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O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO NA PERSPECTIVA PENTECOSTAL CLÁSSICA

Roney Cozzer 1

INTRODUÇÃO

A doutrina do Espírito Santo e a questão do batismo com ou no 2 Espírito Santo sempre foram uma constante no pensamento pentecostal clássico e em sua liturgia 3 . Durante vários anos nas Assembleias de Deus, e ainda hoje, mesmo que em menor escala, era muito frequente o incentivo por parte dos líderes a que as pessoas buscassem "o revestimento de poder do alto". Não raro, as pessoas eram chamadas à frente, no momento dos cultos, para receberem o batismo mediante a oração e imposição de mãos. Toda essa ênfase dada pelo Pentecostalismo Clássico ao Espírito Santo e ao batismo com 4 o Espírito Santo marcaram sem dúvida a sua trajetória. Pode ser afirmado que esta é uma marca distintiva do Pentecostalismo brasileiro. Atualmente, todavia, esta ênfase parece estar arrefecendo de maneira sensível. Isto pode ser percebido pela forma como o assunto vem sendo negligenciado em nossas pregações, trabalhos de ensino e cultos regulares das igrejas, onde pouco ou quase nada se fala sobre o assunto. Um fenômeno muito interessante que se observa hoje é a entrada do calvinismo e do pensamento reformado no contexto das Assembleias de Deus. Isso, em grande medida, não deixa de ser uma confirmação de que a denominação sempre comungou dos ideais da Reforma e de suas doutrinas basilares, tão reivindicadas pela assim chamada Teologia Reformada, o que é saudável em grande medida. Todavia, cumpre ressaltar, a compreensão que se tem quanto à alguns aspectos da Pneumatologia, mormente à questão do batismo com o Espírito Santo, são sensivelmente diferentes para pentecostais e reformados. É preciso considerar ainda que há grande desconhecimento das doutrinas pentecostais nas igrejas pentecostais, o que é paradoxal, já que o que define uma igreja como pentecostal são justamente as doutrinas pentecostais por ela abraçadas 5 . Por mais que não seja conclusivo associar esse desconhecimento ao avanço da Teologia Reformada no ambiente Pentecostal, isso caracteriza uma grande incoerência. Resgatar a correta compreensão dessas doutrinas é

1 Presbítero na Assembleia de Deus Vida Abundante em Cariacica / ES (Pr. Paulo Cesar). Gestor Educacional e Professor de Teologia no Instituto de Educação Cristã CRER & SER. Possui formação no Curso Médio de Teologia da EETAD (Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus), é graduado em Teologia, licenciado em Pedagogia e mestrando em Teologia pelas FABAPAR (Faculdades Batista do Paraná) na Linha de Pesquisa Leitura e Ensino da Bíblia. Contatos: roneycozzer@hotmail.com e roneyricardoteologia@gmail.com Site Teologia & Discernimento

2 Trata-se do mesmo batismo. Se for usado com ou no Espírito Santo, o sentido será o mesmo, em termos gramaticais.

3 Cf. MENZIES, William W. HORTON, Stanley M. Doutrinas bíblicas. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p. 12ss.

4 Por questão de praticidade, será adotada a expressão "batismo com o Espírito Santo" neste texto.

5 Essa preocupação doutrinária vem desde os primórdios do Movimento Pentecostal e pode ser percebida, por exemplo, na realização do primeiro Concílio Geral das Assembleias de Deus nos Estados Unidos, em 1914, conforme indicam Menzies e Horton in: MENZIES. HORTON. 1995, p. 13ss.

fundamental para a saúde das igrejas pentecostais, que se preocupam em manter esses distintivos doutrinários e ao mesmo tempo viver uma dinâmica eclesial marcada pela graciosa operação do Espírito Santo em sua realidade.

I. BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A PESSOA E A OBRA DO ESPÍRITO SANTO

A Paracletologia é uma doutrina fundamental da Teologia Sistemática. Outros termos podem ser usados para essa mesma disciplina, a saber, Pneumatologia e Pneumagiologia. Pneumatologia, conforme o Pastor Antonio Gilberto, é um termo oriundo "de pneuma (gr. "o ar", "o vento"), cognato do verbo pnéo, "respirar", "soprar", "inspirar". Significa, na Bíblia, principalmente o espírito humano, que, como o vento, é invisível, imaterial, dinâmico, potente. Mas pneuma (hb. ruach) diz respeito também ao Espírito de Deus, a terceira Pessoa da Trindade" 6 . O termo "Paracletologia" deriva do grego parácletos que significa, basicamente, "advogado". "Pneumagiologia" significa, basicamente, "doutrina do Espírito Santo" (hagios no grego é "santo"). Evidentemente, a perspectiva adotada neste texto quanto à Obra e à Pessoa do Espírito Santo é ortodoxa, evangélica e portanto, bíblica. Nesta perspectiva, o Espírito Santo é considerado uma das Pessoas da Divindade e não meramente uma força ou espécie de energia. Ele é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade que participa ativamente dos feitos da Divindade. A Bíblia nos dá muitos ensinos sobre Quem é o Espírito Santo e também quanto às Suas Divinas operações. Ele é apresentado nas Escrituras como sendo igual, e não apenas semelhante, ao Pai e ao Filho. Essas ações feitas pelo Divino Consolador, conforme indica o Pastor Antonio Gilberto, são o "batismo com o Espírito, renovação diária, santificação como um processo" 7 dentre outras.

II. O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO NA VISÃO PENTECOSTAL CLÁSSICA

Um dado histórico muito interessante sobre o Movimento Pentecostal no Brasil é que há registros de experiências de batismo com o Espírito Santo antes da fundação das Assembleias de Deus no Brasil, em 1911. Isael de Araújo, historiador do Pentecostalismo no Brasil, comenta diversos casos de que se tem registro histórico 8 . Tal fato indica que Jesus sempre batizou com o Espírito Santo ao longo da História da Igreja. Isto demonstra ainda que o batismo com o Espírito Santo não é private do Movimento Pentecostal ou mesmo das Assembleias de Deus. Antes, é um dom de Deus à Sua Igreja! Na compreensão dos teólogos pentecostais clássicos, alguns pontos sobre o batismo com o Espírito Santo são sempre realçados:

6 GILBERTO, Antonio (ed.). Teologia sistemática pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 173.

7 Op cit. p. 173.

8 Cf. MORAES, Isael de Araújo de. História do Movimento Pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2016.

Todos os cristãos salvos tem direito a buscar e a receber esse batismo. Há textos bíblicos que indicam a relação do Espírito Santo com os salvos, como Lucas 10.20, João 14.17, 20.22 e Atos 2.39.

Trata-se de uma promessa do próprio Deus ao seu povo, promessa encontrada no Antigo Testamento e reiterada no Novo: Joel 2.28-32; Lucas 24.49, Atos 1.4,8; 2.16,32,33, dentre outros textos.

É uma promessa para a Igreja na contemporaneidade, nos dias de hoje. Tomando como ponto de partida o fato de que a experiência de Pentecostes se repetiu por vezes na Igreja Primitiva, como narrado no livro de Atos (8.37; 10.44,45; 11.15; 19.16), os teólogos pentecostais clássicos entendem que essa experiência está disponível a todo salvo em Cristo, na atualidade e continua cumprindo importante papel para o cristão individualmente e por conseguinte, para toda a igreja local. Um versículo muito interessante que deve ser considerado neste contexto é o que se encontra em Atos 2.39: "Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar" (ACRF 9 ). Note a expressão "a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar" que, no dizer de Menzies e Horton, indica que

o modo como Pedro considerou a profecia de Joel mostra que ele esperava um cumprimento

contínuo até o fim dos "últimos dias". Isto significa que o derramamento profetizado por Joel

estará disponível até ao fim da era presente. Enquanto Deus continuar chamando pessoas à

salvação, desejará derramar o Espírito sobre eles

10

.

O batismo com o Espírito Santo é a porta de entrada para o recebimento dos dons espirituais. Esses dons são dotações sobrenaturais concedidas pelo Espírito Santo para a edificação da Igreja e avanço do Reino de Deus (1 Co 12.8-10,28; Ef 4.11; Rm 12.6-8). Menzies e Horton (1995) citando John Owen, comentam que "os escritores cristãos primitivos tomavam a palavra "espirituais" como os dons espirituais. E assim reconheciam-nos como os dons sobrenaturais, cuja fonte imediata é o Espírito Santo" 11 . É muito sugestivo ainda que Paulo, ao tratar dos dons espirituais, em 1 Coríntios 12, usa a metáfora de um corpo, que opera de maneira unânime numa constituição diversa. Deus dá os dons conforme sua soberana vontade e os concede conforme sua graça, no sentido de suprir necessidades e prover edificação à Igreja, e não para ostentação, exibicionismo e nem autopromoção humana vaidosa, tola e fútil. Os dons devem ser administrados com sabedoria, norteados sempre pela

9 Almeida Corrigida e Revisada Fiel.

10 MENZIES. HORTON. 1995, p. 132.

11 OWEN, John. The Holy Spirit. Grand Rapids: Sovereign Grace Publishers, 1971, p. 16 idem pp. 208,209 in: MENZIES. HORTON, 1995, p. 176.

Palavra de Deus e "com entendimento" (1 Co 14.15), conforme temos ensinado no Novo Testamento.

2.1. A questão da evidência.

Esse é um ponto doutrinário distintivo no Pentecostalismo Clássico: o batismo com o Espírito Santo é evidenciado, fisicamente, pelas línguas estranhas. Vale ressaltar ainda que as línguas estranhas são apresentadas no Novo Testamento como um dom espiritual (cf. 1 Co 12.10,30). O Pastor Antonio Gilberto menciona que "os dons espirituais podem ser concedidos por Deus no momento do batismo com o Espírito" 12 . A partir de textos como Atos 2.4; 10.44-46 e 11.15 depreende-se que o falar em línguas é evidência do batismo com o Espírito Santo. Em outras palavras, as ocorrências desse revestimento de poder presentes no livro de Atos sempre estão associadas ao falar em línguas. Vale ressaltar aqui que estamos falando de uma experiência espiritual gloriosa que não podemos definir de maneira plena. Estamos no campo das operações do Espírito Santo, e Ele, como disse Jesus, é como o vento, e o "vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai" (Jo 3.8 - NVI 13 ). As "línguas" mencionadas em Atos são línguas humanas conhecidas faladas pela pessoa que está sendo batizada sem que a pessoa em si nunca tenha estudado esse idioma e portanto ele mesmo não conheça e nem entenda o que ela mesmo está dizendo, caso não haja interpretação (a esse fenômeno dá-se o nome de xenolalia). Mas é fato também que há evidência de que nem sempre se tratava de uma língua conhecida. Mais uma vez, Menzies e Horton:

A palavra traduzida por "línguas", no livro de Atos, é a mesma usada em 1 Coríntios, e refere-

se a idiomas reais de homens e anjos (1 Co 13.1). Não há justificativa para interpretar a palavra

como "sons estranhos ou próprios do êxtase". Nos tempos do Novo Testamento, tal como em

nosso tempo, havia pessoas que ouviam e compreendiam o falar em línguas 14 .

2.2. O batismo com o Espírito Santo como critério para ordenação ministerial.

Embora esse já não seja mais um critério usado de maneira unânime nas Assembleias de Deus no Brasil, e isso até em função da grandeza da denominação, ainda tem sido adotado como medida em muitos campos das Assembleias de Deus pelo Brasil.

É comum encontrarmos em secretarias das Assembleias de Deus aquela ficha individual onde o

candidato ao santo ministério informa se é ou não batizado e especifica a data em que foi batizado com

o Espírito Santo. Em linhas gerais, a fundamentação para tal critério é que o batismo, por ser a

12 GILBERTO. 2008, p. 184.

13 Nova Versão Internacional.

14 MENZIES. HORTON, 1995, pp. 144,45.

experiência que faz o crente "transbordar" do Espírito Santo nessa experiência espiritual poderosa, dando à ele uma vida cristã mais profunda, profícua, dinâmica e ousada, isso o capacita de modo especial à vida ministerial. Em termos hermenêuticos, precisamos ser honestos e afirmar que não é possível encontrar nas Escrituras uma cláusula específica que indique que a ordenação ministerial precise considerar esse critério como condição para que ela ocorra, mas é fato que os primeiros cristãos desfrutavam naturalmente dessa bênção chamada batismo com o Espírito Santo, nos anos que

se seguiram ao Pentecostes, como podemos ver, por exemplo, em Atos 19.6 15 .

Há outro ponto importante que certamente é base fundante para esta prática nas Assembleias de Deus:

Jesus orientou seus discípulos a que permanecessem em Jerusalém "até que do alto sejais revestidos de poder" (Lc 24.49 - ACRF). Percebe-se, até com muita clareza, que após a experiência do batismo com

o Espírito Santo, foi estabelecido um antes e um depois na vida dos discípulos, que passaram a

testemunhar com mais dinamismo e poder. Essa experiência, sem dúvida, torna o cristão mais frutífero no serviço ao Senhor. O cristão recebe poder para melhor servir, melhor adorar e glorificar ao Senhor, em línguas, numa dimensão muito mais profunda.

CONCLUSÃO

Que nossos pastores e líderes nos diversos departamentos de nossas igrejas, possam, sempre, realçar o valor e a necessidade para o crente de buscar e receber o batismo com o Espírito Santo. A posição do autor do presente texto quanto à isto é que essa é uma prática a ser mantida nas Assembleias de Deus, que sempre foram um "ambiente" propício às manifestações espirituais, dadas pelo Senhor por meio do Seu Espírito aos crentes. Embora entenda que não se deva estigmatizar ou mesmo fazer julgamentos indevidos sobre a espiritualidade daqueles que não receberam o batismo com o Espírito Santo - isso seria precipitado! - de outro lado reconhece que é uma bênção a ser "perseguida" por todo aquele que de fato é salvo em Cristo e deseja servi-lo com amor e profundidade. Em outras palavras: não há razão para não se buscar esta bênção espiritual. Não é algo a ser relegado e ser tratado como sendo de somenos importância. Uma igreja cheia do Espírito Santo e que se pauta pela coerência bíblica será, sem dúvida, mais madura, missionária e produzirá uma adoração mais viva, dinâmica e uma relação mais concreta com a Pessoa de Cristo.

15 É importante destacar que a Primeira Epístola aos Coríntios trata de maneira abundante de doutrinas relacionadas ao culto e práxis pentecostal.

REFERÊNCIAS

GILBERTO, Antonio (ed.). Teologia sistemática pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. KASCHEL, Werner. ZIMMER, Rudi. Dicionário da Bíblia de Almeida. 2ª ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995. MENZIES, William W. HORTON, Stanley M. Doutrinas bíblicas. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.

MORAES, Isael de Araújo de. História do Movimento Pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD,

2016.

OWEN, John. The Holy Spirit. Grand Rapids: Sovereign Grace Publishers, 1971, p. 16 idem pp. 208,209 in: MENZIES, William W. HORTON, Stanley M. Doutrinas bíblicas. Rio de Janeiro:

CPAD, 1995, p. 176.