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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS

gramática, fonética) apresenta-se como depósito


inerte. Isso significa que para os teóricos dessa
tendência, a linguagem é uma faculdade divina. O
homem já nasce com a capacidade de exteriorizar
seu pensamento que é gerado no seu psiquismo. De
sua capacidade de organizar o pensamento,
dependerá sua exteriorização. Se o homem não
consegue uma organização lógica para seu
pensamento, sua linguagem estará afetada, isto é,
desarticulada, desorganizada. Portanto, isso equivale
dizer que se ele não consegue se expressar com
logicidade é porque não é capaz de pensar. Assim,
presume-se que há regras a serem seguidas para se
alcançar a organização lógica do pensamento, e,
consequentemente da linguagem. A linguagem como
linguagem como expressão do expressão do pensamento refere aos estudos
pensamento; Linguagem como instrumento tradicionais que acreditam que as pessoas que não
de comunicação e linguagem como conseguem se expressar não pensam.
interação;
SEGUNDA TENDÊNCIA : LINGUAGEM COMO
MEIO OBJETIVO PARA A COMUNICAÇÃO
CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM
O centro organizador de todos os fatos da
As três concepções de linguagem: Primeira língua para essa tendência situa-se no sistema
tendência - linguagem como expressão do lingüístico, a saber: o sistema de formas fonéticas,
pensamento; Segunda tendência - linguagem como gramaticais e lexicais da língua. A língua é
meio objetivo para a comunicação; Terceira considerada como um aspecto imóvel, onde cada
tendência - linguagem como processo de interação enunciação é única e não reiterável, mas em cada
verbal. É importante que o educador conheça essas enunciação encontram-se elementos idênticos aos de
três concepções de linguagem, pois, assim, ele outras enunciações no seio de um determinado grupo
saberá encaminhar um ensinoaprendizagem de de locutores. Nessa tendência o sistema lingüístico é
qualidade em relação a nossa língua materna. percebido como um fato objetivo externo à
consciência individual e independente desta. Desta
Dessa forma, o modo como se concebe a maneira, a língua é um sistema estável, imutável, de
natureza da língua altera em muito o como se formas lingüísticas submetidas à norma fornecida tal
estrutura o trabalho com a língua em termos de qual a consciência individual e peremptória para esta.
ensino. A concepção de linguagem é tão necessária
e importante como a concepção de educação. Por E as leis da língua são essencialmente leis
quê? Como já mencionamos, essa concepção de linguísticas específicas, que estabelecem ligações
linguagem e língua encaminhará o professor para o entre os signos linguísticos no interior de um sistema
desenvolvimento de estratégias eficientes para a fechado. Pelo exposto, pode-se afirmar que também
aula de língua portuguesa. essa tendência está voltada para o estudo da
enunciação monológica isolada, reduzindo-se às
PRIMEIRA TENDÊNCIA: LINGUAGEM COMO relações imanentes no interior do terreno da
EXPRESSÃO DO PENSAMENTO enunciação.

Esta primeira tendência busca explicar a Todos os problemas advindos das questões
linguagem a partir das condições de vida psíquica externas da enunciação ficam excluídos no estudo
individual do sujeito falante. Apóia-se na dessa tendência, quer vai além dos elementos
enunciação monológica como ponto de partida para constitutivos da enunciação monológica. Seu alcance
sua reflexão a respeito da linguagem e a apresenta máximo é a fase complexa (o período). Dessa forma,
como ato puramente individual, isto é, a enunciação a linguagem como instrumento de comunicação vê a
se forma no psiquismo do indivíduo, exteriorizando- língua como código, (conjunto de signos que se
se, objetivamente, para outro com a ajuda de algum combinam, segundo regras) capaz de transmitir ao
código de signos exteriores. receptor uma mensagem, isso quer dizer que é
necessário que os envolvidos no ato manipulem os
A expressão, ou seja, a linguagem se sinais do código de forma comum, preestabelecida.
constrói no interior, sendo sua exteriorização Então, existem regras que devem ser perseguidas
apenas uma tradução. É a atividade mental que pelo falante –ouvinte para que se estabeleça a
organiza a expressão, modelando e determinando comunicação. Essas regras serão resgatadas pela
sua orientação. Dessa forma, a língua é vista como gramática.
produto acabado, sistema estável (léxico,

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
TERCEIRA TENDÊNCIA: LINGUAGEM COMO
PROCESSO DE INTERAÇÃO VERBAL

Entende essa tendência que a verdadeira


substância da linguagem não é constituída por um
sistema abstrato de formas lingüísticas, nem pela
enunciação monológica, nem pelo ato
psicofisiológico de sua produção, mas pelo
fenômeno social da interação verbal, realizada
através da enunciação ou das enunciações.

A interação verbal constitui, assim, a


realidade fundamental da linguagem. A
comunicação verbal só pode ser explicada e
compreendida nas relações da interação concreta e
na situação extralingüística, não só a situação
imediata, mas também, através dela, o contexto
social maios amplo. Nessa tendência a língua
constitui um processo em evolução ininterrupta, que
se realiza através da interação verbal social dos
locutores. Assim, as leis da evolução linguística não
são de maneira alguma as leis da psicologia
individual, mas também não podem ser divorciadas
das atividades dos falantes. As leis da evolução
linguística são essencialmente leis sociológicas. E,
quanto à estrutura da enunciação, é uma estrutura
puramente social.

A enunciação como tal só se efetiva entre


falantes. Essa tendência percebe a linguagem
como produto histórico-social e, diferentemente da
anterior, realça que a fala, como fenômeno social,
está sempre ligada às estruturas sociais. Logo, a
linguagem como forma de interação é vista como
um lugar de interação humana. Implica numa
postura de educar diferenciada uma vez que situa a
linguagem como o lugar de constituição de relações
sociais, onde os falantes se tornam sujeitos. Vale
referir, no modo como se entende a linguagem ,
pois esse entendimento reflete no modo como se
lida com seu ensino nas aulas de língua
portuguesa.

Por exemplo: se a linguagem é entendida


como mera expressão do pensamento, seus
adeptos acreditam que o ensino da gramática
prioriza o falar e o escrever bem. Recapitulando as
três concepções de linguagem: → A primeira
concepção vê a linguagem como expressão do
pensamento. Para essa concepção as pessoas não
se expressam bem porque não pensam. → A
segunda concepção vê a linguagem como
instrumento de comunicação. Nessa concepção a
língua é vista como um código, ou seja, como um
conjunto de signos que se combinam segundo
regras, e que é capaz de transmitir uma mensagem,
informações de um emissor a um receptor. → A
terceira concepção vê a linguagem como forma ou
processo de interação. Nessa concepção o que o
indivíduo faz ao usar a língua não é tão-somente
traduzir um pensamento, ou transmitir informações
a outrem, mas sim realizar ações, agir, atuar sobre
o interlocutor (ouvinte/leitor).

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marco do surgimento da lingüística histórica. É no
início do século XX, com a divulgação dos trabalhos
de Ferdinand de Saussure, que a investigação sobre
a linguagem- a lingüística- passa a ser reconhecida
como estudo científico, que estarão centrados na
observação dos fatos de linguagem.

O trabalho científico consiste em observar e


UMA BREVE HISTÓRIA DO ESTUDO DA descrever os fatos a partir de determinados
LINGUAGEM pressupostos teóricos formulados pela lingüística
aproxima-se dos fatos orientado por um quadro
Remotam ao século IV a.C. os primeiros teórico específico.
estudos. Inicialmente, foram razões religiosa que
levaram os hindus a estudar sua língua, para que LINGUAGEM
os textos sagrados reunidos no Veda não
sofressem modificações no momento de ser Apresentaremos aqui duas propostas, a de
proferidos. Saussure e a de Chomsky que pressupõem uma
teoria geral da linguagem e da análise linguística.
Mais tarde os gramáticos hindus, entre os Saussure considerou a linguagem
quais Panini (século IV a.C.), dedicaram-se a ―heteróclica e multifacetada‘‘, pois abrange vários
descrever minuciosamente sua língua, produzindo domínios e separa uma parte do todo linguagem, a
modelos de análise que foram descobertos pelo língua- um objeto unificado e suscetível de
Ocidente no final do século XVIII. Os gregos classificação.
preocuparam-se, principalmente, em definir as A língua é para Saussure ―um sistema de
relações entre o conceito e a palavra que o signos‖ - um conjunto de unidades que se relacionam
designa, Platão discute muito bem essa questão no organizadamente dentro de um todo. É ―a parte social
Crátilo. da linguagem‖, exterior ao indivíduo; não pode ser
Aristóteles desenvolveu estudos noutra modificada pelo falante e obedece às leis do contrato
direção, chegou a elaborar uma teoria da frase, a social estabelecido pelos membros da comunidade.
distinguir as partes do discurso e a enumerar as O conjunto linguagem-língua. Já a fala é um ato
categorias gramaticais. Dentre os latinos, destaca- individual.
se Varrão, dedicou-se à gramática, esforçando-se A distinção linguagem/língua/fala situa objeto
por defini-la como ciência e como arte. Na Idade da linguística para Saussure. Dela decorre a divisão
Média, os modistas consideraram que a estrutura do estudo da linguagem em duas partes: uma que
gramatical das línguas é única e universal, e que, investiga a língua e outra que analisa a fala. As duas
em conseqüência, as regras da gramática são partes são inseparáveis, visto que são
independentes das línguas em que se realizam. interdependentes: a língua é condição para se
produzir à fala, mas não há língua sem o exercício da
No século XVI, a religiosidade ativa pela fala.
reforma provoca tradução dos livros sagrados em Há necessidade, portanto, de duas
numerosas línguas. Viajantes, comerciantes e linguísticas; a linguística da língua e a linguística da
diplomatas trazem de suas experiências no fala. Saussure focalizou em seu trabalho a linguística
estrangeiro o conhecimento de línguas até então da língua, ―produto social depositado no cérebro de
desconhecidas. Os séculos XVII e XVIII, a cada um‖, sistema supra-individual que a sociedade
gramática de Port Royal, de Lancelot e Arnaud, impõe ao falante.
demonstra que a linguagem se na razão, é a Para o mestre genebrino, ―a linguística tem
imagem do pensamento e que, portanto, os por único e verdadeiro objeto a língua considerada
princípios de análise estabelecidos não se prendem em si mesma, e por si mesma‖. A língua é
a uma língua particular, mas servem a toda e considerada uma estrutura constituída por uma rede
qualquer língua. de elementos, em que cada elemento tem um valor
funcional determinado.
O conhecimento de um número maior de A teoria de análise linguística que
línguas vai provocar, no século XIX, o interesse desenvolveram, herdeiras das ideias de Saussure, foi
pelas línguas vivas, pelo estudo comparativo dos denominada estruturalismo. Já Chomsky acredita que
falares, em detrimento de um raciocínio mais tais propriedades são tão abstratas, complexas e
abstrato sobre a linguagem. É nesse período que específicas que não poderiam ser aprendidas a partir
se desenvolve um método histórico, instrumento do nada por uma criança em fase de aquisição da
importante para o florescimento das gramáticas linguagem.
comparadas e lingüística histórica. Franz Bopp é
estudioso que se destaca nessa época. A Portanto, a linguagem é uma capacidade
publicação, em 1816, de sua obra sobre o sistema inata e específica da espécie, isto é, transmitida
de conjugação do sânscrito, comparando ao grego, geneticamente e própria da espécie humana.
ao latim, ao persa e ao germânico é considerado o Segundo Chomsky e os que compartilham de suas

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ideias. Esses pesquisadores dedicam-se à busca obrigatoriamente, a língua portuguesa) constitui o
de tais propriedades, na tentativa de construir uma código.
teoria geral da linguagem fundamentada nesses
princípios. Assim, através de um canal, o emissor transmite
ao receptor, em um código comum, uma
Essa teoria é conhecida como gerativismo. mensagem, que se reporta a um contexto ou
Chomsky distingue competência de desempenho. A referente.
competência linguística é a porção do
conhecimento do sistema linguístico do falante que Nesse mecanismo, temos:
lhe permite produzir o conjunto de sentenças de
sua língua: é um conjunto de regras que o falante Num CONTEXTO,
construiu em sua mente pela aplicação de sua o EMISSOR (codificador) elabora uma MENSAGEM,
capacidade inata para a aquisição da linguagem através de um CÓDIGO,
nos dados linguísticos que ouviu durante a infância. veiculada por um CANAL
para um RECEPTOR (decodificador).
O desempenho corresponde ao
2. Funções da linguagem
comportamento linguístico, que resulta não
somente da competência linguística do falante, mas A ênfase num elemento do circuito de comunicação
também de fatores não linguísticos de ordem determina a função de linguagem que lhe
variada, como: convenções sociais, crenças, corresponde:
atitudes emocionais do falante em relação ao que
diz, pressuposto sobre as atitudes do interlocutor ELEMENTO FUNÇÃO
etc.. contexto → referencial
O desempenho pressupõe a competência, emissor → emotiva
ao passo que a competência não pressupõe receptor → conativa
desempenho. A língua – sistema linguístico canal → fática
socializado – de Saussure aproxima a Linguística mensagem → poética
da Sociologia ou da Psicologia Social; a código → metalingüística
competência –conhecimento linguístico
internacionalizado – aproxima a Linguística da Cada um desses seis elementos determina uma
Psicologia Cognitiva ou da Biologia. função de linguagem. Raramente se encontram
mensagens em que haja apenas uma; na maioria das
vezes o que ocorre é uma hierarquia de funções em
As funções da linguagem apontam o que predomina ora uma, ora outra. Observe este
direcionamento da mensagem para um ou mais trecho:
elementos do circuito da comunicação.
Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos
Qualquer produção discursiva, linguística (oral ou outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se
escrita) ou extralinguística (pintura, música, reunindo com maior ou menor velocidade, mas com
fotografia, propaganda, cinema, teatro etc.) igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá
apresenta funções da linguagem. fora a vida estoura não só em bombas como também
em dádivas de toda natureza, inclusive a simples
1. Elementos da comunicação claridade da hora, vedada a você, que está de olho
na maquininha. O mundo deixa de ser realidade
Ao elaborarmos uma redação, precisamos ter em quente para se reduzir a marginália, purê de
mente que estamos escrevendo para alguém. palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
Enquanto a redação literária destina-se à (Carlos Drummond de Andrade)
publicação em jornal, livro ou revista, e seu público
é geralmente heterogêneo, a redação para No exemplo acima, predomina a função
vestibular tem em vista selecionar os candidatos metalingüística (volta-se para a própria produção
cuja habilidade discursiva toma-os aptos a discursiva) e a poética (produz efeito estético através
ingressar na vida acadêmica. da linguagem metafórica); porém, menos evidentes,
aparecem as funções referencial (evidencia o
Seja um texto literário ou escolar, a redação sempre assunto) e emotiva (revela emoções do emissor).
apresenta alguém que o escreve, o emissor, e
alguém que o lê, o receptor. O que o emissor A classificação das funções da linguagem depende
escreve é a mensagem. O elemento que conduz o das relações estabelecidas entre elas e os elementos
discurso para o receptor é o canal (no nosso caso, do circuito da comunicação. Esquematicamente,
o canal é o papel). Os fatos, os objetos ou imagens, temos:
os juízos ou raciocínios que o emissor expõe ou
sobre os quais discorre constituem o referente. A
língua que o emissor utiliza (no nosso caso,

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o estado emocional do emissor também pertencem à
função emotiva. Exemplos:

E aí me dá uma inveja dessa gente…


(Chico Buarque)

Não adianta nem tentar


Me esquecer
Durante muito tempo em sua vida
Eu vou viver
3. Função referencial ou denotativa (Roberto Carlos & Erasmo Carlos)

Certamente a mais comum e mais usada no dia- Sinto que viver é inevitável. Posso na primavera ficar
adia, a função referencial ou informativa, também horas sentada fl1mando, apenas sendo. Ser às vezes
chamada denotativa ou cognitiva, privilegia o sangra. Mas não há como não sangrar pois é no
contexto. Ela evidencia o assunto, o objeto, os sangue que sinto a primavera. Dói. A primavera me
fatos, os juízos. dá coisas. Dá do que viver E sinto que um dia na
É a linguagem da comunicação. Faz referência a primavera é que vou morrer De amor pungente e
coração enfraquecido.
um contexto, ou seja, a uma informação sem
qualquer envolvimento de quem a produz ou de (Clarice Lispector)
quem a recebe. Não há preocupação com estilo;
5. Função conativa ou de apelo
sua intenção é unicamente informar. E a
linguagem das redações escolares, A função conativa é aquela que busca mobilizar a
principalmente das .dissertações, das narrações atenção do receptor, produzindo um apelo ou
não- fictícias e das descrições objetivas. uma ordem. Pode ser volitiva, revelando assim uma
Caracteriza também o discurso científico, o vontade (―Por favor, eu gostaria que você se
jornalístico e a correspondência comercial. retirasse.‖), ou imperativa, que é a característica
Exemplo: fundamental da propaganda. Encontra no vocativo e
Todo brasileiro tem direito à aposentadoria. Mas no imperativo sua expressão gramatical mais
nem todos têm direitos iguais. Um milhão e meio de autêntica. Exemplos:
funcionários públicos, aposentados por regimes
especiais, consomem mais recursos do que os Antônio, venha cá!
quinze milhões de trabalhadores aposentados pelo Compre um e leve três.
INSS. Enquanto a média dos benefícios aos Beba Coca-Cola.
aposentados do INSS é de 2,1 salários mínimos, Se o terreno é difícil, use uma solução inteligente:
nos regimes especiais tem gente que ganha mais Mercedes-Benz.
de 100 salários mínimos.
(Programa Nacional de Desestatização) 6. Função fática

4. Função emotiva ou expressiva Se a ênfase está no canal, para checar sua


recepção ou para manter a conexão entre os
Quando há ênfase no emissor (lª pessoa) e na falantes, temos a função fática. Nas fórmulas
expressão direta de suas emoções e atitudes, ritualizadas da comunicação, os recursos fáticos são
temos a função emotiva, também chamada comuns. Exemplos:
expressiva ou de exteriorização psíquica. Ela é
lingüisticamente representada por interjeições, Bom-dia!
adjetivos, signos de pontuação (tais como Oi, tudo bem?
exclamações, reticências) e agressão verbal Ah, é!
(insultos, termos de baixo calão), que representam Huin… hum…
a marca subjetiva de quem fala. Exemplo: Alô, quem fala?
Hã, o quê?
Oh? como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias Observe os recursos fáticos que, embora
Dentro das noites, dentro dos dias? característicos da linguagem oral, ganham
(Vinícius de Moraes) expressividade na música:

Observe que em ―Luís, você é mesmo um burro!‖, a Alô, alô marciano


frase perde seu caráter informativo (já que Luís não Aqui quem fala é da Terra.
é uma pessoa transformada em animal) e enfatiza o (Rita Lee & Roberto de Carvalho)
emotivo, pois revela o estado emocional do
Blá, Blá, Blá, Blá, Blá
emissor..
Blá, Blá, Blá, Blá
As canções populares amorosas, as novelas e
Ti, Ti, Ti, Ti, Ti,
qualquer expressão artística que deixe transparecer

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Ti, Ti, Ti, Ti prosa ou em verso, ou ainda na fotografia, na música,
Tá tudo muito bom, bom! no teatro, no cinema, na pintura, enfim, em qualquer
Tá tudo muito bem, bem! modalidade discursiva que apresente uma maneira
(Evandro Mesquita) especial de elaborar o código, de trabalhar a palavra.
Exemplos:
Atente para o fato de que o uso excessivo dos
recursos fáticos denota carência vocabular, já Que não há forma de pensar ou crer
que des De imaginar sonhar ou de sentir
titui a mensagem de carga semântica, mantendo Nem rasgo de loucura
apenas a comunicação, sem traduzir informação. Que ouse pôr a alma humana frente a frente
Exemplo: Com isso que uma vez visto e sentido
Me mudou, qual ao universo o sol
— Você gostou dos contos de Machado? Falhasse súbito, sem duração
— Só, meu. Valeu. No acabar..
(Fernando Pessoa)
7. Função metalinguística
Observe, entretanto, que o discurso desviatório
A função metalinguística visa à tradução do necessita de um contexto para produzir sensação
código ou à elaboração do discurso, seja ele estética, como no poema abaixo, cujo nonsense é
linguístico (a escrita ou a oralidade), seja altamente poético no contexto de Alice no País das
extralinguístico (música, cinema, pintura, Maravilhas:
gestualidade etc. — chamados códigos complexos).
Assim, é a mensagem que fala de sua própria Pois então tu mataste o Jaguadarte!
produção discursiva. Um livro convertido em filme Vem aos meus braços, homenino meu!
apresenta um processo de metalinguagem, uma Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!
pintura que mostra o próprio artista executando a Ele se ria jubileu.
tela, um poema que fala do ato de escrever, um
conto ou romance que discorre sobre a própria Era briluz. As lesmolisas touvas
linguagem etc. são igualmente metalingüísticos. O Roldavam e relvian nos gramilvos.
dicionário é metalingüístico por excelência. Estavam mimsicais as pintalouvas
Exemplos: E os momirratos davam grilvos.
(Lewis Carrol, traduzido por Augusto de Campos.)
— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a
literatura, Seu Paulo. A gente discute, briga, trata
de negócios naturalmente, mas arranjar palavras
com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como
falo, ninguém me lia.
(Graciliano Ramos)

Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto


lutamos mal rompe a manhã.
(Carlos Drummond de Andrade)

A palavra é o homem mesmo, Estamos feitos de


palavras. Elas são a única realidade ou, ao menos,
o único testemunho de nossa realidade.
(Octávio Paz)

―Anuncie seu produto: a propaganda é a arma do


negócio.‖ Nesse exemplo, temos a função
metalingüística (a propaganda fala do ato de
anunciar), a conativa (a expressão aliciante do
verbo anunciar no imperativo) e a poética (na
renovação de um clichê, conferindo-lhe um efeito
especial).

8. Função poética

Quando a mensagem se volta para seu processo


de estruturação, para os seus próprios
constituintes, tendo em vista produzir um efeito
estético, através de desvios da norma ou de
combinatórias inovadoras da linguagem, temos a
função poética, que pode ocorrer num texto em

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
A farinha tá no sangue do nordestino
eu já sei desde menino o que ela pode dar
e tem da grossa, tem da fina se não tem da
quebradinha
vou na vizinha pegar pra fazer pirão ou mingau
farinha com feijão é animal!

O cabra que não tem eira nem beira


Os diferentes dialetos e registros comprovam lá no fundo do quintal tem um pé de macaxeira
que a língua portuguesa é um elemento a macaxeira é popular é macaxeira pr`ali, macaxeira
dinâmico que sofre modificações históricas, pra cá
culturais e sociais. e em tudo que é farinhada a macaxeira tá
você não sabe o que é farinha boa
farinha é a que a mãe me manda lá de Alagoas...”.
(Farinha - Djavan)
Os dialetos são as variações linguísticas
encontradas em diferentes regiões e grupos sociais. Chamamos de registros as variações que
Os registros estão relacionados com os níveis de ocorrem de acordo com o grau de formalismo
fala. existente em uma determinada situação: há situações
em que a variedade padrão, ou norma culta, é a
A língua portuguesa é o código mais melhor opção, aquela que estabelecerá uma maior
utilizado entre os brasileiros. Poderoso instrumento sintonia entre os interlocutores. Nas entrevistas de
de interação social, a língua pertence a todos os emprego, em redações para concursos e vestibulares
membros de uma comunidade, o que faz dela um e em exposições públicas, por exemplo, a variedade
patrimônio social e cultural que evolui e transforma- linguística exigida, na maioria das vezes, é a padrão,
se historicamente. Pensar na língua como um por isso é indispensável conhecê-la bem para
elemento imutável é um grande equívoco: a língua adequarmos a comunicação de acordo com a
é dinâmica e modifica-se de acordo com a pertinência do momento. Em contrapartida, há
necessidade dos grupos sociais que dela fazem situações de uso em que a variedade não padrão
uso. (gírias, regionalismos, jargões) é aquela que melhor
se encaixa no contexto comunicacional.
As variedades linguísticas corroboram a
ideia de dinamismo da língua: de acordo com as
condições sociais, culturais, regionais e históricas, a
língua sofre variações que melhor se adaptam às
necessidades de determinado grupo. Entre os tipos
de variações linguísticas estão os dialetos e
registros, fenômenos que comprovam na prática
que não existe um modelo linguístico a ser seguido
na modalidade oral. Mas o que são dialetos e
registros?

É chamada de dialeto a variedade de uma


língua própria de uma região ou território. Devem
ser consideradas também as diferenças linguísticas
originadas em virtude da idade dos falantes, sexo,
classes ou grupos sociais e da própria evolução
histórica da língua: pessoas que se identificam e
utilizam uma linguagem mais ou menos comum,
com vocabulário, expressões e gírias próprias do
grupo. As diferenças regionais, no que diz respeito
ao vocabulário, são exemplos de variação territorial.
É caso, por exemplo, da raiz que em determinadas
regiões é conhecida como ―mandioca‖, mas que em
outras áreas recebe o nome de ―aipim‖ ou
―macaxeira‖. Observe o exemplo:

―A farinha é feita de uma planta da família das


euforbiáceas, euforbiáceas
de nome manihot utilíssima que um tio meu
apelidou de macaxeira
e foi aí que todo mundo achou melhor!...

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
A variedade padrão nem sempre é a mais
adequada. Em determinadas situações, a variedade
não padrão favorece a comunicação entre os
falantes
Os diferentes dialetos e registros comprovam que a
língua é um conjunto de variedades, ou seja, há
A eficiência da comunicação depende do uso
diversas maneiras de falar ou escrever. Em relação
adequado do nível de linguagem. Certamente, você
à fala, jugar que existe o certo e o errado significa
não escreveria da mesma forma um texto para um
desconsiderar e desprestigiar determinado dialeto
adulto e para uma criança. São pessoas com
ou registro, manifestações culturais, sociais e
capacidade de entendimento diferente. Também o
históricas legítimas de um grupo. Quando
seu texto deve ser diferente para cada um deles. É
entendemos que as línguas são conjuntos de
necessário, assim, preocupar-se e muito com quem
variedades, entendemos também que as regras da
receberá o seu texto.
língua portuguesa são variáveis, e não categóricas.
Dizer que alguém fala o português melhor ou pior
- Linguagem Formal: utilizam-na as classes
do que alguém, desconsiderando fatores sociais
intelectuais da sociedade, mais na forma escrita e,
como o nível de escolaridade ou grupo e classes
menos, na oral. É de uso nos meios diplomáticos e
diferentes, só reforça a combatida ideia do
científicos; nos discursos e sermões; nos tratados
preconceito linguístico, tão presente em nossa
jurídicos e nas sessões do tribunal. O vocabulário é
cultura.
rico e são observadas as normas gramaticais em sua
plenitude.

- Linguagem Coloquial: utilizada pelas pessoas


que, sem embargo do conhecimento da língua,
serve-se de um nível menos formal, mais cotidiano. É
a linguagem do rádio, da televisão, meios de
comunicação de massa tanto na forma oral quanto na
escrita. Emprega-se o vocabulário da língua comum
e a obediência às disposições gramaticais é relativa,
permitindo-se até mesmo construções próprias da
linguagem oral.

Alíngua e os níveis da linguagem pertence a todos


os membros de uma comunidade e é uma entidade
viva em constante mutação. Novas palavras são
criadas ou assimiladas de outras línguas, à medida
que surgem novos hábitos, objetos e conhecimentos.
Os dicionários vão incorporando esses novos
vocábulos (neologismos), quando consagrados pelo
uso.

Atualmente, os veículos de comunicação audiovisual,


especialmente os computadores e a internet, têm
sido fonte de incontáveis neologismos — alguns
necessários, porque não havia equivalentes em
Português; outros dispensáveis, porque duplicam
palavras existentes na linguagem. O único critério
para sua integração na língua é, porém, o seu
emprego constante por um número considerável de
usuários.

De fato, quem determina as transformações


lingüísticas e os níveis de linguagem é o conjunto de
usuários, independentemente de quem sejam eles,
estejam escrevendo ou falando, uma vez que tanto a
língua escrita quanto a oral apresentam variações
condicionadas por diversos fatores: regionais,
sociais, intelectuais etc.

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―O movimento de 1922 não nos deu — nem nos expresse: ―Vamos ao shopping assistir a um filme‖,
podia dar — uma „língua brasileira‟, ele incitou os mas aceita-se: ―Vamos no shopping assistir um
nossos escritores a concederem primazia absoluta filme‖. Não seria adequado a um professor
aos temas essencialmente brasileiros […] e a universitário assim se manifestar: ―Fazem dez anos
preferirem sempre palavras e construções vivas do que participo de palestras nesta egrégia
português do Brasil a outras, mortas e frias, Universidade, nas quais sempre houveram
armazenadas nos dicionários e nos compêndios estudantes interessados‖.
gramaticais.‖ (Celso Cunha)
Escrever conforme a norma culta — que não
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos
representa uma camisa-de-força, mas um tesouro
livros
das formas de expressão mais bem cultivadas da
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
língua — é um requisito para qualquer profissional de
Língua certa do povo
nível universitário que se pretenda elevar acima da
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
vala comum de sua profissão. O domínio eficiente da
(Manuel Bandeira)
língua, em seus variados registros e em suas
inesgotáveis possibilidades de variação, é uma das
condições para o bom desempenho profissional e
social.

A linguagem popular ou coloquial

É aquela usada espontânea e fluentemente pelo


povo. Mostra-se quase sempre rebelde à norma
gramatical e é carregada de vícios de linguagem
(solecismo – erros de regência e concordância;
barbarismo – erros de pronúncia, grafia e flexão;
ambigüidade; cacofonia; pleonasmo), expressões
vulgares, gírias e preferência pela coordenação, que
Embora as variações lingüísticas e níveis da ressalta o caráter oral e popular da língua. A
linguagem sejam condicionadas pelas linguagem popular está presente nas mais diversas
circunstâncias, tanto a língua falada quanto a situações: conversas familiares ou entre amigos,
escrita cumprem sua finalidade, que é a anedotas, irradiação de esportes, programas de TV
comunicação. A língua escrita obedece a normas (sobretudo os de auditório), novelas, expressão dos
gramaticais e será sempre diferente da língua estados emocionais etc.
oral, mais espontânea, solta, livre, visto que
acompanhada de mímica e entonação, que A linguagem culta ou padrão
preenchem importantes papéis significativos.
É aquela ensinada nas escolas e serve de veículo às
ciências em que se apresenta com terminologia
especial. É usada pelas pessoas instruídas das
Mais sujeita a falhas, a linguagem empregada diferentes classes sociais e caracteriza-se pela
coloquialmente difere substancialmente do padrão obediência às normas gramaticais. Mais comumente
culto, o que, segundo alguns lingüistas, criou no usada na linguagem escrita e literária, reflete
Brasil um abismo quase intransponível para os prestígio social e cultural. É mais artificial, mais
usuários da língua, pois se expressar em português estável, menos sujeita a variações. Está presente nas
com clareza e correção é uma das maiores aulas, conferências, sermões, discursos políticos,
dificuldades dos brasileiros: ―No português do comunicações científicas, noticiários de TV,
Brasil, a distância entre o nível popular e o nível programas culturais etc.
culto ficou tão marcada que, se assim prosseguir,
acabará chegando a se parecer com o fenômeno Gíria
verificado no italiano ou no alemão, por exemplo,
com a distância entre um dialeto e outro.‖ (Evanildo Segundo Mattoso Câmara Júnior, ―estilo literário e
Bechara, Ensino da Gramática. Opressão? gíria são, em verdade, dois pólos da Estilística, pois
Liberdade?) gíria não é a linguagem popular, como pensam
alguns, mas apenas um estilo que se integra à língua
popular‖. Tanto que nem todas as pessoas que se
exprimem através da linguagem popular usam gíria.
Com base nessas considerações, não se deve A gíria relaciona-se ao cotidiano de certos grupos
reger o ensino da língua pelas noções de certo e sociais ―que vivem à margem das classes
errado, mas pelos conceitos de adequado e dominantes: os estudantes, esportistas, prostitutas,
inadequado, que são mais convenientes e exatos, ladrões‖ Eles a usam como arma de defesa contra as
porque refletem o uso da língua nos mais diferentes classes dominantes. Esses grupos utilizam a gíria
contextos. Não se espera que um adolescente, como meio de expressão do cotidiano, para que as
reunido a outros em uma lanchonete, assim se
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
mensagens sejam decodificadas apenas pelo Pues, diz que o divã no consultório do analista de
próprio grupo. Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os
pacientes de bombacha e pé no chão.
Assim a gíria é criada por determinados segmentos
Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
da comunidade social que divulgam o palavreado
— O senhor quer que eu deite logo no divã?
para outros grupos até chegar à mídia. Os meios de
— Bom, se o amigo quiser dançar uma marcha,
comunicação de massa, como a televisão e o rádio,
antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente
propagam os novos vocábulos, às vezes, também
inventam alguns. A gíria que circula pode acabar estendido e charlando que nem china da fronteira,
incorporada pela língua oficial, permanecer no pra não perder tempo nem dinheiro.
(Luís Fernando Veríssimo, O Analista de Bagé)
vocabulário de pequenos grupos ou cair em
desuso.

Caracterizada como um vocabulário especial a gíria Exemplo do falar caipira:


surge como um signo de grupo, a princípio secreto,
Aos dezoito anos pai Norato deu uma facada num
domínio exclusivo de uma comunidade social
rapaz, num adjutório, e abriu o pé no mundo. Nunca
restrita (seja a gíria dos marginais ou da polícia, dos
mais ninguém botou os olhos em riba dele, afora o
estudantes, ou de outros grupos ou profissões).
afilhado.
(…) Ao vulgarizar-se, porém, para a grande — Padrinho, evim cá chamá o sinhô pra mode i morá
comunidade, assumindo a forma de uma gíria mais eu.
comum, de uso geral e não diferenciado, (…) torna- — Quá,flo, esse caco de gente num sai daqui mais
se difícil precisar o que é de fato vocábulo gírio ou não.
vocábulo popular — Bamo. Buli gente num bole, mais bicho… O sinhô
anda perrengado…
(…) É expressa freqüentemente sob forma (Bernardo Élis, Pai Norato)
humorística (e não raro obscena, ou ambas as
coisas juntas), como ocorre, por exemplo, em
certos signos que revelam evidente agressividade,
como bicho, forma de chamamento que na década
de 1970 substituía amigo, colega, cara; coroa, para
pessoa mais idosa, madura; quadrado, em lugar de
conservador tradicional, reacionário; mina, para
namorada, forma trazida da linguagem marginal da
prostituição, onde origina lmente signca mulher
rendosa para o malandro, que vive à custa dela etc.
(Dino Pretti)
Primeiro, ela pinta como quem não quer nada.
Chega na moral, dando uma de Migué, e acaba
caindo na boca do povo. Depois desba ratina, vira
lero-lero, sai de fininho e some. Mas, às vêzes,
volta arrebentando, sem o menor aviso. Afinal, qual
é a da gíria?
(Cássio Schubsky, Superinteressante)
Linguagem vulgar

Existe uma linguagem vulgar, segundo Dino Preti,


―ligada aos grupos extremamente incultos, aos
analfabetos‖, aos que têm pouco ou nenhum
contato com centros civilizados. Na linguagem
vulgar multiplicam-se estruturas com ―nóis vai, ele
fica‖, ―eu di um beijo nela‖, ―Vamo i no mercado‖.

Linguagem regional

Regionalismos ou falares locais são variações


geográficas do uso da língua padrão, quanto às
construções gramaticais, empregos de certas
palavras e expressões e do ponto de vista
fonológico. Há, no Brasil, por exemplo, falares
amazônico, nordestino, baiano, fluminense, mineiro,
sulino.

Exemplo do falar gaúcho:

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS

Fala

É a utilização oral da língua pelo indivíduo. É um ato


individual, pois cada indivíduo, para a manifestação
da fala, pode escolher os elementos da língua que
Língua Falada e Língua Escrita lhe convém, conforme seu gosto e sua necessidade,
de acordo com a situação, o contexto, sua
Não devemos confundir língua com escrita, pois personalidade, o ambiente sociocultural em que vive,
são dois meios de comunicação distintos. A escrita etc. Desse modo, dentro da unidade da língua, há
representa um estágio posterior de uma língua. A uma grande diversificação nos mais variados níveis
língua falada é mais espontânea, abrange a da fala. Cada indivíduo, além de conhecer o que
comunicação linguística em toda sua totalidade. fala, conhece também o que os outros falam; é por
Além disso, é acompanhada pelo tom de voz, isso que somos capazes de dialogar com pessoas
algumas vezes por mímicas, incluindo-se dos mais variados graus de cultura, embora nem
fisionomias. A língua escrita não é apenas a sempre a linguagem delas seja exatamente como a
representação da língua falada, mas sim um nossa.
sistema mais disciplinado e rígido, uma vez que não
conta com o jogo fisionômico, as mímicas e o tom Níveis da fala
de voz do falante.
Devido ao caráter individual da fala, é possível
No Brasil, por exemplo, todos falam a língua observar alguns níveis:
portuguesa, mas existem usos diferentes da língua
Nível coloquial-popular: é a fala que a maioria das
devido a diversos fatores. Dentre eles, destacam-
pessoas utiliza no seu dia a dia, principalmente em
se:
situações informais. Esse nível da fala é mais
Fatores regionais: é possível notar a diferença do espontâneo, ao utiizá-lo, não nos preocupamos em
português falado por um habitante da região saber se falamos de acordo ou não com as regras
nordeste e outro da região sudeste do Brasil. formais estabelecidas pela língua.
Dentro de uma mesma região, também há
Nível formal-culto: é o nível da fala normalmente
variações no uso da língua. No estado do Rio
utilizado pelas pessoas em situações formais.
Grande do Sul, por exemplo, há diferenças entre a
Caracteriza-se por um cuidado maior com o
língua utilizada por um cidadão que vive na capital
vocabulário e pela obediência às regras gramaticais
e aquela utilizada por um cidadão do interior do
estabelecidas pela língua.
estado.
Signo
Fatores culturais: o grau de escolarização e a
formação cultural de um indivíduo também são O signo linguístico é um elemento representativo
fatores que colaboram para os diferentes usos da que apresenta dois aspectos: o significado e o
língua. Uma pessoa escolarizada utiliza a língua de significante. Ao escutar a palavra cachorro,
uma maneira diferente da pessoa que não teve reconhecemos a sequência de sons que formam
acesso à escola. essa palavra. Esses sons se identificam com a
lembrança deles que está em nossa memória. Essa
Fatores contextuais: nosso modo de falar varia de
lembrança constitui uma real imagem sonora,
acordo com a situação em que nos encontramos:
armazenada em nosso cérebro que é o significante
quando conversamos com nossos amigos, não
do signo cachorro. Quando escutamos essa palavra,
usamos os termos que usaríamos se estivéssemos
logo pensamos em um animal irracional de quatro
discursando em uma solenidade de formatura.
patas, com pelos, olhos, orelhas, etc. Esse conceito
Fatores profissionais: o exercício de algumas que nos vem à mente é o significado do signo
atividades requer o domínio de certas formas de cachorro e também se encontra armazenado em
língua chamadas línguas técnicas. Abundantes nossa memória.
em termos específicos, essas formas têm uso
Ao empregar os signos que formam a nossa língua,
praticamente restrito ao intercâmbio técnico de
devemos obedecer às regras gramaticais
engenheiros, químicos, profissionais da área de
convencionadas pela própria língua. Desse modo,
direito e da informática, biólogos, médicos,
por exemplo, é possível colocar o artigo indefinido
linguistas e outros especialistas.
um diante do signo cachorro, formando a sequência
Fatores naturais: o uso da língua pelos falantes um cachorro, o mesmo não seria possível se
sofre influência de fatores naturais, como idade e quiséssemos colocar o artigo uma diante do signo
sexo. Uma criança não utiliza a língua da mesma cachorro. A sequência uma cachorro contraria uma
maneira que um adulto, daí falar-se em linguagem regra de concordância da língua portuguesa, o que
infantil e linguagem adulta. faz com que essa sentença seja rejeitada. Os signos
que constituem a língua obedecem a padrões
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
determinados de organização. O conhecimento de mais importantes que são os íberos, celtas, fenícios,
uma língua engloba tanto a identificação de seus gregos e os cartagineses.
signos, como também o uso adequado de suas Os íberos tinham características de uma população
regras combinatórias. pacífica e agrícola e sofreram uma invasão dos
celtas, no século VI a.C. Os celtas eram um povo
signo = significado (é o conceito, a ideia transmitida guerreiro e turbulento, o oposto dos íberos. Com o
pelo signo, a parte abstrata do signo) + significante passar dos séculos, esses dois povos mesclaram-se
(é a imagem sonora, a forma, a parte concreta do e conseqüentemente, deram origem aos povos
signo, suas letras e seus fonemas) celtíberos.
Os fenícios, gregos e os cartagineses introduziram
colônias comerciais em vários locais da Península
Língua: conjunto de sinais baseado em palavras Ibérica e fizeram com que o envolvimento entre
que obedecem às regras gramaticais. esses povos, ficassem mais acentuado. Como os
cartagineses, povos gananciosos, pretendessem
Signo: elemento representativo que possui duas apoderar-se dela totalmente, por ocasião do século I
partes indissolúveis: significado e significante. a.C., quando houve o cerco de Sagunto, cidade de
domínio grego, na Ibéria, que deu origem à 2ª Guerra
Fala: uso individual da língua, aberto à Púnica. Com isso, os celtíberos pediram
criatividade e ao desenvolvimento da liberdade desesperadamente a ajuda dos romanos.
de expressão e compreensão.

1.1 - A expansão romana na Península Ibérica

Para impedir o crescimento de Cartago que visava


subjugar toda a Península Ibérica, os romanos
invadiram-na, no século III a.C. Os cartagineses
apresentavam sérias ameaças que poderiam acabar
de vez com os planos de Roma em dominar o mundo
mediterrâneo. Realizada a vitória sobre Cartago,
Roma concretizava todo o seu domínio político-militar
e principalmente cultural sobre toda a Península, por
volta de 197 a.C. No campo cultural, Roma foi
introduzindo com a sua conquista, impondo aos
povos vencidos a sua língua, o latim. No século I
d.C., com a anexação da Dácia ( atual Romênia ), o
Império Romano atingiu seu apogeu, o máximo de
sua expansão geográfica, sob o domínio de Trajano.
1 – A origem da língua portuguesa Os romanos levavam para as regiões conquistadas
os seus hábitos, as suas instituições, os padrões de
A língua portuguesa é inicialmente, um sua cultura, ao mesmo tempo que expandiram os
prolongamento do latim levado pelos romanos à seus domínios. Em contato com outras terras, outras
Península Ibérica, por esse motivo há uma inter- gentes e outras civilizações ensinavam, mas também
relação entre o seu histórico e a história da aprendiam. Aprenderam muito com os gregos, por
península. O latim foi um simples dialeto falado exemplo, desde as épocas antigas, através dos
pelos povos situados à margem do Rio Tibre, na etruscos e, principalmente, das colônias helênicas do
península Itálica, local denominado Lácio. Os Sul da Itália, que formavam a Magna Grécia.
Romanos levaram sua língua aos povos por eles
colonizados O português é uma língua neolatina, ou 1.2- Origem do latim literário e o latim vulgar
românica, do grupo itálico da grande família do
indo-europeu. Durante o período da invasão romana, dada
no século III a.C., os romanos, sob a benéfica
O português, denominada a última ―flor do influência grega, foram apurando o latim
Lácio‖, pelo poeta brasileiro Olavo Bilac ( pois foi a progressivamente, até atingir no século I a.C., a alta
última língua originada do latim ), nasceu da perfeição da prosa de Cícero e César, ou da poesia
evolução do latim vulgar. Em 197 a.C foi a levada de Virgílio e Horácio. Aperfeiçoamento da língua
para a Península Ibérica, área situada no continente latina que já se iniciado com Tito Andrônico, o
europeu onde se encontra atualmente Portugal e primeiro que tentou elevar à altura de língua poética
Espanha, por legionários romanos. aquele rude idioma de agricultores e pastores, que
Antes de acontecer a invasão romana na Península era então o latim, procurou diretamente emHomero e
Ibérica, lá originavam e habitavam povos dos quais nos trágicos gregos os modelos para suas
não há um total conhecimento sobre tudo o que experiências de tradução de adaptação literárias. Ele
dizia respeito a eles. Dentre esses povos, temos os próprio era um grego de Tarento.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
A hegemonia romana durou até o século V intercâmbio e contraste do latim, com as línguas
d.C. Com a influência do grego, acentuou-se a bárbaras, a Barbaria, as regiões habitadas pelos
separação entre o latim literário ( sermo ltiterarius ), outros povos da época.
língua praticada por uma elite, e a versão corrente, Os romanos entraram na Península Ibérica no século
o latim vulgar ( sermo vulgaris ), a língua usada no III a.C., por ocasião da 2ª Guerra Púnica, mas só
colóquio diário pelos mais variados grupos sociais conseguiram dominá-la por completo, ao fim de
da Itália e das províncias. A denominação latim longas e cruentas lutas, em 19 a.C., quando Augusto
vulgar, embora um tanto imprópria, tornou-se termo venceu a resistência dos altivos povos das Astúrias e
técnico da lingüística. da Cantábria.
O latim vulgar tornou-se o idioma predominante na Na Península Ibérica, bem como em todas as áreas
Península Ibérica, contudo aconteceram dominadas pelos romanos, para implantar o latim e
modificações e influências de vários dialetos e torná-lo uma língua utilizável por todos os povos da
idiomas. O idioma, trazido pelos legionários península, os romanos usaram as seguintes
romanos, foi lentamente superando as línguas dos estratégias: abriram escolas, construíram estradas,
povos pré-latinos, como diz Estrabão, geógrafo templos e organizaram o comércio, dentre outras
grego: ―Os turdetanos especialmente os que táticas. Foi constatado, através de pesquisas, que o
habitavam as margens do Bétis, haviam adotado os latim vulgar, era de vocabulário reduzido, utilizado
costumes romanos, e até já nem se lembravam da somente pelas baixas camadas sociais (
própria língua‖ até já nem se lembram da própria comerciantes, funcionários administrativos, viajantes,
língua‖ e acrescentava: ―não falta muito para que lavradores e soldados ).
todos se convertam em romanos‖. Das línguas dos povos que já existiam na península
Neste tempo, as regiões do Norte, em terras da ibérica, no século III a.C., data da invasão romana,
Galiza, das Astúrias e da Cantábria, ainda não se quase nada conservaram os idiomas hispânicos.
fazia sentir a presença de Roma, pois seus Podemos atribuir, com relativa segurança, a origem
habitantes conservavam intactos os rudes pré-romana apenas a uns quantos sufixos, tais como
costumes transmitidos de geração a geração há –arra ( bocarra ), -orro ( beatorro ), -asco ( penhasco
muitos séculos anteriormente. ) e –ego ( borrego ) – e algumas palavras de
. significação concreta: arroio, balsa, barro, braga (s),
carrasco, gordo, lama, lança, lousa, manteiga
1.3- A romanização da Península Ibérica tamuge, tojo, veiga, etc

Se os romanos se tornaram discípulos atentos dos


gregos, dos outros povos vencidos souberam ser os
mestres imitados. Não só na Itália, mas também na 1.4- O domínio visigótico
Gália, na Hispânia, na Récia e na Dácia. As tribos
mais diversas logo assimilaram os seus costumes e Quando a Península Ibérica foi invadida novamente,
instituições, adotaram a língua latina como língua desta vez, pelos povos bárbaros Germanos ( alanos,
própria. É dizer romanizaram-se, inclusive os povos suevos e vândalos ) que entre as principais
da Península Ibérica. características, a mais famosa era o vandalismo e
O latim vulgar tendo sido adotado por povos tão apresentaram uma cultura inferior à dos
diversos, em uma área tão vasta, não pode peninsulares. O influxo dos bárbaros Germânicos,
conservar a sua relativa unidade, já precária como não penetrou a ponto de atingir a base da língua.
de toda língua que serve como meio de A partir daí, já não havia mais a unidade lingüística
comunicação a vastas e variadas comunidades de do império romano, embora continuasse existindo os
analfabetos. O latim difundiu o padrão literário no contatos políticos entre as suas diversas partes, por
seu ensino, nos centros urbanos mais importantes e uma certa comunidade de civilização.
desta forma conseguia retardar até certo ponto os Os alanos desapareceram rapidamente, os vândalos,
efeitos das forças de diferenciação. Mas no campo depois de haverem fixado-se na Bética,
ou nas vilas e aldeias a língua, sem nenhum transportaram-se para a África, em 429 d.C. e os
controle normativo, ia tornando-se autônoma, suevos estabeleceram-se na Galécia e na Lusitânia,
incorporando variações próprias dos dialetos mas no século VI d.C. foram absorvidos pelos
utilizadas anteriormente nos locais e na formação visigodos, estes eram mais os mais civilizados dos
de neologismos. povos germânicos e já mantinham antigos contatos
Podemos dizer que a unidade lingüística do Império com os romanos. Estavam sediados na Aquitânia,
não mais existia, a partir do século III da nossa era, sudoeste da Gália, desde 425 de nossa era.
embora os contatos políticos continuassem entre Os visigodos logo se fundiram com a população
suas diversas partes, interligadas por uma certa românica. E três fatos concorreram para que isto
comunidade de civilização. acontecesse: A abolição da lei que proibia o
No périodo em que foi dado o fim da invasão dos casamento de godos com hispanos, ato de
Romanos na Península Ibérica, os povos bárbaros, Leovegildo; a conversão, em 586, de Recaredo ao
de procedência germânica, em 409 da nossa era, Cristianismo e o código, promulgado por Recesvindo
dominaram a península. Houve o que se entende me 654, que não mais distinguia os direitos das
por Romania, um período de aculturação e de comunidades goda ehispana. Assim, quando

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Rodrigo, o último rei godo, não pôde deter a moçárabes. Os árabes nos deixaram pouquíssimas
invasão árabe, em 711, com ele ruía não apenas o influências relacionadas à Língua Portuguesa e um
império romano-visigótico, que tinha como religião o grande exemplo a ser citado seria o léxico: cerca de
Cristianismo e como língua o hispano-românico, mil vocábulos de origem árabe existem no léxico
legítimo continuador do latim vulgar.. português. Muitos vocábulos são caracterizados
Do período denominado, o domínio Visigótico, com pelos prefixos ‗Al‘, artigo definido árabe e alguns
a invasão da Península Ibérica pelos povos exemplos de palavras com este prefixo são:
bárbaros mencionados conservou-se as palavras alcachofra, alecrim, alface, alfafa, alfazema, algodão,
godas que se conservaram em português, divididas alcaide, alfange, alferes, algarada, alijava, alfageme,
em 4 grupos ( excluindo nomes próprios de alfaiate, algibebe, almocreve, almotacel, almoxarife,
pessoas e de lugares ): no 1° grupo, palavras que já alaúde, álgebra, algoritmo, álcool, álcali e etc. E
pertenciam ao latim vulgar ou medieval, albergue, ainda, palavras tais como acicate, adail, adarga,
arrear, bramar, bando, elmo, espora, guarda, ameia, arrebatar, atalaia, ronda, zaga, açafrão,
guerra, rapar, trégua; no 2º grupo, as palavras açúcar, açucena, benjoim, berinjela, aduana,
comuns a todas as regiões ocupadas armazém, arroba, quilate, quintal, califa, emir, adufe,
primitivamente pelos Godos, aspa, espeto, espia, anafil, arrabil, tambor, cifra, zênite, nadir e etc. Em
estala, garbo, mofo, mofino, roca, taco, ufanar-se; alguns casos os árabes foram os intermediários de
no 3º grupo, palavras peculiares à península e à palavras que haviam tomado a outras línguas. São,
França, ou à península e a Itália, agasalhar, brotar, por exemplo, de origem grega: alambique, alcaparra,
estaca, fato, roupa, sítio, triscar e, finalmente no 4º alfândega, alquimia, acelga e arro; de origem
grupo, as palavras privativas dos idiomas íberos- sânscrita: alcanfor e xadrez; de origem persa: azul,
germânicos, aio, aia, aleive, enguiçar, escanção, escarlate, jasmim e laranja. Do próprio latim há uma
ganso, guarecer, íngreme, luva, malada ( arcáico ), série de palavras introduzidas de forma arabizada:
tascar. abricó, alcácer, albornoz, almude, alporão ( in
Desta forma, o latim espalhou-se pela Itália, CUNHA & LINDLEY. 2007 ).
Córsega e Sardenha, pela Gália, Espanha, norte e
nordeste da Récia, pelo leste da região de Dácia. O
latim disseminou, causando línguas diversas, de 1.5- O português primitivo ( período evolutivo da
onde surgiram as línguas românicas ou novilatinas. língua )
Com a queda do Império Romano, o latim vulgar
sofreu muitas modificações pela ação do substrato
lingüístico ( língua de um povo vencido sobre a qual À medida em que o cristãos avançaram para o sul, os
se superpõe a língua do vencedor ) originando dos dialetos do norte interagiram com os dialetos
bárbaros, com isso o romance ( conhecido como moçárabes do sul, começando o processo de
latim vulgar ). O romance era falado pelo povo e diferenciação do português em relação ao galego-
passou a se desenvolver independemente em cada português. A separação entre o galego e o português
região, ou seja, dialetou-se. se iniciou com a independência de Portugal, em 1185
e se consolidou com a expulsão dos mouros em
1.4- O domínio árabe. 1249, além da derrota dos castelhanos, em 1385,
que tentaram anexar o país.
Com a expansão do território mais para o sul, em
Depois da dissociação da monarquia dos visigodos, 1140, o rei Afonso Henriques, faz a sua
os árabes se apoderaram da Península Ibérica, independência em relação a Espanha, proclamando-
logo após terem vencidos os visigodos. Com se o 1º rei de Portugal. Nessa região temos o dialeto
exceção da região das Astúrias, onde galeziano que era uma língua estabelecida na região
inconformados visigodos se refugiaram e onde Portugal foi fundado e conseqüentemente
planejaram a reconquista. depois de algum tempo, passou a ser conhecido
como galaico-português. Foi através dessa língua é
O árabe tornou-se o idioma oficial, logo, o que temos a criação do primeiro documento da nossa
latim foi ainda mais alterado, porém o romance literatura, ―Cantiga de Ribeirinha‖.
ainda era usado pelos derrotados. Porém não O português arcaico originou-se a partir do século XII
duvida-se que desta convivência árabe, a língua em que foi criado o primeiro texto totalmente redigido
guarda até hoje várias palavras. em português: ―Cantiga da Ribeirinha‖, poesia escrita
por Paio Soares, no qual identificações do português
Nas Astúrias, formou-se um dialeto arcáico se dava através de poesias trovadorescas
chamado de galaico-português, pois não havia que estão juntas em ―cancioneiros‖.
diferença no falar da Galaza e da região chamada O Português é falado nos cinco continentes e se
de Condado Portugalense. mostra instrumento de alta eficiência da criação
estética em poesia e prosa.
Da invasão ocorreu da Península Ibérica, Falado em Portugal, Brasil, Angola, Moçambique,
provocada pelos Árabes, no século VIII. Algumas Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.
povoações automaticamente receberam influência A decadência do latim se deu com as invasões
na linguagem e nos costumes são os chamados bárbaras, no século V, corrompendo-o É com a

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
presença árabe, no século VIII, cuja magnífica poliglotas. Apela pelo modelo imposto da língua
cultura contribuiu à decadência reduzindo o latim a dominante para formar o ―pidgin‖ ( um modelo
alguns vernáculos. simples, restrito e persuasivo de linguagem, que mais
Entre os séculos XIV e XVI, com a construção do tarde se expandiria pelas novas gerações, originando
império português de ultramar, a língua portuguesa o crioulo.
faz-se presente em várias regiões da Ásia, África e Observa-se que o português de Angola, Guiné-
América, sofrendo influências locais (presentes na Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo
língua atual em termos como jangada, de origem Verde é embasado na variedade européia, pouco
malaia, e chá, de origem chinesa). Com o modificado portanto.
Renascimento, aumenta o número de italianismos e
palavras eruditas de derivação grega, tornando o
português mais complexo e maleável. O fim desse
período de consolidação da língua (ou de utilização
do português arcaico) é marcado pela publicação
do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em
1516.

2 – DOMÍNIOS ATUAIS DA LÍNGUA


PORTUGUESA

Atualmente, a língua portuguesa é falada em área


vastíssima e descontínua, do globo terrestre. O
português é uma língua viva, internamente
diferenciada em variedades que divergem de
maneira mais ou menos acentuada quanto à
pronuncia, à gramática e ao vocabulário. Embora
seja inevitável a existência de tais diferenciações,
ela não é suficiente para impedir a unidade superior
da Língua Portuguesa.
A língua portuguesa conserva harmonia entre as
suas diversas variedades, por mais que sua
expansão na Europa tenha sido modificada e em
outros continentes e territórios excluindo o caso das
línguas criolas.

2.1- Os dialetos do português europeu:

Na faixa ocidental da Península Ibérica ocupada


pelo galego-português apresenta-se um conjunto de
dialetos que, de acordo com certas características
diferenciais de tipo fonético, podem ser
classificados em três grandes grupos: os dialetos
galegos; os dialetos portugueses setentrionais e os
dialetos portugueses centro meridionais.

2.2- O português da África, Ásia e Oceania:

Há dois tipos de variedades no que tange à


assunção da língua portuguesa na África, Ásia e
Oceania: as crioulas e as não-crioulas.
As variedades crioulas são a adição dos contatos
lingüísticos português e indígena. Desde a
expansão portuguesa, mormente a partir do séculos
XV e XVI, os protocrioulos serviram de base para a
comunicação entre navegadores, mercadores e
pessoas simples nas costas da Arábia, Pérsia,
Índia, Malásia, China, Japão, África Ocidental e
África Oriental. Os crioulos são línguas criadas pela
necessidade de comunicação entre sujeitos

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
fonéticas do latim ao português, ou seja, são
―aquelas que viviam no léxico da língua quando
deixou de ser latim para ser identificada como
português, numa passagem ininterrupta no tempo e
no espaço‖ – Bechara (2002:217-8).

Nos termos de Melo (1981:158), trata-se do


conjunto constituído pelas palavras ―que vieram por
tradição histórica, de boca a ouvido, através das
gerações‖. Compreendem não só a base latina
popular – indiscutivelmente, o grosso do conjunto –,
INFORMAÇÕES PRELIMINARES
mas igualmente unidades lexicais de origem pré-
românica, isto é, das línguas pertencentes aos povos
que habitavam a Península Ibérica antes da chegada
De acordo com Azeredo (2000:72),
dos romanos no século II a.C. (arroio, baía, balsa,
quando a língua portuguesa começou barro, bezerro, bico, bizarro, brio, cabana, cama,
a ser escrita – no início do século XIII – cambiar, caminho, camisa, carpinteiro, carro, cerveja,
seu léxico reunia cerca de 80% de esquerdo, garra, gato, gordo, lança, légua, lousa,
[2]
palavras de origem latina e outros cerca manto, mapa, mata, peça, saco, sapo, sarna etc.) e
de 20% de palavras pré-romanas, pós-românicas, ou seja, germanismos (frutos das
germânicas e árabes. invasões bárbaras do século V, por exemplo,
albergue, anca, arauto, arreio, banco, bando, banho,
Trata-se do acervo vocabular que se pode branco, brasa, carpa, coifa, elmo, espora, estribo,
denominar hereditário, isto é, aquele surgido junto guerra, roupa, sabão) e arabismos (resultado da
com o idioma, que a ele forneceu padrão fonético e presença dos árabes na Península a partir do ano
morfológico. 711, por exemplo, açougue, açude, alcachofra,
alface, álgebra, alicate, arroz, azeite, oxalá), as quais
A partir do século XIII, fatores diversos
contribuíram da mesma maneira para a formação do
colocaram o português em contato com várias
português.
outras línguas ao redor do planeta. Como
resultado disso, a adoção de numerosas palavras Baseando-se na forma fonética – ―combinação
pertencentes a esses idiomas, num processo de de fonemas concorde com a estrutura fonética de
enriquecimento contínuo, que ainda hoje se determinada língua‖ (Jota, 1981:forma fonética) –
verifica. oferecida pelos itens léxicos pertencentes à camada
hereditária, é possível afirmar que gato, leão, leite e
Nesse sentido, a língua portuguesa ostenta,
mesa podem representar lexemas legitimamente
em seu pecúlio lexical, vocábulos provenientes de
portugueses, ao passo que speranza, felicidad, eau e
sistemas lingüísticos tão diferentes quanto o
school não podem, visto estarem em desacordo com
provençal, o holandês, o hebraico, o persa e o
os padrões dessa língua.
quíchua ou o chinês, o turco, o japonês, o alemão e
o russo, sem falar em idiomas bem mais familiares, Melo (1981:149) não fala em palavra
como o inglês, o francês, o espanhol e o italiano, os hereditária, mas em continuidade lingüística, isto é,
quais, juntamente com muitos outros, ajudaram a
moldar esse heterogêneo mosaico que é o léxico as palavras que compõem o fundo
português. originário do idioma, as palavras herdadas,
que nasceram com a língua e receberam a
impressão de seus sinais característicos e
de suas tendências marcantes.
PALAVRAS HEREDITÁRIAS E PALAVRAS DE
EMPRÉSTIMO No caso do português são os vocábulos
que se usavam no latim vulgar e no
Aplicando-se ao português uma noção que é romance portucalense e que continuaram a
pertinente às línguas de modo geral, é possível ser empregados pelo povo na fala de
classificar as palavras que compõem o seu suevos, visigodos e mais gente que habitou
vocabulário em hereditárias e de empréstimo. a faixa ocidental da Península entre os
séculos V e IX. As contribuições germânica
As primeiras, elementos do léxico original, e árabe se capitulam nesta primeira fonte.
―fazem parte de uma tradição lingüística
ininterrupta‖ – Pisani (s/d:57) –, refletindo ―as Por outro lado, palavras de empréstimo são as
transformações fonéticas que caracterizam o idioma provenientes de outros sistemas lingüísticos –
à época dos seus primeiros momentos‖ – Bechara inclusive do latim, os chamados cultismos ou
(1998:116). Transmitidas oralmente, encontram-se eruditismos – acolhidas pelo português após o
identificadas com a fase pré-histórica do idioma, término de seu período de formação. Artificialmente
tendo passado por todas as transformações

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
vestidas à portuguesa, denunciam, em maior ou chamados de termos literários – depois que certas
menor grau, sua procedência alienígena. mudanças fonéticas não mais ocorriam. É fato
conhecido que as leis fonéticas têm uma duração
Conforme observa Robins (1977:324) limitada no tempo, apresentando um período
relativamente à relação francês / latim, específico de atuação. Nesse sentido, é comum que
Evidentemente, o termo empréstimo é essas palavras apresentem seqüências fonológicas e
apenas usado de modo sensato em grupos consonantais evitados pela história do
relação a uma língua admitida já estar em português, tendo havido ―apenas a adaptação da
existência independente. Não se pode parte final aos modelos mórficos portugueses
considerar o vocabulário do francês, que [gênero, número e pessoa] e uma ou outra alteração
tem estado em uso contínuo desde a para evitar grupos anômalos de fonemas (...)‖ –
época dos romanos, enquanto ocorreram Câmara Jr. (1991:eruditos).
mudanças lingüísticas constituídas da
passagem do latim para o francês, como A absorção desses cultismos foi
particularmente significativa durante o Renascimento,
empréstimos do latim, já que o francês é
mas não se limitou a esse período. Como lembra
simplesmente a forma que o latim tomou
Coutinho (1976:200), ―as traduções de obras,
numa certa parte da Europa.
sobretudo latinas, contribuíram para a existência de
Já Bechara (1998:115-6), ao comentar a um grande número de palavras cultas, no nosso
relação português / latim, afirma que vocabulário‖.

Antigamente, uma forma do tipo pé e Em português, alguns adjetivos eruditos


mês era chamada popular, e outra do tipo relacionam-se a substantivos populares, como nos
de pedal e mensal era chamada erudita, casos de água / aquoso, céu / celeste ou celestial,
porque, com pequena adaptação ao gênio dor / doloroso, fogo / ígneo, ilha / insular, lei /
do foneticismo português, refletia a legislativo ou legal, luz / lúcido, mês / mensal, neve /
integridade da forma originária latina. nívio, olho / ocular, ouro / áureo, paz / pacífico, povo /
Hoje, em vez desses nomes, que podem popular, touro / taurino e vida / vitalício, enquanto
levar o leitor a dar interpretação literal aos certos superlativos eruditos derivam-se de adjetivos
adjetivos popular e erudita – e assim populares, por exemplo, crudelíssimo / cruel,
entender uma meia verdade –, preferem- fidelíssimo / fiel, paupérrimo / pobre.
se, respectivamente, as expressões
hereditário e de empréstimo, para Por vezes, a unidade léxica erudita apresenta
indicarem formas que existiam no léxico a mesma origem de outra popular, o que faz surgir,
na época em que o português se então, as chamadas formas divergentes (cf., por
constituiu como tal ou, então, formas que exemplo, afeição / afecção, avesso / adverso, bola /
foram introduzidas depois dessa fase. bula, bucho / músculo, chamar / clamar, chave /
clave, circo /círculo, coalhar / coagular, comprar /
Melo (1981:149) conclui: comparar, contar / computar, cunhado / cognato,
Este vocabulário original é o mais dobro / duplo, eira / área, empregar / implicar, escuro
importante, não só por ser o mais / obscuro, estreito / estrito, feição / facção, feitura /
freqüente no uso comum, mas também fatura, findo / finito, frio / frígido, frouxo / fluxo, geral /
por constituir a fôrma (sic) segundo a qual general, grude / glúten, herdeiro / hereditário, leal /
se modelarão, pelo tempo adiante, legal, leigo / laico, livrar / liberar, logro / lucro, lugar /
milhares e milhares de outras palavras, local, macho / másculo, madeira / matéria, mãe /
advindas da importação estrangeira ou madre, mascar / mastigar, meigo / mágico, meio /
decorrentes de formação vernácula. médio, miúdo / minuto, paço / palácio, palavra /
parábola, pardo / pálido, partilha / partícula,
pendência / penitência, pesar / pensar, primeiro /
primário, puir / polir, puxar / pulsar, queimar / cremar,
CULTISMOS E SEMICULTISMOS
ração / razão, recobrar / recuperar, rezar / recitar, rijo
A maior parte do léxico da língua portuguesa / rígido, rolha / rótula, ruído / rugido, sarar / sanar,
é, como já mencionado anteriormente, de origem segredo / secreto, silvar / sibilar, siso / senso, sobrar /
latina. A porção mais significativa desse conjunto superar, soldo / sólido, soma / suma, teia / tela, teso /
[3]
constitui-se dos itens lexicais populares, nunca é tenso, traição / tradição, viço / vício.
demais repetir, aqueles que, ao longo do tempo,
foram sofrendo, na boca do povo, toda uma série Mencione-se, ainda, a existência, no léxico do
de modificações fonéticas espontâneas e português, das chamadas formas semicultas ou
contínuas. semi-eruditas, espécie de meio-termo entre as cultas
e as populares, as quais distinguem-se dessas
Ao lado desses, é possível identificar ainda últimas por ―apresent[arem] mudanças fonéticas, mas
os chamados cultismos ou eruditismos, introduzidos não as mudanças sistemáticas e fundamentais que
por via escrita – razão pela qual também são constituem o conjunto das leis fonéticas do romanço

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
lusitânico e do protoportuguês‖ – Câmara Jr. O primeiro momento começa com o início da
(1991:semi-eruditos). colonização e vai até a saída dos holandeses do
Brasil, em 1654. Nesse período o português convive,
no território que é hoje o Brasil, com as línguas
indígenas, com as línguas gerais e com o holandês,
esta última a língua de um país europeu e também
colonizador. As línguas gerais eram línguas tupi
faladas pela maioria da população. Eram as línguas
do contato entre índios de diferentes tribos, entre
índios e portugueses e seus descendentes, assim
como entre portugueses e seus descendentes. A
língua geral era assim uma língua franca. O
português, como língua oficial do Estado português,
era a língua empregada em documentos oficiais e
praticada por aqueles que estavam ligados à
administração da colônia.

O segundo período começa com a saída dos


A língua portuguesa formou-se como língua holandeses do Brasil e vai até a chegada da família
específica, na Europa, pela diferenciação que o real portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808. A saída
latim sofreu na Península Ibérica durante o dos holandeses muda o quadro de relações entre
processo de contatos entre povos e línguas que se línguas no Brasil na medida em que o português não
deram a partir da chegada dos romanos no século II tem mais a concorrência de uma outra língua de
a.C., por ocasião da segunda Guerra Púnica, no Estado (o holandês). A relação passa a ser,
ano de 218 a.C(1). Na Península Ibérica o latim fundamentalmente, entre o português, as línguas
entrou em contato com línguas já ali existentes. indígenas, especialmente as línguas gerais, e as
Depois houve o contato do latim já transformado línguas africanas dos escravos. Esse período
com as línguas germânicas, no período de caracteriza-se por ser aquele em que Portugal, dando
presença desses povos na península (de 409 a 711 andamento mais específico ao processo de
d.C). Em seguida, com a invasão mulçumana colonização, toma também medidas diretas e
(árabes e berberes), esse latim modificado e já em indiretas que levam ao declínio das línguas gerais. A
processo de divisão entra em contato com o árabe. população do Brasil, que era predominantemente de
Na primeira fase do processo de reconquista da índios, passa a receber um número crescente de
Península Ibérica pelos cristãos, que tinham portugueses assim como de negros que vinham para
resistido no norte, os romances (latim modificado o Brasil como escravos. Para se ter uma idéia, no
por anos de contato com outros povos e línguas) século XVI foram trazidos para o Brasil 100 mil
tomaram uma feição específica no oeste da negros. Este número salta para 600 mil no século
península, formando o galego-português e em XVII e 1,3 milhão no século XVIII. O espaço de
seguida o português. Formou-se paralelamente o línguas do Brasil passa a incluir também a relação
Condado Portugalense e, a partir dele, um novo das línguas africanas dos escravos e o português.
país, Portugal. Toma-se como data de Com o maior número de portugueses cresce também
independência do condado do reino de Castela e o número de falantes específicos do português. E isto
Leão a batalha de São Mamede em 1128. tem uma outra característica: os portugueses que
vêm para o Brasil não vêm da mesma região de
Essa nova língua, depois de um longo Portugal. Desse modo, passam a conviver no Brasil,
período de mudanças correspondente a todo o final num mesmo espaço e tempo, divisões do português
da chamada Idade Média, é transportada para o que, em Portugal, conviviam como dialetos de
Brasil, assim como para outros continentes, no regiões diferentes.
momento das grandes navegações do final do
século XV e do século XVI. Nesse período, ainda, há dois fatos de
extrema importância. O primeiro deles é a ação direta
PORTUGUÊS: LÍNGUA OFICIAL E NACIONAL do império português que age para impedir o uso da
DO BRASIL Com o início efetivo da colonização língua geral nas escolas. Esta ação é uma atitude
portuguesa em 1532, a língua portuguesa começa a direta de política de línguas de Portugal para tornar o
ser transportada para o Brasil. Aqui ela entra em português a língua mais falada do Brasil. Uma
relação, num novo espaço-tempo, com povos que dessas ações mais conhecidas é o estabelecimento
falavam outras línguas, as línguas indígenas, e do Diretório dos Índios (1757), por iniciativa do
acaba por tornar-se, nessa nova geografia, a língua Marquês de Pombal, ministro de Dom José I, que
oficial e nacional do Brasil. Podemos estabelecer proibia o uso da língua geral na colônia. Assim, os
para esta história quatro períodos distintos, se índios não poderiam mais usar nenhuma outra língua
consideramos como elemento definidor o modo de que não a portuguesa. Essa ação, junto com o
relação da língua portuguesa com as demais aumento da população portuguesa no Brasil, terá um
línguas praticadas no Brasil (2) deste 1532 (3).

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
efeito específico que ajuda a levar ao declínio com nossos escritores, trabalham o "sentimento" do
definitivo da língua geral no país (4). português como língua nacional do Brasil (7).

O português que já era a língua oficial do Esse quarto período, no qual o português já se
Estado passa a ser a língua mais falada no Brasil. definira como língua oficial e nacional do Brasil, trará
uma outra novidade, o início das relações entre o
O terceiro momento do português no Brasil português e as línguas de imigrantes. Começa em
começa com a vinda da família real em 1808, como 1818/1820 o processo de imigração para o Brasil,
conseqüência da guerra com a França, e termina com a vinda de alemães para Ilhéus (1818) e Nova
com a independência. Poderíamos utilizar, como Friburgo (1820). Esse processo de imigração terá um
data final desse período, 1826, pois é nesse ano momento muito particular na passagem do século
que se formula a questão da língua nacional do XIX para o XX (1880-1930). A partir desse momento
Brasil no parlamento brasileiro. entraram no Brasil, por exemplo, falantes de alemão,
italiano, japonês, coreano, holandês, inglês. Deste
A vinda da família real terá dois efeitos modo o espaço de enunciação do Brasil passa a ter,
importantes. O primeiro deles é um aumento, em em torno da língua oficial e nacional, duas relações
curto espaço de tempo, da população portuguesa significativamente distintas: de um lado as línguas
no Brasil. Chegaram ao Rio de Janeiro em torno de indígenas (e num certo sentido as línguas africanas
15 mil portugueses. O segundo é a transformação dos descendentes de escravos) e de outro as línguas
do Rio de Janeiro em capital do Império que traz de imigração.
novos aspectos para as relações sociais em
território brasileiro, e isto inclui também a questão Essa diferença não é simplesmente uma
da língua. Logo de início Dom João VI criou a diferença empírica do tipo: as línguas indígenas e
imprensa no Brasil e fundou a Biblioteca Nacional, seus falantes já existiam no Brasil quando da
mudando o quadro da vida cultural brasileira, e chegada dos portugueses e as línguas de imigração
dando à língua portuguesa aqui um instrumento vieram depois. A diferença é de modo de relação. As
direto de circulação, a imprensa. Esses fatos línguas indígenas e africanas entram na relação
produzem um certo efeito de unidade do português como línguas de povos considerados primitivos a
para o Brasil, enquanto língua do rei e da corte. serem ou civilizados (no caso dos índios) ou
escravizados (no caso dos negros). Ou seja, não há
O quarto período começa em 1826. Nesse lugar para essas línguas e seus falantes. No caso da
ano o deputado José Clemente propôs que os imigração, as línguas e seus falantes entram no
diplomas dos médicos no Brasil fossem redigidos Brasil por uma ação de governo que procurava
em "linguagem brasileira". Em 1827 houve um cooperação para desenvolver o país. E as línguas
grande número de discussões sobre o fato de que que vêm com os imigrantes eram, de algum modo,
os professores deveriam ensinar a ler e a escrever línguas nacionais ou oficiais nos países de origem
utilizando a gramática da língua nacional. Ou seja, dos imigrantes. Essas línguas são línguas
a questão da língua portuguesa no Brasil, que já legitimadas no conjunto global das relações de
era língua oficial do Estado, se põe agora como línguas, diferentemente das línguas indígenas e
uma forma de transformá-la de língua do africanas. As línguas dos imigrantes eram línguas de
colonizador em língua da nação brasileira. Temos povos considerados civilizados, em oposição às
aí constituída a sobreposição da língua oficial e da línguas indígenas e africanas.
língua nacional.
Enquanto língua oficial e língua nacional do
Essas questões tomam espaços Brasil, o português é uma língua de uso em todo o
importantes tanto na literatura quanto na território brasileiro, sendo também a língua dos atos
constituição de um conhecimento brasileiro sobre o oficiais, da lei, a língua da escola e que convive, na
português no Brasil. É dessa época a literatura de extensão do território brasileiro, com um grande
José de Alencar (5) que tem debates importantes conjunto de outras línguas (de um lado as línguas
com escritores portugueses que não aceitavam o indígenas e de outro as línguas de imigrantes). Por
modo como ele escrevia. É também dessa época o outro lado, enquanto língua nacional, o português é
processo pelo qual os brasileiros tiveram significado como a língua materna de todos os
legitimadas suas gramáticas para o ensino de brasileiros, mesmo que um bom número de
português e seus dicionários (6). Dessa maneira brasileiros tenham como língua materna outras
cria-se historicamente no Brasil o sentido de línguas, ou indígenas ou de imigrantes.
apropriação do português enquanto uma língua que
tem as marcas de sua relação com as condições CARACTERÍSTICAS DO PORTUGUÊS DO BRASIL
brasileiras. Pela história de suas relações com outro
espaço de línguas, o português, ao funcionar em A vinda da língua portuguesa para o Brasil
novas condições e nelas se relacionar com línguas não se deu, como vimos, em um só momento. Ela se
indígenas, língua geral, línguas africanas, se deu durante todo o período de colonização entrando
modificou de modo específico e os gramáticos e em relação constante com outras línguas. Por outro
lexicógrafos brasileiros do final do século XIX, junto lado, o povoamento do Brasil se fez com a vinda de
portugueses de todas regiões de Portugal. Desse
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
modo, sua vinda para o Brasil traz para esse novo aberto, com a língua em repouso embaixo, na boca;
espaço as diversas variedades do português de que as vogais /é/, /ê/, /i/ são anteriores, elas são
Portugal. Estas variedades se instalarão em lugares pronunciadas com um movimento da língua para
diferentes do Brasil mas, em muitos casos, elas frente; e as vogais /ó/, /ô/, /u/ são posteriores,
convivem num mesmo espaço, como no Rio de pronunciadas com um movimento da língua para trás.
Janeiro, por exemplo. Em Portugal (8), além dessas vogais, há também um
/ä/, que não é aberto como o /a/. Este /ä/ é
O português do Brasil vai, com o tempo, pronunciado com uma certa elevação da língua,
apresentar um conjunto de características não diferentemente do /a/ aberto pronunciado com língua
encontráveis, em geral, no português de Portugal, em repouso, embaixo na boca. Assim é que, na
da mesma maneira que o português, em diversas língua falada, se distingue /falämos/, presente do
outras regiões do mundo, terá características indicativo, de /falamos/ passado perfeito (9).
também específicas, em virtude das condições
novas em que a língua passou a funcionar. Há que b) Na posição átona final, no português do Brasil, de
se considerar que, se levamos em conta a língua modo geral, há três vogais /a/ (casa), /i/ (barbante,
escrita, vamos encontrar uma maior proximidade pronunciado [barbãti]), /u/ (menino, pronunciado
entre o português do Brasil, assim como o de outras [meninu] e mesmo [mininu]). Em Portugal são
regiões do mundo, com o português de Portugal, já também três vogais, /ä/, /ë/ e /u/. Assim
que a língua escrita está mais sujeita à diferentemente do Brasil, /ä/ é pronunciado com a
normatização da língua efetivada através das língua mais alta, com timbre mais fechado, /ë/ é
gramáticas normativas, dicionários e outros pronunciado fechado, mas numa posição mais
instrumentos reguladores da língua. Na língua oral posterior do que o /ê/ do Brasil. O /u/ tem as mesmas
o processo de incorporação de características características fonéticas do /u/ brasileiro.
específicas se faz de modo mais rápido.
c) Na posição pretônica, há no português do Brasil,
Meu objetivo não é, neste texto, discutir em geral, 5 vogais, /a/, /ê/, /i/, /ô/, /u/, enquanto que
essas diferenças internas, mas mostrar como o em Portugal mantêm-se as 8 vogais da posição
português do Brasil apresenta um conjunto tônica, com a diferença de que o /ê/ passa a /ë/,
importante de características específicas. A seguir, numa pronúncia mais central: /a/, /ä/; /é/, /ë/, /i/; /ó/,
vou apresentar um conjunto destas características /ô/, e /u/.
encontráveis no português do Brasil. Vou me limitar
a apresentar aqui o que chamarei de diferenças CARACTERÍSTICAS MORFOLÓGICAS E
gramaticais e lexicais (de vocabulário). SINTÁTICAS No nível sintático, uma primeira
Evidentemente que a caracterização do português característica geral do português do Brasil é que ele,
do Brasil envolve a consideração efetiva das no que toca ao funcionamento dos pronomes átonos
diversas divisões a que a língua portuguesa está (me, te, se, lhe, o, a, etc) tem uma colocação mais
sujeita no Brasil, tanto regionais quanto sociais e proclítica, não sendo encontrável em Portugal, por
históricas (tal como mostram o artigo "Variedades exemplo, João se levantou, tão comum no Brasil. Isto
do português no mundo e no Brasil" de Emílio faz com que toda a colocação de pronomes átonos
Pagotto, para a questão das diferenças na língua, e no Brasil seja bastante diferente da de Portugal. Este
o artigo "Língua brasileira" de Eni Orlandi, sobre os tipo de diferença tem muito a ver com o fato de que
aspectos discursivos envolvidos nessa questão). as diferenças fonético-fonológicas, apontadas antes,
levam a um outro ritmo da frase, assim como uma
Nas características gramaticais podemos distinguir diferença de tonicidade nesses pronomes. Isto
dois conjuntos de características: o das resulta em um outro modo de colocá-los na frase, tal
características fonético-fonológicas, o das como já nos mostrou Ali (1908).
características morfológicas e sintáticas.
No Brasil é também comum construções
CARACTERÍSTICAS FONÉTICO-FONOLÓGICAS como está escrevendo, com estar + gerúndio, não
comum em Portugal, onde se encontram expressões
Neste nível, a grande especificidade do como está a escrever, com estar a + infinitivo. É
português do Brasil, se comparado ao de Portugal, também comum no Brasil expressões com a
considerando o que Pagotto nos mostra no seu preposição em, que em Portugal são com a
texto, é seu sistema de vogais. Para observar esse preposição a. Tem-se, comumente no Brasil, está na
aspecto é necessário distinguir, tal como nos janela, chegou no Brasil, quando em Portugal se tem
mostrou Câmara (1953, 1970) a vogal na posição está à janela, chegou ao Brasil.
tônica (da sílaba com acento de intensidade), a
vogal na posição átona final (como o /a/ de fuga), e Segundo Galves (2002), a principal
a vogal na posição pretônica (como o /a/ de até). característica sintática do português do Brasil, é que
ele é uma língua de tópico, diferentemente do
a) Na posição tônica, o português do Brasil português de Portugal e das demais línguas latinas
apresenta 7 vogais: /a/ (entrada); /é/ (deve), /ê/ (10). Esta posição se desenvolve a partir de uma
(medo), /i/ (viga); /ó/ (avó), /ô/ (avô), /u/ (urubu). formulação de Pontes (1987) que mostrou como
Note-se que a vogal /a/ é pronunciada, com timbre muitas construções do português no Brasil precisam
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
ser entendidas como construções com tópico. Para preferencialmente ao sujeito nulo (que na escola
apresentar a formulação de Galves usaremos as conhecemos como sujeito oculto), diferentemente do
abreviações SN e V que significam sintagma português de Portugal, onde aparece
nominal e verbo. Um sintagma é um elemento preferencialmente o sujeito nulo e em que o ele
lingüístico de nível inferior ao da frase e que possui aparece quando é necessário marcar a concordância,
na sua forma elementos lingüísticos de nível já que a terminação verbal é a mesma entre a
sintático ainda mais baixo, em geral ele combina primeira e a terceira pessoa, ou para estabelecer um
pelo menos dois elementos. No caso do SN contraste.
(sintagma nominal), o sintagma é constituído pelo
menos por um nome e tem geralmente pelo menos c)ele como objeto de preposição
um determinante para este nome, como em o
menino, onde menino é o nome e o é o No Brasil é comum frases como o André, que
determinante e o menino é o SN. A noção de verbo, eu gosto dele, é mais bonito, enquanto em Portugal
para o que aqui nos interessa, é a que usualmente só se encontram frases como o André de quem eu
conhecemos.Dito isto, para Galves, a frase do gosto. Este aspecto está diretamente relacionado
português do Brasil tem como estrutura SN [SN V com o funcionamento das relativas no português
(SN), diferentemente do português de Portugal e as brasileiro. Tal funcionamento no Brasil se caracteriza
línguas latinas em geral, que têm como estrutura da por ter uma predominância de relativas com este
frase SN [V (SN). O colchete separa o que se pronome que retoma um nome da principal (chamado
apresenta como o que se diz do primeiro SN. pronome lembrete, o ele (dele) do primeiro exemplo
acima), e é predominante quando a retomada está
Para entender essa diferença, em sintagma preposicional, conforme mostrou Tarallo
consideremos duas frases: João fez o trabalho e (1996). Este funcionamento predominante no Brasil é
João, ele fez o trabalho. Na primeira, com a palavra oposto ao predominante em Portugal, onde o mais
João refere-se a alguém (João) e predica-se dele comum é o de construções como O André, de quem
algo, fez o trabalho. Neste caso, João que faz a eu gosto, é mais bonito.
referência a uma pessoa é também o sujeito da
frase. Na segunda frase, João refere alguém, Este aspecto está ligado ao crescimento no
depois tem-se como sujeito o pronome ele, que português do Brasil de um outro funcionamento da
retoma João (anaforiza João) do qual se predica fez relativa que se chama de relativa cortadora, como em
o trabalho. Deste modo a seqüência É uma pessoa que essas besteiras que a gente fica
sujeito+predicado (ele fez o trabalho) aparece no se preocupando, ela não fica esquentando a cabeça.
conjunto como dizendo algo de João, referido pela Em Portugal a construção encontrável seria É uma
palavra João. Nesta segunda frase, João é o tópico, pessoa que não fica esquentando a cabeça com
aquilo sobre o que se vai dizer algo. estas besteiras que nos preocupam. No português do
Diferentemente, na primeira frase, aquilo sobre o Brasil hoje há a predominância das construções
que se vai dizer algo é diretamente o sujeito da relativas com pronome lembrete e relativas
frase. A tese de Galves é que a estrutura sintática cortadoras. As análises de Tarallo (idem) mostram
do português é do tipo da segunda frase que aqui que essa diferença entre o funcionamento do
usamos como exemplo: João, ele fez o trabalho. português do Brasil e de Portugal já está instalada
claramente em 1880 e se aprofunda a partir de então.
Segundo a autora é esta característica que explica Assim hoje é predominante o que no início do século
um conjunto importante de aspectos próprios do XIX (1825, por exemplo) era o menos comum.
português brasileiro, tal como os que seguem.
Ao lado desses aspectos, Galves também
a)uso do pronome ele como objeto considera uma outra característica muito interessante
do português do Brasil: O funcionamento do pronome
Em Portugal esta é uma construção inexistente. É se. Para a autora, no português brasileiro o se pode
comum no Brasil frases como Encontrei ele ontem; não aparecer em frases com tempo (o verbo nas
esse rapaz, eu conheci ele no trem; esse rapaz aí formas finitas), diferentemente do português europeu.
que eu encontrei ele no trem. Nestas frases ele é No Brasil há frases como Nos nossos dias, não usa
complemento da frase, diferentemente de Portugal mais saia; Esta camisa lava facilmente; Joana não
onde esta construção, normalmente, não aparece. matriculou ainda; Maria fez a lista dos convidados
mas esqueceu de incluir ela; É impossível se achar
b)ele como sujeito lugar aqui, enquanto em Portugal só há frases como
Não se usa mais saia; Esta camisa lava-se
O funcionamento do ele como sujeito é diferente em facilmente; Joana não se matriculou ainda; Maria fez
Portugal e no Brasil. No Brasil temos, por exemplo, a lista dos convidados mas esqueceu de se incluir.
eu tinha uma empregada que ela respondia ao Interessante para a lingüista é que, em contrapartida,
telefone e dizia..., enquanto em Portugal o que se em frases com infinitivo, no Brasil, aparece
encontra é somente algo como eu tinha uma consistentemente a forma se para indeterminar, em
empregada que respondia ao telefone e dizia... oposição a Portugal onde este se não aparece da
Para Galves esta diferença diz respeito a que no mesma maneira. Tem-se no Brasil É impossível se
português do Brasil o ele aparece
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
achar lugar aqui, enquanto em Portugal haveria fato terno
somente É impossível achar lugar aqui. metro metrô

O que é interessante nessa análise de Por outro lado, há no Brasil um conjunto importante
de palavras de origem indígena, comumente o tupi,
Galves é que ela não só registra a existência de
assim como de origem africana, os exemplos são
construções diferentes, que poderiam ser atribuídas
a uma mera diferença de uso de uma ou outra também tirados de Teyssier (idem).
pessoa, em uma ou outra situação, como mostra
Exemplos de palavras de origem indígena: capim,
que essa diferença nas frases diz respeito a uma
cupim, caatinga, curumim, guri, buriti, carnaúba,
especificidade na estrutura mesma da sintaxe do
mandacaru, capivara, curió, sucuri, piranha, urubu,
português do Brasil, ter a estrutura SN [SN V (SN). mingau, moqueca, abacaxi, caju, Tijuca, etc. São, em
Ser, portanto, uma língua de tópico.Ligada a essa geral, palavras relativas à designação da flora, da
diferença na estrutura sintática da frase, Galves nos
fauna, de alimentos, assim como de lugares.
mostra como ela está ligada a um aspecto
semântico fundamental, o modo como o português Exemplos de palavras de origem africana: caçula,
do Brasil faz referência às coisas sobre às quais se cafuné, molambo, moleque; orixá, vatapá, abará,
fala. Observe que se tomamos a frase do português acarajé; bangüê; senzala, mocambo, maxixe, samba.
do Brasil Eu tinha uma empregada que ela São, em geral, palavras que designam elementos do
respondia ao telefone e dizia... vemos que o ela candomblé, da cozinha de influência africana, do
retoma diretamente empregada, desfazendo o universo das plantações de cana, do universo de vida
caráter anafórico do que (relativo), diferentemente dos escravos, e mesmo outros de aspecto mais
de, por exemplo, Eu tinha uma empregada que geral. Grandes listas de palavras dessas línguas que
atendia o telefone e dizia..., na qual o que mantém se incorporaram ao português podem ser
seu caráter anafórico. Em cada caso o modo de encontradas em diversos livros de lingüística histórica
referir à empregada é um. do português como Silva Neto (1950), Bueno (1946,
1950) e Coutinho (1936).
Ou seja, o fato de o português ter uma
estrutura de tópico para suas frases diz respeito ao CONSIDERAÇÕES FINAIS Várias outras
modo como no Brasil se faz referência às coisas, ou características podem ser atribuídas ao português do
seja, diz respeito a como, num acontecimento Brasil, mas a melhor forma de tratar disso é observar
enunciativo específico, refere-se a algo. Em outras o modo como o português se divide em falares
palavras, esta característica de estrutura da frase regionais específicos ou registros distintos de acordo
está diretamente articulada a um modo de com situações particulares do funcionamento da
funcionamento semântico-enunciativo, outros diriam língua, como o formal ou o coloquial, o íntimo e o
semântico-pragmático, do português no Brasil. público, etc.
Enfim, Galves nos mostra que o português do Brasil
tem uma estrutura e funcionamento diversos do Por outro lado, fica claro que o estudo do português
português de Portugal e das outras línguas latinas. do Brasil indica para a necessidade de se
E esta não deixa de ser uma questão a ser aprofundarem pesquisas históricas que dêem mais
estudada no quadro do multilingüismo brasileiro. relevo à questão das relações do português num
espaço multilíngüe muito particular.
CARACTERÍSTICAS DO LÉXICO Desde o início
do século XIX, com o Marquês de Pedra Branca, se
usa o estudo do léxico para mostrar diferenças
entre o português do Brasil e o português de
Portugal (11). Essas diferenças dizem respeito ao
fato de que, no Brasil, muitas palavras tomaram
outros sentidos ou foram incorporadas ao português
a partir das línguas indígenas e africanas, com as
quais o português esteve e está em relação.
Podemos observar palavras que têm um sentido em
Portugal e outro no Brasil, a partir de exemplos
retirados de Teyssier (1997)
PORTUGAL BRASIL
comboio trem
autocarro ônibus
eléctrico bonde
hospedeira aeromoça
caneta de
caneta-
tinta
tinteiro
permanente
corta-
pátula
papeles

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
linguagem. A língua é uma unidade por si só.
Para Saussure, ela é a norma para todas as demais
manifestações da linguagem. Ela é um princípio de
fonológico, morfológico, sintático, classificação, com base no qual é possível
semântico e pragmático; estabelecer uma certa ordem na faculdade da
linguagem (SAUSSURE, 1916).

1. Introdução Nota-se que língua e linguagem têm


definições distintas. A primeira é um produto social
As línguas de sinais são de modalidade da faculdade da linguagem, enquanto a segunda é a
gestual-visual, e o espaço é o canal de capacidade que o homem tem de produzir conceitos
comunicação. Nele, frases, textos e discursos são relacionados com uma dada forma, como a música, a
produzidos e articulados através dos sinais. São arte, o teatro, a dança. As línguas naturais são
consideradas línguas naturais, pois surgiram da consideradas inerentes ao homem, um sistema
interação espontânea entre indivíduos. Elas linguístico usado por uma comunidade. Elas não
possuem gramática própria, além dos níveis incluem somente as línguas orais - pesquisas
linguísticos, fonológico, morfológico, semântico, linguísticas já comprovaram que as línguas de sinais
sintático e pragmático, o que possibilita aos são naturais, pois a sua estrutura permite que
seus utentes expressarem diferentes tipos de diferentes conceitos sejam expressos através
significados, dependendo da dela, dependendo da intenção e necessidade
necessidade comunicativa e expressiva do comunicativa do indivíduo.
indivíduo. Além disso, as línguas de sinais
não descendem e nem dependem das línguas Karnopp & Quadros conceituam língua natural como
orais.
(....) uma realização específica da faculdade de
Diante destas considerações, o presente linguagem que se dicotomiza num sistema abstrato
trabalho discorre sobre os aspectos lingüísticos das de regras finitas, as quais permitem a produção de
línguas de sinais, direcionando, em algumas seções um número ilimitado de frase. Além disso, a utilização
do tema proposto, para a Língua Brasileira de efetiva desse sistema, com fim social, permite a
Sinais (Libras). Dentre os pontos abordados, comunicação entre os usuários (KARNOPP &
demonstra-se a concepção de língua natural e, a QUADROS, 2007, p.30).
partir desta, serão descritos temas relacionados
às línguas, como iconicidade, arbitrariedade, Brito (1998, p.19) faz a seguinte afirmação sobre se
variação linguística e níveis linguísticos, sendo a considerar línguas de sinais como naturais:
discussão direcionada à questão da estrutura e da
manifestação lingüística das línguas de sinais, As línguas de sinais são línguas naturais porque
especificamente as Libras. como as línguas orais sugiram espontaneamente da
interação entre pessoas e porque devido à sua
2. Língua de sinais - Línguas Naturais estrutura permitem a expressão de qualquer conceito
- descritivo, emotivo, racional, literal,
Durante muito tempo as línguas de sinais metafórico, concreto, abstrato - enfim, permitem a
eram denominadas linguagem de sinais, mas, a expressão de qualquer significado decorrente da
partir de estudos sobre o assunto, foi comprovado necessidade comunicativa e expressiva do ser
seu status linguístico - o termo linguagem caiu em humano (BRITO, 1998, p. 19).
desuso, passando-se a considerá-las línguas
naturais. Pode-se fundamentar esta afirmação nas Um dos primeiros estudiosos a desenvolver
seguintes definições: pesquisas acerca das línguas de sinais e a constatar
seu status linguístico, Stokoe (apud Quadros &
[...] linguagem é uma faculdade humana, uma Karnopp, 2004) comprovou a sua complexidade, na
capacidade que os homens têm para produzir, medida em que, assim como línguas orais, as línguas
desenvolver, compreender a língua e outras de sinais possuem regras gramaticais, léxico, e
manifestações simbólicas semelhantes à língua. A permitem a expressão conceitos abstratos, e a
linguagem é heterogênea e multifacetada: ela tem produção de uma quantidade infinita de sentenças.
aspectos físicos, fisiológicos e psíquicos, e pertence
tanto ao domínio individual quanto ao Além disso, pode-se ratificar que elas não são
domínio social. Para Saussure, é impossível pantomimas e nem universais - a língua de sinais
descobrir a unidade da linguagem. Por isso, ela não americana (ASL) difere da língua de sinais britânica
pode ser estudada como uma categoria única de (BSL) que difere da brasileira e assim por diante.
fatos humanos. A língua é diferente. Ela é uma Elas apresentam variações regionais, e
parte bem definida e essencial da faculdade da suas estruturas gramaticais não dependem das
linguagem. Ela é um produto social da faculdade da línguas orais. É uma língua de modalidade gestual-
linguagem e um conjunto de convenções visual, seu canal de comunicação se dá através das
necessárias, estabelecidas e adotadas por um mãos, das expressões faciais e do corpo.
grupo social para o exercício da faculdade da
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Considera-se ainda que a língua de sinais deve ser 4. Variações linguísticas
a língua materna dos surdos, não somente por ser
língua natural, mas por estar veiculada a um canal A língua está em constante evolução, é dinâmica, um
que não é o oral-auditivo, pois esta modalidade não produto social em permanente inconclusão, ―(...) é
oferece ao surdo uma aquisição espontânea da intrinsecamente heterogênea, múltipla,
língua, ao contrário da gestual-visual, que garante variável, instável e está sempre em desconstrução e
uma percepção e articulação mais fácil, coerente e em reconstrução‖ (BAGNO, 2007, p.35, grifos do
confortável, além de contribuir para o autor).
desenvolvimento linguístico, cognitivo e social do
surdo. Devido a este caráter de ordem heterogênea, nas
línguas naturais pode ser identificado um fenômeno
3. Iconicidade e Arbitrariedade linguístico denominado variação. As línguas de
sinais, por serem naturais, apresentam tais
Iconicidade e arbitrariedade do signo manifestações. Segundo Bagno (2007) existem
linguístico são inerentes às línguas naturais. fatores sociais ou extralinguísticos que podem
Reflexões acerca das definições destes fenômenos proporcionar à identificação do fenômeno variação
das línguas ocorreram desde a época de Platão e linguística, são eles:
se estendem até os dias de hoje. Podem-se citar,
dentre as reflexões do filósofo grego, questões Origem geográfica: a língua varia de um lugar
sobre a linguagem e sobre a relação dela com o para o outro; assim, podemos investigar, por
mundo. Crátilo, Hermógenes e Sócrates foram um exemplo, a fala característica das diferentes
dos interlocutores que dialogaram acerca desta regiões brasileiras, dos diferentes estados, de
relação, discutindo a ligação existente entre nome, diferentes áreas geográficas dentro de um
idéia e coisa. Crátilo defendia o conceito de mesmo estado etc.; outro fator importante
iconicidade; Hermógenes, de arbitrariedade. também é a origem rural ou urbana da pessoa;
Sócrates, por seu turno, integrava as duas
concepções. Status socioeconômico: as pessoas que têm
um nível de renda muito baixo não falam do
Para Crátilo, a língua é o espelho do mesmo modo das que têm um nível de renda
mundo, o que significa que existe uma relação médio ou muito alto, e vice-versa;
natural e, portanto, similar ou icônica entre os
elementos da língua e os seres por eles Grau de escolarização: o acesso maior ou
representados. Para Hermógenes, a língua é menor à educação formal e, com ele, à cultura
arbitrária, isto é, convencional, pois entre o nome e letrada, à prática da leitura e aos usos da escrita,
as idéias ou as coisas designadas não há é um fator muito importante na configuração dos
transparências ou similaridade. Sócrates, por sua usos lingüísticos dos diferentes indivíduos;
vez, tem o papel de fazer a integração entre os dois
pontos de vista (WILSON & MARTELOTTA, p. 71, Idade: os adolescentes não falam do mesmo
2010). modo como seus pais, nem estes pais falam do
mesmo modo como as pessoas das gerações
Direcionando tais definições às línguas de anteriores;
sinais, muitas vezes elas são consideradas
puramente icônicas por serem de uma modalidade Sexo: homens e mulheres fazem usos
diferente, acreditando-se que os sinais são criados diferenciados dos recursos que a língua oferece;
a partir da representação do referente. É certo que
Mercado de trabalho: o vínculo da pessoa com
um sinal pode ser realizado de acordo com a
determinadas profissões e ofícios incide na sua
característica daquilo que se refere, mas, de
atividade lingüística: uma advogada não usa os
acordo com Strobel & Fernandes (1998), isto não é
mesmos recursos lingüísticos de um encanador,
uma regra, já que a maioria dos sinais em Libras é
nem este os mesmos de um cortador de cana;
arbitrário, ou seja, não mantém uma relação de
similitude com o referente. Redes sociais: cada pessoa adota
comportamentos semelhantes aos das pessoas
Strobel & Fernandes (1998) também definem os
com quem convive em sua rede social; entre
sinais icônicos como aqueles que fazem alusão à
esses comportamentos está também o
imagem do seu significado, sendo que isto não
comportamento lingüístico.
implica na igualdade de todos os sinais icônicos em
todas as línguas de sinais, pois cada grupo social Sobre as variações linguísticas, Strobel &
absorve aspectos diferentes da imagem do Fernandes (1998) consideram as variações regionais
referente convencionando a representação do sinal. e sociais e as mudanças históricas como fenômenos
Para os autores, os signos arbitrários são os que identificáveis na Língua Brasileira de Sinais, o que
não trazem nenhuma relação de semelhança com o lhe confirma, mais uma vez, o caráter natural.
referente. A variação regional refere-se às variações de sinais
que acontecem nas diferentes regiões do mesmo

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
país; já a social representa as variações na será realizado. Já o movimento demonstra o
configuração de mão e/ou movimento, sem alterar o deslocamento da mão durante a execução do sinal,
sentido do sinal, as mudanças históricas estão possuindo diferentes formas e direções. Além disso,
relacionadas com as modificações que o sinal pode os sinais podem ter ou não movimento.
sofrer, devido aos costumes da geração que utiliza
o sinal. A seguir, alguns exemplos: O parâmetro orientação da mão, de acordo com
Quadros (2004), vem ser a direção que a palma da
Variação regional (figura 1) mão indica na realização do sinal. Os componentes
não manuais, ou seja, as expressões faciais e
Variação social (figura 2) corporais, distinguem significados entre sinais. Além
disso, podem traduzir tristeza, alegria, medo, raiva,
Mudança histórica (figura 3) mágoa, amor, encantamento e desencantamento,
entre outros sentimentos. Podem indicar afirmação,
4. Fonologia da Língua Brasileira de Sinais negação, interrogação e exclamação. Algumas
dessas diferenças serão mostradas nas figuras
Embora as línguas de sinais sejam de
a seguir:
modalidade gestual-visual, em que a informação é
percebida pelos olhos e frases, pelos textos e Sinais que diferem quanto à configuração de mão
discursos produzidos pelas mãos, o termo fonologia (figura 4)
tem sido usado não somente no contexto das
línguas orais, mas nos estudos dos elementos que Sinais com ponto de articulação em diferentes
envolvem a formação dos sinais. Stokoe locais, boca, testa (figura 5)
(apud QUADROS, 2004) empregava o termo
―quirema‖ às unidades que formam os sinais, e para Sinais que divergem quanto ao
referir-se às combinações dessas unidades, movimento (figura 6)
utilizava o termo ―quirologia‖. Ao confirmar que a
língua de sinais é uma língua natural, Stokoe e Componentes não manuais, expressões
outros pesquisadores passaram a utilizar os termos faciais (figura 7)
fonema e fonologia nos estudos linguísticos das
línguas de sinais. 5. Morfologia da Língua Brasileira de Sinais

Quadros (2004, p.47) define a fonologia das línguas Morfologia é um ramo da linguística que
de sinais da seguinte forma: estuda a estrutura interna, a formação e classificação
das palavras ou sinais, como define Quadros:
Fonologia das línguas de sinais é o ramo da Morfologia é o estudo da estrutura interna das
lingüística que objetiva identificar a estrutura e a palavras ou dos sinais, assim como das regras
organização dos constituintes que determinam a formação das palavras. A palavra
fonológicos, propondo modelos descritivos e morfema deriva do grego morphé, que significa
explanatórios. A primeira tarefa da fonologia para forma. Os morfemas são as unidades mínimas de
língua de sinais é determinar quais são as significado (QUADROS, 2004, p.86, grifos do autor).
unidades mínimas que formam os sinais. A
segunda tarefa é estabelecer quais são os padrões A partir do conceito supracitado, pode-se
possíveis de combinação entre essas unidades e afirmar que as formações dos sinais originam-se da
as variações possíveis no ambiente fonológico combinação dos parâmetros configuração de mão,
(QUADROS, 2004, p.47). ponto de articulação, movimento, expressão facial e
corporal, agora considerados morfemas, ou seja,
A análise da formação dos sinais foi unidades mínimas com significado, como explica
estabelecida por Stokoe (apud QUADROS, 2004), Felipe:
ao propor a decomposição dos sinais em três
parâmetros principais (configuração de mão, Estes cinco parâmetros podem expressar
locação da mão, movimento da mão), a fim de morfemas através de algumas configurações de mão,
analisar a constituição deles na ASL (Língua de de alguns movimentos direcionados, de
Sinais Americana), afirmando não algumas alterações na freqüência do movimento, de
possuírem significado de forma isolada. alguns pontos de articulação na estrutura morfológica
Posteriormente, outros parâmetros foram e de alguma expressão facial ou movimento de
acrescentados às pesquisas da fonologia de sinais, cabeça concomitante ao sinal, que, através de
são eles: orientação da mão, expressões faciais alterações em suas combinações, formam os itens
e corporais. lexicais das línguas de sinais (FELIPE, 2006, p. 202).

A configuração de mão (doravante, CM), de Já em relação à classe de palavras/sinais e às


acordo com Strobel & Fernandes (1998), é definida categorias lexicais pertencentes às línguas de sinais,
como a forma assumida pela mão durante a estão nomes, verbo, advérbio, adjetivo,
articulação de um sinal. Locação da mão ou ponto numeral, conjunção. Direcionado o estudo
de articulação é o lugar do corpo onde o sinal

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
morfológico para Libras, a partir de uma breve Em relação aos verbos em Libras, destacam-se os
análise, encontram-se os seguintes casos: com concordância e os sem concordância. De acordo
com a concepção de Quadros (2004), os
Quando se quer diferenciar o sexo entre pessoas sem concordância são os que não flexionam em
ou animais, usa-se o sinal HOMEM e MULHER pessoa e número, sendo que alguns podem flexionar
para fazer referência ao nome, mas geralmente em aspecto. Existe ainda uma subdivisão desta
sem apresentar flexão de gênero, como se pode categoria de verbos, podendo ser ainda classificados
perceber no sinal de AMIG@, que pode ser usado em verbos de locomoção/movimento. Dependendo
tanto para o sexo masculino ou feminino. Sinais do contexto, o sinal pode ser classificado como
como PAI e MÃE não necessitam dessa marcação substantivo ou verbo.
de gênero, pois possuem sinais próprios.
Já os verbos com concordância flexionam em
Os adjetivos trazem como características a número, pessoa e aspecto. Segundo Felipe (2001),
expressão facial e intensificação do sinal, não há estes verbos podem também ser subdivididos em
marca de gênero ou número. Cita-se como exemplo dois: os que possuem concordância em número e
a sinalização de BONITINHO e de MUITO BONITO, pessoa, classificadores (Cls) e os que
que precisa, cada um a sua maneira, de expressão concordam com a localização. O primeiro grupo traz
facial e intensificação do sinal, sendo que o o parâmetro orientação como destaque, já
segundo necessita também de expressão facial. os segundo têm concordância com a localização e
Essas marcações linguísticas trazem o significado destaca-se o parâmetro ponto de articulação ou
real do sinal. locação. Nos classificadores evidencia-se o
parâmetro configuração de mão, o que não invalida o
Os pronomes na Libras são realizados em uso dos outros parâmetros.
diferentes pontos no espaço, a articulação do sinal
depende da pessoa que se faz referência e do 7. Conclusão
número, ou seja, singular e plural. Destacam-se
ainda as conjunções, sendo que as manifestadas Em Libras, através dos fenômenos lingüísticos, da
em Libras são MAS, PORQUE (explicativo e sua complexidade e gramática própria, pode-se
interrogativo), COMO e o SE. constatar que assim como as línguas orais, as
línguas de sinais são naturais. Embora seja uma
Em relação aos numerais, estes são classificados língua articulada espacialmente, lugar em que
em quantidade, cardinal e ordinal, trazendo como são constituídos seus mecanismos fonológicos,
parâmetros de diferenciação na articulação dos morfológicos e sintáticos, certifica-se que as línguas
números a configuração de mão, ponto de de sinais são icônicas e arbitrárias, e que as formas
articulação e movimento, além do contexto. icônicas não são universais.

A marcação do tempo verbal é realizada através de Trata-se, portanto, de uma língua que possui os
itens lexicais ou sinais adverbiais como afirma Brito: mesmos universais linguísticos das línguas orais,
―Dessa forma, quando o verbo refere-se a um caracterizando a formação dos sinais a partir dos
tempo passado, futuro ou presente, o que vai fonemas e morfemas. Percebe-se ainda, através da
marcar o tempo da ação ou do evento serão sua morfologia e sintaxe, o seu caráter flexional,
itens lexicais ou sinais adverbiais como ONTEM, complexo e econômico na produção e articulação das
AMANHÃ, HOJE, SEMANA-PASSADA, SEMANA- frases.
QUE-VEM.‖ (BRITO, 1997, p. 46). A seguir um
exemplo de como a marcação de tempo verbal é Como afirma Brito (1998), a Libras é regida por
realizada em Libras (ver figura 8) princípios gerais que a estruturam linguisticamente,
permitindo aos seus usuários o emprego da língua
6. Sintaxe da Língua Brasileira de Sinais em diferentes contextos, correspondendo às diversas
funções linguísticas que são manifestadas na
A Libras, assim como a Língua Portuguesa, interação no cotidiano.
apresenta organização na estrutura da frase. De
maneira preferencial, a ordem SVO A pesquisa, embora não seja de cunho conclusivo,
(sujeito+verbo+objeto) é a que se destaca na segundo as descrições feitas sobre Libras, sobretudo
produção das frases, o que não invalida o uso de as variações e estruturas linguísticas, reitera seu
outras ordens. De acordo com Brito (1997), na status de língua, um produto social em constante
Libras, uma outra forma de produção que acontece evolução.
é a topicalização ou tópico-comentário. A
topicalização, realizada com bastante frequência, é
definida como a distribuição no espaço dos
elementos da frase, ou seja, não segue a ordem
SVO. Pode ser usada desde que não haja
restrições que impeçam o deslocamento de
determinados constituintes da sentença e que altere
o sentido da frase.
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
substantivo pasta, past é o radical, a, a vogal
temática, e pasta o tema; já na palavra leal,
o radical e o tema são o mesmo elemento -
leal, pois não há vogal temática; e na palavra
tatu também, mas agora, porque o radical é
terminado pela vogal temática.
Estudar a estrutura das palavras é estudar os
elementos que formam a palavra, Desinências
denominados de morfemas. São os seguintes
os morfemas da Língua Portuguesa. É a terminação das palavras, flexionadas ou
variáveis, posposta ao radical, com o intuito de
Radical modificá-las.
Modificamos os verbos, conjugando-os;
O que contém o sentido básico do vocábulo. modificamos os substantivos e os adjetivos em
Aquilo que permanecer intacto, quando a gênero e número.
palavra for modificada. Existem dois tipos de desinências:
Ex. falar, comer, dormir, casa, carro.
Obs: Em se tratando de verbos, descobre-se Desinências verbais
o radical, retirando-se a terminação AR, ER
ou IR. Modo-temporais = indicam o tempo e o
modo. São quatro as desinências modo-
Vogal Temática temporais:
-va- e -ia-, para o Pretérito Imperfeito do
Nos verbos, são as vogais A, E e I, presentes Indicativo = estudava, vendia, partia.
à terminação verbal. Elas indicam a que -ra-, para o Pretérito Mais-que-perfeito do
conjugação o Indicativo = estudara, vendera, partira.
verbo pertence: -ria-, para o Futuro do Pretérito do Indicativo
• 1ª conjugação = Verbos terminados em = estudaria, venderia, partiria.
AR. -sse-, para o Pretérito Imperfeito do
• 2ª conjugação = Verbos terminados em Subjuntivo = estudasse, vendesse,
ER. partisse.
• 3ª conjugação = Verbos terminados em IR. Número-pessoais = indicam a pessoa e o
número. São três os grupos das desinências
Obs.: O verbo pôr pertence à 2ª conjugação, númeropessoais.
já que proveio do antigo verbo poer.
Grupo I: i, ste, u, mos, stes, ram, para o
Nos substantivos e adjetivos, são as vogais Pretérito Perfeito do Indicativo = eu cantei,
A, E, I, O e U, no final da palavra, evitando tu cantaste, ele cantou, nós cantamos,
que ela termine em consoante. Por exemplo, vós cantastes, eles cantaram.
nas palavras meia, pente, táxi, couro,
urubu. Grupo II: -, es, -, mos, des, em, para o
Infinitivo Pessoal e para o Futuro do
* Cuidado para não confundir vogal temática Subjuntivo = Era para eu
de substantivo e adjetivo com desinência cantar, tu cantares, ele cantar, nós
nominal de gênero, que estudaremos mais à cantarmos, vós cantardes, eles cantarem.
frente. Quando eu puser, tu puseres, ele puser,
nós pusermos, vós puserdes, eles
puserem.
Tema
Grupo III: -, s, -, mos, is, m, para todos os
É a junção do radical com a vogal outros tempos = eu canto, tu cantas, ele
temática. Se não existir a vogal temática, o canta, nós cantamos, vós cantais, eles
tema e o radical serão o mesmo elemento; o cantam.
mesmo acontecerá, quando o radical for
terminado em vogal. Por exemplo, em se
tratando de verbo, o tema sempre será a Desinências nominais
soma do radical com a vogal temática -
estuda, come, parti; em se tratando de de gênero = indica o gênero da palavra. A
substantivos e adjetivos, nem sempre isso palavra terá desinência nominal de gênero,
acontecerá. Vejamos alguns exemplos: No
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
quando houver a oposição masculino - Derivação Parassintética
feminino. Por exemplo: cabeleireiro -
cabeleireira. A vogal a será desinência Acréscimo de um prefixo e de um sufixo,
nominal de gênero sempre que indicar o simultaneamente; também chamado de
feminino de uma palavra, mesmo que o parassíntese. Por exemplo: envernizar,
masculino não seja terminado em o. Por enrijecer, anoitecer.
exemplo: crua, ela, traidora. Obs.: A maneira mais fácil de se estabelecer a
de número = indica o plural da palavra. É a diferença entre Derivação Prefixal e Sufixal e
letra s, somente quando indicar o plural da Derivação Parassintética é a seguinte: retira-
palavra. Por exemplo: cadeiras, pedras, se o prefixo; se a palavra que sobrou existir,
águas. será Der. Pref. e Suf.; caso contrário, retira-
se, agora, o sufixo; se a palavra que sobrou
Afixos: São elementos que se juntam a existir, será Der. Pref. e Suf.; caso contrário,
radicais para formar novas palavras. São será Der. Parassintética. Por exemplo, retire o
eles: prefixo de envernizar: não existe a palavra
vernizar; agora, retire o sufixo: também não
Prefixo: É o afixo que aparece antes do existe a palavra enverniz. Portanto, a palavra
radical. Por exemplo destampar, incapaz, foi formada por Parassíntese.
amoral.
Derivação Regressiva
Sufixo: É o afixo que aparece depois do
radical, do tema ou do infinitivo. Por exemplo É a retirada da parte final da palavra primitiva,
pensamento, acusação, felizmente. obtendo, por essa redução, a palavra derivada.
Por exemplo: do verbo debater, retira-se a
Vogais e consoantes de ligação: São desinência de infinitivo -r: formou-se o
vogais e consoantes que surgem entre dois substantivo debate.
morfemas, para tornar mais fácil e agradável
a pronúncia de certas palavras. Por exemplo Derivação Imprópria
flores, bambuzal, gasômetro, canais. É a formação de uma nova palavra pela
mudança de classe gramatical. Por exemplo: a
palavra gelo é um substantivo, mas pode ser
FORMAÇÃO DAS PALAVRAS transformada em um adjetivo: camisa gelo.

Para analisar a formação de uma palavra, Composição


deve-se procurar a origem dela. Caso seja
formada por apenas um radical, diremos que Formação de novas palavras a partir de dois
foi formada por derivação; por dois ou mais ou mais radicais.
radicais, composição. São os seguintes os
processos de C: Composição por justaposição
Na união, os radicais não sofrem qualquer
Derivação: Formação de novas palavras a alteração em sua estrutura. Por exemplo: ao
partir de apenas um radical. se unirem os radicais ponta e pé, obtém-se a
palavra pontapé. O mesmo ocorre com
Derivação Prefixal mandachuva, passatempo, guarda-pó.
Acréscimo de um prefixo à palavra primitiva;
também chamado de prefixação. Por Composição por aglutinação
exemplo: antepasto, reescrever, infeliz.
Na união, pelo menos um dos radicais sofre
Derivação Sufixal alteração em sua estrutura. Por exemplo: ao
Acréscimo de um sufixo à palavra primitiva; se unirem os radicais água e ardente, obtém-
também chamado de sufixação. Por se a palavra aguardente, com o
exemplo: felizmente, igualdade, florescer. desaparecimento do a. O mesmo acontece
com embora (em boa hora), planalto (plano
Derivação Prefixal e Sufixal alto).
Acréscimo de um prefixo e de um sufixo, em
tempos diferentes; também chamado de
prefixação e sufixação. Por exemplo:
infelizmente, desigualdade, reflorescer. Hibridismo

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
É a formação de novas palavras a partir da b) sociologia;
união de radicais de idiomas diferentes. Por c) alcoômetro;
exemplo: automóvel, sociologia, d) burocracia;
sambódromo, burocracia. e) biblioteca.
3-(AL) Tendo em vista a estrutura das
Onomatopéia palavras, o elemento sublinhado está
Consiste em criar palavras, tentando imitar incorretamente classificado
sons da natureza. Por exemplo: zunzum, nos parênteses em:
cricri, tiquetaque, pingue-pongue. a) velha (desinência de gênero);
b) legalidade (vogal de ligação);
Abreviação Vocabular c) perdeu (tema);
Consiste na eliminação de um segmento da d) organizara (desinência modo-temporal);
palavra, a fim de se obter uma forma mais e) testemunhei (desinência número-pessoal).
curta. Por exemplo: de extraordinário
forma-se extra; de telefone, fone; de 4- O processo de formação da palavra
fotografia, foto; de cinematografia, sublinhada está incorretamente indicado nos
cinema ou cine. parênteses em:
Siglas a) Só não foi necessário o ataque porque a
vitória estava garantida. (derivação
As siglas são formadas pela combinação das parassintética);
letras iniciais de uma seqüência de palavras b) O castigo veio tão logo se receberam as
que constitui um nome: Por exemplo: IBGE notícias. (derivação regressiva);
(Instituto Brasileiro de Geografia e c) Foram muito infelizes as observações feitas
Estatística); IPTU (Imposto Predial, durante o comício. (derivação prefixal);
Territorial e Urbano). d) Diziam que o vendedor seria capaz de fugir.
(derivação sufixal);
Neologismo semântico e) O homem ficou boquiaberto com as nossas
Forma-se uma palavra por neologismo respostas. (composição por aglutinação).
semântico, quando se dá um novo Polícia Rodoviária Federal
significado, somado ao que já existe. Por Apostila de Português para Concursos 42
exemplo, a palavra legal significa dentro da
lei; a esse significado somamos outro: 5- Tendo em vista o processo de formação de
pessoa boa, pessoa legal. palavra, todos os vocábulos abaixo são
parassintéticos,
Empréstimo lingüístico exceto:
É o aportuguesamento de palavras a) entardecer;
estrangeiras; se a grafia da palavra não se b) despedaçar;
modifica, ela deve ser escrita entre aspas. c) emudecer;
Por exemplo: estresse, estande, futebol, d) esfarelar;
bife, "show", xampu, "shopping center". e) negociar.

6- É exemplo de palavra formada por


EXERCÍCIOS derivação parassintética:
a) pernalta;
Estrutura e Formação de Palavras b) passatempo;
c) pontiagudo;
1- Os elementos mórficos sublinhados estão d) vidraceiro;
corretamente classificados nos parênteses, e) anoitecer.
exceto em:
a) aluna (desinência de gênero); 7- Todas as palavras abaixo são formadas por
b) estudássemos (desinência modo- derivação, exceto:
temporal); a) esburacar;
c) reanimava (desinência número-pessoal); b) pontiagudo;
d) deslealdade (sufixo); c) rouparia;
e) agitar (vogal temática). d) ilegível;
e) dissílabo.
2- Tendo em vista o processo de formação de
palavras, não é exemplo de hibridismo:
a) automóvel;

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
8- "Achava natural que as gentilezas da d) Procuremos regularmente o dentista.
esposa chegassem a cativar um homem". Os (derivação sufixal);
elementos e) As dificuldades de hoje tornam o homem
constitutivos da forma verbal grifada estão desalmado. (derivação parassintética).
analisados corretamente, exceto:
a) CHEG - radical; 14- O processo de formação de palavras está
b) A - vogal temática; indicado corretamente em:
c) CHEGA - tema; a) Barbeado: derivação prefixal e sufixal;
d) SSE - sufixo formador de verbo; Polícia Rodoviária Federal
e) M - desinência número-pessoal. Apostila de Português para Concursos 43
b) Desconexo: derivação prefixal;
9- O elemento mórfico sublinhado não é c) Enrijecer: derivação sufixal;
desinência de gênero, que marca o feminino, d) Passatempo: composição por aglutinação;
em: e) Pernilongo: composição por justaposição.
a) tristonha;
b) mestra; 15- Apenas um dos itens abaixo contém
c) telefonema; palavra que não é formada por prefixação.
d) perdedoras; Assinale-o:
e) loba. a) anômalo e analfabeto;
b) átono e acéfalo;
10- A afirmativa a respeito do processo de c) ateu e anarquia;
formação de palavras não está correta em: d) anônimo e anêmico;
a) Choro e castigo originaram-se de chorar e e) anidro e alma.
castigar, através de derivação regressiva;
b) Esvoaçar é formada por derivação sufixal 16- Em que alternativa a palavra grifada
com sufixo verbal freqüentativo; resulta em derivação imprópria?
c) O amanhã não pode ver ninguém bem. - a a) "De repente, do riso fez-se o pranto /
palavra sublinhada surgiu por derivação Silencioso e branco como a bruma / E das
imprópria; bocas fez-se a
d) Petróleo e hidrelétrico são formadas espuma / E das mãos espalmadas fez-se o
através de composição por aglutinação; espanto." (Vinícius de Moraes);
e) Pólio, extra e moto são obtidas por b) "Agora, o cheiro áspero das flores / leva-me
redução. os olhos por dentro de suas pétalas."(Cecília
Meireles);
11- O processo de formação de palavras é o c) "Um gosto de amora / Comida com sal. A
mesmo em: vida / Chamava-se "Agora"." (Guilherme de
a) desfazer, remexer, a desocupação; Almeida);
b) dureza, carpinteiro, o trabalho; d) "A saudade abraçou-me, tão sincera, /
c) enterrado, desalmado, entortada; soluçando no adeus de nunca mais. / A
d) machado, arredondado, estragado; ambição de olhar
e) estragar, o olho, o sustento. verde, junto ao cais, / me disse: vai que eu
fico à tua espera." (Cassiano Ricardo).
12- O processo de formação da palavra
amaciar está corretamente indicado em: 17- Marque a opção em que todas as palavras
a) parassíntese; possuem um mesmo radical:
b) sufixação; a) batista - batismo - batistério - batisfera -
c) prefixação; batiscafo;
d) aglutinação; b) triforme - triângulo - tricologia - tricípite -
e) justaposição. triglota;
c) poligamia - poliglota - polígono - política -
13- O processo de formação das palavras polinésio;
grifadas não está corretamente indicado em: d) operário - opereta - opúsculo - obra -
a) As grandes decisões saem do Planalto. operação;
(composição por justaposição); e) gineceu - ginecologia - ginecofobia -
b) Sinto saudades do meu bisavô. (derivação ginostênio - gimnosperma.
prefixal);
c) A pesca da baleia deveria ser proibida. 18- Com relação ao seguinte poema, é
(derivação regressiva); CORRETO afirmar que:
Neologismo

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
"Beijo pouco, falo menos ainda. / Mas invento
palavras / Que traduzem a ternura mais
funda / E mais
cotidiana. / Inventei, por exemplo, o verbo
teadorar. / Intransitivo: / Teadoro, Teodora."
(Manuel
Bandeira)
a) o verbo "teadorar" e o substantivo próprio
"Teodora" são palavras cognatas, pois
possuem o mesmo
radical;
b) as classes das palavras que compõem a
estrutura do vocábulo "teadorar" são
pronome e verbo;
c) o verbo "teadorar", por se tratar de um
neologismo, não possui morfemas;
d) a vogal temática dos verbos "beijo", "falo",
"invento" e "teadoro" é a mesma, ou seja,
"o".

19- Está INCORRETO afirmar que:


a) malcheiroso é formada por prefixação e
sufixação;
b) televisão é formada por prefixação que
significa ao longe;
c) folhagem é formada por derivação sufixal
que significa noção coletiva;
d) em amado e malcheiroso, ambos os
sufixos significam provido ou cheio de.

20- Farejando apresenta em sua estrutura:


a) radical farej - vogal temática a - tema
fareja - desinência ndo;
b) radical far - tema farej - vogal temática e -
desinência ndo;
c) radical fareja - vogal temática a - sufixo
ndo;
d) tema farej - radical fareja - sufixo ndo.

Respostas
1- C 2- E 3- C 4- A 5- E 6- E 7-
B
8- D 9- C 10- B 11- C 12- A 13- A14-
B
15- E 16- D 17- D 18- B 19- B 20- A

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Quando o sujeito é formado de um coletivo singular
seguido de complemento no plural, admitem-se duas
concordâncias:

1ª) verbo no singular.


REGÊNCIA, CONCORDÂNCIA E
COLOCAÇÃO PRONOMINAL; - O bando de passarinhos cantava no jardim.
- Um grupo de professores acompanhou os
estudantes.

2ª) o verbo pode ficar no plural, nesse caso o verbo


CONCORDÂNCIA VERBAL
no plural dará ênfase ao complemento.

- O bando de passarinhos cantavam no jardim.


SUJEITO CONSTITUÍDO PELOS PRONOMES - Um grupo de professores acompanharam os
QUE & QUEM estudantes
QUE: se o sujeito for o pronome relativo que, o
verbo concorda com o antecedente do pronome SE
relativo. Verbos transitivos diretos e verbos transitivos diretos
e indiretos + - se:
- Fui eu que falei. (eu falei)
- Fomos nós que falamos. (nós falamos) Se o termo que recebe a ação estiver no plural, o
verbo deve ir para o plural, se estiver no singular, o
QUEM: se o sujeito for o pronome relativo quem, o verbo deve ir para o singular.
verbo ficará na terceira pessoa do singular ou
concordará com o antecedente do pronome (pouco - Alugam-se cavalos.
usado).
―Alugar‖ é verbo transitivo direto.
- Fui eu quem falou. (ele (3ª pessoa) falou) ―Cavalos‖ recebe a ação e está no plural, logo o
verbo vai para o plural.
Obs: nas expressões ―um dos que‖, ―uma das que‖,
o verbo deve ir para o plural. Porém, alguns Aqui o ―se‖ é chamado de partícula apassivadora
estudiosos e escritores aceitam ou usam a (Cavalos são alugados).
concordância no singular.
Outros exemplos:
- João foi um dos que saíram.
- Vendem-se casas.
PRONOME DE TRATAMENTO - Alugam-se apartamentos.
O verbo fica sempre na 3ª pessoa (ele - eles). - Exigem-se referências.
- Consertam-se pianos.
- Vossa Alteza deve viajar. - Plastificam-se documentos.
- Vossas Altezas devem viajar. - Entregou-se uma flor à mulher. (verbo transitivo
direto e indireto)
DAR – BATER – SOAR (indicando horas)
Quando houver sujeito (relógio, sino) os verbos OBS: Somente os verbos transitivos diretos têm voz
concordam normalmente com ele. passiva.

- O relógio deu onze horas. Qualquer outro tipo de verbo (transitivo indireto ou
- O Relógio: sujeito intransitivo) fica no singular.
Deu: concorda com o sujeito.
- Precisa-se de professores. (Precisar é verbo
Quando não houver sujeito, o verbo concorda com transitivo indireto)
as horas que passam a ser o sujeito da oração. - Trabalha-se muito aqui. (trabalhar é verbo
intransitivo)
- Deram onze horas.
- Deram três horas no meu relógio. Nesse caso, o ―se‖ é chamado de índice de
indeterminação do sujeito ou partícula
SUJEITO COLETIVO (SUJEITO SIMPLES) indeterminadora do sujeito.

- O cardum- e escapou da rede. HAVER – FAZER


- Os cardumes escaparam da rede.
"Haver" no sentido de ―existir‖, indicando ―tempo‖ ou
Nesses dois exemplos o verbo concordou com o no sentido de ―ocorrer‖ ficará na terceira pessoa do
coletivo (sujeito simples). singular. É impessoal, ou seja, não admite sujeito.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
"Fazer" quando indica ―tempo‖ ou ―fenômenos da Obs 2: Com o verbo ―ser‖ e o predicativo no singular,
natureza‖, também é impessoal e deverá ficar na o verbo fica no singular.
terceira pessoa do singular.
―Os Lusíadas‖ é a maior obra da Literatura
- Nesta sala há bons e maus alunos. (= existe) Portuguesa.
- Já houve muitos acidentes aqui. (= ocorrer)
- Faz 10 anos que me formei. (= tempo decorrido) - Os EUA já foi o primeiro mercado consumidor.

SUJEITO COMPOSTO RESUMIDO POR UM SER


INDEFINIDO
O verbo concordará com o indefinido. O verbo ―ser‖ concordará com o predicativo quando o
sujeito for o pronome interrogativo ―que‖ ou ―quem‖.
- Tudo, jornais, revistas, TV, só trazia boas noticias.
- Ninguém, amigos, primos, irmãos veio visitá-lo. - Quem são os eleitos?
- Amigos, irmãos, primos, todos foram viajar. - Que seriam aqueles ruídos estranhos?
- Que são dois meses?
PESSOAS DIFERENTES - Que são células?
- Quem foram os responsáveis?
O verbo flexiona-se no plural na pessoa que
prevalece (a 1ª sobre a 2ª e a 2ª sobre a 3ª). Quando o verbo ―ser‖ indicar tempo, data, dias ou
distância, deve concordar com a apalavra seguinte.
Eu e tu: nós
Eu e você: nós - É uma hora.
Ela e eu: nós - São duas horas.
Tu e ele: vós - São nove e quinze da noite.
- É um minuto para as três.
- Eu, tu e ele resolvemos o mistério. (1ª pessoa - Já são dez para uma.
prevalece) - Da praia até a nossa casa, são cinco minutos.
- O diretor, tu e eu saímos apressados. (1ª pessoa - Hoje é ou são 14 de julho?
prevalece)
- O professor e eu fomos à reunião. (1ª pessoa Em relação às datas, quando a palavra ―dia‖ não está
prevalece) expressa, a concordância é facultativa.
- Tu e ele deveis fazer a tarefa. (2ª pessoa
prevalece) Se um dos elementos (sujeito ou predicativo) for
pronome pessoal, o verbo concordará com ele.
Obs: como a 2ª pessoa do plural (vós) é muito
pouco usado na língua contemporânea , é preferível - Eu sou o chefe.
usar a 3ª pessoa quando ocorre a 2ª com a 3ª. - Nós somos os responsáveis.
- Eu sou a diretora.
- Tu e ele riam à beça.
- Em que língua tu e ele falavam? Quando o sujeito é um dos pronomes isto, isso,
aquilo, o, tudo, o verbo ―ser‖ concordará com o
Podemos também substituir o ―tu‖ por ―você‖. predicativo.

- Você e ele: vocês - Tudo são flores.


- Isso são lembranças de viagens.
NOMES PRÓPRIOS NO PLURAL
Se o nome vier antecedido de artigo no plural, o Pode ocorrer também o verbo no singular
verbo deverá concordar no plural. concordando com o pronome (raro).

- Os Andes ficam na América do Sul. - Tudo é flores.

Se não houver artigo no plural, o verbo deverá Quando o verbo ―ser‖ aparece nas expressões ―é
concordar no singular. muito‖, ―é bastante‖, ―é pouco‖, ―é suficiente‖
denotando quantidade, distância, peso, etc ele ficará
- Santos fica em São Paulo. no singular.
- ―Memórias Póstumas de Brás Cubas‖ consagrou
Machado de Assis. - Oitocentos reais é muito.
- Cinco quilos é suficiente.
Obs 1: Com nome de obras artísticas, admite-se a
concordância ideológica com a palavra ―obra‖, que
está implícita na frase.

- ―Os Lusíadas‖ imortalizou Camões.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
CONCORDÂNCIA NOMINAL 1- antecede todos os adjetivos com um artigo.

Falava fluentemente a língua inglesa e a espanhola.


Concordância nominal nada mais é que o ajuste
que fazemos aos demais termos da oração para 2- coloca o substantivo no plural.
que concordem em gênero e número com o
substantivo. Falava fluentemente as línguas inglesa e espanhola.
Teremos que alterar, portanto, o artigo, o adjetivo, o d) Pronomes de tratamento
numeral e o pronome.
1 - sempre concordam com a 3ª pessoa.
Além disso, temos também o verbo, que se
flexionará à sua maneira, merecendo um estudo Vossa santidade esteve no Brasil.
separado de concordância verbal.
e) Anexo, incluso, próprio, obrigado
REGRA GERAL: O artigo, o adjetivo, o numeral e o
pronome, concordam em gênero e número com o 1 - Concordam com o substantivo a que se referem.
substantivo.
As cartas estão anexas.
- A pequena criança é uma gracinha. A bebida está inclusa.
- O garoto que encontrei era muito gentil e Precisamos de nomes próprios.
simpático. Obrigado, disse o rapaz.

CASOS ESPECIAIS: Veremos alguns casos que f) Um(a) e outro(a), num(a) e noutro(a)
fogem à regra geral, mostrada acima.
1 - Após essas expressões o substantivo fica sempre
a) Um adjetivo após vários substantivos no singular e o adjetivo no plural.

1 - Substantivos de mesmo gênero: adjetivo vai Renato advogou um e outro caso fáceis.
para o plural ou concorda com o substantivo mais Pusemos numa e noutra bandeja rasas o peixe.
próximo.
g) É bom, é necessário, é proibido
- Irmão e primo recém-chegado estiveram aqui.
- Irmão e primo recém-chegados estiveram aqui. 1- Essas expressões não variam se o sujeito não vier
precedido de artigo ou outro determinante.
2 - Substantivos de gêneros diferentes: vai para o
plural masculino ou concorda com o substantivo Canja é bom. / A canja é boa.
mais próximo. É necessário sua presença. / É necessária a sua
presença.
- Ela tem pai e mãe louros. É proibido entrada de pessoas não autorizadas. / A
- Ela tem pai e mãe loura. entrada é proibida.

3 - Adjetivo funciona como predicativo: vai h) Muito, pouco, caro


obrigatoriamente para o plural.
1- Como adjetivos: seguem a regra geral.
- O homem e o menino estavam perdidos.
- O homem e sua esposa estiveram hospedados Comi muitas frutas durante a viagem.
aqui. Pouco arroz é suficiente para mim.
Os sapatos estavam caros.
b) Um adjetivo anteposto a vários substantivos
2- Como advérbios: são invariáveis.
1 - Adjetivo anteposto normalmente: concorda com
o mais próximo. Comi muito durante a viagem.
Pouco lutei, por isso perdi a batalha.
Comi delicioso almoço e sobremesa. Comprei caro os sapatos.
Provei deliciosa fruta e suco.
i) Mesmo, bastante
2 - Adjetivo anteposto funcionando como
predicativo: concorda com o mais próximo ou vai 1- Como advérbios: invariáveis
para o plural.
Preciso mesmo da sua ajuda.
Estavam feridos o pai e os filhos. Fiquei bastante contente com a proposta de
Estava ferido o pai e os filhos. emprego.

c) Um substantivo e mais de um adjetivo 2- Como pronomes: seguem a regra geral.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Seus argumentos foram bastantes para me É proibido entrada de crianças.
convencer. Em certos momentos, é necessário atenção.
Os mesmos argumentos que eu usei, você copiou. No verão, melancia é bom.
É preciso cidadania.
j) Menos, alerta Não é permitido saída pelas portas laterais.

1- Em todas as ocasiões são invariáveis. b) Quando o sujeito dessas expressões estiver


determinado por artigos, pronomes ou adjetivos,
Preciso de menos comida para perder peso. tanto o verbo como o adjetivo concordam com ele.
Estamos alerta para com suas chamadas.
Exemplos:
k) Tal Qual É proibida a entrada de crianças.
Esta salada é ótima.
1- ―Tal‖ concorda com o antecedente, ―qual‖ A educação é necessária.
concorda com o conseqüente. São precisas várias medidas na educação.
As garotas são vaidosas tais qual a tia.
Os pais vieram fantasiados tais quais os filhos. Anexo - Obrigado - Mesmo - Próprio - Incluso -
Quite
l) Possível
Essas palavras adjetivas concordam em gênero e
1- Quando vem acompanhado de ―mais‖, ―menos‖, número com o substantivo ou pronome a que se
―melhor‖ ou ―pior‖, acompanha o artigo que precede referem. Observe:
as expressões. Seguem anexas as documentações
requeridas.
A mais possível das alternativas é a que você A menina agradeceu: - Muito obrigada.
expôs.
Muito obrigadas, disseram as senhoras, nós
Os melhores cargos possíveis estão neste setor da mesmas faremos isso.
empresa. Seguem inclusos os papéis solicitados.
As piores situações possíveis são encontradas nas
Já lhe paguei o que estava devendo:
favelas da cidade.
estamos quites.
m) Meio
Bastante - Caro - Barato - Longe
1- Como advérbio: invariável.

Estou meio insegura.


Essas palavras são invariáveis quando funcionam
2- Como numeral: segue a regra geral. como advérbios. Concordam com o nome a que se
referem quando funcionam como adjetivos, pronomes
Comi meia laranja pela manhã. adjetivos, ou numerais.

n) Só Exemplos:

1- apenas, somente (advérbio): invariável. As jogadoras estavam bastante cansadas.


(advérbio)
Só consegui comprar uma passagem. Há bastantes pessoas insatisfeitas com o
trabalho. (pronome adjetivo)
2- sozinho (adjetivo): variável. Nunca pensei que o estudo fosse tão caro.
(advérbio)
Estiveram sós durante horas. As casas estão caras. (adjetivo)
Achei barato este casaco.(advérbio)
Hoje as frutas estão baratas. (adjetivo)
"Vais ficando longe de mim como o sono,
Casos Particulares:
nas alvoradas." (Cecília Meireles) (advérbio)
"Levai-me a esses longes verdes, cavalos de
vento!" (Cecília Meireles). (adjetivo)
É proibido - É necessário - É bom - É preciso - É
permitido Meio - Meia
a) Essas expressões, formadas por um verbo mais a) A palavra "meio", quando empregada como
um adjetivo, ficam invariáveis se o substantivo a adjetivo, concorda normalmente com o nome a que
que se referem possuir sentido genérico (não vier se refere.
precedido de artigo).
Por Exemplo:
Exemplos:
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Pedi meia cerveja e meia porção de Transitivo indireto: quando significa ―ver‖,
polentas. ―presenciar‖, ―caber‖, ―pertencer‖ e exige
b) Quando empregada como advérbio (modificando complemento com a preposição ―a‖.
um adjetivo) permanece invariável.
- Assisti a um filme. (ver)
Por Exemplo: - Ele assistiu ao jogo.
- Este direito assiste aos alunos. (caber)
A noiva está meio nervosa.
Transitivo direto: quando significa ―socorrer‖, ―ajudar‖
e exige complemento sem preposição.
Alerta - Menos
- O médico assiste o ferido. (cuida)
Essas palavras são advérbios, portanto,
permanecem sempre invariáveis. Obs: Nesse caso o verbo ―assistir‖ pode ser usado
com a preposição ―a‖.
Por Exemplo:
- Assistir ao paciente.
Os escoteiros estão sempre alerta.
Carolina tem menos bonecas que sua Intransitivo: quando significa ―morar‖ exige a
amiga. preposição ―em‖.

- O papa assiste no Vaticano. (no: em + o)


- Eu assisto no Rio de Janeiro.
REGÊNCIA VERBAL
―No Vaticano‖ e ―no Rio de Janeiro‖ são adjuntos
adverbiais de lugar.
O estudo da regência verbal nos ajuda a escrever
melhor. CHAMAR
Quanto à regência verbal, os verbos podem ser: O verbo chamar pode ser transitivo direto ou
transitivo indireto.
- Transitivo direto
- Transitivo indireto É transitivo direto quando significa ―convocar‖, ―fazer
- Transitivo direto e indireto vir‖ e exige complemento sem preposição.
- Intransitivo
- O professor chamou o aluno.
ASPIRAR
É transitivo indireto quando significa ―invocar‖ e é
O verbo aspirar pode ser transitivo direto ou usado com a preposição ―por‖.
transitivo indireto.
- Ela chamava por Jesus.
Transitivo direto: quando significa ―sorver‖, ―tragar‖,
―inspirar‖ e exige complemento sem preposição. Com o sentido de ―apelidar‖ pode exigir ou não a
preposição, ou seja, pode ser transitivo direto ou
- Ela aspirou o aroma das flores. transitivo indireto.
- Todos nós gostamos de aspirar o ar do campo.
Admite as seguintes construções:
Transitivo indireto: quando significa ―pretender‖,
―desejar‖, ―almejar‖ e exige complemento com a - Chamei Pedro de bobo. (chamei-o de bobo)
preposição ―a‖. - Chamei a Pedro de bobo. (chamei-lhe de bobo)
- Chamei Pedro bobo. (chamei-o bobo)
- O candidato aspirava a uma posição de destaque. - Chamei a Pedro bobo. (chamei-lhe bobo)
- Ela sempre aspirou a esse emprego.
VISAR
Obs: Quando é transitivo indireto não admite a
substituição pelos pronomes lhe(s). Devemos Pode ser transitivo direto (sem preposição) ou
substituir por ―a ele(s)‖, ―a ela(s)‖. transitivo indireto (com preposição).
Quando significa ―dar visto‖ e ―mirar‖ é transitivo
- Aspiras a este cargo? direto.
- Sim, aspiro a ele. (e não ―aspiro-lhe‖).
- O funcionário já visou todos os cheques. (dar visto)
ASSISTIR - O arqueiro visou o alvo e atirou. (mirar)
O verbo assistir pode ser transitivo indireto, Quando significa ―desejar‖, ―almejar‖, ―pretender‖, ―ter
transitivo direto e intransitivo. em vista‖ é transitivo indireto e exige a preposição
―a‖.
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
- Muitos visavam ao cargo. Pode ser transitivo direto (no sentido de ―desejar‖) ou
- Ele visa ao poder. transitivo indireto ( no sentido de ―ter afeto‖,
―estimar‖).
Nesse caso não admite o pronome lhe(s) e deverá
ser substituído por a ele(s), a ela(s). Ou seja, não - A criança quer sorvete.
se diz: viso-lhe. - Quero a meus pais.

Obs: Quando o verbo ―visar‖ é seguido por um NAMORAR


infinitivo, a preposição é geralmente omitida. É transitivo direto, ou seja, não admite preposição.

- Ele visava atingir o posto de comando. - Maria namora João.

ESQUECER – LEMBRAR Obs: Não é correto dizer: ―Maria namora com João‖.
- Lembrar algo – esquecer algo
- Lembrar-se de algo – esquecer-se de algo OBEDECER
(pronominal)
É transitivo indireto, ou seja, exige complemento com
No 1º caso, os verbos são transitivos diretos, ou a preposição ―a‖ (obedecer a).
seja exigem complemento sem preposição.
- Devemos obedecer aos pais.
- Ele esqueceu o livro.
Obs: embora seja transitivo indireto, esse verbo pode
No 2º caso, os verbos são pronominais (-se, -me, ser usado na voz passiva.
etc) e exigem complemento com a preposição ―de‖.
São, portanto, transitivos indiretos. - A fila não foi obedecida.

- Ele se esqueceu do caderno. VER


- Eu me esqueci da chave.
- Eles se esqueceram da prova. É transitivo direto, ou seja, não exige preposição.
- Nós nos lembramos de tudo o que aconteceu.
- Ele viu o filme.
Há uma construção em que a coisa esquecida ou
lembrada passa a funcionar como sujeito e o verbo
sofre leve alteração de sentido. É uma construção Exercícios
muito rara na língua contemporânea , porém, é fácil
encontrá-la em textos clássicos tanto brasileiros 01. Está correto o emprego da expressão sublinhada
como portugueses. Machado de Assis, por na frase:
exemplo, fez uso dessa construção várias vezes.
(A) Os exercícios com que o autor se refere são
- Esqueceu-me a tragédia. (cair no esquecimento) aqueles praticados sem muito controle.
- Lembrou-me a festa. (vir à lembrança) (B) As substâncias na qual a privação acarreta
O verbo lembrar também pode ser transitivo direto e depressão são a dopamina e a endorfina.
indireto (lembrar alguma coisa a alguém ou alguém (C)) Quando o tempo de que dispomos é insuficiente
de alguma coisa). para a ginástica, cresce a nossa ansiedade.
PREFERIR (D) É um círculo vicioso, de cujo alguns não
conseguem escapar.
É transitivo direto e indireto, ou seja, possui um
objeto direto (complemento sem preposição) e um (E) As condições adversas em cujas muita gente faz
objeto indireto (complemento com preposição) ginástica ressaltam essa dependência.

- Prefiro cinema a teatro.


02. Todas as religiões têm rituais, e os fiéis que
- Prefiro passear a ver TV.
seguem esses rituais beneficiam-se não
Não é correto dizer: ―Prefiro cinema do que teatro‖. propriamente das práticas que constituem os
rituais, mas da meditação implicada nesses rituais.
SIMPATIZAR
Evitam-se as viciosas repetições da frase acima
Ambos são transitivos indiretos e exigem a substituindo-se os segmentos sublinhados,
preposição ―com‖. respectivamente, por:
(A) lhes seguem - lhes constituem - neles implicada
- Não simpatizei com os jurados.
(B) os seguem - os constituem - neles implicada
QUERER
(C) os seguem - os constituem - lhes implicada
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
(D) os seguem - lhes constituem - implicada nos bonita __________ assistiu.
mesmos – O barco __________ estavam os que se dirigiam
(E) seguem-nos - constituem-nos - a eles implicada ao
porto passava distante dos pescadores.
Tendo em vista a regência verbal, as frases acima se
03. É mais do que suficiente o vocabulário _____ completam com
dispomos. (A) de que / em que / com que
O termo _______ o autor se refere é surfar. (B) de que / em que / do qual
Tendo em vista a regência verbal, completam-se (C) pelo qual / a que / em que
corretamente as frases com: (D) pelo qual / que / de que
(A) de que - a que. (E) com o qual / com que / em que
(B) com que - de que.
(C) que - de que. 08. Assinale a opção cuja regência do verbo
(D) a que - que. apresentado é a mesma do verbo destacado na
(E) a que - com que. passagem ―Ser aceito implica mecanismos mais
sutis e de maior alcance...‖
04. O conhecimento ___________ se referia o (A) Lembrar-se.
profissional, se faz presente nas pessoas (B) Obedecer.
___________ valores não são materiais. (C) Visar (no sentido de almejar).
Assinale a opção que, segundo o registro culto e (D) Respeitar.
formal da língua, preenche as lacunas acima. (E) Chegar.
(A) que – que (B) que – cujos os
(C) a que – cujos (D) o qual – de
cujos 09. Assinale a alternativa cuja seqüência completa
(E) o qual – para quem corretamente as frases abaixo:
A lei ____ se referiu jà foi revogada.
05. Indique a opção em que a expressão em
Os problemas ____se lembraram eram muito
destaque pode ser substituída por ―lhe‖, assim grandes.
como em ―...uma parte do mérito lhe cabe,‖
(A) O economista chamou o colega de benfeitor da O cargo _____aspiras é muito importante.
natureza. O filme _____gostou foi premiado.
(B) A Fundação convidou o professor para o cargo O jogo _______ assistimos foi movimentado.
de diretor.
(C) O projeto pertence ao renomado cientista. A) que - que - que - que - que
(D) O governo criou recentemente o Bolsa- B) a que -de que-que-que - a que
Floresta. C) que - de que - que - de que - que
(E) A diretora gosta muito de sua assistente.
D) a que - de que - a que - de que- a que
06. Observe as frases a seguir. E) a que - que - que - que - a que
O êxito ______ confiamos depende de esforço e
dedicação.
10. As liberdades _____ se refere o autor dizem
Os modelos de ídolos ______ todos aspiramos
respeito a direitos _____ se ocupa a nossa
deveriam ser constituídos de valores éticos. Constituição.
A opção que preenche, respectivamente, as
lacunas das frases acima, de acordo com a norma Preenchem de modo correto as lacunas da frase
acima, na ordem dada, as expressões:
culta, é:
(A) para que / de que. (A) a que - de que (D) à que - em que
(B) de que / a que. (B) de que - com que (E) em que - aos quais
(C) em que / com que.
(C) a cujas - de cujos
(D) em que/ a que.
(E) a que / em que.
11. Assinale a opção cuja lacuna não pode ser
07. Analise as frases. preenchida pela preposição entre parênteses:
– Desejavam saber o preço __________ venderiam
A) uma companheira desta, _____ cuja figura os
o
camarão. mais velhos se comoviam. (com)
– Com cenário iluminado, a pesca na lagoa foi a B) uma companheira desta, _____ cuja figura já nos
mais referimos anteriormente. (a)

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
C) uma companheira desta, _____ cuja figura havia menos nos feitos dos grandes homens. Encontrava-
um ar de grande dama decadente. (em) se na cultura, obra coletiva de gerações anônimas.
D) uma companheira desta, _____cuja figura (...)
andara todo o regimento apaixonado. (por) Devemos a Sérgio Buarque, apenas dois anos
depois, com Raízes do Brasil, um instigante ensaio –
E) uma companheira desta, _____ cuja figura as
crianças se assustavam. (de) ―clássico de nascença‖, nas palavras de Antônio
Cândido – que tentava compreender como uma
PRÁTICA DE TEXTO sociedade rural, de raízes ibéricas, experimentaria o
inevitável trânsito para a modernidade urbana e
TCE/RO ―americana‖ do século 20. Ao contrário do
É preciso voltar a gostar do Brasil pernambucano Gilberto Freyre, o paulista Sérgio
Muitos motivos se somaram, ao longo da nossa Buarque não sentia nostalgia pelo Brasil agrário que
história, para dificultar a tarefa de decifrar, mesmo estava se desfazendo, mas tampouco acreditava na
imperfeitamente, o enigma brasileiro. Já eficácia das vias autoritárias, em voga na década de
independentes, continuamos a ser um animal muito 1930, que prometiam acelerar a modernização pelo
estranho no zoológico das nações: sociedade alto. Observa o tempo secular da história. Considera
recente, produto da expansão européia, concebida a modernização um processo. Também busca a
desde o início para servir ao mercado mundial, singularidade do processo brasileiro, mas com olhar
organizada em torno de um escravismo prolongado sociológico: somos uma sociedade transplantada,
e tardio, única monarquia em um continente mas nacional, com características próprias. (...)
republicano, assentada em uma extensa base Anuncia que ―a nossa revolução‖ está em
territorial situada nos trópicos, com um povo em marcha, com a dissolução do complexo ibérico de
processo de formação, sem um passado profundo base rural e a emergência de um novo ator decisivo,
onde pudesse ancorar sua identidade. Que futuro as massas urbanas. Crescentemente numerosas,
estaria reservado para uma nação assim? libertadas da tutela dos senhores locais, elas não
Durante muito tempo, as tentativas feitas para mais seriam demandantes de favores, mas de
compreender esse enigma e constituir uma teoria direitos. No lugar da comunidade doméstica,
do Brasil foram, em larga medida, infrutíferas. Não patriarcal e privada, seríamos enfim levados a fundar
sabíamos fazer outra coisa senão copiar saberes a comunidade política, de modo a transformar, ao
da Europa (...) Enquanto o Brasil se olhou no nosso modo, o homem cordial em cidadão.
espelho europeu só pôde construir uma imagem O esforço desses pensadores deixou pontos de
negativa e pessimista de si mesmo, ao constatar partida muito valiosos, mesmo que tenham descrito
sua óbvia condição não-européia. um país que, em parte, deixou de existir. O Brasil de
Houve muitos esforços meritórios para superar Gilberto Freyre girava em torno da família extensa da
esse impasse. Porém, só na década de 1930, casa-grande, um espaço integrador dentro da
depois de mais de cem anos de vida independente, monumental desigualdade; o de Sérgio Buarque
começamos a puxar consistentemente o fio da apenas iniciava a aventura de uma urbanização que
nossa própria meada. Devemos ao conservador prometia associar-se a modernidade e cidadania.
Gilberto Freyre, em 1934, com Casa-grande & BENJAMIN, César. Revista Caros Amigos. Ano X,
Senzala, uma revolucionária releitura do Brasil, no 111. jun. 2006. (adaptado)
visto a partir do complexo do açúcar e à luz da 1. Segundo o texto, o ―...tremendo resgate do papel
moderna antropologia cultural, disciplina que então civilizatório de negros e índios dentro da formação
apenas engatinhava. (...) Freyre revirou tudo de social brasileira.‖ (l. 29-30) refere-se:
ponta-cabeça, realizando um tremendo resgate do (A) à influência das culturas indígena e negra na
papel civilizatório de negros e índios dentro da civilização ibérica.
formação social brasileira. (...) (B) à influência destas etnias na constituição da
A colonização do Brasil, ele diz, não foi obra do cultura
Estado ou das demais instituições formais, todas brasileira.
aqui muito fracas. Foi obra da família patriarcal, em (C) às interferências ibéricas na formação destas
torno da qual se constituiu um modo de vida etnias.
completo e específico. (...) (D) às dificuldades que estes povos criaram para a
Nada escapa ao abrangente olhar investigativo formação social brasileira.
do antropólogo: comidas, lendas, roupas, cores, (E) ao massacre sofrido por estes povos no processo
odores, festas, canções, arquitetura, sexualidade, colonizador.
superstições, costumes, ferramentas e técnicas,
palavras e expressões de linguagem. (...) Ela (a 2. O autor enaltece as teorias de Freyre e Buarque
singularidade da experiência brasileira) não se ―mesmo que tenham descrito um país que, em parte,
encontrava na política nem na economia, muito
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
deixou de existir.‖ (l. 69-70). Segundo o texto, o (C) Gilberto Freyre, conservador, faz uma releitura do
país, em parte, deixou de existir em virtude de: Brasil que não se restringe ao elemento europeu.
(A) diferentes colonizações na sua história. (D) O dualismo vivência rural e vivência urbana é
(B) erros na decifração do enigma brasileiro. cotejado por Sérgio Buarque em sua obra.
(C) inevitáveis mudanças ao longo da história. (E) O ponto de contato entre o pensamento dos dois
(D) equívocos na construção da cultura. autores consiste na investigação do que há de
(E) dificuldades encontradas pelos antropólogos. específico na brasilidade.

3. Para Sérgio Buarque, ―as massas urbanas‖ (l. 61) 8. O aspecto enigmático da sociedade brasileira
representam o(a): consiste:
(A) sinal de liberdade dos senhores locais. (A) em se desvendar a razão de não se gostar muito
(B) empecilho à decifração do enigma brasileiro. do Brasil.
(C) resultado da colonização de raízes ibéricas. (B) na fragilidade do olhar investigativo dos
(D) produto de transformações feitas pela ―nossa estudiosos.
revolução‖. (C) na ineficácia dos esforços de se entender o Brasil
(E) demonstração do autoritarismo em voga na em decorrência de sua situação geográfica.
década de 30. (D) na incapacidade brasileira de copiar os saberes
europeus.
4. O termo destacado em ―...um espaço integrador (E) nas contradições existentes mesmo em etapas
dentro da monumental desigualdade;‖ (l. 71-72) diferentes de sua constituição política.
faz contraponto com o(a):
(A) processo autoritário de modernização. 9. Em ―seríamos enfim levados a fundar a
(B) contraste econômico entre o campo e a cidade. comunidade política, de modo a transformar, ao
(C) comunidade doméstica patriarcal. nosso modo, o homem cordial em cidadão.‖ (l. 65-
(D) estratificação social da casa-grande. 67), as partes destacadas podem ser substituídas,
(E) construção da cidadania decorrente da sem alteração de sentido, por:
urbanização. (A) de maneira que pudéssemos – do nosso jeito.
(B) com o fim de – como se fosse nosso.
5. O fragmento ―somos uma sociedade (C) na forma de – da nossa sociedade.
transplantada, mas nacional, com características (D) tendo como objetivo – para nosso lucro.
próprias.‖ (l. 56-58) sinaliza uma oposição. Assinale (E) sem fins de – do mesmo jeito.
a opção em que os termos demonstram, 10. Assinale a opção em que o conjunto destacado
respectivamente, esta oposição. NÃO atribui ao texto a idéia de FINALIDADE.
(A) Independente / insubmissa. (A) ―Muitos motivos se somaram, (...) para dificultar
(B) Colonial / singular. a tarefa de decifrar, (...) o enigma ...‖(l.1-3)
(C) Única / igualitária. (B) ―concebida desde o início para servir ao
(D) Livre / original. mercado mundial,‖ (l.5-6)
(E) Peculiar / específica. (C) ―(...) as tentativas feitas para compreender esse
enigma (...) foram, (...) infrutíferas.‖ (l.13-15)
6. A compreensão do Brasil foi retardada pela (D) ―Houve muitos esforços meritórios para superar
existência de: esse impasse.‖ (l. 20-21)
(A) uma família patriarcal que se opôs ao trabalho (E) ―experimentaria o inevitável trânsito para a
civilizatório das instituições formais. modernidade urbana ...‖ (l. 47-48)
(B) uma sociedade que continuou mercantilista até
a independência. 11. Na construção de uma das opções abaixo foi
(C) um enigma que só pôde ser decifrado com os empregada uma forma verbal que segue o mesmo
ideais republicanos. tipo de uso do verbo haver em ―Houve muitos
(D) muitos dados que enredaram a nossa cultura. esforços meritórios para superar esse impasse.‖ (l.
(E) aspectos que levaram à formação de uma 20-21). Indique-a.
identidade nacional contraditória. (A) O antropólogo já havia observado a atitude dos
grupos sociais.
7. É CONTRÁRIA ao texto a seguinte afirmação: (B) Na época da publicação choveram elogios aos
(A) Sérgio Buarque não considera a passagem para livros.
a (C) Faz muito tempo da publicação de livros como
modernidade um processo lesivo aos interesses estes.
nacionais. (D) No futuro, todos hão de reconhecer o seu valor.
(B) Gilberto Freyre e Sérgio Buarque compartilham (E) Não se fazem mais brasileiros como antigamente.
o sentimento pelo ocaso da sociedade agrária.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
12. Assinale a opção em que há uso REGÊNCIA NOMINAL
INADEQUADO da regência verbal, segundo a
norma culta da língua. A regência nominal determina se os seus
(A) É interessante a obra de Freyre com a qual a de complementos são acompanhados por preposição.
Sérgio Buarque compõe uma dupla magistral. Os nomes pedem complemento nominal; e os
(B) É necessário ler estes livros nos quais nos verbos, objetos diretos ou indiretos.
vemos caracterizados. Exemplo:
(C) Chico Buarque, por quem os brasileiros têm
- Ela tem necessidade de roupa.
grande admiração, é filho de Sérgio Buarque.
(D) É tão bom escritor que não vejo alguém de Quem tem necessidade, tem necessidade ―de‖
quem ele possa se comparar. alguma coisa.
(E) Valoriza-se, sobretudo, aquele livro sob cujas De roupa: complemento nominal.
leis as pessoas traçam suas vidas.
- Fiz uma referência a um escritor famoso.
13. Em qual das palavras apresentadas a seguir as
lacunas NÃO podem ser preenchidas com os Quem faz referência faz referência ―a‖ alguma coisa.
A um escritor famoso: complemento nominal
mesmos sinais gráficos destacados no vocábulo
expansão? Na verdade, não existem regras. Cada palavra exige
(A) E __clu __ão. (D) E __ pan __ ivo. um complemento e rege uma preposição.
(B) E __po __ição. (E) E __ cur __ão.
(C) E __ terili __ação. Muitas regências nós aprendemos de tanto escutá-
las, porém não significa que todas estejam corretas.
14. A ausência do sinal gráfico de acentuação cria
―Prefiro mais cinema do que teatro.‖
outro sentido para a palavra:
(A) trânsito. (B) características. Escutamos esta frase quase todos os dias.
(C) inevitável. (D) infrutíferas.
(E) anônimas. Preferir mais, não existe, pois ninguém prefere
menos. É, portanto, uma redundância.
GABARITO DOS EXERCÍCIOS
Quem prefere prefere alguma coisa ―a‖ outra. A frase
ficaria correta desta forma: ―Prefiro cinema a teatro‖.
CONCORDÂNCIA VERBAL
O verbo preferir é transitivo direto e indireto e o
objeto indireto deve vir com a preposição. ―a‖.
01. a) Aconteceram; b) Ficaram; c) Sobraram; d)
devem existir; e) podem ocorrer. ―Prefiro isso do que aquilo.‖
02. a) Anunciaram-se; b) se farão; c) Trata-se; d) se
fala; e) Obtiveram-se Do que é uma regência popular e deve ser evitada
03.E 04.A 05.C 06.A 07.B 08.D 09.E 10.B em provas, redações e concursos.
11.C 12.A 13.C 14.E 15.C 16.E
―Prefiro ir à praia a estudar.‖ (Preferir a + a praia: a +
PRÁTICA DE TEXTO: a: à - veja Crase).

01.D 02.E 03.C 04.E 05.A 06.B 07.D 08.B Acessível a


09.D 10.E 11.A 12.E 13.C 14.A 15.C 16.B
17.C Acostumado a ou com

Alheio a
REGÊNCIA VERBAL
Alusão a
01.C 02.B 03.A 04.C 05.C 06.D 07.C 08.D
09.D 10.A 11.E Ansioso por

PRÁTICA DE TEXTO: Atenção a ou para


01.B 02.C 03.D 04.E 05.B 06.D 07.B 08.E
09.A 10.E 11.C 12.D 13.C 14.A Atento a ou em

Benéfico a

Compatível com

Cuidadoso com

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Desacostumado a ou com Simpático a

Desatento a Útil a ou para

Desfavorável a Versado em

Desrespeito a Apresentamos a seguir vários nomes


acompanhados da preposição ou preposições que os
Estranho a regem. Observe-os atentamente e procure, sempre
que possível, associar esses nomes entre si ou a
Favorável a algum verbo cuja regência você conhece.
Fiel a Substantivos
Grato a
Admiração a, Devoção a, para, Medo de
Hábil em por com, por

Habituado a Aversão a, Doutor em Obediência a


para, por
Inacessível a

Indeciso em Atentado a, Dúvida acerca de, Ojeriza a, por


contra em, sobre
Invasão de
Bacharel em Horror a Proeminência
Junto a ou de sobre
Leal a
Capacidade Impaciência com Respeito a, com,
Maior de de, para para com, por

Morador em

Natural de Adjetivos

Necessário a Acessível a Entendido em Necessário a


Necessidade de
Acostumado a, Equivalente a Nocivo a
Nocivo a com

Ódio a ou contra Agradável a Escasso de Paralelo a


Odioso a ou para
Alheio a, de Essencial a, Passível de
Posterior a para

Preferência a ou por Análogo a Fácil de Preferível a


Preferível a
Ansioso de, Fanático por Prejudicial a
Prejudicial a para, por

Próprio de ou para Apto a, para Favorável a Prestes a

Próximo a ou de
Ávido de Generoso com Propício a
Querido de ou por
Benéfico a Grato a, por Próximo a
Residente em
Capaz de, para Hábil em Relacionado
Respeito a ou por com
Sensível a
Compatível com Habituado a Relativo a
Simpatia por

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Colocação pronominal.
Contemporâneo Idêntico a Satisfeito com,
a, de de, em, por É a parte da gramática que trata da correta
colocação dos pronomes oblíquos átonos na frase.
Contíguo a Impróprio para Semelhante a
Embora na linguagem falada a colocação dos
Contrário a Indeciso em Sensível a pronomes não seja rigorosamente seguida, algumas
normas devem ser observadas, sobretudo, na
linguagem escrita.
Descontente Insensível a Sito em
com Dicas:
Existe uma ordem de prioridade na colocação
Desejoso de Liberal com Suspeito de pronominal: 1º tente fazer próclise, depois
mesóclise e em último caso, ênclise.
Diferente de Natural de Vazio de

Advérbios
Próclise
Longe de
Perto de É a colocação pronominal antes do verbo. A próclise
é usada:
Obs.: os advérbios terminados em -mente tendem a
seguir o regime dos adjetivos de que são formados:
1) Quando o verbo estiver precedido de palavras
paralela a; paralelamente a; relativa a;
que atraem o pronome para antes do verbo. São
relativamente a.
elas:

a) Palavras de sentido negativo: não, nunca,


ninguém, jamais, etc.

Ex.: Não se esqueça de mim.

b) Advérbios.

Ex.: Agora se negam a depor.

c) Conjunções subordinativas.

Ex.: Soube que me negariam.

d) Pronomes relativos.

Ex.: Identificaram duas pessoas que se encontravam


desaparecidas.

e) Pronomes indefinidos.

Ex.: Poucos te deram a oportunidade.

f) Pronomes demonstrativos.

Ex.: Disso me acusaram, mas sem provas.

2) Orações iniciadas por palavras interrogativas.

Ex.: Quem te fez a encomenda?

3) Orações iniciadas por palavras exclamativas.

Ex.: Quanto se ofendem por nada!

4) Orações que exprimem desejo (orações


optativas).

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
1) Quando o verbo principal for constituído por
Ex.: Que Deus o ajude. um particípio

Mesóclise a) O pronome oblíquo virá depois do verbo


auxiliar.

É a colocação pronominal no meio do verbo. A Ex.: Haviam-me convidado para a festa.


mesóclise é usada:
b) Se antes da locução verbal houver palavra
1) Quando o verbo estiver no futuro do presente atrativa, o pronome oblíquo ficará antes do verbo
ou futuro do pretérito, contanto que esses auxiliar.
verbos não estejam precedidos de palavras que
exijam a próclise. Ex.: Não me haviam convidado para a festa.

Exemplos: Dicas:
Se o verbo auxiliar estiver no futuro do presente
Realizar-se-á, na próxima semana, um grande ou no futuro do pretérito, ocorrerá a mesóclise,
evento em prol da paz no mundo. desde que não haja palavra atrativa antes dele.
Não fosse os meus compromissos, acompanhar-te-
ia nessa viagem. Ex.: Haver-me-iam convidado para a festa.

Ênclise 2) Quando o verbo principal for constituído por


um infinitivo ou um gerúndio:

É a colocação pronominal depois do verbo. A a) Se não houver palavra atrativa, o pronome


ênclise é usada quando a próclise e a mesóclise oblíquo virá depois do verbo auxiliar ou depois
não forem possíveis: do verbo principal.
Exemplos:
1) Quando o verbo estiver no imperativo Devo esclarecer-lhe o ocorrido/ Devo-lhe esclarecer o
afirmativo. ocorrido.
Estavam chamando-me pelo alto-falante./ Estavam-
Ex.: Quando eu avisar, silenciem-se todos. me chamando pelo alto-falante.
2) Quando o verbo estiver no infinitivo b) Se houver palavra atrativa, o pronome poderá
impessoal. ser colocado antes do verbo auxiliar ou depois do
verbo principal.
Ex.: Não era minha intenção machucar-te. Exemplos:
3) Quando o verbo iniciar a oração. Não posso esclarecer-lhe o ocorrido./ Não lhe posso
esclarecer o ocorrido.
Ex.: Vou-me embora agora mesmo. Não estavam chamando-me./ Não me estavam
chamando.
4) Quando houver pausa antes do verbo.
Observações importantes:
Ex.: Se eu ganho na loteria, mudo-me hoje mesmo. Emprego de o, a, os, as
5- Quando o verbo estiver no gerúndio. 1) Em verbos terminados em vogal ou ditongo
oral, os pronomes: o, a, os, as não se alteram.
Ex.: Recusou a proposta fazendo-se de Exemplos:
desentendida.
Chame-o agora.
Dicas: Deixei-a mais tranquila.
O pronome poderá vir proclítico quando o
infinitivo estiver precedido de preposição ou 2) Em verbos terminados em r, s ou z, estas
palavra atrativa. consoantes finais alteram-se para lo, la, los, las.
Exemplos: Exemplos:
É preciso encontrar um meio de não o magoar. (Encontrar) Encontrá-lo é o meu maior sonho.
É preciso encontrar um meio de não magoá-lo. (Fiz) Fi-lo porque não tinha alternativa.
Colocação pronominal nas locuções verbais 3) Em verbos terminados em ditongos nasais (am,
em, ão, õe, õe,), os pronomes o, a, os, as alteram-

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
se para no, na, nos, nas.
Exemplos:

Chamem-no agora.
Põe-na sobre a mesa.

4) As formas combinadas dos pronomes


oblíquos: mo, to, lho, no-lo, vo-lo, formas em
desuso, podem ocorrer em próclise, ênclise ou
mesóclise. O que é Estilística

Ex.: Ele mo deu. (Ele me deu o livro)


A estilística é um recurso da linguística
relacionado com o estilo da linguagem utilizada,
tanto oral quanto escrita. É o estudo da variação
da língua para atribuir às palavras e frases
sentidos emotivos e estéticos. A estilística
trabalha com o contexto no qual as palavras se
inserem para identificar os diversos sentidos. A
escolha de um sinônimo em vez de outro,
palavras que trazem significados que não são
originalmente definidos para ela, a estilística é
feita para explicar todas essas questões da
linguagem. O foco de estudo não são apenas as
palavras, mas a forma como elas são organizadas,
não do mesmo jeito que a sintaxe as estuda, mas
como são pronunciadas e em que posição
geográfica elas se encontram, como se organizam
em relação ao texto e o tipo de escrita usada.
Todos esses fatores podem criar um diferente
resultado de entendimento, segundo os estudos
estilísticos. Em resumo, a estilística é uma forma
de se expressar usando a língua e ultrapassando
apenas o significado literal das palavras.

Estilística e os estudos da linguagem


Uma característica da estilística é que ela pode
passar por todos os outros estudos da linguagem
e formar recursos de expressão. Não
necessariamente ele interage com um por vez,
mas para facilitar o estudo é melhor separá-los.

Estilística e Fonética
A fonética pode ser combinada com a estilística
de diversas maneiras, como, por exemplo, pela
repetição de fonemas ao longo do texto. O uso de
palavras que não possuem um significado exato,
pois são apenas reproduções gráficas de sons,
também é fruto desta relação entre as áreas da
linguísticas. A sonoridade das palavras cria um
certo ritmo para o texto que foge do estudo da
gramática.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Estilística e Morfologia Conotação e Denotação , suas definições e
utilizações.
Os recursos morfológicos normalmente estão
presentes na estilística em sufixos das palavras,
os mais comuns são os de aumentativo e
diminutivo. Esses dois tipos de sufixos
normalmente referem-se ao tamanho de alguém
ou algo, mas neste contexto não precisam
referir-se necessariamente a isso, e por essa
razão é possível, por exemplo, compor apelidos
carinhosos simplesmente adicionando-se um
sufixo diminutivo a um nome próprio.

Estilística e Sintaxe
A sintaxe traz diversos recursos expressivos,
podendo interagir com a estilística de várias
maneiras. Uma delas é retirar os conectivos de
uma oração para desacelerar o ritmo, ou repeti-
los para acelerar. Os recursos sintáticos podem
produzir diversos sentidos numa oração, dar
ênfase, igualar a língua escrita com a oral, entre
diversos outros objetivos.

Estilística e Semântica
A semântica trabalha com os significados das
palavras, e usando-a como recurso expressivo, é
possível fazer com que uma palavra tenha um
significado que não pertence a ela, mas no
contexto seja possível perceber ao que se refere.
Essa mistura de semântica e estilística gera
várias figuras de linguagem, entre elas a
metáfora e a metonímia.

Elementos da Estilística
O estudo aprofundado da estilística a diversos
outros assuntos é importante para a expressão e
para entender melhor não só a literatura, mas
qualquer obra que carregue um mínimo de
expressão. São itens pertinentes à estilística:
Figuras de Linguagem: São recursos estilísticos que
utilizam aspectos fonólogicos, sintáticos ou
semânticos para auxiliar a expressão do emissor.

Funções de Linguagem: São formas que a


linguagem assume a partir da adoção de recursos
estilísticos que conferem a ela certas características
que a tornam adequada para determinadas
finalidades.

Alguns estudiosos da língua portuguesa


também associam à estilística a questão da

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Geralmente a fala acontece no contexto do ―ao vivo‖,
um interlocutor busca o outro com o olhar, faz pausas
e segue uma linha baseada nos vários elementos
subjetivos que vão surgindo o que torna a fala não
Leitura parafrástica e leitura planejada, fragmentada e até incompleta visto que
polissêmica. algumas vezes desvia-se de um assunto e esquece-
se de retomá-lo.

Já na escrita, dentre outros fatores, ocorre um


Sentido do texto e incompletude no processo de planejamento e uma elaboração maior e uma
comunicação condensação da informação, pois existe uma revisão
e uma preocupação maior com quem lê, já que a
A característica de incompletude da língua diz que interação não ocorre no contexto do ―ao vivo‖.
os falantes pressupõem um contexto e certo
conhecimento prévio do interlocutor sobre o tema Cada uma das formas do uso da língua tem sua
abordado. Assim, o leitor, que também é sujeito ordem. A retextualização é o processo de
agente na comunicação, com suas especificidades transformação de ordem. Se, por exemplo, a ordem
e sua história, deve levar em conta o contexto do que se tem por objetivo é a escrita e retira-se a
produtor do discurso e utilizar seus conhecimentos maioria dos elementos de oralidade (―eh...‖, etc.), de
prévios para interpretar a mensagem. fragmentação (pausas, etc.), de repetição (―nem...
nem‖, ―de... de‖, etc.) e de interação (―viu?‖, ―né?‖,
Outro ponto importante a ser considerado é que, etc.).
segundo os princípios da análise do discurso como
proposta por Pêcheux, cada emissor e cada Leitura parafrástica e polissémica
receptor fala e escuta como representante de uma
determinada posição da estrutura social. Pode-se, O grau de inferência pode variar da leitura
por exemplo, falar de uma posição profissional parafrástica até a leitura polissêmica. A leitura
dentro de uma instituição que legitima determinados parafrástica reproduz, repete um discurso já
tipos de saberes e que busca divulgá-los, ou da formulado e sedimentado. A polissemia trata do
posição da família, partindo de uma ideologia diferente, de uma nova significação, de uma
protetora e auxiliar da prole. atribuição de sentido ao dito.

Por fim, o sentido não se encontra totalmente nem Em geral uma tirinha de jornal permite uma leitura
se encerra no texto. O contexto e os conhecimentos bastante polissêmica, na medida em que dá grandes
prévios são decisivos e fazem parte do processo de possibilidades de inferência de sentido por parte do
comunicação. Sem eles não seria possível a leitor que, com base em seus conhecimentos prévios,
comunicação, pois, todo texto é sempre incompleto, ganha uma maior liberdade de significação.
o produtor não explica, nem tem condições de
explicar tudo para seu leitor. O texto em si não tem Um verbete de dicionário apresenta-se
sentido quanto descontextualizado ou fora de um predominantemente parafrástico uma vez que as
conjunto de conhecimentos compartilhados. possibilidades de interpretação deste texto são bem
reduzidas; muito pouco espaço é deixado para a
Coesão e Coerência inferência do leitor.

De modo geral, a coerência é dada principalmente Um texto técnico-acadêmico, embora em grau menor
pela unidade temática, tratando-se do mesmo do que um verbete, também é predominantemente
assunto do começo ao fim, exigindo-se, parafrástico. Apesar de em alguns momentos haver
evidentemente, algum conhecimento prévio do um espaço/convite para uma significação
leitor. Já a coesão é a manifestação linguística da própria, existem informações que dão muito pouco
coerência e é mantida pelas relações de reiteração, espaço para uma leitura polissêmica.
associação e conexão. Ela dá continuidade ao texto
e possibilita a produção de sentido a partir do lido. Assim, um verbete ou um texto técnico-acadêmico,
por pouco ou nada termos a inferir, são parafrásticos,
Diferenças entre a fala e escrita enquanto uma tirinha de jornal pela possibilidades
inferenciais é polissêmico.
Tanto a escrita quanto a fala possuem
características próprias. Quando a escrita tenta Ensino de produção textual escrita por meio de
representar a fala há perda de elementos, como, gêneros textuais
por exemplo, todo o gestual e a ―fala‖ corporal; no
contrário, quando a fala tenta representar a escrita, Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua
também há perda, pois não são reproduzidas os Portuguesa lembram que não há apenas uma
negritos, os sublinhados e os diversos aspectos determinada forma, um determinado contexto e uma
tipográficos presentes no texto escrito. determinada circunstância na qual a comunicação
precisa ou pode ocorrer. As formas, as circunstâncias

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
de interlocução e os contextos são variados. A
linguagem é um instrumento da comunicação,
saber usá-la inteligentemente é fundamental no
processo de interação.

A expressão gênero textual refere-se a


características sociais e comunicativas de
determinado texto. Estas características dizem
respeito ao conteúdo, propriedades funcionais,
estilo e composição. Tanto o professor, quanto o
livro didático devem trabalhar com o aluno o
conceito de gêneros textuais. Mais do que uma
questão de modismo, é uma questão de
responsabilidade ao se educar.

Precisa-se possibilitar que o aluno adquira a


habilidade de usar os recursos da língua para
produzir sentido de acordo com a situação em que
se encontra e sua intencionalidade. O trabalho
apenas com as superestruturas (descrição,
narração e dissertação) limita a potencialidade
criativa do aluno e pode reduzir seu repertório
comunicativo e interacional.

É evidente que o trabalho com as superestruturas é


relevante, pois cada gênero textual traz em si
trechos narrativos, descritivos e dissertativos,
porém o que não se pode é ignorar a função social
de cada texto. Deve ser dada ao aluno a condição
de reconhecer e saber utilizar no seu cotidiano os
vários gêneros textuais (carta, e-mail, bilhete, lista
de compras, resenha, resumo, romance, etc.). Esta
é uma responsabilidade do professor e do livro
didático no ensino da produção textual escrita.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
verdadeira que ela não deve possuir uma lógica, uma
equivalência com a verdade.
Verossimilhança provém do latim verisimilis,
cujo sentido se atém a ―provável‖, ou seja, a narrativa
precisa ser constituída de um universo possível, no
intuito de provocar no leitor a sensação de que algo
CICLO NARRATIVO pode realmente existir, acontecer. Assim, os fatos
não precisam corresponder de forma exata ao
Situação inicial (apresentação), universo exterior, mas necessariamente precisam ser
desenvolvimento (complicação), clímax e verossímeis, semelhantes à realidade.
desfecho (solução)
Com base nesse aspecto, podemos afirmar
que a ficção, de uma forma geral, apresenta dois
Nos textos essencialmente narrativos, aspectos básicos, sendo estes:
predominam as frases verbais, que indicam um * Verossimilhança externa – Trata-se
processo, estamos nos referindo a uma sucessão daquilo que é aceito pelo senso comum, tido como
de estados ou de mudanças. É exatamente isso possível, provável.
que acontece num texto narrativo: uma seqüência
de acontecimentos (portanto, há uma progressão * Verossimilhança interna – Caracteriza-se
temporal) que levam a uma transformação, a uma pela coerência narrativa, ou seja, pela sequência
mudança. temporal dos fatos. Esses, por sua vez, devem
suceder temporalmente, isto é, uma causa (um fato),
Dessa forma, a narrativa tem como ponto desencadeia uma consequência, dando origem a
de partida uma situação inicial, que se desenvolve novos fatos e assim sucessivamente. Quando essa
para chegar a uma situação final, diferente da sucessão, por um motivo ou outro, se torna
inicial. contraditória, constata-se que a narrativa adquiriu um
•Situação inicial(ou apresentação) – o(s) aspecto inverossímil.
personagem(ns) é (são) apresentado(s) numa No intuito de verificarmos como a
determinada situação temporal e espacial; inverosimilhança externa pode se manifestar,
•Desenvolvimento(complicação) – atentemo-nos a dois exemplos, retratados a seguir:
apresenta-se um conflito, e a ação se desenvolve - As narrativa fantásticas, muito bem
até chegar ao clímax e,em seguida, a um desfecho; representadas por Murilo Rubião, Franz Kafka, José
•Clímax: é o ponto culminante da história, o J. Veiga, entre tantos outros, por meio de uma
de maior tensão, quando o conflito atinge seu ponto atmosférica ilógica trabalham a questão do
máximo, gerando ansiedade no leitor. inverossímil. Analisemos alguns fragmentos extraídos
da obra de José J. Veiga, ―A hora dos ruminantes‖:
•Situação final.(desfecho)- passado o
conflito, o(s) personagem(ns) é (são) Frequentemente surgiam brigas, e seus
apresentado(s) em uma nova situação – há claros estremecimentos repercutiam longe, derrubavam
indícios de transformação, de mudança em relação paredes distantes e causavam novas brigas, até que
ao início da narrativa. os empurrões, chifradas, ancadas forçassem uma
arrumação temporária. O boi que perdesse o
Verossimilhança equilíbrio e ajoelhasse nesses embates não
A verossimilhança se caracteriza pela conseguia mais se levantar, os outros o pisavam até
aproximação dos fatos ocorridos, com a realidade matar, um de menos que fosse já folgava um pouco o
externa aperto – mas só enquanto os empurrões vindos de
longe não restabelecessem a angústia.
No intuito de dar ênfase ao assunto que ora
emerge, observaremos o universo literário, tido [...]
como arte. Pois bem, mesmo tendo em mente que - Outro exemplo pode ser evidenciado por
toda criação é fruto de concepções ideológicas, meio de um fato bastante interessante: imaginemos
sendo estas reflexos de um contexto ―social‖ como que os fatos de uma narrativa qualquer se
um todo, ela se materializa como sendo desenrolem nos anos 1960, em um contexto que
transfiguração do real, visto que do contrário não apresenta telefones celulares, e tantas outras
seria Literatura, mas sim um documentário, uma tecnologias com as quais atualmente convivemos.
biografia. Seria um pouco improvável, não é verdade?
Partindo de tal pressuposto, temos agora
embasamento para discutir sobre o que vem a ser
verossimilhança. Quando falamos em
transfiguração do real, fazemos referência a um
mundo imaginário, a algo criado pelo próprio artista.
No entanto, não é porque a estória não é

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Estrutura da narrativa e mais novo. Moisés, que também contou a sua
morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença
radical entre este livro e o Pentateuco [...]‖.
Quando pensamos na narrativa, (Fragmento do livro “Memórias Póstumas
costumamos associar o nome aos tipos textuais de Brás Cubas”, de Machado de Assis)
envolvidos na elaboração de uma redação. Na
escola, esse é o primeiro tipo de texto ao qual O CONTRAPONTO DRAMÁTICO
somos expostos, seja através dos contos de fadas O resto é silêncio adota a técnica narrativa do
ou através das clássicas fábulas. Contar uma contraponto dramático, oferecendo ao leitor uma
história, respeitando a sucessão cronológica dos história densa e emocionante
eventos, costuma ser muito fácil e, por isso, tornou-
se a técnica mais empregada e difundida. O resto é silêncio adota a técnica narrativa
do contraponto dramático, oferecendo ao leitor uma
O texto narrativo é comumente dividido história densa e emocionante
em três partes: introdução, desenvolvimento e
conclusão, explorando elementos como tempo, Influenciado pelas técnicas narrativas
lugar, personagens e diversas circunstâncias que desenvolvidas pelo romancista inglês Aldous Huxley,
levam ao clímax da história. Essa estrutura clássica Érico Veríssimo escreveu, nos anos 1940, o romance
não costuma ser alterada, contudo, existem O resto é silêncio, no qual conta a história de
técnicas de estrutura da narrativa que podem diferentes personagens, sob diferentes perspectivas,
subverter a ordem com que esses elementos são através da técnica do contraponto dramático. Essa
dispostos. As narrativas lineares, aquelas que técnica possibilita a ligação entre as trajetórias dos
apresentam um enredo cronologicamente diferentes personagens da trama, oferecendo ao
ordenado, são as mais comuns e também as que leitor um texto esteticamente diferenciado.
menos exigem comprometimento do leitor. Os fatos, ―[...] Nesse bilhete [aos meus] eu procuraria
narrados de maneira sucessiva, sem intromissão de dizer-lhes que a vida vale a pena de ser vivida,
digressões e flashbacks, são mais facilmente apesar de todas as suas dificuldades, tristezas e
assimilados e evitam que o leitor menos audaz momentos de dor e angústia. E que a coisa mais
perca o chamado ―fio da meada‖. importante que existe sobre a face da terra é a
Na Literatura brasileira encontramos pessoa humana. E que desejo que elas vivam em
diversos exemplos de escritores que ousaram bondade e beleza. E que na medida de sua
subverter as narrativas lineares, apresentando aos capacidade e habilidade ajudem o próximo. [...] Pedir-
leitores novas formas de se contar uma história. lhes-ia que de quando em quando se lembrassem do
Nessas histórias, novas técnicas de estrutura da Velho. [...] Se eles quiserem prestar uma
narrativa foram exploradas, provando que nem homenagem à minha memória, que se reúnam uma
sempre é preciso respeitar a cronologia dos fatos. noite, qualquer noite, e toquem os últimos quartetos
Observe alguns exemplos de técnicas de estrutura de Beethoven, algumas sonatas de Mozart e
da narrativa em clássicos de nossa Literatura: qualquer coisa do velho Bach. E o resto – que diabo!
– O resto é silêncio...‖.
A NARRATIVA NÃO LINEAR
(Fragmento do livro “O resto é silêncio”,
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Érico Veríssimo)
Machado de Assis adotou a narrativa não linear
NARRATIVA EM PARALELO
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de
Machado de Assis: O clássico de Machado de Assis Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é uma
prova que é possível transgredir a estrutura da novela literária que segue os moldes da narrativa em
narrativa sem qualquer tipo de prejuízo. Seu paralelo
narrador personagem, Brás Cubas, conta sua vida Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é uma
depois de morto, sendo, como bem definiu nosso novela literária que segue os moldes da narrativa em
gênio maior da Literatura brasileira, um ―defunto- paralelo
autor‖.
Vidas secas, de Graciliano Ramos, é
CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO considerado uma novela literária. Graciliano adotou a
AUTOR chamada narrativa em paralelo, técnica que requer a
―Algum tempo hesitei se devia abrir estas existência de dois ou mais pontos de vista, com
memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria episódios que são contados sucessivamente. Mas
em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha para que o leitor ou o telespectador (as novelas
morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo literárias deram origem às telenovelas) não se perca
nascimento, duas considerações me levaram a diante de fatos simultâneos, é necessário que os
adotar diferente método: a primeira é que eu não núcleos de personagens sejam reduzidos e que suas
sou propriamente um autor defunto, mas um ações sejam constantemente relembradas nos
defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a diálogos. Há também um segundo tipo de narrativa
segunda é que o escrito ficaria assim mais galante paralela que desenvolve dois eixos temporais,

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
alternando entre o passado e o presente de um Descrição
grupo de personagens.
―(...) Pelo espírito atribulado do sertanejo
passou a ideia de abandonar o filho naquele O que é descrição?
descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, É a ação que você toma de descrever sobre
coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os algo ou alguém.
arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando
vagamente uma direção e afirmou com alguns sons Então, o que é descrever?
guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca Vejamos: de acordo com o dicionário, é o ato
na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, de narrar, contar minuciosamente.
pegou no pulso do menino, que se encolhia, os
joelhos encostados ao estômago, frio como um Então, sempre que você expõe com detalhes
defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve um objeto, uma pessoa ou uma paisagem a alguém,
pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos está fazendo uso da descrição.
do mato. Entregou a espingarda a sinha Vitória, pôs Essa última é como se fosse um retrato
o filho no cangote, levantou-se, agarrou os distinto e pessoal de algo que se vê ou se viu!
bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos
como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, Assim, para se fazer uma boa descrição, não
lançou de novo a interjeição gutural, designou os é necessário que seja perfeita, uma vez que o ponto
juazeiros invisíveis. de vista do observador varia de acordo com seu grau
de percepção. Dessa forma, o que será importante
E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais ser analisado para um, não será para outro.
arrastada, num silêncio grande (...)‖.
Portanto, a vivência de quem descreve
(Fragmento do livro “Vidas Secas”, de também influencia na hora de transmitir a impressão
Graciliano Ramos) alcançada sobre determinado objeto, pessoa, animal,
cena, ambiente, emoção vivida ou sentimento.
Os pormenores são essenciais para se
distinguir um determinado momento de qualquer
outro, desse modo, a presença de adjetivos e
locuções adjetivas é traço distinto de um texto
descritivo.
Quando for descrever verbalmente, tenha
sutileza ao transmitir e leve em consideração, de
acordo com o fato, objeto ou pessoa analisada:
a) as cores;
b) altura;
c) comprimento;
d) dimensões;
e) características físicas;
f) características psicológicas;
g) sensação térmica;
h) tempo e clima;
i) vegetação;
j) perspectiva espacial;
l) peso;
m) textura;
n) utilidade;
o) localização; e assim por diante.
Claro, tudo vai depender do que está sendo
descrito. Em uma paisagem, por exemplo, a
descrição poderá considerar: a posição geográfica
(norte, sul, leste, oeste); o clima (úmido, seco); tipo

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
(rural, urbana); a sensação térmica (calor, frio) e se que se não podia sair à rua: as pedras
existem casas, árvores, rios, etc. escaldavam; as vidraças e os lampiões falseavam ao
sol como enormes diamantes; as paredes tinham
Veja no exemplo:
reverberações de prata polida; as folhas das árvores
―Da janela de seu quarto podia ver o mar. nem se mexiam; as carroças d'água passavam
Estava calmo e, por isso, parecia até mais azul. A ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios;
maresia inundava seu cantinho de descanso e e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas
arrepiava seu corpo...estava muito frio, ela sentia, [calças] arregaçadas, invadiam sem cerimônia as
mas não queria fechar a entrada daquela sensação casas para encher as banheiras e os potes. Em
boa. Ao norte, a ilha que mais gostava de ir, era só certos pontos não se encontrava viva alma na rua;
um pedacinho de terra iluminado pelos últimos raios tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos
solares do final daquela tarde; estava longe...longe! faziam as compras para o jantar, ou andavam no
Não sabia como agradecer a Deus, morava em um ganho.
paraíso!‖
É um parágrafo descritivo bastante bom.
A sensação que o leitor ou ouvinte tem que Note-se a idéia-núcleo, expressa no tópico frasal
ter em uma descrição é a de que foi transportado inicial (em itálico) e desenvolvida ou especificada
para o local da narração descritiva. através dos pormenores: as pedras, os lampiões, as
paredes, as folhas, etc. São detalhes que tornam
Da mesma forma, quando um objeto é
mais viva a generalização "era um dia abafadiço e
descrito, o interlocutor dever ter a sensação de que
aborrecido". (O trecho pode servir de modelo para
está vendo aquele sofá ou aquela xícara.
exercícios do mesmo gênero: basta mudar o quadro
Por fim, vejamos a seguir os dois tipos de da descrição e seguir o mesmo processo de
descrição existentes: desenvolvimento.)
• Descrição objetiva: acontece quando o CONFRONTO
que é descrito apresenta-se de forma direta,
Processo muito comum e muito eficaz de
simples, concreta, como realmente é:
desenvolvimento é o que consiste em estabelecer
a) O objeto tem 3 metros de diâmetro, é confronto entre idéias, seres, coisas, fatos ou
cinza claro, pesa 1 tonelada e será utilizado na fenômenos. Suas formas habituais são o contraste
fabricação de fraldas descartáveis. (ba-seado nas dessemelhanças), e o paralelo (que se
assenta nas se-melhanças). A antítese é, de
b) Ana tem 1,80, pele morena, olhos preferência, uma oposição entre idéias isoladas. A
castanhos claros, cabelos castanhos escuros e analogia, que também faz parte dessa classe,
lisos e pesa 65 kg. É modelo desde os 15 anos. baseia-se na semelhança entre idéias ou coisas,
Descrição subjetiva: ocorre quando há procurando explicar o des-conhecido pelo conhecido,
emoção por parte de quem descreve: o estranho pelo familiar (ver 2.3, a seguir).
a) Era doce, calma e respeitava muito aos Exemplo clássico de desenvolvimento por
pais. Porém, comigo, não tinha pudores: era arisca confronto e contras-te é o paralelo que A. F. de
e maliciosa, mas isso não me incomodava. Castilho faz entre Vieira e Bernardes:
Portanto, na descrição subjetiva há Lendo-os com atenção, sente-se que Vieira,
interferência emocional por parte do interlocutor a ainda falando do céu, tinha os olhos nos seus
respeito do que observa, analisa. ouvintes; Bernardes, ainda falando das criaturas,
estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para
Como você vai saber se fez uma excelente a cidade, para a corte, para o mundo, e Ber-nardes
narração descritiva? Quando reler o seu texto e para a cela, para si, para o seu coração. Vieira
perceber se de fato outros leitores visualizarão estudava graças a louçainhas de estilo (...);
como reais o que está sendo descrito! Bernardes era como essas formosas de seu natural
ENUMERAÇÃO OU DESCRIÇÃO DE que se não cansarii com alinhamentos (...) Vieira
DETALHES fazia a eloqüência; a poesia procurava a Bernardes.
Em Vieira morava o gênio; em Bernardes, o amor,
O desenvolvimento por enumeração ou que, em sendo verdadeiro, é também gênio (...).
descrição de detalhes é dos mais comuns. Ocorre
de preferência quando há tópico frasal inicial (Apud Fausto Barreto e Carlos de Laet,
explícito, como no exemplo já citado de Aluísio Antologia nacional, p. 186)
Azevedo É um parágrafo sem tópico frasal explícito,
Tópico frasal pois a idéia-núcleo é o próprio confronto entre Vieira
e Bernardes. O Autor poderia iniciar o parágrafo com
Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre um tópico frasal mais ou menos nestes termos:
cidade de São Luís do Maranhão parecia "Vejamos o que distingue Vieira de Bernardes" ou
entorpecida pelo calor. Quase "Muito diferentes (ou muito parecidos) são Vieira e
Desenvolvimento

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Bernardes". Mas seria inteiramente supérfluo, pois mesmo tanto luz como calor. Realmente podemos
essa idéia está clara no desenvolvi¬mento. acender uma fogueira para obtermos luz e calor. Mas
a madeira que usamos veio de árvores, e as plantas
Exemplo, também muito conhecido, de
não podem viver sem luz. Assim, se temos lenha, é
parágrafo com desenvolvimento por contraste é o
porque a luz do Sol tornou possível o crescimento
de Rui Barbosa sobre política e politicalha:
das florestas.‖
―Política e politicalha não se confundem,
(Oswaldo Frota Pessoa, Iniciação à ciência,
não se parecem, não se relacionam uma com a
p. 35)
outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam
mutuamente (tópico frasal). A política é a arte de Sol tão quente, que é como uma enorme bola
gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras incandescente é, quanto à forma, uma comparação,
morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis. A mas, em essência, é uma analogia: tenta-se explicar
politicalha é a indústria de o explorar a benefício de o desconhecido (Sol) pelo conhecido (bola
interesses pessoais. Constitui a política uma incandescente), sendo a semelhança apenas parcial
função, ou conjunto das funções do organismo (há outras, enormes, diferenças entre o Sole uma
nacional: é o exercício normal das forças de uma bola de fogo).
nação consciente e senhora de si mesma. A
No seguinte trecho, de Rui Barbosa, não há,
politicalha, pelo contrário, é o envenenamento
legiti-mamente, analogia nem comparação, nem
crônico dos povos negligentes e viciosos pela
contraste mas simples paralelo ou confronto:
contaminação de parasitas inexoráveis. A política é
a higiene dos países moralmente sadios. A ―Oração e trabalho são os recursos mais
politicalha, a malária dos povos de moralidade poderosos na criação moral do ho-mem. A oração é o
estragada.‖ íntimo sublimar-se da alma pelo contato com Deus. O
trabalho é o inteirar, o desenvolver, o apurar das
(Apud Luís Vianna Filho, op. cit., p. 32)
energias do corpo e do espírito, mediante a ação
Vê-se logo pelo tópico frasal que se trata de contínua sobre si mesmos e sobre o mundo onde
um contraste, e não propriamente de um paralelo labutamos.‖
ou confronto (como no exemplo de Castilho), pois o
(Antologia nacional, p. 128)
que o Autor ressalta entre política e politicalha é o
seu antagonismo e não a sua identidade. Ora, o Não há comparação porque lhe falta a
valor do contraste — de que a antítese é a figura estrutura gramatical peculiar (como, parece, semelha,
típica — reside precisamente na sua capacidade de etc.); não é analogia porque a aproximação entre
realçar certas idéias, pela simples oposição a "oração" e "trabalho" não se baseia numa
outras, contrárias. semelhança, e, ipsofacto, não há um termo mais
conhecido com o qual se tenta explicar outro menos
ANALOGIA E COMPARAÇÃO
conhecido; não ocorre tam-pouco nenhum contraste
A analogia é uma semelhança parcial que porque não se assinala qualquer oposição de sentido
sugere uma semelhança oculta, mais completa. Na entre os dois termos. O que existe, portanto, é um
comparação, as semelhanças são reais, sensíveis, paralelo ou confronto.
expressas numa forma verbal própria, em que
entram normalmente os chamados conectivos de
comparação (tão, tanto, como, do que, tal qual),
substituídos, às vezes, por expressões equivalentes
(certos verbos como ―parecer‖, ―lembrar‖, ―dar uma
idéia‖, ―assemelhar-se‖: ―Esta casa parece um
forno, de tão quente que é.‖). Na analogia, as Dissertação
semelhanças são apenas imaginárias. Por meio
dela, se tenta explicar o desconhecido pelo Além de ser o tipo de texto mais exigido em
conhecido, o que nos é estranho pelo que nos é provas e concursos em todo o Brasil, a dissertação
familiar; por isso, tem grande valor didático. Sua também é um dos textos mais simples de se redigir.
estrutura gramatical inclui com frequência Começando pela estrutura dele e finalizando pelo tipo
expressões próprias da comparação (como, tal de linguagem empregado, é um texto que pode ser
qual, semelhante a, parecido com, etc. Rever 1. Fr., estudado e familiarizado com estudantes de diversos
1.6.8). Para dar à criança uma idéia do que é o Sol níveis.
como fonte de calor, observe-se o processo Para se produzir um texto dissertativo são
analógico adotado pelo Autor do seguinte trecho: necessárias algumas habilidades, que estão ao
―O Sol é muitíssimo maior do que a Terra, e alcance de todos a serem adquiridas:
está ainda tão quente que é como uma enorme bola
incandescente, que inunda o espaço em torno com  Conhecimento do assunto a ser
luz e calor. Nós aqui na Terra não poderíamos abordado, a fim de aplicar precisão e certeza àquilo
passar muito tempo sem a luz e o calor que nos que está sendo escrito.
vêm do Sol, apesar de sabermos produzir aqui

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
 Habilidade com a língua escrita, de 2- Uma outra maneira de desenvolver o seu
maneira que se possa fazer boas construções texto é expondo os contra-argumentos, ou seja,
sintáticas, uso de palavras adequadas e relações expondo as antíteses possíveis à sua tese.
coerentes entre os fatos, argumentos e provas.
Ex:
 Boa organização semântica do
texto, ou seja, organização coerente das idéias TEMA: Eutanásia
aplicadas à dissertação, para que as mesmas
possam facilmente ser apreendidas pelos leitores. Tese/opinião: A eutanásia realmente deve
ser proibida, pois ninguém pode violar o direito à
 Bom embasamento das idéias vida.
sugeridas, boa fundamentação dos argumentos e
Antítese/contra-argumento: Com a
provas.
legalização da eutanásia um hospital poderia estar se
Para se entender o que é uma redação utilizando do espaço que um paciente desenganado
dissertativa, devemos distinguir os dois tipos de está ocupando para atender a alguém que tem reais
dissertação existentes: a dissertação expositiva e a chances de sobrevivência.
dissertação argumentativa.
OBS:
 Dissertação expositiva – como o
próprio nome já sugere, é um tipo de texto em que  Cuidado para não se contradizer, ou
seja, ao apresentar seu contra-argumento você deve
se expõem as idéias ou pontos de vista. O objetivo
estar preparado para convencer o leitor de que ele
é fazer com que o leitor os considere coerentes e
não fazê-lo concordar com eles. não tem fundamentos, e deve estar munido de
informações convincentes para que possa fazê-lo.
 Dissertação argumentativa – esse Caso contrário você poderá não deixar clara a sua
é o tipo de dissertação mais comum e conhecida mensagem.
por todos. Nela o intuito é convencer o leitor,
persuadi-lo a concordar com a ideia ou ponto de  Sempre defenda um ponto de vista,
pois seu objetivo é esclarecer e não confundir ainda
vista exposto. Isso se faz por meio de várias
maneiras de argumentação, utilizando-se de dados, mais as opiniões do leitor a respeito daquele assunto.
estatísticas, provas, opiniões relevantes, etc.
 No caso de temas muito polêmicos, o
Há algumas maneiras de se organizar uma melhor é se isentar totalmente de opiniões e
dissertação, que podem ajudar na hora de iniciar o fundamentar seus argumentos em fatos, estatísticas
seu texto: e opiniões em massa.

1 - Você pode transformar o tema em um 3- Uma outra alternativa seria fazer uma
questionamento, e ao longo do texto tentar relação entre causa e consequência, para que assim
responder da melhor maneira possível a essa se possa ir do início ao fim do problema, olhá-lo
questão. como um todo e com isso ir construindo uma opinião.

Ex: EX:

TEMA: O Desmatamento na Floresta TEMA: A Violência nas escolas públicas


Amazônica
Causa: O pouco incentivo aos esportes e às
QUESTÃO ABORDADA POR VOCÊ: A artes nas escolas por parte do governo.
Floresta Amazônica, maior floresta tropical
Consequência: Os jovens passam muito
do mundo, sofre algum dano com a frequente
tempo nas ruas, em contato com armas e drogas.
prática do desmatamento em seu território?
OBS:
OBS:
*A partir da causa e da consequência
 Sobre o mesmo tema você pode apresentadas, você deverá desenvolver seus
fazer vários questionamentos, porém deve avaliar
argumentos em busca de uma solução possível e
se você está apto a respondê-los e se não está
coerente para o problema.
fugindo ao tema principal.

 Após fazer essas avaliações Esquema de uma dissertação


escolha apenas um dos questionamentos e
fundamente seus argumentos baseando-se nele. Introdução: No primeiro parágrafo você
deverá expor o problema e o caminho a ser seguido
no texto para expô-lo ou para defender algum ponto
de vista a respeito dele.
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Desenvolvimento: Aqui se encontram os diversão, garantia, livre, amor, certo, poderoso,
argumentos, opiniões, estatísticas, fatos e melhorado, descoberta, investimento, feliz, alegria,
exemplos. Ao apresentá-los você deve sempre se dinheiro, proteção, vital, orgulho, fácil, provado,
direcionar para um lado da questão, um ângulo de saúde, lucro, novo, verdade, você.
visão, uma opinião específica. Essa opinião deve
ser anteriormente pensada e analisada para que se 2. Técnicas de pressão pelo tempo: É
possa fazer uma boa argumentação ou exposição. sensato ter em mente a lei da escasses: quando
alguém percebe haver quantidades limitadas de um
Conclusão: Aqui você deixa claro o objetivo produto desejado, acredita que o valor deste produto
da sua dissertação, expõe o ponto de vista desejado é mais elevado do que se estivesse
defendido ou a conclusão da sua exposição de disponível em profusão.
forma que se arremate todos os argumentos
utilizados durante a construção do texto. 3. Técnica de credibilidade: Deve-se ter em
mente a lei dos amigos: quando alguém lhe pede
para fazer alguma coisa e você nota que esta pessoa
tem em mente os seus maiores interesses e/ou
gostaria que ela tivesse os seus maiores interesses
TEXTO PERSUASIVO
em mente, então você estará fortemente motivado a
satisfazer a solicitação.
MECANISMOS DE PERSUASÃO
Segredos
1. Perícia no uso de perguntas
Eu não devia lhe contar isto, mas..."
Clareza de ponto de vista (Perguntas empregadas
para convencer) "Não é oficial, mas acho que você devia
saber..."
"Precisamos pensar no assunto".
"Em que, exatamente, temos que pensar"? Passos Futuros :"Se você gostar do nosso
produto, irá comprá-lo de novo?"
Lidando com questões emocionais (Ocorre
quando uma pessoa está emocionalmente
envolvida na ação.)

Clareza de valores (Descobrir os valores


das pessoas, perguntando à elas. Utilizando esses
valores, fica fácil persuadí-las.)

"O que é mais importante na sua decisão


de comprar um automóvel?"

"O que é mais importante pra você no


nosso casamento?―

Palavras fortes

O nome: "Bill, você poderia fazer a


gentileza de enviar a análise do orçamento?"
"Este carro vai muito bem com você, não acha,
Keith?"

Por favor e obrigado: "Obrigado por vir me


visitar hoje."

"Por favor, dê toda atenção a esta proposta,


John."

Porque: "Você na certa quer investir agora


porque vai ganhar muito dinheiro.―

Palavras que vendem: vantagem,


economizar, benefício, segurança, conforto,
confiança, resultados, valor, emocionante, merecer,

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
G) Nominalização: É o uso de um
substantivo que mantém relação semântica com
verbo usado anteriormente.
O reitor afirmou que a Universidade não se
adequará às mudanças este ano. A afirmação
ratificou o que todos já presumiam.
COESÃO REFERENCIAL
REFERENCIAÇÃO, consiste em termos H) Sinonímia: Emprego de palavras ou
(pronomes, advérbios, expressões equivalentes) expressões sinônimas ou muito parecidas.
que fazem alusão a um vocábulo já citado, para
enfatizá-lo ou para repeti-lo. Todos devem cumprir os deveres para poder
cobrar alguma coisa depois. Não cumprir as
A) Pronominalização: substituição do obrigações significa estar inapto a reivindicar o que
termo referente por um pronome ou advérbio. quer que seja.
I) Repetição: Quando não houver
A Seleção Brasileira foi bem, no jogo de possibilidade de substituição por palavra equivalente
ontem, no Estádio do Arruda. Lá, a torcida ou quando a situação favorecer.
sempre apoia o time brasileiro.
O verbo é a espinha dorsal de uma oração.
B) Numerais: usados para substituírem os Sem ele, não existe significação e, por conseqüência,
referentes textuais. comunicação. Assim, o verbo torna-se indispensável
para que se construa sentido.
Existem dois tipos de coesão. A primeira é
referencial; a segunda, seqüencial. J) Termo-síntese: Emprego de uma palavra
ou expressão que resume uma idéia anterior.
C) Elipse: supressão de um termo
subentendível, por ter sido colocado no início, ou Falta de professores, escolas depredadas,
que será inserido no final do segmento. estrutura degradada, currículo arcaico. Todos esses
obstáculos fazem do Brasil um país sempre
Fazia gols inimagináveis. Romário foi um vergonhoso no quesito educação.
gênio na pequena área.

Cazuza viveu intensamente. Tinha fama de Elipse


rebelde, mas queria mesmo era transgredir.
Leia a seguinte afirmação, extraída da obra
D) Repetição de nome próprio integral de Autran Dourado:
ou parcialmente: Reitera um nome total ou
parcialmente para enfatizá-lo. ―A praia deserta, ninguém àquela hora na
rua‖.
Luis Inácio Lula da Silva esteve com
Barack Obama. Lula espera que relação entre os Observe que após o vocábulo ―ninguém‖,
dois países melhore ainda mais. está implícito o verbo estava. Ele não aparece na
afirmação, mas podemos notar sua ausência pelo
E) Metonímia: Processo de substituição de contexto. Por isso dizemos que aqui ocorreu elipse
uma palavra por outra, fundamentada numa relação do verbo estava.
de contigüidade semântica. Ou seja, quando essas
palavras guardam alguma relação de sentido entre Veja esta outra sentença:
si.
―No fim da festa, sobre as mesas, copos e
O governo americano diz estar aberto ao garrafas vazias‖.
diálogo com qualquer país. A Casa Branca
realmente mudou com a chegada de Barack Nesta frase, podemos identificar facilmente a
Obama. ausência do verbo haver (No fim da festa havia,
sobre as mesas, copos e garrafas vazias). Portanto,
F) Epíteto: Elogio ou injúria atribuída a podemos afirmar que, neste caso, também ocorreu
alguém. elipse do verbo haver.

Pelé sempre é polêmico quando abre a Elipse é a figura de linguagem que consiste
boca. O Rei do Futebol não costuma usar a em omitir um termo da frase que não foi enunciado
retórica a seu favor. anteriormente na frase, mas podemos facilmente
identificá-lo pelo contexto.

Outros exemplos:

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Eu adoro ovelhas e vacas. Estes
―Na casa vazia, nenhum sinal de vida‖ - herbívoros são simpáticos. (hipónimo / hiperónimo)
elipse da expressão ―não havia‖.
· por holonímia / meronímia:
―A tarde talvez fosse azul, Exs.: A minha casa é fria. Os quartos, a
não houvesse tantos desejos‖ (Carlos cozinha e a sala não têm isolamento.
Drummond de Andrade) – elipse da conjunção ―se‖, COESÃO SEQUENCIAL
antes de ―não‖.
Este tipo de coesão é muito importante,
inclusive, para o desenvolvimento do raciocínio
Coesão por substituição: substituição de porque é, no mais das vezes, através dele que
um nome (pessoa, objeto, lugar etc.), verbos, estabelecemos a relação entre as ideias, tornando-as
períodos ou trechos do texto por uma palavra ou semelhantes ou contrárias, condicionais ou
expressão que tenha sentido próximo, evitando a alternativas etc. Assim, ao aprender a usar bem os
repetição no corpo do texto. ―mecanismos de coesão sequencial‖ (entre frases e
ideias) estamos de certa forma otimizando a
Ex.: Porto Alegre pode ser substituída por capacidade de raciocinar e de expressar com
―a capital gaúcha‖; exatidão aquilo queremos dizer. É principalmente
através das conjunções que fazemos a conexão
entre as frases dando assim sequência às ideias e
Castro Alves pode ser substituído por ―O
coerência aos textos.
Poeta dos Escravos‖;
Othon M. Garcia [1]exemplifica bem tal
importância dos conectivos no que diz respeito à
João Paulo II: Sua Santidade;
progressão do discurso e à relação entre ideias:
Joaquim costuma vir ao Rio
Vênus: A Deusa da Beleza.
QUANDO
Ex.: Castro Alves é autor de uma ENQUANTO
vastíssima obra literária. Não é por acaso que o PORQUE
"Poeta dos Escravos" é considerado o mais
importante da geração a qual representou. SE
COESÃO LEXICAL EMBORA
· Reiteração lexical: repetição (ou Ganha muito dinheiro em São Paulo.
reiteração) da mesma palavra ou expressão: Essa forma de coesão designa os vários
Ex.: «Elas são quatro milhões, o dia tipos de interdependência semântica existente entre
nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão as frases na superfície textual. Essas relações são
e aquecem o café. Elas picam cebolas e expressas pelos conectores ou operadores
descascam batatas. discursivos. É necessário, portanto, usar o conector
adequado à relação entre ideias que queremos
Elas migam sêmeas e restos de comida expressar para que as informações tenham
azeda.» (Maria Velho da Costa, Cravo, pág. 133) progressão. O conector estabelecerá uma relação
· Substituição lexical: substituição de uma precisa entre duas ou mais ideias.
unidade lexical por outras que com ela mantêm RELAÇÕES DE SENTIDO
relações de sentido:
· por sinonímia: substituição de palavras
ou expressões por sinónimos: Entender o sentido expresso pelo discurso
proferido requer, dentre outras habilidades,
Ex.: O teu gato é bonito. Onde conhecimento linguístico e conhecimento acerca dos
arranjaste o felino? fatos que norteiam nossa vivência enquanto seres
· por antonímia: substituição de palavras sociais. Habilidades estas que, por motivos diversos,
ou expressões por antónimos: não compõem de modo homogêneo o perfil dos
interlocutores. Tal afirmativa aplica-se ao fato de que
determinadas pessoas expressam uma notória
Ex.: Carlos Cruz fala verdade? Ou dificuldade em apreender as ideias inerentes a um
terá optado pela mentira? determinado texto.
· por hiperonímia / hiponímia:
Exs.: Quero os teus brinquedos, A interpretação depreende-se de uma série
sobretudo o palhaço e o comboio. (hiperónimo / de fatores nos quais a familiaridade estabelecida pelo
hipónimo) contato assíduo com a leitura surge como fator
preponderante. À medida que nos tornamos leitores

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
praticantes, paulatinamente desenvolvemos nossa emissores autênticos, estamos sempre nos
capacidade de desvendar o sentido estabelecido reportando a uma determinada ideia antes proferida
em meio às entrelinhas textuais. por alguém.
O sentido conotativo encontra-se presente
nos textos literários de uma forma geral e na
A partir do momento em que aprimoramos
tal capacidade, passamos a compreender que todo linguagem publicitária. Já os textos científicos,
texto se revela por intermédio do diálogo jornalísticos, informativos, dentre outros, primam-se
por empregar uma linguagem denotativa, expressa
estabelecido com outros textos, posto que a
em seu sentido literal.
linguagem é concebida como um elemento de
interação social, na qual o sentido polifônico
(presente em muitas vozes do discurso) se
perpetua e se materializa num verdadeiro entrelaçar
de ideias, formando assim a tessitura textual.
Enfatizaremos aqui, de forma específica,
as relações de sentido estabelecidas pelas
palavras, característica também intrínseca às
habilidades anteriormente mencionadas, e que
também fazem parte desta arte de desvendar os
elementos de natureza discursiva.
Representadas pela conotação e
denotação, analisaremos cada uma delas de modo
particular, conforme abaixo descrito:
O sentido denotativo das palavras é
estabelecido pela relação de significado a que elas
pertencem, ou seja, o sentido real, prescrito pelo
dicionário. Vejamos um exemplo:
Significado de Tecer - v.t. Entrelaçar,
segundo um modelo dado, os fios da urdidura (em
comprimento) e os da trama (em largura), para
fazer um tecido: tecer a lã, o algodão.
As grandes indústrias tecem seus produtos
ao gosto da exigente clientela.
Inferimos que o sentido do verbo tecer
expressa o sentido relacionado à fabricação do
produto em referência. Trata-se de um excerto
linguístico voltado para a objetividade, isento de
marcas subjetivas que porventura pudessem
conferir uma duplicidade de sentido.
Analisemos outro caso representativo:
Um galo sozinho
não tece uma manhã:
ele precisará sempre
de outros galos.
[...]
João Cabral de Melo Neto
Notamos que a linguagem se diverge do
primeiro exemplo, visto que se trata de um
fragmento poético. Mas será que o verbo tecer
revela o mesmo sentido antes expresso?
Trata-se de uma linguagem conotativa, na
qual são detectados traços de pessoalidade por
parte do emissor (revelados pelo eu lírico do
poema). O sentido aplica-se a um recurso
linguístico proferido metaforicamente, em que o ato
de tecer refere-se ao ato da capacidade criativa da
escrita, em que sozinhos nunca nos tornamos
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
objetos direto (a) e indireto (para meu amor) exigidos
pela transitividade do verbo.

 Na subordinação uma oração depende


sintaticamente da outra, isto é, há uma
FRASE, ORAÇÃO E PERÍODO oração principal, que é incompleta
sintaticamente, e há uma oração
Frase: todo enunciado que apresenta um subordinada, que se liga à oração principal
significado completo. No texto, começa na letra completando-a, ou seja, a oração
maiúscula e termina no ponto. Uma frase pode ou subordinada funciona como o termo que falta
não ter verbo. para completar sintaticamente a oração
principal.
Oração: cada verbo de uma frase determina uma
oração.
(oração principal) + (oração subordinada)
Período: toda frase com verbo é também um
período. O período é simples quando apresenta A mulher esperou que seu filho voltasse.
apenas um verbo e é composto quando apresenta
mais de um verbo.
o A mulher esperou = oração principal

o que seu filho voltasse = oração subordinada


>>> Para se formar um período composto é preciso
unir uma oração a outra. Para isso, podemos usar
dois processos sintáticos: a coordenação e a A mulher esperou é uma oração incompleta
subordinação. sintaticamente, pois apresenta um verbo transitivo
direto (esperou), um sujeito (a mulher), mas falta o
objeto direto obrigatoriamente exigido pelo verbo
transitivo direto.

 Na coordenação as orações são unidas que seu filho voltasse é uma oração que funciona no
sem que uma dependa da outra período como o objeto direto da oração principal.
sintaticamente, isto é, são orações Veja: se perguntarmos ao verbo da oração principal:
independentes (completas sintaticamente) ESPEROU O QUÊ? Resposta: que seu filho voltasse. A
que vêm ligadas por conjunções ou resposta para essa pergunta é denominada objeto
simplesmente justapostas sem qualquer direto, logo a oração subordinada apresenta a função
conectivo. de um objeto direto e completa, sintaticamente, a
oração principal.
(oração coordenada) + (oração coordenada)

Escrevi uma carta e a enviei para meu amor. (oração subordinada) + (oração principal)

Quando o dia amanhecer, vou à praia.


o Escrevi uma carta = oração coordenada
assindética
(assindética pois não tem conjunção) o Quando o dia amanhecer = oração subordinada

o e a enviei para meu amor = oração coordenada o vou à praia = oração principal
sindética
(sindética pois tem a conjunção e)
vou à praia é uma oração composta por um verbo
intransitivo que seleciona um adjunto adverbial de
Escrevi uma carta é uma oração completa lugar (à praia) e, de acordo com o contexto, seleciona
sintaticamente, pois apresenta um verbo transitivo também um adjunto adverbial de tempo que falta
direto (escrevi), um sujeito oculto (eu) e um objeto nesta oração.
direto (uma carta) que completa a transitividade do
verbo. Quando o dia amanhecer é uma oração subordinada
que apresenta a função de um adjunto adverbial, isto
e a enviei para meu amor é uma oração completa é, trata-se de uma oração que expressa a
sintaticamente, pois apresenta um verbo transitivo circunstância de tempo, completando sintaticamente
direto e indireto (enviei), um sujeito oculto (eu) e os a oração principal.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
(oração principal) + (oração subordinada) +
(continuação da oração principal)

Uma pessoa que comete tal brutalidade não


merece perdão.

o Uma pessoa não merece perdão = oração principal

o que comete tal brutalidade = oração subordinada


Com a instauração da era digital,
muito se tem falado em hipertexto. Os
Uma pessoa não merece perdão é uma oração que desenvolvimentos tecnológicos do século
apresenta um verbo transitivo direto (merece), um XX trouxeram, sim, grandes mudanças e a
sujeito (uma pessoa) e um objeto direto (perdão). literatura, mais uma vez, vê-se no cerne das
Parece ser uma oração completa sintaticamente,
porém o sujeito dessa oração não é apenas a discussões, ameaçada agora pelo advento
expressão uma pessoa, mas há um adjunto dos hipertextos caracterizados hoje pelos
adnominal, isto é, um termo que caracteriza essa hiperlinks. Mas a idéia de hipertexto não
pessoa, que não está presente na oração principal. nasce com a Internet, assim como para o
texto literário não configura, a
que comete tal brutalidade é uma oração
subordinada que funciona no período como adjunto hipertextualidade, novidade de todo
adnominal, fazendo referência ao núcleo do sujeito, desconhecida, fato que configura
caracterizando-o. controvérsias a respeito do conceito
hipertexto. Enquanto para alguns autores o
hipertexto acontece apenas nos ambientes
>>> Como já vimos, a oração subordinada sempre
funciona no período como um termo da oração. digitais, sendo a internet o meio hipertextual
Podemos, então, listar os seguintes termos: por excelência - uma vez que toda sua
lógica de funcionamento está baseada nos
sujeito links -, para outros teóricos a
objeto direto hipertextualidade da informação independe
objeto indireto
complemento nominal do meio. Pode acontecer no papel, por
predicativo do sujeito exemplo, desde que as possibilidades de
aposto leitura superem o modelo "tradicional
adjunto adnominal contido" das narrativas contínuas - com
adjunto adverbial início, meio e fim. A partir do pressuposto da
Cada um desses termos pode se apresentar, no possibilidade de narrativa não-linear, há
período, em forma de oração subordinada. Assim, ainda estudiosos que tomam a literatura
os tipos de orações subordinadas são divididos em como precursora dos considerados novos
três: modos de escrever.

 Orações subordinadas substantivas


a oração será subordinada substantiva quando O termo hipertexto, segundo conceito
tiver função sintática de: sujeito, objeto direto, contemporâneo, está assim exposto na
objeto indireto, complemento nominal, inciclopédia digital Wikipédia:
predicativo do sujeito e aposto.

 Orações subordinadas adjetivas Hipertexto é o termo que remete a um


a oração será subordinada adjetiva quando tiver texto em formato digital, ao qual se agregam
função sintática de: adjunto adnominal. outros conjuntos de informação na forma de
blocos de textos, palavras, imagens ou
 Orações subordinadas adverbiais sons, cujo acesso se dá através de
a oração será subordinada adverbial quando tiver referências específicas denominadas
função sintática de: adjunto adverbial. hiperlinks, ou simplesmente links. Esses
links ocorrem na forma de termos
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
destacados no corpo de texto principal, Independente das variantes na conceituação
ícones gráficos ou imagens e têm a função de intertextualidade e hipertextualidade, o
de interconectar os diversos conjuntos de pressuposto inconteste parte do dialogismo
informação, oferecendo acesso sob bakhtiniano, segundo o qual todo discurso é
demanda as informações que estendem ou essencialmente dialógico porque ―sempre
complementam o texto principal. responde (no sentido lato da palavra), de
uma forma ou de outra, a enunciados de
outros anteriores‖. (BAKHTIN, 2010, p. 319).
Sabe-se, porém, que o termo
hipertexto teve como conceito primeiro nas Na linha bakhtiniana segue a
reflexões do teórico Roland Barthes, que concepção de Gerárd Genette, como
concebeu, em seu livro S/Z (1970), o exposto na sua explicação sobre o
conceito de "Lexia" que seria a ligação de palimpsesto, e que aqui adotamos como
textos com outros textos. De acordo com base: ―o hipertexto é todo texto derivado de
Roger Chartier as primeiras manifestações um texto anterior‖ (2006, p. 15). Para Olinto,
hipertextuais ocorrem nos séculos XVI e uma das novas condições para a noção de
XVII através dos manuscritos e da texto na era digital diz respeito à maneira de
marginalia. Os primeiros sofriam alterações compreender a articulação entre elementos
quando eram transcritos pelos copistas e e passagens do texto em esferas fora do
assim caracterizavam uma espécie de âmbito de sua escrita (2003, p.69). O
escrita coletiva. Os segundos eram Hipertexto, no conceito da autora, distingue-
anotações realizadas pelos leitores nas se pela ―organização multilinear‖, pois não
margens das páginas dos livros antigos, definem fronteiras. Inseridos numa rede de
permitindo assim uma leitura não-linear. outros textos, eles libertam a literatura da
Gerárd Genette desenvolve sua análise ideia de objeto absoluto, pois os textos
sobre sobre as relações textuais, entre passam a apresentar um ―caráter mutante‖ e
elas o hipertexto, através da analogia entre o leitor ―circula livremente e desenha
os antigos pergaminhos de couro, os caminhos possíveis‖ (idem, p.70).
palimpsestos - cujas inscrições eram
sobrepostas após a raspagem do texto
anterior. Assim inaugura seu livro -
Palimpsesto: a literatura de segunda mão:

Um palimpsesto é um pergaminho
cuja primeira inscrição foi raspada para se
traçar outra, que não a esconde de fato, de
modo que se pode lê-la por transparência,
o antigo sob o novo. Assim, no sentido
figurado, entenderemos por palimpsestos
(mais literalmente hipertextos), todas as
obras derivadas de uma outra obra
anterior, por transformação ou por
imitação. Dessa literatura de segunda mão,
que se escreve através da leitura o lugar e
a ação no campo literário geralmente, e
lamentavelmente, não são reconhecidos.
Tentamos aqui explorar esse território. Um
texto pode sempre ler um outro, e assim
por diante, até o fim dos textos. Este meu
texto não escapa à regra: ele a expões e
se expõe a ela. Quem ler por último lerá
melhor. (GENETTE, 2006).
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
objetivo da sociedade deve ser a obtenção da
felicidade de seus cidadãos (...)

Extraído de FERRAZ, Renata B. FELICIDADE, uma


revisão. Revista de Psiquiatria, 2007.
Um argumento é uma manifestação Pode-se afirmar, a partir do enunciado, que se
linguística, construída por enunciados que, estabelece uma diferença quanto à obtenção da
relacionados uns aos outros, incluem uma asserção felicidade. Antes de Sócrates e no período socrático.
capaz de levar a uma conclusão. O discurso Sócrates defendia a felicidade como dependente do
argumentativo deve ser elaborado de maneira a um indivíduo. (Adaptado – PUC 2004)
efeito de sentido de objetividade, pois pretende dar
destaque ao conteúdo das afirmações feitas (ao Argumento de consenso
enunciado) e não à subjetividade de quem as
proferiu (ao enunciador). Assim, toda a atividade
comunicativa, além de outros componentes Enunciados que não exigem demonstração nem
relativos ao domínio da língua e ao conhecimento provas porque seu conteúdo de verdade é aceito
do mundo, apresenta um componente de como válido por consenso dentro de um certo espaço
capacidade textual, que diz respeito aos saberes sociocultural. Assim, quando afirmamos que o
encadeados em sequências organizadas de investimento em educação é necessário para o
enunciados. desenvolvimento de um país,trata-se de um
consenso. Todos nós pensamos da mesma forma.
Na redação do ENEM, é importante ter
em vista as seguintes habilidades (competência 3): Argumento de provas concretas
I) SELECIONAR – diversidade de informações,
repertório autoral; II) INTERPRETAR – com
coerência, e consequentemente, relacionada às Comprovação pela experiência ou observação por
demais informações; III) ORGANIZAR – progressão meio da documentação de dados que confirmem a
textual, evitar digressões; IV) RELACIONAR – seu sua validade. Os textos jornalísticos são os que mais
projeto de texto em defesa de seu ponto de vista. utilizam esse argumento.
Informações mal articuladas no que tange à
coerência, nesse ponto, podem-se flagrar Observe o texto que segue:
contradições ou aleatoriedade na seleção dos Os hachers estão sendo substituídos por grupos
argumentos. criminosos organizados. No Brasil, essa categoria já
responde por 91% das ocorrências de fraudes,
Recursos argumentativos enquanto no mundo esse percentual é de 80%. Os
números, segundo nota do site InfoPessoal, foram
Argumento de autoridade colhidos por meio de uma pesquisa encomendada
pela fabricante de computadores IBM. Feita em 17
países incluindo o Brasil, o estudo entrevistou
Apoia-se uma afirmação no saber notório diretores de empresas nas áreas de saúde, finanças,
de uma autoridade reconhecida em um certo varejo e produção. De acordo com a pesquisa, a
domínio de conhecimento. É um modo de trazer ameaça a sistemas desprotegidos vem crescendo
para o enunciado a credibilidade da autoridade para a maioria dos entrevistados, mas um dado que
citada. chamou a atenção foi a constatação de que ameaças
à segurança estão partindo de dentro das próprias
Observe o enunciado que segue: empresas. Esta resposta foi dada por 86% dos
Até o advento da filosofia socrática, acreditava-se
entrevistados brasileiros e 66% do total global.
que a felicidade dependia dos desígnios dos
Cresce crime organizado na Internet, diz estudo.
deuses. No IV século antes de Cristo, Sócrates (Disponível em
inaugura um paradigma a partir do qual buscar ser http://empresas.globo.com/Empresasenegócios)
feliz é uma tarefa de responsabilidade do indivíduo,
debatendo sobre a felicidade e pregando que a Argumentação lógica
filosofia seria o caminho que conduziria a essa
condição. Aristóteles continua a investigação de
Sócrates, concluindo que todos os outros objetivos Baseia-se em operações de raciocínio
perseguidos – como a beleza, a riqueza, a saúde e lógico, tais como as implicações de causa e
o poder – eram meios de se atingir a felicidade, consequência, analogia ou condição (hipótese). Se
sendo esta última a única virtude buscada como um estamos, por exemplo, escrevendo uma redação
bem por si mesma. A partir do Iluminismo, a sobre o aumento da violência nos centros urbanos,
concepção de mundo no Ocidente começa a girar podemos apontar como causa desse acontecimento
em torno da crença de que todo ser humano tem o a pobreza e, como consequência, a sensação de
direito de atingir a felicidade. Na mesma linha, o insegurança da população.
ideário da Revolução Francesa estabelece que o
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Argumentação de competência linguística

Demonstra, em sentido amplo, que as


competências de linguagem do enunciador sejam
adequadas ao interlocutor. Na redação do ENEM,
por exemplo, é importante o domínio da língua
padrão.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
nossos pensamentos, somos todos escravos da
língua. Diz ainda: ...a língua, como
desempenho de toda linguagem, não é nem
reacionária, nem progressista; ela é
simplesmente: fascista; pois o fascismo não é
impedir de dizer, é obrigar a dizer. (id., ib., p.
19.1 CONCEITO DE LITERATURA. 14). Dessa forma, de acordo com a teoria de
Barthes, uma vez que a língua leva à aceitação
obrigatória de suas estruturas para a completa
comunicação, ela faz parte de uma estrutura
Desde os primeiros tempos em que o de poder a qual todos estão submetidos,
homem começou a estudar a arte por ele obrigados.
mesmo produzida, a questão sobre
concepção e função da literatura tem sido O ser humano parte sempre, e todas as
assunto de muitas controvérsias. Durante o suas ações o dirigem para tal caminho, em
processo de evolução cultural do homem, busca da liberdade. Então, quando se
muito se tem discutido a respeito do assunto considera que a liberdade é uma desvinculação
aqui abordado. Sabe-se, pois, que, em cada total do poder a que se é submetido, dentro do
época literária, são atribuídas à literatura universo lingüístico não há maneiras de ser
natureza e funções distintas, condizentes livre. Só resta, pois, ao homem, a fuga da
com a realidade cultural e, portanto, social, linguagem por meio de uma trapaça lingüística
da época. utilizando-se da própria língua: Essa trapaça,
salutar, essa esquiva [...], eu a chamo, quanto
As pesquisas realizadas no projeto de a mim: literatura. (id., ib., p. 16).
iniciação científica O Ensino da Literatura:
teoria e prática, levaram ao estudo de A concepção de Roland Barthes de que
conceitos e funções atribuídos à literatura por a literatura é a utilização da linguagem não
teóricos do século XX, uma vez que são esses submetida ao poder, deve-se ao fato de que a
conceitos aceitos mais amplamente que linguagem literária não necessita de regras de
aqueles formulados por teóricos de outras estruturação para se fazer compreender.
épocas. Enquanto a utilização da linguagem cotidiana
requer uma estrita obediência de sua estrutura
As pesquisas iniciaram-se por uma – deve-se enquadrar o pensamento nas
leitura crítica da obra do semiologista estruturas lingüísticas, para que haja uma
francês Roland Barthes, intitulada Aula perfeita comunicação -, a linguagem literária
(BARTHES, 1978). Esta obra é a edição em não obedece a qualquer regra estrutural fixa.
livro de sua aula inaugural, ministrada pela O autor, que se utiliza dessa linguagem, não é
ocasião de sua elevação à Cátedra de obrigado a emoldurar seus pensamentos nas
Semiologia no Colégio de França. Tem ela um estruturas lingüísticas; ele é livre para escolher
caráter essencialmente formalista, uma vez e criar uma estrutura própria, que proporcione
que expressa a opinião de um estudioso da a ele uma clara expressão de seus sentimentos
linguagem e não da literatura. Mas, como tal, e idéias. Assim, construindo o texto de acordo
Barthes demonstra um amplo conhecimento com seus próprios desejos, o escritor consegue
no campo da linguagem e, como não poderia que sua criação tenha uma novo valor – passa
deixar de ser, de uma de suas vertentes: a da simples utilização comunicativa da
linguagem literária. linguagem à uma utilização artística da mesma
– e um novo poder. O poder assumido pela
Roland Barthes tem, da linguagem,
nova linguagem é um poder ligado ao novo
uma visão eminentemente social e vê, nela, a valor artístico. A linguagem literária assume
expressão do puro poder social a que todos aspectos de representação e demonstração.
estamos submetidos: Esse objeto em que se Através dessa linguagem, pode-se refletir
inscreve o poder, desde toda eternidade sobre a própria língua com liberdade. A
humana, é: a linguagem – ou, para ser mais
linguagem literária permite que as palavras
preciso, sua expressão obrigatória: a língua. assumam vida própria, com novas
(BARTHES, 1978:12). Barthes vê, pois, na significações que não aquelas a elas conferidas
língua, um objeto de submissão e, usualmente. A linguagem passa a ter “sabor”.
fatalmente, de alienação. Diz ele que, por Enquanto no discurso científico a linguagem é
estarmos todos aprisionados direta e não permite ambigüidades, na
irremediavelmente às estruturas lingüísticas, linguagem literária as palavras assumem
uma vez que devemos nelas enquadrar novos significados e representações.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Como se verá mais adiante, uma das imediatismo, à predictibilidade e ao estereótipo
funções da literatura é a representação do das situações e usos da linguagem que
real. Esta representação, no entanto, é feita configuram a vida cotidiana. (LAJOLO,
de um modo especial, uma vez que o real 1981:38).
não pode ser plenamente representado em Percebe-se, portanto, que a função
um plano unidimensional por ter uma
exercida pela linguagem é de suma
natureza distinta, pluridimensional. Assim, importância para que uma obra seja tida como
Barthes diz que a literatura é utópica, pois obra de arte literária.
permite a criação de novas realidades,
conferindo às palavras uma verdadeira Como já se sabe, essa linguagem
heteronímia das coisas. Essa heteronímia assume características especiais. Umberto Eco,
pode ser melhor entendida quando se pensa fala de idioleto da obra, quando se refere a tal
que esta linguagem, como já dito linguagem. Esse idioleto pode ser interpretado
anteriormente, é livre para conferir novos como as características assumidas pela
significados às palavras. Ela joga com os linguagem literária dentro de uma determinada
signos ao invés de reduzi-los a um universo obra. Ele é responsável pela estruturação dos
já determinado. significados da linguagem: Essa regra, esse
código da obra, em linha de direito, é um
Como dito acima, a literatura tem
idioleto (definindo-se como idioleto o código
como uma de suas funções a representação
privado e individual de um único
do real. Assim é que o crítico e sociólogo falante).(ECO, 1981:59). Esse código
Antonio Candido constrói o seu conceito de
característico de cada obra, pode causar no
literatura:
leitor, por este não estar familiarizado com
A arte, e portanto a literatura, é uma suas regras, aquilo que Eco denomina de efeito
transposição do real para o ilusório por meio de estranhamento. Por estar o leitor habituado
de uma estilização formal da linguagem , que às formas rígidas de estruturação da
propõe um tipo arbitrário de ordem para as linguagem, quando se lhe apresenta uma nova
coisas, os seres, os sentimentos. Nela se estrutura, este a olha com considerável
combinam um elemento de vinculação à estranheza, e, para compreendê-la bem, passa
realidade natural ou social, e um elemento de a reconsiderá-la, procurando sua significação
manipulação técnica, indispensável à sua particular: A arte aumenta a “dificuldade e a
configuração, e implicando em uma atitude duração da percepção” [...] e o fim da imagem
de gratuidade.. ( CANDIDO, 1972:53). não é tornar mais próxima da nossa
Na citação acima, Candido fala da compreensão a significação que veicula, mas
criar uma significação particular do objeto.
indispensável presença de um elemento de
(op. cit., p.71).
manipulação técnica, o qual é fator
determinante para a classificação de uma Estando a literatura ligada à
obra como literária ou não. Esse elemento, demonstração do real, esta assume algumas
entende-se, é a linguagem classificada por
funções que atuam diretamente no homem,
Barthes como a linguagem literária, a qual
pois que exprime o homem e, depois, volta-se
estabelece uma nova ordem para as coisas
para sua formação, enquanto fruidor dessa
representadas, mantendo uma ligação com a arte. Antonio Candido, em A literatura e a
realidade natural. Embora a literatura
formação do homem (CANDIDO, 1972)
permita a criação de novos universos, esses
identifica três funções exercidas pela
são baseados, ou inspirados, na realidade da literatura, as quais, em seu conjunto,
qual o escritor participa. Daí a afirmação de
denomina de função humanizadora da
que a literatura é vinculada à realidade, mas literatura.
dela foge através da estilização de sua
linguagem. Também Marisa Lajolo afirma que A primeira das funções por ele
a linguagem tem um papel determinante na identificadas é chamada de função psicológica,
classificação de uma obra como literária: em virtude de sua ligação estrita com a
É a relação que as palavras estabelecem capacidade e necessidade que tem o homem
com o contexto, com a situação de produção (no conceito mais amplo do termo) de
da leitura que instaura a natureza literária de fantasiar. Essa necessidade é expressa através
um texto [...]. A linguagem parece tornar-se dos devaneios em que todos se envolvem
literária quando seu uso instaura um diariamente, através das novelas, da música e
universo, um espaço de interação de do fantasiar sobre o amor, sobre o futuro, etc.
subjetividade (autor e leitor) que escapa ao Conforme Candido, dessas modalidades de
fantasia, a literatura seja, talvez, a mais rica.
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
As fantasias expressas pela literatura, acentuando suas diferenças em relação ao
no entanto, têm sempre sua base na mundo culto, que se quer propagar.
realidade, nunca são puras. É através dessa
ligação com o real, que a literatura passa a Assim, o leitor não participa da
exercer sua segunda função: a função realidade em que a personagem está inserida,
formadora. atuando apenas como observador, centrando
sua atenção na diferença cultural de seus
A literatura atua como instrumento de universos (o culto e o rústico, por exemplo),
educação, de formação do homem, uma vez reconhecendo apenas a realidade de seu
que exprime realidades que a ideologia próprio mundo como verdade absoluta. Por
dominante tenta esconder: outro lado, essa função pode causar a
integração do leitor ao universo vivencial das
A literatura pode formar; mas não segundo a
personagens retratadas, quando expressa de
pedagogia oficial. [...] . Longe de ser um
apêndice da instrução moral e cívica, [...], maneira fidedigna a realidade vivencial de suas
personagens. Isso causa uma maior integração
ela age com o impacto indiscriminado da
entre leitor e personagem, que culmina na
própria vida e educa como ela. [...]. Dado
identificação de uma realidade que não é a
que a literatura ensina na medida em que
atua com toda a sua gama, é artificial querer sua, mas que faz parte de uma cultura própria,
diferente daquela da qual participa. Essa
que ela funcione como os manuais de virtude
integração faz com que o leitor incorpore a
e boa conduta. E a sociedade não pode senão
escolher o que em cada momento lhe parece realidade da obra às suas próprias
experiências pessoais.
adaptado aos seus fins, pois mesmo as obras
consideradas indispensáveis para a formação Ora, se a literatura possui todas essas
do moço trazem freqüentemente aquilo que
funções que dizem respeito estritamente à
as convenções desejariam banir. [...]. É um
formação intelectual do indivíduo e,
dos meios por que o jovem entra em contato conseqüentemente, seu bem estar psicológico,
com realidades que se tenciona escamotear-
ela deve ser enquadrada dentro da categoria
lhe. (op. cit., p. 805)
de bens a que todos os seres humanos têm
Através da citação acima, pode-se direito a usufruiur. Pensando desta forma,
claramente perceber o poder que tem a Antonio Candido (CANDIDO, 1989:110),
literatura de atuar na formação do indivíduo, retoma a concepção do dominicano Padre
que pode, através da fruição da arte literária, Louis-Joseph Lebret, que faz a distinção entre
ter suas características moldadas segundo bens compressíveis e bens incompressíveis
valores que não interessam à pedagogia
oficial que sejam propagados. Ainda nas Estão enquadrados dentro da categoria
palavras de Candido, a literatura não dos bens compressíveis, aqueles que são
corrompe nem edifica, mas humaniza em perfeitamente dispensáveis para a
sentido profundo, por que faz viver.(op. cit., sobrevivência do ser. Aqui, encontram-se os
p. 806) cosméticos, os enfeites, as roupas extras, e
tudo o mais que seja fútil. Já, na categoria dos
A terceira e última função, levantada bens incompressíveis, estão aqueles bens
por Antonio Candido, diz respeito à responsáveis pela sobrevivência do indivíduo e
identificação do leitor e de seu universo por seu bem estar físico e psicológico, como o
vivencial representados na obra literária. Esta alimento, a moradia, a saúde, a liberdade, a
função é por ele denominada de função justiça, o direito ao lazer, à liberdade de
social. crença, de opinião e, enfim, e mais
importante, o direito à instrução.
Essa função é que possibilita ao
indivíduo o reconhecimento da realidade que Se, como se viu, a literatura promove no
o cerca quando transposta para o mundo homem o desenvolvimento de sua
ficcional. Esse reconhecimento, no entanto, intelectualidade, proporcionando-lhe um
pode causar uma falsa impressão, equilíbrio moral e psicológico, bem como uma
construindo um reconhecimento errôneo, maior integração com a realidade que o cerca,
quando expressa uma realidade a qual o seja a que ele vivencie diretamente ou não, a
leitor não participa diretamente, causando- literatura deve, então, ser enquadrada dentro
lhe uma alienação. É o caso de obras que da categoria dos bens incompressíveis. Diz
retratam personagens – algumas obras do Antonio Candido:
regionalismo brasileiro, por exemplo –
Pensar em direitos humanos tem um
pressuposto: reconhecer que aquilo que
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
consideramos indispensável para nós é sentido conotativo (conotação) das palavras. O
também indispensável para o próximo. [...]. sentido denotativo é também conhecido como sentido
É necessário um grande esforço de educação próprio ou literal e o sentido conotativo é também
e auto-educação a fim de reconhecermos conhecido como sentido figurado.
sinceramente este postulado. Na verdade, a
tendência mais funda é achar que os nossos
direitos são mais urgentes que os do Denotação
próximo. (op., cit., p. 110).
É necessário, como disse Candido, um Uma palavra é usada no sentido denotativo (próprio
grande esforço para que o homem reconheça ou literal) quando apresenta seu significado original,
independentemente do contexto frásico em que
que, se temos direito à fruição da arte como
aparece. Quando se refere ao seu significado mais
parte responsável pela consolidação de seu
objetivo e comum, aquele imediatamente
universo de conhecimento, também os reconhecido e muitas vezes associado ao primeiro
menos privilegiados pela sociedade têm o significado que aparece nos dicionários, sendo o
mesmo direito. significado mais literal da palavra.
Fica clara, assim, a importância que a A denotação tem como finalidade informar o receptor
literatura exerce no meio social, sobretudo no da mensagem de forma clara e objetiva, assumindo
homem participante e responsável pela assim um caráter prático e utilitário. É utilizada em
manutenção desse meio. textos informativos, como jornais, regulamentos,
manuais de instrução, bulas de medicamentos, textos
Por outro lado, a literatura só exercerá científicos, entre outros.
plenamente todas as suas funções, se a ela
for concedida a importância que lhe cabe, Exemplos:
bem como um esforço de interpretação e
compreensão de seu significado mais correto.  O elefante é um mamífero.
Essa interpretação e compreensão resulta de
 Já li esta página do livro.
uma ação a qual estamos todos efetuando no
dia-a-dia, desde a mais tenra idade: a prática  A empregada limpou a casa.
da leitura.

Conotação

Uma palavra é usada no sentido conotativo (figurado)


19.2 OS NÍVEIS DE SIGNIFICAÇÃO DA
quando apresenta diferentes significados, sujeitos a
PALAVRA: DENOTAÇÃO E CONOTAÇÃO. diferentes interpretações, dependendo do contexto
frásico em que aparece. Quando se refere a sentidos,
associações e ideias que vão além do sentido original
A língua portuguesa é rica, interessante, da palavra, ampliando sua significação mediante a
criativa e versátil, encontrando-se em constante circunstância em que a mesma é utilizada,
evolução. As palavras não apresentam apenas um assumindo um sentido figurado e simbólico.
significado objetivo e literal, mas sim uma variedade
A conotação tem como finalidade provocar
de significados, mediante o contexto em que
sentimentos no receptor da mensagem, através da
ocorrem e as vivências e conhecimentos das
expressividade e afetividade que transmite. É
pessoas que as utilizam.
utilizada principalmente numa linguagem poética e na
literatura, mas também ocorre em conversas
Exemplos de variação no significado das
cotidianas, em letras de música, em anúncios
palavras:
publicitários, entre outros.
 Os domadores conseguiram enjaular a fera.
(sentido próprio ou literal)

 Ele ficou uma fera quando soube da notícia.


(sentido figurado)

 Aquela aluna é fera na matemática.


(sentido figurado)

As variações nos significados das palavras


ocasionam o sentido denotativo (denotação) e o

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
19.3 OS GÊNEROS LITERÁRIOS. Todo texto que traz foco narrativo, enredo,
personagens, tempo e espaço, conflito, clímax e
[2]
desfecho é classificado como narrativo.
(português europeu) .
Género literário ou gênero
(português brasileiro) Atualmente, os estudiosos optam por classificá-los
literário é uma categoria de
em: narrativo, dramático e lírico, visto que não se
composição literária. A classificação das obras
prioriza mais o gênero épico.
literárias podem ser feitas de acordo com critérios
semânticos, sintáticos, fonológicos, formais,
De uma forma mais concisa, enfatizaremos a seguir
contextuais e outros. As distinções entre os gêneros
cada um deles, apenas para nos direcionarmos a
e categorias são flexíveis, muitas vezes com
estudos posteriores mais aprofundados:
subgrupos.

Na história, houve várias classificações de Gênero narrativo – Assim como é conhecido hoje,
gêneros literários, de modo que não se pode desenvolveu-se a partir dos antigos poemas épicos,
determinar uma categorização de todas as obras também conhecidos como epopeias, as quais eram
seguindo uma abordagem comum. A divisão representadas por narrativas em forma de versos,
clássica é, desde a Antiguidade, em três grupos: tendo como enredo principal os grandes feitos
narrativo ou épico, lírico e dramático. Essa divisão heroicos de um povo, aliando elementos terrenos
partiu dos filósofos da Grécia antiga, Platão e com mitológicos e lendários.
Aristóteles, quando iniciaram estudos para o
questionamento daquilo que representaria o literário Gênero lírico – O termo ―lírico‖ é oriundo de um
e como essa representação seria produzida.
[1] instrumento musical denominado lira, usado desde a
Essas três classificações básicas fixadas pela Antiguidade clássica para acompanhar recitações
tradição abrangem inúmeras categorias menores, das composições poéticas, proferidas em voz alta.
comumente denominadas subgêneros. Sua principal característica é a subjetividade
representada pelo ―eu lírico‖ manifestado por meio
O gênero lírico se faz, na maioria das das construções poéticas.
vezes, em versos e explora a musicalidade das
palavras. É importante ressaltar que o gênero lírico Gênero dramático – A ele está associada a arte da
trabalha bastante com as emoções, explorando os representação. O enredo desenvolve-se por meio da
sentimentos Entretanto, os outros dois gêneros — o encenação dos atores mediante a apresentação do
narrativo e o dramático — também podem ser espetáculo teatral. Neste contexto, figuram-se a
escritos nessa forma, embora modernamente participação de elementos extraverbais, tais como
prefira-se a prosa. cenário, figurino, iluminação, sonoplastia, entre
outros.
Todas as modalidades literárias são
influenciadas pelas personagens, pelo espaço e
pelo tempo. Todos os gêneros podem ser não-
ficcionais ou ficcionais. Os não-ficcionais baseiam-
se na realidade, e os ficcionais inventam um
mundo, onde os acontecimentos ocorrem
coerentemente com o que se passa no enredo da
[1]
história.

O texto épico relata fatos históricos


realizados pelos seres humanos no passado. é
relatar um enredo, sendo ele imaginário ou não,
situado em tempo e lugar determinados,
envolvendo uma ou mais personagens, e assim o
faz de diversas formas.

As narrativas utilizam-se de diferentes linguagens: a


verbal (oral ou escrita), a visual (por meio da
imagem), a gestual (por meio de gestos), além de
outras.

Quanto à estrutura, ao conteúdo e à


extensão, pode-se classificar as obras narrativas
em romances, contos, novelas, poesias épicas,
crônicas, fábulas e ensaios. Quanto à temática, às
narrativas podem ser histórias policiais, de amor, de
ficção e etc.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
precisamente, o autor não só utiliza o código, mas
19.4 AS LINGUAGENS DA LITERATURA: transgride-o. É devido a essas transgressões que o
POEMA, TEXTO NARRATIVO E TEATRO texto literário provoca um estranhamento ao leitor.
Junto a esse estranhamento, estão os significados da
A linguagem literária obra literária, que não vêm expressos claramente.

Pois a literatura trabalha com os ―silêncios‖, o


A literatura é uma arte, uma manifestação ―não-dito‖ ou ainda – e como é mais típico dizer
estética de grande valor. E como toda arte, possui – nas ―entrelinhas‖. Mas que artifícios o artista da
um objeto estético, aquilo que está presente no palavra utiliza para elaborar construções tão ricas?
mundo e que deve ser recriado. A literatura recria Que marcas diferenciam este tipo de construção dos
as palavras. É por isso que costumamos enunciar a demais textos? Que outras peculiaridades podemos
Literatura como a arte da palavra. identificar dentro de uma obra literária?
Pode-se apontar uma importante característica
Há muitas coisas além desta breve literária: sua autonomia.
definição. Não é válido afirmar que a Literatura é a
arte da palavra sem antes compreender o que é Todo texto literário é autônomo
arte. Pois, se Literatura é uma manifestação semanticamente, isto é, tem poder suficiente para
artística, é de vital importância o entendimento da estruturar e organizar seu próprio mundo. Por este
palavra arte para que, então, seja possível trabalhar mesmo motivo a linguagem literária basta a si
com os conceitos de Literatura. própria, é verdadeira por si mesma, não podendo ser
verificada, apenas explicada.
O mundo real está repleto de coisas:
pessoas, animais, plantas, matéria inanimada etc. E Baudelaire, em ―Correspondências‖ recria a
todos nós somos capazes de perceber a existência realidade e a localiza numa natureza especialmente
e a utensilidade dessas coisas. Acontece que a construída pela atividade poética num mundo
percepção de toda a matéria existente é algo muito expressivo próprio ao poema. O templo de vivos
comum, uma visão profundamente automatizada, pilares não é a natureza empírica da qual Baudelaire
que almeja sempre a utensilidade dos objetos. buscaria aproximar-se numa tentativa de comunhão,
mas uma recriação artificial do que poderia ser a
É justamente neste ponto em que a arte imagem de tal harmonia.
atua: ela amplia a nossa percepção da realidade, Mesmo sendo o mundo da literatura um lugar
desautomatizando os objetos e dando a eles uma autônomo, este não perde completamente os
percepção singular. Para o artista singularizar a vínculos com o mundo real. A ficção literária e a
noção de realidade, precisa ser movido pela realidade empírica jamais se desprendem, pois o
percepção estética, ter um olhar desautomatizador. mundo literário não consiste em uma mera
deformação do mundo real, mas a criação de uma
A palavra é o material primordial da realidade nova que preserva o vínculo significativo
literatura, constituindo seu objeto estético. Acontece com o real objetivo.
que, mesmo a palavra precisa ser desrealizada e
recriada. No cotidiano, a palavra é um mero O texto não-literário prima pelo predomínio
utensílio que serve para comunicar idéias e da denotação, pois para textos de cunho científico,
pensamentos, ou seja, é um signo lingüístico filosófico e histórico a objetividade na maneira como
formado por um significado e seu respectivo as informações são veiculadas é muito importante.
significante. É deste uso que se servem as
linguagens históricas, filosóficas e científicas. Em contrapartida, a linguagem literária é
Todavia, depois que o processo da mímesis atua predominantemente conotativa.
sobre a palavra, desrealizando-a e recriando-a, esta Contudo, a conotatividade não é uma propriedade
deixa de ser um utensílio e passa a constituir um pertencente apenas à literatura: ela está presente
objeto artístico. Deixa de ser apenas um signo também em outros textos não-literários, como o
lingüístico para tornar-se uma imagem, um signo discurso político, por exemplo. A própria
literário. comunicação pela fala faz uso de inúmeras
conotações. Acontece que a conotatividade literária é
Neste signo literário, um único significante uma componente de um fenômeno mais complexo e
tem vários significados e mesmo o significante extenso a que se convencionou chamar por
significa. Quando um texto alcança este patamar de ambigüidade.
linguagem, denominamo-lo literário.
Devido aos fatos anteriormente esclarecidos,
A Literatura é uma recriação da realidade; seria mais adequado tomarmos a Linguagem
mas essa recriação se dá a partir da recriação da Literária como plurissignificativa; nela, o signo
linguagem. É com a linguagem que o artista da lingüístico carrega em si múltiplas dimensões
palavra transforma o utensílio em objeto estético. E semânticas, diferençando-se do significado unívoco
neste caso, o objeto é o código lingüístico. Mais próprio da linguagem monossignificativa de textos

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
não-literários. mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios
do sol nascente, perlongando as alvas praias
Num plano sincrônico ou horizontal, a ensombradas de coqueiros;
palavra adquire dimensões plurissignificativas Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga
graças às relações conceptuais, imaginativas, impetuosa, para que o barco aventureiro manso
rítmicas, etc., que contrai com os outros elementos resvale à flor das águas.
que constituem o seu contexto verbal. ―A obra
literária é uma estrutura, um sistema de elementos Iracema, José de Alencar.
interligados, e a palavra só ganha valor quando
integrada nesta unidade estrutural.‖ O poema
Outra questão que merece ser discutida, diz
respeito à transgressão das normas e da alta E muito comum o emprego das palavras ―poesia‖ e
criatividade presente em um texto literário. ―poema‖ como sinônimas. Porém poesia é algo
imaterial e poema é um gênero textual com
A linguagem literária desvia-se, características de estrutura próprias.
sistematicamente, da norma padrão com o objetivo
de colocar em primeiro plano as propriedades No poema, há versos, métrica, estrofes, rimas e
imagísticas do texto e de desfamiliarizar as ritmo. E possível que não encontremos poesia em
percepções automatizadas do leitor. Isto é, a língua determinado poema, que ele não nos sensibilize,
literária não é gramaticalmente "correta‖ porque assim como é possível nos sentirmos
descaracterizando a norma culta o autor tem muito emocionalmente tocados diante de um verso.
mais a dizer do que se ele simplesmente utilizasse
a forma gramaticalmente aceita para falar o que Estrutura do texto poético
pretende.
Cada linha de um poema corresponde a um verso. O
Este comentário nos conduz a outro verso é a unidade poética:
elemento importante: A literariedade, em oposição à
literalidade. Quando o artista da palavra rejeita a Alma minha gentil que te partiste
norma, ele nega a literalidade, e se apropria da
literariedade. Ou seja, para recriar a realidade, faz Camões.
uso de uma deformação criadora, que provoca ao
leitor um certo estranhamento – visto que o texto Estrofe é um agrupamento de versos:
está construído de maneira inovadora.
Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente
O texto poético se caracteriza por E viva eu cá na Terra sempre triste.
privilegiar o prazer estético da leitura. Os gregos
chamavam de poiésis ao ―ato de criar algo‖. Camões.
Portanto, a poesia pertence à ficção, pois trata-se
de um processo criativo e de algo inventado. A repetição regular de um verso ou de uma estrofe,
no poema, recebe a denominação de estribilho:
A poesia Ora, se deu que chegou
De modo geral, entende-se por poesia a emoção, o (isso já faz muito tempo)
aspecto imaterial do texto. Assim, podemos No bangüê dum avô
encontrar poesia em poemas, canções, textos Uma negra bonitinha
narrativos, peças publicitárias, pinturas e filmes, por Chamada negra Fuiô.
exemplo. Essa negra Fulô
Essa negra Fulô
A seguir são apresentados textos de caráter
poético: o primeiro é uma manifestação em versos ―Essa nega Fulô‘ Jorge de Lima.
e o segundo, em prosa.
Alguns poemas apresentam formas fixas, ou seja,
obedecem a um número exato de versos, de estrofes
e de rimas. Dentre as principais formas fixas, temos:
Eu faço versos como quem chora Fecha o meu
livro, se por agora De desalento… de desencanto… o acróstico, que é composto de uma só estrofe
Não tens motivo nenhum de pranto. cujas letras iniciais formam o nome de uma
pessoa ou de algo (um objeto, uma cidade, uma
―Desencanto‖, Manuel Bandeira. paisagem, por exemplo.);

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde a balada, que é composta de quatro estrofes:
canta a jandaia nas frondes da carnaúba; Verdes três oitavas ou três décimas (oito ou dez versos)

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
e uma quadra ou quintilha (quatro ou cinco O ritmo, responsável pela estrutura melódica do
versos); texto poético, é marcado pela sucessão de sílabas
átonas e tônicas dentro do verso ou do poema:
o haicai, poema de origem japonesa, composto
por uma estrofe com três versos: o primeiro Acho que a chuva ajuda a gente a se ver
com cinco sílabas (redondilha menor) e o
segundo com sete sílabas (redondilha maior); ―Samba, suor e cerveja‖, Caetano Veloso.

o soneto, forma composta por catorze versos A cavalo de galope


divididos em dois quartetos e dois tercetos ou, a cavalo de galope
ainda, por uma estrofe com doze versos e outra a cavalo de galope
com dois versos; lá vem a morte chegando.

a trova, que é composta de uma estrofe de ―Morte a cavalo‖, Carlos Drummond de Andrade.
quatro versos com sete sílabas poéticas
(redondilha maior). No primeiro texto, Caetano reproduz o som da chuva;
no segundo, Drummond reproduz o galopar do
A métrica ou medida é representada pelo número cavalo. Os dois exemplos mostram como a
de sílabas de um verso. Essa estrutura em sílabas exploração da sonoridade das palavras e das suas
permite ao leitor identificar o ritmo do poema: tonicidades colabora para a configuração do ritmo no
texto poético.

Rima
A rima é o resultado de sons iguais ou semelhantes
entre as palavras, no meio ou no final de versos
As sílabas poéticas ou métricas não são contadas diferentes. Há vários tipos de rima:
como as sílabas gramaticais. A contagem de
sílabas poéticas respeita o ritmo do poema, é feita Quanto à posição na estrofe:
auditivamente e vai apenas até a última sílaba
a) Cruzada ou alternada: (ABAB) O primeiro verso
tônica do verso.
rima com o terceiro, e o segundo com o quarto:
Dividir um verso em sílabas poéticas é chamado de
―Cheguei, chegaste. Vinhas fatigada A
escandir. A escansão deve seguir determinadas
E triste, e triste e fatigado eu vinha; B
regras, tais como:
Tinhas a alma de sonhos povoada A
Os ditongos crescentes formam apenas uma E a alma de sonhos povoada eu tinha.‖ B
sílaba.
(Olavo Bilac)
Duas vogais podem formar apenas uma sílaba
b) Interpolada: (ABBA) O primeiro verso rima com o
quando uma delas se encontra no final de uma
quarto, e o segundo com o terceiro:
palavra, e a outra, no início da palavra seguinte.
―Para canto de amor tenros cuidados. A
Tomo entre voz, ó montes, o instrumento; B
Ouvi pois o meu fúnebre lamento; B
Se é que compaixão dos animados.‖ A

(Cláudio Manuel da Costa)


Entre os versos mais empregados nos poemas
estão: c) Emparelhada: (AABB) O primeiro verso rima com
o segundo, e o terceiro com o quarto:
Pentassílabos ou redondilha menor:
compostos de cinco sílabas. ―Manhã de junho ardente. Uma encosta escavada A
seca, deserta e nua, à beira de uma estrada A
Heptassílabos ou redondilha maior: Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha B
compostos de sete sílabas. bebendo o sol, comendo o pé, mordendo a rocha.‖ B

Decassílabos ou heroicos: compostos de dez (Guerra Junqueiro)


sílabas.
d) Internas: Quando rimam palavras que estão no
Dodecassílabos ou alexandrinos: compostos fim do verso e no interior do verso seguinte:
de doze sílabas.
―Salve Bandeira do Brasil querida
Toda tecida de esperança e luz

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Pálio sagrado sobre o qual palpita
A alma bendita do país da Cruz.‖

e) Misturadas: Não tem esquema fixo.

f) Versos brancos ou soltos: São os que não tem


rima.

Quanto à tonicidade

a) Agudas: Quando rimam palavras oxítonas ou


monossilábicas: a/mor e com/por; a/mém e Be/lém.

b) Graves: Quando rimam palavras paroxítonas:


an/ta e man/ta; qui/os/que e bos/que.

c) Esdrúxulas: Quando rimam palavras


proparoxítonas: má/gi/co e trá/gi/co; li/ri/co e
o/ní/ri/co.

Quanto à sonoridade

a) Perfeitas: Há uma perfeita identidade dos sons


A estrofe de oito versos, quando possuir o esquema
finais: festa e manifesta; cedo e medo.
rítmico (ABABABCC) será denominada oitava-rima
b) Imperfeitas: Quando não há uma perfeita ou oitava heróica.
identidade dos sons finais: céu e breu; sais e paz.
Quando ao metro dos versos, as estrofes podem ser:
c) Consoantes: Quando há os mesmos sons a
Simples: Quando agrupam versos de um mesmo
partir da última tônica: perto e incerto; dezenas e
metro.
apenas.
Compostas: Quando agrupam versos de metros
d) Toantes: Quando só há identidade com a vogal
diferentes.
tônica do verso: terra e pedra; vela e terra.
Polimétricas (livres): Quando agrupam versos de
Quanto ao valor
diferentes medidas sem obediência a qualquer
a) Pobres: Quando rimam palavras da mesma regra.
classe gramatical: amor e flor; meu e teu.
Por: Paulo Roberto Vieira Corrêa
b) Ricas: Quando rimam palavras de classes
gramaticais diferentes: festa e manifesta; cedo e
medo.

c) Raras: Quando rimam palavras de difícil


combinação melódica: cisne e tisne; leque e
Utreque.

d) Preciosas: São rimas artificiais, decorrentes da


combinação de um nome com a forma verbo-
pronome: tranqüilo e ouvi-lo; estrela e vê-la.

Disposição das estrofes


Quanto ao número de versos agrupados, as
estrofes recebem diferentes denominações:

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
subdivisões chamadas escolas literárias ou estilos de
19.5 A literatura portuguesa e brasileira: época.
contexto sócio-histórico e análises de
A Era Colonial abrange o Quinhentismo (de
textos nos diversos estilos literários: 1500, ano do descobrimento, a 1601), o
Seiscentismo ou Barroco (de 1601 a 1768), o
Setecentismo (de 1768 a 1808) e o período de
Trovadorismo. Humanismo. Classicismo. Transição (de 1808 a 1836). A Era Nacional, por sua
Quinhentismo. Barroco. Arcadismo. vez, envolve o Romantismo (de 1836 a 1881), o
Realismo (de 1881 a 1893), o Simbolismo (de 1893 a
Romantismo. Realismo 1922) e o Modernismo (de 1922 a 1945). A partir daí,
o que está em estudo é a contemporaneidade da
(Naturalismo/Parnasianismo). Simbolismo. Pré- literatura brasileira.
Modernismo. Modernismo (fases)

O Quinhentismo
As Origens da Literatura Brasileira
Esta expressão é a denominação genérica de
O estudo sobre as origens da literatura todas as manifestações literárias ocorridas no Brasil
brasileira deve ser feito levando-se em conta duas durante o século XVI, correspondendo à introdução
vertentes: a histórica e a estética. O ponto de vista da cultura eu-ropéia em terras brasileiras. Não se
histórico orienta no sentido de que a literatura pode falar em uma literatura ―do‖ Brasil, como
brasileira é uma expressão de cultura gerada no característica do país naquele período, mas sim em
seio da literatura portuguesa. Como até bem pouco literatura ―no‖ Brasil – uma literatura ligada ao Brasil,
tempo eram muito pequenas as diferenças entre a mas que denota as ambições e as intenções do
literatura dos dois países, os historiadores homem europeu.
acabaram enaltecendo o processo da formação
No Quinhentismo, o que se demonstrava era
literária brasileira, a partir de uma multiplicidade de
o momento histórico vivido pela Península Ibérica,
coincidências formais e temáticas.
que abrangia uma literatura informativa e uma
A outra vertente (aquela que salienta a literatura dos jesuítas, como principais manifestações
estética como pressuposto para a análise literária literárias no século XVI. Quem produzia literatura
brasileira) ressalta as divergências que desde o naquele período estava com os olhos voltados para
primeiro instante se acumularam no comportamento as riquezas materiais (ouro, prata, ferro, madeira,
(como nativo e colonizado) do homem americano, etc.), enquanto a literatura dos jesuítas se
influindo na composição da obra literária. Em outras preocupava com o trabalho de catequese.
palavras, considerando que a situação do colono
Com exceção da carta de Pero Vaz de
tinha de resultar numa nova concepção da vida e
Caminha, considerada o primeiro documento da
das relações humanas, com uma visão própria da
literatura no Brasil, as principais crônicas da literatura
realidade, a corrente estética valoriza o esforço pelo
informativa datam da segunda metade do século XVI,
desenvolvimento das formas literárias no Brasil, em
fato compreensível, já que a colonização só pode ser
busca de uma expressão própria, tanto quanto
contada a partir de 1530. A literatura jesuítica, por
possível original.
seu lado, também caracteriza o final do
Quinhentismo, tendo esses religiosos pisado o solo
Em resumo: estabelecer a autonomia brasileiro somente em 1549.
literária é descobrir os momentos em que as formas
A literatura informativa, também chamada de
e artifícios literários se prestam a fixar a nova visão
literatura dos viajantes ou dos cronistas, reflexo das
estética da nova realidade. Assim, a literatura, ao
grandes navegações, empenha-se em fazer um
invés de períodos cronológicos, deverá ser dividida,
levantamento da terra nova, de sua flora, fauna, de
desde o seu nascedouro, de acordo com os estilos
sua gente. É, portanto, uma literatura meramente
correspondentes às suas diversas fases, do
descritiva e, como tal, sem grande valor literário
Quinhentismo ao Modernismo, até a fase da
contemporaneidade. A principal característica dessa manifestação
é a exaltação da terra, resultante do assombro do
Duas eras – A literatura brasileira tem sua história
europeu que vinha de um mundo temperado e se
dividida em duas grandes eras, que acompanham a
defrontava com o exotismo e a exuberância de um
evolução política e econômica do país: a Era
mundo tropical. Com relação à linguagem, o louvor à
Colonial e a Era Nacional, separadas por um
terra aparece no uso exagerado de adjetivos, quase
período de transição, que corresponde à
sempre empregados no superlativo (belo é belíssimo,
emancipação política do Brasil. As eras apresentam
lindo é lindíssimo etc.)

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
O melhor exemplo da escola quinhentista Antes do texto de Bento Teixeira, os sinais
brasileira é Pero Vaz de Caminha. Sua ―Carta ao mais evidentes da influência da poesia barroca no
Eu Rei Dom Manuel sobre o acuamento do Brasil‖, Brasil surgiram a partir de 1580 e começaram a
além do inestimável valor histórico, é um trabalho crescer nos anos seguintes ao domínio espanhol na
de bom nível literário. O texto da carta mostra clara- Península Ibérica, já que é a Espanha a responsável
mente o duplo objetivo que, segundo Caminha, pela unificação dos reinos da região, o principal foco
impulsionava os portugueses para as aventuras irradiador do novo estilo poético.
marítimas, isto é, a conquista dos bens materiais e
a dilatação da fé cristã. O quadro brasileiro se completa no século
XVII, com a presença cada vez mais forte dos
Literatura jesuíta – Conseqüência da contra- comerciantes, com as transformações ocorridas no
reforma, a principal preocupação dos jesuítas era o Nordeste em conseqüência das invasões holandesas
trabalho de catequese, objetivo que determinou e, finalmente, com o apogeu e a decadência da cana-
toda a sua produção literária, tanto na poesia de-açúcar.
quanto no teatro. Mesmo assim, do ponto de vista
estético, foi a melhor produção literária do Uma das principais referências do barroco
Quinhentismo brasileiro. Além da poesia de brasileiro é Gregório de Matos Guerra, poeta baiano
devoção, os jesuítas cultivaram o teatro de caráter que cultivou com a mesma beleza tanto o estilo
pedagógico, baseado em trechos bíblicos, e as contesta quanto o concertista (o cultismo é marcado
cartas que informavam aos superiores na Europa pela linguagem rebuscada, extravagante, enquanto o
sobre o andamento dos trabalhos na colônia. concretismo caracteriza-se pelo jogo de idéias, de
conceitos. O primeiro valoriza o pormenor, enquanto
Não se pode comentar, no entanto, a o segundo segue um raciocínio lógico, racionalista)
literatura dos jesuítas sem referências ao que o
padre José de Anchieta representa para o Na poesia lírica e religiosa, Gregório de
Quinhentismo brasileiro. Chamado pelos índios de Matos deixa claro certo idealismo renascentista,
―Grande Peai‖ (supremo pajé branco), Anchieta veio colocado ao lado do conflito (como de hábito na
para o Brasil em 1553 e, no ano seguinte, fundou época) entre o pecado e o perdão, buscando a
um colégio no planalto paulista, a partir do qual pureza da fé, mas tendo ao mesmo tempo
surgiu a cidade de São Paulo. necessidade de viver a vida mundana. Contradição
que o situava com perfeição na escola barroca do
Ao realizar um exaustivo trabalho de Brasil.
catequese, José de Anchieta deixou uma fabulosa
herança literária: a primeira gramática do tupi- Antônio Vieira – Se por um lado, Gregório de Matos
guarani, insuperável cartilha para o ensino da mexeu com as estruturas morais e a tolerância de
língua dos nativos; várias poesias no estilo do verso muita gente – como o administrador português, o
medieval; e diversos autos, segundo o modelo próprio rei, o clero e os costumes da própria
deixado pelo poeta português Gil Vicente, que sociedade baiana do século XVII – por outro,
agrega à moral religiosa católica os costumes dos ninguém angariou tantas críticas e inimizades quanto
indígenas, sempre com a preocupação de o ―impiedoso‖ Padre Antônio Vieira, detentor de um
caracterizar os extremos, como o bem e o mal, o invejável volume de obras literárias, inquietantes para
anjo e o diabo. os padrões da época.

O Barroco Politicamente, Vieira tinha contra si a


pequena burguesia cristã (por defender o capitalismo
O Barroco no Brasil tem seu marco inicial judaico e os cristãos-novos); os pequenos
em 1601, com a publicação do poema épico comerciantes (por defender o monopólio comercial);
―Prosopopéia‖, de Bento Teixeira, que introduz e os administradores e colonos (por defender os
definitivamente o modelo da poesia camoniana em índios). Essas posições, principalmente a defesa dos
nossa literatura. Estende-se por todo o século XVII cristãos-novos, custaram a Vieira uma condenação
e início do XVIII. da Inquisição, ficando preso de 1665 a 1667.

Embora o Barroco brasileiro seja datado de A obra do Padre Antônio Vieira pode ser
1768, com a fundação da Arcádia Ultramarina e a dividida em três tipos de trabalhos: Profecias, Cartas
publicação do livro ―Obras‖, de Cláudio Manuel da e Sermões.
Costa, o movimento academicista ganha corpo a As Profecias constam de três obras: ―História do
partir de 1724, com a fundação da Academia futuro‖, ―Esperanças de Portugal‖ e ―Caves
Brasílica dos Esquecidos. Este fato assinala a Prophetarum‖. Nelas se notam o sebastianismo e as
decadência dos valores defendidos pelo Barroco e esperanças de que Portugal se tornaria o ―quinto
a ascensão do movimento árcade. O termo barroco império do Mundo‖. Segundo ele, tal fato estaria
denomina genericamente todas as manifestações escrito na Bíblia. Aqui ele demonstra bem seu estilo
artísticas dos anos de 1600 e início dos anos de alegórico de interpretação bíblica (uma característica
1700. Além da literatura, estende-se à música, quase que constante de religiosos brasileiros íntimos
pintura, escultura e arquitetura da época.
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
da literatura barroca). Além, é claro, de revelar um características no país seguem a linha européia: a
nacionalismo megalomaníaco e servidão incomum. volta aos padrões clássicos da Antigüidade e do
Renascimento; a simplicidade; a poesia bucólica,
O grosso da produção literária do Padre pastoril; o fingimento poético e o uso de
Antônio Vieira está nas cerca de 500 cartas. Elas pseudônimos. Quanto ao aspecto formal, a escola é
versam sobre o relacionamento entre Portugal e marcada pelo soneto, os versos decassílabos, a rima
Holanda, sobre a Inquisição e os cristãos novos e optativa e a tradição da poesia épica. O Arcadismo
sobre a situação da colônia, transformando-se em tem como principais nomes: Cláudio Manuel da
importantes documentos históricos. Costa, Tomás Antônio Gonzaga, José de Santa Rita
Durão e Basílio da Gama.
O melhor de sua obra, no entanto, está nos
200 sermões. De estilo barroco concertista, O Romantismo
totalmente oposto ao Gongorismo, o pregador
português joga com as idéias e os conceitos, O Romantismo se inicia no Brasil em 1836,
segundo os ensinamentos de retórica dos jesuítas. quando Gonçalves de Magalhães publica na França
Um dos seus principais trabalhos é o ―Sermão da a ―Niterói – Revista Brasiliense‖, e, no mesmo ano,
Sexagésima―, pregado na capela Real de Lisboa, lança um livro de poesias românticas intitulado
em 1655. A obra também ficou conhecida como ―A ―Suspiros poéticos e saudades‖.
palavra de Deus‖. Polêmico, este sermão resume a
arte de pregar. Com ele, Vieira procurou atingir Em 1822, Dom Pedro I concretiza um
seus adversários católicos, os gongóricos movimento que se fazia sentir, de forma mais
dominicanos, analisando no sermão ―Por que não imediata, desde 1808: a independência do Brasil. A
frutificava a Palavra de Deus na terra‖, atribuindo- partir desse momento, o novo país necessita inserir-
lhes culpa. se no modelo moderno, acompanhando as nações
independentes da Europa e América. A imagem do
O Arcadismo português conquistador deveria ser varrida. Há a
necessidade de auto-afirmação da pátria que se
O Arcadismo no Brasil começa no ano de formava. O ciclo da mineração havia dado condições
1768, com dois fatos marcantes: a fundação da para que as famílias mais abastadas mandassem
Arcádia Ultramarina e a publicação de ―Obras‖, de seus filhos à Europa, em particular França e
Cláudio Manuel da Costa. A escola setecentista, Inglaterra, onde buscam soluções para os problemas
por sinal, desenvolve-se até 1808, com a chegada brasileiros. O Brasil de então nem chegava perto da
da Família Real ao Rio de Janeiro, que, com suas formação social dos países industrializados da
medidas político-administrativas, permite a Europa (burguesia/proletariado). A estrutura social do
introdução do pensamento pré-romântico no Brasil. passado próximo (aristocracia/escravo) ainda
prevalecia. Nesse Brasil, segundo o historiador José
No início do século XVIII dá-se a de Nicola, ―o ser burguês ainda não era uma posição
decadência do pensamento barroco, para a qual econômica e social, mas mero estado de espírito,
vários fatores colaboraram, entre eles o cansaço do norma de comportamento‖.
público com o exagero da ex-pressão barroca e da
chamada arte cortesã, que se desenvolvera desde Marco final – Nesse período, Gonçalves de
a Renascença e atinge em meados do século um Magalhães viajava pela Europa. Em 1836, ele funda
estágio estacionário (e até decadente), perdendo a revista Niterói, da qual circularam apenas dois
terreno para o subjetivismo burguês; o problema da números, em Paris. Nela, ele publica o ―Ensaio sobre
ascensão burguesa superou o problema religioso; a história da literatura brasileira‖, considerado o
surgem as primeiras arcadas, que procuram a nosso primeiro manifesto romântico. Essa escola
pureza e a simplicidade das formas clássicas; os literária só teve seu marco final no ano de 1881,
burgueses, como forma de combate ao poder quando foram lançados os primeiros romances de
monárquico, começam a cultuar o ―bom selvagem‖, tendência naturalista e realista, como ―O mulato‖, de
em oposição ao homem corrompido pela Aluízio Azevedo, e ―Memórias póstumas de Brás
sociedade. Cubas‖, de Machado de Assis. Manifestações do
movimento realista, aliás, já vinham ocorrendo bem
Gosto burguês – Assim, a burguesia atinge uma antes do início da decadência do Romantismo, como,
posição de domínio no campo econômico e passa a por exemplo, o liderado por Tobias Barreto desde
lutar pelo poder político, então em mãos da 1870, na Escola de Recife.
monarquia. Isso se reflete claramente no campo
social e das artes: a antiga arte cerimonial das O Romantismo, como se sabe, define-se
cortes cede lugar ao poder do gosto burguês. como modismo nas letras universais a partir dos
últimos 25 anos do século XVIII. A segunda metade
Pode-se dizer que a falta de substitutos daquele século, com a industrialização modificando
para o Padre Antônio Vieira e Gregório de Matos, as antigas relações econômicas, leva a Europa a
mortos nos últimos cinco anos do século XVII, foi uma nova composição do quadro político e social,
também um aspecto motivador do surgimento do que tanto influenciaria os tempos modernos. Daí a
Arcadismo no Brasil. De qualquer forma, suas importância que os modernistas deram à Revolução
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Francesa, tão exaltada por Gonçalves de evolução no comportamento dos autores românticos.
Magalhães. Em seu ―Discurso sobre a história da A comparação entre os primeiros e os últimos
literatura do Brasil‖, ele diz: ―…Eis aqui como o representantes dessa escola mostra traços
Brasil deixou de ser colônia e foi depois elevado à peculiares a cada fase, mas discrepantes entre si. No
categoria de Reino Unido. Sem a Revolução caso brasileiro, por exemplo, há uma distância
Francesa, que tanto esclareceu os povos, esse considerável entre a poesia de Gonçalves Dias e a
passo tão cedo se não daria…‖. de Castro Alves. Daí a necessidade de se dividir o
Romantismo em fases ou gerações. No romantismo
A classe social delineia-se em duas classes brasileiro podemos reconhecer três gerações:
distintas e antagônicas, embora atochassem geração nacionalista ou indianista; geração do ―mal
paralelas durante a Revolução Francesa: a classe do século‖ e a ―geração condoreira‖.
dominante, agora representada pela burguesia
capitalista industrial, e a classe dominada, A primeira (nacionalista ou indianista) é
representada pelo proletariado. O Romantismo foi marcada pela exaltação da natureza, volta ao
uma escola burguesa de caráter ideológico, a favor passado histórico, medievalismo, criação do herói
da classe dominante. Daí porque o nacionalismo, o nacional na figura do índio, de onde surgiu a
sentimentalismo, o subjetivismo e o irracionalismo – denominação ―geração indianista‖. O sentimentalismo
características marcantes do Romantismo inicial – e a religiosidade são outras características presentes.
não podem ser analisados isoladamente, sem se Entre os principais autores, destacam-se Gonçalves
fazer menção à sua carga ideológica. de Magalhães, Gonçalves Dias e Araújo Porto.

Novas influências – No Brasil, o momento Egocentrismo – A segunda (do ―mal do século‖,


histórico em que ocorre o Romantismo tem que ser também chamada de geração byroniana, de Lorde
visto a partir das últimas produções árcades, Byron) é impregnada de egocentrismo, negativismo
caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e boêmio, pessimismo, dúvida, desilusão adolescente e
Silva Alvarenga. Com a chegada da Corte, o Rio de tédio constante. Seu tema preferido é a fuga da
Janeiro passa por um processo de urbanização, realidade, que se manifesta na idealização da
tornando-se um campo propício à divulgação das infância, nas virgens sonhadas e na exaltação da
novas influências européias. A colônia caminhava morte. Os principais poetas dessa geração foram
no rumo da independência. Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira
Freire e Fagundes Varela.
Após 1822, cresce no Brasil independente o
sentimento de nacionalismo, bus-ca-se o passado A geração condoreira, caracterizada pela
histórico, exalta-se a natureza pátria. Na realidade, poesia social e libertária, reflete as lutas internas da
características já cultivadas na Europa, e que se segunda metade do reinado de D. Pedro II. Essa
encaixaram perfeitamente à necessidade brasileira geração sofreu intensamente a influência de Victor
de ofuscar profundas crises sociais, financeiras e Hugo e de sua poesia político-social, daí ser
econômicas. conhecida como geração iguana. O termo
condoreirismo é conseqüência do símbolo de
De 1823 a 1831, o Brasil viveu um período liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor,
conturbado, como reflexo do autoritarismo de D. águia que habita o alto da cordilheira dos Andes. Seu
Pedro I: a dissolução da Assembléia Constituinte; a principal representante foi Castro Alves, seguido por
Constituição outorgada; a Confederação do Tobias Barreto e Sousândrade.
Equador; a luta pelo trono português contra seu
irmão D. Miguel; a acusação de ter mandado Duas outras variações literárias do
assassinar Líbero Badaró e, finalmente, a abolição Romantismo merecem destaque: a prosa e o teatro
da escravatura. Segue-se o período regencial e a romântico. José de Nicola demonstrou quais as
maioridade prematura de Pedro II. É neste explicações para o aparecimento e desenvolvimento
ambiente confuso e inseguro que surge o do romance no Brasil: ―A importação ou simples
Romantismo brasileiro, carregado de lusofobia e, tradução de romances europeus; a urbanização do
principalmente, de nacionalismo. Rio de Janeiro, transformado, então, em Corte,
criando uma sociedade consumidora representada
No final do Romantismo brasileiro, a partir pela aristocracia rural, profissionais liberais, jovens
de 1860, as transformações econômicas, políticas e estudantes, todos em busca de entretenimento; o
sociais levam a uma literatura mais próxima da espírito nacionalista em conseqüência da
realidade; a poesia reflete as grandes agitações, independência política a exigir uma ―cor local‖ para
como a luta abolicionista, a Guerra do Paraguai, o os enredos; o jornalismo vivendo o seu primeiro
ideal de República. É a decadência do regime grande impulso e a divulgação em massa de
monárquico e o aparecimento da poesia social de folhetins; o avanço do teatro nacional‖.
Castro Alves. No fundo, uma transição para o
Realismo. Os romances respondiam às exigências
daquele público leitor; giravam em Torino da
O Romantismo apresenta uma descrição dos costumes urbanos, ou de amenidades
característica inusitada: revela nitidamente uma das zonas rurais, ou de imponentes selvagens,
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
apresentando personagens idealizados pela romances regionais (―O sertanejo‖ e ―O gaúcho‖ são
imaginação e ideologia românticas com os quais o as duas obras regionais de Alencar); romances rurais
leitor se identificava, vivendo uma realidade que lhe ( como ―Til‖ e ―O tronco do ipê‖; e romances
convenha. Algumas poucas obras, porém, fugiram indianistas, que trouxeram maior popularidade para o
desse esquema, como ―Memórias de um Sargento escritor, como ―O Guarani‖, ―Iracema‖ e ―Ubirajara‖.
de Milícias‖, de Manuel Antônio de Almeida, e até
―Inocência‖, do Visconde de Taunay. Realismo (Naturalismo/Parnasianismo).

Ao se considerar a mera cronologia, o “O Realismo é uma reação contra o Romantismo:


primeiro romance brasileiro foi ―O filho do o Romantismo era a apoteose do sentimento – o
pescador‖, publicado em 1843, de autoria de Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do
Teixeira de Souza (1812-1881). Mas se tratava de homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios
um romance sentimentalóide, de trama confusa e olhos – para condenar o que houve de mau na nossa
que não serve para definir as linhas que o romance sociedade.‖ Ao cunhar este conceito, Eça de Queiroz
romântico seguiria na literatura brasileira. sintetizou a visão de vida que os autores da escola
realista tinham do homem durante e logo após o
Por esta razão, sobretudo pela aceitação declínio do Romantismo.
obtida junto ao público leitor, justa-mente por ter
moldado o gosto deste público ou correspondido às Este estilo de época teve uma prévia: os
suas expectativas, convencionou-se adotar o românticos Castro Alves, Sousândrade e Tobias
romance ―A Moreninha‖, de Joaquim Manuel de Barreto, embora fizessem uma poesia romântica na
Macedo, publicado em 1844, como o primeiro forma e na expressão, utilizavam temas voltados
romance brasileiro. para a realidade político-social da época (final da
década de 1860). Da mesma forma, algumas
Dentro das características básicas da prosa produções do romance romântico já apontavam para
romântica, destacam-se, além de Joaquim Manuel um novo estilo na literatura brasileira, como algumas
de Macedo, Manuel Antônio de Almeida e José de obras de Manuel Antônio de Almeida, Franklin Távora
Alencar. Almeida, por sinal, com as ―Memórias de e Visconde de Taunay. Começava-se o abandono do
um Sargento de Milícias‖ realizou uma obra total- Romantismo enquanto surgiam os primeiros sinais do
mente inovadora para sua época, exatamente Realismo.
quando Macedo dominava o ambiente literário. As
peripécias de um sargento descritas por ele podem Na década de 70 surge a chamada Escola de
ser consideradas como o verdadeiro romance de Recife, com Tobias Barreto, Silvio Romero e outros,
costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona aproximando-se das idéias européias ligadas ao
a visão da burguesia urbana, para retratar o povo positivismo, ao evolucionismo e, principalmente, à
com toda a sua simplicidade. filosofia. São os ideais do Realismo que encontravam
ressonância no conturbado momento histórico vivido
“Casamento” – José de Alencar, por sua vez, pelo Brasil, sob o signo do abolicionismo, do ideal
aparece na literatura brasileira como o consolidado republicano e da crise da Monarquia.
do romance, um ficcionista que cai no gosto
popular. Sua obra é um retrato fiel de suas posições No Brasil, considera-se 1881 como o ano
políticas e sociais. Ele defendia o ―casamento‖ entre inaugural do Realismo. De fato, esse foi um ano fértil
o nativo e o europeu colonizador, numa troca de para a literatura brasileira, com a publicação de dois
favores: uns ofereciam a natureza virgem, um solo romances fundamentais, que modificaram o curso de
esplêndido; outros a cultura. Da soma desses nossas letras: Aluízio Azevedo publica ―O mulato‖,
fatores resultaria um Brasil independente. ―O considerado o primeiro romance naturalista do Brasil;
guarani‖ é o melhor exemplo, ao se observar a Machado de Assis publica ―Memórias Póstumas de
relação do principal personagem da obra, o índio Brás Cubas‖, o primeiro romance realista de nossa
Fere, com a família de D. Antônio de Maces. literatura.

Este jogo de interesses entre o índio e o Na divisão tradicional da história da literatura


europeu, proposto por Alencar, aparece também brasileira, o ano considerado data final do Realismo é
em ―Iracema‖ (um anagrama da palavra América), 1893, com a publicação de ―Missal‖ e ―Broqueis‖,
na relação da índia com o português Martim. ambos de Cruz e Sousa, obras inaugurais do
Moacir, filho de Iracema e Martim, é o primeiro Simbolismo, mas não o término do Realismo e suas
brasileiro fruto desse casamento. manifestações na prosa – com os romances realistas
e naturalistas – e na poesia, com o Parnasianismo.
José de Alencar diversificou tanto sua obra
que tornou possível uma classificação por “Príncipe dos poetas” – Da mesma forma, o início
modalidades: romances urbanos ou de costumes do Simbolismo, em 1893, não representou o fim do
(retratando a sociedade carioca de sua época – o Realismo, porque obras realistas foram publicadas
Rio do II Reinado); romances históricos (dois, na posteriormente a essa data, como ―Dom Casmurro‖,
verdade, volta-los para o período colonial brasileiro de Machado de Assis, em 1900, e ―Esaú e Jacó‖, do
– ―As minas de prata‖ e ―A guerra dos mascastes‖); mesmo autor, em 1904. Olavo Bilac, chamado
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
―príncipe dos poetas‖, obteve esta distinção em do comportamento de determinados personagens.
1907. A Academia Brasileira de Letras, templo do Para se ter uma idéia, os cinco romances da fase
Realismo, também foi inaugurada posteriormente à realista de Machado de Assis apresentam nomes
data-marco do fim do Realismo: 1897. Na realidade, próprios em seus títulos (―Brás Cubas‖; ―Quincas
nos últimos vinte anos do século XIX e nos Borba‖; ―Dom Casmurro‖, ―Esaú e Jacó‖; e ―Aires‖).
primeiros do século XX, três estéticas se Isto revela uma clara preocupação com o indivíduo.
desenvolvem paralelamente: o Realismo e suas O romance realista analisa a sociedade por cima.
manifestações, o Simbolismo e o Pré-Modernismo,
que só conhecem o golpe fatal em 1922, com a Em outras palavras: seus personagens são
Semana de Arte Moderna. capitalistas, pertencem à classe dominante. O
romance realista é documental, retrato de uma
O Realismo reflete as profundas época.
transformações econômicas, políticas, sociais e
culturais da segunda metade do século XIX. A Naturalismo
Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, entra
numa nova fase, caracterizada pela utilização do O romance naturalista, por sua vez, foi
aço, do petróleo e da eletricidade; ao mesmo cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e Júlio
tempo, o avanço científico leva a novas Ribeiro. Aqui, Raul Pompéia também pode ser
descobertas nos campos da física e da química. O incluído, mas seu caso é muito particular, pois seu
capitalismo se estrutura em moldes modernos, com romance ―O Ateneu‖ ora apresenta características
o surgimento de grandes complexos industriais, naturalistas, ora realistas, ora impressionistas. A
aumentando a massa operária urbana, e formando narrativa naturalista é marcada pela forte análise
uma população marginalizada, que não partilha dos social, a partir de grupos humanos marginalizados,
benefícios do progresso industrial, mas, pelo valorizando o coletivo. Os títulos das obras
contrário, é explorada e sujeita a condições naturalistas apresentam quase sempre a mesma
subumanas de trabalho. preocupação: ―O mulato‖, ―O cortiço‖, ―Casa de
pensão‖, ―O Ateneu‖.
O Brasil também passa por mudanças
radicais tanto no campo econômico quanto no O Naturalismo apresenta romances
político-social, no período compreendido entre 1850 experimentais. A influência de Charles Darwin se faz
e 1900, embora com profundas diferenças sentir na máxima segundo a qual o homem é um
materiais, se comparadas às da Europa. A animal; portanto antes de usar a razão deixa-se levar
campanha abolicionista intensifica-se a partir de pelos instintos naturais, não podendo ser reprimido
1850; a Guerra do Paraguai (1864/1870) tem como em suas manifestações instintivas, como o sexo, pela
conseqüência o pensamento republicano (o Partido moral da classe dominante. A constante repressão
Republicano foi fundado no ano em que essa leva às taras patológicas, tão ao gosto do
guerra terminou); a Monarquia vive uma vertiginosa Naturalismo. Em conseqüência, esses romances são
decadência. A Lei Áurea, de 1888, não resolveu o mais ousados e erroneamente tachados por alguns
problema dos negros, mas criou uma nova de pornográficos, apresentando descrições
realidade: o fim da mão-de-obra escrava e sua minuciosas de atos sexuais, tocando, inclusive, em
substituição pela mão-de-obra assalariada, então temas então proibidos como o homossexualismo –
representada pelas levas de imigrantes europeus tanto o masculino (―O Ateneu‖), quanto o feminino (―O
que vinham trabalhar na lavoura cafeeira, o que cortiço‖).
originou uma nova economia voltada para o
mercado externo, mas agora sem a estrutura O Parnasianismo
colonialista.
A poesia parnasiana preocupa-se com a
Raul Pompéia, Machado de Assis e Aluízio forma e a objetividade, com seus sonetos
Azevedo transformaram-se nos principais alexandrinos perfeitos. Olavo Bilac, Raimundo
representantes da escola realista no Brasil. Correia e Alberto de Oliveira formam a trindade
Ideologicamente, os autores desce período são parnasiana O Parnasianismo é a manifestação
antimonárquicos, assumindo uma defesa clara do poética do Realismo, dizem alguns estudiosos da
ideal republicano, como nos romances ―O mulato‖, literatura brasileira, embora ideologicamente não
―O cortiço‖ e ―O Ateneu―. Eles negam a burguesia a mantenha todos os pontos de contato com os
partir da família. A expressão Realismo é uma romancistas realistas e naturalistas. Seus poetas
denominação genérica da escola literária, que estavam à margem das grandes transformações do
abriga três tendências distintas: ―romance realista‖, final do século XIX e início do circulo XX.
―romance naturalista‖ e ―poesia parnasiana‖.
Culto à forma – A nova estética se manifesta a partir
O romance realista foi exaustivamente do final da década de 1870, prolongando-se até a
cultivado no Brasil por Machado de Asses. Trata-se Semana de Arte Moderna. Em alguns casos chegou
de uma narrativa mais preocupada com a análise a ultrapassar o ano de 1922 (não considerando, é
psicológica, fazendo a crítica à sociedade a partir claro, o neoparnasianismo). Objetividade temática e
culto da forma: eis a receita. A forma fixa
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
representada pelos sonetos; a métrica dos versos privilegiando o sujeito. E isto é relevante pois a
alexandrinos perfeitos; a rima rica, rara e perfeita. principal característica desse estilo de época foi
Isto tudo como negação da poesia romântica dos justa-mente a negação do Realismo e suas
versos livres e brancos. Em suma, é o manifestações. A nova estética nega o cientificismo,
endeusamento da forma. o materialismo e o racionalismo. E valoriza as
manifestações metafísicas e espirituais, ou seja, o
extremo oposto do Naturalismo e do Parnasianismo.

“Dante Negro” – Impossível referir-se ao


Simbolismo sem reverenciar seus dois grandes
O Simbolismo expoentes: Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimarães.
Aliás, não seria exagero afirmar que ambos foram o
É comum, entre críticos e historiadores, próprio Simbolismo. Especialmente o primeiro,
afirmar-se que o Brasil não teve momento típico chamado, então, de ―cisne negro‖ ou ―Dante negro‖.
para o Simbolismo, sendo essa escola literária a Figura mais importante do Simbolismo brasileiro, sem
mais européia, dentre as que contaram com ele, dizem os especialistas, não haveria essa estética
seguidores nacionais, no confronto com as demais. no Brasil. Como poenta, teve apenas um volume
Por isso, foi chamada de ―produto de importação‖. publicado em vida: ―Broqueis‖ (os dois outros
O Simbolismo no Brasil começa em 1893 com a volumes de poesia são póstumos). Teve uma carreira
publicação de dois livros: ―Missal‖ (prosa) e muito rápida, apesar de ser considerado um dos
―Broqueis‖ (poesia), ambos do poeta catarinense maiores nomes do Simbolismo universal. Sua obra
Cruz e Sousa, e estende-se até 1922, quando se apresenta uma evolução importante: na medida em
realizou a Semana de Arte Moderna. que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais,
avança para posições mais universalizastes – sua
O início do Simbolismo não pode ser
produção inicial fala da dor e do sofrimento do
entendido como o fim da escola anterior, o
homem negro (observações pessoais, pois era filho
Realismo, pois no final do século XIX e início do
de escravos), mas evolui para o sofrimento e a
século XX tem-se três tendências que caminham
angústia do ser humano.
paralelas: Realismo, Simbolismo e pré-Modernismo,
com o aparecimento de alguns autores Já Alphonsus de Guimarães preferiu manter-
preocupados em denunciar a realidade brasileira, se fiel a um ―triângulo‖ que caracterizou toda a sua
entre eles Euclides da Cunha, Lima Barreto e obra: misticismo, amor e morte. A crítica o considera
Monteiro Lobato. Foi a Semana de Arte Moderna o mais místico poeta de nossa literatura. O amor pela
que pôs fim a todas as estéticas anteriores e traçou, noiva, morta às vésperas do casamento, e sua
de forma definitiva, novos rumos para a literatura do profunda religiosidade e devoção por Nossa Senhora
Brasil. geraram, e não poderia ser deferente, um misticismo
que beirava o exagero. Um exemplo é o ―Centenário
Transição – O Simbolismo, em termos genéricos,
das dores de Nossa Senhora‖, em que ele atesta sua
reflete um momento histórico extremamente
devoção pela Virgem. A morte aparece em sua obra
complexo, que marcaria a transição para o século
como um único meio de atingir a sublimação e se
XX e a definição de um novo mundo, consolidado a
aproximar de Constança – a noiva morta – e da
partir da segunda década deste século. As últimas
Virgem. Daí o amor aparecer sempre espiritualizado.
manifestações simbolistas e as primeiras produções
A própria decisão de se isolar na cidade mineira de
modernistas são contemporâneas da primeira
Mariana, que ele próprio considerou sua ―torre de
Guerra Mundial e da Revolução Russa.
marfim‖, é uma postura simbolista.
Neste contexto de conflitos e insatisfações
O Pré-Modernismo
mundiais (que motivou o surgimento do
Simbolismo), era natural que se imaginasse a falta O que se convencionou chamar de pré-
de motivos para o Brasil desenvolver uma escola de Modernismo no Brasil não constitui uma escola
época como essa. Mas é interessante notar que as literária. Pré-Modernismo é, na verdade, um termo
origens do Simbolismo brasileiro se deram em uma genérico que designa toda uma vasta produção
região marginalizada pela elite cultural e política: o literária, que caracteriza os primeiros vinte anos
Sul – a que mais sofreu com a oposição à recém- deste século. Nele é que se encontram as mais
nascida República, ainda impregnada de conceitos, variadas tendências e estilos literários – desde os
teorias e práticas militares. A República de então poetas parnasianos e simbolistas, que continuavam a
não era a que se desejava. E o Rio Grande do Sul, produzir, até os escritores que começavam a
onde a insatisfação foi mais intensa, transfor-mou- desenvolver um novo regionalismo, alguns
se em palco de lutas sangrentas iniciadas em 1893, preocupados com uma literatura política, e outros
o mesmo ano do início do Simbolismo. com propostas realmente inovadoras. É grande a
lista dos auditores que pertenceram ao pré-
Esse ambiente provavelmente representou
Modernismo, mas, indiscutivelmente, merecem
a origem do Simbolismo, marcado por filtrações,
angústias, falta de perspectivas, rejeitando o fato e

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
destaque: Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graça era homogêneo. As principais cidades brasileiras, em
Aranha, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos. particular São Paulo, conheciam uma rápida
transformação como conseqüência do processo
Assim, pode-se dizer que essa escola industrial. A primeira Guerra Mundial foi a
começou em 1902, com a publicação de dois livros: responsável pelo primeiro surto de industrialização e
―Os sertões‖, de Euclides da Cunha, e ―Canaã‖, de conseqüente urbanização. O Brasil contava com
Graça Aranha, e se estende até o ano de 1922, 3.358 indústrias em 1907. Em 1920, esse número
com a realização da Semana de Arte Moderna. pulou para 13.336. Isso significou o surgimento de
uma burguesia industrial cada dia mais forte, mas
Apesar de o pré-Modernismo não constituir marginalizada pela política econômica do governo
uma escola literária, apresentando individualidades federal, voltada para a produção e exportação do
muito fortes, com estilos às vezes antagônicos – café.
como é o caso, por exemplo, de Euclides da Cunha
e Lima Barreto – percebe-se alguns pontos comuns Imigrantes – Ao lado disso, o número de imigrantes
entre as principais obras pré-modernistas: a) eram europeus crescia consideravelmente, especialmente
obras inovadoras, que apresentavam ruptura com o os italianos, distribuindo-se entre as zonas
passado, com o academicismo; b) primavam pela produtoras de café e as zonas urbanas, onde
denúncia da realidade brasileira, negando o Brasil estavam as indústrias. De 1903 a 1914, o Brasil
literário, herdado do Romantismo e do recebeu nada menos que 1,5 milhão de imigrantes.
Parnasianismo. O grande tema do pré-Modernismo Nos centros urbanos criou-se uma faixa considerável
é o Brasil não-oficial do sertão nordestino, dos de população espremida pelos barões do café e pela
caboclos interioranos, dos subúrbios; c) alta burguesia, de um lado, e pelo operariado, de
acentuavam o regionalismo, com o qual os autores outro. Surge a pequena burguesia, formada por
acabam montando um vasto painel brasileiro: o funcionários públicos, comerciantes, profissionais
Norte e o Nordeste nas obras de Euclides da liberais e militares, entre outros, criando uma massa
Cunha, o Vale do Rio Paraíba e o interior paulista politicamente ―barulhenta‖ e reivindicatória.
nos textos de Monteiro Lobato, o Espírito Santo,
retratado por Graça Aranha, ou o subúrbio carioca, A falta de homogeneidade no bloco urbano
temática quase que invariável na obra de Lima tem origem em alguns aspectos do comportamento
Barreto; d)difundiram os tipos humanos do operariado. Os imigrantes de origem européia
marginalizados, que tiveram ampliado o seu perfil, trazem suas experiências de luta de classes. Em
até então desconhecido, ou desprezado, quando geral esses trabalhadores eram anarquistas e suas
conhecido – o sertanejo nordestino, o caipira, os ações resultavam, quase sempre, em greves e
funcionários públicos, o mu-lato; e) traçaram uma tensões sociais de toda sorte, entre 1905 e 1917. Um
ligação entre os fatos políticos, econômicos e ano depois, quando ocorreu a Revolução Russa, os
sociais contemporâneos, aproximando a ficção da artigos na imprensa a esse respeito tornaram-se
realidade. cada vez mais comuns. O Partido Comunista seria
fundado em 1922. Desde então, ocorreria o declínio
Esses escritores acabaram produzindo uma da influência anarquista no movimento operário.
redescoberta do Brasil, mais próxima da realidade,
e pavimentaram o caminho para o período literário Desta forma, circulavam pela cidade de São Paulo,
seguinte, o Modernismo, iniciado em 1922, que numa mesma calçada, um barão do café, um
acentuou de vez a ruptura com o que até então se operário anarquista, um padre, um burguês, um
conhecia como literatura brasileira. nordestino, um professor, um negro, um comerciante,
um advogado, um militar, etc., formando, de fato,
A Semana de Arte Moderna uma ―paulicéia desvairada‖ (título de célebre obra de
Mário de Andrade). Esse desfile inusitado e variado
O Modernismo, como tendência literária, ou de tipos humanos serviu de palco ideal para a
estilo de época, teve seu prenuncio com a realização de um evento que mostrasse uma arte
realização da Semana de Arte Moderna no Teatro inovadora a romper com as velhas estruturas
Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de literárias vigentes no país.
fevereiro de 1922. Idealizada por um grupo de
artistas, a Semana pretendia colocar a cultura O Modernismo – (primeira fase)
brasileira a par das correntes de vanguarda do
pensamento europeu, ao mesmo tempo que O período de 1922 a 1930 é o mais radical do
pregava a tomada de consciência da realidade movimento modernista, justamente em conseqüência
brasileira. da necessidade de definições e do rompimento de
todas as estruturas do passado. Daí o caráter
O Movimento não deve ser visto apenas do anárquico desta primeira fase modernista e seu forte
ponto de vista artístico, como recomendam os sentido destruidor.
historiadores e críticos especializados em história
da literatura brasileira, mas também como um Ao mesmo tempo em que se procura o
movimento político e social. O país estava dividido moderno, o original e o polêmico, o nacionalismo se
entre o rural e o urbano. Mas o bloco urbano não manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
origens, à pesquisa das fontes quinhentistas, à terra‖, no dizer de José Lins do Rego, o regionalismo
procura de uma língua brasileira (a língua falada ganha uma importância até então não alcançada na
pelo povo nas ruas), às paródias, numa tentativa de literatura brasileira, levando ao extremo as relações
repensar a história e a literatura brasileiras, e à do personagem com o meio natural e social.
valorização do índio verdadeiramente brasileiro. É o Destaque especial merecem os escritores
tempo dos manifestos nacionalistas do ―Pau-Brasil‖ nordestinos que vivenciam a passagem de um
(o Manifesto do Pau-Brasil, escrito por Oswald de Nordeste medieval para uma nova realidade
Andrade em 1924, propõe uma literatura capitalista e imperialista. E nesse aspecto, o baiano
extremamente vinculada à realidade brasileira) e da Jorge Amado é um dos melhores representantes do
―Antropofagia‖(01) dentro da linha comandada por romance brasileiro, quando retrata o drama da
Oswald de Andrade. Mas havia também os economia cacaueira, desde a conquista e uso da
manifestos do Verde-Amarelismo e o do Grupo da terra até a passagem de seus produtos para as mãos
Anta, que trazem a semente do nacionalismo dos exportadores. Mas também não se pode
fascista comandado por Plínio Salgado. esquecer de José Lins do Rego, com as suas regiões
de cana, os bangüês e os engenhos sendo
No final da década de 20, a postura devorados pelas modernas usinas.
nacionalista apresenta duas vertentes distintas: de
um lado, um nacionalismo crítico, consciente, de O primeiro romance representativo do
denúncia da realidade brasileira e identificado regionalismo nordestino, que teve seu ponto de
politicamente com as esquerdas; de outro, o partida no Manifesto Regionalista de 1926 (este
nacionalismo ufanista, utópico, exagerado, manifesto, elaborado pelo Centro Regionalista do
identificado com as correntes políticas de extrema Nordeste, procura desenvolver o sentimento de
direita. unidade do Nordeste dentro dos novos valores
modernistas. Propõe trabalhar em prol dos interesses
Entre os principais nomes dessa primeira da região nos seus aspectos diversos – sociais,
fase do Modernismo, que continuariam a produzir econômicos e Culturais) foi ―A bagaceira‖, de José
nas décadas seguintes, destacam-se Mário de Américo de Almeida, publicado em 1928. Verdadeiro
Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, marco na estória literária do Brasil, sua importância
Antônio de Alcântara Machado, além de Menotti Del deve-se mais à temática (a seca, os retirantes, o
Chia, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida e engenho), e ao caráter social do romance, do que
Plínio Salgado. aos valores estéticos.

O Modernismo – (segunda fase) Pós-Modernismo

O período de 1930 a 1945 registrou a O Pós-Modernismo se insere no contexto dos


estréia de alguns dos nomes mais significativos do extraordinários fenômenos sociais e políticos de
romance brasileiro. Refletindo o mesmo momento 1945. Foi o ano que assistiu o fim da Segunda
histórico(02) e apresentando as mesmas Guerra Mundial e o início da Era Atômica com as
preocupações dos poetas da década de 30 (Murilo explosões de Hiroshima e Nagasaki. O mundo passa
Mendes, Jorge de Lima, Carlos Drummond de a acreditar numa paz duradoura. Cria-se a
Andrade, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes), a Organização das Nações Unidas (ONU) e, em
segunda fase do Modernismo apresenta autores seguida, publica-se a Declaração dos Direitos do
como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel Homem. Mas, logo depois, inicia-se a Guerra Fria.
de Queiroz, Jorge Amado e Érico Veríssimo, que
produzem uma literatura de caráter mais Paralelamente a tudo isso, o Brasil vive o fim
construtivo, de maturidade, aproveitando as da ditadura de Getúlio Vargas. O país inicia um
conquistas da geração de 1922 e sua prosa processo de redemocratização. Convoca-se uma
inovadora. eleição geral e os partidos são legalizados. Apesar
disso, abre-se um novo tempo de perseguições
Efeitos da crise – Na década de 30, o país políticas, ilegalidades e exílios.
passava por grandes transformações, fortemente
marcadas pela revolução de 30 e pelo A literatura brasileira também passa por
questionamento das oligarquias tradicionais. Não profundas alterações, com algumas manifestações
havia como não sentir os efeitos da crise representando muitos passos adiante; outras, um
econômica mundial, os choques ideológicos que retrocesso. O jornal ―O Tempo‖, excelente crítico
levavam a posições mais definidas e engajadas. literário, encarrega-se de fazer a seleção.
Tudo isso, formou um campo propício ao
desenvolvimento de um romance caracterizado pela Intimismo – A prosa, tanto nos romances como nos
denúncia social, verdadeiro documento da realidade contos, aprofunda a tendência já trilhada por alguns
brasileira, atingindo um elevado grau de tensão nas autores da década de 30 em busca de uma literatura
relações do indivíduo com o mundo. intimista, de sondagem psicológica, introspectiva,
com destaque para Clarice Lispector.
Nessa busca do homem brasileiro
―espalhado nos mais distantes recantos de nossa
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Ao mesmo tempo, o regionalismo adquire A função dos trovadores nas cortes
uma nova dimensão com a produção fantástica de medievais era compor músicas como estampidos,
João Guimarães Rosa e sua recriação dos bailias e cantigas para as cerimônias, festividades,
costumes e da fala sertaneja, penetrando fundo na núpcias e banquetes.
psicologia do jagunço do Brasil Central.
Executar a música (tocar e cantar) era função
Na poesia, ganha corpo, a partir de 1945, de grupos de artistas liderados por menestréis,
uma geração de poetas que se opõe às conquistas segréis (músicos) e jograis (cantores), compostos
e inovações dos modernistas de 1922. A nova por homens e mulheres pagos para esse trabalho.
proposta foi defendida, inicialmente, pela revista
―Orfeu‖, cujo primeiro número é lançado na
―Primavera de 1947‖ e que afirma, entre outras
coisas, que ―uma geração só começa a existir no
dia em que não acredita nos que a precederam, e
só existe realmente no dia em que deixam de
acreditar nela.‖

Essa geração de escritores negou a


liberdade formal, as ironias, as sátiras e outras
―brincadeiras‖ modernistas. Os poetas de 45 partem
para uma poesia mais equilibrada e séria, distante
do que eles chamavam de ―primarismo
desabonador‖ de Mário de Andrade e Oswald de
Andrade. A preocupação primordial era quanto ao
restabelecimento da forma artística e bela; os
modelos voltam a ser os mestres do Parnasianismo
e do Simbolismo. Dois trovadores executando seus instrumentos
musicais: o arrabil (à esquerda) e o alaúde.
Esse grupo, chamado de Geração de 45, Os grupos musicais podiam ser fixos numa corte ou
era formado, entre outros poetas, por Lêdo Ivo, itinerantes (viajando de uma corte a outra). Ocorria,
Péricles Eugênio da Silva Ramos, Geir Campos e bem menos frequentemente, que o próprio trovador
Darcy Damasceno. O final dos anos 40, no entanto, tomasse parte nas funções como músico ou cantor.
revelou um dos mais importantes poetas da nossa
literatura, não filiado esteticamente a qualquer Para ter acesso livre à vida na corte, o trovador
grupo e aprofundador das experiências modernistas também precisava de ser nobre, em geral um nobre
anteriores: ninguém menos que João Cabral de de baixa linhagem — filho bastardo ou vassalo
Melo Neto. empobrecido ou desertor de lutas e batalhas.

Com o transcorrer da Idade Média, foram surgindo


trovadores de altas linhagens da nobreza — como os
reis D. Sancho (século XII), D. Afonso X (século XIII)
Trovadorismo e D. Dinis (séculos XIII-XIV) —, o que prova o
prestígio e a influência da arte trovadoresca nas
cortes ibéricas.
O trovadorismo surgiu provavelmente
entre os séculos X e XI e floresceu na península Prova também desse prestígio é o fato de que muitos
músicos foram ganhando espaço nas cortes como
Ibérica do século XII ao século XIV. trovadores — caso do jogral João Zorro (século XIII)
Os trovadores eram compositores de e do segrel Martim Codax (séculos XIII-XIV).
cantigas (amorosas, religiosas ou satíricas) e eram
Eram três os tipos de cantigas, ou cantares:
muito respeitados na Idade Média, porque deles
provinha a música que servia para acompanhar as Cantigas lírico-amorosas;
festividades ou as reuniões solenes das cortes,
assim como os banquetes ou as núpcias. Do Cantigas satíricas;
trovadorismo português poucas notações musicais
(partituras) sobreviveram até nós: o que temos na Cantigas religiosas.
maioria são apenas as letras das cantigas
coletadas em grandes livros manuscritos e
CANTIGAS LÍRICO-AMOROSAS
ilustrados, chamados Cancioneiros. Chegaram até
nós apenas três cancioneiros: Cancioneiro da Eram de dois tipos, bem distintos: de amor e de
Ajuda, Cancioneiro da Vaticana e Cancioneiro amigo.
da Biblioteca Nacional. São aproximadamente
1680 cantigas de 153 trovadores.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
CANTIGAS DE AMOR Se eu pudesse desamar
a quen me sempre desamou,
Refletiam sentimentos de um eu-lírico masculino, e pudess‘algum mal buscar
que reclama de sua coita (sofrimento por um amor a quen me sempre mal buscou!
rejeitado). A mulher que o faz sofrer é retratada Assi me vingaria eu,
sempre como superior, ingrata, cruel até, se eu pudesse coita dar
impiedosa. Mas, mesmo assim, o tratamento que a quen me sempre coita deu.
dispensa a ela é respeitoso, na justa medida do
amor cortês: não divulga o nome da amada, nem Mais non poss‘eu enganar
se excede na exposição emocional. Essa amada é meu coraçon, que m‘enganou,
chamada apenas de ―senhor‖ ou ―dona‖ – no por quanto me fez desejar
galego-português, língua falada na época, não a quen me nunca desejou.
havia ainda a distinção de gênero em E por esto non dórmio eu,
senhor/senhora; a pronúncia, aliás, era a mesma se eu pudesse coita dar
para o masculino e para o feminino (―o senhor‖, ―a a quen me sempre coita deu.
senhor‖).
Pero da Ponte, Portugal, (século XIII)
As cantigas de amor têm como modelo as cantigas
provençais. As cortes de Provença, na França, Vocabulário:
eram um rico posto de passagem de caravanas de coita: sofrimento de amor
comércio e de peregrinação religiosa a Roma ou à desemparar: desamparar
Terra Santa. A moda trovadoresca parece ter sido dórmio: durmo
criada em Provença e difundida a outras partes
pelos viajantes.
CANTIGAS DE AMIGO
Nos cantares de amor, por conta do sentimento Expondo o sentimento amoroso de um eu-lírico
platônico do compositor e do traçado idealizante feminino, as cantigas de amigo mostram uma moça
da mulher amada, percebemos uma linguagem do povo que revela suas saudades do amado
mais refinada, com influências provençais no ausente. Aqui, emprega-se a palavra ―amado‖ com
vocabulário. Todavia, essa linguagem não se frequência, pois a intimidade amorosa existe de fato,
distinguia muito do falar geral galego-português. Na não há idealizações. O que ocorre é que o amado
Idade Média, a linguagem da corte e a do povo está distante — a trabalho ou em luta ou no mar.
eram muito próximas: a oralidade imperava mesmo Muitas vezes, esse amado era um homem da corte,
entre os nobres. Não nos esqueçamos de que a que buscava experiência sexual com moças menos
leitura e a escrita eram restritas em geral à nobreza ―difíceis‖ que as vigiadas donzelas da nobreza. Não
real e a altos cargos religiosos. devemos estranhar o termo ―amigo‖. Na época, ele
era sinônimo de ―amante‖ ou ―namorado‖, quando
A situação de vítima do amor em que se coloca o
aplicado à relação entre homem e mulher. Resquício
trovador e o respeito servil à mulher amada refletem
desse significado temos hoje na expressão popular
o contexto das relações suserano-vassalo próprias
―amigados‖, que se refere a um casal que vive junto
das cortes medievais. É o que chamamos de
sem confirmação legal ou religiosa.
vassalagem amorosa.
Numa linguagem bem simples e repetitiva, com
A dualidade com que é apresentada a figura
elementos próprios do universo popular ibérico, com
feminina nas cantigas de amor reflete uma
versos curtos e refrãos fáceis de memorizar, a moça
dualidade típica da época. Por um lado, a mulher é
saudosa conversa com a mãe, com as irmãs, com as
vista como um ser estranho, cruel, próximo do
amigas, com o mar, com os seres da natureza, com
sobrenatural, do demoníaco — a bruxa: afinal, ela
Deus, e vai com eles compartilhando seus anseios de
expele sangue, dá à luz, muda de humor
rever o namorado. É de se notar a ausência de
facilmente… Por outro lado, a mulher traz
interlocutores masculinos — o que revela a
parentesco com o divino: sua figura maternal,
itinerância dos homens do povo, na época, por conta
sensível, aproxima-se da imagem de Nossa
das obrigações militares, de trabalho em outras terras
Senhora. Essa imagem santa da mulher foi
ou no mar.
disseminada pela Igreja Católica e assimilada pelos
códigos do amor cortês. Embora o eu-lírico seja feminino, o autor das
cantigas de amigo é o trovador. Em geral, quem
Temo-nos referido à figura feminina como ―amada‖,
cantava essas cantigas eram homens mesmo, e
mas não devemos esquecer que um trovador
também as jogralesas (esposas dos jograis) e as
jamais empregaria essa palavra. Na época,
soldadeiras (cantoras-dançarinas). Não há notícia de
―amada‖ era a pessoa com quem já se tinha travado
que tenha havido trovadoras em Portugal, como
um contato mais íntimo (a amante), fato que o
houve em Provença (a Condessa de Die, que viveu
trovador não podia de modo algum mencionar,
no século XII).
segundo os códigos do amor cortês.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Ondas do mar de Vigo (sabede-o por verdade):
Se vistes meu amigo sol que viu os genetes,
E ai Deus se verra cedo. come can que sal de grade,
sacudiu-s‘e revolveu-se,
Ondas do mar levado alçou rab‘e foi sa via
Se vistes meu amado a Portugal.
E ai Deus se verra cedo.
D. Afonso Mendes de Besteiros (século XIII)
Se vistes meu amigo
O por que eu sospiro Vocabulário:
E ai Deus se verra cedo. Foão: fulano (embora não mencione o nome, os
ouvintes certamente sabiam de quem se tratava a
Se vistes meu amado cantiga, por conta do gesto de covardia relatada nela;
O por que ei gran cuidado trata-se de João Pires de Vasconcelos, que ficou
E ai Deus se verra cedo. famoso na corte por fugir do campo de batalha, na
guerra de Granada)
Martim Codax (século XIII-XVI) preço de livão: reputação de pessoa leviana
soõ certão: estou certo
Vocabulário: sol: assim que
Vigo: cidade litorânea da Galícia, destino de genetes: ginetes, cavalos
peregrinações religiosas come boi que fer tarvão: como boi que vespa ferra
verrá: voltará, virá (como boi ferrado por vespa)
levado: agitado alçou rab‟e foi sa via: levantou o rabo e foi embora
o por que: aquele por quem tenreiro: novo (apelido de João Pires de
ei cuidado: por quem tenho carinho, atenção Vasconcelos)
prez de liveldade: mérito de ligeireza
CANTIGAS SATÍRICAS cam que sai de grade: cão que sai da gaiola

Eram cantigas para situações mais descontraídas.


Propunham ridicularizar os costumes sociais e as CANTIGAS DE ESCÁRNIO
pessoas mal-queridas das cortes a que o trovador Faziam crítica indireta, irônica, sugestiva. Nem se
servia. Eram de maldizer e de escárnio. revelava o nome do criticado, nem se deixava clara a
crítica. Como eram criadas para provocar suspense
CANTIGAS DE MALDIZER entre os ouvintes, essas cantigas prendiam-se
bastante a situações cotidianas específicas de uma
Faziam crítica direta, muitas vezes mencionando o corte, o que dificulta para os leitores atuais detectar
nome da pessoa criticada ou alguma característica qual a real intenção do escárnio.
muito evidente e conhecida dela. Por vezes,
grosseiras, essas cantigas empregavam até Veja uma cantiga de Pero Garcia Burgalês (século
palavrões e insultos. XIII) em uma linguagem mais próxima de nós:

Don Foão, que eu sei Embora não me queirais, donzela,


que á preço de livão, já que vos amo, vou dar-vos um conselho;
vedes que fez ena guerra como vós não sabeis vos entoucar,
(d‘aquesto soõ certão): fazei quanto vos direi:
sol que viu os genetes, buscai quem vos entouque melhor
come boi que fer tarvão, e vos corrija, pelo meu amor,
sacudiu-s‘e revolveu-se, as formas do corpo e o cós que tendes.
alçou rafe foi sa via E se isso fizerdes, tereis,
a Portugal. assim me valha Nosso Senhor,
beleza e um corpo elegante, e sereis
Don Foão, que eu sei muito formosa e de boa cor;
que á preço de ligeiro, se cada vez que essa touca torcer
vedes que fez ena guerra e cada vez que tiverdes quem vos corrija,
(d‘aquesto son verdadeiro): então serás muito bela.
sol que viu os genetes, Ai, minha senhora, por Deus em que credes,
come bezerro tenreiro, já que a outro ser não ouso pedir por vós;
sacudiu-s‘e revolveu-se, como sempre trazeis a touca mal posta,
alçou rab‘e foisa via crede no que vou aconselhar:
a Portugal. em vez de alguém a corrigir por vós,
que essa pessoa corrija as formas de vosso corpo
Don Foão, que eu sei e a maneira como falais, e se não, nem faleis.
que á prez de liveldade,
vedes que fez ena guerra
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Observe que na cantiga acima o trovador chama a 2. Os Fundamentos do Humanismo
atenção de uma donzela sobre o mau-gosto que ela
tem em se ―entoucar‖, que quer dizer ―pentear-se‖. O humanismo fundamentou-se inicialmente na
Porém, ―entoucar‖ também podia significar ―colocar herança medieval, mesmo contrapondo-se ao
touca [de dormir]‖. Ficamos, então, em dúvida: será sistema existente. Assim, através dos tempos, a
que o trovador não estaria satirizando uma Sagrada Escritura forneceu aos homens uma
mulher—ironicamente chamada de ―donzela‖ cosmologia, uma história, uma moral e uma
— com a qual ele dormiu? Veja a insistência em finalidade existencial, enquanto a Idade Média
relação aos dotes físicos dela, que precisam ser edificara uma filosofia de início submissa à teologia,
―corrigidos‖, melhorados, assim como sua fala mas tendendo progressivamente a explicar sobretudo
— ao final, ele pede que a moça corrija a fala ou os pontos em que a Bíblia não mais satisfazia a
então que se cale! curiosidade do espírito humano. Criou-se então uma
ciência que permitiu ao homem compreender o
mundo para tentar dominá-lo.
CANTIGAS RELIGIOSAS
A filosofia e a
As cantigas de temática religiosa eram de cunho ciência baseavam-
devocional (exaltação à imagem de um santo) ou se em Aristóteles,
hagiografico (narrativas dos feitos milagrosos de um conhecido
santo). O alvo mais freqüente dos cantares integralmente a
trovadorescos religiosos era Santa Maria, a mãe de partir do século
Cristo. XIII, por intermédio
de tradutores e
comentadores
árabes e judeus.
Através de tradu-
Humanismo ções, conheceu-se
uma lógica, um
modo racional, uma
O século XVI, econômica e politicamente,
concepção do
caracterizou-se por seu aspecto revolucionário,
conhecimento e um
cujos reflexos se expandiram no pensamento e na
corpo científico.
estética. Em consequência, surgiu uma nova visão
do homem. A exaltação do valor humano, como Tomás de Aquino,
meio e finalidade, fundamentou o chamado frente a um
Humanismo Renascentista, que perseguida o pensamento tão completo e totalmente estranho ao
ideal de reviver a Antigüidade clássica, considerada cristianismo, introduziu uma solução global,
um modelo uniforme. proclamando a unidade profunda da verdade através
Embora os humanistas julgassem os séculos que do acordo da fé com a razão. Contudo, no fim do
os precederam obscuros e bárbaros, é necessário século XV, apenas alguns pensadores defendiam o
lembrar que o humanismo percorreu caminhos tomismo, pois o nominaIismo de Guilherme
inovadores e fecundos, calcados no passado D‘Occam (1280-1349) passara a dominar os
medieval. Portanto a revolução espiritual e artística ensinamentos universitários. Para D‘Occam, as
do século XVI apoiou-se, sem dúvida, em verdades da fé não comportavam uma análise
realizações anteriores. racional, enquanto a razão, a partir das aparências
sensíveis, podia elaborar uma ciência puramente
1. O Humanismo experimental, que nada devia à Escritura. Esse
conhecimento individualizava os conceitos que os
Fala-se em humanismo sempre que o valor homens usavam para designar as espécies.
fundamental de uma doutrina é a pessoa humana, o
sentimento, a originalidade e a superioridade do Esse divórcio entre a fé e a razão trouxe inúmeras
homem sobre as forças obscuras da natureza. consequências nos domínios religioso, filosófico e
científico, configurando a crise do pensamento
Essa palavra, entretanto, possuí uma conotação medieval, a qual explica a hostilidade dos humanistas
histórica, localizada no tempo e no espaço: designa à Escolástica e o sucesso dos novos pensamentos.
um movimento estético, filosófico e religioso que,
preparado pelas correntes do pensamento A fonte mais viva do humanismo talvez seja a
medieval, surgiu na Itália no século XV e difundiu- redescoberta da Antiguidade. Embora a Idade Média
se através da Europa no século XVI, não ignorasse tal período, via-o de modo truncado e
caracterizando-se por um esforço em avaliar o deformado. Truncado, porque não conhecia a maior
homem em sua essência, propondo uma arte de parte da literatura grega, senão através das análises
vida em que ele se perpetuasse. latinas (por exemplo, Homero, através de Virgílio, ou
os estóicos, através de Cícero). Deformado, por

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
aquelas obras satisfazerem apenas politicamente 4. A Difusão do Pensamento Humanista
as instituições do Estado Romano.
As idéias humanistas, apesar das fronteiras e dos
conflitos europeus, propagaram-se e, se não
3. A Filosofia Humanista atingiram profundamente grande parte dos homens,
difundiram-se pela elite intelectual.
Com a revelação da filosofia de Platão, avaliaram-
se novamente as doutrinas de Aristóteles. Averróis A imprensa adquiriu um papel importante nesse
(1126-1189) propôs uma nova interpretação de sentido. A fundação da oficina de Gutemberg, em
Aristóteles: a separação total da filosofia e da fé. 1348, e a invenção de tipos móveis criaram as
Em Pádua, Pietro Pompanazzi (1462-1525) técnicas necessárias à impressão. Os manuscritos
fundamentou a doutrina filosófica naturalista. Outros dos primeiros livros humanistas foram largamente
pensadores da Pádua continuaram seus difundidos. Nos séculos XV e XVI, multiplicaram-se
ensinamentos, que introduziram no universo um consideravelmente os centros impressores na
estrito determinismo, não cedendo lugar à Europa, gerando a maior circulação de obras antigas
intervenção divina. O averroísmo paduano foi e contemporâneas, que se tornaram veículos
bastante importante durante todo o século, fundamentais das idéias humanistas. Ainda se deve
influenciando desde Rabelais a Copérnico. considerar a importância das relações permanentes
Entretanto a verdadeira filosofia humanista, feitas através das viagens e das correspondências,
impregnada pelo pensamento de Platão, como a de Erasmo na Itália e na Inglaterra.
consolidou-se com Marsilo Ficino (1433-1499),
protegido por mecenas como Cosme e Lourenço, o
5. As Propostas Humanistas
Magnífico. Ficino escreveu a Teologia Platônica, em
que criou uma ontologia para o neoplatonismo: O humanismo propôs uma estética em que a
―Deus é o ser de que emanam todos os outros contemplação da beleza era o meio superior do
seres, hierarquizados segundo suas ordens de conhecimento real. Este, belo, harmonioso e
pureza. As almas austrais e anjos são puras equilibrado, aproximava-se do divino. De todas as
criaturas celestiais, imortais e perfeitas, que belezas naturais, o belo humano era o elemento mais
asseguram a marcha que compõe o universo próximo do ideal estético. Estudando o corpo
incorruptível. Em contraposição, encontra-se o humano, imagem reduzida do mundo e imagem de
universo material, composto por criaturas e idéias Deus, descrevendo os sentimentos e as paixões
próximas de Deus, que necessitam de formas humanas, o artista dava o melhor de seus sentidos,
sensíveis para existir, mas estas formas não são considerando as obras da antiguidade incompa-
mais que traduções imperfeitas e corruptíveis dos ráveis modelos. Essa postura permitiu à arte traduzir
arquétipos divinos‖. os grandes mitos que simbolizavam o destino
humano, fosse profano ou santo.
Em síntese, no centro do cosmos, o homem era
alma imortal, imagem de Deus, criatura privilegiada No início, o humanismo voltava-se mais para a
entre todas, embora sendo material. Sua vocação literatura; posteriormente passou a influenciar as
para o conhecimento ultrapassava o mundo das artes figurativas. A arquitetura traduziu a ordem
aparências sensíveis e atingia as idéias, que lhe natural, a harmonia das ―divinas proporções‖ e o
permitiam alcançar Deus. equilíbrio das massas. A escultura imortalizou o
corpo humano, na sua nudez. Mas foi a pintura, ocu-
Porém o homem podia assemelhar-se a Deus, pando destacada posição, que recriou a natureza,
primeiramente, e depois identificar-se com ele, se pois, ao retratar o homem numa infinidade de
Deus o quisesse, pela criação. O homem era, como situações e sentimentos, fixou os grandes momentos
Deus, um artista universal. O ―homem viu bem a da humanidade. Toda a Renascença estruturou-se
ordem dos céus, a origem dos seus movimentos, no idealismo estético.
sua progressão, sua distância e sua ação. Quem
poderia, portanto, negar que ele possui o próprio Tendo revolucionado os antigos conceitos, o
gênio do criador e que seria capaz de moldar os humanismo propôs ainda as bases de um novo
céus, se tivesse os instrumentos e a matéria método científico que estimulou o progresso do
celeste? O homem é o Deus de todos os seres conhecimento. Em conseqüência das influências de
materiais que ele trata, modifica e transforma‖. Pitágoras, Nicolau Cues (1401-1464) lançou a base
(MOUSNIER, Roland. História Geral das do conhecimento matemático, e Leonardo da Vinci,
Civilizações. São Paulo, Difel, v. 9, p. 22) um século antes de Galileu, constatou que ―O
universo esconde em suas aparências uma espécie
Essa filosofia, profundamente idealista, baseada na de matemática real‖. A geometria enriqueceu-se com
procura do divino, caracterizou o pensamento dos a trigonometria, já que as exigências do comércio
humanistas italianos no fim do século XV e início do provocaram uma alteração nos métodos de cálculo. A
século XVI. álgebra progrediu igualmente.
Graças aos progressos matemáticos, a astronomia
renovou-se. O movimento dos astros contestou o

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
geocentrismo, afirmado por Ptolomeu e pela políticas medievais, ele estabeleceu o pricípio da
Escritura. Nicolau Copérnico (1473-1543), baseado autoridade, de sua aquisição e conservação,
em antigos astrônomos, elaborou a revolucionária propondo a noção de poder legítimo: ―O poder deve
teoria do heliocentrismo, proposta em sua obra ser tomado pela força, criado pelo direito. Para
Revolução na Órbita Celeste. ―Em torno do Sol, guardar o seu trono, o príncipe deve criar barreiras,
centro do universo, giram as esferas celestes, entre inspirar a estabilidade, eliminar seus inimigos
as quais a Terra‖. potenciais e sacrificar aqueles que se tornam in-
A física ainda estava submetida aos conceitos de submissos. A razão do Estado é o único motor da
Aristóteles. Contudo vários trabalhos, entre os quais ação política‖. (M0USN1ER, Roland. A História Geral
das Civilizações. v. 9, p. 49). Aqui a ética da
os de Leonardo da Vinci, formalizaram o
liberdade individual proposta pelo humanismo
conhecimento das soluções dos problemas de
termina em alienação coletiva.
força, balística e dinâmica dos fluidos, sem
entretanto, configurarem uma teoria.
Assim, além de o humanismo construir para o
homem o ideal do belo, deu-lhe regras para a vida,
Esses conhecimentos, que enriqueceram o corpo
meios para dominar o cosmos e ainda estruturou
científico, ligam-se intimamente ao grande século
das ciências (XVII), em que se destacaram Galileu uma teologia. Os humanistas estudaram os
e Descartes. manuscritos, compararam-nos e criticaram-nos,
retornando ao grego e ao hebreu, para organizar
Portanto, se a arte foi o meio de se conhecerem os novas versões dos santos textos e novas traduções.
mistérios da natureza, a ciência tornou-se seu
instrumento. Os humanistas abordaram ainda os mistérios divinos
sobre a Trindade e a encarnação, indiferentes às
formas dogmáticas. Erasmo, Rabelais e More
6. A Ética propuseram que apenas alguns dos dogmas contidos
na Escritura bastariam à religião. O resto a
O homem, por ser o centro da reflexão humanista, construção humana dominava.
elaborou uma ética individual e social.
Todos esses pensadores consideraram a Igreja uma
A moral humanista individual repousava sobre o instituição aceita por Deus para ajudar os homens na
otimisto: criatura priviliegiada, o homem era salvação, servindo-lhes como exemplo e nunca como
naturalmente bom e estava próximo ao plano punição. Além disso, rejeitaram as supertições, as
divino. Embora essa doutrina se chocasse com a do obrigações tradicionais, aceitando apenas o papel
pecado original, afirmava que a razão humana, Ins- moralista da Igreja, fundado sobre a fé nas
truída pela filosofia e sustentada pela graça divina, mensagens do Evagelho
possibilitava a todos a ordem da harmonia da
natureza. Assim, a moral individual era o respeito
do homem por si mesmo e sua obediência às
aspirações naturais e boas que descobria em seu
interior.

No plano coletivo e social, essa moral individual CLASSICISMO


preservava a liberdade e tudo aquilo que permitisse
ao homem uma escolha racional do bem. Erasmo e
Rabelais, nos seus escritos políticos, elaboraram a Classicismo é a doutrina estética que dá
maneira de governar segundo esta concepção: ―O ênfase à ordem, ao equilíbrio e à simplicidade. Os
bom príncipe deve se valer do bem comum, deve antigos gregos foram os primeiros grandes clássicos.
respeitar os direitos de cada um, deve fazer reinar a Posteriormente, os romanos, os franceses, os
paz, renunciar às conquistas ambiciosas, lutar inglesese e outros povos produziram movimentos
contra o luxo e proteger os pobres‖. clássicos. Cada grupo desenvolveu suas próprias
características particulares, mas todos refletiam
Thomas More foi mais longe ao descrever, em sua idéias comuns sobre a arte, o homem, o mundo.
obra Utopia (1516), uma sociedade ideal.
Condenando o absolutismo, por reduzir a liberdade O Classicismo confere maior importância às
natural dos homens, os privilégios, por estimularem faculdades intelectuais do que às emocionais na
o espírito de proveito, e o poder do dinheiro, criação da obra de arte, porque busca a expressão
concluiu: ―Onde a propriedade é um direito de valores universais acima dos particularismos
individual, todas as coisas se medem pelo dinheiro, individuais ou nacionais.Inspirando-se no modelo da
não se poderá jamais organizar a justiça e a Antiguidade clássica greco-romana e no
prosperidade social‖. Renascentismo italiano, estabeleceu princípios ou
normas, como a harmonia das proporções, a
O humanismo também inspirou o pensamento simplicidade e equilíbrio da composição e a
realista de Nicolau Maquiavel (1469-1527). Em sua idealização da realidade.recusa, portanto,a
obra O Príncipe (1513), contrariando teorias emotividade e exuberância decorativa do barroco.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Classicismo Portugal deu-se em 1527, com o regresso de Sá de
Miranda da Itália, trazendo uma valiosa bagagem
No período compreendido entre 1450 e doutrinária. Sua influência foi decisiva na produção e
1600 surgiu na Europa, principalmente na Itália, um promoção do novo gosto literário.
movimento chamado Renascimento, que foi o
responsável por uma radical transformação do
homem no que diz respeito à religião, à filosofia, ao I- Contexto Histórico
amor, à política, enfim, à maneira de encarar a vida.
No início do século XIV, inúmeros fatores
Foi em Florença, terra natal de Dante e conjugados e articulados criaram as condições para o
Giotto, que um grupo de artistas se dispôs a criar início da nova arte. No plano econômico, o
uma nova arte e a romper com as idéias do renascimento comercial reativou o intercâmbio
passado. Florença é considerada, portanto, o berço cultural entre o Ocidente e o Oriente. No plano social,
do Renascimento. O Renascimento tem três a urbanização gerou as condições de uma nova
significados que o definem: a antigüidade, a cultura, sendo as cidades o pólo de irradiação do
humanidade e a universalidade. Renascimento. A ascensão social e econômica da
burguesia propiciou apoio e financiamento ao
A antigüidade redescobriu as obras desenvolvimento cultural.
literárias, históricas e filosóficas da civilização
greco-romana, tendo o Renascimento traduzido, O aperfeiçoamento da imprensa por Gutenberg
restaurado e explicado grande parte de obras (Johann Gensfleish), teve especial importância no
literárias da Antigüidade Clássica. Mas afinal, século XVI, embora não seja considerado um fator
renascer o quê? Renascer o modo de pensar, o direto do Renascimento, pois seus efeitos só
modelo político, as formas estéticas, a mitologia, a começaram a ser efetivamente sentidos no último
maneira de viver. Renasceram as normas ditadas século do movimento renascentista.Em 1455, foi
por Aristóteles e Horácio; imitou-se Virgílio. Buscou- publicado o primeiro livro europeu impresso com
se o belo na nobreza, que ditava o conceito de tipos móveis.
beleza. Julgavam os renascentistas terem os
A obra, que era uma tradução latina da
gregos e romanos atingido o auge da civilização –
Bíblia, levou mais de dois anos para ficar pronta e
era importante restaurá-la. A humanidade valorizou
ficou conhecida como a Bíblia de Gutenberg, com
o homem, transformando-o em centro do universo.
uma tiragem de quase duzentos exemplares.Em
A estátua de David, de Michelangelo, não seria
Portugal, verificou-se o fim do monopólio do clero em
possível na Idade Média – gigantesco, musculoso e
relação à cultura. D. João II, que reinou de 1521 a
nu, retratando a grandeza do homem renascentista.
1557, criou a Universidade de Coimbra e o Colégio
A universalidade incorporou o mar entre os
das Artes, também em Coimbra, onde introduziu o
elementos medievais, que só conheciam a terra e o
ensino do latim, do grego, da matemática, da lógica e
céu. O Renascimento descobriu o mar e lhe deu
da filosofia.Os filhos dos burgueses começaram a
primazia. O homem renascentista desbravou os
freqüentar as universidades, tomando contato com
oceanos, lutou com as tempestades em alto-mar,
uma cultura desligada dos velhos conceitos
conquistou ―mares nunca dantes navegados‖ e
medievais. A nova realidade econômica gerada pela
voltou ao ponto de partida.
decadência do feudalismo e o fortalecimento da
O classicismo foi, no plano literário, o burguesia exigiram uma nova cultura, mais liberal,
retrato vivo da Renascença. Os escritores antropocêntrica e identificada com o mercantilismo.
clássicos do Renascimento seguiram de perto a
O momento histórico vivido pela dinastia de
literatura da Antigüidade, cujos modelos foram
Avis, com a centralização do poder, as Grandes
imitados ou adaptados à realidade da época. Como
Navegações e o comércio, foi propício aos novos
conseqüência, suas obras revelaram, na estrutura
conceitos veiculados na Itália.
formal, a rigidez das normas de composição de
acordo com os padrões consagrados pela tradição ―Os portugueses dos séculos XV e XVI
greco-latina. Em seu conteúdo, mostravam o provaram pela experiência e pela dedução científica:
paganismo, o ideal platônico de amor e outras que o oceano Atlântico era navegável e estava livre
marcas específicas da tradição antiga. As notas de monstros; que o mundo equatorial era habitável e
medievais quinhentistas contêm um impulso que se habitado; que era possível navegar sistematicamente
tornou presente, explicitamente ou não, ao longo de longe da costa e conseguir perfeita orientação pelo
toda a literatura portuguesa, cruzando os séculos. Sol e pelas estrelas; que a África tinha uma ponta
meridional e que existia um caminho marítimo para a
Seus lirismos tradicionais, caracterizados por ser
Índia; que as pseudo-Índias descobertas por
antimetafísico, popular, sentimental e individualista,
Colombo, eram, na realidade, um novo continente
irá dialogar com as novas modas e sobreviverá. A
separando a Europa da Ásia oriental e que as três
própria força da terra portuguesa, chamando os
Américas formavam um bloco territorial contínuo; que
escritores para o seu convívio, explica a
a América do Sul tinha um ponto meridional como a
permanência desse remoto lirismo através dos
África e que existia um outro caminho marítimo para
séculos.A definição do novo ideário estético em
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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
a Índia por ocidente; que os três oceanos medievais, apresenta um diálogo triste e sentimental
comunicavam entre si; que a Terra era redonda e entre duas personagens. Nessa novela, pode-se
circunavegável‖. perceber o sentimentalismo, o bucolismo e o
interesse pela natureza que, tempos depois, seriam
retomados por outras escolas literárias.
II- Características
busca do homem universal – passaram o mundo, IV-Historiografia
o homem e a vida a serem vistos sob o prisma da
razão. O homem renascentista procurou entender a A exemplo de Camões, numa espécie de
harmonia do universo e suas noções de Beleza, psicose coletiva, muitos espíritos de escol se
Bem e Verdade, sempre baseando seus conceitos enfileiraram na apologia da pátria, a historiografia,
no equilíbrio entre a razão e a emoção. Estavam por seu caráter de refletir a comoção coletiva, se
longe de aceitar a ―arte pela arte‖, ao modo entregou ao mesmo trabalho de construir um
parnasiano do século XIX, mas apresentavam um organismo que fosse a expressão daquele estado de
alto objetivo ético: o do aperfeiçoamento do homem coisas.
na contemplação das paixões humanas postas em
arte – a catarse grega. O principal representante da historiografia
renascentista foi João de Barros (v. biografia), que
valores greco-latinos – os renascentistas reservou o melhor de seu talento para conceber uma
adotaram a mitologia pagã, própria dos antigos, História de Portugal monumental, completa e dentro
recorrendo a entidades mitológicas para pedir dos novos moldes da época.
inspiração, simbolizar emoções e exemplificar
comportamentos. Consideravam que os antigos Literatura de viagens
haviam atingido a perfeição formal, desejando os
artistas da Renascença reproduzi-la e perpetuá-la. A impressão deslumbrante deixada pelas
descobertas de novas esferas e paisagens
busca do homem universal – passaram o mundo, suscitaram o desejo de fixá-las para transmiti-las ao
o homem e a vida a serem vistos sob o prisma da mundo.
razão. O homem renascentista procurou entender a
harmonia do universo e suas noções de Beleza, Nasceram, então, os relatos de viagens, roteiros,
Bem e Verdade, sempre baseando seus conceitos diários ou equivalentes. Os principais representantes
no equilíbrio entre a razão e a emoção. desse novo modelo literário são Bernardo Gomes de
Estavam longe de aceitar a ―arte pela arte‖, ao Brito, Jerônimo Corte-Real, Francisco Álvares e
modo parnasiano do século XIX, mas Fernão Cardim.
apresentavam um alto objetivo ético: o do
aperfeiçoamento do homem na contemplação das V- Poesia
paixões humanas postas em arte – a catarse grega.
Ao lado das novas formas e dos versos
valores greco-latinos – os renascentistas decassílabos e dos sonetos, pode-se observar a
adotaram a mitologia pagã, própria dos antigos, permanência dos versos redondilhos e de certas
recorrendo a entidades mitológicas para pedir formas medievais integradas à tradição do lirismo
inspiração, simbolizar emoções e exemplificar medieval, tais como a glosa e o vilancete.
comportamentos. Consideravam que os antigos
haviam atingido a perfeição formal, desejando os A epopéia, nos moldes greco-latinos, foi
artistas da Renascença reproduzi-la e perpetuá-la. consagrada no classicismo Lusitano, através de
Camões, com Os Lusíadas, que consagrou a
novas medidas e formatos – surgiram novas aspiração suprema da alma coletiva de Portugal,
formas de composição, como o soneto, o verso marcada pelo justo sentimento de orgulho despertado
decassílabo e a oitava rima, que foram introduzidas pelos descobrimentos.
em Portugal por Sá de Miranda.

consciência da Nação – no Renascimento VI-Camões


português, além da consciência do homem como ―Chamar-te gênio é justo, mas é pouco.
um ser universal, surgiu uma forte consciência de Chamar-te herói, é não te conhecer.
Nação, devido às grandes navegações, que Poeta dum império que era louco,
transformaram o povo em heróico. Foste louco a cantar e louco a combater‖.
(Miguel Torga)
III-Prosa
Luís Vaz de Camões foi e ainda é grande por
A produção em prosa desse período literário foi sua poesia, dentro e fora dos quadros literários. Na
bastante limitada. Merece destaque a novela realidade, o classicismo português se abre e se fecha
Menina e Moça, cuja autoria é atribuída a com um poeta: Sá de Miranda e Camões que, numa
Bernardim Ribeiro. Bem diferente das novelas visão de conjunto foi o grande poeta. Os demais

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
podem ser considerados como poetas menores, amores, nota-se, às vezes, o uso abusivo de
presos às propostas renascentistas e ofuscados antíteses.
pelo brilho camoniano.
O desconcerto do mundo foi um dos temas
No prólogo dOs Lusíadas, Camões apela que mais preocuparam o poeta português,
para a arte e o talento, assim dizendo: ―Cantando manifestando-se em poemas sobre as injustiças, a
espalharei por toda a parte, / Se a tanto me ajudar recompensa aos maus e o castigo aos bons; sobre a
engenho e arte‖, tendo o conhecimento de que ambição e a inútil tentativa de acumular bens que
ambos devem estar associados de maneira acabam no nada da morte; sobre os sofrimentos
indissolúvel, para o alcance do intento poético. Sua constantes que aniquilam prováveis conquistas;
grandeza está não apenas na perfeição com que enfim, sobre o conflito violento entre o ser e o dever
criou uma obra de cunho pessoal, mas também no ser. Convocando saber, experiência, imaginação,
fato de ter sintetizado numa obra harmoniosa todos memória, razão e sensibilidade, o autor sondava o
os elementos formais e temáticos que andavam sombrio mundo do Eu, da mulher, da pátria, da vida e
dispersos ou parcialmente trabalhados por seus de Deus. O poeta mergulhou em verdadeiro labirinto
antecessores. Podemos citar o exemplo do soneto, de ―escavação‖ do Eu, marcada por estágios de
que desde Sá de Miranda vinha sendo cultivado em angústia crescente.
Portugal e que encontrou em Camões um artífice e
criador máximo. De certa forma, Camões seria
VIII- A Epopéia Camoniana
clássico mesmo que não existisse o classicismo.
Os Lusíadas, que narra a aventura marítima
VII- A Lírica Camoniana de Vasco da Gama, é a grande epopéia do povo
lusitano. Publicada em 1572, é considerada o maior
Considerado o maior poeta lírico português poema épico escrito em língua portuguesa, não por
de todos os tempos, sua poesia lírica é marcada conter oito mil e oitocentos e dezesseis verbos
por uma dualidade: ora revela textos de nítida decassílabos distribuídos em 1102 estrofes de oito
herança tradicional portuguesa, ora sua poesia se versos cada, mas pelo seu valor poético e histórico.
enquadra na medida nova renascentista. Podemos Obedecendo com rigor às regras da Antigüidade
notar, ainda, a fusão dessas características em clássica apresentam em suas estrofes os aspectos
outros textos. formais (métrica, ritmo e rima) com extrema
regularidade, demonstrando o engenho e a arte do
Seus sonetos foram produzidos em medida poeta. Todas as estrofes apresentam o esquema
nova. Suas poesias escritas em medida velha conhecido como oitava-rima, com três rimas
compreendiam redondilhas tanto maiores como cruzadas seguidas de uma emparelhada (AB AB AB
menores, a maior parte delas estruturadas a partir CC).
de um mote, isto é, umas sugestões iniciais, que
era desenvolvida pelo poema nas estrofes A palavra lusíadas significa ―lusitanos‖, e
seguintes, sob o título de volta. Camões foi buscá-la numa epístola de André de
Resende. Os Lusíadas são os próprios lusos, tanto
Em Camões, a herança das cantigas em sua alma como em sua ação. O herói da epopéia
trovadorescas aparece principalmente nas é o próprio povo português e não apenas Vasco da
redondilhas. O mar, as fontes e a natureza surgem Gama, como pode parecer à uma leitura superficial
em diálogos, lembrando as cantigas de amigo, da obra. Ao cantar ―as armas e os barões
apenas não se colocando no lugar da mulher e, assinalados‖ que navegaram ―por mares nunca
sim, falando sobre ela. dantes navegados‖, Camões engloba todo o povo
lusitano navegador, que enfrentou a morte pelos
Percebe-se, em alguns textos da lírica mares desconhecidos. Pode-se afirmar, então, que o
camoniana, a influência da filosofia platônica, sobre poema épico apresenta um herói coletivo.
o mundo sensível e o mundo inteligível,
principalmente em alguns sonetos como nas O poeta deixou expresso o tema da epopéia
redondilhas de Babel e Sião. já nas duas primeiras estrofes: a glória do povo
navegador português, que conquistou as Índias e
Um dos temas mais ricos da lírica de edificou o Império Português no Oriente, bem como a
Camões é o Amor, ora visto como idéia memória dos reis portugueses, que tentaram ampliar
(neoplatonismo), ora como manifestação de o Império. Portanto, Camões cantou as conquistas de
carnalidade. Nesse Amor como idéia ou essência, Portugal, a glória de seus navegadores e os reis do
nota-se uma nítida influência da poesia de Petrarca passado. Cantou, enfim, a História de Portugal.
e Dante, sendo a mulher amada retratada de forma
ideal, como um ser superior e perfeito. Em outros Numa época de profundo antropocentrismo,
momentos, talvez em função de sua vida atribulada, é fortemente marcado o significado de um poema
Camões não canta mais o amor espiritualizado, que fixou um dos raros momentos em que o homem
mas um amor terreno, carnal, erótico. Pela experimentou com êxito a magnitude de sua força
impossibilidade de obter uma síntese desses dois física e moral, num embate de proporções cósmicas.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Daí decorre ser Camões um dos maiores, senão o Conclusão
maior, dos poetas de todos os tempos, pela
representação universal de seu pensamento, fruto Tendência artística e literária que resgata
de um singular poder de transfiguração poética, formas e valores greco-romanos da Antiguidade
típica do visionário e do eleito. Clássica, especialmente a cultura grega entre os
séculos VI a.C. e IV a.C. Esta retomada acontece
várias vezes ao longo da história ocidental, inclusive
IX-Autores na Idade Média. Porém, é mais intensa do século XIV
ao XVI na Itália. Nas Artes Plásticas , na Literatura e
Além de Camões e Sá de Miranda, sem
no Teatro, o classicismo coincide com o
sombra de dúvida os maiores expoentes do
Renascimento. Na música adquire certas
classicismo português, outros poetas renascentistas
características próprias e manifesta-se,
foram incluídos no Cancioneiro Geral, organizado
posteriormente, a partir de meados do século XVIII.
por Garcia de Resende: Antonio Ferreira,
Após o barroco e o rococó, no século XVIII, a
Bernardim Ribeiro.
tendência se repete, com o nome de neoclassicismo.

X- CLACISSISMO (ou) RENASCIMENTO O classicismo é profundamente influenciado pelos


ideais humanistas, que colocam o homem como o
O humanismo já tinha revelado uma nova centro do Universo. Reproduz o mundo real, de forma
posição do homem diante das novas realidades verossímil, mas moldando-o segundo o que é
sócio econômicas ocorridas nos séculos XV e XVI, considerado ideal. É importante que as obras sejam
quando surgiu a nova classe social denominada harmônicas e reflitam determinados princípios, como
burguesia. Essa concepção vai se solidificar no ordem, lógica, equilíbrio, simetria, contenção,
Renascimento, nome que designa o período das objetividade, refinamento e decoro. A razão tem mais
grandes transformações culturais, políticas e importância do que a emoção.As adaptações aos
econômicas, ocorridas nos séculos XVI e XVII. ideais e aos problemas dos novos tempos fazem com
que o classicismo não seja mera imitação da
Essas transformações trouxeram profundas Antiguidade. Na época renascentista, por exemplo, a
mudanças para toda a sociedade da época, o alta burguesia italiana em ascensão, na disputa de
estabelecimento definitivo do capitalismo, criou luxo e poder com a nobreza, identifica-se com os
novas relações de trabalho, firmou o comércio e valores laicos da arte greco-romana.
este passou a ter grande importância, introduziu
novos valores, tais como o dinheiro e a vida nas
cidades, que não existiam no período medieval,
várias invenções e melhoramentos técnicos foram
criados em função da crescente procura de
mercadorias.

Houve uma crise religiosa pois, a Igreja teve que


enfrentar os protestantes liderados por Martinho
Lutero, que contava com o apoio da burguesia.

Essa foi também a época dos grandes


descobrimentos, que levaram o homem a encarar o
Universo e o próprio homem de maneira diferente
daquela pregada pela Igreja.

Foi inventada a imprensa, que possibilitou uma


maior circulação de escritos e portanto de cultura.

Copérnico formulou a teoria do heliocentrismo que


propunha o Sol como centro do Universo e Galileu
comprovou o duplo movimento da Terra. Todos
esses fatores levaram a velha ordem feudal a um
desgaste e conseqüente desmoronamento, sendo
necessária uma nova organização nos planos
político, econômico e social.

As produções artísticas desse período refletem


essas profundas mudanças

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
incluir, além de objetos palpáveis, idéias e ações.

CARACTERÍSTICAS DA ARTE CONTEMPORÂNEA


Devido a essa diversidade, é difícil definir a
A arte contemporânea é a reunião de uma arte contemporânea incluindo toda a arte produzida
notável diversidade de estilos, movimentos e no século XX. Para alguns críticos, a característica
técnicas. mais importante da arte contemporânea é sua
tentativa de criar pinturas e esculturas voltadas para
Essa ampla variedade de estilos inclui a penetrante si mesmas e, assim, distinguir-se das formas de arte
pintura realista Gótico americano (Grant Wood, anteriores, que transmitiam idéias de instituições
1930, Art Institute of Chicago, Illinois), que retrata políticas ou religiosas poderosas.
um casal de agricultores do Centro-oeste
americano e, ainda, os ritmos abstratos da tinta Já que os artistas contemporâneos não eram
salpicada da pintura Preto e branco (Jackson mais financiados por essas instituições, tinham mais
Pollock, 1948, acervo particular). No entanto, liberdade para atribuir significados pessoais às suas
mesmo que fosse possível dividir a arte obras. Essa atitude é, em geral, denominada como
contemporânea por obras figurativas, como o arte pela arte, um ponto de vista quase sempre
Gótico americano, e por obras abstratas, como interpretado como arte sem ideologia política ou
Preto e branco, encontraríamos uma surpreendente religiosa.
variedade de estilos dentro dessas duas categorias.
Da mesma forma que o Gótico americano, Ainda que as instituições governamentais e
pintado com precisão, é figurativo, a Marilyn religiosas não patrocinassem a maioria das artes,
Monroe (Willem de Kooning, 1954, acervo muitos artistas contemporâneos procuraram
particular) pode ser considerada figurativa, apesar transmitir mensagens políticas ou espirituais. O pintor
de suas pinceladas largas mal sugerirem os russo Wassily Kandinsky, por exemplo, achou que a
rudimentos de um corpo humano e características cor combinada com a abstração poderia expressar
faciais. uma realidade espiritual fora do comum, enquanto
que o pintor alemão Otto Dix criou obras de cunho
O abstracionismo, além disso, apresenta abertamente político que criticavam as diretrizes do
uma série de abordagens distintas: desde os ritmos governo alemão.
dinâmicos de Pollok em Preto e branco à geometria
de ângulos retos da Composição em vermelho, Outra teoria defende que a arte
amarelo e azul (Piet Mondrian, 1937-1942, Tate contemporânea é rebelde por natureza e que essa
Gallery, Londres), cujas linhas e retângulos rebeldia fica mais evidente na busca da originalidade
sugerem a precisão mecânica da máquina. e de vontade de surpreender. O termo ―vanguarda‖,
aplicado à arte contemporânea com freqüência, vem
Outros artistas preferiram uma estética da da expressão militar avant-gard — que em francês
desordem, como no caso do artista alemão Kurt significa vanguarda — e sugere o que é moderno,
Schwitters, que misturou jornais, selos e outros novo, original ou avançado.
objetos para criar a Imagem com um centro
luminoso (1919, Museu de Arte Moderna, Nova Muitos artistas do século XX tentaram
York). redefinir o significado de arte ou ampliar a definição
de modo a incluir conceitos, materiais ou técnicas
Assim, o século XX apresenta mais do que jamais antes a ela associadas. Em 1917, por
variedade de estilos. Foi no período moderno que exemplo, o artista francês Marcel Duchamp expôs
os artistas produziram pinturas não somente com uma produção em massa de objetos utilitários,
materiais inclusive uma roda de bicicleta e um urinol, como se
tradicionais, como fossem obras de arte.
o óleo sobre tela,
mas também com Nas décadas de 1950 e de 1960, o artista
qualquer material americano Allan Kaprow usou seu próprio corpo
que estivesse como veículo artístico em espetáculos espontâneos
disponível. Essa que, segundo ele, eram representações artísticas.
inovação levou a Nos anos 1970, o artista americano que seguia o
criações ainda estilo do earthwork, Robert Smithson, usou
mais radicais, elementos do meio ambiente — terra, rochas e água
como a arte — como material para suas esculturas. Como
conceitual e a arte conseqüência, muitas pessoas associam a arte
performática. Com contemporânea com aquilo que é radical e
isso, ampliou-se a perturbador.
definição de arte, Ainda que a teoria da rebeldia pudesse ser aplicada
que passou a para explicar a busca por originalidade que motivava

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
um grande número de artistas do século XX, seria PRIMEIRAS DÉCADAS DA ARTE
difícil aplicá-la a um artista como Grant Wood, cuja CONTEMPORÂNEA
obra Gótico americano rejeitou claramente o
exemplo da arte de vanguarda de sua época. Os historiadores da arte têm relacionado a
fragmentação da forma na arte do fim do século XIX
Outra característica fundamental da arte e início do XX à fragmentação da sociedade da
contemporânea é o seu fascínio pela tecnologia época. As crescentes realizações tecnológicas da
moderna e a utilização de métodos mecânicos de Revolução Industrial ampliaram a distância entre as
reprodução, como a fotografia e a impressão classes média e trabalhadora.
tipográfica. No início da década de 1910, o artista
italiano Umberto Boccioni procurou glorificar a As mulheres lutavam por direitos de
precisão e a velocidade da era industrial em suas igualdade e de voto. A visão da mente, apresentada
pinturas e esculturas. Por volta da mesma época, o pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud, estipulava
pintor espanhol Pablo Picasso incorporou às suas que a psique humana, longe de estar unificada, era
pinturas uma nova técnica, a colagem, que usava repleta de conflitos e contradições emocionais. A
recortes de jornais e outros materiais impressos. descoberta da radiografia, a teoria da relatividade de
Albert Einstein e outras inovações tecnológicas
Seguindo a mesma linha, porém, outros sugeriam que a experiência visual já não
artistas contemporâneos buscaram inspiração nos correspondia mais à visão de mundo da ciência.
impulsos espontâneos da arte infantil ou na
exploração das tradições estéticas tradicionais de Várias formas de criatividade artística
culturas que não fossem industrializadas ou refletiram essas tensões e desenvolvimentos.
ocidentais. O artista francês Henri Matisse e o suíço
Paul Klee foram influenciados por desenhos de Na literatura, James Joyce, T. S. Eliot e
crianças; Picasso observou de perto máscaras Virginia Woolf experimentaram novas estruturas
africanas e Pollock desenvolveu sua técnica de narrativas, gramática, sintaxe e ortografia. Na dança,
salpicar tinta sobre a tela, inspirando-se nas Sergei Diaghilev, Isadora Duncan e Loie Fuller
pinturas com areia dos índios norte-americanos. revolucionaram em figurinos e coreografias pouco
convencionais.
Sob outra perspectiva, porém, afirma-se
que a motivação básica da arte contemporânea é Na música, Arnold Schönberg e Igor
criar um diálogo com a cultura popular. Com essa Stravinski compuseram obras que não dependiam da
finalidade, Picasso colou pedaços de jornal em estrutura melódica tradicional. A música, além de ter
suas pinturas, Roy Lichtenstein transportou tanto o sido uma das artes em que mais foram feitas
estilo quanto o tema das histórias em quadrinhos experiências, transformou-se na grande fonte de
para suas pinturas e Andy Warhol fez a inspiração para as artes visuais.
representação das sopas enlatadas Campbell. No
entanto, ainda que derrubar as barreiras entre a No final do século XIX e no começo do XX,
arte de elite e a cultura popular seja algo típico de muitos críticos de arte foram influenciados pelos
Picasso, de Lichtenstein e de Warhol, não é típico filósofos alemães Arthur Schopenhauer e Friedrich
de Mondrian, Pollock ou da maioria dos Nietzsche, que haviam proclamado que a música era
abstracionistas. a mais poderosa de todas as artes, já que causava
emoções por si, e não através da imitação do mundo.
Cada uma dessas teorias é convincente e Muitos pintores do movimento simbolista do final do
poderia explicar as muitas estratégias usadas pelos século XIX, como Odilon Redon e Gustave Moreau,
artistas contemporâneos. No entanto, até mesmo tentaram superar o poder de sugestão direto da
essa breve análise mostra que a arte do século XX música, pintando formas abstratas, realidades mais
é diversa demais para se encaixar em qualquer imaginárias do que o observável. Redon e os
uma de suas muitas definições. Cada teoria pode simbolistas criaram as bases para a arte abstrata.
contribuir para resolver uma parte do quebra-
cabeça, mas nenhuma delas em separado
NOVA OBJETIVIDADE
representa a solução.
Após a destruição sem precedentes causada
ORIGENS pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918), alguns
artistas perderam sua fé na arte abstrata. Muitos
A arte impressionista (impressionismo) do deles passaram a acreditar que ela parecia fútil e
final do século XIX antecipou muitas das superficial em um momento em que milhões de
características da arte contemporânea. Elas pessoas morriam, cidades inteiras sofriam com a
incluem a idéia da arte pela arte, a ênfase na escassez de alimentos, a corrupção política florescia
originalidade, a exaltação da tecnologia moderna, o e os soldados mutilados na guerra retornavam.
fascínio pelo primitivo e o compromisso com a arte Na Alemanha, os artistas pertencentes a um
popular.
movimento conhecido como Neue Sachlichkeit (Nova
objetividade) acreditavam que, para abordar esses

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
problemas, a arte não deveria se dissociar da nasceram na Alemanha, mas trabalharam na França.
experiência da vida quotidiana, perseguir ideais
filosóficos abstratos ou investigar a psicologia Assim como os abstracionistas, esses
individual de seu criador. artistas enfatizavam o gesto do pintor, a pincelada,
além das qualidades físicas da tinta, especialmente
Esses artistas, entre eles George Grosz e
sua textura. Assim, procuravam dar a impressão de
Otto Dix, defendiam uma volta a modos de pura espontaneidade, sem preparação artística ou
representação mais tradicionais, além de um cálculos. Dentro do art informel havia um grupo
comprometimento direto com as questões sociais e
chamado tâchistes (da palavra francesa tâche, que
políticas urgentes da época. O Vendedor de
significa ―mancha‖ ou ―borrão‖). O poeta e pintor
fósforos (1920, Staatsgalerie, Stuttgart), de Dix, por
belga Henri Michaux e o pintor francês Georges
exemplo, rejeita o cubismo, o expressionismo e a
Matthieu estavam entre os tâchistes mais
abstração em favor de um tipo de representação de importantes.
compreensão mais imediata.
As telas grandes de Matthieu misturavam
Ao abordar o tratamento insensível cores intensas com um estilo abstrato que tomava
concedido a soldados que tinham arriscado suas como base as linhas, a pincelada e o interesse pela
vidas por sua pátria, essa pintura mostra um
caligrafia asiática. Matthieu concebeu suas obras
soldado mutilado vendendo fósforos em uma rua
rapidamente, às vezes até mesmo em público,
enquanto é claramente ignorado pelos passantes.
valorizando a liberdade do artista para pintar sem
Dix sabia que o tratamento oferecido aos veteranos
idéias preconcebidas e sem atingir um resultado
de guerra dependia de sua classe social. Assim, previsível.
sua pintura não apenas denunciava a guerra de um
modo geral, mas também as tensões sociais Alguns críticos associavam essa qualidade
específicas que dividiam a Alemanha na época. com o existencialismo. A preocupação com a textura
física é evidente no art informel e no tâchisme e
A ARTE CONTEMPORÂNEA APÓS A SEGUNDA também aparece nas obras do pintor francês Jean
GUERRA MUNDIAL Dubuffet. Mas, ao contrário de seus colegas que
também produziam arte abstrata, Dubuffet enfocava
Ainda que a Europa tenha sido o centro a figura humana e se inspirava na arte das crianças,
reconhecido da arte contemporânea na primeira dos loucos e de outros que ele acreditava
metade do século XX, hoje a maioria dos críticos desprovidos de influencias culturais corruptoras.
concorda que após a Segunda Guerra Mundial Denominou seu estilo de art brut (em francês, arte
(1939-1945), houve um deslocamento para os bruta) e, desde então, esse termo é utilizado para se
Estados Unidos. Nos anos 20 e 30, muitos artistas fazer referência à arte de Dubuffet.
americanos, inclusive Charles Demuth, Arthur
Dove, Marsden Hartley e John Marin, tentaram Assim como muitos artistas contemporâneos
adotar elementos do cubismo ou do futurismo em anteriores, ele procurava inspiração em fontes
suas obras. Mas esses movimentos eram alheias à tradição ocidental. Rejeitava a idéia de que
originalmente europeus e foram considerados a arte devesse ser esteticamente agradável ou,
essencialmente estranhos aos Estados Unidos. apenas, ilustrar a realidade visual. Seu estilo de
desenho, deliberadamente seco, enfatizava um
Na década de 1930, alguns artistas norte- processo de criação lento e difícil. Desse modo,
americanos revoltaram-se contra as influências rejeitava a facilidade e a impulsividade dos pintores
européias na arte americana. O Gótico americano, abstratos em favor de uma arte mais primitiva, crua e
de Grant Wood, é uma obra típica de um bruta.
movimento conhecido como regionalismo, cujo
objetivo era valorizar o tipicamente americano,
usando um estilo que evitasse qualquer referência NOVAS FORMAS DE ARTE
ao modernismo europeu. Para outros artistas norte- Nas décadas de 1960 e de 1970, vários
americanos, os arroubos regionalistas somente movimentos surgiram para tentar libertar a arte da
poderiam prejudicar a arte. influência do mercado artístico, sistema no qual as
obras de arte se transformavam em mercadorias para
DESENVOLVIMENTOS DO PÓS-GUERRA NA serem compradas e vendidas como investimento
EUROPA financeiro.

À medida em que o abstracionismo evoluía Um grupo de artistas, às vezes chamado de


na América, outros movimentos semelhantes pós-minimalista, queria criar formas que tivessem um
surgiam na Europa. O Art informel, termo usado período de vida curto demais para serem vendidas. O
para distinguir a abstração gestual da abstração escultor Richard Serra, por exemplo, jogou chumbo
geométrica na Europa, está relacionado em derretido em um canto da Galeria Leo Castelli, em
primeiro lugar ao artista francês Pierre Soulages, Nova York, para uma série de obras chamada
além de Hans Hartung Wols, dois artistas que Splashing (1968). Seu objetivo não era apenas

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
produzir uma arte efêmera, que não fosse vendável,
mas também expressar as propriedades inerentes
do metal líquido, que passaram a ser visíveis
apenas quando esse material entrou em atividade.

Os artistas Robert Smithson, Michael


Heizer, Walter De Maria e Nancy Holt também se
engajaram no movimento de incorporar as forças da
natureza à uma obra de arte. Esses artistas
decidiram levar suas obras para o ar livre e criar o
que ficou conhecido como earthworks (ver Arte e
arquitetura dos Estados Unidos). Ao invés de
pincéis ou lápis, usavam máquinas de
terraplanagem e outros equipamentos para
transformar a terra em formas esculturais
gigantescas.

A obra Spiral Jetty (1970), de Smithson, por


exemplo, era uma gigantesca espiral de terra, pedra
e cristais salinos que se estendia nas margens do
Grande Lago Salgado, em Utah. Essa obra não era
apenas grande demais para ser comprada ou
vendida, como também vulnerável às forças da
natureza, como a chuva, o vento e a erosão.

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