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E D I T O R I A L

O
campo da Fonoaudiologia, irmã mais nova de ou-
tras ciências, abrange a pesquisa, a prevenção, a
avaliação e a terapia dos distúrbios de comunica-
ção oral e escrita, voz e audição, e o aperfeiçoamento dos
padrões da fala e da voz. Além do seu corpo teórico pró-
prio, ela busca nessas outras ciências conhecimentos que
estudos, Goiânia, v. 33, n. 5/6, p. 329-332, maio/jun. 2006.

dêem suporte às atuações em seu campo específico.


Assim, é um prazer muito grande contarmos, nessa
edição, com a colaboração de profissionais de áreas afins –
otorrinolaringologistas, psicólogos e lingüistas, tanto bra-
sileiros como de outros países, mais especificamente de
Portugal e da Espanha.
Hoje, a atuação do fonoaudiólogo não está volta-
da diretamente para o trabalho com voz, fala, linguagem e
audição em si mesmas, mas tem como enfoque principal o
ser humano considerado no seu todo, que necessita de aten-
dimento em qualquer dessas áreas. Dessa forma, não
trabalhamos a gagueira, a surdez e demais distúrbios do
aparelho fonador, auditivo e motor que interferam na co-
municação, mas atendemos o gago, o surdo, assim por
diante, com suas especificidades.
Por ser uma profissão mais nova entre as demais, pois
teve o seu reconhecimento em dezembro de 1981, é ainda
pouco compreendida na sociedade e até mesmo pelos alu- 329
nos que iniciam o Curso de Fonoaudiologia. Assim, é bastante
oportuno o artigo da fonoaudióloga Danya Ribeiro Moreira sobre
a Produção de Sentido sobre Fonoaudiologia entre Acadêmicos
da Área de Saúde.
Na área da audição, temos artigos que abrangem vários as-
pectos. O psicólogo Dwain Philip Santee e a fonoaudióloga Ocânia
da Costa Vale, numa visão com base na ontogenia e na filogenia,
dentro da psicologia evolutiva, ventilam aspectos da saúde audi-
tiva neonatal que possibilitam a prevenção e a identificação precoce
de suas alterações.
Grande é a contribuição dos otorrinos de Portugal, Dr. Miguel
B. Coutinho e Dra. Carla Matos, ao realizarem a correlação entre
alterações audiológicas e pessoas com Síndrome de Down. Afir-
mam que a alta incidência de surdez encontrada em tais pessoas
indica a necessidade de uma avaliação audiológica precoce em
todas as crianças com Síndrome de Down e um acompanhamento
rigoroso delas para minimizar os efeitos dessas alterações e
maximizar o desenvolvimento da linguagem receptiva e da apren-
dizagem cognitiva dessas crianças.
A relação entre linguagem e cognição é clara para muitos
teóricos, entre eles os socioconstrutivistas, como Vygotsky e ou-

estudos, Goiânia, v. 33, n. 5/6, p. 329-332, maio/jun. 2006.


tros, que acreditam na linguagem não só como fator de interação
social, mas fundamentalmente como fator constitutivo e transfor-
mador das pessoas que a utilizam nas relações inter e intra pessoais.
Para esses teóricos, o conhecimento só é produzido e a ativação
dos processos psíquicos superiores ocorre nas interações dialógicas
em que os vários conteúdos culturais são negociados entre os seus
interlocutores. Como nos diz Vygotsky (1989), a internalização
do conhecimento socialmente construído e sua reelaboração indi-
vidual são mediadas pela linguagem. A produção da significação
sempre se dá no contexto da interlocução, na interação de vozes
que explicitam os valores culturais e ideológicos de seus
interlocutores.
Sabemos que a privação auditiva que os surdos sofrem traz como
conseqüência sociocultural uma forma diferente de se expressarem,
isto é, comunicam-se prioritariamente por uma língua viso-motora
(gestual), que no Brasil é a Língua Brasileira de Sinais (Libras), ao
passo que os ouvintes se comunicam por línguas auditivo-motoras
330 (prioritariamente orais), que no Brasil é o Português.
Pela necessidade de um código lingüístico comum entre sur-
dos e ouvintes, evoluiu-se para uma posição, quase majoritária
atualmente, de que tanto o trabalho da áudio/educacional (emi-
nentemente lingüístico) como o da educação do surdo (eminen-
temente pedagógico) devem ser realizados numa perspectiva
bilíngüe. Isto é, todas as pessoas participantes de interações que
envolvam surdos e ouvintes devem dominar os dois códigos: a
Libras e o Português.
Por isso, julguei oportuno redigir um artigo com duas idéias
centrais: mostrar que a Libras possui estatuto de língua como
qualquer outra, com a apresentação de seus aspectos lingüísticos,
e a importância do seu uso na terapia fonoaudiológica bilíngüe com
o surdo.
Se, por um lado, há certa unanimidade em se ter uma perspec-
tiva bilíngüe em relação à pessoa surda, creio que atualmente o
grande problema é como operacionalizar esse bilingüismo. Vários
são os modelos propostos, e o artigo da professora Maria Del Pilar
Fernandez Viader, doutora em Psicologia Evolutiva e Educação,
quando nos apresenta três experiências bilíngües com surdos na
província de Catalunha, na Espanha, nos mostra que as preocupa-
ções que assolam os países, quanto a esse tema, são comuns.
estudos, Goiânia, v. 33, n. 5/6, p. 329-332, maio/jun. 2006.

Vemos que, entre as propostas de implantação de modelos


bilíngües de vários países, o Brasil se apresenta na linha de frente,
dando grandes contribuições.
Entre as contribuições mais atuais está o trabalho da Lingüis-
ta Mariângela Estelita Correa Barros, com a elaboração de um
sistema de escrita da língua de Sinais, o AlfaSig, que se destaca
das demais representações criadas, pela facilidade de seu uso e
fluência, como sistema de escrita de uso cotidiano. Podemos di-
zer que os demais sistemas elaborados se caracterizam mais como
sistemas de notação lingüística, com detalhamento analítico dos
sinais que tornam o seu uso complexo.
Na área da linguagem, a fonoaudióloga Lorena Resende Car-
valho apresenta um estudo sobre o desenvolvimento das pessoas,
relacionado ao aspecto biológico e ao aspecto social. A autora nos
lembra que a linguagem se estabelece a partir das interações ini-
ciais, ativando as funções psíquicas superiores como sistema de
signos que, por sua vez, se torna complexto e se estrutura através
das novas interações socioculturais que a criança realiza. Ainda 331
aponta que esses processos são comuns a todos os seres humanos,
independente de apresentarem ou não deficiência em determina-
da área. Suas considerações nos ajudam a compreender e a planejar
melhor o trabalho de linguagem com pessoas com necessidades
especiais.
De Portugal, na área da neuropsicologia, temos a colabora-
ção da Dra. Inês Gomes sobre a memória, atividade psíquica
superior, estabelecendo sua relação com processos de alteração
de linguagem e nos oferecendo dois novos procedimentos que
permitem determinar a amplitude de memória dos indivíduos, sem
recorrer à clássica repetição de dígitos.
Atualmente, cresce o número de estudos que buscam as rela-
ções existentes entre distúrbios de comunicação e determinadas
patologias. Podemos apresentar, entre eles, os dois estudos seguin-
tes: Distúrbios de Linguagem e Epilepsia e a relação entre Fissura
Palatina e Desenvolvimento Fonológico.
Tendo em mente que o processo comunicativo é um fator
fundamental para a maior compreensão entre os homens e o esta-
belecimento de um mundo mais humano e harmonioso, e
consciente de que o fonoaudiólogo desempenha um papel muito
importante nesta trama da vida, à medida que ajuda pessoas que

estudos, Goiânia, v. 33, n. 5/6, p. 329-332, maio/jun. 2006.


se encontram marginalizadas por se expressarem de forma incor-
reta – diferente do padrão normal adotado – ou pessoas que não
desenvolvem o seu potencial cognitivo por falta de um sistema
lingüístico adequado que lhes permita interagir com os demais seres
humanos, me sinto bastante orgulhosa e gratificada por ter coor-
denado esta publicação.
Foi sumamente importante a oportunidade de entrar em contato
com tão diferentes autores e poder usufruir de suas colaborações
e apresentá-las.
O meu muito obrigada a todos.

Annete Scotti Rabelo


Organizadora deste número

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