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CLIFFORD GEERTZ

Andrea Rangel Ribeiro

Geertz concluiu seu doutorado em antropologia em 1956 na universidade de


Harvard com uma tese sobre religião em Java. No entanto, sua área de
graduação foi primeiramente inglês, pois ele se preparou para ser um escritor,
e posteriormente filosofia. Este fato é relevante para a compreensão da
construção das suas idéias na antropologia, devido ao seu constante diálogo
com estas disciplinas. Geertz trabalhou em diversas universidades americanas
tendo se estabelecido em Princeton desde 1975 na School of Social Science do
Institute for Advanced Studies. Sua obra é extensa e com distintas nuances,
estando baseada em intensivos trabalhos de campo realizados em Java, Bali,
Sumatra e Celebes, na Indonésia e no Marrocos.

Geertz é um antropólogo bastante conhecido nas distintas áreas das ciências


humanas, especialmente dentre os pesquisadores que privilegiam um método
qualitativo de análise em seus trabalhos. O ecletismo teórico de seu trabalho
também contribui com a repercussão de suas obras. Geertz é influenciado por
diversos autores, mas não segue nenhum deles especificamente. Dentre estas
influências estão nomes como Heidegger, Wittgenstein, Alfred Shutz, Hans-
Georg Gadamer, Paul Ricoeur, Michel Foucault, Jurgen Habermas, Thomas
Kuhn, Kenneth Burke, Fredric Jameson e Roland Barthes. Apesar deste
aparente ecletismo teórico, Geertz afirma que sua preocupação se mantém a
mesma desde a época de suas graduações, estando relacionada ao cerne da
antropologia hermenêutica ou interpretativa.

A ciência interpretativista diz respeito a uma análise social de cunho


“relativizante” e às inovações metodológicas no que se refere ao método de
pesquisa qualitativo. Apesar de Geertz compartilhar com a idéia da ausência
de fundamentos sólidos para julgamentos cognitivos, estéticos ou morais, que
implica na ausência de critérios universais, ele não se declara exatamente
como um relativista. No texto “Anti anti-relativismo” Geertz critica o medo da
relativismo cultural e suas conseqüentes críticas pouco criteriosas. Neste texto
ele não pretende defender o relativismo, mas combater seus críticos
inescrupulosos. Assim, ele se compara aos anti anti-comunistas da época da
Guerra Fria nos Eua, que criticavam a repressão aos comunistas sem
necessariamente compartilhar com suas idéias.

Para Geertz não crer em critérios universais seria ver-se acusado pelos anti-
relativistas de descrer na existência de um mundo físico, de não ter qualquer
posição política ou de ver em Hitler apenas um cara com gostos não
convencionais. Os anti-relativistas seriam partidários da idéia de que quem
não concorda com uma opinião defende o ponto de vista contrário, ou seja,
“se você não acredita no meu Deus deve acreditar no meu demônio”. Geertz
argumenta que as acusações anti-relativistas são falsas e não procedem.

O relativismo cultural teria sido na realidade muito utilizado pela antropologia


no sentido do desenvolvimento de um esforço de compreensão do ponto de
vista de diferentes culturas. A idéia remota de que “cada homem chama de
barbarismo o que quer que não seja sua própria prática” faz parte de tal
esforço.

Assim, a antropologia se manteria para Geertz perturbando a paz intelectual


geral com sua afeição pelo que não se encaixa nos supostos padrões da
modernidade ocidental. A insistência no fato de vermos as vidas dos outros
através de lentes por nós lapidadas causaria muito incômodo. Tal incômodo
impulsionou as acusações anti-relativistas de que o céu estaria desabando e de
que estivéssemos sendo dominados por um solipsismo absoluto. Pois, para o
anti-relativismo a única forma de derrotar o solipsismo seria colocar a
moralidade além da cultura e o conhecimento além de ambas, assim como
fazem o movimento do naturalismo e do racionalismo na sua tentativa de
restaurar as concepções que independam do domínio da cultura.

Geertz critica este objetivismo de cunho positivista, como aquele sugerido


pelo racionalismo de Dan Sperber, que almeja a uma neutralidade científica e
uma explicação rigorosa pautada em leis e casos ilustrativos. No entanto, ao
contrário do que os anti-relativistas sugerem, isto não implica na defesa de um
subjetivismo estrito que abandone a idéia da possibilidade de uma
objetividade na elaboração do conhecimento.

Para Geertz a antropologia tem algo de fictícia, sem ser exclusivamente uma
arte literária. Pois, ela se constrói via as interpretações dos antropólogos sobre
as interpretações dos nativos. Devido a isto a necessidade de uma
hermenêutica, pois não há uma neutralidade possível ou um objeto cujas leis
devam ser decifradas.

Não é possível verificar as etnografias na realidade e desta forma, a teoria de


correspondência da verdade não funciona aqui. Contudo, nem todos os
antropólogos têm consciência deste caráter de fabricação do seu trabalho,
tanto no que se refere a sua construção retórica quanto ao contexto histórico-
social no qual seu próprio texto está inscrito.

A imaginação representa um papel fundamental na construção do texto


antropológico, mas não parte da arbitrariedade do acaso exclusivamente. Sua
distinção em relação à literatura de ficção está no fato de que o ponto de
partida e a limitação do caráter inventivo deste ofício estão ancorados nas
experiências do antropólogo no trabalho de campo.
Diferentemente de seu aluno James Clifford, para quem a antropologia é uma
arte literária que independe do trabalho de campo, Geertz enfatiza a
necessidade deste como um fator distintivo pra a antropologia.

Assim a antropologia consiste nesta dupla vocação: por um lado a capacidade


retórica e imaginativa de seus autores, e por outro a experiência destes no
trabalho de campo.

Em contraposição ao “objetivismo”, defensor da idéia de que o conhecimento


está no objeto de estudo a ser descoberto pelo antropólogo, Geertz chama a
atenção para o caráter imaginário e subjetivo do trabalho do antropólogo. Em
contraposição ao “subjetivismo”, que encara a antropologia como uma arte
literária, Geertz aponta a importância das experiências concretas no campo
para a elaboração e a construção retórica do texto.

Segundo Francisca Marques para Geertz a intersubjetividade seria de certa


forma um traço objetivo. Pois, o conhecimento é construído a partir da
mediação entre a subjetividade do antropólogo e as subjetividades dos nativos.

A interpretação do antropólogo consiste em enfrentar uma multiplicidade de


estruturas conceituais complexas, estranhas, irregulares e inexplícitas,
buscando aprendê-las de alguma forma para depois apresenta-las no seu texto.
Fazer etnografia para Geertz seria como tentar ler um manuscrito estranho,
desbotado, cheio de incoerências, emendas suspeitas e comentários
tendenciosos. Este ofício seria análogo ao do crítico literário e não ao do autor
de ficção.

Para Geertz o homem encontraria sentido nos acontecimentos através dos


quais ele vive por intermédio de padrões culturais, que seriam amontoados
ordenados de símbolos significativos. O homem é um animal amarrado a teias
de significado que ele mesmo teceu, sendo a cultura estas teias. Os indivíduos
sentem, percebem, raciocinam, julgam e agem sob a direção destes símbolos.
A experiência humana é assim uma sensação significativa, interpretada e
aprendida. Cabe ao antropólogo compreender estes meios semióticos através
dos quais as pessoas se definem no ínterim de sua cultura. Este conceito
semiótico e não mentalista de cultura é fundamental na construção do
interpretativismo. Pode-se dizer que Geertz percebe a questão da compreensão
dos padrões culturais, organizados através de símbolos sociais, que se
manifestam nos comportamentos individuais como uma questão fundamental
para a antropologia.

A descrição densa visa a compreensão destes símbolos sociais. Através de um


trabalho de campo quase obsessivo de peneiramento do material etnográfico o
antropólogo pode analisar as dimensões simbólicas da ação social na arte, na
religião, na ideologia, na ciência, na moralidade, na lei, nos costumes, etc...
Assim, ele constrói suas interpretações e estas podem ser elaboradas de
distintas maneiras. São possíveis, por exemplo, analogias da vida social com
jogos, dramas teatrais e textos. No entanto, todas estas têm em comum a busca
da conexão da ação social ao seu significado.

A análise não deve ser elaborada como uma ciência experimental em busca de
leis, mas como uma ciência interpretativa em busca de significados. Para se
compreender esta análise antropológica deve-se compreender o que os
antropólogos fazem: a etnografia. Praticar etnografia é estabelecer relações,
selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear
campos, manter um diário, dentre outras atividades. Estas atividades requerem
um esforço intelectual específico que consiste na descrição densa.

A cultura é um contexto dentro do qual os acontecimentos sociais, as


instituições e os comportamentos podem ser escritos com densidade. Ela
consiste em estruturas de significado socialmente estabelecidos, ou seja, em
sistemas entrelaçados de signos interpretáveis. A cultura é assim pública
porque o significado o é.

Assim, os dados antropológicos são construções das construções dos nativos


sobre suas práticas coletivas. O antropólogo constrói descrições densas
orientadas e fictícias. Estas criações, conforme dito anteriormente, não são
falsas ou não-fatuais, pois partem das observações do trabalho de campo. No
entanto, deve estar sempre claro para o antropólogo que enquanto a cultura
está no quotidiano dos nativos, a antropologia está nos textos. Ambos
constituem realidades distintas, mas que se inter-relacionam.

Geertz declara em uma entrevista que não precisamos medir a irrefutabilidade


de nossas explicações nos padrões de verificação das ciências naturais. Ele
continua afirmando que quase todas as interpretações antropológicas têm um
resíduo de incerteza, indeterminação e contingência. Agir sobre o
indeterminado não seria um problema ou uma forma de niilismo e sim o modo
como todos nós vivemos.

Ele ressalta bem a diferença entre o niilismo, no caso o niilismo completo


definido por Nietzsche como ausência de sentido para tudo e para a própria
vida, e uma simples ausência de certeza, proposta pelo relativismo cultural da
antropologia. Ele ainda ironiza tal confusão de conceitos, falando que pode
haver por aí alguns niilistas autênticos, ao longo da Rodeo Drive ou em torno
da Times Square, mas que duvida que eles assim tenham ficado em virtude de
um excesso de sensibilidade às exigências de outras culturas.

Sem qualquer exatidão matemática, mas pautado na objetividade da


concretude do trabalho de campo o antropólogo inscreve o discurso social. Ele
assim o faz mesmo não tendo acesso ao discurso social bruto, mas àquela
pequena parte que as interpretações de seus informantes o levam a
compreender parcialmente via suas interpretações. O que o antropólogo
escreve é uma interpretação do acontecimento de falar e não o falar em si.

Tal compreensão deve buscar sempre o ponto de vista dos nativos sobre suas
experiências. O antropólogo deve captar conceitos que para outras pessoas são
de experiência-próxima, ou seja seus conceitos sob seu ponto de vista, e fazê-
lo de forma tão eficaz que nos permita estabelecer uma conexão esclarecedora
com os conceitos de experiência-distante, ou seja, aqueles criados por teorias
sociais para captar os elementos mais gerais da vida social.

Uma constante crítica elaborada feita à antropologia hermenêutica diz respeito


a questão da ausência de parâmetros para se estabelecer justamente os limites
da interpretação, já que a antropologia pressupõe limites, diferentemente da
literatura de ficção. Na mesma entrevista referida acima ele afirma que a
ciência interpretativista está em processo de desenvolvimento e que seus
paradigmas ainda estão sendo pensados e problematizados. Esta seria uma
tarefa para futuros antropólogos que não devem se deixar influenciar por
paradigmas de verificação das ciências naturais.

Geertz não se considera um pós-moderno, apesar de reconhecer que eles estão


apresentando questões importantes que têm que ser confrontadas. Contudo,
apesar de não concordar com o caráter 100% fictício da antropologia, ele não
estabelece nenhum limite à criatividade do antropólogo, a não ser que esta
deve estar baseada em sua experiência pessoal no campo. Outro limite pode
ser estabelecido pela aceitabilidade científica da comunidade acadêmica,
conforme estabelece a teoria de Thomas Kuhn. No entanto, em Lives and
Works ele afirma que ainda não sabemos porque algumas construções
retóricas, como as de Lévi-Strauss, Malinowski, Benedict e Evans-Pritchard
são mais convincentes ou aceitas do que outras. Pode-se pensar nestas
questões como uma espécie de ponte para os subseqüentes autores pós-
modernos que partindo de sua idéias irão destruir a possibilidade de qualquer
tipo de objetividade.

bibliografia:

GEERTZ, C lifford. Anti anti-relativism. American Anthropologist 86(2):


263-278;

GEERTZ, C lifford. O saber local: novos ensaios de antropologia


interpretativa . Petrópolis: Vozes, 1997;
GEERTZ, C lifford. The interpretation of cultures . New York: Basib Books,
1973;

GEERTZ, C lifford. Works and lives .

GEERTZ, C lifford. Entrevista. SITE: www.faced.ufba.br ;

GEERTZ, C lifford. Entrevista. SITE: www.teleskop.es (Revista de


Pensamiento y Cultura);

MARQUES, Francisca Ester Sá. Interpretação de produtos culturais:


contributos de uma abordagem etnometodológica aos estudos de
comunicação. SITE: http://www. faced.ufba.br;

OLSON, Gary. Clifford Geertz on ethnography and social construction .


SITE: http://jac.gsu.edu (Georgia State University. JAC per-reviewed
journal).

Entrevista traduzida para a língua portuguesa encontrada no site


www.faced.ufba.br

GEERTZ, C. “Anti anti-relativismo”, p.7