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AULA 8 – LÍNGUA PORTUGUESA

PARNASIANISMO E SIMBOLISMO
São dois estilos do século XIX copiados da França. O Parnasianismo veio em
contraposição ao Romantismo. Ele foi um braço do Realismo na oposição ao Romantismo, ele
manifestava-se sobretudo na poesia.
No Romantismo, o objetivo era ser entendido, os autores enviavam uma mensagem de
amor à pátria, à família etc. O Parnasianismo acredita que o Romantismo estragou os poemas.
Os Parnasianos defendem que a poesia deve ser feita por poucos. Há um afastamento do povo
em geral (processo de elitização dos poemas).
No poema parnasiano não há uma mensagem, o objetivo principal é o prazer estético –
ideia de arte pela arte. O poema racional, equilibrado e objetivo é traduzido em uma forma – o
soneto (dois quartetos e dois tercetos de versos, na maioria das vezes, decassílabos). Era uma
poesia descritiva.

A arte pela arte se volta para o ideal clássico de beleza e harmonia de formas. É a arte
voltada para o belo. Daí o verso parnasiano ser perfeito quanto à sua estrutura métrica
e sonora, predominando a técnica do bom versejar no lugar da inspiração.(...)O
resultado dessa postura estética foi uma poesia excessivamente descritiva, que tinha
como temas incidentes históricos, ou então, um fenômeno natural, quando não objetos
(um vaso, por exemplo).(...)O distanciamento dos problemas morais, políticos, religiosos
ou sociais de seu tempo tornou a poesia parnasiana às vezes fria, alienada. O conceito
de que a arte existia apenas para criar ou ressaltar a beleza, desligando-se do que não
dizia respeito a ela, deixou a maior parte da poesia parnasiana vazia de significado.
(Adaptado de CAMPEDELLI, Samira Yousseff. Literatura. v.2. São Paulo: Saraiva, 1999.)

A forma escolhida é o soneto porque existe esse movimento e volta ao clássico que nos
leva ao Renascimento.
Esquema rítmico é a organização das rimas. Os estilos das rimas podem ser de três tipos:
alternadas (ABAB), interpoladas (ABBA) ou emparelhadas (AABB). As rimas podem ser pobres
(mesma classe gramatical), ricas (associação rimas de classe gramatical diferente) e raras ou
preciosas (associação de três classes diferentes por exemplo: vê-la com estrela – verbo,
pronome e substantivo; ou rima de palavras difíceis, e.g.ônix).
O poema abaixo apresenta rimas ricas e alternadas.

Vaso grego (Alberto de Oliveira)


Esta, de áureos relevos, trabalhada (Rima A)
De divas mãos, brilhante copa, um dia, (Rima B)
Já de aos deuses servir como cansada, (Rima A)
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia. (Rima B)

Era o poeta de Teos que a suspendia (Rima B)


Então e, ora repleta, ora esvazada, (Rima A)
A taça amiga aos dedos seus tinia (Rima B)
Toda de roxas pétalas colmada. (Rima A)

Depois... Mas o lavor da taça admira, (Rima C)


Toca-a, e, do ouvido aproximando-a, às bordas (Rima D)
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce, (Rima E)

Ignota voz, qual se da antiga lira (Rima C)


Fosse a encantada música das cordas, (Rima D)
Qual se essa a voz de Anacreonte fosse. (Rima E)
A escanção de versos é sua divisão silábica. Elas só são contadas até a última silaba
tônica; e as vogais são unidas formando encontros vocálicos. Exemplo:
To/da/ de/ ro/xas/ pé/ta/las/ col/ma/da
Es/ta,/ de áu/reos/ re/le/vos, /tra/ba/lha/da
De/ di/vas/ mãos,/ bri/lhan/te /co/pa, um/ dia
Vin/da /do O/lim/po, a um/ no/vo /deus/ ser/via.
Todos os versos do poema eram decassílabos.
A técnica do cavalgamento é quando a frase não termina no verso, mas continua no
verso seguinte.
Em Profissão de Fé, o poeta demonstra acreditar na forma, servir a forma. Ele valoriza o
trabalho técnico. A forma é colocada uma deusa.

Profissão de fé (Olavo Bilac)


Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor. Imito-o.

E, pois, nem de Carrara


A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.

Por isso, corre, por servir-me,


Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.

Corre; desenha, enfeita a imagem,


A ideia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.

Torce, aprimora, alteia, lima


A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.

Quero que a estrofe cristalina,


Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:

E que o lavor do verso, acaso,


Por tão subtil,
Possa o lavor lembrar de um vaso
De Becerril.

E horas sem conta passo, mudo,


O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.

Porque o escrever - tanta perícia,


Tanta requer,
Que oficio tal... nem há notícia
De outro qualquer.

Assim procedo. Minha pena


Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!

O Via Láctea é um conjunto de poemas falando sobre amor. Bilac conseguiu aliar a
técnica aos temas já conhecidos, como amor.

Via Láctea XIII (Olavo Bilac)


"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto


A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!


Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!


Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Bilac era um jornalista de oposição e era uma pessoa muito engajada. Após a morte de
Floriano, ele resolveu fazer obras mais nacionalista de valorização da pátria (ele fez o Hino da
Bandeira). Bilac acreditava que o serviço militar obrigatório garantiria a alfabetização do povo.
O poema abaixo se encontra em um momento em que se começa a pensar sobre a
formação do povo brasileiro. O poeta coloca a música como a representação das três raças.

Música brasileira (Olavo Bilac)


Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza


Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, xiba e fado, cujos


Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,


Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.
Olavo Bilac

A temática do Simbolismo é diferente da parnasiana, mas há uma proximidade em


relação a técnica. O Simbolismo também é uma contraposição à liberdade de forma do
romantismo. A temática do simbolismo é a tristeza. O poeta simbolista é triste, amargurado. Na
segunda geração do romantismo, a tristeza era particular. O poeta simbolista se sente traído
pela sociedade: disseram-lhe que o mundo melhoraria com a tecnologia, mas não melhorou.
Cruz e Sousa era filho de escravo e foi criado dentro da casa dos patrões. Ele foi
matriculado numa escola de elite. Após a morte o patrão, os filhos o mandaram embora. E ele
sofreu horrores. Não existe, no Simbolismo, o desejo de morte. O poeta busca um mundo de
sonhos.

O Simbolismo é, antes de tudo, antipositivista, antinaturalista e anticientificista. Isto


significa que, contrariando o caráter objetivista e realista dessas tendências, a poesia
simbolista prega e busca efetuar o retorno à atitude do espírito assumida pelos
românticos, e que se traduzia no seu egocentrismo: volta o “eu” a ser objeto de exclusiva
atenção, opondo-se ao culto do “não-eu", que fizera o apanágio das tendências
anteriores. Mas, o individualismo simbolista não vai repetir pura e simplesmente a
idêntica propensão romântica: como se viu, o Romantismo estimulava a introversão que
apenas desvendava as primeiras camadas da vida interior do artista, aquelas onde se
localizam os conflitos e as vivências de exclusiva ordem sentimental. Agora, os
simbolistas se voltam para dentro de si à procura de zonas mais profundas, iniciando
uma viagem interior de imprevisíveis resultados.
(MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. São Paulo, Cultrix, 1970.)

Antífona é a profissão de fé de Cruz e Sousa. Ele usa as sensações para descrever.


As primeiras estrofes são dedicadas a convocar as forças e sensações. Ele não quer as
explicações científicas, ele quer o mistério.

Antífona
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
de luares, de neves, de neblinas!
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
Incensos dos turíbulos das aras

Formas do Amor, constelarmente puras,


de Virgens e de Santas vaporosas…
Brilhos errantes, mádidas frescuras
e dolências de lírios e de rosas…

Indefiníveis músicas supremas,


harmonias da Cor e do Perfume…
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Visões, salmos e cânticos serenos,


surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…
Dormências de volúpicos venenos
sutis e suaves, mórbidos, radiantes…

Infinitos espíritos dispersos,


inefáveis, edênicos, aéreos,
fecundai o Mistério destes versos
com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades


que fuljam, que na Estrofe se levantem
e as emoções, todas as castidades da
alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros


fecunde e inflame a rima clara e ardente…
Que brilhe a correção dos alabastros
sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça


de carnes de mulher, delicadezas…
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas

A sinestesia é uma das características mais fortes do Simbolismo, é uma figura de


linguagem que concretiza que junta várias sensações.
Longe de tudo é um soneto (estrutura parnasiana) que exala tristeza. Na terra, não há
paz. Todavia, as almas estão livres de raças e classes sociais. O poema reflete a rejeição a esse
mundo.

Longe de tudo (Cruz e Sousa)


É livres, livres desta vã matéria,
longe, nos claros astros peregrinos
que havemos de encontrar os dons divinos
e a grande paz, a grande paz sidérea.

Cá nesta humana e trágica miséria,


nestes surdos abismos assassinos
teremos de colher de atros destinos
a flor apodrecida e deletéria.

O baixo mundo que troveja e brama


só nos mostra a caveira e só a lama,
ah! só a lama e movimentos lassos...

Mas as almas irmãs, almas perfeitas,


hão de trocar, nas Regiões eleitas,
largos, profundos, imortais abraços.

No poema O Assinalado, o poeta invoca para si próprio a missão de trazer poesia e


sensibilidade ao mundo. A loucura é outra característica do simbolismo. Todo o sofrimento é
expresso na poesia.
O Assinalado
Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,


Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado


Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco...

Na Natureza prodigiosa e rica


Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

Não há poema alegre no Simbolismo, a dor e a tristeza imperam. No final do poema


Ismália há um suicídio.

Ismália (Alphonsus de Guimaraens)


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,


Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava longe do céu...
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu


As asas para voar. . .
Queria a lua do céu
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu


Ruflaram de par em par...
Sua alma, subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...