condenado
emLv 20,13; Rm 1,23-27; 1Cor 6Js.

Alegase também que Jesús ¡amáis condenou o homossexualismo; se


fosse tSo grave. Ele o teña repudiado. — Respondemos que os Evangelhos
nao pretendem ser um relato completo de tudo o que Jesús disse e fez,
como nota Sao Joao no final do seu Evangelho (cf. 20¿30s; 21,25). Por is
to os Evangelhos bao de ser lidos no contexto dos demais escritos do Novo
Testamento; estes, sem dúvida, rejeitam o homossexualismo, como se de-
preende dos textos atrás citados. — Ademáis, antes que a Escritura conde
ne tal prática, a própria leí natural, incutida em todo ser humano, o rejei-
ta, visto que a natureza conhece dois sexos, que sao complementares
entre si.
* * *

A campanha homossexualista nao cessa de procurar justificar a práti


ca que ela propugna. Temos em m3os um panfleto intitulado "0 que todo
cristao deve saber sobre homossexualidade"; foi-nos enviado com um pedi
do de esclarecimentos, que passamos a pro por, distinguindo quatro pontos
do panfleto.

1. "NA BIBLIA NAO SE ENCONTRA A PALAVRA


HOMOSSEXUALISMO"

Assim comeca o ¡mpresso:

"Nao há na Biblia nenhuma só vez as palavras H0M0SSEXUAL,


LÉSBICA nem HOMOSSEXUALISMO. Todas as Biblias que empregam
estas expressoes, estao erradas e mal traduzidas. A palavra H0M0SSE-
XUAL só foi inventada em 1869, reunindo duas rafzes lingüísticas:
HOMO (do grego, significa "igual") e SEXUAL (do latim). Portanto, co-

475
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"389/1994 ._

mo a Biblia foi escrita de dois a quatro mil anos atrás, nao poderiam os
escritores sagrados ter usado urna palavra inventada só no sáculo passado.
E/ementar, irmao\

A prática do amor entre pessoas do mesmo sexo, porém, é muito


mais antiga que a própria Biblia. Há documentos egipcios de 500 anos
antes de Abraao, que revelam a prática do homoerotismo nao só pelos ho-
mens, mas também entre os deuses Horus e Seth. 'O homossexualismo é
tao antigo como a própria humanidade', dizia o célebre escritor Goethe".

A propósito observamos:

a) a antigüidade da prática homossexual nSo é suficiente para legiti-


má-la. Nem tudo o que é antigo, é aceitável;

b) o fato de que Biblia nunca apresenta a palavra "homossexualis


mo", nada quer dizer; a Biblia descreve o homossexualismo e condena
peremptoriamente a sua prática. Assim:

Lv 20,13; "O homem que se delta com outro homem como se fosse
urna mulher, ambos cometeram urna abominacao; deverao morrer, e o seu
sangue caira sobre e/es".

Rm 1,23-27: "Trocaram a gloria do Deus ¡ncorruptivel por imagens


do homem corruptfvel, de aves, quadrúpedes e reptéis. Por isto Deus os
entregou, segundo o desejo de seus coracdes, á impureza em que eles mes-
mos desonraram seus corpos..., suas mulheres mudaram as relacoes natu-
rais por relacoes contra a natureza; igualmente os homens, deixando a re-
lacio natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros,
praticando torpezas homens com homens e recebendo em si mesmos a
paga da sua aberracao".

Nao resta dúvida, portanto, de que a S. Escritura rejeita severamente


o homossexualismo.

2. "JESÚS JAMÁIS O CONDENOU"

Mais adiante diz o folheto em foco:

"O maior argumento para se comprovar que as Escrituras Sagradas


nao condenan) o amor entre pessoas do mesmo sexo é o fato de que Jesús
Cristo nunca falou alguma palavra contra os homossexuais. Se o homosse
xual¡smo fosse urna coisa tSo abominável, certamente o Filho de Deus te-

476
"JESÚS JAMÁIS CONDENOU O HOMOSSEXUALISMO" 45

ría incluido esse tema em sua mensagem. O que Jesús condenou, sim, foi
a dureza do coracao, a intolerancia dos fariseus hipócritas, a crueldade da-
que/es que dizem Senhor, Senhor!, mas esquecem a carídade e o respeito
aos outros (cf. Mt 7,21). E foi o próprio Messias quem deu o exemplo de
tolerancia em relacao aos 'desviados', andando e corriendo com prostitu
tas, pecadores e publícanos. E tem mais: Jesús Cristo mostrou-se particu
larmente aberto á homossociabiiidade, revelando carinhosa predilecao por
Joao Evangelista..."

A propósito observamos:

a) Os Evangelhos nao sao urna súmula teológica ou um compendio


sistemático das verdades da fé e da Moral crista. Também os Evangelhos
nao pretendem transmitir-nos tudo o que Jesús disse e fez. O próprio S.
Joao no fim do seu Evangelho o observa em duas passagens:

20,30$: "Jesús fez, diante de seus discípulos, muitos outros sinais


aínda, que nao se acham escritos neste lívro. Estes, porém, foram escritos
para crerdes que Jesús é o Cristo, o Fílho de Deus, epara que, crendo, te-
nhais a vida em seu nome".

21,25: "Há muitas outras coisas que Jesús fez e que, se fossem escri
tas urna por urna, creio que o mundo nao poderia conter os livros que se
escreveríam".

Positivamente, os Evangelhos sao o eco da pregacao oral dos Apostó


los. Esta nao foi toda consignada por escrito; ficou viva na Tradicao oral
da Igreja. Por isto, para ler correta mente os Evangelhos, devemos colóca
los sempre dentro do quadro da Tradicao oral. Esta, de geracao em gera
cao, vem transmitindo as verdades que na"o foram registradas nos escritos
sagrados. Jamáis será lícito isolar os Evangelhos dos demais escritos bíbli
cos e da Tradicao oral da Igreja. Ora é certo que a Escritura condena o ho-
mossexualismo. Além dos textos já citados, outros se podem aduzir:

ICor 6,9s: "Nao sabéis que os injustos nao herdarao o Reino de


Deus? Nao vos iludáis. Nem os impúdicos, nem os idólatras, nem os adúl
teros, nem os depravados, nem os efeminados nem os sodomitas... herda-
rSo o Reino de Deus".

Nesta passagem o Apostólo se refere aos sodomitas, lembrando assim


o episodio de Sodoma, a cidade dos homossexuals que foi tremendamente
punida, como narra Gn 19,1-29. — A propósito, porém, o panfleto que
analisamos, levanta urna objecao:

Por que os católicos conservam somente a condenacao do homosse-


xualismo dentre as sentencas legislativas do Antigo Testamento e abando-

477
46 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

nam dezenas de outras proibicoes decretadas pelo mesmo Senhor; assim


esquecem que o Antigo Testamento proibe comer carne de porco (cf. Lv
11,7); nao obstante, os católicos comem carne de porco.

Respondemos que a proibicao de homossexualismo é algo decorrente


da própria natureza humana ou da leí natural, como diremos mais adiante.
Ao contrario, a proibicao de comer carne de porco é algo decorrente de
urna lei positiva, lei momentánea, passageira, nao fundada na natureza hu
mana como tal. A proibicao de carne de porco se devia, no Antigo Testa
mento, a urna norma de higiene: julgavam os antigos que o porco era um
animal ¡mundo e contaminava os homens; por isto nao se devia comer a
sua carne. Ora hoje pode-se pensar diversamente.

b) O final do texto atrás transcrito, em que se fala da homossociabi-


lidade de Jesús chega a ser irreverente ou blasfemo. — Jesús teve discípu
los masculinos, porque os homens eram tidos como indicados para conti
nuar a historia dos doze Patriarcas do Antigo Testamento; a Igreja está
fundada sobre os doze Apostólos (cf. Ap 21, 14), que representavam as
doze tribos de Israel, cada qual encabezada por um dos filhos de Jaco.

3. A LEI NATURAL

É de notar que, antes mesmo que a Escritura condene o homossexua


lismo, a própria lei natural o repudia. É urna aberracSo ou um desvio das
funcoes que o Criador instituiu. Se existem dois sexos, isto se dá precisa
mente para que um complemente o outro; o homem tem predicados que a
mulher nao tem, e vice-versa. Por isto o casamento só pode ocorrer natural
e legítimamente entre homem e mulher.

4. SAÚL E JÓNATAS

Lé-se o seguinte no panfleto mencionado:

"Se o homossexualismo fosse prática tao condenável, como justificar


a indiscutt'vel relacao homossexual existente entre o reí Davi e Jónatas?
Bis a declaracao do salmista para o seu bem-amado: 'Tua amizade me era
mais maravilhosa do que o amor das mulheres. Tu me eras deliciosamente
querido1/ (2Sm 1,26)... Negar o amor homossexual entre estes dois im
portantes personagens bíblicos... é negar a própria evidencia dos fatos".

Observamos em resposta:

1) A interpretado gay do texto bíblico é destituida de fundamento,


como será evidenciado a seguir. Mas, ainda que o vicio existísse entre Davi

478
"JESÚS JAMÁIS CONDENOU O HQMOSSEXUALISMO" 47

e J6natas, nao seria modelo aprovado pela Biblia para legitimar o homos-
sexualismo. A Escritura narra também as fraquezas dos homens que Deus
escolhe como seus instrumentos.

2) Na verdade Davi parece ter nutrido para com Jónatas a amizade


de dois bons compánheiros de luta, interessados em apaziguar os ánimos
do rei Saúl; Davi era o perseguido e Jónatas o protetor de Davi. Esta atitu-
de de Jdnatas basta para explicar a profunda gratidSo e amizade de Davi
para com Jdnatas.

Notemos, alias, que Davi teve muitas mulheres — o que nao se dá


com os homossexuais propriamente ditos. Seja citado o texto de 2Sam 5,
13-16:

"A sua chegada de Hebron, tomou Davi aínda concubinas e mulheres


em Jerusalém, e nasceram-lhe filhos e filhas. Estes sao os nomes dos filhos
que Ihe nasceram em Jerusalém: Samua, Sobab, Nata, Saiomao, Jebaar,
Ellsau, Nafeg, Jáfia, Elisama, Baalida, Elifalet".

Considerem-se também os dizeres de 2Sm 16,21s, que falam repetida


mente das "concubinas de Davi".

Ademáis é muito significativo o caso de Davi, que se apoderou da


muiher Betsabéia, do general Urias, e, por isto, mandou matar lirias ex-
pondo-o na frente de batalha ás invectivas do inimigo; cf. 2Sm 11,2-17. O
texto sagrado dá a entender que Davi se apaixonou por tal muiher e déla
teve um filho, que morreu, e outro, que foi o rei Saiomao. Ora tais coisas
nao costumam acontecer aos homossexuais. Donde se vé que gratuita é a
hipótese de ter sido Davi um homossexual. Como dito, mesmo que o tives-
se sido, daí nao se poderia depreender argumento nenhum em favor do
homossexualismo.
* * *

AMWAY E NOVA ERA

Do Dr. Antonio Paulo Veiga, empresario e membro da Associacao de


Dirigentes Cristá*os de Empresas, recebemos a seguinte carta, que publica
mos com prazer, pois atende a urna pergunta que nos tem sido feita fre-
qüentemente: será a empresa norte-americana AMWAY filiada á córrante
filosófico-religiosa (panteísta e anti-cristS) dita NOVA ERA? — Como verá
o leitor, a resposta é negativa.

479
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 389/1994

Nova-Era AMe/v'canWAY?

Caros irmaos em Cristo,

Fiquei sabendo recentemente que alguns irmaos teriam urna suspeita


que me assolou há mais de um ano. Na ocasiao procure/' investigar a ques-
tao por haver estranhado o inusitado tipo de negocio que é o Marketing
Multinfvel ou de Rede /Network MarketingA entao novidade para mim,
como aínda o é para a maioria dos brasileiros.

Na ocasiao busquei também opiníoes de outroscatólicos, a quem des-


crevi o negocio e a empresa pioneira, quando era apenas urna tese univer
sitaria há 35 anos - a AMWAY.

Quanto á suspeita de que o nome seria urna alusao áspalavras de N.S.


Jesús "I am the way", esclarecí a origem do nome escolhido por seus dois
únicos proprietários: Richard de Vos, mercadologista, e Jay Van Andel,
químico; foram socios em pequeñas iniciativas desde jovens. 0 nome vem
de AMERICAN WAY OF UVE (modo americano de viver), e nao de I am
the way VEu sou o caminho", Jo 14,6).

Aos poucos fui conhecendo o negocio e as pessoas, os métodos, o sis


tema. Tratase de comercio por meio de catálogos, á moda americana, diré-
tamente da industria ao consumidor, reconhecendo o valor da "publicida-
de natural", pessoa-a-pessoa. Isso desagrada a muitos concurrentes, aos in
termediarios de sempre e á poderosa mfdia. A diferenca é investida em
pesquisa de qualidade e em remuneracao ao consumidor, de acordó com
os resultados de seu trabalho, o volume de negocios de seu grupo (consu
midores apresentados, seus patrocinados e assim por diante, em "cascata",
incluindo eventuais itens comprados para revenda a quem nao queira ade-
rir ao negocio, nao queira adquirir a "franquía" de "Distribuidor Inde-
pendente").

A Amway Corporation vem convivendo muito bem há 35 anos com


os concurrentes que preferem o sistema mais disseminado — de distribuí-
cao indireta e pub/icidade paga — e com os que preferem o network mar
keting, como e/a. Desses últimos, ocorrem-me alguns sem maior diversifi-
cacao horizontal, como Avon, Natura, Tupperware, etc.

0 algo assustador crescimento parece dever-se aos atrativos de se


poder possuir um negocio próprio para renda "extra" por meio de um sis
tema justo (por exemplo, impede um preguicoso "esperto" de ganhar di-
nheiro com apenas um patrocinado que trabaihe muito; paga a cada um o
que "merece" conforme regras pré-estabelecidas), que nos reconhece esse

480
AMWAY E NOVA ERA

trabalho de divulgagao "natural" que antes sempre fizemos sem reconhe-


cimento.

Esse crescimento e a diversificacao horizontal evocaram em mim, na


güela ocasiao (e, creio que em alguns irmaos mais atentos aos sinais e pe-
rigos), imagens oligopolistas, monopolistas até, chegando a lembrar-me da
profecía quanto á restricao para comprar e vender que se fará um dia aos
que nao nos deixaremos marcar na testa e na mao com o sinal da besta
conforme o Apocalipse segundo Sao Joao Evangelista. Dei-me conta,
porém, de que nao há aqui tais sinais. No máximo um cadastro-contrato,
urna conta e um cartao magnético, como nos Bancos.

Hoje parece-me nao haver tal perigo porque vejo que, em seu sistema,
a AMWA Y depende, para existir, da permanente adesao de novos clientes
(que nao podem ser seus funcionarios) e da diversidade de empresas que
geram emprego para seus novos consumidores, ao menos pelos primeiros
anos em que estiverem no negocio.

Das pessoas que conheci, destaco algumas que, em público, louvam a


Deus, sem estardalhaco, diante de enormes platéias, com muitos milhares
de pessoas, encorajando-as a dar gracas e a perseverar na busca dessa livre
iniciativa privada. Ocorre-me, entre outros, por exemplo o Tim Foley,
que sempre traz o sacerdote que oficiou seu matrimonio, o Padre Don
Walk, para pregar por urna manha inteira para doze mil pessoas sobre Ética
nos negocios, amor incondicional, perdao, e tantos outros temas, dissemi
nando a Verdade e alcancando pessoas que nao freqüentavam templos, e
que, de outro modo, talvez nao chegariam a conhecer a Verdade. Esse ca
tólico está no negocio há trinta anos e há quase um ano alcancou o nivel
em que se recebe o bdnus "diamante triplo", participando da rede ProNet
fundada há trinta anos e responsável por 2/3 (dois tercos) do vo/ume de
vendas da AMWA Y.

É bom que estejamos alertas, vigilantes... Lembremo-nos, porém, de


que Deus é onipresente, nao o inimigo — a este último nao o vejamos em
toda parte.

Parece-me — mesmo nao simpatizando sempre com o AMerican WA Y


of Ufe — que precisamos de maior objetividade nos discernimentos. Para
tal pedimos ao Santo Espirito que nos inspire.

Rio, Wdejunhode 1994.


Antonio P. Veiga

ASIA, ECC, RCC, MADVH, ADCE.


(021) 210-2100 - 533-2180 - fax
Estévao Bettencourt O.S.B.
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Palavras de Dom Estévao Bettencourt. O.S.B.:

"O presente livro se presta tanto ao estudo científico do quarto Evangelho


quanto á meditacao e á Lectio Divina dos fiéis cristaos. Quem o lé tem a impressao
de estar entrando, aos poucos, no misterio de Deus — o que suscita urna atitude de
reverencia e adoracio. "Realmente este lugar (este livro} é santo, e a porta do céu...
e eu nao o sabia!", poderá o cristao dizer, parafraseando a exclamacáodeJacó, cons
ciente de que tomara contato com o Senhor Deus em Betel (Cf. G n 28,17).

- SAO BENTO O ETERNO NO TEMPO, D. Lourenco de Almeida Prado. O.S.B.


Ed."LUMEN CHRISTI". 1994. 289p R$ 15,00

(A coletánea que forma este volume, representa até pela volta freqüente aos
mesmos textos e as mesmas reflexóes, pensamentos ou meditacóes de um benediti-
no que ficou mais conhecido como educador, sem nunca deixar de querer ser/ antes
de tudo, um discípulo do Patriarca de Monte Cassino).

Pedido pelo Reembolso Postal ou conforme 2? capa..

PARA RENOVACÁO OU NOVA ASSINATURA DE P.R. - 1995:


(12 números RS 13,00).

(COLECÁO DE P.R.. 12 números, ano de 1993, S/ encadernar. R$ 13,00).